Mariana ou Marie Anne? - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

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Re: Mariana ou Marie Anne? - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 19, 2018 8:24 pm

Depois de um tempo, adormeceu e não sentiu o passar das horas.
Quando acordou, levantou-se, mas a casa estava em profundo silêncio, todos dormiam...
Era madrugada. Voltou para a cama, porém, não mais dormiu.
No silêncio que a noite nos proporciona para melhor adequarmos os nossos pensamentos, ela pensou, pensou...
Não sabia o que fazer.
Nada ao nosso redor, as pessoas, nós mesmos, se transforma de um momento para outro.
Não é porque tenhamos decidido tomar novas atitudes, que vamos nos sentir adequados nelas.
O trabalho é difícil, demorado e de sofrimento.
Do momento em que ela, a sempre desprezada, passasse, com muito sacrifício, a querer fazer parte da roda familiar, sofreria duplamente a saber pelo sacrifício que estava impondo a si própria, e pelos reflexos da não aceitação dos outros.
Sempre fora relegada, desde criança, nas mais simples brincadeiras infantis...
Como, de um momento para outro, tudo poderia mudar, se Manuela dominava os salões com toda a pujança da sua beleza?
Ao mesmo tempo em que esses pensamentos lhe tomavam a mente, outros se infiltravam, justificando seus receios, querendo que não só as aparências predominassem, mas o íntimo das pessoas fossem revelados.
Se Charles, um jovem forte, culto, com todas as possibilidades de se extasiar com a beleza e a futilidade dos meios onde frequentava, se dignou procurá-la, demonstrou não dar tanto valor às aparências.
Ela nada tinha de belo a oferecer-lhe.
Conforme afirmara, ele percebera as suas qualidades de Espírito como as virtudes, a inteligência, e até a sua cultura, através do pouco que estiveram juntos e do muito que observara.
Ser-lhe-ia difícil agir como Charles lhe aconselhara.
Além disso, que faria ela junto dos outros?
Na verdade eram seus familiares, gostava deles, mas percebia que uma sensação estranha os invadia, quando se aproximava.
As conversas fúteis das quais ela nunca tomava parte, continuavam.
Como iria discutir a respeito de reuniões, festas, trajes para essa ou aquela cerimónia, se nunca se preocupara com nada disso?
Charles viera trazer-lhe preocupações.
Sentia-se desnuda em seus sentimentos, em seu Espírito, em tudo o que procurara esconder de si própria, por tantos anos.
A vida que levava, à qual se acostumara, fora toda remexida dentro de si.
Como faria para acomodá-la novamente?
Seria difícil colocá-la em seu lugar, sem alguma mudança.
Não se remexe o íntimo de ninguém, sem que ele se sinta transformado.
Nada mais seria como antes!
Se o fosse aparentemente, não o seria no seu Espírito.
À retirada de Mariana, Charles continuou no caramanchão por um pouco, deu mais algumas voltas pelo jardim e entrou em casa, muito preocupado com o que havia feito.
Sem entender como acontecera, receou que, em vez de ajudar, só houvesse agravado mais.
Encontrou Manuela e Cláudio, com os quais permaneceu, sem, contudo, poder contar o que fizera.
Quando Manuela se distraiu com a chegada da mãe, Cláudio perguntou a Charles se a tinha encontrado.
— Sim, encontrei-a e penso ter estragado tudo!
Não sei por que nem como, mas senti uma vontade muito grande de ajudá-la e toquei em assuntos que suponho, não devia.
Mexi em seu íntimo, em seus sentimentos, em seu modo de ser, e temo tê-la magoado
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Re: Mariana ou Marie Anne? - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 19, 2018 8:24 pm

—Mas por Deus, o que fez você?
Mostrei-lhe que esse seu jeito de viver, tão afastada de todos, não era bom para ela nem para os outros que se privam da sua companhia. Talvez o tenha feito mais por egoísmo que por ela própria!
Pelo egoísmo de poder ter mais vezes a sua companhia e pela vontade de vê-la integrada na família.
—As vezes tocamos em pontos que as pessoas guardam bem escondidos só para si, e que não temos o direito de atingir!
Mariana é muito dócil e compreensivo e talvez você tenha fornecido elementos para ela repensar.
Vamos aguardar, não se preocupe!
Esperemos até amanhã para ver a sua reacção.
Mariana pensou muito, reflectiu nas próprias razões; no que havia passado até então, mesmo sendo ainda tão jovem, e no quanto, intimamente, já sofrera, embora nunca o admitira.
Por que agora tudo lhe vinha à mente?
Por que Charles remexera o seu-íntimo?
De repente, tomou uma resolução!
Não, não seguiria os conselhos dele!
Procuraria esquecer o que lhe dissera e continuaria a viver como sempre o havia feito.
Procuraria ser feliz dentro do seu mundo e não» o mudaria agora, porém, gostaria de novamente falar com ele.
Reconhecia, de uma forma inexplicável, que ele havia tocado seu coração, não por suas palavras, mas por procurar a sua companhia, pelo desejo de conversar e até de ajudá-la, e não lhe tinha ressentimentos por ter desvendado o seu íntimo.
Era sinal de que a observara e se preocupara com ela, o que lhe era muito importante.
Surpreendia-se sempre remoendo todos esses pensamentos, mas procurava expulsá-los.
Ela era diferente, sempre fora diferente!
Os próprios familiares a fizeram sentir-se assim.
Como, então, abrigar sentimentos iguais aos das outras pessoas?
Não, não podia!
Muito lhe fora negado durante toda a vida, e isso também o seria!
Contudo, pelo inusitado da situação, indagava-se, preocupada:
Que sentimento estranho é esse que brota dentro de mim?
Não posso senti-lo, não quero senti-lo!
Não quero sofrer, não o suportaria!
Iniciou-se, no seu íntimo, uma grande luta.
A alegria do sentimento que estava nascendo, e o medo de deixar transparecê-lo e ser ridicularizada, fazendo-a sofrer mais profunda e intensamente.
Como pudera ocorrer justamente com ela, que sempre ficara imune a qualquer acontecimento fora do seu próprio mundo; do mundo que construíra para si?
Nos dias subsequentes não mais se lembrava do que Charles lhe havia dito em relação aos outros familiares, pois um só pensamento tomava-lhe toda a mente, e um só sentimento, o coração...
Lutava por expulsá-lo, todavia, em seu caramanchão, não mais conseguia ler, mas tão somente sonhar.
Se não posso viver, pensava posso, pelo menos, sonhar, e sonhava» muito...
Charles que supunha, logo no dia seguinte, desfazer a impressão que lhe ficara de tê-la ofendido, não a viu durante alguns dias, até que, não suportando mais a espera, fingiu um passeio pelo jardim no momento em que imaginou, ela lá estivesse, e foi ao seu encontro.
—Mariana, há dias venho tentando falar-lhe, querendo saber o que aconteceu depois da nossa conversa.
Fiquei muito preocupado e arrependido.
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Re: Mariana ou Marie Anne? - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 19, 2018 8:24 pm

Gostaria de desfazer qualquer ressentimento que possa ter ficado em seu coração.
Ela, que ainda não o tinha visto depois de descobrir que ele tomava conta de todo o seu ser, olhou-o de forma estranha, como nunca o havia feito.
Feliz por tê-lo, em pessoa, fazendo parte do sonho acalentado em seu coração, não conseguiu dizer nada...
—Mariana, falo com você.
O que está acontecendo?
Num grande esforço, ela caiu em si, indagando:
— O que me disse Charles?
Estava tão longe em meus pensamentos que não o ouvi!
Por favor, repita!
—Estava sentindo a sua falta.
Queria muito lhe falar para desfazer qualquer ressentimento que eu tenha lhe provocado.
Você não me ofendeu em nada.
Por que essa preocupação?
—Se continua a se esquivar de mim e de todos, é porque não gostou do que lhe disse!
—Nem me lembrava mais!
Você sabe como eu gosto de levar a minha vida!
Não se preocupe, está tudo bem comigo!
Ao falar, Mariana olhava-o fixamente, como querendo perscrutar cada pedacinho do seu rosto, cada movimento que fazia, e, muito mais profundamente, olhava nos seus olhos.
Charles estranhou, mas, para não insistir no mesmo assunto, procurou desviá-lo.
—Hoje você não está lendo, Mariana?
— Não, saí para uma volta no jardim, examinar as minhas flores, e vim aqui pensar um pouco.
Naquele momento, foram surpreendidos por Manuela que, sentindo a falta de Charles dentro de casa e, vendo-o dirigir-se ao jardim, foi até lá com a intenção de sondá-lo.
Não compreendia o que poderiam ter para conversar, o que Charles teria para dizer a Mariana...
—O que fazem aqui? Sobre o que conversam? — indagou ela surpresa.
Charles, como não entendia muito bem, ficou calado e Mariana respondeu-lhe que ele a encontrara ali por acaso e ficaram conversando.
—Agora me dêem licença, vou retirar-me! - disse-lhes Mariana, e, completando, sugeriu-lhes:
— Por que não aproveitam para dar uma volta pelo jardim? Acompanhe Manuela, Charles, ela ficará contente!
Mariana recolheu-se em seu quarto e não apareceu mais.
Nem Charles pôde encontrá-la, prolongando o silêncio que se formara entre ambos.
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Re: Mariana ou Marie Anne? - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 19, 2018 8:24 pm

6 - RETORNO A PÁTRIA DE ORIGEM
Certa manhã, uma criada foi à procura da mãe de Mariana dizendo que, ao entrar no quarto para fazer a arrumação, a encontrara adoentada.
A mãe atendeu ao pedido da criada para ir vê-la e, ao chegar, constatou que ela estava com uma febre muito alta, sem nenhuma causa aparente.
Providenciou um médico que, depois de examiná-la, nada encontrou que pudesse atestar aquele estado febril.
Perguntou-lhe o que havia acontecido, procurou conversar com ela, mas Mariana não lhe deu muita atenção.
Ele prescreveu os medicamentos que achou, seriam necessários, recomendando-lhe comunicassem, caso qualquer reacção adversa houvesse.
Alguns poucos dias passaram e o seu estado de saúde continuava o mesmo.
A notícia correu por toda casa, embora ninguém houvesse notado sua ausência.
Uma criada foi colocada para fazer-lhe companhia e servir-lhe em alguma necessidade, como também para estar atenta a qualquer sintoma novo.
Charles estava muito preocupado, imaginando que ela adoecera como resultado das mágoas que lhe colocara no coração.
Mariana a nada reagia, nenhum medicamento surtia, no seu físico, o efeito desejado; ao contrário, parecia que a cada um ingerido, mais a sua saúde se complicava.
Os médicos não entendiam.
Dificilmente ela estava lúcida, pelo seu estado febril muito acima do suportável.
Se seu Espírito fora forte para suportar tantos revezes na sua pobre vida, o seu corpo frágil não lutava.
A família estava preocupada, como ficaria com qualquer pessoa do seu relacionamento se estivesse enferma, porém, não lamentava tanto.
Manuela fora vê-la uma única vez, espiou pela porta e afastou-se logo.
Cláudio gostaria de lhe fazer companhia, mas não sabia como.
Charles, então, um simples hóspede, não poderia tomar tal liberdade, todavia, na verdade, era o único a se preocupar, o único a lamentar.
Sentia-se magoado, entristecido, para não dizer, culpado.
Os receios de que a houvesse magoado, ainda persistiam em seu íntimo, acrescidos, agora, pela sua saúde abalada.
Muitas vezes chegou a comentar com Cláudio, que procurava demovê-lo de tais, responsabilidades.
— Você não pode tomar a si culpa da enfermidade de Mariana.
O seu físico é frágil e ela, talvez, tenha adquirido algum mal que os médicos não conseguem diagnosticar.
Jamais ela se deixaria levar pelas suas palavras, a ponto de entregar-se à enfermidade, sem nenhuma reacção.
Lembra-se de que conversaram depois e você não percebeu, nela, nenhum resquício de mágoa ou rancor.
— Sim, mas naquele dia eu achei-a um tanto estranha.
Olhava-me de forma diferente, como nunca o fizera.
Ficava, às vezes, ausente da conversa, entregue aos seus próprios pensamentos.
— Você não deve se importar com isso!
Ela é diferente e estranha, mesmo aos olhos daqueles que partilham de sua vida. Você o sabe!
—É, estou preocupado!
Gostaria tanto de vê-la, de falar-lhe, porém, sei que não será possível.
—Os familiares estranhariam esse seu pedido, entretanto, se quiser, tente falar com o senhor Sousa.
Falarei com ele na primeira oportunidade!
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Re: Mariana ou Marie Anne? - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 19, 2018 8:25 pm

Quando terminavam esse diálogo, o senhor Sousa aproximou-se, dizendo:
—Estou muito preocupado com Mariana!
Ainda agora acompanhei o médico em sua visita diária, e ele não sabe mais o que fazer.
Nada encontra nela como causa de tanta febre. Ela não reage...
—Senhor Sousa, lamento o que está acontecendo com sua filha, a quem havia me afeiçoado, não obstante poucas vezes tive a oportunidade de vê-la e de falar-lhe.
Todavia ela impressionou-me pelos seus conhecimentos, e confesso, estou sentindo a sua falta!
Se lhe pedisse para vê-la, o senhor não consideraria atrevimento de minha parte?
—Meu jovem, poderá ir a hora que quiser!
—Poderei ir agora, então?
—Sim! Eu o acompanharei!
—Eu também irei com vocês! manifestou-se Cláudio.
Ao entrarem no quarto, muito cautelosamente, o que Charles viu não o agradou.
A criada, sentada a um lado da cama, segurava um lenço com o qual ia limpando o suor que porejava de seu rosto, enquanto a sua cabeça, sempre irrequieta, virava muitas vezes de um lado para outro.
—Mariana, é Charles quem está aqui, vim vê-la, fale comigo!
Ela nada respondia, como se ninguém ali estivesse, Ele insistiu mais algumas vezes e retirou-se, deixando os outros que o seguiram logo após.
Charles ficou muito mal impressionado e não entendia o que esteva ocorrendo.
— Senhor Sousa, eu sei que tem tomado todas as providências ao alcance da medicina actual, contudo, o que dizem os médicos para que não haja nenhuma reacção no seu organismo?
— Nem mesmo eles conseguem explicar!
Dizem que não adianta retirá-la para um hospital, porque nem lá poderão tomar nenhuma medida diferente.
Acham melhor que fique aqui, entre os seus, na sua própria cama.
— Lamento muitíssimo o que está acontecendo a Mariana.
Alguns dias ainda passaram e eis que, numa manhã ensolarada, enquanto os pássaros cantavam no jardim, a pequena Mariana deixava completamente aquele corpinho tão frágil, tão pequeno, mas que lhe servira para ressarcir muitos débitos, inexplicáveis para quem vive apenas o momento presente e nada entende além do que a visão corporal pode alcançar.
Se pudéssemos ver além do permitido pelos simples olhos do corpo, teríamos visto as entidades à sua espera, entoando cânticos em uníssono com o canto dos pássaros que voejavam no jardim, beijando as flores que tremulavam, lentamente, ao sabor da aragem fina.
E, lentamente também, Mariana, após tantos dias de enfermidade, levantou-se em Espírito, abandonando o seu instrumento de progresso, e foi abraçada por todos os que vieram recebê-la, e a estiveram preparando durante todos aqueles dias.
Quando a criada percebeu o acontecido, saiu rapidamente chamar os familiares que acorreram, mas ela, ali, não mais se encontrava...
Havia partido em busca de outros planos, em busca da felicidade que nunca sentira e da liberdade que nunca tivera.
Em busca dos que pudessem amá-la, compreendê-la, e sabemos, pela recepção que tivera, o quanto era amada e o seria ainda mais.
Cumprira a sua programação e era uma vitoriosa, ela, que nunca soubera o significado desta palavra, em vida, pois sempre se sentira uma derrotada, uma enjeitada.
Os emissários que a levaram, depositaram-na novamente num leito, a fim de que o refazimento se fizesse, porém, diferente — o refazimento do Espírito, o verdadeiramente importante.
Uma nova vida iniciava-se para Mariana, talvez a que ela sempre desejara e nunca tivera, quando na Terra.
Ainda se encontrava inconsciente, mas seria tratada pelos amigos espirituais, a plena consciência de si mesma voltaria em toda a sua plenitude, e a beleza do seu Espírito seria retomada.
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Re: Mariana ou Marie Anne? - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 20, 2018 8:32 pm

Não mais teria necessidade de mostrar aquela aparência feia!
Seu Espírito fora vitorioso, e, nessas condições, é belo e resplendente!
No momento em que a criada correu para avisar a todos do acontecido, espantada, triste, amedrontada pela imobilidade de Mariana, encontrou-os ainda no repouso prolongado da manhã, como desfrutam aqueles que obrigações não têm a cumprir, e precisou bater em seus quartos.
Os pais acordaram assustados pelas fortes pancadas e, quando ela lhes deu a notícia, foram imediatamente a seu quarto e a encontraram pálida, mas tranquila como não a viam há muitos dias.
Os outros foram chegando um a um, mas ninguém teve uma lágrima sequer, ao deparar-se com o seu corpinho sereno e imóvel sobre a cama.
Manuela não quis ir, contudo, Cláudio saiu apressado.
Queria verificar se algum engano não havia cometido a criada, e se alguma providência ainda poderia ser tomada.
A criada apenas deixou de avisar o hóspede, entendendo tratar-se de um assunto de família, do qual ele tomaria conhecimento mais tarde, pelos próprios familiares.
Quando Cláudio constatou a veracidade da notícia e a inutilidade da sua presença, lembrou-se de Charles.
Se já tão triste andava pela enfermidade dela, como receberia a notícia da sua partida?
Com esses pensamentos, foi até o quarto do amigo, e, ao bater à porta, ele, já desperto pelos ruídos inusitados que ouvira, atendeu imediatamente.
—O que aconteceu, Cláudio?
Você nunca veio aqui a esta hora! Ouvi barulhos estranhos pela casa!
Foi Mariana...
O que aconteceu com ela?
— Mariana já não se encontra entre nós!
A criada notou que ela estava muito tranquila e imóvel, após tanto tempo de sofrimento, e verificou que havia partido para sempre...
— Como pôde acontecer?
Eu não me conformo, Cláudio!
Gostaria tanto de ter podido estar mais com ela!
As conversas que mantivemos, o nosso contacto, conquanto pequeno, me fizeram muito bem nesta casa.
—Tenha a certeza, Charles, eu lamento muito!
Aprendi a gostar dela e tinha até me disposto a ajudá-la a viver melhor, quando você chegou e parece ter tomado a si essa tarefa.
Infelizmente, de nada adiantou! Quem sabe se esse nosso desejo não se concretize agora?
Não conhecemos os desígnios de Deus!
Quem sabe Ele não a colocou neste mundo para que vivesse somente até agora, e, entendendo que sua vida era triste, decidiu levá-la para uma vida melhor?
—A família, como recebeu a notícia?
Quando saí do quarto, seus pais ainda lá estavam!
Agora devem estar providenciando o necessário para os funerais.
— Cláudio, se já me estava sendo difícil continuar nesta casa, depois da enfermidade de Mariana, agora, então, que sinto essa impressão desagradável de ter concorrido para que ela adoecesse...
—Não diga isso, Charles!
Não sabemos da vontade de Deus e não podemos tomar para nós a culpa que não nos cabe.
Somos instrumentos nas mãos da Providência!
Se ela houve por bem levá-la, talvez, para um mundo melhor, no qual possa se sentir feliz e mais adaptada que neste onde viveu até hoje, devemos compreender e aceitar.
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Re: Mariana ou Marie Anne? - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 20, 2018 8:32 pm

Eu entendo, mas dizia que, se já estava difícil para mim, aqui permanecer, agora, então, será pior!
Ainda bem que meu trabalho está se findando e logo partirei de volta à minha terra, ao meu lar!
Entretanto, nunca mais esquecerei a pequena Mariana, nem a alegria que tive nos poucos momentos em que estivemos juntos.
— Bem, Charles, dê-me licença!
Devo ir ao encontro de Manuela que não quis ir ver a irmã!
Entristecido, Charles não sabia se desejava vê-la ou não.
Deixou o quarto e foi até à sala, onde um movimento desusado era provocado pelos preparativos para receber o pequeno corpinho de Mariana.
Ela, que nunca tivera a satisfação de estar com todos, naquele local, agora estaria, e seria o alvo de todas as atenções.
O mais importante, porém, era que ali já não mais estava o seu Espírito.
Este havia partido e encontrava-se acomodado para o refazimento necessário.
Tudo decorreu como é de praxe nessas ocasiões.
Muitos compareceram em consideração à posição da família, que não via a hora que aquela situação terminasse.
Parecia até que queriam encerrar para sempre o capítulo de suas vidas, em que uma personagem chamada Mariana estivera com eles.
Quando virassem a página, para que outro capítulo se iniciasse, sentir-se-iam aliviados e felizes.
Era como se um pequeno pesadelo terminasse.
Não mais se envergonhariam dela, e não mais seriam obrigados a aturar o que ela, às vezes, dizia e ninguém entendia, pelo distanciamento da sua cultura.
Assim, um novo capítulo logo se iniciaria, guardado o tempo em que a sociedade prescrevia como tal para que as dores pudessem ser aplacadas, e novamente as festas, as reuniões sem nenhum sentido, voltariam.
Tudo normal aos olhos dos outros, que respeitariam o período de tristeza da família.
Entretanto, para eles, o período de tristeza já se encontrava encerrado, do momento em que encerraram Mariana no local do seu último repouso...
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Re: Mariana ou Marie Anne? - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 20, 2018 8:32 pm

7 - REFAZIMENTO
Alguns dias após todos esses acontecimentos, os familiares de Mariana encontravam-se tranquilos.
Nenhuma sombra mais havia a lhes empanar a paz, da forma como gostavam de senti-la, e Charles estava de partida para a sua terra.
No entanto, o que nos interessa, saber como se encontrava a querida Mariana, a Marianinha como a estavam chamando, agora, não pelo seu pequeno tamanho mas pela doçura que demonstrava seu Espírito.
Estivera em tratamento por algum tempo, refazendo-se da enfermidade que a acometera e a levara de volta à Pátria de origem, e encontrava-se bastante recuperada.
O tratamento que recebera na Colónia Espiritual; para onde fora levada, proporcionado pelos abnegados amigos espirituais que a aguardavam, sabedores de que sua tarefa, entre os encarnados, estava por findar, foi muito desvelado.
A cada dia ia recuperando as energias, a tranquilidade foi tomando conta de seu Espírito e, em determinado momento, estranhando o ambiente que a rodeava, ela, que estivera sempre só, despertou com muitos à sua volta, todos felizes, sorridentes, dando-lhe as boas vindas.
— O que aconteceu?
Onde me encontro?
Não conheço este lugar!
Filha querida — falou-lhe uma irmã muito dedicada, que estivera em sua companhia todos aqueles dias — não estranhe, pois está entre os que a amam!
Você encontra-se numa outra vida, a verdadeira, que é a vida do Espírito!
Não se preocupe!
Todos aqui a amam e a trataram com muito carinho, para que esse momento chegasse.
—O que aconteceu comigo?
Não estou entendendo!
— Logo entenderá!
O importante é que você está se recompondo, e, com a ajuda de Deus, nosso Pai, logo estará completamente boa.
—Mas onde estou?
—Entre amigos que a querem!
Jesus permitiu que até aqui fosse trazida, ficasse sob os nossos cuidados e pudesse se sentir feliz.
Procure descansar novamente!
Logo poderá sair de sua cama e ir até o jardim.
Nos estamos cuidando de você, que é uma nossa filha muito querida.
Mariana nada mais perguntou.
Calou-se, mas ainda não entendera.
Procurou não pensar em nada, e, sentindo um leve torpor, conseguiu adormecer mais um pouco.
Enquanto dormia, foram-lhe aplicados passes, e 0 tratamento continuou, porém, de forma diferente, a fim de que, no seu despertar, compreendesse melhor o que estava se passando.
Trabalhavam-na para que ela não lamentasse, pelo contrário, se sentisse feliz por libertar-se de sua vida tão triste.
Conforme o preparado, Mariana visualizou, durante o sono, muito da sua última existência.
Teve, na mente, os momentos mais tristes, os de maior abandono.
Após, foram surgindo em sua memória espiritual outros, os que poderia passar a ter agora, junto de todos, que a tratavam com carinho.
Visualizou-se, até, de forma diferente!
Não mais aquela Mariana com o corpinho frágil, pequeno e feio, mas viu-se deslumbrante e bela, de tamanho normal, como nunca imaginou pudesse ver-se, e sentiu-se feliz.
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Re: Mariana ou Marie Anne? - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 20, 2018 8:33 pm

Não entendia O que estava ocorrendo, apenas foi aceitando e sentindo-se bem.
Como era possível?
Ela, sempre tão rejeitada e feia, vendo-se bela, com traços harmoniosos como se espelhasse outra pessoa?
Aos poucos, contudo, foi verificando que os pensamentos« os sentimentos abrigados por aquele corpo, eram seus, e, nessa verificação, sorria consigo própria...
Pelo menos uma vez, não obstante em sonho, estava feliz, e assim novamente despertou.
Nada pôde verificar nem comprovar!
Encontrava-se deitada e sentia ainda o torpor de quem acorda, mas a alegria dos que voltam de um belo sonho.
—Então, descansou um pouco mais?
—Sim, tive um sonho muito bonito, e parece impossível ter sido eu aquela criatura!
—Já sabemos o que sonhou!
Não foram sonhos!
Apenas projecções, a fim de que pudesse compreender melhor a sua condição, agora, no Mundo Espiritual.
O seu tratamento deverá continuar, porém, diferente.
Era o momento de lhe mostrarmos o que visualizou!
Diga-me, como se sentiu, vendo-se como se viu?
—Mal pude acreditar fosse eu própria!
Não que eu seja vaidosa como poderá lhe parecer, mas gostaria apenas de ser uma criatura comum, como os outros, para não sofrer mais pela minha aparência.
—Filha, aquele corpo era necessário que daquela forma o fosse!
Ainda saberá por quê!
No entanto, aqui, não é mais.
O seu Espírito não precisa mais se apresentar daquele jeito, e será transformado à medida que o tratamento for realizado.
Você adquirirá todo aquele esplendor que viu no sonho!
Precisávamos mostrar-lhe o que viu, para que compreendesse melhor a sua situação actual.
Agora, entre nós, pode sentir, pela dedicação com que a tratamos, o quanto é querida, e irá entender melhor, por si só, onde se encontra!
Estamos em uma Colónia de refazimento para os Espíritos que deixam a Terra!
Deixamos lá o nosso corpo, e Jesus nos permite receber o tratamento de que necessitamos e fizemos por merecer, por termos cumprido bem a nossa programação de vida como encarnados.
E você cumpriu!
Agora sua vida mudará!
Um tanto confusa, Mariana ouvia as explicações daquela irmã, a Irmã Cidália, como era chamada.
Embora sem entender, possuía, agora, muitos elementos para a sua reflexão, o que sabia fazer bem.
Apenas o faria de modo diferente.
Procuraria entender a nova situação, e, quando dúvidas surgissem, teria, junto de si, a bondosa irmã para orientá-la.
Irmã Cidália dedicava-se em atenções e esclarecimentos, com muito tacto e delicadeza, à Mariana.
Ela já compreendia bem esse seu novo estado, mas faltava lhe o conhecimento das verdades espirituais não adquiridas na Terra.
Aprendera muito, mas nada que pudesse ter lhe facilitado esse entendimento.
O tempo ia transcorrendo, e, uma palavra hoje, um ensinamento amanhã, acompanhados do tratamento através dos passes e das projecções em sua mente, quando necessário, ela foi se recompondo totalmente.
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Re: Mariana ou Marie Anne? - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 20, 2018 8:33 pm

Numa certa manhã, Irmã Cidália aproximou-se de seu leito com um sorriso nos lábios, dizendo-lhe:
— Minha querida Marianinha, hoje lhe trago uma surpresa!
Espero que se alegre bastante.
— O que poderá alegrar-me mais, agora, do que estar com a senhora, tão desvelada comigo?
— Hoje, minha querida, você deixará o leito!
Vamos fazer um passeio pelo jardim, durante o qual tomará um pouco de Sol e se sentirá mais feliz ainda!
Mariana levantou-se ajudada pela bondosa irmã e, apoiada nela, caminhou até a porta da enfermaria, de onde vislumbrou um lindo jardim.
Estava florido, com espécies bem diferentes das conhecidas em sua casa, e estranhou, mas alegrou-se, sobretudo pelo colorido mais intenso e vibrante das flores, embora em tonalidades repousantes.
—Que lindo, Irmã Cidália!
Que jardim mais belo!
Que bom que nesta época ele esteja florido!
Assim eu posso desfrutar de toda a sua beleza!
—Aqui o nosso jardim é florido o tempo todo!
Não temos intempéries climáticas que possam danificar as flores, por isso, as possuímos sempre! —Que alegria!
Podemos caminhar até mais perto delas?
Sim, vou levá-la e nos sentaremos em um banco, para que as aprecie melhor.
Daqui a alguns dias, talvez, possamos estender o passeio, e você caminhará entre elas.
Enquanto se encontravam sentadas, admirando o jardim, Mariana, colhendo um pouco do calor do Sol necessário ao seu refazimento, falou à Irmã Cidália:
—Quando ainda estava em minha casa, o meu passeio predilecto, aliás, o único que realizava, era no nosso jardim.
Lá estava todos os dias!
Sabia quando um pequeno botãozinho surgia, acompanhava depois o explodir das pétalas, a formação da flor...
Era no jardim e nas minhas leituras que passava a maior parte do meu tempo.
Sempre levava um livro comigo, e, no final do passeio, ia a um caramanchão, onde permanecia por muito tempo, lendo, pensando.
Eram os únicos momentos felizes que tinha em casa.
—Aqui também poderá fazê-lo!
Poderá passear por entre as flores, verificar a sua modificação, desde os pequeninos botões até se tomarem esplendentes de beleza!
Poderá ler também!
Temos muitos livros bons, com leituras edificantes que lhe farão bem!
Deve, no entanto, aguardar mais alguns dias, quando não necessitar tanto da minha presença, nem da minha companhia.
Sentará onde desejar, lerá, fará o que quiser, até completar o seu tratamento e adquirir completamente a plenitude do seu Espírito.
— Sinto-me feliz, aqui!
Nunca fui tratada com tanta delicadeza!
Foi o melhor que podia ter me acontecido!
Esta nova vida que estou vislumbrando, me é muito mais feliz!
Após o tempo considerado suficiente por Irmã Cidália, elas deixaram o jardim e Mariana voltou para o leito.
Contudo, o faria por mais um curto período, pois a sua recuperação estava sendo muito boa.
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Ave sem Ninho

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Re: Mariana ou Marie Anne? - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 20, 2018 8:33 pm

Depois, uma nova fase se iniciaria e um trabalho lhe seria dado, fazendo-a sentir-se útil, ajudando os que dela precisassem.
Na vida espiritual não há ociosos.
O trabalho é grande e todos os que desejam progredir e aprender, têm as suas tarefas de amor, de auxílio, em favor dos necessitados desencarnados e até dos encarnados.
É um trabalho que retoma ao próprio Espírito, ajudando a sua evolução.
Mariana estava feliz pela compreensão de todos, sobretudo da abnegada Irmã Cidália, que deveria ter sido mãe por muitas vezes, para tratar com tanto desvelo todos sob a sua responsabilidade.
Ela fazia-lhes mãe espiritual, a fim de que se sentissem felizes, amparados e protegidos.
Assim se sentia Mariana!
— O que não tivera da mãe terrena, tinha-o agora, dessa dedicada mentora espiritual.
A sua transformação operava-se a olhos vistos!
Ocupava-se de leituras edificantes, passeava por entre as flores do jardim e conversava com companheiros, também em recuperação.
Quando a conversa podia alongar-se, eles contavam-lhe pequenas histórias de factos ocorridos com eles mesmos, enquanto na vida terrena.
Uns lamentavam-se de erros cometidos, outros mostravam-se saudosos dos entes queridos.
A diversidade de sentimentos imperava, mas o objectivo era imo — o aprimoramento do Espírito, para serem merecedores de oportunidades.
Desejavam retomar mais bem preparados, para não cometerem os mesmos erros, levando, cada um, toda a bagagem de experiências já vividas, nem sempre agradáveis, esperando ter uma existência mais feliz.
De uma feita em que Mariana estava sentada no jardim, lendo, após ter sido observada por algum tempo a fim de investigarem o que ela poderia realizar como tarefa, Irmã Cidália aproximou-se, muito atenciosa e tema, dizendo-lhe:
— Minha querida Mariana, temos verificado o quanto você está bem, o quanto tem progredido na sua recuperação, e pensamos que pode dar a sua cota em benefício de outros.
Temo-la observado e analisado bastante, para lhe darmos um trabalho condizente com o melhor que pode realizar.
Sabe que possuímos, aqui, diversos departamentos, nos quais todos estagiam por tempo limitado, até que novas tarefas lhes sejam atribuídas, quer no retomo à Terra, como encarnados, quer mudando para outras Colónias Espirituais onde o seu serviço é requisitado.
Poucos são os que permanecem por longo tempo!
Assim, queremos atribuir-lhe uma tarefa, que suponho, irá agradar-lhe em muito, no desempenho da qual você poderá ser útil, se com ela concordar.
A nada obrigamos fora da vontade de cada um, mas podemos progredir, colaborando no trabalho do qual Jesus nos incumbiu.
— É Sabe que nada recusarei!
Devo, de alguma forma, retribuir todo o carinho e atenções que tenho recebido, sobretudo a dedicação incessante da senhora.
Pode pedir o que deseja, que o farei com muito gosto!
— Eu sabia que a sua resposta não seria outra!
Esse seu novo trabalho não a impedirá de dar os seus passeias pelo jardim, quando não estiver ocupada.
O que lhe reservamos, sei, lhe agradará muito!
Sabe que temos a nossa biblioteca, não é verdade?
— Sim, e tenho muito carinho por ela, pois é onde passo boas horas do meu dia!
Pois bem! A encarregada daquele serviço deverá afastar-se.
Foi chamada para uma tarefa em outra Colónia, e pensamos em você para substituí-la!
É uma função que temos a certeza, desempenhará com eficiência.
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Re: Mariana ou Marie Anne? - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 20, 2018 8:33 pm

Você poderá arrumá-la como adiar adequado e mais fácil a cada consulente.
Quando nenhum serviço a retiver, dentro do seu horário, poderá também ocupar-se da leitura de que tanto gosta.
—Obrigada, Irmã querida, por me atribuir uma tarefa tão agradável!
Na verdade, não será um trabalho, mas uma recreação que me trará muita alegria.
Oxalá eu possa corresponder à confiança que em mim estão depositando! Esforçar-me-ei para fazer o melhor.
Amanhã, virei buscá-la para apresentar-lhe o serviço!
Por alguns dias você permanecerá junto de nossa irmã responsável por aquele trabalho, a fim de aprender todo o seu desempenho.
—Estarei à disposição!
Sinto-me até lisonjeada por terem me escolhido!
Obrigada irmã, muitas vezes obrigada, pelo carinho com que me tratai
—Aqui trabalhamos em nome de nosso Pai e em nome de Jesus, o nosso Mestre.
Realizamos as nossas tarefas com muito amor e boa vontade, apenas pensando Neles!
Esperamos realize a sua com esses mesmos sentimentos, tendo sempre em mente nosso querido Jesus considerando a todos que aqui se encontram, como irmãos necessitados, todos a caminho do progresso espiritual.
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Re: Mariana ou Marie Anne? - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 20, 2018 8:34 pm

8 - APROVEITANDO EXPERIÊNCIAS
A alegria tomou conta de Mariana, quando Irmã Cidália lhe exposto que lhe reservara como tarefa.
Ver-se-ia entre todos aqueles amigos dos momentos tristes de sua vida, aqueles que sempre a ampararam, a instruíram e a levaram a terras distantes, constituindo á sua própria vida.
A hora combinada, Irmã Cidália conduziu-a à biblioteca.
Não seria necessário, mas importante apresentar à encarregada do serviço, a pessoa escolhida para substituí-la, recomendando-lhe que a ensinasse a desenvolver aquela actividade.
Após alguns dias' de permanência com a companheira, chegaram as despedidas, e o serviço daquele departamento tão importante à Colónia, passou todo para a sua responsabilidade
Muitos ensinamentos eram transmitidos por irmãos abnegados, em reuniões, aos que se encontravam em condições de permanecer fora do leito.
Os livros, entretanto, complementavam o que lhes era transmitido em forma de prelecção.
A maioria versava sobre temas evangélicos, baseados nos ensinamentos de Jesus e exemplificados através de histórias semelhantes às vividas na Terra, para melhor usufruírem do exemplo.
Dessa forma, preparavam-se para novas encarnações mais fortificados espiritualmente, a fim de que os mesmos erros não fossem mais cometidos.
Era um trabalho muito grande, desde a hora em que o Espírito desencarnante era recolhido, até que uma outra vida, na Terra, pudesse lhe ser proporcionada.
Todos se sentiam felizes, tinham a oportunidade de meditar e muitos propósitos eram feitos, para não reincidirem nas mesmas falhas cometidas anteriormente, pondo a perder um trabalho de muito tempo.
Para isso, os livros eram de vital importância, e o movimento na biblioteca era grande.
A Colónia possuía diversos departamentos, e esse constituía-se num núcleo central, ao qual todos tinham fácil acesso.
Após as prelecções, o movimento sempre era maior, pois os livros recomendados eram imediatamente procurados por aqueles que se dispunham a melhorar, instruindo-se dentro dos ensinamentos de Jesus.
Mariana trabalhava muitas horas do dia, mas reservava sempre alguns instantes para o seu passeio habitual no jardim, haurindo energias que lhe eram benéficas.
Admirava as flores, o seu colorido, as formas e espécies nunca vistas na Terra, onde o mais exímio jardineiro, com o mais belo Jardim, sentir-se-ia envergonhado diante daquela beleza esplendente, que nenhum ser encarnado conseguiria copiar.
Já se encontrava perfeitamente equilibrada dos sofrimentos da Terra, e não mais possuía aquele corpinho, aquela aparência, causa de tantas tristezas, de tanto desprezo entre os seus.
Irmã Cidália, em quem ela via a amiga, a irmã e a mãe que nunca tivera, já não se ocupava tanto em fazer-lhe companhia, com outros, sob sua responsabilidade.
Sempre que podiam, porém, procuravam estar juntas.
Certa vez em que conversavam, Mariana, trazendo algumas indagações, assim se expressou.
— É Irmã Cidália, vejo a transformação pela qual passei e sinto-me renovada espiritualmente, talvez em razão do amparo e da dedicação que sempre recebi da senhora e de todos.
A minha aparência é outra e estou feliz como se tivesse retomado o que me pertencesse, por isso não estranho!
Entretanto, como tudo tem uma razão de ser, pelo muito que aprendi aqui, sei, aquela aparência da minha última encarnação na Terra, tinha o seu motivo.
Muitas coisas me foram reveladas, outras concluí por mim própria à medida que fui me recuperando e tendo a capacidade da análise, mas ainda preciso de um esclarecimento que me é importante ter.
— Fale, filha, se puder, lhe direi!
—Por que tive de passar por tanta humilhação entre os meus familiares?
Por que precisei ter aquela aparência para permanecer entre eles, sem nada poder fazer, a não ser entregar-me aos livros, como uma fuga?
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Re: Mariana ou Marie Anne? - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 20, 2018 8:34 pm

O que fiz eu, para ter vivido naquelas condições?
—Eu sabia que a qualquer momento viria com essas perguntas.
Todavia, como só fazemos essas, revelações quando necessário, ainda não é conveniente!
O importante é que você está progredindo, e, naquela encarnação em que viveu sempre só, ressarciu muito do seu passado e dela saiu vencedora.
Não queira saber as razões, pelo menos por enquanto.
Quando for adequado não precisará perguntar; temos mecanismos através dos quais você visualizará o que deseja, sem que ninguém precise lhe contar nada.
Aí compreenderá melhor.
Por enquanto, basta saber que cumpriu com êxito a sua programação.
Esqueça-se disso e conte-me como vai indo o seu trabalho.
—O meu trabalho não me preocupa.
Realizando-o, sinto-me mais feliz, não só por poder conviver com meus amigos silenciosos, como eu própria o era, mas pela oportunidade de conviver com todos aqueles que nos procuram.
Não só conversamos a respeito de livros, mas muitos narram suas próprias histórias, buscando algum livro que lhes traga conforto, dentro dos problemas por que passaram.
—Pelo que vejo, está desempenhando o seu trabalho além das suas obrigações!
E o que tem mais valor, porque não só realiza o que lhe foi atribuído, mas verifica o que pode fazer para ajudar a quem precisa.
— Faço-o espontaneamente e com muito gosto, sem pensar no que a senhora diz; e, se vou além, apenas sigo a determinação de uma força que trago em mim.
—Muito bem, filha, agora devo me retirar.
Em outra ocasião conversaremos mais.
Que Deus a abençoe sempre!
A nova vida de Mariana caminhava para a normalidade da rotina.
Ela realizava o seu trabalho com eficiência e amor, e todos os que a procuravam, aprenderam a ter dela a orientação em relação às obras a consultar, e nela a amiga sempre disposta a ouvir, em forma de desabafo, as histórias dos que ainda traziam o coração aflito, e, acima de tudo, a conselheira que tinha sempre a palavra adequada no momento certo.
Os que chegavam à biblioteca aborrecidos, tristes, preocupados, temerosos, saíam mais aliviados e mais contentes consigo próprios, alegres por terem ouvido palavras tão doces e de tanta compreensão.
Mariana exorbitava de suas funções e era muito eficiente.
Tanto tempo transcorreu realizando esse trabalho, que ele passou a constituir a sua própria vida.
No Mundo Espiritual, a contagem cronológica do tempo não é importante.
Contudo, para os que vivem na Terra o dia a dia de sofrimento e de cargas tão pesadas, poderemos dizer que alguns anos — até mais de dez — haviam decorrido.
Desse modo, Mariana estava na vida espiritual há mais de dez anos,, se assim quisermos precisar.
Fizera muito progresso, e nunca mais soubera dos familiares.
Nada lhe fora permitido vislumbrar, nem ela mesma desejara.
No entanto, vez por outra lembrava-se deles, da sua casa, das pessoas que a trataram com consideração, dentre essas lembranças, uma vinha-lhe de forma muito tema e querida, possibilitando-lhe a reflexão:
— Tanto tempo decorreu, e a lembrança terna de Charles continua em meu coração.
Ele foi muito importante na minha vida tão pequena.
Pequena nos meus anseios e no mundo que girava ao meu redor.
Ele, porém, tomou-a grande, por não sentir repugnância por mim; tratava-me com consideração tendo me procurado por diversas vezes, tentando ajudar Anne.
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Re: Mariana ou Marie Anne? - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 20, 2018 8:34 pm

O que será feito dele?
Como gostaria de vê-lo um dia!
De certa feita, dando uma volta pelo jardim, viu aproximar-se a sua querida Irmã Cidália, e logo foi ao seu encontro.
Ambas sentaram-se em um banco próximo às belas e perfumadas flores, e a dedicada orientadora começou por indagar-lhe:
—Como está hoje o seu dia, minha querida?
Vim procurá-la, sabendo que a encontraria aqui, uma vez que hoje é-o seu dia de folga.
É verdade, irmã, sempre que posso, não deixo de dar uma volta por este jardim.
—O que preocupa a sua cabecinha que a encontro tão cismarenta?
— Algumas vezes sou surpreendida por lembranças de minha casa, dos meus familiares, principalmente quando aqui me encontro.
Nunca mais soube de nenhum deles, de ninguém....
— Continue, filha, pois sei que tem mais alguma coisa a me dizer.
Não é só a preocupação com os familiares que lhe turvou a fisionomia.
—Aqui não conseguimos esconder nada de ninguém, muito menos da senhora que aprendeu a me conhecer e penetrar nos meus pensamentos.
Tem razão— acrescentou Irmã Cidália — mas gostaria de ouvir de você mesma o que a deixou entristecida.
Pife' Vou lhe contar, querida irmã.
Mariana narrou tudo a respeito de Charles, desde o momento em que o encontrara naquela casa.
Repetiu todas as suas conversas, as intenções dele em querer integrá-la na família para ter mais a sua companhia, não esquecendo de nada, até o último momento de consciência, antes que a febre lhe turvasse a mente.
Isto é muito bonito!
Não se preocupe com os seus sentimentos em relação a ele.
O nosso coração, muitas vezes, parece que nos tira a razão, mas, da forma como entendemos aqui, não é o coração que comanda ou nos tira a razão, conforme dizemos quando encarnados.
Assim pensamos porque não conhecemos o outro lado do sentimento, o lado espiritual, segundo o qual, a própria razão vem antes do sentimento.
— Não estou conseguindo entender!
A minha razão, o meu raciocínio jamais teriam comandado aquele sentimento que queria, nunca tivesse penetrado em mim.
—Eu explico, filha.
Quando disse que a razão comanda os sentimentos, dando-nos a impressão de que é o contrário, é porque, comumente, a razão vem do Mundo Espiritual!
Nós não a conhecemos, mas ela chega antes e comanda, sem o sabermos, os sentimentos que vamos nutrir por determinada pessoa.
O acaso não há, e, se tal sentimento toma conta do nosso coração, muitas vezes existe, para isso, um raciocínio que já estava connosco, preparado aqui neste plano.
Apenas dele não sabemos nem temos consciência quando lá chegamos para viver entre os encarnados.
Mariana, muito atenta, acompanhava essa explicação, tentando compreender, e Irmã Cidália prosseguia:
—O que eu quis lhe dizer mais claramente é que a afinidade que ele passou a sentir por você, depois de tê-lo ajudado, e o sentimento que tomou conta do seu coração, nada aconteceu sem antes ter havido um raciocínio muito maior do que nós próprios podemos imaginar.
O seu conhecimento com Charles não se fazia naquele momento.
Vocês já estiveram juntos em outras vidas e já se amaram muito.
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Re: Mariana ou Marie Anne? - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 21, 2018 7:56 pm

Apenas nessa sua última encarnação não lhe foi permitido concretizar esse amor através de uma união mais sólida, pela necessidade dó cumprimento do plano preparado para ambos no Mundo Espiritual.
Entretanto Deus, na sua infinita misericórdia, pelo muito que você havia sofrido dentro da sua solidão, e estando próximo o seu retorno entre nós, permitiu-lhe aquele encontro.
Compreendeu o que eu quis lhe explicar?
—E um pouco difícil, irmã.
A senhora quer dizer que, quando encarnados, quando um sentimento muito profundo toma conta do nosso coração, a razão é quem comanda aquele sentimento, embora dela não tenhamos conhecimento? —É isso mesmo, filha.
— Essa explicação deixou-me muito feliz.
Charles foi a única pessoa que me tratou com cordialidade, educação e ternura, embora eu soubesse, nenhum sentimento igual àquele que tomou o meu coração, ele tenha sentido por mim.
— Não sabemos. Não seria a afinidade, a ternura com que a tratou, a revelação de algo muito escondido em seu coração, do qual nem ele mesmo tivesse tido consciência?
—Pode ser, irmã.
Ser-me-á permitido, algum dia, recordar outras vidas em que estivemos juntos, como a senhora me revelou?
—Quando for permitido, se lhe for benéfico, acontecerá.
Não se preocupe!
Conforme já lhe disse, tudo tem o seu momento certo, e, quem sabe, um dia terá a permissão de ir vê-lo!...
— Rogue a Deus me permita!
Gostaria de vê-lo, de saber como é sua vida agora.
— Esforce-se para isso que um dia, eu lhe asseguro, terá a permissão do nosso Pai.
Desde que Mariana deixou sua casa, e sua presença não mais tirava a tranquilidade do orgulho e da vaidade da família, cuja beleza e fausto das suas reuniões regozijava-se em mostrar, tudo retomou, resguardado o período em que a aparência de tristeza deveria ser mantida.
Continuavam rodeados por todos os que compartilhavam dos mesmos ideais de futilidades, sobretudo pelos que não possuíam recursos semelhantes aos deles, para desfrutarem de uma posição que lhes era satisfatória.
A vida entre Manuela e Cláudio, passado aquele primeiro período de envolvimento, durante o qual ele se sentira enredado, perdera todo encanto.
Ele a via tal qual era — apenas beleza exterior!
O seu interior, desvendado pela convivência, revelava-se a Cláudio com toda a sua realidade, e ele a via frívola, invejosa, ignorante e ciumenta, não pelo sentimento de amor que nutria por ele, que agora o compreendia, também não existiu.
Apenas realizara o desejo de mostrar a todos que conseguira o melhor partido daquela sociedade, e as famílias, estimulando-a, sentiram-se felizes, não pela união dos filhos, abençoada pelo amor, mas pela união de fortunas.
Cada um deles estaria mais seguro em qualquer eventualidade.
A fortuna de um passaria às mãos do outro, ambos possuíam um único filho, pois não contavam com Mariana.
Manuela nunca quisera filhos, não desejava empecilhos à sua vida, nem turvar a sua beleza.
Esquecia-se de que os filhos seriam o ponto de união entre ela e Cláudio, que esperava do matrimónio mais que uma simples união de corpos.
A união em Espírito, entre eles, não se fizera, pelo menos a que se prolonga através dos filhos, trazendo-lhes companhia e felicidade.
Ela vivia recriminando-o por manter-se arredio às suas frivolidades, e ele passou a entregar-se, decorridos alguns anos, àquilo de que gostava.
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Re: Mariana ou Marie Anne? - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 21, 2018 7:56 pm

Lia muito, em todas as horas que podia, permanecendo muito tempo no gabinete de trabalho da casa, onde centenas de livros eram exibidos, como era hábito das famílias abastadas.
Os livros que serviram para suavizar a vida de Mariana, de quem ele sempre se lembrava, também eram os seus companheiros.
Avaliava mais profundamente o quanto ela deveria ter sofrido naquela casa, e, às vezes, elevava o seu pensamento a Deus, agradecendo-Lhe por tê-la retirado daquela vida.
Se outra existisse, como já ouvira falar, certamente ela estaria mais feliz.
Com o passar do tempo, Cláudio conseguiu realizar seu sonho e fazia parte do comando político do país, trabalhando muito, além das próprias obrigações, como se o trabalho lhe fosse uma fuga, um retiro, para que os seus pensamentos e sentimentos não lhe turvassem mais o coração.
Sua mãe já não estava entre eles, e o pai, mais envelhecido, não entenderia o seu íntimo tão sofrido.
Ele ansiava pela liberdade, porém, íntegro como era, e participante agora de cargo que o evidenciava, não podia ser o promotor de um escândalo que fatalmente lhe cairia sobre a cabeça.
Ninguém o compreenderia, por isso sentia-se obrigado a continuar a vida naquela casa.
Reconhecia-se encurralado, sem que nenhuma porta pudesse lhe ser aberta, a fim de retomar a sua liberdade.
Consciente de sua situação, e sabedor de que ela já o envolvia em suas teias há mais de dez anos, nada faria para mudá-la.
Apenas vivia, vivia, sem, contudo, fazê-lo como desejava, deixando-se levar pela vida.
Após a partida da querida Mariana, Charles permaneceu com eles por mais alguns dias, o suficiente para concluir o seu trabalho em Lisboa, e partiu de volta à sua pátria, ao seu lar em Paris:
Levava o coração entristecido e a impressão de que fora o causador indirecto da moléstia que a acometera.
Todavia, de retomo à terra de origem, o encontro com os familiares, o retomar das actividades, com o passar do tempo, a rotina se fez, mas a lembrança dela acompanhava-o sempre.
Interessante o que ocorre na mente das pessoas, cujo coração se encontra envolvido por sentimentos nobres, em relação a outra pessoa.
Enquanto Charles conviveu, embora pouco com Mariana, via-a fisicamente conforme ela era, o que nunca o impediu de lhe ter grande simpatia.
Talvez não visse o corpo, mas seu Espírito que era belo!
Do momento em que ele de lá se retirou, e as lembranças lhe voltavam à mente, ela ia, aos poucos, se transformando...
Se pudéssemos, agora, visualizar a Mariana que ele trazia na mente, ninguém a reconheceria, pois era outra.
Guardara a lembrança do seu Espírito que não pôde ver, mas sentir através da bondade, do sofrimento pelo qual passava, e ia liberando-a de todas as feições feias.
Contente com isso, nem mesmo se lembrava daquela Mariana, mas somente da que ele transformara para fazer parte do seu mundo interior.
Talvez esse facto se devesse às suas frustrações por não ter podido modificá-la, ajudando-a a conviver de modo fraterno e amigável com todos os que a tratavam com desprezo.
Todavia, realizou esse sonho de forma diferente, tendo, em suas lembranças, uma Mariana serena, tranquila, a que lhe transmitira tantas coisas boas e que, certamente, abalara os seus sentimentos.
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Re: Mariana ou Marie Anne? - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 21, 2018 7:57 pm

9 - NOVA OPORTUNIDADE
Os dias decorriam dentro da paz e da tranquilidade que todos desejavam, sobretudo àqueles que muito haviam sofrido, e agora, depois de tanto se aplicarem, já as possuíam no coração.
Entretanto, como a nossa vida, quer de encarnados, quer de desencarnados, é uma incessante busca para o Espírito, buscamos o progresso que um dia nos fará galgar alturas cada vez maiores.
O aprendizado, a dedicação, os propósitos colaboram para isso, mas a busca maior é a bênção de um corpo que nos sirva de instrumento, a fim de que esse progresso se faça.
É através da nossa vivência na Terra, seja junto dos que nos rodearem, seja em outros círculos onde formos colocados, ou do nosso procedimento diante do que devemos passar, que ele se fará.
Uma encarnação é de muita importância para o Espírito, que nela vê uma oportunidade para a realização de si mesmo.
Em sendo assim, todos, passado um tempo, almejam por ela; não que, encarnados, serão mais felizes do que onde se encontram, mas ela é necessária porque proporciona um grande avanço na senda do aperfeiçoamento espiritual.
Em Espírito, aprendemos, contudo, é só durante a encarnação que somos burilados, procurando, na realização dos nossos propósitos, pôr em prática o nosso aprendizado.
Quanto mais próxima for a nossa conduta, aqui, do que planeamos lá, mais profícua será essa oportunidade para o Espírito.
Em um dos dias em que Mariana desempenhava suas obrigações, sempre com tanto amor, dedicação e eficiência, recebeu a visita de Irmã Cidália.
— Que alegria vê-la, irmã!
O que a trouxe?
Quando aqui vem, sei, traz algum assunto importante.
Comumente, quando queria apenas conversar, ela esperava-a fora do horário de trabalho para ficarem mais à vontade.
Contudo, naquele dia, o motivo que a levava, não podia esperar.
—É isso mesmo, filha, tem razão.
A minha visita, hoje, tem uma finalidade muito importante.
O nosso Mentor precisa vê-la e pediu-me que lhe dissesse.
Hoje, à noite, ao término do seu trabalho, ele a espera para uma conversa.
—O que ele quer de mim?
A senhora sabe?
—Sim, sei, mas não estou autorizada a dizer-lhe.
—Quando ele nos manda chamar, é porque o assunto é deveras importante!
Comigo, só aconteceu uma vez, lembra-se?
O que desejará agora?
Terei eu cometido algum erro?
— Nem pense nisso.
—Pois bem, aguardarei o momento sem preocupação, e à hora certa, lá estarei.
Irmã Cidália retirou-se, e Mariana não pôde evitar de pensar na entrevista, preocupando-se.
Entretanto, conseguiu realizar o seu trabalho e, à hora determinada, se fez presente para ser recebida por ele.
Era sempre uma visita que os que deveriam realizar, não se furtavam às preocupações; porém, ao mesmo tempo, sentiam uma grande alegria em poder estar com ele alguns instantes que fosse, pela sua bondade, pela forma tão fraterna com que recebia seus irmãos.
Mariana foi introduzida em sua sala. Era pequena e simples, com alguma aparelhagem desconhecida por ela, e mais o pouco necessário para que ele pudesse realizar bem a sua tarefa de comando.
—Que a paz de Jesus esteja em seu coração! disse-lhe ele, saudando-a.
Mariana nada pôde responder, tão enlevada se sentia diante daquela entidade tão pura, tão fraterna, e de fisionomia tão serena.
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Re: Mariana ou Marie Anne? - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 21, 2018 7:57 pm

—Fique à vontade!
Sente-se aqui perto de mim, que precisamos conversar!
Nada receie e saiba que é muito querida!
Conquanto nosso contacto seja pequeno pois os afazeres são muitos, não deixo de saber de tudo o que se passa, e tenho conhecimento do quanto tem nos ajudado, pelo bom desempenho do seu trabalho.
Todavia, como precisamos sempre evoluir através de novas tarefas, não podemos ficar indefinidamente num mesmo lugar, pois a nossa evolução ficaria prejudicada?
—Permita-me, irmão, afirmar que tenho muito amor no que realizo, mas acatarei com humildade suas determinações e procurarei fazer o melhor.
Sabedora sou de que aqui estamos apenas de passagem, e outras tarefas nos são dadas, às vezes, em outros locais.
Sim, filha, vejo o quanto é dócil e compreensiva, porém, o que eu quero lhe dizer é que é chegado o momento de nos deixar!
Uma tarefa muito grande a aguarda, e a prepararemos nos próximos dias para realizá-la.
Não mudará de actividade nem de Colónia, mas é chegado o momento de retomar à Terra, como encarnada, vivendo lá, entre aqueles com os quais deverá desempenhar essa sua nova oportunidade.
Mariana apenas ouvia, sem nada dizer.
Ele falava com brandura e ela sabia que essa hora chegaria. Contudo, um receio tão grande a tomou, que o Mentor, a quem nada ficava escondido, falou-lhe:
—Não tenha receio de nada, minha querida filha!
O seu progresso, nessa sua última experiência terrena, fez-se de forma muito intensa.
A vida do Espírito, sem a encarnação entre os nossos irmãos que lá se encontram, de nada adiantará, pelo menos até adquirirmos uma sublimidade, uma evolução que nos libere dessa necessidade, mas, para isso, muitas vidas precisamos lá viver...
Aqui devemos procurar fazer sempre o melhor, não nos esquecendo dos propósitos que levamos quando daqui partimos, para voltarmos vitoriosos, quando chegar a hora.
Você é sabedora do quanto a sua última encarnação, embora não tão longa, lhe foi benéfica.
—Perdoe-me os receios, perdoe-me!
Eu entendo e esperava, essa hora chegaria, mas não pude deixar de temer, lembrando do muito que lá passei.
— NO entanto compreendemos também, que, desse muito que diz, ter passado, adveio o seu progresso!
Não pelos sofrimentos experimentados, mas pela forma como os suportou!
Sempre quieta, calada, sem revolta, fazendo da sua vida de solidão uma oportunidade para o aprendizado, para o desenvolvimento da sua inteligência.
Foi esse treinamento que a ajudou na tarefa que aqui vem desempenhando com tanto brilho.
Querido irmão, acatarei o que me estiver reservado, com o pensamento em Deus e em Jesus, e, se tiver de retomar, pedirei a Eles que me dêem forças para suportar esse sofrimento da melhor forma, com grande aceitação, sem reclamar, fazendo dele o meu instrumento de progresso.
O Mentor, com a bondade característica daqueles que exercem essa função, falava a Mariana, explicando o que lhe aconteceria a partir daquele instante:
— Se a chamei aqui, foi para lhe dar conhecimento do que deverá realizar nos próximos dias, em atendimento a essa nova encarnação, já delineada, e em cumprimento a resgates que ainda lhe restam de encarnações passadas.
A sua aquiescência em se colocar à disposição das determinações de nosso Pai Maior foi muito salutar, sobretudo a sua submissão, revelando seu Espírito.
Nos próximos dias você será preparada, porque queremos que parta daqui, ciente do que a aguarda.
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Re: Mariana ou Marie Anne? - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 21, 2018 7:57 pm

Quero adiantar, contudo, que sua nova experiência, na Terra, não será tão penosa quanto a última em que lá esteve, quando saldou débitos profundos, como um meio de valorização da família e dos entes queridos que a rodearam.
Agora você já adquiriu, pelo muito que sofreu, a graça de nascer numa família que a quererá muito e a quem mostrará dedicação.
Mais tarde, quando chegar o momento, terá o refrigério do amor a envolver-lhe o coração, através de um companheiro que a ajudará a suportar os revezes que ainda será obrigada a passar.
— Submeto-me ao que me estiver reservado, e esforçar-me-ei para ser bem sucedida!
Orarei sempre a Deus, pedindo-Lhe forças para não falhar, e para retomar vitoriosa, tendo saldado muitos dos débitos que, certamente, ainda restam no meu Espírito, por todo o mal que realizei nas minhas encarnações pregressas.
—Esperamos, aconteça!
Nós a ampararemos, como sempre o fazemos com todos aqueles que daqui partem para cumprir as suas tarefas no mundo dos encarnados.
— Agradeço todo o auxílio que puder proporcionar a Anne, estimulando-me:
cada vez mais a cumprir as minhas provas lá.
No entanto, se permitido fosse, gostaria de saber mais detalhes sobre essa minha nova encarnação.
— Sei da sua ansiedade, porém, o permitido saberá nos próximos dias, quando deixar as suas actividades na biblioteca, e passar para o Departamento Reencarnatório!
Lá terá as condições de tomar conhecimento do que deseja, e até de outras pendências do seu Espírito, a fim de adquirir forças para que seus propósitos, para essa nova oportunidade terrena, sejam os mais firmes possíveis, e não falhe.
Agora pode voltar para seu quarto, onde sei, pensará bastante.
A sua saída da biblioteca a entristecerá, mas estamos no Mundo Espiritual para um aprendizado que proporcione a nossa evolução, e lá não poderá permanecer indefinidamente.
— Sabia que a minha permanência, naquele trabalho, seria temporária.
Suponho, no desempenho de minhas funções, ter podido ajudar um pouco aqueles que lá compareceram.
Sim, mas agora as deixará!
Outra temos para aquele cargo e, assim como recebeu orientações, você as dará à enviada para substituí-la.
Quando ela se encontrar preparada — uns três ou quatro dias serão suficientes — você passará para o Departamento Reencarnatório, onde será preparada.
Agora pode ir na paz do nosso querido Mestre Jesus, procurando tê-lo sempre em seu pensamento e em suas acções, bem como nas suas orações, para adquirir o fortalecimento necessário para a nova tarefa que a espera.
Esteja tranquila, nós a estaremos amparando. Lembre-se, por mais possa lhe parecer, nunca estará só.
Confie em Deus e em nós.
Mariana partiu com o coração preocupado.
Tinha receios, pois era uma nova experiência de vital importância para o seu Espírito.
Temia o desconhecido, temia falhar, mas não devia deixar-se envolver por tais preocupações.
Apoiar-se-ia nas orações, em Deus, como lhe fora aconselhado.
Os primeiros dias passaram, as recomendações relativas à actividade que deixaria, foram executadas, e ela ficou liberada para o seu trabalho de preparação.
Na manhã do dia imediato ao seu desligamento da biblioteca, Irmã Cidália, a amiga de todos os momentos, foi ter com ela para levá-la ao novo departamento, onde só tinham acesso os que estavam na iminência de novas encarnações.
— Ah, irmã, sinto-me tão preocupada, tenho tantos receios!
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Re: Mariana ou Marie Anne? - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 21, 2018 7:57 pm

Penso muito e oro, para que nada turve o meu coração, todavia, não consigo deixar as preocupações.
Espero que a senhora, que me ajudou tanto, possa ajudar Anne mais uma vez, dando-me forças para que tudo se realize conforme o esperado.
—Nada receie!
Você ficará contente com o que lhe preparamos.
Confie em Deus, confie nos amigos daqui, que a querem muito, e procurarão fazer o melhor para ajudá-la sempre.
—Eu confio, irmã, mas fui apanhada de surpresa, e lamento também ter que deixar este lugar, onde sempre fui tratada com tanto carinho e consideração!
Conversando e caminhando elas chegaram a uma grande sala equipada com muita aparelhagem, e dividida em diversos pequenos compartimentos; totalmente isolados uns dos outros, munidos de aparelhos.
Em cada um havia uma entidade resplendente de carinho, amor e dedicação, a espera daqueles que para lá se dirigiam.
Irmã Cidália conduziu Mariana a um deles, onde já eram aguardadas, e apresentou-a ao encarregado daquela tarefa, como alguém muito querida ao seu coração, recomendando-lhe, tratasse-a de modo a tranquilizá-la, a fim de que os seus receios se desvanecessem
—Irmã — respondeu o encarregado de auxiliar e orientar Mariana - essa recomendação era dispensável, porém, entendo que a fez apenas para que a nossa irmãzinha se sentisse mais confiante.
—E isso mesmo! Ela está preocupada.
—Entendemos como normal nesta situação, mas a nossa conversa e o que vamos mostrar-lhe, serão suficientes para asserená-la e fazê-la desejar ardentemente voltar o mais rápido possível.
Ela ficará feliz, a senhora o sabe.
—É verdade! Conhecendo profundamente os seu íntimo, sei que a sua programação a deixará contente
Mariana, atenta aos comentários a respeito da sua felicidade quando soubesse o que lhe estava reservado, ficou satisfeita.
Após tanta tristeza, quem sabe, alguma coisa boa a esperasse.
O que seria? Ficou ansiosa mas nada perguntou, e, passivamente, observava e ouvia.
Queria ser a mais submissa possível, para absorver e compreender o que lhe fora planeado, pois entendia, só poderia ser em seu próprio benefício.
Ela sabia, é do sucesso com que se conclui uma encarnação, que o Espírito evolui.
Nos primeiros momentos, após a retirada de Irmã Cidália, eles apenas conversaram para que ela ficasse completamente à vontade.
Quando o orientador a sentiu mais tranquila e serena, compreendeu, era o momento de começar.
Recordou com ela muito da sua última experiência terrena, principalmente a sua aparência -a principal geradora de todo o seu sofrimento entre os familiares.
Explicou-lhe a causa daquela deficiência revelando-lhe que, em encarnações anteriores, em razão da sua beleza, ela desprezara a família.
Não soubera' valorizar o lar, os familiares, nem mesmo conseguira respeitar o marido que lhe fora designado como companheiro, para tomar-lhe a vida suave e ser o pai de seus filhos, completando a felicidade do lar, como havia Sido planeado para aquela encarnação que ela fizera perder.
A única forma encontrada para que ela valorizasse a união familiar, e aqueles com os quais convivia, sentindo o que é possuir o amor e a dedicação de um companheiro, foi proceder como o fizeram, para auxiliá-la a ressarcir o mal que havia praticado, não aos outros, mas a si própria, e a não perder outra oportunidade.
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Re: Mariana ou Marie Anne? - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 21, 2018 7:58 pm

Depois de muita insensatez praticada naquela ocasião, ela pôde compreender, após um trabalho intenso no Plano Espiritual, todo o mal que havia feito, desfrutando da beleza sem o equilíbrio necessário.
Assim entendeu que sua última experiência na Terra lhe havia sido muito benéfica e merecida.
— Devemos esclarecer ainda, querida irmã, que naquela oportunidade anterior a sua última encarnação devido à sua compreensão dos erros praticados, e do seu arrependimento, você mesma concordou com o nosso planeamento, para ressarcir um pouco dos débitos adquiridos.
Compreendeu agora, o que não entendia?
— Compreendi e envergonho-me do que fiz, verificando, com os meus próprios olhos, através dessa aparelhagem, o que me mostrou.
—Pois bem! O que lhe foi mostrado, agora será esquecido, pois aqueles débitos já foram saldados de forma feliz, nada restando daquela oportunidade.
Contudo, como vivemos muitas vezes, muitos compromissos ficam para trás, para os saldarmos à medida que estivermos preparados.
Nessa próxima encarnação você será mais feliz, não obstante os compromissos em pendência.
Deus, na sua infinita misericórdia, não tem pressa.
O tempo para nós não conta, e Ele nos permite pagar, em suaves pequenas parcelas, aquilo que, às vezes, realizamos de roldão sobre o próprio Espírito.
Vamos encarnando e desencarnando, e, aos poucos, ressarcindo os débitos.
Só assim o nosso Espírito se tomará pino e luminoso, e poderemos nos aproximar mais daquele que tudo faz e tudo sofreu por nós.
—O que aprendi, visualizei, e o que conversamos, fizeram-me bem.
Terei elementos para reflectir e me preparar, orando muito a Deus, a fim de não perder nenhuma oportunidade que me for dada, de agora em diante.
Oxalá eu tenha vontade firme, coragem e força interior, para realizar além do que me foi programado!
—Que Deus a abençoe e a auxilie a conseguir!
Você estará sempre amparada!
Não a deixaremos só, como não deixamos nenhum daqueles que daqui partem e querem estar em sintonia connosco, para receber a nossa ajuda e não esquecer o que aqui foi programado.
— Será possível nos lembrarmos do que levamos em propósitos no bem, quando daqui partimos?
—Não da forma como está pensando.
Mas, se os propósitos estiverem bem solidificados no seu Espírito, aquela energia interior que dele emana, reforçada pela ajuda dos amigos espirituais que acompanham os encarnados predispostos ao bem, não terá a consciência plena do que deve ser realizado, mas lembrar-se-á, pela vontade de realizar, pelo impulso interior que leva consigo.
—Compreendo, irmão.
Conquanto não tenhamos a consciência plena do que prometemos e devemos cumprir, uma leve ideia abrigamos no inconsciente, para, num ímpeto, efectuarmos as tarefas, sempre como programamos-
—E isto mesmo!
Não só como programamos, mas, às vezes, realizando ainda mais.
—Agradeço todas estas lições, e espero poder corresponder.
Esforçar-me-ei para fazer o melhor, para que o meu Espírito possa progredir a caminho de Jesus.
— Muito bem! Tenho a certeza que seus esforços terão êxito!
—Já conversamos bastante, mas, o que devo realizar nesta minha próxima encarnação?
—Saberá depois.
Por hoje já trabalhamos o bastante, conforme verifiquei, compreendeu muito bem.
Amanhã continuaremos, e quantas vezes mais forem necessárias, até o momento em que estiver preparada para tomar conhecimento do que lhe programamos.
No entanto, terá a opção de escolher, de recusar!
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Re: Mariana ou Marie Anne? - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 21, 2018 7:58 pm

A planificação foi organizada de acordo com o que lhe será melhor, mas você poderá recusar ou mesmo modificar, apenas não sabemos se será tão salutar ao seu Espírito.
O tratamento de Mariana, no Departamento Reencarnatório, ainda continuou por alguns dias.
Em cada um, uma pequena parte de esclarecimento de instrução, e um pouco de força, de coragem e de estímulo; eram-lhe transmitidos, em razão do que na Terra deveria realizar.
Sentia-se mais segura, mais confiante e mais satisfeita.
Tivera muitos esclarecimentos quanto ao seu passado, criando, dentro de si, uma reserva de energias, para, de alguma forma, não se retrair das promessas e dos propósitos feitos.
— A sua bondade para comigo, como a sua forma de agir, conquistaram-me a confiança.
Essa força interior que colocou em mim, transmite-me um desejo maior de vencer e de voltar aqui, se me for permitido, quando de lá me retirar novamente.
Entretanto, se essas vontade de vencer era minha, agora tem outro objectivo — o reconhecimento pelo muito que tem feito por mim, pela bondade e carinho com que me tem tratado!
Sinto que parte de seu Espírito um desejo imenso de me ajudar, pelo amor fraterno que abriga, como característica essencial dos Espíritos em posições iguais à sua!
Muito obrigada, irmão!
Que Deus sempre o envolva em seus eflúvios de amor, para que cada vez mais possa auxiliar aqueles que aqui vêm, nessa empreitada tão difícil de retorno à Terra. Obrigada!
— Minha querida Mariana, as suas palavras enternecem-me o coração e levam-me à emoção, que não deve dominar-me!
Desempenhamos uma tarefa que Jesus!
nos confiou, e procuramos realizá-la, fazendo o melhor.
Não precisa nos agradecer por isso.
Trabalhamos em nome dele, para ajudar os que aqui vêm, a partirem mais fortalecidos e encorajados, levando essas energias bem intensas em seus Espíritos, para delas fazerem uso, quando lá estiverem, sem mesmo saberem por quê!
É a força do amor, da humildade e da fraternidade, não só para consigo, mas ainda mais fortemente para com os semelhantes com os quais conviver.
É a coragem de a tudo ultrapassar e vencer, visando somente ao bem e a Jesus!
Quando partir, nós a ampararemos e a protegeremos, como fazemos sempre, para que toda a aprendizagem aqui efectuada e aceita, possa ser bem cumprida.
—Falta-me ainda uma informação que não sei se me será permitido ter, mas perguntarei.
— Onde será essa minha oportunidade?
Em que meios viverei e com quem?
—Esse conhecimento lhe será permitido, e constitui-se a parte principal do nosso trabalho!
Você o saberá; do contrário, esta actividade não teria a finalidade desejada.
Até agora, preparamo-la em termos gerais, mas, a partir de amanhã, começará uma fase mais restrita à sua nova tarefa no plano Terra.
Entretanto, devo repetir, terá toda a liberdade de recusar, se quiser, porém, afianço-lhe, planeamos o que lhe é necessário e a deixará satisfeita.
Embora na Terra devamos passar por sofrimentos, Deus, na sua infinita misericórdia, permite saldemos nossos débitos de forma bastante amena, colocando-nos nos meios onde possamos conviver com alguém que nos traga o refrigério para o coração, nos momentos em que a aflição for maior.
Você poderá pensar, como o faz sempre, em tudo o que lhe foi dito e aprendido, e amanhã retomará para o início da outra parte.
Que Deus a abençoe nessa nova tarefa!
Que a força e a coragem de que tanto falamos, possam estar perenes e solidificadas em seu Espírito e cristalizadas em seu coração!
Esteja confiante, Deus nunca desampara ninguém; nós é que, às vezes, nos fazemos rebeldes e queremos fugir do seu amparo! Até amanhã!
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Re: Mariana ou Marie Anne? - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 21, 2018 7:58 pm

Mariana nunca saiu do seu tratamento tão preocupada, como nesse dia.
Não mais o receio, porém, a proximidade do seu retorno trazia-lhe uma sensação diferente...
Fora preparada para extirpar os temores, mas não podia deixar de senti-los, pois o momento mais importante ainda estava por vir.
Onde reencarnaria?
Por tudo o que aprendera, certamente seria entre aqueles que um dia devesse ter ofendido.
Ao mesmo tempo, diziam que ela ficaria feliz.
Teria um companheiro e até filhos que dependeriam de seus cuidados, do seu carinho, do seu amor.
Oxalá pudesse escarninhá-los correctamente, dentro dos ensinamentos de Jesus, então mais sólidos em seu Espírito, aprendidos através das leituras, das prelecções realizadas pelos mentores e através da palavra simples, mas confortadora da Irmã Cidália.
Quem seria o seu companheiro?
Alguém já conhecido de outras vidas?
Fosse quem fosse, procuraria amá-lo, respeitá-lo e se esforçaria para torná-lo feliz ao seu lado.
Entre preocupações, conjecturas e promessas, adormeceu, e, enquanto dormia, pôde visualizar Charles.
Ah, o querido Charles da sua última encarnação! Aquele que enterneceu o seu coração e não se apavorou com a sua aparência.
Ah! Se ele pudesse vê-la transformada, tão diferente daquele ser do qual certamente sentiu piedade...
O que ela não sabia, é que também permanecera em Charles — não mais aquela criatura que ele conhecera e partira, deixando-lhe a mágoa do remorso, mas a que ele criara, pelo afastamento no tempo.
Trazendo ainda Charles no pensamento* na manhã imediata, Mariana seguiu para mais uma parte da sua preparação no Departamento Reencarnatório.
Em dado momento, no desenvolver da actividade, o irmão encarregado ligou um pequeno aparelho à sua frente, equipado com uma tela semelhante a dos aparelhos utilizados hoje, na Terra, para o entretenimento de seus habitantes, e projectou uma figura que deixou Mariana um tanto chocada, pelo inesperado com que o fizera:
— Querida Mariana — perguntou-lhe - conhece essa pessoa?
Com dificuldade de articular uma resposta, ela apenas fez um assentimento com a cabeça, para não perder nenhum momento.
Queria verificar todos os detalhes daquele rosto que lhe despertara o amor no coração, mas do qual não se sentia no direito.
Por isso sofrera tanto, tendo chegado até à morte.
—Acalme-se, Mariana, e diga-me:
o que ele significa para você?
Mais refeita, conseguiu responder com outra pergunta:
— Depois de tudo o que aprendi, é necessário que responda? O irmão deve saber e muito mais que eu própria, pois nada fica escondido em nosso Espírito, pelo menos aqui, sem ser descoberto...
—Isto é verdade! Todavia, precisamos de sua resposta, para o que lhe temos preparado.
—Ele significou muito para mim, apesar de uma convivência tão curta.
Mas, como Irmã Cidália me disse em certa ocasião, era porque já tínhamos vivido juntos em outras existências.
E isso irmão?
—É verdade. Estiveram juntos, amaram-se muito, mas foi justamente quando você se viu com a mente e o coração ofuscados pela beleza e não soube respeitá-lo!
Você o amou, e ele, mesmo traído, prejudicado, continuou a amá-la!
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Re: Mariana ou Marie Anne? - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 21, 2018 7:58 pm

Por isso deu-lhe, embora sem saber, tantas atenções nos poucos momentos em que se encontraram.
Dissemos que o nosso planeamento a deixaria feliz.
Pois bem, nesta sua nova oportunidade na Terra, conviverá com ele.
Agora ele está mais velho pois, quando de lá partiu, ambos eram jovens.
Você está aqui há mais de dez anos, mas ele lá permaneceu, voltou para a sua terra de origem, a França, lembra-se?
—Se me lembro, irmão.
Foi pelo conhecimento que eu possuía da sua língua, que pudemos conversar, estar juntos algumas vezes.
—É isso mesmo.
Ele também não a esqueceu.
Tem-na sempre em sua memória, porém, apesar disso, contraiu matrimónio com uma jovem que o ama muito, e também é amada por ele.
Percebendo uma leve nuvem de tristeza em seu Espírito, o irmão orientador aconselhou-a:
—Não fique triste, Mariana, você já havia partido, e, mesmo naquela oportunidade, lhes seria difícil uma união.
No entanto, a vida continua, temos muitos afectos e não podemos deixar que o egoísmo tome conta do nosso coração.
Assim, você partirá e renascerá junto dele, na sua própria casa.
Não será como desejaria que o fosse, bem sei, como seu companheiro, mas terá nele um pai que a amará muito e com quem se identificará.
Gomo filha, você também lhe dará muito amor e, na sua velhice, será o seu amparo e o esteio para o seu físico cansado, para o seu coração...
Não se entristeça! -repetiu-lhe.
—Eu não estou triste.
Estou apenas reflectindo e pedindo a Deus forças para realizar essa tarefa.
—Você a realizará com muito amor, com muito carinho.
—O importante é que conviverei com ele, de forma fraterna e pura.
Talvez seja necessário, para que eu aprenda a respeitá-lo, o que não soube fazer em outra oportunidade!
— Você nascerá na França, e será, para ele, uma filha muito amorosa.
Será mais apegada ao pai que à mãe, que também a amará bastante, a cujo amor você saberá corresponder.
Apenas a vida dela será bem mais curta, e ele ficará, depois, a seu encargo.
—Querido irmão, as revelações do dia foram intensas, e, se já orei muito a Deus, agora sinto, devo orar mais ainda.
A tarefa que me aguarda será grande, mas espero desempenhá-la bem.
Espero poder levar-lhe o meu amor fraterno, como uma filha muito querida.
O amor filial e o amor paternal, unidos, para desfazer tramas antigas, tecidas por mim mesma; por isso, devo tudo fazer para desenleá-las a contento. ..
—Você já tem material suficiente para pensar e reflectir, não se esquecendo do que sempre lhe dizemos.
Pode recusar, porém, não lhe será benéfico.
Quero, ainda, acrescentar mais uma pequena parte. Disse que teria o seu lar, um companheiro, filhos, e os terá, se não na pessoa de Charles, na de outro que também a amará e será amado por você.
Amanhã continuaremos.
Que Deus a abençoe!
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