REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 17, 2018 9:58 am

CAPITULO II
Aquele ambiente frigido era um suplicio para Dusmenil, que dia a dia se tornava mais pálido.
Enfermo oito dias, houveram de interromper a dolorosa peregrinação.
Depois, mal convalescente, prosseguiu, até que uma tarde chegaram a Irkutsk.
Cidade milenária, circulada de colinas lactescentes das nevascas, como se fosse m avalanches imóveis, ou muralhas de cristal; constituída de grandes prédios pouco elevados, alguns rectangulares, outros circulares, de janelas esguias para que as rajadas glaciais não penetrassem com facilidade durante os rigores invernais.
Em extensa praça, um palácio realengo, em eras pricas, passou a ser ocupado por algum membro da família imperial russa, ou por alguma autoridade administrativa.
Nas estações estivais — que naquelas regiões frigidas são ligeira transição da
Primavera, nunca sendo cálida a temperatura —, os extensos quintais, protegidos por verdadeiras muralhas, deixam apenas a descoberto raras frondes, que mais parecem plumas verdes, a se balouçarem garbosas alguns meses, para ficarem logo amortalhadas em clâmides de neve — o “cristal celeste", na gíria popular.
Gastão, exausto pela viagem e pela moléstia, alugara uma grande casa nos arredores da metrópole siberiana, e ali ficou febril alguns dias, sem poder sair do leito.
Uma noite, em delírio, julgou-se transportado ao Solar de Argemont, silencioso e lúgubre.
Percorreu os aposentos e foi ter no dormitório de Heloísa, que se lhe deparou lívida, com a fisionomia transparente de desgosto, ou doença incurável.
— Nunca maia hás-de vê-la... como outrora! — disse-lhe alguém com voz magoada e profunda.
Não descobriu quem lhe falava, mas reconheceu o timbre da voz do venerando sogro.
Despertou sobressaltado por doloroso pensamento e, sem poder explicar-se o insólito fenómeno, parecia-lhe que, dentro de si mesmo, ressoavam as palavras da desditosa esposa:
— “Meu futuro ilibado vai desmentir a calúnia infamante que contra mim urdiram! Deste crédito às palavras de um perverso e vais conhecer a verdade muito tarde para que possas reparar a injustiça que praticaste.”
Debalde lutou para desvanecer aquelas ideias dolorosas.
Jamais duvidara da falta de Heloísa, pois a probidade e rectidão de Hamed jamais haviam sido desmentidas!
Nos dois anos transcorridos, não achava a mais leve justificativa para o procedimento da consorte.
Porque, então, abruptamente começara a vacilar na sua fé, que parecia inabalável, na sinceridade do sombrio e enigmático hindu?
Não sabia definir o que se passava em seu intimo, mas algo o advertia de uma falsidade, de um acontecimento doloroso, de uma revelação esmagadora...
Debelada a febre, sem saber como nem porque, deliberou regressar à Fiança, terminada que fosse a estação hiemal.
Aquela região tornara-se-lhe intolerável.
Buscara-a, colimando nela encontrar a morte, ignorado de todos os amigos e conhecidos e, no entanto, se via empolgado por indefinível tristeza, recrudescera-lhe a amargura, tornaram-se mais vívidas as evocações do passado.
Sentiu bruscamente aplacado o, até então, indómito desejo de viajar, que o dominara desde os albores da juventude.
Queria o seu túmulo cavado junto ao do querido René, ou de seus venerandos progenitores.
Considerava-se um vencido nos prélios da vida, sem aspiração, sem ideal; um exilado voluntário, mas não podia aniquilar na alma a vontade de rever o pátrio torrão, que, como imã omnipotente, lhe atraia o coração angustiado...
Necessitava regressar às suas propriedades, ajoelhar-se no sepulcro do pequenino e adorado René, no local onde o vira surgir, visão paradisíaca, naquela noite inolvidável em que pretendera pôr termo à vida atribulada e inútil.
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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 17, 2018 9:58 am

Parecia-lhe, então, que lá em Arras ainda pairava um fragmento de sua alma angelical... suavizando as agruras da saudade, a veemência das evocações penosas que, por vezes, o atormentavam com inexprimível remorso...
Na Sibéria — inóspita e longínqua região —, julgava-se distante, por todo o sempre, do berço e da campa do idolatrado filhinho!
Queria aproximar-se dele, retornando à França; queria implorar-lhe perdão por havê-lo sequestrado à mãezinha querida, que não pudera oscular pela derradeira vez, não resistindo à falta de suas blandícias e desvelos...
Queria orar longamente, como não fazia desde que se tornara desditoso e nómade.
Desde que fora rudemente acicatado pela desgraça, não podia pensar no Criador sem um vago ressentimento, por havê-lo aguilhoado tão fortemente, sem jamais ter cometido o menor delito, sem haver transgredido as leis divinas e sociais, sem ter dado ensejo a tão bárbara sentença contra ele, que fora sempre justo, probo, incorrupto!
O refrigério do pranto fora-lhe interdito de há multo, desde que se fizera errátil, expatriado, sem lar, sem família, sem crença definida...
Sentia-se ilhado no mundo, sem amigos, sem apoio e, sem que o pudesse explicar satisfatoriamente, pressentia que ele e Hamed iam rolar num vórtice apavorante, ignoto e insondável...
Quem poderia negar que, retornando ao local onde fora ditoso, onde vislumbrara, qual meteoro fugaz, o querido René, não lhe voltaria também a serenidade espiritual?
Quem sabe, não reveria além a encantadora aparição?
Esta só conjectura lhe incutia no intimo insólita energia, inigualável lenitivo...
E depois... Porque não confessar a si próprio a verdade integral? Desejaria conhecer a conduta de Heloísa... saber como preenchia o tempo, como suportara a separação e a morte do filhinho que parecia adorar...
Passava horas e horas reclinado no divã, observando a Natureza através dos vitrais embaçados pelos nevoeiros incessantes, quais oceanos de brumas que invadissem de súbito o ambiente, despenhados do infinito; lobrigava, como fantasmas de falenas brancas, os flocos de neve tornando o ar movediço e irrespirável...
Perto do prédio ocupado por Dusmenil deslizava — então invisível — o Lena coberto de uma lâmina glacial, que o transformara em intérmina serpente de gelo.
Seus marulhos decresciam dia a dia, à proporção que se tornava mais espessa a camada de gelo; dir-se-iam gemidos abafados, bramidos humanos que se extinguissem lentamente nas gargantas de muitos supliciados, premidas por vigorosas mãos de impiedosos estranguladores.
Gastão ansiava pelo degelo, pelo inicio da Primavera, sem contudo expor seus projectos.
Habituara-se ao silêncio e à meditação.
Cogitava na maneira de regressar à pátria por itinerário diverso do que fizera para atingir Irkutsk:
faria em trenó o trajecto até ao primeiro porto oriental da Sibéria, fretaria uma embarcação que o levasse ao Mediterrâneo e completaria a viagem de retorno sempre por via marítima.
Decorreram dois meses. As nevascas cessaram.
Já se distinguiam os rumores do rio próximo, embora ainda encerrado numa lâmina cristalina, que, aos poucos, se rompia com fragor em alguns pontos, surgindo então a torrente impetuosa que ela vedava.
Dusmenil, uma tarde, após o jantar, achava-se ainda na sala de refeições, pensativo e estirado numa espreguiçadeira.
Ariel, de pernas entre-cruzadas, sentado numa alcatifa cora os braços distendidos horizontalmente, mergulhado em profunda concentração, imóvel, parecia mumificado, petrificado.
— Que cataclismo devasta o intimo desse homem enigmático? — considerou Dusmenil apreensivo.
Dir-se-ia que ele morrera sentado, com as pálpebras cerradas; que seu Espirito talvez já flutuasse nas alturas ou tivesse sido sugado por uma voragem interior — a das reminiscências excruciantes...
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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 17, 2018 9:59 am

Teve, pela segunda vez, horror àquele ser misterioso, indecifrável, temendo-o como se houvesse percebido que toda a sua dedicação se pulverizara e esvaíra bruscamente, qual cinza levada pelos ciclones siberianos...
Deliberou então, definitivamente, voltar à França, de onde jamais se ausentaria.
Procuraria o convívio de alguns raros e bons amigos, para que o insulamento não lhe sugerisse tétricos pensamentos.
Subitamente Ariel, como se percebesse o que lhe ia na mente, descerrou as pálpebras desmesuradamente e fixou o olhar, imóvel como o dos ofidios, em Dusmenil, que estremeceu e sentiu um fluido magnético percorrer-lhe o organismo, convulsionando-o, aturdindo-o, paralisando-lhe as ideias, que lhe pareceram hauridas por monstruoso, invisível vampiro.
Sentiu-se cair em letargo, mas percebeu, apesar da inacção física, que algo de imponderável e avassalador lhe penetrou o cérebro, inoculando-lhe um fluido inclassificável, dando-lhe a penosa impressão de um aracnídeo fantástico, que se lhe introduzira no crânio e lhe extorquia as mais secretas cogitações, desentranhando-as dos escaninhos da alma...
— Deliberastes regressar a Arras ou a Argemont? — julgou Gastão que o interpelaram soturna e interiormente.
— Sim, quero regressar à França! — respondeu sonambulicamente dominado.
— E tencionais rever Heloísa de Argemont?
— Sim... e se ela, como prometeu, tiver mantido uma conduta irrepreensível... desejo que me elucide algo do que me atormenta o espírito:
sempre a considerei criminosa imperdoável, mas, ultimamente, começo a vacilar, a duvidar da sua infidelidade.
— Premeditais, então, descobrir a verdade?
— Sim, é o meu maior desejo!
— Heloísa de Argemont já se abeira do túmulo; acabo de vê-la no leito de agonia!
— Ela mo dirá então, in extremis...
Conheço-lhe o carácter e não creio que minta no momento em que vai ser julgada pelo tribunal divino!
— E’ então, irrevogável, a resolução de voltar à vossa pátria?
— Inabalável!
— Pois bem, Gastão Dusmenil... lavrastes a vossa sentença!
Despertai! Ordeno-vos!
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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 17, 2018 9:59 am

CAPITULO III
Uma vez despertado, dissipados os torpores do sono magnético, nenhuma ideia lhe ficara do estranho diálogo com o hindu, mas apoderou-se-lhe do espirito um vago terror, o pressentimento de sucesso grave em sua existência, a causar-lhe inexprimível inquietação..
Meio desfalecido, foi levado ao leito.
A luz da lâmpada, velada por um abajur cor de ametista, iluminava frouxamente o recinto, deixando-lhe perceber apenas as silhuetas humanas e as dos objectos e móveis circundantes.
Distinguiu, na penumbra, o vulto rotundo de Fabrício, semelhante à nédia personagem de Cervantes, que se aproximava cautelosamente, mas fazendo trepidar o soalho com o peso considerável do seu corpo.
— Que há, Fabrício?
— Ai, senhor! tivestes um desmaio logo após o jantar...
Julguei que houvésseis morrido, senhor!
Dizei- -me se ainda vos sentis indisposto, eu irei buscar um médico.
— Obrigado, Fabrício.
Estou melhor; não necessito de cuidados médicos e, sim, de repouso absoluto.
Já se desvaneceu o sono que supus mortal, que me acometeu à tarde.
Deixo para tratar-me quando voltar à França...
— Que dizeis, meu senhor?
Voltar à França — repetiu Fabrício abeirando-se do patrão com irreprimível júbilo.
— Estás contente, Fabrício? — tornou Gastão, sorrindo melancólico.
— Contente? Louco de alegria, dizei.
Cuido que me vai suceder alguma desdita para me privar de tão grande prazer! E’ que me sinto morrer nesta região tumular!
Esta neve que aí se despenha a todo o instante, de um céu desfeito, transformado em cinzal, cuja última brasa se diria extinta há muitos séculos, gela-me até a alma, senhor!
Aqui, a existência dos vivos não deve diferir muito da dos que... povoam os cemitérios!
Tenho a impressão, às vezes, de que já morri... que sou um fantasma de carne e osso...
Julgava-me condenado à sepultura neste vasto cemitério que é a Sibéria; mas, agora, sinto-me reanimado pela esperança de voltar à França querida, ver-lhe o céu azul e aquecer-me ao Sol!
Haverá, na Terra, coisa mais bela que o Sol, quando
nos achamos privados dos seus raios de ouro?
Antes tivéssemos demorado mais nas regiões africanas, pois lá, ao menos, há vida, calor, Sol... Sol! senhor!
Dusmenil sorriu com melancolia, surpreso com a loquacidade de Fabrício, que nunca lhe havia revelado os próprios sentimentos.
— Ao menos este ainda poderá ser feliz... com um raio de Sol! — imaginou Gastão amargurado.
Se eu conseguisse igual fortuna voltando á pátria...
Depois falou ao fâmulo, como que despertado de um sonho:
— Onde está Ariel?
Fabrício baixou a voz, segredando ao amo com manifesto terror, curvando-se para o leito:
— Apenas me auxiliou a trazer-vos para o leito, foi sentar-se outra vez, para passar a noite toda, como de costume, a conversar com as sombras.
Tenho pavor desse homem que, suponho, tem pacto com Belzebu!
— Ele vive em continuas mortificações e preces, Fabrício! — disse Gastão sem completa convicção do que dizia e estremecendo involuntariamente.
— Alguma falta cometeu ele, para que tanto tenha a rogar ao bom Deus, que já deve estar importunado com tantas súplicas!
— Deixa-o em paz com a sua crença e vai deitar-te.
Se eu necessitar de auxílio, chamar-te-ei.
— Se quiserdes, senhor, ficarei acordado esta noite, velando por vós...
Pressinto que não vou adormecer, tal a alegria que me domina, só ao pensar que vamos regressar à França!
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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho Ontem à(s) 10:48 am

Se não fosse o devido-respeito que vos consagro, já estaria a dançar como um polichinelo!
— Obrigado, Fabrício.
Suponho que não estou em artigo de morte...
Deita-te no quarto aa lado, para atenderes ao primeiro chamado, caso seja necessário.
Podes porém, dormir tranquilo e sonhar com a França e seus encantos!
— Sim, meu caro patrão.
Quando Fabrício se retirou, Dusmenil começou a rememorar os sucessos da tarde.
Esteve, realmente, enfermo, ou magnetizado por Hamed?
Que estranho ascendente possuía aquele indivíduo que lhe aniquilara, por algum tempo, toda a energia física e espiritual, e talvez lhe houvesse sorvido os pensamentos como um nóctulo ao sangue?
Tinha vaga lembrança de ter sido interpelado por ele.
Que lhe teria perguntado o hindu?
Porque não o fazia quando em vigília?
Com que fim o fizera?
Qual a ideia secreta que desejava lhe fosse revelada?
Porque, só então, reflectira na loucura que havia cometido, deixando-o senhor do seu lar ditoso, quando o sabia detestado por Heloísa e pelo angélico René?
A repulsa que o inocentinho lhe votava não seria um aviso do Alto?
Não compartilhava também, como Fabrício, de inexplicáveis receios?
Não compreendia, enfim, que, havia muito, estava com a vontade atrofiada, subjugada pelo indiano?
Como desvencilhar-se do servo que, agora, só lhe inspirava terror.
A catadupa de pensamentos que lhe afluíam, como indómito Niágara, não o deixava adormecer.
Sentia-se acovardado, combalido, inerte, desditoso, impossibilitado de reagir sobre quem quer que fosse , em caso de inesperado ataque; desalentado, álgido, tiritante, apesar das cobertas de pele que lhe envolviam o corpo...
Ouvira soar meia-noite na catedral próxima, quando principiou a ficar inconsciente, vencido pela fadiga e indominável torpor que lhe amortecia todos os sentidos.
Mais por intuição que pelos ouvidos materiais, percebeu o ruído dos gonzos da porta do quarto, aberta de chofre, e passos cautelosos do soalho atapetado, parecendo o rastejar de uma serpente que lhe infundia profundo terror, detendo-se junto do leito e alarmando-o, e tolhendo-lhe a palavra, como se estivesse aniquilado e mudo para sempre...
Sobre o leito havia um docel de damasco carmezin, semicerrado, e, mesmo que conseguisse desligar as pálpebras, não poderia distinguir quem quer que fosse , a não ser do lado direito.
— Quem está aí? — perguntou Dusmenil Íntima- mente, sem articular qualquer som.
Debalde esperou resposta.
A escuridão era quase absoluta no quarto, pois a lâmpada estava com a chama enfraquecida, mais do que observara horas antes, quando do seu penoso despertar.
De repente ouviu um prolongado gemido, como que emitido atrás do docel e que fez estremecer soalho e tecto, como sacudidos por invisível titã.
Gastão compreendeu que alguém se havia retirado a passo acelerado, mas invertido, como que recuando, sem as mesmas precauções que tivera ao entrar.
— ET Hamed? — tomou Dusmenil.
O mesmo silêncio.
— Fabrício. ó Fabrício! — bradou então, já completamente acordado.
A porta do quarto ocupado pelo seu compatriota abriu-se com fragor e o lume do lampadário clareou o ambiente.
— Que tendes, senhor? Senti-vos mal?
— Alguém aqui entrou e esteve junto de mim... não sei com que intenção!
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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho Ontem à(s) 10:48 am

— Impossível, senhor! —- tomou o servo bocejando —- a casa está hermeticamente fechada...
— Onde está Ariel?
— Talvez sentado ainda, como o vistes, na sala de jantar...
Ele passa as noites sem dormir, mas de olhos fechados, talvez excogitando coisas diabólicas.
— Quem sabe se foi ele que aqui esteve, temeroso por minha saúde?
Mas, porque não atendeu quando o chamei e retirou-se gemendo?
Fabrício, apavorado, achegou-se mais a Gastão, e, relanceando a vista pelo
aposento, como a certificar-se de que não havia alguém, confidenciou em surdina:
— Senhor... quando ficarmos livres deste maldito hindu, dir-vos-ei muitas coisas que ignorais...
— Porque nunca mas revelaste, Fabrício? — perguntou Dusmenil assaz inquieto, pois pressentiu que o servo desejava falar de Heloísa.
— Porque... tenho pavor desse homem !
— Dá-me o sobretudo de peles.
Segue-me. Quero verificar o que vai de anormal nesta casa.
Agasalhado, mas trémulo e moralmente abalado, de revólver em punho e seguido por Fabrício que sustinha o candeeiro de prata, começou a percorrer todos os compartimentos sem encontrar qualquer vestígio humano alarmante.
Ao chegar ao refeitório, notou que uma das portas que davam para um alpendre, a cavaleiro do Lena, estava aberta. Frigida rajada que por ela penetrou, quase apagou a lâmpada que Fabrício empunhava.
Fora, o rio rumorejava soturnamente, arrastando na torrente impetuosa blocos de gelo que se entrechocavam com fragor, como de formidáveis armaduras de aço. movimentadas por falanges de gigantes intangíveis, em campanha renhida, por toda a consumação dos evos...
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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho Ontem à(s) 10:48 am

CAPITULO IV
Inopinadamente a atenção de Dusmenil foi atraída para um vulto esguio, negro e imóvel, colado à parede.
Ao vê-lo indistintamente, na semi-obscuridade em que estava, Gastão disse com voz trémula:
— Ergue a lanterna, Fabrício!
O criado obedeceu, mas tão agitado que a lanterna lhe oscilava nas mãos, qual se fora uma pêndula inconstante.
À projecção luminosa que incidira sobre o vulto sombrio, ambos viram o hindu como que ligado à parede, à esquerda da sala, com um braço suspenso acima da cabeça, hirto, segurando reluzente punhal e todo ele inerte, como petrificado da cabeça aos pés...
— Que fazes aqui a esta hora, assim armado, Ariel?
Viste acaso algum malfeitor introduzir-se nesta casa? — interrogou Gastão surpreso e angustiado, mas resoluto.
Hamed fitou-o com olhos fosforescentes, como um lampejo de corisco em noite de procela, e continuou mudo.
Súbito, deixou pender e braço rígido, qual se fora o de um anquilosado, desprendendo-se-lhe da mão o punhal, que retiniu no lajedo.
— Vencido pela fatalidade em toda a linha! — exclamou com voz soturna.
Tudo conspirou contra mim...
Sou forçado a dizer a verdade.
Ouvi-me, senhor...
Não endoudeci, como supondes, desgraçadamente para mim! Estou no meu perfeito
juízo. E’ breve e hediondo o que tenho a dizer-vos.
Parou um instante, ofegante e lívido. Depois prosseguiu:
— Salvei-vos naquela caçada, nas florestas de Pond- chery, das garras de um tigre feroz.
Antes não o tivesse feito...
Até que regressastes à França, fui vosso leal amigo...
Sentia-me ligado à vossa existência por liames indissolúveis que, sei, foram urdidos pelo Destino... ou antes, pelas bragas férreas que nos ligam em diversos avatares, quando praticámos atrocidades inomináveis...
Encontraram-se, sob o mesmo tecto, os dois tiranos de outrora; os dois asseclas do despotismo para a perpetração de muitas iniquidades!
Não credes nesse dogma do Oriente, da transmigração das almas ou da metempsicose, mas ele representa uma realidade que ainda será conhecida de toda a Humanidade terrena.
Só ele explica racionalmente o amor e o ódio que se radicam nas almas, por muitos séculos às vezes, até que este seja por aquele suplantado...
Mas, deixo as divagações inúteis, porque urge termine o derradeiro ato desta misérrima existência...
Fui vosso servo e amigo, até que um dia — inolvidável para mim! — voltastes de Argemont... trazendo urna esposa...
Interrompeu de novo a narrativa, sacudido por tremor incoercível.
Dusmenil ouvia-o em silêncio, como que hipnotizado.
— Vê-la — continuou — foi sentir tuna voragem profundando-se-me no íntimo d’alma, até então serena e fiel, qual se fora rasgada por um golpe, vibrado do Espaço ilimitado aos antros infernais, tragando lodos os meus pensamentos generosos e puros, porque, repentinamente, fui subjugado por um sentimento indómito, avassalador, absorvente, por aquela que escolhestes para companheira de romagem terrena...
Onde a teria eu visto?
— Noutras eras, em longínquas paragens.
Sua imagem jazia no meu espírito, latente mas vívida.
Nunca se extinguem de todo as recordações da eternidade transcorrida, elas são indeléveis como se esculpidas em bronze, neste bronze divino que se chama alma imortal...
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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho Ontem à(s) 10:48 am

Reconheci-lhe a voz, a fisionomia... que já tinham sido adoradas!...
Nunca se me apresentou à vista criatura feminina com igual aspecto, com aquela formosura, feita de altivez e virtude, que lhe resplandecem no semblante de rainha celeste.
Aquela tez, que lembra a alvura da neve dos píncaros do Himalaia, com tonalidades de arrebol, tem una irradiação que vem, certo, da alma estelar... ou de seus olhos, que são dois sóis negros!
Amei-a, senhor — perdoai-me a ousadia de vo-lo dizer — com delírio, com exaltação infrene, desde que a contemplei pela primeira vez, sentindo-me execrado por ela e pelo pequenino... que deve estar no Paraíso, transformado em fúlgido arcanjo!
Porquê? Como o percebia?
Senhor, é que os Espíritos se comunicam por elos invisíveis, mas poderosos; transmitem vibrações que revelam e permutam os mais secretos pensamentos.
Possuo a iniludível faculdade de ler as ideias nas mentes humanas e, por isso, tive a dolorosa percussão em minhalma... de ser odiado por aquela a quem
seria capaz de sacrificar a própria vida, e por quem me sentia atraído e fascinado!
O que tenho padecido, não o descreveria consumindo um oceano de tinta para o descrever em “in folios” gigantescos, maiores que o próprio mundo em que habitamos!
Partistes e, confiantes na dedicação que sempre vos patenteei, iludido com os meus sentimentos, deixastes-me a velar por aquele tesouro inestimável de nobreza e formosura... que, no entanto, dia a dia mais me execrava!
Horas seculares de inominável tormento, noites intérminas de vigília e suplício moral foram-se escoando com uma lentidão apavorante, e eu sempre, sempre tentando sofrear meus impulsos, lutando comigo próprio, estrangulando os gritos do coração!
Uma tarde... sem que pudesse mais dominar-me, confessei-lhe o que se passava em meu íntimo, a adoração que lhe consagrava... e ela, impiedosa, repeliu-me com asco e orgulho como soem ter as soberanas da Terra... quando esmagam aos pés nauseante víbora!
Exacerbado no meu amor-próprio, humilhado, infinitamente desditoso, ousei alçar o braço armado sobre a sua fronte puríssima, para melhor golpear-lhe o coração com o mesmo punhal fatídico que, ainda há pouco, ergui sobre o vosso peito...
Mas, outrora como hoje, ele tombou inútil!
Porque não lhe tirei a vida, senhor?
Porque, naqueles instantes fatais, sentindo irromper-me do íntimo um Strômboli de ódio e vindicta, despertarem-se o Nero, o Torquemada e todas as panteras humanas insaciáveis, que se emboscam nos corações intoxicados de ciúme e de paixões indómitas — fiquei impotente para o crime?!
Maquinei, então, e executei cabalmente um plano sinistro:
denunciá-la como adúltera, arrancando-lhe dos braços amorosos o filhinho estremecido, escudado na vossa confiança e afeição!
Horror! Horror!
Que dragão me tornei, arrastado pela paixão que me enlouquecia!
Que, digo, me enlouquece ainda!
Tenho vivido enojado de mim mesmo.
Vendo-me encanecer bruscamente, mumificar-me dia a dia — supúnheis que compartilhasse da vossa dor, mas, o que observáveis assombrado e compadecido... eram os vestígios do suplício, do remorso, a devastação de minhalma pelo ciclone da desgraça, as chamas do desespero^ que, voraz vampiro, vive a sugar e a cremar meu coração, a nevar os meus cabelos...
Quando, qual querubim de alabastro, vi o pequenino René agonizar em vossos braços — abreviando-lhe o desfecho fatal com a minha diabólica aparição em vosso quarto — porque me temia, aterrorizado desde que me vira erguer o braço vingador sobre sua impoluta mãe — julguei-me o seu assassino, o mais execrável de todos os bandidos, o mais temível de todos os lobos cervais!
Desde então, depois que o vi amortalhado, morto de saudades da adorada genitora, não mais tive tréguas, nem serenidade espiritual...
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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

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Quis arrancar com afiada lâmina a própria vida execranda, mas, com o meu desaparecimento... descobriríeis a verdade!
Ela vo-lo revelaria, haveria a concórdia e, quem sabe? o arcanjo da felicidade baixaria novamente ao vosso lar... e dentro de mim estuava então, preamar de zelos, rompendo as muralhas da razão e da virtude — a paixão que me avassala por aquela inigualável criatura!
Prolonguei o meu martírio para que o dela e o vosso fosse m indefinidos. ..
Vós me prometestes um tesouro, procurando recompensar minha simulada dedicação, enquanto no meu foro intimo eu me sinto maldito e arpoado de compunção e ódio por mim próprio... porque, cada dia, mais compreendo que a adoro, que a amo com loucura, e percebendo que, hora a hora, se agiganta a distância que nos separa; que eu resvalo num abismo enquanto ela já se aproxima do Céu!
Segui-vos, senhor, a diversas regiões, como segue a sombra aos corpos iluminados, não mais por desvelo mas para perquirir os vossos pensamentos, zeloso do único homem que ela amou... tanto quanto me detesta como a um lobo irado, a espreitar os passos da vitima pouco distante, ou qual pantera famulenta que devorou vosso filho, vossa ventura... vossa esposa!
Bem sinto a maldição de Parabram fustigar-me a alma, qual látego chamejante vibrado por mão de titã, onde quer que eu esteja!
Poderia acompanhar-vos aos confins deste planeta, até ao extremo alento — odiando a vida e a Humanidade, mas, desejando conservá-la para não vos deixar livre da minha vigilância, tornando-me, sem que o percebêsseis, vossa sentinela e vosso carcereiro — se não houvésseis resolvido voltar à França, inteirar-se do ocorrido, reconciliar-se com ela, renovar a felicidade do outrora, quando, no parque de vossa principesca morada, passeáveis sorrindo, enlevados, enlaçados, beijando-vos... enquanto que eu, às ocultas, me contorcia de ódio, remordido pela áspide do ciúme!
Não, oh não! Seria demasiado suplício para mim!
Mas, ai de vós! que tarde começastes a libertar-vos do meu jugo fatal!
Não mais impeço o vosso regresso.
Agora podeis retornar á vossa pátria... porque está consumada, para ambos, a ventura terrena.
Não a encontrareis mais em recanto algum deste planeta, porque ela vai baixar ao túmulo!...
— Hamed! Hamed! — pôde dizer Dusmenil quase desfalecido de emoção, ainda aturdido e sentindo-se novamente opresso e prestes a desmaiar, como naquela tétrica noite — tu enlouqueceste, por certo!
Diz-me que mentes para que me não torne mais desgraçado do que sou!
Estoicamente e com admirável dignidade, o infortunado indiano declarou:
— Um iniciado nos templos do Himalaia não mente... à hora de comparecer perante o tribunal de Parabram!
Abrevio, porém, o que ainda vos tenho a revelar.
Relatei toda a verdade odiosa, as monstruosidades da minha desgraçada existência.
Resta-me, apenas, completar minha sincera confissão.
Ouvi-me:
Desde ontem, ao anoitecer, planeei tirar-vos a vida.
Percebestes, há muito, minha nefanda influência.
Há dias deixastes de ser meu amigo, como outrora.
Começastes a desvendar a hediondez do meu proceder, desde o dia em que vos fiz a primeira confidência...
Sentíeis, quanto da, desagrado instintivo da minha presença.
Desejáveis libertar-vos de mim, tornando-me opulento a centenas de milhas distantes!
Não mo dissestes, mas eu o compreendia, pois leio nos cérebros humanos os pensamentos mais secretos, como em papiro grafado com tintas indeléveis!
Custa-me, é-me penoso dizer-vos o resto...
Parou de chofre a narrativa.
Ninguém aventurou palavra.
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Ave sem Ninho

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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho Ontem à(s) 10:48 am

Estabeleceu-se um silêncio tumular, apenas quebrado pelo rumo do Lena pouco distante.
Ofegante, olhos arregalados, Ariel prosseguiu:
Dirigi-me ao vosso quarto cautelosamente, para não ser pressentido por vós nem por Fabrído, projectando ferir-vos bruscamente, sem lutar convosco, sem desmascarar-me à hora da vossa morte, prolongando eternamente o vosso sonho... e, depois, com este mesmo punhal que aqui vêdes, dilacerar pela derradeira vez o meu chagado coração, consumando meu atroz martírio...
Mas... horror!
Que se passou então?
Vêdes? Ainda estremeço de pavor...
Quando ergui o docel vi... o pequenino René, brandamente alçado sobre o vosso busto, braço de luz a escudar-vos, com arnês de bronze fúlgido, forjado no Empíreo...
Estarrecido — sentindo que naquele instante me foi retirado todo o influxo e domínio sobre o meu semelhante —, com um braço erguido e enrijado por um poder supremo e invencível, afastei-me gemendo, impensadamente, compelido a denunciar-me por uma força extra-terrenas, ou divina...
Não fora ela — quem sabe? talvez ainda tentasse mentir, até realizar meu intento sinistro!...
Confessei-vos tudo, forçado por um poder imperioso, antes de entregar-me à justiça suprema, que me fustiga nesta hora!
Não vos imploro perdão, pois sei que não mo podereis conceder... senão quando for atenuada a vossa dor profunda.
Que perdão pode haver para quem destruiu vosso lar e vossa inaudita felicidade, assoberbado por um sentimento diabólico... e eterno?
Não posso, também, sobreviver à hecatombe de todas as minhas aspirações, que nunca se realizaram, pulverizadas pela mó colossal de nefando destino...
Meus crimes não merecem a piedade humana, nem divina.
Eu próprio me execro e me odeio!
Minhalma despertou, há pouco, ao camartelo do mais acerbo sofrimento, para reconhecer a hediondez do meu proceder. Nesta existência nada mais posso conseguir em benefício do meu atribulado e criminoso espirito.
É mister atirar ao abismo este corpo empeçonhado, a fim de recomeçar uma vida mais pura e meritória.
Aquele querubim de luz descerrou a negra cortina que obscurecia meu intimo, deixando penetrar nas profundezas do meu ser o raio causticante de indefinível
remorso. Sinto-me Iscariote, a manchar a Natureza com o meu vulto sinistro.
Sou um réprobo, um maldito de Parabram e da Humanidade...
Devo ser justiçado com a pena última... para não macular uma sombria masmorra onde apodrecem outras feras humanas.
Sinto-me acossado por legião de vitimas, desta e de outras eras, que clamam Justiça!
O tirano maldito, o carrasco insensível de outrora, saberá sê-lo de si próprio!
Agora, já iluminada por um farol divino, minha consciência sabe ser recta.
Esquecei-me, senhor!
Acabando de pronunciar estas palavras com entonação vibrante, num rápido movimento de louco apanhou o punhal que estava no chão e num salto felino, quase alígero, galgou o parapeito do varandim suspenso sobre o rio.
Sem que os assistentes tivessem tempo de o impedir, cravou a arma acerada no coração e despenhou-se de costas no abismo.
Qual pêndulo ensanguentado, oscilou e caiu no Lena, produzindo um ruido de vidros estilhaçados. ..
Fabrido, que assistiu trémulo e estarrecido à impressionante tragédia, conseguiu dar alguns passos até o alpendre e volveu o olhar para a estranha e indefinível Natureza siberiana:
dir-se-ia que o Firmamento e a Terra se nivelavam com uma coloração uniforme, lívida, um só túmulo de brumas eternas!
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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho Ontem à(s) 10:49 am

CAPITULO V
Passaram-se alguns momentos de indescritível angústia.
Fabrício, que voltara do varandim, cambaleante, deixou-se cair, subitamente desfalecido, numa cadeira.
Dusmenil, esquecendo que um servo o observava, alçou os braços num gesto de desalento ou desespero profundo, e, genuflexo, exclamou:
— Deus meu! porque não permitistes que o desventurado me apunhalasse o coração?
Não seria menor o meu padecer, morrendo, que suportar este suplicio atroz em que me vejo, considerando-me, há muito, parricida e algoz da mais digna e santa das criaturas?
Ele disse que não merece perdão...
E eu, Senhor? Sou mais execrável do que ele!
Que fiz eu num momento de desvario e cegueira espiritual?
A desgraça irremediável de dois seres queridos, dois seres angélicos, que, por instante apenas, soltastes do Paraíso.
Agasalhei a delação de um miserável!
Sou mais ínfimo do que Ariel, que não podia compreender, quanto eu, a pulcritude moral da companheira que me destes!
Oh! meu René adorado, bem me disseste a verdade... quando, quase agonizante, apavorado com a presença do celerado, disseste que a mãezinha idolatrada ia ser ferida de morte por ele...
Porque não acreditei em ti, anjo estremecido?
Porque, alma de luz, ainda vens suster o golpe merecido, no meu coração abrasado de remorsos?
Como pude crer em tal monstruosidade contra a impoluta criatura que te concebeu, um ser já digno do Paraíso, apenas de lá exilado por céleres momentos?
Oh! como se realizou o terrível presságio de Heloísa quando, ao partir para a América, deixei-a entregue à guarda do traidor — abutre cruel atalaiando o lar feliz, que, dentro em pouco, haveria de ser destruído para sempre!...
Porque não me disseste o ocorrido, Heloísa?
Porque, naqueles malditos momentos do meu repúdio — dos quais me recordo com angústia inominável —, não me revelaste o que se havia passado na minha ausência?
Se mo dissesses, teria matado o reptil peçonhento, o teu caluniador, e ainda poderias ter sido ditosa ao lado do nosso Renêzinho querido, que morreu de saudades, faminto dos teus beijos e puros carinhos maternais!
Mas, que digo?
Trucidar aquele que me salvou das garras de um tigre famulento e feroz?
Assassinar quem me prestou um auxílio inestimável, não valeria transformar-me no mais vil dos sicários?
Ai! compreendo, agora, a excelsitude do teu coração, Heloísa bem-amada!
Para evitares esse crime, imolaste a tua honra, a nossa ventura, a vida do nosso idolatrado filhinho!
Expulsei-te do lar que santificavas com a tua presença, acreditando nos embustes forjados por um servo audacioso...
Imperdoável a minha ofensa, o meu crime.
Come deves ter sofrido, nobre Heloísa!
Que fiz naqueles instantes de desvario?
Não mereço o teu perdão, nem o vosso, ó Deus!
Sou mais infortunado que o mais ínfimo dos bandidos, acossado pela justiça do mais feroz potentado da Terra!
Só encontraria tréguas ao meu padecer, se fosse julgado e condenado pelo mais severo dos tribunais, e a seguir calcinado num pira ou retalhado vivo à navalha, empunhada por insensível bandido!
Que fazer, agora, com o peso inigualável desta dor a esmagar-me o coração?
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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho Ontem à(s) 10:49 am

Onde encontrará repouso esta alma em chamas, nesta região de gelo que, todo reunido, não arrefeceria o vulcão de sofrimentos que me irrompe do peito?
— Senhor... senhor Dusmenil? — disse Fabrído baixinho, temeroso de que o amo houvesse enlouqueciido.
Só então, atentou na presença do criado.
Fitou-o com olhar alucinado, fixo, como tentando reconhecê-la.
O servo, trémulo e agitado, aproximou-se de Gastão e falou:
— Perdoai a ousadia de querer dar-vos um parecer...
Aquele homem (apontou para o lado do rio) não era um ser como nós outros,.. tinha pacto com o Demo, dominava, fascinava, como as serpentes às aves que se aproximam... quer queiram, quer não!
A denúncia que ele urdiu contra vossa esposa — a mais virtuosa das criaturas, que todos veneram e admiram — não teria vingado, se não estivésseis sob um influxo diabólico.
— Sabias então, miserável, que Heloísa era inocente e só agora o dizes? — interpelou Dusmenil, erguendo-se colérico e ameaçador.
— Sim — murmurou Fabrício com humildade.
Muitas vezes pensei em revelar-vos a verdade, que me inquietava e dilacerava o coração, mas uma força sobre-humana impedia-me de o fazer...
Ouvi-me, por Deus! e, se depois do que expuser me julgardes criminoso, matai-me.
Inúmeras vezes quis confessar-vos a verdade do que se passou com a vossa consorte, torpemente infamada; ele, porém, possuía um dom mefistofélico, lia meus pensamentos, quanto os vossos e de todos os que dele se abeirassem; e uma noite, com sorriso hediondo, fitando-me com aquele olhar fosforescente que mergulhava em nosso ser, qual o escafandrista no fundo do oceano, falou pausadamente:
— “Fabrício, se disseres o que sabes ao Sr. Dusmenil... farei três cadáveres!
Não me perguntes quais serão eles...
Se me matares à traição para te livrares de mim, meu espírito se apegará ao teu por toda a eternidade, qual polvo à vítima, e não terás jamais um segundo de descanso!
Terás um fim horrível:
far-te-ei enlouquecer e te despenhares num precipício.
Ficarás com ossos e carnes em migalhas, como triturados por gigantesca mó!"
Eis, senhor, porque fui conivente com o perverso Ariel, a contra gosto meu.
Nunca presenciei o que ele imputou à Sra. Dusmenil.
Vossa esposa é a mais virtuosa de quantas tenho conhecido.
Tudo que ele vos denunciou naquele dia fatal, foi unicamente maquinado no seu cérebro de monstro humano...
Senhor, até há pouco eu estava Impedido de vos expor a realidade, por força de um jugo invencível...
Eu tinha... não, eu tenho horror àquele malfadado hindu!...
Fujamos deste lugar fatídico! regressemos à França, senhor!
Penso que somente quando avistar um pedaço de céu azul, um raio de Sol, perderei o pavor que de mim se apoderou.
Vede, senhor, onde nos achamos...
Gastão, sem o interromper, sentia-se desfalecido de angústia.
A passo automático, as pernas inteiriçadas, o corpo a tremer, Fabrício foi abrir de par em par as portas do alpendre.
Alongou o braço mostrando os cimos das colinas mal delineadas aos primeiros albores do arrebol, como se apontasse uma paisagem incolor ou desbotada pelo perpassar dos séculos, ou como esboçada por algum artista demente, que se utilizasse exclusivamente das Untas branca e cinza...
Teve um gesto de alucinado e apontou o Lena:
— Falemos baixinho...
Satanás deve estar a ouvir- -nos nestas regiões fantásticas, a espreitar a alma torpe de Hamed resvalando num abismo insondável.
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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho Ontem à(s) 10:49 am

Eles se conhecem Intimamente, creia.
O impiedoso Ariel teria realizado os seus sinistros intuitos tirando-vos a vida, se não fosse a intervenção de um arcanjo do Criador...
Vede aqueles outeiros — prosseguiu emocionado — que mal se divisam, sempre envoltos em densa mortalha de gelo, apegados ao firmamento da mesma cor indecisa do solo, semelhantes a muralhas de cristal separando os vivos dos espectros, para que ninguém ouse escalar suas fronteiras perpetuamente fechadas!
O rio ainda há poucos dias enclausurado num estojo de vidro, agora quebrado por alvião descomunal, tem um estranho rumor, como se humanas ossadas se entrechocassem na torrente...
Sabeis o que penso, senhor?
Que os sacerdotes — eu fui educado e protegido por um deles — estão iludidos quando asseveram que o Inferno está repleto de chamas ardentes...
Para que fogos nos antros diabólicos?
Para calcinar ... o incombustível, isto é, a alma? Não!
0 Reino de Belzebu deve ser... como a Sibéria!
O inferno é onde há gelo eterno.
Os cadáveres são rígidos e glaciais, porque a neve da Morte lhes penetra os tecidos, petrificando-os, enregelando-os...
No Império de Satã há apenas labaredas brancas... de gelo, unicamente, como as vemos além, naquelas serranias que tocam o Firmamento, de cuja proximidade não se pode duvidar...
Quem as vê, quem delas se abeira... sente o sangue paralisar nas artérias, torna-se um cadáver vivo, com a alma apegada a um corpo de mármore...
Aqui, senhor, deve ser o domínio de Satanás!
Fujamos desta região de morte e sofrimento!
Voltemos para a nossa França luminosa e fértil!
Um raio de Sol há-de restituir-nos a vida, que aqui nos vai faltando, como se fora um golpe de luz vivificante. ..
Quero ajoelhar-me aos pés de vossa esposa, pedir-lhe perdão por não havê-la defendido heroicamente, atemorizado pelo maldito que, a esta hora, deve estar prestando severas contas dos seus crimes, perante o Juiz Supremo!
— É tarde, Fabrício, para reparares essa falta imperdoável.
Não ouviste o que disse ele?
Que hei-de encontrá-la no leito de morte?
É horrível tudo isso...
Devias ter-me revelado a verdade, a despeito de tudo.
Tenho o direito de odiar-te!
— Perdoai-me — murmurou o servo com infinita humildade.
Ele seguia meus passos, vigiava até os meus mais secretos pensamentos, ameaçador, cruel!
Mas, confiemos em Deus, que já vos salvou a vida por um de seus emissários...
Ele permitirá que encontreis vossa consorte com saúde...
E ainda sereis venturoso, espero...
— Sim — murmurou Gastão —, partamos sem mais detença.
E, intimamente, formulou a ideia que o dominava:
— Tenho ânsias de rojar-me aos pés de Heloísa!
Quero que me perdoe a injustiça que lhe fiz, para refrigerar este Vesúvio de remorsos que me irrompe do cérebro em chamas!
— Senhor — tornou Fabrício apreensivo pelo que havia presenciado —, aquele homem sabia sortilégios!
Julgo que não era um ser humano como nós outros:
conversava com Entidades diabólicas que ninguém, senão ele, enxergava...
Temo que ele reapareça aqui, seguido de uma legião de espectros...
Receio que tenha ido aprestar-se para perseguir-nos!
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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho Ontem à(s) 10:49 am

Quem sabe não nos está preparando alguma cilada?
Terá morrido realmente?
Ele prometeu sugar-me a alma, como um vampiro o sangue, se vos revelasse o que sabia, e receio cumpra o que afirmou tantas vezes!
— Mas, foi ele próprio que me confessou a verdade, Fabrício!
Não te atemorizes, pois.
Graças à protecção do Alto, estamos libertos do seu funesto fascínio.
— Ele pode querer sustar nossa partida, os demónios o auxiliarão!
— És excessivamente impressionável, Fabrício!
Deus não concede a Satã o poder ilimitado que lhe atribuem.
O Bem não será vencido pelo Mal.
A luz não será vencida pela treva.
Fabrício, excitado e trémulo, aproximou-se da porta que dava acesso ao alpendre, mas recuou apavorado, com as mãos nos cabelos eriçados, os olhos desmesuradamente abertos.
— Vede, senhor, parece que crânios humanos, muito brancos, rolam na correnteza do Lena!
Fechai a porta, por Deus vos suplico! para que os duendes não invadam a casa.
Faltam-me os braços!...
Sinto que esmoreço...
Vou enlouquecer!
— São blocos de gelo que rolam impelidos pela torrente do Lena.
És muito supersticioso.
Não tens confiança na protecção do Omnipotente, de que há pouco tivemos »ma prova cabal?
Não és crente fervoroso no poder do Altíssimo?
Como, pois, te esqueces d’Ele nos momentos mais angustiosos da existência?
— Sim, meu senhor, mas nas horas de pavor... eu só me lembro do poderio do Tentador!
— Pois deves repelir essas ideias, que te conduzirão fatalmente à loucura!
Satã não existe.
É criação humana, destinada a desviar os maus da prática dos mais hediondos crimes.
Absurda, pois, é essa pretensão.
Deve-se incutir nas criaturas a convicção de que o Mal desagrada ao Ente Supremo, é contrário às suas leis inelutáveis e ninguém deve deixar de praticá-lo só por temer um ser fantástico.
Deus, e não ele, é que tem existência real.
O Eterno é o poder soberano do Universo.
O sumo Bem, a Justiça absoluta, não poderia criar o Mal perpétuo e impune.
Se o fizesse, poder-se-ia negar sua clemência e misericórdia incomparável.
Em momento de mais calina tornarei a este assunto.
Reanimado, o fâmulo, com a ideia de abandonar a Sibéria, a passo cauteloso e olhando sempre para trás, retirou-se da sala.
Gastão, vendo-o sair, deixou-se cair no divã e rompeu em soluços, sentindo que uma dor inaudita, descomunal cavava-lhe no intimo insondável cratera, impelindo-lhe a alma para um resvaladouro de mágoas e compunções!
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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho Hoje à(s) 9:25 am

CAPITULO VI
Dentro de poucas horas, estavam tomadas aa providências para a viagem de retorno à França.
Dusmenil e Fabrício fizeram-na, em grande parte do trajecto, dirigindo-se para o este do continente asiático.
Antes de partir, Gastão observou o local onde havia desaparecido o mísero hindu.
Nenhum vestígio havia da sua imersão no Lena.
Certamente, o corpo permanecia no fundo do rio, ou fora arrastado pelas torrentes onde flutuavam fragmentos de gelo, parecendo blocos de diamantes de alguma jazida divina, assaltada por titânicos rapinantes que, perseguidos pelas poderosas patrulhas siderais — mais céleres que as dos antigos legionários romanos — não os podendo levar para os ocultar no Infinito, os arrojassem àquele rio, que se tornava o maia valioso tesouro da Terra...
Uma tarde, quase nos limites da Pérsia com o Turquestão, os viajantes foram surpreendidos por numeroso e temível bando de sicários maltrapilhos e mascarados.
Um deles exigiu, em voz de falsete, os valores que levassem.
Dusmenil, precavido para essas súbitas emboscadas, havia colocado em esconderijo de espessa fourrure o que possuía de mais valioso.
Os bandidos abriram as malas, revolveram o quanto continham, rapinaram roupas caras, jóias e, por fim, apoderaram-se da carteira de Dusmenil contendo documentos e algumas moedas francesas.
Inaudita amargura o dominou ao vê-la nas mãos de um dos bandidos, que começou a esquadrinhá-la com o olhar aceso pela cobiça.
Gastão implorou-lhe que retirasse os valores da carteira, mas lha restituísse, pois era dádiva de um ser mui querido...
Os celerados entreolharam-se e um deles, que parecia chefiá-los, guardou no bolso a carteira.
Dusmenil, por um dos condutores do veicule em que se achava, rogou que lha devolvessem, apenas por alguns segundos.
Depois de relutar, o bandido atendeu, mas desembainhou reluzente punhal que apontou ao peito do inerme viajante, seguindo-lhe os menores movimentos. Gastão procurou ansiosamente num escaninho da carteira algo que lá ocultara em minúsculo relicário de cristal, e, encontrando-o, entregou-lhe.
— ET uma pérola — rugiram em coro os celerados.
Dusmenil, lívido, emudeceu.
— Hás-de entregá-la! — bradaram enfurecidos.
Lançaram-se a Gastão, brutalmente, um deles lhe
descerrou com rapidez a destra, na qual apertava a medalhinha. Quebraram-na com violência, e, então, à dúbia claridade do crepúsculo, observaram,
apertando-se cobiçosos, que continha um alongado e lácteo corpúsculo.
O chefe do bando, com o olhar lampejando cólera, ódio e decepção, fitou com escárnio Dusmenil, ao verificar que a suposta pérola era apenas um níveo dente de criança.
Para aquele desventurado salteador, separado, pelo vórtice dos crimes, de Deus e da virtude, só o que podia reduzir à moeda tinha valor. Para o infortunado e enternecido pai só havia um tesouro na Terra — o pequenino incisivo de neve, pérola humana que relembrava o sorriso do adorado filhinho que, quase na agonia, antes de fechar para sempre os olhos azuis, lho confiara para que o entregasse à mãezinha querida...
Vendo-o, Heloísa havia de perdoar-lhe, seria o último elo que uniria para a consumação dos séculos as suas almas momentaneamente, dolorosamente apartadas...
Gastão vira, com indiferença, aqueles homens se apoderarem de toda a sua valiosa bagagem; agora, porém, tinha os olhos lacrimosos, ao ver o seu maior tesouro profanado nas mãos incultas e criminosas do miserável que lho usurpava.
Entreolharam-se, num relance, aqueles dois seres:
— Gastão com olhos húmidos de pranto, o bandido com as pupilas negras lampejando raiva.
Bem diversos, seus sentimentos.
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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho Hoje à(s) 9:26 am

Para o desditoso ladrão, só existia o ouro. Jogava por ele a vida, e, buscando enriquecer com o alheio, por meio de pilhagem e delitos, emboscado em antros, em serranias desertas, à espreita do primeiro peregrino que passasse, para lhe arrebatar a bolsa, denegria a alma, empobrecia-a, tornava-a misérrima perante Deus, enlameava a consciência — o arminho celeste em que se impregna a fagulha divina...
A vaidade social outorga à pérola, à secreção pétrea de asqueroso pólipo um mérito fabuloso, um valor descomunal, para a ostentar, às vezes, num colo impuro de mulher, que, para possuir essa rósea gota de arrebol petrificado, ou minúsculo fragmento do céu veneziano, comete torpezas, nodoa o próprio espirito, deslembrando-se de que somente no coração, velada pelo estojo da matéria putrescível, se oculta a verdadeira pérola divina, que, imersa no insondável pélago da vida, pode alçar-se ao veludoso escrínio do Infinito — a alma virtuosa!
Quem, sobre a Terra, já a possui, torna-a bela, luminosa, digna dos relicários siderais, embora tenha o corpo macerado, mutilado, coberto de farrapos...
Mas, a Humanidade insana só se lembra do presente fugaz, olvidando a eternidade do futuro.
Aqueles desditosos bandidos — jungidos pela cobiça do ouro, que, para o Supremo Joalheiro, que afeiçoa almas e estrelas, vale tanto ou menos que uma gota de lama palustre — olvidavam que, roubando indefesos forasteiros, saqueavam o próprio espirito, tornando-o roto, poluído, misérrimo, andrajoso, despojavam-se do seu mais inapreciável tesouro — a paz da consciência
— a gema radiosa que os seres santificados pelo cumprimento austero de todos os ríspidos deveres terrenos possuem, quais nababos celestes.
Para Dusmenil, naqueles momentos angustiosos, todos os erários do Universo ficaram desvalorizados, eram-lhe indiferentes — o que havia de mais precioso na Terra era aquele níveo e pequenino dente do filhinho estremecido, pérola divina que lhe ficara como suprema lembrança do arcanjo que, por apeias, se acolhera ao seu lar e logo partira eu demanda de Luz e de Espaço, como águia real acorrentada por segundos em sombria masmorra!
Para obter o perdão de Heloísa, imaginara entregar-lha de joelhos, pois era o derradeiro vestígio do corpo angelical do filhinho, era qual lágrima de saudade que se cristalizara no final de sua agonia e ele lhe confiara, qual se o fizesse com uma pérola da Golconda celeste, a mais valiosa que existe no oceano... das almas cruciadas!
Lágrimas ardentes deslizavam-lhe pela face esmaecida, e, por instantes, teve ímpetos de lutar para reaver o pequenino tesouro que se profanava ao contacto de mãos criminosas, embora sacrificasse a própria vida, que lhe parecia um fardo inútil...
Súbito, o salteador que comprimia entre os grossos dedos o lactescente incisivo, num gesto de desdém e o olhar lampejante de cólera, ia arrojá-lo fora, mas, um outro que os observava, compreendendo a amargura de Dusmenil — certamente inspirado por algum génio sideral — deteve o braço do comparsa e, enternecido, tomando a minúscula preciosidade, depositou-a na mão de Dusmenil, exclamando áspero:
— Leva-o.
Aquele ser miserável, de vestes rotas e sórdidas, dentre todos os membros da temível quadrilha — almas empeçonhadas de pecado, dominadas pela hipnose do ouro e dos crimes, enegrecidas pelo carbono dos desejos impuros, gangrenadas pelos vidos e pelas mais torpes paixões — sentiu pela vez primeira o desabrochar de um sentimento generoso — açucena de neve abrolhada em monturo — misto de piedade e ternura paternal...
Compreendendo o desalento e a ternura de um coração desolado. .. seria ele o primeiro a trilhar o aspérrimo carreiro da virtude, a dobrar os joelhos, a suplicar ao Criador do Universo! Estava lançada no tremedal da sua alma a primeira semente de luz e de redenção!
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Ave sem Ninho

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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho Hoje à(s) 9:26 am

CAPITULO VII
Dias de penosa jornada através de planícies ou serras intérminas, decorreram com morosidade inenarrável para Dusmenil, que entristecido desejava, qual célere condor, librar-se nos ares e, em voo vertiginoso, alcançar o território francês.
Atravessou o Turquestão, o Cáspio, o Arquipélago, e, quando a caravela começou a sulcar o Mediterrâneo, reanimou-se, sentindo a alma dilatar-se no seu âmago, qual se fora atingir o firmamento.
Aportou finalmente em Marselha, e inaudita foi sua emoção ao rever o solo pátrio.
Compreendeu, por íntima e misteriosa intuição, que, finalmente, jamais dele se apartaria; que ia em demanda à terra onde tivera o berço e teria o túmulo, onde jazia o adorado filhinho.
Nunca se comovera tanto, ao retornar à pátria, nem ficara tão sôfrego para rever as regiões que lhe eram familiares...
Fabrício delirava de alegria:
— Senhor — falou a Dusmenil —, jamais deixarei a França, mesmo por momentos... nem que seja aclamado imperador de algum país longínquo!
Prefiro mendigar aqui, viver dos sobejos dos rafeiros, a ser milionário na Sibéria... ou nas terras do maldito Ariel!
Gastão, apreensivo, ouvia-o como dominado por um sonho, do qual só despertaria ao contemplar a esposa; percebendo que, a despeito de tudo, nos momentos de maior tormento moral, nunca deixara de a amar...
Relembrava, sem cessar, tudo quanto lhe acontecera, desde que se apartara de Heloísa, supliciado por indizível remorso.
Ressoavam-lhe na alma as palavras cheias de nobreza que ela lhe dirigira no dia fatal da separação e ficava surpreso como pudera dar crédito às perversas insinuações de Hamed, conhecendo a virtude, o mérito moral dela.
Possuiria, realmente, o hindu, qualquer maravilhoso poder de sugestão?
Como pudera magnetizá-lo, a ponto de cometer o mais nefando dos crimes — expulsando do lar a digna companheira, imolando a vida do sensível e encantador filhinho, que não resistiu aos embates da primeira dor, órfão das caricias maternas...
Como a encontraria? Morta ou viva?
Como o receberia? — com perdão? com recusa?
Tinha o direito de odiá-lo...
E se não lhe fosse permitido implorar-lhe o esquecimento dos agravos, se ela já estivesse, como o René, sob marmórea campa?
Desejava e temia, ao mesmo tempo, chegar a Argemont...
Ansiava pelo instante de rever a esposa que, mais que nunca, se tomara idolatrada, santificada pelo martírio moral dignamente arrostado, pelo inominável sacrifício da sua honra, para que ele não se fizesse homicida—
Parecia-lhe que a separação já havia durado séculos.
Avassalava-o, porém, indómita angústia e ressoavam-lhe no intimo, clangorosamente, as palavras da infortunada esposa:
— “Tarde reconhecerás a injustiça que ora praticas, que nunca transgredi meus deveres de esposa e mãe!”
Ou então, as de Hamed, rindo com sarcasmo:
— "Podeis regressar à França:
ides encontrá-la no leito de morte.”
Ter-lhe-ia dito a dolorosa verdade cujo pressentimento lhe apertava o coração?
Toda a sua principesca fortuna ele a daria pela certeza de encontrar a esposa com saúde, poder rojar-se a seus pés, receber um ósculo de reconciliação...
Sua inenarrável tortura era tamanha que lhe afivelara ao rosto uma lívida máscara de alabastro.
Fabrício temia que o patrão enfermasse gravemente e ousava dirigir-lhe palavras de conforto:
— Coragem, senhor!
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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

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Estamos perto de Argemont e haveis de encontrar com vida e saúde a vossa boníssima consorte!
Entardecia.
Transcorriam os últimos dias primaveris do ano a que nos reportamos.
Dir-se-ia que, àquela hora, havia pelo Oceano uma portentosa jazida de ouro e rubis liquefeitos, em promiscuidade, dando-lhe nuanças maravilhosas, tornando-a em lúcida apoteose, realçando os contornos das serras que pareciam vulcões em plena erupção, aureolados de matizes suavíssimos, de revérberos divinos...
Flutuavam no ambiente os eflúvios subtilissimos dos vegetais floridos, disseminados pela viração constante, como se emplumados leques se agitassem por encantados núbios reais...
Aproximava-se a carruagem que conduzia Dusmenil e Fabrício da aldeia mais próxima de Argemont, quando se fez ouvir o dobre de um sino da capela que se destacava no alto de um cerro, qual alvíssimo alcíone, pousada em imensa e esmeraldina vaga, eternamente imobilizada ao influxo de mágico e potente condão...
O crepúsculo a inundava com fulgores de ouro e eloendros e dir-se-ia que se achava ligada ao Empíreo por um farol divino.
Os sinos continuavam a tanger fúnebres sonoridades, aliando suas vibrações às de uma filarmónica que executava, em surdina, dolente marcha.
Pela encosta da veludosa colina, em que alvejava o pequenino templo, ascendia a multidão em alas.
Agonia inexprimível constringiu a alma apreensiva de Dusmenil, relembrando a profecia macabra do terrível hindu...
Quem sabe — pensou — não chegara na hora precisa de baixarem ao túmulo os despojos da infortunada Heloísa?
Via, num momento, fracassarem todos os seus desejos de reconciliação e de paz!
Ruíam por terra os derradeiros planos concebidos durante a jornada, que já durava dois meses e lhe pareciam séculos intermináveis!
Deus o punia com severa justiça: expulsara do lar a mais impoluta das mulheres, atirara a um pego toda a paradisíaca ventura que o Criador lhe concedera — não a merecia mais, na Terra!
Arrebatada ao Céu, aquela imaculada criatura que ele havia conspurcado com o ceno da desonra!
Ele a repudiara como vil e Deus lhe abrira os umbrais das mansões celestes, como entidade pulcra e nobilíssima.
Pôde, levando a destra ao peito ofegante, murmurar com indefinível amargura:
— Fabrício, a maldição de Deus pesa sobre mim; cheguei tarde demais a Argemont — na hora dos funerais de Heloísa!
— Que dizeis, senhor? — respondeu-lhe o servo, tornando-se lívido.
Seria horrível se tal sucedesse!
— Vá, Fabrício, colher informes!
Morro de inquietação!
Se tudo estiver consumado... dar-te-ei toda a minha fortuna para que me tires a vida!
É-me impossível sobreviver a tão excruciante martírio...
O criado fez parar a liteira e desceu para inteirar-se do que desejava Gastão, que, não resistindo serenamente aos embates do flagelo por que passava, sentindo-se no íntimo azorragado por látegos de fogo, tombou inerte nas almofadas e pálido como um cadáver.
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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

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LIVRO IV - Das sombras do passado

CAPITULO I

Curiosos acercaram-se da liteira em que Dusmenil continuava inanimado.
Quando, depois dos socorros que lhe prestaram alguns piedosos campónios, recobrou os sentidos, Fabrício o informou do que ocorria:
os funerais eram da genitora do pároco e não de Heloísa, que vivia doente no Solar de Argemont, adorada de toda & gente, pois era um modelo de virtude e bondade.
Reanimado com a notícia, Gastão prosseguiu viagem.
Era já noite quando avistou o castelo onde conhecera a formosa unigénita dos Condes de Argemont, com algumas janelas abertas, pelas quais se projectavam revérberos radiosos das lâmpadas interiores, formando toalhas de luz no terreno.
Emocionado, opresso o peito, dirigiu-se ao porteiro, que custou a reconhecê-lo, tão outra era a sua aparência, desde que se ausentara.
— Que desejais, senhor? — interrogou surpreso de seu regresso, pois não ignorava que o casal estava separado por motivos graves.
— Ver tua patroa.
— Ela está, infelizmente, de cama, e só com permissão do médico assistente poderei levar-vos à sua presença. ..
— Manda preveni-lo da minha chegada.
Aguardo aqui a resposta.
O porteiro inclinou-se e comunicou à enfermeira, a dedicada Marta, a pretensão de Dusmenil.
Lacrimosa e entristecida, a serva foi-lhe ao encontro e o conduziu ao salão.
Ao vê-la, ele recordou o dia fatal em que repudiara a esposa, e essa lembrança muito o sensibilizou.
— Marta — disse-lhe — preciso ver Heloísa quanto antes.
— Esperai um momento.
Ela poderá sucumbir à menor emoção...
— Qual a sua enfermidade? — tornou com ansiedade e amargura.
— Ai, senhor! Que tem ela?
Tem morrido lentamente desde... que foi ferida pela maior das desventuras!
— Bem o sei, Marta, mas Deus já permitiu que me inteirasse da verdade e só anseio, agora, rojar-me a seus pés e reparar meu crime!
— Tarde viestes, senhor, mas também eu tenho que vos pedir perdão...
— Tu me pedires perdão, Marta?
Pois não foste a única criatura inspirada pelo Senhor do Universo, que a julgou inocente?
Não foste a desvelada serva, ou amiga, a acompanhá-la nas horas de martírio?
Perdoar-te, eu? Não!
Desejo é recompensar-te, isto sim.
— Ai de mim, senhor!
Quereis saber qual o meu crime?
Naqueles momentos malditos, em que destes crédito ao infame Ariel, eu conhecia a realidade, podia vo-la ter revelado e não o fiz...
Deveria ter sacrificado a própria vida por ela, que bem o merece, e, dominada por um poder que me esmagava, não evitei o golpe que vitimou o inocentinho que eu amava qual se fora um filho estremecido...
Desfeita em lágrimas, ajoelhou-se diante do antigo amo, soluçando.
Ele, porém, com grave entono disse-lhe:
— Ergue-te, que eu e não tu mereço a punição do Supremo Juiz, pois melhor devia conhecer o tesouro que Ele me confiara...
Não te aflijas com o passado que tanto me amargura.
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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

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Presta-me agora o mais valioso dos serviços, indo preparar o espírito daquela santa criatura, para que eu possa chegar à sua presença!
A rapariga, enxugando as lágrimas, entrou no aposento da castelã, que, lívida qual estátua, de pálpebras semicerradas, reclinava-se na almofada nimbada pelos seus cabelos negros, qua mais lhe realçavam o livor das faces.
Uma lâmpada pendente do tecto espargia um como luar tenuíssimo no aposento.
— Senhora... — murmurou Marta, achegando-se ao leito, ainda emocionada.
— Que desejas? — respondeu-lhe a enferma, fitando-a — Que há? Porque choras?
— É que acaba de chegar um viajante que trouxe noticias de longínquas terras!
Não vos comovereis demasiado se eu vo-las transmitir?
— Queres referir-te a Gastão?
Não tentes iludir-me, pois estava adormecida quando entraste e sonhei que ele tinha vindo aqui.
— E se assim fosse , como o receberíeis?
— Espera, deixa-me orar primeiro:
quero o auxilio de Deus para dar-te uma resposta decisiva!
A serva ajoelhou-se ao pé do leito, soluçando.
Heloísa, por instantes, emudeceu e, meio recostada, librou ao Pai clementíssimo a alma comovida.
Durante alguns segundos um oceano de acerbas reminiscências lhe inundou a mente.
Dir-se-ia que o pensamento recuara alguns anos:
via-se em Arras, ao lado do filhinho idolatrado, nos dias de maior ventura.
Esteve queda a escutar o marulho do passado, que todos ouvem em horas de silêncio e meditação — às vezes, vago rumor; outras, anseios, frémitos, rugidos de procela, que o nosso íntimo conserva eternamente, qual na concha se conserva o marulho dos mares longínquos...
Rememorou os episódios dolorosos da separação de René, os dias de angústias
passados em Argemont, apenas balsamizados pelos actos de altruísmo que praticava, empenhada no conforto dos desvalidos, dos desditosos, dos orfanados.
Ondas de refrigério envolveram-na dulcidamente — a consciência cristalina e imaculada não lhe acusava um só crime, um só deslize...
Orou com a serenidade dos redimidos estampada nas faces marmorizadas, finalmente lavoradas pelo cinzel da Dor.
Sem uma lágrima, com as mãos ainda achegadas como duas asas unidas e trémulas, que fosse m librar-se pela amplidão sidérea, murmurou:
— Marta, diz-lhe que posso recebê-lo.
Estou preparada para esquecer o passado.
Sinto a meu lado os Protectores invisíveis, que me escudam com os seus braços de névoas — mais resistentes que o aço, porque são de têmpera divina..
Fremente de emoção, passo incerto, Gastão transpôs o aposento.
Um grito involuntário saiu-lhe do peito opresso e, prosternado, soluçou por momentos, à beira do leito.
Heloísa, com os olhos fulgurantes de lágrimas febris — mais belos que os de outrora —, fitava-o enternecida e, com resignação estóica, tocou-lhe os cabelos já encanecidos, com a destra diáfana, ardente, e falou suavemente:
— Como pudeste voltar sem que ele te assassinasse?
Deus é justo e bom, Gastão; permitiu que não morresses sem que soubesses a verdade, pois o teu regresso prova já estares de posse dela.
Como ansiava por este instante, Gastão — o momento sagrado da minha reabilitação!
Sabia que o Omnipotente havia de conceder-mo!
Dusmenil, quando se levantou, beijou-lhe as mãos e a face, dizendo com amargura indefinível:
— Sou o mais execrável criminoso da Terra, Heloísa!
Devias expulsar-me da tua presença, se eu não fosse o mais desgraçado dos homens, pungido pelos acicates do remorso e do desespero!
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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

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— Foste, como eu, justiçado pelas Leis supremas.
Resgatámos, com lágrimas de fogo, as nossas abominações de outros avatares.
— Deliras, Heloísa adorada?
Nunca tiveste outra existência senão esta, na qual foste imolada ao meu orgulho e insano ciúme!
Não soube adorar, como devia, a preciosidade inestimável que o Criador me concedeu!
Não tenho direito ao teu perdão e, no entanto, quanto o desejo!
Por ele daria o Universo... se me pertencesse, antes que ao Supremo Senhor!
— Acalma-te, Gastão, para que possamos transfundir nossas almas em mútuas confidências!
Está quase consumado o prazo que Deus me concedeu para te revelar tudo o que se tem passado comigo, a fim de compreenderes a grandiosidade dos desígnios supremos!
— Mas tu não morrerás agora, Heloísa querida!
— Não se recobra a saúde... na enfermidade que me consome.
Se não retornasses agora... encontrar-me-ias no túmulo, e só Além poderia dizer-te o que tenho a revelar-te.
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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

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CAPITULO II
A piedosa enferma fez o esposo erguer-se tocando- -lhe a fronte com os dedos febris, que ele osculou com ternura.
Convidou-o a sentar-se a seu lado e concitou-o a narrar-lhe todos os sucessos ocorridos na sua ausência, sentindo-se feliz em revê-lo com os olhos nevoados de pranto e compunção.
Quando ele terminou o relato de tudo o que lhe sucedera, Heloísa falou-lhe docemente:
— Sabia que voltarias, enviado por Deus, para nos reconciliarmos.
Quantas vezes, porém, a dúvida lacerou- -me o coração!
Temia baixar à campa sem estar purificada a teus olhos, continuando a me julgar adúltera, a mim que defendi a nossa honra e a do René, com risco da própria vida!
Mas, esforcemo-nos por olvidar o passado angustioso e lancemos nosso olhar ao eterno porvir que nos aguarda!
Sim, receava que voltasses tarde e, contudo, secreta intuição me advertia que tornarias ao lar deserto, mas honrado e já liberto do nefasto jugo do infeliz que destruiu nossa ventura terrena, e que seria, enfim, reabilitada a teus olhos, para eu morrer tranquilamente!
Agora, patenteada minha inocência, é mister que parta para onde se acha o nosso querido filhinho...
A saudade supera o meu desejo de ser útil ao nosso próximo; anseio ver nosso anjinho, beijá-lo como outrora, dar-lhe todas as carícias que lhe não pude dispensar nos últimos dias da sua curta existência!
Um dia... também irás ao nosso encalço, e, quando terminares tuas derradeiras provas, nós te esperaremos nos umbrais da Eternidade, com o abraço afectuoso com que os redimidos aguardam os peregrinos milenários do planeta dos Prantos e das Expiações remissoras!
— Exultas, Heloísa, com uma antevisão da felicidade que mereces, na mansão dos justos, e esqueces que eu, mísero delinquente, ficarei na desolação das horas seculares da saudade e do remorso?
Porque o Criador, tão clemente, não permuta a minha vida inútil pela tua, em beneficio dos infortunados?
— Porque... consumei primeiro que tu a sentença divina.
A dor inexprimível da calúnia, do ultraje e da separação de um ente adorado, as horas intermináveis de sofrimento, moral e físico, fizeram-me resgatar muitos crimes de pregressas encarnações, alvejaram, com lágrimas, as fáculas denegridas que jaziam em minhalma!
— Mas, de que encarnações falas sempre, minha amada?
Nunca pude crer na veracidade da transmigração das almas em diversos corpos, segundo os dogmas indianos.
Teu espírito sempre foi angelical, nobre como o de Maria de Nazaret! Reconheço-o, por minha desdita, tarde demais...
Com voz carinhosa, a enferma revelou-lhe os fenómenos psíquicos que com ela se passaram desde os tempos colegiais; os conselhos austeros que recebia dos seus Mentores boníssimos, em horas de amargura e aflição.
Dusmenil, a seu turno, relatou os que se relacionavam com as duas aparições de René, em momentos extremos e decisivos da sua existência.
Uma perfeita comunhão de ideias e sentimentos o uma afinidade magnética aliviaram, dali por diante, aquelas duas almas, que passavam horas em colóquios inefáveis, deslembradas quase da vida material, permutando pensamentos com a sofreguidão dos que se vão separar, embora cressem que seria por tempo limitado.
— Parece-me — disse um dia Heloísa com infinita ternura — que somente agora é que nos casamos.
Nosso primeiro conúbio foi realizado por um moire e um sacerdote: agora, pelas Entidades celestes, que velara por nós e que eu percebo a nosso lado, ouvindo o rufiar de suas brancas asas...
Um, foi o enlace efectuado pelos homens; o outro, por Deus.
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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho Hoje à(s) 9:27 am

O primeiro, material; o segundo, espiritual.
Um, foi destruído; o outro será perpétuo.
Agora é que nossos espíritos se ligaram, esqueceram as mútuas ofensas, efectuando-se, por toda a consumação dos milénios, um himeneu indissolúvel!
Os elos que doravante nos prendem são de aço e de flores imarcescíveis, jamais se dessoldarão; têm a resistência dos metais e a suavidade das açucenas; são indestrutíveis como a luz dos astros, que deve provir da alma radiosa do próprio Deus.
— Eu não soube conquistar essa ventura, Heloísa.
Reneguei-a em momentos de desvario...
Tua alma é feita de luz e candidez imaculadas... a minha é de réprobo, pois foi cruel e impiedosa, e tem de expiar, talvez por muitos séculos, como o crês, o seu nefando crime.
Não pode, então, desde já unir-se a tua, que a repelirá com asco...
— Que dizes, Gastão?
Pois não é o amor vinculo indissolúvel, e não to consagro eu desde que te conheci?
O amor sem a prova do sacrifício, do sofrer e da desventura, não pode ser aquilatado.
Confia na misericórdia divina, inesgotável, e obterás o perdão que desejas e que te concedi.
Se eu não merecesse a acerba prova por que passei... não ma teria infligido o magnânimo, integro e sumo Juiz!
Foi a Justiça divina que se executou, para que meu Espirito enodoado se purificasse.
Abençoemos os tormentos do passado tenebroso!
Encaremos o futuro com serenidade.
Pouco falta para que meu corpo baixe ao túmulo e minhalma se libre ao infinito.
Ficarás, como disseste, em desolação, mas não serás abandonado pelos amigos intangíveis, cuja dedicação é iniludível.
Assim como o compassivo René se tem desvelado por ti, também eu o farei, com o auxílio dos incomparáveis Protectores, que me têm amparado com os seus braços imperceptíveis, mais resistentes que o aço, pois me têm sustido à beira do sorvedouro da dúvida, do desalento e da desventura!
Uma tarde, segurando as mãos febris da esposa, Dusmenil interpelou-a:
— Escuta, querida, porque me ocultaste a verdade quando nos separámos naquela noite infortunada?
— Para evitar que te tornasses um homicida.
— Deus perdoaria esse crime, porque o dele, empeçonhando-te a reputação, sobrepujaria sempre o meu, pesados na balança divina.
— Tinhas um débito a resgatar com aquele homem, que te salvou das garras de um tigre.
— Menos feroz, no entanto, do que ele para connosco.
— Todavia, expiou tremenda e duramente esse delito, Gastão!
— Tens a sublime benevolência de Jesus, querida, perdoando aos que o crucificaram...
Já esqueceste o teu inominável suplicio, Heloísa?
— Não, mas considero aquele criminoso bem mais desventurado do que nós, porque a ignominia que se pratica, enegrece e perturba a consciência, e ele — que era sensível e inteligente — viu ruírem para sempre todos os seus planos sinistros, ante a Justiça suprema.
Não conseguiu esmagar a verdade, como Hércules à Hidra de Lerna, pois não se pode triturar em mó de argila um revérbero de sol!
Imagina a tortura por que passou aquela alma tenebrosa, farpeada pelos espinhos do mais acerbo remorso!
Esqueçamos suas crueldades e imploremos, à Majestade do Universo, clemência para o desventurado delinquente!
Se eu houvesse exalado o derradeiro alento, injustificado no teu conceito, talvez o não tivesse perdoado... mas, agora que me sinto feliz e reabilitada, de partida para onde se acha o René querido, eu o perdoo com sinceridade!
Vai-se-me finar uma existência limitada, para começar outra, infinita; extingue-se uma noite que durou horas, para iniciar-se uma alvorada eterna, e vou partir com a alma acrisolada pelos prantos, purificada pelo martírio extremo das provas ásperas, mas redentoras!
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Re: REDENÇÃO - Victor Hugo / Zilda Gama

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Se houvesse dado causa a que tingisses as mãos de sangue humano, teriam fracassado todos os nossos sacrifícios, seríamos separados por tempo longuíssimo, teríamos de recomeçar outras existências talvez mais penosas.
Exultemos, pois, por havermos cumprido integralmente os nossos deveres, embora tivéssemos o coração lacerado pelos gládios da saudade e da amargura!
A justiça divina foi desafrontada cabalmente — os réus vão alcançar o alvará de soltura definitiva.
— Outras existências, repetes, Heloísa?
Pois será crível que, após as refregas pungentes de uma vida planetária, tenhamos em perspectiva novas dores e outros infortúnios?
— Ouve, Gastão:
há muito devia ter-te exposto o que se tem passado comigo...
Supões, talvez, que deliro, mas, apesar de muito debilitada pela enfermidade, tenho as faculdades mentais inalteradas.
O que te vou narrar está nos domínios do mundo subjectivo, do plano espiritual; mas é a expressão da mais pura realidade...
Heloísa o cientificou de todos os fenómenos psíquicos que observara, desde quando adolescente.
Falava-lhe com doçura, parecendo reanimada e transfigurada.
Ele a ouvia embevecido e melancólico, compreendendo que aquele ser querido já pairava em plano superior, palpitante de espiritualidade, e não tardaria a alçar-se ao Firmamento, deixando as misérias terrenas.
Ficaria só, pranteando-lhe a ausência, relembrando, para seu suplício incessante, os sucessos do passado desditoso...
Ela, percebendo essa amargura, disse-lhe:
— Gastão, sinto-me influenciada por um poder extra-terreno, que me vitaliza o organismo, já quase diáfano, para transmitir-te os meus derradeiros pensamentos...
Percebo que, em breves dias, ou talvez instantes, remontarei às regiões serenas, de repouso e ventura, que existem no Cosmos, e onde se encontram nosso pranteado filhinho e entidades puríssimas — rondas siderais — que descem das abnenaras radiosas do Firmamento ao tremedal deste planeta, norteando para o Criador acue- las a quem amam fraternalmente...
Deixa-me, assim, expandir minhas ideias com lealdade, pois talvez amanhã já não possa fazê-lo com estes lábios!
Compreendo que tudo quanto nos sucede se origina de transcorridas existências.
O Inferno de todas as religiões é apenas um símbolo.
É esse lugar de tormentos, imaginado pelos teólogos, para punir perpetuamente os pecados irremissíveis, e que se aloja em nosso próprio imo, quando praticamos iniquidades.
Existe, também, nos mundos inferiores como este em que vivemos, onde arrastamos os grilhões do infortúnio e da compunção; nossos corações são calcinados nas chamas dos mais flagelantes sofrimentos morais, ou físicos.
Isto é uma das Geenas, um símbolo, esse lugar de tormentos.
Aqui voltaremos tantas vezes quantas forem precisas para depurarmos com lágrimas, abnegações, labores e virtudes, as nossas transgressões às Leis do Soberano universal...
Tenho vagas mas persistentes reminiscências de ter vivido em países asiáticos, onde fui orgulhosa, opulenta, vaidosa, insensível aos padecimentos alheios.
Tu, meu amigo, René, Marta, o Sr. de Bruzier, meus pais e...
Anel, fostes companheiros de encarnações terrenas do meu Espirito milenário, e Deus já nos ligou sob o mesmo tecto para olvidarmos mútuos ressentimentos, para ludificarmos nossas almas torvas...
Vincula-nos a força centrípeta e invencível do amor e do ódio...
Este, porém, por influxo do Alto, se desvanecerá qual bulcão disperso nos ares; aquele é perene e indissolúvel como a luz solar.
Porque te amei desde o momento em que surgiste neste solar, onde te aguardava, antes de conhecer-te?
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