Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 27, 2018 8:46 am

Estariam intactos os valores?
Deixaria amanhecer, pensou ele, para agir, pois, evidentemente, após a reacção salutar do vinho ingerido, sentia-se mais calmo e confiante na inútil volta à vida, que ele desejava destruir, voluntariamente.
E não amanhecia!
Que acontecera, que a noite não terminava?
Chamou o caridoso Sérvulo, a quem assim falou:
— Meu amigo, estou melhor, e somente agora compreendo o que deve ter ocorrido comigo: desmaiei numa estrada desconhecida e sucumbiria fatalmente, se não me houvesses socorrido generosamente!
Tens direito a uma valiosa recompensa, que te concederei, pois já deves ter verificado existir considerável quantia dentro da bolsa que eu conduzia a tiracolo. ..
— Domine, folgo com as vossas melhoras, certamente permitidas por Jesus, ao qual, ontem à noite, eu e minha companheira muito rogamos em vosso benefício.
Quanto ao dinheiro que dizeis haver na bolsa, ainda se acha intacto, sob o forro do leito que ocupais.
Quereis certificar-vos do que afirmo, domine?
— Não, digno amigo; tens um dos maiores tesouros humanos, a honradez, que, dia a dia, mais rara se torna neste mundo repleto de traições e de misérias.
Quero gratificar-te pelos cuidados que tens tido comigo, pois te devo a vida!
Pertence-te a choupana em que vives com tua esposa?
— Não, domine.
Aqui possuo apenas alguns modestos móveis e utensílios domésticos, tudo muito humilde, como vedes, e que adquiri com enormes sacrifícios por ocasião de meu recente consórcio.
As terras e a choça em que vivemos pertencem a um usurário castelão.
Por que desejais saber?
— Porque vou adquirir, em teu nome, as terras onde se encontra a choupana, para que melhor possas gozar o fruto de teus esforços e trabalhos.
— Domine, e se alguém suspeitar que cometi um crime para possuir, repentinamente, o que sempre me faltou, dinheiro, para a aquisição de terras e de um lar próprio?
— Irás, então, para outro local onde não sejam conhecidas as tuas condições financeiras.
Abre agora a janela e dá-me a bolsa da qual vou retirar uma quantia.
Não quero ir para o túmulo, sem dar justa recompensa à tua dedicação.
— Domine, muito vos agradeço a generosidade, desejando gratificar o que constitui um dever de todo verdadeiro cristão: a caridade fraternal!
Anseio mais que recobreis a saúde do que ser recompensado materialmente, pois, tudo faço tendo a guiar-me, em todos os actos, as palavras e a doutrina do Mestre!
— Abre a janela, Sérvulo!
— Não enxergais a luz do dia, domine? Há muito que está aberta, de par em par, a janela deste dormitório.
— Não! não, Sérvulo! Julgava que ainda não houvesse amanhecido totalmente.
Apenas percebo uma frouxa claridade semelhante à do anoitecer!
— Lamento a vossa desdita, domine:
há muito que amanheceu.
O dia está luminoso qual a alma do justo, ou a de Jesus!
— Desgraçado que sou eu:
devo estar cego!
Cego, eu?
Justamente o que mais temi! Abre mais a janela!
Quero medir toda a extensão de minha desdita, Sérvulo!
Se eu estiver cego, hás-de dar-me um punhal para atravessar o meu próprio coração.
— Que Jesus não me permita concorrer para um tão nefando crime, domine!
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Ave sem Ninho

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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 27, 2018 8:46 am

— Sérvulo, compreendo as tuas virtudes e probidade; mas deves avaliar a vastidão da minha desventura!
— Domine, ainda que seja real a vossa cegueira, não percais a esperança de recobrar a vista:
há em Eubeia, que, como sabeis, é uma das mais populosas ilhas da Grécia, no Mar Egeu, um herbanário que é um prodígio.
Tem feito curas assombrosas.
Eu vos levarei até lá, se concordares.
— Aceito o teu generoso oferecimento, Sérvulo.
Providencia para aquisição de uma sege, a fim de nos facilitar a viagem...
Se eu morrer durante o trajecto, tudo quanto possuo ficará pertencendo-te e à tua família.
— Agradeço-vos a generosidade, domine, mas não poderia aceitar o que vos pertence.
Não tendes família, domine, à qual possamos comunicar a vossa presença em nosso humilde lar?
— De momento a momento mais te elevas no meu julgamento, Sérvulo.
— Vós vos iludis, domine; tenho apenas compreensão de meus deveres morais, que me vedam a prática do mal que me traria o remorso, desgraçando o meu ser, por muitos séculos, talvez!
— Muitos séculos, disseste tu, Sérvulo?
Qual a existência humana que excede mais de um século?
— Eu me refiro à alma, domine, à eternidade do espírito — onde se gravam os actos perversos ou meritórios, e não tem a efémera duração do corpo.
— Onde foste educado, Sérvulo?
— No meu próprio lar, santificado pelos salutares exemplos de meus pais, que criaram dois filhos, eu e um irmão, Joel Sarajevo, cujas palavras arrebatam a quem as escuta.
— Onde vivem?
— Já vos disse: em Eubeia, onde são humildes proprietários de uma hospedaria.
Quereis, acaso, domine, dar-me o prazer de ali buscar pousada?
— Sim, esse é o meu desejo.
— Deixai tudo a meu cargo.
Vou providenciar para que possamos partir dentro em poucas horas.
Recaiu intenso o silêncio no modesto recinto.
— Quero que me tragas1 a bolsa para te entregar a quantia necessária aos preparativos da jornada.
Se acaso sobrevier algo que modifique a minha situação, ficarás com o que nela estiver, e mandarás comunicar o ocorrido a Felipe Valdomiro, administrador do Solar das Sereias...
— Sois o proprietário desse solar, domine?
— Sim, tu o conheces, porventura?
— Longe corre a fama da opulência dos senhores daquele castelo, domine, e, se quiserdes, podereis regressar ao mesmo, desistindo da jornada à Eubeia.
— Sérvulo!
Ultimamente passei ali por terríveis dissabores, e, por enquanto, desejo conservar-me afastado de lá.
— Já sabeis que foi cometido um bárbaro homicídio no Solar do Cisne, não longe das vossas terras? — perguntou o camponês, que notou a palidez súbita de Cláudio.
— Não, e lamento o ocorrido, porque sou muito afeiçoado ao filho do proprietário daquele solar...
Marcelo... Taciano!
— Foi justamente esse o assassinado! As autoridades e os membros de sua família estão à procura do desconhecido malfeitor. Há promessa de gratificação a quem descobrir o seu paradeiro.
— Será verdade isso, Sérvulo?
Mataram... o meu melhor amigo?
Se não necessitasse de tratamento urgente, ameaçado de cegueira, voltaria ao Solar das Sereias... para auxiliar as pesquisas que desvendem o crime! — tornou Cláudio, com a voz
alterada pela emoção.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 27, 2018 8:46 am

— Vou tentar adquirir a sege de um amigo, que reside um pouco afastado daqui.
E porque careceis de cuidados incessantes, deixarei meus sogros, vizinhos, em meu lugar, para que vos prestem a devida assistência.
Até breve, domine!
— Um momento ainda, Sérvulo! Ainda não trouxeste a bolsa, que pedi.
— Ela se encontra ao alcance de vossas mãos, na mesinha fronteira ao leito, onde se acha a bilha da água.
— Obrigado, Sérvulo. Abre a bolsa e leva a quantia suficiente para a aquisição de uma sege e mais despesas de viagem a Eubeia.
O probo camponês relacionou tudo quanto encontrara na bolsa.
Cláudio Solano ficou surpreso pela fidelidade com que agiu ele, não omitindo um sestércio (1).
Após, deu-lhe quantia mais do que suficiente para a compra da carruagem e mais outra a título de gratificação por sua dedicação, o que foi aceito depois de intensa relutância.
Os sogros de Sérvulo Sarajevo foram chamados, e vieram prestar o prometido auxílio enquanto o genro estivesse ausente.
Ficou a partida marcada para o dia imediato.
Os modestos campónios tentaram reanimá-lo, narrando--lhe prodigiosas curas efectuadas pelo famoso herbanário residente em uma das ilhas gregas do Mar Egeu (2); mas o atribulado castelão mal percebia o que lhe diziam, vencido pela depressão moral que o avassalava.
Vivia já invadido pelo remorso, e todo o pavor que o dominava consistia em recear comprometer-se por alguma palavra inadvertida, deixada escapar de seus lábios, e acessível à percepção de Sérvulo, cuja moral irrepreensível o levaria a acusá-lo.
Teria o camponês percebido a sua perturbação, quando se referiu ao bárbaro homicídio de Marcelo Taciano?
Suspeitando-o delinquente, continuaria a interessar-se por sua vida, ou o entregaria às mãos das autoridades?
Sérvulo, quando foi indagar se necessitava ele de algum alimento, antes de se retirar para seu modesto dormitório, prometendo despertá-lo mal clareasse o dia, perguntou, respeitosamente:
— Quereis enviar emissário ao Solar das Sereias, antes de vossa partida para a Eubeia, domine?
— Não... para não afligir os que lá residem e me julgam muito distante desta região... — murmurou ele, após ligeira meditação.
— Prefiro não lhes dar uma notícia má, antes de me certificar da verdade, sem nenhuma ilusão de cura!
— Desejo-lhe uma noite tranquila.
Que Jesus vos conceda melhoras.
Novo silêncio sepulcral invadiu a humilde habitação de Sérvulo, o qual, após os labores diurnos, encontrou o sono reparador dos que têm saúde e serenidade espiritual.
Uma quietude polar parecia empolgar a própria Natureza, cortada apenas pelo farfalhar de uma árvore que havia ao lado esquerdo da choupana.
Insone, Cláudio reflectia na premente perplexidade em que se encontrava, e um alarmante receio de ser denunciado, de ser conhecido o seu esconderijo ou descoberto o seu crime infamante; sentia indefinível tortura, que parecia transformar em chamas subtis as cobertas, no leito, e que se lhe entranhavam no imo do coração. Insustentável era a sua contingência de delinquente foragido!
Era forçoso buscar saída do círculo de tormentos em que se achava encerrado:
a morte voluntária era o alvo a atingir!
Era-lhe intolerável a vida, pois a execração o aguardava desde quando se soubesse que ele eliminara um irmão, companheiro de infância, de lutas bélicas!
Sentia um vácuo impreenchível, uma cratera hiante, devastadora de todas as esperanças terrenas, dentro de seu ser, compreendendo confusamente a existência de algo imaterial e indestrutível que lhe parecia ter-se afastado daquele invólucro de criminoso.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 27, 2018 8:47 am

Como, porém, efectuar o seu sinistro plano e recobrar a tranquilidade espiritual?
Reflectiu e deliberou enforcar-se, rasgando o lençol que o cobria, para formar com a improvisada cordoalha o laço com o qual comprimiria o pescoço, conseguindo o suicídio.
Mal, porém, concebera o pensamento desse novo delito, invadiu lhe o organismo um invencível torpor, um aniquilamento que lhe dava a rigidez cadavérica, tornando-o pedra humana.
Sentiu, porém, o desprender-se de algo muito ténue e suave que, logo após, se integrara no exterior de seu corpo tangível, e ficou frente a frente com uma Entidade imaterial, de formosura indescritível, cuja aparência era a dos arcanjos ideados pelos cristãos, porém, com indefinível expressão de melancolia a extravasar-se-lhe do rosto encantador.
— Cláudio — ouviu ele estarrecido — não recordas mais os conselhos que te transmiti, há poucos dias?
Não te convenceste de que um crime não resgata outro, e de que deves cumprir a penalidade que te fará ressarcir o hediondo delito que praticaste?
— Sou indigno de viver, Mestre!
— Folgo que sintas em teu íntimo a condenação da consciência, irmão; mas não deves, por isso, premeditar a deserção da vida, o que jamais conseguirás, pois que ela é indestrutível!
— Se houvesse podido avaliar quão intenso é o sofrimento moral, não teria consumado a barbaridade que cometi...
— Inútil é relembrar o passado.
É preciso suportar-lhe as consequências, viver — oprimido o teu coração pelo peso da cruz que, doravante, tens que conduzir ao Calvário da Redenção!
— Não possuo a resignação cristã necessária para enfrentar esses padecimentos presentes ou futuros, Mestre!
— Pois bem, Cláudio, de vez que és pusilânime, e desejas a todo transe fugir dos tormentos remissores impostos aos delinquentes, teu espírito não regressará ao cárcere carnal, e sim a um abismo de trevas, onde permanecerás por muitos séculos, perdendo, quase, a noção da vida real, com as recordações incessantes do delito que praticaste! — exclamou a fúlgida Entidade, para atemorizá-lo e evitar novo crime.
— Estou irremediavelmente perdido! — falou Cláudio, soluçante.
— O Mestre bem-amado disse:
— "Pai, das ovelhas que me destes, nenhuma se perderá!"
Serás salvo, irmão, ovelha que és do compassivo Zagal; mas, tens de submeter-te às Leis de Deus e às da Terra!
— Que vale a imortalidade para a alma desiludida e infortunada, imersa em um abismo de trevas, quer esteja sobre a Terra ou no Espaço?
— Chegará o instante bendito da redenção, Cláudio!
Suporta os tormentos morais que te aguardam, limpa tua alma nos caudais de lágrimas que hão-de fluir de teus olhos de trevas.
Eis o que te alvitro, discípulo de Jesus que sou, e irmão de todos os desventurados.
— Não me conformo em viver imerso em noite infinda!
— Eu me compadeço de ti; porém, sou compelido a dizer-te a realidade: a sentença já foi exarada.
Extinguiste a luz preciosíssima — a vida terrena de um irmão; a penalidade é semelhante:
apagou-se em tua alma a lâmpada divina da visão!
— Pois a vista não provém dos órgãos visuais?
— Acaso estão vazados os teus olhos?
Não se conservam eles límpidos, denotando que algo de precioso se apagou em teu íntimo?
— O mundo deixou de existir para mim; sou um cadáver que se movimenta, um morto... vivo!
É-me intolerável a vida.
— Não te lembras de que havia um lar ditoso, onde, em paz e ligados por sacrossanta afeição, dois seres aguardavam a chegada de um arcanjo, que iria aumentar-lhes a ventura, e de que cravaste um punhal no coração que te consagrava amor fraterno?
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 27, 2018 8:47 am

E de que ainda houve outra dor, incomparavelmente maior e mais intolerável do que a agonia da morte dos órgãos visuais, e foi a de reconhecer aquele que o assassinou — o seu mais prezado amigo, no qual confiava sem restrições?
Achas que a cegueira é penalidade excessivamente cruel para punir tão abominável crime, triplicemente bárbaro?
— Mestre! Não me recordeis esse delito.
— Escolhe, pois, dentre os dois caminhos o que mais te convenha:
a tua momentânea cegueira, ou a de duração ilimitada, na Eternidade, se transgredires novamente as Leis Divinas.
Escolhe, infortunado irmão...
Um gemido pungente se desprendeu do peito de Cláudio Solano, que assim respondeu à Entidade que lhe falava:
— Sim, tudo sofrerei, para reparação de meu delito; aceito o cálice de amarguras, e imploro a protecção do Céu para que minha vida terrena não se prolongue em demasia.
— Tudo depende de ti, de te consagrares ao Bem, ao cumprimento de todos os deveres.
— Inspirai-me, sempre, Mestre.
— Sim, caro irmão, eu te inspirarei, nos momentos acerbos e oportunos de tua existência, as melhores resoluções a tomar.
Terás que concorrer para suavizar as amarguras de tuas vítimas!
Outro doloroso gemido fez arfar o tórax de Cláudio, que despertou exausto, como se houvesse sustentado renhida peleja com algum possante gladiador romano.
Abriu os olhos cheios de trevas e não pôde ver se o dia já havia derramado do Oriente à Terra, qual enamorado celeste, uma catarata de rosas de luz sobre sua fronte sombria.
Lembrou-se de que estava cego, e soluços convulsivos lhe saíram do peito, qual jorro de lavas candentes arrojadas do interior de um Vesúvio enfurecido.
Ouviu-se a voz do camponês, que o interrogou, com entonação fraterna:
— Que tendes, domine?
Estais sentindo alguma dor?
— Tenho-a na alma, Sérvulo!
Foi um sonho angustioso.
Não sei, nem vejo se o dia já desfez as sombras da noite, e isso me leva ao desespero!
— Resignai-vos, domine, pois já amanheceu, e, dentro em pouco, partiremos para Eubeia, onde tenho esperança de que haveis de obter melhoras surpreendentes!

(1) A última Cruzada (1270), confiada a S. Luís, 9" rei da França, terminara bruscamente, por haverem perecido, de enfermidade pestifera, o coroado dirigente dos defensores do túmulo de Jesus, e bem assim os mais valorosos soldados, que, dizimados antes que se dispersassem, tiveram de dar por finda a campanha que os reunira.
(2) Sita — Esposa-mártir, cuja castidade resistira aos suplícios de Ravana, voltara inculpada para seu esposo Rama
(3) Ílsis — Divindade egípcia, deusa da Medicina e da cultura do trigo, personifica a primeira civilização egípcia. Levantai O véu de Ísis quer dizer desvendar algum mistério ou arcano.
(1) Ilirla (Illyria) — Antiga região montanhosa do ex-império austríaco, na costa setentrional do Adriático, constituindo um reino até 1849.
(1)Palingenesia — Regresso à vida, reencarnação, segundo os gregos.
(1) Sestércio — Pequena moeda dos antigos romanos. Valia um quarto de dinheiro, ou 10 asses.
(2) Egeu — Príncipe grego, filho de Pandíon, que se afogou no mar que recebeu a designação de seu nome — Mar Egeu ou Arquipélago.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 27, 2018 8:47 am

LIVRO TERCEIRO - DESENGANOS E REPARAÇÕES
A peregrinação de Cláudio Taciano foi longa e penosa, desde as terras alcantiladas da Dalmácia até Eubeia, a formosa ilha grega do Mar Egeu.
Fizera ele o trajecto sob os cuidados de Sérvulo Sarajevo, e, no término do mesmo, foi acolhido na hospedaria — "Abrigo dos Viajantes" — pertencente aos progenitores do probo camponês.
Comovedora foi ali a separação.
À hora da partida, disse-lhe, emocionado, o campónio:
— Para não despertar invejas e suspeitas, transferirei o meu lar para outra região, onde todos ignorem os haveres que me proporcionastes, generosamente, domine!
Onde quer, porém, que esteja domiciliado, comunicar-vos-ei o local dessa residência.
Depois de diversas recomendações a seus entes queridos, para que se desvelassem pelo enfermo, partiu Sérvulo deveras emocionado.
Por alguns dias, o senhor do Solar das Sereias manteve-se em mutismo quase absoluto.
Certa tarde, após um dia de tormenta constante, desses que entristecem as almas impressionáveis, predispondo-as à meditação e ao recolhimento, Cláudio fez ir à sua presença o hospedeiro Soriano Sarajevo, a quem disse:
— Sou muito grato ao vosso filho Sérvulo.
Segundo me afirmou, não longe desta habitação há um herbanário prodigioso nas curas que realiza...
— Sérvulo encarregou-me de trazê-lo à vossa presença; porém, ele se ausentou, tendo ido ao Egipto, onde permanecerá por alguns dias, domine...
— Tenho reflectido muito sobre o mal que me acometeu, e resolvi não procurar remédio para o que está irremediavelmente perdido!
— Repeli esses trágicos pensamentos, domine, pois não ignorais, talvez, que nunca estamos sozinhos; temos amigos e adversários invisíveis, que nos defendem ou nos lançam numa voragem de dores, de acordo com os nossos pensamentos ou nosso proceder!
Quando não proferimos palavras de revolta contra as Leis Supremas, de blasfémias, de pessimismo, temos a protecção dos amigos intangíveis; mas, sucede o contrário, quando temos brados de desespero, de desalento, e, então, ficamos à mercê dos perversos invisíveis, que se comprazem em nos atirar aos abismos físicos ou morais!
— Cheguei ao limite desta infortunada existência, sem atingir a uma lógica e convincente conclusão sobre os problemas da alma...
Desisto de lhes dar solução!
Necessito agora apenas de um emissário para ir ao Solar das Sereias, que me pertence, a fim de levar notícias minhas e os valores monetários e em jóias que estão em meu poder.
Tendes o emissário de que careço?
— Sim, domine; mas, vós estais enfermo, e com ideias fúnebres.
Quereis que vos traga outro herbanário, antes que regresse o que foi ao Egipto?
— Não, porque resolvi, inabalavelmente, não me tratar!
Sei que minha cegueira é total, é incurável.
Quero agora apenas um portador de toda confiança.
— Difícil é a vossa incumbência, domine; mas responsabilizo-me pela quantia e pela missão, que confiarei a meu filho Joel.
Vou chamá-lo à vossa presença.
Findos alguns instantes, deu entrada no dormitório o mais jovem dos filhos do proprietário da hospedaria.
Cláudio não pôde divisá-lo claramente, parecendo-lhe, porém, irradiar algo de luminosidade, que o tornava visível dentre as trevas que o circundavam:
porte acima do mediano, cabelos ondulados, áureos, emoldurando-lhe a fronte helénica, olhos glaucos, expressivos, fúlgidos que revelavam perspicácia e inteligência invulgares.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 27, 2018 8:47 am

— Estou ao vosso dispor, domine! — murmurou Joel, aproximando-se do leito.
— Joel — indagou Cláudio — em quantos dias contas ir ao Solar das Sereias, na Dalmácia?
— A cavalo, por mar ou a pé? — perguntou o jovem.
— Será crível que empreendesses, a pé, uma viagem tão longa, até perto de Zara? (1)
— Se for preciso... não me faltará a indispensável coragem de ir e voltar até aos confins da Sibéria!
— És corajoso, e a intrepidez é um grande elemento da vitória na vida.
Quando pretendes partir?
— Ao entardecer, domine; estamos no verão e conto com a amenidade das noites para viajar.
Depois de aportar em Zara, irei marchando, conforme fazem os peregrinos, desprovidos de fortuna.
— Fica a teu dispor a escolha dos meios para viajar.
Quanto necessitas para o desempenho da incumbência que te vou confiar?
— Apenas o indispensável à minha manutenção, sem gratificações ao que pretendo realizar!
— Confio em ti, e saberei ser generoso, pois não concordo em que te sacrifiques por mim, sem recompensa aos teus esforços...
Durante o dia, tendo-se alimentado frugalmente, Cláudio conservou-se no leito, no mutismo costumeiro, sentindo o mesmo torpor invencível dominar-lhe o organismo, alheio ao presente, empolgado por uma depressão moral que o tornava inútil para a vida, incapaz de reagir com os próprios sentimentos.
Quando, à tarde, Joel se lhe apresentou no dormitório, foi que se recordou da missão a confiar-lhe.
Ditou algumas palavras, dirigidas a Felipe Valdomiro, o administrador do Solar das Sereias, extensivas a todos os seus habitantes, transferindo-lhe grande parte dos valores que se achavam em seu poder, para, no caso de morte, sua fortuna ser dividida pelos que viviam no castelo, de vez que não possuía herdeiro natural.
Depois de alguns instantes de reflexão, pediu a Joel que prestasse a máxima atenção às palavras que lhe ia transmitir:
teria de dirigir-se ao vizinho Solar do Cisne, para receber notícias dos que lá residiam, transmitindo expressões amistosas a todos, relatando estar ele, Cláudio, cego.
Depois de palestrar com Joel, entregou-lhe os valores em uma bolsa de couro, que este ocultou sob as modestas vestes, dizendo ao castelão:
— Que prova vos convencerá de que desempenhei escrupulosamente a incumbência que me foi confiada?
— Nas palavras que me transmitas, em resposta, reconhecerei a verdade.
Sei que és honesto e digno da confiança que ora deposito em ti.
Talvez já me encontres no túmulo, e, em tal caso, tudo quanto restar em meu poder pertencer-te-á, além da quantia que te entrego neste instante.
Toma-a!
— Obrigado, domine!
Aventuremos, porém, uma hipótese:
se malfeitores que infestam os mares e as estradas, abaterem o meu corpo, e se apoderarem dos valores que conduzo?
— Maior será a tua perda, perdendo a preciosa vida!
És cristão, Joel?
— Sim, domine, e minha fé na doutrina do Crucificado é tão veemente, que a considero inestimável tesouro, que os malfeitores não poderão usurpar.
Cláudio esperou mais algumas expressões de Joel, mas este se conservou calado.
Cláudio, soerguendo-se no leito, acrescentou então:
— Confio em absoluto na tua honestidade, e por isso te entreguei grande parte do que possuo.
Quanto ao resto dos meus haveres, está encerrado em um esconderijo, que revelarei aos que assistirem aos meus derradeiros instantes, quiçá bem próximos, pois me considero vencido, e decerto não nos veremos mais.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 27, 2018 8:48 am

— Ninguém deve considerar-se um vencido na Terra, domine.
Eu tenho inabalável crença na imortalidade da alma:
sei que havemos de nos encontrar, forçosamente, podendo resgatar os compromissos assumidos neste momento!
— Invejo-te a fé irredutível nas coisas transcendentais.
— E quem vos impede que as tenhais, superiores ou iguais às que possuo, domine?
— Quem poderá dar-te uma resposta segura e definitiva?
— Basta que alguém seja consciente de seus actos, honesto e sincero, para servir a contento ao Senhor dos Mundos.
— Nossas condições são diversas; no entanto confesso, com lealdade, que trocaria pela tua fé toda a fortuna que possuo.
— Podeis recuar e seguir o roteiro luminoso, farol divino existente em nosso espírito imortal — a Consciência!
— É tarde para conseguir esse triunfo. Presentemente só me resta uma solução digna para mim:
a morte, para terminar o meu suplício moral.
— Estais iludido, domine; a morte não é o remate dos padecimentos morais ou físicos, e sim uma transição na vida imortal.
— Prefiro o nada, o esquecimento de mim próprio, Joel!
Desejo o esvaimento da vida, o eterno aniquilamento da alma!
— Estais equivocado, domine, repito.
A morte é o despertar de todas as faculdades do espírito entorpecidas no túmulo da carne e, então, liberto das sombras terrenas.
— E como resolves esses problemas da vida, Joel?
— Sintetizo:
a Palingenesia, ou a lei das vidas seriadas, é uma verdade incontestável!
Os crimes perpetrados em uma vida, ficando impunes pela Justiça terrena, são resgatados por meio de punições equivalentes ao delito cometido.
Somente a dor, moral e física, o cumprimento austero de todos os deveres sociais e divinos, podem remir as faltas tenebrosas.
Só a virtude e a moral, em vidas futuras, isentam os seres racionais de todas as vilanias do passado.
Eis por que, às vezes, um homem probo e digno das bênçãos celestiais padece aparentes injustiças, sofre calúnias e provas acerbas: está resgatando, com lágrimas, os delitos do passado, de outrora.
Houve prolongado silêncio.
O jovem, que se encontrava a poucos passos do leito, com o porte erecto, o rosto incendido por um clarão interior, os olhos lucificados, falando com a segurança reveladora da presença de um génio desconhecido, arrancou dos lábios de Cláudio esta arguição:
— Onde recebeste tantas elucidações morais e religiosas, que transmites como se foras abalizado mestre?
— Meu pai, Soriano Sarajevo, recebeu na primeira juventude ensinamentos dos que haviam sido discípulos de Pitágoras.
— Não disseste que és cristão?
— Que inconveniente há que eu tenha dois excelsos Mestres — Jesus e Pitágoras, Emissários siderais em missão terrena?
Vieram em épocas diversas; mas, no tempo, um é complemento do outro, ambos Espíritos lapidados pelo buril da Virtude!
Aqui estamos por um poder superior ao nosso, e daqui partiremos em circunstâncias alheias à nossa vontade.
A exemplo do general que estuda os planos de batalha, o local onde se vão travar os combates decisivos, com o desejo ardente do triunfo, assim devemos proceder, relativamente ao porvir que nos aguarda, nós que vivemos entre duas eternidades, o Passado e o Futuro!
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Ave sem Ninho

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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 27, 2018 8:48 am

— Mas, o general estuda o que é positivo e palpável, enquanto que nós temos de lutar com o mistério e o insondável...
— Essa a impressão quase geral; mas, é ilusória. Basta meditar sobre o que somos e o que nos circunda; uns belos e inteligentes, outros atrofiados, disformes, cegos, imbecis:
uns virtuosos e bons, outros perversos, propensos ao mal, à traição, ao crime, dominados por instintos inferiores; alguns incapazes de molestar um insecto, outros capazes de apunhalar um amigo, um ser útil e compassivo, de empunhar uma arma para tirar a vida a um irmão dedicado...
Cláudio empalideceu até à lividez ao ouvir as últimas palavras do jovem inspirado.
Joel fitava-o com fixidez, com a intuição nítida de que a enfermidade que acabrunhava o seu interlocutor não era exclusivamente material, e sim espiritual, com raízes no remorso.
— Importunam-vos, acaso, as minhas expressões sinceras, domine? — interrogou Joel.
— Não... estou surpreso de que, tão jovem, já tenhas cogitado da solução de problemas morais de tanta transcendência.
— É que estudo tanto quanto posso e não cesso de interrogar a meu pai, que é um humilde sábio, sobre o que ainda estou em dúvida.
E ele, um verdadeiro iluminado, vai revelando-me as suas concepções grandiosas.
— Sou bem mais idoso do que tu, mas desejo ouvir as tuas elucidações, porque me considero um vencido, quase um farrapo humano que tem por derradeiro ideal a morte, o único que não falha, tendo por corolário o nada, o esquecimento de tudo — para sempre.
— Ninguém consegue, domine tal olvido, porque a morte é o início de outra vida, quando se aprimora a lucidez das faculdades psíquicas e se rememoram todos os crimes e todas as acções meritórias.
Em vez do olvido, há a eclosão de faculdades latentes, mal desabrochadas no período terreal.
— A convicção inabalável sobre a imortalidade é inata na alma — fagulha divina, o espírito —, provém das vidas anteriores.
Eu me recordo lucidamente, por exemplo, de que já vivi em diversas eras, cometi desatinos e actos heróicos; já ouvi a palavra inspirada de incomparáveis e eternos Mestres.
Não há muito, houve na Palestina exemplo vivido de um Enviado divino patenteando que, findas as provas suportadas com denodo, poderemos partir em busca do Céu, da isenção do sofrimento.
Jesus alou-se ao Firmamento azul qual se fora uma andorinha de luz.
Sejamos fiéis discípulos, tenhamos confiança absoluta em seus ensinamentos sublimes, e alcançaremos a verdadeira felicidade — a paz.
Trabalhemos, pois, para colher tal felicidade futura, cultuando o Bem.
Profundo suspiro se exalou do opresso peito de Cláudio Solano, e lágrimas fluíram de seus apagados olhos.
Joel Sarajevo fitou contristado o enfermo, compadecido dos sofrimentos morais que percebera supliciavam aquela alma de delinquente, recebendo que estava as vibrações emitidas do cérebro do castelão, graças à potência psíquica dos seres
evoluídos.
Cravou perquiridor olhar no rosto pálido de Cláudio Solano, e, quase imperceptivelmente, acercou-se mais do leito, murmurando, qual verdadeiro inspirado:
— Grande foi o vosso delito, domine, e, por isso, quase invencível é a vossa depressão moral; aceita, porém, os sofrimentos remissores para que se atenuem os martírios do vosso atribulado coração.
Cláudio não deu resposta imediata, deixando que as lágrimas fluíssem de seus olhos trevosos.
Afinal, exclamou:
— E eu desejava ser bom e honesto; mas, fatal paixão levou-me ao desvario, Joel!
— Vivo no mesmo plano material em que vos achais, domine; mas a minha alma tem a faculdade de penetrar os arcanos dos corações, para lhes devassar os feitos, nobres ou condenáveis!
Sérvulo, meu irmão, não suspeitou sequer a verdade, que ora me foi patenteada, como se o fosse por palavras vossas, equivalentes a uma sincera confissão...
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 27, 2018 8:48 am

— Como sabes, com tanta lucidez, tudo quanto julgas ter ocorrido no passado?
— Aqueles que se voltam para Deus, domine, adquirem faculdades surpreendentes, que todos consideram mágicas, e são, todavia, inerentes às criaturas humanas, submissas às Leis Divinas...
— Lembrar-te-ás, então, deste mísero pecador.
Diz-me, porém, Joel, o que tanto anseio saber:
podes, acaso, modificar o destino humano?
— Quem poderá consegui-lo, domine?
Não tenho a pretensão de derrogar as Leis Supremas; posso, contudo, com os meus esforços, evitar que se execute um crime igual ao que estáveis projectando, com o que afasto muitas penas futuras, muitos tormentos morais.
Pelos cegos olhos de Cláudio Solano ainda deslizavam lágrimas.
Joel, o inspirado de Eubeia, fitando, sempre com piedade, o abatido enfermo, acrescentou:
— A vossa compunção é supliciante, domine; mas, levar-vos-á à redenção de todos os delitos cometidos. Vossos compassivos amigos — invisíveis aos olhos incrédulos — vossos desvelados Mentores Espirituais, que já têm visto anulados, muitas vezes, os seus ingentes esforços em vosso benefício, sofrem por vossa causa... não podendo anular influências maléficas que são acolhidas em vosso coração!
— Por que não me arrebatam a vida, que se me tornou inútil, esses a quem chamas meus dedicados Protectores?
— Porque eles não têm por missão abater os tutelados, e sim retirá-los do caos, inspirando-lhes a prática do Bem, sublimes e dignificadores Ideais!
Cláudio Solano ouvia-o com profunda emoção, sentindo-se um tanto aliviado, pois, pela primeira vez naquela tumultuosa existência terrena, pôde patentear a uma criatura digna os seus mais secretos sentimentos.
Solicitou ele a Joel que ficasse bem próximo ao leito, para melhor escutar a confidencia das suas amarguras:
— Meus genitores amavam-me extremosamente; mas, eram indiferentes à educação moral, ao culto do dever — que é mister predomine nos corações juvenis, para que neles desabrochem as rosas divinas da Virtude!
Agora reconheço que grande parte do destino humano depende do zelo dos pais, incutindo nos filhos sadias crenças confortadoras, sem descuidos no que concerne ao culto do Bem.
Meus pais, carinhosos e solícitos, satisfaziam-me nos menores desejos, eram zelosos de meu corpo, mas indiferentes à alma, que eu desconhecia e desprezava.
Meus primeiros tempos de existência foram agitados por grandes dissabores.
Sempre em luta com tenazes adversários, que desejavam apoderar-se dos haveres dos meus ancestrais que, talvez nem sempre agindo com lisura, conseguiram cabedais surpreendentes.
Meu pai foi assassinado, por assalariados de nossos desafectos, que, alta noite, penetraram no solar, e, ocultos em uma de suas dependências, puderam facilmente consumar o crime.
Minha mãe, que se ocultara no subterrâneo (pois, assim lhe gritara a tempo o marido, que lutava em defesa do castelo, ao lado de fiéis servidores), quando soube que o estremecido companheiro de existência havia tombado sem vida, enlouquecida de dor, saiu em vertiginosa carreira e arrojou-se ao Adriático.
Não foi encontrado o seu cadáver.
Eu fui poupado à sanha dos assassinos, porque, dias antes, seguira para Roma, a fim de estudar com abalizados mestres, que muito concorreram para a cultura de meu intelecto, embora me deixassem profundamente pessimista, crendo unicamente no tangível, no real.
Fiquei, em suma, jovem e inexperiente, à mercê das aventuras arriscadas e perigosas, com sobejos recursos pecuniários e uma alma árida e desprovida de virtudes.
Fiz-me legionário, juntamente com outro mancebo, de raros predicados morais, com o qual passei a conviver, quase fraternalmente, tendo os seus genitores adquirido o Solar do Cisne, na Dalmácia, pouco distante do que me coube por herança materna.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 28, 2018 10:14 am

Éramos inseparáveis, e, quando nos apartávamos, por dias, permutávamos epistolarmente os nossos pensamentos saudosos. Fizemos, nos últimos períodos da Guerra Santa, dos Cruzados, a campanha militar, e, terminada, ele regressou ao lar venturoso enquanto eu iniciava uma série de peregrinações pelo Egipto e pelo Oriente, despendendo largamente em prazeres.
"Algum tempo decorrido, recebi afectuosa missiva de Marcelo Taciano (assim se chamava o meu amigo) comunicando-me que se havia consorciado com formosa donzela, sendo infinitamente ditoso, pois, além da fúlgida beleza, possuía ela invulgar cultura intelectual e primorosa educação moral.
Fiquei ansioso por voltar ao meu castelo, para melhor certificar-me da felicidade de meu incomparável amigo, embora me fosse penosíssimo rever o local em que ocorreram as tragédias de família.
"Quando meus olhos fitaram a consorte de meu amigo, apoderou-se de mim íntima e inenarrável angústia:
percebi que se me havia deparado o ideal que concebera para a minha felicidade terrena, e, para possuir o seu afecto, seria capaz de cometer todos os crimes, todos os desvarios!
Apoderou-se de minha alma o dragão do ciúme:
estimava e odiava o nobre Marcelo, invejando-lhe a ventura que o inebriava, e eu considerava inigualável na Terra — o amor inapreciável da sua casta, inteligente e deslumbrante Dioneia!
Só a virtude cria semelhante prodígio.
Se ela compartilhasse de meu afecto criminoso, eu nunca teria pensado no delito que pratiquei para apoderar-me, ilicitamente, do que não me pertencia.
Ela, porém, era invulnerável e indiferente à paixão indómita e perturbadora que avassalava todo o meu ser.
"Decorreram cinco meses após a hediondez que cometi, e não pormenorizo porque não tenho expressões para tanto; falta-me o ânimo preciso para relatar o que ainda existe em meu íntimo.
Eu imaginava que, ficando desimpedido o obstáculo à sonhada felicidade, tudo estaria facilitado, e eu livre para a conquista do amor daquela que exerceu verdadeira fascinação sobre o meu enlouquecido coração!
No entanto (quanto estava iludido!) vejo-me, dia a dia, como que atado a um pelourinho, do qual desejo fugir para o seio da Morte."
— E contais ter repouso, domine, após a prática de um segundo crime?
— De que me vale a reflexão nestes instantes tormentosos, Joel?
Quero atirar-me resolutamente a uma insondável voragem, de olhos cerrados...
Se houver o prolongamento da vida material, será preferível que eu esteja no Mundo das Trevas, porque, lá, certamente não se acham pessoas de minhas relações sociais.
Sinto-me, dia a dia, invadido pelas sombras onde naufragou o meu coração em mar de atros nevoeiros.
Ainda não tive um sono reparador... desde o instante fatal do hediondo crime que cometi.
O único lenitivo que me foi dado desfrutar, desde esse momento fatal, consiste em ter quem me escute, como sucede agora, que patenteio todo o martírio que me excrucia o coração, quem me compreenda, quem avalie a extensão de meu penar, pois percebo a compaixão com que me falas, Joel, alma nobre e varonil, que, muito tarde, encontrei na vida.
Assim terminou Cláudio Solano sua narrativa, soluçando convulsivamente...
Ergueu-se de um só impulso o jovem heleno que, dir-se-ia estava inspirado pelos Génios que têm baixado ao solo bendito da Grécia através dos séculos.
Por instantes empolgou o enfermo com a eloquência que lhe era peculiar como a têm os que, após milénios de acerbas provas e árduas experiências, destroem os resíduos do Mal e fazem germinar a sementeira do Bem, por já estarem ultimando as peregrinações planetárias.
— Domine — falou ele, com o olhar repleto de radiosidades siderais — o homicídio só tem atenuante no caso de defesa, de agressão insólita e brutal, sem motivo justificado.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 28, 2018 10:14 am

Se buscais o alívio ambicionado por meio do suicídio, vossos padecimentos serão recrudescidos, porque não tendes atenuantes para esse outro delito.
Fugindo da Terra, não se foge à punição, porque a Lei é eterna.
Eu, que aqui me encontro a vosso lado, e que vós julgais um privilegiado de Deus, estou finalizando uma árdua penalidade:
tenho que resgatar um derradeiro delito, cometido outrora, quando ainda desconhecia as Leis Divinas.
Coadjuvei então alguns celerados a destruir um lar honesto, por meio de propositado incêndio, para ocultar o extermínio do chefe da família, assassinado à traição!
Não me revolto, porém, entregando-me às mãos protectoras de Jesus e de meus intangíveis Mentores, os quais, melhor do que eu, sabem do que necessito para completo expurgo de minha alma!
Estivestes, até agora, com os olhos cerrados à verdadeira luz; tudo quanto estais padecendo é para que seja abalada a vossa alma, a fim de receber as inspirações dos Arautos divinos, as vibrações celestes que se metamorfoseiam em esperanças radiosas, em altruísmo, em fraternidade, e só então sentireis o bálsamo da consolação esparso em vosso íntimo.
Consenti, pois, domine, que eu aplique minhas mãos sobre vossa fronte — em cujo interior há um Etna (1) de dores e remorsos — e, com o pensamento irradiado para o Céu, para o Altíssimo, possa conseguir, com a sua permissão, infundir uma fagulha astral, que se transmita a vossos olhos cheios das trevas que inundam o vosso espírito.
Ereto e majestoso, o jovem iluminado de Eubeia impôs as mãos sobre a fronte do enfermo, e, qual sussurro de aragem entre folhagem primaveril, murmurou, com veemência:
— Deus, Sol do Universo, Juiz Supremo, Pai de todos os seres humanos que se encontram na Terra e em outros orbes do Espaço, ousamos erguer o pensamento desta masmorra de sombras, para implorar-vos a esmola de uma gota de luz para os órgãos visuais deste que aqui se encontra, imerso no mais tenebroso de todos os mares — o do pessimismo, da descrença em vossos desígnios sublimes, ao desalento que arroja ao caos dos sofrimentos...
Se meu humilde rogo não puder ser atendido, Senhor, porque sabeis de que necessitam os réus deste planeta, infundi, então, em seu íntimo o gérmen de luz que ainda não abrolhou no granito de seu espírito de céptico impenitente.
Permiti, pois, que, para prova de vossa clemência insuperável, este infortunado vosso filho tenha um vislumbre da preciosa faculdade que se extinguiu.
Reconhecemos a justiça de vossas Leis Redentoras, mas imploramos a vossa misericórdia, para que nunca mais falte uma gota de Sol em seu íntimo, e, guiado por essa divina fagulha, siga, a passo firme, o áspero carreiro da vida, sem jamais transgredir vossas eternas e sábias Leis.
Decorreram alguns instantes de silêncio, findos os quais a voz suave de Joel interpelou o enfermo:
— Estais observando algo?
— Sim, duas mãos luminosas penetram minha fronte!
Se eu conseguir rever o mundo... não haverá crente mais fervoroso do que eu, Joel!
— A concessão talvez não seja integral, domine; no entanto, Deus poderá permitir-lhe distinguir as criaturas e a Natureza como se estivessem mergulhadas numa neblina.
Mas, haveis de prometer, como se estivésseis perante Deus, que, sejam quais forem as dores enviadas à vossa alma, para remissão de tremendas culpas, curvareis a fronte, submetendo-vos, sem revoltas, aos desígnios traçados no futuro.
— Sim — murmurou Cláudio Solano, qual se suas palavras saíssem de uma furna subterrânea.
— Considerai a gravidade de vossas palavras, domine; este sim que proferistes quer dizer:
Não atentarei mais, em nenhuma hipótese, contra a minha vida, nem contra a de meu próximo, aceitando as mortificações e os dissabores por verdadeiras purificações, que hão-de desbastar as arestas de minha alma, transformando-a de modo a ser digna de figurar nas celestes mansões.
E o jovem inspirado retirou as mãos da fronte de Cláudio, e vibrou veemente prece ao Altíssimo.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 28, 2018 10:14 am

Depois, mudando de entonação, prosseguiu o jovem heleno:
— Prometeis, domine, não atentar contra a existência, enquanto eu vou à Dalmácia, em cumprimento das vossas determinações?
— Prometo, Joel, porque (graças sejam rendidas ao Criador!) já não estou rodeado de trevas intensas!
Estou enxergando uma suave claridade... um crepúsculo, enchendo o dormitório, e, pela vez primeira, distingo o teu vulto perto de meu leito, como se estivesses irradiando uma luminosidade.
— Sim, graças sejam rendidas ao Altíssimo, domine, por haver permitido que o primeiro esplendor de alvorada raiasse no espírito de quem se encontrava mergulhado em duas trevas:
uma, a dos olhos, outra, a da alma, fundidas em uma somente.
Façamos veemente prece de toda a alma para ascender ao Céu, ao Infinito, agradecendo a dádiva, a esmola bendita que vos foi proporcionada, domine!
— Tudo, tudo farei, meu bom amigo, pois tens o dom de convencer os infortunados incrédulos da Terra!
Joel, estou distinguindo o que nos circunda!
Estou enxergando um bocadinho, meu... Deus!
E, assim dizendo, Cláudio Solano soluçava, soluçava...

(1) Zara — Capital e porto da antiga Dalmácia, hoje região austríaca, às margens do Adriático.
(1) Etna — Vulcão a N. E. da Sicília, perto de Catânia, um dos mais violentos do mundo sublunar.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 28, 2018 10:15 am

LIVRO QUARTO - OS IMPULSOS DO DESTINO
Voltemos ao Solar do Cisne, imerso em tristeza e luto.
Após muitos dias de febre intensa, de delírio que se assemelhava a demência, Dioneia foi recobrando o senso; depois da eclosão violenta da dor — a divina chancela que assinala todas as almas em caminho vitorioso para o Céu — houve um período de calma, de inacção, em que os sentimentos ficam reprimidos, em letargia, constringidos como que por efeito de invencível pressão.
O vasto castelo parecia que se tornara a sede do silêncio e do sofrimento.
De vez em quando, como se valesse por doloroso, gemido humano, ouviam-se os uivos de Plutão que, dir-se-ia, estava revendo a tragédia que presenciara e na qual perdera o grande amigo.
Túlio Isócrates, mais alquebrado que até então, sem uma palavra de revolta, convergira toda a sua atenção para a filha enferma, e, qual atalaia vigilante, raramente abandonava a câmara onde jazia, semi inconsciente, a idolatrada Dioneia.
O netinho, louro e gracioso quanto a própria mãe, não lhe causava o mesmo enlevo que teria se o genro ali estivesse também, para compartilhar da alegria de todos os corações.
Pesado ambiente de plenas apreensões existia no outrora feliz solar.
Apeles Isócrates administrava, velando pelos interesses da lavoura e por todos; bruscamente, porém, depois do decesso do cunhado, começou a notar o constrangimento no trato pessoal por parte dos proprietários do solar, que se limitavam a transmitir o indispensável aos afazeres cotidianos e respondiam por monossílabos às perguntas que lhes dirigisse.
Certo dia, o jovem deliberou falar ao genitor:
— Meu pai, observo notável transformação no trato que me dispensavam Márcio Taciano e a esposa; dir-se-ia que fomos os culpados do drama que a todos encheu de consternação...
— Também eu já o havia notado, meu filho, esse arrefecimento de cordialidade.
— E como pretendeis agir, meu pai, se nos convencermos de que, com a morte do generoso Marcelo, nossa família se tornou indesejável no solar em que fomos abrigados?
— Pretendo agir como for possível, logo que o estado de saúde de nossa querida Dioneia permitir que possamos tomar a deliberação condigna:
abandonaremos este castelo, pois suponho que nos julgam coniventes no hediondo crime que nos enlutou os corações!
De onde terá surgido tão odiosa suspeita contra o nosso proceder sempre inatacável?
— Não posso atinar com a causa, meu pai; mas, calculo que ambos cobiçavam para nora alguma abastada filha de castelão, e Marcelo, generoso e bom, deu preferência a Dioneia.
Refrearam a repulsa pela nora, enquanto o filho estava a nosso lado; agora, porém, manifestam claramente o seu desagrado pela família helénica, de raça diferente, pois, são romanos...
— Talvez seja essa a verdade, meu filho; mas o inocente Lúcio, que substituiu Marcelo, não merece acaso o carinho dos avós?
Tenho observado que é olhado com indiferença, quando, ao contrário, devia merecer extremos de ternura.
— Terão alguma odiosa suspeita sobre o proceder de Dioneia?
No caso afirmativo, meu pai, com o pequeno pecúlio, fruto de nossas economias, trataremos de partir para o Epiro, onde ainda contamos parentes e amigos dedicados.
Continuarei a trabalhar aqui ou algures, e não nos faltará o pão de cada dia, sem o amargo paladar da humilhação!
— Assim o espero, meu filho, e só almejo o restabelecimento de nossa querida Dioneia para que possamos agir conforme a situação o requer!
Esse diálogo foi entabulado a meia voz na câmara da enferma; ela, porém, o compreendeu, e soltou profundo gemido.
Túlio Isócrates abeirou-se do leito, interrogando-a sobre o seu estado.
Depois de responder, Dioneia murmurou:
— Compreendi... tudo quanto falastes... com Apeles...
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 28, 2018 10:15 am

Sofro muito, duplamente... desde que ele morreu, meu pai!
— Partilho da tua amargura, filha; mas, não te deves afligir tanto.
É urgente que recuperes a saúde, para voltarmos, eu e Apeles, à nossa pátria!
— Entrego-me às mãos de Jesus, pai...
— Ele há-de permitir que permaneças a meu lado, para me fechares os olhos, que tanto têm chorado!
— Permanecer viva é prolongar o meu martírio, pai!
— E não poderás esperar um pouco mais, até que finalize o meu suplício moral, filha?
— Sim; tenho muito para vos dizer... Pedia a Jesus que não me levasse antes de vos abrir o coração, pai!
— Vamos, então, filha, suplicar as graças de que necessitamos para conduzir nossa cruz ao Calvário das provações.
Por alguns instantes aqueles três seres humanos, com o coração estuante de sofrimento moral, pressagiando novas dores, elevaram o pensamento ao Redentor, implorando-lhe protecção.
Túlio notara que a filha empalidecera intensamente e, por alguns momentos, estivera mergulhada em silêncio profundo, movendo os lábios em prece.
De súbito, mudando a entonação da voz, murmurou:
— Está finda a vossa permanência neste solar, onde fostes acolhidos fraternalmente; surgiram suspeitas deprimentes contra a irmã Dioneia!
Impõe a dignidade a retirada deste lar, logo que a enferma (que ora vos transmite estas palavras de um amigo invisível) recobre a saúde, o que sucederá no decorrer de um mês, mais ou menos...
Suportai, até então, tudo quanto aconteça, pois, discípulos de Jesus, deveis dar mostras de resignação e caridade para com os vossos detractores...
Não tardareis a descobrir a urdidura das suspeitas que infelicitam este lar, que passará por notáveis metamorfoses.
Não está consumada a prova dos que se acham sob o mesmo tecto... nem a do que se encontra em longínquas paragens, e que ocasionou dores a tantos seres afectuosos.
Em breve virá a este solar um fiel emissário do Alto, um radioso Espírito em excelsa missão terrena.
Esperai, pois, os sucessos que se avizinham.
— Permiti que vos dirija uma pergunta, amigo que nos transmitis a palavra de um protector desconhecido, relativamente a Dioneia?
— Ela possui faculdade semelhante à que celebrizou a pitonisa de Endor e à de todos os que, nos templos de Delfos (2), recebiam inspirações dos divinos Mensageiros.
Quanto à suspeita que pesa sobre a nossa cara irmã Dioneia, tereis dela conhecimento pelos sucessos que se avizinham.
— Por que, amigo, não nos avisastes a tempo do que estava iminente sobre este lar, evitando assim a morte do bondoso Marcelo?
— Desditosamente, ele fez jus a essa prova acerba, porque, outrora, perpetrou igual crime, e necessitava, nesta existência, remir esse derradeiro delito para poder ascender às regiões luminosas do Universo.
— Confirmais, então, que não temos apenas uma e sim inúmeras existências, tantas quantas necessárias para expunção de nossas almas?
— Sim, mas essa verdade custará séculos para ser acreditada na Terra, verdade-fundamento da Justiça celeste, irmão!
Como conseguiríamos afeiçoar nossas almas — esculturas divinas! — sem a aquisição de faculdades excelsas e virtudes eternas... conhecimentos científicos, que desvendam os arcanos do Universo... em uma única romagem terrena? Impossível!
O que praticamos em uma existência se reflecte em outra imediata, ou porvindoura, cuja revelação é demonstrada pela dor, de igual modo que o eco é a resultante da vibração de um camartelo ou de outro instrumento contundente...
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 28, 2018 10:15 am

Não nos é permitido elucidar — senão em condições especiais — o que constitui a aplicação da Témis Suprema, para que não sejam derrogadas as suas penalidades, antes da execução de seus infalíveis decretos!
— Estamos, então, padecendo consequências de delitos cometidos em anteriores vidas?
— Sim, irmãos!
Já fostes injustos, perdulários, despóticos.
Residindo nessas épocas em faustosas habitações, não vos compadecestes dos desvalidos da fortuna, que haviam feito jus a essa pungente penalidade.
No termo final, porém, de vossa mais próxima peregrinação planetária, acolhestes romeiros cristãos, perseguidos pelos hereges, e, por isso, fostes abrigados neste castelo, em horas amargas.
Vede, pois, quanto Deus é justo e compassivo, não condenando, sem remissão, os pecadores que já norteiam seus passos para o Calvário da Redenção espiritual!
Estais, todos vós, em provas acerbas, porém, profícuas.
Sofrei, pois, com resignação, escudados pela Fé, a remissão de delitos morais e psíquicos!
Padecei e calai.
Aceitai o cálice de amarguras, tal qual o Mestre ensinou e o fez, sem revoltas, serenamente, na atitude de quem cumpre um dever sacrossanto...
Sabei, irmãos, aquele que ceifou a vida a Marcelo encontra-se em grande sofrimento, enquanto que o espírito da vítima imolada está sereno, triste apenas por haver deixado, bruscamente, sobre a Terra, os verdadeiros satélites de seu abnegado coração, agora que o Céu havia concedido um arcanjo ao seu lar, um encantador filhinho, Espírito amigo de outrora, companheiro em diversos avatares, e que agora veio ao mundo sublunar em missão de grande alcance.
Também o entristecem os lamentos de Plutão, por ele percebidos inúmeras vezes.
Ainda prosseguirei, amigos, as elucidações que ora vos transmito, terminando as de hoje para não fatigar em demasia a nossa irmã Dioneia."
— Um instante apenas:
como poderemos saber a hora exacta da vossa aproximação ou quando desejareis transmitir-nos as preciosas orientações? — interrogou Túlio Isócrates.
— À hora do Ângelus, logo após uma prece cristã.
— Ainda se prolongará muito a enfermidade de Dioneia, a intérprete de vossa palavra? — interpelou Apeles que, até então, estivera calado.
Emudeceu a enferma, como se não houvesse sido percebida a arguição de Apeles.
A pergunta foi repetida.
— Ouvi a vossa pergunta, irmão Apeles; mas necessitava beneficiar a enferma, antes de desprender-me, pois ela anseia por libertar-se e ir ao encalço de seu adorado companheiro de existência terrena, reanimando-a a fim de que regresse à matéria.
— Será crível que tenha ela desejo de partir, deixando-nos imersos em dupla angústia?
— A criatura humana, vencida pela dor, não raciocina com lucidez, amigos!
Tem uma única aspiração:
libertar-se dos sofrimentos, das amarguras, das desilusões que lhe supliciam os sensíveis corações.
É o que sucede à irmã Dioneia.
— Já teve ela ensejo de avistar o esposo?
— Ele aqui tem estado, incessantemente, como sucede neste momento; mas, ainda não lhe foi permitido tornar visível o seu corpo etéreo, porque isso causaria tão profundo abalo moral, ou físico, que romperia, bruscamente, os elos imateriais que retêm a alma ao corpo carnal de nossa irmã.
Vai despertar! Até breve!
Um profundo suspiro, e Dioneia abriu os olhos e os fixou no rosto entristecido do progenitor.
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Ave sem Ninho

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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 28, 2018 10:15 am

— Meu pai — disse ela debilmente — dir-se-ia que morri... e tornei a viver.
— Graças sejam rendidas a Jesus, por teres despertado.
Já te sentes melhor?
— Sim; mas, não estou tranquila: percebo que há nesta casa alguma coisa, muito grave, pesando sobre nós.
Parece-me que sabeis a verdade, e não me quereis revelar!
Antes que o pai lhe respondesse, bateram com impaciência à porta do aposento.
Aberto que foi um dos batentes, entrou Geleira, arrebatadamente, e, sem se informar do estado da nora, depôs, bruscamente, o netinho, que chorava, sobre o leito materno, dizendo:
— Creio ser tempo de tomares a teu cargo esta criança, que não quer acomodar-se comigo.
Já estou fatigada e sem paciência para criar filhos alheios!
— Alheios, domina? Não será esta criança descendente daquele por quem choramos? — replicou Apeles, enrubescendo de cólera.
— Nada há que me console, depois que perdi o meu adorado Marcelo, e ninguém poderá substituí-lo neste mundo!
— Bem sabemos, senhora, que um coração de verdadeira mãe nunca se conforma com a morte de um filho estremecido; mas, quem crê, realmente, em Jesus, não se revolta contra o Destino, compadece-se dos que sofrem, e ama as criancinhas — murmurou Túlio, agastado.
— Eu não interpreto os acontecimentos com tanta calma como a tendes, domine!
Sei apenas que os hipócritas ocultam habilmente a verdade, e alcançam os seus objectivos criminosos, conseguindo burlar a Humanidade e a própria Divindade.
— Não blasfemeis, senhora, para que a justiça de Deus não recaia sobre vós...
— Que maior desgraça poderá suceder depois da que nos abateu os corações, deixando-os enlutados para sempre?
— Não sei a que hipócritas vos referistes, senhora; mas, falando que estais com os mais fiéis amigos de Marcelo, podeis exprimir os pensamentos com clareza, sem expressões que possam encobrir suspeitas desabonadoras.
— Assim vos parece — falou Geleira, lentamente.
No entanto, éramos mais ditosos, quando vivíamos sozinhos neste castelo...
— Compreendo-vos, senhora.
Aguardo apenas que Dioneia se erga do leito, para sair deste solar.
Ficareis em paz, com as vossas injustas recriminações, que serão ouvidas pelo Redentor.
Ele saberá fazer justiça.
Um gemido irrompeu do seio opresso de Dioneia, que, embora sem proferir palavra, escutara de olhos fechados todo o diálogo do genitor com a impiedosa sogra.
O pequenino Lúcio Taciano havia adormecido ao calor maternal.
— Senhora, escolhestes para testemunhas de vossas descaridosas palavras um inocente e uma enferma.
Por isso, para que não se agrave a nossa situação, deixo de aumentar as minhas respostas.
Repito, Deus não deixará de fazer-nos justiça, enquanto que vós, senhora, ainda muito tereis de chorar.
A impetuosa Geleira, sem manifestar a mínima compaixão pela nora, dominada apenas pelo rancor que estuava do seu coração entenebrecido pelos ímpetos de vingança, saiu arrebatadamente do aposento.
Dioneia, depois de fervorosa prece, abriu as pálpebras, como que aturdida pelas palavras da sogra.
— Compreendeste a situação a que estamos votados neste solar, Apeles? — falou Túlio ao filho.
— Meu pai — murmurou a enferma, debilmente — que feliz seria eu, se Jesus arrebatasse a minha vida, concedendo-vos assim liberdade de sair desta casa...
— Filha querida, o anjo que o Céu te concedeu reclama o teu amor materno, a tua dedicação, a precisa coragem para venceres mais esta árdua purificação de tua alma!
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 28, 2018 10:15 am

A vida humana é uma série incessante de dores e decepções.
A infeliz que se acha dominada por sentimentos malsãos, contra nós, ainda poderá recorrer a nossos préstimos em horas aflitivas, e não lhe fecharemos as portas.
Aquele que era a luz deste solar desapareceu para nossos olhos imperfeitos; mas, tens direito à partilha de tudo quanto pertenceu a Marcelo, embora não o reclames.
Apenas, vamos implorar da misericórdia divina a tua volta à saúde.
Depois sairemos daqui, e com as economias de Apeles enfrentaremos as primeiras dificuldades financeiras, até que encontre ocupação condigna.
Reage, tenazmente, Dioneia, filha bem-amada, contra a incursão do desalento, do pessimismo; concentra o pensamento em Jesus, e Ele não te desamparará.
Beija o teu encantador filhinho, e terás um átomo que seja de felicidade a reanimar-te, atraindo-te à vida!
Já se escoaram quase três meses que te conservas neste leito.
É tempo de dominares a matéria e esforçar-te para viver, e cumprir tua sagrada missão terrena!
Desperta, ergue o teu espírito!
Dioneia soluçava, e, com os olhos marejados de lágrimas, fitou, pela primeira vez, prolongadamente, o filhinho, louro e gentil, pleno de candura, que é essência divina.
Dir-se-ia que só então teve a oportunidade de inundar o coração com o santo amor materno, indefinível e eterno.
Sentiu que um hausto vivificante lhe reanimou o organismo, qual ressequida roseira borrifada pelo orvalho celeste.
Pela primeira vez apertou ao seio opresso o débil entezinho, beijou-o com carinho, deixando que gotas de pranto ardente lhe caíssem nas faces cândidas e róseas.
— Está salva minha filha! — pensou Túlio emocionado, reconhecendo que, naquele instante, fora atraída pelo amor maternal, voltara a amar a vida na Terra!
Subitamente, ela envolveu o pai com um olhar cheio de gratidão, falando-lhe:
— Meu pai, se não fora a vossa dedicação sublime, eu talvez houvesse partido, ansiosa de encontrar o meu bem-amado Marcelo e a minha pobre mãe...
— Filha querida, devemos restringir estes impulsos da alma, para podermos concluir a contento a nossa missão terrena, e a tua está apenas em início!
Tens nos braços um pedaço de tua alma e da de Marcelo.
Isso te dará a precisa coragem de vencer todos os obstáculos e alcançar a vitória definitiva — a redenção espiritual!
— Meu querido pai — respondeu ela, com tristeza — tenho realmente estado semimorta, desde o fracasso de minha ventura, e o tempo tem escoado com apavorante lentidão!
Hoje, porém, senti o renascimento de desconhecida energia.
Compreendo que, decorridos alguns dias, estarei em condições de erguer-me do leito.
Precisamos tomar uma séria deliberação relativamente à nossa actual situação, que sofreu sensível mudança.
— Qual a solução que adoptaremos, tão logo seja possível pô-la em execução?
— A de partirmos, definitivamente, deste solar.
— Por que assim deliberaste, filha, aliás, de pleno acordo com a que eu e Apeles já resolvêramos?
— Percebo meu pai, por uma faculdade que não sei definir, que nesta casa, desde o passamento de Marcelo, algo se projecta contra nós, como se fôssemos os culpados de nossa própria desdita, da tragédia que havemos de lamentar sempre.
— Já que percebeste a dolorosa verdade, exige a minha lealdade de pai confirmar a tua intuição.
Já compreendemos, eu e teu irmão, o que acabas de dizer:
alguma odiosa suspeita há contra nós!
Entrou-me na mente uma desconfiança:
suponho que atribuem a Cláudio o homicídio de Marcelo, e por tua causa!
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 28, 2018 10:16 am

Já te fatigaste em demasia.
Agora vou providenciar sobre tua alimentação.
Apeles ficou ao lado da irmã.
Resolvida a questão alimentar de Dioneia, o velho Túlio havia solicitado permissão para falar ao castelão, que se encontrava em um dos alpendres laterais do prédio, mergulhado em profundo pensar.
— Domine — disse ao aproximar-se — desculpai-me vir perturbar a vossa reflexão.
Necessito falar-vos sobre assunto bem desagradável para mim!
O castelão fitou-o com tristeza e fez gesto de assentimento, sem pronunciar qualquer palavra.
— Domine — prosseguiu o venerável Túlio — preciso expandir-vos os meus sentimentos, antes de consumar a resolução que tenho em mente.
Eu e minha família somos destituídos de fortuna monetária; porém, não desprovidos de nobreza de alma, de pundonor e de probidade.
— E quem, nesta habitação, pôs em dúvida a vossa honorabilidade, domine?
Vossas palavras surpreendem-me! — respondeu-lhe Márcio Taciano.
— Percebemos, domine que, desde o assassínio do nobre Marcelo, este solar se tornou hostil para mim e meus filhos, como se eu e os meus fôssemos os responsáveis pelo brutal homicídio, crime que nos abalou e destruiu para sempre a felicidade de minha filha.
— Muito vos agradeço as expressões referentes a meu desditoso filho, domine!
Eu e Geleira perdemos o nosso único e mais precioso tesouro, e esse abalo moral nos tornou pouco expansivos...
— Justa é a vossa dor, domine; mas, precisamente nas horas de refregas morais é que temos carência do conforto das expressões amigas e carinhosas.
Observo, no entanto, que vós vos isolais, dia a dia, fugindo à nossa presença, e vossa esposa não trata com o devido desvelo à angustiada nora, nem ao pequenino neto, que, a meu ver, devia ser agora é futuramente o seu maior consolo sobre a Terra.
Além disso (e é o que mais nos magoa a alma) faz ela referências dúbias, que não compreendemos e nos ofendem, porque encobrem velada suspeita deprimente contra o nosso proceder, que jamais deixou de ser irrepreensível!
Houve, desde a morte de Marcelo, algo que nos desprestigiou no conceito dos senhores do Solar do Cisne.
E esta situação é sumamente humilhante e insustentável!
Houve um silêncio embaraçoso depois desta expressão como se cada um dos interlocutores estivesse medindo as palavras seguintes, temendo um desfecho demasiado brusco, dada a situação em que se encontravam ambos.
Foi Márcio Taciano quem o interrompeu, dizendo, com sinceridade:
— Deveis ter percebido, domine, que, sem que eu e minha esposa tenhamos concorrido para a perturbação de nosso lar, o ambiente é de mútua desconfiança.
Foi uma fatalidade o cruel homicídio de nosso inesquecível e idolatrado filho, nossa única esperança, nossa alegria, nosso maior tesouro!
Estamos sem roteiro na vida, domine!
— Compreendemos a vossa dor, domine; mas, também nós partilhamos de vossos pesares, e apesar disso as palavras e atitudes de vossa esposa são totalmente ofensivas!
— A dor, que ora oprime a desditosa Geleira, que é mãe extremosíssima, fá-la duvidar até de sua própria sombra!
— Oh! senhor, quer isso dizer que as nossas queixas não são infundadas!
— Perdão, domine!
Que é que vos fez desconfiar das atitudes e palavras de Geleira?
— O modo reservado com que nos trata, mormente à infeliz Dioneia, cujo sofrimento esteve prestes a levá-la ao túmulo!
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 28, 2018 10:16 am

Foi ela completamente abandonada, e ainda hoje, não levando em conta o seu estado, atirou-lhe o filhinho ao leito, mostrando-se enfadada por haver cuidado um tanto do neto.
Chega sua animosidade ao extremo de descuidar da alimentação da infortunada nora...
— Eu ignorava o que me estais relatando, domine — exclamou Márcio, revelando sincera surpresa.
— Queria ocultar-vos a verdade; porém, elementar dever de lealdade manda que vos revele a realidade, sem detença, desde que a honra me obriga a tomar uma atitude que depende apenas da melhoria de saúde de minha filha.
Deixaremos esta casa, levando em nossos corações dupla mágoa, pois, além do pesar que nos acarretou a morte de um amigo, somos vítimas de injustíssimo aleive...
— Aqui fostes acolhidos fraternalmente, cristãmente, domine!
— Bem o sei, domine, e, por isso, eterna será a nossa gratidão; diante, porém, da antipatia de vossa' esposa para connosco, temos de agir segundo a dignidade nos impõe, mormente em face do descaso com que trata o próprio neto, denotando duvidar da sua ascendência...
— Que dissestes, domine? — falou Márcio, empalidecendo e erguendo-se da poltrona, sob impulso violento de indignação incontida.
— Foi o que conjecturei, hoje, quando foi ela entregar o orfãozinho, sem um beijo carinhoso, após tê-lo cuidado por algumas semanas, confessando-se contrariada com o trabalho que lhe está causando um "filho alheio", conforme expressões textuais que usou.
— Ela enlouqueceu, por certo, domine, à vibração da grande dor que nos feriu os corações!
Perdoai-lhe, domine, e não leveis a mal o seu ato desarrazoado, que se funda no facto de Cláudio Solano frequentar a nossa habitação ultimamente dominado de violenta paixão por vossa filha.
— Notastes, porém, acaso, algum deslize no proceder de minha filha?
Não foi ela sempre modelar esposa?
— Sempre a achei tão bela no físico quanto no moral.
Geleira, porém, entende que ela devia ter percebido o violento amor do tresloucado Cláudio, que não devia ter guardado segredo disso ao marido, o que talvez evitasse o sofrimento que nos atingiu...
— Pois se vossa esposa, que era mãe, percebeu o que ora me revelais (e muito me surpreende!), por que não comunicou ao filho o que descobrira, mesmo que fosse em dúvida?
Se fosse real a sua suposição, não devia ter agido a mãe primeiro do que a esposa, que talvez temesse um provável crime contra um quase irmão?
— Não seria preferível que o esposo cometesse um crime, a ser a vítima?
— Mas, domine, não estamos no terreno das hipóteses?
Quem pode afirmar que Cláudio foi o assassino de Marcelo, se havia partido, antes do homicídio, para local ignorado?
Novo e prolongado silêncio reinou, a contrastar com os sentimentos dolorosos que agitavam os corações dos dois anciãos.
— Quem desvendará o mistério da morte do meu estremecido Marcelo?
Talvez nunca saberemos a verdade, e é este o maior pesar que me levará ao sepulcro!
— Meu amigo, reflictamos um pouco.
Achei estranha a brusca partida de Cláudio.
Será crível, porém, que haja ele sacrificado uma vida preciosíssima, e ousado depois expedir um emissário ao enlutado lar, para saber notícias da sua vítima?
A minha alma se revolta ao imaginar tão grande e audaz perversidade!
— É também o que me causa verdadeira perplexidade, Túlio; mas, infelizmente, Geleira não duvida, um instante sequer, de que foi Cláudio o assassino, ou o mandante.
— Ela poderia ter posto em dúvida a lealdade de um amigo de infância de vosso filho, jamais, porém, suspeitado da lealdade de Dioneia, que daria a própria vida pelo seu adorado Marcelo.
— Oh! Túlio, amigo, que culpa me cabe pela atitude de Geleira?
— Certamente não desejaríamos ter chegado à necessidade de sair desta casa, levando connosco o vosso netinho, único, do qual vos haveis de lembrar, como se o tivésseis visto apenas em sonhos, pois não tarda a separação, talvez para sempre.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 29, 2018 9:21 am

— Como pensais assim, se vossa filha e Lúcio são os únicos herdeiros dos haveres que ora nos pertencem?
— Ela assinará desistência de tudo quanto houvesse de herdar.
— Ela não deve prejudicar o futuro do filho, domine!
Esperemos o desenrolar dos sucessos vindouros, a fim de nos.
certificarmos da verdade, ora oculta em denso véu.
Não queirais todos, inflados de dignidade excessiva (que eu denomino — orgulho), prejudicar o porvir do pequenino Márcio Lúcio!
Compreendo que tendes motivos de mágoas contra Geleira; mas, entendo que bastará uma ausência temporária para amortecer esses mútuos ressentimentos.
Houve nova pausa no diálogo, com a aparição de Geleira, que, vendo-os ao lado um do outro, amistosamente, teve brusco movimento de recuo ou de incontida repulsa.
— Geleira — disse-lhe Márcio Taciano — quero que me ouças por alguns instantes.
— Que desejas? — disse ela, com evidente azedume.
— Quero que, doravante, designes uma serva para os cuidados pessoais de que necessitam Dioneia e seu filhinho...
— Já houve alguma denúncia nesse sentido? — disse ela, fixando o olhar flamejante em Túlio Isócrates.
— Denúncia, não, senhora, e sim uma justa reclamação!
Sei que, desde há dias, nenhuma assistência tem sido dispensada à enferma.
Esse proceder não é cristão, nem digno de nós.
— Queres, acaso, que me transforme em escrava de pessoas que não são do meu sangue?
— A caridade não distingue os seres pelo sangue.
Somos filho de um só e generoso Pai — Deus, e, segundo nos aconselhou Jesus, devemos estender os nossos braços a todos os que sofrem...
— ... para nos cravarem um punhal no coração! — terminou ela, com incontida exaltação.
— Quem, senhora, residente neste solar, lhe cravou um punhal no coração? — interpelou Túlio, empalidecendo e erguendo-se, bruscamente.
— Quem? Acaso posso duvidar de que foi o infame Cláudio quem sacrificou a vida de meu adorado filho, fascinado pela formosura... de quem muito conhecemos?
— E já obtivestes essa certeza... que todos desejam conseguir?
Quem vos fez essa odiosa revelação?
Tendes disso alguma prova inconfundível ou estais ainda em conjectura tal qual todos nós?
— Um coração de mãe não se ilude! — exclamou Geleira, com arrogância.
Após instantes de aflitivo silêncio, Túlio retomou a palavra, dizendo, intencionalmente:
— Senhora, não podemos afirmar, categoricamente, quem tenha sido o assassino de Marcelo.
— É provável que ele tenha agido sob o domínio de outrem...
— Se ainda estais no terreno das hipóteses, sem nenhuma certeza palpável, não podeis afirmar, dogmaticamente, o que não passa de mera e, talvez, infundada suposição.
Se, porém, tendes a convicção absoluta de quem é o assassino de Marcelo, vamos agir dentro da lei criminal, entregando à Justiça o criminoso e os coniventes do mesmo.
— Desgraçadamente, não posso provar o que penso, porque o celerado se ocultou nas trevas da falsidade.
— Senhora — falou Túlio com incontida mágoa — compreendo a extensão de vossa dor de mãe.
Deveis voltar o pensamento ao Criador, ao Juiz Supremo, implorando-Lhe justiça e consolações, e não arquitectar pensamentos e planos de vingança, formulando a suspeita contra pessoas amigas que, connosco, deploram a pungente tragédia.
— Bem vedes, domine — disse então o genitor de Dioneia, dirigindo-se a Márcio — que não me iludia no que vos relatei, com a máxima franqueza.
— Tendes razão, domine — respondeu Márcio — mas, não deveis precipitar os acontecimentos.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 29, 2018 9:21 am

Não vos deixarei partir em condições humilhantes; isso seria um golpe desferido em meu coração.
Demais, não tenho outro herdeiro, além do unigénito do meu inesquecível Marcelo!
A metade dos meus haveres será do querido Lúcio.
Sede indulgente, domine!
Geleira não assistira a esta última parte do diálogo, pois já se havia retirado, arrebatadamente.
Decorridos mais alguns dias, houve no Solar do Cisne sensível transformação, e alguma serenidade de ânimo tiveram os seus habitantes.
Dioneia melhorava lentamente.
Nas suas faces esmaecidas desabrocharam as primeiras tonalidades róseas da saúde.
Havia, porém, um silêncio mútuo e um ambiente de recíprocas desconfianças nas almas.
Certa manhã, após a primeira refeição, Dioneia, depois dos cuidados ao pequenino Lúcio, e de havê-lo adormecido, desmaiou subitamente e, com a voz alterada, presentes seu pai e Apeles, assim falou:
— "Irmãos, aproxima-se a fase final das provas por que tendes passado neste solar.
É necessário que partais, em breves dias, para o sul do Epiro, onde fixareis residência.
Antes, porém, aqui virá um emissário de Cláudio Solano que se encontra em grandes sofrimentos, na Eubeia.
Esperai o desfecho dos acontecimentos com serenidade de ânimo.
Nunca vos faltará a protecção de Jesus e a de seus desvelados Mensageiros, que vos hão-de auxiliar a levar a cruz das mais ásperas provas ao Gólgota luminoso da Redenção!
Não queirais precipitar os sucessos. Paz em vossas almas!"
Esta a breve mensagem que, três dias antes da presença de Joel Sarajevo, foi transmitida por intermédio de Dioneia, considerada, desde então, por seu pai e irmão, portadora de faculdade similar à das pitonisas de Delfos.
Na data preanunciada, chegou ao Solar do Cisne o jovem heleno, cujo aspecto, nobre e inconfundível, foi notado por todos.
Solicitou audiência ao senhor do castelo, no que foi atendido, estando presentes, além de Márcio Taciano, Geleira, Túlio Isócrates e Apeles.
Depois de os saudar cortesmente, o jovem emissário assim se externou:
— Senhor, sou humilde enviado de Cláudio Solano, que se encontra enfermo, sem esperança de restabelecimento, em Eubeia, na hospedaria de meu genitor.
Vim informar-me sobre todos os que habitam este solar.
Ele queria vir, pessoalmente, fazer-vos amistosa visita; mas, o precário estado de sua saúde não lhe permitiu satisfazer tão sagrado dever de cordialidade. ..
— Dizei-me — perguntou Márcio — que mal prende Cláudio Solano ao leito de sofrimentos?
— Após um temporal que o fustigou por muitas horas, em deserta região, ao norte do Epiro, foi atirado ao solo pela alimária em que viajava, e, semimorto, o encontrou um campónio, que o tratou como foi possível.
Esteve inconsciente por muito tempo, e, quando adquiriu algumas melhoras reanimadoras, a visão se lhe foi extinguindo dia a dia.
Na ausência de sólida crença definida, cogita em desertar da vida por meio de um crime: o suicídio!
Desejava ele regressar ao castelo que lhe pertence, mas, não se julgou com ânimo de o fazer, quando soube da morte trágica de seu melhor amigo, Marcelo Taciano...
— Muito lamento o ocorrido, mancebo, e fazemos votos a Jesus para que o infortunado Cláudio Solano tenha o devido conforto espiritual para levar de vencida a sua dolorosa prova.
— Está ele ansioso por notícias de todos deste solar, e dos que residem no que lhe pertence, aos quais talvez não possa mais rever, pois sua cegueira já é quase completa.
Geleira, que ouvira atentamente as palavras do recém-chegado, segredou nos ouvidos de seu consorte, que, após alguns instantes de reflexão, inquiriu:
— Já conhecíeis Cláudio Solano, antes de sua enfermidade, mancebo?
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 29, 2018 9:21 am

— Chamo-me Joel Sarajevo, domine!
Não conhecia o senhor do Solar das Sereias.
— Qual o conceito que fazeis do carácter do hóspede do vosso genitor? — interrogou Márcio, intencionalmente.
— Difícil é o penetrar no íntimo alheio, domine! — murmurou Joel.
Sei, apenas, que é bastante culto, grandemente generoso, pois queria que eu trouxesse avultada quantia que se acha em meu poder, para, no caso de morte súbita, ficar pertencendo ao pessoal do Solar das Sereias.
Após silêncio prolongado, revelador das graves apreensões de todos, Geleira falou bruscamente:
— Estive a escutar-vos, senhor, e porque Deus nos concede um oráculo dentro do peito, e o coração de mãe jamais se ilude, o meu percebeu a causa da dor que pesa sobre o do que foi amigo de Marcelo:
é o remorso pelo crime que cometeu, tirando a vida ao meu adorado e inesquecível filho!
Todos ficaram estarrecidos de surpresa com as palavras de Geleira, cujo olhar estava cintilante.
— Dizei a Cláudio Solano, senhor — continuou a castelã — que agradecemos a sua visita e que, mais do que ele, sofremos as consequências da mais dura prova que poderia ferir-nos o coração, e que contamos com o auxílio divino para descobrir a verdade, para que se faça justiça.
É escusado querer reviver um afecto que jaz morto!
Aqui, todos vivem na esperança de assistir à punição do ainda incógnito assassino do meu inesquecível
Marcelo!
Assim falando, a desesperada mãe prorrompeu em soluços. ..
Márcio, tentando dissuadir a dolorosa impressão causada pelas palavras de sua magoada consorte, disse ao emissário de Cláudio Solano:
— Dizei ao Conde de Morato, Cláudio Solano, que muito lhe agradecemos a demonstração de amizade, e que, se o Destino permitir, irei retribuir a visita, a fim de dissipar pungentes suspeitas.
Todos neste solar estão com saúde, excepto Dioneia, a inditosa viúva de meu filho, a qual, há muito, se acha no leito de sofrimentos que, somente agora, começam a ser atenuados...
Novo silêncio constrangedor reinou entre os que ali se achavam.
O mensageiro, como se não houvesse percebido as palavras da impulsiva matrona, levantou-se, e, fixando o olhar lucificado por inspirações dos Mensageiros celestes, falou, dirigindo-se à genitora de Marcelo:
— Senhora, grande é a vossa amargura, mas, não irreparável, porque a alma é indestrutível, e ainda vos encontrareis com o vosso bem-amado filho!
Sofrestes tão pungente prova, porque (por mais doloroso que isso vos pareça — crede-me!) existia em vosso milenário passado um crime igual ao que ora vos apunhala o coração materno...
Se, porém, nunca fostes causadora de um delito tão abominável... só vos resta um conforto: aguardar o porvir, entregando às mãos luminosas do Redentor a vossa dolorosa causa, e Ele vos fará justiça!
— Quem sois vós, jovem? De onde viestes? — perguntou-lhe Márcio, impressionado pelo que dizia o heleno.
— Já vos disse: um habitante de Eubeia, filho segundo de um modesto proprietário de hospedaria — respondeu Joel, inclinando levemente a ampla fronte.
— Pelo que acabais de dizer, pelo vosso aspecto, deveis ter elevada estirpe e cultivo intelectual contrastando com a condição dos humildes.
— Iludi-vos, domine.
O que nasce em um tugúrio é muitas vezes um iluminado e pode encontrar-se em situação espiritual incomparavelmente superior ao que abriu os olhos à luz da vida em um palácio real!
Não é o local do nascimento que valoriza alguém, e sim o arquivo moral e espiritual (verdadeiro tesouro divino) acumulado nos escrínios da alma.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 29, 2018 9:21 am

Não sabeis que o Mestre de Nazaré, Jesus, o mais fúlgido de todos os Emissários celestes, teve por berço uma humilde manjedoura, e baixou à Terra sob a protecção de um carpinteiro e de sua modesta Esposa, que já possuíam muita radiosidade nos espíritos, triunfantes do Mal, e miliardários de todas as virtudes?
Cada ente humano guarda, no íntimo de seu ego, as recordações das existências transcorridas, penosas, honestas, laboriosas, perversas ou nocivas, manifestando, assim, desde a infância, os impulsos dignificadores ou prejudiciais aos companheiros de peregrinação planetária, de acordo com os actos, meritórios ou perniciosos das eras consumadas.
O passado parece morrer todos os dias, porém, ressuscita, qual lúcida alvorada, no extremo de cada noite ou de cada etapa terrena.
Alguém pode ter sido príncipe, culto, abastado, em uma fase terrena, e, em outra, vir obscuro jornaleiro, revelando, às vezes, o que foi outrora, mostrando-se orgulhoso e intolerante.
Sei que já desempenhei cargos culminantes na sociedade, mas fracassei em alguns, e, por isso, vim em condições obscuras, para, no entanto, arrancar das trevas do erro, dos delitos, das arbitrariedades as almas envoltas no crepe dos delitos, elevando-as para Deus.
— Como podes saber, corri tanta convicção o que nos disseste, verdadeiras revelações? — indagou Túlio, pensando em levá-lo à presença de Dioneia.
— Por sonhos retrospectivos, lúcidas intuições, revelações psíquicas, recebidas quando nossa alma se desprende e unifica no Espaço com a de nossos Protectores, os eternos invisíveis para a Humanidade terrena.
E porque o jovem emissário fizesse movimento para se retirar, Túlio lhe embargou os passos, dizendo-lhe, emocionado:
— Joel Sarajevo, vinde ver minha filha, que se acha em um leito de sofrimentos, faz mais de três meses, uma vez que, apesar da vossa pouca idade, já sabeis interpretar arcanos divinos dos quais Jesus apenas levantou uma ponta do véu de Ísis.
— A idade de meu corpo físico não equivale à de meu espírito milenário!
— Julgais, então, ser um apóstolo? — perguntou Márcio, com evidente e admirada surpresa.
— Julgo poder afirmar isso, domine!
Já tive o baptismo no martírio, nas arenas romanas, e, quando o Mestre se alçou às amplidões siderais, eu, que o havia acompanhado em sua peregrinação sublime, fui companheiro de Pétros, naquela dolorosa era de cristandade, quando o prémio de todos que colaboravam na Seara Bendita era o suplício, que santifica a alma.
Todos o escutavam com interesse incontido, embora com pensamentos diferentes, e cada um deles desejava dirigir-lhe uma pergunta.
— Vinde ver a enferma! — pediu Túlio.
Os circunstantes, movidos por natural curiosidade, acompanharam o peregrino até ao aposento de Dioneia, a qual, sem reclinada em amplo almofadão, tinha a palidez do jaspe, aureolada pela catadupa dos cabelos castanhos com reflexos áureos, que lhe engrinaldavam a fronte.
Adormecido junto dela estava o pequeno Márcio.
Ali chegados, ouviu-se um soluço, prolongado e triste, de Geleira, que, genuflexa, convulsionada, parecia possuída de estranha e irresistível influência.
— Que tens, Geleira? — indagou o marido, emocionado e aflito.
— Deixai-a, domine! — aconselhou Joel.
A dor que fere este coração materno só terá alívio com o escoar do pranto.
Ditas estas palavras, abeirou-se Joel de Geleira, e, colocando-lhe a mão direita sobre a fronte, começou a falar em voz baixa, como que o fazendo a um amigo invisível:
— Alma imortal, partícula divina, que não vos lembrais do passado longínquo, dos crimes ideados e postos em execução, nem das amarguras levadas aos corações que também sofreram o suplício de trágica separação; vós que também já pungistes um coração de mãe extremosa, que, alucinada, se arrojou de um rochedo às vagas do oceano em procela, e ordenastes o extermínio de um filho, o único tesouro concedido a essa desvelada mãe; sofrei agora, com resignação cristã, os pesares que ora vos excruciam o coração amoroso.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 29, 2018 9:22 am

Não vos revolteis, não maldigais, não odieis a quem quer seja.
Elevai o vosso pensamento ao Criador do Universo, entregando-Lhe a vossa causa, e Ele fará justiça, e todas as dores decrescerão... até se desvanecerem!
*
Calou-se Joel.
Geleira ergueu-se, sentindo menos intenso o peso no coração, parecendo-lhe que uma destra sutilíssima, de névoas balsâmicas, havia pousado em sua fronte, amortecendo-lhe os pensamentos repletos de intraduzível ódio.
Dirigiu-se Joel, então, ao leito de Dioneia, que parecia alheia à realidade, imersa em profunda letargia.
Nesse momento, com violência que abalou a porta do aposento, onde irrompeu, sem que houvesse tempo de lhe sustar a entrada, Plutão, com o olhar aceso qual se contivesse uma lâmpada interior, fitou o recém-chegado, contra quem fez um movimento de agressão; mas, dominando o ímpeto, aproximou-se do leito da enferma, fitando-a carinhosamente e bem assim ao pequenino adormecido.
— Minha filha — murmurou Túlio, emocionado — aqui se encontra um enviado de Cláudio Solano, que nos transmitiu, por seu intermédio, fraternal visita, e deseja ser portador também de notícias nossas.
Desejo que lhe dirijas a palavra.
A jovem senhora fitou o mensageiro, e, por momentos, a luz de seus olhares se cruzou.
Dioneia, porém, não pronunciou palavra, enquanto que Joel, estendendo os braços, falou:
— Diante de meus olhos estão dois seres, mãe e filho, unidos estreitamente na Terra, para desempenho de grandes encargos espirituais.
Espíritos milenários, julgo reconhecê-los por meus condiscípulos.
Receberam do grande mestre de Crotona, Pitágoras, a tríplice educação:
psíquica, intelectual e física, trio que aformoseava as almas e os corpos, elevando os que a recebiam acima da vulgaridade terrena.
O crime, cujas consequências todos deploram, teve origem em transcorridas
eras, e o epílogo, na actual peregrinação planetária, ainda será plenamente elucidado.
— Jovem — exclamou Geleira, dirigindo-se a Joel — dizei-nos (se não desconheceis nenhum dos mistérios das vidas):
aquele que vos enviou a este solar, foi quem tirou a vida do meu idolatrado filho?
— Senhora, suspendei o vosso julgamento, até que seja patenteada a verdade, em toda a sua plenitude.
— Se conheceis a realidade, por que não a quereis revelar de modo positivo?
— Assim procedo, senhora, porque me faltam as provas materiais para apresentá-las aos tribunais humanos!
Vosso filho, imolado por desconhecido homicida, agora Espírito evoluído, em uma finda existência, dominado por fascinação avassaladora, traiu um dedicado amigo, e foi conivente no massacre de indefeso ancião e em que diversos indivíduos se apoderassem da esposa e dos haveres da vítima, e vós própria (perdoai-me a cruel repetição!) fostes a mandante de todo o abominável crime, cujas amargas resultantes hoje todos sofrem e choram.
Tinha o sacrificado uma desvelada genitora que, enlouquecida de dor, se arrojou a um pélago proceloso.
Por isso, ficastes responsável por duas preciosas vidas...
"Vós, que aqui vos encontrais fostes causadores dessa alucinante desventura, e apenas dois dos que me ouvem estão inculpados desse delito.
E eu que vos revelo o passado, eu também fui um dos cúmplices, incendiando um lar honesto, até então feliz, incêndio que destruiu a felicidade de alguns seres humanos, dignos e nobres, um dos quais já regressou à Terra, e é aquele que vedes adormecido nos braços maternos.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

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