Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 07, 2018 10:33 am

Temos, desde hoje, para nos ajudar na SEARA BENDITA, mais um valoroso irmão, que se acha à minha direita.
Foi ele quem ajudou o sr. conde, quando esteve em Argel, pobre e sem recursos, a suportar as mais rudes provas para o seu espírito, conquistando, após, nova vitória com a sua completa transformação e fazendo com que o seu espírito, livre das cadeias terrenas, se alçasse ao Infinito.
Deu-se, no mesmo dia, por misericórdia de Deus, a súbita partida do sr. conde para o Além e a chegada, quase milagrosa, deste humilde e laborioso irmão vindo da África.
Vamos acolhê-lo com fraternidade, abrigá-lo com afecto, pois deixou a sua pátria terrena em busca de três amigos que fizera em Argel, ajudando-os a vencer rudes provas.
— Quem vos disse, ilustre professor, que o bondoso Saul vem trabalhar ao nosso lado? — perguntou o dr. Januário.
— A intuição, meu amigo, que recebi do Alto.
— Confirmo as vossas palavras — falou Saul, estendendo a destra para o professor que o abraçou, bem como o médico.
— Vede, amigos meus, como é o destino humano: foi prevista a partida do sr. conde por um Mensageiro sideral em Argel e enviado um bondoso instrutor dos arcanos divinos em substituição, que deixou a pátria e família para nos ajudar.
— Que Alá não deixe de ouvir as vossas palavras de verdadeiro crente.
Permanecerei aqui para trabalhar na SEARA BENDITA, mas, sempre que possível, irei ver os meus entes queridos e levar-lhes paz e amor.
— Irmãos — falou o dr. Januário — reparai na misericórdia divina:
no justo momento da partida do sr. conde para o Além, depois de nos conquistar pela sua bondade, enviou-nos, de bem longe, um amigo inspirado que há de nos prestar inestimável auxílio para a execução de nossos projectos na SEARA BENDITA.
— Vamos orar, meu amigo, agradecendo a piedade celestial! — exclamou um dos presentes no qual foi reconhecido Flávio Sigaud.
— Sim, meu amigo — murmurou o dr. Januário, que, retirando dos braços do pai o meigo Luisinho, se aproximou de Saul e lhe disse que ele era o pequeno enfermo para o qual havia enviado algumas ervas preciosas.
Saul aproximou-se, colocou a destra sobre a loura fronte da criança e disse com emoção:
— Antes de fazermos uma irradiação espiritual para todos os seres humanos que estão neste recinto, desejo dizer algumas palavras sobre este formoso infante:
tem tido ele, em diversas reencarnações, vidas de opulência e elevada hierarquia social.
Já prejudicou muitos seres humanos e também já foi muito sacrificado.
Nesta actual existência veio para conquistar méritos espirituais e, no futuro, terá que confortar almas angustiadas e consegui-lo-á com o auxílio dos Mensageiros celestiais.
Sua alma está muito ligada ao irmão que o sustém nos braços, à filha do sr. conde e aos seus progenitores.
Todos vós que aqui vos encontrais não deveis deixar de amparar o menino, que ainda vos retribuirá a mãos cheias.
É um espírito radioso que veio juntar-se à grande falange dos que acreditam na misericórdia divina.”
E, após um pequeno intervalo, acrescentou:
— Há um poder misterioso que ora me domina.
Jamais me apartarei deste solar, onde implantaremos a crença redentora em Deus e em Jesus, conforme a vossa doutrina admite.
Havemos de passar os dias em plena paz, auxiliando uns aos outros, sem ódios nem ressentimentos.
Aqui virão ter outros seres piedosos como os que ora nos cercam e, ainda no plano terreno, havemos de viver em paz, com honestidade, com fraternidade, amparando sempre uns aos outros.
Louvado seja Deus!
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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 07, 2018 10:34 am

— Podeis fazer agora a prece em benefício do sr. conde — lembrou o pai de Luisinho.
— Estou de acordo — disse o dr. Januário — mas só depois do sepultamento dele, para evitar novas emoções em Diana, que agora é minha noiva e devo zelar por ela.
Não é preciso reproduzir as cenas dolorosas das últimas horas em que permaneceu no Solar de Jesus o corpo material de seu proprietário, cujo desprendimento espiritual foi observado por Saul Religari que, em poucos dias, estreitou relações fraternais com todos os que ali residiam.
A jovem Diana, extremamente afectuosa, encerrou-se por alguns dias em seu aposento particular, encarregando o seu noivo e o seu mestre, de tudo quanto fosse necessário no Solar, onde todos já viviam fratenalmente depois de tão belos actos cristãos.
Uma semana após o falecimento do conde de Debret, houve a projectada reunião de todos os moradores na ermida existente do lado esquerdo da imponente mansão, a qual, por muitos anos, só era aberta pela condessa de Debret quando o seu incrédulo esposo se ausentava.
Por coincidência fora no dia de Natal e assim falou o professor Delavigne:
— Não será longa a minha exposição, que farei sem artifícios literários ou desejo de mostrar sabedoria e sim para vos iniciar na Nova Revelação.
Irmãos queridos, achamo-nos hoje em uma data comemorada por quase todos os povos e a vida humana entra em um período de estudos que deverão desvendar diversos arcanos de nossa alma.
Por mais que perquirissem o passado, sábios da antiguidade, como Pitágoras e Platão, só solucionaram alguns problemas psíquicos, mas outros não.
Nós, que aqui nos reunimos com os espíritos sequiosos de verdades siderais, temos que silenciar, pois não possuímos todos os elementos que solucionem os problemas algébricos de nosso Destino.
De onde procede a alma humana?
Em qual forja divina são modelados os espíritos, com pendores tão diversos, com sentimentos tão variados?
Quando poderemos seguir os exemplos de Jesus, o Rei dos Reis, que, podendo nascer em um palácio imperial, escolheu uma manjedoura por berço?
Irmãos, é preciso que todos nós nos esforcemos para desvendar os arcanos de nossa própria vida.
A riqueza, tão desejada pelos habitantes da Terra, nem sempre é um factor de felicidade, mas de desventuras, ocasionando às vezes.
fracassos morais, desastres espirituais, acarretando muitos sofrimentos aos possuidores dela, como tivemos, até há pouco tempo, em exemplo digno de nota.
Necessitamos, aqui no plano material, esforçar-nos para que o nosso corpo físico seja cuidado a fim de que possa lutar e vencer as batalhas materiais da vida, sobretudo as morais e espirituais, para a conquista do triunfo supremo: a Redenção de seu espírito.
Esta só é conseguida com trabalho honesto e inúmeros sacrifícios, alicerçados na Fé e na Esperança.
Nunca devemos vingar-nos de nossos adversários.
Devemos ser sempre tolerantes e piedosos e muitas vezes é preciso estender a mão aos adversários que tombam nos abismos da dor.
Graças à protecção de Mensageiros divinos, aquele ser redimido, que há poucos dias morreu ajoelhado ao esplendor do crepúsculo, findou uma etapa terrena com heroísmo, pois os sofrimentos o levaram para o campo oposto que até então seguia e Deus lhe deu novos alentos, a coragem necessária para vencer as derradeiras batalhas de sua recém-finda peregrinação terrena.
Agora vamos ouvir a palavra de nossos amigos Saul Religari e dr. Januário Closet que falarão sobre o Cristianismo redivivo.
Adiantou-se então o inspirado Saul, logo que o prof. Delavigne acabou de falar, e, erguendo os braços para o Alto, assim se expressou:
— Amigos, nascido em terra estrangeira, vou expressar o que há em minha alma sem certa facilidade, pois não conheço bem a língua que falais.
Irmãos, neste planeta que habitamos ainda há muitos seres humanos que não admitem um Criador de tudo quanto existe e pensam que a vida é produzida pelo acaso e que nenhuma responsabilidade lhes cabe quando erram e comentem actos delituosos. Desejam eles que tudo lhes facilite as conquistas monetárias, afectivas e criminosas...
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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 07, 2018 10:34 am

Quando algo ocorre que lhes dificulte os planos sinistros, lembram-se do Juiz Supremo para censurar-lhe o que é a consequência de seus próprios erros.
Irmãos meus nós que podemos fitar o Céu e contemplar a multidão de astros, receber as impressões mais belas da natureza, como o encanto das flores, o aroma que evola de suas pétalas, o sabor das frutas, a beleza do cântico das aves, a extensão dos oceanos e mares e tudo mais, não devemos acreditar em um Criador e na existência da alma, negada pelos incréus?
Mas que é a alma?
É a propulsora de nossos pensamentos, de nossos sentimentos e que, quando retorna à vida espiritual, qual ave divina, se cumpriu bem a sua missão terrena, deixa aqui um corpo frio, cor de mármore, que baixa ao túmulo e se putrefaz.
Na vida do Além é que se intensificam os sentimentos, que surgem os almejos de viver de outro modo, de trabalhar pelo progresso espiritual e de ajudar os que ficarem na Terra em situações bem difíceis.
Devemos, pois, enfrentar todas as batalhas da vida com heroísmo, uma vez que cada luta vencida é uma vitória alcançada, não para a Terra, mas para o Céu.
Deveis ficar surpresos e perguntar:
pois é verdade que ainda possamos habitar os planos siderais? Sim.
No transcurso de séculos, vividos neste ou em outros planetas, com resignação que parece às vezes superar a coragem humana, sem blasfémias, sem revoltas, tendo sempre em mente o exemplo divino de Jesus, que sorveu o cálice da amargura até o último instante e morreu dizendo:
“Pai, perdoai-os, porque eles não sabem o que fazem!”
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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 07, 2018 10:34 am

14 A PRECE DE FÉ E AMOR
Quando o bondoso Saul terminou a sua prelecção espiritual, foi carinhosamente felicitado pelos presentes Como já tinha sido o professor Delavigne.
Adiantou-se então o dr. Januário, que falou com visível emoção:
— Só agora é que podemos compreender o tesouro conquistado para este solar que há de realmente merecer a designação que lhe foi posta pelo nosso mestre:
Solar de Jesus, bem como verificar que os esclarecimentos que acabam de nos ser prestados têm semelhança inconfundível com a nova doutrina espiritualista que vem sendo ensinada em vários países do orbe terráqueo.
Nada mais preciso acrescentar, no momento, ao que foi dito.
Quero apenas dirigir uma súplica ao Criador, implorando-Lhe bênçãos e luzes para todos os seres humanos.
Deus, Vós que sois o propulsor das almas e de todos os astros que bailam ao redor de incontáveis sóis, que criastes tudo que existe em mundos infinitos, lançai neste instante e sempre as vossas bênçãos radiosas para este planeta em trevas, onde lutam e sofrem todos os serem humanos.
Somos, Pai de Infinita Bondade, falenas humanas nas quais as asas ainda não se alçaram para os grandes voos pelo Infinito, a nossa pátria espiritual.
Dai-nos a vossa bênção espiritual para que as nossas almas fiquem repletas de luz e nos afastemos por todo o sempre das trevas terrenas e possamos, já agora falenas divinas, alçar voo pelo firmamento constelado.
Ajudai-nos para que nenhum dos Vossos filhos, aqui congregados, jamais se afaste do caminho bendito e transgrida os seus deveres cristãos para que todos alcancem a redenção final de suas almas, amando cada um ao próximo como a si mesmo.
Permiti, Senhor e Pai, que aquele que daqui partiu há poucos dias e que era dono deste solar, venha, em breve tempo, juntar-se às nossas fileiras, já com o espírito cicatrizado das urzes da vida pretérita, trazendo-nos, por certo, novas lições recebidas no Alto, a fim de que, em sua próxima etapa planetária, seja um dos mais abnegados amigos, galgando o calvário da vida sem desfalecimentos, sem revoltas, dominado apenas pelos belos ideais cristãos de amor ao próximo.
Se acaso ele estiver neste recinto, que receba o nosso abraço fraternal e os nossos mais sinceros votos de que o Criador, por intermédio dos seus Mensageiros celestiais, inunde o seu espírito de paz e luz. Assim seja!
Terminada a reunião em homenagem ao falecido conde de Debret, dispersaram-se os presentes com lágrimas nos olhos e conforto nos corações.
Um ano depois realizou-se o casamento do dr. Januário Closet com a jovem Diana Benoit e por muitos anos viveram em paz os moradores do Solar de Jesus.
Leonel Delavigne, terminado o curso de Medicina, unira o seu destino ao da formosa Henriqueta, a primogénita de Flávio Sigaud, pai de Luisinho, que já iniciara os seus estudos com o professor Delavigne, e, após um ano de casados, foram contemplados com o nascimento de um robusto menino que, desde as primeiras expressões de inteligência, parecia contemplar todos com indizível alegria e afeição.
Já o dr. Januário e Diana foram presenteados com um casal de encantadores filhinhos e desde então houve uma intensa afeição entre os que nasceram no Solar de Jesus, onde reinava verdadeira fraternidade.
Durante muitos anos viveram em perfeita paz os habitantes daquele formoso castelo que reunia seres amigos, tendo muitos deles já partido para o plano espiritual dentre os quais o bondoso Saul que, antes de cerrar os olhos, falou com indescritível emoção:
— Sofri muito... desde os primeiros anos de existência ... sob os rigores da fome do frio... mas depois de tantos padecimentos... encontrei repouso e paz neste Solar... onde, graças a Deus, só existem almas irmanadas pelos mesmos ideais de amor.
Aproximaram-se do leito o dr. Januário seguido pelo jovem Luisinho que, já tendo concluído o curso ginasial, matriculara-se em uma Escola de Música, arte pela qual revelara grande tendência, sendo o violino seu amigo inseparável.
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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 07, 2018 10:34 am

Achava-se então em férias e, como sempre sucedia, estava executando suaves melodias quando seu incomparável amigo e médico foi buscá-lo para visitar o piedoso Saul, cuja laboriosa existência terrena estava terminando.
— Vais executar uma prece musical, Luisinho — disse-lhe o dr. Januário, consagrada a Maria, mãe de Jesus, dessas que ouvimos nos templos.
— Sim, querido amigo — respondeu ele.
Já sei que devo executar neste violino que parece ter também uma alma boa e piedosa.
— Antes, porém, dr. Januário — murmurou o agonizante — quero fazer-vos o meu derradeiro pedido:
antes que meu corpo seja transportado para o sepulcro... desejo que o professor Delavigne ore por mim... que faleis sobre a fraternidade... e que o Luisinho execute uma prece... em seu maravilhoso violino.
— Sim, querido amigo. Se não for permitido por Deus o prolongamento de nossa convivência neste solar, as súplicas que nos fizestes serão integralmente atendidas. Inicia a música, Luisinho.
O moço empunhou o instrumento na posição preceituada pelos artistas e, em breve, uma prece sonora vibrou no aposento em que agonizava o velho e bondoso Saul Religari, que fitou o artista, depois bruscamente cerrou as pálpebras e pronunciou apenas estas palavras:
— Alá... abençoai... todos os que vos adoram.
O dr. Januário aproximou-se do leito de Saul e verificou, logo após, que aquele coração que tanto amara e sofrerá, já havia sido paralisado por intensa força imaterial.
— Está terminada a missão do boníssimo Saul — murmurou o médico, com os olhos cheios de lágrimas.
Só então o meigo Luisinho depositou seu violino sobre uma cadeira e, ajoelhando-se no pavimento, fez a sua primeira rogativa espiritual em benefício do amigo que ajudara a salvar-lhe a vida no remate de uma penosa prova que desde então se transformara em bênção espiritual.
Diversas pessoas acorreram ao local onde se encontravam o dr. Januário e o Luisinho, soluçante, e muitos comentários foram feitos sobre o humilde e generoso amigo que partira para uma vida melhor, salientando todas as virtudes de que dera abundantes provas.
No dia seguinte realizou-se o sepultamento de Saul Religari, sendo enviadas notícias detalhadas para Argel, onde residia a neta do morto, já casada e residindo ainda na mesma casinha que lhe fora ofertada pelo conde.
A vida no solar voltou a normalidade até que chegou o dia em que se realizou uma reunião fraterna em benefício do espírito de Saul, proferindo o professor Delavigne as seguintes palavras:
— Pediu-me o inspirado filho de Alá que falássemos sobre a Fraternidade, o sublime sentimento que deve unir todos os seres humanos neste e nas múltiplas moradas de nosso Pai, disseminadas pelo Infinito.
— Muito bem, professor! — exclamou o dr. Januário — e todos nós já somos ditosos aqui graças a este afecto divino que nos une há muitos anos, depois de inúmeros anos de lutas e sofrimentos por que todos passamos.
Continuai, pois, ilustre mestre.
— Meus sinceros e queridos irmãos, eis o que desejo expor-vos em atendimento ao pedido de Saul, hoje no mundo espiritual.
O Universo — esta maravilha forjada pelo Sumo Artífice de tudo quanto existe — e um conjunto de elementos diversos: água e terra, vegetais e minerais, gigantescas florestas e rasteiras campinas, feras enormes em furnas sombrias e pequenos pássaros em espaço vastíssimo e, se os seres humanos elevarem os seus olhares para o Céu, desvendarão sóis, astros e estrelas, cuja luz perene ultrapassa o que a Ciência desvenda em seus laboratórios e continuará a ser um dos problemas mais absorventes e insolúveis dos grandes investigadores da Natureza, que não puderam ainda revelar a sua composição aparentemente misteriosa.
No entanto, entre tudo quanto existe há um elo que une os três reinos da Natureza formando a unidade mundial que, na linguagem humana, se chama Fraternidade!
Por quê? Sim!
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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 07, 2018 10:34 am

Que é a vida, que movimenta os corpos, dos seres pensantes e dos chamados irracionais, e será que só os primeiros é que têm o que chamamos de alma?
Não será a vida o primeiro elo a ligar todos os seres que existem nas profundezas dos oceanos, nas florestas imensas, na superfície do solo e na transferência da atmosfera?
Há na Terra regiões que divergem em tudo:
prósperas e paupérrimas, ubérrimas e arenosas, florestas gigantescas e matos rasteiros, há raças diferentes também em tudo:
alvas e escuras, de cabelos lisos ou crespos, altas ou baixas, inteligentes ou atrasadas, religiões em todos os graus de adiantamento espiritual, todas fadadas ao mesmo e único destino: progredir sempre, por mais incrível que isto pareça aos descrentes de todas as épocas da história humana, uma vez que tem o mesmo Criador, que não cessa de criar e de aperfeiçoar, transformando, com o decorrer dos séculos, seres da mais baixa escala humana em espíritos de luz, já com plena liberdade de cindir o Espaço infinito.
Tens, pois, em perspectiva, o futuro de todos os seres humanos.
Vós, idealistas e precursores do Belo, do Nobre e do Justo, deveis ir cumprindo valorosamente os vossos deveres morais, lapidando as vossas almas por meio de lágrimas e dores, iluminando-as com os fulgores do amor e da humildade, desbastando as arestas do erro e do mal, transformando-as em obras meritórias, esculturas vivas e radiosas com a consistência dos sóis e das estrelas!
Que há de mais sublime que a Fraternidade, pela qual se fundem as raças e se enobrecem todos os sentimentos humanos?
Findas as vossas missões planetárias, tereis as das entidades siderais, fundidas no mesmo amplexo fraterno, quando se reencontrarão almas que foram ligadas em várias existências.
Tereis, todos vós, de colaborar, hoje e eternamente, em prol da Fraternidade Universal, pois a pátria de todas as almas é apenas uma: o Infinito.
Todas as descobertas, que constituem maravilhas na Terra, são usuais e conhecidas nos mundos astrais, com o acréscimo de outras inacreditáveis e ainda desconhecidas no planeta que habitamos.
Combatei, hoje e sempre, em prol do Bem e da Verdade.
Quanto mais esforços despenderdes pelo progresso dos vossos espíritos, quanto melhor souberdes lutar, mais progredireis e vencereis o que for prejudicial aos mesmos para que, nos orbes siderais, sejais heróis combatentes da Fé, irmanados perpetuamente pela luz estelar da Fraternidade Universal.
Assim que o prof. Delavigne acabou de falar, ressoaram palmas no recinto e logo após o jovem violinista, empunhando o seu instrumento mágico, vibrou nele sentida música, que dir-se-ia uma prece espiritual emocionante, e finda a qual foi abraçado por todos os presentes.
— Luisinho — disse-lhe o dr. Januário — ninguém mais do que eu aplaudo a tua arte, porém faço questão de que, no princípio do próximo ano, partas para Paris, onde farás o curso de Medicina.
Tens vontade de estudar a divina arte de curar?
— Sim! Lembro-me de quanto padeci nos primeiros anos de vida e, se não fosse o auxílio do Alto e o de vossa esposa, já estaria há muito sepultado.
Quero ficar, pois, em condições de, por meu turno, amparar os que sofrem, aliviar as dores dos corações paternos quando vêem um filho enfermo, sem poder dar-lhe remédio ou alimento, enfim, as curas que forem permitidas por Deus.
— Muito bem, mas deves antes pedir o consentimento de teus pais.
— Obrigado! Deus vos recompensará, dr. Januário.
Escutai, porém, por alguns momentos.
— Podes falar, jovem amigo.
Ambos estavam cercados pelos ouvintes da prelecção do prof. Delavigne e com a sua voz meiga e suave assim ele se expressou:
— Dr. Januário, há muitos dias que venho tendo uma ideia fixa sobre o pequenino Jorge, o primogénito de minha irmã Henriqueta e de Leonel Delavigne, achando-o com alguns traços fisionómicos do falecido conde.
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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 07, 2018 10:35 am

Já percebi que ele tem grande atracção pela vossa esposa e, quando há qualquer referência agradável sobre o pai dela, ele fica emocionado até às lágrimas.
Quer que eu faça uma experiência?
— Sim. Procuremos ter uma prova provada.
Assim falando, o dr. Januário e o prof. Delavigne se aproximaram do netinho deste e, afagando-lhe os cabelos lindos e louros, falou-lhe com meiguice o médico:
— Meu queridinho, conheces alguém com o nome de Rogério Benoit?
— Ele morreu, há muito tempo.
Homem muito mau.
Gostava muito daqui — falou a criança de apenas 3 anos.
Por que me pergunta?
— Porque... queremos levar-te à sepultura de Rogério Benoit, conde de Debret!
— Não. Não quero ver... me faz sofrer.
E isto falando, o pequeno Jorge agarrou-se, cheio de medo, à sua progenitora, escondendo o rostinho, depois do que, levados pela observação do violinista, repararam na semelhança aparentada.
— O Destino tem soluções para todos os problemas da vida humana, sem deixar qualquer dúvida a respeito.
Quem poderia supor que um abastado titular, que dominou com mão férrea os moradores deste castelo, do qual expulsou uma família digna, mas pobre, viesse mais tarde fazer parte desta mesma família, para resgatar dívidas do passado?
Que este exemplo insufle em vossas almas a verdadeira doutrina reencarnacionista, que manda ser humilde e tratar fraternalmente todos os habitantes da Terra, já que ora nascemos pobres ou ricos, ora brancos ou pretos.
Assim se exprimiu o prof. Delavigne que, sempre acariciando o seu neto, concluiu os seus pensamentos:
— Não é punindo com dureza que alguém consegue elevar o nível moral e espiritual de qualquer ser humano, mas guiando-o através das lutas da vida, norteando-o para bem cuidar do que tem de mais precioso na Terra:
a família, para a qual se congregam os mais elevados sentimentos humanos!
— Muito bem, professor! — exclamou o dr. Januário, mas não aprovas também o sentimento de pátria, isto é, que devamos amar todas as nações, inspirando-nos no belo exemplo do bondoso Saul que, tendo nascido na Ásia, foi para a África e acabou morrendo aqui na França?
— Sim, estou de pleno acordo convosco, doutor, confirmou o orador — e, como deveis estar lembrado, ainda hoje manifestei os meus sentimentos a respeito da fraternidade humana.
Vede, porém, qual o meu objectivo: nós, que amamos um humilde recanto da Terra, onde nascemos, e tivemos por companheiros de existência crianças que pronunciavam as mesmas preces e as mesmas palavras queridas, não podemos amar com a mesma intensidade outro qualquer país, que pode ser a nossa pátria de amanhã, porque não nascemos ali.
Há sempre uma diferença entre a terra natal e outra qualquer, mas desde que tenhamos compreendido a sublimidade das leis divinas não devemos odiar os povos de outras nações e sim orarmos por todos os entes humanos e, se houver necessidade, acolheremos com piedade cristã todos os que sofrem seja qual for a raça, a cor da pele, a língua que falar, porque, se nós somos reencarnacionistas, somos todos irmãos, pois tal sucederá no futuro milenário de nossas almas.
Sempre nós amamos mais a terra em que estamos reencarnado, em uma etapa terrena, esquecendo das outras, do passado de cada ser humano.
Não devemos, pois, odiar nenhum povo ou nenhuma nação deste planeta.
— Não podemos deixar de concordar convosco, prezado dr. Januário — falou o prof. Delavigne — pois todo o nosso esforço deve constituir-se em por em execução a lei divina que manda “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”, e, se amarmos o nosso semelhante como a nós mesmos, não podemos odiar outro ser nascido além das fronteiras de nossa pátria.
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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 07, 2018 10:35 am

Infelizmente, porém, continuam as lutas fratricidas a devastar terras, ceifando a vida de velhos, jovens e crianças, quando seria mais razoável que todas as questões fossem resolvidas pela diplomacia ou por meio de arbitragem, e nunca por guerras.
Precisamos combater, desde já, em nossos lares, as ideias de ódio e os erros do passado.
Prevejo que, futuramente, com as novas luzes projectadas pelo Espiritismo sobre todas as ciências, os crimes já serão punidos com certa clemência, pois quantas tragédias do passado não se escondem neles.
Também os criminosos serão tratados com compaixão, pois já sabemos que um delinquente vem à Terra, em muitos casos, para cumprir a pena de Talião que diz “quem com ferro fere com ferro será ferido”, havendo nas prisões muitas escolas para ensinar o Evangelho segundo o Espiritismo.
O planeta em que nos achamos é um dos mais difíceis de unificação de ideais, porque se compõe de seres banidos de centenas de outros orbes de diferentes categorias.
Dir-se-ia que somos uns eternos visionários, no entanto, com energia cristã, com ensinamentos morais e instrutivos, com verdadeira piedade em nossos corações, poderemos alcançar um dia o nosso objectivo, que é o de transformar a Terra, planeta de expiação, em um vasto campo de experiências novas e duradouras.
Elevemos, com intensidade, os nossos pensamentos que têm por escopo o progresso humano.
Bendigamos os seres que tomarem parte na SEARA BENDITA, que promoverá a evolução humana neste planeta, que ainda verá novos céus e novas terras — concluiu o professor Delavigne, terminando a reunião.
Tornara-se personagem indispensável no Solar o jovem Luisinho, que para ali ia no ensejo das férias escolares.
Então dizia ele:
— Só me sinto verdadeiramente feliz onde se acham os meus pais e os meus amigos, com uma intensa saudade do pequeno Jorginho.
— Já observamos — disse-lhe seu progenitor — que a tua alma é muito ligada à dele.
— Também já observei este fenómeno, meu pai, e prometo que, enquanto viver, jamais abandonarei o meu adorado sobrinho.
Vede como ele, como que percebendo que falamos a seu respeito, veio ao nosso encontro.
Luisinho apertou, carinhosamente, a linda criança em seus braços, e exclamou com sinceridade:
— Quando terminar os meus estudos de Medicina e puder enfrentar a vida terrena com os frutos de meu trabalho, quero educar este entezinho adorado, dar-lhe a instrução que estou recebendo, desejando que siga a mesma carreira que eu. Prevejo que ele foi o arrogante senhor deste solar, que depois se tornou tolerante e piedoso e a quem muito devemos, meu pai, desde que consentiu que morássemos aqui, resgatando, assim, dívidas do passado e salvando muitas vidas preciosas e úteis.
— Louvo muito os teus projectos — falou Leonel, aproximando-se do cunhado.
Deus tem favorecido os nossos planos e não podemos deixar de praticar actos dignos de serem aplaudidos pelo próprio Pai celestial.
— Jamais descremos da bondade infinita do Omnipotente, que não se esquece de todos os seus filhos, ricos ou pobres.
O pequenino ser, como se percebesse as palavras dos seus dois entes queridos que o envolviam em carícias, abraçou-os e osculou-os e, após, vendo Diana chegar, foi atirar-se carinhosamente em seus braços, quando então Luisinho disse para o sobrinho:
— Julgo bem que és o espirito reencarnado daquele que, por muitos anos, dominou este solar bendito e foi levado à Fé e à Piedade por meio de uma prece angelical.
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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 07, 2018 10:35 am

Quero que sigas o exemplo que, desde então, ficou eterizado em nossas almas.
Não hás-de ajoelhar perante o Criador somente na hora da morte. Não.
Quero que, de hoje para o futuro, faças uma prece com o corpo em atitude humilde e a alma voltada para o Céu.
Vês? Está entardecendo.
Vamos orar agora com os amigos presentes!
Todos acompanharam Luís Sigaud que, empunhando o violino, nele vibrou uma prece musical de sua inteira inspiração e eles se prosternaram tendo à frente o pequenino Jorge, de mãos postas e olhos volvidos para o Alto, emocionado até as lágrimas, ouvindo-o murmurar com a sua carinhosa voz infantil:
— Papai do Céu.
Abençoai a todos nós e deixai que nunca nos separemos!
— Assim seja — responderam os presentes que, orientados pela melodia vibrada no mágico instrumento, irradiaram pensamentos sublimes às paragens siderais em benefício de todos os seres humanos, sentindo as suas almas iluminadas pela Fé e pela Esperança, que as arrebatavam ao Infinito.

F I M

[1] Nota digital: Não seria: beneficiar-no?
Acho que houve um erro tipográfico.
Ou o correcto: “O beneficiar”.
[2] Nota digital: Amiens é uma cidade no norte da França, localizada a 120 km ao norte de Paris.
É a capital do Departamento de Somme e da Região da Picardia.
Possuía 135.501 habitantes no censo de 1999 e densidade demográfica de 2,740
habitantes/km².(Retirado do google)´

§.§.§- Ave sem Ninho
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Ave sem Ninho

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