REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 11, 2018 10:47 am

CAPITULO VIII
A dor que alanceou o coração de Heloísa foi duradoura e pungente.
Só encontrou conforto nos encantos do meigo filhinho e no afecto do esposo.
Um mês após o passamento do Conde d’Argemont, ela partiu para Arras, onde Gastão possuía diversas propriedades e instalou-se, principescamente, em uma delas.
Cinco anos de lídima felicidade dobaram para aqueles entes que se amavam
intensamente, sem o menor vislumbre de dissabores.
Quando Heloísa chegou à nova moradia, notou com desagrado a presença de um indiano de estatura elevada, cabelos de ébano, olhos negros e coruscantes.
Chamava-se Ariel Hamed e era mordomo de todos os domínios de Dusmenil.
— Que olhar trágico tem este homem! — exclamou ela, ao vê-lo pela primeira vez.
Porque o tens em tua companhia?
— Porque em arriscadíssima caçada, em Pondichery, salvou-me a vida na iminência de ser despedaçado por um tigre feroz, quando, vencido pela fadiga, repousava à sombra de uma árvore.
Foi isso há oito anos. Fizemo-nos amigos e jamais dele me separei.
É-me tão fiel e dedicado como um galgo!
Terás ensejo de verificar o que ora te afirmo.
Ela emudeceu, mas observava-o sempre com assombro e desgosto.
Ariel, quando necessitava falar-lhe, não a fixava, mas, às vezes, cravava-lhe bruscamente o olhar sombrio e velado de tristeza, que se tomava fulgurante, parecendo que se havia acendido, às súbitas, no cérebro uma lâmpada misteriosa cujas irradiações lhe relampeassem nos olhos de treva.
Heloísa evitava-lhe a presença, que mal podia tolerar.
Vivia absorvida pelos desvelos que a delicada saúde do filho requeriam.
Este, já expressava os seus sentimentos e era tão meigo, carinhoso, dócil de fazer ditosos os ternos genitores.
Não se apartava da mãe dedicada, que o não confiava aos cuidados de ninguém.
Seu níveo leito era paralelo ao dela. Tornava-se assim a sentinela permanente do adorado bambino.
Despertava, com frequência, para afagá-lo, para tomar-lhe a temperatura e o pulso.
Saía a horas matinais, levando-o pela mão, acompanhada do esposo e empenhados ambos em robustecer aquele débil organismo.
Quando completou seis anos, entrecortados de crises assustadoras, melhorou consideravelmente, reanimando as esperanças paternas.
Uma tarde, Gastão falou à consorte:
— Heloísa, desejo, por algum tempo, reencetar minhas viagens.
Pretendo percorrer a América em tua companhia e com o querido René.
A viagem vai ser longa e fatigante, mas repousaremos em diversos países.
— Perdoa-me, Gastão, mas não devo aceder ao teu convite — respondeu ela entristecida.
Bem sabes quanto é frágil o nosso Renêzinho:
sujeitá-lo a climas diversos, a fadigas incessantes será, talvez, causar-lhe a morte...
E esse pensamento, só em concebê-lo, me apavora!
Parece-me que enlouquecerei se o perder!
— Vamos ouvir o parecer do nosso médico.
Vou chamá-lo com urgência.
O venerável sexagenário Dr. Dudevant, ao chegar à residência de Dusmenil, depois de auscultar detidamente o pequenino René, opinou com firmeza:
— Não deveis levá-lo convosco, Sr. Dusmenil.
A saúde do menino é extremamente alterável.
Convém-lhe ainda, por algum tempo, absoluto repouso.
Virei examiná-lo com frequência, e, com cuidados ininterruptos, talvez consigais realizar vosso intento quando ele atingir a puberdade.
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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 11, 2018 10:47 am

— Mas não lhe será favorável a diversidade do clima?
— E o cansaço das viagens marítimas, Sr. Dusmenil?
Se ele a bordo tiver náuseas — como é provável que as tenha, se o levardes convosco — está perdido!
Perdoai-me a franqueza, pois sou médico, mas, sobretudo, pai extremoso, não desejo vos revolteis contra mim, se for imprevidente...
— Qual, pois, a enfermidade de René, Dr. Dudevant? — interpelou aflito o amoroso genitor.
— Uma leve alteração... cardíaca.
Seu estado, porém, tende a melhorar.
Tenho observado que, ultimamente, a saúde dele vem normalizando.
Deveis, porém, evitar-lhe qualquer emoção.
Não pode ser contrariado. Deixai-o a meu cuidado, pois vou submetê-lo a um tratamento metódico.
Podeis partir tranquilo.
Salvo imprevisto insucesso...
Quando a sós com a esposa, Dusmenil falou-lhe:
— Estou apreensivo com o que disse o Dr. Dudevant.
A razão aconselha-me a ficar vigilante em nosso lar, a teu lado e do idolatrado René; mas não sei que estranha influência me impele a empreender longas viagens!
Parece-me que sou descendente de Samuel Belibet...
— Porque não reages, Gastão, contra essa tendência que te domina?
— Porque não a considero prejudicial a quem quer que seja.
É apenas dispendiosa a sua execução, mas nossos haveres permitem que a satisfaça sem sacrifícios. ..
— Arrisca-se a vida, quando se viaja...
— Nossa vida corre perigo onde quer que estejamos.
Se for meu destino morrer de um acidente, nada o evitará.
Sempre foi, para mim, incomparável prazer o excursionar — conhecer novos horizontes, diversos povos, diferentes costumes!...
Agora, o que me desgosta é não poder levar-te e ao nosso René.
Partirei pesaroso e apreensivo, mas pretendo regressar dentro de um ano e ficar estacionado por tempo indefinido.
Deixo a velar pelos que me são caros o meu fiel Hamed...
— Não, não meu amigo! — exclamou Heloísa, vivamente — leva-o contigo, expões-te a vários perigos em regiões desconhecidas e não te deves separar dele, que já te salvou a vida uma vez...
— Não, querida, ainda não conheces, quanto eu, esta zona — pois costumam os malfeitores assaltar os castelos.
Poderá tal suceder, se me souberem ausente...
Já o fizeram uma vez, causando-me avultado prejuízo.
Hamed é destemido!
Estou convicto de que, em semelhante emergência, agirá com heroicidade.
— Prefiro ficar à mercê da Providência divina...
— Tens razão, mas só irei tranquilo, deixando o bravo Ariel a desvelar-se pelo que nos pertence.
Heloísa emudeceu, entristecida, sentindo, desde que desposara a Dusmenil, um pesar indefinível, que lhe parecia infundado, mas existia no íntimo do seu ser.
Conhecia-lhe bem o carácter — incorrupto, dedicado, generoso; mas obstinado e intransigente em suas resoluções...
Uma secreta amargura toldou-lhe a límpida felicidade conjugal, desde que ele lhe confiou o projecto de uma excursão às plagas americanas.
Era tão viva a sua mágoa que Gastão, antes de partir para desconhecidas paragens, falou-lhe sensibilizado:
— Voltarei ao primeiro chamado, minha querida.
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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 11, 2018 10:48 am

Se René adoecer, não me ocultes a verdade.
Escreverei de todos os portos onde ancorar o transatlântico e poderás dirigir-me tuas cartas para os lugares que eu designar previamente. Estaremos, assim, em correspondência constante.
Dois meses passaram calmos, depois que Dusmenil se ausentou.
Heloísa saía raramente, apenas para assistir a algum ato religioso, num dos templos de Arras, distante duas milhas.
Ia de liteira, em companhia de René e de Marta, uma aia muito afeiçoada.
Demorava-se poucas horas, visitando algumas famílias com as quais entretinha amistosas relações, mormente a do Dr. Dudevant, assistente infatigável do adorado filhinho.
Repentinamente, ela começou a notar algo de anormal, ou suspeito, na atitude de Hamed.
Desde a partida de Dusmenil, ele apurou o traje e apresentava-se-lhe todos os dias, a pedir ordens.
— Sr. Ariel — disse-lhe Heloísa uma vez, mal sofreando o seu desagrado —, não necessita receber determinações minhas, senão em casos excepcionais.
Quando as tiver, mandarei chamá-lo.
Gastão dispensa-lhe ilimitada confiança e o senhor poderá agir com inteira liberdade.
— Quereis, senhora — respondeu-lhe o hindu com inaudita amargura —, evitar minha presença?
Achais-me tão hediondo que vos inspire repulsa?
Ela estremeceu, percebendo que Hamed havia interpretado maravilhosamente os seus mais recônditos pensamentos, penetrando-lhe os arcanos do espirito, mas, por delicadeza, retrucou:
— Não trato as criaturas pelo aspecto, mas pelo mérito que possuem, ou pelos actos que praticam.
O Sr. Ariel nunca me ofendeu.
Não falto com a verdade dizendo que não tenho ordens diárias a transmitir-lhe.
— Senhora, não conseguis iludir-me nos vossos mais secretos sentimentos...
Tenho privado com faquires, que há muitos milénios estão de posse de muitos segredos da alma humana.
Fui iniciado nos famosos templos do Himalaia, e, para mim, a telepatia não tem segredos:
leio os pensamentos no cérebro, assim que são concebidos, como se fitasse no céu as estrelas coruscantes...
Compreendo — ai de mim! — que me odiais... desde que me vistes!
Alçou o olhar até então fixo no solo, contemplando-a profundamente, como tomado de súbito êxtase; depois, houve nele um fulgor estranho de tigre indiano, quando se precipita em alguma armadilha...
Heloísa não se mostrou acovardada, e, embora empalidecesse, retrucou com energia:
— Sr. Hamed, não discutamos secretos sentimentos!
Não foi para isso que G as tão, que o considera amigo, o deixou administrando suas propriedades!
Ele, com humildade, desfitou-a murmurando:
— Bem sei, senhora rainha...
— Rainha?
Porque me chamais rainha? — interpelou a esposa de Dusmenil atemorizada, lembrando-se bruscamente da revelação que tivera naquele sonho inolvidável do internato.
Recordou-se, então, às súbitas, que aquele que tinha à sua frente, em humilde atitude, não lhe era desconhecido...
Evocou o palácio maldito em que se realizaram os seus esponsais com um déspota devasso... cuja aparência era em tudo semelhante à de Ariel...
Era, então, realidade plena a transmigração de espíritos milenários em novos organismos?
Ter-se-ia a alma do monarca de Persépolis reencarnado em Hamed?
Estariam suas existências, como outrora, acorrentadas uma à outra por uma força suprema?
Como é que ele não desconhecia o passado nefasto?
Observando-lhe a viva perturbação, Ariel disse-lhe com entusiasmo:
— Porque sois “senhora”, pela beleza e pela altivez!
Não sois uma mulher vulgar — a inteligência resplandece em vossa fronte, qual lúcida coroa imperial!
Que cabeça mais digna que a vossa poderá ostentá-la no mundo?
— Não o desejo, Sr. Hamed — falou Heloísa com sinceridade e desdém.
A única ventura a que aspiro é o amor de meu esposo e do meu adorado filhinho!
Ele fixou-a novamente, mas, então, com os olhos turvos de lágrimas, trincando os lábios que se purpurearam de sangue.
Curvou-se com a fronte quase a tocar o solo e retirou-se silencioso e cambaleante.
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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 11, 2018 10:48 am

CAPITULO IX
Algum tempo decorreu sem que houvesse na residência do casal Dusmenil um acidente digno de registro.
Heloísa, porém, não estava tranquila.
Sua alma evoluída, possuindo faculdades psíquicas de inestimável apuro, pressagiava algo de assustador.
Percebia, às vezes — sem que os olhos constatassem a realidade dessa suspeita —, quando safa ao parque em companhia do formoso René, que seus passos eram seguidos sorrateiramente; parecia-lhe que a acompanhava uma longínqua sombra, mas, apenas se voltava, a sombra esvafa-se, numa depressão do terreno ou por trás de algum caule centenário.
Certa vez, pela calada da noite, foi despertada por um cântico de indefinível ternura, em idioma desconhecido, a vibrar suave e dolorosamente pela amplidão da Natureza, quebrando o silêncio absoluto do solar.
Era um soluço melodioso e passional, vibrado em surdina e como que partido de um coração angustiado, ou sedento de carinho...
Dir-se-ia a própria Criação imersa em trevas, que entoava uma canção merencória, plena da nostalgia do Sol que vagava pelo outro hemisfério, inundando-o do ouro ardente de seus raios.
Heloísa, comovida, sentiu o peito opresso.
Mais que nunca, ansiava pela volta do marido.
Sentia-se atemorizada, sem poder desvendar a causa do secreto pavor que, desde a partida de Dusmenil, se apoderara do seu coração.
Chegado o Inverno, a saúde de René alterara-se novamente,
Tendo enfermado o médico assistente, o Dr. Dudevant, este o confiara aos cuidados de um jovem sobrinho recentemente diplomado. Heloísa escrevera ao companheiro cientificando-o do ocorrido.
Seu intuito, porém, era libertar-se de Ariel, cuja presença tornara-se um tormento inenarrável!
Encerrava-se no recinto da ampla habitação, sempre acompanhando o filhinho, descorado e franzino.
Via, com inquietação indescritível, os ríspidos dias do Inverno, através dos vitrais, e uma tristeza insofreável, um presságio torturante agoniava-lhe a alma, arrancando-lhe dos olhos lágrimas copiosas, que lhe resvalavam pelo formoso rosto de alabastro e rosa...
O doentinho, que a observava, também se afligia e falava docemente:
— Porque estás chorando, mãezinha?
— Porque... teu paizinho está demorando a voltar!
— Também eu tenho saudades dele, mas não posso é separar-me de ti, mãezinha querida!
Ela beijava-o enternecida, ouvindo-lhe as carinhosas expressões. Um dia, para inteirar-se dos sentimentos de René, disse-lhe, sorrindo tristemente:
— Quando tiveres de ir para o colégio, queridinho, não deixarás tua mãezinha por alguns meses, todos os anos?
O pálido semblante do menino sombreou-se de súbita amargura, e, meneando a linda cabecinha loura, respondeu com firmeza:
— Nunca irei para um colégio, mãezinha!
— Porquê? Queres seja eu a tua professora?
— É porque... mas não chores mais, mãezinha!
— Diz! Diz, meu filhinho.
— Eu vou... morrer, mãezinha!
Ela o tomou nos braços, cobrindo-o de lágrimas e de beijos e murmurando com angústia:
— Porque me fazes sofrer assim, filhinho adorado?
— Não sou eu que o quero, mãezinha: é o Papai do Céu que vai mandar buscar-me para a sua morada azul, onde brincam os anjinhos... com as estrelinhas de ouro!
— Não, amorzinho, pede-lhe para ficares comigo!
Ele tem muitos anjinhos e eu... só tenho um, aqui na Terra!
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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 11, 2018 10:48 am

Enternecidos ambos, beijaram-se e estreitaram-se em amplexos afectuosos, confundindo as lágrimas e desejando que aquele abraço fosse eterno...
Muitas noites Heloísa passou-as em vigília, dominada por inominável ansiedade.
Orava longamente, rogava o auxílio da Mãe Redentora para que a livrasse de tão torturante situação.
Uma noite em que conseguira conciliar o sono, sonhou vê-la com vestes resplandecentes, tendo ao regaço uma criancinha aconchegada, na qual reconheceu o meigo René...
Infinita angústia confrangeu-lhe a alma, quando lhe pareceu ouvir a mesma dúlcida voz do bondoso Invisível, que lhe falara na capela do Internato de Ruão:
— Pois o teu Espirito milenário ainda não se acha preparado para a prova definitiva, filha minha?
Pois não confias o teu René à piedosa Mãe de Jesus?
Serás, porventura, mais sensível e extremosa do que Ela, que nunca se revoltou contra os desígnios do Alto quando viu seu adorado filho no cimo do Gólgota, supliciado num madeiro aviltante?
Compreendes, agora, a tempestade de dor que flagelou aquela nobre criatura?
Resigna-te, quanto Ela, com as sentenças do Juiz Supremo, Heloísa!
Não temas o sofrimento que te apunhala o coração:
deixa-o sangrar como o de Maria, ao ver vilipendiado e açoitado o seu Jesus!
Convence-te, filha, de que a ventura é efémera neste planeta e só o padecer é duradouro, porque todos são calcetas que aqui vêm reparar delitos consumados em muitas existências iníquas.
— Amigo desvelado — murmurou ela brandamente —, bem sei que falas verdades incontestes; mas vede que a Humanidade é frágil, tem momentos acerbos de vacilação e desalento.
O próprio Cristo, plenamente evolvido, Alma lúcida, teve instantes de doloroso esmorecimento, e, no cimo do Calvário, interrogou com infindo pesar:
“Eli, Eli, lamma sabacthani?" (1)
— ...quando não abroquela a verdadeira Fé nos desígnios do Pai celestial — concluiu a entidade consoladora.
Deves repelir esses pensamentos nefastos ao teu progresso psíquico! Jesus não duvidava da Justiça
divina, era uma entidade acrisolada »m todas as pugnas redentoras.
Suas palavras revelam o desalento que se apodera das almas enfraquecidas nos momentos culminantes da expiação.
Já tens séculos de tirocínio espiritual e deves esforçar-te por saíres triunfante e não vencida, nos prélios da dor!...
— Protegei-me, então, amigo incomparável, para que eu vença as provas supliciantes que aprouver ao Altíssimo enviar-me.
— Sim, filha, podes ficar tranquila.
Muitos seres superiores velam por ti e pelo cândido René, que é já um ente digno do Céu, ou das mansões dos conversos e redimidos...
— Livrai-me de Hamed, que temo e pelo qual sinto invencível aversão!
— Ai! filha, já lhe foste comparsa em dramas horripilantes...
O destino, vezes incontáveis, vos tem ligado indissoluvelmente... e só dele te poderás libertar... quando sofreres com resignação estóica a prova suprema!
Serás amparada pelos Amigos invisíveis para a venceres cristãmente...
Adeus! Vou orar por ti.
Heloísa despertou, e, confiante no auxilio daquele amigo desconhecido, exalçou o pensamento às paragens siderais, implorando conforto para seu coração, que, qual marujo amestrado nas lides oceânicas, pressentia, inquieto e temeroso, a aproximação da borrasca temerosa.
Dias longos de inverno sucediam-se como se jamais houvesse de raiar nova estação para os habitantes daquela região.
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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 13, 2018 8:49 am

Ficava Heloísa, às vezes, a uma janela, unida ao pequenino enfermo, fitando os lírios de neve que bailavam no ar, como que desprendidos dos vergéis celestes por um tufão universal, e, decepados do hastil de cristal, se precipitassem, aos miríades, sobre aquela zona alcantilada. Formavam, muitas vezes, figuras fantásticas, seres apavorantes e de beleza ideal, níveos e mutilados, como estátuas de jaspe plasmadas por um escultor.
A castelã apreensiva, parecia-lhe estar contemplando mirabolante cenário, destinado a representação de nebulosa tragédia vagneriana, na qual fosse m principais personagens espectros ou duendes...
Apertava ao seio o mimoso filhinho, receosa, talvez, de que os brancos fantasmas que voejavam pelos ares lho fosse m arrebatar dos braços amorosos...
Anunciava-se a Primavera, quando Ariel, que havia muito não lhe aparecia, solicitou uma audiência.
O hindu apresentou-se trajado à feição oriental.
Vestes de veludo escarlate, com arabescos áureos e complicados, contornavam-lhe o corpo gigantesco; um turbante de pelúcia negra cingia-lhe a cabeça, de onde apenas surgiam as extremidades das madeixas, que tinham sido de ébano, mas, agora, estavam mescladas de fios brancos, semelhando franjas esmaecidas de uma dragona de marechal carlovíngio, já prateada pelo perpassar dos séculos...
Cumprimentou-a com exagerada reverência.
René, que se divertia com um polichinelo, pôs-se a contemplá-lo, impressionado com aquele aspecto régio.
Heloísa correspondeu-lhe à saudação com um leve aceno de cabeça, dizendo em tom decisivo:
— Que deseja, senhor Ariel?
— Aqui não há senhor, mas escravo.
Chamai-me, unicamente, pelo meu humilde nome...
— Escravo, vestido de púrpura só poderá possui-los o Czar de todas as Rússias...
Não tenho essa pretensão.
Dizei o que desejais, sem preâmbulo, pois estou em preparativos de partida para o castelo de Argemont.
Ele dissimulou não haver compreendido a ironia das alusões, e murmurou com o olhar fixo no solo:
— Sabeis porque me odiais, senhora rainha .
— Mas eu não vos odeio!
Não insistais nessa afirmativa.
Sei que salvastes a vida a meu marido e não posso execrar-vos sem me haverdes causado qualquer agravo...
— E’ por generosidade que assim falais... ou antes, é com imenso sacrifício que vos expressais desse modo, em antagonismo com os vossos sentimentos de repulsa à minha pessoa.
Sei que me detestais com requintes de pavor...
O inverso do que se passa comigo, senhora!
Eu vos vi e desde logo fui atraído... por vossa alma que, eu sei, já foi minha consócia na opulência e multo cara ao meu coração...
Oh! senhora, talvez não saibais que é crença milenária, em minha pátria, a transmigração do espirito durante séculos, em diversos corpos, até que purificado, liberto de todas as imperfeições, se desliga da Terra e sobe às mansões serenas onde fulguram as estrelas...
Pois bem: vós deveis ser uma alma prestes a abandonar este mundo vil, para não mais a ele tornar... bem como este menino a quem adorais... porque, em diversos avatares, vossos destinos já foram ligados pelos liames sacrossantos do amor...
E porque me tendes aversão?
Porque já fui vosso conivente em muitos crimes, que vos acarretaram punições acerbas.
Já vos fiz sofrer inúmeras vezes, para conquistar vossa afeição, mas — ai de mim! — tenho sido sempre, sempre e sempre repudiado!


Última edição por Ave sem Ninho em Sab Abr 14, 2018 10:50 am, editado 1 vez(es)
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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 13, 2018 8:49 am

Na marcha triunfal para o Absoluto, ou Parabrã, vós me antecedestes!
Fiquei na retaguarda, a muitas milhas de distância!
Tenho ainda muitos defeitos... remanescentes das iniquidades de outrora.
Luto como um atleta para os subjugar em meu íntimo, mas, como víboras inanimadas pelo Inverno, assim aquecidas pelas chamas do ódio, elas revivem e causam males irreparáveis...
Há momentos em que ainda sou empolgado por instintos leoninos.
Sou vingativo e cruel.
Humilho-me contra os que me espezinham.
Sinto que se me desperta, às súbitas, o orgulho indómito do déspota... doutros tempos...
Calou-se por momentos.
Depois, mudando de tom, com infinita doçura prosseguiu:
— Mais forte que a minha vontade de iniciado nos mistérios do Além, é a paixão que me domina...
Nunca me deixei prender nos grilhões do amor.
Esvaiu-se-me a juventude indiferente às mulheres da minha terra, que são belas, de tez dourada e olhos de ónix ardente...
Quando vos vi, senhora, pela vez primeira, qual visão celeste, julguei contemplasse uma efigie de neve colorida pelo fulgor dos arrebóis.
Vosso olhar puríssimo, vossa altivez, fascinaram-me...
O tesouro mais cobiçado pelo homem é o que está velado por dragões...
A mulher é o tesouro mais valioso do mundo... quando tem por atalaias os dragões invencíveis da virtude ou da honestidade...
É o que vos sucede, senhora, para desventura minha!
Pressinto que, apesar do desnível social que nos separa, já foram estreitamente ligadas as nossas sinas, em transcorridas existências... das quais jaz em meu íntimo — tal se fora a fragrância suavíssima de lilases — a recordação ou a saudade indómita dessa era às vezes florida de ilusões, outras crivadas de cardos ferinos...
Já fui poderoso e temido.
Já vos prestei homenagens pomposas, já perpetrei crimes hediondos para vos possuir...
Hoje, mísero servo, não tenho mais opulência nem súbditos para se prosternarem à vossa passagem... mas, que quereis, senhora?
O coração, cego pelas paixões empolgantes, ignora o que seja a categoria social, e, muitas vezes, tem aspirações incontidas...
Deveis perceber, com a lucidez estelífera que possuis, que eu vos adoro e sofro horrivelmente com o vosso desdém, que me exacerba e avilta, martiriza e enlouquece!...
— Que quereis, então, vos faça eu, Sr. Ariel? — falou Heloísa revoltada, erguendo-se com dignidade, pálida de temor e surpresa.
— Que desejo? Que desejo?
É o que dizeis? — revidou ele exaltando-se.
O que há de mais sublime na Terra — um só carinho, um beijo, um único e serei eternamente vosso escravo, como tenho sido de vosso esposo!
— Fiel escravo de Gastão — respondeu-lhe com indignação irónica que lhe tomava as faces de níveo jaspe — que aproveita a sua ausência para o trair ignobilmente, como ousais propor-me uma infâmia?
Não compreendeis que este anjo, minha ventura e meu tesouro terreno — René — está-nos observando, compreende o que se passa â sua vista e teria o direito de execrar-me, quando de mim se lembrasse?
Não sabeis que um filho é sentinela concedida por Deus para que a que lhe deu o ser nunca transgrida os seus deveres conjugais e maternos, zele por seu futuro e por sua honra?
Ainda que estivéssemos a sós, não anuiria ao que me pede acintosamente:
nunca me considero completamente isolada — Deus vive em minha consciência; meus protectores ou anjos tutelares cercam-me — eu os pressinto muitas vezes a meu lado; ouço-lhes o rumor das asas de arminho...


Última edição por Ave sem Ninho em Sab Abr 14, 2018 10:50 am, editado 1 vez(es)
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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 13, 2018 8:49 am

Eles me amaldiçoariam se profanasse minha alma com uma perfídia, uma abominação!
— O amor ofusca-me a razão, desvaira-me, senhora!
Realizastes as vossas aspirações terrenas unindo o vosso destino ao do homem que vos idolatra...
Sois intensamente feliz.
Não sabeis o que é a tortura de um afecto não partilhado e repelido com asco... por quem imolaria a própria vida para conquistá-lo!
Eu era amigo do Sr. Dusmenil, por ele me sacrificaria uma segunda vez de bom grado, mas, desde que vos conheci... comecei a odiá-lo!
Tenho ciúme das suas carícias.
Tenho tido ímpetos de o matar, para que jamais possa beijar-vos.
Porque vos amo assim? Desgraçado que
sou! Apesar de todos os obstáculos que nos separam, sei que as nossas existências já foram vinculadas, e esta afeição que vos consagro... vem de séculos!
Como erradicá-la do coração num só momento?
Impossível! Impossível! Piedade, senhora!
Reconheço que sois virtuosa e vos aviltaríeis tomando-vos minha amante ou de quem quer que seja...
Só o que desejo... o que imploro... é um beijo... para saciar esta paixão satânica — se não fora divina! — para extinguir a chama voraz que me consome a alma... fremente de amor e ciúme!
— Estais louco, Sr. Ariel?
Se eu cometesse o crime a que me concitais, teríeis ascendência sobre mim, destruiríeis por todo o sempre a minha felicidade conjugal — eu fugiria de Gastão julgando-me a mais degenerada das mulheres!
— Eu me suicidarei ante vossos belos olhos, para que fiqueis tranquila, senhora!
— Deus me livre de ser causadora de tão negro delito, mas inútil, senhor!
Um cadáver de permeio, entre mim e Gastão?
Seria para mim a desventura perpétua!
— Não causeis a minha e a vossa desgraça, senhora! Atendei-me!
— Nunca, senhor, seu desejo será satisfeito!
Se eu acedesse a esse rogo, sentir-te-ia aviltada, maculada, infamada perante a minha austera consciência!
Prefiro a morte à desonra.
Quer tirar-me a vida? Faça-o!
Mate-me, mas não queira conspurcar-me o Espírito, que terá de ser julgado pelo Juiz Supremo!
— Compadecei-vos de mim, senhora!
É a derradeira vez que me vêdes...
Medi as consequências da vossa recusa:
hoje vos suplico piedade... amanhã, talvez me implorareis de joelhos!
— Minha resolução é inabalável.
Não insista mais nessa loucura!
Rapidamente Ariel sacou do cinto de ouro o reluzente punhal e o alçou à fronte da indefesa esposa de Dusmenil.
René soltou um grito estridente e desmaiou nos braços de Heloísa, que, imóvel, petrificada, também prestes a desmaiar, não se moveu.
Súbito, Hamed imobilizou o braço que empunhava a arma acerada, gargalhou convulsamente como se houvesse enlouquecido e disse, com entonação de ébrio, frisando todas as palavras:
— Não vos matarei de um golpe... não; mas lentamente, tal como estou sendo apunhalado há muito!
Biliões de vezes haveis de arrepender-vos do desdém e orgulho com que me tendes esmagado...
Quero vingar-me... como fazem os tigres da minha terra, quando conseguem libertar-se de alguma armadilha em que caíram famulentos, inesperadamente...
Não tendes mais diante de vós o humilde servo Ariel... mas o antigo e poderoso tirano do Oriente, habituado a ver as multidões prostradas à sua passagem e a fazer rolar ao Bolo as cabeças rebeldes!
Não me vereis mais, senhora rainha, porém, não me esquecereis nunca, até à eternidade !
Guardou rapidamente o punhal na cinta e desapareceu no vasto corredor que dava acesso à portaria do solar.

1 (1) Marcos, XVI:34.


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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 13, 2018 8:49 am

CAPÍTULO X
No dia imediato a essa trágica cena, achava-se Heloísa em pranto, desvelando-se pelo amado René, que guardava o leito, com a saúde profundamente alterada por causa do que presenciara na véspera, quando foram avisá-la de que Hamed e Fabrício — o criado particular de Gastão, que o não acompanhara por haver adoecido gravemente na ocasião de sua partida — haviam desaparecido misteriosamente.
Presa de inenarrável inquietação, Heloísa por alguns dias esteve desesperançada de ver restabelecido o adorado filhinho.
Só quando o viu convalescente é que ponderou a situação e compreendeu que o rancoroso Ariel ia preparar alguma cilada, cujas consequências não podia devidamente aquilatar.
Dois meses transcorreram, de apreensões e mágoas acerbas para a nobre castelã.
Querendo fugir daquele local onde julgava ver, constantemente, a sinistra figura do hindu encolerizado, deliberou voltar ao solar de Argemont até que o esposo regressasse.
O pequeno, reanimado pelo desejo de passear com a dedicada mãezinha, reuniu seus bonecos e carrinhos e os colocou em uma das malas onde as servas acondicionavam o indispensável à repentina mudança.
Achava-se, à tarde, Heloísa ordenando ao novo mordomo o que deveria fazer na sua ausência, quando foi surpreendida com a chegada de Gastão, pálido de gesso e dominado, visivelmente, de intensa amargura.
Ao vê-lo, interrogou, alarmada:
— Que tens, estás enfermo?
O mordomo retirou-se e Heloísa aproximou-se do marido, que, com um gesto, em vez de abraçá-la, repeliu-a.
René, radiante, atirou-se ao colo do pai que o cobriu de beijos, conchegando ao seio o seu pequenino e definhado corpo e soluçando por momentos.
Depois, pondo-o no chão. o impeliu brandamente, ordenando:
— Vai brincar, filhinho, tenho que conversar... com tua mãe!
O menino obedeceu, não sem haver osculado ternamente a progenitora, que, atónita com a atitude insólita de Dusmenil, sentia indefinível angústia.
— Senhora — falou-lhe o consorte com voz trémula, sem mais querar fitá-la — bem sabe quanto sou intransigente em questões de honra.
Disse-lhe inúmeras vezes.
Para mim não há traições justificáveis.
— Porque me falas em traição?
Acaso deixei de cumprir meus deveres de esposa e mãe?
Sem lhe dar resposta Dusmenil prosseguiu:
— Sempre a julguei uma criatura nobre, diversa no proceder, do comum da Humanidade.
Sempre a considerei digna do meu profundo amor, mas estava iludido nas minhas convicções.
Fui brutalmente surpreendido por notícias aviltantes a seu
respeito, as quais me fizeram quase enlouquecer de dor, de vergonha e desespero!...
— Que outro celerado poderia urdir contra mim odiosa calúnia senão Hamed?
— Ariel é um carácter ilibado.
Só ele me é fiel e devotado.
Já me salvou a vida contra perigosas feras e agora me defendeu o honra!
— Defendeu-te a honra.
Que afronta é essa que me fazes?
Quem aqui faltou com os deveres de honorabilidade?
— Quem? — bradou Gastão exaltando-se — a senhora, a quem confiei meu lar, meu nome, minhas esperanças, meu futuro!...
— Mas isso é atroz e inverosímil!
Pois abre devassa.


Última edição por Ave sem Ninho em Sab Abr 14, 2018 10:52 am, editado 1 vez(es)
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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 13, 2018 8:49 am

Não sai durante tua ausência, senão poucas vezes, para assistir a algumas cerimónias religiosas; não recebi pessoa alguma, além dos médicos que tratavam René, que esteve à morte.
Que fiz, pois, para ser assim torpemente acusada?
— A senhora foi a Arras... encontrar-se com o seu amante... que se disfarça em médico para poder penetrar nesta casa sem escândalo e que ousou vir aqui uma noite, mas foi perseguido por Ariel e Fabrício!
— Deus meu! Parece que vou enlouquecer de dor e de revolta!
— Não suspeitava que fosse tão prestem ente descoberta a execranda verdade?
Não me comovem suas falsas expressões de indignação...
Todas as adúlteras as têm, assim dramáticas, para embair os maridos ultrajados!
— Chame esses infames à minha presença!
— Poupo-lhe essa humilhação...
Creio que terá um resto de bom senso para não discutir um caso de honra perante dois servos...
— Crês mais, então, em dois miseráveis criados do que em mim, que tenho um passado impoluto?
— Confiava demasiada e cegamente na sua fictícia virtude...
Não há, na Terra, mulher bela que seja honesta e fiel — todas cedam facilmente às seduções do homem que lhes agrada!
— Não me ofendas assim, injustamente, Gastão; Ariel não é teu amigo:
estás iludido com essa víbora!
— Porquê? Porque o temia quando lhe disse que ele ficaria velando pela senhora e René, até que eu voltasse?
Porque se recusou acompanhar-me, pretextando a enfermidade de René?
— Porque o Dr. Dudevant foi desfavorável à ida do nosso filhinho.
Porque percebo que Hamed nos odeia.
Só tu não compreendes aquele olhar de tigre rancoroso.
— Não me queira iludir mais:
toda essa aversão que por ele manifesta é porque...
Ariel estorvava seus planos de ludibrio e vilania!
— Pois bem: já que não queres crer na minha sinceridade; já que me afrontas sem provas, agasalhando a calúnia de dois infames, requere o divórcio e comprova as acusações abjectas que acaba de irrogar-me!
— Quer, certamente, fazer outra vítima, libertando-se dos vínculos legais que inibem contrair novas núpcias?...
Separarmo-nos judicialmente? Nunca! O divórcio é a desonra da família, vulgarizada e confirmada pelas leis sociais.
Não quero arrastar pelos tribunais e pelas sentinas da curiosidade pública o meu nome e o de René.
Não quero conspurcar o futuro de meu filho.
Separemo-nos, mas não judicialmente.
— Cerceias-me o direito de defesa, Gastão!
Só agora reconheço — prosseguiu em lágrimas, deixando de o tratar familiarmente — que o senhor é injusto e egoísta.
Consagrava-lhe a mais viva afeição, que supunha inabalável; suas odiosas suspeitas e agravos acabam de desiludir-me.
Separemo-nos, pois, porque não mais poderei tratá-lo como até aqui, mas tomo a Deus por testemunha da incriminação que me fez, dando crédito a dois pérfidos vilões.
Ouça-me pela derradeira vez e grave em sua alma o que lhe vou revelar:
Ariel é seu rival disfarçado em amigo e servo humilde.
Quando o senhor descobrir a verdade, há-de lamentar as injúrias que acaba de assacar-me. Há-de sentir pungente remorso... mas de nada lhe valerá o arrependimento!
— Prove-me que Ariel mentiu e eu o matarei como a um cão hidrófobo! — exclamou Dusmenil no auge da emoção e do desvairamento.


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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 13, 2018 8:50 am

Heloísa — num desses momentos em que se julga haver decorrido um século — reflectiu, la dizer-lhe a verdade, mas sentiu súbito aturdimento e a voz dulcíssima que lhe falava dentro d'alma nos instantes dolorosos, segredou-lhe com energia:
— Evita o derrame de sangue, filha amada.
Se o fizeres, tua prova fracassará.
Sofre tudo, mas não te vingues.
Deus te fará justiça!
Então, esmaecida qual marmórea estátua, desfeita em lágrimas, disse nobremente:
— Como provar o que exige, senão mediante um inquérito judicial, ou com o tempo?
Como obrigar os celerados trânsfugas, que ousaram macular-me a honra com ignóbil calúnia, a terem consciência e a retractarem-se?
— Pois bem: saberei pesquisar o que houve para inteirar-me da realidade dos factos e punirei o culpado ou culpados, se os houver.
Agora, porém, urge que vá para Argemont.
Eu ficarei e encarrego-me, doravante, do tratamento e da educação de René... que pretendo seja um cavalheiro honesto!
— Está louco?
Quer imolar a vida de um anjo ao furor da sua iniqua vingança?
Onde aprendeu a ser tão cruel e impiedoso, senão fascinado por esse maldito hindu?
— René ama-me tanto quanto à senhora.
Velarei por ele dia e noite, e, dentro em pouco, ele a esquecerá!
— Esquecer-me o adorado René? Fazê-lo talvez odiar-me?
Mate-me, então, mas não pratique essa perversidade inominável!
— Pensei, realmente, em tirar-lhe a vida...
Foi esse o meu primeiro ímpeto, revoltado pelo que soube; mas depois reflecti que ficaria só com a minha desventura e legaria a René acerbos dissabores futuros:
filho de um assassino e de uma adúltera!
É por amor a essa criança que não a apunhalo.
Quero antes que a senhora sobreviva, que padeça as consequências do seu crime, que seja tão desgraçada quanto eu... pois sei o que vai ser o meu porvir... que parece haver desmoronado e rolado num abismo!
Por momentos, Heloísa, acabrunhada, presa de infinito desespero, não pôde tomar uma deliberação definitiva.
Depois, falou meio alucinada:
— Senhor, deixe-me aqui ficar até que René, ainda convalescente, de todo se restabeleça.
Viveremos como estranhos.
— Impossível atendê-la.
Não pretendo mais viajar e sua presença tomou-se-me odiosa!


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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 13, 2018 8:50 am

CAPITULO XI
Heloísa, não podendo mais sofrear o tormento moral, motivado pelos agravos do marido, saiu precipitadamente da sala.
Dirigiu-se ao seu quarto, onde Kenê a esperava aflito, sobraçando diversos brinquedos que atirou logo ao solo ao ver a mãe banhada <»m pranto.
Cingiu-lhe o pescoço com os débeis bracinhos, como vivido colar que a castelã teve a ideia de jamais desatar em todo o curso da sua existência.
— Porque choras tanto, mãezinha? — interrogou aflito, com ternura infinita.
Foi o paizinho que te contrariou? Foi o teu Renêzinho?
Que fiz eu?
Ria, inundando-o de lágrimas, talou soluçante:
— Meu anjinho adorado, nunca me aborreceste.
Choro porque vou ficar sem te ver... por alguns dias. Estás doentinho e não podes viajar.
Vou ao castelo de Argemont e ficarás com teu paizinho, que também te quer muito, mas nunca me esquecerás, não £ verdade?
A criança abraçou-a mais fortemente, exclamando:
— Não te deixo partir só mãezinha querida! Quero ir contigo!
— Então... dorme, filhinho, para sairmos «manha bem cedinho.
Voltando-se para uma aia — robusta e insinuante aldeã que a fitava lacrimosa — ordenou docemente:
— Vai buscar o leite para o René, Marta!
A serva, antes de obedecer, baixou a voz e disse-lhe:
— Senhora, perdoai minha audácia e rude franqueza: sei o que se passa convosco!
Ouvi toda a conversação, pois estava casualmente arrumando o quarto da sala...
Bem sabeis que sou casada e que meu marido — ou melhor, algoz — está no Sul, em visita aos seus.
Não me íeis levar para Argemont, mas eu vos imploro: não me deixeis aqui!
Desejo seguir-vos, como escrava, para onde fordes!
Naqueles instantes de amargura, dominada por invencível desalento, a dedicação de Marta comoveu intensamente a infeliz senhora.
— Obrigada, Marta, ficarás comigo até quando te aprouver!
Depois, com amarga ironia:
— As vezes uma alma nobre não se abriga num fidalgo, mas num fâmulo...
A criada retirou-se para lhe cumprir as ordens.
Heloísa, sempre lacrimosa, continuava abraçada ao filhinho, até que, vendo-o prestes a adormecer, acomodou-o na cama.
A noite já havia descido sobre o hemisfério oriental o seu velário de crepe.
Nunca lhe parecera tão tétrica.
Dir-se-ia que lhe inundava a alma um oceano de trevas.
Marta regressou. Heloísa, dominando a angústia que lhe constringia o coração, depois de dar o alimento a René, fê-lo orar, ajoelhado no leito.
Beijou-o depois na fronte, nos cabelos, e murmurou:
— Agora, dorme filhinho...
— Então não chores mais, mãezinha!
Ela, contendo os soluços, aquietou-se, ajoelhada junto ao leito do pequenino adorado, afagando-lhe a cabecinha angélica.
Quando o viu adormecido, murmurou estendendo os braços sobre ele:
— Maria Santíssima, eu vo-lo entrego...
Apiedai- -vos dele... e desta desventurada mãe, qual o fostes!
Dai-me ânimo sereno para, a exemplo do vosso boníssimo Filho, sorver até à última gota a taça da amargura!
Ergueu-se depois, lentamente, sentindo-se impotente para consumar a esmagadora sentença que pesava sobre ela.


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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 13, 2018 8:50 am

Fitou demorada e ansiosamente o filhinho adormecido, compreendendo que aquela imagem querida lhe ficaria indelevelmente gravada na alma dolorida.
Envolveu-se em longo manto negro — que usara no luto do estremecido progenitor — e, seguida de Marta, trôpega atravessou o extenso corredor que dava saída ao solar, o mesmo por onde, havia pouco, vira sumir-se cambaleante o ultriz Ariel...
A lembrança do vulto sinistro — que parecia seguir-lhe os passos constantemente — causou-lhe convulsivo tremor...
Como se vingara torpemente da sua nobre fidelidade o terrível hindu! — pensou.
Era bem, via, o crudelíssimo e implacável verdugo de Persépolis...
Mas, que lhe fizera senão resistir à proposta aviltante de trair o querido ausente, que, agora, fascinado por seus sortilégios, á expulsava do lar — de que fora ela impoluta e heróica atalaia?
Não aquiescer ao delito, para os celerados, é ser pior do que eles, no julgamento de suas torvas consciências!
É a guerra perene da treva contra a luz.
É o aulido raivoso do mastim acorrentado, vendo, em pleno azul, singrar a galera radiosa da Lua.
É o furor do leão enjaulado vendo além, no prado florido, pascerem cândidas ovelhas que deseja devorar...
A virtude, como o vício, tem adversários inexoráveis.
A uns, porém, aguardam séculos de sofrimentos; a outros, milénios de bênçãos e venturas.
Ela jamais pactuaria com um ato indigno.
Preferia a morte, o suplicio moral à desonra.
Tudo suportaria, como Jesus — ser ultrajada, açoitada, desventurada — menos macular a neve açucenal de sua alma com a tisna de um delito! Ia no encalço da desolação, da saudade imensurável, dos dissabores inconsoláveis; mas em sua alma luminosa não havia um átomo de remorso e aguardava, com a convicção absoluta dos primitivos mártires nas arenas romanas, a justiça do Magistrado Supremo.
Era desditosa, mas não poluta.
Porque silenciara, como o Cristo no Sinédrio, podendo patentear a verdade?
Que força extraordinária lhe colara os lábios?
Era mister que assim fosse , para evitar o derrame de sangue.
O holocausto que o Criador lhe exigia então, para sua definitiva liberdade, era o opróbrio, a separação dos entes que mais amava na Terra — satélites fulgurantes da sua alma.
Seria, pois, ela a vitima propiciatória, que evitaria crimes irreparáveis, naqueles momentos.
Mas, se René, longe de suas caricias, viesse a sucumbir, se fosse ele e não ela o sacrificado?
Horror! Horror!
Deus não consentiria tão tremenda imolação.
Ele viveria com os carinhos paternos.
A verdade seria desvendada por intervenção divina e talvez a paz voltasse ao lar que lhe parecia irremediavelmente desmoronado.
Cessou de chorar, mas uma dor penetrante, como produzida por glacial estilete, penetrou-lhe o coração e, nítida, apresentou-se-lhe, à imaginação exacerbada, a revelação que tivera no internato de Ruão...
Viu, subjectivamente, no régio palácio o desditoso Marcos apontando-lhe o coração apunhalado...
Era bem essa a expiação penosíssima que lhe fora imposta pelos tribunais celestes, para resgate do seu crime execrando—o.
Era essa a prova suprema de que lhe falara o bondoso invisível ...
A existência humana — romance ininterrupto, eterno, com lances cómicos, dramáticos, misto de farsa, tragédia, epopeia infinda — tem transes dolorosíssimos que, às vezes, num instante, fazem os delinquentes redimirem
séculos de ignomínias é mister, pois, havê-los, para que a alma conspurcada se depure e alveje, se eterize e ascenda às regiões serenas do Infinito, em cujo oceano radioso gravitam as constelações, os reinos fúlgidos do Soberano Universal!


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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 13, 2018 8:50 am

Heloísa compreendeu essas luminosas verdades. Achava-se num desses momentos que deixam um sulco de relâmpago no íntimo do ser e perpetuam, por milénios, na vida do Espírito, um sucesso patético e remissor...
Amparada, porém, por uma potência extra-terrenas, por braços intangíveis mas vigorosos, desceu a escadaria da principesca habitação sem se voltar uma só vez.
Dois lacaios, aprestados para a viagem, aguardavam- -na fora do gradil do vastíssimo parque.
Entrou na mesma liteira que trouxera Dusmenil e fitou, de relance, com olhar
febril e desvairado a massa escura do castelo onde haviam decorrido anos de ventura e harmonia, que ruíram inopinadamente, como por efeito de um terremoto.
— É a derradeira vez que o vejo! — exclamou mentalmente, com indizível amargura.
Não chorava, mas profunda agonia lacerava-lhe o seio opresso.
Deixou-se cair no interior da liteira, cerrou as pálpebras, monologando Intimamente:
— Oh! como se realizaram todos os tormentosos pressentimentos de outrora!
Como sou desgraçada! Bem que o imaginava e disse a meu pai que o seria, se me casasse!
Que Potestade desconhecida e invencível me compeliu a não denunciar o falso Ariel, a Gastão, fascinado por seu influxo nefasto, adquirido nos misteriosos ritos do Indostão?
Deus meu! como suportar a vida, odiada e desconsiderada por quem foi meu único amor terreno, e lonee do meu adorado René?
Esquecer-me-á o querido anjinho?
Que crime cometi para merecer tão severa sentença de tão magnânimo Juiz?
A voz suavíssima, que a advertia sempre nas horas da adversidade, respondeu-lhe à última interpelação:
— “Que delito perpetraste, Heloísa?
Pois não o presenciaste, filha querida?
Não foste traidora e perjura?
Não fizeste, levada pela vaidade e pelo orgulho, o déspota crudelíssimo que acaba de destruir tua felicidade terrena, derramar caudais de sangue, trucidar aquele que te idolatrava — Marcos, de quem feriste o coração generoso com o punhal da perfídia, do desespero, do agravo?”
— MAS, já não hei tido tantas existências de expiação?
Porque. somente agora, resgato esses crimes de há tantos séculos?
— "Porque justamente agora é que teu Espírito está galvanizado na dor, tem conquistado percepções lúcidas, sentimentos nobilitantes e, nessas condições, têm maior mérito os sofrimentos morais, do que quando se achava ofuscado pelas impiedades que praticava...
"Esta prova por que passas, suportada dignamente, será a derradeira de tuas existências planetárias, encerrada com fecho diamantino; e ficarás apta para os grandes surtos do Além...”
— Piedade, meu amigo: não recordeis mais aquelas paginas negras e sangrentas!
Implorai ao Omnipotente misericórdia para esta desditosa; coragem para não fracassar nestes momentos de dor superlativa!
— “Coragem, filha dilecta!
Não se prolongará muito a tua acerba expiação! Aceita sem desfalecimentos nem revoltas as provas definitivas... e tua alma, burilada pela dor, redimida pela virtude, poderá encetar as missões sublimes dos mensageiros siderais...
Não acuses; não blasfemes, não conserves rancor contra os teus comparsas de outrora!”
— Mas é horrível, bom amigo, o ter sido fiel a meu esposo, sacrificar-lhe quase a própria vida e ser expulsa do lar, como adúltera e desleal!
— “Bem o sei, filha minha, compreendo toda a extensão da tua amargura; passaste pela prova máxima de todas as existências, porém a mais meritória; triunfaste com denodo e heroicidade, como o legendário Hércules, da Hidra pujante da perfídia que, outrora, se alojava vitoriosa em teu espírito mercenário...
“Esforça-te por fazer uma prece fervorosa ao Pai clementíssimo, que te proporcionou o ensejo de saldares um débito sinistro do passado...
“Humilha-te, imola-te na pugna do sofrimento e da Virtude, como a Donzela de Orleães, a fim de conquistares plena reabilitação!


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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 13, 2018 8:50 am

LIVRO II - Corações fendidos

CAPÍTULO I

Gastão Dusmenil, no seu gabinete de estudo, depois do violento diálogo com a esposa, foi acometido de inenarrável dissabor; viu, por todo o sempre, desarvorado o áureo bergantim de todas as suas esperanças mais fagueiras; destruídas, de chofre, como por efeito de um abalo sísmico, todas as venturas terrenas!
Entrechocavam-se-lhe no cérebro os pensamentos — víboras de chamas — como relâmpagos em nimoos lutuosos, a culminar no auge da consternação, quase o atirando ao sorvedouro da loucura...
Tinha sido cruel com Heloísa, reconhecia-o, mas a dor o alucinava apresentando-se-lhe à mente conturbada a figura de Otelo:
tornar-se-ia verdugo da adúltera se não fora o débil e cândido René, cuja lembrança lhe enternecia o coração, impedindo-o de tornar-se uxoricida.
Traído! Como o esquecera facilmente a perjura, logo que se ausentara do lar, onde deixara acorrentada a alma leal e saudosa!
Confiara demasiado naquela que julgara o protótipo da fidelidade, intangível ao Mal, à desonestidade, celestial no espírito e no físico, e, no entanto, tivera a desfaçatez de introduzir um amante nos próprios aposentos conjugais!
O ultraje fora imenso e imperdoável.
Porque não a apunhalara em silêncio, como se esmagasse asquerosa áspide, quando se lhe aproximara?
Porque não desafrontara a honra com a vida da pérfida?
Não se iludira nos conceitos referentes à sociedade e às mulheres:
a corrupção contaminara todas as almas, poluirá todos os corações — não havia virtude, apenas existia um simulacro de rectidão de carácter perante o público, mas, à sorrelfa, pela calada das noites, nas alcovas sombrias predominava a impureza ou o desejo de fruir prazeres ilícitos...
Odiava a infiel! Execrava-a!
Mas, como prosseguir vivendo, com a chaga viva e corrosiva da desonra; sentindo no imo um vácuo incomensurável, que absorveria todos os oceanos reunidos; ouvindo o fragoroso desmoronar de todos os sonhos, de todas as ilusões que arquitectara para um lar honesto?
Reconhecia haver esposas dignas de compaixão — vítimas obscuras de maridos corruptos e brutais, levadas ao desvario pelo anseio de encontrar um átomo de felicidade nos carinhos de um amante dedicado, pois o coração humano tem sofreguidão de caricias e ternuras...
Mas, ele prezara sempre a companheira, nunca lhe dera um dissabor, consagrava-lhe afeição profunda, adorava-a como ura crente a uma entidade paradisíaca, e por isso, não encontrara dirimente para o seu crime asqueroso...
Fora violento para com ela expulsando-a de sua presença, mas a afronta recebida endoidecia-o!
Não punha termo ao próprio martírio para que o filhinho idolatrado não fosse entregue à mãe adúltera, ou ao influxo do amante, que não saberia guiá-lo na senda do dever e da honra, maculando o seu e o nome dos seus ancestrais, que timbravam na fidalguia, pelo sangue e pelo carácter impoluto...
Não queria deixá-lo só, abandonado aos azares do destino, enfermo e dominado pela pérfida que o concebera.
Percebeu, de súbito, o tropel dos corcéis conduzindo a liteira em que Heloísa ia partir para o solar de Argemont, onde foram tão venturosos.
Repentina angústia lhe constringiu o coração, e os olhos se lhe marejaram de lágrimas copiosas e quentes.
Porque não deixara amanhecer para fazê-la cumprir a sentença, se não por piedade, ao menos para que os servos não compreendessem que a expulsara?
A noite era caliginosa.
Ameaçava borrasca.
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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 14, 2018 10:58 am

As derradeiras palavras de Heloísa atingiam-lhe a mente com ressonância clangorosa:
— "Deste crédito a infames caluniadores antes de averiguar a verdade, mas, muitas lágrimas verterás, tardiamente, quando não for mais possível uma reparação!"
Porque, sendo culpada, dissera aquelas palavras com a nobreza das almas puras e impecáveis?
E se fosse inocente?
E se, realmente, Ariel e Fabrício, com intuitos ignorados, houvessem urdido contra ela uma aleivosia aviltante?
Tornar-se-ia homicida, sem remorsos, para punir os perversos...
Um tremor de coreia percorreu-lhe o corpo, parecendo-lhe que a própria alma convulsa fora atingida por avalanche glacial, rolada dos Andes, lacerando-a, esmagando-a, pulverizando-a...
Sentiu uma vertigem como se estivesse resvalando precipitosamente em despenhadeiro alcantilado, sem ter um arbusto, uma teia subtil de araquinideo para segurar as mãos crispadas numa hiperestesia nervosa.
Chegou à janela, assim que lhe foi possível, e, a uma centena de metros, viu a liteira que se afastava, iluminada por duas lanternas rubras, mal distinguindo a silhueta dos «nimnia e dos lacaios, não lobrigando nenhum vulto dos que se ocultavam no interior do veiculo, que lá se ia lentamente pela estrada deserta e adormecida ...
Estava consumada a sua desdita:
separava-se, como inimigo implacável da única mulher que havia idolatrado, admirado, considerado sem restrições, e à qual confiara o lar, o nome, a alma, os sonhos, as esperanças!
Inocente, ela? Não, desgraçadamente.
Se o fosse, altiva como era, ter-se-ia defendido heroicamente, para não ser repudiada por ele e pela sociedade; sobretudo, para não se apartar de René, a quem parecia adorar—
Não! Era positivamente culpada, criminosa, perjura, maldita!
Mas, porque o havia substituído por outro, sabendo quanto ele a estremecia?
Quem era esse amante privilegiado?
Um sobrinho do Dr. Gontran — asseveraram os zelosos servos.
Como se insinuara ele no coração nobre de Heloísa?
Porque se desvelara pelo tratamento da criança?
Teria predicados físicos e intelectuais que ele, Dusmenil, não possuísse?
Havia de apurar a verdade, saber se o jovem esculápio fora introduzido, à noite, nos seus aposentos, a pretexto de examinar o pequenino enfermo...
A cólera, o ciúme, cegavam-no.
Estava como embriagado, narcotizado, com as ideias turbas, julgando-se dominado por sugestões satânicas de atrozes vinganças...
Sua alma, em plena juventude, arquitectara uma ventura inaudita — um lar sagrado pelo amor, inexpugnável à maldade, um Éden em miniatura, um sacrário humano cheio de conforto e carinho, onde Heloísa imperava como rainha clemente, ídolo intangível à ignomínia.
Bruscamente, um outro usurpara-lhe a felicidade, qual se esta houvera sido alicerçada no cimo dos Alpes e se desfizesse em blocos de gelo que, desprendidos daquela altura, rolassem numa cratera ardente e insondável de um Strômboli em violenta erupção...
Porque tão alto colocara a esposa?
Porque a supusera a concretização de todos os seus ideais terrenos:
bela, física e moralmente, carinhosa, inteligente, meiga — síntese enfim de todas as perfeições humanas...
Mas, ai dele!
Não fora o único homem a notar-lhe a formosura... outro a cobiçara e o ídolo de alabastro níveo, que colocara no santuário da sua alma sentimental e honesta, despenhara-se do alto e se esfacelara rolando no sorvedouro da perfídia e da vilania...
Sua desventura era completa:
não poderia tentar uma separação judicial, para que sua honra não fosse poluída nos tribunais; mas saberia tomar um desforço contra o homem que derrocara toda a sua edénica felicidade.
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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 14, 2018 10:59 am

A justiça humana, a seu ver, era falha e imperfeita, só cogitando da dor, dos prejuízos materiais, das ofensas corporais, do homicídio, não havendo leis senão para punir a traição à pátria e ao rei, nunca a dos amigos, dos esposos, dos que destroem a ventura
alheia...
No auge da consternação atirou-se a um divã, sentindo aniquiladas as forças orgânicas, quando foi chamado à realidade dolorosa por uma criada a cientificá-lo de que o pequenino René acordara sobressaltado, gritando pela mãe.
Já passava da meia-noite.
As trevas eram intensas.
Bátegas de chuva, como azorragues brandidos por mãos invisíveis, fustigavam as árvores que apenas começavam a enfolhar-se parecendo gemer em surdina, ciciar preces incompreensíveis, implorar piedade aos infatigáveis verdugos...
Ele correu ao quarto que sempre fora ocupado pela consorte e, coração opresso por saudades pungentes, deparou com o filhinho em pé no leito, estendendo os braços descarnados, como a buscar o colo materno, com as lágrimas a correr pela face esmaecida como a das efígies dos sepulcros...
Gastão ajoelhou-se junto do pequeno leito de René, como se o fizesse diante de um altar sacratíssimo, e, só então, prorrompeu em soluços.
A criança, assustada, tocou-lhe na cabeça e perguntou em pranto:
— Onde está mãezinha?
Estou com medo da chuva, papaizinho!
Vai chamar a mãezinha para ficar com o seu Renêzinho!
Dusmenil ergueu-se repentinamente e apertou-o nos braços, beijando-lhe a fronte, molhando-a de lágrimas ardentes.
Tentou acalmar-se para infundir confiança ao filhinho alarmado com a sua atitude dolorosa e com a ausência da genitora bem-amada.
Quando conseguiu falar, disse-lhe com ternura:
— Dorme, meu querido. Não tenhas medo da chuva, pois teu paizinho está junto de ti.
— Mas, onde foi a mãezinha que não está ali na cama?
— Está doente, ficou lá no outro quarto.
— Leva-me lá, paizinho. Eu não vou acordar mamãe, só quero dar-lhe um beijinho... um só!
— Amanhã, filhinho; agora, se ela acordar, pode ficar pior.
— Ah! paizinho... se ela aqui não vier... eu vou morrer!
— Não, amorzinho, não digas isso!
Não tens aqui o teu paizinho que tanto te quer?
— Mas eu também quero a mãezinha junto de mim... até... eu ir para o céu!
Foi com grande esforço que Dusmenil conseguiu vê-lo adormecer novamente, mas soluçante e de palidez assustadora...
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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 14, 2018 10:59 am

CAPITULO II
Dusmenil não se recolheu ao leito um só momento, velando pelo filhinho e empolgado pelos mais contraditórios pensamentos.
Teve a impressão de que se escoara um século naquela noite tétrica.
Quando procedeu contra Heloísa, dominado pelo ódio e pelo ciúme, supusera estar exercendo um inconcusso direito; defluídas, porém, longuíssimas horas de reflexão; arrefecidos os impulsos mais violentos, como se houvesse lavrado um incêndio íntimo — parecendo-lhe, por vezes, ouvir o crepitar das paixões na ara ardente do coração, deixando-o após imerso em cinzas — julgou-se arbitrário e precipitado...
Ele também errara.
Na sua consciência recta e impoluta arvorava-se, para o julgar, um tribunal implacável.
O passado imaculado da esposa apresentava-se-lhe como desmentido e protesto veementes contra as insidiosas acusações dos fâmulos.
Porque a repudiara antes de comprovar o delito?
Lembrou-se do pesar que Heloísa patenteara quando ele tomou a resolução de prosseguir nas viagens.
Porque a deixara isolada, com o filhinho sempre enfermo, necessitando desvelos incessantes, inquieta, apenas cercada de servos?
Que loucura! Tarde o reconhecia!
Abandonando-a naquele castelo — quase um claustro — sem um parente, um conselheiro, um amigo dedicado!
Que prazer poderia ele encontrar em qualquer região do globo, senão naquele remanso de paz, junto daqueles dois seres estremecidos?
Ela era jovem, formosa, inteligentíssima, inspirava admiração e amor irresistível aos homens maia sensatos.
Ele, e não Ariel, ê que deveria ser o Cérbero do seu lar.
Fora certamente notado, por todos que com ele privavam, o seu quase abandono.
Houve então quem se insinuasse na alma da esposa e, como há em todos os corações, por mais nobres que sejam, o desejo secreto de vingança, enquanto ele fugia à ventura tranquila do seu santuário, dominado qual Aasvero pela tentação de percorrer o mundo todo, um outro se introduzira no santuário.
Era íunn “revanche” feminina, comum em quase todas as mulheres em plena juventude e ao demais de helénica formosura...
A vingança, porém, suplantara a ofensa, se é que ofensa cometera.
Submetera-a a uma prova — se ela, porém, saísse ilesa, se triunfassem a virtude e a fidelidade, jamais dela se apartaria e do filhinho e só a morte, ou a fatalidade, poderia separar aqueles três corações que lhe pareciam vinculados pelo Destino, com grilhões indestrutíveis, de diamante!
Mas — com que acerba mágoa, com que infinito pesar o reconhecia! — fora ludibriado em suas previsões, vencido pela desventura e pela traição!
A alvorada surpreendeu Dusmenil em amargas reflexões.
Ondas luminosas — pérolas etéreas mescladas de um rubi fluido — invadiram o aposento em que se achava compungido e insone.
Amanhecera de todo e em sua alma havia trevas e lágrimas...
Transcorreram dias de amargura para Dusmenil, que todo se dedicava ao adorado filhinho.
Este, porém, não se conformava com a separação da querida genitora e caíra em abatimento profundo.
Apreensivo, Gastão chamou com urgência o Dr. Dudevant.
A este, disse-lhe que Heloísa fora chamada repentinamente ao Solar de Argemont, pelo mordomo, gravemente enfermo e desejoso de falar-lhe antes da sua morte provável.
Para evitar as fadigas da viagem, deixara a seu cuidado o pequenino René, que estava inconsolável e um pouco febril.
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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 14, 2018 10:59 am

O Dr. Gontran era alto e descarnado, de aspecto varonil e insinuante.
Depois de o felicitar pelo seu regresso ao lar, fitou-o com insistência como se lhe quisesse devassar os mais recônditos pensamentos e percebeu, lucidamente, pela lividez da face, que algo de anormal se passara entre o casal .
— Seria preferível — disse lentamente — que a Sra. Dusmenil o levasse consigo, a contrariá-lo, sujeitando-o a um abalo que lhe pode alterar profundamente a saúde...
— Era inadiável a partida de Heloísa, ontem, pois o mordomo de Argemont desejava fazer-lhe declarações “in extremis"...
Como levar o querido René, com a noite tempestuosa que tivemos?
— E... quando pretende ela regressar?
— Quando possível...
O médico calou-se, apreensivo.
Gastão interpelou-o habilmente, querendo colher informes que muito o interessavam:
— Doutor, durante minha ausência ele esteve gravemente enfermo?
— Sim, em estado quase desesperador.
— Porque não foi confiado aos vossos cuidados?
— Porque eu estava de cama.
Bem sabeis que o Inverno ê cruel para os reumáticos...
Achava-se, então, comigo um sobrinho, assaz inteligente, recém-formado, Luciano Dudevant, que por alguns dias me substituiu com vantagem...
— Houve algum chamado nocturno?
— Sim. Parece que houve um incidente com o vosso filhinho, sobre o qual a Sra. Dusmenil guardou reserva, mas quase enlouqueceu ao vê-lo semimorto...
Ela não vo-lo disse?
— Não houve tempo...
Ela aguardava minha vinda para partir com urgência...
Onde está actualmente o vosso sobrinho?
— Na Itália, em viagem de núpcias. Porque mo perguntais?
— Porque... desejo gratificá-lo pela dedicação com que tratou o querido René, salvando-o da morte.
— Não tenteis indemnizá-lo — prosseguiu o ancião com solenidade —, vossa esposa já o fez, por meu intermédio; mas Luciano, que possui fortuna pessoal, não quis receber o que lhe enviou, e mo deu a mim para que pudesse repousar alguns dias e ter melhor dieta.
Gastão emudeceu, meditativo; depois, como que despertado pela realidade e havendo tomado secreta resolução, disse:
— Venha ver o doentinho.
O menino ainda se conservava acamado.
Sua palidez era impressionante. Parecia inanimado.
Dir-se-ia formosa imagem de alabastro, semi-velada por alvas coberturas.
Respirava a custo e a fisionomia ressumbrava angústia.
O piedoso Dr. Dudevant penalizou-se.
Auscultou-lhe detidamente a região toráxica.
Dusmenil, com ansiedade inenarrável, acompanha-lhe todos os movimentos, observando-lhe a expressão fisionómica.
Quando o viu terminar o exame, arguiu-o com vivacidade:
— Que lhe parece, doutor?
Faço um apelo à vossa lealdade para dizer-mo sem subterfúgios.
Qual a moléstia do meu filhinho, que os médicos não me revelam?
O médico ficou silencioso, visivelmente preocupado; depois, com firmeza, disse:
— E’ um caso raro na Patologia.
Nunca vos declarei a verdade, para poupar-vos, e à vossa esposa que o adora, um grande pesar:
René nasceu com uma lesão cardíaca, que se agrava ao menor abalo e qualquer choque violento lhe pode ser fatal...
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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 14, 2018 11:00 am

Vede-lhe o tórax como se está arqueando — é a endocardite que começa a manifestar-se.
— Deus meu! que me dizeis, doutor?
É incurável essa enfermidade?
Porque não mo dissestes antes de minha partida para a América? — disse Gastão deixando-se cair no leito, prestes a desmaiar de angústia.
— Animo, Sr. Dusmenil — murmurou o médico sensibilizado, amparando-o.
Vou tentar minorar-lhe os sofrimentos.
Mandai chamar, com urgência, vossa esposa.
A impressão dolorosa de que se acha possuído pode ser funesta, pois não se conforma em ficar separado de sua carinhosa genitora.
Gastão tomou rápida e decisiva deliberação: expediu um emissário ao Solar de Argemont, chamando Heloísa para junto de René... enquanto que ele empreenderia uma nova viagem, da qual jamais regressaria...
Horas de inquietação e amarga expectativa decorreram. De retorno, o mensageiro disse que não pudera falar à senhora, que estava acamada, delirando, impossibilitada de tomar qualquer resolução, com a vida em iminente perigo...
— É a fatalidade! — exclamou Gastão desalentado compungido.
E reflectiu intimamente:
— Deve ser o remorso da acção indigna que cometeu o que a fez adoecer...
É o pesar de se haver separado do único ente... a quem ama, realmente!
Deus é justo.
É assim sofrendo que ela compreenderá a dor inaudita com que me lacerou o coração fiel e dedicado!
Assim pensava, mas não se sentia saciado no desejo de vingança contra a pérfida.
Algo em seu intimo lhe exprobrava o procedimento, atormentando-o, garrote ando-lhe a alma inexoravelmente.
Tentou abafar os bramidos da consciência, desvelando-se pelo pequenino
enfermo, incutindo-lhe a esperança de rever a mãe, cumulando-o de dádivas, de promessas, de ternuras...
A criança descerrava as pálpebras, olhava-o fixamente, e, embora lhe transparecesse no rosto de jaspe a dúvida do que lhe prometia, sorria docemente e logo retomava o seu aspecto entristecido.
Seu olhar ia-se amortecendo, e, então, as faces já tinham a alvura das mais níveas camélias.
O Dr. Gontran ia examiná-lo mais de uma vez por dia e não verificava melhora alguma.
Uma noite René acordou, sentou-se no leito e levou a quase diáfana mãozinha direita à boca, forcejando por extrair um incisivo que, havia muito, estava abalado.
O pai, solicito o auxiliou e, dentro de poucos segundos, o minúsculo e níveo dentinho, com algumas gotas de sangue, foi arrancado.
René, como se despertasse de um sonho prolongado, recordou-se de que Heloísa já havia tentado extrai-lo para o guardar, mas, desistira para não magoá-lo.
— Manda-o à mãezinha...
Sim, meu paizinho?
Ela mo pediu — murmurou com lágrimas nos olhos azuis.
— Sim, meu amorzinho.
Lava a boca. Eu lho enviarei amanhã.
A criança obedeceu, segurando um copo que o genitor lhe apresentara.
Vendo o sangue enrubescer-lhe os lábios, Dusmenil, que já estava comovido, sentiu as lágrimas afluírem-lhe aos olhos, como que derivadas do coração angustiado.
— Se pudesse — pensou ele — transfundir-lhe a última gota de sangue para lhe avigorar e reviver o organismo debilíssimo, fá-lo-ia naquele momento, com alegria superlativa!
Lavou o minúsculo e alvo dentinho e o encerrou na carteira, qual se fora uma pérola de Ofir.
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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 14, 2018 11:00 am

Dias de indescritível amargura iam decorrendo na residência de Dusmenil, com a lentidão que só a dor imprime ao tempo.
Dir-se-ia que os dias e as noites não findavam nunca, em marasmo perpétuo...
Uma noite o aflito castelão, passeando com o filhinho ao colo, recebeu por um fâmulo o aviso de que Hamed e Fabrício, de regresso de Paris, necessitavam falar-lhe.
Para se não apartar um momento do adorado enfermo, então calmo e conchegado ao seio, mandou entrar Ariel.
Ao vê-lo, a criança deu um grito lancinante e apertou, apavorado, o pescoço do pai.
— Que tens, meu querido? — interpelou aflito e contristado.
O menino mal pôde balbuciar, com voz entrecortada pela comoção que lhe causara a presença da sinistra personagem:
— Manda sair Ariel... paizinho!
Tenho medo... medo dele!
Gastão dirigiu-se ao recém-vindo, dizendo-lhe:
— Ele está muito mal, Ariel, e não pode ser contrariado!
Atender-te-ei logo que for possível... Agora, não.
Quando o hindu se retirou, Gastão interrogou carinhosamente:
— Porque não gostas de Hamed, filhinho?
Ele é amigo do teu paizinho...
— Não, paizinho, ele é muito mau!
— Foi a mãezinha quem to disse?
— Não... ele quis matar a mãezinha!
Convulsivo soluço lhe sacudiu o fraco seio, ao recordar a trágica cena que presenciara na ausência de Gastão.
Um terror indescritível perpassou pela mente de Gastão:
que se passara naquele lar, na sua ausência?
Porque, tanto quanto Heloísa, René odiava o hindu?
Inverosímil o que acabava de ouvir!
Hamed, tão humilde e respeitador, não se atreveria a tentar assassinar-lhe a esposa, confiada à sua guarda, mesmo que fosse vergastado por ordem dela, ou que a surpreendesse praticando alguma acção infamante...
René delirava, certamente, amedrontado pela brusca aparição do servo fidelíssimo, do qual não gostava, certo por influência da esposa que, desde que o vira, o detestava...
Ou então — quem poderia dizer-lho? — tomara algum sonho trágico como realidade viva...
A criança continuava agitada e lacrimosa, murmurando com voz plangente:
— Paizinho... manda buscar a mãezinha querida!...
Hamed pode ir lá... e matá-la!
Quero vê-la... um» vez só... Eu vou morrer...
Indizível o tormento de Gastão!
Propiciou ao doentinho um cordial, mas, a palpitação de que fora acometido era tão forte que podia ouvir-se a um metro de distância.
O tórax alteava-se, qual se o coração, vívido e trémulo, oscilante como pêndula acelerada, quisesse perfurá-lo... para voar ao céu, ou em busca do castelo de Argemont, onde se acolhia o que para ele era mais precioso no Universo, do que o próprio céu — a mãe adorada!
Dusmenil beijava o filhinho, implorando-lhe que não chorasse, que se acalmasse.
Súbito, ele cessou de chorar e perguntou com infinita doçura:
— Prometes mandar buscar a mãezinha amanhã?
— Sim, meu amorzinho, juro-o!
Podes crer no teu paizinho que te quer muito, muito!
Se ela não vier... eu te levarei onde ela está!
René sorriu, com enlevo, e um fulgor de celeste alegria angelizou-lhe o pálido semblante, que já se assemelhava ao dos querubins marmóreos.
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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 14, 2018 11:00 am

Depois, fitando-o com olhar onde ainda brilhavam lágrimas, interrogou:
— Ela ainda me ama, paizinho?
— Muito... porque me perguntas?
— Porque se foi sem mo dizer, sabendo que estou doente, e não veio dar-me um beijinho!
Gastão soluçava. Daria a vida e toda a fortuna a quem lhe levasse naquele momento a exilada, a fim de satisfazer o supremo desejo do filhinho inconsolável.
René pediu que lhe mostrasse o céu, queria verificar se já estava amanhecendo,
para poder seguir ao encontro de Heloísa. Dusmenil abriu uma janela e mostrou-lhe, através dos vitrais, a Natureza silenciosa, em luto transitório, o que, em sua alma, ficou então gravado por muitos decénios e parecia ter duração eterna.
René fitou as trevas, desalentado, prevendo que, naquela fugaz e dolorosa existência terrena, não veria mais o alvorecer de um dia.
Um espasmo angustioso retorceu-Ihe o débil corpo de beija-flor humano...
Gastão alarmou-se.
Depositou-o na cama e chamou os servos, que acorreram pressurosos aos seus gritos de aflição. Um deles foi despertar o Dr. Dudevant, que pernoitara num compartimento contíguo ao do enfermo, cujo estado julgava desesperador.
Quando o médico o auscultou com os olhos húmidos, constatou que havia passado ao Além, de onde certamente baixara por limitado tempo...
— Doutor — disse Dusmenil, alucinado — mostrai que sois meu amigo:
abri-me uma artéria, ou propinai-me una tóxico que me liberte deste martírio inominável que me exulcera o coração!
Deixo-vos toda a minha fortuna por este só desejo.
Sou o mais desgraçado dos mortais... depois de haver sido o mais venturoso!
Não devo sobreviver ao fracasso de todos os meus sonhos terrenos!
É horrível o que padeço!
Tirai-me a vida, doutor, que me pesa dentro d’alma, como se nesta estivessem os Alpes!
Piedade, meu amigo: eu, que sou milionário, vos imploro a esmola de um veneno que termine o meu inaudito suplício!
Abençoar-vos-ei e Deus vos perdoará, se for crime... o cortar-me este tormento dantesco! Porque hei-de viver com a morte e o desespero no coração, sem o meu único tesouro na Terra?
Comovido, o Dr. Dudevant o abraçou, dizendo:
— Há muito previa este desenlace, Sr. Dusmenil...
É profunda a vossa amargura, mas lembrai-vos que tendes de vos curvar a um poder supremo, perante o qual nossa vontade não passa de um punhado de cinza exposto aos vendavais...
Não me peçais um impossível — manchar minha consciência de pobre honesto — com a execução de um crime condenado pelos Códigos e por Deus!
Nenhum tesouro, por mais valioso, poderá subornar minha consciência integra...
— Porque me falais em Deus, nestas horas de consternação, se se não compadeceu Ele do meu René e não ouviu meus rogos fervorosos?
Porque me feriu tão duramente, doutor?
Que mal lhe fiz, e ao meu semelhante?
— Ele é também Pai extremoso, ama o meigo René e por isso o chama às suas mansões radiosas:
lá, o anjinho nunca sofrerá um pesar igual ao que vos lacera a alma!
— Mas, porque me não tirou a vida, conservando a dele, mais preciosa que a minha?
Eu a permutaria de bom grado pela do filhinho querido!
Compadecei-vos do meu sofrer, doutor:
só vós podeis extingui-lo.
— Que dizeis, meu amigo?
Como posso tirar-vos a vida sem tomar-me um criminoso perante as leis humanas?
E minha consciência? E o Criador?
Sou médico — não sou assassino.
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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 14, 2018 11:00 am

Quereis vos liberte de um sofrer violento tornando- -me desgraçado, corroído de remorsos, se vos atendesse?
Pobre como sou, perderia a incomparável fortuna que possuo — a consciência imaculada!
Enlouquecestes?
A dor vos desvaira a ponto de me julgardes capaz de um dos mais hediondos crimes — o homicídio?
Compadeço- -me, porém, da vossa angústia inaudita e, o que posso fazer, como sacerdote da Ciência, é ministrar-vos um narcótico para que possais dormir algumas horas... dando tréguas à mais acerba realidade!
— Dai-me, pois, meu amigo, senão... ninguém me impedirá que ponha termo a este suplicio inominável!
O Dr. Dudevant misturou, num cálice d’água, algumas gotas do liquido de um frasco que trazia consigo, e, dentro em pouco, Dusmenil adormeceu profundamente.
O médico manteve-se numa dedicação inexcedível.
Por dias consecutivos não abandonou Dusmenil, dominado pelo desespero e pela consternação, qual se estivesse sob o guante de dois verdugos implacáveis.
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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 14, 2018 11:00 am

CAPITULO III
Um dia, ausente o doutor, achava-se Gastão estirado no leito, vencido pela desventura, aniquilado por pensamentos lúgubres, quando subitamente, qual aparição fantástica, Belzebu dramático da Idade Média, surgiu-lhe diante dos olhos o enigmático Ariel.
Tinha emagrecido assustadoramente; vincos de amargura cavavam-lhe o rosto, que parecia recortado a punhal; os olhos estavam mais fulgurantes que nunca, com um brilho de lágrimas; os cabelos haviam encanecido totalmente, contrastando na alvura com o bronze da fronte sulcada; havia, enfim, envelhecido muitos decénios naquelas poucas semanas.
Gastão, que não pressentira a sua entrada no quarto, estremeceu e fitou-o com espanto.
— Que desejas, Ariel? — interrogou com vivacidade.
O hindu aproximou-se e estendendo os braços em cruz,
voz soturna, pálpebras cerradas, murmurou com humilde reverência e intima amargura:
— Senhor.. matai-me!
— Porquê? — interpelou Dusmenil surpreso e suspeitando algo de aterrador nas suas palavras.
— Porque... senhor... se vos houvesse ocultado a verdade... continuaríeis feliz... ao passo que vo-la tendo revelado... tornei-vos desditoso!
— Não, meu amigo, cumpriste o teu dever e eu te agradeço a prova de dedicação que me deste!
A honra, para mim, vale mais que a ventura.
Saberei recompensar-te quanto o mereces, amigo devotado!
Sem nada articular, com profunda reverência e aspecto grave, Ariel retirou-se do aposento de Gastão, que se achava quase inerte, em atonia profunda, sob a acção de enérgicos narcóticos, enquanto em sua mente as ideias se digladiavam incessantes, como se travassem em seu intimo renhida batalha.
Se alguma dúvida lhe restasse nalma desolada, a respeito da culpabilidade da esposa, o ato heróico de Hamed tê-la-ia desvanecido para sempre...
Seus padecimentos, pois, recrudesciam dia a dia.
Um pensamento, dentre quantos o atormentavam, era mais importuno, mais terrível, mais esmagador:
julgava-se o assassino do meigo René, com o separá-lo da mãe idolatrada!
Querendo apunhalar a esposa com a notícia do passamento de René, enviou ao Solar de Argemont um emissário, para transmitir-lha verbalmente.
Heloísa, porém, convalescente de gravíssima enfermidade, mantinha-se incomunicável .
Tomou ele, então, a única resolução que lhe pareceu compatível com a sua desesperada situação.
Sentia-se fraco para a refrega ou melhor — campanha homérica da existência.
Era um vencido sem crença, sem fé, sem ideal, sem amor, acovardado pelo desalento e pela falta de convicção em uma justiça extra-terrenas.
Parecia-lhe ter sido arrojado de um píncaro de luz a um báratro de trevas asfixiantes.
Considerou a inanidade da opulência para evitar as grandes catástrofes da vida.
De que lhe valia a fortuna, podendo esbanjar em profusão, qual um nababo oriental?
Tanto quanto um punhado de areia arremessada aos ciclones do Saará...
Pensou, inabalavelmente, em evadir-se do palco da vida, qual actor desanimado, em afonia completa, alvejado pelos apodos de uma plateia enfurecida.
Ele próprio faria correr o velário no sombrio e deserto cenário da sua existência...
Era no crepúsculo.
Ocultou-se no gabinete de estudo, fechando-se à chave.
Escreveu diversas cartas, fez alguns dispositivos sobre sua fortuna pessoal, legando grande parte a Ariel e a instituições pias, de Arras.
Quando a noite fechou de todo, apagou a lâmpada que havia acendido para escrever.
Dolorosa constrição premia-lhe a alma, envolta em trevoso sudário.
Um esmorecimento profundo dominava-o, aniquilava-o.
Por momentos cogitou, pela primeira vez, no que poderia aguardá-lo além-tumba.
Fora criado e educado como católico praticante.
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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 15, 2018 11:55 am

Os sacerdotes afirmavam ser nefando homicida todo aquele que premeditasse e pusesse em execução o suicídio, ou auto-assassínio.
Ouvira-os, desde a infância, a verberar com as cores mais tétricas essa acto de covardia, de rebelião contra as sagradas leis, descrevendo os tormentos por que passam os réprobos que atentam contra a própria vida, que não nos pertence, mas a Quem no-la concedeu — o Criador!
Mas, que lhe importariam os suplícios satânicos se lhe sobejava no âmago um Etna de chamas corrosivas?
Que lhe valeriam, para os sofrimentos irremediáveis a acicatar-lhe o coração, os sacramentos que recebera na meninice e a principesca fortuna que herdara de seus maiores?
Que era o mundo para ele, senão vasta necrópole, desde que fora traído e já não existia o adorado filhinho?
Quem poderia afirmar, com inabalável convicção, a sobrevivência da alma?
Os teólogos e os filósofos proclamaram-na, desde as eras de Platão e Solon, mas quem são eles, de todos os tempos, senão utopistas que crêem no transcendente e incognoscível?
Grande consternação lhe tolhia a alma, os próprios movimentos, parecendo-lhe estar sob uma acção magnética ou prestes a adormecer para sempre...
Não mais cria na eficácia das preces. Habituara-se a orar, desde tenra idade, até o momento em que Hamed lhe revelara a sua desventura...
Deixara, pois, de o fazer, desde que se tornara infortunado.
Nas noites de amargura, a velar pelo idolatrado enfermo, ainda dirigia, alta voz, alguns rogos ardentes ao que denominam — Majestade Suprema; seus brados de aflição, porém, não foram ouvidos, perderam-se no espaço silencioso...
Se René vivesse, talvez ainda elevasse o pensamento à Potestade que os sacerdotes lhe asseguravam ser de soma bondade — mas que ele, agora, vencido pela desventura, considerava insensível aos destinos humanos!
Que adiantara, para os desgostos que o esmagavam, o haver rezado desde a infância?
Se a Providência existia realmente, que lhe fizera?
Porque se apiedara dele e de René?
Porque, em pouco dias, tudo conspirara contra si, fulminando qual o raio, de um só golpe, todos os seus anelos terrenos; pulverizando todas as suas venturas; decepando, alfange invisível, o fio precioso da existência de René?
Sentia-se impotente para lutar contra esse poder desconhecido, inflexível e sem comiseração, que lhe feria com dupla punhalada o sensibilíssimo coração — o ludibrio de Heloísa e a morte do filhinho adorado, soterrando-lhe o espirito em Geena de trevas compactas como blocos de granito...
Parecia-lhe, desde então, só existir uma Entidade omnipotente, votada ao Mal — a mesma que se patenteava nas catástrofes, nos terremotos, nas guerras, nas epidemias, na ceifa constante de mães, pais, irmãos, filhos idolatrados...
Se existisse a vida psíquica, em breve o saberia e, no tribunal a que fosse arrastado, não necessitaria de advogado — ele próprio faria a sua defesa!
Preferia, porém, o Nada, o aniquilamento completo da alma e do corpo somático.
Foi à escrivaninha e, tacteando os objectos na escuridão em que se achava mergulhado, retirou de uma gaveta o revólver de que se munia sempre, quando realizava excursões perigosas.
Não quis acender a lâmpada de prata fosca, pendente do tecto por longa corrente.
Subitamente, quando alçou a arma á altura da fronte, ouviu um rumor semelhante ao produzido pelas asas de um beija-flor, que faria vibrar o ambiente.
Voltou o olhar na direcção em que o escutara e, à direita, distinguiu pequenino vulto
luminoso, cujas irradiações astrais se desprendiam da fronte áurea, cingida por fulgurante halo, parecendo devassar não só as trevas do gabinete, como penetrar as paredes.
A arma caiu-lhe da mão amortecida, nobre um tapete argelino que forrava o soalho.
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