Mariana ou Marie Anne? - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

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Re: Mariana ou Marie Anne? - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 27, 2018 7:48 pm

—Amanhã de manhã.
Eu mesma virei buscá-lo e o orientarei quanto à sua realização! Falaremos, depois, também, sobre mais alguma coisa que o aguarda lá.
— Durante este período, até a hora de começar, ficarei em prece.
Pedirei a Deus que me dê forças para eu não recuar diante desse trabalho, e para ajudar-me a desempenhá-lo bem, inspirando-me a palavra adequada a fim de levar um conforto maior àqueles que lá estão.
— Muito bem! Amanhã nos veremos outra vez.
Charles sabia que lhe seria difícil.
Nunca lidara com enfermos, a não ser a própria Juliete, mas o amor os unia e a dedicação era fácil.
Entretanto, pediria a Deus que abençoasse todos os que lá se encontravam, ajudando-o a vê-los com os olhos do amor fraterno e universal que lhe caracterizava as acções, mesmo enquanto encarnado.
A hora chegou, e Irmã Cidália foi ao seu encontro para levá-lo onde seria, a partir de então, o seu local de trabalho.
Durante o percurso ela aproveitou para transmitir-lhe mais algumas orientações, dizendo:
—Devo avisá-lo de que, pela intensidade da dor que há naquele ambiente, não permanecerá por muitas horas em actividade — apenas um período curto, durante cada dia.
Possuímos muitos irmãos que auxiliam naquele sector, pois a necessidade é grande e o revezamento; frequente.
Quando sair, é bom que passeie pelo jardim, espaireça entre as flores e o arvoredo, tome um pouco de Sol, respire o ar puro e se refaça, para que, no dia seguinte, lá esteja novamente com todas as suas energias espirituais reequilibradas.
—Pelo que me diz, está me assustando um pouco.
—Não quero assustá-lo, apenas preveni-lo!
Desejamos que o seu trabalho seja eficiente, sem que desgaste as suas próprias energias.
Chegamos, irmão!
Mesmo antes de entrar, Charles pôde ouvir muitos gemidos de dor, de tristeza...
O ambiente era sombrio entre os muitos leitos, todos ocupados por irmãos em tratamento.
Se fôssemos contar, teríamos cerca de cinquenta.
Enfermeiros abnegados cuidavam de todos.
Alguns ministravam-lhes medicamentos, outros diziam-lhes palavras de conforto, outros faziam a limpeza »prescindível, e o trabalho era intenso.
—Este turno está se iniciando agora, e, nesta hora, deverá estar aqui, todos os dias, para que nada deixe de caminhar como deve.
Avisou-lhe Irmã Cidália.
—Entendo, irmã, e realmente o ambiente é doloroso, mas Deus me dará forças.
—Nos primeiros dias, poderá apenas visitar os leitos, conversar com cada irmão enfermo e levar-lhe uma palavra de consolo.
Conquanto possa parecer que não estejam lhe ouvindo, não importa, fale da mesma forma!
Tudo o que lhes disser em conforto, será importante e, sendo registado, lhes será benéfico.
—Há quanto tempo aqui estão e quanto ainda devem permanecer estes irmãos?
- Isto não podemos precisar.
Depende do auxílio dado, mas depende muito de cada um, de como assimilam o que lhes é passado e de como os nossos medicamentos actuam sobre eles.
Há uma equipe, também, que lhes transmite passes.
Esses não permanecem, só vêm no momento do passe e retiram-se para outras actividades.
Quanto ao tempo em que aqui estão, alguns chegaram há poucos dias, outros, há muito.
Os que vão melhorando passam para outro departamento, onde o sofrimento é menor, e muitos chegam até onde o próprio irmão se encontra.
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Re: Mariana ou Marie Anne? - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 27, 2018 7:48 pm

O refazimento é feito mais tranquilamente, porém, depende das condições do Espírito, quando parte da Terra.
Compreendeu o quanto o seu trabalho vai ser benéfico?
—Eu compreendo e agradeço a Deus ter-me enviado aqui, onde posso ser útil, embora reconheça, a tarefa será difícil.
—Mas muito salutar.
Depois de algum tempo, arranjar-lhe-emos uma outra actividade, em outro local.
Terá condições de ir conhecendo toda a Colónia, com seus vários departamentos, e, em cada um, se Deus o permitir, e até quando Ele permitir, irá dando a sua colaboração.
Antes que o deixe e me retire, para que inicie a sua tarefa, quero levá-lo a um leito e mostrar-lhe uma nossa paciente que aqui está há algum tempo...
O leito ficava mais afastado e, quando Charles chegou, assustou-se! Tão chocado ficou, que nada disse.
—Conhece esta senhora, irmão?
Sim, conheço e estou surpreso!
Sabia que já havia partido da Terra há tempos, e surpreende-me encontrá-la ainda nesta situação.
—Os que são muito devedores têm a recuperação mais demorada, e o caso desta senhora é esse!
Ela deixou a Terra em condições muito lamentáveis.
Após a sua partida, não veio directamente para cá, perambulou muito, inconscientemente, até que uma equipe socorrista a trouxe.
Não chegou há muito, mas sabemos que deixou o corpo há alguns anos.
—Por que me trouxe até ela?
Como sabia que eu a conhecia?
—Esqueceu-se de onde estamos, irmão?
—Sinto que temos muito para conversar...
Tenho muitas indagações a fazer e gostaria que a senhora me esclarecesse...
E para o meu aprendizado.
— Sei que há muitas coisas que quer saber, principalmente sobre Marie Anne, mas tudo tem a sua hora, e, na hora certa, lhe será permitido saber.
Agora devo retirar-me. Fique na paz de Deus, que Ele o amparará na realização da sua tarefa.
Qualquer dúvida, qualquer informação em relação ao trabalho, pergunte ao chefe do sector a quem lhe apresentarei agora, e não tenha receios nem cuidados.
Em pouco irá acostumar-se, e o seu trabalho será realizado muito bem.
A tarefa afigurava-se a Charles como muito pesada.
Nunca havia entrado num local onde o sofrimento fosse tão intenso.
Não havia somente a tormenta das dores morais, mas a tormenta das dores físicas, como resquício de sofrimentos terrenos.
O desespero era muito grande.
As palavras de auxílio eram-lhes quase imperceptíveis.
Tão mergulhados em suas dores, nada ouviam, mas ele continuava...
Falava-lhes com ternura, aplicava-se com dedicação, e, aos poucos, ia verificando que aqueles que, a princípio, nem sequer notavam a sua presença ao lado do seu leito, já se voltavam ao perceberem que era ele quem se apresentava.
Muitos até demonstravam ansiedade para ouvir alguma palavra de conforto aos seus Espíritos, outros, tomavam-lhe as mãos e as beijavam.
Em poucos dias, algum resultado benéfico já se notava.
Não que esse trabalho fosse realizado só por ele, não. Havia outros companheiros que o realizavam também, mas percebia-se que Charles estava ficando muito conhecido, e era aguardado pelo calor das suas palavras.
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Re: Mariana ou Marie Anne? - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 27, 2018 7:48 pm

O amor que tinha no coração era o móbil principal do que estava conseguindo.
Dentre todos os que se encontravam naquela enfermaria, já sabemos, uma enferma, trazendo consigo tanto tormento, tanta dor, surpreendeu-o pela sua presença.
A ela Charles dispensava um carinho muito especial.
Entendia o seu sofrimento e sabia a causa da maior parte deles.
Conhecera-a em vida, na Terra, e nunca imaginou, um dia, mesmo no Plano Espiritual, ver-se defrontado com ela — a orgulhosa senhora Sousa!
Conhecera-a altiva e arguta, manobrando situações para conseguir o que desejava, haja vista o casamento de seu amigo Cláudio com a sua filha.
Conhecera-a quando desprezava profundamente a filha tão necessitada de carinho, apenas porque não possuía uma aparência condizente com a beleza dos grandes salões, onde as festas eram realizadas para que as jovens pudessem conseguir maridos.
Conhecera-a pelo pouco tempo de convivência, mas sabia do seu íntimo, pelo muito que observara.
Revira-a muitos anos depois, enferma do corpo e da mente, com a ideia fixa em sua filha, aquela que sempre desprezara, certamente corroída pelo remorso.
Sabia que a sua necessidade era grande e poderia trabalhar em seu favor, de forma diferente.
Falaria não só de Jesus, da força que ele nos transmite, do amparo que tem reservado a cada um de nós, mas falaria, também, dos que lhe foram queridos.
Apelaria para essas recordações, ajudando-a a aclarar a sua consciência e a readquirir o equilíbrio de si própria.
A primeira vez que se achegou ao seu leito, falou-lhe docemente da esperança de um amanhã melhor, aquele que vislumbram os que têm Jesus no coração, e enquanto assim falava, pensou:
Teria esta senhora, alguma vez em sua vida, na Terra, pensado em Jesus, pensado em Deus?
Nunca saberia...
Após muitos dias de persistência e dedicação, Charles percebeu que ela lhe dava um pouco mais de atenção.
— Lembra-se, querida irmã, da sua filha Manuela, lembra-se de Cláudio?
Ao ouvir estes nomes, ela virou um pouco a cabeça, mas nada disse, e ele continuou:
— Lembra-se de que a senhora possuía também uma outra filha, a pequena e doce Mariana?
Lembra-se dela?
Quando ouviu o nome Mariana, abriu os olhos e fixou-os nele, sem, contudo, dizer uma única palavra.
Ainda não tinha condições.
Após fechá-los novamente, começou a gemer, um lamento de muita tristeza e de dor intensa.
Eram sempre assim as visitas que lhe fazia.
Tratava-a com muito carinho, desejando, profundamente, ajudá-la, e, para isso, orava muito a Deus.
Pedia-Lhe que lhe inspirasse a palavra adequada, a fim de que a sua consciência retomasse, e a satisfação e a alegria pudessem fazer parte do seu coração.
O trabalho era árduo, porém, verificou que a cada dia, não obstante muito pouco, estava conseguindo algum progresso.
— Certa vez em que se encontrava junto ao seu leito, após uma oração pronunciada com o mais profundo do seu fervor, percebeu que ela abriu os olhos e perguntou-lhe:
—Quem é você que vem sempre aqui, trazendo-me palavras de tanta compreensão, e, às vezes, fala nomes que me foram caros?
—Não importa quem eu seja.
Apenas quero ajudá-la a reequilibrar-se para diminuir o seu sofrimento.
Todavia, gostaria que a senhora também se ajudasse, esforçando-se para melhorar cada vez mais e, quem sabe, deixar logo o leito e passar para um outro local mais tranquilo.
Que tal a senhora orar comigo, pedindo a ajuda de Deus.
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Re: Mariana ou Marie Anne? - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 27, 2018 7:49 pm

—Eu não sei orar!
Eu lhe ensinarei.
Basta elevar o seu pensamento a Deus e pedir-Lhe a sua ajuda!
Se repetir comigo o que eu disser, com o pensamento sempre Nele, o auxílio lhe chegará mais rapidamente.
Cada palavra de Charles era repetida por ela, até que a oração terminou, deixando-a envolta pelo pranto.
Eram as bênçãos de Deus que lhe caíram em forma de lágrimas, para aliviar o seu Espírito do peso de tantos males praticados.
Charles agradeceu a Deus por aquele momento, e ficou junto dela, enxugando-lhe as lágrimas.
— Muito obrigada por esse amparo, por essa oração que me fez repetir.
Obrigada por tudo o que vem fazendo por mim, pelo seu interesse, muito obrigada...
—Eu tenho um carinho muito especial pela senhora.
Logo irá me reconhecer, e, quando isso se der, conversaremos bastante.
Temos muito a recordar, porque já nos conhecemos em tempos passados.
Que Deus a abençoe sempre!
Amanhã retomarei, novamente oraremos juntos, e, a cada dia, irá melhorando mais.
Retirando-se, foi a outro leito e a outro, sucessivamente, até que seu horário se completou.
Esse trabalho era realizado diariamente e, quando o terminava, agradecia a Deus a oportunidade que lhe dera.
A medida que ia notando o progresso de cada um, conquanto pequeno, mais animado ficava, e mais se empenhava.
Saía com o coração consternado, mas contente do que pudera realizar.
Seguindo os conselhos de Irmã Cidália, caminhava pelo jardim, observava a beleza das flores, o seu colorido, em contraste com aquele local tão nebuloso, sombrio e de tanta dor.
Tinha necessidade daquelas cores que, sob o brilho do Sol, num céu muito azul, tornavam-se mais vivas.
Caminhava e pensava muito...
Colocava a sua vida em comparação ao sofrimento que diariamente presenciava, e reflectia sobre a necessidade de vivermos, na Terra, voltados para Deus, para os ensinamentos de Jesus, a fim de que um dia, de retomo ao Mundo Espiritual, não o fizéssemos em situação de penúria.
Os dias passavam, o seu trabalho continuava, e ele não tinha mais o pensamento tão fixo em Marie Anne.
Não que a esquecera, pelo contrário, do contacto com aquela senhora, lembrava-se mais da filha.
Recordava-se do incidente ocorrido na mansão dos Sousas, quando Marie Anne fora confundida com a pequena Mariana, por aquela mesma senhora que ali se encontrava.
Sentia muitas saudades, no entanto estava sabendo aguardar o momento que, tinha a certeza, um dia chegaria, e seria trazida para visitá-lo.
Compreendia que não deveria insistir.
Pensava muito nela, na sua pequena Juliete e no seu netinho com quem tão pouco pudera estar.
Mal sabia ele que, devido à grande aplicação ao seu trabalho, do qual os auxiliares maiores tomavam conhecimento, pois que tudo era anotado, fazia-se merecedor daquele encontro.
Nada, porém, lhe foi falado, para que a ansiedade não estragasse o que estava sendo preparado para breve.
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Re: Mariana ou Marie Anne? - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 27, 2018 7:49 pm

23 - GRATIDAO
As providências para que o encontro entre Charles e Marie Anne se efectivasse estavam sendo tomadas.
A alegria de ambos seria grande.
Charles no Mundo Espiritual teria a lembrança do encontro.
Marie Anne, porém, quando retomasse ao corpo, através do despertar estaria feliz, guardando uma vaga impressão de ter estado com o pai.
Contudo, por mais desejasse, não conseguiria lembrar o que conversaram.
E assim que se passa, muitas vezes, em situações semelhantes.
O que interessa ao Espírito é apenas o bem estar da recordação que ele traz, e que o alimenta durante algum tempo, e não a lembrança plena de tudo o que houve.
A visualização do Mundo Espiritual não é permitida a todos os encarnados..
Charles não via a hora que esse encontro pudesse acontecer.
Continuava as suas actividades, ajudando naquilo que lhe era permitido, esforçando-se bastante.
Já havia presenciado a retirada da enfermaria de muitos dos irmãos necessitados, os mais calmos espiritualmente, e outros cujos sintomas das dores físicas trazidas fortemente em seus Espíritos, puderam ser também amenizadas.
O adequado era que passassem a outra enfermaria, onde o ambiente era de uma paz maior, para que o tratamento pudesse continuar em outras bases, pois o pior havia passado.
Charles ficava feliz quando isso acontecia.
Sentia-se também um pouco responsável pelo bem-estar que pudera levar, através da palavra que lhes transmitia confiança e esperança.
Do mesmo modo que aqueles irmãos eram necessitados, Charles também o era, e à medida que trabalhava, fazia-o para si próprio.
Tudo o que passamos de bom, em forma de amor fraterno, àqueles que necessitam, nós também recebemos, em retomo, o amor que vem de Deus em nossa direcção, para o nosso progresso.
Assim ocorria com Charles, que trabalhava e progredia.
O seu modo de pensar já era outro, frente a tanto sofrimento ao seu redor.
Sentia-se feliz por não estar naquela triste condição, mas podendo ajudar um pouco.
Com o passar do tempo, chegou também o dia daquela senhora, a mãe de Manuela, ser transferida para outro local.
Encontrava-se mais calma, mais reequilibrada, mais receptiva.
Aprendera com Charles a orar, e mais das conversas que mantiveram, após tantos dias de insistência, ela pôde reconhecê-lo.
Lembrou-se dele, mas somente da primeira vez em que estivera em sua casa, quando ainda jovem.
Conversaram sobre todos os familiares e também sobre Mariana, mas ela ainda insistia em dizer que a filha estava modificada e muito bonita.
Vira-a, uma vez, depois de muitos anos da sua partida, quando ela voltara para visitá-la.
Charles lembrou-se da visita, do que ela lhe dissera naquela época e fora considerada demente.
E agora, seria a lembrança da demência?
Se ela já estava bem mais equilibrada, como explicar?
Nada disse a respeito da confusão que ela havia feito com sua filha, pois não queria decepcioná-la quando o tratamento caminhava tão bem.
Foi levada a outra enfermaria onde Charles não tinha acesso, pois o tratamento continuaria de forma diferente.
Ele gostaria de poder visitá-la, continuar a conversar sobre os seus familiares, ajudando-a, talvez, a melhorar mais.
Gostaria também, quando lhe fosse permitido e Irmã Cidália dispusesse de algum tempo, de conversar sobre à confusão que a velha fizera naquela época, entre Mariana e Marie Anne.
Chegou a falar com Irmã Cidália sobre essas possibilidades, mas ela, sabendo o que se preparava, respondeu-lhe, explicando:
— Querido irmão, o seu trabalho está sendo louvado e muito bem aceite pelo nosso Mentor por todos que aqui se encontram.
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Re: Mariana ou Marie Anne? - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 27, 2018 7:49 pm

O seu empenho tem sido grande e os resultados, muito bons!
Por isso já se faz merecedor de receber o que tanto deseja, além de levar, também, o refrigério à sua filha querida.
Entretanto, como também sabe, tudo tem o seu momento certo. De resto, nada posso acrescentar.
Quanto à visita que gostaria de fazer à velha senhora, no momento não é permitido.
Ela passa por um período de sono profundo, durante o qual lhe são ministrados passes magnéticos e provocadas algumas visualizações — aquelas que lhe serão salutares para complementar o seu tratamento de forma bem adequada às suas necessidades.
Não levará muito tempo.
Mais alguns dias, e ela terá condições de deixar um pouco o leito e ir para o nosso jardim.
Quando isso acontecer, terá a oportunidade de encontrar-se com ela.
Por ora, continue o seu trabalho em favor dos que necessitam — é uma forma de progredir.
A renovação de necessitados sempre era efectuada e o trabalho, bastante intenso.
Charles já estava mais habituado, embora tanto sofrimento constrangesse, o seu coração.
Entretanto, no momento em que de lá se retirava, hauria novas energias, seguindo as instruções recebidas.
Os dias passavam, continuava a sua rotina, aguardando mas sabendo esperar.
Diante de tanto sofrimento, se considerava feliz com o que possuía, e não mais pedia nada.
Mas não era porque não pedisse que nada estava sendo providenciado.
O encontro aconteceria dentro de poucos dias.
Certa vez, passeando após o seu afazer com os enfermos, viu, sentada em um banco, acompanhada por uma irmã abnegada, a velha senhora da mansão dos Sousas.
Ficou contente por vê-la mais restabelecida.
Até a sua fisionomia era outra — não tão triste, nem tão sofrida, aparentando a calma daqueles que conseguem conquistá-la também no coração.
Aproximou-se e foi logo reconhecido.
—Que bom vê-lo, meu amigo!
Lembro-me do quanto me ajudou e quero agradecer-lhe.
—Nunca agradeça a mim, minha irmã, agradeça a Deus que permitiu.
Estou feliz por vê-la aqui, bem mais disposta, mais calma.
Diria mesmo que há uma ponta de felicidade em sua fisionomia.
— Tem razão, trago a felicidade de estar recuperada e de ter recebido tanto auxílio, quando o meu sofrimento era tão grande.
Mas, a par dessa felicidade, trago muita dor no coração.
Agora que me encontro mais refeita depois de ter sido ajudada pelo irmão, lembrei-me dos meus familiares e tenho sofrido muito.
Tenho reflectido em toda a minha vida, sinto-me infeliz e indago-lhe:
— Como estou recebendo tanto em palavras de conforto, em carinho, atenções, e amparo, se eu própria nunca tive nenhuma palavra de conforto e de compreensão para com ninguém, enquanto vivi?
O irmão pôde presenciar um pouco da nossa vida, e até esteve presente quando a minha Marianinha partiu.
O remorso que trago no Espírito é grande!
Depois que me ensinou a orar, tenho rogado a Deus que me permita vê-la para pedir-lhe perdão.
Como gostaria de poder lhe falar, para dizer do meu arrependimento!
Sei que isso não tira a minha culpa, mas ela, que sempre foi boa, nunca teve uma palavra de revolta para com ninguém lá em casa, sobretudo para comigo ou para com Manuela, talvez possa dar-me o seu perdão.
— Não se martirize com esses pensamentos.
Quando o momento chegar, se Jesus permitir, a senhora a encontrará.
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Re: Mariana ou Marie Anne? - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 27, 2018 7:49 pm

Todavia, Mariana, que já naquela época era um Espírito que soube passar pelos sofrimentos e humilhações resignadamente, onde estiver, agora, certamente tem orado pela senhora.
Ela a amava, assim como também a Manuela.
Apenas circunstâncias a colocaram num ambiente onde, quem sabe, ela devesse passar por aquelas vicissitudes, com a compreensão com que sempre suportou tudo.
Tenho a certeza, ela também lhe perdoará, ou melhor ainda, dirá que nada tem a lhe perdoar, e ficará muito feliz por encontrá-la bem e arrependida.
— Sempre as suas palavras me trazem conforto!
Obrigada, irmão!
Logo ela foi levada para dentro, pelas mãos abnegadas que a tinham trazido, e Charles ficou pensativo.
Quantas lembranças armazenadas em seu íntimo para reflectir!
Quantas indagações persistiam, mas tudo seria aclarado, com certeza!
Irmã Cidália o afirmava e ele aguardava.
Por muitos dias seguidos ele encontrou a senhora Sousa no mesmo local, e pôde ver que, a cada um, se encontrava melhor, mais bem equilibrada, e já ensaiava algum pequeno passeio sozinha.
Algumas vezes puderam conversar, trazendo recordações, porém, o assunto principal era sempre Mariana.
Certo dia Charles foi chamado por Irmã Cidália, dizendo-lhe que novamente o Mentor queria falar-lhe.
Ele preocupou-se, mas nada fizera que o acusasse, e foi ao seu encontro, esperançoso de que alguma coisa boa pudesse advir-lhe.
O Mentor, agradecendo toda a dedicação que ele havia demonstrado no desempenho daquela tarefa, comunicou-lhe que aquele seu trabalho já estava encerrado.
Um novo irmão passaria a fazer o que ele realizara até então, porque o revezamento era necessário, dada a intensidade de sofrimento que lá existia.
—Agora, irmão, terá alguns poucos dias de descanso, e em seguida, dar-lhe-emos uma outra actividade que também irá desempenhar com muito amor.
—Agradeço todas essas palavras bondosas a meu respeito, das quais não me julgo merecedor.
Apenas procurei cumprir o que o meu coração mandou, e tenho um pedido a lhe fazer, se me permitir!
— Pois faça-o, se puder atendê-lo!...
—Deixe-me ficar lá mais algum tempo.
Há alguns enfermos aos quais me afeiçoei, e com os quais gostaria de completar o meu trabalho.
—Louvo a sua atitude, mas não será possível.
Se lá continuar por esse motivo, nunca mais sairá.
Como viu, a saída e a chegada de necessitados, naquela enfermaria, é sempre grande.
Quando uns partem mais refeitos, há outros que igualmente não quererá deixar, porque o trabalho já se iniciou. Compreende?
—Sim, compreendo. Tem razão!
— Desligue-se daqueles enfermos, agora.
Você terá oportunidade de encontrá-los, posteriormente, em outros departamentos, e os verá bem e ficará feliz.
Procure descansar alguns dias, passeie, leia, utilize-os como melhor lhe aprouver, pois o irmão é merecedor desse descanso.
Agora pode ir com as bênçãos de Jesus e o nosso agradecimento.
Charles não sabia analisar os seus sentimentos, ao deixar a companhia do Mentor.
Estava feliz por ter ouvido o seu reconhecimento pelo trabalho que realizara?
Estava triste por ter que abandoná-lo?
Não saberia dizer, não queria pensar, pois vira que, apesar da sua bondade e compreensão, era feito o que deveria ser feito...
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Re: Mariana ou Marie Anne? - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 27, 2018 7:49 pm

Se ele não lhe permitiu continuar, era necessário que assim fosse.
Aproveitaria esse período para descansar, ler, passear, mas sentiria falta do trabalho ao qual se acostumam, apesar de árduo.
Seria difícil, mas procuraria distrair-se com leituras edificantes e evangélicas, levaria um livro ao jardim e lá passaria algumas horas do seu dia.
No entanto, tão habituado estava àquele trabalho, que achou uma solução para os seus dias de folga, e a estava aplicando.
Quando no jardim, a par de suas leituras, observava atentamente os que lá estavam, procurando aqueles cuja fisionomia parecia mais sofrida e caminhava até eles.
Sentava-se no mesmo banco, conversavam bastante, e notava que as suas palavras iam transformando um pouco a tristeza que sentiam, em esperança.
Assim os dias passavam e ninguém o chamava para nenhum trabalho.
Irmã Cidália vez por outra o abordava, trocavam rápidas palavras, mas nada lhe dizia sobre o que ele desejava saber.
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Re: Mariana ou Marie Anne? - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 27, 2018 7:49 pm

24 - MARIANA OU MARIE ANNE?
Naquele dia o jardim se lhe afigurou mais belo!
Poucas pessoas estavam sentadas aproveitando a natureza pródiga, não sabia por quê, quem sabe a hora...
Caminhou bastante, chegou a um recanto mais afastado e sentou-se num banco sob uma árvore, cuja fronde era de um verde nunca visto na Terra, toda florida, exalando um perfume inebriante.
Fechou os olhos em prece, como sempre o fazia, e, elevando o seu pensamento a Deus, agradeceu tudo o que estava recebendo.
Pediu-lhe, também, que o ajudasse a não sentir tanta saudade da filha, pois, durante aqueles dias, pela interrupção das suas actividades, sentia-a muito mais intensamente.
Assim se encontrava quando mão delicada tocou-lhe o ombro, e uma voz tão conhecida, disse-lhe:
— Papai, aqui estou, vim vê-lo!
A saudade era tão grande que sempre pedia, em minhas preces, que esse momento me fosse permitido.
Charles, tão envolvido na prece, não abriu os olhos de pronto, pensando ser resultado de sua imaginação, mas ela continuava a insistir:
— Papai, não está me ouvindo,?
É a sua Marie Anne, olhe para mim!
Ela abraçou-o fortemente e ele voltou à realidade daquele instante, sentindo-a junto de si.
As lágrimas encheram-lhe os olhos.
—Minha filha querida, quanto eu a aguardei!
Estava justamente orando a Deus e dizendo da saudade que me invadia o coração.
— A saudade não era só sua, papai!
Tenho pedido muito por este momento, e dou graças a Deus que mo concedeu!
— Filha, fale-me de você!
Tenho orado tanto para que a sua vida, junto dos seus, continue em paz.
Diga-me, como estão as crianças?
— Já cresceram um pouco! Não sei se sabe, mas estamos separados há muito tempo! Há quase dois anos nos deixou...
—Não sabia precisar quanto, mas julgava que fossem séculos, tanta era a saudade que me tomava por inteiro.
Como tem sido a sua vida lá?
Conte-me, que depois tenho uma surpresa para você.
— A nossa vida, a não ser a falta que todos, e muito mais eu, sentimos de você, tem continuado normal, sem novidades.
Você sabe, o meu marido é bom, as crianças estão crescendo e fazem a minha alegria.
Tudo está bem, dentro do que Deus nos permite! — fez pequena pausa e prosseguiu, indagando.
Falou em surpresa, o que tem para mim?
—Há algum tempo, quando pedia tanto a Deus para vê-la, tive a alegria de receber, não você, pois diziam que ainda não era o momento, mas a visita de sua mãe, e fiquei muito feliz.
O que não pode imaginar, filha, é quem veio com ela, alegre, saltitante até — o nosso querido Michel!
—Ele está aos cuidados dela.
— Não sabe que alegria me proporciona, ao me dar notícias de mamãe e, principalmente por Michel estar bem e em companhia dela!
Fico feliz e mais tranquila agora.
Como Deus é bom para connosco, apesar do sofrimento pelo qual precisamos passar, às vezes!
Ele nos envia outras compensações que fazem com que o sofrimento seja menor.
Agradeço-Lhe por isso, e, quem sabe, um dia, também eu possa vê-lo!
Papai, eu conheço muito bem este lugar!
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Re: Mariana ou Marie Anne? - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 27, 2018 7:50 pm

Aqui passei muito tempo antes de ser levada de volta à Terra, junto de você.
Lembro-me de algumas coisas, sobretudo deste jardim, mas não me lembro de outras.
Talvez, pela minha condição de Espírito encarnado, não possa ter a plenitude das minhas lembranças, mas este jardim me é muito conhecido.
Marie Anne e Charles ficaram longo tempo conversando, recordando, não obstante estivesse ligada ela ao corpo, e não possuísse o Espírito livre como o dele.
Mesmo assim, liberto do corpo carnal através do sono, não obstante filamentos os liguem, a abertura que ele adquire muito grande — quase semelhante ao estado de desencarnado, embora com alguma barreira.
Os dois, que se alegravam da companhia um do outro, resgatando, naquele instante, uma saudade contida durante tanto tempo, conversavam muito e não se aperceberam que se aproximava, trazido por Irmã Cidália, um outro ser espiritual.
Ela não possuía mais o desequilíbrio próprio da demência senil, nem a inconsequência da sua inconsciência.
Fora tratada, preparada para aquele instante, e o próprio Charles contribuíra muito, razão pela qual ele estagiara naquela enfermaria, onde o sofrimento era tão grande.
Pelo seu conhecimento anterior, pôde ajudar bastante a velha senhora que se achegava, equilibrada, bem espiritualmente, mas saudosa da filha, e sequiosa para pedir-lhe mais uma vez o seu perdão.
Era, agora, o pedido de perdão daqueles que têm as energias equilibradas e lúcidas, e, por isso, seria acreditada.
Preparada por Irmã Cidália, porém, nada disse no primeiro momento.
Diante deles, Irmã Cidália falou primeiro:  
—  Querida Marie Anne, aqui venho também para compartilhar da alegria deste encontro.
Deixei-os a sós para que conversassem tudo o que sentiam necessidade, mas agora deveria vir.
Precisava dizer-lhe que captávamos sempre as suas preces, pedindo a Deus que este momento chegasse, e também era conhecedora dessas mesmas rogativas de seu pai.
Apenas aguardávamos uma ocasião propícia, a fim de que, além do encontro que os está fazendo tão felizes, trouxesse-lhe outra surpresa.
—Estou muito feliz, Irmã Cidália, e agradecida a Deus por ter ouvido as minhas preces e os rogos de papai!
Encontrá-lo, era tudo o de que estava necessitando o meu Espírito, para poder continuar a minha vida lá, mais feliz, sabendo agora que ele está bem, que foi muito amparado pela senhora — o meu anjo protector, quando aqui estive, lembra-se?
Nunca pude esquecer!
Você é muito cara ao meu coração!
Tenho acompanhado e auxiliado a sua caminhada na Terra, nos momentos difíceis.
Você não me sente, mas nos fazemos presentes! Sempre que há necessidade, lá estamos, levando-lhe forças e dizendo-lhe palavras de encorajamento.
Sinto que você percebe algo diferente que lhe transmite energias novas, sem poder precisar o que seja!
—Fico-lhe grata mais uma vez, por acompanhar a minha vida na Terra!
Disse que tinha uma outra surpresa para mim!?...
Fico feliz por me ter trazido esta senhora, a quem conheci, e em cuja casa estive passando uns tempos com papai.
—Sabemos de tudo isso, razão por que a trouxemos!
Ela quer conversar com você.
A velha senhora, sem nada poder dizer, ouvia Irmã Cidália e chorava muito.
Marie Anne aproximou-se, levou-a a sentar-se também, e, enxugando-lhe as lágrimas, disse-lhe:
Não chore, irmã querida!
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Re: Mariana ou Marie Anne? - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 28, 2018 8:59 pm

Lembro-me de tê-la visto há anos atrás, tão triste, tão enferma, é encontrá-la bem, agora, apesar das lágrimas, é uma alegria.
Não há motivo para choro! Alegre-se pelo nosso encontro, alegre-se por estar bem e por estar entre amigos, não é verdade, papai?
— Sim, minha filha, estivemos juntos muitas vezes!
Pudemos conversar bastante e ela está bem, apenas emocionou-se ao ver-nos, isto é normal... "
Depois de algum tempo ela conseguiu reequilibrar-se e as lágrimas cessaram.
Olhou fixamente para Marie Anne e perguntou-lhe:
— Lembra-se, filha, quando esteve em minha casa, e, às vezes, ia a meu quarto fazer-me uma visita?
— Sim, como poderia esquecer!
Aquelas visitas ficaram marcadas em meu coração, pela forma como me recebia, sempre pensando que eu fosse a sua Mariana, e pedia-me perdão.
A senhora nada tinha a me pedir perdão.
Esqueça o que houve, uma vez que está bem, e vendo que sou Marie Anne, filha do amigo de Cláudio, o Charles, agora também amigo seu, pela convivência que estão
Tudo isso é verdade, e sou agradecida pelo dedicação que ele teve para comigo! — fez uma bu para Irmã Cidália, como que para pedir ajuda, Charles, mas não tinha coragem de dizer, e Fale a senhora irmã, eu não terei coragem... se assim o quer, procurarei auxiliá-la! — e a Marie Anne, prosseguiu:
— Lembra-se, ida, de quando aqui esteve, antes da sua volta da, irmã, sei que aqui estive, lembro-me bem e de algumas outras coisas, mas não me lembro de tudo!
Lembra-se do seu trabalho na biblioteca, que a fazia tão feliz?
Charles observava, muito atento a cada palavra de Irmã Cidália.
Estava prevendo que havia chegado o momento de saber o que tanto desejava, por isso nada dizia.
Não queria atrapalhar e perder o relato, a revelação que percebia, se faria a seguir.
—A biblioteca era o lugar que me dava muito prazer, estou me lembrando agora! Pude realizar lá o meu trabalho, e lia muito, muito...
Sempre gostei muito de ler...
— Isto mesmo! Faça um esforço e terá mais lembranças!
Lembra-se por que adquiriu esse gosto pela leitura, na Terra, antes de ser trazida aqui, naquela oportunidade?
—Isso eu não consigo!
—Lembra-se, então, de como aqui chegou naquela ocasião, de como era?
—Não, irmã, não consigo lembrar-me de nada!
Ouvindo estas perguntas de Irmã Cidália, e ligando-as à confusão que a velha fazia com Mariana, Charles percebeu tudo.
Todo o enigma estava desvendado para ele!
Quantas coisas perpassaram pela sua mente em fracção de segundos e não conseguiu mais ficar calado!
Apenas um nome saiu como uma explosão de dentro de si.
—MARIANA! MARIANA!...
Esta exclamação espontânea de Charles, mas reflectida, como resultado das suas conclusões, espantou a todos.
Marie Anne não compreendeu nada, porém, a velha senhora e Irmã Cidália, que de tudo sabiam, viram que ele percebera exactamente o motivo daquela reunião.
A mãe de Mariana muito a solicitara.
Enquanto o remorso a corroía, era muito difícil recuperar-se por completo, e assim o seu pedido foi compreendido como benéfico.
Concordaram em que a revelação fosse feita, e, como o encontro entre pai e filha estava já delineado, compreenderam que tudo poderia ser realizado na mesma ocasião.
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Re: Mariana ou Marie Anne? - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 28, 2018 8:59 pm

Por isso, Charles foi enviado àquela enfermaria para facilitar-lhe o tratamento, período em que, inconscientemente, ela sempre solicitava a presença da filha e, inconscientemente, lhe pedia perdão.
Tudo havia sido bem trabalhado ao longo do tempo, e todos tomariam conhecimento dessa realidade, até mesmo Marie Anne.
O seu Espírito estaria ciente da sua encarnação anterior, naquele instante, entretanto, quando regressasse ao corpo, nenhuma lembrança levaria que pudesse interferir na sua caminhada, sobretudo na sua vida junto da família.
Se isso não acontecesse, o seu despertar lhe seria muito angustiante, podendo até causar-lhe um desequilíbrio, vendo-se com duas personalidades.
As providências, porém, estavam tomadas para evitar esse problema.
Antes que ela retomasse ao corpo, no seu lar, irmãos abnegados a esperavam.
Eles actuariam no seu Espírito, juntamente com a sua mente corpórea, a fim de que nenhuma lembrança da revelação ficasse.
Somente a agradável recordação do contacto com o pai, a saudade diminuída, como acontece pela lembrança que temos, quando sonhamos com um ente muito querido.
A velha senhora, muito emocionada, ouvindo a exclamação de Charles, não mais se conteve e interrompeu a narrativa de Irmã Cidália.
Sentiu uma coragem muito grande e, novamente em lágrimas, abraçou a filha, pedindo-lhe perdão, repetidamente.
— Perdão, minha filha, você é a minha Mariana, aquela que tanto fiz sofrer, aquela que foi para o nosso lar em condições tristes e que nós — eu e sua irmã — não amparamos.
Em vez de nos aliarmos para ajudá-la a suportar o seu fardo que, naquela época, era tão pesado, fizemo-la sofrer mais.
Marie Anne, meio aturdida no início, mas bastante ajudada por Irmã Cidália e outros irmãos que se aproximaram, foi se recordando da sua personalidade como Mariana, foi se vendo naquela casa, junto dos familiares, só, triste, desprezada, mas ainda não compreendia bem.
—O que está se passando comigo?
De repente me vejo naquela mansão, não como a visita que fui, mas como a moradora!
Vejo-me vivendo lá, como sabia que a pobre Mariana viveu!
O que está acontecendo, que ainda sou confundida com ela?
Teria, a influência desta senhora, feito com que eu própria passasse a me encontrar lá?
Irmã Cidália, que a tudo observava, achou que era a hora certa de intervir.
Separou a velha senhora de Marie Anne, pedindo-lhe que se acalmasse.
Ela própria lhe daria as explicações.
—Filha, você é sabedora de que vamos e retomamos para a vida terrena, muitas vezes!
Muitas existências lá vivemos, e cada uma em ambiente diverso.
Convivemos com algumas pessoas diferentes para adquirirmos conhecimentos, para desenvolvermos alguma actividade importante, mas, no geral, somos levados junto das pessoas de que necessitamos, seja como parentes consanguíneos, seja como amigos, para que o nosso progresso se realize.
Fazemos os-nossos propósitos para lá vivermos pautados pelo que prometemos e planeamos, contudo, usando do livre-arbítrio, nos desviamos e adquirimos débitos.
Quando retomamos em outra encarnação, sofremos muito.
Isso não quer dizer que aqueles que nos tornaram infelizes, não tenham, também, os seus compromissos! Compreendeu?
—É difícil, mas estou me esforçando!
—Ao esclarecer que lá retomamos muitas vezes, quantas se fizerem necessárias, quis dizer que agora você vive a sua vida como Marie Anne, filha de Charles, pai extremoso, e você, filha dedicada e amorosa.
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Re: Mariana ou Marie Anne? - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 28, 2018 8:59 pm

Antes, entretanto, houve muitas outras existências na sua caminhada de Espírito, e a sua encarnação anterior à actual, foi vivida na casa desta senhora, como a pequena Mariana que muito sofreu e muito aprendeu.
—Eu fui a Mariana, aquela criatura tão sofrida, e que, desprezada por todos, se recolhia às suas leituras?
A que só se sentia bem naquele caramanchão tão agradável?
Suas palavras não demonstravam mágoas, nem ressentimentos, mas surpresa.
Como já sabemos, ela se sensibilizara ao conhecer a vida daquela jovem, e ficou feliz por saber que ela mesma havia sido a Mariana.
Olhou para a mãe, não com rancor nem com tristeza, mas com um profundo respeito, e disse:
—Então a senhora foi a minha mãe daquela época?
Era por isso que sempre me confundia com ela? — e, reflectindo um pouco, indagou:
O meu corpo era outro, e estávamos ainda encarnadas, como sabia que era eu?
Irmã Cidália novamente interveio, explicando-lhe:
- Era o seu próprio estado de enfermidade física, a par com a sua inconsciência, que a deixavam meio desligada do corpo, fazendo com que a visse mais em Espírito — era uma visão de Espírito para Espírito — por isso ninguém compreendia o que se passava,
—A minha alegria, filha, é tão grande em poder lhe falar!
Eu sei, fiz-lhe muito mal e a dor do remorso que trago é tão grande, que tem me impedido até de caminhar livremente, agora, na vida espiritual.
Pelo menos se eu puder ouvi-la dizer que me perdoa, recomeçarei minha caminhada de forma diferente!
Já sofri muito, e, por causa de tanto sofrimento, do meu arrependimento e da minha vontade de lhe pedir perdão, Deus permitiu-me encontrá-la hoje.
Estou muito feliz, mas preciso do seu perdão!
Você já evoluiu bastante, e a pureza do seu Espírito, certamente, vai entender e dar-me o que lhe peço, embora saiba que não o mereço.
—A senhora não precisa se humilhar tanto...
Agora me recordo de toda a minha existência lá...
Sofri bastante, entretanto, sinto que pude direccionar a minha vida de forma muito benéfica.
Sempre gostei da senhora, como também da Manuela, e não guardo, em meu Espírito, rancor nem mágoa de nenhuma das duas.
Se mágoas ou tristezas houve, naquela época, de há muito as esqueci, e agradeço-lhe até, por ter me proporcionado a vida naquela oportunidade, recebendo-me em seu lar, porque, com certeza, era o lugar onde eu deveria fazer o aprendizado para o meu Espírito.
Não se martirize, eu a perdoo, se assim quer ouvir, mas saiba que nada tenho a lhe perdoar, pelo contrário, só a lhe agradecer.
Graças àquela vida que me deu, graças a tudo o que lá passei, é que hoje posso estar um pouco mais evoluída.
— Você, ainda agora, mostra a beleza do seu Espírito, e faz com que eu me sinta mais aliviada.
Não que as minhas culpas diminuíram, mas estou mais encorajada para, de agora em diante, procurar também o meu progresso.
Quem sabe, uma outra vida possa me ser proporcionada, para eu resgatar tantos débitos...
— Para demonstrar à senhora que nada resta em meu Espírito, quem quer abraçá-la, agora, sou eu, e o faço com muito amor, com muita gratidão e a esperança de que sairá daqui bastante aliviada.
Que Deus lhe dê forças para essa nova vida, e dê também, a nós todos, o amparo de que ainda necessitamos.
Que eu possa, também, na minha vida de encarnada, conduzir bem aqueles que estão em meu lar, sob a minha responsabilidade, que agora se faz ainda maior.
A senhora Sousa agradeceu as palavras da filha, reconhecendo nela a sua Mariana que, já naquela época, a tudo suportara com elevação de Espírito.
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Re: Mariana ou Marie Anne? - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 28, 2018 8:59 pm

Após tantos anos decorridos, compreendeu que não podia obter dela outra coisa senão o perdão.
Agradeceu-lhe muito, confiante que, dali em diante, conduziria a sua nova etapa na vida espiritual, de forma diferente.
Não sabia ainda o que a aguardava, mas submeter-se-ia à vontade dos mentores, para poder ressarcir tantos débitos contraídos naquela ocasião.
Irmã Cidália interferiu, dizendo que já era hora dela se recolher.
A emoção havia sido muito forte, porém, ela deveria sentir-se feliz e agradecida a Deus pela dádiva que lhe concedera.
Atendendo-a, despediu-se da filha e retirou-se, acompanhada por Irmã Cidália que prometeu voltar.
Ainda precisava conversar com Marie Anne.
Charles, que a tudo ouvira e nada dissera, além do nome Mariana, emitido espontaneamente, dirigiu-se à filha com muita ternura.
—Ainda estou surpreso de tudo o que ouvi, porém, satisfeito!
Muitos pontos que me eram de difícil entendimento, agora se aclararam.
—Eu também não compreendo bem como fui colocada nesta situação, mas agradeço a Deus ter permitido que esse fato me fosse revelado.
Procurarei aceitar melhor, como Mariana que fui, tudo o que lá me aconteceu, todavia, não quero mais me lembrar daquele período.
Apenas um pormenor, guardado em minha mente, vem comprovar que naquela casa vivi - é o jardim!
Lembra-se de como eu gostava dele?
Lembra-se da paz e do bem-estar que eu sentia quando estava naquele caramanchão?
Era a paz que o meu Espírito rememorava, daqueles tempos, sem que eu mesma soubesse.
—Compreendo muita coisa que não entendia!
Compreendo até o meu desejo de lá retomar, depois de tantos anos de afastamento!
Talvez tivesse sido necessário para que você revisse aquela que fora a sua mãe, se enternecesse, a fim de que, no momento em que a reconhecesse, fosse forte e a aceitasse mais facilmente, perdoando-lhe como o fez.
Fiquei muito contente pelas palavras que lhe disse e pelo carinho que proporcionou ao seu Espírito.
Você, Charles, que solicitava tantas explicações, compreendeu agora? — indagou Irmã Cidália, retomando junto deles.
—Compreendi que, no Mundo Espiritual, os desígnios da Providência são muito grandes e bem urdidos.
Eu solicitava apenas um encontro com minha filha, e explicações que â senhora mesma pudesse me transmitir, no entanto, ao invés disso, foi realizado um trabalho tríplice.
Por isso demorou tanto, até que tudo estivesse pronto para esta reunião!
—É isto mesmo! Não poderíamos adiantar-lhe nada!
Preparávamos o que ocorreu hoje, trabalhando aquela velha senhora com o seu próprio auxílio, a fim de que essa situação fosse aclarada a todos ao mesmo tempo! — e, voltando-se a Marie Anne, perguntou-lhe:
-O que me diz disso tudo Mariana ou Marie Anne?
Como deseja que a chame agora?
—Irmã Cidália, o meu nome não é importante!
O que importa é quem fui e quem sou, o que para mim já está claro!
Sinto, porém, que, para Mariana, ainda alguma coisa falta, mas não me atrevo a perguntar...
Tenho a minha vida lá, sou feliz com o meu companheiro, com os meus filhos, e peço a Deus que possa sempre me orientar para o bem, para conduzi-los correctamente, vivendo no amor de Deus e aceitando, com resignação, o que ainda me estiver reservado.
—É sobre isso mesmo que desejo falar-lhe, pois reservamos-lhe uma nova tarefa, junto dos seus familiares.
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Re: Mariana ou Marie Anne? - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 28, 2018 9:00 pm

No tempo devido, receberá em seu seio materno mais uma filha que lhe será muito querida ao coração!
Ela será bastante necessitada do seu amor, do seu carinho, por isso deverá ser muito amparada por você.
Se assim ocorrer, ela lhe trará grandes alegrias e será o amparo da sua velhice.
Será a dedicação de filha, quando não quis ser a dedicação de mãe!
Compreende o que quero lhe dizer?
—Pela vontade de Deus eu terei, em meu lar, como filha, aquela que uma vez foi minha mãe e se descurou de seus deveres, e agora, arrependida, volta junto a mim para me dar o que recusou naquela ocasião!?
—Sim, filha!
Quando chegar o momento, queremos que a receba com todo o amor que sabemos, tem no coração, contribuindo para que ela possa ressarcir os seus débitos.
Ela viverá junto de você como uma filha querida que lhe dará muito amor — não o maternal, mas o filial — que deve receber e agradecer a Deus.
Agradeça, também, pelo trabalho que irá realizar junto dela, e pelo amparo que ela lhe trará!
—Estou feliz, irmã!
Quando daqui parti, fiz os meus propósitos, e devo esforçar-me para cumpri-los, pois sei, tudo o que fizer, estarei fazendo para meu próprio Espírito.
Agradeço a Deus por ma enviar, mas peço-Lhe que me ajude a recebê-la como alguém que eu ame, compreenda e auxilie.
Ouvindo-a, Charles interferiu, dizendo:
—Foi exactamente o que eu obtive de você, filha querida!
Por isso lhe sou muito agradecido e peço sempre a Deus por você, pelos seus filhos, pelo seu esposo, a fim de que estejam unidos, um amparando o outro, com muito amor, muita dedicação.
— Eu fiz o que o meu coração mandava, o que o meu amor de filha pedia, lhe fizesse!
Entretanto, foi pouco perto do muito que recebi em carinho, amparo e amor.
— Marie Anne, agora é hora de retomar! avisou Irmã Cidália.
Nada do que houve aqui, irá recordar!
Era necessário que mantivéssemos toda esta conversa, com o seu Espírito liberto, e forçássemos a lembrança de Mariana, pela tarefa que a aguarda, mas, aqui, somente.
De volta ao lar, levará apenas a recordação de ter encontrado com o seu paizinho querido, de ter estado com ele, e ficará feliz!
Nada mais lhe é permitido levar ao corpo carnal!
Por isso iremos acompanhá-la, e lá, no seu lar, outros irmãos a esperam para realizarem esse trabalho.
Eu também irei!
Marie Anne abraçou o pai, e Irmã Cidália, que partiria com ela, despediu-se também de Charles, perguntando-lhe:
—Está feliz?
Ficou satisfeito com o que lhe preparamos?
— Muito feliz e agradecido, não só à senhora e a todos, mas muito mais a Deus!
—Oportunamente precisamos ainda conversar!
Tenho um outro esclarecimento que quero lhe fazer, complementando o que ouviu hoje.
Sem que ele tivesse tido tempo para nenhuma indagação, ela exclamou:
Partamos, Marie Anne!
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Re: Mariana ou Marie Anne? - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 28, 2018 9:00 pm

25 - FINALIDADE MAIOR
— Anne chegou ao seu lar e foi trabalhada para que nenhuma recordação lhe restasse sobre o que se passou, além da agradável sensação de ter estado com o pai.
Assim era preciso pela tarefa que a esperava junto de sua antiga mãe.
Quando a colocaram de retomo ao corpo e a deixaram serena, voltaram ao seu lugar de origem* Charh já havia se recolhido do jardim.
Tudo fora realizado conforme o planejado.
Muitas vezes os encarnados, mesmo sem o saberem, contribuem muito, em situações semelhantes, para o entendimento, para o esclarecimento a Espíritos necessitados, sobretudo quando medida tão importante está em pendência, como o perdão de Mariana à sua mãe daquela época.
Só assim ela poderia, a partir de então, ser preparada para o que aconteceria no tempo devido, e não muito afastado.
A velha senhora, ao ser retirada da presença de ambos, passou para o departamento onde faria a preparação para a sua próxima existência terrena.
Nasceria junto àquela filha a quem fizera tanto mal, mas que agora a receberia com amor, e muito mais, aceitaria o amor que ela lhe daria, agora em forma de filha.
No reino de Deus há o lugar e a hora certa para que ressarcimentos sejam efectuados, propiciando ao Espírito o saldar de débitos.
A partir daquele encontro, uma nova etapa se iniciaria na vida das duas.
Espiritualmente, Marie Anne estava preparada.
A velha senhora também o estaria, partindo cônscia de onde iria e com quem conviveria.
Apenas quando lá chegasse, nada mais seria lembrado.
A inconsciência se faria, mas de Espírito — a que ele adquire pelo esquecimento, ao entrar em contacto com um novo corpo.
Seria uma encarnação importante, como todas o são, mas naquela, grandes débitos de faltas, de remorsos, de sofrimentos contidos, seriam ressarcidos.
E, certamente, venceriam.
Os propósitos realizados cumprir-se-iam para que nada mais restasse — nem culpas, nem tristezas, nem mágoas — em ambos os Espíritos.
Charles, quando só, reflectiu muito, e, ainda surpreso, aquela sua curta convivência com Mariana voltou-lhe à mente.
Por que teriam sido colocados juntos naquela encarnação?
E o nome que dera à filha, já seria ó adivinhar de seu Espírito de que a estava recebendo em seu lar?
Procuraria conversar com Irmã Cidália.
Se ela mesma dissera que precisava lhe falar, era porque ainda faltava algum esclarecimento.
Ele estava naquela Colónia há algum tempo, mas não o suficiente para ter adquirido todo o conhecimento e a abertura que os Espíritos adquirem através do progresso.
Entretanto, esperava ser esclarecido nos pontos que ele próprio ainda não podia visualizar.
Irmã Cidália, que a tudo promovera, certamente o faria, e, se a conhecia bem, ela não o procuraria senão no momento em que pudesse conversar.
Continuando a desfrutar do descanso que lhe fora proporcionado, ele agora entendia — só fora colocado naquela enfermaria onde a necessidade era tão grande, para poder auxiliar a antiga mãe de sua filha, e ajudar a prepará-la para o que ocorreu.
Não importava que a finalidade maior fora só esta.
O trabalho que realizou, junto aos outros, deu-lhe a tranquilidade de Espírito daqueles que se sentem úteis, e podem levar uma palavra de auxílio a quem tanto precisa.
Decorridos alguns dias, eis que ele encontrou Irmã Cidália.
Parece até que o jardim era o lugar preferido dela, para que conversas fossem entabuladas.
Ele tinha razão! O jardim, o ar livre, a atmosfera amena, sempre facilitavam o esclarecimento.
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Re: Mariana ou Marie Anne? - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 28, 2018 9:00 pm

Quando Charles a viu, foi ao seu encontro:
Aguardava-a há tantos dias, sabendo que precisava conversar comigo, mas não pude vê-la.
Como deixou a minha querida Marie Anne, naquela noite?
— Vejo que está aproveitando os seus dias de descanso.
Sentemo-nos, que precisamos conversar.
— A senhora não respondeu ao que lhe perguntei!
— Farei logo em seguida.
Em um banco próximo de onde se encontravam, rodeado de flores alegres e perfumadas, Irmã Cidália falou-lhe:
Naquela noite, levamos sua filha e a trabalhamos a fim de que ela não se lembrasse de nada, guardando apenas a lembrança da sua presença, que lhe seria muito benéfica.
As outras revelações ficarão armazenadas no seu Espírito, para o desenvolvimento da tarefa que a aguarda, sem nenhuma recordação.
Dir-lhe-ei mais o que não perguntou, mas o deixará contente — vimos os seus netinhos, duas crianças lindas que repousavam como anjinhos.
— Senhora é sempre muito boa para connosco!
Devemos-lhe muito!
— A mim ninguém deve nada!
Trabalhamos em nome de nosso Pai e de Jesus, que nos permite levar a palavra de confiança e o auxílio aos que necessitam!
Trabalho para Ele tão somente.
A humildade de Irmã Cidália sempre comovia Charles, e ela continuou:
—Chegou a hora de você tomar conhecimento de alguns pormenores que de há muito queria saber...
Você verificou que Marie Anne, a sua querida filha, havia sido a Mariana de outrora, e que a confusão mental da velha senhora eram verdades abrigadas em seu Espírito.
Verificou que nada acontece por acaso.
Era necessária aquela sua viagem a Lisboa, para que esse contacto entre mãe e filha fosse possível.
Era preciso que o coração de Marie Anne se enternecesse pelo sofrimento dela, sem saber quem ela era.
Como vê, essa planificação já estava organizada a fim de que males fossem ressarcidos.
No mesmo ambiente ou em outro, mas convivendo com aqueles a quem ofendemos.
Tudo foi preciso para que não houvesse revolta nem animosidade entre mãe e filha, quando Marie Anne a recebesse.
Compreendeu, quando lhe dizia que ainda não era a hora, que no momento certo de tudo saberia?
—Sim, irmã, compreendo e cada vez mais admiro e me curvo diante da sabedoria do Pai!
Entretanto, nestes dias em que a aguardava, muitas indagações me vieram à mente, e eu gostaria de ter as respostas, se for o momento.
—Eu sei o que quer saber, e, se aqui vim, é porque me disponho a nada lhe omitir...
—Sabe que desejo saber da minha simpatia por Mariana, naquela época, quando éramos jovens?
Sabe do respeito e da admiração que sempre lhe tive?
Sabe que ela permaneceu em meu pensamento, e que na lembrança que ficou em mim, a sua aparência não era mais a daquela oportunidade?
Ao afastar-me de Lisboa, aos poucos, pelas suas qualidades de Espírito, ela foi se transformando, e eu a via mais bonita e completamente normal.
—Sou sabedora de tudo.
Você a via conforme ela era em Espírito.
Depois que Mariana partiu, à medida que o seu Espírito se transformava aqui, você a transformava também em seu pensamento.
Quando ela chegou, passou por tratamentos, como todos passam, e sempre foi muito dócil.
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Re: Mariana ou Marie Anne? - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 28, 2018 9:00 pm

O seu Espírito já voltou da Terra tendo adquirido muitas qualidades, e a sua transformação não foi difícil.
Lá era preciso que ela tivesse aquela aparência, para o ressarcimento de débitos contraídos em outras existências, mas aqui, depois que esses débitos foram resgatados, não havia mais necessidade de mantê-la.
Por isso a via transformada.
É — Estou compreendendo.
No entanto, o que desejo saber é o porquê da minha simpatia por ela.
—Como vivemos muitas vidas, aquela oportunidade não foi a primeira em que se encontraram!
Já tiveram outras existências juntos, não como pai e filha, mas como dois seres que muito se amaram.
Todavia, problemas houve, cujos detalhes não posso mencionar, quando for o momento o saberá.
Foi por isso que ela, tendo vivido de forma tão correta dentro dos seus propósitos como Mariana, e estando próxima a sua volta, quisemos proporcionar-lhe o alento da sua pessoa junto dela, embora por pouco tempo.
Você levou-lhe ao coração um afecto muito terno que gerou o renascimento de uma época antiga.
Talvez não tenha percebido, porque ela sempre soube dissimular muito bem, mas, naquela curta convivência entre vocês, ela sentiu o seu coração reviver de um amor antigo, ao qual sabia que não tinha direito e do qual se envergonhava.
Irmã Cidália, captando o íntimo de Charles, ao ouvir tal revelação, advertiu-o:
—Não tenha tais pensamentos, filho!
Não foi por isso que ela partiu.
Já lhe disse que estava chegando o momento, e o Plano Espiritual, como presente de tudo o que ela havia conseguido, quis proporcionar-lhe aquela alegria — a alegria do amor, numa vida que tinha sido tão estéril de afectos.
—Compreendo muita coisa, agora.
Foi por isso que eu, embora sem amá-la, não consegui tirá-la do meu pensamento, e a guardei comigo por toda a minha vida...
Por que então, ela foi colocada no meu lar, como filha, quando podia aguardar uma nova oportunidade para que esse amor fosse revivido?
A verdade é que um dia esse amor acontecerá novamente, mas aquela existência entre pai e filha foi uma experiência necessária, principalmente a ela, para que tivesse por você um amor fraterno de dedicação, um amor respeitoso.
Assim, quando Jesus permitir se unam novamente, ela saberá honrá-lo e nada mais restará para conturbar a união de ambos.
— Contudo, irmã, esse respeito que sinto por ela, como filha, não me permitirá, um dia, unir-me a ela como esposa!
Da mesma forma como aquela condição foi esquecida, para que essa vida tivesse sido possível, quando retornarem para se unir, essa existência também será esquecida por vocês.
O Plano Espiritual tem recursos que, muitas vezes, não temos como explicar, mas são utilizados quando benéficos ao progresso do Espírito.
Por ora é bom que esqueça tudo o que ouviu, e possa vê-la somente como a filha querida que o foi.
—Entrego nas mãos de Deus, e agradeço muito o que tem feito por mim!
—Tudo fazemos a todos que aqui vêm, suprindo as suas necessidades, a fim de que, reequilibrados e felizes, possam aguardar uma nova oportunidade terrena.
Enquanto isso, você será admitido em alguma outra tarefa, e a irá desempenhando, até que novamente retome à Terra.
Tudo fazemos em prol do progresso de cada um.
Se a evolução de cada Espírito é realizada, todos farão com que a Terra, um dia, esteja melhor, mais feliz.
Aqueles para lá irão, sendo felizes, a transformarão num lugar de felicidade, as encarnações não serão tão penosas, os sofrimentos não existirão como agora.
A maldade será banida do seu seio, e nela imperará somente o amor e a fraternidade.
Para que esse amor e essa fraternidade possam reinar, porém, é necessário que cada um que para lá retorne, leve consigo o firme desejo de ajudar, de colaborar, de tudo fazer de sua parte, para que um dia o amor fraternal possa existir.
Quando isso acontecer, a Terra deixará de ser um planeta de expiações e provas, para ser um local de amor, todos trabalhando para Jesus e para Deus, que são a finalidade maior de nossas vidas.

§.§.§- Ave sem Ninho
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Ave sem Ninho

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Re: Mariana ou Marie Anne? - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

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