REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 25, 2018 9:57 am

Pois bem, eu também sei desvendar o passado, penetrar no âmago dos corações criminosos:
tu, cigana maldita, és uma desnaturada mãe, que atiraste à lama dos caminhos, ao acaso, aos cães, o filho que o Criador te confiou para que o amasses e protegesses...
Impiedosa mãe, que não soubeste imitar as feras que aleitam e guardam suas crias; não quiseste oscular a criancinha desventurada, que, certo, por causa dos teus crimes e do teu amante, nasceu ferreteada pela Justiça divina; não quiseste compensar com os teus carinhos os membros que se não geraram no teu seio amaldiçoado!
Querias a morte para quem deste infortunada vida, a fim de que o mísero não te causasse vexame, como se uma verdadeira mãe pudesse ver no filho um monstro e não um anjo!
Concebeste um desditoso, mas, mercê de Deus, ele é bem mais venturoso do que tu, pois pode manter-se honestamente na sociedade, sem assaltar a bolsa alheia, sem viver andrajoso e desprezado pelos probos e sensatos!
Esse filho repudiado, que nunca afagaste, que abandonaste num sitio deserto para repasto de lobos famintos, hoje se julga feliz por não lhe conhecerem os que o geraram!
Esta a sua vindicta e a sua única ventura na Terra!
Sim, morreria de vergonha se soubessem que sua mãe é uma barregã hipócrita, que ilude a credulidade pública com embustes, e, sob a capa esmolambada, oculta, talvez, acerado punhal para golpear os que lhe não atirem moedas.
A boémia ergueu-se de um salto qual hiena ferida.
Estava hedionda.
Dir-se-ia que uma trágica e satânica máscara se lhe afivelara à face; seus olhos chispavam de ódio ao fixar o mutilado que tinha à sua frente, olhando-a com escárnio.
Tirou rapidamente do seio minúsculo punhal e caminhou para o rapaz, que não se afastou e ainda lhe disse com profundo desprezo:
— Queres matar-me, víbora sem entranhas?
Não vês que não tenho mãos para defender-me?
Agora compreendo porque Deus não mas concedeu:
para não estrangular, talvez, a fera que me gerou!
A desgraçada, vendo que se aproximavam outras pessoas, acovardou-se, escondeu a arma no seio, dizendo com rancor:
— Miserável, afrontaste a minha ira e os meus deuses!
Devia ter-te esmagado ao ver, pela primeira vez, teu rosto diabólico, mas, não o faço, como nunca o fiz às serpes, cujo vírus não temo.
Vais, porém, ouvir esta verdade, para que não duvides da ciência da velha cigana:
morrerás tal como começaste a vida — abandonado numa estrada deserta!
— Que me importa a tua previsão, mulher maldita?
Como não adivinhaste que o Criador me concedeu um tesouro na garganta e, portanto, a tua mesma ventura que arremessaste ao lameiro das estradas?
A justiça do Céu, não a tua, é que eu aguardo serenamente!
Súbito, o som argentino de uma sineta advertiu o desditoso Núbio de que ia começar a cerimónia daquele dia.
Afastou-se bamboante como um ébrio, encaminhou- -se ao templo onde se comemorava a paixão do Redentor:
O servo, que o aguardava com impaciência, afivelou-lhe ao rosto a máscara negra, soergueu-lhe o manto, e, antes que encetasse os cânticos, Núbio ajoelhou-se vencido por intensa mágoa...
Nunca, até então, sentira tão acerba a sua desventura.
Dotado de intuição lúcida desde os primeiros anos de existência, compreendeu a situação, a prova dolorosíssima por que passava.
Quis revoltar-se contra a inclemência do destino que o punira sem causa aparente, tomar-se impiedoso para quantos o ofendiam, mas as advertências salutares de Dusmenil fizeram-no humilde e compassivo.
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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 25, 2018 9:57 am

Mostrou-se resignado com os desígnios superiores, embora guardasse no intimo incessante tortura...
Era um assinalado pelo ferrete divino, uma criatura que jamais compartilharia dos prazeres mundanos, senão como lúgubre espectador, pois sua presença causava a todos penosa impressão.
Via, com inveja mesclada de pesar inenarrável, jovens pares em idílio, idealizando sonhos de ventura; via lares tranquilos, repletos de seres amigos, de crianças louçãs, após os labores do dia, reunidos em colóquio materno, como efígies graciosas sobre altares sacrossantos, permutando beijos e caricias e estes quadros, mais que os outros, causavam-lhe dilacerante desgosto, pungiam-lhe fundo nalma.
Ele somente, jamais constituiria um lar ditoso! Seus lábios fendidos jamais experimentariam a caricia de um beijo, mormente o de uma criancinha cândida e formosa; vivia isolado, melancólico, sem afeições sinceras, desde que Dusmenu desprendera o Espirito generoso para as regiões consteladas...
Estava sentenciado a viver ao abandono, sem afectos, sem família, sem lar...
Consolava-o, apenas, a Arte sublime que cultuava.
Os momentos de triunfo compensavam-lhe os séculos de amargura suportados no silêncio da alcova, nas noites intérminas de meditação e angústia...
Por fim, habituara-se ao peso da sua cruz dolorosa.
Resignara-se com o seu viver de asceta.
Por vezes, relembrava o passado e uma interrogação relampeava-lhe na mente:
— Onde estariam seus desnaturados progenitores?
Teria irmãos? Seriam belos?
Os pais teriam remorsos do que lhe fizeram?
Quando completou três decénios, seu espírito em calmaria — qual Mediterrâneo até então agitado e proceloso — ficou adormecido, sem paixões, sem aspirações, sem quimeras...
Naquela tarde, às súbitas, houve um abalo que o fez estremecer nas fibras mais recônditas, qual região devastada por abalo sísmico, com a irrupção violenta das lavas da revolta e do desespero...
Um vulcão que ele julgava extinto!
Aquela mulher de aspecto patibular e sórdidas vestes — pressentira-o desde que seu olhar nela se fixara.1 — era sua mãe!!!
Mãe? Não. Mamífera desalmada, que se não condoera da sua desventura; que o atirara a uma vereda deserta, como calhau ao fundo de cisterna ou de cratera infernal; harpia que lhe infundira nojo e pavor, cujas mãos impuras e às vezes manchadas por secreto crime — ele teria asco de beijar...
Compreendera, enfim, porque seus lábios eram bífidos, impróprios para a carícia suavíssima do beijo, para que se não nodoassem roçando-lhe a destra empeçonhada.
Era bem, ele, o fruto espúrio daquele ser monstruoso pelos vícios e pelos sentimentos corruptos que lhe gravaram na face — como feitos com ponta de baioneta — arabescos profundos, qual outrora na pedra se gravavam inscrições eternas, perpetuando uma existência de latrocínio e devassidão!
Sentiu-se misérrimo e desgraçado, qual se fora o mais Ínfimo dos mortais:
dir-se-ia ter havido um cataclismo em sua alma, deixando em escombros, estilhaçados, todos os sentimentos louváveis e altruísticos, ficando incólume
apenas a sensação de um tormento que a vergastava, que a vergava para o solo, tomando-lhe o coração de chumbo candente, onde se agitavam as áspides coléricas do ódio e da revolta!
O madeiro das provas, que até então carregava resignado, tomara-se inopinadamente de granito esmagador.
Chorava Intimamente, mas nos olhos não afloravam lágrimas e, se as vertesse, seriam como faíscas de uma labareda que calcinaria todo o seu corpo ou o próprio espírito...
Sua palidez, que se fizera de alabastro quando penetrou no templo, foi notada por um colega da orquestra, que o interpelou:
— Que tens, Núblo? Estás enfermo?
— Dá-me um copo d’água — murmurou.
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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 25, 2018 9:57 am

Deram-lho, e, cambaleante, quase carregado, galgou os degraus de acesso ao coro da catedral.
Quando abrandou a borrasca interior, assomado de nervosismo incoercível, ajoelhou-se.
Com esforço inaudito, ao iniciar o cântico que lhe competia, levantou-se e começou a vocalizar um solo como nunca o fizera:
o embate intenso da dor ou do abalo, que lhe convulsionara o coração, pôs-lhe prantos na voz, que, trémula qual cítara tangida pelo plectro de um artista desventurado, emocionou a todos os assistentes, arrancando lágrimas de todos os olhos...
Nunca turturinara como naquela noite memorável, com expressão tão dolorida, que a todos sensibilizou...
Era uma alma em procela que transmudara o sofrimento em bramidos sonoros, em harpejo de lágrimas, em carpido de cotovia apunhalada...
Momentos houve em que ele, junto à grade do coro, relanceou a vista pelo auditório emocionado e descobriu a fisionomia macabra da cigana, voltada para o cantor, fitando-o com olhar coruscante de ódio, fosforescente como o dos felinos encolerizados, que se emboscam nas selvas à espreita do caçador, para o estrangular nas garras aceradas...
Sentindo-se prestes a desmaiar, reagiu valorosamente à eclosão dos sentimentos que se entrechocavam em seu íntimo como o clangor de uma batalha merovíngia.
Elevou o pensamento ao Incriado e logo visível mutação se operou nele, invadiu-lhe um dúlcido torpor, parecendo que mãos tutelares, pousadas sobre a sua fronte ardente, o amparavam e saturavam de suavíssimo orvalho que o inebriava.
Assim, pôde o Rouxinol Mascarado prosseguir o solo começado, que se tornara divinizado e nunca tão magistralmente interpretado como naqueles momentos angustiosos.
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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 25, 2018 9:58 am

CAPITULO XII
Deixando o templo, ansioso por isolar-se dos que o abraçavam e felicitavam, quando se dirigia para o aposento que ocupava no solar Dusmenil, ao atravessar escura viela teve despertada a atenção por um grito lancinante, que lhe ecoou sinistramente nalma.
Apavorado, desceu da carruagem e, seguido pelo servo que raramente dele se apartava, à luz de uma lanterna pesquisou o local em que se achavam.
Súbito, verificou que, estendida no solo, estava a mísera cigana com quem altercara à tarde, quase exânime, com as vestes ensopadas do sangue que borbotava do peito transfixado.
— Que fizeste, infeliz? — interrogou, recuando de pavor.
Com voz estertorante, ela respondeu:
— Segui-te para matar-te quando saísses da igreja, pois sabia que não podias defender-te...
Mas, entrei, ouvi o teu canto sublime... e nunca senti tanto remorso dos meus crimes...
Eles são tantos...
Pressinto que, se continuasse a viver, ainda te amaria e seria mais desgraçada com o teu desprezo!
Horrível! Mas, estou morrendo... dá-me o teu perdão!
Núbio, erecto qual estátua de granito negro, emudecera.
— Dize que... me perdoas... meu...
— Impossível, infeliz!
Eu mentiria a Deus se te dissesse que perdoo.
Não há perdão para mães desnaturadas que abandonam num abismo o fruto de suas entranhas.
— Tem piedade...
Mente... ao menos para que eu possa morrer!
— Deus, em cujo tribunal vais comparecer, que julgue o teu procedimento. Que te vale o meu perdão sem o d’Ele?
Ela não proferiu mais uma palavra, inteiriçou-se num espasmo de dor e ficou imóvel para sempre.
Núbio, depois de alguns momentos de inexprimível amargura, sustentando um combate intimo que lhe pareceu durar séculos, murmurou, fitando o cadáver da desditosa boémia:
— Que o Altíssimo nos julgue!
Procedi conforme com a minha consciência.
Cambaleante, retomou o carro e foi informar as autoridades do que ocorrera — o sangrento desenlace da desventurada que não teve mais ânimo de rever, e que, após o exame pericial, foi enterrada com as suas vestes sórdidas, numa vala comum...
Ao penetrar no modesto quarto que ocupava no ex-solar de Dusmenil, o Rouxinol Mascarado sentiu-se enfermo e mais desditoso.
Recolheu-se ao leito, abalado por forte tremor e, durante alguns dias, parecia devorado por febre consumptiva.
Delirava com frequência, proferia imprecações e brados de revolta, incompreendidos pelos que o velavam.
Quando a febre declinou, dir-se-ia que o seu crânio havia sido devastado por um incêndio violento, calcinando-lhe até os cetinosos e negros cabelos, que se transformaram, perdendo o brilho e apresentando mechas esmaecidas.
Extrema fraqueza o impediu, por algum tempo, de exercer a profissão.
Orou longamente, mas conservou-se in saci ado, pungido por secreto acúleo,
quando necessitava receber um conforto, ouvir uma voz carinhosa, uma advertência amiga.
A mudez do Campo Santo amargurou-lhe a alma sensibilíssima, envolveu-a de espesso crepe...
Retirou-se do silencioso local onde alvejavam os marmóreos e belos túmulos, e, com dificuldade, devido à fraqueza orgânica, galgou a escada central do castelo, penetrando no salão, que fora conservado tal como no tempo dos antigos donos.
Uma tarde, achando-se fisicamente melhor, mas profundamente entristecido, parecendo-lhe ter prantos represos no coração, encaminhou-se ao cemitério onde jaziam Dusmenil e os entes que lhe eram caros.
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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 25, 2018 9:58 am

De uma parede pendia primorosa tela representando Dusmenil, a esposa e o filhinho — louro e cândido que* rubim de vestes alvas, parecendo um elo de flores ou de luz, aliando por todo o sempre os dois altivos entes que o enlaçavam ternamente.
Ao ver aquele quadro, súbita emoção se lhe apoderou de todo o ser.
— Pai — murmurou baixinho, fitando o retrato de Dusmenil — será possível que também vós me abandoneis, inexorável para o crime que cometi repelindo o monstro... não, a desditosa criatura que me concebeu?
Piedade, pai querido!
Quanto ansiava por tornar a ver vossa efígie, para que ouvísseis meus lamentos e soubésseis das minhas desventuras...
Mas, porque a vejo hoje com um laivo de serenidade que nunca lhe observei?
Na meia penumbra que envolvia o quarto, dir-se-ia que os seres ali retratados se reanimaram, se destacaram da parede e iam encaminhar-se para o Núbio.
Uma infinita ternura, uma onda de emoção insofreável — qual vaga indómita em hora de borrasca — subiu-lhe do coração aos olhos, que se aljofraram de pranto.
Pareceu-lhe que, no recinto em que se quedava absorto, a contemplar a formosa tela, algo de extraordinário ou de misterioso lhe segredava no intimo palavras desconhecidas, que lhe recordavam uma outra época de apagada existência...
Seu olhar lacrimoso pousou no grande amigo e resvalou depois para os encantadores entes que o ladeavam, no apogeu da ventura terrena.
Ao vê-los, mais viva emoção lhe fez pulsar descompassado o coração — o secreto prisioneiro, o ergástulo que jamais se liberta, o inumado vivo, que só se desencarcera por alvará divino, quando a sua masmorra se desfaz em pó...
Era a hora crepuscular de radioso estio.
Pelas amplas ogivas de vitrais coloridos filtrava-se uma luz suave, qual se houvesse no ambiente topázios e rubis diluídos.
— Pai querido! — continuou aproximando-se do painel — há quanto tempo não contemplava o vosso nobre aspecto e quanto desejo vossa orientação, confiando-vos as minhas desditas!
Como me sinto isolado no âmbito deste mundo, desprotegido e infortunado!
Pareceu-lhe, então, que um fulgor estelar nimbava os três formosos seres,
revividos naquele quadro.
Não sabia exprimir a comoção que o dominava, ao fitar longamente o vulto airoso de Heloísa e, pela vez primeira naquela existência, notou-lhe a peregrina beleza.
Quanta excelsitude a pairar-lhe nas helénicas feições!
Que maravilhosa formosura a dos olhos, dos cabelos, da tez de jasmim e rosa; que conjunto admirável a lembrar um modelo de Rafael, podendo por ele modelar-se Aspásia ou qualquer Vestal!
Onde vira, em que era transcorrida teria contemplado tão primorosa mulher?
Jamais olhar feminino, plástica assim harmoniosa o fascinara tanto!
Dir-se-ia que do seu sepulcro de sombras surgira um vulto humano e movimentava-se, falando-lhe do passado longínquo...
Ele se esforçava, em vão, por libertar-se da estranha sedução que se evolava da bela castelã, mas seu olhar desvairado fixava-se no painel, sentia-se aturdido e, quase independente da sua vontade, meio inconsciente, murmurou:
— Onde teria visto este rosto vestalino?
Tenho procurado, em vão, nesta existência, alguém com esta aparência, para consagrar-lhe a mais profunda afeição, embora sabendo que seria repelido, desprezado, qual réptil.
Que inexprimível fascinação exerce esta criatura que deve, realmente, ter sido digna e bondosa como a pulcra Mãe de Jesus!
Como compreendo, agora, o drama pungente, outrora desenrolado neste solar, que, suponho, ainda conserva impregnados, em suas abóbadas senhoriais, fragmentos de soluços, de lágrimas, de exasperos... que hoje ecoam soturnamente nas cavernas de minha alma.
Quanto devia ter padecido o meu querido pal... e como suportaria eu todos os seus martírios, para ser amado por esta incomparável beldade.
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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 25, 2018 9:58 am

Sem poder definir a origem daquela comoção, ininterrupto pranto derivou-lhe dos olhos.
— Meu único amigo — prosseguiu profundamente sensibilizado —, julgo-me duplamente culpado perante vós: vinha implorar-vos um conselho paternal, rever vossas veneráveis feições, patentear meu intraduzível reconhecimento... e as minhas ideias tomaram outro curso, qual se uma torrente impetuosa, barrada por muralha secular, rompesse, às súbitas, todos os obstáculos que lhe impediam a vertiginosa correnteza e os fizesse em escombros, vitoriosa na sua omnipotência brutal!
Esse passado milenário, que jazia amortecido nos arcanos de minhalma, rompeu a muralha da matéria, continua a sua torrente indómita, avoluma-se no meu íntimo, arrastando os blocos imperecíveis das reminiscências de uma época que parecia morta, mas estava apenas imersa em sonho cataléptico, e, novo Lázaro, ressurgiu do seu jazigo secular...
Compreendo, agora, porque, até ao presente, mulher alguma pôde inspirar-me senão efémera fantasia:
é que o meu Ideal, aquele que ainda avassala o meu ser, exerce divina fascinação no meu espírito, está reproduzido neste estupendo painel!
Sinto que já adorei esta formosa castelã que foi a vossa heróica esposa!
Pai, ouvi e fazei-me justiça: considero-me doravante duplamente criminoso; tenho a alma tisnada, qual se houvesse perpetrado os mais nefandos crimes...
Julgo-me traidor e matricida.
Horrível a situação em que me vejo!
Minha consciência, porém, ainda se conserva integra e sabe aquilatar com severidade os próprios actos...
Condeno-me por indigno de rever o vosso retrato, meu único consolo na Terra! — condeno-me a jamais contemplá-lo nesta existência.
Não me abandoneis, porém, no cairel da apavorante e infinda voragem dos meus martírios morais.
Ajoelhado, soluçante, sentiu o corpo entorpecer-se de invencível langor, insensibilizou-se por fim, e quedou -se inerte no tapete, de onde foi levado para o leito.
Por alguns meses ainda, esteve o Rouxinol Mascarado inactivo, sem poder prosseguir sua gloriosa carreira artística, na qual já havia colhido imarcescíveis louros.
Encaneceu precocemente e visível tristeza jamais se apartou da sua alma sensível.
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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 25, 2018 9:58 am

CAPITULO XIII
Alguns anos fluíram na ampulheta de Saturno — pétalas levadas pela torrente dos Evos ao infinito oceano da Eternidade.
Núbio, sempre dominado por intensa melancolia, abandonou a cidade de Arras.
Ele e mais três cultores da arte de Paganini peregrinaram pelas mais afamadas metrópoles, proporcionando a seus habitantes inolvidáveis concertos, aplaudidos com entusiasmo.
Ele que possuíra regular fortuna, legada por Gastão Dusmenil, distribuiu-a por diversas casas pias e orfanatos.
Era constantemente procurado pelos que lhe conheciam os sentimentos altruísticos, implorando-lhe auxílios, que jamais negava.
Como lhe não praziam festejos mundanos — senão aqueles em que era forçado a tomar parte como exímio cantor, isolava-se durante o dia nos seus aposentos particulares, para iluminar o intelecto com leituras filosóficas, científicas e morais.
Ao fim de algum tempo, tornou-se culto e inspirado por ideias generosas, que causavam admiração aos que com ele privavam.
Seu porte senhoril, alto e majestoso, sempre envolto em amplo e negro manto à castelhana, era inconfundível e tornou-se lendário.
À proporção que os anos passavam, crescia-lhe a mágoa por ter sido tão severo com a desnaturada boémia que lhe dera o ser, recusando-lhe um tributo de comiseração, com o permitir que a enterrassem como indigente, em vala comum...
As vezes, na calada da noite, era despertado por mãos vigorosas mas intangíveis, ouvia soluços e gritos lacerantes, divisando vultos de névoa em volta do leito, de braços erguidos em atitudes de prece ou de maldição.
Apavorado, orava com fervor, até que, percebendo que as entidades imateriais se retiravam, adormecia em calma.
Certa vez, surpreendeu-o uma voz melíflua, que se insinuava em seu intimo.
Ouviu distintamente dizerem:
“Ser compassivo com quem nos ofende é exercer a suprema caridade!...
Tiveste o ensejo de praticá-la e não o fizeste.
Foste inexorável Talião..."
Como que respondendo à secreta incriminação, murmurou:
— Foi ela quem me fez assim desgraçado.
— Mas, só o fez mal inspirada pelo amante, que era um monstro.
— As verdadeiras mães deixam-se trucidar para defender a prole.
— Assim é, Núbio, mas essa abnegação só a cultivam as almas de escol, evoluídas, e não as incultas, torvas de crueldade, impulsadas por sentimentos reprováveis.
Já viste morcego voar em pleno espaço à maneira de aguia real?
— E as feras não amam ternamente as crias?
Porventura as atiram aos precipícios?
Serão as fêmeas irracionais mais carinhosas que as humanas?
— Absolutamente não, pois as mães desnaturadas constituem excepção e as carinhosas e abnegadas até ao sacrifício mais sublime — são a regra.
— Porque, então, não se condoeu ela do meu infortúnio?
— Foi a Justiça Suprema que lavrou tua sentença, Núbio.
Ela te pareceu injusta porque desconheces as agravantes que a motivaram.
A injustiça não se presume no Código Celeste.
Não percebes, há muito, que a alma não tem uma, porém inúmeras encarnações terrenas?
Não sentes, no intimo, o eco, o rumorejo do passado culposo?
— Sim... é verdade.
Esta crença — a da transmigração da alma em diversos corpos — eu a tenho no recesso do meu espírito e, por isso, encanta-me a literatura dos brâmanes, ou dos orientais...
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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 25, 2018 9:59 am

— Pois bem, Núbio, ainda conhecerás teu passado tanto mais tenebroso, quanto foste poderoso, despótico, vingativo, soberbo, cruel, iníquo.
Quantas venturas destruíste, quantos lares infamaste, quantas criancinhas arrancaste de braços maternais, causando-lhes a morte!
Ele caiu prosternado, soluçando:
— Deus meu! já previa essa dolorosa verdade, agora confirmada por este desvelado amigo desconhecido...
Sempre me julguei indigno de fruir a felicidade terrena!
Deus é, pois, integro e imparcial, e sou eu o infame que não se apiedou da desgraçada que, nos estertores da agonia, implorava perdão...
Era ela um instrumento da alçada suprema, e eu mais criminoso que ela, a desditosa que me abandonou no alvorecer de uma existência, qual o fiz a ela nos derradeiros instantes de vida!
— Perdoa, pois, Núbio!
— Mas como poderei fazê-lo agora, meu amigo?
— Ouve, irmão querido...
Nunca é irremissível uma falta, quando haja veemente arrependimento e sincero desejo de repará-la...
Queres saber como podes ainda perdoar-lhe?
Orando por ela...
A morte eclipsa apenas a alma, não a destrói...
— Nunca lhe soube o nome...
— Oh! infeliz amigo!
Esqueces daquele que nunca pronunciaste com ternura?
MÃE! Haverá outro mais belo na linguagem do mundo, a não ser o do Criador do Universo?
Núbio atendeu ao conselho do piedoso Invisível.
Suas faculdades psíquicas haviam atingido elevado grau, com os últimos embates morais por que passara.
Desvendava os mais recônditos segredos da alma a um simples golpe de vista.
Dir-se-ia que, para ele, os pensamentos dos que o cercavam se tomavam sonoros, vibrantes, translúcidos.
A noite, distinguia vultos imateriais; ouvia-lhes as censuras, os lamentos, as palavras de conforto.
Naquele momento percebia que, junto dele, estavam amigos desvelados.
Ouvia como que o adejar de aves etéreas.
Insuflavam-se-lhe nalma ondas de harmonia e cânticos inefáveis.
Em atitude piedosa, alheado do mundo objectivo, começou a orar com fervor; seu espirito flutuava em região superior, repleta de serenidade e melodia.
Escutava como que prelúdios de uma sonata divina, de algum Beethoven sideral e procurou distinguir as vozes que rouxinoleavam em pleno Infinito.
“Perdão! ouviu distintamente, repercutir na amplidão do Espaço, como um relâmpago de vibração maviosa.
Perdão! sublimado sacrifício da alma que se redime e se imola nas aras da virtude e da abnegação!
Tu, só tu podes fazer aflorar nos Espíritos torvos e pantanosos os lírios nevados do arrependimento e da redenção, e esquecer os crimes, as injustiças, as degradações!
És a espiral de luz que sobe dos pauis terrenos aos páramos azuis da Imensidade!
És o despertar da alma que se liberta dos grilhões do Mal, para librar-se aos páramos constelados.
No instante em que um ser humano o concede a quem lhe causou torturas e traições, aproxima-se do Soberano do Universo, que acolhe, como Pai clementíssimo, o réprobo, o trânsfuga do seu lar radioso, o transviado do Bem, apontando-lhe o carreiro resplendente do Labor e do Dever, que o haja de conduzir às mansões de eternas delícias.
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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 25, 2018 9:59 am

Quem, na eternidade do passado, não cometeu crimes atrozes, injustiças, crueldades; não maculou, enfim, o espirito, com o ceno das iniquidades?
Que seria desse réu, se o Pai magnânimo não o amparasse, não lhe concedesse o olvido das torpezas perpetradas, para, depois de polido, acendrado, regenerado, saneado, quintessenciado — depor-lhe na fronte o ósculo do Perdão?
Assim, qual mendigo, de lar em lar, ele necessita também implorar perdão aos que ofendeu, maltratou, infelicitou...
Perdoa, pois, para que sejam esquecidos os teus crimes, extirpadas de tua alma aa urzes das imperfeições e das ignomínias, refrigerados os pensamentos corrosivos, que destroem as mais puras felicidades!...
Núbio, ainda conhecerás o negro Oceano do teu passado, e, então, verás quão justa foi a sentença lavrada contra quem destruiu lares ditosos, arrancou de maternos braços indefesas criancinhas, atirou aos lupanares castas donzelas! Choras? Benditas lágrimas!
Elas, a dor, o trabalho, a honra, alvejam — como o orvalho as açucenas — a nossa alma poluta e pecadora!"
Imerso em pranto, emocionado como nunca, o precito alçou o pensamento às regiões celestes e, pela primeira vez, orou pela genitora.
Um soluço prolongado repercutiu clangorosamente dentro dele, fazendo fremir todo o seu ser, e depois se foi extinguindo lentamente, como se algo fosse retirado de sua presença para os longínquos páramos do Universo...
Desde então, seu espírito entrou em plena bonança.
Dir-se-ia que um sendal de crepe se lhe desfez no íntimo, deixando-lhe a alma iluminada pelo fulgor de opalino, suavíssimo lua.
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Ave sem Ninho

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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 26, 2018 12:46 pm

CAPITULO XIV
Alguns anos se escoaram na voragem do tempo.
Peregrinando de povoação em povoação, Núbio se impunha à piedade e admiração dos que o ouviam e aplaudiam.
Uma noite de rigorosa invernia, ao regressar de um castelo festivo, onde compartilhara do recital em homenagem ao natalício do seu proprietário, ainda a meio da viagem foi surpreendido por inesperada e violenta nevasca.
Sabendo que não longe do local em que se achava existia um alcácer em ruínas, ordenou aos condutores da liteira que para lá se dirigissem, receando que os cavalos desnorteados com a tempestade os atirassem nalgum precipício.
Frouxamente alumiados pela lanterna retirada do veiculo, dirigiam-se ao aludido castelo meio arruinado ao tempo da primeira Revolução, e que ainda tinha alguns compartimentos intactos, quando os animais, fustigados pela procela, enceguecidos e desorientados caíram numa depressão do terreno, ou, antes, num fosso divisório do alcácer, tombando todos ao solo.
Os dois palafreneiros receberam apenas ligeiras contusões, mas o cantor teve tuna perna fracturada, os órgãos visuais ofendidos e a língua dilacerada pelos dentes entrechocados e partidos com a violência da queda.
Tacteando na escuridão, os homens desatrelaram os animais dos tirantes quebrados e, com dificuldade, puderam levar o desditoso Núbio a uma dependência do solar.
Mergulhados em sombras, ouvindo o zunir das rajadas que se desencadeavam como alcateias de lobos famintos a uivarem desesperadamente em busca de alguma presa, os míseros acidentados, transidos de pavor, ansiavam pelo dealbar da aurora.
A chuva, porém, continuava ininterrupta.
Um dos guias, ao amanhecer, encontrando apenas um animal — pois o outro debandara espavorido —, montou-o e foi em demanda de socorro para o ferido.
Decorreram horas penosíssimas para Núbio e seu desvelado servo, Fábio, que apenas pôde dar-lhe água colhida numa folha de leguminosa encontrada nos escombros do solar, onde existira o pomar.
Quando chegaram os recursos de que necessitavam para prosseguir viagem, o médico, ao examinar o ferido, disse apreensivo:
— E’ mister outro profissional para coadjuvar-me nos curativos que deveriam ter antecedido a inflamação dos tecidos...
Aliás, as lesões são graves.
— Vou ficar cego e talvez mudo! — pensou Núbio, que o escutava sem poder distinguir-lhe as feições.
A custo pôde fazer-se compreender.
— Sei que estou perdido, cumpra-se meu doloroso fadário!
Não quero que me removam daqui para outro lugar, pois sinto os ossos esmagados e sei que não tenho cura!
Deixem-me morrer como nasci!
O médico tentou demovê-lo do propósito de ali permanecer, mas nada conseguiu.
Horas de indescritível angústia transcorreram para os itinerantes, que se achavam a cinco milhas de Nanei.
Impossibilitados de prosseguir viagem, mandaram buscar remédios, víveres e agasalhos, improvisando leitos sobre o soalho já meio carcomido.
Ao fim de algumas horas o estado de Núbio agravou-se.
A língua, desmesuradamente intumescida, causava-lhe dores lancinantes.
Já se não fazia entender, as palavras saiam-lhe truncadas e o delírio se apoderou dele, como o vencedor de um inimigo desarmado.
E a neve não cessava de cair.
Dir-se-ia que do Espaço despenhava-se uma avalanche de cristais partidos, que ameaçava invadir o Universo.
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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 26, 2018 12:47 pm

Uma temperatura gélida entanguecia os viajantes ainda abrigados nas ruínas, sem conforto e ansiosos que cessasse a nevasca, a fim de remediarem a situação.
Os caminhos estavam obstruídos e pareciam acolchoados de algodão, ou de rendas fantásticas, tecidas por mãos de fadas.
Núbio, acometido de febre intensa, tinha momentos de alucinação e não conseguia fazer-se compreender sem dificuldades inauditas.
Desatinado, sem poder concentrar energias psíquicas para orar, desprendia prolongados gemidos que ressoavam lugubremente pelo castelo em ruínas, como se este fosse transformado em caverna de suplícios dantescos.
Viram os desventurados itinerantes baixar a terceira noite naquele tétrico refúgio.
Apenas uma lanterna vermelha os aclarava frouxamente.
Núbio não se alimentava, desde que se contundira.
Suplicava água, com gestos de demente, mas, quando lha davam, não engula senão algumas gotas.
Por vezes, lágrimas ardentes rolavam-lhe pelas faces incendidas, descamadas pelos sofrimentos acerbos por que estava passando.
A língua desmesuradamente inchada, mal contida na cavidade bucal, e os lábios fendidos davam-lhe aspecto
macabro, impressionante.
Queria externar os pensamentos e não o conseguia.
O servo dedicado, compungido, tentava reanimá-lo:
— Amanhã, se Deus nos conceder um dia de sol, sereis transportado em padiola ao hospital de Nanei.
Depois de operado, haveis de recobrar a saúde.
Nunca vos abandonarei, crede.
Núbio, que o ouvia reconhecida e dolorosamente, com um gemido meneou a cabeça como se desejasse dizer:
Para que viver cego e ainda mais desventurado?
Prefiro a morte, o descanso eterno!
Depois, deu a perceber que desejava que orassem por ele.
Fábio, lacrimoso, obedeceu-lhe pronunciando fervorosa prece, que, naquele ermo caliginoso, ao sibilar da ventania, assumiu gravidade indescritível.
Núbio acompanhava a prece mentalmente e, quando ela terminou, mostrou-se mais calmo.
Desde a véspera, começara a perceber inúmeros fenómenos psíquicos.
Não mais vislumbrava o local em que se achava, parecia-lhe que aquelas ruínas se povoavam:
havia vultos embuçados em longas clâmides, militares de aspecto majestoso, fisionomias patibulares, mulheres de aspecto hediondo, qual a desventurada progenitora!
E ouvia gritos, lamentos, soluços, risos, entrechocar de armas brancas, crepitar de fuzilaria.
Certa feita, ouviu alguém que lhe dizia com escárnio:
— Eis os derradeiros instantes de um tirano!
— Porque tirano? — respondeu, não já com os lábios, mas com a alma e pareceu-lhe ouvir a vibração dessas palavras ressoando estranhamente no seu intimo.
Não sou eu, antes, o filho da desventura, o ser mais desditoso e abandonado, deste planeta?
Estranha realeza a minha!
Porque escarneceis de minha infinita dor?
— Já te esqueceste de Dusmenil? — disse-lhe outra Entidade com inenarrável compaixão e tristeza, penetrando-lhe nalma essas palavras, como inefável bálsamo, embora revelassem um tom repreensivo e magoado.
— Gastão Dusmenil? — interpelou num dialecto gutural e incompreensível para os dois criados que velavam.
— Porque tardastes tanto, amado protector?
Compadecei-vos de mim, querido pai!
Orai pelo mais desgraçado dos mortais, pois já não consigo fazê-lo!
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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 26, 2018 12:47 pm

Vede o meu estado e quanto padeço!
Não me abandoneis, bom amigo!
Dir-se-ia que, daquelas ruínas lúgubres onde medravam nóctulos e mochos, fora expulsa, subitamente, a falange agressiva dos espectros que o atormentavam.
Núbio que, desde a queda que o vitimara, tinha a vista nublada por sanguinolento nevoeiro, lobrigou, então, tenuíssima claridade, como se à borrasca sucedesse um plenilúnio dourado, que não saberia dizer se estava nele ou no exterior...
Pareceu-lhe que tangiam, em surdina, um saltério encantado; ouviu harpejos de um hino sacro e recolheu, em êxtase, estas consoladoras expressões de afecto:
— Núbio querido, irmão em Jesus, esquece os padecimentos psíquicos!
Livra-te às regiões serenas da Paz Eterna!
Já começaste a vislumbrar o lume que impera nas paragens siderais...
Não estás abandonado, como pensas, mas protegido por amigos desvelados, que, não podendo impedir a execução das penas dolorosas, para resgate de crimes tenebrosos, desde que nasceste te amparam, inspiram, seguem teus passos como arcanjos tutelares, norteiam tua alma para Deus!
Dusmenil e outros dedicados Invisíveis aqui estão e oram por ti, para que lenidos sejam os teus padecimentos!
Vamos, irmão querido, saturar nossas almas de eflúvios divinos, fazendo-as vibrar em uníssono com as harmonias que escutas — preces sonoras, misto de sol e aroma — que as Entidades siderais dirigem à Majestade Suprema, ora trazidas a este ambiente sombrio, nas ondas etéreas, só perceptíveis pelos Espíritos já acendrados nos embates heróicos contra o Mal, pois adquirem faculdades mágicas de sensibilidade ilimitada...
Ouve e repete em pensamento:
“Senhor, incomparável Soberano de todos os impérios maravilhosos do Universo, os quais, sendo incontáveis, vós os tendes como que encerrados em vosso coração augusto e resplandecente, fazendo-o palpitar, pulsar como outros tantos alados corações de luz, fragmentos do vosso, metamorfoseados em mariposas de diamantes, esmeraldas e topázios bailando graciosamente, formando curvas ou parábolas indescritíveis, sem jamais se confundirem as asas, para assombro de todos os matemáticos do Cosmos; Pai e Monarca de todos os seres criados por vós, que repartis com os filhos e vassalos todos os vossos reinos e domínios portentosos; acolhei, benevolamente, a rogativa que ora fazem vossos humildes súbditos, em benefício da transviada ovelha que voltou ao vosso aprisco, que remiu com lágrimas, abnegações, virtudes, austeros deveres, os delitos de um passado poluto...
“Suavizai, Magnânimo Senhor, as dores que lhe dilaceram a matéria como estiletes ferinos empunhados por sicários emboscados em sua própria alma; compadecei-vos dos seus padecimentos físicos e morais, que, no entanto, são caudais cristalinas que lhe depuram e divinizam o espírito verdugo de findos avatares...
“Ele já não é o tirano crudelíssimo de outrora, pois sua actual existência de ascetismo, abnegação e virtude, isenta de crimes e degradações, adquiriu grande ascendente espiritual e não mais se maculou na prática do Mal.
Combateu sentimentos condenáveis, conquistou mérito real...
“Dos escombros do passado, sua alma emerge como alabastro nevado, flutuando num lago de águas pútridas e negras..!
“Acolhei-a benignamente, Senhor, após as refregas do Dever e do Sacrifício, qual andorinha de luz que foge à rispidez das invernias polares...”
Houve um interregno, uma fermata inesperada na alocução do bondoso
consolador, que o moribundo julgou durar séculos.
Já não eram excruciantes as suas dores, anestesiadas por um refrigério ameníssimo; o espirito começou a exteriorizar-se da matéria álgida, sentindo que se ia desaderindo do organismo físico, qual de gélido casulo o bômbix mori, e ouvindo longe a vibração de um vocábulo incomparável — DEUS -— que parecia encher de harmonia o Universo todo...
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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 26, 2018 12:47 pm

Tentou reproduzi-lo ainda com a boca tumefacta e imobilizada por todo o sempre, mas não o conseguiu senão subjectivamente, porque a matéria de que se compunha não era mais accionada pelo propulsor que se forma de uma fagulha divina, e esta já flutuava no ambiente, ligada ao corpo tangível por derradeiros liames fluídicos, a inebriar-se dos acordes de uma orquestra em surdina — melodia ou rêverie indescritível — que o levou a desejar conhecer os Paganinis siderais, que a executaram magistralmente, talvez em alguma catedral de esmeraldas rutilantes, engalanada de açucenas luminosas...
Suas pálpebras já se não descerravam, por maior esforço que fizesse, parecendo que o sofrimento as ligara eternamente com atilhos de bronze.
Perdera a consciência do local em que se achava. Fora, a neve bailava no ar como falenas diamantinas, ou taças de cristal esfaceladas num festim de rajás ébrios ou enlouquecidos, que desejassem arremessá-las ao Infinito...
Começou a desvendar arrebóis de ouro e eloendros, mais belos que os imaginados em momentos de fantasia, plenos de suavidade e primores.
Divisou, novamente, seres imateriais, airosos, de túnicas diáfanas, em atitudes de prece, frontes aureoladas por diademas de pérolas radiosas.
Entre eles reconheceu, com inexprimível júbilo, Dusmenil aformoseado, rosto grave e luminoso, encaminhando-se para ele de braços abertos, como se o convidasse a cindirem juntos a amplidão cerúlea...
Um gemido indefinível — misto de lamento e alegria — escapou-se-lhe do seio estertorante e foi o derradeiro que emitiu naquela dolorosa existência, ao sentir na fronte imaterial o inefável contacto de uns lábios de névoa, que nele depuseram um ósculo de carícia fraterna — ósculo santificante que nunca recebera, e julgou dulcíssimo flabelo das asas de alguma dourada falena, ou das pétalas veludosas de camélia divina...

§.§.§- Ave sem Ninho
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