Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 06, 2018 9:33 am

Geral e desconcertante tumulto se estabeleceu no auditório, e, decorridos apenas alguns instantes, os dois desfalecidos foram transportados para leitos e rodeados pelos que mais se interessavam por Genaro, o campónio, e por Dioneia, a piedosa castelã.
Bruscamente, uma convulsão abalou o organismo de Genaro, que, contorcendo os lábios, tornados lívidos, quase imperceptivelmente, murmurou:
— Todos a postos!...
O Solar da Galileia será assaltar o esta noite, para que seja morto o ex-proprietário do castelo vizinho, e, principalmente, o legítimo herdeiro do mesmo.
Sou o pai de Cláudio, o meu pobre filho.
Sou Tasso Solano!
— Por que não nos revelastes, há mais tempo, os intuitos sinistros desse perverso, para que interessássemos as autoridades na defesa e socorro de todos nós? — interpelou Cláudio, trémulo de emoção.
— Aqui onde me encontro... há muitas Entidades às quais temos de obedecer...
Só podem agir livremente os que souberam cumprir estoicamente todos os deveres... e não transgrediram a Lei.
Há muito, desejava falar, avisando-vos do que vai suceder, no resgate de muitas dívidas tenebrosas...
— Que devemos fazer, agora, em tão angustiosa emergência?
— Congregai todos os serventuários e camponeses, neste andar térreo, com as armas existentes em profusão no subterrâneo deste Solar.
As famílias irão para o pavimento superior.
Muita vigilância, principalmente com o ex-proprietário do Solar do Cisne, seu neto e Ismael, em torno dos quais há grandes interesses de ocultos inimigos.
Estão à procura de todos os interessados nos teus haveres e nos que pertenceram a Márcio Taciano.
Coragem e muita serenidade.
Os que aqui se encontram não são todos fiéis a este solar...
Embora em número reduzido, há coniventes na premeditada traição, e jamais deverão ser readmitidos nos serviços desta casa.
Urge que vos apresteis para a verdadeira batalha... que se vai travar neste recinto abençoado por Deus!
Repentinamente, foi ouvida confusa vozeria que se aproximava do castelo.
Fechadas com rapidez todas as portas e janelas do sólido alcáçar, foram trazidas as armas existentes no subterrâneo, e logo empunhadas pelos rudes camponeses,
assaltados por um terror que os fazia silenciosos e pálidos.
Genaro e Dioneia ergueram-se nos leitos onde se encontravam, e foram postos ao corrente da situação.
Fora, já se ouvia o tropel de cavaleiros, certamente aguerridos.
Márcio Taciano, após alguns momentos de reflexão, dirigiu a palavra a Cláudio:
— Meu amigo, estou no derradeiro quartel da vida, no tempo de partir para onde estão os meus bem-amados! Ide, pois, para o andar superior do castelo, com Dioneia e as crianças.
Eu ainda me lembro do tempo em que fui destemido cruzado: quero recordar essa fase, dirigindo a defesa do lar amigo.
Sei como devemos agir, e ninguém fará melhor do que eu, indiferente à Morte, a defesa do Solar da Galileia, implorando a Jesus inspirações e auxílio para tal conseguir.
— Obrigado, meu amigo — respondeu-lhe Cláudio, com os olhos marejados de lágrimas — quero, porém, ficar convosco:
também eu não temo a Morte.
— É uma temeridade a vossa atitude, domina! — respondeu-lhe Márcio, com emoção.
Deveis abrigar-vos melhor dos que busquem tirar-nos a vida.
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Ave sem Ninho

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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 06, 2018 9:33 am

— Quero ficar ao vosso lado e dos defensores do Solar — repito.
— Eu ficarei com ambos, e com os amigos que aqui se acham — declarou Dioneia.
— E, no caso de perdermos a vida, quem ficará com a direcção do Solar? — interpelou Márcio Taciano.
— Onde se encontra Felipe Valdomiro — o administrador do castelo? — interrogou a um camponês a amargurada Dioneia.
— Senhora... titubeou o campónio, que logo emudeceu, visivelmente receoso de prosseguir.
— Termina o teu pensamento, Savio! — insistiu a castelã, com incontida aflição.
Todos se aglomeraram ao redor de Savio, prevendo revelações de suma gravidade e de efeito sensacional.
— Senhora Condessa — falou o campónio, temendo o que ia revelar — há muito o rancoroso Valdomiro deixou de ser amigo do Sr. Conde, porque, este, ao realizar a última viagem, comunicou a todos que, no caso de sua morte, o Solar seria repartido, com todos os cabedais existentes nos cofres, aos mais fiéis servidores, cabendo-lhe a maior parte no legado...
Ora, o Sr. Conde de Morato voltou... cego e consorciado convosco, que tendes sido o farol bendito deste castelo...
Ele, então, deixou transparecer sua cólera e sua decepção por diversas vezes, e, clandestinamente, se aliou ao senhor do Solar do Cisne, para vos prejudicar no que fosse possível.
Ele é aparentado com o mordomo daquele Solar e, muitas vezes, a horas mortas, se encontravam nas ruínas existentes entre os dois castelos.
Projectou atentar contra a vida da senhora Condessa, por ocasião da visita à camponesa mãe de Ismael, não efectuando o crime porque eu e Genaro o acompanhamos, e prometemos matá-lo, antes que ele lhe tocasse as mãos.
Ele nos odeia de há muito, tentando indispor-nos e até nos despedir deste Solar.
— Tuas palavras não me surpreendem, Sávio — falou Dioneia —, apenas confirmam suspeitas que se avolumam em meu íntimo.
Mas, por que não nos fizeste, há mais tempo, essa grave revelação?
Como soubeste o que ora nos relataste, ficando em
silêncio, Sávio? — interrogou ela, com a voz alterada pela emoção.
— Descobri por acaso, estando oculto nas ruínas dos arredores do Solar do Cisne, por causa de forte aguaceiro.
Quis revelar-vos a verdade; mas tive receio de uma vingança, pois o adversário é de instintos perversos.
Hoje me arrependo, por não vos haver revelado o que desde então me tirava a tranquilidade de viver nestas paragens.
Não suspeitei, porém, que ele se aliasse, para actos criminosos, ao desalmado Sertório Galeno, mormente sendo este sobrinho do Sr. Márcio Taciano...
— Sobrinho de minha finada esposa — retrucou ó ancião — mas, isso não impediria que houvesses relatado o que nos confessas, em hora tão aflitiva quanto esta!
— Duas nefastas ambições conjugadas! — exclamou Dioneia.
— Domina! — disseram diversos camponeses.
Se vossa vida ou a de vosso esposo for imolada, só obedeceremos ao senhor Márcio.
O falso servidor que, neste momento, deve estar ao lado dos inimigos, caro terá que resgatar o crime que está cometendo!
Pronunciadas que foram estas palavras, todos ouviram o galopar de corcéis aproximando-se da ponte levadiça, que não havia sido suspensa, por lamentável esquecimento, e, logo após, da porta central do castelo, ouviram-se gritos sediciosos em imperiosa intimação:
— Rendei-vos, abrindo esta porta, para que não sejamos forçados a destruí-la!
— Havemos de resistir ao assalto, com vigor, miseráveis bandidos! — exclamou Márcio Taciano, encolerizado, parecendo reanimado de ardor cavalheiresco.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 06, 2018 9:33 am

— Abri as portas... para evitarmos grande carnificina! — tornou um dos agressores, com violência.
— Os atacantes serão rechaçados, se tentarem penetrar no castelo! — respondeu Márcio, com desusada energia, cuja voz parecia ter-se avigorado, tornando-se quase estentórica.
— Não queremos sacrificar famílias.
Abram a porta para que fiquem prisioneiros os culpados, os que tentam destruir quanto pertence ao nobre Sertório Galeno! — tornou a mesma voz, reconhecida pelos presentes ser a do traidor Valdomiro.
— Somos cristãos, e nunca prejudicamos o que usurpou o Solar do Cisne!
Saberemos defender-nos; Deus virá em nosso socorro, porque a nossa defesa é justa!
— Caro pagareis o orgulho, velho ambicioso! — gritou uma voz enfurecida, cujo timbre revelava ser a do usurpador.
— Traidor e falsário! — exclamou Márcio, com veemência.
Violenta arremetida foi feita contra o castelo, sobre cuja porta central assestaram baterias, que a abalavam fortemente.
Os defensores, sempre precavidos para qualquer assalto, haviam-se transportado para o corredor que dava acesso aos principais aposentos, e por onde, então, com grande açodamento e rumor, conduziram tudo quanto existia nos subterrâneos:
bulhões, lanças, punhais e bombardas para o lançamento de pedras que tendiam os crânios, mal eram desfechadas.
— Jesus! — exclamou Dioneia, em pranto, unindo as mãos em súplica — tirai-me a vida para não assistir ao extermínio de tantos entes queridos!
Um frémito de pavor percorreu o organismo de todos os pacíficos habitantes do Solar da Galileia; mas a indignação, a revolta, o desespero improvisam heróis.
Crianças louras, que haviam adormecido ao colo protector de suas progenitoras, despertaram, em gritos aflitivos e choro convulso, sendo transportadas ao andar superior do Solar.
Dioneia dirigiu a palavra aos servos e aos campónios, concitando-os à defesa e à confiança que os levariam à vitória na lamentável emergência em que todos se encontravam; suas palavras, porém, eram abafadas pela violência da agressão, que fazia trepidar a porta central, recoberta de bronze de sólida resistência.
Naqueles instantes angustiosos, transformado em dirigente da defesa do Solar da Galileia, o venerável Márcio Taciano comandava.
— Ide ao andar superior! — ordenou ele a um grupo.
Prevê o que os assaltantes tentarão penetrar por alguma das portas ou janelas do pavimento onde estão acolhidas mulheres e crianças.
Empunhai as armas — disse a outros — e assestai-as para a porta que está sendo forçada pelos bandidos!
— Quero auxiliar-vos, avô! — exclamou Lúcio, aproximando-se do ancião.
Márcio admirou as sugestões que o neto começou a dar, pois, adolescente, Lúcio, naqueles instantes, parecia inspirado por um Nume apto para a defesa do Solar.
Todos lhe viram a bravura, a estratégia, as ordens acertadas que, dir-se-ia, eram antes ditadas por um consumado militar do que por ele.
Dioneia fitava-o atemorizada, porque naquele belo adolescente estava congregado o que de mais precioso possuía sobre a Terra:
amor filial, esperança, derradeira felicidade!
Os assaltantes duplicavam a violência.
Mais alguns esforços e a porta cederia!
Bruscamente, o intrépido e inspirado jovem, por evidente intuição supranormal, deixou o recinto onde se encontrava, seguido de alguns bravos defensores, e foi a um dos compartimentos do andar térreo, precisamente quando um dos servos (que depois se verificou ser um dos aliados de Felipe Valdomiro — o infiel e despeitado administrador) ia abrir uma porta do lado anterior do prédio, para facilitar os assaltantes a entrada e posse do alcáçar de Solano.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 06, 2018 9:33 am

— Alto! — bradou Lúcio.
Compreendendo a gravidade da situação, diversos serviçais tentaram deter o traidor; mas, inopinadamente, desprendeu-se ele das mãos vigorosas que o prendiam, e, qual flecha desferida por ágil fundibulário, foi em direcção do cego Solano que estava pouco distante da esposa, desfechando nesta um golpe, para logo após cravar o fatídico punhal (o mesmo que ceifara a vida material de Marcelo e desaparecido havia pouco tempo) no peito do desditoso senhor do Solar.
Um grito uníssono de indignação ressoou no recinto.
E quando o enfurecido e infiel servo homicida se dirigia a Márcio Taciano, antes que pudesse abrir e precipitar-se de uma janela, outro servidor, indignado com o que havia sucedido, trespassou-lhe o coração com um golpe de lança envenenada.
— Justiça seja feita! — exclamou Dioneia, ao tombar ao solo, ainda com os olhos fitos em Lúcio e Ismael.
— Minhas esperanças estão perdidas! — ouviram todos Cláudio Solano murmurar, dolorosamente.
Chamem Márcio Taciano...
Quero confessar-lhe a verdade... odiosa.
Chamem-no. .. depressa!
— Eis-me a vosso lado, domine! — falou o ancião, aproximando-se do infortunado Cláudio que, a custo, lhe confidenciou:
— Eu não merecia... a ventura que há muito desfrutava. .. com a posse do tesouro... que era de outro... e que eu, esquecido de meus deveres fraternos... usurpei... por meio de um crime... que me tornou desgraçado!
— Ficastes louco, domine! — falou Márcio, tornando-se lívido.
— Não, Márcio!
Aproxima-se o... instante fatal, e sei que muitos dos que aqui se acham... vão ter morte cruel...
Quero dispor do que vai ficar... na Terra!
Tudo quanto... me pertencia ficará sob a posse legal de Dioneia... e dos filhos... legitimo e adoptivo...
Na falta de Dioneia, se ela também for chamada... será tudo vosso... que bem o mereceis... podendo premiar... os defensores... do Solar da Galileia...
Mas, por que me abandona... a querida... Dioneia?
Márcio, emocionado e grave, falou ao desditoso castelão:
— Domine, muito vos agradecemos a generosidade!
Eu, Lúcio e Ismael, e todos os que vos servem com dedicação, continuaremos a prezar-vos muito, implorando a Jesus que seja conservada a vossa vida.
Vede, porém, a causa da falta que sentis, da generosa Dioneia:
também ela foi gravemente ferida, por um celerado.
— Dioneia... está ferida?
Quero que ela me escute... antes que eu perca a voz...
Quero que ela me perdoe o que lhe fiz sofrer...
Ela, domine, tudo ignorava... e foi sempre... fiel a vosso... filho...
Vossa esposa... está vingada!
Nesse instante, a luta dos agressores com os sitiados, que havia recrudescido, cessou, repentinamente, como que por encanto, e, do exterior, partiu um brado, um uivo humano, e vozes aflitivas foram ouvidas:
— Cessai a luta! Está morto o chefe...
Agonizam Sertório Galeno e Felipe Valdomiro. Os que restam vão retirar-se.
Assim dissera alguém, que estava ao lado dos atacantes.
Um brusco e aflitivo silêncio sucedeu ao rumor intenso, que, por mais de três horas, abalara o castelo assaltado.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 06, 2018 9:34 am

— Estamos livres! — exclamou um dos que resistiram ao ataque.
— Vede, porém, a extensão de nossa desdita! Estão quase agonizantes os senhores do castelo! — ponderou outro.
Os sitiados escutaram o tropel dos cavaleiros, retirando-se do local do embate, ressoando sobre a ponte que dava acesso ao Solar.
Prudentemente os defensores achavam razoável, para evitar nova traição ou emboscada, conservar as portas fechadas, principalmente por estarem quase todas avariadas.
Convergiram todos os desvelos para os sobreviventes feridos.
Lúcio Taciano, depois das horas de excitação e sobressalto por que passara, vendo apunhalados e feridos tantos denodados serviçais, e sacrificados Cláudio Solano e Dioneia, seguido por Ismael, ajoelhou-se junto à bondosa castelã.
Ambos estavam soluçantes e inconsoláveis com os trágicos sucessos que infelicitaram aquele remanso de paz e venturas, que parecia pouco antes bafejado por todas as bênçãos celestiais.
Os dois adolescentes que, nos primeiros instantes de sangrenta luta, haviam assumido atitude heróica, consagrando-se à defesa dos que foram agredidos, inopinadamente, após o término do assalto criminoso, sentiram-se desalentados diante dos agonizantes imolados à sanha de Sertório Galeno e do venal Felipe Valdomiro, que traíra a confiança dos senhores do Solar da Galileia, julgando-se prejudicado em seus planos ambiciosos.
Verificando a gravidade do estado em que se encontravam os que consideravam seus progenitores, vendo-os ofegantes e ensanguentados, deixaram vibrar o coração ao primeiro látego da dor, precipitando-se para eles, apertando-lhes as mãos, quase álgidas, crispadas pela superexcitação nervosa em que se encontraram, compreendendo, porém, que as forças físicas decresciam de momento a momento...
Lúcio exclamava, acometido de inenarrável dor moral:
— Minha mãezinha!
Minha adorada mãezinha!
Não me deixeis só no mundo; não sei viver sem o vosso amor e a vossa presença!
Quero seguir-vos... quero...
Dioneia descerrou as pálpebras, murmurando, debilmente:
— Nunca... vos abandonarei meus filhinhos...
É preciso que continueis... a batalha da vida!
Márcio será... sempre amigo de... ambos, e de todos os que ficarem.
Depois, com supremo esforço, falou, quase pela derradeira vez:
— Vê... o pobre Cláudio...
Fala-lhe... Ele deve... sofrer muito!
Meio alucinado, Lúcio fitou o cego que estava caído ao solo, com os braços em movimento, qual náufrago à procura de apoio salvador, com o peito perfurado, do qual fluíam as últimas gotas de sangue.
Lúcio compreendeu-lhe a atitude e apertou-lhe as mãos.
O agonizante estremeceu, como que sob o impulso do contacto de um adversário invisível, perguntando com angústia:
— És tu... Lúcio?
— Sim, sou eu...
Desejais alguma coisa?
— Onde está... Ismael?
— Aqui... a meu lado...
— Perdoem-me ambos...
— Não vos tortureis mais, domine!
Lembrai-vos de Jesus — disse-lhe Márcio, intensamente emocionado.
— É preciso... recordar o passado... e o presente, Márcio!
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 06, 2018 9:34 am

Ouvi-me:
tudo quanto possuía será vosso... de Lúcio... de Ismael... e dos fiéis servidores... que me auxiliaram...
Quero que me perdoeis... para poder repousar... no seio... da Morte...
— Nada tenho a perdoar-vos, Cláudio; fostes sempre um bom amigo... meu e de Marcelo!
— Não! Eu fui... cruel para com Marce...lo... Deus é justo...
deve ter sido... o mesmo punhal que Geleira conservou sempre...
e que havia desaparecido... que me feriu... tal como eu o fiz...
àquele nobre... amigo!
Perdoem... este infeliz! Vou morrer... sem o peso do segredo maldito! Dioneia... ignorava tudo...
Ai Deus! Se ela estiver me ouvindo... não quererá seguir-me!
Tenham compaixão... de mim! Muito sofri... muito...
Peçam a Jesus... por mim!
Pela vez primeira os dois adolescentes deram uma prova de afecto para com o infortunado Cláudio Solano, desejando que este sobrevivesse; porém, os seus votos não foram atendidos:
o senhor do Solar da Galileia expirou, com o conforto supremo de perceber, sobre as faces que se iam tornando gélidas, gotas ardentes de lágrimas, que ambos deixaram fluir sobre elas.
Poucos momentos após, Dioneia, depois de abençoar os dois idolatrados filhos (pois o eram ambos, pelo enigmático Destino), fez diversas recomendações a Márcio Taciano, terminando as, com a voz entrecortada:
— Preciso partir... depois da dolorosa revelação... que confirmou as suspeitas de Geleira!
Eu vos entrego... os meus maiores tesouros...
Dai-lhes... a mesma norma de vida... do nosso adorado... Mar...ce...Io!
— Ainda viverás, Dioneia querida! — falou o ancião, soluçante.
— Não... Márcio...
Não poderia mais viver, depois da pungente certeza... de haver unido o meu destino... ao do infeliz... que sacrificou a vida... de nosso querido... Mar... ce...Io!
— Ouviste, acaso, a confissão do arrependido Cláudio Solano?
— Sim... Deus o perdoe... e se compadeça de sua alma... que muito deve... ter padecido!
Eu virei... sempre... aqui... Lúcio... Ismael... e Genaro... hão-de transmitir-vos... os meus pensamentos! Adeus!
Não posso mais viver... depois da confissão... de Cláu...dio!
Sede generoso com os nossos amigos... os defensores deste amado Solar...
Estou morrendo. .. Todos façam... em conjunto... uma prece... por nós!
De...tu! Je.. .sus!
Meus amigos... a.. .de.. .us!
Todos os presentes percebiam a dificuldade crescente com que lutava a agonizante para transmitir os últimos pensamentos in-extremis.
Ela não concluiu o que, certamente, desejava dizer, ao pronunciar as duas últimas palavras, como se algo de extraordinário estivesse percebendo no plano espiritual, para onde ia sendo atraída.
Mais uma vez concentrou todas as energias vitais, e pronunciou, pela derradeira vez naquela existência, o nome daquele que lhe havia dado ânimo preciso para vencer todas as lutas e dores terrenas!
— Meu... Je...sus!
Este foi o último vocábulo que a redimida castelã emitiu por seus lábios, meio invadidos pela algidez mortuária.
Assim dizendo, aquela que na trabalhosa existência tivera a designação nominal de Dioneia, cerrou, subitamente, os maravilhosos e celestes olhos, que, dir-se-ia, tinham sido modelados em safira luminosa, e expirou.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 06, 2018 9:34 am

Exclamações de angústia saíram de todos os peitos opressos, e grande número de servos (ou antes, de amigos) se prosternou, carpindo o desprendimento do nobre e abnegado espírito.
Dentro de poucos instantes o castelo se transformou em câmara ardente, e no salão onde se efectuavam as preces cristãs foram colocados os cadáveres dos senhores e dos servos sacrificados na refrega.
Todos os serviçais infiéis — coligados aos adversários — haviam desaparecido, estando, porém, alguns deles exânimes no chão, de vez que haviam lutado na horda dos assaltantes.
Foram chamadas as autoridades ao local, e verificaram elas os intuitos criminosos do proprietário ilegítimo do Solar do Cisne, Sertório Galeno, que tinha sido mortalmente ferido e poucos instantes sobreviveu após a luta.
Aclarada a situação, feitas várias prisões, normalizou-se a vida no enlutado castelo, após o enterro das vítimas.
O funcionário encarregado das investigações, sobre o atentado à vida dos proprietários do alcáçar, interrogou um dos servos feridos:
— Qual o móvel da agressão a este castelo?
Não tentes iludir à Justiça nos derradeiros instantes de vida!
— Não tenho interesse... em ocultar a verdade!...
Sempre fui...amigo do Conde de Morato... estimava muito sua piedosa esposa...
Alguns companheiros... foram seduzidos com promessas vantajosas... pelos que residiam no Solar do Cisne...se quiséssemos auxiliá-los... no assalto...
— Por que não preveniu o Conde de Morato, ou sua consorte, dos intuitos sinistros de Sertório Galeno?
— Porque... infelizmente... dois de meus irmãos... eram seus empregados... e Sertório Galeno... prometeu expulsámos. .. com as famílias... se revelássemos a verdade...
— Foste, certamente, subornado e iludido... como deve ter ocorrido com os outros que se revoltaram contra os senhores deste Solar!
— Sertório... Galeno... era muito mau... e havia prometido desforços cruéis... contra todos nós... se, por acaso, fosse descoberto o seu projecto... que era o de exterminar os donos deste castelo... para apropriar-se dele, na qualidade de único parente sobrevivente de todos os assassinados, sobrinho que era de Márcio Taciano!
— Fez ele vantajosa promessa aos que o auxiliassem no extermínio de Márcio Taciano e dos de sua família?
— Sim, prometeu... dividir o Solar da Galileia... entre todos os que o auxiliassem... na execução do seu projecto!
Odiava... o ex-proprietário do Solar do Cisne!
— Havia motivo para essa odiosidade, Sr. Márcio Taciano?
— Sim — respondeu com firmeza o nobre ancião.
Temia ele a reconstituição da verdade; ele comprou o Solar do Cisne, em vantajosas condições, em resgates parcelados, e, mediante um documento falso, apoderou-se do castelo, que me pertenceu legalmente.
Foi o receio da reconstituição da verdade que o fez buscar imolar-me e aos que são meus legítimos herdeiros.
Em frases sinceras e expressivas, o ancião relatou o que tinha ocorrido entre ele e o fraudulento sobrinho da extinta consorte, terminando as suas alegações com a sinceridade que lhe era peculiar.
— Podeis arguir, sem a minha presença, secretamente inclusive, o professor que, há quatro anos, reside connosco e tudo tem observado durante esse lapso de tempo, e ficareis capacitado da verdade: tudo ignorávamos a respeito do atentado que nos infelicitou, até ao extremo instante, quando fomos atacados!
Havia um traidor — um serviçal, encarregado de franquear o alçapão à sanha dos assaltantes...
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 06, 2018 9:34 am

Eis o seu cadáver:
foi ele o assassino do Conde de Morato e de sua modelar esposa!
Depois do inquérito e do enterro de dez pessoas que haviam tombado no ataque ao Solar, Márcio Taciano convocou uma reunião de todos os seus habitantes, dizendo-lhes, com visível emoção:
— Meus amigos, o que ocorreu, há poucos dias, consternando-nos os corações, causou-me a maior de todas as decepções desta dolorosa existência.
Jamais pensei que, neste Solar, onde todos têm vivido em paz, sob um regímen fraternal, pudesse existir alguém que empunhasse um punhal para ferir o coração de seus donos!
Estou profundamente decepcionado, e não tenho a precisa coragem de permanecer nesta região com os queridos Lúcio e Ismael.
Tenho que deixar-vos e buscar um novo refúgio, onde sejam menos intensas as recordações do que aqui padecemos.
Os assistentes ouviam de fronte abatida para o solo, pois o ancião soube emocionar-lhes os corações.
Subitamente, elevou-se uma voz de timbre harmonioso, que despertou a atenção de todos os circunstantes:
partira ela do filho de Dioneia, que se revelou inspirado tal como o fora sua piedosa mãe:
— "Meus irmãos em Jesus:
Não lastimeis o sucedido, embora fértil em dores inesquecíveis, porque muitos delitos foram ressarcidos.
Não cogiteis, a exemplo do Apóstolo Pedro, de fugir às provas planetárias:
ficai em vosso posto, dirigindo o Solar da Galileia.
Os amigos reais ficarão:
a integridade de carácter é uma garantia à felicidade de todos os dirigidos.
Continuareis, pois, as preces no "local", e deveis afervorar a vossa Fé, lâmpada acesa nas trevas das almas aflitas, norteando-as para DEUS!
Deveis, cada vez mais, orar com veemência, porque a prece revigora os espíritos.
Esquecei a matéria e lembrai-vos mais de vossos espíritos."
Mal acabara de pronunciar estas palavras, Lúcio despertou e fixou o olhar nos circunstantes, com surpresa, percebendo que havia adormecido e algo de anormal ocorrera, parecendo-lhe haver regressado de um local desconhecido.
— Que estás sentindo, Lúcio? — perguntou-lhe Ismael, abraçando-o, comovido.
— Dir-se-ia que estive viajando muito longe, e que, de repente, levei uma suave queda.
— Não compreendeste o que ocorreu contigo Lúcio? — interrogou por sua vez o avô, colocando-lhe a destra sobre a fronte.
— Não, querido avô.
Perdi, totalmente, a noção da realidade por alguns instantes, e não sei definir o que se passou comigo.
Perdi a individualidade...
Todos os circunstantes ficaram em silêncio, não desejando torná-lo apreensivo.
Às súbitas, voltou para Márcio Taciano, e disse, com desconhecida energia:
— Sei que alguém me ordenou transmitir-lhe este conselho:
deveis permanecer aqui, continuando a missão de minha mãe. Se desobedecermos, seremos punidos severamente!
Todos os assistentes abraçaram-no, emocionados, por isso que nenhum pretendia ausentar-se.
Encerrar uma novela, síntese dos episódios verídicos de algumas existências terrenas não é de fácil execução.
A vida humana é uma série incessante de acções condenáveis, de odiosidades, de vindictas que, por vezes, explodem das almas em provas árduas, quando se acham adquirindo méritos e experiências remissoras.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 06, 2018 9:35 am

A odiosidade é peculiar aos espíritos primitivos, que iniciam as peregrinações planetárias, encontrando na vingança, no desforço sangrento, os únicos refrigérios para os seus desumanos sentimentos, sempre indómitos; mas, após a execução da revide, sentem-se mordidos pelas víboras da compunção, que lhes não concedem tréguas.
É mister, pois, novas romagens, nas quais se reconhecem e se reencontram as mesmas personagens, reproduzidas as mesmas situações, e, então, aquelas criaturas humanas, que se compraziam com a vingança, voltam-se para Deus.
Os que residiam no Solar da Galileia cediam às vibrações possantes das exortações cristãs de Dioneia, que as repetia dos Mensageiros siderais, enquanto que outros, os do castelo que pertencera a seu primeiro esposo, capitaneados por um tirano de outrora, Sertório Galeno, tendo por arquivo espiritual incontáveis homicídios, revides, levaram ao paroxismo o rancor que o patrão votava àqueles a quem estava vinculado pelo parentesco consanguíneo.
Soube ele subornar e atemorizar os que viviam sob seu guante despótico, dizendo-lhes com vigor incomparável:
— "Os que me seguirem de boa-vontade serão galardoados regiamente após o assalto ao Solar da Galileia, onde vivem durante muitos decénios, só era destinado aos membros de sua família.
Pouco a pouco, no entanto, tornou-se a necrópole de todos os habitantes do Solar da Galileia.
Após os morticínios ocorridos no alcáçar, as autoridades haviam seleccionado os cadáveres dos que, enquanto animados pela vida, foram adversários irreconciliáveis.
Márcio Taciano, porém, inspirado por sentimentos humanitários, assim se expressou:
— Deixai, senhores da Justiça, que todos estes corpos sejam sepultos no mesmo local, neste Solar bendito, que, conforme ficou apurado oficialmente, é de há muito consagrado ao Bem e a Jesus — em homenagem de quem foi dada a designação Solar da Galileia.
Lúcio, ao lado de Ismael, ambos ajoelhados perto dos despojos mortais da idolatrada progenitora e de Cláudio Solano, dirigindo-se ao avô paterno, perguntou:
— Estais vendo o que se passa neste recinto?
— Não, meu querido Lúcio!
Apenas constato a presença dos cadáveres inertes — respondeu Márcio, apreensivo, temendo que o neto estivesse com as faculdades mentais alteradas.
— É pasmoso que ninguém esteja observando a neblina que enche este salão.
Vejo, agora, vultos luminosos que se reúnem, formando um grupo circular, todos com a mão direita erguida para o Alto, inspirando-nos o prosseguimento do que foi posto em prática pela minha adorada mãe.
— Que estás dizendo, meu querido netinho? — falou Márcio, abraçando-o.
Estou receando por tua integridade mental, depois dos rudes abalos por que passamos.
— Estou plenamente consciente, meu bondoso avô. Então, a mãezinha bem-amada não merece também uma significativa homenagem dos Amigos de Jesus?
— Sim; mas deves retirar-te deste recinto.
Temo por tua saúde!
— Tende confiança na Justiça e na misericórdia divina, querido avô
Seguiram-se dias calmos e de saudosas recordações que dominavam a muitos enlutados corações.
Sem que o suspeitassem, ali se congregaram, nos derradeiros embates que enlutaram o Solar do Conde de Morato, muitos adversários dos tempos idos.
O observado por Lúcio era a expressão da realidade, e o jovem estava fadado a prosseguir a missão espiritual materna.
Opulento e de nobre estirpe, ele se aliara ao companheiro que o Destino lhe concedera, não suspeitando que ambos eram espíritos de idêntica hierarquia.
À noite daquela data em que Márcio Taciano e seus netinhos regressaram da necrópole do castelo, tendo falado longamente sobre os mais recentes e infaustos acontecimentos-que haviam presenciado e os tinham enlutado, Lúcio e Ismael adormeceram com os olhos turvos de pranto.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 06, 2018 9:35 am

Subitamente, sentiram-se ligados, com as mãos entrelaçadas, iniciando um surto vertiginoso através do Espaço, ora intensamente iluminado com as irradiações dos astros, ora em regiões de penumbra, que lhes causavam receio e vaga tristeza.
Após um decurso de tempo, que não puderam precisar com segurança, viram-se em local de raro encanto, ao lado de formosíssima Entidade, que só então se tornou visível, deixando livres as mãos que eles julgavam enlaçadas umas às outras.
Verificaram que outros seres igualmente formosos, trajados de túnicas alvinitentes, irisadas de luz com lindos cambiantes, foram ao encontro da ideal Entidade que os seguira através do Espaço infinito, tendo todos o aspecto de flores humanas, alvas e eterizadas, com tonalidades inimitáveis na Terra.
Repentinamente, maravilhados com as habitações esguias, de contexturas de pedras preciosas, das quais fluía luminosidade incessante, circuladas por indescritíveis e floridos Parques, recendendo suavíssimas fragrâncias, encontraram diversos seres angelizados, reconhecendo em um deles a saudosa Dioneia, resplandecente qual astro que tivesse a forma humana.
— Mãezinha! Adorada mãezinha! — exclamaram ambos, inebriados de ventura.
Enlaçaram-se, afectuosamente, sentindo que suas almas se confundiram naquele amplexo de intensa felicidade.
Os recém-vindos estavam maravilhados, reparando em tudo, observando que aquela a quem puderam conceder o excelso nome de Mãe, era uma das mais belas Entidades das que contemplavam emocionados.
— Bem vedes, queridos filhinhos, que não existe a temida morte, e sim apenas metamorfose: o casulo ficou em tenebrosa tumba, cavada na terra sombria, mas a falena divina — a alma — aqui se encontra, eternamente indestrutível!
— Queremos permanecer aqui, ao vosso lado — exclamaram ambos.
— Não é possível, filhinhos bem-amados, pois tendes de ultimar as provas remissoras.
— Teremos de separar-nos outra vez, mãezinha idolatrada? — indagou Lúcio, tentando oscular-lhe a destra imponderável, sendo imitado por Ismael.
Dizei-nos se tendes saudades do Solar da Galileia, que foi santificado com a vossa presença e, agora, parece insulado no mundo em que carpimos a vossa ausência.
— Os espíritos que consumam as derradeiras refregas experimentais de seu valor moral, estão isentos desse sentir humano, meus queridos filhinhos, porque a distância desaparece para eles; podem peregrinar pelo Universo todo, contemplar constantemente os seres bem-amados.
Apenas sofrem, quando os vêem, lacrimosos, lamentando os mortos idolatrados, que, muitas vezes, se acham a seu lado, orando a Jesus para lhes confortar os corações, onde se mantém vivida a chama das recordações!
A Entidade que na Terra foi conhecida em sua derradeira peregrinação terrena pela designação de Dioneia, enlaçando as destras daqueles dois seres tão queridos, tinha o aspecto de uma açucena humana, de beleza indescritível na linguagem planetária, e de sua fronte radiosa partiam dois liames de luz intensa, com revérberos esmeraldinos, incidindo sobre as cabeças dos dois entes amados, fluindo de uma concessão só prodigalizada aos espíritos triunfantes do Mal e de todas as provas terrenas: a permanência, efémera, dos seres mais queridos, em uma região sideral, reservada aos Heróis espirituais.
Uma outra Entidade que se encontrava a pouca distância daquele encantador grupo, falou, enternecida:
— Apesar do que Lucídia (nova designação de Dioneia em um mundo etéreo) expôs aos entes tão caros à sua alma, percebe-se que ela desejaria permanecer por mais tempo no Solar em que viviam.
— Os três seres que ali se encontram — respondeu outro Mensageiro celeste — são eternos aliados, de hierarquia semelhante; mas, necessitam os dois recém-vindos regressar ao Planeta da Lágrima, para ultimar missões meritórias, e por fim transporem as fronteiras do Infinito.
— Podeis elucidar-nos sobre o que devemos compreender por fronteira do Infinito, mãe querida? — interpelou Lúcio (que ouvira a expressão) à fúlgida Entidade que representava Dioneia angelizada.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 07, 2018 11:15 am

— Sim, meu querido.
Enquanto os seres cometem graves transgressões às Leis supremas, ficam aprisionados nos mundos inferiores, ainda obscurecidos pelas trevas, mal se oculta o Astro Rei, o Sol; mas, adquiridas todas as virtudes, os espíritos deixam de ser planetários, mudam de categoria psíquica, tendo, desde então, por Pátria a vastidão do Universo, sem limites, conquistando a autonomia ou a liberdade eterna!
A Terra é a fronteira imersa no ilimitado ou no Infinito!
— Implorai a Jesus para que possamos ficar a vosso lado, neste remanso de paz e venturas.
— Bem o quisera que assim fosse, meus adorados filhinhos; mas ainda não está integral a minha missão, meus amados filhinhos.
Comprometi-me a prossegui-la, por intermédio de dois entes idolatrados, que sois vós, auxiliados pelo nobre Márcio Taciano, no plano material, e Joel Sarajevo, no espiritual, sendo este um dos desvelados Mentores de Cláudio Solano.
— Cláudio Solano!
Onde se encontra ele, que ainda não o vimos? — indagou Lúcio, admirado.
— Ele se encontra no plano espiritual circunscrito à Terra.
Tenho-me desvelado por ele.
Agora, meus amados, é preciso partirdes para o planeta das Trevas e das Dores.
Embora tenha a permissão de vos avistar, quando me aprouver, confesso que desejaria estar ainda ao vosso lado, desvelando-me por ambos e por todos os que permanecem no longínquo castelo.
Direis a Márcio Taciano que só se ausente do Solar da Galileia para a aquisição de coisas indispensáveis; que não restrinja os gastos necessários, continuando a prodigalizar todos os benefícios indispensáveis aos que foram seus companheiros de peregrinação.
Não dispense os educadores dos campónios e dos filhinhos destes, e faça os esforços que estiverem a seu alcance para minorar os sofrimentos dos que buscarem o castelo.
Sede, todos vós, amigos uns dos outros, compassivos com os pecadores, os enfermos da alma, os desditosos que deveis considerar infortunados irmãos (porque o são), indistintamente, quer sejam abastados, nobres, quer párias, plebeus, selvagens ou civilizados, quer delinquentes ou virtuosos!
Ajoelhai-vos, agora, queridos de minha alma, para que sejais investidos nas funções nobilíssimas de Cavaleiros de Jesus, sagrados defensores dos fracos, Apóstolos do Bem, Arautos da Fé, Cruzados da Caridade, Combatentes do Mal, Legionários de Deus!
Intensamente emocionados, os dois, Lúcio Taciano e Ismael Guadiâni, prosternaram-se no solo de topázio, e, rodeados pelos que os acolheram fraternalmente, ouviram um hino divinal que, mais tarde, foi reproduzido na harpa e na lira que ambos sabiam dedilhar.
Todas aquelas fúlgidas Entidades ergueram os braços diáfanos para o Firmamento, e foi feita uma vibração harmónica que enlevou os dois peregrinos, que, por instantes inolvidáveis, se encontravam em local que julgavam pertencesse ao domínio dos contos fantásticos dos seres mitológicos.
Comovidos e encantados, Lúcio e Ismael, inspirados por quem ainda chamavam mãe, proferiram solene promessa, comprometendo-se ambos a jamais transgredirem os seus deveres morais, espirituais, sociais e humanos.
Uma das mais radiosas Entidades, aproximando-se deles, traçou uma cruz em suas frontes, e pareceu-lhes que minúsculo Calvário de luz se internara nas suas mentes, ou, antes, na própria alma, feito o que, falou-lhes com timbre harmonioso e grave:
— Voltai ao planeta das Trevas, levando uma partícula divina, uma cruz simbólica da Redenção, incrustada em vossas almas.
Não vos afasteis jamais do alcantilado carreiro dos deveres, por mais penoso que seja.
Tendes uma excelsa missão a cumprir junto àquele que teve actuação paternal em vossas actuais peregrinações: Cláudio Solano.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 07, 2018 11:15 am

Tendes de encaminhá-lo ao aprisco de Jesus.
Encontra-se ele no próprio local onde delinquiu gravemente.
Mais tarde, será vinculado a um dos caros irmãos presentes, e também terá de executar verdadeira missão apostolar.
Dentro em poucos instantes, estareis em sua presença.
Urge, porém, que regresseis.
Aceitai, pois, a dolorosa Missão, finda a qual tereis ingresso nas regiões hiperbóreas ou siderais.
Sofrereis, sem revolta, as injustiças, as calúnias, as ingratidões, as traições?
Tereis coragem de enfrentar a adversidade, as dores, as decepções tremendas?
— Sim! — responderam eles, em uníssono, com a voz firme.
Sim! com a protecção dos Amigos de Jesus, que aqui se encontram!
Celestial harmonia se irradiou daquelas fúlgidas Entidades, que pareciam lírios humanos, flores siderais.
Após se erguerem, e sem que pudessem elucidar o fenómeno psíquico que com eles ocorrera, findos alguns momentos acharam-se nos arredores do Solar da Galileia.
Depois do fulgor da região sideral, onde estiveram por espaço de tempo inapreciável, subitamente, sem poderem elucidar tudo quanto viam, acharam-se circundados por uma falange de espectros, que se apresentavam com as mesmas vestes usadas nas últimas peregrinações terrenas, todos com os semblantes a ressumbrar íntimos pesares.
Em um deles reconheceram Cláudio Solano, com o aspecto de que tão bem se recordavam, parecendo ainda vítima da cegueira.
Compadecidos, aproximaram-se dele, falando-lhe, com bondade e compaixão:
— Cláudio! eis-nos a vosso lado!
Ainda estais sem vista?
— Lúcio! Ismael! Sois vós?
Onde está a minha querida Dioneia?
— Está feliz, em local indefinível; mas não se esquece dos que ficaram na Terra, torturados de saudades!
— Abandonou-me ao acaso, desde que meu corpo foi levado para o sepulcro!
Será crível que me haja olvidado?
— Não! Jamais! — murmurou Lúcio.
Seu espírito de luz não olvida um sequer de seus deveres morais!
— Ai! Lúcio.
Não resisti aos impulsos de meu coração, vendo pertencer a outrem o objecto de meu amor; revoltei-me contra o Destino, e, por isso, matei o meu melhor amigo, um quase irmão — Marcelo — teu nobre progenitor!
Compreendes, acaso, toda a extensão de meu suplício?
Sentia-me desprezado e acusado por minha própria consciência!
Bruscamente, tornaram-se visíveis os Mentores dos que ali se encontravam, tentando solucionar os problemas do momento.
Um dos mais fúlgidos Emissários adiantou-se, e, erguendo a destra luminosa, assim falou:
— Ouvimos com interesse as vossas palavras de queixa.
Ainda padece a pungentíssima prova da falta de visão o nosso irmão Cláudio Solano, porque tem pensado unicamente em si mesmo, nos seus infortúnios, e não em implorar o perdão divino, comprometendo-se, solenemente, a jamais tingir as mãos no sangue de alguém.
Lamenta-se da falta de sua piedosa companheira de existência, quando, em verdade, ela aqui tem estado incontáveis vezes, e acaba de seguir estes dois seres queridos — Lúcio e Ismael — que são satélites de seu próprio espírito.
Em sua alma radiosa não existe mais qualquer átomo de egoísmo ou de falta de compaixão.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 07, 2018 11:15 am

Cláudio ainda não rogou perdão às suas muitas vítimas, dentre as quais uma aqui se acha, Ismael, cuja presença lhe causava sempre dolorosa sensação.
É que ele e Marcelo formam uma só individualidade.
— É verdade o que dissestes, Mestre? — interpelou Cláudio à fúlgida Entidade.
— Sim, e aqui se encontra ele, compadecido de teus sofrimentos.
— Sou um ser indigno de piedade...
— Não se aflija irmão! — respondeu-lhe a Entidade, acercando-se de Cláudio.
Suportai a crucificação, sem revoltas, nem lamentos desnecessários.
Cada ser humano, e a própria Humanidade, progride por meio de sofrimentos eficazes, correctivos imprescindíveis aos transgressores das leis eternas.
Mais tarde, sabereis o que ocorreu no transcurso de uma das existências de nossa irmã Dioneia, que, em sua última etapa terrena, mostrou todas as purificações do seu espírito.
— Ela não nos abandonará jamais, Mestre? — perguntou Lúcio à radiosa Entidade.
— Jamais! jamais! — respondeu o Mensageiro.
Continuareis vinculados pelo Destino, perenemente.
Fizestes um pacto sagrado, em um dos refúgios siderais dos redimidos, Ismael e Lúcio, e tendes de executá-lo na Terra, sem a menor transgressão.
Ficarei em contacto com os três, e, de acordo com outros Mentores, vamos orientar Cláudio Solano para que recupere a visão e a paz espiritual.
Quanto aos irmãos, Lúcio e Ismael, deverão regressar ao corpo material, porque a noite está quase finda.
De tudo quanto observastes, apenas ficará uma ténue ideia ao despertar; mas, no recesso da alma de ambos, tudo se gravará perpetuamente.
Por este fundamento se explica por que, às vezes, compositores, artistas, cientistas têm uma ideia arraigada na mente, desejando exteriorizá-la, sem que saibam ao certo de onde lhes proveio.
É que a tinham gravada na mente, desde quando, pela exteriorização da alma, entraram em contacto com seres evoluídos, ou siderais, e, então, retornam ao plano material com pensamentos diversos dos demais entes humanos, ideias belas ou criadoras que causam a admiração dos contemporâneos e não raro dos povos do futuro!
Ao iniciar uma vida na Terra, cada ser humano conserva, meio esmaecidos, conhecimentos científicos, artísticos ou úteis à colectividade; mas, gradativamente, qual noite caliginosa que dá lugar a deslumbrante alvorada, a mente sai da caligem por um clarão interior, e alvorece, e, então o ser, evoluído que é, produz obras dignas de apreço, muitas vezes geniais.
— Muito agradecemos as vossas preciosas lições! — exclamaram os dois jovens.
Mas estamos entristecidos, porque nossa mãezinha, que tanto nos acarinhava, parece-nos que se retraiu com a nossa presença, sendo de supor que seu grande amor por nós decresceu!
— Estais iludidos, meus amiguinhos!
Há Leis supremas que os seres evoluídos não mais transgridem.
O amor terreno, exteriorizado em demonstrações de carícias, predominando o uso de aderir os lábios sobre os da criatura bem-amada, ou sobre as mãos veneradas, perde aqui a sua significação.
As almas triunfantes expressam suas afeições por meio de preces e de pensamentos radiosos vibrados em direcção e intenção dos que continuam a idolatrar; aguardam, com serenidade natural, o término das existências terrenas, auxiliando os nos instantes oportunos, podendo seguir-lhes os passos, exortá-los, por exteriorização da matéria, e vê-los quando lhes aprouver.
Nossa irmã Dioneia, hoje Lucídia, vem todas as noites contemplar os seus bem-amados e os locais inesquecíveis onde decorreram diversas etapas de existências terrenas.
E, confortada com a presença dos que continua a idolatrar, não sente mais a angústia da separação eterna...
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 07, 2018 11:15 am

— Por que ainda não me foi permitido perceber a sua presença? — indagou Cláudio.
— Porque há maior evolução psíquica em Lúcio e Ismael, enquanto que vós, que me dirigis a interrogação, ainda não vos humilhastes bastante, não rogastes o perdão dos crimes que ainda tendes a resgatar.
— Não basta a tragédia na qual fui uma das vítimas, e cuja lembrança ainda perdura na mente de todos os que aqui se acham?
Onde a misericórdia divina? Tenho receio de ser abandonado, agora que todos já não ignoram a pungente realidade, por Dioneia, Lúcio... e Ismael! — exclamou, com infinita angústia.
Isto me lança em um mar de tormentas, que me asfixia e me torna inútil a vida, votada à tortura e aos mais acerbos padecimentos!
Ainda não pude ver Dioneia e isso é para mim o maior dos tormentos!
— Ela não vos abandonará jamais, irmão!
Não a vistes ainda porque, repito, vós vos lembrais unicamente do vosso Eu, esquecendo-vos da misericórdia suprema à qual deveis dedicar a vossa vida, que é eterna!
— Quero vê-la ao pé de mim, para lhe ouvir a voz.
— Vossa rogativa será atendida, não presentemente, e sim em outra etapa terrena.
Ela vos aparecerá, então, em sonhos, e vos concederá valiosas intuições e conselhos.
Ides, agora, apartar-vos aparentemente:
Lúcio e Ismael voltarão à matéria, e Cláudio Solano será transferido para outro local, onde muitos delitos perpetrou.
Despedi-vos, por tempo indeterminado, uns dos outros a fim de que se cumpram as determinações do Alto.
— Antes que nos apartemos, quero implorar perdão a Ismael... não, a Marcelo!
Quero ouvir de seus lábios a sagrada palavra: PERDÃO!
Houve, então, inesperada cena:
Ismael pegou a mão direita de Cláudio Solano, e, carinhosamente, disse:
— Eu te perdoo, em nome de Jesus, e desejo retribuir o que por mim fizeste na actual existência, tratando-me qual se teu filho fora, até no direito à herança.
Perdoo-te, e vamos implorar ao Divino Pai e a Jesus que a nossa aliança e bem assim a de Lúcio Taciano sejam infindas!
— Bendito sejais, Deus clementíssimo, pelo triunfo espiritual conseguido por estes irmãos! — exclamou a Entidade que os inspirava.
Dai-lhes, cada vez mais, a nítida compreensão de seus deveres morais, e norteai-lhes os espíritos para a Luz do Universo, que sois Vós! Que Jesus, o Mestre celestial, também vos abençoe!
Agora, caros irmãos, deveis, repito, regressar imediatamente aos vossos corpos materiais, pois não tarda a surgir o novo dia.
Os dois adolescentes, após profundo suspiro, foram restituídos à vida material.
Por momentos, conservaram-se entorpecidos, com a mente obscurecida pelas sombras do sono clarividente; mas, readquiridas as percepções normais, Lúcio exclamou, fitando Ismael:
— Que estranha impressão deixou em meu cérebro o sonho da noite que findou.
Parece-me que estive longe deste Solar...
— Eu, também, tenho a mesma sensação, Lúcio! — exclamou Ismael.
Que é sonho... no teu entender, Lúcio?
— Não tiveste a sensação de haver transposto as fronteiras da Terra, entrando em contacto com nossa querida mãezinha?
— Sim! Sim!
Lastimo que não nos lembremos nitidamente de todas as cenas que presenciamos, Lúcio!
Ficou-me gravado na mente, porém, o termos assumido solene compromisso com a nossa inesquecível mãe e com o desventurado Cláudio, de quem agora tenho compaixão pelo seu sofrimento.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 07, 2018 11:16 am

— Justamente o que ocorre em meu íntimo, Ismael! Márcio Taciano que ouvia, já desperto, o diálogo dos dois jovens, aproximou-se de ambos, e ponderou:
— Lúcio, em tudo que nos acontece, há um motivo oculto, às vezes indecifrável, cujas bases estão no passado secular de cada um de nós.
— É verdade, avozinho.
Eu que detestava Cláudio, instintivamente, e sentia invencível repulsa pela sua presença,
agora, devido à sua cegueira, senti que o perdoei, que seria talvez capaz de amá-lo, se continuasse a viver a seu lado.
— Ele conseguiu um triunfo — murmurou Márcio.
Terminou assim, no início daquele dia, o breve diálogo amistoso do ancião com os dois adolescentes.
Tendo pretendido dispor do Solar da Galileia, para que fossem evitadas lutas futuras, Márcio Taciano recebeu salutar intuição em seu próprio íntimo, que o revestiu de indómita coragem moral para, dentro em pouco tempo, normalizar novamente a vida naquela pacífica região.
Notara, porém, que alguns valores monetários e documentos, dos quais lhe falara o Conde de Morato, não haviam aparecido, o que lhe causava intensa preocupação, pois, até o testamento, em que fora feita a doação de todas as suas propriedades, estava em local para ele ignorado.
À noite, comunicara ele a sua perplexidade aos dois adolescentes, e, em comum, fizeram veemente prece ao espírito do extinto castelão e de sua consorte, rogando-lhes uma elucidação que lhes permitisse agir de acordo com as Leis civis de sucessão.
Depois da prece, os dois jovens adormeceram profundamente, não sucedendo o mesmo ao ancião, que permaneceu em longa vigília, antes de poder conciliar o sono, o que se deu, tardiamente, quase ao alvorecer.
Em sonho revelador, achou-se ele, então, na presença de Dioneia (metamorfoseada em Entidade de refulgências indescritíveis).
Sentiu-se deslumbrado, ouvindo-a com interesse máximo:
— Meu velho amigo, não vos aflijais pelo desaparecimento do que poderia causar prejuízos materiais, se, realmente, sumissem os valiosos documentos.
A escritura e todos os papéis que procurais encontram-se em uma arca, num dos menores compartimentos do subterrâneo.
Procurai esse cofre (que contém vultosos valores também) à esquerda da entrada do subterrâneo, em esconderijo disfarçado em uma lájea que parece incrustada na parede.
Todos os tesouros vos pertencem e a Lúcio e Ismael, em partes iguais.
Não vos ligueis em demasia, porém, aos tesouros da Terra, e sim aos do Céu.
Vós, Márcio Taciano, tereis ainda mais de um decénio de vida planetária; quando se aliarem Lúcio e Ismael a duas dignas damas, ainda que de origem modesta, com as quais se consorciarão, haverá ensejo de regresso à Terra para Cláudio e Geleira, reencarnados irmãos, a fim de que se transmudem em afecto e dedicação os antigos rancores que reinam em suas almas, há muitos séculos.
Não busqueis aumentar os cabedais que encontrareis, acrescidos dos rendimentos do Solar; antes procurai conservá-los para dispêndios futuros.
Ao fim de cada ano, porém, gratificareis todos os servos e camponeses, proporcionalmente aos serviços prestados, não só para incentivo no trabalho de cada um, mas, também, para conforto dos seus lares.
Agora, algo direi sobre as coisas espirituais:
os habitantes deste castelo, crianças e adultos, deverão partilhar das reuniões cristãs que eu dirigia, sob os auspícios de nossos desvelados Mentores.
Vós as conduzireis, auxiliado por Lúcio e Ismael, que têm faculdades psíquicas, grandemente evoluídos que são.
Ambos pertenceram já aos templos de Elêusis e ali exerceram função quase sacerdotal, aliados ao inolvidável Joel Sarajevo, da mesma hierarquia espiritual.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 07, 2018 11:16 am

Sereis auxiliado, em todas as situações.
Não vos descuideis dessas reuniões, para que todos tenham oportunidade de receber, a flux, bênçãos e protecção valiosas.
Espinhosa é a vossa incumbência; mas o Trabalho é a Lei que rege o Universo, que nos proporciona o exemplo insofismável de incessante actividade.
Portanto, os que têm a centelha divina, não podem deixar de imitá-lo e ao próprio Criador, que não repousa um átomo de tempo no transcurso dos milénios.
— Agradeço-te quanto acabaste de me dizer, Dioneia, minha filha.
— Vou partir, agora, Márcio Taciano, lembrando-vos, ainda uma vez, os encargos da administração e governo deste castelo.
Perdestes o outro, mal adquirido por vossos ancestrais, dando origem a rancores remotos, cujas consequências verificastes em Sertório Galeno, cuja odiosidade teve origem nos séculos transcorridos.
Deveis fazer preces em benefício daquele irmão delinquente, para que arrefeçam os ódios que nutriu por vós e vossos parentes.
Que Deus vos ampare e inspire sempre, Márcio Taciano!
Bruscamente, despertou o ancião, ficando-lhe na mente a síntese de quanto ouvira da inesquecível Dioneia.
Algumas de suas palavras haviam-lhe ficado nítidas e indeléveis na reminiscência subconsciente.
No dia que se seguiu àquele inolvidável sonho nítido, durante o qual palestrara com Dioneia, Márcio procurou o esconderijo, então ignorado por ele, existente no subterrâneo do Solar, e encontrou, realmente, uma urna de grandes proporções e repleta de considerável tesouro em jóias, moedas e outras preciosidades.
Então, por escrúpulo, chamou os dois jovens netos, mostrou-lhes os bens, e, avaliado o que se encontrava no erário secreto, combinaram guardar segredo, para evitar a cobiça, os instintos perversos dos ambiciosos.
Muito os tranquilizou a descoberta do valioso tesouro que os punha a salvo de qualquer dificuldade pecuniária durante aquela existência, além de ensejar a prática de actos de altruísmo.
Márcio Taciano disse a ambos, com emoção:
— Meus filhinhos, desejo que vivam sempre fraternalmente neste Solar, unidos pela mais estreita comunhão de bens e de ideais dignificadores, prosseguindo a missão da nobre criatura que se chamou Dioneia!
— Sim, avozinho, disse Ismael, comovido, havemos de nos esforçar por bem cumprir nossos deveres.
Márcio fitou-o com ternura, e, por momentos, pareceu-lhe haver retrocedido à época em que vira Marcelo adolescente, pois Ismael teve então o mesmo timbre de voz e a mesma expressão que caracterizavam o filho assassinado.
— Jesus vos abençoe e a todos os vossos bons pensamentos — murmurou Márcio, abraçando os dois jovens.
Durante alguns meses, Márcio Taciano aplicou-se exclusivamente à organização dos serviços gerais, aceitando alvitres de alguns, atendendo às solicitações de outros, agindo com verdadeiro tino administrativo.
Disseminou, mais amplamente, a instrução primária, não só para as crianças, mas também para os adultos, e, finalmente, restabeleceu o que tanto agradava à Dioneia, quando se encontrava no plano terreno:
as preces em conjunto.
Certo dia, pela manhã, Ismael falou ao avô:
— Hoje, se estivesse vivo, Cláudio marcaria mais um aniversário.
Vamos fazer preces em seu benefício!
— Esse interesse de orar pelo infortunado Cláudio — respondeu o ancião — comprova que teu espírito já se reconciliou plenamente com o dele, por inspiração cristã.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 07, 2018 11:16 am

Desta forma deveras proceder sempre, no decorrer desta existência.
Assim se sucediam os dias no alcáçar, suavemente, ocupados todos em misteres condignos.
Aos domingos, ao entardecer, congregavam-se no salão instalado no andar térreo, iluminado suficientemente por lâmpadas de nafta, em reuniões dirigidas por Márcio Taciano e Rogério César, um dos professores contratados por Dioneia, e que era verdadeiramente inspirado por Entidades extraterrenas.
Certa vez, quando já se achavam todos reunidos, uma camponesa, muito entristecida, recordando a data da morte de uma filha, começou a chorar.
— Que loucura, lamentar a morte! — falou um campónio que se encontrava com os olhos fechados, em atitude de prece.
A morte, para mim, foi a liberdade, a isenção de todas as dores e apreensões que afligem as criaturas humanas, quando aprisionadas na matéria, cárcere de carne e ossos.
Márcio, que o escutara, respondeu-lhe:
— Louvo muito o vosso desprendimento do domínio da matéria, meu amigo; mas, nem todos os que partem para o plano imaterial podem fruir a mesma serenidade espiritual, que só é facultada aos que cumpriram as tarefas planetárias, sempre honestos, piedosos, austeros no exercício de todos os labores, nunca prejudicando o seu semelhante.
Os que assim ainda não procedem, forçosamente terão que sofrer mais intensamente do que quando se encontravam na Terra.
É preciso, então, o reingresso dos faltosos no Mundo das Trevas, a fim de que possam trabalhar para a remissão de todos os delitos, no plano material, na era dolorosa e bendita das reparações.
Nesse momento um campónio caiu ao solo, murmurando, comovidamente:
Oh! cegueira que tanto me angustia!
Mergulhado, como me encontro, nas trevas aterradoras, meu suplício ainda mais penoso se torna agora porque meus ouvidos não escutam a voz divinal e acalentadora de minha saudosa e inesquecível Dioneia.
Minha desdita, após a morte que tanto almejava, agravou-se assim.
Por que, querida Dioneia, tu que tanto bem fazes e pregas não me retiras deste abismo de trevas... em que me asfixiam e flagelam?
Queria vê-la!
Queria extasiar minha alma...
contemplando-a com a figura sideral!
Houve um momentâneo silêncio, apenas quebrado pelos soluços do campónio, que, então, interpretava os pensamentos do ex-senhor do Solar da Galileia, que murmurou:
— Ouço uma voz angélica que diz:
"Abençoemos as próprias trevas, pois de imersos nelas é que sairemos para as Luzes da Remissão!"
— Tu te iludes, Cláudio! — respondeu a Entidade pela voz de Rogério.
Está sendo experimentado o teu valor moral.
Lúcio e Ismael vão vibrar nas harpas uma prece sonora, e todos os irmãos presentes irradiarão espiritualmente em teu benefício que, mais do que nos olhos, tens a treva no próprio espírito.
Suavíssimo arpejo repercutiu no recinto.
Todas as almas ali congregadas, em uníssono, vibraram em favor de Cláudio Solano, que, incorporado em um honesto campónio, o levou a prosternar-se, enquanto de seus olhos jorravam lágrimas e dos lábios esmaecidos se evolou humílimo rogo:
— Deus! Deus misericordioso e bom, graças porque me proporcionastes, novamente neste instante inolvidável, um clarão interior que me faz desvendar todos os rostos dos que aqui se encontram.
Jamais a luz me pareceu tão bela!
Vossas preces cristãs acabam de penetrar-me o recesso da alma; quero, por isso, doravante compartilhar de vossos trabalhos fraternos.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 07, 2018 11:16 am

Graças sejam rendidas ao Pai celestial que acaba de restituir-me a visão!
Posso, enfim, ver! Jamais compreendereis o suplício de um cego, ao perceber que a Natureza maravilhosa desapareceu como que sob o efeito de um eclipse eterno! Imploro perdão a todos quantos prejudiquei outrora, quando, envaidecido com os tesouros que julgava meus... e hoje já não me pertencem... fui arrastado pela ânsia de ser feliz, amado, triunfante em tudo.
Perdoai-me, pois, todos quantos prejudiquei todos a quem ofendi...
Falou novamente a mesma Entidade que se manifestava por intermédio de Rogério:
Não posso desvendar, mais claramente, os desígnios divinos.
Vamos, agora, concluir o que desejas, meu irmão:
espera-te, hoje, uma confortadora surpresa.
Reverás páginas imortais da Natureza, ao lado de um dos mais dedicados amigos que tens tido no percurso do teu já milenário passado, Joel Sarajevo...
Além de Joel, terás outro Emissário celeste, o que te segue e já te amparou do berço ao túmulo, há séculos, e com eles poderás deslumbrar os olhos, após longo período tenebroso, com os domínios siderais.
Vamos, pois, terminar esta reunião cristã, com a prece que vou transmitir aos assistentes, que a repetirão ao divino Mestre — Jesus.
Deus, Juiz Supremo de todas as consciências, Pai compassivo e misericordioso, Soberano de tudo quanto existe no Universo ilimitado, aqui tendes, com as almas prosternadas e contritas, humílimos filhos vossos, que só têm um objectivo a culminar:
a Redenção de nossas almas, que muito carecem de vossa incomparável protecção!
Abençoai todos quantos se acham aqui congregados, incrustando em todas as almas presentes o símbolo da cristandade — uma cruz — simbolizando a Fé, a resignação e o sacrifício nos instantes de provas remissoras, confiança ilimitada em vossos desígnios, suportando-a heroicamente, em nossos ombros frágeis, tal qual Jesus o fez, até que possamos depô-la no Calvário bendito da Salvação de todos os seres, para que tal Fé não seja obscurecida pelo fanatismo, e sim se torne consciente, alicerçada nas Leis sacrossantas que tão bem se fundem no "Amai-vos uns aos outros", preceito de harmonia, de sentimento altruístico.
O amor é um excelso sentimento, quando não contém um átomo sequer de egoísmo, de servilismo, de prepotência, e, por isso, mais se sublima quando se assemelha ao de Jesus:
a piedade, que é o amor — luz, sem exigir recompensas, consagrada a todos, indistintamente, sem resquícios de domínio, transformada em compaixão pelos que sofrem na alma e na matéria; não é o sentimento impulsivo de escravidão nefasta sobre outro ser humano, cortando-lhe até a liberdade de pensamento! Esse afecto não é jamais condenado pelo Árbitro Supremo, porque se transforma, no decorrer dos séculos, em sentimento impoluto.
É ele semelhante à lagarta que se arrasta pelos caules das árvores, e mais tarde, metamorfoseada em falena subtil e alada, ascende aos ares, qual flor viva.
Não há sobre a Terra outro paralelo mais exacto da maravilhosa transformação de um ser material, que pode deixar o pó do solo e voar pelo espaço!
Espero, pois, Cláudio, que substituas o amor senhoril, egoístico e exclusivo, pelo que só desabrocha no coração dos que estão atraídos pelos fulgores celestes, pelas harmonias siderais e pelo amor ao próximo!
O intermediário de Cláudio começou a soluçar, emocionando todos os assistentes daquela reunião cristã.
— Apesar de tudo quanto desejo renunciar, para salvação de minha alma, será para mim o maior dos suplícios a separação daquela que continuo a amar sobre todas as criaturas humanas!
— murmurou o intérprete de Solano.
— É mister que transformes o amor da criatura pelo do Criador, a fim de que seja real o teu arrependimento, Cláudio!
É mister que te eleves moralmente, e consigas veemente e alentadora Fé nos desígnios supremos!
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 07, 2018 11:16 am

— A Fé será para mim a renúncia de todas as felicidades terrenas, crendo apenas nas venturas celestes, longínquas, conquistadas nos transcursos dos milénios!
— Sim; mas, essa, é a mais integral de todas as venturas humanas, porque norteia a alma para Deus e não a desvia do bom caminho.
— Deve ser Dioneia quem fala; mas, por isso mesmo, todo o meu pesar é saber que ela pode partir novamente, deixando-me em penumbra, por tempo indeterminado...
Todos os presentes escutaram, sensibilizados, as palavras que, dir-se-ia, tinham sido proferidas pelo próprio Cláudio Solano, sempre hesitante, meio contraditório, trabalhando pela dúvida e por pensamentos sombrios e eivados de egoísmo apaixonado.
— Vais receber uma prova magna da excelsitude divina, desditoso irmão! — falou Rogério, intérprete de Dioneia.
Vou partir; mas serás amparado e norteado por um fúlgido Emissário, e com ele poderás ser transportado ao Infinito e aprender que o amor predominante deve ser parecido ao de Jesus, transformado em fraternidade, isento de retribuição, de partilha ou de interesses.
Se te conservares insensível ao magno Cicerone celeste que te vai seguir através do Espaço insondável, prolongar-se-á a nossa separação, talvez por muitos decénios.
— Não! Não! Não! — murmurou a Entidade manifestante pelo campónio.
Quero tudo sofrer e cumprir, as mais torturantes de todas as punições, menos a cegueira e a tua ausência indefinida!
Ajoelhando-se, bruscamente, com os braços elevados, o camponês, interpretando os pensamentos de Cláudio Solano, exclamou, quase soluçante:
— Perdão, perdão, meu amigo, meu inesquecível Marcelo!
Quero que me perdoes, donde estiveres, e espero que te compadeças de meus acerbos padecimentos!
Apavora-me o ser cego.
— Estás perdoado, Cláudio, meu amigo! — murmurou alguém, com voz emocionada e grave, dentre os assistentes.
Todos voltaram o olhar surpreso para quem pronunciara as inesperadas e comovedoras expressões cristãs, e ficaram perplexos, ante Ismael, hirto, lívido, com o indicador da mão direita erguido para o Alto.
Márcio Taciano, entre todos os que ali se achavam, era o mais comovido, tinha lágrimas ardentes nas faces esmaecidas, murmurando:
— Nós te perdoamos, Cláudio Solano.
Mal foram pronunciadas estas palavras, todos os presentes, sob o influxo de muitas Entidades tutelares, que, embora invisíveis, ali estavam, prosternaram-se, quase que de um só impulso, e Rogério disse, com suavidade:
— Vibrai uma prece sonora, irmãos, em agradecimento às graças que vos foram concedidas, e em intenção dos sofredores que se encontram neste recinto!
Foram estas as últimas expressões do intangível ser que se manifestara por intermédio do já referido educador.
De repente, cortou os ares uma vibração inolvidável:
— Luz! luz! Eu estou enxergando todos, todos!
Deus é misericordioso, e patenteou-me sua magnanimidade, restituindo-me a visão!
Acabo de distinguir Dioneia!
Quanto está formosa e distanciada de mim. Luz! Já não me sinto maldito!
Após momentâneo silêncio, Lúcio e Ismael começaram a dedilhar as harpas, em conjunto harmonioso, modulando uma verdadeira prece de sons dulcíssimos, que a todos emocionou.
— Esta reunião — murmurou Márcio, ainda sensibilizado, jamais sairá de minha mente.
— Hei de ter saudade do que se passou neste recinto, avozinho, pois julgo haver reconhecido a voz bendita daquela que Deus me concedeu por mãe! — falou Lúcio.
— Meus filhinhos, mais tarde, quando estiverdes em pleno desenvolvimento mental, eu vos direi o que ouvi e entendi.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 07, 2018 11:17 am

A vida humana tem enigmas, que somente Deus poderá solucionar lucidamente.
A reunião desta noite foi a mais longa e inesquecível de todas as que aqui se têm realizado.
Vamos, porém, repousar agora, pois já está prestes a alvorecer.
Enquanto aqueles três seres ligados pelos elos da mais estreita afeição palestravam na intimidade de um amplo dormitório, nas sombras que rodeavam o Hemisfério Oriental àquela hora tardia, enorme falange de Entidades invisíveis se aglomeravam em redor de um fúlgido Emissário sideral.
— Estamos ansiosos por novas lutas! — diziam quase todos os seres de cores sombrias, contrastando com a radiosidade do que parecia chefiar aquela falange espiritual.
— Meus irmãos — respondeu o Mensageiro divino —, podeis ficar com os espíritos serenos e confiantes na Justiça e na protecção do divino Pai, pois, quase todos os que aqui se congregam estão sob minha responsabilidade, e, sendo ovelhas de Jesus, posso repetir as palavras memoráveis do Mestre:
"Pai, das ovelhas que me destes — nenhuma se perderá no carreiro do Mal!"
Após estas palavras, o lúcido Emissário sideral, voltando-se para Cláudio, que se achava em atitude humilde e deprimida, ao reconhecer em alguns dos circunstantes serviçais seus e companheiros de jornada, já com a aparência de seres evoluídos, envoltos em. túnicas alvinitentes e em situação superior à sua, falou-lhe:
— Ainda não me reconheceste, Cláudio Solano?
— Essa voz... sim... essa voz... lembra a de Joel Sarajevo!
És tu, meu amigo, que estás a meu lado?
— Acertaste, irmão!
Apenas reconheceste a minha voz?
— Não! Agora... mais do que a tua voz harmoniosa que me penetrou no íntimo da alma, em momentos de dores irreprimíveis, recordo-me plenamente de teu aspecto, que, por vezes, vislumbrei fugazmente, tal o fulgor do espírito radioso que teu corpo material mantinha sobre a Terra.
És belo qual eu te idealizava...
Compadece-te deste desgraçado, que, tendo possuído tesouros incalculáveis, hoje se vê despojado de tudo, sem amigos, longe da companheira de existência, e, neste instante, tem a impressão de haver recebido, por dádiva celeste, uma graça inestimável com a tua presença, Joel!
— Tudo compreendeste, amigo, que doravante assim te tratarei fraternalmente.
A inapreciável opulência que pode ser transportada ao plano espiritual, não se acha encerrada nas arcas, nem edificada nos cimos das serras.
Existe, sim, dentro da própria alma — escrínio divino — e constitui um eterno tesouro, que a ferrugem do tempo jamais destruirá: é a Virtude.
— Bem reconheço em ti o mesmo que, embora com vestes modestas, tinha arroubos de Fé e expressões que penetravam o meu íntimo, qual réstias de Sol em calabouço sombrio...
Tu e Dioneia fostes os mais excelsos seres humanos que conheci na penumbra dessa finda existência, tão fértil em dores e em pesares inconsoláveis!
— Inconsoláveis, irmão? Não temas nova invasão de trevas, desde que tenhas na mente esta aspiração:
jamais transgredir as Leis supremas.
— Obrigado, meu amigo, por tuas expressões confortadoras!
Tu, porém, que já és digno discípulo de Jesus, não poderás levar-me, agora, para onde se acha a adorada Dioneia?
Sofro, intensamente, longe daquele ser divinizado.
— Não te lamentes mais, caro irmão!
Sofre com resignação as provas imprescindíveis à depuração de tua alma de revoltado e delinquente!
— Joel, meu amigo, não me condenes, nem me abandones jamais! Leva-me à querida Dioneia!
Suplico-te essa concessão, que me fará ditoso!
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 08, 2018 10:52 am

— Há muito que eu me encontrava ao teu lado, sem que me houvesses percebido, Cláudio!
Estamos aliados, eternamente, para a campanha do Bem e da Virtude; mas, tens de obedecer, sem rebeldias, às Leis divinas.
Vou ser leal contigo: não estás em condições psíquicas de ingressar no Orbe sideral onde se encontra Dioneia, digo, a radiosa Lucídia!
— Quão profunda é a minha amargura, ao reconhecer, pelo que me dizes, a infinita dissemelhança de nossas almas:
luz e treva não se associam.
— E te consideras infortunado porque aquela, a quem consagras real afeição, está em região digna dos seus predicados morais e psíquicos?
— Não lamento a sua felicidade, e sim a nossa separação, talvez secular!
— Será o desejo ardente de vê-la a teu lado, o motivo primordial de teus esforços para o triunfo de tuas imperfeições?
Ouve uma observação fraterna:
o desejo predominante da alma deve ser o da aquisição de todas as virtudes e do perdão celestial.
Tens estado muito afastado de Deus, que nos prodigaliza a imortalidade, a vida ilimitada para a conquista das mais excelsas venturas imateriais.
— Obrigado pelo fraterno esclarecimento, Joel!
Reconheço a magnanimidade do Pai celestial, com a tua presença, pois, se me apartei da querida Dioneia, Ele me concedeu o desvelado e iluminado amigo que encontrei à beira do abismo do mais intenso sofrimento, estendendo-me a radiosa mão para não me arrojar à ardente cratera do suicídio.
— Ainda bem que reconheces a clemência divina.
— Sou ainda muito imperfeito, amigo Joel; mas imploro a tua benevolência e a tua compaixão. Desejo também que me elucides uma dúvida:
onde se encontram os que foram meus pais?
Onde estão Geleira, Apeles, Túlio Isócrates?
Quero abraçá-los, com a alma repleta de gratidão!
— A prova máxima de reconhecimento, Cláudio, melhor do que um amplexo, deve ser manifestada por uma prece sincera.
Os primeiros albores matinais fulgiram no Oriente, inundando tudo de radiosidades indefiníveis.
Na noite que precedeu a esse amanhecer, após a sua presença no Solar da Galileia, a entidade que em vida teve o nome de Joel Sarajevo, dirigindo-se a Cláudio e a outros desencarnados, ávidos de progredir, assim falou:
— Vamos peregrinar por longínquas paragens siderais, a fim de que se gravem bem em todos vós as grandes lições do Cosmo ou da Natureza.
Observai onde está a superioridade do ser pensante:
não se localiza nas vestes luxuosas, nem nas regalias e sim no recôndito de cada criatura.
Partamos, pois.
A força que detém na Terra os corpos tangíveis, e os espíritos delinquentes, deixa de existir para os redimidos e para os que se acham em santificantes excursões, proveitosas às almas que aspiram a acelerar o progresso moral, pois, as que já triunfaram de todas as expiações remissoras, não se acorrentam mais com a atracção magnética deste Orbe, podendo alçar-se ao Espaço constelado, onde lhes aprouver, sendo anulada para elas as atracções do Mal, que retêm os delituosos ao solo como se fossem penedos dentro de um revolto oceano, o intérmino pélago das paixões malsãs, dos crimes e da falta de cumprimento dos deveres cristãos!
Os espíritos sem virtudes cristãs, impuros, egoístas, perversos, estão imantados ao Planeta da Dor e das purificações excruciantes, quais os bergantins ancorados nos portos marítimos e amarrados por inquebrantáveis cabos, e só podem transitar na atmosfera terrestre, como se fossem aves de limitadas forças, e só lhes é permitido o voo rasteiro, próximo ao solo.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 08, 2018 10:52 am

Só conseguem ascender às regiões siderais, como sucede agora a muitos, quando impulsionados apenas pela força motriz do pensamento dos agentes celestes que, momentaneamente, o fazem com um objectivo humanitário e meritório.
Ides perceber as minhas palavras, dentro de poucos instantes.
Os espíritos dos seres materializados pelo domínio das paixões nefastas, sem diafaneidade, não podem invadir os Orbes superiores, destinados aos libertos de todos os erros e rebeldias; de igual modo que os habitantes de um continente não conseguem transportar-se a outro, sem elementos apropriados, sob o impulso exclusivo da vontade, em uma frágil galera, pois seria arriscada a trajectória, sujeitando-a a naufrágio iminente.
Na humanidade, seleccionada por diversas raças e distintos caracteres inconfundíveis, estas raças raramente se aliam e ainda patenteiam os defeitos ou as nobres qualidades de cada agrupamento.
Os habitantes do Norte não têm os característicos físicos dos da região meridional.
Cada agrupamento fica em sua esfera, e somente com a evolução espiritual de todos os seres humanos haverá igualdade de condições individuais ou colectivas, de meios de subsistência e de acções voluntárias.
Ora, os espíritos de todas essas criaturas podem renascer onde houver carência, conforme o mérito ou o demérito de cada ente humano, que, quanto mais evoluído for, menos egoísta se manifesta, sem amor excessivo a determinada região terrena, à qual se sente aprisionado apenas pelas recordações da família, dos seres amados, e, portanto, idolatrando sua Pátria, não menospreza a de outro companheiro de romagens planetárias.
É uma prova de crueldade querer alguém trucidar um irmão, porque este nasceu além ou aquém de uma serra, de um rio, ou de um mar, quando o supremo Factor do Universo nos concede o excelso exemplo de coesão de todo o planeta, acendendo a mesma lâmpada, uma para o dia, o Sol, que a todas as nações ilumina, e outra à noite, igualmente formosa, a Lua.
Irmãos, tudo demonstra que a Humanidade, embora seleccionada por diversidades raciais e culturais, marcha para um único objectivo:
a fraternidade; mas, para tal conquistar cabalmente, os milénios escoarão...
Porquê?
Porque o progresso individual deve ser atingido penosamente, através de lutas e esforços ingentes!
Não é possível, por enquanto, igualar, por exemplo, a cultura de um indivíduo da raça grega com a de um hotentote inculto, nem nivelar Platão a um selvagem das mais afastadas regiões do planeta terráqueo, pois o tirocínio espiritual e intelectual de uns não pode ser posto em promiscuidade ou confronto com o de outros. Assim acontece aos espíritos:
celerados, antropófagos ou corruptos não podem fruir a mesma regalia, no plano espiritual, de Jesus.
A diferença é sensível e inconfundível.
O lastro dos crimes retém os desencarnados nas trevas planetárias, enquanto que a prática das virtudes e da benemerência, aliada à cultura psíquica e à abnegação, aprimora os seres humanos, outorgando-lhes culminâncias e primazias espirituais que os tornam detentores dos galardões divinos.
Assim como há diversidades raciais, apresentando à análise científica tipos tão dissemelhantes, na conformação óssea, coloração da epiderme, dos olhos, dos cabelos, também existem quase que infinitas gradações espirituais, desde o ser animalizado, embrutecido, com impulsos tigrinos e instintos sanguinários, até o mais puro, alvinitente, fúlgido, com aparência astral.
Os espíritos imperfeitos, os que têm graves delitos a remir, não merecem ampla liberdade, da qual poderiam fazer uso lamentável, e não têm permissão para ascender ao Espaço ilimitado, exclusivamente sulcado pelas caravelas celestes ou astrais, o qual só deve ser transposto pelas Águias siderais.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 08, 2018 10:52 am

Poderá um galináceo cindir a amplidão etérea, qual águia real?
Não! Há uma linha divisória para o surto das almas libertas da matéria, e, só em casos excepcionais, tal o que sucede neste instante, sob a responsabilidade de um redimido, culminando um objectivo moral e instrutivo, poderá ser transposta. Eis a verdade.
Após este exórdio, imperfeitamente reproduzido, o radioso Mentor de Cláudio Solano e de outros Espíritos em igualdade de condições, seguido de outras pulcras Entidades de igual hierarquia espiritual, com a aparência de estrelas humanizadas, prendendo as diáfanas mãos às dos que iam receber inesquecíveis elucidações em pleno Espaço constelado, partiram velozmente para as regiões siderais.
— Observai, irmãos — disse Joel aos companheiros de jornada etérea — como ainda sentis a atracção do sombrio Planeta que deixamos por momentos!
— É verdade — murmurou Cláudio — tenho a sensação de que, se me deixardes livre, tombarei no vácuo.
— O vácuo, propriamente, não existe na Criação, amigo! — respondeu-lhe Joel.
O que todos supõem vazio está preenchido pela atmosfera nos arredores deste Planeta, e pelo éter interplanetário, desde que a região esteja afastada de qualquer Orbe material.
Avalio, porém, quão penosa é a tua impressão, Cláudio, igual à de todos quantos se erguem acima do horizonte terráqueo antes que termine a atracção existente para todos os seres que não são alados, o que não sucede mais quando finda o lastro dos delitos e o das acções condenáveis.
Justamente esse temor é que inibe os seres materializados de se distanciarem da Terra.
A alma humana está chumbada ao solo — em cuja superfície transgrediu as Leis divinas e sociais; mas perde a força centrípeta desde o resgate de todos os débitos, tornando-se, desde então, imponderável, etérea, sideral.
De igual maneira que os encarcerados não têm permissão para se ausentarem da masmorra, senão em condições excepcionais, os calcetas divinos também não possuem o livre-arbítrio ilimitado, não podendo evadir-se do cárcere terreno, quando lhes apetece.
— Meu querido Mentor — murmurou Cláudio, com entonação indefinível, predominando tristeza infinita — neste momento em que vejo fugir a Terra, na qual tanto padeci, invade-me a alma incontida saudade do próprio sofrimento e da região onde me - angustiei.
Quanto desejo, após nossa maravilhosa excursão sideral, rever o Solar da Galileia, onde me prendem dolorosas e felizes recordações.
— Essas expressões de teus sentimentos, amigo e irmão, muito dignificam o teu espírito, patenteando que o egoísmo que o ensombrava já foi dissolvido, sabendo amar a própria dor.
Os ideais que desabrocham em teu íntimo são nobres e merecem incentivo.
— Obrigado!
Sinto que não serei mais capaz de humilhar quem quer que seja, nem aniquilar uma vida.
— Louvo teus sentimentos, prezado irmão.
Agora porém, admira o que nos rodeia:
o esplendor da ilimitada Criação!
Atónito, perplexo, fascinado, Cláudio Solano, com a impressão de ser arrojado a inefável abismo, fixou o olhar alucinado em torno, murmurando, timidamente:
— Parece-me que, depois da prova acerba da cegueira... o excesso de radiosidade enlouquece, Joel!
— Essa a sensação de todos os seres que, pela vez primeira, se encontram na amplidão sidérea, onde se acham todos os corpos celestes, Cláudio!
No entanto, o homem que se rasteja pelo pó também é um dos habitantes do Espaço, um ser celestial, pois, a Terra, a exemplo de todos os outros planetas, está bailando no intangível, na atmosfera que, vista ao longe, observada com a curva que caracteriza a cúpula do globo terráqueo, todos denominam Céu (onde nos encontramos agora)...
Houve, após estas palavras, um prolongado silêncio; o deslumbrante aspecto da Criação empolgou os peregrinos siderais.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 08, 2018 10:52 am

A Terra, vista do Espaço, tinha a aparência de uma estrela veloz, fendida ao centro, contrastando uma parte iluminada pelo fulgor intenso do Sol e a outra sombria, trevosa, onde reinava a noite, parecendo que um manto negro e vaporoso envolvera a fronte luminosa de uma divina Salomé — a inesquecível dançarina de Herodes, já metamorfoseada em deusa resplandecente.
O movimento observado por Cláudio, em tudo o que sua visão alcançara, dotado, então, de uma faculdade perceptiva indescritível, como se a luz, recalcada durante a cegueira, houvesse aumentado, naqueles instantes de infiltração radiosa, decuplicada por um poder extra-humano, ofuscava deslumbrantemente.
Distinguiu, então, a incalculável altura do Orbe terrestre, a infinidade dos sistemas planetários, a rotação e a transladação dos corpos astrais ciclópicos!
As estrelas distinguiam-se dos planetas pelo fulgor contínuo e intenso, irradiado de toda a superfície, quais crisântemos de luz guarnecendo a maravilha do Espaço, cujo limite era impossível atingir pelo olhar.
— Joel, por que me trouxeste tão alto, para melhor perceber a minha dolorosa miserabilidade?
Quem sou eu, senão um átomo de areia em confronto com a vastidão deste Oceano etéreo e portentoso que nos circunda?
— Sim, irmão Cláudio, somos realmente átomos do Factor Supremo do Universo; mas, também, herdeiros do Omnipotente, desse Criador.
Viste apenas o limiar do Infinito.
O Pai celestial, e nisto consiste o seu incomparável perdão:
galardoa os delinquentes, os transgressores, após cumprirem todos os seus árduos deveres, todas as penalidades imprescindíveis à remissão das transgressões.
É o que sucede à lúcida irmã Dioneia, hoje Lucídia!
— Dioneia é integralmente ditosa no Orbe dos redimidos? Onde se encontra, Joel? — interpelou Cláudio.
— Não, amigo, porque se recorda, com indizível emoção, de todos os seres queridos que se acham imersos na penumbra planetária, e sofre com a separação dos que são caros à sua alma luminosa!
Desejando vê-los com frequência, embora desfrute inexprimível conforto, percebe, através das distâncias interplanetárias, suas lágrimas e seus pesares, e acelera sua descida até eles, para lhes inspirar resoluções e pensamentos dignificadores!
— Como podeis elucidar esse fenómeno? — indagou um dos componentes do grupo.
— Irmãos, esse fenómeno por muito tempo ainda ficará sem solução no Orbe sombrio de onde partimos há momentos:
os espíritos despojados da matéria concreta têm um grau de percepção que não se pode explicar, dentro do vocabulário terrestre; não só as criaturas, mas também determinados minérios permitem encurtar as distâncias geográficas, possibilitando a transmissão, mútua, dos pensamentos e até da própria voz e das imagens (1).
Vejamos, porém, novamente a Natureza — a epopeia divina; vejamo-la, com a alma em recolhimento, vibrando uma prece veemente, que expressará ao mesmo tempo admiração, assombro e reconhecimento ao Ente supremo — Deus!
Surpreendente espectáculo extasiou os peregrinos do Espaço:
as deslumbrantes estrelas e os planetas, diversos no aspecto pela fulguração, rodopiavam quase todos silenciosamente, formando elipses e círculos impecáveis, como se estes tivessem sido traçados a giz de luz pelo inimitável Geómetra do Universo.
Quando conseguirão os seres planetários idealizar e construir algum motor, em pleno movimento, em vertiginosa expansão giratória, sem ruído, sem uma vibração, qual águia celeste, ou esfera de plumas arrojada aos ares pela mão leve de uma criança?
Raios luminosos entrecruzavam-se, vapores incandescentes interpenetravam-se, tudo formando um conjunto estupendo, alucinante.
Aos poucos, os peregrinos se aproximaram de um astro de inenarrável esplendor, com irradiações esmeraldinas, de onde evolava suavíssima harmonia, inebriando os que a escutavam.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 08, 2018 10:52 am

Dirigindo-se a Cláudio, disse Joel:
— Este formoso Éden, que ora vemos, irmão, serve de guarida ao espírito de Dioneia, da qual foste consócio em duas etapas terrenas, tendo sido ela quem, aos poucos, ergueu o nível moral de tua própria alma.
Quero que graves, bem no recesso de tua mente, o local onde se encontra nossa irmã, para avivar em ti o desejo ardente de redenção, abreviar assim o suplício da separação (aliás aparente) de dois seres que já viveram mais de uma vez sob o mesmo tecto. Gravai todos vós este portentoso espectáculo antes de regressarem ao Solar da Galileia.
— Mais alguns momentos — murmurou Cláudio, emocionado.
— Quero conservar, indelevelmente, dentro de minha alma e por todo o sempre, o deslumbramento deste Orbe divino.
— Todos os orbes são divinos, irmão; os mundos, porém, e assim os espíritos, têm diferentes gradações: há os luminosos e os iluminados, os que servem de abrigo aos mais excelsos ou aos mais tétricos seres.
É mister, agora, irmão, o nosso regresso ao planeta da Lágrima, onde tendes a desempenhar tarefas espirituais.
Os que nos viram alçar aos esplendores do Firmamento, estão pensando serem vítimas de inqualificável injustiça.
— Como sabes, Joel, o que está ocorrendo no Solar da Galileia, que se acha a uma distância incalculável do local em que nos encontramos presentemente?
— Por uma faculdade perceptiva muito desenvolvida nos desmaterializados, de determinada hierarquia espiritual. Esses sentem a mais leve vibração atómica, o menor ruído, as sonoridades das preces; observam todos os sucessos do Cosmo, as irradiações das almas em aflição.
Por isso, quando alguém, em angústia, recorre a uma Entidade radiosa, pode ser atendido, prontamente, às vezes, por diversos Mensageiros celestes, maravilhosos aparelhos psíquicos, transmissores maravilhosos.
Não me é permitido, irmãos, satisfazer mais plenamente a aproximação de todos vós do local da harmonia que ouvimos; o livre-arbítrio é limitado; só os redimidos de todas as máculas têm ampla liberdade de locomoção, sendo-lhes permitido o ingresso voluntário onde lhes aprouver, não sucedendo o mesmo aos que ainda se acham em provas no labor do seu triunfo espiritual.
— Somos então, objectou um dos excursionistas etéreos, coarctados em nossas aspirações, mesmo que não tenhamos intuito de prejudicar a quem quer que seja, Joel?
— A liberdade outorgada aos habitantes terrestres, irmão Esténio, é limitada, para coibir abusos e delitos lamentáveis, e isso constitui um dos acerbos pesares para as almas que têm ânsia de autonomia, que é sempre a derradeira conquista, o galardão supremo que os espíritos alcançam!
A liberdade ampla e incondicional é uma das mais ardentes aspirações do calceta planetário.
A criatura pensante tem que tomar parte activa em inúmeras refregas, purificando, lucificando a alma, sob as inspirações de seus radiosos Mentores, de seus bondosos Pais, seus mestres e das Leis Divinas e sociais, sempre desejando triunfar para a conquista da herança celeste: a isenção de provas, a felicidade e a remissão eternas.
Não perdem, nunca, os que pelejam na Terra e nos planetas similares, os seus esforços, pois, após todas as lutas profícuas, plenamente resgatados todos os delitos, lucificam-se as almas afeitas ao cumprimento de todos os deveres — sociais e psíquicos, e, incapazes da prática do Mal, inteiramente devotados ao Bem e à Virtude, despojam-se de todas as máculas, perdem a atracção da matéria, e, então, conseguem ampla, máxima Redenção, que é o galardão de todos os seus sacrifícios e sofrimentos, podendo ter ingresso em todos os mundos planetários e estelares, imperfeitos ou impecáveis, livres do látego da dor e aptos para a execução dos mais dignificantes empreendimentos!
Por instantes, os peregrinos do Espaço permaneceram em silêncio, contemplando o núcleo resplandecente de um corpo astral cujo aspecto era o de uma turmalina verde incendiada, e de onde se evolavam as vibrações sonoras que ondulavam no éter, percebendo todos que os seres angelizados que nele se abrigavam estavam irradiando uma prece maravilhosa, e quantos desta compartilhavam eram verdadeiros instrumentos harmoniosos ou harpas humanas quintessenciadas.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

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