Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 24, 2018 12:12 pm

Márcio aprovou-lhe a resolução e, co-participando dos até então infundados temores da jovem esposa, explicou como fazer o trajecto preferido pelo filho quando ia ao Solar das Sereias.
Antes de sair, Isócrates havia dito à filha, atemorizada por presságios que ele julgava infundados:
— Não te aflijas, filha, Marcelo não tem inimigos, e, além disso, foi acompanhado de Plutão, que, em caso de perigo, seria o melhor defensor!
— Bem o sei, meu pai, e dou graças a Jesus por ser Marcelo tão estimado por todos; não sei, porém, se Cláudio Solano ainda se encontra no alcáçar...
Acho-o tão transformado e sem critério!
— murmurou a jovem, não querendo despertar suspeitas sobre o verdadeiro móvel de seus receios, que julgava legítimos, depois que se capacitara da hipocrisia do Conde de Morato.
Geleira e Márcio estavam de acordo com as apreensões da nora; Túlio, porém, a todos tranquilizou, dizendo:
— Hoje estive com um dos agregados do Solar das Sereias, e soube que Cláudio vai partir para ignorada região.
Todos que o conhecem têm observado a mudança operada em suas atitudes...
e julgam que seja ele levado à loucura!
— Que Jesus se compadeça de Cláudio e lhe permita recobrar o senso... pois sempre foi o melhor companheiro de Marcelo, mostrando ser amigo verdadeiro! — murmurou Márcio, sentindo-se inquieto, embora não justificasse os temores, tanto quanto Dioneia, que acreditava nos presságios qual as pitonisas da Grécia, sua pátria.
Ao sair, Túlio, vestindo espesso casaco, de vez que o tempo ameaçava temporal, dissera, para destruir fúnebres vaticínios:
— Até breve! Voltaremos dentro em poucos instantes, trazendo Marcelo, para tranquilidade de todos!
Havia ele desaparecido em uma curva da estrada, quando, às súbitas, surpresos e assustados constataram, os que haviam permanecido no Solar do Cisne, a volta de Plutão, com a cabeça ensanguentada, ganindo e deixando suspeitar que algo de muito grave havia ocorrido.
Aproximando-se, tentou ele segurar pelas calças o velho Márcio e arrastá-lo para um local que só ele conhecia.
Compartilhando, então, da angústia da nora, e quase desfalecendo, murmurou a custo:
— Alguma coisa, muito desagradável, deve ter acontecido a meu filho!
Chamou alguns servos mais dedicados, armaram-se todos, e saíram, estugando os passos, e logo divisaram, distantes embora, meio indistintamente, os vultos de Túlio e Apeles Isócrates, que não tinham visto Plutão, porque este não regressara pela estrada principal, e sim por um atalho.
Arrastando-se quase, quis Plutão seguir os que iam à procura de Marcelo; mas, a dor que o atormentava fez que permanecesse inerte, à soleira do castelo, arquejante, após haver cumprido o sagrado dever de indicar à família do seu desditoso dono o que ocorrera.
Ao avistar os indecisos vultos de Túlio e seu filho, Márcio Taciano gritou por seus nomes.
Cientes então do regresso do cão, ferido, dirigiram-se ao castelo de Cláudio Solano, em busca de notícias tranquilizadoras.
Chegando, porém, na encruzilhada que constituía uma das divisas dos dois solares, quase nas fronteiras do Epiro, avistaram, em decúbito dorsal, com o braço esquerdo curvado sobre o peito, e o direito formando um ângulo recto sobre o solo, o cadáver do infortunado filho de Márcio Taciano.
Um grito, em uníssono, vibrou:
— Marcelo foi assassinado!
— Meu filho! meu adorado filho!
Que malvado teve coragem de lhe tirar a vida... sendo ele tão generoso e bom?! — exclamou Márcio, abalado por soluços incoercíveis.
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Ave sem Ninho

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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 24, 2018 12:12 pm

Explosões de dor e de indignação partiram de todos, ao constatarem o doloroso sucesso.
O infortunado progenitor de Marcelo, ajoelhando-se, verificou que finalizara a vida daquele ser querido.
Desolado, viu o punhal corso cravado nas costas, do lado esquerdo do cadáver.
Com a mão trémula por indómita emoção, Márcio retirou a fatídica arma do corpo do filho, dizendo, em prantos:
— Hei-de guardar este maldito punhal, e por ele descobrir o assassino do meu querido Marcelo!
— Precisamos comunicar o acontecido às autoridades — pôde murmurar Apeles contristado.
Vou regressar ao solar, para com as devidas precauções preparar os ânimos, antes que seja conduzido o cadáver.
Além disso, o temporal se aproxima.
— Eu te acompanho, meu filho! — disse Túlio, prevendo o golpe, para a alma da sua estremecida Dioneia e para a desventurada mãe do assassinado.
Dioneia, no alpendre do solar, tentava penetrar as trevas nocturnas com olhar lacrimoso, depois de haver orado fervorosamente para que o caro consorte voltasse ao lar sem que lhe sucedesse qualquer acidente.
De súbito, divisou, na penumbra da noite, os vultos cambaleantes de Apeles e seu pai.
— Que aconteceu a Marcelo? — interpelou com alterada voz, tendo ao lado Geleira, cujo coração materno também augurava alguma funesta ocorrência para com o filho.
— Coragem, filha, não te entregues ao desespero...
— respondeu Túlio, abraçando-se àquela que se considerava, até então, mãe venturosa.
Um duplo grito ressoou e as duas infortunadas damas caíram, às súbitas, sobre um canapé, semi-amparadas por Apeles e seu consternado genitor.
A dor moral... quem a descreve?
Quem poderá encontrar no vocabulário humano expressões interpretativas do que se passa no recesso de um coração sensível, no momento em que é penetrado pelo ferino punhal do sofrimento, quando compreende que toda a recôndita ventura arquitectada rui por terra, desmoronando-se todos os sonhos de felicidade que abrigava!
Dir-se-ia que, à semelhança de Pompeia, esfacelada ao furor de um devastador abalo sísmico, os escombros que subsistem — onde havia mansões ditosas, castelos de mármore e rendilhada arquitectura — à violência da convulsão do solo, verdadeira coreia vulcânica; tudo é tragado por fumegante abismo, que entulha também os corações agitados pela desdita, deixando-os imersos em ruínas, em cinzas, em granito estilhaçado, palácios de sonhos de ventura extinta.
Assim sucedeu àquelas desventuradas, mãe e esposa, cujas vibrações de sofrimento indefinível se confundiram, não percebendo que estavam remindo tremendo delito que, no passado remoto de ambas, haviam perpetrado em comum, embora então dele deslembradas.
Qual das duas sentiria maior crepitação das vorazes chamas da dor?
A progenitora, que concebera e criara o filho com o próprio sangue?
Mãe é síntese de carinho, de abnegação, de ternura, de sacrifício, de labor sagrado, de imolação voluntária... é fragmentar o coração por diversos seres, continuando integral para o amor que consagra a todos eles.
Esposa — alma bipartida, da qual uma das metades fica fazendo parte integrante da do outro cônjuge — consócios ambos da mesma existência, alegre ou penosa, para juntos galgarem o calvário das provas terrenas!
O amor conjugai funde em uma só as duas almas para a consecução do mesmo excelso plano:
atrair outros Espíritos, ávidos de retornar à batalha da vida planetária, a fim de os encaminhar para o Bem, norteando-os para Deus, para a Eternidade — que é o porvir da Humanidade universal!
Consorciada a jovem castelã havia apenas um ano de suave decurso, sem uma nuvem de dissabor, amando com ternura infinita o companheiro de existência, o qual lhe correspondia o afecto com dedicação inexcedível, aquela fracção de tempo
transcorreu serenamente qual sonho de inebriante ventura.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 24, 2018 12:12 pm

Toda essa felicidade se desvanecera de súbito...
Via-se quase, qual outrora, órfã de mãe, tendo sua família perdido todos os haveres, quando ela e todos os que lhe eram caros, exaustos, planearam reencetar a forçada peregrinação para o Epiro (onde lhes restavam alguns parentes em condições prósperas) foram convidados a permanecer no castelo.
Recordou ela, naqueles pungitivos instantes, as palavras, quando iam partir daquele pacífico remanso, logo após o passamento de sua infortunada genitora:
— Domine — dissera Isócrates, emocionado — devo deixar-vos, por todo o sempre, mal alvoreça o dia!
Nunca me pareceu tão formosa esta tarde primaveril, contrastando com o negror do sofrimento que jaz em meu coração...
— Não vos constranjo, nem aos que muito amais, domine — respondeu-lhe Márcio, também comovido, interpretando a tortura que martirizava a alma do desditoso ancião.
No entanto, eu vos convido a permanecer neste solar amigo, pois espero que, com a protecção de Jesus, jamais vos faltará o que for mister à subsistência de vossos entes amados...
— Bem o sei, domine; mas não devo ultrapassar a generosa hospitalidade que nos dispensastes.
Encontramo-nos nas fronteiras da Dalmácia; estaremos em breve no Epiro, onde temos alguns parentes e contamos com a misericórdia divina que nunca nos abandonou nos abismos da existência.
— Bem sabemos, domine, que não sois aventureiros, e sim nobres criaturas, arrojadas da opulência — pelo poder invencível do Destino — ao solo eriçado de pedregulhos; por isso, se não vos desagradar permanecer neste alcáçar, aqui ficareis, novos componentes de uma família única...
— Aqui, domine, é uma das mansões dos deuses tutelares, que hei conhecido sobre a Terra, destinada aos que sofrem! — exclamou Túlio com os olhos fúlgidos de lágrimas.
Não queremos, contudo, abusar da hospitalidade cristã.
É forçoso, pois, o recomeçar nossa dolorosa peregrinação, até que meus olhos — que só enxergam o negror do futuro depois da partida de minha adorada companheira — possam ser deslumbrados com a luz inextinguível da Eternidade.
— Sabemos que sois escrupulosos e dignos das bênçãos divinas; mas o nosso dever — humano e cristão — é abrir as portas de nosso lar aos que não o têm.
— Com isso provais, domine, que não sois unicamente nobre pela estirpe, mas pela alma, que já possui a verdadeira nobreza espiritual.
Voltemos a alguns meses antes.
— Nosso destino não depende de nossa vontade, mas da execução das Leis Supremas que regem o Universo! — disse Márcio.
Suponho, entretanto, que podemos modificar o futuro de nossa alma, não transgredindo as leis sociais e celestes, sendo probos, justos e laboriosos.
Assim, naturalmente, Deus, que é imparcial Juiz, fará justiça, concedendo-nos a melhoria de situação merecida, quando se extinguir nossa vida terrena.
No entanto, muitas vezes, entes que são íntegros no cumprimento dos seus deveres, justos e laboriosos, em cujo número incluo o próprio domine, são presas de sofrimentos, e, parece, a desdita se aloja em seus lares, a penúria dos seres queridos lhes tortura os corações.
Por quê? Às vezes, caro amigo, penso qual os brâmanes:
devemos ter mais de uma existência planetária, resgatando em uma vida de lutas incessantes, de submissão e virtudes cristãs, crimes e arbitrariedades cometidos em séculos passados.
— Devo, pois, domine, em transcorrida existência, ter sido impiedoso e perdulário! — exclamou Túlio com incontida amargura.
— Quem fomos nós no pretérito milenário de nossa alma, e quem seremos na eternidade futura que nos aguarda, domine? — respondeu-lhe Márcio Taciano, perplexo.
Seja, porém, verdadeira ou não, a crença dos brâmanes não está em oposição ao Cristianismo que professamos, qual o pregou Jesus, pois, afirmaram os Apóstolos que, por vezes, Ele se referiu a uma existência transcorrida e substituída por outra, fazendo crer que João Baptista havia sido Elias e que para "poder-se ver a face do Pai Celestial é mister haver nascido não uma, porém, muitas vezes"...
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 24, 2018 12:12 pm

Se Ele assim falou, não devemos pôr em dúvida as suas palavras, quando afirmava que não basta uma vida só, e sim diversas, no plano material, para que seja conquistado o mérito de poder deixar de ser habitante terrestre, para se transportar aos mundos ditosos do Universo, onde só ingressam os redimidos, os limpos de máculas espirituais.
Não é isso mais confortador do que acreditar nas geenas, nas punições perpétuas, que são o aniquilamento da fagulha divina, uma vez condenada ao sofrimento sem remissão?
Que valeria a imortalidade em um local de suplícios infernais?
Não seria melhor, ou mais razoável, então, o Nirvana ou o Nada por futuro?
— Sim! — confirmou Túlio, em tom convicto.
Se houvesse, de facto, mais de uma existência terrena, quem suporíeis tenha sido eu, domine?
— Não ficareis ofendido, se vos disser o que imagino?
— Não; estamos no plano das hipóteses, desejando embora que fossem verdades inegáveis.
— Pois bem, domine, julgo que fostes possuidor de grandes cabedais, de opulência régia; mas fizestes mau uso de vossos haveres, deixando muitas vezes sem tecto os vossos serviçais, despedindo-os impiedosamente.
Fostes, porém, sempre muito probo, incapaz de usurpar quem quer que fosse, e abristes algumas vezes as portas de vosso palácio aos peregrinos, aos flagelados pela penúria das situações angustiosas.
Quem sabe, domine, não me acolhestes sob vosso tecto, e eu estou remindo um sagrado débito na actualidade?
Quem sabe se somos velhos aliados de há muitos séculos?
— Assim o dissestes, domine, porque sois dadivoso e merecedor das graças divinas! — exclamou Túlio Isócrates muito emocionado.
— Parece-me que estás ficando louco! — obtemperou Geleira, a esposa de Márcio, que discordava quanto ao acolhimento dispensado a Túlio e família, mormente depois de haver percebido a estreita afinidade existente entre o filho e a formosa quanto infortunada Dioneia.
— Também os adversários do Cristianismo acoimam de louco o Mestre bem-amado, Geleira! Como, porém, meu pensamento não tem travas, hei-de agir como me aprouver, e tu, Geleira, tens a liberdade de raciocinar segundo teu agrado. Deus concede uma lâmpada — a alma — a todos os seres humanos, e estes podem nela deitar mais óleo ou deixá-la apagada.
Não estamos de acordo; mas, não poderás impedir que eu pense de modo contrário.
Depois de assim se expressar, voltando-se Márcio para o humilhado Túlio Isócrates, serenamente lhe falou, resoluto, enquanto Geleira saía com arrebatamento.
— Quero, domine, que, doravante, aqui estejais sem constrangimento, co-participando de nosso lar, de nossa família; meu querido Marcelo pretende desposar vossa prendada filha Dioneia, que me parece tão perfeita no corpo quanto na alma, e espero que a sua pretensão não seja recusada.
— Muito me desvanece o vosso honroso pedido, domine, que meu coração acolhe com a maior das alegrias, maior do que se o pretendente fosse o herdeiro de um trono!
Confesso-vos, porém, com lealdade, que um dos motivos de minha pretendida retirada de vosso hospitaleiro lar, era o afecto que minha experiente percepção já havia observado existir nos corações de nossos amados filhos, Marcelo e Dioneia.
Compreendi que seria intolerável a nossa permanência aqui, estando em situações opostas: ele, cercado de todos os prestígios sociais, belo, denodado, opulento, podendo pretender uma donzela de igual categoria; minha Dioneia, pobre, relegada para a casta dos humildes, embora houvesse nascido também em alcáçar do Epiro, em era próspera de nossa existência...
— Podemos, acaso, ser responsáveis pelas bruscas e dolorosas quedas da fortuna, domine?
Quem sabe o que nos aguarda no porvir?
Quem nos dirá que não sejam talvez invertidas as nossas condições, no transcurso dos tempos futuros?
Quem sabe se a vossa fortuna será reconstituída e a minha consumida? — disse Márcio Taciano a seu hóspede, profeticamente, iluminado por súbito clarão que o fazia devassar os arcanos porvindouros, sempre tão obscuros e impenetráveis para os habitantes terrestres.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 24, 2018 12:12 pm

— Não, domine! — exclamou Túlio Isócrates, com veemência — se tal ocorresse, meu lar seria o vosso, tal a gratidão que vibra em minha alma por tudo quanto nos tendes feito! Digo-vos mais:
não considero desdouro o ser vosso servo, pois, a grandes e humildes sabeis tratar com lhaneza e bondade, tornando-se ventura o ser amigo ou servidor de Márcio Taciano!
— Obrigado por vosso generoso julgamento, caro amigo, e folgo por saber que a solicitação de Marcelo é acolhida com prazer.
Túlio Isócrates levantou-se, e, comovido, abraçou o digno senhor do Solar do Cisne e ao jovem Marcelo que, naquele instante, entrou no gabinete.
— Eu te acolho em meu coração, como se foras outro filho bem-amado, Marcelo! — exclamou Túlio, radiante, abraçando o noivo de sua estremecida Dioneia.
És, para mim, mais do que um príncipe encantado, pois, a bondade de tua alma te faz mais inapreciável do que se fosses o herdeiro de um trono.
A tua fidalguia é a do próprio espírito: tem tanto valor na Terra quanto, por certo, nas regiões siderais!
No decurso de um mês foram preparados deslumbrantes festejos para as núpcias de Marcelo com Dioneia, tudo com intenso júbilo, do qual apenas parecia não participar a genitora do noivo. Contrastava a tristeza de Geleira com as demonstrações de alacridade que todos os habitantes do castelo manifestavam.
Depois, decorreu um ano de regozijos e incessante harmonia, num ambiente propício à felicidade terrena, compartilhada por todos quantos conviviam no Solar do Cisne.
Uma tarde, porém, inesperadamente, a monotonia do alcáçar foi interrompida pelo regresso de Cláudio Solano, após ausência de um lustro, durante o qual esteve peregrinando por longínquas paragens.
Acolhido fraternalmente por todos da família e residentes, a princípio mostrava-se expansivo o recém-chegado, relatando episódios interessantes da sua estada no Tibete, nas proximidades do Himalaia e no Indostão, constituindo essas narrativas motivo de entretenimento, em uma época em que havia carência de tal nas habitações campestres.
Cláudio, culto e destemido, acreditava apenas no que lhe ferisse os sentidos:
combatia o sobrenatural, o espiritual, dominado por ideias de cepticismo, e só cuidava em fruir coisas mundanas, gozos materiais, tendo por único objectivo a conquista da felicidade, por meios legais ou mesmo condenáveis.
Às vezes, a palestra amistosa no Solar do Cisne era perturbada pelo antagonismo do que ele manifestava, de encontro às ideias sãs que os assistentes professavam sobre a imortalidade da alma, a recompensa aos heróis espirituais que, na Terra, são os mais austeros cumpridores das leis humanas e celestes.
— Como crer na sobrevivência do espírito — dizia Cláudio com ênfase — se perdi meus pais tragicamente, e, até ao presente, nenhuma prova houve que lhes confirmasse a existência, eclipsando-se ambos, desde então, de minha vista, deixando-me só para as refregas da vida, muitas vezes em luta com temíveis adversários?
Ninguém, pois, me convencerá de que deva amar o meu próximo qual se fora meu irmão, se este não perderá ocasião para me tirar a vida... a única que me interessa e que, realmente, possuímos, enquanto não tombamos no sepulcro!
Relego a outra aos filósofos gregos ou romanos, aos utopistas de todas as eras!
Praticar o bem, imitando Jesus, rodeado dos maus e perversos deste mundo, só terá uma consequência, um epílogo dramático: a cruz, o patíbulo!
— Nem sempre professaste essas teorias, Cláudio! — falou-lhe certa noite Marcelo.
Fomos companheiros desde os primeiros tempos de existência, e só agora não estamos de acordo.
Voltaste transformado, depois de longa peregrinação pelo Oriente, do berço do Espiritualismo, da Fé e da Resignação.
Regressaste céptico e revoltado.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 25, 2018 12:03 pm

Estranho muito como te metamorfoseaste com o negro pessimismo que se apoderou de teu coração, outrora tão sensível e esperançoso. ..
— Porque somente agora compreendo, melhor do que antigamente, a minha situação, sempre ferido pelo punhal da adversidade, sem que me lembre haver prejudicado a ninguém.
Sinto-me invadido de revolta e pessimismo, sem um incentivo para a luta da existência...
— É a reacção do intenso labutar durante o tempo em que estiveste na Cruzada; é a bonança após a tempestade! — exclamou Márcio Taciano, para reanimá-lo.
— No entanto, domine, nunca me senti tão infortunado quanto agora! — murmurou Cláudio, com intensa melancolia.
— Pois bem, meu amigo, que considero quase um filho — prosseguiu o ancião — hás-de permitir-me um conselho paternal:
Volta-te para Jesus, implora-lhe as forças que ora te faltam para as refregas morais que todos somos compelidos a enfrentar, a fim de que, perante o Pai Celestial, cada um receba o quinhão merecido...
— Não o creio, domine, porque meu mal é injusto.
Jesus não intervém em nossas existências.
De outra forma, não teria eu perdido tão cruelmente meus pais, que eram probos e bons...
— Sofres de um mal indecifrável, Cláudio!
Por que não dominas o coração, qual se fora este um corcel em vertiginoso galopar, que te arrojará a um despenhadeiro, a fim de que sejas salvo e não cruelmente esfacelado?
— Eu não tenho a precisa coragem de reagir.
O corcel já me arrastou ao vórtice, que não temo, pois será preferível a viver na expectativa de ser atirado a um abismo, cuja profundidade já pressinto.
— Essa falta de confiança em teu próprio valor, domine — falou-lhe Túlio apreensivo — provém de teu menosprezo a Jesus.
Essa descrença das Leis Divinas, aliada à violência dos sentimentos de cepticismo, há-de levá-lo a um sorvedouro de infortúnios.
— Eu me julgava fadado ao heroísmo, quando batalhava na Palestina; agora, sinto-me covarde para tentar o suicídio, senão...
senão, já seria cadáver.
Não me resigno, porém, passar pela existência sem haver conquistado um quinhão de felicidade, contemplando a quem o tem.
Se ainda cresse na recompensa futura, resignar-me-ia com a aridez de minha vida.
Não crendo na imortalidade da alma, renuncio de bom grado ao que houver por hipótese no Céu, pelo que há de realidade neste mundo onde vivo.
— Tu me alarmas com essas teorias nefastas, Cláudio — reiterou Marcelo empalidecendo.
Eu prefiro a dor, a escravidão, a cegueira, todos os padecimentos humanos a cometer a mínima infracção às Leis Divinas e terrenas!
Quero estar com a consciência serena, livre de remorsos, de cilícios morais, e só assim me considero ditoso!
Tudo quanto sofro será em benefício de minha alma.
Sei que esta vida terrena é um instante apenas entre duas eternidades — uma que já nos antecedeu e outra que há-de vir — e não desejo perder o fruto de meus sacrifícios e a felicidade ilimitada me aguarda.
Não quero conquistar um gozo — por maior que seja — por meios ilícitos, que arranquem uma lágrima de dor, minha ou de outrem!
Prefiro o sofrimento que reverta em benefícios para nosso próximo e para minha própria alma!
— Assim te expressas, Marcelo, porque és imensamente feliz!
Também eu, antes da dolorosa situação em que me encontro, era optimista, e partilhava dos teus actuais pensamentos!
Todos os circunstantes fitaram-no surpresos.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 25, 2018 12:03 pm

Foi o ponderado Márcio Taciano quem replicou a Cláudio Solano:
— Não deixa de ser rude a vossa prova, domine, mas quando regressastes de uma longa peregrinação pelo Oriente, não nutríeis ideias tão trágicas.
Só agora manifestais pensamentos rancorosos, que muito prejudicam a paz de vossa própria consciência.
Dir-se-ia que, aqui, onde fostes recebido fraternalmente, tivestes exacerbada a dor que vos empolga o coração.
— Tendes razão, domine, nas vossas sensatas observações, pois, somente há poucos dias, soube do infortúnio que vos patenteei, justamente quando, contemplando as venturas de um quase irmão, Marcelo, eu supunha conquistar felicidade semelhante à sua.
— E por que não podereis conseguir ainda uma fiel e formosa consorte, igual à que tem o vosso sincero amigo e companheiro de infância, domine?
Cláudio, tornando-se lívido, murmurou a custo:
— É bem difícil conquistar eu uma felicidade igual à de Marcelo, que encontrou uma preciosidade, a última gema no veio diamantino deste planeta: ninguém descobrirá alguma que a imite, sequer!
Os circunstantes entreolharam-se atónitos por essa expansão inesperada de Cláudio Solano, e, para quebrar a embaraçosa impressão causada por aquelas insensatas expressões, falou Túlio Isócrates:
— Se duvidais da honestidade das mulheres formosas — que as há na aparência e mais belas ainda quanto à virtude! — deveis procurar uma que seja modesta e educada por nobres genitores, que o sejam nos sentimentos elevados.
Geralmente, os homens, quando desejam constituir um lar, buscam, em primeiro lugar, atrair os olhares das mais sedutoras donzelas, como se a formosura plástica bastasse para fazer a ventura dos consortes.
Não se lembram eles de que a beleza física, sem a moral, é sempre nefasta!
Há mais probabilidade de alguém ser feliz em um lar honesto, onde imperem a bondade, a nobreza de coração, o trabalho, os sacrifícios, do que em outro, onde reine uma encantadora jovem que, descuidada dos deveres domésticos, deseje mais fascinar os olhares masculinos e fruir gozos mundanos, os prazeres prejudiciais à alma e ao corpo, nas sociedades equívocas.
— Eis por que, domine, eu afirmei que jamais poderei conquistar ventura igual à que obteve Marcelo! — exclamou Cláudio, com veemência desnorteante.
— Pois eu te assevero que te podes iludir, Cláudio! — falou Marcelo.
Eu me encarrego de procurar uma donzela digna de teu amor, bela e virtuosa, e ainda poderás ser tão feliz quanto eu o sou!
Evita recordar o passado, reacendendo cinzas; volta teu pensamento para o Mestre bem-amado, para que Ele te inspire à hora da conquista almejada e te proporcione uma dita inestimável!
Ele saberá fazer-te justiça; se tiveres direitos adquiridos, a Témis divina será a teu lado.
— Isso é problemático.
Não vedes os homens probos e nobres sofrerem as arbitrariedades dos maus e perversos sempre vencedores, como o foram os algozes do próprio Jesus, que todos vós tomastes para exemplo e mestre?
— Isso nos leva a crer, Cláudio, que a vida humana é seriada, e não uma apenas:
o homem probo, da actualidade, foi o prepotente de outras eras, e agora está remindo os débitos de uma vida tumultuosa, nociva e despótica; os iníquos, de hoje, hão-de resgatar com lágrimas ardentes as injustiças e os delitos que tiverem cometido.
É mister soframos as consequências de nossos próprios erros, com resignação cristã, sem ofender jamais, nem com um pensamento de rebelião interior, a Justiça Suprema!
Tive opulência incalculável, e subitamente tudo perdi; vi minhas terras devastadas pelos adversários de Roma, e não tive revoltas contra as leis celestes.
Humilhei-me, e, conforme podem todos testemunhar, encontrei outro lar bendito, onde me sorriu, novamente, a ventura, a tranquilidade e a paz, que eu pensava destruídas, eternamente!
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 25, 2018 12:03 pm

— Mas, quem poderá asseverar, categoricamente, que a alma sobreviva à matéria; que haja um Ser Supremo nas Alturas consteladas; que tenhamos de ser julgados por Ele com imparcialidade.
Tudo quanto sucede é fruto do cego e omnipotente Acaso — o soberano do Universo!
A vingança é a justiça exercida pelo prejudicado, e é nesta que hoje creio, porque, até a presente data, não houve quem interviesse em minha vida para me fazer ditoso, e sim desgraçado.
Ficou impune, até esta data, o crime perpetrado contra meu pai — que era recto e honesto — sendo esse crime a causa do suicídio de minha mãe.
O tempo vai transcorrendo, e a minha dor, ultimamente, mais me tem excruciado o coração, predispondo-o para a vingança!
Se a vida fosse, como dissestes, em séries contínuas, solidárias umas com as outras, por que o proclamado Emissário divino não se referiu à Palingenesia? (1)
— Enganaste, ainda, Cláudio — continuou Márcio — pois, as suas palavras foram transmitidas por intermédio dos Apóstolos e estão gravadas nos Evangelhos.
A tradição regista que, ao perguntarem-lhe o que era mister fazer para ver a face do Pai que está no Céu, Ele deu a seguinte resposta:
— "Na verdade vos digo que tendes de nascer de novo!"
"Como, Senhor, podemos nascer mais outra vez, se já estamos com este corpo carnal?"
"Na verdade vos digo que tendes de nascer novamente.
O que for da água, terá sua origem nesta e, o que proceder do espírito, deste será semelhante, e o espírito sopra onde quiser!"
Eram desse jaez as palestras realizadas no Solar do Cisne, reproduzidas mais ou menos no último encontro dos dois quase irmãos, palestras que causavam desagrado geral, pelo pessimismo de Cláudio, mormente a Geleira e a Dioneia.
Haviam todos notado o desequilíbrio das ideias de Solano, inclinado à revolta, à desforra violenta, ao crime, não medindo as consequências deploráveis dos triunfos nas conquistas ilícitas.
Talvez houvesse no coração dos que o conheciam, mais intimamente, um presságio doloroso, algo de muito grave a suceder, presságio que o assassínio de Marcelo Taciano veio confirmar.
Quando, pois, ocorreu a pungente tragédia, na "Por estas e outras expressões, depreende-se que não temos uma só existência planetária, e sim inúmeras vidas, todas solidárias umas com as outras, pois, punições e recompensas provêm do demérito ou do mérito de cada um.
Eis por que não deves vacilar tanto em praticar o bem e evitar o mal, para que, em porvindoura existência, sejas galardoado e não sofras as funestas consequências de passados delitos.
Na índia, no Egipto e em outros países asiáticos e africanos, esta crença — a do regresso à vida — já é milenária, pois, acreditam na Palingenesia, que foi admitida pelo génio grego que se chamou Pitágoras, e muitos seres humanos estão convencidos de que ela representa a execução de uma lei divina, por meio da qual a Justiça Suprema é sempre exercida com imparcialidade, e ninguém poderá deixar de resgatar os crimes cometidos em qualquer uma de suas encarnações!"
Cláudio empalideceu novamente, até à lividez, e, com um sorriso contrafeito, murmurou:
— O que dissestes, domine, teria viabilidade, se houvesse algo de positivo para corroborar a crença da Palingenesia, saindo do terreno das hipóteses para o das teorias insofismáveis, à semelhança dos matemáticos que comprovam pelos números a verdade das equações .
Eram desse jaez as palestras realizadas no solar do Cisne, e reproduzidas mais ou menos no último encontro dos dois quase irmãos, palestras que causavam desagrado geral, pelo pessimismo de Cláudio, mormente a Geleira e a Dioneia.
Haviam todos notado o desequilíbrio das ideias de Solano, inclinando á revolta, á desforra violenta, ao crime, não medindo as consequência deploráveis dos triunfos nas conquistas ilícitas.
Talvez houvesse no coração dos que o conheciam, mais intimamente, um presságio doloroso, algo de muito grave a suceder, presságio que o assassínio de Marcelo Taciano veio confirmar.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 25, 2018 12:03 pm

Quando, pois ocorreu a pungente tragédia, na qual foi arrebatada a vida inestimável do filho de Márcio Taciano, houve a eclosão de suspeita de que o causador de tal desdita fosse o insensato amigo do imolado.
Efectuadas pesquisas pelas autoridades da Dalmácia, verificou-se que Cláudio Solano havia partido na véspera do delito, para uma longa excursão, prometendo enviar ao Solar das Sereias um emissário revelando o seu paradeiro.
Se, no decorrer de um mês, não enviasse referências pessoais, isso significaria ter posto remate à sua atribulada existência.
Investigações nos arredores dos castelos, em cujas proximidades ocorrera o bárbaro homicídio, não permitiram às autoridades, nem aos parentes de Marcelo Taciano, desvendar o mistério que o envolvia.
Na Terra havia apenas uma testemunha — Plutão — que, gravemente contundido, por mais de um mês permanecera indiferente a tudo que o circundava, parecendo ter perdido a faculdade da vigilância, na qual era exímio, tornando-o temido por todos.
Uivava funebremente, quase sempre à noite, como se algo de doloroso houvesse ainda de suceder aos habitantes do Solar do Cisne.
Nenhum vestígio fora descoberto do autor do cruel assassínio, que levara a consternação e o luto a um venturoso lar, verdadeiramente cristão.
Marcelo, de todos os da família, era o mais conceituado, o mais piedoso e sensível.
Qual o móvel do crime que entenebrecera tanto corações?
Eis a incógnita indecifrável para cuja solução todos se empenhavam com fervor.
Nenhum objecto de uso individual fora subtraído, não sendo, pois, o roubo o motivo do nefando delito.
Nenhum desafecto declarado conheciam os que lhe pranteavam o brusco trespasse, salvo ter sido (e isto era o que parecia provável) vítima de um campónio que, dias antes, havia sido por ele despedido, porque estava semeando a discórdia entre os que trabalhavam pacificamente no castelo, prometendo exterminar um antigo e fiel fâmulo de Márcio Taciano, que vivia apreensivo.
Ninguém descobrira o paradeiro do serviçal despedido, que era de origem saxónia, e não mais fora visto nos arredores do local onde residira por alguns meses, desde que se tornara indesejável.
À hora em que, vergado ao peso do coração que estuava de angústia, Túlio transmitiu a notícia do infausto sucesso aos sogros de sua filha e a Dioneia, houve a explosão de uma dor violenta, que, dir-se-ia, levaria à loucura aqueles entes desvelados, até então infinitamente felizes.
— Minha filha — disse Túlio, em pranto — por' que não fui eu o sacrificado em lugar de Marcelo?
Eu atingi o limite da vida, e ele apenas a tinha iniciado.
— Meu pai! meu pai! não fale em morte, agora que a tenho no coração!
Compadecido da nora, Márcio, lacrimoso, assim lhe falou:
— É mister que resistas à dor que ora nos acabrunha; tua vida é duplamente preciosa; dela depende a daquele que substituirá em nosso lar enlutado o inesquecível Marcelo, e será certamente o nosso maior conforto sobre a Terra!
Mais intensa do que a tua dor de agora é a dor daquela que lhe deu o ser.
Geleira, desde o instante em que soube do infausto acontecimento, emudeceu, e dir-se-ia transformada em estátua humana, entregue a um pesar inenarrável.
Compreendera Dioneia o que se ocultava naquele amargurado coração de mãe, e, abraçando-a terna e ansiosamente, deixou que uma catadupa de lágrimas lhe umedecesse o lívido rosto.
Ambas unidas pela mesma desventura não puderam exprimir a dor, e o vácuo do seu íntimo que jamais seria preenchido naquela existência.
Qual dor seria maior — a da progenitora ou a da esposa?
Mãe! aquela que ama o ser que Deus lhe enviou qual dádiva celeste, e a quem ela concede o atributo divino — a vida — olvidando todos os sofrimentos pelo amor que consagra a quem lhos fez padecer!
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 25, 2018 12:04 pm

Mãe! amiga incomparável dos arcanjos que quebram as asas ao deixar o Infinito constelado, para caírem no tétrico abismo da Terra — a mais extensa de todas as jornadas! — e os acolhe em seu generoso seio, beijando-os, desejando-lhes todas as venturas, todas as bênçãos celestiais, todas as alegrias mundanas!
Mãe! aquela que padece as ingratidões dos filhos, chorando, suplicando ao Céu sempre e sempre auxílio, protecção para que sejam encaminhados ao bem e às venturas!
Mãe! aquela que, na Terra, representa o próprio Criador do Universo, pois ela é quem nucleia e atrai a alma — fragmento divino, átomo do Pai Celestial — para torná-la movimentada, consciente pelo cérebro.
Para ela, a morte ou a separação terrena é uma amputação, um desequilíbrio do seu próprio eu, pois todos aqueles que ela gerou são fracções de si mesma, repercutindo-se nela as dores, os infortúnios que atingirem seus entes queridos, e, para vê-los ditosos, não mede sacrifícios nem abnegações!
Quando sucede algo de penoso para com as migalhas de sua alma, há profunda repercussão em seu imo, e, quando os fere a morte — tão mal compreendida no globo terrestre — há em seu recôndito o estilhaçar de uma fibra, o estalar de uma corda sensível.
Esposa! companheira e irmã ligada pelo Destino por sólidos e inquebrantáveis elos, que se forjam na Terra e não se extinguem no infinito dos milénios!
Os consórcios originados pelos interesses materiais, pelo egoísmo, pelos sentimentos inferiores são efémeros, ligam os corpos apenas e não atingem as almas, terminando nos sepulcros.
Os lídimos enlaces conjugais são os dos Espíritos afeiçoados, verdadeiras almas gémeas, os daqueles que já se consagraram terno amor em outras eras e se recordam de alianças transcorridas em paz e recíprocos afectos!
Valem por fracções que se apartam uma das outras, momentaneamente, e se integram após as jornadas terrenas, reconhecendo-se quando se reencontram no plano material, seguindo, sempre aliados, diversas existências planetárias, as mesmas trajectórias — a exemplo dos astros que não se afastam das órbitas, traçadas pelo giz radioso do Geómetra Divino — Deus — e, conquistando virtudes, cumpridos todos os deveres, voltam-se para o Sempiterno, enobrecidos por excelsos actos, espiritualizados, tornando-se irmãos siameses que ascendem, perpetuamente unidos, às paragens siderais.
Muitas vezes, os adversários de uma etapa terrena se entrelaçam em outras peregrinações futuras, para que se reconciliem, a fim de que, em comum, desempenhem encargos penosos ou meritórios, como, aliás, o são os dos que convivem em um mesmo lar, criando e educando entes que o Criador lhes confia para que seja aformoseado o diamante das jazidas celestes — a alma — lapidando-o, burilando-o, facetando-o, aperfeiçoando-o, enfim, para que se torne átomo de estrela ou do
próprio Sol do Universo — Deus!
Mãe e esposa são as duas artífices dos lares, fundidas em um único ser, pois a consorte é convertida quase sempre em genitora!
A esposa fiel e nobre jamais se descuida de seus misteres domésticos, sociais e morais, criando seres dignos e úteis à família, à pátria e às colectividades, concorrendo poderosamente para a conquista da redenção psíquica de todos eles, exercendo uma similar missão à dos Mensageiros siderais, norteando-os para o Omnipotente — o alvo supremo de todos os entes humanos!
Quando sucede o contrário, isto é, quando a esposa mãe não concorre para a purificação de uma alma que lhe foi confiada pelo Sumo Juiz Universal (não lhe combatendo os maus pendores), dando incremento à vaidade, ao orgulho, à soberba, não debelando as inclinações para os vícios, para os erros que sempre os transviados do bem praticam, acarreta novas punições em existências futuras, para si própria, e para os seus entes bem-amados!
O amor de esposa rivaliza, pois, com o materno, no qual se funde algumas vezes, e é um dos sentimentos mais empolgantes no ser pensante; há, no entanto, muito mais falências no primeiro caso do que no segundo, sendo ambos de grande excelsitude quando sinceros e veementes.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 25, 2018 12:04 pm

Naquele instante angustioso e inolvidável, abraçaram-se as duas desditosas, ambas em iguais condições morais, com os corações esfacelados pelo homicídio do ser adorado por ambas.
Dir-se-ia que, naquele momento de dor infinita, houve o desmoronar de uma torre muito alta e muito alva, que julgavam alcançar o céu e, bruscamente, qual a simbólica Babel, ruísse com fragor e desaparecesse no vórtice aterrador de um oceano infindo.
Por seu turno, os dois anciãos, o pai e o sogro do assassinado, confraternizaram-se no mesmo amplexo mudo de dor, escutando apenas soluçar os nobres corações.
Dioneia, abalada pela desventura que transformara em caos sua existência florida, caiu gravemente enferma, e, após o nascimento do primogénito (que recebeu o nome de Márcio Lúcio), não se erguia do leito, presa de intensa febre.
O tenro recém-nascido foi amamentado por uma robusta camponesa, Adriana Moreia, que a ele se afeiçoou profundamente, pois havia perdido o primeiro filhinho, e agora, acarinhando o alvo e louro Márcio Lúcio, lhe parecia diminuído o vácuo do que havia perdido.
Dias intérminos, de penosas cogitações, decorreram no Solar do Cisne.
Dioneia que estava próxima do último transe, febril e delirante, parecendo haver perdido o senso, proferia frases desconexas, verdadeiras vibrações da alma, ora afagando o querido morto, ora prevenindo-o de iminente perigo, ora lamentando a sua brusca partida para o Além.
Enquanto estivera empolgada pela febre puerperal, mostrava-se agitada e sob o domínio de pensamentos de revide.
Desde, porém, quando a enfermidade decresceu de violência, entrando em um período de calma, pareceu a todos que ela ficara indiferente à própria vida e à dos entes queridos.
Às vezes, percebia os uivos de Plutão que, depois de muitos dias, sem poder locomover-se, ficou aturdido (consequência do golpe da pedra), e então tristemente ela dizia:
— Vêem como ele chora a perda do amigo?
Como pode um cão ter mais piedade do que um ser humano?
Antes fosse o seu lamento por mim, e não por meu adorado Marcelo!
Quem sabe se ele o vê?
Quem sabe se tem saudades do amigo que morreu?
— Acalma-te, minha filha — objectava o velho Túlio, temendo que a filha enlouquecesse.
Dioneia vivia em estado de apatia, e raramente perguntava pelo filhinho.
Enquanto avassalada pelo delírio, desejava erguer-se do leito, com o rosto afogueado, proferindo palavras incisivas, pedindo justiça, chamando pelo Plutão para que fosse buscar Marcelo; depois, aquietando-se, parecia de mármore.
Lentamente, porém, lhe foi voltando o senso, assumindo outra fase a enfermidade.
Seu angustiado progenitor, postado sempre ao pé do leito, orava fervorosamente a Jesus para que lhe concedesse as melhoras almejadas, e não a abandonava quase, do alvorecer às trevas nocturnas.
Noite houve em que todos os habitantes do Solar do Cisne perderam a esperança de vê-la amanhecer viva.
Pálida e prostrada sobre rubra almofada, não acusava nenhuma sensibilidade, parecendo indiferente a tudo.
A sua palidez era cadavérica.
Túlio, em prantos, fitava-a com ternura infinita e, quase ao amanhecer, falou tentando reanimá-la:
— Dioneia, filha de minha alma, não me deixes só, leva-me contigo, se tiveres de partir!
Dioneia, como se percebesse o que lhe dissera o pai, mais com as faculdades psíquicas do que com as mentais, pareceu ter ouvido o aflitivo apelo, e murmurou debilmente:
— Ainda não está... terminada a batalha, meu pai!
Ainda vai ser descoberto... o assassino... do pobre... Marcelo!
— Será melhor que partamos no seu encalço, filha!
Estou exausto de sofrer e de lutar!
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 25, 2018 12:04 pm

— Não tarda muito... pai!
Eles aqui estão a nosso lado... e não os podeis ver quanto são radiosos!
Estão eles dizendo. .. que vou reviver... para penar muito ainda... remindo o que outrora fiz outros... padecerem!
Assim o quer nosso Pai... que está no Céu!
— Seja feita a Sua vontade, filha!
Contigo e Apeles, perto de meu coração... terei ânimo para sofrer!
Não desejo é que algum dos dois desapareça, deixando-me com a alma angustiada!
— Os que partem... para o plano onde se acha ele... o adorado Marcelo, estão mais vivos do que nós... porque não temem mais a morte... e sim a vida terrestre, pai!
Nossa alma... é que está amortalhada na carne, pai!
— Então já viste Marcelo, filha?
— Não, para que a emoção... não abreviasse minha vinda...
para onde se acha ele.
Sei que ainda o veremos... tal qual
outrora... quando éramos felizes!
Já me foi permitido... por Jesus... ver a querida mãezinha... que tanto padece por nossa causa!
— Não está ela conformada com o destino, filha? — indagou Túlio, enxugando lágrimas.
— Um tanto... mas avisou que muito temos ainda que padecer!
— Por que não despertas, filha?
Tenho a impressão de que me falas em voz diversa da tua, parecendo provir do fundo de um sepulcro!
— Assim quase o é, pai, pois minha alma já se acha... quase toda exteriorizada... o que não sucede quando está... fortemente presa à matéria... quando há saúde!
— Muito te agradeço estas palavras ditadas decerto por alguma entidade espiritual.
Que Jesus vele por nós, filha!
— Ele não se esquece... das ovelhas de seu rebanho, pai!
— E porque Ele, tão bom, permitiu que um malfeitor exterminasse a vida de Marcelo?
— Porque...
Marcelo, embora piedoso, tinha uma dívida... a resgatar de outras eras!
Nós todos, pai, somos pecadores e temos delitos a remir...
O sofrimento é que liberta a alma... dos crimes esquecidos pelos seres humanos... que os olvidam... quando
voltam à Terra!
— Causa-me grande pesar o conhecimento dessa dolorosa verdade, pois, talvez ainda nos aguardem novas dores!
— Assim é a justiça divina... muitos padecimentos... estão iminentes sobre nossas frontes, pai!
— E sabes quem foi o algoz de Marcelo, filha?
— Eles, os que nos rodeiam sempre, afirmam... que terei a verdade patenteada quando chegar o fim... desta peregrinação terrena... antes, seria dificultar o cumprimento das Leis Supremas!
— Já falaste bastante, filha bem-amada!
Cala-te, para que possas repousar!
— Eles, de agora em diante... quando necessário... vão falar, assim, por minha boca...
Profundo suspiro se desprendeu do peito da enferma, que novamente recaiu na prostração, indiferente ao mundo exterior.
O pequenino Lúcio havia sido confiado aos cuidados da avó paterna e de sua dedicada ama.
Nenhuma semelhança patenteava ele com o extinto progenitor:
era alvo, tal sua mãe, de olhos azuis, tinha o aspecto de um arcanjo de Fídias.
A afeição dos dois avós, de Apeles e dos habitantes do Solar do Cisne era invulgar pelo formoso entezinho.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 25, 2018 12:04 pm

Apenas Geleira mostrou indiferença, retraída mesmo nas demonstrações de carinho ao neto, e ninguém ainda lhe vira beijar a criança.
Por alguns dias ainda Dioneia esteve presa ao leito de sofrimentos.
Seu velho pai, cuja fronte alvejou qual um floco de neve alpina, raramente abandonava o seu posto de sacrifício e desvelo, e observara o afastamento de Geleira da câmara da nora, desde o nascimento do netinho, que ele julgava fosse para ela objecto dos seus mais ternos carinhos, dado o falecimento do adorado filho.
Sucederam-se os dias, e ela permanecia enigmática, taciturna, alheia à enfermidade de Dioneia.
Uma tarde, não se conteve o ancião e falou a Márcio Taciano:
— Observo, domine, que, com a morte do querido Marcelo, vossa esposa se tornou indiferente à sorte de sua desditosa nora e do encantador netinho, que devia cativar-lhe o coração saudoso.
Márcio estremeceu àquelas palavras de Túlio, e murmurou, meio perturbado:
— Ela ficou profundamente desgostosa e contrafeita, porque o netinho não se parece com o nosso filho adorado.
Ela nutria a esperança fagueira de que o pequenino lhe lembrasse a fisionomia do falecido pai, mas o Destino — sempre indecifrável — quis que sucedesse justamente o contrário:
Lúcio não se parece, absolutamente, com o nosso inesquecível Marcelo!
Eis justificada sua atitude, domine!
— Muito me surpreende o que me revelais, domine, pois não podemos culpar a quem quer que seja a respeito dos característicos físicos dos seres humanos; todos têm o tipo peculiar à família de que procedem, mormente o de um dos genitores, e, muitas vezes, nascem completamente diversos, parecendo originados de outra casta, tão dissemelhantes são no organismo e nos predicados morais!
O pequeno Márcio Lúcio, como deveis ter notado, tem semelhança materna e da avó materna.
Seria muito confortador, para todos nós, que tal parecença fosse com o falecido genitor; mas a nossa vontade, domine, nem sempre vigora ante as forças da Natureza.
Além disso, pareça ele, ou não, com o querido morto, nenhuma dúvida poderá existir a respeito de sua filiação.
Portanto, sendo minha filha a síntese da honestidade, esse retraimento de vossa consorte é ultrajante para Dioneia, que, tão logo melhore, há-de fazer idêntico reparo.
— Não vejais a questão por aspecto diferente do que suponho, domine! Geleira está com o coração esfacelado de dor e não pode agir com o critério que a nossa idade faculta, com longa experiência que adquirimos em mais de meio século de sofrimentos!
— Conheço a nobreza de vossos sentimentos, domine, e não ponho em dúvida a vossa sinceridade; mas, confesso com lealdade, meu coração está profundamente ferido com o indesculpável proceder de vossa esposa!
— Aguardemos o escoar dos dias, domine, para que se desfaçam nossos amargos pensamentos, originados pela grande dor que nos flagela a alma.
Três meses decorreram, monótonos e inexpressivos, após o diálogo dos dois velhos pais.
Só então, a Dioneia vieram os primórdios da convalescença, reanimando-se-lhe o físico, continuando, porém, em profunda apatia.
Durante o período em que se manteve inerte no leito, seu pensamento não cessava de lhe martirizar a mente, reconstituindo os fatos remotos, as palavras enigmáticas de Cláudio Solano, capacitando-se de que o crime perpetrado que lhe abalara a alma, deixando-a semimorta, não fora alheio à sua acção de infiel amigo, partícipe da tragédia que a infelicitara.
Marcelo, ela o sabia, generoso e bom, não tinha inimigos ocultos, salvo o que lhe ambicionava a ventura, cobiçando-a para si próprio.
Nos momentos de dor intensa, havia em seu íntimo a revolta de sua consciência, por haver calado os seus presságios, não revelando o que com ela ocorrera, quando o hipócrita lhe havia dito qual era a verdadeira origem de seu grande pesar, o infortúnio de havê-la conhecido já esposa de Marcelo!
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 25, 2018 12:04 pm

Esse desgosto é que a mortificava, que lhe ensombrava a alma, que apunhalava de secreta dor recôndita o nobre coração de esposa, que, embora incorruptível, não fora franca para com o marido que tanto a amava.
A sua dignidade impunha que fosse expulso do Solar do Cisne o traidor, o falso amigo e ludibriador; mas, o temor de uma desarmonia entre o consorte e o rival, criando odiosidade entre dois homens, que até então se consideravam irmãos, e a perspectiva de tê-lo por inimigo, sabendo quanto era rancoroso e insensato o senhor do solar vizinho, aconselhara-a apenas a manter-se em reserva, conservando em sigilo o que, agora reconhecia, causara a sua desventura.
O pesar de julgar-se culpada da morte do adorado esposo, por haver mantido reserva do que percebera lucidamente (a paixão que inspirara ao falso amigo), quase lhe tirava o ânimo de viver, sentindo que seu coração se transformara em bronze vivo e que, em cada sístole e diástole, parecia proferir uma censura amaríssima contra o seu proceder.
Desejava depois o desprendimento de sua alma, para se aliar eternamente ao adorado Marcelo, podendo implorar-lhe perdão por lhe não haver revelado o temível segredo que conservara em seu íntimo, e pelo qual perdera, ela, ao mesmo tempo, a seu ver, honra e ventura.
Era irremediável o seu infortúnio!
Lamentava não haver usado de sinceridade à hora em que Marcelo, apreensivo por aquele que considerava amigo, fora ao Solar das Sereias certificar-se de já haver ele partido ou ainda lá permanecer talvez enfermo, em leito de sofrimento.
Recordava-se ainda, com infinita amargura, das palavras que lhe dissera, ao vê-lo em preparativos de saída, seguido pelo vigilante Plutão:
— Marcelo, meu querido, desiste de ir ver o enigmático Cláudio.
É melhor que ele se afaste, por todo o sempre, de nosso lar!
Durante os dias em que estivera com a vida ameaçada, muitas vezes, nas horas de delírio que a acometera, pronunciara palavras que confundiram seu próprio e desvelado progenitor:
— Não, miserável!
Meu amor é dele, sim, do meu adorado Marcelo!
Foge, covarde assassino... para que ninguém te reconheça a face de Caim!
Jamais procures ver-me... Odeio-te!
Teu coração desprezível será rasgado com o mesmo punhal... com que feriste o meu... covarde, assassino!
Foge! Não te quero ver jamais!
Outras vezes, aparentemente calma, tendo sempre a seu lado o velho pai, com os olhos orvalhados de pranto, monologava ela, dolorosamente:
— Quem sabe se a brusca partida de Cláudio Solano foi simulada, apenas com o propósito de nos iludir e à Justiça, a fim de que fique envolto em impenetráveis sombras o seu horripilante crime?
Enquanto ela assim raciocinava, não longe de sua câmara os desolados pais do malogrado Marcelo também confidenciavam, dolorosamente apreensivos:
— Será concebível, Geleira — falava o pai — que a tua suspeita tenha cabimento e nosso bem-amado filho haja sido morto por aquele que considerava o mais fiel amigo?
— Há muito suspeitava Márcio, que ele estivesse enamorado de Dioneia; mas, quem sabe, às ocultas, foram os dois miseráveis que projectaram o assassínio de nosso inesquecível Marcelo?
— Se fosse verdade que Cláudio estivesse enamorado de nossa nora — que é bela de alucinar qualquer mortal — tudo estaria elucidado!
Que é o homem cobiçoso da felicidade alheia, senão um lobo cerval, Geleira?
Custa-me a crer, porém, que ela tenha pactuado em crime tão abominável. ..
E os dois cônjuges continuavam as conjecturas, sempre com os olhos enevoados de lágrimas.
— Eu estou perplexa, Márcio, até sobre a legitimidade do filho, que é tão louro quanto aquele a quem atribuo o revoltante crime que nos infelicitou.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 25, 2018 12:05 pm

É tão diverso de nosso Marcelo!
Não tive ânimo ainda de beijá-lo; não lhe vejo um traço sequer de nosso filho.
— A Natureza, Geleira, obedece a leis supremas, e não à nossa vontade!
Márcio Lúcio é louro porque o é aquela que o concebeu — Dioneia, e, bem o vês, não se parece com o pai.
Quem poderá desvendar as secretas leis que presidem ao aparecimento dos entes humanos neste planeta?
Aguardemos o futuro, que, certamente, há-de revelar a verdade e desvendar os arcanos do hediondo delito.
O crime está envolto em mistério.
— Foi a Fatalidade, Márcio, que trouxe ao nosso lar essa família grega!
Devias ter permitido que Túlio partisse quando lhe morreu a consorte.
— Atendi a um pedido de Marcelo, Geleira! Eu e ele fomos impulsionados pelo coração, o melhor farol que nos guia os passos sobre a Terra.
— No entanto, o coração às vezes nos ilude, tornando-se o nosso pior inimigo, quando age sob o impulso de uma paixão que turba o senso!
Dioneia é formosa em demasia para que seja honesta; ela não ignora que atrai os olhares de todos os homens, que a contemplam com olhos cheios de paixão.
Apesar de aparentemente ter um proceder impecável, quem sabe se secretamente correspondia ao criminoso amor de Cláudio?
— Não podemos julgar com essa crueldade a infortunada Dioneia, que acredito adorava nosso filho.
Entreguemos a Jesus a nossa dor, a nossa causa, e Ele nos fará justiça.
Nesse instante, o pequenino Márcio Lúcio, que adormecera em seu berço no quarto dos avós paternos, despertou e abriu os lindos olhos glaucos.
As feições esculturais do pequenino Lúcio já revelavam os traços de sua mãe; mas, um verdadeiro psicólogo nelas descobriria também a herança paterna, principalmente na expressão dos olhos, que ressumbravam a mesma incessante e dúlcida tristeza dos de seu desventurado progenitor.
Márcio fitou-o com visível melancolia, murmurando, tristemente:
— O olhar do pequenino é semelhante ao de nosso estremecido Marcelo, Geleira!
Parece que nos fitou entristecido, como se a nossa conversação lhe houvesse magoado...
Ai! quem nos dera desvendar a verdade, que confirmasse ou desvanecesse as nossas dolorosas suspeitas!
Penoso silêncio reinou por alguns instantes no aposento.
Geleira, que fitava as feições angélicas do netinho com indizível apreensão, murmurou:
— Se Deus me concedesse a permissão de descobrir o assassino de Marcelo, poderia depois extinguir-me a vida, como se esta fora uma inútil lâmpada!
— A denominada morte constitui uma das mais acerbas expiações para o ente humano, e só Deus sabe por que as merecem os calcetas terrenos.
Quem sabe se a dor, que ora nos esfacela o coração, não a infligimos nós a outrem, em transcorrido avatara?
Os inocentes, Geleira, não sofrem penas injustas, porque as Leis Supremas são perfeitas e incoercíveis.
— Jesus era justo e bom; por que sofreu tanto, e seus algozes foram os vencedores?
— Porque Ele veio à Terra apenas ensinar, exemplificando, a cartilha da salvação para nossa alma: padecer, com resignação e sem revoltas; suster, nos ombros frágeis, o madeiro da dor, ou das purificações eficazes, conduzindo-o vergado a seu peso ao Calvário que, eternamente neste mundo, representa o termo de todos os padecimentos físicos, morais e espirituais!
Se o Emissário divino viesse desfrutar os privilégios sociais, não fosse Ele perseguido, condenado injustamente, praticando o Bem e recebendo o Mal, ninguém se conformaria com os tormentos da vida, Geleira.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 26, 2018 9:40 am

Ele veio dar a norma de proceder e da redenção:
sorveu o cálice de todas as amarguras, não se revoltando contra os seus perseguidores, sabendo perdoá-los; não tendo imprecado contra as sentenças humanas e celestes, arrastou a cruz até ao Gólgota, que todos nós temos de galgar — o sofrimento!
— Somente as almas santificadas dos mártires poderão imitá-lo, e nós somos de barro putrescível, Márcio!
— E que estamos fazendo sobre a Terra, senão santificando os nossos espíritos, Geleira?
— Terás ânimo de perdoar ao assassino de nosso adorado Marcelo, domine? — inquiriu, com arrebatamento, a irascível castelã.
— Assim o espero, e, para isso conseguir, todos os dias imploro a Jesus a força precisa para o imitar.
— Tu não amaste nosso filho, quanto eu ainda o adoro, Márcio!
— E eu digo que tu não amas a Jesus, quanto eu o adoro, e quanto Ele o merece, Geleira!
Ambos choravam. Novo e penoso silêncio reinou no recinto.
Ouviram um pungente gemido, e, no berço, o pequenino começou a chorar, como se fora a resposta merecida ao diálogo dos avós paternos.
— O menino precisa alimentar-se — murmurou Márcio.
E, alteando a voz, chamou pela ama, que logo levou a criança.
— Quem sabe se Dioneia piorou, Geleira? — disse à esposa o compassivo castelão.
— Ela tem quem lhe vele pela saúde:
o pai. Estou, por isso, dispensada de qualquer interferência a esse respeito! — exclamou Geleira, mostrando a aridez de seu coração.
O consorte, sempre ponderado e justo, obtemperou, passando a destra pelos cabelos de neve:
— Às vezes penso, domina, que Túlio é mais desditoso do que nós, os pais do querido morto.
— Por que, Márcio?
Acaso não lhe ficaram os filhos e o neto?
— Porque já notou a atitude hostil que tomaste, desde o falecimento de Marcelo.
Enquanto nosso filho vivia, sendo seu genro, ele e os seus tinham certo direito de permanecer, sem vexames, neste lar, que agora se tornou intolerável para eles, que devem ter percebido a suspeita contra sua sinceridade.
Observo que andam entristecidos, intimidados...
— És mais generoso do que eu, domine.
Não os estimo, e estou ansiosa que percebam a realidade, e se retirem definitivamente deste solar!
— Oh! Geleira! pois não compreendes as amarguras que pungem aqueles três corações, sensíveis e humilhados?
— Eu os julgo os responsáveis pela morte de nosso inesquecível filho, e, por essa razão, tudo quanto padecem é pouco, em confronto com a minha dor, que ultrapassa a de todos eles!
Desde que para aqui vieram, e até então, a nossa vida transcorria serena e venturosa!
Depois, começaram as desditas, tornaram-se mais frequentes as visitas de Cláudio, que, com as suas revoltas, expressões impiedosas e incessantes blasfémias, envenenou as nossas alegrias, terminando tudo com a tragédia que nos tornou desgraçados para o resto desta cruel existência!
— Não julgues com demasiada severidade os três entes que eu continuo a considerar honestos e dignos de nossa confiança, para que não sejas condenada pelo Divino Pai!
Todo o interesse dessa família devia residir na conservação da vida de nosso bondoso filho, e não existe prova alguma que nos leve à convicção de que soubessem do crime.
Suspende, pois, o teu temerário juízo, até que tenhamos absoluta certeza de quem conspirou contra a nossa felicidade.
— Ninguém me convencerá do contrário do que há em minha mente:
Cláudio estava enamorado por Dioneia, e sua brusca partida, coincidindo com o assassínio do nosso adorado filho, convence-me de que, se não foi ele o assassino, deve ter sido o mandante da morte do rival!
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 26, 2018 9:41 am

— Se tal é a verdade, por que se ausentou ele, justamente quando lhe convinha permanecer aqui?
— Para iludir suspeitas.
— Por que não revelaste as tuas, Geleira, logo que as concebeste?
Talvez desse modo tivéssemos evitado o irreparável crime, que nos enlutou a existência.
— Temi algum violento desforço de nosso filho contra o temível Cláudio.
— E quem sabe, Geleira, se não foi essa mesma razão que obstou Dioneia de nos revelar a verdade?
Ela parece leal e possuir grande nobreza de sentimentos.
*
Retrocedamos para alguns episódios da narrativa.
Cláudio Solano, após a execução do nefando homicídio, embrenhou-se em matagais e regiões desconhecidas, tendo perdido por isso a orientação do local onde deixara o corcel, que não mais encontrou, o qual, certamente acicatado pela violência da fome e da sede, rompeu as bridas e foi ter onde alguém dele se assenhoreou, valiosa presa, não reclamada.
Um mal ignorado, uma constrição lhe tomou o órgão ao qual é atribuída a fonte dos sentimentos, o coração.
Desde que vira tombar o companheiro de infância, sentiu-se maldito, apavorado de si próprio, desventurado réprobo.
O uivo de Plutão gravara-se-lhe nos refolhos da alma torturada, e compreendeu que, enquanto vivesse, aquele lamento do chamado irracional jamais se desvaneceria de sua mente, como que o condenando, inflexivelmente, mesmo com o decurso de um século.
Depois de horas de desespero, temendo ser reconhecido e aprisionado, andou ao acaso.
Sobreveio depois fustigante temporal, e ele, caído, com a cabeça reclinada sobre a raiz de velha árvore, semimorto de fadiga, febril e delirante, assim esteve até que foi acolhido por um camponês que o encontrou desacordado.
Muitas vezes, no silêncio da noite, o enfermo julgava ouvir longínqua imprecação contra ele, clamores e maldições:
apenas adormecia, por instantes embora, via-se arrastado por mãos vigorosas às cercanias do Solar do Cisne, e, entre lamentos estridentes e exclamações de dor infinita, fitava o cadáver do assassinado, sentindo, às vezes, que as suas carnes, de acovardado pelo remorso, eram esfaceladas pelos dentes vorazes de Plutão enfurecido.
Ouvia os brados de sofrimento dos seres que adoravam o piedoso Marcelo, e dir-se-ia, então, tenazes de fogo lhe premiam o coração, tornado brasa viva.
— Justiça! Justiça! Justiça! — ouvia ele, em som clangoroso, nesse dormido sonho.
Tais exclamações e gritos valiam por verdadeiras punhaladas que lhe penetravam o íntimo, causando-lhe sensação mortificante.
Presa de angústia inenarrável, dentro de seu próprio espírito houve a repercussão de clamores desconhecidos, de turbas enlouquecidas, de palavras de imprecação, que o flagelavam intensamente.
Certa noite, pareceu-lhe ouvir uma dúlcida voz, sem distinguir quem lhe falava:
— Desditoso Cláudio!
Delinquente que és, estás sob a alçada divina, e terás que ressarcir, penosamente, em dores acerbas, todos os teus desatinos!
Desejaste, criminosamente, roubar as venturas de um irmão, olvidando a única e mais valiosa felicidade!
Nos momentos de suplício moral, inexprimível, quando premeditavas o nefasto homicídio, foste inspirado para não o executar, sentiste o influxo benéfico do Alto para que fugisses ao local da tentação maldita onde ias consumar um verdadeiro fratricídio; mas desprezaste as intuições dos Emissários celestes, e puseste em prática o plano sinistro que concebeste — inspirado por adversário de ambos — que te instigou a cometer um tremendo delito.
— De adversário? — falou Cláudio à invisível Entidade.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 26, 2018 9:41 am

— Sim, adversário da era em que tu e ele fostes legionários romanos, quando empunhastes armas fratricidas.
— Somos, acaso, responsáveis pelos crimes dos potentados, que lançam os seus vassalos nos sangrentos prélios?
— Os combatentes não são responsáveis pelo que cometem nas lutas bélicas, e sim pelos delitos que provam a ferocidade de seus corações, perseguindo os inimigos com rancor, negando-lhes muitas vezes uma palavra de compaixão, prejudicando-os com odiosidades selváticas, em muitas existências terrenas!
— Por muitas existências terrenas — dissestes vós?
Esta detestável vida não tem epílogo na sepultura?
— Ainda tens dúvidas, obstinado Cláudio Solano?
Queres ver aquele que foi, há pouco, tua vítima e do qual te julgaste livre por todo sempre, para te apoderares da sua digna e fiel companheira?
— Não! Não! Não! — rugiu Cláudio (alarmando o bondoso campónio que o havia acolhido).
É-me intolerável a sua presença!
Não o quero ver jamais, jamais!
— Pelos teus sentimentos egoísticos e exclusivistas, infortunado irmão, tens que passar pelo suplício de vê-lo, dentro de pouco tempo, para que jamais executes outro crime semelhante ao que ora enche tua alma de torturas.
— Por que não me aconselhastes antes, claramente, do delito de que me falais agora?
— Porque tem cada ser pensante um tribunal interior — a Consciência — farol divino, que deve ser o nosso eterno guia; possui inteligência, discernimento do bem e do mal, clareza de ideias, raciocínio para agir voluntariamente, com verdadeiro conhecimento de causa e efeito.
Não é possível que tua consciência — a voz divina enclausurada na mente imortal — aprovasse o que praticaste:
o extermínio de um desvelado irmão, com o intuito de usurpar o seu mais precioso bem, a adorada consorte.
Não percebeste a reprovação de teus entes queridos, na noite fatal que antecedeu o crime transmitindo-te conselhos, do plano espiritual?
— A paixão me cegou totalmente, obscurecendo todos os nobres sentimentos, fazendo-me agir, não por mim, por conta própria, e sim pela violência indomável da tormenta que ela gerou.
— Não; jamais perdeste a reflexão, Cláudio, porque premeditaste longamente o delito cometido à traição!
Embora a ignores, só tens uma atenuante:
com os teus adversários e os de teus progenitores, já fostes ligados em vidas transactas sucessivas e responsáveis por muitas lutas fratricidas.
Eles te impeliram à vindicta, porque esses rancorosos inimigos se regozijam com as desditas daqueles a quem odeiam, e lhes instigam acções condenáveis que acarretam desventuras.
Tu lhes deste guarida na alma, tudo fizeste para fruir uma ventura criminosa e assim perdeste a real felicidade, a única que existe neste planeta de acerbos padecimentos:
a isenção de remorsos, a tranquilidade espiritual!
— Dizei-me se adquiri adversários quando fui das Cruzadas.
Somos, então, responsáveis perante Deus por defender a nossa Pátria ou a nossa Religião?
— Quem se defende está com a Justiça celestial a seu lado, irmão; mas, assim não acontece quando alguém agride um povo pacífico por ambição desmedida, para ampliar territórios, escravizando irmãos, lutando ferozmente para a conquista do que não lhe pertence, ferindo corações e interesses colectivos, espoliando inocentes, esmagando direitos adquiridos e sagrados.
Esses delitos recaem sobre os agressores, os invasores de países ordeiros, e foi esse o crime que praticaste, e bem assim o desditoso Marcelo, em finda peregrinação planetária, ambos guerreiros, o de desrespeito aos lares dos vencidos, dos que haviam perdido a vida em defesa do direito incontestável que, na Terra, cada povo consegue à custa de muitos labores e de muitas imolações!
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 26, 2018 9:41 am

Se não houvesse o desventurado Marcelo incorrido nesse delito, não conseguirias praticar o atentado à sua vida, porque, em tal hipótese, os defensores divinos torná-lo-iam intangível a qualquer golpe traiçoeiro.
— Poderei ainda vê-lo, sem remorsos, e alcançar o seu e o perdão de Deus?
— Sim, depois de tremenda expiação que te aguarda, levando-te à confissão do que perpetraste às ocultas, rodeado de trevas, tendo por única testemunha o fiel Plutão!
Cláudio perdera a consciência e a noção do local onde se encontrava, confabulando com invisível Entidade, que lhe dirigia a palavra para dentro de seu íntimo.
Subitamente, estranha vibração repercutiu em seu imo, parecendo-lhe que todos aqueles que viviam sobre a Terra poderiam percebê-la:
— Dioneia! Dioneia! ainda te resta um final de amarguras... santificantes!
Tens que velar pelo anjinho com o qual contraíste dívida.
Ambos têm adversários implacáveis; mas necessitam reconciliar-se, por mais penoso que seja esse sacrifício!
Sofro muito por causa do pequenino que era toda a minha esperança na Terra!
— Levai-me deste local maldito, Mestre, senão enlouqueço! — exclamou o enfermo, soerguendo-se no leito e parecendo querer sair em carreira pelas estradas desertas.
O bondoso campónio que o acolhera tocou-lhe no braço dizendo-lhe:
— Acalmai-vos, domine!
Aqui ninguém vos persegue.
— Estou ouvindo alguém a gemer, a gritar...
Penso que vou... enlouquecer!
Amanhã, quero mandar um portador ao Solar das Sereias...
Quero que saibam onde estou...
Quero socorro!
— Vossas ordens serão cumpridas fielmente, domine!
Quando o compassivo camponês foi acomodar-se, Cláudio continuou ouvindo a mesma voz conselheira e amiga:
— Por que te revoltas contra a dor, consequência inevitável das transgressões às Leis Divinas e sociais?
Verás, desditoso irmão, todas as dolorosas e acerbas consequências do delito cometido; além do homicídio, a suspeita odiosa que recai sobre a virtuosa Dioneia...
— É horrível o que se passa comigo!
Devo estar perto da insânia...
Porque na guerra, alguém, enfrentando inimigo, pode exterminar muitos seres humanos, constituindo isso actos de bravura, e, fora do campo de batalha, praticar um assassínio tem consequências tão cruéis?
— As responsabilidades de uma guerra recaem sobre os que a ocasionam, e não sobre os defensores, pois cada povo tem direito constituído sobre o seu pátrio território, e a defesa é permitida pelas Leis Supremas e humanas, enquanto que os adversários dos que invadem e infamam lares, fazendo pilhagens, trucidando esposas, donzelas, crianças, enfermos, velhinhos, prisioneiros, constituem crimes que já cometestes — tu e Marcelo, em idos avatares.
Não tens atenuantes.
Aquele que já compreende o valor da probidade, se rapinar o que é alheio, não poderá ser julgado piedosamente, e sim com austeridade, embora remissora.
Aquele a quem prejudicaste era honesto e organizara um lar sagrado, onde imperava o amor conjugai, pontificava a virtude, ascendeu, vertiginosamente, na hierarquia espiritual, galgou muitos degraus na ascese da Redenção, e ainda virá à Terra em abnegada e meritória missão, que lhe dará supremacia psíquica, resultante da aquisição de virtudes, e fará que ele atinja moradas radiosas do Universo, junto de Espíritos purificados.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 26, 2018 9:41 am

"Esse lar de Marcelo será reconstituído no futuro milenar de ambos, por ele e por sua fiel consorte, que é um dos Espíritos aliados da mesma falange.
Virá ele, antes da partida de Dioneia, aguardá-la no extremo de sua peregrinação planetária, para substituí-la e poder prosseguir a excelsa missão que foi outorgada àquela nobre irmã.
Vais, dentro em limitado tempo, trinta e seis meses talvez, conseguir a realização do que premeditaste; mas, em condições especiais, que presentemente não te posso revelar.
Compreenderás, porém, que após a execução de um delito, ninguém conseguirá ser venturoso, porque no imo de cada ente humano há esse austero Tribunal, incorruptível — a própria consciência!
O que tanto ambicionaste vai-te ser concedido, porém, para tormento e expiação de tua alma e de teu coração."
— Por que não me aniquilastes, ou não o fazeis neste momento, por todo o sempre — vós, que falais comigo e deveis transitar pelo Espaço Infinito?
— Quem possui o poder de o fazer, meu infortunado irmão?
Quem conseguirá extinguir o espírito imortal, a eterna e indestrutível Vida?
Somente o Criador do Universo teria poder de apagar uma lâmpada perene.
— Por que não me avisastes, falando tal qual o fazeis agora, sobre as deploráveis consequências de um crime premeditado, tendo havido o tempo suficiente para o sustar?
— Porque nenhum mérito caberia à tua alma, Cláudio!
A criatura humana tem que praticar o bem impulsionada pelos próprios sentimentos dignificadores.
Nenhum mérito tem o indivíduo que deixa de perpetrar um crime porque o seu braço foi sustido por impulso alheio — do plano material ou do espiritual.
— E se o homicídio for perpetrado em defesa própria?
— A defesa exime o delinquente das graves penalidades, por isso que a vida é um tesouro divino e sagrado que todos têm o dever de conservar intacto e proteger.
No entanto, o que se imolar por alguém, para não macular a alma com o sangue de um irmão, alcança um triunfo incalculável!
É preferível, pois, ser vítima do que algoz, pois este foi o exemplo que nos legou o Mestre, Jesus!
Este poderia, se o quisesse paralisar a acção maléfica de seus flageladores; mas, não quis prevalecer-se dessa faculdade, e, sendo sacrificado, perdoou com humildade e compaixão:
"Perdoai-lhes, Pai, eles não sabem o que fazem!"
Assim procedeu o celeste Crucificado, e todos nós temos o dever de lhe seguir o eternal exemplo neste planeta de lágrimas...
— Então, se Jesus houvesse fulminado os seus algozes...
— Teria fracassado na grandiosa e meritória missão na Terra!
Não podia falir o Emissário celeste, a fim de que seu exemplo edificante fosse, aqui, o eterno modelo para todos os povos.
— Tarde conheci essa preciosa verdade, Mestre!
— Nunca é tarde para adquirir virtude, Cláudio!
É mister que, em porvindoura existência, firmes o pensamento no cumprimento de todos os deveres morais e divinos, nos quais tens que basear, doravante, teu proceder individual...
Doloroso e prolongado gemido emitiu Cláudio Solano, que, após, começou a soluçar.
— Deixai-me partir, Mestre, desta maldita existência terrena.
Quero morrer, Mestre! — implorava ele à fúlgida Entidade, que, divisada nas trevas compactas que o circundavam, lhe aparecia qual plenilúnio encantado em pleno firmamento ou semelhante a uma portentosa incrustação de luz sideral na caligem da noite.
— Coragem, irmão! — disse-lhe o radioso Mentor, compassivamente.
É mister que se gravem em tua alma, indelevelmente, como que por um estilete de fogo, as pungentes experiências que ora vais adquirindo.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 26, 2018 9:41 am

Qual se fosse arrastado no vórtice de infindo Oceano, Cláudio teve a sensação de que fora arrebatado aos ares, deixando, no humilde catre da choupana do piedoso campónio, o envoltório material estirado, com a aparência de um despojo cadavérico, e, decorridos poucos instantes, viu-se transportado ao interior do Solar do Cisne, onde fitou o aspecto mortuário da formosa Dioneia, deitada sobre o leito.
Nenhum movimento das pálpebras havia na enferma que, dir-se-ia, estava prestes a desprender o derradeiro alento.
Não longe, velando pela doente, achava-se o venerável Túlio, cuja fronte pendida e lágrimas incessantes denunciavam próximo desenlace da estremecida filha.
— Observa o esvaimento da vida desta infortunada mãe e consorte irrepreensível... — murmurou o Mentor que transportara Cláudio ao aposento da combalida viúva.
— Sou o criminoso causador do infortúnio destas nobres criaturas! — exclamou Cláudio, com infinita amargura.
— Ela vai morrer, Mestre? — inquiriu com ansiedade. — Matai-me!
Tenho necessidade de extinguir a vida ou fugir deste local que me suplicia a alma e me fará enlouquecer!
— Os Emissários divinos são agentes abnegados e zelosos do progresso espiritual de seus tutelados, e não assassinos dos delinquentes, pois, desse modo, tornar-se-iam também criminosos, e se estes fossem sempre trucidados na Terra... bem poucos seres humanos restariam!
A todos Deus concede o livre-arbítrio e o discernimento de seus actos.
Tu e Marcelo, em outra existência, penetrastes em lar onde seduzistes, com promessas falazes, cândidas donzelas, órfãs de mãe, e cujo genitor, estando em luta bélica em longínqua região, não as pôde defender.
Quando, ao regressar, se aproximou de ambos a defender o ultrajado lar, imolastes a vida daquele desditoso pai...
Uma das desventuradas jovens, na actual peregrinação terrena, é esta que aqui vês no leito de sofrimento, justamente a que maculaste, e, até à era presente, não te perdoou de todo, guardando recôndito ressentimento.
Aquele que Dioneia concebeu foi também um adversário, ao qual usurpaste a honra e os haveres; na actual etapa terrena, tens que lhe dar reparação.
— Como deverei agir para atenuar as consequências de meus crimes? — interrogou Cláudio, emocionado.
Dizei-me, vós, que tendes o poder de devassar o futuro e o passado.
— Não me é permitido fazê-lo, por enquanto, até que estejas completamente regenerado.
Vais ser causador de outras desditas à infortunada Dioneia e aos seus entes queridos.
Só então ser-te-á inspirada a conduta que convém!...
— Cada vez mais se agrava a minha aflição:
é horrível saber que, além da viuvez trágica, é suspeita de um crime, do qual está inocente!
Silêncio glacial reinou no recinto onde se achavam os dois seres intangíveis — Cláudio, exteriorizado da matéria, e seu etéreo Mentor.
— Um delito, irmão, nunca termina com o aniquilamento de uma vida planetária, e uma das consequências lamentáveis pode ser a suspeita infundada de um crime, tal qual sucede actualmente com Dioneia.
— Por que não fui punido com o extermínio absoluto, para evitar tão grande monstruosidade?
— A alma imortal, irmão, é um eterno enigma para os habitantes da Terra.
E se tu soubesses que, antes da perpetração daquele delito, já havias delinquido inúmeras vezes?
— Como podem ser críveis tais culpas, Mestre, se não me recordo de haver vivido outras existências, antes de ser o senhor do Solar das Sereias?
— A vida é uma série incessante de incursões no plano material e outras tantas no espiritual, sempre na luta pela perfeição.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 26, 2018 9:42 am

— Não seria mais razoável que a vida fosse uma unicamente?
— Não. Após as dores, lutas, angústias, labores, da conquista das virtudes, vêm a obtenção da paz, da sabedoria, as aquisições grandiosas, morais e intelectuais, a felicidade perpétua.
— Mas, por que os seres humanos não conhecem todas essas verdades?
Por que não as enxergam todos, através do mesmo prisma, para conquista desses bens espirituais?
— Porque o valor da conquista depende do esforço, do sacrifício, da abnegação de cada um, na luta pelo bem contra o mal.
— Então, o mal não deve ser condenável, é antes um bem inestimável, porque em razão da sua existência se conquista a eterna felicidade, Mestre!
— Iludes-te, meu irmão!
Só pelo bem praticado, no decorrer dos séculos, é que o ser humano conquista a ventura integral e inextinguível!
O mal é a treva, na qual um foco de luz tem mais realce.
O mal é a transgressão às Leis celestes e sociais.
O mal é a força destruidora da harmonia universal:
está em desencontro aos códigos celestiais e planetários; gera o crime, que é o seu efeito, e faz delinquentes sobre os quais recaem sentenças incoercíveis, ainda que reparadoras.
Subitamente, o diálogo foi interrompido por um gemido doloroso, sendo difícil perceber se fora emitido por um ser humano ou por um irracional.
— Quem vibra no silêncio da noite esse angustioso lamento, Mestre? — interrogou Cláudio.
Dir-se-ia que reconheço esse lamento.
— É Plutão que chora a seu modo a perda do amigo desaparecido.
— Será crível que Plutão ainda não haja esquecido o morto, e lamente a sua ausência?
— Morto, não, apenas liberto da matéria, Cláudio!
Afirmo-te que Plutão o enxerga, nota a diversidade de aspecto e consistência corporal, percebe que Marcelo já não tem o mesmo envoltório material...
O cão possui o instinto tão desenvolvido, que o torna observador inigualável; a lucidez mental que, nos seres humanos, se chama intuição, e que não tem correlação alguma com a matéria.
É um sentido psíquico, indefinível na linguagem terrena, o qual permite a quantos o possuem, perceber a presença dos bons e dos perversos.
O cão tem essa percepção, ainda indecifrável, que lhe inspira a hostilidade contra os malfeitores, quando estes penetram nos lares com intuitos sinistros, e o torna policial vigilante, que protege, com sinceridade e dedicação, aqueles a quem pertence, vela por todos de uma habitação honesta, defendendo-os contra quaisquer adversários, e sacrifica o repouso e o sono em prol de seu senhor; é uma atalaia que jamais se acovarda, e jamais trai a confiança que o dono nele deposita, fidelidade rara, aliás, no ser pensante.
Cláudio, que desejava elucidar ainda alguns enigmas que o perturbavam naqueles memoráveis instantes, interrogou:
— Como esclareceis, Mestre, tantas diversidades de condições, se todos os seres humanos são originados da mesma forma, se em todos existe (o que eu punha em dúvida, até há poucos dias) uma fagulha celeste, partindo do mesmo princípio — Deus?
Por que a centelha divina não produz exclusivamente o que é louvável e digno, e há indivíduos iguais a mim?
— No início das existências planetárias, as criaturas são semelhantes, possuem as mesmas faculdades; porém, necessitam adquirir experiências, méritos, caldear o metal divino — o espírito — para obtenção de triunfos valiosos, comparativamente à água transparente e cristalina que sai da fonte originária e tem longa trajectória, ora a deslizar sobre vargedos de veludo vegetal, ora sobre rijas pedras, ora sobre pântanos deletérios.
Assim as almas, em contacto com a matéria, esquecem a procedência celeste e se contaminam com as imperfeições, com o que é nocivo e prejudicial a elas próprias e à Humanidade.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 26, 2018 9:42 am

Mas, pouco a pouco, pelo esforço próprio, pelas quedas morais, pelo labor e pelas virtudes, tornam-se diferentes, parecendo ter sido diversa a origem de cada uma.
Passam-se séculos.
A linfa que se infiltrara pelo solo, contaminara-se nos lodaçais das paixões malsãs, corrompida e deletéria, vai prosseguindo sua trajectória, purificando-se no filtro da dor, e, novamente pura e cristalina, se torna diamante líquido, que parece conter a luz das estrelas, o cintilar dos sóis que abrolham no Infinito!
As lutas incessantes, as refregas morais, principalmente, depuram, saneiam, lucificam os espíritos humanos, unificando-os nos mesmos ideais dignificadores, nas mesmas esperanças confortadoras!
— Porque não é criada impoluta nossa alma?
Porque não possui unicamente predicados nobres e excelsos?
— Porque isso seria a destruição do mérito próprio, a desvalorização do esforço individual, porque não dependeria da luta redentora a conquista da paz, da sapiência, das virtudes e das felicidades eternas!
— Mas, em compensação, desapareceria a dor no Universo!
— Essa aspiração, Cláudio, é oriunda do egoísmo, do desejo da inércia, do gozo permanente, da ociosidade colectiva e improdutiva!
É mister a peleja, para que haja triunfo meritório.
É pela luta que se enrija a vontade, que se alindam as potências psíquicas, que se formam e se transformam os sentimentos nocivos em virtudes imortais!
— Por que, então, insisto, condenar o Mal, se este é elemento de luta para que a alma conquiste a ventura suprema?
— O Mal, já disse, é a prática de actos contrários às Leis Divinas e sociais, é o sentimento injusto e nocivo que impede a perfeição individual, afastando os seres das virtudes espirituais.
São duas forças antagónicas — o Bem e o Mal — que estabelecem um combate perpétuo, a fim de que as virtudes sejam galardoadas e vencedoras.
Muitos seres ficam perplexos, não achando concebível que Deus, a incomparável Perfeição, tenha infundido em todos os viventes uma centelha imortal e de procedência divina, e tal centelha, em contacto com a matéria, se corrompa e se transforme em todos os vícios, em todas as degradações e crueldades que têm infelicitado a Humanidade. Escuta-me, pois, irmão:
Nossa alma, conforme te disse, é semelhante à linfa das nuvens, a qual, depois de haver permanecido no Espaço, cai à Terra e, em confusão com esta, se metamorfoseia em um líquido turvo, compacto, lamacento; mas, pela infiltração no próprio solo, forma não raro fontes cristalinas, e, pela evaporação, ascende novamente ao ar atmosférico, constituindo o orvalho que borrifa nos vegetais diamantes líquidos, e se eleva à sua origem, o Céu, ao influxo do Sol!
Eis o que sucede à criatura humana, Cláudio, que vem ao nosso Planeta entrar em contacto promíscuo com o lodaçal das paixões malsãs, das iniquidades; mas, no decorrer dos séculos, em vidas sucessivas, ao influxo propulsor de sua origem celeste, pelo esforço próprio, pelas virtudes conquistadas, se torna cristalina qual o orvalho, límpida qual a lágrima de cândida criancinha, e, livre de todas as impurezas que a retinham nos pântanos das imperfeições, ascende gloriosamente ao Infinito, lúcida Fonte de tudo quanto constitui o Universo!
— Obrigado, Mestre.
Posso esperar, pois, que o meu execrável delito seja remido no transcorrer dos séculos?
— Sim, quando reparares o dano causado às tuas vítimas.
O insuflador do crime que cometeste foi o egoísmo.
Bem sabes que é condenável o que está em oposição ao decálogo:
"Não cobiçar a mulher de teu próximo", e sacrificaste uma vida para usurpar sua legítima companheira, tão fiel quanto formosa, física e espiritualmente.
Uma das virtudes máximas da evolução humana consiste na renúncia de tudo quanto possa ferir nosso próximo.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 26, 2018 9:42 am

Cada um deve convencer-se de que tem o que merece, não cobiçando o que não lhe pertence legitimamente.
Isso, porém, não agrada a muitos egoístas, e constitui o fracasso de inúmeras aspirações terrenas supostamente lídimas, a derrocada de espúrias esperanças, o aniquilamento de ambiciosos projectos de melhoria de situação!
Procedeste de modo condenável, Cláudio, dando guarida a sentimentos impulsivos e corruptores, plenos de egoísmo e de hipocrisia, ao extremo de patentear uma afeição desonrosa à esposa da tua vítima.
Essa nobre esposa, para te poupar a vida, guardou segredo das tuas afrontosas palavras, ocasionando indirectamente a morte do consorte, circunstância que lhe causa inconsolável tortura:
lembrar-se de que poderia ter livrado Marcelo de tua traição, e de que, não o fazendo, sacrificou a própria felicidade e a daquele que tem sido seu aliado em diversas etapas terrenas.
— Então, Mestre, Dioneia sabe do crime que pratiquei? — inquiriu Cláudio.
— A suspeita provém de uma faculdade anímica que pode tomar proporções assombrosas, atingindo a percepção do que já sucedeu ou vai suceder, apreendendo na alma todas as verdades, pretéritas ou porvindouras, existentes no plano material ou astral.
— E se Dioneia sucumbir sob esse desgosto intenso...
aumentarei com isso o meu crime?
— O delito cometido será agravado.
O sacrifício de cada vida aumenta a responsabilidade do delinquente, acumulando punições dolorosas para o futuro.
— E se eu tiver o ensejo de lhe aliviar o sofrimento, Mestre?
— Serão atenuados os teus padecimentos, e esse será o teu dever no futuro.
— Agora, Mestre, levai-me deste local que tanto me tortura.
Até o uivo de Plutão se torna insuportável.
Quero sair deste local maldito!
Também agora sei que tenho alma... pelo que padeço.
Parece que estou sendo devorado por um fogo interior...
A presença de Dioneia, semimorta, causa-me inenarrável angústia!
A presença dos pais de Marcelo... é-me intolerável!
Apodera-se de mim o receio de ver...
Mar... ce... lo! Enlouquecerei... se tal se der!
— É necessário que padeças as consequências de teu crime, Cláudio, a fim de que jamais destruas a vida de um irmão; é mister que seja revolvido o punhal do remorso em teu coração, para que deste se desalojem os sentimentos inferiores, transformando-os em eternas virtudes!
— Mais uma vez, peço, levai-me deste local execrando, Mestre!
Eu vo-lo rogo, em nome de Jesus!
— Grava bem na memória o quadro que ora contemplas:
ainda aqui voltarás em ocasião oportuna.
Quando regressares ao Solar das Sereias, prometes não mais abater uma criatura humana, por maiores que sejam as ofensas recebidas?
— Sim, prometo, sob o nome de Jesus!
— Toda a promessa feita sob a invocação do nome do Mestre, ou de Deus, deve ser cumprida escrupulosamente!
Eu me compadeço de ti, Cláudio, e por isso te relevei um suplício moral; vou atender a tua rogativa: voltemos para onde se acha desfalecido o teu envoltório carnal.
Estridente grito e prolongado suspiro fizeram arfar o tórax do enfermo, banhado de abundante transpiração.
Momentâneo alívio o reanimou, ao constatar que se encontrava em local seguro, desperto de excruciante sonho.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 26, 2018 9:42 am

Ouvindo o grito, precipitara-se para ele o vigilante campónio, que o interrogou:
— Que estás sentindo, domine? Estais pior?
— Tive um pesadelo horripilante.
Ia ser precipitado do alto de um rochedo... sobre o mar agitado em vagalhões da altura... do Himalaia!
— Felizmente despertastes, domine!
— Estou transpirando bastante e sinto-me álgido...
Já amanheceu o dia?
— Está alvorecendo, domine.
Ausente o piedoso campónio, Cláudio encetou tristes conjecturas.
Dir-se-ia que estivera no Solar do Cisne, e capacitava-se de que se transportara a distantes regiões, recordando-se até de ouvir o angustioso uivo de Plutão, e de haver visto o rosto desmaiado da infortunada Dioneia, inconsolável pela morte do esposo.
Lembrava-se, igualmente, de que alguém (que não podia precisar) lhe dera salutares ensinamentos e conselhos, acompanhando o naquela peregrinação.
Quem seria a Entidade cujas palavras lhe haviam ficado no recôndito da alma?
Era, então, uma incontestável verdade — a imortalidade da alma?
Sobrevivia esta à matéria?
E seria a matéria o instrumento de que se utiliza o Espírito para a consumação de todos os crimes, de todos os trabalhos e de todos os actos dignos de louvor?
Por que, só então, lhe haviam sido concedidas aquelas preciosas lições, e não antes de haver cometido um delito que o tornaria desventurado por toda aquela penosa existência?
Que lhe valia desde agora a imortalidade, se jamais cessaria o seu martírio moral?
Não seria melhor cortar o fio da vida, punindo-se assim severamente?
Que lhe valiam mocidade, opulência, instrução, tendo de viver em um ciclo de dores morais inconcebíveis, de remorso comparável a labaredas vulcânicas, queimando-lhe o pensamento?
Que género de morte escolheria? Um tóxico?
A abertura das artérias?
Atirar-se-ia ao mar?
Pretendia agir durante o dia, na realização do que, então, firmemente resolvera para término de seu suplício moral; mas, tentando erguer-se do leito, não o conseguiu.
Um tremor convulsivo lhe contorcia o corpo, fazendo-o rilhar os dentes.
Ia ensandecer ou morrer?
Para quem apelar, em tão aflitiva emergência?
Avassalador desalento prendia-o ao leito:
dir-se-ia que algo de essencial lhe fora subtraído do organismo, aniquilando lhe o desejo de viver, de lutar, de vencer qualquer obstáculo.
Sentia-se vencido pelo Destino, qual lutador romano, em plena arena, ao receber na fronte o golpe esmagador; não tinha mais ânimo para tomar parte na batalha da vida.
Naquele instante, desde que adoecera tão gravemente, lembrou-se apenas de que possuía valores incalculáveis numa bolsa de viagem que conduzia consigo, e de que era preciso enviar um emissário ao Solar das Sereias, comunicar a Felipe Valdomiro, administrador do castelo, o que sucedera; mas, inenarrável covardia dominava-o singularmente:
o receio de suspeitarem de que fora ele o assassino de Marcelo, coincidindo sua ausência com o homicídio.
Admirara a honestidade do campónio que o salvara, caído em um lodaçal, e que poderia tê-lo assassinado fácil e impunemente.
Quanto mais nobre fora o proceder daquele rústico, salvando um desconhecido, do que o dele, imolando a vida de um irmão, um companheiro dedicado...
A quem deveria encarregar dessa espinhosa incumbência de ir ao Solar das Sereias fazer as comunicações e levar o tesouro que conduzira em bolsa, a tiracolo, por baixo do casaco?
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

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