Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 02, 2018 10:47 am

Bendito seja Alá!
O conde, subitamente, inspirado a praticar o primeiro ato humilde de sua vida, aproximou-se do herbanário, enlaçou-o pelo pescoço, dizendo-lhe com a voz trémula:
— Se eu ainda viver por mais alguns dias, até reaver o que possuo, não serás esquecido!
— Muito obrigado, senhor, mas eu quero trabalhar... até meu corpo resvalar na terra e minha alma... arrojar-se pelo Espaço sem fim!
— Perdoa-me o que te disse, bom homem.
Eu te julgava um impostor, mas, de hoje em diante, virás aqui como for possível, pois quero aprender contigo as verdades que ignoro.
— Eu me compadeço dos que sofrem.
Virei aqui em breve para afastar o espírito que vos tem prejudicado e que será levado para muito longe... se não quiser ser bom para os seres humanos...
Há um espírito que vos protege e que é uma jovem muito bela...
Tem a face manchada como por uma tintura... que vai desaparecer agora.
— Já tiveste quem lhe relatasse acontecimentos da minha vida, senhor! — exclamou o conde com a voz alterada pela emoção que vibrava em sua alma.
— Estais enganado, senhor, pois este que aqui se acha, como servo e amigo, não sabe onde é a furna em que vivo... e foi por acaso que ele me encontrou quando amparava um doente que já está com a saúde recuperada.
Escutai-me:
se souberdes sofrer com resignação, e perdoar os vossos adversários, dentro de poucos dias ficareis liberto de todas as provas atuais, estareis com saúde e podereis regressar à vossa pátria... mas, em caso contrário, as vossas dores, do corpo e da alma, serão aumentadas...
Tereis que morrer nesta região, longe de vosso lar e do ser que mais prezais sobre a Terra — vossa filha!
— Considero notável tudo quanto me disseste e talvez tuas palavras façam nascer alguma fé... em minha alma, ou onde se arquivam os sentimentos humanos!
Se não estiveres faltando com a verdade, se não tiveres recebido nenhuma informação sobre minha vida... saberei recompensar-te generosamente!
— Senhor, eu vivo quase que em uma gruta, de pobreza ilimitada...
Que me vale receber moedas que não se transformarão em alegria e paz para o meu coração?
— Pois também sofres podendo melhorar as condições humanas?
— Eu vos conto a verdade, senhor.
Creio que cada ser existente, rico ou pobre, já teve outras vidas planetárias e aqui, no plano terrestre, está resgatando o que praticou de mau em outras das quais não se recorda, mas que poderá compreender pelos sofrimentos que tiver.
Casei-me com uma formosa jovem que me fez ditoso por alguns anos, criamos um filho que, depois de casado e com uma filhinha chamada Dácia, sendo ele honesto e laborioso, julgavam-no muito rico e certa noite bandidos lhe invadiram o lar, tirando-lhe a vida, a da esposa e a de minha companheira de existência.
Ficou somente a netinha, Dácia, que já está com quinze anos de idade e vive a meu lado, suportando todas as misérias de nossa vida.
Quantas vezes chego ao nosso lar... sem levar sequer uma fruta para seu alimento!
Vamos assim padecendo até que sejam minoradas as nossas provações!
— Como podes viver assim, suportando tantos sofrimentos e necessidades?
— Tudo o que começa na Terra há de ter um limite no Céu.
Tenho certeza de que encontrarei os entes queridos que tragicamente partiram para o Além.
As recordações e as misérias terminarão... quando o meu corpo tombar na sepultura.
— Desejo minorar a tua sina, meu amigo!
— Pouco tempo terei que ficar neste planeta de sofrimentos.
O que me tortura o coração... é ter que deixar ao abandono a minha querida netinha!
— Pois bem.
Vamos combinar o que ora pensei: se vierem as pessoas que esperamos da França, se eu puder andar sem dificuldade, saberei ser generoso contigo.
Terás uma modesta habitação e, com o que adquirir, o que for necessário para teu lar.
— Eu muito vos agradeço, senhor, mas, se não puderdes realizar o que me prometestes, continuarei da mesma forma a me interessar pelo vosso destino.
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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 02, 2018 10:47 am

6 AS REVELAÇÕES
Decorreram quase dois meses após o que foi narrado anteriormente.
O herbanário, que se chamava Saul Religari, continuou a prestar o seu auxílio ao conde de Debret e, certo dia, quando o visitava, falou-lhe com reconhecida humildade:
— Senhor, vosso destino, que parecia estacionado, vai ser modificado.
Vão chegar seres amigos em vossa procura e a um deles não consagrais nenhuma afeição, mas crede que ele muito vos beneficiou.
Sem ele, teríeis um futuro angustioso, cheio de trevas.
Foi ele quem despertou vossa alma para aproximar-se de Deus.
Não o amaldiçoeis, senhor, mas abençoai os vossos padecimentos que hão-de dar-vos melhorias até que tenhais que partir para mundos ditosos... e tereis saudades de tudo quanto sofrestes na Terra.
Abrandai o vosso génio impulsivo, senhor.
Vós sois bondoso, mas há um espírito que exerce domínio sobre o vosso e vos tem forçado à prática de muitos delitos, mas se de agora para o futuro, abrandar o vosso orgulho, exercendo a caridade e perdoando os que vos ofenderem... sereis liberto dele.
Se receberdes como filhos de Deus os que virão a vosso abrigo actual no dia seguinte podereis erguer-vos do leito e segui-los para onde vos aprouver!
— Dá-me a tua moradia, amigo, onde irá o fiel João chamar-te à nossa presença para que sejas recompensado, pois sei que eles virão com uma quantia suficiente para as despesas da viagem e para o que for preciso.
— Virei, senhor, sem que se dirija alguém a meu pobre abrigo, mas, como desejo que não penseis que esteja ocultando o local em que vivo com a minha netinha, vou explicar a meu amigo João onde me escondo... dos ricos e orgulhosos.
O herbanário retirou-se e o conde de Debret ficou meditando sobre tudo quanto ouvira.
Com aquele obscuro indiano adquirira tantos conhecimentos que devassavam o futuro de qualquer ser humano?
Por que algumas criaturas recebiam tantas orientações úteis à humanidade e outras não desvendavam nem um minuto do dia seguinte?
Que faculdades possui esse humilde homem que receitava, com verdadeira segurança, remédios que curavam os que padeciam dores do corpo e da alma, se é que essa existe realmente?
Quem seria o seu dominador? Por que sempre que queria desvendá-lo... lembrava-se de seu arrogante e cruel progenitor?
Por que o fazia padecer tanto?
Ao findar daquele dia em que o herbanário fizera diversas revelações, o conde de Debret tivera um sono profundo, o que há muito não lhe sucedia.
Viu-se ele, inesperadamente, no Solar de Diana, mas no tempo de sua primeira infância, ainda dominado pelo seu cruel progenitor, e muitos dos servos que ainda lá viviam.
Seu avô, que também era titular, expedia, a todos os instantes, ordens autoritárias aos pobres e infelizes serviçais.
Certo dia saiu subitamente do solar e dirigiu-se para perto de um templo... para contemplar uma jovem, de notável formosura, que ia à missa em companhia de seu esposo.
Ele avançou para o marido e quis apunhalá-lo, mas não conseguiu o seu intento, pois foi agredido e aprisionado por diversos populares.
O que causou forte impressão a Rogério Benoit foi que a jovem, que se achava na igreja com o esposo, era o retrato fiel de sua esposa, morta tragicamente... por sua causa.
Como não entendesse semelhante coincidência, ouviu alguém falar:
— Já não te lembras mais daquela época, Rogério, mas eu, um dos teus guias espirituais, posso esclarecer a verdade.
Aqueles que vistes em um templo... eram os genitores de Genoveva, pobres mas felizes.
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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 02, 2018 10:47 am

Apareceram assassinados certa noite, em seu próprio lar, deixando aquela linda filhinha, que foi baptizada com o nome de Genoveva e anos após se casou contigo... contra a vontade do espirito do teu progenitor, que foi o inspirador do assassínio de teus sogros.
Eis por que, ele, no plano espiritual, tendo-se suicidado sem que ninguém o suspeitasse, passou a te dominar e, por isso, foste tão infeliz sob o domínio incessante desse orgulhoso e prepotente antepassado teu.
Ficaste, desde a primeira infância, sem teus pais, porque tua mãe não pode resistir aos dissabores que o esposo lhe causara e morreu subitamente, ingerindo um tóxico mortal, tal como aconteceu à tua recente companheira de existência terrena, e teu pai, pouco depois da dolorosa ocorrência, que ficou impune, também pôs termo à vida terrena, pensando que o conseguiria, mas viu que lhe sucedeu justamente o contrário.
Ainda dominado pelo orgulho e pela vingança, não desejava que desposasses a filha da jovem que ele cobiçara.
Assim, o espírito de teu pai tem sido o causador de teus mais acerbos infortúnios e de actos de crueldades, os quais devias ter repelido como injunções perversas e indignas, mas tu o obedeceste e as executaste.
Agora, de acordo com a Justiça Divina, vai ele ser retirado de tua presença, se souberes bem cumprir o que for determinado pelo Juiz Supremo.
Não procures mais transgredir as leis celestes.
Humilha-te, pois, e ergue os teus pensamentos para o Omnipotente, implorando-lhe perdão para a tua alma e a de teu pai... e sentirás grande alívio em teus grandes sofrimentos morais e físicos.
Sou um dos teus guias espirituais, segui os teus passos desde o teu retomo a este planeta de provações e pretendo alçar-te comigo às paragens siderais.
Não desejo que fracasses mais e agora eu te previno que se continuares impaciente, odiando o próximo, desejando vingar-se do dr. Januário Closet, que é um homem digno de tua amizade, pois o que ele te impôs só se reverterá em eternos benefícios para a tua alma de transgressor das Leis Divinas, só te prejudicarás.
O que ele pôs em execução foi o teu afastamento da opulência e da prepotência, fazendo-te conhecer como vivem os humildes, os que não tem e nunca tiveram abastança, a fim de que, quando regressares ao teu solar, não cometas mais os crimes morais que tens praticado ali, onde chora a piedosa Diana.
Ouviste bem o que te transmiti, irmão?
— Sim — respondeu o conde com a voz esmaecida.
— Queres ainda regressar à França?
— Sim! — acrescentou com incontida alegria.
— Pois bem, então não transgridas mais os decretos celestiais, evitando qualquer violência que te será fatal!
— Não seria melhor que me transformásseis apenas em um punhado de cinzas... que terminásseis para sempre com a minha vida?
— Não, infeliz!
Por mais angustiosa que seja a vida de um ser humano ou por mais que padeça no plano terreno, tem ele, por futuro, a verdadeira felicidade, a ausência da dor e a moradia em planetas maravilhosos cuja descrição jamais
seria acreditada por ti!
No entanto, meu amigo, para essa conquista surpreendente nada mais deve a criatura humana senão crer na Providência Divina, no poder benéfico do Factor Universal, nos progressos moral e espiritual, no trabalho honesto por mais humilde que seja e pela aquisição da virtude que é remate de todas as provas terrenas!
— Como pode um ser humano fazer semelhantes conquistas senão em milénios e, no entanto, raros são os que ultrapassam meio século?
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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 02, 2018 10:47 am

— Não me refiro à vida terrena de cada ser humano, mas a que transcorre, durante séculos, em diversos avatares, isto é, em reencarnações sucessivas!
Conservarás na memória o que acabo de expor-te e não transgridas mais nenhum dever moral, por mais que sofras com a sua execução.
Quero conseguir a vitória almejada por todo ser investido em nobre e difícil missão espiritual, isto é, a de conseguir retirar alguns do pântano do vício e da maldade para as culminâncias da Fé, da Piedade, do Amor ao próximo e ao Juiz Supremo.
Vais despertar, pois a alvorada já raiou.
Não te esqueças de meus salutares conselhos que hão-de levar-te à verdadeira felicidade: a ausência de remorsos e ódios e sua inclusão em belos orbes siderais, cujos esplendores nenhum ser humano poderá fantasiar por mais que se esforce. Até breve!
Despertou o conde surpreso, julgando haver enlouquecido por algumas horas.
Durante o dia que transcorreu, após a mencionada revelação espiritual, readquiriu ele alguma serenidade mental e, como sempre acontecia, ordenou a Leonel Delavigne que fosse sindicar se havia chegado alguma carta da França, incumbência sempre de resposta negativa.
Desalentado, ao regressar, certa vez, à sua humilde residência, disse Leonel ao conde:
— Senhor, a última carta que dirigimos para o Solar de Diana foi quando ainda não havíamos saído da hospedaria em que fostes roubado, portanto ainda não comunicamos aos nossos entes queridos que nos achamos nos arredores de Argel.
Quem sabe se a correspondência tem ido para lá e o seu dono, homem sem escrúpulo, a abriu com fins escusos?
— Não deixas de ter razão, pois o que ali aconteceu não deixa dúvidas de que ainda possamos ser vítimas de novos furtos de dinheiro a nós enviado!
— Esperemos mais alguns dias, sr. conde, continuou Leonel, e, se dentro em breve não chegarem notícias da França, pretendo dispor de uma jóia ofertada em meu aniversário pelos meus queridos pais e partirei para lá com o fim de providenciar sobre o vosso regresso e o de João.
— Sim. Aprovo teu projecto, que é bem sensato, a fim de sairmos, de uma vez, deste exílio angustioso.
Contra a expectativa de ambos, subitamente, com os estafantes esforços feitos, Leonel enfermou e foi necessário empenhar a jóia, objecto de seu projecto de volta à França, sendo preciso sair João em busca do herbanário que custou a ser encontrado.
Finalmente, certo dia, chegou o adepto de Alá ao paupérrimo tugúrio em que moravam os três exilados e assim falou:
— Não é nada de grave, meu irmão, disse o humilde amigo daqueles seres em provações.
Vou aconselhar o uso de algumas plantas que serão encontradas na feira, em uma barraca um pouco isolada, mais para o lado do sol nascente, na qual se vendem ervas medicinais que curam a febre e fortalecem o organismo.
Vamos, João.
Eu irei contigo para a aquisição dos remédios, mas antes quero revelar pela derradeira vez o que vai suceder:
não tarda o fim do exílio de todos os três neste país africano!
— Peço-te que me esclareças melhor o que vai suceder, Saul — pediu o conde.
Estou muito preocupado e antevejo algo mais de desolador aqui onde nos achamos.
— Nunca devemos pensar no pior... a fim de não atrairmos o mau, o que não desejamos aconteça.
— O que está me causando uma grande preocupação... é a falta de verba para as nossas despesas... e a mim que, desde a infância, sempre tive incalculáveis importâncias ao meu dispor.
Hei-de maldizer o servo infiel que furtou o dinheiro que tínhamos para as nossas necessidades neste país estranho!
— Nunca amaldiçoeis os que vos causarem prejuízos e mágoas, pois quase sempre o que ocorre nesta existência é uma repercussão do passado...
— Como podes afirmar, com tanta segurança, o que disseste?
Que é que te leva a crer nas vidas sucessivas?
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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 02, 2018 10:47 am

— Tudo nos faz acreditar, senhor, na multiplicidade das vidas terrenas.
Se todos tivessem uma só existência, seria igual o destino de todos os seres pensantes, no entanto quão diversa é a sina de cada um... às vezes no mesmo lar!
Vós, que lamentais o furto de uma quantia que vos garantia a manutenção e o conforto longe da pátria, deveis ter ocasionado igual prejuízo a qualquer infeliz em passada existência terrena.
Também o infeliz que vos furtou não escapará da Justiça Divina.
Por isso, Senhor, é que somos experimentados quando ficamos na miséria, na dependência de nosso próximo.
Se já saciamos a fome dos famintos, encontraremos quem nos estenda as suas mãos generosas... e nos mitigue a fome e a sede.
— Vós, que nascestes na opulência, tendes faltado com a piedade... expulsando de vosso majestoso castelo humildes e desventurados servos... reduzidos à penúria, vendo os filhinhos famintos e desabrigados...
Meditai bem, senhor, no que fizestes na França e implorai perdão ao Pai Celestial.
— Que certeza podemos ter do que disseste, talvez por informações... dos que nos estão escutando?
— Não sejais injusto, senhor, pois eles são vossos verdadeiros amigos.
Escutai-me, senhor!
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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 02, 2018 10:48 am

7 IMORTALIDADE DA ALMA
O herbanário, aproximando-se do mísero leito do conde de Debret, sentou-se em desconfortante caixote e, depois de uma vibrante prece em benefício dos presentes, assim falou com voz suave:
— Senhor, a melhor prova que vos possa convencer é a seguinte:
não se passarão muitas horas para que a verdade surja luminosamente.
Vou aplicar os remédios de que necessita o irmão enfermo que, até amanhã, já terá experimentado melhoras reanimadoras, mas ainda não ficará em condições de trabalhar.
Decorridos três dias, João encontrará, inesperadamente, dois sinceros amigos de todos vós, embora tenhais dúvida quanto à sinceridade de um deles...
No entanto, podeis crer que, na Terra, foi e será ele o vosso melhor afeiçoado, pois, fazendo-vos sofrer, libertou-vos de dores inenarráveis no futuro!
Deveis recebê-lo com prazer e gratidão.
Vossa alegria será tão intensa ao lembrar-vos de que ides regressar à vossa terra... que recobrareis as forças perdidas e vos erguereis do leito de sofrimento.
Essa é a prova que vos darei de minha sinceridade e, no momento preciso, aqui estarei pela derradeira vez, em vossa presença, na vida que transcorre.
Chegarei aqui justamente quando os vossos amigos descobrirem o vosso amigo e, no caso contrário, ajoelhar-me-ei e vos entregarei um punhal para golpear o meu coração!
— Enganai-vos, amigo.
Se eles não chegarem, para que eu não continue a sofrer tanto, sendo humilhado e insultado, o golpe não será dado em vosso coração... mas no meu, já exausto de tantos padecimentos!
— Não pronuncieis loucuras, senhor.
Suplicai perdão ao Pai Celestial... ou a Alá, que nos ouve por intermédio de seus fiéis Mensageiros.
Ninguém sofre sem justa causa e nosso destino é lavrado de acordo com as leis divinas que são decretos celestiais.
Quanto mais revoltardes contra o sofrimento mais provas tereis que padecer.
— Mas eu não posso crer que tenhamos mais de uma vida, Saul.
Que é que prova essa teoria arraigada na alma dos crentes na imortalidade de alma?
— Senhor, tudo nos faz crer nesta verdade, pois o próprio Jesus de Nazaré, cujos adeptos se contam hoje aos milhões neste planeta, disse a um dos apóstolos, quando lhe perguntou:
— Que faremos nós para vermos a face de nosso Pai que está no Céu?
— Na verdade vos digo que, para tal suceder, tereis de nascer muitas vezes!
— Mas, como poderemos nascer outras vezes, depois que formos sepultados?
— A alma é que reproduz outro corpo — falou o Mestre por outras palavras, mas cuja interpretação é a que acabo de expor-vos.
Assim dizendo, seguido de João, o herbanário se retirou do tugúrio do desditoso conde de Debret, voltando em limitado tempo com diversas plantas.
Leonel Delavigne, ao revê-lo, falou com emoção:
— Já me sinto melhor, desde que aqui penetrastes, mas não podia expressar os meus pensamentos.
Estou muito preocupado com a falta de dinheiro para as despesas, pois eu estava recebendo uma quantia reduzida, mas que me auxiliava nas despesas deste modesto lar.
— Não te preocupes, jovem, pois não terás mais necessidade de regressar ao emprego em que te ocupavas.
— Quer isto dizer... que vou morrer?
— Não! Seria cruel se tal dissesse em vez de te encorajar.
Não terás mais necessidade de te sacrificar, pois o termo de tua prova está próximo.
Deixo contigo uma pequena quantia que já me poderás restituir dentro de três dias, quando os entes queridos tiverem chegado a este modesto lar.
— Que Deus vos abençoe, generoso Saul.
Terás valiosa recompensa.
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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 02, 2018 10:48 am

Bem sei como agirei para gratificar-te dignamente, assim que me erguer deste colchão, pois irei dispor de uma jóia que ainda me resta para o nosso regresso à França e para recompensar-te, Saul!
Mas disseste que tens uma neta que não tem outro amparo senão o teu.
Hás de, pois, aceitar o que te posso ofertar bem como o doente, embora furtado nos seus haveres.
— Escuta o que te vou falar, jovem:
amanhã já poderás te erguer do local em que te encontras.
Terás dois dias de repouso e após eu virei para sair contigo, já que os bons amigos que esperas deverão ter chegado a Argel e ainda sem saberem o que sucedeu aos que aqui se encontram talvez procurem o mesmo abrigo e sejam vítimas da mesma velhacaria.
— Tens toda a razão, Saul.
Espero, pois, que aqui me encontres daqui a três dias.
O herbanário retirou-se e foi agir para levar víveres para a sua netinha, uma formosa adolescente de catorze anos de idade, quando no local de onde partira ficavam o conde e seus dois companheiros, cheios de tristezas e preocupações que muito os acabrunhavam.
— Nunca poderíamos pensar que tantos sofrimentos nos assediassem como agora! — disse Leonel.
— Às vezes, Leonel, chego a pensar no que te parece uma loucura: que o herbanário seja um espião dos que tanto nos prejudicaram!
— Não o creio, sr. conde, e deveis evitar pensar o que me disseste, pois ele penetra em nossas mentes e devassa os nossos segredos!
— Bem. Não deixas de ter razão.
Quando ele cá voltar, vamos observar se ele recebeu ou não os pensamentos que acabei de expender.
Que é que nos sucederá se os amigos anunciados aqui não chegarem?
— Esperemos o que foi previsto, sr. conde, e então saberei como resolver a situação.
Vereis que tenho um plano seguro para não prolongar indefinidamente o nosso sofrimento, embora saiba que não padecemos sem causa justa e legal, pois Deus é o Magistrado Supremo.
— Todos o dizem, mas ninguém poderá afirmar e provar a acção benéfica do Juiz que se oculta no esplendor dos astros e do céu azul!
— Tudo Lhe pertence, Senhor, e, portanto, esforcemo-nos para que mereçamos suas bênçãos, sua protecção e seu luminoso perdão.
Decorreram três dias, ansiosamente esperados pelos que se encontravam em penosa situação.
Leonel, que não pudera adormecer, ergueu-se cedo e ajoelhando-se no chão, começou a vibrar uma ardente prece dirigida ao Criador do Universo e a Jesus.
— Por que ficaste tão emocionado? — perguntou-lhe o conde.
— Porque julguei ouvir a voz de meu querido pai e creio que hoje se decidirá o nosso destino.
— Quisera possuir a tua fé, Leonel.
— Escuta-me, porém, já que te tornaste um verdadeiro filho nos momentos deste exílio:
hoje se não tivermos as decisões desejadas, eu não terei mais ânimo para sofrer, esperar, acalentar uma esperança ilusória.
Tu e João partirão para a França depois de vender a jóia que possuis, mas, antes, adquirirás um combustível e porás fogo nesta maldita mansarda.
— Que dissestes, senhor?
Então me julgas com o ânimo de matar alguém que acaba de considerar-me filho e partir para a nossa pátria, em vez de ficar aqui
cumprindo o meu destino?
— Serei eu o assassino de mim mesmo... e tu somente obedecerás à minha suprema vontade!
— Sr. conde, eu, pela idade que tenho, poderia ser vosso filho, mas haveis de escutar os meus conselhos paternais... se assim posso me expressar.
Não julgueis que, se eu vos obedecesse, ficaríeis livre dos sofrimentos terrenos... que seriam, centuplicados no plano espiritual.
Vós me tornaríeis um desventurado, um homem sem tranquilidade para suportar os embates da vida.
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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 02, 2018 10:48 am

Deus, o Sumo Juiz Universal, julga a todos com a mais justa e completa imparcialidade.
Quem elabora a luz eterna, inextinguível, dos sóis do Universo?
Quem faz germinar as sementes, transformando-as em arbustos, em gigantescas árvores, em flores de todos os matizes e perfumes?
Quem fornece para cada alma um organismo que contém vida exuberante e pode produzir outros seres iguais e sobretudo cada um com ideias e pensamentos diversos, como nos sucede neste momento, não pode, sr. conde, faltar com as suas promessas que jazem no âmago de nossas almas que são fracções do próprio Omnipotente!
Não compreendeis, senhor, que ele não quer o nosso sofrimento sem um objectivo nobilíssimo:
a nossa perfeição espiritual com a aquisição das coisas mais meritórias da vida planetária:
a bondade, a piedade, o amor ao próximo, aos que padecem, enfim, todas as virtudes e conhecimentos úteis e, para que os possamos conquistar, temos por futuro os milénios, séculos e mais séculos.
— Belas são as tuas teorias, Leonel, mas a nossa situação... ainda não foi resolvida!
— Esperemos mais algumas horas.
Hoje já sinto a disposição necessária para erguer-me do leito e seguir o inesperado amigo que ficou de voltar à tarde.
— E se ele não aparecer mais?
— Só se já estiver na sepultura!
— E a única esperança que nos resta.
E se esta não se concretizar?
— Tal não sucederá.
Saul é um inspirado do Céu.
Confio nele sem restrições!
Leonel desapareceu por alguns momentos para surgir logo depois com a melhor roupa que possuía, calçado e pronto a atender o convite de Saul para saírem em busca dos seres queridos que, segundo sua profecia, deviam ter chegado naquele dia a Argel. Nesse ínterim, João aproximou-se de Leonel e lhe disse em tom velado:
— Vais sair, Leonel, e eu também.
Tenho urgente necessidade de conseguir... algum auxílio... para comprar alimentos para amanhã.
Estamos desprevenidos... de quaisquer recursos pecuniários...
Se eles não chegarem hoje, amanhã disporei de preciosa jóia que possuo e voltarei a escrever, com urgência, a meu pai.
O conde, que ouvira a conversa dos seus dois companheiros, estranhou as palavras de João, dizendo-lhe com angústia:
Porque só trabalhas à tarde ou à noite?
Qual é o género de serviço em que te ocupas quando sais e voltas a horas tardias da noite?
Eu... auxilio um vendedor de gulodices nas proximidades dos circos... e ele reparte comigo os lucros obtidos.
Hoje, porém, percebo que não poderei ir... para não vos deixar só.
— Estou duvidando de tua sinceridade, João!
A minha humilhação chegou ao auge.
Estou quase enlouquecendo ao pensar que eu, opulento e nobre, estou à mercê de um servo fiel que pede esmolas para nossa alimentação!
Um soluço abafado saiu do peito do ilustre titular, cuja dor não tinha limites:
— Leonel — chamou ele, com angústia.
Adquire um veneno violento... para eu por termo ao meu tormento!
Amanhã, ambos estarão livres... e eu também.
— Estais iludido, sr. conde.
Se tal fizermos, eu e João estaremos contribuindo para o vosso suicídio e seríamos perversos delinquentes perante a justiça da Terra e do Céu.
Não poderíamos ter mais serenidade em nossas almas!
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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

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E, ai de vós, sr. conde, pois a morte só é repouso espiritual através de séculos de sofrimentos bem suportados.
Se tal fizéssemos, os nossos sofrimentos terrenos e espirituais seriam aumentados.
Tendo fé e esperai mais alguns dias.
—Nunca! Nunca! O herbanário não falou a verdade.
Ele nos enganou. Nunca mais verei a França.
— Ouvi as vossas palavras, senhor — falou alguém do lado exterior da mansarda.
— Quem falou lá fora? — perguntou o conde a seus companheiros de infortúnio.
— Deve ser Saul Religari.
Estais compreendendo quanto é ele cumpridor de seus compromissos — respondeu o jovem Leonel ao conde de Debret, com patente censura na voz.
— Não o deixem entrar! — exclamou o conde, caindo sobre o mísero leito.
— Já me encontro a vosso lado, senhor, para assistir à vossa felicidade dentro de poucas horas apenas.
Não fugi à responsabilidade de minha palavra!
Voltei para falar-vos pela última vez, pois breve regressareis à França, sentindo-vos felizes, após tantos sofrimentos.
— Nunca mais serei feliz, Saul, depois de tantos sofrimentos, de tantas humilhações deprimentes, sustentado por esmolas que João tem conseguido na rua e trabalhos humilhantes que Leonel vem suportando, acabando por adoecer.
Julgo as vezes que vou enlouquecer.
Queria terminar a minha vida para que ambos pudessem voltar sem empecilhos à terra natal.
— A humilhação não enlouquece ninguém, pois até Jesus passou por tantas provas acerbas e tudo suportou com coragem, até a morte infamante na cruz entre dois ladrões! — replicou Leonel, aproximando-se do conde de Debret e de Saul Religari, um rico e o outro paupérrimo.
— Jesus nunca foi rico e jamais pôde conhecer os benefícios da riqueza, Leonel!
— Enganai-vos, senhor, pois a vossa riqueza ficará na Terra e a de Jesus acompanhou-o no Além por séculos infindos.
Sua alma é milionária de virtudes espirituais, sua riqueza tem valor eterno no Banco Divino, não perecem com a morte do corpo.
— Os cristãos são muito fantasistas e forjam lendas inacreditáveis.
— Não Senhor — falou Saul, e hoje vereis quem fala a verdade.
Já fizestes referências desairosas à minha humilde mas honrada pessoa, mas meu dever é de perdoar sempre todas as humilhações.
Senhor, tendes adquirido preciosa experiência fora de vossa pátria e já sabeis quão penosa é a falta de dinheiro para as despesas de um lar e nunca mais haveis de despedir um pai de família que tem filhos para manter.
Não vos aconselho a proteger os ladrões, os que não querem trabalhar, mas somente viver à custa dos proprietários ricos, portanto, senhor, nunca mais dispensareis algum servo dos muitos que tendes sem lhe fornecer algum auxílio até conseguir novo emprego que o livre da fome e a todos os de sua família.
Desculpai-me se não vos falo de maneira mais cortes, pois o meu conhecimento de vossa língua é muito precário.
Desejo expressar-vos melhor o que há em minha alma, mas não encontro palavras melhores para o fazer...
— Pode expressar o que pensas com sinceridade, que havemos de ouvir-te com atenção.
— Agora não o farei, porque tenho de sair com Leonel.
— Não há inconveniência para a saúde dele?
Leonel há poucas horas é que se levantou da cama!
— Ele sairá comigo sob a protecção dos amigos invisíveis, dos que estão cumprindo ordens divinas e aqui estaremos... depois das onze horas da noite.
Não vos aflijais por sua causa.
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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 02, 2018 10:48 am

Sei que ele não se alimentou convenientemente, mas eu lhe darei alguma comida substanciosa até que regresse comigo.
Ele voltará já com outro aspecto.
— Como podes afirmar, com tanta segurança, o que disseste? — interrogou o conde a Saul, com patente dúvida na voz.
Porque, senhor, somos seguidos, do berço ao túmulo, por diversos amigos invisíveis, que nos cercam de cuidados, nos dão intuições e nos infundem verdades sublimes... que chamamos intuições.
Foi isso o que me sucedeu ... desde que penetrei neste recinto... e que será recordado pelos que aqui se encontram... durante séculos!
-- Saul, aguardo a execução do que nos tens revelado para basear a minha crença e, se tudo desmoronar em meu íntimo, porei termo à minha desditosa vida!
— Não pronuncieis mais loucuras, senhor, para que seja abreviada a vossa prova.
Antes de sair, quero que todos vibrem pensamentos ao Criador do Universo, implorando-Lhe perdão e auxílio para o fim desta prova que ora vos aflige.
Repeti comigo:
— “Deus dos cristãos, Criador miraculoso de tudo quanto existe, ouvi as nossas súplicas:
estamos sofrendo árduas provas... para o cumprimento de vossas leis incomparáveis.
Dai-nos, pois, a resistência necessária para alcançarmos o
triunfo desejado.
Perdoai, Senhor, os nossos crimes, os nossos desvios das leis supremas, iluminai as nossas almas com os faróis da Fé e da Esperança para podermos levar de vencida todos os sofrimentos terrenos.
Baixai sobre as nossas mentes as luzes da Verdade para que possamos bendizer as nossas provas e os nossos desvarios.
Permiti que, neste instante, um farol estelar penetre a sua eterna luz na alma de nosso irmão que aqui se encontra quase inerte em humilde leito a fim que seja revigorado e, após a execução de vossa sentença, que se aproxima do limite final, compreenda ele a verdade e vos implore perdão podendo faze-lo de joelhos, esquecendo o passado tenebroso e iniciando uma nova etapa de sua vida terrena, já então consagrada ao Bem, ao Perdão e à Justiça!”
— Eu te agradeço a nobreza de tuas rogativas, Saul, e, se o que prometeste for efectuado, cumprirei o que suplicaste!
Saul abraçou-o e após falou emocionado:
— Pensai em Alá ou Deus, enquanto eu e Leonel estivermos ausentes, mas não suspeiteis de que vamos fazer qualquer deslealdade convosco. Até logo!
Saíram os dois amigos e, presa de invencível emoção, o infeliz conde de Debret soluçou por momentos.
— Sr. conde, quereis que eu chame alguém para vir-nos fazer companhia?
— Não, João.
És digno de minha amizade e de minha eterna gratidão... se é que nos aguarda outra vida apôs a actual.
Se eu voltar à França, quero recompensar-te e ao jovem Leonel, generosamente.
— Senhor, perdoai-me se vos sugerir um conselho:
tudo se realizando, conforme as previsões de Saul, porque não o convidais a seguir-vos para a França?
— Não creio que ele aceite o meu convite, pois já está muito arraigado ao solo deste país.
— Não deixareis, sr. conde, de dirigir-lhe o convite, pois tinha vontade de que ele tratasse de Luisinho, que não sei se ainda estará neste mundo de sofrimentos!
O conde cerrou os olhos e, em poucos instantes, com aparência de adormecido, expeliu lágrimas que lhe umedeceram as faces empalidecidas, porém ficou em mutismo absoluto.
Transcorrida mais de uma hora, aproximou-se João, tendo na mão direita uma xícara com um alimento líquido e lhe disse com humildade:
— Senhor, nada mais pude conseguir a não ser o que vos trago:
leite com uma colher de cevada.
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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 03, 2018 9:04 am

Amanhã, porém, espero que tudo esteja modificado.
— Agradeço a tua dedicação, João, mas não aceitarei este alimento se souber que ainda estás em jejum.
— Não, senhor, eu já fiz uso de umas sobras do jantar de ontem.
Não vos preocupeis comigo, sr. conde, pois tudo faço em nome de Deus!
— Não me chames de conde, enquanto ou estiver nesta penosa e humilhante situação.
Ambos ficaram em silêncio, em absoluta escuridão, aguardando a chegada de Saul e de Leonel para que fossem recebidas as notícias que ansiosamente esperavam.
Enquanto isso, o herbanário e o jovem, que o seguia quase em silêncio, percorriam diversas ruas de Argel, observando os transeuntes, pesquisando as casas de diversões, as melhores hospedarias, alguns templos e, quase à meia noite, Leonel murmurou:
— Meu amigo, é hora de voltarmos, pois o enfermo deve estar aflito... aguardando o nosso regresso.
— Tens razão, Leonel, mas eu penso que os teus amigos... vão aparecer... decorridos alguns...
Um grito estridente abalou-os subitamente.
Estacionaram a marcha defronte da hospedaria mais famosa de Argel e, com alegria quase enlouquecedora, Leonel foi apertado nos braços carinhosos de seu pai.
— Bendito seja Alá — exclamou Saul erguendo os braços para o céu banhado pelo clarão lunar.
— Querido pai! Parece-me que vou morrer de alegria.
— Não é menor a minha felicidade, a mais intensa desta vida de preocupações — exclamou por sua vez o prof. Delavigne.
O dr. Januário, um pouco afastado dos três, tinha os olhos inundados de lágrimas.
— Porque não me escreveste, Leonel — disse o pai com a voz um tanto magoada.
— Eu o fiz, meu pai, mal chegamos a esta cidade, mas para não atrair a atenção dos passantes, vamos afastar-nos um pouco... e tudo vos revelarei.
— Estás muito abatido, meu filho.
Estiveste doente?
— Estou convalescendo de uma grave enfermidade, porém tive necessidade de sair em companhia deste modesto mas sincero amigo, o único que possuímos nesta terra.
— Porque saíram todos da hospedaria da qual recebemos uma carta violada?
— Tudo vos direi, meu pai, mas não aqui na rua.
Quero que ambos vejam... onde temos vivido... como verdadeiros párias.
Todo o dinheiro que o conde trouxe foi furtado.
Andemos, porém, que temos muito que conversar. Quero antes que conheça este nobre amigo, um humilde herbanário, que, com a protecção de Deus ou Alá, foi o meu salvador, e nos acompanhará até onde estamos vivendo.
O dr. Closet e o prof. Delavigne abraçaram então o modesto ancião, prometendo-lhe uma recompensa.
— Estou habituado à miséria, senhores, e assim terminarei a minha vida... para recomeçar outra mais proveitosa.
— Não, meu amigo, e assim o chamo porque o és de meu querido filho — disse o professor emocionado.
Tens que aceitar uma recompensa nossa ou partir connosco para a França.
— Vivo com uma netinha adorada... e não tenho ânimo para deixar esta terra quase no fim de minha actual provação.
— Desejamos que vejas uma criança em nossa pátria, a fim de dizeres de que sofre ela.
— Quando nos separarmos hoje, haveis de dar-me o nome e a moradia da criança e amanhã direi tudo como se a tivesse visto... e aconselharei os remédios de que precisa.
Os quatro puseram-se a andar, afastando-se do centro populoso, e os recém-chegados breve puderam observar o que sofreram os peregrinos longe da pátria querida.
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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 03, 2018 9:05 am

— É inacreditável o que contemplamos, Leonel — falou-lhe o pai, pois julgo que havia falta até de alimentos necessários à manutenção de todos!
— É verdade, meu pai, mas estamos nos aproximando de nosso albergue que havemos de abençoar enquanto vivermos, pois sem ele teríamos morrido de inanição em algum recanto de Argel.
Em poucas palavras, mas com emoção, Leonel relatou o sucedido, as profecias do bondoso amigo que os seguia, como se houvesse recebido um telegrama dos amigos siderais que o inspiravam e que ia levar a Fé e a esperança ao coração do impiedoso conde de Debret.
Já passava da meia noite quando chegaram ao tugúrio onde viviam os três expatriados da França.
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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 03, 2018 9:05 am

8 O PODER DA FÉ
O desditoso titular e seu fiel servidor João, depois de várias trocas de suposições, não podendo conciliar um sono tranquilizador, permutavam pensamentos ora plenos de fé, ora de descrença, nas últimas palavras do piedoso herbanário.
— Como tarda a passar a noite... onde pressinto uma sentença... que não é do plano terreno — exclamou o titular com infinita amargura na voz.
— Confiemos sempre na misericórdia divina, sr. conde, pois ela nunca falta nos momentos aflitivos como este em que nos achamos! — respondeu o humilde criado.
— E se os esperados amigos não chegarem hoje ou nunca?
Saul prometeu ou profetizou que se eles surgirem hoje, já amanhã poderei erguer-me deste mísero leito.
— Não duvideis mais, sr. conde, pois a insubmissão às leis divinas atrai sentenças mais severas.
Vamos ficar em silêncio, mas com os ouvidos bem atentos à aproximação de algum ser humano... que poderá ser quem esperamos...
Leonel, Saul e mais alguém.
— Acreditas, João, que Saul terá coragem de nos aparecer após um tremendo fracasso?
— Senhor, ficai em silêncio e elevai o pensamento a Jesus... para que Ele vos inspire as melhores resoluções. Confiemos em sua bondade inextinguível.
Ambos ficaram em mutismo profundo.
Perceberam, porém, que já devia ter passado da meia noite, sem conseguirem adormecer.
Subitamente ouviram passos que se aproximavam do pardieiro em que moravam e apuraram os ouvidos.
— Ouviste, João?
Parece-me que eles estão chegando!
— É verdade, senhor.
Vou levantar-me para abrir a porta.
Antes que o fizesse, uma vibração intensa pareceu abalar a porta da entrada.
João, já perto dela, acendeu uma vela, que iluminou frouxamente o recinto, e com rapidez a abriu, percebendo a presença de quatro seres humanos.
— Bendito seja Alá — exclamou Saul.
Os crentes sinceros jamais são enganados!
— Senhor, senhor! — exclamou João.
Vede quem está chegando!
O conde de Debret, esforçando-se por se aprumar na cama, fitou, assombrado, as pessoas do prof. Delivigne e do dr. Closet, acompanhados, o que lhe causou um abalo tão profundo que o fez perder os sentidos e cair para trás como morto.
— Deus há de ter pena de nós! — exclamou o professor, aproximando-se do mísero leito em que jazia o titular.
Vejamos depressa como restituir-lhe os movimentos e a vida!
— Vamos pedir o que desejais, senhor — disse o piedoso herbanário.
Vamos implorar o auxílio de Jesus, o médico divino.
Saul ajoelhou-se e, com a voz emocionada, assim expressou os seus pensamentos:
— Senhor de todo o Universo, aqui se encontram obscuros filhos vossos que desejam a Vossa Presença para iluminar as nossas almas de pecadores.
Acolhei, em nome de Jesus, as nossas súplicas como se estivésseis neste humilde recinto... que tão abençoado tem sido para três filhos vossos... que desejam reunir-se ao vosso rebanho infinito... por todos os séculos futuros!
Despertai nosso irmão que tombou de emoção e que precisa conhecer a extensão de sua felicidade!
Vai ele conhecer a vida sob outro aspecto, pois, desde este momento, foi aceso a lâmpada da resignação, da piedade, do amor ao próximo, do perdão para os seus adversários.
Abençoai, também, Pai Misericordioso, todos os que se acham aqui congregados e lançai sobre as nossas almas as vossas bênçãos estelares!
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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 03, 2018 9:05 am

Permiti, Senhor, que jamais os que se acham neste humilde mas bendito recinto fraquejem nos momentos decisivos de acerbas provações terrenas, nem se desviem do carreiro do Bem e da Redenção que os levará às paragens siderais até à Vossa Presença.
Abençoai-nos, Senhor misericordioso, e a todos os seres humanos!”
Quando o piedoso herbanário se ergueu do solo, encaminhou-se mais para a proximidade do enfermo, estendeu os braços sobre o seu corpo rígido, dizendo com bondade e energia:
“Irmão, chegou o momento sagrado de vosso despertar para uma vida que será bendita pelos seres humanos e por Deus.
Convergi vosso pensamento para o Juiz Supremo para que Ele vos perdoe e ao cruel adversário que, por tempo incalculável, vos tem forçado à prática do mal.
Sua vingança atingiu o limite, pois os Mensageiros divinos aqui presentes jamais consentirão que o nosso irmão amortecido pela emoção pratique mais um ato menos digno.
Afastai-vos, infeliz adversário deste nosso irmão... que terminou a sua mais acerba provação terrena. Ide-vos, desditoso irmão, até que ambos se reconciliem por todo o sempre.
Emissários divinos, despertai o irmão que está amortecido neste leito e retirai os seus mais impiedosos adversários espirituais... para que eles, doravante, resgatem os seus delitos e se aproximem do magnânimo Magistrado Universal!”
Depois que o bondoso e humilde herbanário moveu por diversas vezes as suas mãos benéficas sobre o corpo inerte do conde de Debret, este se ergueu, sentou-se e disse com emoção indescritível:
— Senti que foram retirados de meu corpo... diversos atilhos... que me jungiam ao leito.
Nunca senti tão grande alívio.
Amigo Saul, devo-te a vida.
Quero que me acompanhes à França.
Quero que vivas ao meu lado e de minha querida Diana!
— Amanhã, senhor, eu vos darei uma resposta definitiva.
Já viste os nossos amigos que chegaram de vossa pátria?
— Que disseste?
Estão eles neste mísero recinto?
Julgo que fiquei cego... de emoção.
Nunca é completa a ventura humana!
O conde ocultou a fronte com a mão direita e, soluçante, deixou que lágrimas em profusão jorrassem dos seus olhos obscurecidos pela emoção.
— Benditas lágrimas que vão restituir a vida ao vosso corpo, pois já raiou a luz solar em vossa alma:
arrependimento de tudo quanto fizestes os nossos irmãos padecerem.
Descobrir os olhos e erguei as mãos para o alto, o Céu, implorando perdão ao Juiz do Universo!
— Perdão! Compadecei-vos deste mísero delinquente, Vós que estais embuçado nas nuvens que ocultam as estrelas mais deslumbrantes!
— Deus que se compadeça de todos nós, sr. conde! — exclamou o professor.
— Quem vejo eu?
Vós, professor Delavigne?
E... este que se aproxima de mim?
Não estarei louco?
Não, não posso perdoar a quem me fez sofrer tanto, dr. Closet — falou o infeliz titular, quase enlouquecido de emoção.
Nunca... vos perdoarei... as humilhações que me fizestes passar. Num...
— Não termineis palavras tão loucas, senhor - disse o herbanário com energia.
Se continuardes a odiar os que vos fizeram sofrer... em vosso próprio benefício... eu vos abandonarei e jamais haveis de levantar-vos, por vossa vontade, deste humilde leito.
Ao contrário, se, neste momento, perdoardes aos que vos fizeram padecer... para vosso progresso espiritual... ides aprumar-vos neste leito... quando o Sol aparecer no horizonte.
Decidi vosso destino, senhor — disse o crente de Alá, com ênfase desconhecida.
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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 03, 2018 9:05 am

O dr. Closet, abeirando-se da cama do titular, falou com voz cheia de emoção:
— Senhor, o que vos fiz sofrer... foi em vosso proveito. Nunca, porém, pensei que o destino colaborasse comigo, como acabo de verificar.
Senhor, vosso orgulho ultrapassava os limites da possibilidade.
Levastes para o túmulo a vossa infortunada companheira de existência e cometeríeis outras faltas se não houvesse uma repressão conveniente.
Lembrei-me, pois, inspirado pelos Emissários divinos, de afastar-vos da opulência do próprio lar, da filha idolatrada e dos fiéis servidores.
Nunca, porém, imaginei que houvésseis padecido tanto, que fosseis roubado em avultada quantia, a fim de ficardes na situação penosa... em que vos acabamos de encontrar, para que aquilatásseis o que é a miséria.
Quando Deus permitir o vosso regresso, desejo levar-vos onde vive uma criaturinha adorável, que ficou em estado quase desesperador e que já teria morrido não fosse a piedade de vossa própria filha, tão boa como a mãe.
Eu e o professor Delavigne, compadecidos de vossos sofrimentos e os de vossos abnegados companheiros, chegamos a este país para acabar com os vossos sofrimentos e para vos levar para junto de vossa filha que vive com os olhos cheios de lágrimas desde que vos ausentastes da França bem-amada.
Cessou o vosso suplício, senhor.
Eu não vos odeio, pois foste norteado para Deus.
Ouvistes o que vos revelei e o que vos aconselhou este inspirado das verdades celestiais.
Escutai-o e não desobedeçais às suas palavras benditas!
— Obrigado, senhor.
Eu já disse ao enfermo o que me foi inspirado por um grande amigo invisível.
Quero agora ouvir as palavras deste grande sofredor.
Já perdoastes quem vos fez sofrer em vosso próprio proveito?
— Não posso crer que me fizésseis sofrer tanto em benefício de minha... alma!
— Sim — respondeu o dr. Januário.
Tive pena de vossa adorável e infeliz filha, da qual não percebíeis as lágrimas de dor pelo falecimento de sua virtuosa e desventurada mãe, cuja morte não é preciso dizer quem causou. Continuáveis com a mesma arrogância, expulsando de um casebre um misero pai de família que não pode trabalhar no dia em que o seu filhinho estava muito doente e sem dinheiro para um médico.
Foi Diana quem lhe valeu naquela situação desesperadora e continua a amparar os infelizes que não tem fortuna como a vossa, não para a prática do Bem, mas a do despotismo e da impiedade, Compadecido do sofrimento de vossa piedosa filha, cuja vida atribulada eu não desconhecia por intermédio de um servo dedicado, resolvi o que já sabeis ter acontecido.
Julguei, porém, que fósseis menos infeliz, que estivésseis em confortável hospedaria, jamais concebendo a realidade de vossa situação que ora se patenteia a nossos olhos.
Já conhecemos as vossas angústias, porém, qualquer reacção quando fostes furtado, resultaria no sacrifício de vossa vida.
— Hoje lamento que tal não houvesse sucedido! — exclamou o enfermo.
Preferia a morte a ter continuado no plano material passando tantas decepções e tantas provas humilhantes!
— Porque assim conjecturais, eu bem compreendo, senhor — falou o dr. Januário.
Pensais que a vida termina na sepultura, mas estais iludido: ela se intensifica com a liberdade da alma que deixa a matéria para cindir o Espaço, mas não ascenderá às paragens luminosas do Universo senão depois de se libertar do peso inconcebível das faltas e injustiças cometidas na Terra.
Foi o que calculei e parecendo impiedoso, agi para que viésseis à África, ficando longe do lar, sem a ostentação do Solar de Diana, para resgatar do orgulho e da maldade.
Fui auxiliado pelo Alto em minhas pretensões.
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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 03, 2018 9:05 am

A punição foi incalculável, mas, assim mesmo não vos faltou o auxílio de três amigos preciosos:
Leonel, João e Saul, que eu sei ser um dos agentes receptores de mensagens siderais, apesar de sua modesta aparência.
Chegou, pois, o fim de vossa provação, se for grato às lições recebidas em Argel.
— Eu também desejo externar os meus pensamentos, senhor — exclamou Saul, fitando o dr. Januário.
— Podes falar o que te aprouver — disse o médico, com fraternidade.
— Se ele não perdoar os que julga seus adversários, não pedir perdão ao Juiz Supremo do Universo, não se levantará jamais deste leito, mas, se seguir os nossos conselhos, ao terminar esta noite memorável, vai poder erguer-se e andar como outrora.
— Quero verificar se não és um embusteiro, Saul.
Quero verificar se estão ou não faltando com a verdade.
Vou, neste instante, implorar perdão ao Factor do Universo e, com bastante sacrifício, o dos que tenho feito sofrer... mas, se for ludibriado, prefiro morrer, pois não haverá nenhum poder que me faça ingerir mais um cálice d’água.
— Assim não sereis atendido, senhor — falou o herbanário com energia.
— Senhor — disse então o professor Delavinge, com afectuosa entonação — nunca pudestes duvidar de minha sinceridade.
Chegou o momento de provardes que me tendes algum afecto fraternal:
elevai os vossos pensamentos à Majestade Suprema do Universo e, com a alma contrita, dizei:
“Perdoai-me, Senhor e Pai, como em perdoo os meus ofensores, todos os que me tem feito sofrer dores e outras provas rudes.
Quero alijar de meu espírito as máculas de faltas morais desta e de passadas existências.
Depois dos padecimentos que me foram destinados neste longínquo país, eu me submeto ao Vosso julgamento.
Iluminai a minha alma com os archotes da Fé e da Piedade, afastai de meu íntimo os sentimentos de vindicta e de ódio, deixai que os meus sentimentos se tornem benévolos e compassivos a fim de que, ao término desta peregrinação terrena, acolha os desditosos, forneça pão aos que tem fome, perdoe os que me fizeram sofrer, padecendo, com resignação, as provas por mais amargas que sejam, lembrando-me sempre da crucificação do meigo Jesus!
O conde, embora não houvesse respondido verbalmente ao prof. Delavigne, havia repetido mentalmente a improvisada prece e subitamente, soltando um grito de indómita emoção, exclamou:
— Senti que foram rompidas as correntes que me aprisionavam ao leito!
Estou livre! Estou livre!
Agora compreendo que Deus é verdadeiramente Pai, como o dissestes!
Quero abraçar a todos os que estão aqui neste tugúrio que, neste momento, é, para mim, o mais majestoso solar!
Todos os circunstantes, abeirando-se do conde, abraçaram-no e ele, possuindo novas energias, ergueu-se do humilde leito, envolto em uma coberta de lã, e pôs-se a mover as pernas como se estivesse marchando para uma batalha.
—Prosternemo-nos sobre o solo, irmãos — falou Saul — agradecendo a Alá, que é nosso Deus, o triunfo que nos concedeu!
Ajoelhados e contritos, todos os presentes vibraram as almas por meio de veementes preces e, retomando a palavra, o inspirado Saul, ainda assim falou:
— Senhor, eis-nos contritos, hoje e eternamente, diante de Vosso trono bendito, forjado de estrelas de luz eterna!
Perdoai, Senhor, as nossas perversidades, os nossos delitos e jamais permiti que pratiquemos um só ato que Vos desagrade ou mereça a Vossa punição.
Queremos, de hoje para o futuro, alistar-nos no Exército Divino, empunhando o estandarte da Fé, do Perdão, da Caridade, da Nobreza de sentimentos, a fim de que sejamos dignos de pertencer ao Vosso Exército como Cruzados do Bem.
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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 03, 2018 9:06 am

III PARTE - O REGRESSO

1 O REENCONTRO

Aquela memorável noite em que se aliaram os seres humanos que se reuniram em mísero tugúrio que, certamente, ficou resplandecente para os que ali se encontravam, embora os órgãos visuais não o percebessem, mas o sentissem os corações sepultos no tórax, foi comemorada dignamente por meio de preces vibrantes.
Depois de abraçarem fraternalmente os recém-chegados da França e o herbanário, ausentarem-se, ficando de regressar nas primeiras horas do dia seguinte.
— Temo que Saul não venha mais a esta mansarda, onde ocorreu o que nunca imaginei que pudesse suceder:
aceitar eu um abraço do dr. Closet, desfazendo-se, como por encanto, todo o ódio que lhe consagrava! — falou o conde para os seus companheiros de exílio cujas fisionomias estavam exultantes.
— Graças sejam dadas a Deus e a Jesus! — exclamou Leonel Delavigne.
Fiquei quase louco de alegria quando reconheci meu adorado pai e o dr. Januário, pensando logo em nosso regresso à França inesquecível!
Parece-me que devemos o nosso encontro e a nossa futura felicidade ao humilde Saul.
Se ele aqui não voltar, a minha alegria será perturbada durante toda a minha vida!
— Confiemos na Justiça Divina! — respondeu João Voltaret, convicto das palavras que pronunciaria, expressando seus mais íntimos sentimentos.
No transcurso do dia, os recém-chegados da Europa — prof. Delavigne e dr. Closet — foram em busca do tugúrio em que estiveram na véspera e combinaram o regresso à pátria para três dias após.
— Ainda não veio o misterioso crente de Alá que ontem aqui esteve? — perguntou o professor a seu filho.
— Não, meu pai, e começo a recear que ele não apareça nunca mais.
É um abnegado que merece a nossa dedicação e o nosso auxílio material, pois tudo faz em benefício da alma, esquecendo-se de que essa se reveste de uma túnica material que necessita de conservação para que a criatura humana possa vencer suas provas terrenas! — falou Leonel com emoção.
— Bem vejo que já estás percebendo as verdades siderais e muito regozijo sinto em minha alma! — respondeu-lhe o pai.
Vamos agir agora para reencontrá-lo, meu filho.
Urge agora que tu e o João saiam para buscar uma alimentação mais reconfortante para todos os que aqui estavam passando necessidades.
Festejemos o nosso abençoado encontro por intermédio do herbanário, certamente um dos emissários do Além.
Leonel saiu em companhia de João para cumprir as determinações paternas, deixando os outros seres amigos entretidos em amistosa palestra.
Adquiridos os comestíveis, Leonel falou a João:
— Meu amigo, podeis ir rumando para a nossa humilde e hoje tão ditosa mansarda.
Sei onde reside Saul e pretendo ir fazer-lhe amistosa visita e agradecer-lhe tudo o que por nós conseguiu realizar, auxiliado pelos Emissários divinos!
Separaram-se e, após, Leonel pôs-se ao encalço do humilde asiático que já residia havia muitos anos na Argélia e ficara arraigado aos costumes e linguagem do povo, na maior parte descendente de franceses.
Ele se afastou quase um quilómetro do local em que residia e às vezes detinha os passos buscando informes do inspirado e digno, obtendo alguns que lhe foram preciosos.
Ao finalizar uma longa e modesta viela, encontrou-se subitamente com o velho.
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Ave sem Ninho

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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 03, 2018 9:06 am

Dois gritos espontâneos partiram dos seus lábios:
— Saul!
— Leonel! Que vistes buscar aqui neste quase deserto?
— O amigo incomparável que desde ontem não apareceu para contemplar a nossa felicidade!
Desejo levar-te para a França.
— Tenho uma netinha que vive em companhia de uma tia já muito idosa e que não poderão viver sem os meus escassos rendimentos ou o fruto dos meus labores.
— Tudo será remediado. Saul.
Nós nunca te revelamos a verdade: o que era enfermo e deixei levantado palestrando com os nossos companheiros é um titular rico que poderá fazer-te feliz e à tua netinha, que eu desejo vê-la para convencê-la a nos acompanhar.
— Vamos então seguir por aquele caminho, Leonel — disse o inspirado de Alá, que já estava fora da cidade e finalmente deteve os passos perto de uma rústica
choupana que parecia abandonada.
Saul chamou com voz compassada a irmã com quem residia e logo uma atemorizada figura feminina surgiu à porta.
Sendo reconhecido o herbanário, apareceu logo em seguida uma formosa jovem aparentando dezasseis primaveras e que se deteve para observar o companheiro de seu querido avô.
— Venham cá que eu quero apresentar-lhes um bondoso amigo europeu, que está de partida para sua terra feliz.
—Poderá ela ser tua também, meu amigo — disse o jovem, encantado pela gentileza da donzela que o fitava com interesse fraternal.
— Entremos, Leonel, para podermos tudo decidir.
Vê onde resido?
Compreende quanto sofremos neste deserto sem amigos e não ser os enfermos que, por intercessão de Alá, me têm estendido suas mãos generosas nas horas de solidão e amargura?
— Deus permitirá que obtenhas uma sensível melhora de situação, Saul — disse Leonel emocionado.
— Eu não recebo auxílio dos que têm menos recursos do que eu, Leonel.
— Que disseste, amigo? — interpelou-o o moço, sorrindo.
— Pois não conheço o local onde estás acolhido com os teus companheiros?
— Amigo, presta-me a atenção e convencer-te-ás de que estás integralmente iludido.
Entraram ambos na mísera habitação de Saul e sentaram-se em toscos bancos, sendo a atenção do herbanário dominada pela narração do jovem francês.
— Estou surpreso, mas sem razão! — exclamou Saul.
Há muito, quando entrei pela primeira vez onde moras com os outros, vibraram em minha alma estas palavras:
“O enfermo é um voluntário exilado da França, pois cometeu um crime.
Sofre ele as consequências de um ato violento... que não pode ser resgatado com a opulência real que possui, mas com os sofrimentos que ora o amarguram.”
— Esta é a verdade e bem mereces uma justa recompensa, pois, sem teu auxílio, seríamos levados ao desespero e à morte.
Vou patrocinar a tua causa e serás bem ajudado.
— Meu amigo, tudo quanto faço tenho por objectivo apenas a recompensa de Alá, quando partir para os reinos divinos.
Minha choupana vive em trevas, muitas vezes nos falta o pão para a nossa alimentação, mas minha alma está envolta em luz, em bênçãos dos que tenho conseguido salvar de dores inomináveis.
— Foi o que fizeste, generoso Saul, mas eu desejo dar-te condigna recompensa. Vamos partir agora.
Antes que os dois se ausentassem, a neta do abnegado velho levou uma xícara de folhas desconhecidas para o jovem, dulcificada com mel.
Quando ambos terminaram, despediram-se de formosa mocinha e partiram para os arredores de Argel, onde chegaram e foram recebidos com exclamações de alegria pelos que lá se achavam, entretidos em amistosa palestra.
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Ave sem Ninho

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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 03, 2018 9:06 am

2 FELIZ REGRESSO
Por algumas horas esteve o inspirado Saul na mansarda em que viviam os três companheiros do Destino e, quando ia ele retirar-se, assim lhe falou o conde de Debret
— Meu amigo, em tua grande modéstia foste o nosso inspirador de dias melhores, quem não nos deixou cair no abismo da loucura e do suicídio o que projectei tantas vezes.
Tu me restituístes a visão e a locomoção das pernas.
Quero recompensar-te quanto o mereces.
Vou adquirir este casebre, renová-lo, mobiliá-lo e, após dar-te-ei uma quantia suficiente para que vivas sem preocupações dolorosas, com as criaturas que, estando na miséria, também sabem confortar o teu coração, tal como fizeste comigo.
Não nos retiraremos de Argel antes que os nossos projectos se realizem!
— Ah! meu amigo, estou me aproximando dos oitenta anos de existência e nunca deixei de receber ingratidões e desprezo.
Foi por este motivo que, ontem, ao sair deste casebre abençoado por Alá, eu tencionava não mais dele me aproximar, se não me fosse aprisionar pelos elos de amizade o nosso caro Leonel.
Já estou recompensado pela prova de gratidão que todos vós me concedestes.
— Não, meu amigo.
Tu me salvaste a vida e também a dos meus dois companheiros de sofrimento.
Foste tu que nos encorajaste a esperar os amigos que ora nos ouvem.
Foste tu que vibraste o pensamento invocando o auxílio do Além na hora propícia, estando eu quase cego e tombado em um pobre leito, sem esperança e projectando acabar com a vida.
Transformaste a nossa vida e também queremos metamorfosear a tua.
— Desconhecia esta linguagem em vossos lábios, senhor — exclamou o prof. Delavigne.
Quero associar-me ao que pretendeis fazer em benefício deste humilde servo de Alá e de Jesus para voltar, sem remorsos, para a França bem-amada.
— Eu vos agradeço, senhor, mas o que trouxestes, entregue pela minha Diana, é suficiente para os gastos premeditados.
— Bem o sabemos, senhor, mas nós queremos, eu e o dr. Januário, associar-nos a esse ato de plena justiça.
Aceitai, sem escrúpulos, a nossa colaboração fraternal.
Tudo ficou aprazado naquele dia:
os peregrinos franceses retiraram-se para uma hospedaria modesta para não despertar suspeitas, nem ambições, e, dentro de poucos dias, o pardieiro, que abrigara o conde de Debret e os seus fiéis companheiros, apresentava outro aspecto, já aprazível e confortável.
Foram todos, em modesta sege, à miserável moradia de Saul e de suas parentas, e contribuíram para o seu novo abrigo, como nunca o haviam sonhado.
— Eu — disse-lhes o herbanário a seus protectores — quando os amigos invisíveis me sussurraram na alma:
- Está finda a tua prova de sacrifícios e misérias, julgava que algum zombeteiro estivesse gracejando comigo.
Agora que tudo foi feito, eu lhes peço perdão e, neste momento, rogo aos amigos agradecer ao Céu a nosso felicidade, que não terminará com a morte e sim será aumentada.
Todos os presentes atenderam à rogativa do septuagenário que, com voz vibrante e emocionada, assim expressou os seus pensamentos:
“Pai de infinita bondade, Criador das almas, dos astros e estrelas, dos oceanos e mares e de tudo o que existe no Universo, aqui se encontram congregados, em Vosso nome e em Vossa homenagem, os mais humildes de Vossos filhos, mas que já possuem no arquivo do espírito a mais preciosa das opulências, já reconhecem a Vossa misericórdia, a Vossa bondade infinita, o Vosso poder e a Vossa protecção verdadeiramente paternal.
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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 03, 2018 9:06 am

Eis-nos congregados em Vosso sacrossanto nome, implorando-Vos bênçãos, paz, protecção, piedade para os nossos crimes ou as nossas transgressões às leis divinas, nesta ou em passada peregrinação planetária, e, de hoje para o futuro milenário de nossas almas, queremos ser fiéis e compassivos servidores da Grande Causa que ora nos absorve:
a do cumprimento de nossos deveres morais, sociais e celestiais.
Perdoai-nos, Senhor, aliai eternamente os nossos destinos, quer aqui na Terra, quer nos Mundos Siderais, que ainda não conhecemos e serão conhecidos no transcurso dos milénios.
Abençoai todos os Vossos filhos que se encontram neste recinto e todos os que povoam o Universo.”
Quando o herbanário terminou a sua prece, os que cercavam, abraçaram-no ternamente e, poucos minutos após, retiraram-se para a hospedaria em que estariam alojados até a manhã do dia seguinte, quando regressariam à pátria bem-amada. Comovido e grato, o humilde septuagenário despediu-se dos amigos, prometendo que iria ao porto de Argel, à hora da partida do navio que habitualmente rumava para os países europeus.
Retiraram-se todos, entristecidos, e só então o conde de Debret confidenciou o seguinte:
— Parece efeito de magia a transformação que se operou em meus sentimentos.
Muitas vezes fitei o casebre em que morava com verdadeira angústia, com ímpeto de decepar as artérias de meus braços para extinguir a vida misérrima que levava e, hoje, ao sair, pela derradeira vez, do lugar em que tanto sofri, uma intensa comoção inundou meus olhos de lágrimas e de saudade o coração!
— Graças sejam rendidas ao Pai Celestial, sr. conde — exclamou o professor Delavigne.
A misericórdia divina é providencial e inextinguível!
Esta recordação que ficará indelével, por todos os séculos, em vossa alma, será a base de vossa redenção eterna.
Vós, que sempre vivestes na opulência, não tendes igual recordação do palácio em que residíeis.
Agora, com um pequeno esforço, estareis trilhando o carreiro do Bem, do Perdão e da Fraternidade eterna.
— Que vossas palavras sejam transformadas em plena realidade! — exclamou o titular, comovido.
Transcorreu a noite, após um sono perturbado pelas preocupações que uma longa viagem sempre ocasiona aos que vão efectuá-la.
Alvoreceu, enfim, ainda com muita luz e uma verdadeira apoteose radiosa no céu quando os retirantes de Argel tomaram o veículo que os levaria ao porto.
Uma estranha emoção empolgava os corações dos que iam regressar à França e, ao chegar a bordo, houve uma emoção indescritível ao contemplarem o conde de Debret quase soluçante.
— Quero pedir-vos perdão, senhor, por tudo quanto sofrestes... em vosso próprio benefício espiritual! — exclamou o dr. Januário Closet.
— Eu o compreendi muito tarde, sr. Closet, e só agora percebo quanto fui cruel para com os servos e membros de minha própria família.
Considero-me, agora, o verdadeiro assassino de Genoveva e quantas vezes, isolado e perseguido por pensamentos cruéis, desejava extinguir a própria vida e, se eu não o fiz, foi por me achar inteiriçado, imóvel, em uma cama miserável.
A influência do nobre Saul, o humilde herbanário, foi prodigiosa.
Agora... estou quase crente na protecção e no influxo de entidades celestiais.
— Pois ainda estais em dúvida, sr. conde? — perguntou o dr. Januário.
Não percebestes o auxílio recebido naquela noite que se tornou memorável para todos nós que assistimos à protecção concedida a um humílimo e paupérrimo ser humano, certamente opulento nas virtudes e no amparo divino?
— Sim... não posso mais contestar o que assisti e mais desejava ser útil àquele bom velho.
— Não. Vós lhe destes o que ele necessitava, sem fomentar o seu orgulho e abandono do trabalho santo que faz em prol dos que sofrem na Terra.
Saul Religari não apareceu para abraçar os que iam partir para a França, mas, ao fitarem a praia, com os olhos inundados de lágrimas, viram um lenço que acenava qual se fora uma asa de rola que desejasse segui-los por todo o sempre.
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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 04, 2018 8:52 am

Dias infindos transcorreram a bordo do navio veleiro que fazia o trajecto de Argel até o Norte da França, e os cinco compatrícios aguardavam esse momento, em quase que incessante convivência, em palestras amistosas.
Contemplavam o céu, ora inundado de luz, ora de escuridão, sempre cautelosos a observar as ondas, ora altaneiras, ora desaparecidas no abismo do Oceano Atlântico.
Certo dia, gritos partidos de um dos vigias do navio alarmaram os viajantes.
Era uma tempestade avassaladora que ia em direcção ao barco, fazendo com que um pânico indescritível acometesse todos os viajantes, alguns dos quais, debruçados nas amuradas, fitavam o oceano revolto, que parecia ter um vulcão nas suas profundidades, o qual transformasse a água em chamas que se erguiam ameaçadoras para o céu e para os viajantes.
— Só Deus nos poderá salvar! — exclamou Leonel, abraçando o seu progenitor.
— Vamos orar em nosso camarote — respondeu-lhe o pai, convidando-os a entrar.
Todos ouviram o seu apelo fraternal e encerraram-se no dormitório, onde fizeram uma intensa vibração espiritual que, após alguns momentos, teve o beneplácito do Magistrado Supremo:
as faíscas eléctricas cessaram, bem como as bátegas de água foram rareando até que, quase ao alvorecer, a natureza ficara tranquila e o firmamento límpido.
— Vede, meu amigo — falou o professor, aproximando-se do conde de Debret — como devemos estar sempre preparados para a chamada “morte”. Temos a vida constantemente ameaçada e Deus certamente assim procede com verdadeira sapiência para que os ricos e poderosos percebam que a criatura humana está incessantemente em perigo, para que abrande a sua vaidade e submeta-se à Justiça Divina.
Enquanto um milionário está neste planeta, trajado com apuro, todos o vêem com admiração e tratam-no com deferências ou bajulações, mas, se pelas surpresas da sorte, o que possuía tesouros incalculáveis fica reduzido à penúria, ninguém mais o considera, antes o menospreza.
Quem vos reconheceu quando residistes na Argélia?
Somente o herbanário acreditou na verdade quando lhe doastes o modesto abrigo que tanto o fez ditoso.
Jamais nos esqueceremos de seus olhos fúlgidos de pranto quando nos separamos e, na praia, acenava um lenço branco para os que se acham a nosso lado, como se quisesse que uma asa muito alva nos seguisse através do oceano.
Aqui na Terra há desequilíbrio da sorte monetária... que não vale um ceitil ao que foi opulento e não se lembrava dos que padecem fome, adormecidos nos antros mais lúgubres ou pelas ruas desertas e o arrependimento então fustiga a sua alma!
— Hoje percebo melhor vossas palavras, professor Delavigne, mas esses que assim padecem não estão resgatando as faltas de outras eras?
Será louvável fazermos a caridade e os retirarmos da miséria?
— Sim, e quereis saber o motivo?
Conheceis o antigo ditado “Quem dá aos pobres empresta a Deus”?
Se pudermos emprestar ao Omnipotente — Juiz Supremo, Pai Clementíssimo, Monarca Generoso — havemos de receber a recompensa mais pródiga que possamos imaginar, com moedas de luz, que alojarão em nossa própria alma, que se lucifica e eteriza, dando-lhe o direito de cindir o Espaço constelado! Nunca devemos negar um pão a um faminto, nosso irmão que não tem o que comer, nem onde se abrigar.
— Pois Deus não é Pai Generoso?
Porque não faz todos ricos neste planeta?
— Porque a conquista do mérito espiritual é uma verdadeira batalha na qual temos de tomar parte, ora como mendigos, ora como banqueiros, e tudo depende de vosso esforço, de nossa abnegação, de nossos sacrifícios, para que saiamos triunfantes com experiências amargas ou confortadoras, sr. conde.
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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 04, 2018 8:52 am

Se não vos tivésseis humilhado, rogando o perdão divino, recompensado quem vos consolou nos momentos mais dolorosos de vossa vida, não teríeis podido regressar à pátria querida, contemplar e abraçar a meiga Diana, que tanto tem chorado, apesar de ser tão curta ainda a sua actual peregrinação terrena, na qual só tem conhecido pesares pungentes.
Quanto vale a alegria que sentireis ao penetrar novamente no Solar de Diana, após dores tão dolorosas e intensas?
Se houvésseis permanecido lá, teríeis ânimo para continuar com as amargas recordações que vos dominavam cruelmente?
Quem o bem pratica resgata débitos penosos no Banco do Destino e muitos não são os que tem crédito ilimitado.
Compreendeis a verdade de minhas palavras?
— Sim. Só agora começo a compreender os sublimes problemas da vida humana.
Mais alguns dias transcorreram e os viajantes, que estavam ansiosos por retornar à França, não cessavam de fitar o horizonte, mormente ao se aproximarem do porto mais perto de Boulogne, no qual desembarcariam, rumando para Lille.
A aproximação de terras francesas emocionara intensamente o coração dos que estiveram ausentes e então dir-se-ia que chegavam de outra região planetária, na qual tivessem estado exilados.
— Porque amamos tão intensamente a região onde tivemos o nosso berço natal se a Terra forma um só planeta?
Porque não adoramos com a mesma sinceridade a França ou qualquer outra nação de qualquer continente?
— Depende muito o amor pátrio das recordações da infância — respondeu o professor Delavigne.
Conjecturo, porém, que o patriotismo provém muitas vezes das recordações de peregrinações transcorridas em determinadas regiões, onde cometemos acções nobres ou aviltantes.
Ora, ao vê-las, nós nos sentimos possuídos de sentimentos ultrizes ou moderados e só com o fluir do tempo é que poderemos desvendar o que nos sucedeu outrora.
Vede, meus amigos, as primeiras árvores, as casas que serão contempladas de perto ao desembarcarmos.
Tenho ímpetos de ajoelhar-me e, quando descer a terra, oscular o solo pátrio.
Certamente devo ter tido diversas existências na França, mas, graças ao influxo do Além, não odeio nenhuma região deste planeta, por mais atrasada que seja.
— Tendes razão, professor.
Eu, até que se consuma esta vida, que ainda não sei terá seguimento, hei-de lembrar-me, com emoção, da Argélia, e gostaria de rever o bondoso Saul que hoje se considera muito ditoso, mas não deixo de perceber que, por sua intervenção, foi que deu um surto de felicidade, o primeiro que tive nesta longa existência.
Anoiteceu profundamente.
Ficou o firmamento repleto de nuvens tempestuosas, e os viajantes ficaram atemorizados na caravela.
O professor reuniu-os novamente no camarote e propôs-lhe uma vibração espiritual, que muito confortou seus corações apreensivos.
Felizmente, após violenta borrasca, a natureza serenou, parecendo adormecer.
— Eis que chegamos à nossa terra! — exclamou Leonel com grande alegria.
— Jamais hei-de separar-me deste solo querido! — disse o titular, com alegria.
— Peçamos ao Juiz Supremo para nos conceder a estadia na terra natal até o último momento de nossa vida! — falou por sua vez o dr. Januário.
— Sim, mas, após esta existência, teremos que aportar nos países siderais, se estiverem findas as nossas provas terrenas — respondeu o professor Delavigne.
Depois, erguendo-se de um só impulso, alongou o braço direito em direcção ao solo pátrio que se aproximava:
— Vinde todos vós saciar o coração por meio dos olhos ávidos das maravilhas da terra natal!
Vede, meus amigos.
Estamos quase no porto de desembarque dos que vão seguir para Lille, sempre gravada em nossas almas.
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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 04, 2018 8:52 am

3 A ALIANÇA
Voltemos ao Solar de Diana.
Desde a partida do conde de Debret e de seus dois companheiros de exílio, pairava um véu sombrio de tristeza no coração da jovem filha do titular, que se ligara muito bem com a sua digna professora e alguns serviçais que não se referiam aos dissabores por que estava ela passando, mas que não os ignoravam.
Esperou com ansiedade as primeiras notícias por intermédio de Leonel Delavigne, que lhe prometeu dar circunstanciadas referências do local de sua estadia e da saúde do infeliz exilado.
Horas transcorreram, dias se passaram, meses se fluíram, em marcha para os séculos e nem sequer uma notícia, embora tivessem deliberado que permaneceriam em Argel o tempo de que necessitassem.
Diana chorava sentidamente, lembrando-se de seu desditoso progenitor, forçado a abandonar a pátria para resgate de um delito condenável.
Por que não se contivera ele para não cometer tão grave falta contra a sua virtuosa esposa, que nunca transgredira uma só determinação que lhe fora por ele transmitida?
Por que não contivera os ímpetos desarrazoados do zelo, sabendo que ela era honesta e digna de confiança?
Diana já não tinha mais resistência física nem moral para a luta que então se travava em seu íntimo.
Raramente aparecia para algum visitante, que ignorava a ausência do conde de Debret, e todos notavam a tristeza e o abatimento moral da
linda jovem.
O professor Delavigne e sua consorte também já estavam mortificados, pois eram pais extremosos e a ausência silenciosa do filho muito lhes intensificavam o pesar.
Certo dia, cheio de preocupações e saudades, foi em busca do dr. Januário e lhe disse com emoção, mal o avistara:
— Perdoai-me, doutor, mas não posso mais suportar a ausência prolongada de meu único filho, sem receber uma só notícia dele ou de seus companheiros de exílio.
— É incrível que ainda não tenham enviado notícias, professor!
Algo de misterioso deve ter ocorrido com os viajantes.
Levaram recursos pecuniários suficientes para uma longa peregrinação?
— Sim. Achei excessiva a quantia que levava o conde e isso me inquieta em extremo.
Quem sabem foram vítimas de algum crime para se apoderarem do dinheiro?
— Esta hipótese não é sem fundamento, professor, pois, em nenhum local, falta a cobiça ou a perversidade.
Que faremos agora para descobrir a verdade?
— Meu amigo, desejo hoje avistar-me com a infeliz filha do atrabiliário conde de Debret e, se for preciso, iremos à procura dos desaparecidos.
— Sim, sim.
Aprovo completamente a vossa valiosa contribuição para a descoberta daqueles cujo paradeiro ignoramos.
Ambos, precipitadamente, entraram em uma carruagem de aluguel e, em pouco mais de uma hora de trajecto, chegaram ao Solar de Diana.
Esta, quase sempre acamada e sem ânimo para reagir contra os golpes do destino, ficava imersa em profundo mutismo.
Chegando ao solar, o professor, depois de ter conversado com a sua esposa, foi em busca da jovem enferma da alma.
— Diana — falou o professor Delavigne, com emoção — está no Solar e vem fazer-te uma amistosa visita o dr. Januário Closet, com as suas ideias já muito modificadas.
— Que dissestes, professor? — interpelou-o Diana, levantando-se do leito.
Teve ele a coragem de vir testemunhar a nossa desventura?
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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 04, 2018 8:52 am

— Não, Diana.
Deves ter compreendido que o teu bondoso primo não procedeu com desumanidade, mas com o nobre objectivo de conseguir a redenção do espírito de teu progenitor.
O que ele estiver sofrendo na Argélia reverterá em seu benefício, o que não conseguiria aqui com todos os tesouros que possui e só poderão comprar as regalias da Terra e não as do Além!
— Que dirá o meu desventurado pai, se ainda estiver vivo, quando souber que o dr. Januário esteve neste castelo. .. e veio ver-me?
— Diana, ele veio visitar-te como um verdadeiro amigo para o corpo e a alma.
Não recuses o que ele deseja, pois tem por objectivo dar-te a tranquilidade que nunca tiveste.
— Será crível o que disseste, professor?
E se não suceder o que acabais de dizer-me, farei o mesmo que a minha idolatrada mãe.
— Diana, se não se realizar o que projectamos, jamais voltarei à tua presença.
— Quereis dar-me a derradeira punhalada, professor? - disse a moça chorando.
— Não! Quero apenas que evites novas e inconsoláveis dores.
— Pois bem, podes trazê-lo à minha presença.
O professor Delavigne, depois de prevenir o espírito do médico sobre os sentimentos de Diana, acompanhou-o até o dormitório de sua infeliz discípula.
— Diana, permita-me que a trate deste modo familiar, pois o destino talvez nos tenha ligado eternamente.
Vendo-te, neste instante, parece-me estar contemplando aquela que te deu o ser e cuja desdita não ignoramos.
Pois bem, dirijo a palavra à desventurada filha da boa Genoveva para que ela nos ouça e aprove ou não o que vou dizer.
Escuta-me com a devida atenção:
o que sucedeu a teu pai foi para abrandar os seus ímpetos de tigre humano, para melhorar a situação de todos deste solar, onde vive a opulência ao lado da desventura.
Podia ter concorrido para a reclusão de teu pai em um cárcere, mas preferi conceder-lhe a liberdade para conquistar a redenção de seu próprio espirito.
Bem sei que devo ser detestado por ti, a imagem fiel de tua mãe, que foi minha adorada noiva e perdeu a felicidade que tudo quanto tendes praticado seja para beneficiar o no[1]
. Que vale um tesouro para uma alma repleta de amarguras?
Não desconheço o valor do ouro sobre a Terra e sei quanto padece um coração paterno quando seu lar está desprovido de dinheiro, mas repleto de criancinhas que passam fome, enquanto tantas fortunas são dissipadas em jogos e outros usos ilícitos, em perseguições políticas e religiosas, nas quais tomba muitas vezes a vítima e não o algoz.
Diana, perdoa-me as palavras que vou te dirigir, pois tens a semelhança física e moral com a tua inolvidável progenitora.
Necessitas colaborar comigo na conquista bendita da salvação da alma de teu pai pela afronta que fez à sociedade, à família e ao próprio Juiz Supremo ao esbofetear, sem causa justa, aquela que, desde a infância, foi sempre digna de apreço, virtuosa e tolerante, afronta que ultrapassou os crimes comuns e não devia ficar impune.
Concordas comigo?
— Sim — respondeu Diana, com à voz esmorecida — enquanto que lágrimas ardentes rolavam de seus olhos angelicais.
— Pois então, Diana, deves perdoar-me e auxiliar-me a combater a maldade de teu pai para que, durante a sua actual peregrinação planetária, possa ainda destruir o mal e conseguir algum mérito moral.
— Este é o meu desejo, dr. Januário, mas custa-me crer que tudo quanto tendes praticado seja para beneficiar o meu infortunado pai.
— Não duvides da verdade que doravante vais perceber claramente.
Aqui se encontram três seres humanos, aliados por Jesus para a prática do bem, para trabalhar na SEARA BENDITA.
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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 04, 2018 8:53 am

Continuemos a amparar o meigo Luizinho e toda a sua família, todos os que buscarem a nossa protecção ou o nosso auxílio, transformando as lágrimas em suaves consolações.
Aceitam ambos o meu fraterno convite?
— Sim, sim — responderam com sinceridade.
— Pois bem, eu vos agradeço a cordial aliança que, certamente, será abençoada pelo Juiz Supremo e por Jesus.
Vou agora agir em benefício do conde de Debret.
Prometo, sob juramento sagrado, que, não chegando notícias da Argélia em quinze dias, a partir desta data, eu seguirei em companhia do professor Delavigne para a África, concorrendo com todas as despesas provenientes de uma longa viagem.
— Obrigado, meu amigo! — exclamou o professor — mas eu estou em condições de concorrer para os gastos de nossa peregrinação em comum, pois eu já ia partir para o Norte da África amanhã, faltando apenas comunicar a minha deliberação inadiável à esposa querida e à minha cara discípula.
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