Mariana ou Marie Anne? - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

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Re: Mariana ou Marie Anne? - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 24, 2018 8:15 pm

Amparai-me, Pai Amado, para que eu compreenda toda essa situação que, na verdade, ainda não se instalou!
Amparai-me para que, se esse rapaz tomar conta do seu coração, eu o aceite e veja nele mais um filho, aquele que nunca tive, e que poderá ajudar a me amparar a velhice!
Não me abandoneis, Pai, e auxiliai-me a ser forte para entender e aceitar!
Amparai também afilha querida, para que ela não se deixe envolver por sentimentos que possam, num futuro, fazê-la sofrer!
Dai-me uma luz, afim de que o entendimento se faça em minha mente e em meu coração!
Abençoai-me sempre e sede connosco!
Depois desta oração, sentiu-se mais confortado, mais amparado, e percebeu, também, a inutilidade de tantos temores...
Nada havia acontecido ainda, nada!...
Voltou ao caramanchão, pois ainda era cedo e todos dormiam na casa.
Assentou-se, pensando, pensando muito...
Por um instante sentiu seu corpo desligar-se da mente, envolvido por um leve torpor semelhante ao do sono, e percebeu a visita de alguém trazendo-lhe palavras de muito conforto e compreensão, tranquilizando-o, mas não pôde precisar o que havia sido.
Ele não sabia, mas era a mesma voz já nossa conhecida, aquele ser que sempre estivera ao lado de Mariana, quando da sua partida, que a amparara e a protegera.
O momento, aparentemente simples, era importante para o Plano Espiritual, por isso Irmã Cidália compareceu junto dele, procurando passar-lhe energias para ajudá-lo a superar aquele sentimento.
Era a hora de mostrar à filha, que o relacionamento fraterno em que viviam era verdadeiro, e todo o amor e carinho que lhe demonstrava, era comum e normal aos pais, em situações semelhantes.
Nada disso ele entendia, e tinha por Marie Anne o mais paternal dos amores, e ela, por ele, a dedicação mais tema do amor filial.
No entanto, para o Plano Espiritual que tudo conhece, aquele momento era importante, por isso o seu coração de pai deveria ser asserenado, a fim de continuar a caminhar dentro da normalidade.
Aos poucos ele foi se tranquilizando, e quando retomou sem saber de onde, imaginando haver cochilado pelo cansaço da noite, estava refeito, e sentiu que a sua prece havia chegado ao Pai.
Agradeceu mais uma vez a Deus e voltou para casa.
Muito tempo havia passado e, ao entrar, encontrou Marie Anne em pé, pronta, aguardando-o, pensando que ele ainda estivesse dormindo.
Olhou a filha com tanta ternura paternal e viu que os fantasmas que lhe haviam tomado o coração, já não mais existiam.
Aproximou-se dela e deu-lhe um beijo na face, como querendo desculpar-se a si próprio de tantos pensamentos temerosos.
Sabia a filha que tinha, por isso nada deveria recear.
Ela nunca o abandonaria, fosse qual fosse a situação que surgisse.
—O que aconteceu, papai?
Imaginei-o ainda dormindo, e vejo-o chegar do jardim?
Se soubesse, teria ido passear com você.
—Dormiu bem, filha?
—Como um anjo, e, como um anjo, tive sonhos bonitos.
—E qual foi o "anjo" principal de seu sonho?
—Não estou entendendo!...
— Entendeu-me muito bem!
—Ah, papai, esqueçamos o que falei e venha andar mais um pouco comigo no jardim.
—Não, filha, agora eu estou cansado.
Os arruídos da noite, as músicas ainda permaneceram em minha mente e não consegui dormir.
Vá você, está uma bela manhã!
Vou deitar-me um pouquinho, quem sabe consigo descansar.
Depois que Charles se retirou, Marie Anne ficou só e foi dar a sua volta por entre as flores que lhe eram tão queridas, e já tão conhecidas de um passado ali vivido, mas das quais a Providência Divina fê-la não se lembrar.
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Re: Mariana ou Marie Anne? - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 24, 2018 8:16 pm

16 - ESPERANÇAS FRUSTRADAS
O dia seguinte a uma festa é sempre tecido de comentários e lembranças.
Fala-se de um, fala-se de outro, fala-se de uma situação, e também, como Manuela, da satisfação em realizá-la e do brilho que alcançou, não obstante o fizesse para chamar a atenção sobre a sua capacidade de organizá-la.
Ela esperava receber, de cada palavra, os elogios que estimulassem e fizessem crescer ainda mais o seu orgulho.
Os hóspedes elogiaram-na bastante, pois viram-se na obrigação de fazê-lo.
A festa fora organizada para eles e deveriam mostrar-se agradecidos.
Contudo, estava terminada, os comentários foram diminuindo e a rotina retomou.
Nunca mais haviam voltado ao quarto da velha enferma, embora diariamente perguntassem pela sua saúde.
Marie Anne, porém, novamente manifestou esse desejo, mas Manuela não se mostrou disposta a levá-los.
Já havia estado em seu quarto muitas vezes durante aquele dia e não gostaria de retomar.
Não queria assistir a cenas que lhe eram profundamente desagradáveis.
— Se a senhora não achar conveniente, não iremos! disse-lhe Marie Anne, através de Cláudio.
— Podem ir, mas vão sós!
Não me obriguem a assistir a cenas que me desgostam!
Mariana é uma pessoa já totalmente esquecida.
Foi um período difícil para nós, termos que aturá-la, e, passados tantos anos, não quero dele me recordar.
Vão vocês, Cláudio os levará!
Cláudio, que havia se colocado à disposição, acompanhou-os.
A velha estava sentada na cama, recostada, tendo uma criada em sua companhia.
Quando entraram, ela, estranhamente lhes perguntou:
Quem são os senhores?
A que vieram?
Por que trazem Mariana? Por que, minha filha, não veio sozinha?
Quem são esses homens que a acompanham?
Marie Anne observava sem nada dizer.
Achegou-se até ela, deu-lhe um beijo na testa, e a velha, aproveitando-se do ensejo, enlaçou-a fortemente, e, chorando muito, pediu-lhe perdão mais uma vez.
A jovem assustou-se e Cláudio foi em seu auxílio, tirando-a de junto dela, que gritava entre soluços:
Não a tirem de mim.
Eu preciso que ela fique Comigo.
Só quero fazer-lhe bem.
Quero que ela esqueça o passado.
Agora sei o quanto a fizemos sofrer.
Procure me perdoar.
Naquela época eu não sabia o que fazia, e só tinha olhos para Manuela, que era muito bonita!
Como você era pequena e feia, todos a desprezávamos, sentíamos vergonha, e não admitíamos a sua presença, quando tínhamos visitas ou quando dávamos festas!
Lembra-se, filha, quando Manuela se casou e não permitimos que comparecesse?
Mas eu a vi, meio escondida num canto, observando, e senti, muito medo de que entrasse no salão e me envergonhasse.
Agora quero que me perdoe!
Onde você esteve este tempo todo?
O que aconteceu, minha filha?
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Re: Mariana ou Marie Anne? - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 24, 2018 8:16 pm

Suas últimas palavras já não eram tão gritadas nem nervosas, pois o choro havia passado e ela se encontrava mais calma.
Marie Anne afagava-lhe os cabelos, sem Compreender nada.
Cláudio achou melhor se retirarem.
Sempre que a visitavam era a mesma situação, deixando-os cada vez mais intrigados.
Ouviam-na dirigir-se a Marie Anne, como se a Mariana estivesse presente, e nada entendiam.
Os olhos da velha tão avançada em anos, porém, não a enxergavam com a visão do corpo, já combalido, mas com os olhos do Espírito, que se tomaram aguçados pelo remorso.
Nada disso eles compreendiam, muitas conjecturas foram feitas, e esse facto foi caindo no esquecimento.
Passados alguns dias da festa, um mensageiro levou à Marie Anne, um bilhete de Paulo, falando do seu desejo de visitá-la àquela noite, se nenhum impedimento houvesse.
Aguardaria resposta pelo próprio portador da mensagem. Marie Anne julgou que todo empenho demonstrado por ele, durante a festa, tivesse sido apenas o resultado do entusiasmo do momento.
Entretanto, ao ler a pequena mensagem, imediatamente traçou umas palavras em resposta.
Mal podia esperar a hora combinada chegar!
Que roupa vestir?
Experimentou várias.
Penso que desta ele vai gostar!
— Por que tanta azáfama, minha filha!
Ele vem aqui para vê-la, não pelo seu vestido...
Eu sei, mas a roupa ajuda a nos apresentarmos melhor, e eu quero parecer bonita para ele!
A noite chegou. Encontravam-se todos na sala, conversando, após o jantar, quando o criado anunciou a presença do jovem, conduzindo-o até eles.
Os olhos de Marie Anne brilharam.
Como se não tivesse visto mais ninguém, ele dirigiu-se a ela, primeiramente.
Voltando-se, depois, para cumprimentar os outros, pediu desculpas pela sua atitude.
A noite transcorreu tranquila e agradável, com todos participando e conversando.
Marie Anne, contudo, estava ansiosa por poder estar alguns minutos que fosse, a sós com ele, e essa oportunidade se fez.
Quando da sua despedida, Cláudio, o bom amigo e entendedor daquela situação, pediu a ela que o acompanhasse à porta.
Você já conhece por demais a casa, Marie Anne, e ambos são jovens, podem querer conversar mais um pouco.
Acompanhe-o até à porta e nós nos despedimos aqui!
Paulo, muito gentil e feliz da oportunidade, ofereceu-lhe o braço e retiraram-se.
Em caminho, trocaram algumas palavras, apenas gentis, mas logo ele lhe confessou:
—Marie Anne, não suportava mais a saudade de você!
Foi-me difícil ficar estes dias sem vê-la!
Por meu gosto, estaria aqui logo no dia imediato à festa, e no outro, e no outro também...
Como senti a sua falta!
—Também senti a sua, e até pensei que o seu entusiasmo tivesse durado o tempo da festa, e já houvesse me esquecido!
—Eu não à esqueci!
Ao contrário, você cresceu ainda mais no meu coração.
A saudade fez-me tê-la junto de mim a todo instante, por isso, resolvi: esperar.
Deixei passar alguns dias, para que não interpretasse o meu entusiasmo apenas como capricho de jovem.
Como faço, Marie Anne, para poder estar mais com você?
Quero levá-la a passeios.
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Re: Mariana ou Marie Anne? - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 24, 2018 8:16 pm

Seu pai consentirá?
Não sei, posso falar com ele e depois lhe darei a resposta.
Mandar-lhe-ei uma mensagem e você me responderá.
Se o seu pai concordar, o passeio fica combinado dentro do que lhe escrever.
Está bem assim?
— Sim, está. Agora devo voltar à sala.
Agradou-me a sua visita, mesmo em companhia de todos.
A sua presença deixou-me feliz, e o que me disse agora, mais feliz ainda! Não sei se conseguirei dormir esta noite.
Paulo tomou as mãos de Marie Anne, beijou-as muito respeitosamente e retirou-se.
Durante o tempo que restou a Charles e Marie Anne em Lisboa, a vida da jovem transformou-se.
As suas actividades mudaram e, mais que isso, o seu íntimo também.
Já não era aquela criaturinha virgem de amor, pois sentia o coração pleno de ternura e de amor por Pardo, Charles permitiu os passeios, durante os quais eles desfrutaram de momentos temos de troca de carinhos e de juras.
Momentos que passaram a ser a razão da vida de ambos, tão unidos se sentiam.
Muitas vezes tiveram a oportunidade de ficar a sós em passeios pelo jardim, caminhando de mãos dadas, examinando as flores, ouvindo o canto dos pássaros, como é próprio nessas ocasiões em que o coração se toma mais sensível a essas amenidades.
Findavam-no, frequentemente, no caramanchão, que pôde ouvir muitas palavras de amor, observar muitos carinhos e ver o que nunca havia visto.
Ele, que fora testemunha só de tristezas e da solidão de Mariana, no passado, via-a, novamente, tão feliz e não mais só...
Mão importava que eles não soubessem dos momentos tristes em que ela ali se recolhia.
O importante era que ele, o caramanchão, se pudesse falar, se tivesse as faculdades humanas, diria que estava muito feliz vendo a sua Mariana com o coração pleno de amor e os olhos brilhantes, cujo brilho só os que amam podem reflectir.
No entanto, a vida continua, os compromissos devem ser cumpridos, e as férias que Charles e Marie Anne haviam dado a si próprios, estavam findando.
—Minha filha, está na hora de voltarmos.
Há três meses estamos fora. É um longo período e necessitamos regressar.
Temos os nossos compromissos e a nossa permanência, aqui, já se estendeu demais.
—Não me diga isso, agora, papai!
Como vou voltar, deixando Paulo?
Eu morrerei de tristeza.
— Compreendo-a, mas a nossa vida não é aqui.
Esse período já se alongou além do que podíamos, e, na próxima semana, nos primeiros dias, voltaremos.
Eu sinto muito por você, mas precisa entender.
Chorando, Marie Anne respondeu-lhe:
—Eu entendo as suas razões, mas o meu coração está aqui, junto de Paulo.
Como deixá-lo?
—Compreenda-me, filha.
Vocês são apenas namorados, eu não poderei deixá-la nem poderei ficar, por isso reaja e converse com ele.
Desde o início era sabedora de que esta não era a nossa casa, nem este, o nosso país.
As nossas raízes estão em Paris.
As nossas obrigações, os nossos compromissos, tudo está lá.
Aqui, apenas passamos um período de férias do qual estávamos precisando muito....
—Eu sei, mas me é difícil.
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Re: Mariana ou Marie Anne? - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 24, 2018 8:16 pm

— Converse com Paulo.
Quem sabe ele terá uma solução.
Se realmente a ama, irá vê-la.
Condições para isso, ele as tem.
— Sim, eu sei.
Entretanto, de que adianta ele ir verme, se a sua vida, os seus anseios e esperanças em relação à sua carreira, estão nesta cidade, neste país?
Que faço eu, papai?
Estou sentindo um desespero tão grande.
Não há motivos para isso.
Você deixou-se dominar pelo amor, sabendo que este não era o nosso lugar.
Eu não posso deixa-la aqui.
Nenhuma palavra mais foi trocada, e Marie Anne passou o resto do dia chorando muito.
A situação era difícil.
Sabia que não poderia permanecer sem o pai nem deixá-lo ir só.
Como ficar, sem que nenhum compromisso mais sério entre ambos tivesse sido assumido?
Apenas passearam, conversaram, trocaram carinhos pois amavam-se, e nada mais.
A noite, quando Paulo chegou, antes que ele conversasse com Marie Anne, o próprio Charles quis falar-lhe.
Disse-lhe que deveriam partir no início da próxima semana, falou-lhe da tristeza da filha, pedindo a sua compreensão.
Paulo ouviu-o, abaixou a cabeça e nada lhe respondeu.
Apenas demonstrou, com esse gesto, o seu pesar, sabendo que esse momento chegaria, embora não quisera admiti-lo.
Quando Marie Anne chegou, Charles pediu licença, retirando-se.
Os dois abraçaram-se e Marie Anne recomeçou a chorar, sem nada dizer.
Passados uns instantes, ela acalmou-se.
Quando puderam conversar, a sua tristeza foi ainda maior.
Paulo a amava, estava triste, mas também possuía as raízes de família, os seus anseios e não pensava deixá-los.
Daria continuidade aos ideais políticos do pai, e, pelo amor ao próprio país, nunca o abandonaria.
Ansiava por concretizar o sonho que abrigava no coração, há tanto tempo, aguardando somente a oportunidade que estava a caminho.
Sentia muito, muito, mas nada podia fazer.
Mesmo que quisesse, seu pai nunca consentiria com sua saída do país.
Marie Anne, que chegara a Portugal tão esperançosa de passar dias felizes na companhia dos amigos, fazendo com que o pai se distraísse e esquecesse a tristeza da perda da mãe, partiria acabrunhada e desesperançada.
O seu coração já não era livre e, quando o coração não está livre, o sofrimento é grande.
Nada mais lhe importava, desde a conversa com Paulo.
Queria ir embora o quanto antes.
Charles, que desejava partir no início da semana seguinte, apressou os preparativos para deixarem Lisboa mais rapidamente,
—Não quero prolongar por mais tempo o impossível.
—Amanhã mesmo começaremos a tomar as nossas providências e vamos embora! - concordou Charles.
Marie Anne não chorava mais, fizera-se forte.
Percebera que nem sempre o amor, aparentemente tão intenso e capaz de transpor todas as barreiras, é tão forte assim!
Se a barreira não podia ser transposta, se não tinha a força suficiente para derrubá-la, concluiu, a sua força não era tanta.
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Re: Mariana ou Marie Anne? - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 25, 2018 8:02 pm

Sofria e sofria muito, mas esforçava-se para não demonstrar.
A primeira desilusão chegava ao coração de Marie Anne, porém, com a energia que estava adquirindo, conseguia não chorar, e o desejo de partir logo era grande.
Nenhuma palavra de Cláudio ou de Charles pôde demovê-la.
Quanto a Paulo, não quis mais vê-lo.
As despedidas se fizeram no momento em que percebeu a impossibilidade de continuar aquele romance.
Não as despedidas formais, mas a que ela mesma sentiu acontecer naturalmente, dentro de si, embora nenhuma palavra tivesse sido trocada.
Ele ainda voltou para vê-la, porém ela não quis recebê-lo, de nada adiantaria!
Por que prolongar o sofrimento por mais alguns dias, se depois nunca mais o veria?
Quando os preparativos para a partida ficaram prontos, apenas um desejo faltava-lhe realizar antes de sair, um não, dois!...
Voltou a visitar a velha senhora, mãe de Manuela, pois nunca mais a veria.
Afagou-lhe os cabelos, deu-lhe um beijo de despedida e ouviu novamente as mesmas palavras de sempre.
No íntimo, Marie Anne sentia-se penalizada...
Não compreendia por que a sua presença trazia-lhe a filha de volta, mas, como era sabedora de que ela muito sofrera em suas mãos, pensava, concluindo:
Se a jovem daquela época, a Mariana, muito sofreu, sua mãe, agora, sofre mais!
O remorso é um mal terrível que nos corrói por dentro e vai se avolumando, avolumando, e ela, naquela idade, chegaria à demência completa.
Marie Anne tinha pena, contudo sabia, nada poderia fazer, a não ser dar-lhe um beijo muito temo de despedida, beijando-lhe também as mãos, enquanto lhe afagava os cabelos.
Retirando-se do quarto, foi até o local que a enterneceu naquela casa — o velho caramanchão, onde passara momentos alegres quando só, e outros felizes em companhia de Paulo.
Recordou todas as vezes que lá estivera, desde a primeira, logo depois da sua chegada, até a última, em companhia dele, mas não chorou.
Depois de olhá-lo em todos os seus detalhes, como querendo fixá-lo na memória com mais intensidade, para levá-lo consigo, retirou-se e foi dar uma volta pelo jardim, andando muito devagar e reflectindo, até que o pai foi encontrá-la.
Minha filha, é hora de partirmos,
Nós vamos já, papai.
Quis vir aqui pela última vez, e também fiz uma visita ao caramanchão. .
—Eu a vi à distância ê entendi o que estava fazendo, por isso a deixei só.
Agora devemos ir.
Procure esquecer os momentos tristes, guardando somente os felizes.
Esforce-se para desfazer tristezas e não para acumulá-las mais.
Adquira uma nova postura mental, para que as mágoas e as decepções sofridas fiquem somente aqui, e procure ter o seu coraçãozinho tão puro como ao chegar..
— Tem razão, papai, todavia é difícil.
Eu sei, por isso deve esforçar-se.
— Lembre-se do nome que me deu.
Se tivesse podido esquecer mágoas, não o teria colocado em mim, lembre-se disso.
—É verdade! Foi muito bem lembrado, mas você também sabe o quanto eu fui feliz com sua mãe, e as mágoas daquela época não são as mesmas que tem no coração.
Esqueça tudo e vamos.
Enlaçando a filha, colocou o braço em tomo da sua cintura e levou-a para dentro, onde eram aguardados para as despedidas.
Assim encerrou-se a página vivida em Lisboa, para Charles e Marie Anne, onde nunca mais retomariam.
Eles insistiram com Cláudio e a esposa para que os visitassem também, a fim de manterem aquela amizade retomada depois de tantos anos, acrescentando que Manuela gostaria muito de Paris.
—Eu farei isso, Charles, na primeira oportunidade...
Abraçaram-se, e, após as despedidas, partiram para uma nova vida, em seu lar, mas o coração de Marie Anne já não era o mesmo.
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Re: Mariana ou Marie Anne? - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 25, 2018 8:03 pm

17 - CONFORTO ESPIRITUAL
Charles e Marie Anne, depois de uma viagem tranquila, encontravam-se em casa.
Como haviam deixado pessoas de confiança, tudo se achava bem cuidado.
A casa, os móveis foram arrumados com amor e carinho para recebê-los.
A alegria de Charles, ao retomar ao próprio lar, foi grande.
O mesmo não podemos dizer de Marie Anne.
Não que o retomo não a tivesse alegrado, pois que ela mesma o desejara.
Contudo, não sentia mais a alegria juvenil do coração que nunca havia sido tocado pelo amor, nem a leveza de sentimentos.
Seu coração estava pesado, não mais pelo amor que o havia tomado por completo, mas pelo peso maior da desilusão.
Paulo não movera um fio de cabelo, pelo menos, demonstrando-lhe que, talvez um dia, pudessem se unir, prometendo esforçar-se para isso.
Fora categórico ao reafirmar os seus anseios em relação ao cargo almejado, e ao assegurar que o pai não concordaria com nenhuma atitude sua, em referencia a deixar o país, confirmando que ele mesmo não o desejava.
A primeira desilusão na vida dos jovens é muito importante.
As esperanças são muitas, os anseios, as fantasias, mas a realidade chega e toma conta da fantasia, e, quando ela é o inverso de todos os sonhos, a decepção é inevitável.
Um acumular de sensações desencontradas faziam parte do coração de Marie Anne, mas ela era forte e decidida e havia se proposto a esquecer.
Trabalharia os seus sentimentos e conseguiria os seus propósitos.
—Minha filha, vejo que não está feliz por termos retomado ao lar.
Não era esse o seu desejo? Lembre-se, você mesma quis antecipar a nossa vinda.
—O que eu estou sentindo, papai, não é o desgosto por estar em casa!
Você deve entender, trago o coração ferido.
Estou feliz aqui, mas é-me difícil demonstrá-lo!
Minha dor é ainda maior que qualquer alegria que possa sentir.
É uma alegria triste, se assim posso dizer...
—Agora, num ambiente diferente, na sua própria casa, no silêncio de seu quarto, encontrará a paz que deseja.
Você é forte e não será difícil tirar do coração todos esses sentimentos tão desencontrados, para que ele retome à pureza anterior.
O seu amor verdadeiro, o que a fará feliz e será o seu companheiro, ainda não chegou.
Ele virá um dia, trazendo-lhe toda a felicidade que pensou, teria em companhia de Paulo.
Você verificará que esse amor não passou de um entusiasmo, e nunca foi o verdadeiro que chega e perdura em ambas as partes.
De nada adianta um só amar.
O amor deve ser imo, para que seja um só em dois corações diferentes.
O amor de Paulo, embora ele o afirmasse, não foi tão forte, para que essa unicidade pudesse ser sentida.
Eu entendo, papai, e sei, sofrerei bastante, mas espero estar curada em pouco tempo.
Não se preocupe comigo.
Tenho você, que me é muito querido.
Nós continuaremos unidos, e o futuro, deixaremos entregue a Deus.
Ele me dará forças para continuar a caminhada.
Quem sabe o que aconteceu, não foi o melhor para mim?
Vou esforçar-me para voltar a ser a mesma Marie Anne que você conhecia, antes dessa viagem.
— Você conseguirá!
—Agora que já estamos em nossa casa, longe daquele ambiente, gostaria de falar com você sobre um outro assunto que tem me preocupado bastante, e sobre o qual tenho tido sonhos estranhos.
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Re: Mariana ou Marie Anne? - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 25, 2018 8:03 pm

— Fale. De que se trata?
—É sobre a atitude da mãe de Manuela, cada vez que a visitava.
Tomou-me sempre por sua filha Mariana* e intrigou-me bastante.
Não sei se é pelos meus pensamentos, mas tenho sonhado muito com uma senhora bondosa que me faz companhia, em um belo jardim, com flores estranhas, cujo colorido nunca vi aqui na Terra.
Essa senhora passeia comigo por entre esse jardim, e, às vezes, nos sentamos em um banco e conversamos, porém, não consigo lembrar o que ela me fala.
Esse sonho vem se repetindo, ela trata-me com muito carinho, e só me lembro de que me chama de Mariana, como a velha senhora o fazia.
— Você ficou impressionada com a sua atitude, mas deve reconhecer que ela não se encontra no seu juízo perfeito.
Não deve ficar pensando nela, para que, à noite, sonhos estranhos não povoem a sua mente. Esqueça-se disso!
—Como esquecer?
Não consigo lembrar o que conversamos, porém o local é muito bonito!
Já aconteceu algumas vezes, e gostaria, não só de vê-lo novamente em sonhos, mas de poder saber o que aquela senhora tão meiga me diz.
— Não se preocupe!
Ore a Deus, que Ele a auxiliará.
—Você sabe que nunca esqueço minhas orações, e espero que Ele novamente me permita visitar esse lugar e desfrutar de companhia tão agradável.
O que quero pedir agora, em oração, quando isso tomar a acontecer, é que eu possa me recordar de todas as suas palavras.
Quem sabe ela esteja querendo me ajudar neste período difícil, e, se me recordasse, apoiar-me-ia nelas durante todas as horas do meu dia.
—Confie em Deus e esforce-se que se esquecerá de tudo!
Os sonhos de Marie Anne continuaram e, em cada um, via algum ponto mais claro.
Conversava com aquela senhora que achava bondosa, sem saber que era Irmã Cidália, a que a amparara e a orientara, e agora, vendo-a atravessar um momento difícil, levava-a, em Espírito, para a mesma Colónia onde a atendera.
Permaneciam no jardim, no qual Mariana se deleitara, para transmitir-lhe um pouco de alento.
Não a chamava pela forma do nome que possuía de acordo com a língua do país onde nascera e morava, e sim como o possuíra naquela ocasião, e disso ela se recordava.
Era a mesma pela qual a velha, mãe de Manuela, também a chamara, e, quando acordava, preocupava-se por não se lembrar de outros detalhes.
Não era conveniente que soubesse se tratar do mesmo Espírito, não compreenderia e poderia até desequilibrar-se.
Enquanto conversavam, ela sabia.
A conversa era mantida em níveis de passado e presente, porém, não lhe era permitido recordar depois, para o seu próprio bem.
Para o Espírito não é importante que se recorde, basta que guarde em si a impressão do quanto a conversa mantida em situações semelhantes, lhe é benéfica.
O bem-estar, a confiança se fazem, sem saber de onde são hauridos.
Isto é o que importa.
Os sentimentos foram se asserenando, Marie Anne e Charles retomaram à tranquilidade da rotina de vida, e o tempo foi decorrendo...
Alguns poucos anos passaram!...
Marie Anne se esquecera completamente de Paulo, não da sua pessoa nem do facto, mas da tristeza e da decepção que lhe causara.
Vivia feliz junto do pai, dispensando-lhe todo o carinho e atenções que uma filha dedicada pode proporcionar.
Era o alento angelical da sua vida, e ele se constituía, para ela, naquela companhia amorável, experiente e que lhe dava a segurança que uma filha deve ver no pai amado.
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Re: Mariana ou Marie Anne? - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 25, 2018 8:03 pm

18 - LAR VAZIO
A vida continuava, até que Marie Anne encontrou um outro amor, na pessoa de um rapaz que conhecera, se interessara por ela, e no qual via a esperança para o sen coração.
Era um amor mais sólido e correspondido.
Charles ficou satisfeito, não mais abrigava aqueles sentimentos.
Ê um passado de poucos anos atrás fora curado pelo muito que pedira e pelo muito que recebera.
Compreendia, a filha precisava de um companheiro.
Sós eram felizes, mas a sua vida não estava completa.
Ele, certamente, partiria milito antes dela, pela lógica da idade, e preocupava-se bastante. ...
Quando o jovem apareceu na vida de Marie Anne, ele ficou contente.
Via nele alguém que podia dar segurança à filha, não só a material mas a segurança do amor e do companheirismo.
Os laços de afecto se fortaleciam cada vez mais e, quando assim acontece, culmina em união perene, realizada através do casamento.
Marie Anne unia-se, assim, ao jovem que lhe trouxera maior alegria de viver.
Era culto e mantinham conversas no mesmo nível, o que comumente fortalece mais a união entre os casais.
Charles sabia que as atenções dela, a partir de então, seriam repartidas entretanto compreendia, assim deveria ser.
A filha estava amparada, o marido amava-a e os três passaram a conviver bem.
A felicidade da vida em família tornou-se mais completa, quando um anjinho querido lhes foi trazido.
A alegria do lar se viu acrescida de um belo garoto que seria, a partir do seu nascimento, as atenções, a felicidade dos pais, mas, muito mais, do avô Charles, como mais tarde seria tratado por aquele que fora colocado entre eles.
A alegria de Charles redobrou com a presença, em seu lar, do petit garçon — mon petit garçon, como o avô o chamava.
Aquele que havia sido, um dia, aguardado por ele, como filho, Deus mandara como o seu netinho querido.
Ele, que passou a ser alvo das atenções de todos, recebeu o nome de Michel.
O pequeno era o contentamento, as ocupações do lar, da mãe, do pai quando estava em casa, e do avô que não tinha mais a preocupação com os afazeres profissionais, por ter chegado àquela idade em que os que trabalharam, devem descansar.
Assim a sua dedicação ao pequeno Michel era quase total.
Os dias se sucediam e mais alguns poucos anos também.
Michel via-se correndo pela casa, mais aos cuidados do avô, a quem ele também aprendera a amar.
Charles inventava brincadeiras, contava-lhe histórias.
Formavam uma união perfeita.
No entanto, tudo o que é perfeito, no mundo dos encarnados, nem sempre deve continuar, porque Deus, em seus desígnios, nos prepara surpresas...
O pequeno crescia e era a alegria do lar.
Charles transportara para ele, muito mais intensamente, o próprio desejo de ter um filho.
Marie Anne logo teria outro, aguardado com muito amor e carinho.
-— Será a companhia do nosso querido Michel. — dizia ela.
Aí, papai, você estará mais livre.
Os dois, como crianças, se entenderão melhor e o deixarão em paz e mais sossegado.
Ele só quer a sua companhia, você o acostumou mal.
— Filha, ele é a minha alegria, é tudo o que eu tenho, agora, nesta minha velhice!
Quando o outro chegar, Michel não se passará para ele, mas ele, sim, é que também se achegará a nós. Assim o espero.
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Re: Mariana ou Marie Anne? - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 25, 2018 8:03 pm

Entretanto, como o que a Providência prepara nem sempre é o que nós próprios gostamos, mas o que precisamos passar, o pequeno Michel, a alegria do lar, certo dia adoeceu.
Todos os recursos foram colocados à sua disposição, todas as providências tomadas.
O desespero dos familiares era grande, porque ele a nada reagia..
O seu corpinho, tão irrequieto e feliz, jazia agora sobre o leito, indiferente a tudo, mesmo à presença do avô, que, embora com o coração triste e as lágrimas a lhe escorrerem dos olhos, procurava falar-lhe de forma alegre. Contava-lhe alguma história e até fazia brincadeiras, não obstante com a voz tremida pelo pranto.
Mas cada vez pior, para o desespero de todos, o pequeno Michel deixou o convívio dos familiares, partindo para o Mundo Espiritual.
Restou somente a consternação, a tristeza profunda, a dor que tortura todas as entranhas, e aquele lar vazio de alegrias, como se ela se limitasse apenas à sua presença, e ele, indo-se, a levara consigo.
Não sabiam mais como havia sido a alegria do lar, antes da sua chegada.
Não se lembravam e, mesmo que lembrassem, tinha perdido todo o valor.
A maior alegria, anterior a ele, transformara-se na mais grotesca afronta aos sentimentos de todos.
A vida parou, embora Marie Anne já trouxesse, dentro de si, outro ser que logo nasceria.
Chegaria num ambiente tão triste, mas, talvez fosse, naquele lar, o novo ânimo de que necessitavam para suavizar-lhes tamanha dor.
Para Charles, a vida encerrara-se.
Não pensava no neto que chegaria, mas só no que partira. Os seus dias, antes cheios pela presença dele, tomaram-se profunda e tenebrosamente vazios...
A introspecção tomava-lhe todo o ser.
Pouco falava, pouco se alimentava e, ao invés de dar força e coragem para aquela mãe que acabara de perder o seu ente mais querido, era Marie Anne que precisava encorajá-lo.
— Papai, a tristeza e a dor tomam novamente conta do meu coração, e é-me bastante difícil dizer-lhe o que vou dizer, mas você não pode deixar se abater dessa forma!
Procure distrair-se, saia, dê uma volta em algum jardim, caminhe e esqueça um pouco este ambiente de casa.
Tenho a certeza, retomará melhor, mais aliviado.
Você está se prejudicando.
Pense em mim que perdi o meu ente mais querido e não quero perdê-lo também!
Se você continuar desse jeito, adoecerá, e depois, como será a minha vida, se também me abandonar?
Pense em mim, que já sofri tanto! Apoie-se em Deus!
Se Ele determinou que assim deveria ser, nós temos que nos submeter e pedir-Lhe que nos dê forças para acatar e aceitar essa sua resolução.
Ajude-me, que eu sou também muito necessitada1.
Lembre-se de mim e não me desampare!
Ao término destas palavras, abraçaram-se, e as lágrimas unidas fizeram com que seus corações se aliviassem um pouco.
Sentiam-se apoiados um no outro, sentiam-se seguros e, ao mesmo tempo, vazios, totalmente vazios, como um barco que tivesse perdido o rumo e seguisse à deriva.
Depois de algum tempo, Marie Anne voltou a falar-lhe:
— Apoiemo-nos em Deus, papai, Ele não nos desamparará!
Michel foi muito importante para mim e não quero esquecê-lo, mas desejo lembrar-me dele como um ser muito querido que Deus enviou para nossa companhia, embora por tão curta permanência.
Por isso, por esse tempo em que ele se constituiu na nossa alegria, na nossa própria vida, agradeçamos a Deus que no-lo emprestou para estar connosco e alegrar as nossas vidas.
Lembre-se, outro logo virá!
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Re: Mariana ou Marie Anne? - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 25, 2018 8:03 pm

Não para ocupar o lugar de Michel, porém, também será bem recebido e nos trará muitas alegrias.
Não se entristeça mais!
Vendo-o tão triste assim, como eu poderei me recuperar?
Ajude-se para ajudar-me!
Você sempre procurou transmitir-me tanta esperança, em momentos difíceis, faça-se forte, agora, que Deus o auxiliará!
Não pense mais nele como o faz, mas como um ser muito querido que passou em nossa vida, agradecendo a Deus a alegria e a felicidade que ele nos trouxe durante o período em que aqui permaneceu.
Esforce-se, papai!
O abraço unido de pai e filha demonstrava, não só a união de um sofrimento tão grande, mas também o conforto que um podia passar ao outro.
— A Charles* as palavras de Marie Anne — a Marie Anne, o conforto da segurança física que sentiu, pelo amparo do pai.
Seria difícil, no entanto, o tempo e o esforço de cada um ajudaria para que as dores fossem amenizadas e menos sofridas.
Quando a dor toma o nosso coração, pelas adversidades da vida, o apoio dos entes queridos, ao nosso redor, é muito importante.
Muito mais importante, porém, é o apego que devemos ter às palavras de Deus.
Ligados a Ele, em pensamento, receberemos o conforto espiritual em forma de bênçãos de paz, de resignação, de conformação e, acima de tudo, de esperança e de alívio para o nosso sofrimento.
Deus está sempre connosco e não nos desampara.
Se a Providência houve por bem nos designar para passar as provas que nos são necessárias, Deus nos ampara e nos auxilia a suportá-las.
A perda de um filho, de um ente querido é uma dor muito grande para o Espírito!
É a separação, é a perda do afecto, a perda do carinho, é a solidão que se faz em nossa alma, conquanto estejamos cercados de muitas pessoas.
Mas o amparo de Jesus nos chega em forma de esperança, de paz e de conforto espiritual.
Só o ser carnal ali não mais está!
Se nada disso existisse, não suportaríamos.
Mas Ele está connosco, basta queiramos senti-Lo, basta o busquemos, e nos façamos receptivos ao seu auxílio.
A nossa disposição em captá-lo, faz com que ele nos chegue mais rapidamente.
A esperança, aos poucos, vai retomando, o vazio continua, todavia vamos nos habituando e o sofrimento torna-se menor.
As renúncias, na vida dos encarnados, são frequentes...
Aprendamos pois, resignadamente a renunciar, para colaborarmos mais com Deus, naquilo em que Ele deseja nos ajudar.
A casa de Marie Anne encontrava-se agora vazia.
Michel era aquela criaturinha que preenchia todos os espaços, não só os físicos, mas os espaços nos corações de todos, e eles precisavam aprender a conviver com essa nova situação.
O tempo cura todos os males, mas ele não prescinde da nossa ajuda.
Charles era o que mais se entregava ao sofrimento.
Depois das palavras de Marie Anne, não por ele, que nada mais lhe interessava, mas pela filha a quem tanto amava e que trazia outro ser dentro de si, procurou reagir e fazer o que ela o aconselhou.
Saiu, andou um pouco, passeou, mas viu que era pior.
Nos jardins encontrava sempre crianças brincando, e o sofrimento era maior.
Procurou, então, reagir por si próprio; entregou-se à leitura, e, aos poucos, foi se recuperando, não que esquecesse, porém, sentiu que o sofrimento já não era tanto.
Não percebeu, mas a ajuda do Plano Espiritual foi muito grande.
Aqueles mesmos amigos que haviam auxiliado Mariana, fizeram-se presentes, amparando a todos.
A força adquirida por Marie Anne vinha-lhe de Irmã Cidália, que muito se preocupou.
Esse acontecimento era previsto, embora ela não tivesse tido conhecimento antes de encarnar.
Contaram-lhe os bons momentos que teria, o que esperavam dela, entretanto, as situações difíceis não lhe contaram.
Não precisam ser antecipadas, para que as preocupações não sejam trazidas com aqueles que retomam.
Os momentos felizes, sim, o devem, a fim de que sempre a alegria e a esperança reine nos corações.
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Re: Mariana ou Marie Anne? - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 25, 2018 8:04 pm

19 - UNS CHEGAM, OUTROS PARTEM
Irmã Cidália estava sempre com Marie Anne nas horas difíceis, trazendo-lhe forças, e ela as sentia, pois a cada manhã levantava mais esperançosa, confiante, é um pouquinho mais alegre, por tudo o que tinha haurido durante o seu sono. Acordava bem e não sabia por quê.
Apenas uma noite, após o sono, ao levantar-se, contou ao pai ter novamente sonhado com aquele jardim, onde conversara com a mesma senhora que lhe dissera palavras de muita compreensão e conforto, pela qual sentia, estava sendo bastante ajudada.
Não a conhecia, não se lembrava de tê-la visto antes, mas sabia, ela estava querendo ampará-la, protegê-la e confortá-la.
Aos poucos eles foram se refazendo, ê novamente Marie Anne trouxe à luz aquele ser gerado num período tão difícil, mas que chegou num momento importante, em que só um entezinho querido podia trazer o conforto completo àqueles corações sofridos.
Já não era mais un petit garçon, outrora tão aguardado, mas une jeune filie, que alegrou sobremaneira o coração de todos, novamente.
— Foi bom — disse Marie Anne — ter vindo uma menina!
Nada nem nunca a colocaremos em comparação a Michel.
Ela será a nossa pequena Juliete, e ele continuará a ser Michel.
Quando Charles ouviu o nome que Marie Anne colocou em sua filha, ficou muito satisfeito.
Filha, não sabe a alegria que me dá, colocando em nossa menina o nome de sua mãe.
Ela será a nossa pequena Juliete, a que nos devolverá a alegria.
Ela fará com que todas as nossas tristezas se vão de vez, e só lhe mostremos contentamento. Ela não pode conviver com tristezas!
A paz parecia estar restabelecida no lar de Charles, com a chegada daquela que seria, não a substituta de Michel, pois ocuparia, naquele lar, um novo lugar.
Não preencheria o vazio deixado pela ausência dele, porque o seu lugar continuaria vazio, porém, não obstante notado, não seria mais tão sentido.
Tudo passou a girar em tomo. de Juliete, o pequeno ser que era a alegria dos pais e do avô e um período de rotina e de calmaria sentimental tomou conta de todos.
Desde que estiveram em Portugal, há alguns anos atrás, a correspondência entre Charles e Cláudio continuou, não com a frequência que os amigos desejavam, contudo, vez por outra, cartas eram trocadas e assim, com elas, as notícias.
Na última enviada por Cláudio, ele lhes dera ciência de que a velha senhora, mãe de Manuela, após longa enfermidade, presumivelmente mais mental que física, havia partido.
Contava que ela continuou a chamar por Mariana, manifestando saudade, queixando-se da sua ausência, irritando Manuela.
Dizia ainda, nunca terem chegado a compreender aquela verdadeira situação, e a falta daquela que ela imaginara ser a sua Mariana, lhe havia sido muito sentida.
A inconsciência a tomara cada vez mais, culminando com a sua partida.
Manuela passara a ficar cada vez mais irritada — nada a alegrava!
As ilusões da vida de futilidades também não tinham mais nada para lhe mostrar.
Nem mesmo o espelho que a agradava tanto, e era o único que sempre tivera muito a lhe dizer, já não lhe falava o que ela gostaria de ouvir.
Mesmo admirando-se bastante, o tempo havia destruído muito daquela Manuela, conquanto sua mente ainda estivesse ligada à Manuela da juventude.
O tempo passara, a solidão chegou.
Os filhos não foram recebidos e, sozinha, recolhia-se à sua infelicidade e ambos conviviam, mas cada um no seu próprio insulamento.
Charles frequentemente os convidava para visitá-los.
Passeariam, distrair-se-iam, e Manuela, com certeza, gostaria de conhecer Paris, mas nunca dera certo nem Cláudio se animara.
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Re: Mariana ou Marie Anne? - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 25, 2018 8:04 pm

A vida do casal, pelo conhecimento através das poucas cartas, era aquela que nenhum dos dois gostaria de viver, mas sentiam-se presos um ao outro pelo compromisso moral que nunca Cláudio tivera coragem de desfazer, pelo menos para que as aparências fossem mantidas.
O amor é muito importante na união de um casal.
O casamento não é um jogo para se unir fortunas, nem para mostrar aos outros que se conseguiu o que muitos queriam. Passados os primeiros momentos do regozijo da vitória, a realidade chega e a vida torna-se muito difícil.
A infelicidade, a insatisfação instalam-se, trazendo todas as angústias que poderiam ter sido evitadas.
Assim acontecia com ambos. Entre eles, o amor nunca existiu, apenas o sabor da vitória e o interesse momentâneo despertado pela beleza.
Faltava a solidez necessária para manter um vínculo feliz, até o fim de suas vidas, ainda mais que não havia os filhos, bênçãos de Deus, para consolidá-la mais.
Quando assim ocorre, o vazio vai se instalando e crescendo e, com o avançar da idade, o casal se encontra mergulhado no nada.
O nada, sentimento terrível na vida de uma pessoa, pois traz ao coração a desesperança, a tristeza, as decepções, as amarguras, e mostra que a vida foi inútil, de nada valeu!...
Mas voltemos agora a nos ocupar da pequena Juliete, que crescia como qualquer criança sadia, cuidada com o maior carinho pelos pais e muito adorada pelo avô.
Com o passar do tempo, a saúde de Charles estava também sendo abalada, trazendo preocupações a Marie Anne.
Pequenos problemas próprios da idade já o envolviam, e ela, sempre atenciosa, não se descuidava, fazendo-o ver a necessidade de sempre consultar médicos, como também de tomar correctamente os medicamentos prescritos.
Novamente Marie Anne trouxe à luz um outro ser, um irmãozinho que deveria ser a companhia para Juliete.
Não quiseram dar-lhe o nome de Michel, para que lembranças não os confundissem, e escolheram, a gosto do pai, o nome de Julien, que combinaria com Juliete, justificava ele.
O avô não cabia em si de contente, e ajudava no que lhe era permitido.
Enquanto Marie Anne cuidava de Julien, a pequena Juliete estava em seus joelhos, brincando, ouvindo pequenas histórias e até dormindo, às vezes, quando o cansaço das brincadeiras a tomava.
Os criados ajudavam Marie Anne em tudo, mas os cuidados com os filhos eram só seus.
Meus filhos são os meus mais queridos entes, e deles cuido eu!
Agradecia o que faziam para auxiliá-la, porém, o prazer de estar com eles, era só seu.
A vida continuava dentro da rotina normal àqueles que conseguem a estabilidade no lar.
A estabilidade financeira a possuíam, mas conseguiram, também, a emocional, aquela que nos permite visualizar, em uma família, a felicidade.
Não fosse o estado de saúde de Charles que, com o transcorrer do tempo, foi se agravando, — os achaques próprios que a idade, muitas vezes, não permite, sejam rebatidos — continuariam a viver o equilíbrio conquistado.
Nem mesmo os medicamentos, quando o coração se torna fraco, corresponde ao que desejamos.
O seu estado piorava.
Um dia em que a paz se achava entre eles, a pequena Juliete, em sua companhia, brincando e ouvindo suas histórias, sentiu-o interromper o que dizia, olhar muito fixamente para ela e tombar a cabeça para o lado.
A pequena ficou olhando, e, querendo saber o final da história, chamou-o muitas vezes.
Como ele não respondesse, foi correndo buscar a mãe, que o encontrou já sem vida.
O desespero de Marie Anne foi grande.
Providenciou um médico imediatamente, porém, nada mais foi possível fazer.
Ele já havia partido.
Seu Espírito se desligara com muita facilidade.
Fora ajudado, e, sem que ninguém pudesse perceber, foi levado por amigos espirituais que sempre o ampararam, e o conduziram àquele mesmo local onde a sua Mariana havia estado.
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Re: Mariana ou Marie Anne? - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 25, 2018 8:04 pm

20 - SEMPRE IRMÃ CIDÁLIA
A inconsciência tomou o Espírito de Charles, do momento em que foi retirado do corpo tão abruptamente aos olhos dos encarnados, que não tiveram tempo, sequer, de proporcionar-lhe algum socorro, mas, para o lado espiritual, foi uma retirada serena, tranquila e aguardada?
O que é inesperado e surpreendente aos encarnados, para o Mundo Espiritual é o cumprimento do que já vinha programado e preparado.
Os seus amigos espirituais ali estavam e o esperavam, naquela hora de tanta sensibilidade amorosa, quando contava histórias, tendo em seus joelhos a netinha querida.
Serenamente como se desligou, foi levado e colocado em um leito para refazer-se.
Deixá-lo-iam descansar o tempo suficiente, e tudo o que se promove, no Plano Espiritual, nessas ocasiões, em favor daqueles que lá aportam, estava sendo realizado.
Passes magnéticos para que o sono fosse profundo e as sensações físicas afastadas, lhe estavam sendo ministrados, a fim de que, no seu recobrar de consciência pudesse encontrar-se bem, tranquilo e cônscio do que havia construído para si.
Fora dócil e compreendera o amparo que vinha do Alto, e sempre vivera na Terra de forma a merecer toda a assistência que lhe era dispensada.
Com o transcorrer dos dias, Charles despertou, estranhando o local onde se encontrava, mas tinha, a seu lado, muitos amigos espirituais, corações amigos e bondosos que lhe falavam com ternura e Compreensão, querendo pô-lo a par do sucedido.
Ele logo compreendeu.
Aqueles que partem com uma idade em que a velhice, na Terra, lhes dá maior entendimento, e nada levam no Espírito em marcas que os desabonem, entendem melhor essa situação.
E Charles a estava entendendo.
O seu último instante de lucidez, na Terra, era-lhe muito temo.
Trazia consigo o momento em que a netinha lhe fazia companhia, a mais doce que ele podia desejar, e essa lembrança, tinha-a toda em seu Espírito.
Agora apenas ouvia! A nada respondia, nada perguntava...
Ao seu redor, semblantes alegres, sorrindo hê e dando-lhe as boas vindas naquele ambiente de muita paz celestial.
Em seu intimo compreendia o que havia se passado, e uma, dentre todas aquelas vozes, destacou-se mais, aproximando-se, e disse-lhe:
A alegria em tê-la connosco é muito grande!
O querido irmão fez-se merecedor do amparo que recebeu na hora da sua partida da Terra, e está sendo merecedor de toda esta ajuda que Jesus permitiu, lhe fosse dispensada.
Já deve ter compreendido que se encontra no Mundo Espiritual...
Embora Charles nada respondesse, ouvia aquela doce voz, e, se prestarmos atenção, veremos quem lhe falava, demonstrando muito carinho.
Era a nossa conhecida Irmã Cidália, que assim continuou:
— Você nos é muito querido, e espero, também esteja feliz!
Nós o acolhemos com alegria, e tudo faremos para que se sinta bem e possa refazer-se por completo.
Esperamos também que a alegria e o bem-estar que queremos lhe passar, sejam sentidos e fiquem em seu Espírito, para que a sua permanência entre nós seja bastante agradável.
Agora poderá novamente repousar, e, a cada dia, conversaremos, ministrar-lhe-emos passes para o seu refazimento total, e logo poderá deixar esse leito, o que nos alegrará muito.
Charles ouviu, mas nada disse.
A sua emoção era grande e a sua consciência ainda não era plena.
Por momentos, o local e as palavras afiguraram-se como se estivesse passando por um sonho muito agradável — um sonho celestial, como ele próprio diria.
Enquanto Charles era merecedor de todo o amparo, no Mundo Espiritual, voltemos ao lar de onde ele saíra, e vamos encontrar aqueles que lá permaneceram em total desalento.
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Re: Mariana ou Marie Anne? - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 25, 2018 8:04 pm

A tristeza maior era a de Marie Anne.
Ela não se conformava com a ausência do pai, e, ainda mais, por não ter podido dirigir-lhe nenhuma palavra no instante final, nem ter ouvido dele nada que pudesse lhe trazer o consolo.
Nada lhe pudera ser feito, e ela acusava-se por tê-lo deixado só.
Se estivesse em sua companhia, alguma providência poderia ter sido tomada e ele não teria partido.
O marido era bom e compreensivo, todavia, nem ele podia entender a falta que o pai lhe fazia.
O amor que ambos nutriam um pelo outro era grande.
Quanto maior a amor, maior a dor da ausência, e assim Marie Anne sofria muito.
Continuava a cuidar dos filhos, que a isso não se furtava, mas o sem pensamento estava sempre ligado a ele.
Como estará neste momento? Onde estará?
Com certeza, amparado e no céu! — pensava.
Ele sempre foi bom, e honesto.
Deus não desamparará o seu Espírito!
De acordo com o seu entendimento, esse era o amparo que os Espíritos retirados da Terra recebiam, quando eram merecedores, e ela sabia, seu pai o era.
A vida de Marie Anne prosseguia, mas o seu coração estava sofrido.
Muitos dos seus entes queridos tinham sido retirados do seu convívio.
Quando ainda muito jovem, ficara sem a mãe mas tivera a companhia e a ternura do amor do pai.
Anos mais tarde, fora-lhe arrancado dos braços o filhinho querido, e ainda contava com a companhia do pai, de quem muito se ocupou e a quem precisou se dedicar e encorajar, fazendo-se forte para ajudá-lo.
Agora, porém, em que ele próprio se retirara do seu convívio, como lhe traria o amparo e a ajuda de que necessitava para suportar tantos revezes?
O seu coração estava triste, consternado e vazio da sua presença, mas pleno de saudade, da falta que ele lhe fazia...
Orava muito a Deus, rogando-lhe que a ajudasse a superar aquele período tão difícil, mas tão somente seu.
E Ele, que sempre nos ouve quando solicitamos em prece, fazia-se presente em forma de amparo espiritual que a auxiliava e a fortificava, a fim de continuar a sua tarefa — a que aceitara e prometera cumprir, tomando possível o ressarcimento de muitos dos seus males do passado.
O refazimento era duplo.
Ela, no Plano Terra, ele, no Plano Espiritual.
Almas gémeas do passado, almas felizes que novamente se juntaram, de forma fraterna, e que muito puderam se beneficiar, pelo modo como se conduziram dentro dos ensinamentos de Jesus, cumprindo o que se propuseram.
Após alguns dias Charles teve condições de sair do leito.
Apoiado por aquela que era o esteio dos necessitados, foi levado para fora, para o ar puro, para o Sol, para o jardim, para as flores...
Sentaram-se. Ele ainda não tinha condições de caminhar muito, não obstante a lucidez de seu Espírito e a companhia amorável de irmã Cidália lhe trouxessem a paz e a confiança que tanto desejava.
Tranquilo, Charles pôde observar aquele jardim tão lindo, aquela senhora tão meiga a seu lado, e teve uma lembrança:
— Estou sentindo muita falta de meu lar, dos meus entes queridos, principalmente de minha filha, que sempre esteve comigo em todos os momentos.
Tivemos uma vida feliz juntos, apoiando-nos um no outro, e sinto agora que ela deve estar tão ou mais triste que eu, sem a minha presença.
Penso nos meus netinhos queridos, sobretudo na netinha que esteve comigo nos meus últimos momentos, e sinto muita saudade...
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Re: Mariana ou Marie Anne? - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 26, 2018 8:20 pm

— Isto é natural, só revela a bondade de seu coração!
O apego aos entes queridos é muito bom ao Espírito, mas não deve deixar que turve a sua alegria e impeça o curso do seu refazimento.
Não se esqueça, ela está amparada pelo marido e tem junto de si os filhinhos adorados.
Não se preocupe com ela.
A falta dos entes queridas sempre é grande, porém, Deus nos dá forças para que o nosso coração se cure, não pelo esquecimento, que isso nunca se dá, mas pelo aquietamento do sentimentalismo exagerado.
Ajuda-nos, asserenando as nossas emoções, para compreendermos que devemos continuar, e que a vida ainda espera muitos testemunhos de nós.
Compreende, irmão?
—A sua palavra é sempre muito confortadora, contudo, eu queria justamente lhe falar sobre uma lembrança que tive, ao sentarmo-nos aqui, e acabei por desviar o assunto.
— Pois então diga!
—Quando vi este jardim, com todas estas flores, tendo a sua companhia tão agradável, uma lembrança veio-me à mente — não minha, mas de minha filha.
Contou-me ela, uma vez, que em momentos de grande aflição, via-se sentada em um jardim, em companhia de uma senhora muito boa, que lhe dizia palavras confortadoras.
Ao redor, havia muitas flores lindas, diferentes das que possuímos na Terra.
Como a senhora me explica isso?
—Não sei se é hora de lhe dizer, no entanto, como já está se sentindo bem e teve essas lembranças creio que posso explicar-lhe.
A sua filha é um Espírito muito caro a nós todos, principalmente a mim, que dela cuidei quando aqui esteve, e daqui partiu para o seu lar.
Sempre que há necessidade estou com ela, levando-lhe o conforto da palavra amiga, assim como fazemos a todos que partem deste lugar para a tarefa terrena.
Compreende a lembrança que ficou em seu Espírito?
—Estou tentando compreender...
— Mesmo sem se recordar da nossa conversa, as palavras que lhe transmitíamos proporcionavam-lhe, durante algum tempo, uma sensação benfazeja.
—Então, minha irmã, existe essa possibilidade do Espírito ser trazido aqui para receber o auxílio da palavra consoladora, durante o sono do corpo físico?
— Quando :oi encarnado se faz merecedor, sempre estamos juntos e atentos para auxiliá-lo em todas as necessidades.
Tenho agora um pensamento que não ouso traduzir em palavras, pelo receio do abuso da sua bondade.
— Não é preciso dizer.
Sei perfeitamente em que está pensando, todavia, ainda é um pouco cedo.
Assim que as suas condições permitirem, satisfaremos esse seu desejo, e até mais.
Quando estiver mais refeito, não só a traremos aqui para visitá-lo, pois que isso também será um grande reconforto para ela, mas o levaremos em visita ao seu lar, aos netinhos queridos.
Charles derramou lágrimas de emoção, de agradecimento e de esperanças.
Passaria a viver, a partir de então, da espera de abraçar o Espírito da filha tão querida.
—Farei o que me for determinado, para que esse momento se tome realidade o mais rápido possível!
—Tudo tem a sua hora certa, e, na hora certa, ela será trazida para abraçá-lo!
Entremos, agora, pois já ficou muito tempo fora do leito.
Entremos e agradeçamos a Deus as bênçãos que nos concedeu!
A bênção do Sol que nos aquece o Espírito, as bênçãos das flores que trazem a alegria e conforto aos nossos olhos cansados, as bênçãos da palavra amiga que ele nos permite transmitir a todos.
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Re: Mariana ou Marie Anne? - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 26, 2018 8:21 pm

Saibamos sempre agradecer, em todos os instantes de nossas vidas, mesmo os momentos tristes e aflitivos, porque eles também se constituem em bênçãos.
São as oportunidades do burilamento do nosso Espírito.
Agradeçamos, pois, sempre, que Ele está constantemente presente em nós, através de tudo o que nos rodeia, pela sua criação.
A recuperação de Charles prosseguia gradativamente, muito bem assistida e amparada.
Ele sempre perguntava à Irmã Cidália quando chegaria a hora tão aguardada, para acalmar a saudade que sentia, e, em uma dessas ocasiões, ela explicou-lhe:
— Ser-lhe-á permitido, já lhe disse.
Agora, porém, não seria benéfico.
A presença de Marie Anne desarranjaria, pela emoção, toda a Organização espiritual, não só sua, mas a do Espírito dela também, e talvez tivéssemos que reiniciar todo o nosso trabalho.
O que já foi conseguido se perderia, e o reinicio se daria em condições muito piores.
Percebendo um desapontamento em seu semblante, aconselhou-o.
— Acalme-se, asserene o seu coração, que esse dia está próximo.
Quando for adequado, terá â oportunidade de desfrutá-lo de forma agradável e plena, com controle total da sua organização.
Mesmo que chore, as lágrimas serão de alegria, e podemos dizer, até benéficas.
Tenha paciência, nós o atenderemos, mas prepare-se antes, a fim de que o resultado desse encontro seja bom para o seu refazimento.
Saiba esperar e não fique mais ansioso do que deve...
Charles ouviu Irmã Cidália, compreendendo-que ela estava com a razão.
A saudade da filha era grande e o encontro, por demais forte em emoção.
Ele deveria saber esperar.
Era submisso ao tratamento e já deixava o leito, fazendo seus passeios pelo jardim, às vezes acompanhado, por Irmã Cidália, às vezes por outros irmãos abnegados.
Sentavam-se nos bancos, conversavam, e o tempo ia passando.
Certa vez em que estava em companhia de irmã Cidália, Charles fez-lhe uma pergunta, resultado de uma reflexão.
Habituara-se a pensar e a repensar em todas as suas conversas, e a pergunta lhe ocorrera a propósito da que mantiveram no primeiro dia em que havia deixado o leito e saído para o jardim:
—Irmã Cidália, lembra-se da primeira vez em que aqui viemos, e eu, ao contemplar este jardim, contei-lhe o sonho de minha filha?
— Lembro-me! O sonho da sua Marie Anne!
—Como a senhora sabe o seu nome?
Penso nunca tê-lo mencionado!
—Esquece-se de que tudo sabemos a respeito dos irmãos que daqui partem, e aos quais sempre dispensamos o nosso amparo?
—É justamente sobre isso que quero falar-lhe.
A senhora disse-me que ela era trazida a esta Colónia, por lhe ser muito cara pelo tempo em que aqui permanecera.
Disse-me, ainda, que continuavam a dar-lhe auxílio nos momentos aflitivos.
—É verdade!
— A senhora que a preparou, que conviveu com ela e a amparou, antes de ela ser levada para o meu lar, fale-me desse tempo!
Fale-me, quem era ela e de onde havia vindo?
Eu sinto, pelo amor que devotávamos um ao outro, pela sua dedicação, e por tudo o que tenho observado agora, esse nosso encontro, como pai e filha, não se realizou por acaso.
Algum motivo devia haver para que ela tivesse sido levada ao nosso lar, e sempre muito mais apegada a mim que à própria mãe, embora dela gostasse muito também.
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Re: Mariana ou Marie Anne? - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 26, 2018 8:21 pm

—Você tem razão! Ninguém é levado ao lar de ninguém, se motivos não há!
Os seres, sobretudo os familiares, são colocados juntos para se auxiliarem.
A reunião dos Espíritos encarnados, num mesmo lar, ocorre pela necessidade de ressarcimento de males do passado.
Muitos se propõem a reerguer algum ente querido que decaiu em erro, outros querem ajudá-lo a desenvolver melhor a inteligência, proporcionando-lhe os meios para isso; outros, então, desejam ser o refrigério da companhia amorável a entes que já lhe foram muito queridos ao coração.
A união familiar é muito importante, exactamente por isso!
Os propósitos são realizados aqui ou em outras Colónias onde se preparam para a encarnação e desses propósitos bem cumpridos resulta o progresso1 de cada um.
Veja, irmão, o que muitas vezes se passa dentro da família:
entes são amados, entes «são desprezados, outros são problemáticos; uns são inteligentes, outros não querem desenvolver a inteligência.
Tudo muito bem arquitectado aqui!
Entretanto, há ainda um ponto muito importante a ser mencionado.
Irmã Cidália, supondo estar se alongando demais, interrompeu o que dizia e inquiriu Charles:
—Eu o estou cansando com estas minhas explicações?
—De modo algum! Estou prestando muita atenção, e, embora não tenha ainda respondido directamente O que perguntei, espero que chegue onde desejo*
—Então continuarei.
O ponto importante a que me referi, é o livre-arbítrio de cada um.
Os propósitos são realizados e nos empenhamos para que eles sejam cumpridos.
No Mundo Espiritual, o entusiasmo, a vontade de progredir é muito grande, entretanto, a volta à Terra é difícil!
As ilusões e atractivos oferecidos por ela, mostram caminhos que estão longe dos que foram programados, desviando-os de seus propósitos.
E por isso que uma experiência terrena é muito importante.
O livre-arbítrio acompanha o encarnado em todos os instantes, não obstante as tendências do Espírito o fazem lembrar, constantemente, o caminho que traçou.
Contudo, se ele se desviar, fascinado por outros interesses, não conseguindo identidade entre a vontade prometida aqui e a executada lã, tudo fica mais difícil.
Os desvios são feitos, e o ressarcimento, mais demorado.
Às vezes, perde-se uma encarnação pela falta de persistência em afastar-se do mal, justamente daquele tão trabalhado aqui, para ser extirpado do Espírito, porque ele, lembrando-se de suas tendências passadas, esquecendo-se do que foi aprendido e prometido, e deixando que o livre-arbítrio seja utilizado em seu desfavor, vai em busca desse mal.
Depois, aqui regressa em condições lamentáveis, e o nosso trabalho se toma redobrado e muito difícil.
Charles prestava atenção ao que Irmã Cidália lhe explicava, sem interrompê-la, e ela prosseguia:
— Compreende á importância da reencarnação e do que nos propomos realizar?
Mais vale que não elaboremos planos grandiosos, mas que os executemos correctamente, que fazer propósitos muito elevados sem conseguirmos cumpri-los, lá.
—Entendo, porém, essas explicações não respondem à minha pergunta inicial!
—Eu sei, mas, fi-las todas porque, no momento, me é permitido apenas dizer-lhe que ambos, ela e o senhor, cumpriram muito bem tudo o que propuseram.
Irmã Cidália prosseguiu esclarecendo muitos pontos que ainda eram desconhecidos para Charles, nos quais ele nunca havia pensado.
Ele ficava atento e satisfeito, e ela, não pretendendo perder oportunidades, levava-lhe mais conhecimentos:
Meu querido irmão, vejo que está compreendendo o que tenho lhe transmitido, e que se constitui lições importantes, aos que daqui partem.
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Re: Mariana ou Marie Anne? - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 26, 2018 8:21 pm

—Quando encarnados, vamos vivendo, procurando fazer o melhor.
Cremos num Deus supremo, lembramo-nos de Jesus que tudo sofreu para salvar a humanidade, mostrando-nos os erros, deixando-nos os seus ensinamentos para serem tomados como directrizes de vida, mas, na realidade, nunca pensamos em nada como a senhora explicou.
Agora compreendo o quanto é importante a família na Terra...
Efectiva-se a união dos que se amam ou a união de interesses, sem que ninguém pense nas suas responsabilidades, e sem se conscientizarem da importância de uma reforma íntima, esforçando-se para livrar-se das más tendências.
Ao contrário, muitos nelas se comprazem, agravando ainda mais os seus débitos.
—Vejo, meu irmão, que compreendeu muito bem! Entende agora, o que quis dizer ao falar que tanto você quanto Marie Anne cumpriram o que prometeram?
—Então não fomos colocados como pai e filha por acaso!
Uma programação anterior havia sido feita, não é verdade?
—Sim, já conversamos sobre isso!
Sua filha ainda lá continua, tem a própria família — os filhos, o marido estão reunidos para serem escarninhados, protegidos e amparados por ela, conforme propósitos realizados, justamente por ser a mais evoluída deles.
No que diz respeito a vocês dois, se se lembrar do carinho com que ela sempre o tratou, e da dedicação com que cuidou dela, pode verificar que saíram vitoriosos.
—Nada mais irá me dizer?
Não vê a minha ansiedade!
— Sim, vejo, mas já lhe disse, tudo tem o momento certo.
Ainda não lhe é conveniente saber, não se esqueça.
Entretanto posso adiantar-lhe, por agora, que logo lhe faremos uma outra surpresa que espero e sei, irá deixá-lo muito feliz.
—Nada mais direi nem perguntarei!
Apesar da bondade, do carinho com que sou tratado, já percebi, nada foge à hora certa, nada é antecipado!
Todavia, ainda trazemos da Terra os mesmos anseios, a pressa, mas, aos poucos, me acostumarei, aceitando o que me for proporcionado, como sendo a hora.
—O seu progresso, o seu entendimento, vão indo muito bem, além do esperado!
Os momentos podem, sim, ser antecipados, como não?
Depende apenas dos nossos esforços para que eles próprios se antecipem pelo merecimento que conseguimos através da aceitação, da docilidade e da aplicação.
Veja como tudo é importante para o nosso Espírito tanto aqui, como na Terra também.
Cada milímetro que progredimos em razão dos nossos esforços é muito louvado, e faz com que o amparo que recebemos, nos momentos difíceis, seja maior.
Nada fica, perdido, assim como as nossas acções más, a nosso desfavor ou a desfavor de outrem, também são registadas.
—Se pensarmos nisso, podemos avaliar melhor a grandeza do reino de Deus, e o cuidado que esse Pai de amor tem para cada um de seus filhos, a fim de que-todos, um dia, possam se reunir com Ele.
O problema maior é a rebeldia que trazemos dentro de nós, adiando as horas felizes, quando depende de nós próprios desfrutá-las, ou mesmo até antecipá-las, pelo merecimento.
Hoje fomos muito além do esperado.
O discorrer do assunto empolgou-me, mas foi bom.
E melhor aproveitarmos as ocasiões oportunas, porque o entendimento será maior, facilitado pela motivação.
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Re: Mariana ou Marie Anne? - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 26, 2018 8:21 pm

Se deixarmos para depois, o interesse pode ter deixado de existir.
—E quanto à minha surpresa, irmã?
— Saiba esperar e a terá leigo!
Surpresa, irmão, é surpresa!...
Se lhe dissermos, perderá o sabor.
Pense apenas que ficará muito feliz.
Entremos agora, outras actividades me aguardam.
Numa outra oportunidade quero falar-lhe a respeito de alguma tarefa que possa desempenhar.
Embora pequena no início, será benéfica a seu Espírito. Entremos?
— Muito obrigado por tudo, Irmã Cidália!
Permita-me beijar-lhe as mãos, em agradecimento pelo que vem fazendo por mim.
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Re: Mariana ou Marie Anne? - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 26, 2018 8:21 pm

21 - SURPRESA ESPIRITUAL
Recolhido ao leito, Charles reflectia em tudo o que havia ouvido e nas conclusões a que chegara, quando da conversa com Irmã Cidália.
Conseguira assimilar bem os Ensinamentos transmitidos por ela, pois sempre eram sábios, e procurava, agora, repensar, para melhor fixá-los em seu Espírito.
Cada vez mais restabelecido, faltava-lhe realizar alguma actividade, na qual Irmã Cidália já havia pensado.
No entanto, o que faria, para que serviria Ele?
Havia muito para fazer naquela Colónia, e alguma tarefa, certamente, ser-lhe-ia adequada, não que a escolhesse, mas gostaria de algum trabalho que pudesse realizar bem.
No Seu entender, não deveria se preocupar; os amigos espirituais o conheciam ainda melhor que ele próprio, e o escarninhariam onde pudesse ser útil.
Mais alguns dias passaram, e ele continuava aguardando a surpresa prometida por Irmã Cidália, para consolá-lo, até que pudesse reencontrar a filha.
Numa manhã de Sol e céu muito azul, como eram todas, Charles estava, após um passeio, sentado em um dos bancos do jardim, pensando, reflectindo e lembrando do seu lar, do tempo em que Marie Anne era pequena é lhe fazia companhia. Lembrou-se da sua querida e, entregue a esses pensamentos, com o olhar distante onde as flores se perdiam de vista, tão extenso era o jardim, entre os muitos companheiros que passeavam, sós ou acompanhados, meditando ou conversando, viu, muito ao longe, aquele ser se aproximando e sorrindo, com os olhos fixos nele.
Caminhava como se não sentisse o chão, tal era a sua alegria e leveza.
Ele a viu, imaginando que fosse alguém da própria Colónia, quando algo lhe chamou a atenção.
Acompanhando essa querida figura que sé aproximava, olhando e sorrindo para ele, de mãos dadas, vinha um garoto, também sorridente e feliz.
Fixou nele o olhar e mal podia acreditar no que seus olhos divisavam.
Não era possível, não, não acreditava!
Levantou-se para examinar melhor e cada vez mais eles se aproximavam...
O garoto até saltitante vinha.
Correu ao encontro deles, e não pôde sufocar na garganta o grito de alegria e de amor, o grito que a saudade havia reprimido por tantos anos:
—É a minha querida Juliete, o meu adorado Michel!
Eu não acredito, meu Deus!
Ao encontrá-los, abraçou-os fortemente derramando muitas lágrimas.
—Obrigado meu Deus, por esta dádiva!
Eu não sou merecedor deste presente! Obrigado!
Fazei-me digno de merecer sempre as vossas bênçãos, como esta que me enviastes!
Assim dizendo e chorando, retomaram ao banco de onde ele os avistara e sentaram-se, felizes e emocionados.
Depois de se asserenarem e da emoção primeira haver se acalmado, puderam conversar:
—Minha querida Juliete, você não pode imaginar a alegria do meu coração, neste momento, não só por estar comigo, mas por ter trazido este ser tão amado, o nosso querido Michel.
—Sabe, vovô, eu estava com muita saudade do senhor, lembrava muito da nossa casa, de mamãe, de papai, de todos!
Mas, graças a Deus, encontrei esta avozinha que cuida de mim muito bem, com amor, e tenho sido feliz.
—Se você sentiu falta de nós, querido, imagine, como ficamos lá em casa, depois da sua partida.
Parecia que a nossa própria vida havia partido com você; nada mais dentro de nós tinha valor.
A alegria só retomou quando recebemos a sua irmãzinha que chegou logo em seguida, mas nunca o esquecemos!
Nós o amávamos muito, meu querido!
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Re: Mariana ou Marie Anne? - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 26, 2018 8:22 pm

—Fale-me, Charles, como está?
—Estou bem, Juliete, sou tratado com carinho e amor, e já me refiz quase por completo.
Apenas a saudade de Marie Anne é muito grande!...
Irmã Cidália prometeu-me um encontro com ela, aqui mesmo, quando eu estiver mais bem preparado, pois foi desta Colónia que ela partiu para o nosso lar.
Ela é muito querida, e tem sido sempre bastante ajudada por todos daqui.
Aguardarei esse momento com ansiedade, porém, nunca imaginei poder revê-la e muito menos Michel!
Estou feliz e quero que me fale de você, agora.
Como veio até aqui?
—Deus permitiu-me, querido, para que eu pudesse trazer-lhe um pouco de alegria e ajudá-lo a esperar a hora de rever Marie Anne.
Na Vida Espiritual precisamos aceitar o que nos é determinado.
Já aprendi muito, adquiri conhecimentos que não possuía e estou bem.
Vim para proporcionar um refrigério, um lenitivo ao seu Espírito, ainda mais que pude trazer, para abrandar a sua saudade, o nosso querido Michel.
—Ele está com você?
—Sim, quando partiu, levaram-no junto a mim, que estava sempre atenta ao nosso lar!
Julgaram-me a indicada para acolhê-lo, porque ele poderia lembrar-se da casa, da mãezinha, do avô querido de quem também sentiu muita falta.
Deus nunca nos desampara!
O que muitas vezes pensamos nos ter sido tirado, arrancado de nós, era necessário que se fizesse, e assim ocorreu com Michel.
A sua vida, lá, deveria ser como foi!
Apenas por poucos anos, para cumprir o que lhe faltava, junto de vocês, só não posso lhe dizer por quê.
Quase tudo o que nos acontece, agora aprendi, está determinado, a não ser o que nós próprios desviamos pelo uso do livre-arbítrio.
—Tenho aprendido bastante, também, Juliete, e estou me esforçando para aprender mais!
Onde você está?
Não está aqui, pois não?
—Não, meu querido, não estamos aqui!
Viemos para fazer-lhe esta visita, mas deveremos retornar em seguida, e Michel irá comigo.
Converse com ele, conte-lhe alguma história que ele ficará feliz, tão ansioso estava por este encontro.
— E verdade, vovô, gostava tanto das suas histórias!
O senhor não tem nenhuma para contar-me agora?
—Sim, meu querido, todas as que puder me ouvir.
E esta que vou lhe contar, você não conhece, nunca a ouviu.
Charles tomou-o em seus joelhos e contou-lhe uma história muito linda, dessas que aprendeu no Mundo Espiritual.
Agora eram compostas de outros elementos, de outras personagens.
Os anjos eram incluídos, aqueles Espíritos benevolentes, abnegados e dedicados que sempre ajudam e cuidam bem de todos nós, principalmente das crianças.
Quando terminou, Michel lhe disse:
—Tinha razão, nunca havia ouvido uma estória como essa.
Muito bonita!
Depois de algum tempo, Juliete disse que deveriam partir, era chegada a hora.
Se outra oportunidade lhe fosse concedida, voltaria para estar com ele.
-— Diga-me, onde vocês estão?
Estamos em outra Colónia, já lhe falei!
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Re: Mariana ou Marie Anne? - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 26, 2018 8:22 pm

—Por que não ficamos aqui, todos juntos?
—Um dia, não sei quando, se nos for permitido, ficaremos todos juntos!
Ainda é muito cedo!
Devemos cumprir o que nos está determinado e acatar a vontade superior, que tem sido muito magnânima connosco.
Devemos fazer por merecer outras visitas como esta, não abusando do que nos é concedido.
Compreende, meu querido?
—Sim, e agradeço a Deus por esta graça de hoje.
Estou feliz por vê-la bem, e mais feliz ainda por saber que o nosso querido Michel está em suas mãos, sob sua responsabilidade.
Quando me for permitido encontrar Marie Anne, eu lhe direi.
Que Deus esteja sempre com vocês!
Posso acompanhá-los até uma parte do caminho?
—Sim, apenas uma parte!
Eu lhe direi quando deve voltar.
Os três, abraçados, seguiram por entre o jardim, caminhando até um ponto onde Charles, despedindo-se, precisou retomar, trazendo no coração o conforto, a alegria e o agradecimento a Deus, pelo que lhe havia concedido.
Lembrou-se de Irmã Cidália e da surpresa que ela lhe havia prometido.
Como dissera, surpresa era surpresa, e, por isso, nem ela mesma aparecera entre eles.
Deixara-os totalmente sós, mas sabemos que, a uma distância não muito grande, a tudo observara, e quando Charles voltava, foi ao seu encontro, indagando-lhe:
—Feliz, meu irmão? Gostou da surpresa?
— A verdade, Irmã Cidália, é que sempre me comovo com sua bondade!
Que Deus a abençoe por tudo o que vem fazendo em meu benefício!
Que as luzes de Deus envolvam cada vez mais o seu Espírito, para que a sua claridade possa reflectir-se em cada um dos que aqui se encontram, e são tratados com tanto amor pela senhora.
Charles sentia-se abençoado por Deus, por lhe ter permitido estar com os entes queridos que o antecederam na caminhada para a Vida Espiritual.
Estava feliz.
Faltava-lhe, agora, apenas rever Marie Anne e saberia aguardar.
A dádiva que recebera de Deus fora por demais grande ao seu Espírito, e o fizera compreender, que o que nos é benéfico é permitido, não é necessário ser solicitado.
Ele nos conhece, e, muitas vezes, nos permite além do nosso merecimento.
Com essa compreensão, saberia aguardar a visita de Marie Anne, e reprimir os seus anseios de mais saber sobre ela.
Nunca solicitara a visita de Juliete nem de Michel, por imaginar muito mais difícil que a de Marie Anne, no entanto fora essa que obtivera.
Tudo para ele servia de ensinamento e o aprendizado ia se fazendo.
A sua vida, agora alimentada com essa ternura que o seu coração consternado recebera, estava mais confiante, completamente recuperado e feliz.
Aguardaria apenas o momento de realizar alguma tarefa para tentar ser útil.
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Re: Mariana ou Marie Anne? - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 26, 2018 8:22 pm

22 - TAREFA DE AMOR
Sabemos que a Colónia Espiritual onde Charles estagiava se compunha de muitos departamentos, com actividades, as mais variadas.
Ele era submisso e a qualquer uma estava pronto, desde que pudesse realizá-la bem.
Não obstante ali estivesse há algum tempo, conhecia apenas o departamento que o abrigava e o amplo jardim.
Visitava também a biblioteca, aquela que já conhecemos e fora tão bem cuidada por Mariana, e de onde, algumas vezes, retirava livros para o seu entretenimento e para que o aprendizado se realizasse com maior rapidez.
Participava de algumas palestras e ouvira a palavra do Mentor, através de aparelhos próprios colocados no local das prelecções, mas nunca o vira.
Por isso, naquela manhã em que recebeu de um irmão ajudante, uma mensagem dizendo que o Supremo Mentor esperava-o para uma entrevista.
Charles preocupou-se, querendo saber como deveria comparecer à sua presença, e porque ele o havia chamado.
Procurou irmã Cidália, mas não a encontrou em lugar algum.
À noite, na hora aprazada, Charles apresentou-se a ele.
Entrou receoso, todavia, ao deparar-se com aquela figura tão dócil, meiga e fraterna, num ambiente de tanta paz, logo se acalmou.
Querido irmão, seja bem-vindo!
Não tenha receio!
Apenas quero falar-lhe, sem que isso possa trazer-lhe inquietação.
É hábito conversarmos com todos os que estão connosco.
É benéfico ao tratamento, e o nosso encontro de hoje tem uma finalidade que o alegrará.
—Sim, irmão, estou mais calmo!
A sua presença tão amorável desvanece os nossos receios.
— Não deve preocupar-se com nada!
Neste local, nós nos amamos da forma mais fraterna que Jesus nos ensinou, e, com esse amor no coração, é que vou lhe falar.
Você já está aqui há algum tempo, e tenho acompanhado o seu refazimento que está se efectuando de forma muito salutar, pelos esforços que tem realizado.
Por isso encontra-se, agora, pronto para também desenvolver algum trabalho em favor dos mais necessitados, e sabe, são muitos.
Ninguém, aqui, tem vida ociosa, a não ser quando ainda em tratamento.
Depois, até que outras determinações lhe sejam outorgadas, deve participar connosco das nossas actividades, pois é assim que todo o trabalho desta Colónia é efectuado.
Temo-lo observado, sabemos a profissão que desempenhou, enquanto encarnado, mas agora deverá desenvolver alguma outra, condizente com a sua situação espiritual e com a nossa necessidade.
Há alguma coisa, em especial, que gostaria de realizar?
—Querido irmão, pouco conheço das actividades desenvolvidas aqui, por isso nada poderei escolher por mim próprio. Contudo, a que me for determinada, farei o possível para desempenhar bem, empregando todos os meus esforços para ajudar, seja no sector que for.
Procurarei adaptar-me e espero aprender.
Entrego-me totalmente ao senhor, que poderá determinar o que entender, posso realizar.
— É muito bom ouvir essas palavras, pois assim, temos a certeza de que a sua nova tarefa será bem desempenhada e lhe será benéfica,
—Esforçar-me-ei para isso!
Pode dizer o que farei!
—Depois desta conversa, devemos completar o que vínhamos planeando para você, e, assim que chegarmos à conclusão adequada, dar-lhe-emos conhecimento através de novo chamado, ou mesmo da Irmã Cidália, com quem tem mais contacto.
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Re: Mariana ou Marie Anne? - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 26, 2018 8:22 pm

Por agora, pode ir!
Vá com as bênçãos de Deus, mas antes quero que saiba:
Nesta Colónia, todos exercem actividades e nenhuma é melhor que a outra.
Todas são úteis, necessárias e benéficas ao Espírito, na medida em que as realizamos com dedicação e amor.
Ninguém, também, é melhor que os outros!
Há cargos de chefia, há responsáveis, há subalternos, apenas porque uma organização assim deve ser, a fim de que o trabalho se desenvolva bem, em favor dos próprios necessitados, que é para eles que trabalhamos.
Tudo fazemos para reerguer almas decaídas, asserenar corações aflitos, e para preparar aqueles que para a Terra devem voltar.
É um trabalho importante aos que nos chegam, trazidos pela misericórdia de Deus.
Todos são tratados com o amor que Jesus nos ensinou a colocar nos corações, e nos esforçamos para que esse amor seja transmitido a todos.
—Eu próprio posso comprovar suas palavras, pelas demonstrações de amor e dedicação que tenho recebido, e tudo farei para poder transmitir aos outros, através do meu trabalho, um pouco desse amor que aqui sentimos, está em todas as direcções.
Obrigado, irmão, por esta conversa, obrigado por receber-me.
Estarei a seu inteiro dispor, e procurarei ser o servo mais submisso e o mais activo possível, em favor daqueles que de mim necessitarem:
—Que Deus o abençoe, irmão! Pode ir agora.
Charles deixou a companhia do Mentor, sentindo que recebera as bênçãos de Deus, por ter estado diante de uma figura tão exponencial naquela Colónia, porém fraterna e meiga, que irradiava amor, sobretudo na preocupação quanto aos necessitados.
Aceitaria o mais ínfimo trabalho e procuraria desenvolvê-lo com amor, dedicação e paciência — isto prometia a si mesmo!
Assim pensando, chegou ao seu leito para o descanso.
Nada lhe foi falado sobre esse assunto, durante alguns dias, até que Irmã Cidália o procurou, dizendo que a sua actividade já fora determinada.
Não sabia se ele gostaria, mas, devido ao seu coração fraterno, à sua disposição em bem servir, estagiaria um tempo, não muito prolongado, numa das enfermarias, aquela cujos pacientes ainda sofriam bastante, trazendo da encarnação terrena muitos dos males físicos por que passaram.
Eram os que precisavam de um tratamento intenso e mais demorado, para se desfazerem totalmente dos sintomas que traziam, muitas vezes, acumulados pelas dores morais que deixam marcas profundas.
—O sofrimento desses irmãos é grande!
É a parte mais difícil que temos aqui!
Quando lá se encontrar, talvez pense que tenha sido castigado através daquele trabalho...
Entretanto, são as bênçãos de Deus que o escolheram, pelo seu Espírito fraterno, pelo seu desejo de auxiliar.
Não queremos que se sinta diminuído com esta tarefa, pois sabe que todas são santificantes e, quanto mais necessários somos, maior é o reconhecimento de Deus!
Dedique-se, irmão, que não estará fazendo por eles, mas para si mesmo.
—Disse que aceitaria o que me fosse determinado.
Talvez, no início, eu não saiba desempenhá-la bem, contudo, me esforçarei e procurarei dar de mim o melhor, não só no atendimento que diríamos na Terra, físico, mas procurarei levar a cada um, tuna palavra de conforto.
—Sabíamos que seria assim, por isso foi escolhido.
A tarefa é difícil, mas a recompensa será grande.
—Quando poderei começar?
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