Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 29, 2018 10:57 am

Essas aprendizagens serão efectuadas quando o espírito resgatar todas as faltas cometidas na arena planetária, pois, de outra sorte, os criminosos, mal chegassem ao plano espiritual, deixariam o local dos seus delitos e partiriam pelo Espaço, burlando eternamente as leis divinas!
Somente os espíritos que já sofreram provas acerbas, já realizaram acções nobres e já se compenetraram dos deveres sociais, divinos e morais, poderão escalar o Universo, em todas as suas maravilhosas concepções.
Antes, porém, de ultimar as provas, como te sucede actualmente, não tens o direito de pesquisar o que existe além do planeta terrestre, para não cometeres talvez confidências fantasistas.
Não podes, também, como já te revelei, ver o que há do lado inferior dos planetas solares, nem atravessar o éter ou o vácuo, pois teu organismo, imóvel em um leito, desprenderia a alma imediatamente, por motivo compreensível, pois alguém, quando está adormecido, ainda necessita de respirar a atmosfera, que é transformada, nos órgãos pulmonares, em vitalidade reanimadora.
Podes fitar agora o que nos circunda e logo teremos que regressar ao planeta da Dor e da Redenção.
Fitei deslumbrada a Terra, em giro permanente, distanciada de outros formosos planetas solares, infatigáveis dançarinos celestes, todos a igual distância uns dos outros, separados pela atmosfera, quase resplandecente, ficando bem visível o espaço preenchido pelo éter, como um oceano fluídico, menos resplandecentes do que o que o circula, sempre de um só lado, os orbes que são os irmãos legítimos da Terra.
Além de nossas cabeças, as estrelas e nebulosas formavam veredas maravilhosas, como que traçadas por lápis luminoso de algum gigante sideral!
Quero, porém, abreviar o que vi e que pretendo descrever mais tarde, no decorrer da vida actual.
— Antes de regressarmos ao planeta em que tens de resgatar tuas últimas faltas, repetirás comigo esta prece que ficará gravada em tua alma emotiva:
“Deus Divino Factor do Universo, cuja origem maravilhosa ninguém pode conceber, nem o Seu poder ilimitado, a Sua sabedoria infinita, a Sua perfeição inconcebível, síntese incomparável jamais interpretada pela humana inteligência, por mais lúcida e sábia que seja!
Eis-me com a alma prosternada, suplicando-vos bênçãos para todos os seres, de todos os planetas e astros, cujas almas radiosas resplandecem ao redor de todos eles e, neste momento, o mais solente desta actual existência, tão repleta de dores e decepções, eu vos suplico ainda bênçãos e protecção para todos os seres humanos sem distinção de raças, de sentimentos religiosos, de classes sociais, para que, com o auxílio benéfico e incomparável de vossos luminosos Mensageiros possamos conseguir a mais integral redenção, terminar as nossas provas e alçarmo-nos às regiões siderais!
Desejo colaborar para o meu próprio progresso e o de meu próximo, vencer todas as provas planetárias com galhardia, resignar-me com todas as dores e decepções terrenas, perdoar todos os que me fizeram sofrer, sem revolta, sem desejo de vingança, sem ideia de suicídio.
Eis-me, Senhor e Pai, a vossos luminosos pés, implorando-vos paz e felicidades para todos seres vivos do Universo!
— Eu te felicito sinceramente, minha filha, falou Estela, a mestra piedosa, abraçando a terna discípula, cujos olhos ficara orvalhados de pranto.
Quero que reproduzas, por escrito, o que acabaste de revelar-me para que eu dissemine esta vibração espiritualmente por todos os entes humanos.
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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 29, 2018 10:58 am

6 SOLVENDO DÍVIDAS
Decorreram dias serenos no solar de Diana depois da partida do conde de Debret e felizmente nunca houve tanta compreensão, tanta harmonia, tanta alegria secreta como naquela era bendita.
O professor orientava o que a filha do ausente devia fazer em vista dos sucessos ocorridos no castelo.
Ela quis, sobretudo, suavizar a situação precária do desventurado servo expulso por haver deixado de trabalhar por motivo de doença em um dos seus filhinhos e a jovem filha do violento titular fora procurá-lo em uma sege modesta, seguida de seus dignos educadores em cujo poder ficara considerável importância pecuniária.
Chegaram à humilde moradia de Flávio Sigaud ao amanhecer de um dia invernoso e ficaram emocionados ao verificar a miséria reinante naquele miserável lar em que faltavam alimentos com frequência, roupas para resguardá-los do frio, móveis para guardar as poucas coisas que tinham, pois o chefe da família lutava com grande dificuldade para encontrar uma ocupação que lhe rendesse o suficiente para matar ao menos a fome de sua família.
— Que viestes fazer neste casebre? — perguntou Flávio Sigaud, emocionado até as lágrimas, vendo entrarem os três dignos seres humanos aos quais não pode oferecer nenhum lugar para sentar.
— Como tens sofrido! — exclamou Diana.
Quero ver o Luisinho! Como está passando ele?
— Sempre sofrendo alguma enfermidade, pois está debilitado.
Acha-se agora adormecido.
— Hei-de fazer esforços para que o dr. Januário venha vê-lo, Flávio, esquecendo a animosidade que houve... entre nós — disse Diana — que, de acordo com os seus bondosos professores, lhe entregou uma quantia que, na condição em que se achava o ex-serviço do castelo, foi providencial.
Retiraram-se os visitantes, prometendo que ali estariam dentro de breve tempo, mas os dias foram transcorrendo após a primeira notícia recebida do conde de Debret e os seus companheiros, orientando que se achavam no Norte da África, instalados no mais confortável hotel de Túnis, mas, com surpresa inexplicável, apenas enviadas as notícias sobre a viagem e estadia naquela cidade africana, cessaram todas as missivas, quer as do conde como as de Leonel, causando sérias apreensões a seus pais.
— Precisamos orar muito disse a professora em conversa com o seu esposo e a sua discípula, ambos com os olhos marejados de lágrimas.
— Tenho feito vibrações espirituais, querida mestra, desde aquela maravilhosa excursão pelo Espaço constelado, mas sei, por íntima intuição, que as nossas provas não estão consumadas... e que ainda nos restam grandes provações que venceremos com o auxílio benéfico dos nossos guias espirituais!
— Iremos, de hoje para o futuro, orar em conjunto — propôs o professor Delavigne.
Já transcorreram três meses da partida do sr. conde, de nosso adorado Leonel e do fiel João Vermont.
Tenho estado em incessante preocupação espiritual e desde ontem recebi a inspiração de ir em busca do dr. Januário e expor-lhe a nossa aflitiva situação:
a falta de notícias dos que partiram para a África e que nos enviaram escassas informações.
Hoje, após as aulas ministradas a Diana, irei ao seu encontro.
Quero também que ele examine o infeliz Luisinho, que acho que anda mal de saúde e caminhando para a sepultura.
— Tens razão, Sérgio — respondeu-lhe a esposa.
Hoje mesmo deves ir à procura do já famoso médico que ainda será um dedicado auxiliar na Seara Bendita que espero seja instalada neste solar.
— Tiveste alguma orientação espiritual? — perguntou ele à sua consorte.
— Não devo desfigurar a verdade por motivo sem base:
tenho ultimamente estudado a vida de Sócrates, de Platão e sobretudo a de Pitágoras e, em todas elas, encontro motivos básicos da sobrevivência da alma, das penas e recompensas que há, conforme o procedimento dos seres humanos, e actualmente estou convicta da intervenção dos que já partiram para o plano espiritual, mas que não nos abandonam neste planeta de provas.
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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 29, 2018 10:58 am

— Façamos, pois, Estela, um trato para as investigações que pretendemos realizar.
Com surpresa dos mestres, Diana murmurou umas palavras incompreensíveis, e após falou entristecida:
— Sim, estou de pleno acordo, pois desejo atrair o espírito de minha pobre mãe... que tanto padeceu neste planeta chamado Vale de Lágrimas.
Como estamos quase na hora do almoço, eu vos peço, queridos mestres e amigos, alguns momentos de atenção para o que vos desejo revelar.
Receio que meu pai, longe deste castelo em que sempre mandou, sem lenitivo para suas últimas provas, venha a atentar contra sua própria vida.
Há muito que já devia ter-vos posto ao corrente do que aqui aconteceu entre meus progenitores.
Há muito eu previa o que ia acontecer com minha infortunada mãe que, alguns meses antes de seu trágico fim, foi a Lille e lá se avistou com seu primo Januário para pô-lo a par do que estava se passando aqui.
Desde aquela ocasião meu pai aumentou suas crueldades e talvez para tomar uma decisão definitiva foi que permitiu que ele penetrasse em seu solar.
Desejo que vós, prezados professores e amigos, conserveis esta minha revelação em segredo.
— Sim, querida Diana — respondeu Estela — podes confiar em nossa discrição.
— Obrigada. Muito antes do trágico sucesso que infelicitou este solar, já o esperava.
Minha pobre mãe foi vítima da ambição de seus parentes.
Ela amava realmente o primo e queria casar-se com ele, mas o conde meu pai a viu e pediu-a logo em casamento, que se realizou contra sua vontade, casamento em que nunca foi feliz, pois ele queria à viva força que minha mãe o secundasse em seus impulsos violentos.
Ela era meiga, humilde e compassiva e apavorava-lhe a crueldade do esposo, que se revoltava por não concordar com seu procedimento autoritário e cruel.
Tudo, porém, transcorria com relativa tolerância, até que se encontraram inesperadamente com o dr. Januário em Lille e meu pai observou que ela e o primo se fitaram com carinho, deduzindo que ainda se amavam.
Passou-se algum tempo em que o médico saiu de Lille, mas, ao regressar, soube que a prima vivia quase prisioneira, enferma e infeliz.
Tentou vê-la, talvez para tomar um desforço do marido, mas os acontecimentos se precipitaram... e o final ambos vós não ignorais.
Tudo isto vos relatei porque necessito de uma orientação vossa no caso do infeliz Luisinho, que, a meu ver, está ficando com fraqueza pulmonar.
Seus pais, de pobreza desoladora, não lhe podem dar o trato de que necessita.
Pensei, pois, no dr. Januário, que vai se tornando célebre com curas quase milagrosas e eu vos pergunto, caros mestres, se reprovareis meu desejo de o chamar para cuidar do doentinho, logo após os lamentáveis sucessos deste lar, sendo ele quase o causador de tudo quanto tem ocorrido?
— Muito te agradecemos a prova de lealdade, Diana.
Vais receber uma sincera resposta paternal — disse Delavigne.
Dentro de alguns minutos, irei a Lille à sua procura e responsabilizar-me-ei pelo pagamento de seus serviços profissionais!
— Obrigada, querido mestre.
Eu, porém, responsabilizo-me por todas as despesas decorrentes do tratamento do pobre Luisinho.
Vou buscar uma quantia que, com economia, dará para a alimentação de todos de seu lar.
— Sim. Eu entregarei ao pai do pequenino enfermo o que lhe destinas, mas quero concorrer com o que me for possível.
Partiu o generoso professor para a próxima cidade em busca do dr. Closet, com o qual expandiu lealmente seus sentimentos não somente a respeito de Luisinho como sobre a filha do conde, cuja angústia, por falta de notícias, não tinha limites, bem como a sua, a de sua esposa e também sobre Leonel, que era um dos companheiros do infeliz castelão.
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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 29, 2018 10:58 am

Januário reflectiu por alguns momentos e, depois, com grande nobreza de sentimentos, respondeu ao professor:
— Vou examinar o pequeno enfermo e receitarei para ele, mas não receberei quaisquer honorários para que recupere a saúde.
Peço-vos também, sr. Delavigne, dizer à infeliz Diana que se, decorrido um mês, não chegarem notícias de seu progenitor, partirei para o Norte da África, de onde chegaram as últimas notícias sobre os viajantes.
— Haveis de permitir se tal suceder, dr. Januário, que eu siga convosco, pois minha inquietação não tem limites a respeito de meu filho que partiu com o conde de Debret.
— Não há a menor dúvida, sr. Delavigne, que aceitarei vosso generoso oferecimento e partiremos juntos para a África.
Amanhã vireis saber notícias do menino de cuja saúde tratarei como se fosse meu próprio filho. Quem sabe se já não foi ele um ser muito querido em pretérita peregrinação terrena?
— Acreditais na Palingenesia ou Lei das Reencarnações, caro doutor?
— Sim, prezado professor, e só deste modo compreendo que o pobre doentinho esteja resgatando alguma falta que praticou outrora, mas, com a permissão do Juiz Supremo, pode estar quase finda.
Não é menos patente a prova por que está passando o cruel conde Debret para que sua alma abrande em ferocidade e possa trabalhar pelo seu progresso espiritual.
— Muito folgo por haver percebido vossos generosos intuitos e vossos sentimentos cristãos, de acordo com os ensinamentos recebidos pelo eminente Allan Kardec e seus pregadores de verdades que, no futuro, serão plenamente positivadas.
Que o divino Mestre nos inspire sentimentos generosos que lucifiquem as nossas almas! — exclamou o prof. Delavigne, erguendo-se para regressar ao Solar de Diana, e, ao atingir a meta desejada, expôs o que foi realizado e o que seria efectuado, decorrido mais um penoso mês.
Chegando ao Solar de Diana, o professor relatou tudo quanto ocorrera no transcurso de sua conversa com o dr. Closet, cuja impressão desfavorável fora logo desfeita, pois percebeu que ele era generoso e compassivo e, só mesmo em um caso de maldade, qual o que acontecera com a sua prima Genoveva, agira com violência.
No dia seguinte ao da ida do professor Delavigne ao local onde residia o dr. Closet, foi por este informado sobre o estado de saúde de Luisinho Sigaud, que, se não tivesse recebido os cuidados daquelas almas generosas, talvez já estivesse em mísera cova.
Transcorreram mais alguns dias de verdadeiras apreensões para a jovem Diana, que muitas vezes assim falou a seus dignos educadores:
— Que vale a opulência, o esplendor de uma encantadora moradia, quando falta paz à nossa alma?
— A opulência não anula a desdita, Diana — respondeu-lhe o professor, mas suaviza em parte as torturas que passam mormente os pais quando sofrem acerbas dores morais ou físicas em um lar desprovido de alimento para seus entes bem-amados, o que estava sucedendo na cabana dos pais do Luisinho.
Eu te aconselho, pois, Diana, seres sempre bondosa para com os desprovidos de fortuna, mas honestos e bons, e, para que haja sempre relativa felicidade em tua alma, não deixes nunca de praticar o bem, de cumprir as leis morais, pois, se assim procederes, terás constantemente a suprema ventura: a paz de consciência ou ausência de remorso!
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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 29, 2018 10:58 am

7 DISCÍPULOS DE KARDEC
Antes que o prof. Delavigne fosse ao encalço do conde e os seus companheiros, por diversas vezes estivera em paternal palestra com a sua querida aluna que, certo dia, lhe falou:
— Dizei-me, sr. Delavigne, acreditais realmente que as criaturas humanas não tenham uma só vida terrena, mas uma série de idas e voltas para o plano espiritual, a fim de, no transcurso dos séculos, finalizarem todas suas provas e atingirem os mais altos planos siderais?
Porque assim o afirmaram os grandes filósofos da antiguidade e actualmente uma plêiade de iluminados propagadores da justiça e da redenção espiritual!
—Tudo nos faz crer que a Nova Revelação, pregada por Allan Kardec e seus companheiros de ideais redentores dos que, na Terra, estão cumprindo as sentenças divinas; no entanto, há atenuantes como passarei a expor: seus deveres cristãos, e sempre esforçar-se por alijar do espírito as manchas do passado, não se lembrando nunca do suicídio para abreviar sofrimentos que serão intensificados por um ato de revolta contra as leis divinas.
— Ai! caro professor.
Quer isso dizer que minha desditosa mãe deverá estar sofrendo mais ainda após tantos anos de suplício moral?
— Ela era honesta, boa e justa e só em um momento de desvario praticou um ato condenável pelas leis divinas; no entanto, há atenuantes como passarei a expor: a criatura humana é sujeita à privação de sentidos sob o império de um sentimento de revolta, de indignação, de dor violenta e então age sob a influência, às vezes, de adversários materiais ou espirituais.
A infeliz condessa foi sempre bondosa e por isso vivia em desarmonia com seu iracundo esposo. Foi colhida de surpresa pela violência da ofensa recebida e não pode vencer a prova, talvez dominada por algum adversário irreconciliável de transcorrida peregrinação terrena.
Devia ter repelido a perversa sugestão de suicídio, mas com a sua dignidade profundamente ofendida, aceitou o alvitre para se livrar do escárnio dos criados e dos conhecidos.
A meu ver, a grande responsabilidade do suicídio da condessa recai integralmente sobre quem cometeu a cruel agressão.
Foi ele o causador da loucura que lhe perturbou a mente, pois não havia ela cometido nenhum deslize, nenhuma falta condenável, não podendo abolir a própria dignidade ofendida ou o pesar que lhe obscureceu a razão.
— Obrigada, sr. Delavigne.
Nunca olvidarei as elucidações que me proporcionastes nestes momentos inesquecíveis.
Penso, porém, que, da era presente para o futuro, os que forem crentes na nova doutrina reencarnacionista, não deverão praticar o suicídio em nenhuma hipótese, pois saberão que, evitando um grande sofrimento, ou antes, interrompendo-o, terão a reprodução das mesmas dores no futuro, em nova existência.
—Às vezes, querida Diana, poderão obter uma comutação da pena.
— Como poderá isso acontecer, caro mestre? — indagou Diana com profundo interesse peio tema de sua conversa.
— Escuta-me. Diana.
Alguém, em uma romagem terrena, comete vários furtos, diversas extorsões, que muito prejudicam os seres humanos e às vezes mesmo as colectividades.
Despertos no plano espiritual, esses infelizes violadores do Direito e da Justiça, contemplando o sofrimento dos prejudicados e a penúria existente em vários lares, arrependem-se, sentem compaixão deles e, quando reencarnam, pedem ao Pai Celestial, por intermédio de seus guias espirituais, para voltarem à Terra sem riquezas, sofrendo a falta de alimentos, estendendo a mão à caridade pública!
E quantos seres há nestas condições?
Outros, em idênticas condições, pedem o contrário:
riqueza para amparar os pobres e enfermos, os órfãos, fundar escolas, asilos, hospitais, enfim, fazer o contrário do que fizeram outrora.
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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 30, 2018 10:14 am

Outros há que, temendo os perigos do ouro, desejam estudar, mormente Medicina, para, exercendo uma invulgar missão de abnegados, poderem resgatar muitos delitos, pois cada vida que salvaram será uma vitória conseguida.
Deus, sendo a misericórdia infinita, não condenará a suplícios eternos seres que muitas vezes cometem monstruosidades, mas que, em futuras existências, poderão resgatar as suas faltas, concorrendo para o seu progresso e de seus semelhantes, de diversas maneiras.
Já a condenação eterna anula a sublimidade da imortalidade da alma, o fim glorioso para o qual foi ela criada, a vida espiritual nos infinitos mundos habitados, a incessante actividade espiritual.
Dessa forma milhares de anos de sofrimentos não resgatam os crimes de outrora?
— É verdade, caro mestre! — exclamou Diana.
Que pensais sobre os suicidas?
Tenho tanto interesse em sabê-lo!
— Ninguém deveria projectar e executar o suicídio, pensando acabar com a vida e os seus sofrimentos, pois sucede justamente o contrário: intensificam-se as dores e patenteia-se a vida em toda a sua pujança!
Já te expus, cara Diana, que é provável que a condessa de Debret tenha atenuantes para o gesto de loucura que praticou, todavia não aceitou a humilhação que a atingiu e que deveria ter suportado, lembrando-se sempre de Jesus que levou bofetadas que lhe feriram o rosto.
Ela poderia ter suportado o ultraje e talvez o homem cruel que o praticou se arrependesse e mudasse de proceder.
Faltou-lhe coragem moral para vencer a prova e não se recordou do sublime nazareno que foi publicamente ofendido e, naqueles momentos dolorosos, não teve um só conforto dos que testemunhavam sua imerecida agressão.
— Se o tivéssemos sempre em nossa memória, sr. Delavigne, teríamos a resignação precisa para suportar todas as dores.
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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 30, 2018 10:14 am

8 DEUS
Transcorreram mais algumas semanas após a conversa de Diana com seu mestre sem que houvessem recebido qualquer notícia dos seres queridos que partiram para lugar ignorado.
Certa tarde, porém, chegou ao solar de Diana um emissário do dr. Closet, levando uma missiva para o professor e a sua discípula.
Elucidava a situação sanitária de Luisinho que adquirira melhoras sensíveis, sendo preciso que o tratamento não fosse interrompido.
Depois abordava o assunto em foco:
a falta de notícias do conde e seus companheiros de jornada, fixando o dia posterior para que ele e o professor partissem para o Norte da África, pois não ignorava a angústia em que se achava imersa a jovem filha do opulento e temido Rogério Benoit.
O prof. Delavigne, para confortar o coração da querida discípula, falou-lhe:
— Foi lamentável a discórdia que surgiu entre os que te deram o ser, Diana, pois tudo quanto sucedeu neste solar proveio da diferença de seus sentimentos.
— Bem sabeis, sr. Delavigne, que os sentimentos muitas vezes conflagram-se nos corações humanos e, raramente, há a verdadeira compreensão e harmonia que existem em nossos espíritos, meu e de meus bondosos mestres.
Como sabeis, o meu infeliz pai, desde que uniu seus destino ao de uma jovem sem fortuna, mas de formosura helénica, dominado sempre por odiosas suspeitas, queria que ela concordasse com as suas arbitrariedades e, se tal sucedesse, sentir-se-ia feliz.
Lembro-me muito bem de ter ouvido a minha bondosa mãe falar-lhe certo dia com angústia:
— Não é possível que eu não desaprove o teu modo de agir, Rogério, pois eu não nasci em berço de ouro e sei o que sofre um chefe de família quando lhe falta o necessário para as despesas domésticas, para o tratamento das doenças de seus entes queridos, sem poder comparecer a qualquer ato social de parentes ou de amigos.
E porque tudo isso eu vi ocorrer em meu modesto lar, que é hoje um castelo, é que me compadeço dos criados escorraçados, dos servos enfermos e famintos... e jamais hei-de concordar contigo!
— Aprovas então o procedimento incorrecto, a ociosidade, os furtos dos servos, contra os meus próprios interesses? — interpelou-a, com arrebatamento, meu pai.
— Quando tais ocorrências se verificarem, deves chamar o servo faltoso, advertindo-o paternalmente, prometendo-lhe punição em caso de reincidência, mas sempre tolerante e justiceiro.
Como já sofri as consequências de injustiças praticadas contra o meu próprio pai... é que me compadeço dos que se encontram em condições semelhantes à dele.
Fico bem penalizada quando vejo alguém expulsar um ser humano, acompanhado de sua esposa e seus filhinhos, muitas vezes enfermos e famintos.
— Reconheço — respondeu ele com arrogância — tarde em demasia que eu devia ter unido o meu destino ao de uma jovem de minha estirpe, habituada a esse sucessos comuns nos castelos opulentos, sem covardia, sem sentimentos pusilânimes, muitas vezes fatais.
Se assim pensas não devias ter-se casado com um titular abastado e de origem fidalga e sim com um plebeu, um mísero operário, anónimo e sem mérito.
— O mérito não provém da raça, mas dos sentimentos nobres, das acções meritórias de cada ser humano!
— Assim se expressam os anónimos, os desprovidos de brasões e de riquezas e não os verdadeiros nobres pela raça privilegiada de seus antepassados!
— Não penso como expressaste os teus pensamentos, pois Deus — o Supremo Juiz — não fez os órgãos diferentes nos fidalgos e nos plebeus, nos que nascem os castelos e nos que nascem nos casebres, onde nascem muitas vezes seres dignos, virtuosos e fadados à imortalidade!
Quase que todos os cientistas, os mais notáveis poetas e militares de França e de muitos outros países da Terra nasceram no anonimato, sem berço dourado e inúmeras vezes atingiram as culminâncias da imortalidade, ao passo que os opulentos e os nobres, com raras excepções, nada têm feito de útil à Humanidade.
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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 30, 2018 10:15 am

E quantos dos que nascem em berços dourados acabam, anónimos, em lugares ignorados...
— Devias ter unido teu destino ao de um lixeiro e, deste modo, terias ficado certa de que eras realmente feliz...
— O sr. conde de Debret é que não devia nunca ter olhado para a humilde filha de um agricultor para que não houvesse surgido esta grave discordância em nossas almas!
— Proíbo-te de que me fales mais vezes em Deus, em alma ou em coisas não provadas pela ciência.
— Perdão. Vou falar em Deus pela derradeira vez. Consentes?
— Pela última vez, sim.
— Não há efeito sem causa, não é verdade?
Pois bem, que é que descobrem os nossos olhos fitando a Natureza?
Árvores gigantescas, plantas minúsculas, flores encantadoras, frutas saborosas, rios intermináveis, oceanos e mares vastíssimos... e sobretudo o chamado Céu, onde fulgura o eterno Apolo, cuja luz ninguém poderá imitar com o seu combustível inextinguível que nenhum dos mais eminentes sábios conhece!
Quem os fez?
Quem forjou as constelações, as mais fúlgidas estrelas? Não deve ter havido Factor para tudo isso?
Não devemos qualificar esta maravilhosa por uma designação humana? DEUS — Criador, Magistrado, Pai — tudo se resume na primeira designação — DEUS!
Eu admiro, venero, respeito o Factor de tudo quanto os meus olhos devassam, pois, sendo os nossos próprios órgãos visuais a mais admirável das maravilhas orgânicas, de poucos centímetros de extensão, podem abranger o Universo, distinguir todas as maravilhas que existem na Terra e no Céu.
Hei de, pois, amar a Quem nos concede elementos de defesa, de investigações de maravilhas incontáveis, exigindo apenas de seus filhos humildade, labor, caridade, honra e bondade!
— Quem te forneceu os dados de que utilizaste neste momento para querer me conquistar?
— Tive um excelente professor que era meu tio paterno e, nos primeiros anos de juventude, quando eu recebia as mais sublimes lições, repentinamente adoeceu e partiu para o Além.
Nunca porém, hei-de olvidar seus belos ensinamentos, eu que desejava ser professora para vencer as agruras da vida terrena.
— Não me iludas, Genoveva.
Deves ter ouvido essas loucas fantasias de teu primo Januário Closet, que ias desposar e cujo noivado foi interrompido pela ambição de teus parentes que se sentiram honrados por ter sua filha, de origem obscura, unido seu destino ao de um opulento e notável fidalgo!
—Foste culpado, Rogério, de ter-se realizado este casamento desigual, pois o teu pedido foi atendido como todo o que tem uma filha querida e quer vê-la em boa sociedade, sem antever as desditas e os motivos de discórdia que podem surgir entre seres de categoria desigual.
Vamos, porém, dar por finda esta conversa antes que surjam novos motivos de dissabores ou de discussões.
— Ainda bem que percebeste que não me tornaste feliz, pois os nossos sentimentos são desarmónicos, havendo grande diferença de fortuna e educação.
— Porque não promoves então a nossa separação legal? Basta que me deixes com a querida Diana.
Terei forças para trabalhar nos mais humildes serviços para nossa alimentação e talvez ainda possas unir o teu destino ao de uma fidalga que aja de acordo convosco.
— Tuas palavras fazem-me perceber que não me tens afeição, que desprezas a minha fortuna e alta posição social e se eu não realizo o que me sugeres é para não te ver ditosa, vivendo talvez em segredo com o dr. Closet.
— Rogério, não me ofendas com as tuas odiosas suspeitas! — falou minha pobre mãe com indignação.
Não devias ter proferidos tais crueldades na presença de Diana, que é inteligente e jamais poderá esquecer o que me dissestes!
Ainda me farás perder o equilíbrio mental ou me levarás ao suicídio!
Assim terminou a disputa entre meus pais, talvez a última.
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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 30, 2018 10:15 am

— Era impossível a reconciliação daqueles dois seres humanos ligados pelo destino.
Tempo virá que tudo se resolva nos lares e que as mais complicadas situações familiares sejam amigavelmente solucionadas pela intervenção de verdadeiros missionários que hão-de surgir no transcurso do tempo.
— Concordo contigo, Diana, e, como já estou penetrando nos segredos espirituais, presumo que, decorrido mais algum tempo, os chamados médiuns, de moral absoluta, sejam os inspirados de nobres resoluções domésticas e sociais, sendo tudo resolvido de acordo com a vontade suprema — conclui o digno mestre de Diana.
Depois de certa pausa, ainda assim lhe falou paternalmente:
— É provável que amanhã nos tenhamos de separar materialmente, pois espiritualmente as nossas almas nunca se apartarão.
Perdeste, fisicamente, uma mãe extremosa e infeliz, mas terás outra a teu lado — minha cara Estela — realmente a estrela de minha vida, a luz de meu lar.
Ambas ficarão orando a Jesus pelos ausentes queridos!
Partiremos confortados e confiantes no auxílio do Mestre de Nazaré e de nossos invisíveis e amados inspiradores e protectores do berço ao túmulo, através de séculos infindos!
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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 30, 2018 10:15 am

II PARTE - AS PROVAS BENDITAS

1 INSTRUINDO

Tudo ficou aprazado no solar de Diana para que a partida do dr. Closet e do prof. Delavigne se efectuasse no dia seguinte ao que se achavam, sendo também tomadas todas as providências relativamente ao menino enfermo Luisinho Sigaud, que já apresentava algumas melhoras reanimadoras.
Antes que se efectuasse a partida para o Norte da África, os sinceros amigos de existência — Januário Closet, Sérgio Delavigne, a esposa e a discípula — recordavam episódios ocorridos no famoso solar por ocasião do suicídio da infeliz
Genoveva.
— Lembro-me — disse o abalizado mestre de Diana — da aflitiva situação do sr. conde quando a sua esposa consumou a sua atribulada existência planetária para ter de continuá-la em outra dolorosa, peregrinação terrena.
— Que devo fazer — murmurou Diana — para que não seja atingida por alguma punição extraterrena?
— Esperar que o futuro decifre os enigmas de nossas existências!
Faça esforços para que, tudo suportando, não queiras terminar a tua própria vida, pois, em caso contrário, porei fim a esta inútil existência! — exclamou o conde repentinamente.
— Eis por que, meu pai, nunca devemos agir com violência contra o nosso semelhante, pois, às vezes, a dor supera o amor à vida e sucede o que houve neste formoso solar, onde sobram preciosidades, confortos materiais, regalias sociais e faltam concórdia, harmonia espiritual e paz de espírito.
— Eu quero... morrer — falou Conde, com voz compungida fitando a filha.
Eu então aproximei-me do infortunado titular, dizendo-lhe com emoção:
— Senhor, bem diversa é nossa condição social, mas, neste momento, eu me julgo com o dever de sugerir-vos alguns alvitres amistosos:
não vos entregueis à dor em demasia, ao desalento avassalador, ao domínio da matéria.
Elevai o vosso espírito ao Juiz Supremo — Deus — e Ele vos enviará um possível conforto inesperado.
Lembrai-vos da sensível Diana, vossa querida filha, que sofreu um rude golpe — a morte trágica de sua adorada mãe — e poderá fracassar da mesma forma ou ... enlouquecer!
— Mas eu não posso mais — respondeu o conde — ser desprestigiado em meu próprio lar até pelos servos em cujos olhares percebo uma violenta censura.
— Eles jamais faltarão ao cumprimento de seus deveres, pois são honestos servidores domésticos.
Deveis abolir de vez os pensamentos de revolta, de ódio, de orgulho, de impiedade e vereis como a vossa existência futura tomará um novo rumo.
Muitas vezes são os que mais lutaram na vida, com acerbas dificuldades, os que alcançam imortais vitórias.
Bem sei que não tendes nenhuma crença religiosa, mas ainda tereis motivo de conforto imenso.
— E se Diana alguma dia amar a quem não seja de raça fidalga como a nossa, desprezando-me por quem eu certamente odiarei?
— Perdão, sr. conde.
Se o jovem por quem ela se afeiçoar for digno no lar e na sociedade, tendo ele a nobreza de uma alma virtuosa, por mais desprovido que seja de fortuna e de grande origem racial, poderá fazê-lo ditosa, vivendo em um lar honesto onde educarão seus descendentes.
— Eu vos julgo hostil aos fidalgos, sr. Delavigne! — exclamou, com o arrebatamento, o conde de Debret.
E eu, certamente com humildade na voz a na expressão do rosto, respondi-lhe delicadamente:
Estais enganado, sr. conde, pois geralmente uma estirpe nobilitada por alguém é porque já conquistou méritos inesquecíveis, sejam bélicos ou científicos.
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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 30, 2018 10:15 am

O título nobiliárquico revela, pois, algum valor conquistado.
O que desaprovou é que, depois do mérito conquistado, seja ele ofuscado por actos de despotismo e violência.
Não devemos desprezar os desprovidos de títulos e fortunas, porque nem sempre são os responsáveis.
Quanto mais humilde é um ser humano, por mais competente que seja, maior é a dificuldade para conseguir uma posição social, pois não tem quem o proteja em suas honestas pretensões e muitas vezes, ao regressar ao lar querido, sofre acerbamente vendo seus familiares a sofrer fome e frio.
No entanto, sr. conde, tudo isso sucede porque seres humanos, imbuídos de orgulho e egoísmo, não reflectem na necessária solidariedade social, não se preocupam com os que padecem, podendo minorar-lhes as precárias condições de vida, sobretudo em lares desprovidos de pão e agasalho.
No entanto, repito, os que mais sofrem no plano terreno, os que são auxiliados pelos que estão bem de fortuna, são recebidos no Infinito com alegrias cristãs pelos que já venceram as suas provas planetárias e galardoados pelo Soberano do Universo — Deus!
— Como podeis afirmar tais fantasias como se fossem reais?
Como sabeis que a caridade é a virtude máxima se jamais alguém desceu desse Além para nos fornecerem uma prova cabal da veracidade de uma afirmativa forjada por fantasistas ou loucos?
Depois que um corpo visível e patente baixou ao túmulo, sr. Delavigne, ninguém ainda o identificou no plano fantástico da imaterialidade!
— Enganai-vos, sr. conde.
Tem havido eminentes filósofos, de grande capacidade científica e religiosa, que já observaram fenómenos surpreendentes da sobrevivência da alma no plano divino após a sua passagem pela Terra e certamente em outros planetas habitados.
Sócrates e Platão, homens de inteligência e cultura superiores, sempre afirmaram a existência de alma, que é a propulsora do ser das trevas terrenas para os planos siderais.
— Como poderá afirmar, com certeza matemática, o que acabais de expor?
— Quem ignora na Terra a passagem de Jesus transpondo uma porta fechada e sua partida para o Infinito diante dos olhos de grande número de seres humanos?
— Tudo isso não passa de fantasia dos cristãos para que maior seja o número de seus adeptos!
Tereis razão, sr. conde, se além dos sucesso relativos ao Nazareno, não houvessem acontecido na Terra inúmeros fenómenos psíquicos de aparições de espíritos e de transmissões de pensamentos através de seres humanos que, dir-se-ia, parece que desfrutam de privilégios celestes, mas deve existir um motivo justo para tal, de acordo com as leis divinas.
Julgo que esses seres humanos que recebem mensagens espirituais pela psicografia, vidência ou incorporação, já viveram na Judeia e ouviram as palavras de Jesus e de seus discípulos.
Através dos séculos hão-de ser fiéis ao Mestre bem-amado e terão de muito lutar pela restauração integral do Cristianismo na Terra, que será aprimorado e terá certamente outra designação ainda não muito difundida.
Suponho que, naquela repartição misteriosa de cinco pães para milhares de criaturas, o que o Mestre querido quis repartir não foram migalhas de pão de trigo, mas o futuro dom da mediunidade!
— O sr. Delavigne fala com tanta convicção que, se não fosse eu um descrente empedernido, um materialista inconvencível, teria desejo de saber quem o levou às conclusões que me tem transmitido, como se já fossem verdades incontestáveis!
— Sr. conde.
Quem está dirigindo o estudo dos fenómenos espíritas é um conterrâneo nosso — Allan Kardec — auxiliado por uma plêiade de homens ilustres como Flammarion e outros, de acordo com os egípcios, os profetas da antiguidade, pois, em todas as épocas, houve aparições espirituais de grande alcance e agora o Espiritismo, o Cristianismo restaurado e aprimorado, quer esclarecer o que há de verdade na doutrina reencarnacionista que ensina que não há uma só vida terrena e qual a origem de muitos males humanos, materiais ou espirituais.
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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 30, 2018 10:15 am

A criatura humana não começa uma vida no berço para terminá-la no túmulo, quando justamente começa a alma desenvolver-se para o seu glorioso porvir.
O que parece absurdo é que todas as religiões tem pontos de contactos, estão às vezes de acordo, mas se insurjam umas contra as outras.
Nenhuma delas deixa de crer na imortalidade da alma, na sua sobrevivência após o desaparecimento do corpo humano, e em seu prémio ou castigo pelo que fez na Terra.
Faltava uma que estudasse tudo quanto se relaciona com o ser humano no plano terrestre, de forma lógica e racional.
É o que deseja realizar nosso eminente patrício, professor e médico, chamado Allan Kardec, provando a imortalidade da alma, a vida neste e em outros planetas, a reunião eterna dos seres que se amaram e souberam viver cristãmente.
Tem ele, o ilustre patrício, estudado tudo o que houve na antiguidade, nos tempos de Pitágoras, Platão, Sócrates e outros grandes filósofos conhecidos na Terra, provando que realmente esta doutrina que vem sendo acolhida com entusiasmo — o Espiritismo — alia na verdade a Religião à Ciência, pois já vem sendo estudada com seriedade.
Há muito que já deveria ter sido iniciado esse admirável conjunto harmónico da Religião com os mais belos conhecimentos humanos, mostrando o que é e qual o fim da existência humana, bem como as consequências do bem e do mal que praticarmos na Terra, podendo cada ser conquistar sua felicidade eterna nos planos siderais.
— A fantasia de que me destes conhecimento, sr. Delavigne, não deixa de ser bela e consoladora, mas faltam as provas concludentes.
Quando elas chegarem, o que ponho em dúvida, então verei o que hei-de fazer em meu próprio benefício.
Creio, porém, ilustre professor, que jamais mudarei de ideia.
A vida é uma série de decepções para quase todos os seres humanos!
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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 30, 2018 10:16 am

2 PLANETA DE DOR E LÁGRIMAS
O prof. Delavigne, depois de haver reproduzido a conversa que tivera com o conde logo após o desenlace doloroso de Genoveva Benoit, partiu para a cidade de Lille em uma charrete e foi ao encontro do dr. Closet, que resolveu partir no dia seguinte, em sua companhia, depois de lhe ter dado notícias da melhora do estado de saúde de Luisinho.
— Caro doutor — falou Sérgio Delavigne — quem poderá por em dúvida que hoje pobre e infeliz Luisinho teve, em findo avatar, bens de fortuna e deixou muitas vezes de proteger os desprovidos de tudo?
No entanto mais uma vez se patenteia a misericórdia divina em seu benefício e Deus permitirá que, no plano terreno, na actual etapa de sua vida, ainda possa desempenhar uma gloriosa missão de caridade.
— Que Deus nos escute, neste momento, sr. Delavigne.
O que estiver ao meu alcance, eu o farei, quer em benefício de Luisinho quer dos que sofrem.
A Humanidade terrena há muito que já deveria ter iniciado o estudo de seu presente, do que aconteceu no passado e do que lhe poderá ocorrer no futuro.
É inacreditável que, com raras excepções, os seres humanos se preocupem mais com a obtenção de bens materiais e vitórias bélicas, destruindo lares e corpos em plena juventude, festejos ruidosos, amores venais, olvidando o que os aguarda no Além após o desfecho da vida material.
Há muito já devia existir institutos dirigidos por esclarecidos mestres onde fossem estudados os mistérios da vida humana.
Ah! caro professor.
Ainda por muitos anos não surgirá uma Academia de Estudos Psíquicos, pois serão considerados loucos os que nela tomarem parte!
— Confiemos no porvir infinito da Humanidade e todas as realizações úteis se transformarão em eternas realidades! — exclamou Delavigne.
— Meu amigo, permiti que faça uma amistosa discordância.
Conjecturo que este planeta, em que nos achamos presentemente, seja uma habitação mista de diversas raças que demonstram as diferenças existentes em outros orbes esparsos pelo universo.
Há neste vasto globo terrestre, evidentemente, várias raças que demonstram a diversidade dos mundos de onde provieram.
É, pois, a Terra um núcleo de povos de diferentes procedências planetárias, manifestando os conhecimentos adquiridos nos orbes de onde foram exilados para cá.
Quem sabe, meu amigo, não seja a Terra eternamente um planeta misto onde as raças se congregam para a futura fraternidade, mas, como julgo que jamais cessará o nascimento de seres humanos em número infinito de mundos esparsos pelo universo, este planeta seja, por todos os séculos, assim dividido por diferentes raças, com grande diversidade de progresso material e espiritual e, assim desse modo, nunca haverá uma só raça e todos os seres pensantes com o mesmo grau de conhecimentos, intelectuais ou espirituais.
— Tendes razão, dr. Januário, e eu não poderei dar-vos uma resposta definitiva senão após a evolução e a passagem dos séculos que hão-de vir.
Quantas crianças-prodígios, revelando conhecimentos artísticos ou científicos, hão-de surgir, talvez em limitado tempo.
Tudo o que tem acontecido na Terra, com o aparecimento de seres perversos e fatais às colectividades, como Nero e outros algozes da humanidade, e a vinda de Jesus, Pitágoras, Platão e Sócrates, tudo nos revela a diversidade do progresso moral e espiritual dos que, por momentos, habitam as regiões terrenas.
Em Delfos, o ideal templo da Grécia, houve casos admiráveis e, por vezes, as inspiradas pitonisas — os médiuns da antiguidade — fizeram revelações sensacionais!
Pois bem, meu amigo, voltemos à realidade, pois urge o tempo para que possamos descobrir o paradeiro do infortunado conde de Debret, provando a fragilidade das regalias sociais, do ouro, da supremacia das raças.
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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 30, 2018 10:16 am

Tudo para ele deve ter desaparecido do seu interior, desde que compreendeu o ato cruel que praticou, a desdita que atraiu para o seu próprio lar, o receio de ir para a prisão, que deve ser mais terrível do que a morte para um descrente na sobrevivência do espírito, a fagulha divina que existe em cada ser humano, seja o corpo alvo ou negro, de uma criança ou de um velho.
— Vamos, pois, providenciar para que amanhã tudo se realize como há muito concebemos em nossas mentes, onde se elaboram as mais belas e as mais tenebrosas acções do ser humano.
— De pleno acordo, dr. Januário.
Há muito que já deveria ter sido iniciado na Terra o estudo dos fenómenos espíritas, que devem merecer tanto carinho como os que se relacionam com a matéria, mas, infelizmente, neste planeta, os que descobrem vantagens na extinção de um sofrimento material podem ter acesso às academias, com os aplausos de todos os que dele tiverem conhecimento, ao passo que os que estudam os fenómenos que ocorrem no íntimo da alma, os que desvendam os arcanos do passado e do futuro, são acoimados de imbecis ou de loucos.
Isto, porém, não causa estranheza, pois não há muitos séculos, quando Colombo concebeu a ideia de descortinar a metade ocidental deste orbe, certamente porque tenha sido anteriormente um dos habitantes da América, depois reencarnado na Europa, tinha a nítida compreensão do que conhecia de um passado longínquo.
Teve, pois, a inspiração de descobrir um novo mundo e só Deus sabe o que ele sofreu no início da viagem, depois vitoriosa e inesquecível, cercado de marinheiros rudes que talvez ao menor fracasso lhe arrebatassem a vida, como todos supõem, julgando que esta termine no túmulo quando então se inicia a verdadeira vida, que é a espiritual.
A crueldade humana, porém, é tão incontestável que, como sucedeu a Colombo depois do triunfo, depois de uma glória efémera, foi desprezado e andou coberto de farrapos, tendo, para não morrer de inanição, de estender a mão à caridade pública, mão que deveria ser osculada por todos pela sua grande descoberta marítima e terrestre.
O triunfo alcançado na Terra, porém, deve ter tido uma repercussão nos planos divinos, e quem poderá idealizar qual tenha sido sua recompensa?
Sim, Deus, o Juiz Supremo, o Pai abnegado de todos os seres humanos, que não ignora nem um só adejo de ave através do espaço, que concede um átomo de sua imortalidade a todos os seres pensantes, deve ter feito justiça ao célebre navegador que, após seu desenlace do estojo carnal, deverá ter alcançado um hemisfério celeste.
Não distinguem, porém, os entes humanos os esplendores do Universo, mergulhados que andam nas trevas planetárias, julgando que, mais tarde, onde baquearam os corpos, tudo terminará!
Se a Humanidade melhor conhecesse as maravilhas do Além não vacilaria sobre a vida futura, dedicando-se então à prática do Bem, às conquistas morais e científicas, valiosas para Deus, e muitos seriam os libertos das trevas planetárias!
— É verdade, caro doutor, e muito folgo em perceber que as nossas almas vibram em uníssono e talvez sejam da mesma elevação espiritual!
Que alegria será a nossa no porvir quando, em conjunto, pudermos desvendar os arcanos do Universo!
— Concordo convosco, caro professor, e possa desde já considerar-vos um futuro companheiro de voos pelo Infinito!
— Por enquanto, porém, dr. Januário, ainda estamos no planeta da Dor e da Lágrima e temos que agir em benefício de um coração filial sem o que talvez descambe para o túmulo.
Podia haver tanto conforto material quanto moral
e espiritual, mas este não existe no principesco solar porque quem o domina é um ser impiedoso e violento, que só deseja expandir seu génio arbitrário, os fulgores de sua raça... que ele julga superior pelos pergaminhos nobiliárquicos e pelos haveres que ultrapassam as despesas comuns da vida terrena.
— É verdade, sr. Delavigne.
No momento em que o violento conde de Debret expulsa um servo, deixando-o ao desabrigo das intempéries não se lembra que o sofrimento que padece é gerado no coração, que não difere de um para outro indivíduo, seja este preto ou louro, rico ou pobre.
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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 30, 2018 10:16 am

Todos os corações são iguais na composição, todas as almas tem a mesma essência divina, porém os sentimentos, de acordo com os actos bons ou maus, já são diferentes.
Nós, meu amigo, que já penetramos nos mistérios da alma, não temos mais o direito de errar com as atenuantes que tem os que iniciam as suas romagens planetárias.
Haveis de ter feito reparo na imposição que fiz ao conde, que talvez tenha sido julgada cruel, porém vou justificar o meu modo de agir.
Conhecedor dos actos vis praticados pelo senhor do Solar de Diana, das crueldades cometidas contra a própria esposa que ele queria que fosse conivente com seus gestos de violência, indignado com o proceder piedoso da desditosa Genoveva, vítima da imposição de seus parentes que a forçaram a contrair casamento com o tirano para ostentar uma situação invejável, e pela diversidade de sentimentos, todos os projectos caíram por terra.
A princípio em nada resolvia, sem os conhecimentos espíritas que ultimamente tenho recebido por intermédio da doutrina codificada por Allan Kardec.
O que ocorreu com ambos deve ter sido consequência de passado trevoso: ela, a condessa, em pretérita existência, deve ter sido vaidosa e traidora de seu esposo e por isso a pena foi severa nessa finda encarnação.
Quem sabe se já nos amamos numa anterior existência? Quem sabe se ela traiu o marido e, em outra mais recente encarnação, tenha resgatado o desvio do passado?
Compreendo que as nossas vidas devem ter sido ligadas por elos indissolúveis, que serão fortalecidos no futuro.
Não tive em mira ultrajar o conde de Debret, mas o de dar-lhe uma prova da equidade humana, desviando-o de orgulho ilimitado, mostrando-lhe a ineficácia do ouro em muitos casos, como lhe sucedeu ultimamente, tendo de abandonar os requintes do conforto de seu solar para enfrentar as dificuldades, os horrores de uma longa jornada sem regalias, para verificar que o potentado pode ser arrojado do trono ao solo, sofrer as amarguras que padecem os destituídos de fortuna, os que lutam com a miséria mais penosa.
— Sim, meu amigo — concordou o digno professor.
O infeliz conde ainda não percebeu que Deus, o Juiz Supremo, o Pai justo de todos os seres humanos que contêm em seu âmago uma partícula de luz imortal que os ilumina através dos milénios e jamais se extinguirá e, portanto, que o que ele tem cometido de maldades e injustiças provém da falta de percepção de que o Omnipotente não distingue os seres pensantes pelo esplendor do ouro, pelo fulgor da inteligência, mas pelas virtudes, pelos sacrifícios, pelos actos bons, que são os mais belos fulgores que se irradiam através do Espaço Sideral.
Cada ser humano deve esforçar-se pelo aprimoramento de seu espírito, quer por meio da Ciência, da Moral e da Caridade nos lares obscuros, enfim, pela prática de virtudes que o encaminham para Deus.
Como poderemos concorrer com o nosso auxílio para aprimoramento de nossos espíritos senão cumprindo as leis divinas?
Mostrando orgulho, expulsando os humildes de seus lares, deixando-os sem tecto e sem pão? Não!
— Infelizmente, porém — falou o dr. Januário — esse infeliz de que falastes já cometeu igual crueldade em um passado não muito remoto.
— Sim, meu amigo. Lembremo-nos, portanto, neste instante, do infortunado pai do Luisinho, pois não sabemos quanto vamos demorar na peregrinação em busca do desaparecido déspota do Solar de Diana!
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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 01, 2018 10:02 am

3 A BUSCA
Tudo ficou aprazado para a partida dos que iam em busca do paradeiro do conde de Debret.
O dr. Januário não foi ao Solar de Diana, porém Diana lhe remeteu uma quantia necessária à longa viagem que iam fazer a regiões longínquas e ignoradas.
— Não, caro professor.
Eu não a recebo, pois não quero que pareça ser por interesse o que vou fazer por pura caridade, por simples ato de fraternidade cristã!
— Mas meu amigo — replicou o professor, emocionado — não podeis praticar uma acção meritória assim sem recursos que não possuís.
— Confiemos em Deus e na protecção de seus fiéis emissários.
Não desejo ser escarnecido por ninguém.
Se fui o causador da partida do conde não devo agora receber dinheiro de sua própria filha para ir procurá-lo.
— Sim. Não deixastes de reflectir com exactidão, mas, para que vosso sacrifício não seja demasiado, o que precisarmos para as despesas maiores ficará a meu cargo e, quando regressarmos, tudo ficará esclarecido!
Assim foi o que ficou combinado para a volta, não tendo o professor deixado de dar diversas orientações à sua querida esposa e estimada discípula.
Angustiosa foi a separação daqueles entes idolatrados, que inundou de lágrimas os olhos do que partiam para ignorada região e os que ficavam no solitário castelo, sem outro conforto que o da crença na misericórdia divina.
Logo que o professor partiu para encontrar-se com o médico, ambas se prosternaram na ermida existente no solar, suja porta permanecia sempre fechada porque o conde não sabia orar.
Muito choraram e, quando se ergueram, abraçaram-se com o afecto de mãe e filha e foi esta quem disse tristemente:
— Que vale este solar ambicionado por todos, possuindo tesouro em jóias e preciosidades diversas se não existe harmonia entre seu dono e os que aqui trabalham?
Não seria eu mais feliz se morasse em uma choupana, ao lado de entes queridos, em plena paz, auxiliando, com os meus labores e sacrifícios, as despesas do lar?
— Não podemos modificar o destino senão após o término de nossa vida terrena, com actos de benemerência, altruísmo e bondade, sempre fiéis no cumprimento austero de todos os deveres morais e sociais.
Não nos entreguemos à dor e ao desespero.
Volvamos os nossos pensamentos para o Juiz Supremo, Jesus e os seus luminosos auxiliares e assim venceremos melhor as nossas provas.
— Como hão-de transcorrer penosamente as horas neste solitário castelo!
— Sofres mais do que eu, ficando separada de teu pai e eu de meu companheiro de existência e de meu único filho?
Não compreendes ainda a dor de uma afectuosa mãe, apartada e sem notícias daquele a quem deu o ser, parecendo-me que ainda o conservo nos braços e no coração aflito?
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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 01, 2018 10:02 am

4 VIAGEM AO DESCONHECIDO
Vamos agora focalizar o local onde se encontravam o infortunado conde de Debret, Leonel Delavigne João Voltaret, criado fiel que, nos momentos mais dolorosos ocorridos com o dono do solar de Diana, era o seu único amigo, sem exigir recompensas e sempre tendo palavras amáveis e humildes para com o potentado de que era apenas servo anónimo.
A partida de Lille, ao amanhecer de um dia de janeiro, em pleno inverno, fora desoladora.
Fretara uma carruagem a fim de os conduzir para Oeste, ao Estreito de Calais ou da Mancha, do qual o conde pretendia partir para o Sul da Europa, onde ficaria morando até poder navegar para a África, de acordo com a exigência do dr. Januário Closet.
Partiram os três, no mais absoluto mutismo, mergulhados em profunda tristeza, embora revelando a atitude de cada um tudo o que lhes ia no íntimo.
O conde, cerrando os olhos, parecia estar em uma das dependências do castelo e, por vezes, julgava divisar a desventurada Genoveva, desejando ele que algum secreto adversário lhe varasse o coração com ferino punhal para que menor fosse o seu martírio moral.
A filha, tão bela, mas abalada por soluções irreprimíveis, aparecia-lhe no cenário íntimo e, várias vezes, desejou regressar para conceber-lhe algum conforto espiritual, a seu modo.
Após alguns dias de jornada em confortável carruagem puxada por dois resistentes animais, chegaram a Finisterra, onde se hospedaram e o conde agiu prontamente para fretar uma pequena embarcação que o conduzisse e seus companheiros de viagem ao Sul da França e chegar ao Mediterrâneo.
Por vezes, o barco a vela em que viajavam era abalado por tormentas que, em mar sem obstáculos materiais, assumem proporções assustadoras.
E sempre abalado por íntimas emoções, o conde de Debret, que tinha ardente desejo de regressar e de enfrentar, pelas armas, o dr. Januário, chegou finalmente ao Sul do país e resolveu ir a Túnis, no Nordeste da África.
Sem nunca expressar aos seus companheiros de exílio os pensamentos que lhe iam na alma, conservava-se sempre em completo mutismo, a não ser para lhes dar algumas ordens julgadas necessárias.
Por vezes, viu ele, não sem emoção, o jovem Leonel, com os olhos marejados de lágrimas, percebendo o sacrifício que estava fazendo para acompanhá-lo, certamente saudoso de seus dignos pais.
O conde, com as emoções sofridas, deixando de externar os seus pensamentos por várias vezes com temor de ser ultrajado por desconhecidos, sentiu-se enfermo, sendo preciso que fosse chamado um modesto cirurgião que, após examiná-lo, perguntou:
— É inadiável a viagem empreendida por vós?
— Sim... tenho que estar... pela derradeira vez... com um parente que reside nesta região.
— Assim que for possível, deveis regressar à França, de onde dissestes que sois natural, pois o clima daqui muito diverge do de vossa pátria e a vossa saúde está bastante alterada.
Receitou o médico o que achou conveniente e retirou-se após, conjecturando que a vida do desconhecido francês talvez tivesse duração efémera, em vista do que avisou o jovem Leonel a respeito.
Decorridos alguns dias de intensa inquietação, o estado de saúde do conde de Debret apresentou melhoras confortadoras.
Chamou para junto do leito os seus companheiros de peregrinação e lhes disse, com humildade que causou surpresa aos dois, o seguinte:
— Não quero que me chamem... pelo título, enquanto durar a viagem, para não despertar ambições... criminosas.
Chamem-me simplesmente de Rogério Benoit.
Não digam a quem quer que seja algo sobre a minha situação financeira.
Leonel e João acharam razoáveis os amistosos alvitres e, passados alguns dias, reiniciaram a viagem, tendo Leonel transmitido aos pais e a Diana o local em que se encontravam e para onde tencionavam seguir.
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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 01, 2018 10:03 am

Mais algumas horas de viagem marítima pelo Mediterrâneo e os itinerantes chegaram ao porto de Argel, capital da Argélia, possessão francesa, cujo aspecto muito diferia do das povoações europeias.
— Tenho que fazer-lhes outras observações — falou o conde a seus companheiros.
Não poderemos demonstrar que trouxemos uma fortuna para a nossa subsistência.
Vamo-nos hospedar em um lugar modesto, onde passaremos a residir por alguns meses até que obtenhamos a determinação daquele miserável que ordenou a minha saída da pátria querida.
Logo nos primeiros dias da chegada, sempre previdente, o titular foragido saía com os seus companheiros de exílio, sondando os arredores de Argel, cujo aspecto tanto diferia do das povoações francesas e lhe despertava a atenção, agradando-lhe a diversidade de tudo.
Os habitantes trajavam-se, em geral, como os europeus, mas muitos ainda se vestiam como os asiáticos, já o mesmo não sucedendo com os habitantes berberes e árabes que predominavam em toda a região argeliana.
Diversos eram os trajes dos habitantes, que predominavam nas feiras, sempre repletas de adquirentes de tudo o que se precisa para a alimentação e vestimenta. Trajes mais exóticos foram ainda observados por eles.
Já então um criado da hospedaria em que moravam havia observado que os novos hóspedes possuíam bons haveres e faziam diversas aquisições nos mercados locais para levar para algum país além.
Havia a dificuldade de linguagem, mas, havendo um natural da Finisterra na hospedaria, estabeleceu-se uma comunhão de pensamentos que facilitou mais tarde o que veio a se verificar.
O conde de Debret, por intermédio de Leonel, expendeu os seus pensamentos mais amplamente, ordenando que uma carta fosse enviada com a maior brevidade, mas, ao recebê-la da mão do titular, o criado da hospedaria, que se chamava Francisco Morei, prontificou-se a leva-la ao lugar em que se fazia distribuição da correspondência para os diversos países europeus.
— Deixai comigo a carta, meu amiguinho, e eu lhe darei o destino da pátria de vossos companheiros de viagem.
Não podeis dizer porque estais viajando pela África após tão longa separação de vossos entes queridos que lá ficaram?
— Estamos em busca de um parente, que residia na França e partiu para a Argélia há muitos anos, deixando a família ao desamparo, embora fosse ele possuidor de regular fortuna — respondeu Leonel, alterando a verdade para não despertar suspeitas, já temeroso de que houvesse sumiço da carta, prosseguindo após:
— Meu amigo, eu mesmo pretendo levar a carta de meu tio... para não vos ocasionar um trabalho que poderá ser evitado!
— Estais duvidando de minha sinceridade, jovem? — interpelou-o Francisco, fitando-o com aspereza.
— Não e, para que não duvides de minha sinceridade, eu vo-la entrego e logo voltarei para a hospedaria dos Amigos de Argel!
— Obrigado! Dentro de poucos instantes, estará esta carta em mãos do encarregado das expedições para a França.
Leonel entregou-lhe a missiva do conde de Debret e ficou sem tranquilidade, pois temia que fosse violada e, desse modo, desvendados seriam os pensamentos mais íntimos do titular para a sua própria filha.
Não teve ele a precisa coragem de revelar a verdade ao conde para que não fosse censurado pelo que fizera.
Lembrou-se então de escrever aos seus pais, relatando-lhes o acontecido e enviando-lhes o endereço completo da correspondência para o conde e os seus acompanhantes.
Pela manhã, saíram os três para fazer observações pessoais.
A população mista de Argel era interessante de ser observada.
O comércio era activo, grandemente constituído de negociantes de várias nacionalidades, com aspecto diverso dos europeus, com túnicas de diferentes tecidos, amplos mantos que os envolviam da cabeça aos pés.
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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 01, 2018 10:03 am

O conde, trajando-se com modéstia para não despertar a curiosidade, ia em companhia de Leonel e João e, contra os seus hábitos de reserva, nunca revelando o seu pensamento aos seus subalternos, falou em inesperada confidência:
— Expus a verdade a Diana, isto é, que ainda estou de posse de avultada importância para a nossa manutenção por alguns meses.
Tenho receio, quando me ausento da Hospedaria, de trazer comigo o que possuo e deixo os meus haveres na mala maior, de que trago a chave em meu poder.
— Sr. Benoit, falou Leonel em voz baixa para não ser ouvida pelos transeuntes, eu acho que deveria trazer tudo convosco, pois temo alguma traição neste país ainda desconhecido por nós.
— O quarto que ocupamos não fica bem fechado quando nos ausentamos? — disse o titular ao jovem Leonel, em tom aborrecido.
— Sim, mas já ouvi dizer que, em certos hotéis, há empregados que têm as chaves de todos os quartos, e assim podem fazer furtos sem deixar vestígios.
— Se tal suceder comigo... eu farei violências e, se puder, liquidarei com a vida de tal gatuno — disse o conde já em tom de violência que chamou a atenção dos que passavam.
Leonel então guardou silêncio e o conde comprou frutas e doces raros que levou para onde estava hospedado.
Ao penetrar, porém, no aposento, notou que algo de extraordinário havia sucedido, pois as malas estavam com as cobertas revolvidas e, fitando ele a que guardava roupas e objectos de uso diário, observou que fora arrombada.
— Entrou aqui algum ladrão! exclamou o conde e, com as mãos trémulas, abriu a mala e notou a falta de todo o seu dinheiro, mencionado na carta que na antevéspera dirigira a Diana.
Leonel, pálido de emoção, disse, em tom indescritível:
— Vou em busca do criado que costuma fazer a limpeza deste aposento.
Saía ele, com rapidez, quando ouviu um rumor de algum corpo que caísse no chão e um gemido prolongado desprendido de um peito oprimido.
— Volta, Leonel, depressa!
O sr. Rogério caiu sem sentidos... e parece que vai morrer — falou João com a voz alterada.
— Não! Não é preciso, pois os hóspedes já perceberam o sucedido.
Realmente, decorridos alguns instantes, o dormitório do então Rogério Benoit estava repleto de desconhecidos, todos indagando a causa do desfalecimento do seu ocupante.
— Nós saímos a passeio... e quando regressamos percebemos que uma das malas tinha sido roubada.
Onde se achava Francisco Morei, que faz o asseio deste aposento?
— Não sabemos, mas vamos ao seu encalço falou um dos hóspedes que, ao interrogar o dono da Hospedaria, verificou o desaparecimento do até então honesto serviçal.
— Vamos chamar um doutor — exclamou outro hóspede — e foi em busca de um médico que, ao penetrar no local em que jazia desmaiado o conde, perguntou:
— Quem se responsabiliza pelo pagamento?
O estado deste homem... é muito grave!
Leonel e João ficaram em silêncio aflitivo e, compreendendo a situação de ambos, um dos hóspedes disse:
— Eu me responsabilizo pelo pagamento do médico e dos remédios... se o enfermo ainda puder fazer uso deles.
Depois de examinar o enfermo, o médico elucidou:
— Caso grave de comoção cerebral.
Talvez o doente não resista mais, pois já está debilitado e com a idade avançada!
Retirados os curiosos, depois de prescritos os tratamentos aconselhados pelo médico que foi pago pelo generoso hóspede, o doente recobrou os sentidos.
Logo após fitou, como se fossem desconhecidos, o jovem Leonel e o fiel João, que se aproximaram do leito e lhe dirigiram algumas palavras mas o conde permanecia mudo, em vista do que Leonel foi à procura de esclarecimentos na residência do médico chamado para examinar o enfermo.
— Deixem-no em completo repouso, interrompendo-o apenas quando lhe forem ministradas as doses dos remédios receitados e dos raros alimentos que pode tomar.
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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 01, 2018 10:03 am

Qualquer alteração no regime aconselhado ser-lhe-á fatal.
O doutor, que falava em francês mas era argelino, ficou de visitar o enfermo à tarde, mas Leonel lhe falou com tristeza:
— Já compreendestes o motivo da enfermidade... do sr. Rogério Benoit:
o desaparecimento de incalculável quantia que ele possuía... e foi roubada.
Agora, no entanto grave em que se encontra, vou pedir recursos pecuniários meu pai, na França, para podermos sair da aflitiva situação em que nos achamos!
— Compreendi o sucedido, jovem francês, e creio na tua sinceridade.
Não te aflijas que não deixarei de visitar o enfermo por falta de pagamento!
— Juro-vos que não deixareis de ser pago, pois possuo duas jóias de algum valor monetário e vou dispor de ambas para as primeiras despesas.
— Não faça tal coisa, rapaz, porque, se o doente falecer, terás que providenciar o enterro e depois como poderás voltar ao teu país?
— Vou escrever hoje mesmo a meu pai.
— Procederás com acerto, jovem, e logo irei ver o doente e opinar sobre o seu estado, que considero grave.
Decorreram mais alguns dias de grandes inquietações e o conde começou a apresentar algumas melhoras, sem qualquer perturbação mental.
O dono da Hospedaria, porém, chamou Leonel à sua presença e lhe disse com aspereza:
— O ladrão Francisco Morei desapareceu para sempre.
O enfermo já pagou a sua permanência aqui até o fim deste mês, para o qual faltam cinco dias apenas.
Quero avisá-lo de que, se não for efectuado o pagamento adiantado do próximo mês, terás que procurar outro lugar.
O proprietário da Hospedaria, que parecera agir para procurar e prender o criado infiel, mostrava-se agora impiedoso para com os hóspedes prejudicados.
João Voltaret saía desde o amanhecer em busca de outro albergue, que, após muitas horas de fadiga, foi achado e era muito humilde.
— Quando o sr. conde perceber a verdade da situação penosa em que nos encontramos será fulminado por outra mais intensa comoção cerebral! — falou o servo fiel.
— Quem sabe se o gatuno não agiu por conta do dono da Hospedaria? — pensou João, aventurando uma hipótese admissível.
— Quem poderá dar-te uma resposta acertada senão Deus?
Vou entrar em um dos templos de Argel e implorar a protecção de Jesus e a dos mártires cristãos para sairmos desta situação quase desesperadora.
Leonel Delavigne saiu e dirigiu-se para uma igreja cristã, de construção antiga e já assinalada pelo tempo, mas cujo interior oferecia um aspecto confortável, com imagens artísticas e, com os olhos inundados de lágrimas, assim orou:
— Jesus, Vós, que tanto sofrestes na Terra, compadecei-vos de mim e de meus companheiros de lutas.
Vede a nossa situação angustiosa:
longe da pátria, sem amigos e desprovidos de recursos pecuniários, e ainda tendo que agir em benefício de um infeliz doente que foi certamente atingido pelo punhal do sofrimento para abrandar-lhe o orgulho e faze-lo trabalhar pelo progresso espiritual!
Permiti, Senhor, que ele desperte novamente para a vida e para nortear sua alma para o progresso definitivo!
Permiti que ele não fique amortecido sobre um mísero leito, mas que desperte para o arrependimento, para as missões de piedade, de amparo aos que sofrem, aos que não tem pão, para que não se esqueça nunca que Vós amáveis as criancinhas, os enfermos e os desventurados!
Permiti, Amigo dos que padecem, que sejamos socorridos pelos vossos fiéis Mensageiros e decorridos alguns dias possamos regressar à França, onde nos aguardam seres queridos.
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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 01, 2018 10:03 am

Tende compaixão de nós! Restituí a lucidez espiritual ao potentado... que ficou reduzido a um mísero e humilde enfermo, recebendo o amparo dos que julgava apenas humildes servos sem mérito e sem dignidade.
Bem-compreendo, Senhor, que ele recebeu um golpe inesperado para abrandar-lhe o orgulho e a arrogância, mas Vós, que sois indulgente, compassivo e piedoso, valei-o na situação penosa em que se encontra e a seus companheiros de peregrinação terrena.
Compadecei-vos de nós, Senhor e Amigo incomparável dos que sofrem!
Abalado pelos soluços, Leonel orou por mais alguns minutos, implorando a misericórdia divina e só então resolveu regressar para onde se encontravam o conde de Debret e seu criado João Voltaret.
Ao chegar e antes de dirigir qualquer palavra ao companheiro de provas, irradiou o pensamento novamente ao Pai celestial e ao Redentor, em benefício do enfermo, que proferiu um prolongado gemido.
— Estais sentindo melhoras, sr. conde? — interpelou o jovem ao titular.
Ele descerrou os olhos, fitou tudo quanto o cercava e, com voz débil, assim falou:
— É verdade... que ainda não morri?
Que faço eu aqui, longe de Diana?
— O sr. conde tem estado seriamente enfermo, mas hoje está voltando à vida!
— respondeu Leonel.
— Pareceu-me que eu... já estava morto... quando vi a... querida Genoveva se aproximar de mim, dizendo com emoção:
“Não convém que venhas para cá... antes de remir muitas... faltas!
Houve quem orasse em teu benefício e... eu também o fiz... e tenho fé em Jesus... que irás despertar novamente para a luta da vida!
Escuta minhas palavras, Rogério, nunca mais faças o mal, nem expulses os servos do castelo que te pertence.
Se não quiserdes atender ao meu fraterno pedido...
tens que partir... para a expiação de teus crimes!”
Quando ela silenciou, ouvi um gemido... que foi o que me despertou agora.
— Graças sejam rendidas ao Pai celestial e a Jesus por haverem atendido às nossas súplicas, sr. conde.
Fui orar em um lindo templo e é provável que estivesse a meu lado o espírito da senhora condessa, desejosa também de vossa salvação espiritual!
— Agradeço-te as preces... e hei-de retribuir o que tens feito por mim!
— Não aceitarei nenhuma recompensa, pois o Magistrado Supremo é generoso para com os que cumprem os deveres morais sem ostentação e recompensa material!
— Eu, em criança, perdendo a minha mãe e pouco tempo depois o meu progenitor, não tive quem me ensinasse nenhuma religião.
Agora que vi a querida Genoveva, desejo compreender o que ocorre connosco depois que levarem o nosso corpo para a sepultura!
— Eu vos felicito, sr. conde, pelas ideias que desabrocharam em vossa alma!
Agora, voltemos à realidade.
Temos que tratar de nossa mudança para outro local.
Já escrevi a meu pai para ele vir aqui e trazer recursos pecuniários para nossa manutenção, pois nossa permanência aqui depende da vinda da quantia que nos for remetida.
Depois conversaremos.
Vou buscar um alimento para o sr. conde.
Leonel saiu do quarto e foi à procura do dono da Hospedaria que o atendeu com a mesma aspereza e assim lhe falou:
— E assim que procedeis, senhor, depois do prejuízo que tivemos por causa de um criado que devia ser vosso conhecido?
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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 01, 2018 10:04 am

— Que tenho eu com a vida dos que são pagos para me servirem?
Quero apenas saber se aqui sabem ou não fazer os serviços com perfeição.
Francisco Morei sabia trabalhar e sua falta é lamentável para mim.
— Com certeza ele voltará assim que partamos de Argel! — disse o jovem com sarcasmo.
— Que insinuação é esta, rapaz?
Agora nada há que me faça tolerar tua permanência aqui, nem de teus companheiros.
Desapareça de minha vista para que não sejas ainda castigado, ousado!
Leonel, abatido pela ofensa recebida, foi em busca do conde que o autorizou a fazer sua transferência para outra habitação por mais humilde que fosse, até chegarem os recursos pedidos na França.
Ainda mal se sustendo em pé, trôpego e curvo, o conde de Debret, amparado pelos companheiros de exílio, chegou ao local onde teria que permanecer até que pudesse voltar à sua pátria.
Quando os três penetraram no humilde refúgio que Leonel alugara por uma quantia modestíssima, o titular caiu no chão e, quando Leonel e João conseguiram erguê-lo, começou a soluçar e exclamou:
— Antes a morte do que tanto sofrimento como venho suportando.
Agora já me falta coragem para vencer a luta!
— Não vos revolteis contra o Juiz Supremo, sr. conde! — exclamou Leonel, que já estava convencido das verdades ensinadas na doutrina kardecista.
— Como podes afirmar que existe Deus?
Quem já o viu? Onde se encontra Ele?
— Sr. conde, basta que vosso olhar abranja o firmamento, os oceanos e mares, as plantas e as criaturas providas de movimento, vida e inteligência!
Quem poderá negar a sublimidade da chamada Natureza que contemplamos desde as mais belas manhãs às mais tétricas noites?
De onde vieram para este planeta os animais dos mais variados aspectos?
Quem semeia pelo solo os vegetais das mais diversas utilidades?
De onde provém o azul do chamado céu?
Quem povoou este orbe das mais diferentes raças, desde o preto africano, cor da noite, até o branco louro, cor do lírio?
Quem poderia manter os planetas, os astros e as estrelas a uma incalculável altura, todos a igual distância, sem jamais se despenhar das alturas e cair nos abismos insondáveis do Universo?
Quem faz germinar as flores, cada qual com uma cor, forma e aroma diversos?
— E quando terminarás a bela lição que certamente aprendeste com teus pais?
— Vou concluí-la agora mesmo para não vos fatigar.
— Mais tarde ouvirei, com interesse, as tuas lições de estudioso.
Todo o meu mal, que grandemente me prejudicou, foi não ter tido quem me orientasse nas questões espirituais.
És tão jovem ainda, e já estás preparado para enfrentar os problemas da vida com precisão.
Mas onde estamos?
Quem vai pagar o aluguel deste casebre?
Como poderemos fazer face às despesas decorrentes de nossa alimentação?
— Tudo será conseguido, sr. conde, quando vier o auxílio que já solicitei a meu pai.
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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 01, 2018 10:04 am

5 AS LEIS DIVINAS
A nova instalação do conde e seus companheiros de viagem à África foi quase angustiosa.
O jovem Leonel, despendendo quase tudo que possuía, dádivas de seu pai e do conde logo que chegara a Argel, adquiriu um leito modestíssimo para o titular, colchões para ele e João, alguma louça, géneros alimentícios e ficaram esperando da França os recursos pedidos, mas os dias foram transcorrendo sem nenhuma carta ser recebida.
Leonel, temendo que lhes faltasse o pão em seu desconfortável abrigo, conseguiu um humílimo serviço em uma barraca de feira mais próxima para obter algum recurso pecuniário, que, quando regressava à tarde, era entregue ao conde de Debret, que ainda não havia conseguido erguer-se do leito, tanto pelo jovem como pelo servo dedicado que dizia conseguir algumas moedas em serviços também bem humildes.
Certa noite, já recolhidos ao mísero aposento onde os dois companheiros se acomodavam para refazer as forças gastas no trabalho diário, Leonel interpelou o amigo:
— João, qual é a tua ocupação depois do jantar quando te ausentas deste albergue em que vivemos?
— Seria melhor que nunca o soubesses... para a verdade não chegar ao conhecimento do sr. conde...
— Não! Faço questão de saber em que te ocupas, pois sei que és um homem honesto e bem intencionado.
Quero saber a verdade para que faça um exacto julgamento de teu proceder.
João conservou-se silencioso, mas, diante da insistência de Leonel, baixando a voz, com os olhos inundados de lágrimas, assim falou:
— Estou implorando... esmolas onde há mais ajuntamento de gente, ora na porta dos templos, ora junto de alguma casa de diversões.
Tenho recebido muitos insultos que mal compreendo, pois quem nos dirige quase sempre não é conterrâneo nosso!
Valha-nos Deus!
Como está sendo esmagado o orgulho do desditoso conde! — exclamou Leonel, também com os olhos marejados de lágrimas.
Será que não percebe ele a nossa dolorosa situação?
Que fará quando souber toda a extensão da deplorável verdade?
— Aguardemos o final do drama de nossa vida, Leonel!
Nunca pensei que chegasse a uma situação tão penosa!
— Resignemo-nos com as provas pelas quais ora passamos.
Só Deus sabe a verdade e por que está sendo experimentada a nossa coragem também a nossa resignação!
— Se não vierem os recursos que pedimos ao Solar de Diana, como procederemos então? — perguntou João ao seu companheiro de lutas.
— Resolverei a situação dispondo de um anel e de um alfinete de gravata que me foram doados pelo meu padrinho, homem rico, antes de sua partida para o Além.
Só espero é ficar o sr. conde em condições de viajar novamente.
E os dois fiéis companheiros do conde continuaram a esforçar-se com heroísmo para que não lhe faltassem remédios e alimentos, e os dias foram transcorrendo sem que viessem quaisquer notícias da França.
— Escuta-me, Leonel — disse ao jovem certa tarde o dedicado João, quase ao partir para os lugares em que pudesse angariar algumas moedas para suavizar a penosa situação em que se achavam.
— Que desejas falar-me, João? — indagou o filho do professor Delavigne.
— Ontem, estando eu com a mão estendida a suplicar auxílio aos transeuntes, vi um caminhante que repentinamente fraquejou e caiu na rua.
Aproximei-me dele, arranjei água na casa mais próxima e consegui que se erguesse e o levei até onde mora.
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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 01, 2018 10:04 am

Ao deixá-lo, disse-me ele:
— Não sois da Argélia, não é verdade? — perguntou-me em francês, com a pronúncia alterada pelo seu idioma.
— Resido provisoriamente aqui em Argel com dois amigos até que possamos regressar a Lille, uma das cidades do Norte da França.
Então ele indagou o que pretendíamos fazer tão longe da pátria e eu lhe fiz algumas confidências.
Parecendo-me interessado pela nossa situação, falou-me assim:
— Se depende o teu regresso da saúde do que aqui veio em busca de um parente, pois então vou dar-te um conselho.
Há um herbanário que reside no extremo da cidade e que só não consegue que os enfermos, depois de mortos, ressuscitem. Estou sendo tratado por ele e já me sinto com a saúde quase recuperada.
Queres que te leve amanhã até onde reside ele?
— Sim — respondi-lhe prontamente.
E foi assim que combinamos um encontro no lugar em que caiu no chão e lamento não me poderes fazer companhia.
— Gostaria de acompanhar-te, mas bem sabes que não podemos abandonar o enfermo, que, à menor emoção, poderá morrer.
No dia seguinte ao em que se realizou este diálogo, João saiu à noite para esmolar e regressou ao pardieiro em que residia com um personagem idoso, vestido de túnica azul-marinho, o qual foi introduzido no desconfortável dormitório do conde de Debret para vê-lo e aconselhar o uso de remédios restauradores de suas forças.
Expressava ele seus pensamentos com lentidão, em uma linguagem quase incompreensível, ora em francês ora em árabe e, ao aproximar-se do enfermo, ajoelhou-se e, erguendo os braços para o alto, começou a vibrar seus pensamentos de uma forma emocionante.
O conde de Debret, estirado em seu mísero leito, não desprendia o olhar do estranho herbanário que estendeu os braços sobre ele, elevou-os após e dirigiu a seguinte súplica ao Deus dos Árabes — Alá — que os presentes puderam entender:
“Senhor!
Este irmão é um pecador e está dominado pelo espírito de seu próprio pai... que já o fez cometer um crime... pois sua companheira da existência actual...
foi levada para a sepultura...
Ela aqui se encontra toda chorosa... pois foi sempre piedosa e compassiva...
Ora está aqui... ora está perto de sua filha que se acha preocupada... com a falta de notícias deste enfermo...
Este precisa de abrandar seu génio... para conseguir melhoras de sua saúde...
Precisa de merecer o perdão de Alá e dos seres humanos... pois em caso contrário... morrerá na miséria e longe da filha... que tanto tem sofrido.
Perdoai-o, Senhor!”
Depois de se dirigir a um ser invisível que só era percebido por ele, voltou-se e disse a João:
— Prometo voltar amanhã... e trarei as ervas para restituir-lhe a saúde. Até amanhã.
Saiu o estranho personagem e, fiel ao que prometera, pouco depois do amanhecer, reapareceu levando em uma bolsa de tecido de algodão algumas ervas, ensinou como seria feita a infusão e qual a quantidade que o doente deveria tomar, ficando de voltar após dez dias para novas preces e exame geral.
João pode conseguir algumas moedas que foram entregues ao herbanário, que agradeceu sem haver contado a pequena quantia recebida.
O conde de Debret, em certo momento, confidenciou ao dedicado servo que desejava sua cura para poderem regressar à pátria.
— Como odeio o dr. Closet!
Tudo quanto tenho sofrido teve origem naquele ser maldito.
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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 01, 2018 10:04 am

Nunca concebi o pensamento de sair da França forçado ainda mais por um plebeu desclassificado para agora estar na situação de um miserável mendigo, vivendo às expensas de dois subalternos!
É horrível a minha situação!
Preferiria morrer... para acabar com esta situação humilhante!
— Perdoai-me, sr. conde - falou João, e permiti que vos diga o que me veio à mente:
viestes adquirir experiência da vida terrena!
Nascestes em berço de ouro, tivestes sempre quantias fabulosas para os vossos gastos pessoais e do Solar de Diana.
Não vos compadecestes, porém, dos míseros servos, dos que lutam com a falta de pão e de remédios e por isso estais agora longe do lar e padecendo o que vos era indiferente há poucos meses, até saímos da França.
O sr. conde deve elevar o pensamento a Deus, pedir-lhe perdão... e a que fez padecer e então a vossa vida será completamente modificada!
— Onde aprendeste estas loucas teorias, filhas da ignorância?
Pensas que hei-de crer no palhaço que esteve aqui?
— Esteve, não!
Está entrando neste pardieiro! — exclamou João, dirigindo-se à porta pela qual penetrava o herbanário que já lá estivera pela manhã.
— Salve, mestre! — saudou-o o servo fiel do conde de Debret.
Não disseste, que só voltarias aqui depois de dez dias?
Porque resolveste voltar no mesmo dia?
— Para convencer este irmão doente... que está passando por esta prova... por causa de seu orgulho e falta de crença em Alá e em seu Enviado — Jesus de Nazaré! — respondeu o recém-chegado.
O conde, que havia escutado o que ele dissera, irritou-se, dizendo-lhe:
— Não pensem os dois que estou acreditando no que houve.
Estão combinados para me iludir, mas não o conseguirão.
Não há nada na Terra que beneficie os doentes senão os remédios quando acertados com a enfermidade de que padecem.
Sou descrente em tudo.
Não procurem enganar-me!
— Meu irmão, não se altere deste modo! — exclamou em sua linguagem pitoresca o herbanário.
Quero dar-vos uma prova... para o resto da vida. Haveis de permitir que eu, sem me aproximar de vosso leito, vos faça executar o que nunca fizestes desde que chegastes à Terra?
— Quero sim, intrujão — falou o titular com irritação.
O herbanário não lhe respondeu o insulto, ajoelhou-se contrito, elevou os braços para o Alto e falou com humildade:
— Alá bem-amado, eu Vos peço para ser atendido neste momento.
Tende compaixão de todos os seres que criastes.
Vede, Senhor, este nosso irmão que não me expulsou de seu lar porque está preso ao leito, mas Vós haveis de permitir que ele reconheça que sois bom e piedoso, justo e generoso.
Permiti, Senhor, que ele se erga do leito, de alguns passos e levante os braços como eu faço neste instante.
Perdão, Senhor para todos os que aqui se acham e mormente para o enfermo.
Perdão para ele, Senhor!
— Não acredito em embustes, explorador! — gritou o conde de Debret.
— Fazei esforços para levantar-vos, Senhor!
O conde, dominado por uma força poderosa, levantou o corpo e, movido por um poder inconcebível aprumou-se no pavimento e deu alguns passos, soluçando de emoção.
— Bendito seja Alá! — falou o recém-chegado.
Graças Vós sejam dadas agora e eternamente por todos os benefícios que nos concedeis e nunca saberemos agradecer-Vos.
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