REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 15, 2018 11:56 am

Extático, arquejante, comovido, reconheceu no radioso e angelizado ser o seu querido René, que moveu negativamente a fronte aureolada de luz, como a exprobrar-lhe o ato criminoso que ia perpetrar, e, erguendo graciosamente um dos bracinhos lactescentes para o alto, fê-lo compreender que devia aguardar, além, a Justiça suprema, à qual devia submeter-se.
Dusmenil, estarrecido de surpresa, não se pôde mover, transido do torpor que o chumbara ao solo.
Quis oscular e estreitar ao seio a formosa e adorada aparição, mas não conseguiu sequer fazer um gesto com as falanges imobilizadas.
Assim como surgiu, assim se esvaeceu, qual fúlgida neblina, o gracioso vulto do pranteado filhinho.
As sombras, como reposteiros de crepe, novamente invadiram o ambiente.
Só então, Dusmenil, emocionado e perplexo, pôde recobrar os movimentos.
Sensibilizado, debruçou-se às bordas da escrivaninha e, por momentos, foi abalado por soluços incoercíveis.
Aquelas lágrimas, porém, eram como bálsamo que lhe fluísse do coração, inundando-lhe o intimo, aplacando as flamas do desespero que o calcinavam, levando-lhe à alma um átomo dourado de esperança indestrutível:
não duvidaria, jamais, da sobrevivência do Espirito, do poder e da magnanimidade de uma Entidade omnisciente, que perscruta até os mais recônditos pensamentos, que fizera um de seus arcanjos desarmar-lhe a mão quando ia consumar um ato de revolta contra as suas Leis incomparáveis!...
Que lhe dissera René na sua sugestiva mudez?
Que não perpetrasse um delito nefando — cortar o liame sagrado da própria existência, para que se não tornasse passível das penas exaradas pelo Supremo Juiz, cuja justiça é infalível; salvara-o, num gesto seráfico, de um vórtice de responsabilidades e sofrimentos inenarráveis!
Ele, Gastão Dusmenil, matara-o de pesar e saudade, apartando-o da genitora idolatrada e ele, René, já divinizado com as luzes siderais, retribuíra-lhe o mal com o bem, sustara-lhe a mão criminosa para que não cometesse um auto-homicídio.
Sua aparência já indicava um ser super-terreno, parlamentário de Deus.
Não se lhe apresentara mais enfezado e doentio, mas formoso, alvinitente qual querubim.
Perdoara-lhe o sofrimento que lhe infligira, amava-o pois, ainda.
Ah! a Morte que ele amaldiçoava, quando ela lhe enregelou nos braços o filhinho adorado... era, então, a ventura e não o Nada e a desdita, como supusera!...
A alma é imortal — pensou então, sentindo a realidade desse postulado.
Dir-se-ia ser ele quem no seu âmago segredara aquela verdade e isolava-o do seu corpo físico, tentando seguir o adejo da visão celeste...
Jamais — fossem mais rudes as refregas da dor que lhe combalissem a alma — quaisquer dúvidas lhe pairariam na mente sobre a verdade radiosa a que fora levado pela desventura e pelo amor santificante de René.
Cessou de lastimar e, num impulso de contrição e reconhecimento, prosternou-se e orou longamente, fixando o local onde surgira o vultozinho fulgurante.
Percebeu, então, que, em todo o transcurso daquela peregrinação terrena, o bálsamo da Fé se lhe impregnara nos refolhos do espirito, arrefecendo-lhe as dores, encorajando-o a suportar o madeiro penoso das provas aspérrimas. ..
Poucos dias após, com as forças físicas recobradas, Dusmenil chamou Ariel e disse-lhe:
— Meu amigo, resolvi reencetar minhas viagens que, creio firmemente! — agora só terminarão com a minha vida...
Pressinto que não tornarei a estas paragens...
Se tal suceder, voltarás com Fabrido, que vou levar em nossa companhia e procurarás o meu notário, pois lego-te o suficiente para que vivas tranquilo e com principesco conforto, mesmo que tua existência se prolongue mais de um século!
— Senhor! — respondeu-lhe Hamed com tristeza e humildade — não julgueis que vos sirvo por cobiça, mas por dedicação...
Que me importam a opulência e a vida sem o meu senhor?
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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 15, 2018 11:56 am

Morrerei de saudade sobre o vosso longínquo sepulcro...
— Obrigado, Ariel!
Quanto me atacam os acerbos pesares, essas palavras que revelam dedicação sublime s excepcional!
Bem sei quanto és nobre e abnegado.
Não se paga cm moeda o que é inigualável na Terra — a amizade desinteressada e fraterna, que é o diamante mais valioso da jazida das almas puras!
Quero, porém, que a tua velhice abençoada fique ao abrigo das vicissitudes da sorte.
Dusmenil fitou o hindu, que emagrecera ainda mais, depois que lhe aparecera, quando faleceu René.
Estava tisnado, eril, taciturno, mumificado. Curvou-se por momentos e cerrou os olhos de onde manavam lágrimas, que Dusmenil supôs de reconhecimento profundo, não suspeitando que eram arrancadas ao pelourinho da consciência contundida e fustigada pelo inflexível e bendito verdugo — o remorso!...
Parecia o espectro de um réprobo que chorasse, perante o tribunal divino, o resgate dos seus crimes execrandos...
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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 15, 2018 11:56 am

CAPITULO IV
Heloísa realizara a viagem de retorno ao Solar de Argemont semimorta, e da liteira foi transportada ao leito.
Chamado um médico, este por alguns dias temeu não poder combater-lhe a febre e o delírio ininterruptos.
Quando ela obteve algumas melhoras, já não era a formosa filha dos Condes de Argemont, cuja perfeição venusina causava admiração geral; consumira-a a combustão orgânica; faces cavas e jaspeadas, os olhos profundaram-se nas
órbitas, os ossos ameaçavam perfurar- -lhe a pele.
Se a vissem quando a febre aplacou, não a reconheceriam o esposo e o ultriz Ariel:
diriam que fora substituída a encantadora Heloísa, pelas caladas da noite, por outra criatura já encerrada num sepulcro e, então, era a imagem fiel da Dor e da Desolação...
Quando, transcorrida uma quinzena, recobrou a razão e lhe arrefeceu a febre, chamou a infatigável Marta, que se desvelava por ela e disse-lhe com voz quase imperceptível :
— Senta-te e veste-me.
Vou regressar à casa de Gastão.
Vendo-me, agora, ele não terá ânimo de expulsar-me outra vez...
Sei que o meu adorado René está enfermo e chama por mim...
Só a minha presença poderá salvá-lo...
Quero morrer a seu lado!
Não sei que força potente me trouxe até aqui, arrancando-me dos braços de René...
Se Gastão não me receber, morrerei à sua porta e, compreendendo quanto tenho sofrido, ele se arrependerá de ter ouvido o maldito hindu!
— Que dizeis, senhora? — falou a criada em pranto.
No estado em que estais, podereis viajar?
— Jesus há-de reanimar-me.
Apiedado de mim, levar-me-á até onde se acha o meu idolatrado René.
— Por Deus, senhora, desisti desse intento!
Perderíeis a vida ao ser transportada à liteira!
— Tu desconheces as energias maternais, Maria; elas poderão erguer do leito de agonia uma progenitora... sabendo esta que o filhinho está prestes a resvalar num abismo... e que pode salvá-lo!
— Perdoai-nos, senhora! mas não devemos cumprir agora vossas ordens!
— Irei carregada até à liteira.
Não tenho, acaso, servos dedicados que me queiram fazer a última vontade?
Serei generosa para todos...
— Senhora, sois idolatrada por todos os vossos servidores. .. mas, por isso mesmo, nenhum quererá concorrer para vossa morte!
— Manda, então, um portador ao castelo de Dusmenil para saber o estado de René.
Morro de inquietação, Marta!
Numa angústia indefinível, esperou o regresso do medianeiro que fora a Arras saber novas de René... que já se havia alado às regiões luminosas dos redimidos e por ela chamara até ao derradeiro alento...
Esse portador fora prevenido pelo médico assistente de Heloísa, para não revelar a dolorosa verdade, já conhecida em todas as cercanias de Argemont.
Ao vê-lo de volta, interrogou com ansiedade:
— Como passa o meu adorado anjinho?
— Ligeiramente enfermo, senhora...
— Viste-o?
— Sim!
— Onde?
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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 15, 2018 11:56 am

— Brincando no parque...
—- Qual o seu aspecto?
— Doentio, como sempre...
O Sr. Dusmenil vai levá-lo a Paris, esta semana, ao consultório de um médico eminente.
— Porque não manda chamá-lo?
René achará penosa a viagem...
Foi ele quem to disse?
— Sim, senhora.
— René chora por minha causa?
— Sim, mas o Sr. Dusmenil não se descuida um momento de o consolar, para que se não lhe agrave a moléstia.
— Tenta fazer com que me esqueça — considerou com inaudita amargura.
Depois novamente se dirigiu ao emissário:
— Como hei-de saber noticias de René, Gontran?
— O Sr. Dusmenil preveniu-me de que, se a criança piorar, avisar-vos-á.
Caso contrário, podeis ficar tranquila, que o menino está melhorando com o novo tratamento a que o estão submetendo.
Poucos dias após esse diálogo, estando já convalescente, Heloísa, reclinada em uma “chaise-longue” no alpendre do solar, alongava tristemente a vista na direcção da estrada de Arras.
Profunda melancolia ensombrava-lhe o rosto descarnado, que se tornara de neve.
A recordação dos últimos sucessos deixara-lhe a alma como que repleta de escombros, desfizera em cinzas o seu passado venturoso e o seu porvir; sentia-se árida, qual região devastada por um cataclismo sísmico.
Parecia-lhe que um terremoto a atingira, estilhaçando no íntimo todas as aspirações, todas as esperanças do futuro e tornando-a um ser diverso do que fora até então, com o coração dorido, assolado pelo “simoun" da desventura...
• •
Caia a tarde. Pinceladas de púrpura liquida tingiam o Ocaso, qual se um Rembrandt invisível começasse a esboçar uma tela portentosa, destinada a algum soberano artista...
Heloísa, assim recostada na espreguiçadeira, adormeceu bruscamente, qual se fora anestesiada por médicos invisíveis, Esculápios das Academias siderais.
Deu-se, então, a exteriorização do seu olhar psíquico, abrangendo paragens longínquas e desconhecidas.
Cuidava deslizar pelo firmamento invertido, pisar brandamente sobre flores luminosas e alcatifas de névoas multicores, com a maciez do arminho.
Invencível torpor manietava-lhe todo o corpo, tornando-o imóvel e rijo.
Bruscamente, começou a vislumbrar uma claridade argentina, como se a Natureza estivesse envolta em gaze nupcial, de prata eterizada.
Viu, em paragens desconhecidas, mas encantadoras, flores primorosas, parecendo talhadas em lâminas de pedras preciosas, de todos os matizes, algumas fosforescentes, outras cintilantes.
Sentia-se deslumbrada, mas, profundamente triste.
Súbito, dulcíssima voz — a mesma que costumava ouvir nos momentos aflitivos — vibrou-lhe estranhamente no intimo, sem divisar quem a emitia, e como que evo- lada daquelas flores paradisíacas:
— Filha querida, desprende-te das venturas terrenas que, para o teu coração sensível... foram todas consumadas!
Não vieste, desta vez, ao planeta das trevas para gozar, mas para ressarcir culpas tremendas, remodelar teu carácter e conquistar tesouros espirituais...
És rica qual descendente de monarca moscovita, mas essa riqueza não mais te pertence, é inútil para reconquistares a felicidade malograda, como a concebe a criatura humana...
Enorme essa fortuna, não basta para refazer a tua ventura esfacelada, as esperanças e aspirações derrocadas pelo ciclone das provas extremas.
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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 15, 2018 11:56 am

O ser humano é que valoriza os metais transformados em moeda.
O ouro, para Deus, é lama dourada; para Ele só tem mérito a virtude, que é ouro do Céu.
Este ouro é que estás conquistando, buscando-o nas jazidas profundas da alma, escavando-o com o alvião das provas atrozes e contundentes, fundindo-o na fornalha dos sofrimentos aspérrimos, purificando-o na caudal de lágrimas e angústias inenarráveis!
Lembra-te de que Jesus — o Arauto do Soberano universal, o mais radioso Plenipotenciário das regiões divinas — cingiu a coroa do martírio, foi humilhado, vilipendiado, ultrajado e não fruiu uma só ventura mundana; não tinha tecto nem moedas; e, no entanto, era arquimilionário no Céu, o supremo Creso dos tesouros espirituais e da suma perfeição moral...
Todos os mortais padecem por não quererem imitá-lo, porque aspiram às felicidades integrais, irrealizáveis nos orbes de expiação e regeneração e só possíveis nas estâncias siderais, onde se congregam os evoluídos, os acendrados no cadinho da dor, os invictos nas batalhas do Labor e do Dever; os que baniram do coração os detritos do Mal, todas as máculas e reabilitaram-se perante o Criador, julgados nos tribunais dos mais incorruptos magistrados celestes, resgataram todos os débitos nefandos, atingiram o aprimoramento psíquico disseminando o Bem a mancheias, como fez o Nazareno...
Ouve, Heloísa: todos os gozos terrenos estão esgotados para a tua alma nobilíssima... excepto um — o maior, o mais intenso de todos:
o que provém da prática da virtude máxima — a divina Caridade!
Esquece que tens um coração dilacerado, que foste caluniada, que passaste pela prova aspérrima da fidelidade, para só te recordares que, sob tectos de palha, em mansardas infectas, se abrigam seres humanos entanguidos pela nudez, pelo frio, pela fome, pela miséria, pela dor, enfim...
Ampara os desalentados; estanca as lágrimas de amargura; veste os órfãos e os valetudinários; conforta os aflitos; conclui, enfim, tua derradeira
encarnação — que o será se a terminares com um fecho de luz! — com a divina apoteose do Bem!
Se assim o fizeres, alcançarás a definitiva redenção.
Aqui, nesta região de belezas surpreendentes e imateriais, é que se deverá efectuar o encontro definitivo e perpétuo do teu Espirito com o de René...
— Não o verei mais, então, nesta existência, bom amigo?
Será que já deixou a Terra?
— Não — respondeu-lhe a voz melíflua do piedoso mentor invisível.
Esta palavra — “não” —, tão breve em extensão léxica, pareceu-lhe incomensurável naquele momento, repercutiu-lhe no intimo clangorosamente como o ribombar de um trovão; cindiu-lhe o coração de alto a baixo, qual punhalada desferida por mão vigorosa, mas intangível...
— Dizei-me, compassivo amigo, toda a extensão da minha desventura: não mais poderei beijar meu adorado filhinho, receber suas carícias, satisfazer esta ansiedade que me devora de vê-lo, de arrefecer nalma a chama voraginosa da saudade?
— Não — tornou a mesma voz dulcíssima, porém trémula como um gemido, enregelando-a, impregnando-se-lhe no intimo como a sensação de uma procela de neve.
Ela, súplice, soluçava convulsivamente.
De repente, distinguiu um coração de rubi, luminoso, pairando no Espaço, trespassado por um sabre dourado, e como fendido por um venábulo de sol tropical...
Lembrou-se do coração de Marcos esfacelado por seu infame ludibrio, lembrou-se da pulcra Mãe de Jesus na capela do internato, confirmando-se-lhe, assim, seus dolorosos presságios, quando supôs que a Mártir celeste lho havia apontado, parecendo dizer-lhe:
“Também serás mãe e teu coração amoroso será dilacerado pelo gládio ferino do sofrimento e da saudade!...”
Por inexplicável repercussão, julgou que ao mesmo tempo, de um só golpe, aquele sabre radioso feriu o formoso coração sideral e o seu, até ao âmago, até à profundeza insondável do seu ser...
Um pesar indefinível rasgou-lho, entranhando-se-lhe por todo o ser, forçando-a a levar a destra ao seio, como para arrancar dele o íntimo encarcerado, que gemia e palpitava desordenado na sua cavidade; mas, subitamente, o coração que se librava nos ares foi-se diluindo, desfeito em gotas fúlgidas, como que metamorfoseado em sangue lúcido ou em rubi liquefeito...
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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 15, 2018 11:57 am

Teve a impressão de que ia tombar ao solo para jamais se erguer, mas, repentinamente, divisou um gracioso vulto de criança a seu lado, cingindo-lhe o pescoço com os bracinhos de névoa cetinosa.
Conchegou-o ao seio angustiado, e deu um grito ao reconhecer o seu idolatrado Renfi...
— Como conseguiste fugir de teu pai? — interrogou, ansiosa, prestes a desmaiar de alegria.
— Facilmente, mãezinha, adorada... há vinte dias! Doravante, não mais voltarei à Terra senão para velar por vós, por ti e por ele, beijar-vos em sonho...
Espero-vos “aqui”, orando por ambos...
— Oh! filhinho querido! então já deixaste para sempre o mundo de sofrimentos?
— Sim. Findei minha breve mas dolorosa missão terrena.
Já estou redimido pela dor e pelo cumprimento estrito de meus deveres, em múltiplas existências e séculos de crimes e de expiações pungentíssimas, mas que eu bendigo agora e sempre!
Resgatas também, mãezinha, até ao último ceitil, o teu débito com o Banqueiro divino.
Ainda permanecerás algum tempo no Solar de Argemont.
Esforça-te por preencher proveitosamente esse tempo, lenindo as amarguras do nosso semelhante, balsamizando o padecimento dos que te buscarem nas horas de adversidade.
Não esmoreças, mãezinha adorada!
Ver-me-ás em sonho, algumas vezes, para saciar teus arroubos de ternura.
Lá. não mais me vereis, conforme esclareceu o nosso dedicadíssimo Mentor espiritual.
Recebe, pois, com ânimo cristão, o talvez último golpe desta gloriosa etapa.
Serás plenamente reabilitada perante aquele que te feriu profundam ente.
Deus fará justiça.
— Oh! meu Renêzinho querido, é impossível viver sem o conforto dos teus carinhos!
E uma prova acima das minhas forças...
— E o fecho áureo das tuas expiações terrenas.
É o preço da redenção!
Vencerás a prova suprema com o amparo dos que te amam e protegem invisivelmente — dos teus cireneus celestes...
Subitamente, foi despertada por suavíssimo ósculo na fronte e pareceu-lhe sentir o contacto das mãozinhas diáfanas do filhinho estremecido, a lhe cingirem o pescoço.
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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 15, 2018 11:57 am

CAPÍTULO V
— Marta! — disse a castelã com voz sumida e trémula.
A serva, que a observava compungida e atenta, acudiu logo.
— Que desejais, senhora?
— Aproxima-te...
— Não me vêdes? Estou a vosso lado.
Que é o que vos faz sofrer?
— Diz-me a verdade, Marta, se é que me consagras alguma afeição, como suponho:
o meu René adorado já não é mais deste mundo?
A rapariga perguntou:
— Quem vo-lo disse?
— Quem? Ele próprio, Marta!
Não tentes mais encobrir a realidade... que me vai levar ao túmulo!
Meu coração está dilacerado.
Não tenho lágrimas para chorar
minha desdita.
Vês? É minhalma que se desfaz em prantos e ninguém, senão Deus, pode percebê-los!
Como suportar, sem desalento, o peso desta saudade infinita e a falta das suas caricias?
Porque me feriu tão cruelmente aquele a quem consagrava a mais pura das afeições?
Que fiz para merecer tão dura expiação?
Mas, perdoai-me, Pai clementíssimo:
eu sou a ovelha criminosa, desgarrada há muito do rebanho divino, e que chamastes novamente ao Aprisco de Jesus, com o cajado radioso... da dor!
Eu minto, quando digo não poder resistir aos embates desta desventura, sem os beijos e carinhos do meu Renêzinho, visto que acabo de tê-lo conchegado ao seio e de oscular-lhe a fronte seráfica...
Dai-me, pois, coragem para libar a derradeira gota da taça de amargura, tal como concedestes ao boníssimo Pegureiro dos desditosos pecadores!
Marta, lacrimosa e compungida, ajoelhou-se, murmurando:
— Senhora, NOSSO filhinho não pertencia à Terra vil: era um anjo que a ela desceu por pouco tempo!
— Pois já o sabias, Marta? — interrogou Heloísa, angustiada.
— Sim, senhora, desde que o emissário regressou.
O Sr. Gastão Dusmenil estava inconsolável com a morte do menino...
— E... e o maldito Hamed ainda lá está?
— Sim. Ele o Sr. Dusmenil vão partir para uma longínqua região cujo nome ignoro!
— Oh! Deus!
Parece que a iniquidade triunfa, mas, eu creio na vossa justiça.
Marmórea lividez cobria-lhe a face descarnada.
A serva, alarmada, ergueu-se dizendo:
— Vou chamar o médico, senhora.
— Não, Marta; os médicos não curam as chagas da alma.
Meu mal é incurável.
Leva-me para o leito.
Quero que me deixes isolada algumas horas.
A dedicada rapariga, amparando-a nos braços robustos, conduziu-a ao leito e ministrou-lhe um cordial.
Vetou por ela alguns dias, durante os quais Heloísa apenas pronunciou poucas palavras, empolgada por apatia e desalento invencíveis.
Quando, algumas semanas depois, percebeu serenada a borrasca que fustigava aquele espirito boníssimo, só afeito à ternura, à bondade e â pureza, a solícita serviçal prosternou-se-lhe aos pés, murmurando com os olhos enxutos por um lenço já húmido de lágrimas:
— Senhora, perdoai-me!
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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 15, 2018 11:57 am

Perdoai-me pelo amor de Deus!
Heloísa, engolfada em profunda tristeza, descerrou as pálpebras e interrogou:
— Porque me imploras perdão?
Que fizestes de reprovável?
Pois não foste a única criatura que me cão abandonou nas horas de suplício moral?
— Oh! senhora, ainda que sacrificasse por vós a minha miserável existência, não sanaria o mal irreparável que vos causei.
— Que fizeste, então, digno de punição?
— Fui eu, senhora... que dei azo à calúnia que Ariel forjou contra vós!
— Que dizes?!
— A verdade, senhora, confesso-o sem rebuços.
Expulsai-me. depois de me ouvirdes, se julgardes que o mereço.
O que não posso é viver oprimida por este remorso que me rescalda a consciência dia e noite, vendo-vos definhar na dor inconsolável... de que me julgo causadora!
Soluçante quase, Marta confessou-lhe:
— Logo nos primeiros anos de mocidade, mal saindo da infância, afeiçoei-me a um bondoso camponês, que me correspondia com lealdade.
Teve ele, porém, de prestar o seu concurso à França e partiu para a Argélia revolucionada, deixando-me grande pesar.
Só me dava lenitivo a ideia de que, quando regressasse, realizaríamos o nosso modesto casamento.
Aconteceu, porém, ser ferido por um estilhaço de obus, e, durante um ano, não deu noticia alguma.
Constou na aldeia que ele havia morrido em combate.
Quem trouxera tal noticia? Só mais tarde o soube...
Eu vivia chorando ocultamente, para não contrariar meus pais, que exultaram com a morte do rapaz; tinha o coração enlutado, oprimido de pesar e saudade, e alguém se regozijava com o meu martírio...
Um outro rapaz que, havia muito, amava-me sem ser correspondido e tornara-se o pretendente desejado por minha família, começou a frequentar nossa choupana e tantas aleivosias urdiu contra o que andava por longínquas terras, ou já havia baixado ao túmulo, que todos lhe deram crédito.
Eu não sei ler, senhora.
Essa desventura, indiferente aos rústicos, para mim constituiu, sempre, um profundo dissabor.
O analfabeto é um ser incompleto, diverso da humanidade culta, aleijado espiritual, cego de olhos perfeitos e límpidos, racional que se aproxima dos animais, irresponsável pelos erros que comete com a consciência ofuscada pelas trevas da ignorância!...
Quanto desejava então, mais que actualmente, saber transmitir ao longe meus pensamentos, e inteirar-me da realidade, por mais penosa que fosse !...
Permutar ideias com quem se ama, em alva folha de papel, ê enviar e receber um pedaço d’alma, de ternura, de consolo, de esperança, tornando menos acerbas as horas de recordações, de saudades, de amarguras...
Mas perdoai-me, senhora, se vos relato meus íntimos segredos, uma vez que o faço para que me julgueis, qual se fosseis o mais austero dos sacerdotes.
Um dia, André, o meu detestado pretendente, apareceu em nosso tugúrio com uma carta que afirmou ter-lhe sido confiada pelo agente do Correio.
Alvoroçada e palpitante, estive com essa carta nas mãos e, supondo-a enviada pelo querido ausente, não desejava que outrem a abrisse, senão eu, para que ninguém profanasse os seus arroubos afectuosos...
Apertei-a no seio, olhos marejados, desejando que as palavras de amor, ali decerto escritas, fossem adivinhadas e lidas por meu coração saudoso e comovido.
Meu pai, ríspido e agastado, estendendo as mãos trémulas de cólera, para arrancar-ma, bradou:
— Não sabes ler, Marta; porque não entregas "esta carta” a André, a fim de sabermos quem a escreveu?
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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

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Tens, acaso, na vida, algum segredo maldito, que me queiras ocultar?
— Oh! pai, minha vida tem sido honesta e pura, mas não posso confiar "a todos” o que meu noive me transmite de longe!
— Pois eu te ordeno que entregues esta carta a André, para que a leia!
Teu noivo é esse e não aquele que, se ainda não tem a alma no inferno, não teve mão para escrever-te durante um ano!
Quase desfalecida, deixei a carta fatal cair-me das mãos e, apanhando-a, André pressuroso rasgou o envelope e fez a leitura em voz alta para que todos se inteirassem do conteúdo...
Oh! senhora! Julguei que fosse enlouquecer!
Em vez de palavras de carinho e saudade, seus dizeres revelavam o maior indiferentismo, terminando com um rompimento definitivo, pois que Gontran afirmava não pretender voltar à nossa aldeia para realizar o casamento, e dando a perceber que, onde estava, seu coração já palpitava por outra...
Adoeci, por muitos dias, delirando em febre e desespero! O amor que consagrava ao meu primeiro noivo foi substituído por ódio e desprezo...
Pouco depois desse episódio, realizava meu consórcio com André, como sabeis.
Ele logo se mostrou o que é: brutal e vingativo.
Um dia, disse que nunca me consagrara afeição, mas, inimigo de Gontran, quis que lhe eu correspondesse, para o tornar desventurado quando voltasse.
— E a carta do meu ex-noivo? — interpelei ansiosa, suspeitando pela primeira vez uma cilada odiosa...
— Fui eu que a escrevi! — respondeu soltando gargalhadas escarninhas.
— Separa-te de mim, miserável traidor! — disse-lhe no auge da exasperação.
— Nunca! Abomino-te porque sempre me desprezaste, mas quero que, quando “ele” aqui volte, saiba como as mulheres são fieis e como me vinguei de ambos!
Sabeis, senhora, quanto meu marido me maltrata.
Nossa vida em comum tem sido um tormento constante.
Há poucos meses, inesperadamente, Gontran voltou da Argélia, onde esteve trabalhando após o serviço militar, tendo amealhado um pequeno pecúlio, aliás destinado à realização do nosso casamento.
Evitei-lhe a presença o mais possível.
Uma feita, encontrei-o ao regressar do mercado e ele, ao ver-me, pálido de emoção, com os olhos brilhantes de lágrimas, disse-me:
— Que fizeste, Marta?
Para justificar-me, tudo lhe contei.
Asseverou que escrevera inúmeras vezes e só recebera uma carta minha* — aquela em que lhe comunicava meu casamento com André!
Não acreditando em tamanha falsidade, viera inteirar-se da verdade, infelizmente confirmada!
— Fomos infamemente traídos, Gontran, fizeram- -nos ambos desgraçados!
Conversámos longamente e ficou patente a felonia, a perversidade de meu marido, a quem há muito venho odiando.
Ele me agride brutalmente por motivos frívolos, para que Gontran o saiba e sofra com a minha desdita!
Há meses, o perverso André foi chamado pelos parentes, que residem no sul da Itália; e seu pai, gravemente doente, não permite que ele volte antes de falecer.
Sabendo-o ausente, Gontran procurou ver-me com frequência...
A verdade, porém, é que nós nos adoramos e eu deixei de cumprir os deveres de esposa leal.
Para que ninguém nos surpreendesse, abria-lhe um porta do castelo e passávamos horas, às vezes lamentando a nossa situação, outras maldizendo o cruel ausente, ou chorando o nosso infortúnio, considerando-nos desgraçados por termos de ocultar, aos olhos de todos, o nosso profundo afecto.
Hamed que, qual faz o lobo ao redil, vivia rondando o castelo, viu-me abrindo a porta do saguão a Gontran e assenhoreou-se do nosso segredo, ou melhor — do nosso crime.
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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 16, 2018 10:24 am

— Vou contar ao André e ao Sr. Dusmenil o teu infame proceder! — falou-me, com calma e crueldade.
Apavorei-me, aguardando a volta do meu e do vosso marido.
Pensei, muitas vezes, em pôr termo à existência.
Ariel, para testemunhar o que presenciara, acordou Fabrício e ambos perseguiram Gontran, de punhal alçado, intimando-o a não mais entrar no castelo.
Vivi, desde então, em mortal desassossego.
Poucos dias depois da lamentável aventura, disse-me o terrível hindu:
— Se quiseres que guarde segredo, haja o que hou- ver, quando o Sr. Dusmenil regressar não profiras uma palavra em defesa da esposa!
Se não cumprires o que ora te proponho, matar-te-ei como a um cão asqueroso.
Se tentares fugir, irei no teu encalço, pois, por meio de sortilégios, descubro o paradeiro de quem quer que seja, e, então, não escaparás à minha vingança...
Eis porque, desejando dizer a verdade a vosso esposo, acovardada não o fiz.
Aquele diabólico Ariel exerce uma influência indomável sobre mim: eu o temo como ao próprio Satanás!
Não posso, porém, continuar com o coração abrasado de remorso.
Poderia ter justificado a vossa inocência perante o Sr. Gastão e não o fiz, deixando desencadear sobre vossa cabeça uma tempestade de dores irreparáveis!
Agora, se é verdade que o malvado Hamed lê, a distância, os pensamentos e vier tirar-me a vida, serei feliz terminando o suplício em que vivo, com o coração devorado pelas chamas da compunção; mormente depois que vos vejo chorar pelo adorado René, que embalei nestes braços e a quem amava como se fosse meu filho.
Fui eu, pois, quem, involuntariamente, impelida por um celerado deu causa a que urdissem contra vós uma execranda calúnia...
Agora, quero' ouvir a vossa sentença, por mais severa que seja.
E, se for condenatória, terei a precisa coragem de atirar-me no fosso de Argemont, preferindo a morte ao martírio em que vivo!
Heloísa ouvi-a, apiedada e pávida, vendo-a contorcer-se em espasmos de sofrimentos indefiníveis.
Ela, naqueles momentos de angústia, compreendeu que a humilde e compungida serva, ajoelhada a seus pés, soluçante e desventurada, talvez fosse uma das almas ligadas à sua pela trama do Destino, que só Deus urde e pode deslindar.
Não teria sido Marta, em transcorridos avatares, sua conivente nalgum delito nefando, ou prejudicada por sua vontade despótica e invencível de soberana ou miliardária?
Porque aqueles dois seres — Marta e Hamed — surgiram inesperadamente na via florida da sua existência, para destruir-lhe toda a felicidade terrena?
Porque seu amigo invisível e René lhe haviam dito que fora consumada a prova definitiva para o resgate de todas as faltas pretéritas?
Não teriam sido, pois, no plano misterioso do Espaço insondável, elaborados todos os tormentos santificantes que lhe cruciavam o sensível coração?
Não estaria remindo com lágrimas pungentes todos os débitos para com o In criado?
Não fora também perjura e pérfida?
Não são as existências terrenas solidárias entre si, ressarcindo-se em umas os delitos das anteriores, tal como ao som precede a vibração?
Não reconhecia, naquela serviçal, um espirito conjugado ao seu, indissoluvelmente talvez?
Não era um coração ulcerado, a patentear seus mais Íntimos dissabores para receber uma palavra de conforto ou de compaixão?
Pérolas de pranto rolavam pela face esmaecida de Heloísa.
Fitou o crepúsculo através dos vitrais coloridos de rubro, como num lago nenúfares lúcidos, que, aos poucos, se fossem desfolhando e submergindo em liquido luminoso.
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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 16, 2018 10:24 am

Não era além, naquelas paragens maravilhosas, que se achavam congregados seus bondosos progenitores e René, aguardando-a sôfregos, e fruindo uma serena ventura em vão aspirada na Terra?
Era de mister relevar os erros dos seus companheiros de jornada, esquecer as ofensas que lhe fizeram seus algozes, alijar de si a tara dos delitos, acendrando-se pelo sofrimento, tomando-se alva como as açucenas do miado...
— Ergue-te Marta — disse com brandura —, tu não és culpada do que sucedeu e sim o perverso Ariel, que planejou e pôs em execução uma odiosa trama urdida contra mim, sabendo-me esposa honesta e fidelíssima.
Ele, somente ele é responsável pelas desventuras que destruíram o meu lar invejável.
Ariel não ignorava que ia ferir uma inocente.
Deus fará justiça a quem merece.
Eu te perdoo haveres silenciado no momento em que podias justificar minha ilibada conduta, sei que não agiste por ti mesma e sim fascinada por aquele nefasto hindu, que domina, qual serpente, as vítimas indefesas que lhe caem nas ciladas diabólicas...
Uma desditosa, como eu, expulsa do próprio lar pelo marido idolatrado, não deve fazer o mesmo à outra que se humilha e confessa, compungida, as suas faltas graves...
Quero, porém, Marta, que jamais e sob qualquer circunstância, transgridas teus deveres morais.
Sacrifica a felicidade momentânea do amor ao eterno Dever.
Tens uma alma responsável perante o Juiz Supremo e considera que, para Ele, não há sombras nem crimes ocultos.
Não há trevas que interceptem a visão luminosa e penetrante do Astro-rei do Universo.
Marta, não manches teu Espirito, para que se faça mister purificá-lo com lágrimas de dor profunda, com as provas mais tormentosas!
Deves erguê-lo do abismo do adultério às radiosas regiões da Virtude.
Sofre com resignação todas as amarguras terrenas, todas as injustiças, mas não te tisnes com a lama do pecado!
Vivo meio à desventura que me revolve no coração o punhal da prova, eu reconheço que neste mundo só há uma felicidade que ninguém nos poderá roubar, incompreendida pelas almas torvas e pecadoras — a consciência recta, serena, impoluta! Não procures outra no vale dos gemidos em que nos debatemos, como náufragos de um mar enfurecido — porque não a encontrarás!
— Ah! senhora! — exclamou a serva ainda súplice — como sois bondosa e nobre!
Que alivio destes a este coração que de há muito vinha sendo devorado pelas víboras do remorso!
Já que me não condenastes nem expulsastes, quero servir-vos até ao derradeiro instante de vida, como se fosse vossa escrava!
Ninguém, senão morta, poderá arrancar-me do vosso serviço!
Só me apartarei de vós quando me levarem ao sepulcro, e, se Deus o consentir, ainda vos seguirei, minhalma será a sombra da vossa!
Não me abandonareis também, senhora, pois se o fizésseis eu me mataria.
Protegei-me contra o furor de André, que não tarda a chegar da Itália!
Eu o odeio tanto quanto ele a mim... mormente depois que soube toda a extensão de sua vilania, furtando-me a correspondência do meu ex-noivo...
— Vou reflectir no que tenho a fazer, Marta.
Aconselho-te, porém, a te humilhares, já que te vingaste de André, transgredindo os teus deveres conjugais.
Redime essa mancha do teu espirito com o sacrifício e o sofrimento.
Tudo farei para que te eleves moralmente.
Vou criar uma escola nocturna, para adultos.
Quero que a frequentes.
A ignorância justifica muitos crimes e muitas faltas.
Se não fosse s analfabeta não terias sido vilmente iludida.
Deixa-me, agora.
Desejo ficar só... com a minha dor infinita!
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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 16, 2018 10:25 am

CAPITULO VI
Mais um ano decorreu sem aparente mudança na existência de Heloísa, que não chegou a recobrar integralmente a saúde e vivia adarvada em tristeza invencível.
Jamais um sorriso lhe aflorava aos lábios, tal como a Jesus sucedera.
Continuava reclusa no seu formoso solar, como se estivesse num claustro, tendo por único objecto disseminar conforto e benefício aos que dela se socorriam.
Auxiliava as jovens camponesas dos arredores de Argemont e das aldeias vizinhas a adquirirem modestos enxovais.
Criou escolas diurnas para a infância e nocturnas para adultas.
Muitas vezes ia assistir às prelecções dos mestres que regiam os colégios por ela mantidos, e, tomada de súbita inspiração, falava às crianças e aos fatigados trabalhadores, que dessedentavam o espírito com o orvalho luminoso da instrução, qual se fora uma entidade baixada das regiões cerúleas.
Comprazia-se no convívio das criancinhas, afagando-as com carinho e tristeza, dando-lhes confeitos e bonecos nos dias festivos.
Uma vez, assistindo-lhes à retirada do colégio, notou que um menino de sete a oito anos, do porte e compleição de René, destacando-se dentre todos pelas vestes alvíssimas, fitou-a, sorrindo.
Nunca havia notado a sua presença e quis sustê-lo pelas vestes, mas logo que fechara a destra, a graciosa aparição se esvaeceu, qual névoa matinal aos primeiros raios solares...
Esse inesperado fenómeno psíquico comoveu-a intensamente.
Ficou profundamente emocionada, mas sentiu inefável conforto e novo alento para prosseguir a nobilíssima e magna tarefa, que o filhinho adorado a induzira a executar.
Nesse comenos, inesperado sucesso abalou vivamente os habitantes das terras de Argemont.
O esposo de Marta, carácter irascível, turbulento e agressivo em constantes querelas com os companheiros de trabalho e a consorte, por motivos frívolos esbofeteou um camponês e foi por este apunhalado.
E depois de algumas horas de agonia dolorosa, expirou blasfemando.
Marta, sentimental e compassiva, perdoou-lhe todos os agravos, mas não deixou de sentir um lenitivo às suas desditas, por havê-la libertado o Pai clementíssimo, de um algoz implacável.
Agradeceu, de mãos postas, a mercê recebida.
Mais que nunca, desvelou-se então por Heloísa, que, sempre melancólica, definhava lentamente, sem murmurar um queixume e espargindo consolo e alento aos enfermos e aos desventurados.
Um dia, em que Marta em vestes de luto lhe aguardava ordens, disse-lhe:
— Estás livre do jugo e da tirania do infeliz André.
Tua prova foi mais breve e mais suave que a minha.
É tempo de experimentares se Gontran te estima realmente.
Escreve-lhe — pois que já sabes grafar teus pensamentos — narrando o sucedido e, se ele estiver bem intencionado, há-de procurar reparar a falta que cometeram.
— Oh! senhora, sois verdadeiramente uma santa:
tão injustamente desditosa, só vos preocupais com a ventura alheia!
Que Deus vos pague, amada senhora!
Quero viver, de rojo, a vossos pés...
Que fazer para vos retribuir tanta generosidade?
— Dedicando-me alguma afeição... até que finde este meu martírio, que julgo não se prolongará muito tempo!
— Essa afeição já vos pertence, senhora; e profunda, e eterna como não a consagro a outro ser, na Terra.
Sois, para mim, qual Mãe de Jesus para os pecadores...
Poucos dias depois, Gontran apresentou-se no Solar de Argemont, e, tendo falecido o mordomo, que o era desde o tempo dos progenitores de Heloísa, entrou a substituí-lo.
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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 16, 2018 10:25 am

O casamento de Marta e Gontran realizou-se na capela do castelo, onde se efectuara o de Heloísa e Gastão.
O casal, reconhecido e ditoso, não cessava de tributar à benfeitora constantes provas de consideração e apreço.
Decorriam serenamente os dias em Argemont, não sendo turbados pela mais ténue desarmonia.
Heloísa que os preenchia com actos de altruísmo no convívio de jovens, crianças, campónios, aldeães, só à tarde se recolhia aos aposentos particulares.
— São as horas consagradas ao Céu, às preces, à meditação... e à saudade dos que se foram para o Além! — dizia com melancolia.
Nas noites quentes e estreladas, deixava as janelas abertas e contemplava, enlevada, o firmamento, desejando sondar o côncavo azulado, onde o Criador encerrou, como em veludoso escrínio, todas as fulgurantes maravilhas siderais e todos os diamantes luminosos do Universo!
Tinha, então, momentos de êxtase, de exteriorização espiritual, parecendo-lhe que a alma se evolava do frágil casulo para as regiões superiores, em demanda dos estremecidos entes que, no passado, como vibrações argentinas, enchiam-lhe de melodias a existência.
Havia instantes em que se julgava nos domínios dos Intangíveis:
ouvia um como que flabelar de asas de arminho; surpreendia jorros de luz suavíssima fendendo o espaço constelado, chegando-lhe até à fronte como cataratas de diamantes fluídicos...
Outras vezes, baixava o olhar e vislumbrava, ao longe, o mar, tão diverso da placidez do zimbório celeste, quase sempre colérico, qual hidra convulsionada agitando as escamas cintilantes, que reverberam à luz dos astros...
Nesses transportes, deixava de pertencer ao plano material, arrebatada às regiões radiosas do Cosmos; borboleteava no éter, cindia o Espaço e confabulava com Entidades cultas que percebia a seu lado, mas não podia distinguir nitidamente, como se a presença delas lhe ofuscasse ou amortecesse a vista.
Outras vezes as percebia junto de si, no aposento mesmo em que costumava repousar na “chaise-longue”.
Ouvia, qual sussurro de asas, a voz carinhosa do progenitor a confortá-la, concitando-a a prosseguir na rota gloriosa da sua trajectória terrena, refeita de dissabores, mas fértil em resultados psíquicos.
— Bem mo dizias tu, filha amada — falava-lhe ele —, que as nossas existências são solidárias.
A Fénix legendária, que ressurge das próprias cinzas, é a nossa própria alma imortal...
Quantos padecimentos, quantos transes pungentes nos seriam poupados, se, desde o inicio de nossa criação, não ignorássemos esse axioma!
Praticando o bem, evitando o mal, o Espírito se prepara um futuro isento de mágoas, de choques tremendos, que os criminosos não podem conseguir senão depois de reparados seus desatinos.
As existências trágicas são o resultado de nefastos delitos antes perpetrados.
Actores que somos todos, no palco do Universo, os que só representam dramas ou tragédias sangrentas, empunhando armas fratricidas, têm, forçosamente e por muitos anos, de suportar vidas agitadas, tumultuosas; tomar parte em cenas sanguinolentas e desastrosas, até que, remidos de seus erros, amando vidas calmas e humildes, acendrado o Espírito no Jordão purificador das lágrimas e conquistadas todas as virtudes, possam desempenhar missão de paz, de amor espiritual, em que imperem os sentimentos dignificadores.
Tu, filha querida, vieste das altas castas sociais:
já reinaste soberbamente e já cometeste erros execráveis...
Já caluniaste amigas, já traíste cândidas afeições.
Já foste mãe desnaturada, esposa infiel, vingativa e impiedosa:
todos esses defeitos, como projécteis atirados de encontro a formidável muralha, não a penetraram: voltaram de ricochete, sobre quem os desferiu... no coração do seu próximo.
Agora, para que ultimes vitoriosamente as provas planetárias, é mister treinar a alma para o perdão, para o esquecimento das chagas abertas em teu coração nobilíssimo, que já foi insensível à voz da desventura! — armando o punhal traiçoeiro dos teus antigos comparsas, em cenas revoltantes de crueldade e vindicta!
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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 16, 2018 10:25 am

— Pai adorado! — segredou-lhe em surdina, de alma para alma — percebo que estais sempre a meu lado e sabeis como tenho cumprido austeramente os meus deveres...
A consciência não me acusa de haver cometido o mais leve delito; não a tenho mareada pelo mais ténue desdouro...
Fui, porém, muito ultrajada e ferida no âmago do meu ser:
parece-me que, desde que me separei do idolatrado René, tenho o coração retalhado, esfacelado por invisível adaga...
Não tenho, ainda, a precisa coragem para olvidar os injustos agravos de Gastão, com o agasalho às cavilosas maquinações do perverso Hamed...
— Injustos agravos, disseste, minha Heloísa?
Oh! filha amada: quem é Ariel?
Comparsa ou conivente de todas as tragédias do teu passado na Terra, e que, por tua causa, sob a tua maléfica influência perpetrou os mais bárbaros crimes, manchou de sangue a mão que assinava sentenças iníquas, ceifando vidas preciosas, empunhando armas fratricidas, e que reaparece agora, antes que desça o velário da tua última prova terrena.
Pois não compreendes, filha querida, que ele e Gastão foram teus aliados no mal?
Ainda o saberás, com todos os detalhes, e compreenderás quem foste...
Não podemos, por enquanto, temendo perturbar-te a razão — não podemos revelar-te totalmente a verdade nua, antes de deixares esse mundo...
Os seres que supomos mais ínfimos, os fâmulos, todos que gravitam em nossos lares, estão, quase sempre, e por todo o sempre, vinculados às nossas existências, para que possamos reparar injustiças, delitos abomináveis, e não lhes transmitirmos ordens arbitrárias, pois, no passado sombrio, foram executores do nosso arbítrio, em detrimento dos nossos semelhantes.
Tens hoje uma serva dedicada — Marta, cuja afeição incondicional conquistaste com o perdão e clemência.
Pois bem:
já lhe causaste muitos danos, já a compeliste à prática de vilezas e ignominias, e só agora te tomaste benévola e compassiva para com ela.
Começaste a burilar o diamante informe da sua alma, que jamais se desligará da tua, e norteando-a para a luz da Virtude e do Dever!
Consumada, agora, a tua breve expiação, iniciarás missões sublimes, que consistirão no elevar e orientar as criaturas ainda vacilantes no carreiro da Moral.
Marta será uma das tuas tuteladas espirituais.
Ora sempre com ardor para triunfares de todas as provas terrenas, assim como um Templário por sobrancear a comprovação positiva de sua têmpera moral.
Aceita, sem murmurar, as supostas injustiças e sofrimentos que te forem impostos como cautérios aos carcinomas, às úlceras corrosivas do espírito, para cicatrizá-los saná-los por todo o sempre.
Então compreenderás que, sem eles, ainda terias que voltar à arena planetária por saldar, até ao último ceitil, o débito contraído com o Divino Instituto.
Não será longa tua romagem terrena, doravante.
É mister preparar a alma para o esquecimento das amarguras sofridas e retribuir, com a piedade e o perdão, os gravames que te infligiram os teus coligados de outrora!
Tudo farás imitando o modelo celeste — Jesus — que, espargindo a caridade, o consolo e a compaixão, só recebeu dos homens ultrajes e suplícios, mas soube perdoar aos pecadores, ingressando com a Alma — constelada de bênçãos e virtudes — nas mansões venturosas do Universo, que são a herança régia do nosso divino Progenitor, a Majestade Absoluta do Cosmos...
Jesus, agora e até à consumação dos evos, será o arquétipo dos que necessitam cinzelar o espírito crivado de arestas, de iniquidades, a fim de que os aformoseiem, os quintessenciem, tornando-os luminosos quais estrelas humanizadas, para ascenderem às paragens etéreas e, mais tarde, aqui voltarem a desempenhar missões nobilíssimas e gloriosas, tomando-se faróis que norteiem a criatura às Pátrias fulgurantes do Além!
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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 16, 2018 10:25 am

Todos os infractores dos códigos divinos — baseados no amor ao Dever, na Virtude, no Altruísmo — têm, como Ele, de arrastar pela “via-crucis" das expiações flagelantes, sobre os ombros magoados, o bronze do calvário dos delitos, tanto mais pesado quanto mais graves são os delitos — sorver, até à derradeira gota, a taça das amaritudes tormentosas e dos reveses redentores; colocar na fronte,
onde abrolharam pensamentos malsãos, a coroa de espinhos que penetram na alma, lacerando-a, como o fizemos aos corações do nosso semelhante, em momentos de desatino... ou de perversidade superlativa!
Carrega, pois, filha amada, o teu madeiro doloroso, cujo peso se vai aligeirando dia a dia; tomando-se imponderável, menos torturante — desde que resgataste a falta máxima dos teus remotos avatares, falta que clamava punição, que aliás não excedeu o delito cometido...
Vê: os cireneus siderais descem do Espaço estrelado para auxiliar-te a conduzi-lo ao Gólgota das provas meritórias, cujo cimo radioso já deves vislumbrar com a maravilhosa visão psíquica.
Sairás galhardamente vitoriosa, se prosseguires na faina do Bem e do Dever, e, então, em futuro não longínquo, teu Espírito lucificado ficará perpetuamente unido ao de René... e ao de Gastão!
— Oh! pai amado, porque não dizeis estas coisas ao desvelado amigo que me conforta nos instantes de agonia moral?
A... Dusmenil? Oh! não!
Sinto que uma voragem intransponível se interpôs entre ele e mim, que se não condoeu do meu sofrimento, que me apartou do Rens adorado, enfermo e frágil, tornando-se um parricida.
Julgou-me vulgar adúltera, conhecendo meus sentimentos de honestidade, minhas ideias dignificadoras!...
Para ele as acusações de um misérrimo criado tiveram maior mérito que os meus protestos e o meu passado impoluto...
— O ciúme, filha querida, alucina, endoudece a quem se lhe dobra ao jugo tirânico!
Quantos crimes execrandos, perpetrados sob o seu domínio invencível!
E1 o carrasco dos corações amantes.
É a prova máxima do afecto, mormente do conjugal.
É o egoísmo perdoável de quem ama profundamente!
Quantos punhais de Otelos hão varado corações inocentes, empunhados por uxoridas desvairados pelo despótico ciúme!
Nunca o sentiste nesta existência, Heloísa, desposando o único homem que amaste; por isso, não compreendes o que se passou no intimo de Ariel e Gastão, subjugados pelo ódio, pelo ciúme, pela vindicta — aliados sinistros na consecução dos mais horripilantes delitos. O ódio!
Oh! filha amada! esforça-te em lhe não dares guarida em tua alma nobilíssima: ele é como a labareda voraz, ateada ao próprio coração, consumindo-o, devorando-o lentamente; amortece os mais louváveis sentimentos; arma os seres para o homicídio, para a calúnia, para a vingança; cria um inferno interior, calcina todas as virtudes, lança o desespero no imo de quem o concebe, tornando-o verdugo implacável daqueles a quem mais adorava; de si próprios, da Humanidade toda! O ciúme! tormento inenarrável de quantos, apegados ainda ao mundo e aos gozos impuros, imantados às paixões vulcânicas, não consideram o homem um irmão e sim adversário temível, só desejando exterminá-lo para que ninguém possa cobiçar o objecto da sua louca afeição! Hidra de Lerna à qual, decepado um tentáculo, renascem-lhe sete; víbora que se enrosca no coração, empeçonhando-lhe todas as alegrias, todas as esperanças; espectro que segue, qual sombra aos
corpos expostos à luz, as suas vitimas, não as deixando um só momento, supliciando-as qual inquisidor invisível, mas crudelíssimo...
E foste tu, filha querida, alma cândida e lirial, que inspiraste estes algozes e tiranos da Humanidade... em dois corações que, até hoje, te consagram um sentimento indefinível — amálgama de luz e trevas, de neve e lodo pútrido!...
Quase sempre, Heloísa, é a torpeza que faz gerar paixões impuras; mas, às vezes, o faz a virtude austera que não transige, que não se conspurca, que não se vende por nenhum tesouro, fazendo germinar nos batráquios humanos — mergulhados nos tremedais dos sentimentos polutos — um amor material... pela mais bela estrela de um firmamento azul!
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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 16, 2018 10:25 am

Se tu houvesses transgredido os teus deveres conjugais, terias a dedicação e o afecto impetuoso de Ariel; repelindo-o nobremente, criaste um inimigo terrível e acérrimo.
Sofres, porque não delinquiste. fis desventurada, porque és pura.
Antes, porém, as amarguras do repúdio, o martírio da separação, as lágrimas da suposta injustiça que te feriu, do que a ventura maculada que proviesse da mais leve transgressão de um só dos teus deveres morais!...
Bendize, pois, as agonias que tens padecido sem manchar tua alma, preparando, assim, com lágrimas e tormentos, a felicidade futura, a eterna aliança com aqueles a quem amas...
— Nunca mais poderei amar Gastão, pai querido! — exclamou Heloísa soluçante.
— Hoje assim te parece, Heloísa; mas assevero-te que sucederá o contrário...
— Não posso esquecer os seus ultrajes, e, sobretudo, o haver imolado a vida do meu idolatrado René!
— Porque ele estava e ainda se acha iludido a teu respeito e de Hamed.
A verdade, porém, qual argênteo luar, não tarda a desvendar-se, espancando as trevas da calúnia...
Não mais lamentes a partida do redimido René para as regiões superiores.
Era uma ave do Céu, que apenas por momentos pousou nos beirais do teu lar.
Nada o podia deter no seu vertiginoso surto às regiões divinas. Seu tirocínio estava findo para a Terra.
Ele é o vinculo diamantino que há-de agrilhoar as vossas almas por todo o sempre!
Calou-se, bruscamente, a voz suave.
Heloísa, a conselho do invisível protector, orou mentalmente implorando ao Pai clemente a coragem necessária para, antes de terminar seus dias na Terra, esquecer ou perdoar os agravos recebidos, as angústias por que passara, tornando-se indulgente para com os seus ofensores e quantos, de priscas eras, se constituíram instrumentos de suas arbitrariedades e delitos.
Ao formular os últimos votos, adormeceu profundamente, estirada no divã.
Imperceptivelmente, Marta entrou no quarto e, vendo-a tão esmaecida, marmórea face a contrastar cora o negror dos cabelos, onde já fulgiam estrias de prata, as alvas mãos enclavinhadas sobre o seio emagrecido, em plácido sono mergulhada, supôs houvesse o radioso Espírito transposto as fronteiras siderais, librando-se ao Paraíso.
Ajoelhou-se em prantos, beijou-lhe as mãos. Heloísa abriu os olhos e fitou-a com espanto, perguntando:
— Porque choras, Marta?
— Ai! senhora, julguei que vossa alma de santa houvesse partido em busca do querido Renêzinho!...
— E choravas por isso, Marta!
Pois olha que, assim, lastimavas a minha ventura, a única a que aspiro nesta vida que se vai extinguindo lentamente...
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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 16, 2018 10:26 am

CAPITULO VII
Dia de grande azáfama, aquele, no alcáçar de Argemont.
Heloísa não descansara um' instante para atender a todos que a procuravam, a todos ouvindo, aconselhando, reanimando, coadjuvando.
A tarde, recolheu-se ao quarto, como de hábito, porém mais fatigada que nos dias anteriores e presa de incontida mágoa, pois transcorria a data natalícia do meigo filhinho, que ela não cessava de evocar, transida de saudade.
Recordava o passado, sem poder dominar os pensamentos — emissários invisíveis, mas vibrantes; condores divinos que, enjaulados por instantes no âmbito estreito e maravilhoso do cérebro — romperam a frágil prisão que os encarcerava e libraram-se à cerúlea esfera, sem que houvesse na Terra algo que os pudesse novamente enclausurar.
Lembrou-se do júbilo com que recebera nos braços carinhosos o débil recém-nado, boneca viva, cheia de encantos; criaturinha adorada que lhe pareceu formada de um farrapo da sua própria alma, que assim ficava repartida e desintegrada quando não o tinha colado ao seio, quando lhe não recebia as carícias...
Desde que dele se apartara, na tétrica noite do rompimento com Dusmenil, sentiu que se lhe lacerara o espírito e um fragmento ficara com o idolatrado entezinho. Daí por diante, reconhecia-se incompleta, semiviva, mutilada, abrindo-se-lhe no íntimo um vácuo, um abismo... que se ia enchendo de lágrimas, de reminiscências dolorosas, de saudades indefiníveis!
Orou longamente, implorando à Majestade suprema não a deixasse sucumbir em desalento.
— Senhor! — murmurou — não vos suplico a ventura e que não fiz jus nesta existência, devido às culpas pregressas, mas uma partícula de paz espiritual, a fim de serenamente, conduzir aos desfalecimentos o madeiro das provas ríspidas, ao Gólgota das remissões terrenas... Tirai-me do cérebro estas lembranças pungentes, anestesiai-me o coração com o bálsamo divino da resignação!
Piedade, Senhor, para vossa desolada serva — que tem a resgatar um passado sombrio, uma eternidade de pecados!
Sinto hoje, mais vivas, as recordações do adorado anjinho que se alou às célicas paragens onde vos achais...
Tenho ainda impregnadas na alma as suas caricias, o aconchego dos seus bracinhos de névoa, a ternura de seus beijos santos; e, no entanto, sei que seu corpinho já se desfez em vibriões, no bojo de um sepulcro, que guarda também meu coração dolorido e saudoso!
Vós, que sois Pai extremoso, vede a minha dor profunda e enviai uma gota de lenitivo para a suavizar!
Piedade, Senhor, para a torturada criatura que já transgrediu vossas radiosas Leis de amor e justiça, mas anseia agora aproximar-se de Vós por todo o sempre!
Mal acabara de pronunciar estas palavras, foi dominada por ligeira vertigem, e, como lhe sucedia às vezes, percebeu que seu Espirito, exteriorizado, cindindo o espaço, librando-se alto, abeirou-se do Imensurável, pairando no éter... Depois, resvalando docemente no vácuo, desceu de novo às regiões terrestres, em linha horizontal, e começou a descortinar lagos, mares, serranias, embuçadas em albornozes de neve e por fim extensas planícies muito áridas, onde reinavam solitude e algidez mortuárias.
Bruscamente, paralisou o adejo e desceu a uma rua algo obscura, envolta em nocturno crepe.
Grandes prédios achatados, extensas praças frouxamente iluminadas, ecoo que abandonarias após aniquiladora batalha ou devastada por violenta pandemia, que a houvesse transformado em vasta necrópole.
— Passamos pela Pérsia e atingimos a Sibéria! — murmurou com voz maviosa a devotada Entidade que orientava Heloísa.
Esta, não a distinguia, mas lhe sentia a presença.
— Que vim aqui fazer nesta inóspita região? — interpelou, ansiosa.
— Rememorar o passado, mergulhar o pensamento no oceano profundo das tuas encarnações remotas.
Já aqui viveste e delinquiste.
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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 16, 2018 10:26 am

Trouxe-te para presenciares uma cena que te vai emocionar, mas de benéficas consequências.
Animo, pois!
Aproximaram-se de ampla habitação isolada das outras por extenso e inculto parque, onde arbustos e árvores desnudas, cristalizadas de neve, moviam-se vergastadas por frígidas ventanias, como se rodopiassem ao compasso de estranha filarmónica regida por louco maestro!
Junto ao prédio, à retaguarda, Heloísa distinguiu um rio largo e que parecia profundo, meio estagnado e semelhando um estendal de vidros fracturados — pois a espessa crosta já estava estilhaçada, em começo de degelo — formando incontáveis ilhotas diamantinas a se entrechocarem com soturno e impressionante ruído.
— Estás à margem esquerda do Lena, em Irkustsk... — disse-lhe o Mentor de voz dulcíssima.
Ela acercou-se da habitação, tenuemente iluminada por uma lâmpada interior, mal deixando vislumbrar alguns interstícios nas janelas da ala direita.
Reinava silêncio tumular lá dentro, apenas quebrado frouxamente pelo murmúrio do rio, quais soluços abafados, de criaturas estranguladas.
Penetrou, por fim, sem descerrar nenhuma porta.
Achou-se em vasto dormitório e num leito descomunal, com docel carmezim franjado de flocos dourados, meio aberto; surgindo, sobre a rubra almofada, viu uma cabeça masculina, pálida e esquálida, a destacar-se das cobertas que a circundavam como se fora um guilhotinado.
Aquela criatura parecia profundamente adormecida, mas a fisionomia revelava dolorosos sofrimentos, com expressão de mágoa infinita.
— Não conheces mais teu esposo de antanho? — interrogou o carinhoso companheiro.
— Gastão, este?
Será crivei?
Está enfermo?
— Sim, enfermo da alma, dilacerada como a tua.
Ela sentiu, de súbito, desfazerem-se-lhe os ressentimentos e, comovida, sentia lágrimas candentes a deslizarem-lhe pela face.
— Observa o que se passa — advertiu o Guia.
Então, viu abrir-se uma porta lateral e uma figura sinistra que penetrava no ambiente.
Ocultou-se, espavorida, num canto do aposento e reconheceu o vulto de Hamed, trajado de preto, ares de inquisidor a caminhar pé ante pé, cautelosamente, com o braço direito levantado, empunhando acerado e reluzente punhal, em direcção ao leito de G as tão adormecido.
Heloísa deu um grito de terror e acordou sobressaltada, levando a destra ao seio palpitante, do qual lhe parecia desprender-se e alar-se por todo o sempre...
Acudiu-lhe, pressurosa, a dedicada Marta.
— Que tendes, senhora?
Que sentis?
— Um pesadelo horrível, Marta!
Vi o malvado Ariel na iminência de apunhalar Dusmenil!
— E não o julgais capaz de o fazer?
— Sim... o miserável não sustentará até ao fim o papel de servo devotado...
Ele se revelará logo que Dusmenil não possa mais livrar-se da sua traiçoeira sanha, pois que o odeia, aparentando afeição real e sincera!
Quando a criada se retirou para um cómodo contíguo, Heloísa foi dominada por irresistível emoção, que lhe arrancou do âmago borbotões de lágrimas.
Até aquela hora, desde o rompimento com o marido, pensava nele com profundo ressentimento, com mágoa intraduzível, não lhe perdoando as torturas que lhe infligira separando-a do idolatrado filho...
Não o odiava, mas considerava-o adversário inconciliável.
Julgava havê-lo esquecido, sentia que um abismo se interpusera entre ambos, um oceano lhes permeava os corações, alheando seus destinos, tornando-os indiferentes. Parecia-lhe que receberia impassível as notícias mais desoladoras a seu respeito.
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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 16, 2018 10:26 am

Mas, eis que ao vê-lo em sonho, inerte, enfermo e entregue à sanha do execrável hindu, compreendeu que este, unicamente, fora o causador da sua desdita; fascinara-lhe o esposo, que, sob as suas garras tigrinas, se tornara presa dócil; e tendo realizado toda a vindicta que projectara, por fazê-los desventurados e inimigos, ia vibrar, no peito angustiado de sua vítima, traiçoeira e inevitável punhalada!
Não lhe dissera ele, que detestava Dusmenil desde que se apoderara de sua alma, peçonhenta e monstruosa, aquela paixão nefanda que lhe despertara no íntimo os instintos ferozes?
Onde estariam eles naquela noite?
Na Sibéria, conforme sonhara?
Como salvar Dusmenil do pérfido Hamed?
E como lhe pesava a vastidão do mundo, naquele momento pungitivo, sem saber ao certo o paradeiro do único homem a quem amara e não desejava fosse imolado à crueldade do terrível Ariel!
Orou, lacrimosa e longamente.
Nenhuma voz amiga se fez ouvir naquela noite de agonia, em que se elaboravam no seu imo novos sentimentos generosos, transformando os agravos do seu algoz desvairado pelo ciúme, em compaixão, em dulcíssima piedade, em fraterno interesse.
Não mais poderia, mesmo que o quisesse, amar como esposa ou como noiva, aquele que tanto a humilhara e ofendera, mas amá-lo-ia como irmã carinhosa ou mãe compassiva, que perdoa todos os crimes do ser pequenino e frágil, que adormeceu nos braços, de quem escutou o primeiro vagido e recebeu o primeiro sorriso!
Voltara, então, como em outros tempos, a interessar-se pela sorte de Dusmenil.
Até ali, ser-lhe-ia indiferente a noticia da sua morte, mas, doravante, causar-lhe-ia pavor sabê-lo assassinado por um miserável, que, após lhe haver destruído o lar e a ventura, ia varar-lhe o coração que só pulsava pelo filhinho e pela companheira adorada.
A alvorada raiou, rósea e fresca, e ela ali estava estirada no leito, em vigília tormentosa que não lhe deixara repousar o cérebro e o vulcanizava e espezinhava com os acúleos da inquietação...
Dormitou apenas, alguns momentos, antes de erguer-se.
Tal a lividez do rosto, que, ao vê-la, a dedicada Marta quis chamar o médico.
— Não, Marta, não estou doente.
Estou apenas abalada com o pesadelo desta noite, mas tudo isso vai passar.
Certo, hei-de tudo esquecer, cumprindo meus deveres, praticando o bem...
Acolheu com melancólico sorriso quantos a procuravam para obter algum benefício.
Assistiu às aulas matinais das criancinhas, acarinhando-as ternamente e ofertando-lhes guloseimas e brinquedos; reanimou os aflitos, socorreu os enfermos e desditosos.
A tarde, quando se recolheu aos aposentos, sentiu-se fatigada, mas, com a consciência iluminada dos clarões dulcíssimos, que provêm das almas plácidas e virtuosas.
Penetrando num compartimento raramente visitado, atentou num antigo móvel que, havia muito, não era aberto.
Aprouve-lhe abri-lo para rever o que continha; e talvez lhe recordasse o tempo áureo da meninice.
Procurou as chaves em uma das menores gavetas, e, sucessivamente, as foi abrindo, inteirando-se do conteúdo.
Encontrou cartas familiares e, num maço atado com sedosa fita já desbotada, as missivas que seus genitores permutaram nos raros dias em que se apartavam.
Leu alguns trechos, comovida, com os olhos rociados de pranto, das velhas epístolas que revelavam venturas transcorridas, saudades, afectos puros e indissolúveis.
Só então, avaliou quanto haviam sido ditosos os magnânimos castelões que lhe deram o ser!
Duas almas sempre vinculadas por indestrutível afinidade, unidas até na morte, pois o Conde de Argemont pouco sobrevivera à extremosa e fiel companheira...
Nunca surpreendera o mais ténue desgosto a lhes toldar a serenidade do semblante nobre, da paz conjugal, enquanto viveram sob o mesmo tecto.
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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 17, 2018 9:57 am

Invejou-lhes a ventura inexcedível que, certamente, se prolongava por regiões siderais para onde se evolaram.
Bem diverso fora o destino dela.
Guardou, vagarosa, aquelas cartas passionais, já de um tom de velho marfim, e, ao fechá-las na gaveta de onde as retirara, teve a sensação de haver cerrado um pequenino túmulo... onde jaziam as derradeiras provas de uma felicidade fruída e extinta na Terra, qual punhado de cinzas...
Abriu outra gaveta maior, repleta de roupas e objectos infantis... e soltou um grito dilacerante, reconhecendo as roupinhas de René, os seus brinquedos predilectos, que ele mesmo colocara com as mãozinhas diáfanas em uma das malas, quando ela as arrumava, antes do regresso do marido e no intuito de esquivar-se ao guante do nefasto Ariel...
Ondas de pranto lhe borbotaram do coração, turvando-lhe a vista, qual se um rio interior, represado por muralhas de granito as houvesse rompido e desembaraçado no seu curso, avolumado, impetuoso, alagando as terras adjacentes com inaudita violência.
Os sentimentos profundos, amortecidos ao tempo, explodem, às vezes, assim como das crateras aparentemente esgotadas, as lavas incandescentes, cascatas de cinzas explodem das convulsões subterrâneas...
A eclosão da saudade e das recordações pungentes avolumara-se-lhe nalma em um só momento, recrudescendo secretos dissabores recalcados ao influxo de fervorosas preces...
Cingiu ao seio opresso algumas daquelas relíquias que relembravam uma ventura cedo fenecida, inundando-as de pranto, a murmurar soluçante:
— Meu adorado e pobre Renêzinho!
Como fomos duramente feridos por aquele que se dizia nosso amparo e nosso...
Súbito aturdimento ofuscou-lhe as lúcidas faculdades mentais, causando-lhe indefinível mal-estar.
Supôs que ia ficar privada dos sentidos.
Percebeu que na caixa torácica algo se rompera e experimentou ligeira asfixia.
A boca encheu-se-lhe de um líquido morno, e, levando aos lábios, instintivamente, a mão gelada, retirou-a rubra, como que tingida em coral liquefeito...
Deixou cair no chão as preciosidades que apertava ao seio e, vacilante, foi tombar num leito ali existente.
Notando-lhe a ausência, Marta foi surpreendê-la meio desfalecida, com as vestes purpureadas pela forte hemoptise.
Alarmada, a serva providenciou para que chamassem o médico de Heloísa, que a encontroo quase examine.
Depois dos socorros que lhe foram ministrados, reclinada numa ampla almofada, ela não cessava de pensar no filhinho estremecido e no esposo, desejando que esta último regressasse quando ela estivesse in extremis, para que lhe revelasse a verdade e, com o espírito desafogado, pudesse partir no encalço daquele que a aguardava nos pórticos divinos.
— Quero — imaginava com insistência — reconciliar-me com o Gastão nas fronteiras do Além, longe das paixões terrenas, sem que ele possa mais duvidar da verdade e fique, assim, conhecendo quem é... o desgraçado Ariel!
Numa noite de vigília percebeu a aproximação de fúlgida Entidade, cujos eflúvios lhe suavizaram os padecimentos e lhe penetraram no organismo combalido.
A visão postou-se-lhe à cabeceira, qual atalaia celeste.
Fitava-a, enlevada, toda envolta em clâmide radiosa, tendo expressivo o formoso semblante.
Súbito, houve um liame psíquico que pôs em contacto suas almas, a estreitarem-se em afectuoso amplexo. Heloísa sentiu na fronte enfebrecida um como roçagar de plumas.
— Querida filha — ouviu em êxtase, como se aquela voz maviosa se lhe infiltrasse na mente — estão resgatadas, por todo o sempre, as últimas promissórias do teu débito ao Supremo Banqueiro do Universo...
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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 17, 2018 9:57 am

Era mister que as saldasses, até ao último ceitil, para que teu espírito recebesse plena quitação e, santificado pela Virtude, cinzelado pela Dor, pudesse, enfim, desprender-se dos pântanos terrenos e alar-se às regiões siderais.
Não julgues cruel, mas equitativa e integra a Suma Justiça.
Praticaste, outrora, abominações: foste perjura, caluniadora, infiel; mãe desnaturada, impudica; mas aos poucos, lentamente, através de séculos, na forja ardente do Dever e do Sofrimento, retemperaste o aço divino de tua alma, que se tornou invulnerável ao Mal e às paixões nefandas...
Não deste guarida em teu coração à áspide do ódio, aos sentimentos corrosivos.
Sentes, novamente, irromper dos abismos do teu ser o amor fraterno por aquele que, em muitos avatares, foi teu conivente na perpetração de acérrimas Iniquidades.
Esse puro sentimento, doravante, jamais se dissipará, pois não mais participa da natureza corpórea e sim da espiritual.
Está quase consumada tua expiação planetária — teu martírio moral atinge o término.
Não mais cogites do passado sombrio, sim do porvir luminoso que te aguarda, quando transpuseres as balizas da Eternidade, as fronteiras celestes!...
Ora com veemência; perdoa ao teu ofensor, ou antes, aquele que te ama até o desvario; que te não pode esquecer nunca e não vacilou no cometimento das maiores torpezas para se vingar do teu desprezo, inconformado com a tua honestidade inquebrantável! De futuro, hás-de laborar para que ele ascenda do pélago do ódio, do remorso e da vindicta em que se acha imerso, às cintilantes metrópoles da Majestade Absoluta, localizadas nos seus Impérios de luz!
Façamos vibrar, nas harpas divinas de nossa alma, em uníssono, uma prece por todos os seres deste planeta de trevas e gemidos!
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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 17, 2018 9:57 am

LIVRO III - A Témis divina

CAPITULO I

Deixemos, por momentos, o Solar de Argemont e penetremos noutra região terrestre bem diversa da francesa, seguindo o rumo de três personagens conhecidas, que viviam nómades como boémios ou andorinhas migradoras, por fugir ao látego das invernias morais:
Dusmenil, Hamed e Fabrício.
Os dois primeiros tinham aspecto combalido.
Dir-se-ia que a mesma dor, qual ardente corisco arrojado de forjas chamejantes, das mais altas nuvens, os ferira de um só golpe.
O robusto Ariel, mais emagrecido que o patrão, tinha o rosto descarnado e sulcado de vincos profundos como leitos de serpes que lhes conservassem as formas sinuosas...
Os olhos dilataram-se e tinham o fulgor de archotes num ossário oculto nas catacumbas romanas, nas eras calamitosas de Nero.
Ninguém os fitava sem experimentar ligeiro aturdimento.
E parecia mais alto e mais trigueiro. Sobressaiam-lhe, na fronte ampla, tufos de cabelos encanecidos, como se neles se alojassem, perenemente, flocos de neve polar, ou dos píncaros do Himalaia.
Gastão, ainda no verdor da mocidade — pois apenas contava os anos de Jesus quando crucificado —, empalidecera de maneira incrível.
Parecia marmorizado, tal como a esposa distante.
Raramente, esses bizarros itinerantes conversavam entre si, apenas trocando ideias sobre a jornada que faziam.
O outro servo de Dusmenil e que o seguiu docilmente, Fabrício, foi quem afirmara ter perseguido, com o hindu, o suposto amante de Heloísa.
Formando reduzida caravana, fizeram longa excursão pelo território africano.
Internaram-se pelas mais ínvias florestas.
Percorreram o Saara, que se apresenta aos peregrinos qual extensa praia ou o fundo álveo de extinto oceano, às vezes escaldante, outras revolvido por violentos harmatãs, que arrojam quase ao firmamento as vagas de areia num desafio impotente de sicário oculto no âmago de seiva secular, cerrando os pulsos ameaçadores ou atirando punhados de saibro ao Sol e às estrelas, para que, à sua luz dourada, não lhe seja descoberto o esconderijo...
Viajaram dias intérminos sobre o infindo lençol de areia, ao qual os passos dos dromedários e dos beduínos arrancam sons incessantes, como gemidos exalados por criaturas humanas nele sepultadas vivas, e que fossem, gradativamente, ficando com os ossos esmagados.
Embrenharam-se, depois, nas majestosas florestas da Guiné e Benguela.
Noites houve em que não puderam adormecer, circulados de piras fumegantes por afugentar as feras que, rondando as tendas, uivavam, urravam, rugiam surdamente, constituindo uma como atroadora filarmónica regida pelo lendário e ultriz Belzebu, num sabbat assombroso, para atormentar e apavorar as eternas vítimas!...
Sulcaram caudalosos rios em frágeis bateis pilotados por íncolas agilíssimos, perseguidos, às vezes, por vorazes crocodilos.
Passaram semanas dentro de selvas espessas — exércitos imobilizados de caules vigorosos — como os da Bela Adormecida no Bosque, semelhantes a procissões de vegetais gigantescos, paralisadas de súbito ao influxo de alguma fada poderosa e malfazeja.
Adormeceram, às sestas, sob frondes colossais que se premiam e entrelaçavam como pára-sóis de plumas verdes, para, em ambiente asfixiante, nas horas de canícula senegalesca, resguardarem a fronte de miríades de soberanos egípcios.
Seguiram, depois, uma rota tortuosa até à foz do Nilo; atravessaram o Mar Vermelho, a Asia Menor, o Turquestão, a Pérsia e internaram-se na Sibéria..
Aproximava-se o Inverno, desolador e terrível, como sói ser nas zonas semi-polares.
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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 17, 2018 9:57 am

Achavam-se, agora, em extensa planície fustigada por álgidos ventos que, em rápidas lufadas, arrancavam as derradeiras folhas do arvoredo escasso daquela região e as rodopiavam no solo, como se fossem aves mortas, ressuscitadas bruscamente, tentando em vão alçar-se de novo ao espaço infindo...
Fizeram uma parada para a primeira refeição, albergados em lúgubre e húmida hospedaria.
Trémulo e descorado, Dusmenil observava Hamed, que,* no aposento, se conservava sentado numa esteira, de pálpebras cerradas, taciturno e absorto em profunda meditação.
Para quebrar o penoso silêncio reinante no mísero aposento, Gastão lhe disse:
— Talvez eu não resista impune a esta temperatura, após a canícula africana; mas justamente a morte é o que procuro nesta inóspita região: anseio pelo epílogo do drama irremediável desta minha existência!
— Porque não esquecer o passado, senhor? — interpelou Ariel como desperto de um sonho, sem filar o amo, para não o queimar com o fogo das pupilas coruscantes.
— O passado, Hamed, é qual o rio que cresce e se avoluma sempre, a todos os instantes, e reflui, às vezes, à sua fonte, que é o presente, por meio da evocação; mas não paralisa nunca, e quem poderá suster-lhe as torrentes impetuosas como as do Amazonas?
Falas em olvido, porque tua vida tem sido tranquila e nunca, certamente, foste atingido pelo simoum da desventura!
O hindu baixou mais a fronte, que quase tocou o solo; descerrou a meio os olhos em que havia fulgor de lágrimas e disse soturnamente, qual se proferisse um íntimo solilóquio:
— Senhor, sabei que a dor inaudita, voraz, esfacelante é aquela que ninguém suspeita, que ninguém conhece, que se revive no cérebro, no coração, na alma, qual víbora abrasadora e implacável e remordente a todos os momentos, sem que a vitima tenha o direito de gemer, gritar, pedir socorro, porque o seu pesar acerbo e recôndito é quase um crime e o conduz ao sepulcro, com o segredo da sua desgraça ignorada, oculta no jazigo do coração...
Dusmenil ouviu-o, comovido e surpreso.
Compreendeu que aquelas palavras eram sinceras e revelavam um sofrimento secreto e irremediável, que jamais lhe suspeitara.
Nunca o vira assim.
Quando travaram conhecimento, em Pondehery, parecera-lhe senão venturoso, ao menos indiferente às borrascas da vida, que supôs não lhe haverem ainda açoitado a alma em bonança.
Visível transformação se lhe operara na fisionomia desde algum tempo, mas não suspeitava a causa dessa mutação, que encerrava um mistério, tornando-o indiferente às paixões humanas e absorvido em preces e meditações.
— Estás nostálgico — disse-lhe apiedado — agora que te aproximaste do Indostão...
Ariel, eu não desejo que te sacrifiques por minha causa... Se quiseres regressar a Pondehery, onde deves possuir entes queridos, tens a liberdade de o fazer.
Dar-te-ei o necessário à tua manutenção, mesmo que tenhas de viver um século!
Não me esqueço de que me salvaste a vida e me salvaguardaste a honra.
O que por ti fizer não será indemnização, mas prova de reconhecimento.
Vai, Ariel, e faze a ventura dos que te esperam com ansiedade! Não te preocupes mais comigo, pois pressinto que a lâmpada da vida se está extinguindo. ..
Após alguns minutos de silêncio, qual se não houvera compreendido o que Dusmenil lhe dissera, Hamed murmurou:
— Senhor, nunca vistes, em noites serenas e límpidas como cristal azul de céu constelado, desprender-se um fragmento de astro que sulca em vertical a amplidão sidérea, e que vislumbramos apenas um segundo e segue sua trajectória
sem saber onde vai pousar... porque, qual águia luminosa, já morta, tomba eternamente no abismo infinito?
Assim é minhalma, senhor!
Tenho a Impressão de ser aquela migalha de estrela caindo, caindo, caindo sempre, perenemente, no abismo insondável!
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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 17, 2018 9:58 am

O mundo é muito vasto, senhor; já o percorri em grande parte na vossa companhia e, em parte alguma, logrei encontrar repouso para meu espirito...
Fui criado sem afeições, abandonado por pais desnaturados, que desconheço; ignoro se tenho irmãos; nunca tive noiva:
ninguém me espera em parte alguma!
No entanto, perdoai-me a ousadia da confidência, amei loucamente alguém... que só teve para comigo palavras de nojo e repulsa!
Ninguém me consagra afecto algum, excepto vós, por piedade ou gratidão...
Seguem-me, apenas, não me concedendo tréguas ao coração, um ódio e um remorso implacáveis!...
— Remorso? Pois tens remorso por haveres sido cruelmente desdenhado, Hamed? — interpelou Gastão suspeitando, pela primeira vez, de algum arcano na existência daquele enigmático hindu, que, até então, lhe parecera um servo humílimo, isento de paixões violentas e cuja linguagem agora o surpreendia, pois revelava um desgosto secreto e imensurável.
— Sim — respondeu-lhe Ariel com a voz grave, amargurada, arrependimento inaudito... por haver demonstrado a paixão que me enlouquecia, a quem só me abominava.
— Mas isso não se chama remorso, Ariel.
Antes deves dizer inconsolável infortúnio!
Que pode haver de mais pungente na Terra, para um coração leal e sensível, do que ser repelido pelo ente adorado... ou ser por ele traído?
— Mas, senhor, é que... para me vingar do seu desprezo... vitimei-lhe o filhinho idolatrado...
Cruel vingança que me atormenta a alma, qual se a tivesse, desde então, sob o jugo de impiedoso carrasco...
— Que me dizes, Ariel? — exclamou Dusmenil estremecendo de assombro e lembrando-se involuntariamente de René.
Pois tiveste coragem de matar uma cândida criancinha, que, parece, pertence mais ao Céu que a este mundo vil?
— Sim, fi-lo: cometi o mais hediondo crime que se pode conceber!
Sou um monstro e me julgastes um bom!
Mas, por Deus! não me interrogueis nada mais sobre esse doloroso assunto.
Caro já o tenho expiado e por mais que implore a comiseração de Parabram, percebo que o meu delito é imperdoável...
— Quem sabe serás menos desditoso... expandindo mais amplamente os teus sentimentos ou retornando à tua pátria?
— Quereis libertar-vos de mim, agora que sabeis quem sou? — murmurou o hindu, fitando-o de súbito, com um brilho de fogo fátuo nas pupilas negras, mas com profunda humildade.
Ofendi, acaso, vossos nobres sentimentos com a narrativa da minha desdita?
— Oh! não — tornou Dusmenil com vivacidade e manifesta compaixão, os olhos húmidos de pranto — tu te esqueces de que também sou desventurado e sê-lo-ia ainda mais... se te fosse s para sempre.
Pensas que já esqueci o que por mim fizeste?
Minha dívida de gratidão para contigo jamais será resgatada suficientemente, por mais que procure fazê-lo!
— Obrigado, senhor...
Somente vós me tendes alguma afeição... de que me não julgo merecedor!
Ninguém deve apiedar-se de um desgraçado... como eu.
Ouvi-me, agora, senhor:
não quero o vosso ouro, consenti que vo-lo diga.
De que me vale o dinheiro, se todos os tesouros do mundo não apagam as recordações do passado maldito, não suavizam as chamas da compunção, não me podem fazer menos desditoso? Deixai que eu morra como sempre fui: misérrimo, obscuro, desprezado!
Julgais que muito me deveis... mas, estais iludido!
Eu expus certa vez a vida por vossa causa, porque minha vida é inútil à Humanidade...
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Ave sem Ninho

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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 17, 2018 9:58 am

Livrei-vos das garras de um tigre e hoje, pusilânime, não me posso libertar da pantera do remorso, que se enjaula no meu próprio coração, dilacerando-o a todos os instantes...
Não queirais recompensar o pouco que fiz por vós.
Todo o ouro do Universo me é inútil, pois não poderá comprar um átomo de paz para a consciência vergastada pelo remorso e a desventura!
Sinto que sobre mim pesa a maldição do Absoluto e ouço, como Aasvero, uma voz imperiosa que me diz:
“Caminha! Caminha!“
Por isso é que vos sigo, qual cão ao dono; mas, se quiserdes livrar-vos de mim, arrancai-me por piedade a vida tormentosa, dando tréguas a este incomparável suplicio!
Parabram, certamente, há-de perdoar-vos...
Não tenho, nem ao menos, o consolo das lágrimas, que há muito não deslizam em minha face, antes parece que se avolumam em meu íntimo.
Em vez do refrigério do pranto, minhalma estila gotas de fogo!
Sou um maldito, senhor! Sinto que me acompanham falanges mefistofélicas de muitos avatares de iniquidades!
A única esperança que ameniza as torturas do meu sofrer... agora, é a de encontrar, como vós, o meu túmulo nos gelos da Sibéria!
Há muito ando em busca da morte, senhor!
Gastão fitava-o compungido, comparando a sina de ambos — que julgava tão diversa:
ele, nascido em paço principesco, coberto de roupagens finas, educado em colégios afamados, auferindo todas as regalias sociais; o outro, talvez nascido num pardieiro, teria tido por agasalho apenas farrapos sórdidos, talvez houvesse aprendido a ler com os sacerdotes do Himalaia, destituído de classificação social, pobre, humílimo...
E, no entanto, ali estavam acorrentados pelos grilhões do destino e do infortúnio, talvez por todo o sempre!
Não sabia, porém, definir o que sentira desde que ouvira, dos seus próprios lábios, aquela confidência terrificante:
amava uma esposa e mãe, e, para vingar-se do seu desdém, assassinara um pequenino ser, débil e indefeso!
Que monstruoso procedimento!
Manchadas as mãos com o sangue de um querubim, belo e puro!
Pela primeira vez, apesar da comiseração dos seus acerbos padecimentos, percebera que a essa piedade se mesclara incoercível repulsa e que aquele olhar fosforescente se lhe tornara intolerável, perseguia-o, mesmo quando de olhos fechados, como se lhe
varasse as pálpebras a projecção fulgurante de um minúsculo farol
Ele compreendia e justificava o homicídio num Ímpeto de ciúme, em defesa da honra ultrajada; no desforço de uma calúnia ou de uma ofensa aviltante; mas o assassínio de uma criança imbele, inofensiva, alheia às torpezas humanas, era a crueldade requintada, delito inqualificável, imperdoável perante as leis humanas e divinas!
Quem assim praticasse seria capaz das maiores ignominias!
Até então, aquele homem lhe parecera humilde, dedicado, possuidor de sentimentos nobilíssimos; doravante, julgava-o capaz das maiores vilanias contra ele próprio, Gastão Dusmenil!
E, com secreta amargura, lembrou-se da aversão que Heloísa e René lhe votavam, achando-o sinistro e repulsivo...
Escoaram-se semanas e aquela penosa impressão não se lhe desvanecia na mente.
Ora de carro, ora a cavalo, foram-se os três internando na Sibéria e já se aproximavam do Lena.
Planuras desoladas estendiam-se aos olhos, qual alvíssimo sudário de neve que velasse uma grande necrópole, já tocando o infinito para inumar gigantes.
Paravam apenas para descansar algumas horas, e, refeitas as forças em míseras hospedarias, tanto que lobrigavam a luz do dia prosseguiam a penosa jornada sobre o estendal de neve, que, do alto, ininterruptamente caía como açucenas desfolhadas, numa batalha de deuses que se divertissem a arremessar à Terra todos os lírios siderais.
Encontravam, nesses ermos lugares por onde transitavam, raras árvores — rondas petrificadas — despidas de folhas, cristalizadas, como se houvessem mergulhado em cisternas de alúmen, ou como se o firmamento se estivesse esgotando de todos os seus tesouros divinos, constituídos somente de pedrarias alvas, em bruscos arremessos e chegando ao solo transformados em diamantinas tempestades, de todos os quilates!
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Ave sem Ninho

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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

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