Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 29, 2018 9:22 am

Eis a origem da quase aversão, senhora, que tendes pelo pequenino neto, do qual ides separar-vos em breve tempo, e só o tomareis a ver no término da vossa existência terrena...
Eis a origem das vossas dores — presentes e futuras.
Enfrentai as batalhas da vida, até que sejais triunfantes do Mal e conversos para sempre ao Bem!
Finalmente, percebi que não me acolhestes por amigo...
É que nossas existências já foram intensamente vinculadas..."
— Seja feita a vontade do Pai Celestial, tanto na Terra quanto no Céu! — exclamou Márcio Taciano.
Joel, dirigindo-se ao pai de Dioneia, disse:
— O Espírito de vossa filha precisava habituar-se à dor que lhe feriu fundo o coração.
Se estivesse em vigília plena, não teria suportado o golpe tremendo.
Durante este tempo de aparente inércia, está ela em contacto com alguns desvelados Mentores siderais, que lhe atenuam o sofrimento moral e físico.
Ela está sob o influxo dessas Entidades, e não ignora os episódios ocorridos neste solar.
— E por que sendo eu a mãe do assassinado, cuja dor é infinita, tudo tenho suportado em vigília incessante e consciente?
Por que mais protecção celeste para Dioneia do que para mim, que tenho o coração de mãe? — interrogou Geleira.
— Por que, senhora?
Porque não tendes ainda a mesma evolução espiritual desta nossa irmã, cujo tirocínio de alma, intelectual e moral, é bem mais longo do que o vosso; tem o passado mais atormentado, quase milenário; já possui faculdades espirituais que se manifestarão plenamente por intermédio da enferma e que atingem os limites neste orbe.
Todos nós temos de cumprir a sentença que nos redime de todas as máculas e encaminha nossos espíritos à Luz da Redenção eterna!
Esta jovem senhora, de todos os presentes, é o ser mais evoluído e, nela, a beleza física está de acordo com a psíquica.
Delicadíssimos liames prendem-na à vida material, e o menor abalo poderá ser-lhe funesto, e não convém, em seu benefício espiritual, que se intercepte o elo vital antes de finalizar as derradeiras expiações... sempre dolorosíssimas e férteis em apuro da própria alma...
Faltam-lhe as últimas e pungentes provas remissoras, a fim de que seu espírito parta para as benditas regiões do Universo.
"Vós, senhora, sois um cedro do Líbano; resistis às violências dos temporais; ela é qual frágil violeta que se desprende do solo ao impulso até de ténue viração, pode ser arrojada ao Espaço, não mais voltando aos pântanos deste mundo de árduos sofrimentos.
Possuis, enfim, mais elementos de resistência orgânica do que a vossa infortunada nora.
Compreendestes bem o que vos revelei senhora?"
Um profundo suspiro agitou o seio de Dioneia.
Reinava no recinto completo silêncio, quando Márcio murmurou, emocionado:
— Não desejo que Dioneia e seus entes queridos saiam deste solar!
Assim falando, ele fitava a esposa, receoso ainda de alguma explosão de hostilidade.
Mas, notando-a em mutismo, prosseguiu:
— Eu sentiria deserta esta habitação, sem a presença destes amigos.
Geleira baixou a fronte. Plutão, agitando a cauda, fitou a enferma e começou a uivar.
Joel Sarajevo retomou a palavra:
— É tarde, irmãos, para que seja detida a avalancha do Destino!
A tarefa dos que foram acolhidos neste castelo, está finda:
chama-os, como atracção potente e invencível, da qual ninguém poderá desenvencilhar-se, a trama do karma dos que aqui se abrigaram, acossados pelas ríspidas procelas da existência planetária...
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Ave sem Ninho

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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 29, 2018 9:22 am

Vós, irmãos, em findos avatares, fostes adversários irreconciliáveis, e foi preciso o perpassar dos séculos para que se atenuassem as odiosidades recíprocas; tomastes parte em sangrentas tragédias.
Reparando erros do passado remoto, vós (e apontou para Geleira e Márcio) resgatastes um débito sagrado, acolhendo os peregrinos que aqui se encontram, pois estes assim o fizeram convosco, quando éreis desprovidos de fortuna, e eles, abastados e generosos.
Se não tivésseis deixado de asilar outros desventurados viandantes, não serieis atingidos por uma rude prova, que se aproxima, e será a mais árdua, porque destruirá dois lares.
Tende, pois, verdadeiro denodo moral para levar aos lábios a taça de amargores, esgotando-a até à derradeira gota de angústias que se aproximam!
— Jovem — interrompeu-o Márcio, com voz trémula, por incontida emoção — como é que, sendo vós uma alma lúcida, aconselhais o afastamento destes seres familiares para outra paragem, não compreendendo que o mais intenso isolamento vai predominar neste solar, e constituirá um dos maiores suplícios deste fim de minha atribulada existência?
— Senhor, não há mal sem lenitivo.
Eles partirão para longínquas regiões, mas continuará a ligação psíquica que há entre todos os que aqui se encontram, forjada pelo Destino, que é a vontade divina.
Não queirais suster a pedra que se desprende do píncaro do Himalaia e já se aproxima do solo, nem deter o curso invencível do karma de cada um.
Não ficareis a sós, sem ter com quem repartir auxílio e afecto.
Não encontrareis órfãos, acaso, dentre os descendentes dos campónios que são vossos servidores?
— Sim, e muitos deles até grandemente necessitados:
há alguns que vivem, precariamente, dos sacrifícios de pobre avozinha.
— Pois não vacileis em os acolher neste belo solar, onde sobra opulência e de onde não sai o socorro aos nossos semelhantes.
Tal opulência deslumbra os olhos e resseca o coração! Perdoai-me se assim me expresso.
De onde partira aquele soluço que, súbito, vibrou no ambiente, dolorosamente?
Todos fitaram a enferma que, convulsivamente, presa de intensa crise, se desfazia em lágrimas.
— Irmã — murmurou Joel, abeirando-se do leito e alçando a mão direita sobre sua fronte — não estais abandonada nesta luta redentora da vida!
Tendes de sufocar os gritos do próprio coração para escutar os do alheio.
Já vivestes em palácio real, onde inspirastes afeições e crimes execrandos.
Já desfrutastes vidas principescas, eivadas de sedução e de crimes tenebrosos.
Após, tivestes existências apagadas, em que curtistes penúrias e vexames deprimentes, não vos esquecendo, contudo, de vossos deveres morais e, muitas vezes, padecendo faltas de alimento e conforto, estendestes a mão à caridade pública para saciar a fome a pequeninos órfãos.
Esses e outros actos meritórios muito influíram no actual avatar e por isso, embora desprovida de opulência, jamais vos faltou o alimento predilecto de Jesus, que o abençoou eternamente — o pão!
Ainda tereis bruscas mudanças de Situação, e, finalmente, após o cumprimento de valiosa missão — material e espiritual — ficareis novamente com a posse de considerável fortuna, com a qual fareis a ventura de muitas famílias desditosas e humildes.
Elevai, pois, o vosso espírito às regiões siderais, implorando bênçãos, luzes e protecção para vós e todos os vossos entes estremecidos, bem como para os que vos fizeram padecer, pois Jesus perdoou a todos os seus algozes, murmurando:
"Perdoai-lhes, Pai, eles não sabem o que fazem!"
Tenho a transmitir-vos algumas palavras do que todos vós julgais morto, e neste momento se acha neste recinto...
— Podeis transmitir-me, que as ouvirei com grande reconhecimento — tornou Geleira.
— "Mãe querida, como deixastes de beijar o pequenino ser que, inocente, sorri nos braços maternos?
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 29, 2018 9:22 am

Como pudestes duvidar da honestidade de uma criatura que, acima da própria vida, coloca a honra e o cumprimento de todos os deveres morais?
Intensa é a vossa dor, bem a compreendo; mas, suspendei as injustas suspeitas que atingem criaturas honestas.
Sabei perdoar, tal qual Jesus o fez a seus algozes, pois eu próprio escolhi a rude prova que nos feriu tão profundamente... porque era preciso ressarcir uma dívida de honra, contraída outrora, quando ainda desconhecíamos as sacrossantas Leis Divinas...
Perdoai, mãe querida, os que vos fazem padecer, a fim de que, em outra e futura peregrinação terrena, possais desfrutar tranquila existência, abençoada por Deus!
Desejo retornar à Terra para seguir vossos passos e os dos outros entes queridos.
Todos vós que aqui estais recebei um afectuoso abraço de quem muito vos quer ver felizes e que, na eternidade porvindoura, jamais se apartará de vossos corações amigos!"
— Obrigada, meu filho! — exclamou, soluçando, a castelã.
Mas, tirai-me desta dúvida atroz: quem foi que te arrastou para o túmulo de onde me falaste, com o timbre de voz que reconheci?
Por instantes, reinou silêncio no recinto.
Após, ouviu-se um triste uivo de Plutão, que, dir-se-ia, por intermédio de Joel, reconhecera a voz do extinto senhor.
— De que abismo nos falastes, há pouco? — interrogou Márcio, enquanto Geleira soluçava e Dioneia deixava fluir dos tristes olhos uma torrente de lágrimas ardentes.
— Do abismo das paixões enlouquecedoras! — murmurou Joel, lançando um lúcido olhar pelos circunstantes.
— Mas, dominados pelas paixões nefastas e empolgantes, quem poderá agir com reflexão, meu jovem?
E não é provável que Deus, sendo a perfeição absoluta, perdoe a quem cometer desvarios, sob o impulso invencível dos sentimentos desnorteantes? — tornou Márcio.
— Domine — respondeu Joel com voz firme — a alucinação e os sentimentos impetuosos, de facto, tornariam quase irresponsáveis os delinquentes, se não resultassem consequências dos erros, dos desvios morais conscientes, das transgressões às Leis Supremas!
O delito é constituído pelo agasalho, no íntimo, dos inimigos da própria alma, não repelidos por nocivos e danosos a nossos semelhantes.
O predomínio do Mal é, pois, anterior à alucinação e ao delito, porque estes são as resultantes das paixões, avassaladoras, porém, não invencíveis.
Exemplifiquemos:
Um indivíduo possui dedicado companheiro de infância, quase irmão, que, um dia, alia o seu destino ao de bela e honesta jovem, que lhe inspira indómita paixão.
Que deverá fazer esse transviado e falso amigo?
Continuar a frequentar o lar onde é acolhido fraternalmente?
Manifestar os seus sentimentos à consorte fiel, esforçando-se por arrastar à hipocrisia ou ao adultério aquela a quem deveria consagrar uma afeição pura e leal?
Cravar em um coração desvelado o punhal da perfídia? Não!
O monstro do desvario há de lhe inspirar os mais hediondos projectos, toldando-lhe a razão, cegando-lhe a consciência, que se torna em trevas.
"O homem, consciente de seus deveres morais e verdadeiramente honrado, não deve incubar em seu íntimo a víbora do ciúme e dos desejos impuros, pois, quem não a repele a tempo de evitar o crime, está pactuando com os adversários da sua própria alma.
Deve, pois, concentrar todos os seus esforços no extermínio da víbora, que, sem alimento apropriado, se aniquila e morre...
Como conseguirá, porém, esse desventurado irmão triunfar, se está dominado por sentimentos vorazes?
Fugir ao local do delito premeditado, procurando, por preces fervorosas e de proveitosas meditações, minorar o próprio sofrimento, pela imolação dos sentimentos malsãos...
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 29, 2018 9:22 am

Nesses momentos, de suma responsabilidade para a criatura humana, esta é beneficiada pelos Mensageiros celestes, e consegue jugular em seu íntimo a Hidra de Lema das paixões, a que tem sete cabeças que se reproduzem quando alguma é decepada.
"A incubação dos maus pendores e pensamentos criminosos torna o crime premeditado mais grave do que o impensado, o que surge inesperadamente.
Eis por que, domine o louco, na maioria dos casos, não é completamente irresponsável, porque já houve um período de calma, de reflexão, de lucidez, durante o qual podia ser evitado o delito premeditado e fomentado no cérebro..."
— Jovem, penetrando assim nos recônditos das almas, temo que sejais metamorfoseado em névoa, e desapareça a nossos olhos o vosso corpo físico! — falou Túlio, com emoção.
— Sou um ser humano igual a todos vós, e apenas um Espírito experimentado em séculos de lutas e de labores profícuos.
— Tudo quanto dissestes — observou Márcio — tem um valor inestimável; tirai-nos, porém, do suplício da dúvida:
dizei-nos quem foi o verdugo de nosso querido Marcelo?
— Senhor, ainda descobrireis integralmente a verdade que, por enquanto, carece ficar oculta, para não prejudicar o que está traçado pelos insondáveis desígnios do Destino, sempre úteis à Humanidade.
A verdade vai ser patenteada e o delinquente justiçado.
Termino, pois, meus irmãos e meus amigos, esta tarefa em vosso lar, e pela derradeira vez vos rogo: quando chegar o momento da separação, não guardeis, uns dos outros, ressentimentos malsãos, rancores e odiosas suspeitas!
"Todos nós somos beduínos que estamos atravessando o Saara da vida ao lado uns dos outros, e devemos preparar os nossos espíritos, incessantemente, pari a partida suprema, levando nos alforjes de nossas almas as preciosidades adquiridas na Terra, com esforço e sacrifícios penosos, que darão mérito.
Vós, senhores deste principesco solar, não fecheis as portas aos que vos pedirem asilo, se quiserdes evitar uma prova catastrófica em vosso porvir:
acolhei cristãmente os que tiverem carência de paz ou de alimento! Sede bons e generosos.
Não busqueis a glória e as regalias mundanas, e sim os humildes e os desprotegidos.
Nada nos pertence, excepto as virtudes e a evolução de nossas almas.
Tendes a vosso lado testemunhas invisíveis de todos os vossos actos, por mais recônditos que sejam, a fim de que se cumpram fielmente os desígnios divinos, as quais, sendo amigas dos sofredores, sempre vos hão-de amparar nos momentos angustiosos.
"Não vos entregueis à dor, porque esta deprime e dissolve os elementos reagentes e benéficos, sem os quais os corpos caem em invencível desalento ou falta de energia para as lutas da existência!
Depende do esforço próprio, secundado pela ajuda dos amigos invisíveis, o vosso triunfo na Terra!
Cada ser tem um destino a cumprir, em conjunto com os companheiros de jornada, para vencer todas as batalhas terrenas.
As famílias são constituídas de falanges espirituais, mais ou menos da mesma categoria, relacionadas umas com as outras, para que sejam efectivados os desígnios do Destino.
"Agora, amigos, repito o meu derradeiro conselho fraterno:
repeli de vossas almas o crepe da tristeza, do desalento, da falta de esperança, pois, os que se amam, dignamente, espiritualmente, formam falanges que se integram nas regiões felizes do Universo.
A tristeza e o desalento são qual jacas que não deixam a alma fulgir igual ao diamante lapidado.
Não deveis, tampouco, expor-vos às refregas sem necessidade, e sim esperar que elas venham ao nosso encontro, com a coragem que caracteriza os verdadeiros discípulos de Jesus."
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 29, 2018 9:23 am

Depois de alguns instantes de meditação em que todos os que se achavam naquele recinto ficaram mergulhados, Márcio murmurou, fitando o emissário de Eubeia:
— É lamentável que só agora, no remate de dolorosa existência, vos tivéssemos conhecido.
— Não lamenteis o Destino que é onde se manifesta a Justiça Divina.
Deus já vos enviou um farol que iluminará muitas consciências e almas torvas:
este que nos ouve, sem poder ainda expressar os lúcidos pensamentos! — falou Joel, curvando-se para o pequenino Lúcio, que, então, plenamente desperto, sorria para ele, como se o estivesse reconhecendo.
Agora, tenho de ir ao Solar das Sereias, por determinação do Conde de Morato.
Ainda nos encontraremos, pela derradeira vez, nesta masmorra de trevas, e mais tarde, em regiões felizes, onde se congregam os libertos dos erros.
"Já tivemos ligação em eras transcorridas, no fluir dos séculos, e havemos de nos aliar um dia, em plano melhor, em um dos remansos siderais, para jamais nos apartarmos!
Que Jesus vos esclareça sempre, concedendo-vos os clarões da Fé e da Esperança imorredouras..."
Todos ouviam o mensageiro de Cláudio Solano, em silêncio.
Plutão, que se achava deitado e com os olhos fixos no invulgar peregrino, parecendo haver uma luminosidade intermitente nas suas pupilas, como se aprovasse as palavras com um movimento rítmico da cauda, ergueu-se, como que desejoso de lhe seguir os passos ou fazer uma indicação misteriosa.
Joel acariciou-o.
Silêncio completo reinou no aposento, e até Plutão, como se tudo houvesse percebido, aquietou-se de novo, deitando-se sobre o pavimento, com a cabeça apoiada nas patas dianteiras.
Joel abraçou seus interlocutores, osculou suas frontes, e já se ia retirar, quando Márcio o deteve, para que fizesse ligeiro repasto, e quis dar-lhe generosa remuneração, que foi recusada, terminantemente, assim se expressando o jovem heleno:
— Se houve mérito no que fiz, beneficiai os que vos cercam, e transformai o Solar do Cisne em Solar de Luz, em remanso de paz e de conforto aos que padecem...
Depois, tendo aceitado pão e algumas frutas, agradeceu a todos o fraterno acolhimento, e disse, emocionado:
— Alguns dos amigos presentes não verei mais nesta actual peregrinação; porém, antigos aliados que somos, pertencendo a uma só falange espiritual, mais tarde havemos de nos reunir em regiões benditas, sem as preocupações atuais, libertos da dor, em condições ditosas.
Antes que o visitante se ausentasse, Márcio Taciano lhe disse:
— Oferto-vos um cavalo, para que possais viajar menos penosamente, Joel!
— Muito vos agradeço a dádiva generosa, domine; mas, devo seguir qual humilde peregrino, sob os rigores das intempéries, ou os do Destino!
Todos abraçaram o jovem inspirado, e tiveram sincera emoção, quando o viram desaparecer numa curva do caminho que bifurcava pouco distante do Solar das Sereias, tal a impressão que os dominava.
Plutão, que também o seguira com inteligente olhar, começou a uivar, dolorosamente.
— Que maravilhoso mancebo — murmurou Márcio — em cuja alma ressoavam as vibrações da voz insinuante do heleno.
— Como pôde Cláudio Solano descobrir tão estranho mensageiro para assim nos maravilhar? — comentou Túlio Isócrates.
— Foi o acaso, que aqui o trouxe! — obtemperou Geleira, como que já deslembrada do que escutara.
— Sob a aparência do acaso, domina — observou Túlio, magoado — muitas vezes se manifesta a vontade do próprio Criador.
— Tenho a impressão — murmurou Márcio, levando a destra ao lado esquerdo do peito — de que, há três meses, houve um terremoto em meu coração, com a morte de Marcelo, e de que, após o fragor da demolição, as ruínas foram, hoje, quase reconstituídas.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 30, 2018 10:02 am

Sinto que ainda tenho coragem para viver mais algum tempo, para ser doravante útil a todos!
Eu estava trilhando o caminho da ociosidade, do egoísmo, dos projectos de vingança; mas, agora, depois do que ouvi do iluminado jovem que aqui esteve, compreendi que, em todas as grandes dores, em qualquer catástrofe moral, paira uma sentença divina, há um crime a resgatar!
Devemos, pois, estar conformados com as desventuras da vida, porque representam punições do passado milenário de cada ser humano!
— Acreditaste, realmente, Márcio, que tenhamos mais de uma vida terrena? — interpelou Geleira.
— Por que duvidar ante a dor que nos golpeou o coração, de que tenhamos sido os responsáveis pelo homicídio de um opulento castelão, consorciado com Dioneia, que foi nossa comparsa no abominável extermínio de preciosa vida, no intuito de se consorciar com o que era nosso filho, tal qual o foi de novo nesta actual existência, e de nos apoderarmos, indevidamente, de seus haveres, tendo sido os causadores da loucura de desventurada mãe?!
Ocasionamos, pois, ao mesmo tempo, três deploráveis crimes:
traição a um amigo, posse indébita de uma fortuna a que não tínhamos direito, o infortúnio de uma desvelada mãe.
Não foi reconstituída a felicidade que conquistamos para o nosso querido Marcelo, para, às súbitas, tudo ser destruído como que por efeito de um cataclismo?
Não parece logicamente justo estarmos resgatando, com lágrimas e dores morais inomináveis, os crimes perpetrados outrora e que até então estavam impunes?
— Não haverá nisso colaboração do emissário de Cláudio, para, por esse modo, desvanecer as suspeitas que decerto supõe termos a tal respeito?
— Aceitemos a Justiça Divina!
— Queres acobertar com o silêncio e a indiferença o celerado que assassinou o nosso idolatrado filho, Márcio?
— Não; curvo-me perante a Justiça e as Leis Celestiais, Geleira!
— E perdoarás ao algoz de nosso filho, se o encontrares?
— Jesus dar-me-á, no momento oportuno, a inspiração necessária.
Certamente, também esse algoz há-de remir, dolorosamente tal qual nós, os delitos cometidos em instante de desvario!
— Assim a Humanidade jamais resgatará os seus crimes, pois os malfeitores ou delinquentes de uma existência serão sempre as vítimas em outra, e desse modo os crimes e as punições se multiplicam e serão inesgotáveis!
— É o que te parece, Geleira.
Por que uma criança, que nunca praticou uma só falta, nasce cega, deformada, com moléstias dolorosas, e termina a breve existência entre torturas e misérias, sendo algumas, ao nascer, até arrojadas nas estradas desertas ou ao fundo de um abismo?
Quem sabe se o verdugo de nosso filho não ficará em penúria, desprovido da luz divina nos olhos, por exemplo, inerte sobre um catre, prisioneiro de dores inomináveis, abandonado pelos amigos, torturado por moléstias dolorosas, padecendo na alma e no corpo?
Que são as deformidades congénitas e as moléstias prolongadas, senão divinas punições, sentenças irrevogáveis e justas?
Todos nós somos delinquentes, e estamos remindo crimes tenebrosos!
Geleira, de fronte abatida, não respondeu ao marido. Naquele momento um vagido do pequenino Lúcio lhes chamou a atenção.
— Vamos, Geleira — disse Márcio — informar-nos do estado de nossa filha (pois assim considero Dioneia), porque, pesa-me dizê-lo, ultimamente tens faltado com os deveres cristãos para com a esposa e o descendente de nosso inesquecível filho.
— Acreditaste em tudo quanto Joel falou, Márcio?
Basta ser um emissário do infame Cláudio Solano, suspeito pela atitude nos últimos dias em que o vimos.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 30, 2018 10:02 am

— Aguardemos o porvir que elucida todos os enigmas da existência humana!
Ambos ficaram em silêncio, e, após alguns segundos de reflexão torturante, entraram no aposento ocupado por Dioneia.
Esta estava reclinada em uma almofada carmesim, que fazia sobressair o jaspe da face escultural.
Apertava ela ao seio, com indizível ternura, o lindo filhinho, fitando-o enlevada e com doçura, qual se o fizesse pela vez primeira.
Túlio, meditativo, a seu lado, olhos fechados, parecia absorvido em fervorosa prece, agradecendo a Jesus a ressurreição da idolatrada filha.
— Meu amigo — disse Márcio, dirigindo-se ao ancião — muito folgo com as melhoras da prezada Dioneia.
— Nós vos agradecemos o amistoso interesse, domine, pois também estávamos ansiosos pelo restabelecimento de Dioneia, para cumprir o nosso triste destino.

(1) Pitonisa — Pítia, sibila, oráculo, mulher que, na Grécia antiga, tinha o dom de profetizar.
Endor — Cidade da Palestina, residência de uma célebre pitonisa (médium anterior à vinda de Jesus à Terra) que evocou a sombra (o espirito) de Samuel, a pedido de Saul, tendo-lhe predito a derrota.
Depois do advento do Espiritismo, foi que começou a ser consagrada aos intermediários do Além-Túmulo a designação de Médium, vocábulo este já incorporado aos dicionários.
(2) Delfos — Hoje Castri, na antiga Grécia, perto do Parnaso (Fócida), onde Apoio tinha um templo, ditando os oráculos pela boca de Pitia (nome do qual se derivou o vocábulo mundial — pitonisa).
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 30, 2018 10:02 am

LIVRO QUINTO - TRAMA DO DESTINO
Alvorecera um dia lindo.
A Primavera estava em seu início.
As serranias da Dalmácia banhavam-se na luz prodigiosa do Oriente, como que envoltas em diáfano manto de ouro eterizado.
No Solar do Cisne havia rumor invulgar.
Márcio Taciano transformara um dos salões soturnos do primeiro pavimento em confortável escola elementar para os filhos dos camponeses, que acorreram céleres e contentes ao convite tentador do castelão que contratara um velho educador, experiente e culto, que iniciava as aulas por uma prece a Jesus, o Mestre de todos os mestres.
No entanto, contrastando com o alarido festivo das crianças, bem diverso ambiente reinava nos corações dos habitantes internos do solar; iam-se retirar, por todo o sempre, naquela radiosa manhã, Túlio Isócrates e os de sua família. Sorria apenas o infante Lúcio, que, então, contava um ano de idade e já sabia balbuciar palavras deturpadas pela incerteza, às vezes, de um novo idioma, de uma outra jornada terrena, como sucede a todos os que a encetam novamente, tornando os vocábulos em monossílabos, rindo para mostrar as minúsculas pérolas dos dentinhos, com a candura dos entes angélicos de mundos siderais.
— Meu amigo — disse Túlio, entristecido, no instante da partida, dirigindo-se a Márcio Taciano, inconsolável e lacrimoso — ainda tenho a precisa serenidade de alma para vos agradecer o fidalgo acolhimento que sempre me dispensastes e aos seres que são partículas de meu próprio coração.
Tenho, porém, que voltar ao Epiro, onde possuo parentes, e mormente por haver falecido um irmão solteiro, que, segundo derradeira vontade testamentária, me legou alguns haveres.
— Mas — ponderou o castelão — poderíeis ir só, regressando após a conclusão das formalidades testamentárias.
— Domine, perdoai-me a sinceridade; mas meus filhos e o netinho são fragmentos de meu próprio espírito.
É-me impossível partir, deixando-os, pois, com a alma mutilada, eu não chegaria ao termo da projectada viagem...
— Tendes razão, domine.
Ides feliz... e eu... jamais o serei!
— Muito me compunge o coração; prometo regressar um dia, para visitar-vos.
Perdoai-me, domine, alguma desatenção cometida por mim e meus filhos durante o tempo de nossa convivência, cuja recordação será indelével.
— Nada vos tenho a perdoar, nem aos que vos são caros:
fostes os meus melhores amigos e jamais olvidarei o tempo em que aqui estivestes, suavizando as agruras de minha existência, tão fértil de inesquecíveis dissabores!
Sei quão dolorosa vai ser a separação do angélico netinho.
Não desejo, porém, que vos ausenteis deste castelo sem recursos pecuniários.
Já ordenei ao mordomo para vos entregar a quantia necessária aos dispêndios com a viagem que ides empreender.
— Obrigado, domine!
Apeles economizou o seu ordenado, quase integralmente, durante nossa permanência em vosso lar, e, por isso, muito vos agradecemos a valiosa oferta, que se torna desnecessária, para a jornada.
— Talvez não nos vejamos jamais:
não manifesteis demasiada altivez no momento doloroso de nossa separação.
Sei que sois tão nobre no coração quanto na estirpe; louvo muito a vossa dignidade, que é o melhor património humano, de origem divina!
Mas, vossa filha e nosso netinho têm direito ao que pertencia ao desditoso Marcelo, e, portanto, quero doar a ambos um pecúlio que lhes pertence e desejo entregar antecipadamente.
— Perdoai-me, domine, mas já vos cientifiquei de que temos a quantia precisa para os gastos da projectada viagem.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 30, 2018 10:02 am

— Haveis de levar, porém, o cofre que pertenceu a Marcelo, e vos será entregue pelo mordomo.
Esse cofre pertencerá a Lúcio Taciano.
Bondoso quanto sois, não haveis de querer prejudicá-lo...
Túlio conservou-se em penoso mutismo, com os olhos orvalhados de lágrimas.
Pouco distante do Solar do Cisne estava uma antiquada sege aguardando os que iam partir sem esperanças de regresso àquele local.
Empolgante tristeza lhes
dominava os corações, ensombrados por sentimentos profundos.
Geleira, abraçada ao netinho, sem ânimo de desprendê-lo dos trémulos braços para o entregar à lacrimosa Dioneia.
Ele apenas sorria, fitando-as como que para lhes alegrar os corações conturbados, então, sob a dor da separação.
— Sei que fui injusta, Márcio — disse Geleira quando ficou a sós com o marido — com a nossa nora, ofendendo-a no seu pundonor de esposa, e muito lamento o acontecido; mas, em meu íntimo, existe arraigada a suspeita de que o assassino de nosso filho foi o maldito Cláudio Solano, o enamorado de Dioneia, e esta deve tê-lo compreendido!
— Confiemos na Justiça Suprema, Geleira, que há-de desvendar a realidade, e talvez possamos ainda ser reunidos sob o mesmo tecto.
— Jamais conseguiremos melhorar a nossa situação, outrora tão afortunada, Márcio, pois, do antigo lar, restam apenas os escombros dentro de nossos compungidos corações.
Longo e penoso foi o trajecto para Túlio Isócrates e os entes amados que o acompanharam para o Epiro, deixando a Dalmácia onde haviam permanecido por vários anos.
Somente o pequenino Lúcio manifestava alegria, com a candura própria de sua idade isenta de pesares.
A dor, enquanto assedia os corações, afugenta qualquer esperança de nova felicidade; quando nossas almas estão envoltas no crepe de intensa tristeza e nenhum pensamento dulcificante as embala, ainda que por fugitivos instantes, nossos
espíritos ficam aturdidos, obrigando seus corpos carnais a se arrastarem, vacilantes, pelo Mundo, como os cegos através de infindos e desconhecidos caminhos.
É quando, então, surge em nós o desejo de alarmo-nos para as regiões do Além, no afã de lá encontrarmos a ventura que perdêramos aqui na Terra, que agora se nos afigura deserta, intolerável!
Tal o estado psíquico de Dioneia quando, qual verdadeira ressuscitada, pôde erguer-se do leito, que já lhe parecia um túmulo.
A todos os instantes, o pensamento retrocedia ao passado extinto e rememorava os mais recentes sucessos de sua vida:
chegara, em penosa emergência, ao Solar do Cisne, onde fora acolhida, com os seus entes queridos, por Márcio Taciano e seu adorado filho, pelo qual logo se afeiçoara profundamente, sendo o seu amor correspondido com veemência.
E quando culminara a ventura ambicionada, conseguindo o seu Paraíso terreal, avizinhando-se a chegada do primeiro arcanjo de seu lar, tudo fora esfacelado, aniquilado, pulverizado.
No entanto, no longo período de demência febril, e, após, de quase inanição, percebera ela que algo de muito surpreendente, de ordem psíquica, ocorria em seu âmago:
ficara em contacto com Entidades tutelares, com Emissários siderais, que lhe despertaram faculdades adormecidas, compreendendo a excelsitude da dor como libertadora das máculas do passado transcorrido em bordéis ou em ociosidades palacianas, tendo que enfrentar, desde então, a própria vida, sob outro aspecto — moral e espiritual.
Tinha que triunfar do Mal, adquirindo virtudes, as que transpõem a atmosfera terrestre e atingem as paragens divinas!
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 30, 2018 10:03 am

A ida de Joel ao Solar do Cisne produzira magnífico resultado moral, pois perceberam todos os seus habitantes que fora encaminhado para aquele local um verdadeiro Emissário sideral, dando a compreender a aplicação da Justiça Divina sempre íntegra e infalível, mostrando a necessidade da dor, sequência inevitável de uma acção condenável, de um delito clamoroso, embora já esquecido.
Dir-se-ia que Dioneia se metamorfoseara em sonâmbula, que se erguera do leito e caminhava para a sombra, que a envolveria eternamente.
O porvir, não existia propriamente para ela, pois nele não existia o vislumbre de uma esperança alentadora:
o passado eclipsara-se no torvelinho do Destino, e só lhe restava o presente, monótono e sem ilusões fagueiras.
Ao fitar, talvez pela derradeira vez, as aleias do Solar do Cisne, foi abalada por um tremor convulsivo e choro incoercível.
— Dioneia, filha querida — murmurou Túlio, estendendo-lhe os braços trémulos e ansiosos — não te esqueças de que és, para mim, o derradeiro sol para o inverno da vida, que se extingue um pouco cada dia que passa.
Sê forte, e não te tortures mais, pois não se deve lamentar o irremediável!
— Dir-se-ia, pai querido — respondeu ela quando adquiriu um pouco de serenidade — que abandonei a derradeira esperança da vida no local onde desfrutei a intensa felicidade, que eu julgava eterna!
Aqui, ainda existe ao menos a recordação dos ditosos tempos idos.
Agora, vou para o desconhecido, onde jamais lograrei fruir qualquer partícula de ventura.
— Quem te recorda tão ditosos tempos, minha filha, é esse anjo vivo, que sorri em teus braços, que te confortará o coração com os seus puros ósculos, cheio de encanto e candura!
Prolongado silêncio reinou no interior da sege que, por muitas horas, se foi distanciando do local onde haviam residido Túlio Isócrates e sua família.
— Quem sabe preferias permanecer no Solar do Cisne, filha querida?
Por que não mo disseste? — perguntou o ancião a Dioneia, ao vê-la com os olhos inundados de pranto.
— Não, meu pai.
Os agravos ultimamente recebidos impediam-me de permanecer no castelo, que, para o meu coração, acaba de ruir para todo o sempre!
Era indispensável a nossa partida; mas percebo que, ali, foi sepultada a derradeira parcela de minha felicidade terrena...
— Quem desvenda o futuro é Deus.
Depois desse curto diálogo, ambos recaíram em silêncio.
A jornada prosseguiu monótona e sem incidentes dignos de reparo.
Apenas estacionavam os itinerantes em algum albergue, para repouso do fatigante percurso e para tomar algum alimento, seguidos sempre pelo fiel Plutão, que parecia lançar olhares perscrutadores aos novos cenários da Natureza, mostrando-se contente por não se haver apartado do pequenino Lúcio, que o acarinhava com as mãozinhas nédias e róseas.
Já haviam transposto as montanhas da Dalmácia, e aproximavam-se da Tessália, dirigindo-se para o sul da Grécia.
— Onde pretendeis fixar nossa residência, meu pai? — interrogou Apeles ao progenitor.
— Não longe do local onde tivemos outrora uma propriedade.
— Nosso pecúlio é reduzido, meu pai; havemos, porém, de adquirir uma condigna habitação, embora modesta — disse Apeles.
— Fica a teu cargo a escolha do prédio, Apeles, o qual será registado em teu nome e no de Lúcio, que recebeu um pequeno tesouro, ainda intacto, oferta do nobre Márcio, e que pode ser aplicado nesse fim.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 30, 2018 10:03 am

— Os dissabores nos fustigaram intensamente, meu pai; mas, por mercê do Alto, com o que economizamos, poderemos viver tranquilos e sem necessidade de voltar ao Solar do Cisne.
Nosso querido Lúcio será criado com humildade, mas, na escola do Dever e da Honra!
O que lhe pertence será despendido apenas com a sua instrução, em tempo próprio, salvo algum imprevisto caso de enfermidade.
— Assim o espero, meu filho! — respondeu Túlio, fitando, com enternecimento, o jovem Apeles.
Decorridos poucos dias, sem sucessos dignos de menção, os viajantes transpuseram a Tessália, e, na extremidade sul, dispensaram a carruagem, que retornou ao Solar do Cisne.
Atravessaram, por fim, o Estreito de Lepanto (1), e durante alguns dias prosseguiram o desejado trajecto, até a parte oriental dos atuais Balcãs, chegando ao local almejado, pouco distante dos Delfos, em busca de velhos parentes, que os acolheram friamente.
Apeles, com anuência do pai, tratou imediatamente de adquirir uma habitação modesta, construída num cimo de colina, não distante do Mar Egeu, de onde se descortinavam as águas marítimas como se fossem as de uma tela viva, com uma infinidade de pontos sombrios, as ilhas que formam o Arquipélago das Cícladas. (2)
Apeles, instalados todos na nova habitação, cultivava o solo, desde o alvorecer, e adquiriu algumas ovelhas e aves, para aumento dos rendimentos domésticos.
Com economia e trabalho, decorridos alguns meses, estabilizou a situação do lar, passando todos a viver tranquilamente, isentos de grandes preocupações financeiras, que tanto perturbam a paz e a alegria das famílias menos abastadas.
Assim viveram, serenamente, por algum tempo.
O pequeno Lúcio, que, desde o primeiro balbuciar, revelara sempre lúcida percepção, invulgar inteligência, tornou-se o verdadeiro encanto do lar.
Aqueles quatro entes, tão fortemente ligados pelo Destino e por vínculos de indestrutível afeição, intensificaram a crença de que já havia desabrochado em suas almas — o Cristianismo, reunindo-se, todas as noites, em preces fervorosas.
Assim se escoaram vinte e quatro meses em absoluta paz, em um ambiente sereno, onde não faltava o pão material e o espiritual.
Lúcio, mal se equilibrando nas frágeis pernas, vivia em plena harmonia com seu velho amigo Plutão, atalaia fiel daquele remanso de paz, e cujo olhar se iluminava com a presença do arcanjo terrestre que o acarinhava com as mãozinhas de tépido veludo.
Nesse decurso de vinte e quatro meses, haviam sido enviadas ao Solar do Cisne notícias resumidas da situação em que se encontravam, não tendo, porém, havido retribuição de um vocábulo sequer, escrito pelo velho Márcio.
As venturas terrenas são quase todas efémeras, fugazes, qual as névoas matinais.
Ai! dos que se iludem, supondo-as perenes!
Um relâmpago, fulgurando no Céu, qual serpente de fogo precipitada sobre a Terra cheia de trevas, tem duração instantânea.
Assim a felicidade naquele honesto lar, onde imperavam o labor e a mais excelsa harmonia, os mais dignificadores sentimentos humanos, teve a fugaz duração de uma alvorada!
Túlio, cheio de recordações amargas, sentia que pouco a pouco o coração lhe pesava mais no peito opresso.
Certa tarde, chegou à sua residência um velho amigo, que, havia muito, andara por longínquas regiões e possuía a mesma idade de peregrinação planetária do bondoso Túlio.
Não foi só visitá-lo, e sim também convidá-lo para uma reunião de psiquismo, onde os continuadores da doutrina reencarnacionista rememoravam as palavras de Pitágoras, Jesus e Platão, dando a todos oportunidade de ouvir um oráculo e uma pitonisa, que maravilhavam com as suas revelações extraterrenas.
Em localidades longínquas chegava a fama dos inspirados transmissores das verdades espirituais, e constantemente iam procurá-los os peregrinos, os enfermos, os desditosos.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 30, 2018 10:03 am

Túlio Isócrates agradeceu ao amigo o fraterno convite, dizendo-lhe:
— Irei contigo, meu amigo, pois me sinto enfermo, e, quem sabe, se conseguirei algum remédio que possa minorar os meus sofrimentos e prolongar minha vida?
Desejo viver mais algum tempo, até que se normalize a situação de meus filhos e de meu netinho.
— Virei à noite, buscá-los.
A habitação de Túlio distava pouco do monte Hélicon (1), célebre, outrora, pelos templos gregos e pelas homenagens prestadas às entidades mitológicas que representavam fases da vida humana.
Celebrizara-se, havia muito, o conjunto de oráculos e de inspiradas pitonisas, dentre as quais uma sobressaía, porque a todos maravilhava pelas verdades confirmadas e pelos benéficos conselhos que seus lábios emitiam.
Ao anoitecer, Túlio e todos os seus, seguidos pelo dedicado Plutão, partiram do lar, deixando uma lâmpada, alimentada com óleo de oliva, sobre um móvel, na câmara de Dioneia, pouco distante de uma janela, velada de cortina de tecido leve, semiaberta, porque a temperatura estava elevada.
Depois de trajecto que durou mais de duas horas, avizinharam-se do local da reunião.
A mole compacta do monte sagrado, sombrio e pétreo, tinha no seu interior um famoso delubro onde se reuniam os adeptos do culto que professavam (um conjunto de preceitos pitagóricos, mitológicos e cristãos).
Tinham as reuniões carácter privativo dos associados, místico, e que infundia profunda impressão aos neófitos.
O templo era antes ampla gruta pétrea, uma escavação na base do Hélicon, escassamente iluminada por lâmpadas de nafta (1), ou do óleo já mencionado, pendentes do tecto de pedra maciça, vasto e soturno recinto primitivo, com assentos para os assistentes das reuniões, embora estes costumassem ficar de pé ou ajoelhados.
Ao transporem o templo de Héstia (a vestal que vela pelo fogo celeste de que se formam as almas), Túlio e sua família sentiram-se intensamente emocionados.
Ao fundo, em trípodes modestas, estavam três pitonisas, de alvas e longas túnicas, que se destacavam nas sombras do ambiente como se fossem estátuas vivas, quase imóveis, com os braços elevados verticalmente, evocando as Entidades siderais (ou hiperbóreas, segundo a expressão pitagórica, predominante ainda por aquela era e por muitos séculos).
Enfermos e assistentes, amparados uns aos outros, permaneciam afastados das trípodes, e, perto das pitonisas, que eram verdadeiramente as médiuns da antiguidade, um dirigente dos trabalhos que se iam efectuar e era também um célebre oráculo, realmente inspirado pelos Mensageiros divinos.
Silêncio absoluto reinava no recinto, perfumado por essências inebriantes, tidas por sagradas.
Dioneia, ao penetrar naquele recinto, onde ocorreriam cenas inolvidáveis, foi invadida por invencível torpor, que a tornou semi inconsciente.
O pequenino Lúcio, já adormecido, resvalou dos seus braços amortecidos, sendo amparado pelo avô.
Súbita agitação a fez trémula, e temia cair ao solo, sentindo a fronte inundada por abundante transpiração.
Repentinamente, fez-se ouvir a voz de uma das pitonisas:
— Filhos de Eloim (1) — ouvi-me:
nossa fraterna reunião desta noite é consagrada a Melpómene — a deusa da ciência da Vida e da Morte, que se compõe de incessantes metamorfoses, ora em um plano, ora em outro, material e espiritual; a que preside às renascenças das almas, isto é, à volta dos espíritos a novos corpos físicos que, durante o escoar dos séculos, necessitam de renovações.
Vede aquele infante (assim falando, ela, como que adormecida, apontava o pequeno Lúcio).
Todos os olhares convergiram para o ancião que segurava a criancinha adormecida.
— Vede — repetiu ela — filhos de Eloim, ele é um dos Espíritos iluminados dos que baixam da região hiperbórea para o desempenho de nobilíssima e excelsa missão terrena, que se tornará inolvidável:
encaminhar almas humanas para os mundos purificados.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 30, 2018 10:03 am

Subitamente, lúgubre som cortou o ambiente:
um uivo soturno de Plutão.
Que havia sucedido?
Ninguém pôde sabê-lo, naquele instante, porque a atenção geral foi despertada pela entrada de esbelto jovem, amparando um enfermo, cego, que, mal penetrara no recinto, caiu prostrado, parecendo prestes a desmaiar.
Ao longe, qual o vibrar de metralhadoras celestes, os trovões repercutiam pelo espaço infinito, ecoando também naquele âmbito em penumbra.
A pitonisa emudeceu por momentos, após os quais, com a voz alterada pela emoção, velada e grave, falou novamente aos circunstantes:
— Irmãos, algo funesto se aproxima; mas, os que forem atingidos pelos coriscos da dor não esqueçam que há o karma de cada ser humano, constituído pelas Leis Divinas, que têm de ser cumpridas, sem transgressões, porque estas aumentam as responsabilidades dos delinquentes por séculos.
Só se modifica o karma, ou Destino, com as acções meritórias, os feitos heróicos, os actos altruísticos, as imolações em sacrifícios superlativos!
Há, na assistência, uma jovem senhora, que revela ser da mesma categoria dos Espíritos missionários, que vieram à Terra em cumprimento de penosas e excelsas tarefas, as quais, escrupulosamente executadas, dar-lhes-ão grande fulgor espiritual.
Vinde tomar parte em nossa falange, ora congregada neste Templo!
Vinde incorporar-vos às ovelhas do aprisco de Jesus de Nazaré, o Escolhido, por suas virtudes excepcionais, miliardário das conquistas espirituais adquiridas em milénios, para Embaixador Divino.
Dioneia, erecta, sonambulizada, com o andar firme, encaminhou-se para o local designado, onde se encontrava a jovem pitonisa que havia solicitado, fraternalmente, a sua incorporação à Falange do Bem e da Virtude.
A formosa filha de Túlio, semivelada por diáfana mantilha negra, apresentava uma lividez de alabastro e sua fronte parecia desprender claridade astral.
Estridente grito repercutiu pela abóbada pétrea, e o enfermo, que chegara amparado ao jovem heleno, perdera os sentidos.
Outra pitonisa, com voz sonora e grave, murmurou, dirigindo-se ao mancebo recém-chegado:
— Deixai-o ser invadido pelo sono que empolga os que necessitam dos socorros dos siderais — verdadeiros benfeitores celestes — que vêm à Terra em missões de sacrifício e de abnegação...
Dioneia aproximou-se da pitonisa que falara em primeiro lugar, e esta, quando estendeu os braços sob os quais ficara a fronte da filha de Túlio, dir-se-ia que se tornara transparente.
Com voz débil e pausada, falou docemente:
— Filhos de Eloim, aqui vieram, por interferência do Céu, vários irmãos em rudes provas para, mais uma vez, patentear-se a Verdade divina da Palingenesia, Lei das ressurreições da alma em novos casulos carnais.
Aqui se encontra esta irmã, cuja existência tem sido fustigada pelos vendavais de ríspidos sofrimentos, para que, doravante, manifeste a faculdade psíquica que possui desde findos avatares, e que, sendo uma dádiva celeste, não pode ficar encerrada na rocha da indiferença.
É portadora de uma faculdade transcendente, para melhor suavizar as dores de nossos companheiros de estágio terreno, servindo de lâmpada no lar onde estiver.
O momento é grave para muitos de vós, irmãos assistentes, que viestes de longínquas paragens, ávidos pela voz dos Mensageiros siderais.
Buscai na prece fervorosa e na resignação cristã o conforto para os corações batidos pelo látego da dor e da desdita, sem curvar as frontes para o solo onde serão cavados os vossos sepulcros, e sim alçando-as para o Firmamento constelado, onde ingressareis no transcorrer dos séculos e dos milénios.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 30, 2018 10:04 am

Felizes os que seguirem o Mestre de Nazaré, os que, sendo bons, compassivos e generosos, encontram os pedregulhos das injustiças e das perseguições, os penedos dos obstáculos insuperáveis às suas aspirações, crivando o coração sensível com os acúleos da dor e dos infortúnios que, muitas vezes, não sabem suportar resignados.
Desventurado o transgressor de seus sagrados deveres para com o Criador do Universo e para com os nossos semelhantes, pois, por tempo indefinido, faltar-lhe-á a paz interior, sendo sua consciência — que é o pelourinho divino localizado no íntimo de nosso ser — flagelada tenazmente, sendo o corpo invadido pelo câncer do remorso e de enfermidades incuráveis, seu lar assaltado por desventuras irremediáveis, incessantes; e, assim, depois das experiências adquiridas, poderá erguer-se para o Sumo Juiz Universal — DEUS — e alcançar o almejado perdão que arrefece as chamas vorazes do sofrimento, da revolta, do vulcão que lança chama e cinzas dentro da própria alma delinquente!
"Muitos desditosos, após a perpetração de um crime, são acometidos de alguma enfermidade dolorosa ou que afecte principalmente a vista, porque aquele que extinguiu uma lâmpada divina — uma preciosa vida humana — necessita ser assinalado dentre todos os seus irmãos, ou ter cortada a sua liberdade para não exterminar outras vidas utilíssimas!
Quando não ocorre a cegueira no remate de penosa existência, o mal acomete o delinquente na que lhe for subsequente e, por isso, há criancinhas com os olhos cheios de trevas...
Um gemido profundo foi ouvido; mas todos os olhares se conservaram fixos na formosa pitonisa que, novamente dirigindo-se aos circunstantes, parecia envolta em névoa luminosa, dizendo-lhes:
— Filhos de Eloim, acham-se neste humilde reduto muitos enfermos, da alma e do físico; porém, a bondade celestial é infinita, e sempre se manifesta com plenitude.
Hoje, aguardamos a concessão de muitos benefícios para quantos imploraram, contritos e fervorosos, o auxílio inestimável dos Emissários siderais.
Filhos do crime e das paixões malsãs, todos devemos compadecer-nos dos que sofrem as consequências dos delitos indefensáveis.
"Estendamos as mãos aos que caem no sorvedouro da desventura, pois, os que têm piedade de seus irmãos em Jesus, este também se compadece de seus crimes, e a cada sacrifício ou ato meritório praticado, extingue-se uma denegrida mácula da alma do criminoso e, conforme o esforço despendido, transformasse nosso espírito em bruma dourada...
Muitas vezes aquele que nos feriu o coração, cravando nele o punhal de excruciante dor, é um desditoso que necessita de nossa comiseração, de nosso amparo espiritual, de nossa piedade, a fim de que deixe o carreiro nocivo do Mal e entre, em definitivo, no caminho áspero, porém, bendito do Bem e da Virtude.
Outras vezes, a desdita que nos tortura a alma, parecendo-nos superior às nossas forças morais, representa o reflexo, a repercussão de uma igual com que flagelamos um irmão, que o é todo aquele que convive connosco no Planeta da Sombra e dos Sofrimentos — a Terra!"
Houve um interregno na manifestação oral da inspirada Artemis.
Depois se fez ouvir a voz grave do oráculo, que estivera ausente por algum tempo no Egipto e no Himalaia, ansiosamente esperado, e era o dirigente dos trabalhos daquela memorável noite:
— Aproximai os enfermos.
Houve momentâneo rumor no recinto onde se encontravam algumas dezenas de seres humanos, todos ansiosos para que fossem minorados os seus padecimentos morais ou físicos.
Os enfermos mais graves, em número de dez, aproximaram-se das pitonisas, que, então, pareciam mergulhadas em êxtase.
Uma dessas intérpretes dos Mensageiros do Bem, assim falou, com entonação suave e persuasiva:
— Sabei, irmãos atingidos na alma ou no corpo pela seta ferina da dor, que toda enfermidade é sempre originada pelos eflúvios impuros da alma contaminada por uma acção nociva, ou criminosa, desta ou de transcorrida existência, dos que já perpetraram erros lamentáveis, quer o tenham sido há poucos dias, quer há muitos séculos!
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 30, 2018 10:04 am

Quem nasce enfermo está, insofismavelmente, remindo uma falta tenebrosa, cometida no extremo de anterior existência.
É que não soube velar pelo inapreciável tesouro que lhe foi confiado — um organismo pleno de saúde e energia — defendendo a alma contra a incursão de seus adversários, purificando-a por meio do sofrimento.
"É mister, pois, que quantos se acharem nessas penosas conjunturas, se humilhem, com resignação, curvando a fronte nos momentos de procelas morais, não se revoltando jamais, para que não se avolumem as suas responsabilidades.
Eis, caros irmãos que me ouvis, a situação de todos nós, aqui neste planeta de sombras e de lágrimas."
Muitos dos assistentes começaram a soluçar.
— Humilhai-vos e resignai-vos, irmãos! — exortou Artemis, comovida.
— Já sou dentre todos os presentes o mais infortunado! — exclamou um dos enfermos, o que estava com os olhos apagados e sustido por um jovem que se achava à sua direita.
— Achais injusta a penalidade que vos foi imposta pelo Sumo Árbitro do Universo, irmão? — interpelou a pitonisa, a meia voz, impondo-lhe a destra sobre a fronte.
— Calai-vos, por Jesus, filha de Héstia. (1)
— Bem, meu irmão, procurai diminuir a vossa responsabilidade, substituindo o mal perpetrado pelo Bem que está ao vosso alcance realizar!
Fazei por minorar a situação daquela a quem prejudicastes.
Voltai o pensamento para o Céu, para a Luz — que há de, enfim, penetrar vossa alma e inundar vossos olhos!
Curvai a fronte perante as provas que vos forem impostas, em vosso próprio benefício.
Orai, agora, com a alma desprendida, com o pensamento alçado para o Sol do Universo — DEUS.
Calou-se, por momentos, a pitonisa Artemis.
Com os braços erectos, atraía eflúvios saneadores, para beneficiar os enfermos ali congregados.
Sempre concentrada, colocou as mãos, tomadas de incoercível tremor, sobre a fronte do desditoso que se achava à sua frente, aconselhando-lhe ao mesmo tempo o uso da infusão de vários vegetais com virtudes curativas.
Subitamente, ressoou pelo amplo ambiente da gruta uma voz alterada por intensa emoção.
Todas as atenções convergiram para o local de onde partira o grito, emitido pelo enfermo que parecia ser cego.
— Estou enxergando... um pouco! — exclamava ele, agitado por evidente comoção.
As trevas já haviam invadido os meus olhos... e, agora, já distingo os que se acham neste recinto!
Agradecei a Melpómene a graça que me foi concedida!
Obrigado, Jesus!
Houve forte rumor entre os circunstantes ante a ocorrência de que eram testemunhas.
Bruscamente, a jovem que fora chamada pelo oráculo director dos trabalhos psíquicos, e que era Dioneia, prestes a desfalecer, deixou-se cair sobre uma trípode, e, com entonação dolorosa, pronunciou estas palavras incompreensíveis para os assistentes:
— Parece... que vou enlouquecer!
Reconheço... nesse cego... um...
E não pôde concluir a frase, abalada por súbita coreia que a todos causou compaixão.
O oráculo, então, se fez ouvir:
— Não perturbeis os trabalhos que aqui se realizam em benefício de tantos sofredores — visíveis e invisíveis! Concentrai as vossas energias psíquicas nas Entidades siderais, implorando-lhes a inestimável protecção!
Serenados os ânimos, ouviu-se novamente a voz do que fora beneficiado:
— Parece que sou presa... de um sonho mágico... pois essa que acaba de desfalecer, certamente eu a reconheci pela voz... que julgo ser a de Dioneia Taciano!
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 31, 2018 10:15 am

— Sim — respondeu-lhe Joel Sarajevo (que realmente era o mancebo que o levara àquele local bendito pelos sofredores) — o Destino... ou antes, a vontade potente do Juiz Supremo acaba de manifestar-se neste recinto de modo insofismável!
Artemis impôs-lhe a destra sobre a fronte e aconselhou-o em voz baixa.
Depois, chamou para seu lado o jovem Sarajevo.
Apeles fitava-a com os olhos orvalhados de pranto emocional, tomado de estranha comoção.
Abeirou-se Joel da jovem pitonisa, e imperturbável, erecto, com os olhos semicerrados, murmurou:
— Meus irmãos de jornada planetária, tenho a dizer-vos algumas palavras, as derradeiras que vão ressoar neste ambiente cristão.
Este vosso irmão, que ora vos fala para dar a conhecer os pensamentos de um de seus Mentores espirituais, reminiscências indeléveis de vários avatares, recordando-se dos delitos, dos actos heróicos e dos triunfos espirituais que já conquistou; lembra-se de haver estudado no Egipto os arcanos do ser humano, os mistérios dos Faraós; já renasceu na Grécia várias vezes, tendo sido discípulo do luminoso Pitágoras, com o qual aprofundou a ciência da nobreza dos sentimentos, das aquisições científicas ou dignificadoras; renasceu na Galileia, na era fúlgida e imortal em que baixou voo sobre a Terra um dos maiores Arautos celestes — Jesus!
Houve vozes sussurradas e soluços no recinto.
Joel Sarajevo estremeceu e murmurou ainda:
— Tenho terminado o que vos tinha a dizer.
Peço-vos, irmãos, encarecidamente, as vibrações de vossas almas em benefício dos que hoje aqui vieram pela primeira vez, sendo para alguns a derradeira, em corpo material.
— Pretende ele atentar contra sua própria existência, irmão? — perguntou o oráculo à Entidade que, então, se manifestava por intermédio de Joel, recebendo a seguinte elucidação:
— Não, meu amigo, ele não mais pretende cometer um crime de revolta contra as Leis Supremas, porque se aproxima a meta desta existência terrena de modo trágico.
— Por que não prosseguirá este irmão sua meritória missão espiritual ou terrena? — inquiriu de novo o oráculo ao inspirador de Joel.
— Já adquiriu nosso caro irmão, penosamente, experiências preciosas e imprescindíveis à purificação e saneamento de seu espírito, em séculos de dores e de trabalhos acerbos!
Já recebeu as luminosas lições dos dois mais exímios Mestres dos que têm vindo à Terra — Pitágoras e Jesus — e, portanto, para remir o derradeiro débito, sofrerá uma provação dolorosa e rápida.
Desde então, entrará, definitivamente, para a falange bendita dos redimidos ou dos Mensageiros siderais, e, desse modo, consumará cabalmente o seu tirocínio terrestre.
"Ele se acha ligado a alguns amigos, que foram comparsas em uma de suas penosas existências transcorridas, férteis em actos condenáveis, e, juntos, praticaram uma falta tremenda, que tem de ser resgatada agora, para finalizar a série de falências dolorosas a que têm sido submetidos.
Joel, porém, dos que vão partir brevemente, é o que se encontra mais próximo das Fronteiras do Infinito.
Acham-se outros irmãos, actualmente neste recinto, em idêntica situação; porém, ainda não remiram os derradeiros débitos.
Podeis abraçá-lo pela última vez, no plano terrestre...
Todos se aproximaram e, Cláudio, quando lhe apertou o busto com os trémulos braços, disse:
— Desejais abandonar-me, meu único amigo?
Joel, despertado subitamente, indagou por que assim ele lhe falara.
— Será possível que não saiba o alcance das palavras que, há momentos apenas, nos transmitiu?
— Eu as ignoro; mas, no meu íntimo, há uma dolorosa impressão.
Que ocorreu comigo?
O oráculo lhe narrou quanto se passara, e recomendou que não viajasse durante aquela noite, estando iminente violenta procela.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 31, 2018 10:15 am

Ouvindo-o, Túlio Isócrates, sempre cortês e generoso, convidou-o para pernoitar em sua habitação, que não distava muito do templo de Héstia.
— Tenho um companheiro, Cláudio Solano, senhor, e não devo abandoná-lo.
— Ele também virá connosco, Joel.
— Antes, porém, amigos e irmãos — murmurou o oráculo — vamos fazer uma prece fervorosa em benefício de todos os presentes.
Todos baixaram as frontes, e o oráculo, encerrando a fraterna reunião espiritual, proferiu uma expressiva e inspirada prece que trouxe lágrimas a todos os crentes.
Terminada essa sincera prece dos assistentes, apenas se ouviu a voz suave e merencória de Artemis, que causou apreensão aos circunstantes:
— Nem a Jesus foi dado o afastar-se do cálice de amarguras, e todos temos de sorvê-lo até às derradeiras gotas!
Parti, todos vós, tendo Jesus em vossos corações!
Muitos foram os beneficiados hoje...
Já se haviam retirado quase todos os assistentes, quando Joel avistou Apeles, ao lado de Dioneia, tendo ao colo o filhinho adormecido, perto de Cláudio Solano.
Amistosa palestra se entabulou e se generalizou, e, após inspirados ensinamentos transmitidos pelo oráculo Xerxas, relativos às enfermidades corporais e espirituais, todos se mostraram surpresos por ali se haverem congregado, tendo muitas vezes pensado que jamais se reuniriam naquela vida terrena.
Cláudio, silencioso e triste, permaneceu pouco expansivo.
Joel se mostrou maravilhado com a presença dos que conhecera no Solar do Cisne.
Caminhavam todos por um vale verdejante, em palestra afectuosa, quando, às súbitas, tiveram a atenção despertada por intenso clarão no alto de uma colina, justamente onde estava edificada a habitação de Túlio Isócrates.
O temporal, que desde o entardecer ameaçava a região, começou a fustigar as árvores e as moradias, parecendo querer reduzi-las a escombros.
Precisamente naquele instante, Túlio havia dirigido pela primeira vez uma interrogação a Cláudio, que caminhava amparado pelo piedoso Joel:
— Onde tendes vivido, desde a vossa retirada do Solar das Sereias?
— Em Eubeia, conforme a comunicação que mandei aos amigos do Solar do Cisne.
— Por que deixastes a vossa propriedade, bruscamente, como se fósseis forçado a fazê-lo por motivos imperiosos?
— Eu enlouqueceria se permanecesse naquele local.
Sentia-me enfermo e propenso ao suicídio...
— Muito lamento o que tendes padecido.
Apressemos, porém, os passos, porque vejo aumentar o violento temporal, e estou atemorizado ao avistar um clarão, semelhando-se ao de incêndio, no local onde está edificado o nosso humilde lar!
— Olha! Vê o incêndio que devora nosso abrigo, pai! — exclamou Apeles, com o olhar desvairado.
Estava predita a nossa desventura...
Todos os olhares convergiram para a colina, onde se achava edificada a habitação de Túlio Isócrates.
Um grito uníssono partiu então de todos os lábios: a claridade sinistra iluminava totalmente o outeiro onde se erguia a modesta habitação de Túlio, activada a violência do incêndio pelos ventos desenfreados que no momento varriam o local, quase despovoado.
Espessa onda de fumaça se evolava do prédio, dificultando a aproximação dos que procuravam prestar auxílio na extinção do voraz incêndio.
— Jesus! — murmurou Dioneia, desfalecendo de angústia — estamos desgraçados, meu pai!
Não pronuncieis essa palavra, domina! — falou Joel, com energia.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 31, 2018 10:15 am

Ela atrai elementos nocivos a quem a pronuncia.
— Perdoai-me, Jesus! — pôde ela ainda balbuciar.
Ficaremos reduzidos a miséria.
Vai-se perder o cofrezinho de Lúcio, dádiva do avô e sua única herança paterna!
Apeles e Túlio, tomados de súbito desespero, apenas bradaram para a infortunada Dioneia, que apertava ao seio o filhinho:
— Vamos lutar com as labaredas, para salvar o património de Lúcio!
Vendo-os, sempre compadecido dos desventurados, na iminência de uma inevitável catástrofe, Joel os seguiu, acompanhado por Plutão, que parecia partilhar também da aflição de todos, e uivava desabaladamente.
Chegados ao local, quando os três amigos haviam conseguido abrir a porta central, para se dirigirem ao dormitório de Dioneia (onde ficara acesa uma lâmpada, a qual, por mão criminosa, ou pelo furor do vento talvez houvesse ateado fogo à cortina, pouco distante), ouviu-se o fragor associado dos trovões e do desmoronar da vivenda de Túlio, parecendo aluída pela própria Natureza.
Todos os vizinhos dos arredores, alarmados com a catástrofe que pela vez primeira ocorria naquela pacífica região, tentaram salvar algo de precioso pertencente à desolada família ali instalada havia vinte e quatro meses; mas, todos os esforços foram infrutíferos!
Túlio Isócrates, o filho e Joel, que haviam conseguido penetrar no interior da casa incendiada, em busca do cofre de Lúcio, foram envolvidos pelos rolos de fumaça, pela ardência das chamas, e bruscamente sepultados em labaredas e cinzas ao ruir fragorosamente a cobertura do prédio.
E assim, naquele vulcão de chamas devoradoras, desapareceram os três abnegados heróis, seguidos pelo dedicado Plutão que corajosamente investira contra as labaredas, enfurecido, parecendo compreender que naqueles instantes eram elas adversárias invencíveis, que ele desejava estrangular para impedir o infortúnio de seus melhores amigos, e que seria devorado por elas também.
Ainda ressoavam aos ouvidos de Dioneia a aflitiva afirmativa do genitor:
— Quero salvar o cofrezinho de Lúcio...
Dioneia, que por momentos desfalecera e fora recolhida a modesto lar vizinho próximo, nunca se sentira tão realmente atingida pelo infortúnio, quanto naquela situação de dor superlativa que lhe atirava a alma a um báratro profundo.
Depois de vinte e quatro meses de relativa tranquilidade, de harmonia, de paz espiritual, a desdita tudo destruíra com o incêndio que, em poucas horas, transformara em cinzas a sólida construção que seu infortunado genitor afirmava poder desafiar alguns decénios.
Percebera ela, por intuição (que lhe era familiar desde os primeiros tempos de existência), que um sucesso de suma gravidade se avizinhava para o seu lar.
Tudo a fizera pensar em outra desventura, mormente quando se certificara da presença de Cláudio Solano naquele recinto.
Fora esmagado seu coração pela mó intangível do Destino!
Ficara só, irremediavelmente só, para as supremas batalhas da vida, com um filho — que reclamava protecção e carinho.
Dominara-a a impressão de se encontrar em pleno oceano proceloso, arrojada de uma caravela naufragada, tendo vislumbrado um Calvário de pedras, ao qual se alçara penosamente, iluminado pela Fé cristã que existia em sua alma, divisando também, através dos olhos enublados de lágrimas, uma fronte angélica de criança em tudo semelhante à do adorado filhinho.
Se não fora esse sagrado Calvário — eterno emblema do sofrimento neste Orbe de expiações redentoras — ao ver os seus entes bem-amados em titânica peleja com as labaredas, ter-se-ia reunido a eles, preferindo a morte trágica à penúria, à situação desesperadora que então previra.
Para culminar suas amarguras, estava salvo o provável adversário de seu inesquecível Marcelo, e que lhe golpeara o coração para sempre, e destruíra toda a felicidade terrena que culminara por instantes apenas!
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 31, 2018 10:15 am

Estava exausta de lutar contra a sorte adversa, vencida por um poder que a esmagava de encontro a um rochedo de dores inextinguíveis.
Avizinhava-se da loucura, quando ressoou no seu íntimo a palavra miraculosa:
— Jesus! Jesus! Jesus!
Este nome, qual relâmpago em pleno céu tempestuoso, teve indescritível repercussão no recesso de sua alma em rude prova.
Sim, era ela cristã e tinha de pensar na lição do Mestre.
Não podia, pois, insurgir-se contra os Decretos supremos:
tinha de curvar-se perante o inevitável, lembrar-se de que era mister sofrer para resgate de suas transactas e graves transgressões.
Como, pois, merecer o perdão, antes do resgate das faltas?
Mas, pensava ela, será justo alguém reparar crimes dos quais não tem sequer superficial lembrança?
Sim. A criatura humana que, em uma etapa terrena, sentir-se espoliada de seus haveres, separada dos entes queridos, sempre humilhada, sem regalias sociais, sem poder satisfazer os seus ideais de tranquilidade ou ventura, pode ficar certa de que mereceu todas essas mortificações, e murmurar em seu próprio íntimo:
"— Bendito sejais, Senhor e Pai, pelas merecidas punições que estais aplicando em meu próprio benefício: as desditas são as provas reais dos crimes praticados outrora — contra Vós e meu semelhante — e eu, para remir o meu espírito, tenho que resgatar o passado tenebroso com lágrimas ardentes.
Bendito sejais por me haverdes proporcionado os meios de remissão, por não Vos terdes esquecido de uma ovelha tantas vezes transviada do Rebanho de Jesus, Vosso mais fiel Servidor no Planeta das Sombras e das Lágrimas, geradas por nossas imperfeições e nossos próprios delitos!
Bendita a dor que me fere presentemente para sanear a minha alma e, com a lixívia dos prantos, embranquecê-la eternamente!
Aceito o cálice de amargores com ânimo sereno, embora não me recorde dos crimes praticados.
Perdoai-me, pois, Senhor e Pai, concedendo-me Vós a coragem de ressarcir, serenamente, os meus desvios do Código Divino, e permitindo desse modo minha perpétua reabilitação, a Liberdade infinda dos redimidos pela dor."
Eis a norma para os que verdadeiramente almejam progredir espiritualmente, sem desalentos, sem revoltas, que não suavizam, antes agravam, as penalidades supremas nos instantes de dor infinita!
Tudo estava predito.
Aqueles instantes de angústia superlativa, vaticinados pela lucidez de Joel, foram resgates de delitos seculares.
Aqueles três seres (apenas reunidos por duas vezes na vida que findara no incêndio), Túlio, Apeles e Joel, eram velhos companheiros e comparsas do mesmo hediondo crime:
a destruição do lar de um adversário que, com os seus entes bem-amados, ficara sepulto nos bulcões de chamas e cinzas de efémero vulcão irrompido bruscamente no interior de uma residência.
— Estou só, inteiramente só para lutar na grande batalha da vida, e, certamente, serei vencida, esmagada — murmurou Dioneia.
Devo ter sido mais criminosa do que os mais temerosos facínoras! — continuava ela a monologar no próprio imo.
Bem haviam predito essa catástrofe esmagadora as pitonisas e Joel.
Por que os três entes, cremados nos escombros fumegantes, haviam sido assim punidos, precisamente quando haviam atingido altos predicados morais, e seriam incapazes de cometer o mais insignificante deslize?
Para lhes abreviar a redenção, decerto.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 31, 2018 10:16 am

Como olvidar, jamais, a mísera Dioneia, os momentos transcorridos em pânico inaudito?
Rugia a procela com desconhecido furor, violência de siroco do Sudão.
Faíscas incandescentes serpeavam no Firmamento — um oceano de trevas — e vendavais impetuosos galopavam no Espaço, com o furor dos furacões africanos, ateando, cada vez mais, as chamas na habitação de Túlio.
Poucas pessoas observaram o incêndio, já completamente adormecidas ou distanciadas do local do sinistro.
Raros os camponeses que tentaram buscar areia para atirar sobre as chamas, único recurso de que dispunham para a extinção do incêndio.
Cláudio Solano, estarrecido, desde que não percebera mais o contacto da mão protectora de Joel, segurando-lhe o braço esquerdo, sentira um aturdimento indescritível, e, com insistência, as derradeiras palavras do incomparável amigo que lhe ressoavam aos ouvidos:
"— Pior do que o incêndio é o remorso, pois este requeima a alma, devorando-lhe todas as alegrias, mais do que aquele à madeira ressequida!"
Na penumbra em que se encontrava, mal distinguindo os vultos indecisos ao redor de si próprio e de Dioneia, que, após um grito desvairado, implorando que salvassem as vítimas daquela noite trágica, ficara silenciosa, e, certamente, havia perdido os sentidos.
Ele meditava na impotência da vontade humana, para debelar os sucessos marcantes de uma existência acidentada por lances pungentes.
Dir-se-ia que Cláudio e Dioneia estavam avassalados por um efialta (1) enlouquecedor, do qual jamais acordariam.
Cláudio mal percebera o ocorrido com os companheiros de jornada:
a visão que, pelas preces de Joel no Templo de Héstia, lhe fora restituída momentaneamente constituíra fenómeno fluídico, fenómeno esse que ele não definia, por ser pouco versado nos sucessos supranormais, nos factos transcendentais, e não percebia que, no instante de recobrar a visão, lá, apenas ocorrera a exteriorização de seu Espírito, que deixara o cárcere carnal por alguns segundos, ao influxo das vibrações de intermediários do plano material para o psíquico, retornando depois ao estado anterior.
Ele ouvira o lancinante apelo de Dioneia pedindo que socorressem seus entes queridos e a Joel que, poucos momentos antes do sinistro, logo ao sair do Templo de Héstia, havia combinado para o dia seguinte mandar alguém a Eubeia levar notícias ao seu velho e extremoso genitor.
As vozes, alteradas pela angústia que lhe chegaram aos ouvidos, permitiram compreender tudo: perdera o derradeiro amigo que conseguira levar-lhe um pouco de lenitivo à alma confrangida, ao coração opresso e amargurado por dolorosas reminiscências.
Dioneia, depois do grito de desespero que traduzira a dor que lhe esfacelava o coração:
— Salvem meu pobre pai e meu querido irmão!
Salvem a Joel! — desfaleceu.
Enquanto, porém, seu corpo estava inerte, o Espírito ouvia nitidamente as palavras dos amigos invisíveis, percebendo tudo quanto ocorria pouco distante de seu amortecido envoltório físico.
No instante em que haviam tentado socorrer os que tinham sido abatidos sob os escombros da habitação em chamas e ruínas, um lamento se fez ouvir, prolongado e triste:
era o fiel Plutão, nas vascas da agonia, parecendo uma vibração humana.
Um camponês, impressionado, escutando o doloroso uivo, exclamou:
— Pobre cão!
Quis em vão salvar os amigos, e foi vítima de sua dedicação!
— Quantos entes humanos não sabem imitá-lo! — falou outro, compungido.
Dioneia não sustinha mais o pequenino Lúcio, que chorava sem cessar, abraçando-a e tentando inutilmente despertá-la.
Outro campónio, que assistira à emocionante cena, interrogou Cláudio Solano:
— Sois, acaso, parente da infortunada senhora que parece prestes a entregar a alma ao Criador?
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 31, 2018 10:16 am

— Não, mas fui amigo de sua família.
Tudo quanto por ela fizerem eu saberei recompensar! — respondeu o castelão comovido.
Chamem um herbanário para socorrê-la; eu me responsabilizo por todos os dispêndios.
Vede um abrigo para acolhê-la e ao filhinho, e também outro para mim, até que possa mandar alguém a Eubeia, minha residência.
— Viestes da Eubeia, senhor?
— Sim, em busca de alívio para a minha saúde, e, sem o desejar, presenciei uma das mais trágicas cenas desta existência.
Preferia ter sido um dos carbonizados pelo fogo a ter sobrevivido.
Além de haver perdido o melhor amigo, compadeço-me infinitamente da desditosa dama que dizeis se acha semimorta!
— Ela é jovem e bela, e, talvez, possa ainda ser ditosa — disse, imponderadamente, o interlocutor de Cláudio.
— Os abalos morais que tem sofrido talvez a levem à loucura, ou ao túmulo! — exclamou ele, trémulo de emoção, julgando-se o responsável por todos os infortúnios da malograda Dioneia.
— Vamos transportá-la para minha residência — falou um dos rústicos presentes.
Se quiserdes, ireis, comigo, pois baldados foram os esforços para salvar as desditosas vitimas.
— Ela voltará ao solar de seus sogros! — exclamou Cláudio, um tanto bruscamente, suspeitando que o incêndio talvez tivesse intuito criminoso:
a cobiçada posse de Dioneia, bela, virtuosa e inacessível aos habitantes daquela região oriental do Epiro.
Cessou o diálogo.
Alguns camponeses improvisaram uma padiola e nela transportaram o corpo inanimado de Dioneia, que só pôde ser socorrida por um herbanário quase ao alvorecer, o qual também frequentava o Templo de Héstia e prescreveu a infusão de algumas plantas que agiram beneficamente sobre o estado mórbido da enferma.
E a noite parecia prolongar-se, como se eterna fora!
Recolhida em um dormitório de aparência humilde, sem nenhum conforto, encontrava-se Dioneia, inerte, como se a vida estivesse prestes a abandonar-lhe o corpo.
Em aposento contíguo ao dela estava Cláudio Solano, com o coração compungido, compreendendo que indirectamente fora o causador de toda a desdita de Dioneia, que, sem a perda do consorte, estaria no Solar do Cisne, ao abrigo da penúria — consequência imediata da desventura que lhe atingira o lar, agora totalmente destruído.
Nunca sentira, quanto naquela noite inesquecível, a culpa a esmagar-lhe o coração.
Todos aqueles infortúnios, derivados de seu hediondo delito, feriam-no impiedosamente, inexoravelmente!
Julgava-se ele o único responsável por tudo quanto acontecera.
Se não houvesse ferido o desventurado Marcelo, aqueles denodados seres humanos não teriam sido devorados pelas labaredas.
Por que não fora ele, o maldito, o único sacrificado, e sim os que eram dignos da protecção dos deuses?
Como teria ânimo de comunicar a Soriano Sarajevo, o pai do inspirado Joel, o desolador decesso do filho tão querido e tão digno?
— Fatalidade! Fatalidade! — murmurou ele, na calada da noite.
— Por que os deuses, que são bons, não me fulminam?
A ideia de pôr termo à própria vida mais uma vez lhe fulgiu na mente afogueada, gerando esse único pensamento: a Morte.
Por mais cruel que esta fosse, seria preferível à vida tormentosa que teria de arrastar.
Recordava com frequência o passado tenebroso; parecia-lhe, então, estar sendo escalpelado por quem transformava os cadáveres em múmias eternas, transmudando-lhe os tecidos vivos em músculos rígidos, não se julgando mais digno de permanecer sobre a Terra, em movimento, e sim forçado a seguir um destino ignorado e maldito; sentindo-se aviltado perante sua própria consciência, indigno de dirigir a palavra à vítima de seu nefando crime.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 31, 2018 10:16 am

Inenarrável agonia agora o empolgava.
Ululavam os vendavais lá fora, qual alcateias dê lobos famulentos, rondando o refúgio onde e haviam acolhido as presas apetecidas, sedentos de sangue, ávidos da carne tépida dos míseros seres vivos rondados pelos algozes!
Relâmpagos de fogo intenso aclaravam, por vezes, o estreito dormitório onde se ocultara ele, que mais os percebia por intuição do que pelos órgãos visuais.
Estremecia ao som das bombardas celestes, almejando que alguma o esfacelasse.
Logo após o estrondo dos canhões siderais, maior era a violência das bátegas de chuva, fustigando a modesta habitação em que se abrigara.
Ouvia tudo com inaudita emoção, porque aquele temporal lhe recordava o outro durante o qual perdera a vista, após o bárbaro assassínio do seu mais desvelado amigo.
Cláudio soergueu-se no leito.
No dormitório contíguo ao dele andavam passos incertos, certamente os de alguém que velava por Dioneia, que, por vezes, emitia lamentos e soluços.
Uma criança chorava, decerto o filhinho de suas vítimas, o qual, não se acomodando com pessoas estranhas, compreendia, talvez por intuição antecipada, que sua extremosa mãezinha estava em situação aflitiva e desejasse, ele, compartilhar do seu angustioso estado d’alma.
Para ambos, Dioneia e Cláudio, aquela noite trágica teve repercussão ilimitada, que lhes pareceu eterna.
Quase ao alvorecer (o que para ele pouca diferença fazia da escuridão dos olhos ou da alma) tentou abrir a porta para sair, sem destino, em busca de um local onde pudesse encontrar alívio a seus pesares, que excediam a expectativa, ultrapassando suas forças morais — a Morte, que considerava o único termo à dor que lhe dilacerava o acovardado coração!
Tentou fazê-lo; mas o ruído da porta despertou a atenção dos que se achavam velando pela enferma, e um temor invencível o empolgou totalmente.
E, como que sob o império de despótico senhor a quem tivesse de obedecer cegamente, voltou ao mesmo local, para não suscitar suspeitas desabonadoras, e novamente buscou o leito.
Ajoelhou-se então, no soalho desguarnecido das tapeçarias existentes no seu Solar das Sereias, apoiou a fronte à borda do catre humilde, e, assim abatido, sentindo esvair-se-lhe toda a energia para resistir ao novo embate do Destino, soluçou convulsivamente, parecendo-lhe que a vida aos poucos se evolava do seu organismo debilitado pelo ininterrupto sofrimento moral, agravado pelas vigílias prolongadas, que não o deixavam repousar nem abrandar os sentimentos que o dominavam.
Houve, súbito, o desprendimento de sua alma que se localizou em uma pirâmide de escombros, onde se verificara o incêndio,
podendo enxergar, por visão supranormal, a desditosa Dioneia e
ele próprio, ambos ligados por um elo de fogo, parecendo envoltos
por delgadíssimas serpentes de chamas inextinguíveis. Quem lhe
falara então, com um timbre de voz ao mesmo tempo suave e doloroso?

(1) Lepanto — Actualmente porto de Corinto, no Peloponeso.
(2) Cícladas — Ilhas do Arquipélago, pertencentes à Grécia.
(1) Hélicon — Monte da Grécia (Beócia), consagrado às Musas hoje Paleo-Vouno, 1.750 metros de altitude, sinónimo de Pindos e de Parnaso.
(1) Nafta (naphtha) — Líquido produzido por hidrocarburetos, o petróleo da antiguidade.
(1) Eloim (Elohim) — A divindade principal dos hebreus, que o era também para os gregos, significa — Ele, o Deus dos deuses.
(1) Héstia — Divindade grega do lar, a Vesta dos latinos.
(1) Efialta — Pesadelo, domínio espiritual durante o sono.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 31, 2018 10:16 am

LIVRO SEXTO - A EXECUÇÃO DAS LEIS SUPREMAS
— "Infiel irmão, vede! — alguém falara a Cláudio Solano, com infinita amargura — vede as consequências de delitos funestos nos quais compartilhastes, juntamente com os que desapareceram nas chamas crepitantes.
Vou desvendar, tanto quanto for permitido, o mistério do passado.
"Houve época em que Marcelo Taciano não possuía riqueza.
Num castelo isolado, vivia um digno fidalgo romano, consorciado com formosa dama, tendo a seu lado, em invejável paz, adorada progenitora, constituindo os três um lar bendito, onde havia o mais raro tesouro da Terra:
lealdade recíproca, ventura espiritual e material, intensificadas pela prática do Bem.
"Naquele tempo de preconceitos sociais, fora o matrimónio, contra os conselhos da austera mãe, contraído com formosa jovem, de condições modestas, por quem o castelão se enamorara profundamente.
Esta é justamente a que se acha com o destino entrelaçado ao vosso, Dioneia, o que vem sucedendo desde há muitos séculos.
"Tem tido ela, em diversas existências, os mesmos progenitores e o mesmo irmão, Apeles, e, em vida anterior, também foi irmã do inspirado Joel, coniventes todos em diversas transgressões às Leis Divinas e sociais, impulsionados, então, pela cruel Geleira, pactuante com eles para a consumação de execrando delito:
incendiar o solar do digno romano, consorciado, então, com a irmã Dioneia, sendo destruída pelo fogo uma heráldica residência, o que levou à loucura a desvelada progenitora, que se arrojou ao Arquipélago nesse tempo denominado Mar Egeu não sobrevivendo à perda integral de toda a sua felicidade terrena.
Fostes um dos encarregados de atear o fogo no castelo, crente de que a formosa sobrevivente — hoje Dioneia — preferisse o vosso amor ao do outro comparsa de crueldade; mas, não sucedeu o que desejáveis:
ela já amava o mesmo homem que, nesta actual existência, foi o seu malogrado esposo.
Vós, porém, prepotente e impulsivo, a compeliste pelo temor a abandonar o lar, apavorada pela inevitável desdita em perspectiva.
"Surtiu o desejado efeito o incêndio do solar, não muito distante do local em que vos encontrais, e realizastes a vossa mais ardente e ilícita aspiração: ter por esposa a adorada castelã, sempre bela e sedutora.
"Fruístes, pois, o fruto do crime, porém, por limitado tempo, porque também a vossa vida foi sacrificada por vossos assalariados, sendo Geleira Taciano a mandante de vosso assassínio.
"Os isentos das culpas do crime são apenas dois — o digno Márcio Taciano e seu actual netinho, Lúcio, que é o renascimento do sacrificado castelão, que continuou idolatrando a infiel consorte, hoje sua mãe muito amada.
Vede, irmão, quantas tragédias originadas no passado tenebroso, que muitos viventes julgam findas, porém, ressurgem no porvir, até que sejam remidos todos os delitos, e os Espíritos entrem definitivamente no carreiro bendito da Redenção, que é o das Lágrimas, Trabalhos e Virtudes!
"Toda a ilusão humana provém de pretender uma ventura ininterrupta, durante sua estada na Terra, quando o alvo a culminar na existência planetária é o da conquista da perfeição ou da purificação espiritual, da Liberdade eterna.
"Séculos transcorreram após os dramas das vossas peregrinações terrenas.
Somente nos últimos tempos compreendestes o valor da Virtude, e, doravante, sereis mais intensamente punidos à menor transgressão às Leis terrestres e celestes, porque as vossas faculdades mentais e psíquicas já foram exercitadas no sofrimento, e adquiridas maiores experiências que vos despertam as percepções espirituais:
já percebestes o valor das acções meritórias, para resgate dos delitos desse passado culposo, quando éreis impulsionados pelos desejos, imoderados e violentos, de conseguir a ventura a despeito de todos os obstáculos, de todas as dificuldades, esmagando direitos alheios, desprezando a Justiça Divina — que é a síntese de todos os mais valiosos triunfos espirituais e morais — conseguidos pelos seres humanos que aspiram a não mais ser entidades planetárias, e, sim, cidadãos do Universo, Mensageiros siderais ou divinos — o supremo troféu do ser humano — tal qual a impura linfa de um pântano pode aspirar a elevar-se à amplidão atmosférica e transformar-se em orvalho cintilante.
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Ave sem Ninho

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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 31, 2018 10:16 am

— "Aquele que Dioneia cria com extremos de ternura, e foi o esposo imolado, perdoou à querida irmã, a qual, contudo, tem um débito de honra para com ele e uma restituição a fazer.
Fostes vós, irmão, um dos delinquentes que lhe causaram dores profundas e uma desdita que, por muito tempo, o fez desventurado e à sua nobre mãe, que renasceu em uma das ancestrais de nossa irmã Dioneia, de destino tão entrelaçado ao vosso pelos crimes em comum.
Durou apenas meses a vossa criminosa ventura.
"Dioneia que, em contraste com o presente, era frívola e vaidosa, enamorou-se de um jovem esbelto e inteligente, que havia muito lhe correspondia o afecto com impetuosidade, sendo, porém, desprovido de fortuna.
Aliado à própria mãe, concebeu o plano sinistro de eliminar-vos a vida (o que sucedeu em breve tempo), assenhoreando-se do castelo maldito que, pela aparência principesca, seduzia os olhares e deu margem a diversos dramas pungentes.
Os três infortunados irmãos que, há poucas horas, partiram para o Mundo Espiritual, foram coniventes no hediondo delito, agora dolorosamente remido.
"Estremeceis à recordação que faço de tais crimes do passado milenário?
O vosso, irmão, foi agravado com a perfídia que praticastes, traindo a confiança que inspiráveis ao desditoso Marcelo, a quem, no pretérito sombrio, já havíeis sacrificado e a quem, vindo em carácter de íntimo companheiro de infância e de armas, devíeis ter respeitado o lar e os direitos sagrados.
O Destino, que executa as Leis Divinas, fez que nascêsseis e fósseis criados quase irmãos, para que se extinguissem rancores e odiosidades.
"Em igualdade de condições pecuniárias, estáveis no mesmo nível, para que aliásseis as almas eternamente, vivendo como sendo irmãos, e não rivais que se execrassem.
Tendes para com ele (o pequenino Lúcio) uma dívida de honra a resgatar na actual existência.
Nossa irmã Dioneia já ressarciu esse débito penoso, quando, ela e os que constituíam satélites de sua alma, componentes de sua família, vieram, peregrinos, ao local de sua primitiva residência, em penúria extrema, e foram acolhidos, exaustos e em desalento, no Solar do Cisne, onde se efectuou o seu casamento.
"Estais, agora, premeditando um novo delito: o suicídio!
Se o efectuardes, sereis mais infortunado, pois agravareis a vossa situação e a da desditosa Dioneia, que se acha imersa na mais pungente penúria, sem suspeitar que o lamentável sucesso de ontem, o incêndio do seu lar, foi praticado por um pretendente (ela os tem, desde que passou a residir nesta região).
O seu menos preço ou a incompreensão dos sentimentos que inspirou a diversos campónios, originou odiosidades secretas, cujas consequências quase a levaram à loucura!
Vós a prejudicastes, assassinando o seu mais dedicado protector, e o incêndio lhe tirou o derradeiro e natural amparo, tudo para que tenhais margem de lhe restituir o que lhe usurpastes outrora, isso porque a mãe de Marcelo já dispôs do solar, vendido a um credor hipotético, ou fantástico, para a prejudicar e ao netinho (que ela não considera tal).
Tendes de sustê-la à beira do despenhadeiro em que se encontram ela e o filho (que é, já vos disse, uma de vossas vítimas dos tempos idos), a quem tendes de restituir o solar que, conforme afirmei, mandastes destruir, fazendo presa do fogo o seu corpo então alquebrado e enfermo...
"O suicídio que projectais agravará a vossa desdita.
Jamais um crime poderá remir outro anterior.
Ninguém deve entregar-se ao desalento, que contraria as Leis Divinas:
o verdadeiro crente na Justiça Divina nunca se deixa vencer nas batalhas da vida.
A Fé reanima o combatente, que triunfa de todas as decepções, e alcança afinal a vitória eterna: a remissão de seus crimes.
Lembrai-vos de vossa actual e premente situação e da de vossa companheira de infortúnio, Dioneia, caluniada pela genitora de Marcelo, a mesma que, em transcorrida existência, mandou ferir um castelão enfermo (filho unigénito de extremosa mãe), sofre presentemente a mesma tortura infligida outrora a um coração materno, e que se revoltou contra a imolação do filho bem-amado e indispôs o consorte contra esta infortunada irmã.
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Ave sem Ninho

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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 31, 2018 10:17 am

Embora tal resolução muito contrariasse ao nobre Márcio Taciano, ambos venderam, simuladamente, o Solar do Cisne, e acabam por perdê-lo, porque o adquirente, sem nenhuma probidade, se apoderou dele, sem que possa ser provada a simulação criminosa!
Vosso suicídio, pois, acarretará a falência de vossa consócia de sofrimento, ora reduzida à extrema penúria. Seus sogros, arrojados à miséria, não resistindo à humilhação tremenda, acabam de transferir residência para o sul de Zara (1). O látego do Destino os feriu rudemente. Compete ao irmão (que tanto concorreu para a desdita de quase todos a quem me refiro) modificar tal situação, amparando-os, restituindo a Lúcio Taciano o que outrora lhe foi usurpado...
"Desde o crime cometido, sentistes o arrefecimento da cega paixão que, então, vos dominava.
O verdadeiro Amor é uma irradiação da alma, um luar interior, que se propaga de quem o emite à criatura amada; tudo fará para a sua felicidade, e não para sua desdita; não deseja ser correspondido materialmente, e sim no recesso do espírito, contentando-se com uma afeição pura, e não carnal; é todo excelsitude, sacrifica-se pelo ente bem-amado; prefere a morte, o desprezo, todos os suplícios a causar a menor dor ao ente a quem adora.
Este o verdadeiro amor, capaz de todas as imolações!
Ontem, na cripta onde se realizou a inesquecível reunião, foram reveladas realidades iminentes sobre dois lares, o de Túlio Isócrates e o de Soriano Sarajevo.
Já pudestes rever, mais com a alma do que com os sentidos corporais, esta a quem cobiçastes criminosamente, com outra espécie de afecto, transformando o amor ardente em compunção e devotamento.
O incêndio da alma excruciada transformou-se em luar de santuário.
Vistes, vagamente como se fosse em sonho, o fruto de uma ditosa e abençoada aliança, o pequenino Lúcio, um dos imolados de outras eras à vossa ambição incontida, e, por vezes, à ténue luz da nafta, suspensa ao tecto da gruta sagrada, percebestes a radiosidade de uma alma que se encerra no corpo infantil de tenro entezinho.
Compreendestes, enfim, que a maior parte da tragédia de hoje teve sua origem no delito que cometestes outrora, nos arredores do Solar do Cisne.
Estais saciado, irmão, após tantas desventuras provocadas por vossos impuros desejos?"
— Não... não... — murmurou Cláudio, arquejando — eu fiz a minha e a desventura de meus semelhantes!
Não estou saciado, e sim sedento de perdão e de Justiça!
— Tendes agora de agir em benefício de vossas vítimas e de vosso próprio espírito, e só assim podereis mitigar a sede intensa de vossa alma, há muito devorada pelas labaredas do remorso!
— Como deverei proceder, desconhecido Mestre?
— Praticando o Bem e a Virtude!
Dioneia Isócrates, que ora também me escuta (pois sua alma está exteriorizada da matéria qual neblina ao cimo de um monte), é um ser evoluído, saneado pelas refregas da dor, pelas crucificações terrenas, já possui elementos psíquicos conquistados em séculos de lutas profícuas, pouco lhe faltando para terminar sua etapa planetária.
Ela já se aproxima das Luzes siderais.
Resgatou, na presente peregrinação, quase todas as máculas do tenebroso passado, só lhe faltando a derradeira penalidade, que omito neste instante.
Houve contra ela e os que lhe são caros a urdidura de cruel calúnia, que Márcio Taciano repeliu com grande elevação de alma; porém, tais foram as insistências contra a indefesa nora, que acabou acedendo às pretensões de Geleira.
Ambos, Geleira e Márcio, estão agindo sob a falsidade e cobiça de um parente que, residindo há muito nos arredores do Solar do Cisne, se insinuou na confiança dos castelões, afirmou ter observado intenções criminosas nas relações de Dioneia convosco, e já cederam o referido solar ao audaz caluniador, que se apoderou do mesmo, graças a um documento que simulava débito inexistente.
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