Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 04, 2018 8:53 am

4 ASSENTANDO A BUSCA
Houve alguns momentos de silêncio ou de concentração espiritual, que terminou com amistosas palavras do dr. Januário:
— Diana, estás dominada por sentimentos muito nobres, mas que devem ser combatidos em teu próprio benefício.
— Não compreendeis o que corre em meu íntimo, doutor, pois, desde que comecei a perceber a realidade de minha vida material e espiritual, fui sempre desiludida e humilhada, já que via minha mãe agoniada, sem outro conforto espiritual que o das preces, e observava que nem sempre somos atendidos e temos que sofrer as mais acerbas e rudes provas.
— Justamente o que temos de padecer para resgate de nossas dívidas de outras existências planetárias.
No entanto, Diana, não devemos fraquejar nunca, combatendo com heroísmo.
Deves, pois, repelir o desalento e a revolta contra as provas terrenas.
Deves ter em mente que, com o regresso de teu pai, tens que assumir uma posição de realce, não só no mundo material, como no espiritual, pois vais substituir a tua progenitora que devia ter sabido reagir dentro das leis divinas e sociais e não ter fracassado após tantos martírios em seu sensível coração.
Aconselho-te a levantar-te deste leito, agir em benefício dos que mourejam neste faustoso castelo, cumprir todos os deveres decorrentes de sua situação, inclusive o de não abandonar a família de Flávio Sigaud, pai do meigo Luizinho.
— Tenho sentido saudades do menino.
Como passa ele?
— Basta haver uma baixa de temperatura e ele piora sensivelmente.
Precisa de residir em outro local, menos desabrigado, e de um tratamento adequado à sua debilidade congénita.
— Convencestes o meu coração da necessidade de reagir.
Vou tentar erguer-me da cama e distribuir os meus cuidados pelos que se abrigam neste solar, que tem o meu nome, e em seus arredores.
Tenho o seguinte projecto a realizar:
solicitar de meu pai, se ainda estiver no plano terreno, tudo quanto me pertence como herança materna e distribuí-la com os que sofrem necessidades materiais nas vizinhanças deste castelo, que parece ser um núcleo de infortunados, inclusive os seus próprios donos desde época afastada.
— Vais então despertar para a vida, Diana? — perguntou seu professor.
— Sim, se conseguir reagir contra a inércia que me domina.
— Aqui está o abalizado dr. Januário que vai tratar-te paternalmente e como cientista.
Amanhã já estarás em outras condições de saúde e com melhor disposição.
— Assim seja, professor — respondeu a jovem cheia de emoção.
—Hoje a minha esposa pernoitará neste dormitório a fim de prestar-te constante assistência, Diana.
— Julgais que pretendo acabar o meu suplício como a minha infortunada mãe?
— Sim, temos esse receio, que me apavora! — exclamou o dr. Januário, fitando-a com sincera compaixão.
— Não digo que ainda não fui dominada por intensa vontade de deixar a Terra, onde tanto tenho sofrido, para encontrar-me com a infeliz criatura que foi a minha mãe.
Espero, porém, o fim da tragédia.
— Não profiras loucuras, Diana! — falaram os dois amigos ali presente.
Depois, o médico aproximou-se mais do leito e lhe disse emocionado:
— Diana, estamos em tua presença para comunicar-te, que, desta data em que nos encontramos, passados quinze dias, se o sr. conde ainda não tiver chegado a este solar, eu e o meu amigo Delavigne iremos à sua procura.
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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 04, 2018 8:53 am

— Não sois mais seu adversário? — perguntou Diana, erguendo-se do leito, abalada por um tremor convulsivo.
— Nunca o fui, Diana! Hás-de compreender o que te revelo, no decorrer desta peregrinação humana.
Escuta-me, pois: não projectes um crime perante Deus — o suicídio.
O sofrimento avassala as criaturas humanas, de acordo com os desvios morais cometidos em pretérita romagem planetária.
Se tu e a tua infeliz mãe tanto padeceram é uma prova concludente de que muito erraram em uma remota existência.
Vieste para a aquisição de méritos espirituais e não queiras fracassar como a que já partiu para o Além.
Ela, porém, não perderá o mérito da virtude e da bondade de mais de três decénios de existência, embora devesse ter tido mais coragem e vigilância.
— Devia aparecer defronte dos criados com as faces rubras das bofetadas, dr. Januário? — disse a moça quase soluçante.
— Diana, ignoras que Jesus — o Emissário Divino — padeceu igual prova?
Não a suportou com ânimo e amargura? Por que não o devemos imitar?
Ela poderia ter-se compadecido mais de ti.
Ficaria deitada por mais alguns dias e depois se separaria de seu cruel esposo por intervenção judicial.
— Ele não o consentiria para não passar por um grande vexame social e talvez fosse mais longe.
— Ela e todos os seres humanos devem lutar até o último instante da vida terrena, Diana.
O que falamos não passa de conjecturas, mas eu te aconselho a ser sempre submissa às leis divinas e sociais.
Nunca abandones o gládio da coragem contra as investidas da dor e do desalento.
O sr. conde está idoso e alquebrado e é provável que pouco lhe reste de vida e saúde para fazer sofrer os seus servos.
Deves assumir a direcção deste solar, transformando-o em abrigo para aqueles que não tem lar nem pão. Deves proteger as criancinhas e os enfermos.
Não tenhas em mente a felicidade individual, mas a protecção dos que sofrem e talvez tenham sido seus irmãos ou amigos em outras vidas terrenas.
As criaturas humanas não vieram ao planeta terra para gozar a vida, mas para lutar em prol de um ideal meritório:
lapidar as suas almas para poderem ascender aos altos planos espirituais.
Vieram todas, sem excepções humilhantes, remir os crimes de outrora, beneficiar os que sofrem, amparar os necessitados, principalmente os que estende a mão à caridade pública.
Estás em plena juventude, Diana.
Serás, talvez em breve, possuidora de uma fortuna incalculável.
Queres casar-te com algum jovem inexperiente que em futuro próximo delapide o que for teu e depois comece a humilhar-te e a infringir-te tormentos inconsoláveis?
O amor, exclusivamente como sentimento sublime, é muito raro no planeta em que vivemos.
O verdadeiro afecto é tecido de sentimentos nobres, de sacrifícios, de perdão, de piedade, de abnegação, mas é muito raro entre os seres pensantes.
Compreendo, porém, que o que não retribui o afecto recebido, que pratica injustiças, hipocrisias, impiedades, não merece o amor de outrem.
Os próprios filhos não tem o direito de sacrificar os corações paternos, mas o fazem comumente e não é raro que muitos massacrem moralmente os seus progenitores até os levar à sepultura com os corações repletos de amarguras e dissabores.
Tu, porém, Diana, que és submissa e piedosa, deves usar de lealdade para com teu pai, dizendo-lhe com carinho:
— Meu pai, eu não quero a riqueza para o gozo mundano, as roupas luxuosas, os divertimentos prejudiciais à alma e o corpo, mas sim para socorrer os desprovidos de recursos pecuniários, sem quaisquer meios para construir um lar e alimentar os seus entes queridos.
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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 04, 2018 8:53 am

Desejo concorrer para suavizar-lhe as agruras da existência, enxugar-lhes as lágrimas nas horas dos sofrimentos.
Por que havemos de continuar a ocupar todo este solar, que tem mais de trinta compartimentos, deixando seres desabrigados, curtindo fome e miséria nos antros mais desconfortáveis?
Por que não transformarmos o saguão e o primeiro andar deste enorme castelo em abrigo para os que não tem para onde ir?
Não gostaríeis de viver, vendo diariamente os que não deixarão de implorar paz e protecção para quem lhes proporcione um lar e lhes garante o pão de cada dia?
— Sim, dr. Januário.
Só agora compreendo a grandeza de vosso coração e que nos fostes cruel quando impusestes a retirada de meu pai do território francês.
Eu vos agradeço o que lhe fizestes!
— És uma alma sincera e piedosa como a de tua infeliz progenitora, que ainda vejo nos momentos de amargura.
Agora vou limitar o que tinha a dizer-te:
sob juramento sagrado que, decorridos duas semanas deste dia, eu e o professor Delavigne iremos a África em busca de teu progenitor e seus companheiros.
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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 04, 2018 8:53 am

5 AUXÍLIO PROVIDENCIAL
Após a longa palestra que o médico sustentou com a jovem, abrandando os sentimentos de revolta ou de ódio que votava ao que supunha adversário de seu pai, depois de chorar alguns instantes, assim que o dormitório ficou vazio, ela se ergueu e, após orar com fervor perante um quadro representando Jesus genuflexo no Horto, se sentiu reanimar como se algo de extraordinário houvesse ocorrido em seu lar querido.
— Vou agora repelir o desalento — murmurou com energia.
Depois de mudar as vestes, penteou-se, chamou à sua presença uma das criadas, e perguntou-lhe se o dr. Januário ainda se achava no solar, pois desejava fazer-lhe um pedido.
A resposta foi afirmativa e ela se encaminhou para a vasta sala de refeições, encontrando-o em palestra com o professor Delavigne.
— Muito bem, Diana — disse-lhe o médico, aproximando-se da moça.
Compreendi que estavas dominada por um grande desalento que te prejudicava a saúde e poderia degenerar em uma enfermidade incurável e ora folgo em ver-te já reanimada e com ânimo sereno e fé inabalável em Jesus, crença absoluta na bondade divina e no auxílio da ciência e assim tudo será normalizado em teu organismo e em teu lar.
— Obrigada por vossos amistosos conselhos, dr. Januário.
Eu, porém, não quis mais permanecer inactiva porque me senti reanimada por uma força espiritual e vim pedir-vos para não abandonardes o Luisinho.
Vede-o ainda hoje e logo mais eu mandarei um dos criados à vossa procura para saber como vai passando.
— Não é preciso enviar ninguém à residência de meu amigo — falou o professor — pois pretendo passar o dia em sua companhia e à noite trarei as informações desejadas.
— Quero enviar-lhe ainda um auxílio, prezado professor — acrescentou a moça.
— Agora não, Diana.
Nós lhe daremos o que precisar hoje mesmo e, amanhã, se já estiveres com outro aspecto, fazendo então um pequeno sacrifício, iremos visitar juntos o doentinho e assim poderás entregar pessoalmente o dinheiro que lhe destinas.
Vamos agora para Lille.
— Não, mestre, pois já mandei preparar uma refeição para vós e terei todo o prazer em que almocemos juntos pois a notícia de que irão à procura de meu pai já me proporcionou uma ressurreição espiritual.
Os amigos, então reunidos no salão de reflexões, fizeram referências consoladoras à jovem que, desde aquela data memorável, consolidou a saúde sob a égide da fé e da protecção espiritual.
Quando o médico e o professor iam retirar-se, ela assim lhes falou:
— Então está tudo combinado para as providências de amanhã.
Alvoreceu um dia radioso de início de primavera, inundando o Sol de luz prodigiosa a Terra e as almas apreensivas.
Diana, que havia adormecido mais reanimada, depois que ouvira as palavras sensatas do dr. Januário, despertou para as lutas planetárias com verdadeira coragem cristã.
Levantou-se, orou fervorosamente ao Criador do Universo, a Jesus e seus Emissários divinos, e, após ligeira mudanças de aspecto, desceu à sala de refeições onde encontrou o professor em companhia de sua esposa.
— Quanto nos alegra a tua presença! — exclamou a carinhosa mestra.
— Por que, sra. Estela, tanto vos alegrastes com a minha presença? — perguntou-lhe Diana.
— Porque eu e Sérgio... já temíamos que não te erguesses mais do leito.
Foi este o motivo que o deteve agora aqui neste solar, pois há muito que deseja ir à procura de nosso adorado filho que temos receio de não rever jamais.
— Estou também ansiosa por notícias de vosso estimado filho e de meu infeliz pai.
Talvez que este já não esteja mais neste Vale de Lágrimas.
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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 04, 2018 8:54 am

— Deixemos de previsões dolorosas, Diana — interrompeu-a o professor — pois eu e o dr. Januário já iremos ao encalço deles.
Ele deverá regressar dentro de uma hora e pretende convidá-la para ir até o casebre em que mora o pai do Luisinho.
— Se ele resolver a minha ida, como médico e inspirador de nobres acções, eu o acompanharei, mas somente em companhia de meus caros mestres.
— Sim, nós te acompanharemos, pois desejamos dar-lhe o melhor auxílio para minorar os sofrimentos alheios, tendo Jesus como inspirador.
Após a primeira refeição do dia, chegou ao Solar o dinâmico e piedoso médico e, decorridos alguns instantes, dirigiram-se ao local em que residia Flávio Sigaud.
Quando chegaram ao término da viagem, foram recebidos com demonstrações de gratidão os visitantes que, ao penetrarem no escuro recinto, ficaram com os corações compungidos.
A lôbrega habitação compunha-se de apenas três peças, desprovidas de móveis, de qualquer conforto, e, numa tasca cama de tábuas, acharam o doentinho, que fitou, com curiosidade, os recém-chegados.
Diana e a sua professora foram as primeiras a se aproximarem dele, depondo perto da modesta almofada de sua cama diversos e úteis presentes, enchendo-o de emoção e alegria.
— Estás melhor, Luisinho? — perguntou a professora, osculando a sua pálida fronte.
Ele respondeu, mas, cheio de reconhecimento, beijou a destra que o afagava.
— Compreende agora, Diana, a sublimidade da missão que, de hoje para o futuro, terás que desempenhar? — disse-lhe o dr. Januário à jovem que abraçava o enfermo com os olhos orvalhados de lágrimas.
— Sim, dr. Januário, e prometo, com toda a firmeza de minha alma, que sacrificarei a minha própria vida em benefício dos que padecem.
De agora para o resto de minha existência, olvidarei os próprios dissabores para suavizar os de nossos companheiros da vida terrena.
Tudo farei para o desempenho total de minha missão planetária!
— Graças mil seja rendidas ao Juiz Supremo e a Jesus pela metamorfose operada em teu espírito ou teu coração — exclamou o professor Delavigne, fitando a sua querida discípula.
Diana apertou-lhe a mão e, depois, voltando-se para Flávio Sigaud, falou-lhe emocionada:
— Meu infeliz pai deverá regressar brevemente, talvez até o fim do mês corrente.
Eu te prometo, em nome de Deus e de Jesus, que a tua penosa situação vai terminar.
Espero que ele haja adquirido penosas experiências fora da França e então saberei como agir em prol dos que padecem fome e frio.
— Ele será capaz de proibir a vinda da srta. Diana a este sombrio casebre.
— Saberei agir com o coração em primeiro lugar e com a lei na segunda hipótese.
Depois, encarando o médico, enquanto o desventurado pai do Luisinho lhe patenteava a sua gratidão, disse-lhe:
— Vós podeis tratar do doentinho sob a minha responsabilidade.
Eu pagarei os vossos honorários.
— Que dizes, Diana?
Julgas por acaso que estou tratando do Luisinho pensando em recompensas pecuniárias?
Não! Virei aqui, hoje e sempre, em nome de Deus.
Agora, exclusivamente por minha conta, vou activar o tratamento de que necessita com urgência.
— Afinal, que tem ele? — perguntou Diana ao dr. Januário.
— É uma bronquite asmática, porém já está melhor, embora bastante debilitado.
— Não. Eu também sei exercer a caridade sem o menor intuito de recompensa, Diana — falou o médico dando a entender que ela não devia insistir.
— Ao se despediremos os visitantes, apareceram no humilde recinto a mãe do Luisinho e uma formosa moça de quinze anos presumíveis, de nome Henriqueta, que era a primogénita do casal.
— Esta é irmã do Luisinho — apresentou-lhes o pai deste.
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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 05, 2018 11:11 am

— Nunca sofreu ela da enfermidade que tanto faz padecer o seu irmãozinho? — perguntou o dr. Januário ao pai.
— Não, doutor, mas tenho receio de que venha a padecer de alguma doença pulmonar por causa do lugar húmido em que moramos.
— Não precisa de ficar preocupado, sr. Flávio, pois creio que muito em breve terás melhor situação doméstica — disse-lhe Diana com ênfase.
— Como poderá suceder tal coisa se o sr. conde vai regressar e certamente não desejará ver-me de novo e dar-me trabalho?
— Deus é Juiz e Pai.
Confiemos na Sua protecção e bondade! — exclamou Diana com verdadeira convicção em suas palavras.
Transcorridos alguns minutos, despediram-se os visitantes, deixando algum dinheiro para a alimentação de todos e remédios para o enferminho.
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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 05, 2018 11:12 am

6 A MENSAGEM
Alguns dias decorreram, sem nenhum sucesso digno de menção no belo Solar de Diana.
Os professores haviam interrompido os labores escolares.
Sérgio e Esteia Delavigne recomeçaram assim que observaram que a filha do conde fizera uma verdadeira metamorfose moral: distribuía ela as horas de cada dia em afazeres diversos, estudos literários, música, visita aos enfermos, empréstimos monetários, pois só então verificou quanto seu pai era autoritário e mesquinho ao extremo, ocasionando desventuras nos lares de seus subordinados.
Tudo com a quantia que lhe entregara e que montava a milhares de francos para, no caso de extinguir-se a verba que levara para a viagem, poder enviar-lhe auxílio pecuniário com rapidez.
Diana fornecia o que os servos precisassem, dando-lhes agasalhos e remédios e visitando-os quando lhe fosse possível.
Chegou finalmente o dia em que partiram para a Argélia o prof. Delavigne e o dr. Closet, que se despediram de todos visivelmente emocionados e com fraternas recomendações.
— Não regresses sem ser em companhia de nosso adorado Leonel! — exclamou a sra. Estela, lacrimosa, na hora da despedida.
Decorreram alguns dias mais que, embora não fossem aflitivos, não deixavam de conter apreensões relativamente aos viajantes.
O pai de Luisinho ia com frequência ao castelo para dar à jovem filha do conde notícias do doentinho que já estava com a cor menos pálida, já fazia movimentos no leito e parecia que muito em breve recomeçaria a andar.
Nenhuma notícia, porém, chegava desde a partida dos que foram ao encalço dos primeiros viajantes.
Transcorreram quatro semanas da data da partida do professor e do médico e — já muito preocupada — Diana falou à esposa do educador:
— Sra. Estela, julguei que fôssemos ficar tranquilas e a nossa inquietação duplicou!
— Tens razão, Diana, e só o que nos resta é implorar a Deus e a Jesus a sua protecção para todos nós a fim de que breve termine a nossa provação.
— Vamos então orar na ermida que há muitos anos meu pai manteve fechada, sem celebrar qualquer ato religioso — disse a moça tristemente.
— Meu marido e o dr. Januário são de parecer que não deve haver determinado local para elevarmos os pensamentos ao Criador do Universo, a Jesus e aos mártires do Cristianismo, mas eu já não estou de pleno acordo, pois em um local destinado às preces, silencioso, onde o corpo e a alma se prosternem com o máximo fervor, onde haja luz ou sombra, podemos orar melhor do que em um salão festivo ou impróprio para a concentração espiritual.
Vamos, pois, para a ermida onde poderemos orar sempre com bastante fervor.
Ambas saíram e foram em busca de uma serva que abriu a porta da ermida, onde Diana fora baptizada por insistência de sua piedosa progenitora e, ao ficarem a sós, genuflexas, oraram com inusitado fervor, elevando seus pensamentos ao Pai Misericordioso, deixando que lágrimas fluíssem dos seus olhos magoados.
Subitamente, Diana ergueu-se e, com os braços levantados para o Alto, começou a orar com voz súplice:
“Deus, Pai e Amigo incomparável dos que se acham sepultos nas sombras planetárias, eis-nos em Vossa presença, implorando mais uma vez a Vossa misericórdia para os que se acham imersos em dores morais ou físicas.
Estamos isoladas neste castelo, premidas por uma dor profunda que vibra em nossos corações de filha e de esposa e mãe, separadas dos que fazem parte talvez eternamente de nossos destinos!
Estamos sem notícias dos entes queridos e sem o alento de uma esperança reanimadora.
Vós sois a derradeira consolação e não desejamos perdê-la para que não sejamos golpeadas por dores acerbas ou rolemos no abismo da desventura.
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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 05, 2018 11:12 am

Tende, pois, compaixão de nossos sofrimentos e, se for de Vosso agrado, terminai esta angústia que nos domina e faz os nossos corpos penderem para a terra.
Tende piedade de nós e de todos os que padecem neste Vale de Lágrimas!”
Logo depois a jovem baixou o braço, ajoelhou-se novamente e, com voz estranha, começou a murmurar:
“Estamos sempre ao lado dos que padecem, como vos sucede neste momento.
Deus não abandona os que estão lutando com a adversidade.
Não vos entregueis ao desalento nem à descrença no auxílio divino.
Daqui a três dias regressarão os que se ausentaram deste solar com os que foram exilados e tiveram experiências que ficarão eternamente gravadas nos livros de suas vidas.
Vós, que recebeis esta mensagem de um de vossos Guias, tendes de empenhar-vos em uma luta que há-de durar decénios e só terminará quando for consumada a vossa missão terrena, de sumo valor espiritual.
Esquecei, pois, as vossas dores, as vossas decepções, as vossas amarguras, sempre confiantes no auxílio e na protecção dos Mensageiros divinos.
Fostes outrora discípula de Jesus que vistes em Jerusalém ser alvo das injustiças e perversidades dos que ainda tinham as suas almas em trevas.
Deveis desta era para o futuro ressuscitar o que já foi gravado em vosso espírito.
Deus vos proporcionou uma fortuna incalculável, acumulada com os labores e sacrifícios dos servos, sempre desamparados, sempre flagelados pelo despotismo dos senhores dos castelos, mas soou agora o clarim da vitória espiritual, da piedade cristã e sois vós, apesar de ainda muito jovem nesta vossa actual peregrinação planetária, que tendes de assumir a direcção de tudo, que terá por limite o triunfo eterno de muitas almas redimidas.
Não estareis só para o empreendimento de tão elevada missão, mas, ao lado de outros seres humanos, que serão vossos auxiliares na SEARA BENDITA que começa na Terra e termina no Além!”
Quando Diana terminou a mensagem espiritual que recebera, sentiu-se emocionada até às lágrimas, tendo a sua digna professora lhe reproduzido o que gravara na memória, dizendo ela:
— Pois será crível que, regressando meu pai, consentirá ele na execução de tão grandiosa missão terrena?
— Deves contar, Diana, com a protecção dos Mensageiros divinos que, na Terra, hão-de sair triunfantes.
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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 05, 2018 11:12 am

7 O RETORNO
Transcorreram mais alguns dias sem que chegasse ao Solar notícia alguma dos queridos viajantes.
Vede, cara mestra, quanto fomos iludidas.
Os que se comunicaram por meu intermédio afirmaram que teríamos notícias dos ausentes após três dias e já passou uma semana, e estamos sem a mínima compreensão do que ocorre além, com os que partiram sem destino conhecido.
— Pois eu não duvido da realidade do que recebeste espiritualmente, Diana.
Não és uma leviana, uma destituída de sinceridade e, portanto, não deves ter sido a transmissora de inverdades.
Não pode ter havido falta de lealdade, mas talvez algum sucesso inesperado tenha causado a demora dos entes que esperamos ansiosamente.
Não te entregues à desesperança e ao desalento.
Sonhei que eles já haviam chegado... Escuta vamos descer ao térreo; Diana.
Algo de extraordinário está ocorrendo na entrada principal deste solar.
Vamos. Vamos ver o que aconteceu.
— Meu pai! — exclamou Diana.
— Meu filho! — gritou Esteia Delavigne, soluçante.
Houve amplexos afectuosos e interrogações sobre os sucessos ocorridos durante a ausência deles.
— Como envelhecestes, meu pai! — disse Diana, com os olhos inundados de lágrimas.
Estais quase irreconhecível...
— O sofrimento foi intenso, querida filha, e só com o tempo... poderei relatar tudo quanto me sucedeu e aos heróicos amigos que me acompanharam e, por último, os que me salvaram da miséria e de acerbos dissabores.
— Que dissestes, meu pai? — tornou Diana, surpresa com as revelações paterna.
— A verdade mais real de minha vida.
Não fosse o estado de depressão física em que me encontrava e já teríamos chegado aqui há três dias.
Os recém-chegados, acolhidos com fraternidade e afecto, passaram horas com a narração de ocorrências que tiveram de enfrentar com grandes dificuldades financeiras.
A jovem filha do conde, aproximando-se do dr. Januário, agradeceu-lhe emocionada a oportuna interferência que reconduziu ao lar querido o seu infeliz progenitor.
Apertou-lhe a mão e falou-lhe sensibilizada:
— Que Deus vos recompense, dr. Januário, pois eu já não tinha mais esperança de rever meu desventurado pai.
Sei que fostes o causador de sua partida brusca da França, mas, desde que percebi a generosidade de vosso plano humanitário, a minha gratidão tornou-se ilimitada.
— Não é preciso agradecer-me, Diana.
O que te lembro com insistência é a execução de tua missão espiritual neste solar.
— Comprometo-me a começar a executá-la amanhã mesmo.
Quereis vir assistir o seu início?
— Sim. Virei aqui pela manhã e desde este momento vou solicitar permissão do sr. conde para vir a este castelo com frequência para zelar por tua saúde e de todos os seus habitantes, sem quaisquer honorários.
— Eu vos espero amanhã, com indizível prazer!
Horas de mútuas confidências transcorreram na residência do conde.
Todos observaram a diferença operada no titular, física e moral, pois ele não se mostrava incomunicável e arrogante como outrora, mas houve momentos inesperados em que, fazendo irem à sua presença o jovem Leonel e o humilde João Voltaret, assim falou encarando a filha:
— Diana, jamais poderei recompensar estes incomparáveis amigos e companheiros de um verdadeiro martírio.
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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 05, 2018 11:12 am

Para que compreendas a verdade é preciso que te diga que ambos trabalharam para o meu sustento e que João chegou ao ponto de pedir esmolas para... não morrermos de inanição, pois já sabes que fui roubado em tudo que possuía na primeira hospedaria e chegamos a ser humilhados e expulsos.
Alugamos um verdadeiro pardieiro... que me faz lembrar aquele em que morava a família de Flávio Sigaud, que protegias ocultamente.
Quero visitá-los amanhã, Diana! — concluiu o titular com os olhos fúlgidos de lágrimas de compaixão.
— Sim, querido pai, mas chegou o momento de esclarecer-me por que não me comunicastes vossa penosa situação.
— Eu o fiz por intermédio de Leonel diversas vezes, mas as cartas eram apreendidas na agência local, pois houve quem me denunciasse como indivíduo perigoso à França...
Somente soubemos disso quando o prof. Delavigne e o dr. Januário chegaram a Argel.
Se eles não fossem à nossa procura, então Leonel venderia uma jóia de família e viria em busca de socorro, para o nosso regresso tão ansiosamente desejado.
— Quem seria o denunciante, meu pai?
— Julgo ter sido o criado que me roubou na hospedaria em que residíamos, para afastar suspeitas sobre a sua pessoa e não ser denunciado à polícia.
— Graças à protecção de Jesus tudo ficou resolvido, meu pai, sem violências e sem nenhum delito.
Agora, meu pai, tratemos de fazer o Bem, principalmente aqui neste solar.
— Estou de pleno acordo contigo, Diana, pois o que sofri faz-me lembrar dos seres humanos mais miseráveis ... que eu desprezava, inflado de vaidade ou de orgulho.
Quero que sejas muito grata ao dr. Januário, ao prof. Delavigne, ao bom Leonel e ao abnegado João... que não me deixou morrer de fome.
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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 05, 2018 11:12 am

8 O SOLAR DE JESUS
No dia do regresso do conde e os seus estimados companheiros de sofrimentos e de viagem, houve um lauto jantar no salão apropriado, repleto de incomparável alegria, o que não sucedia havia quase meio século.
Em certo momento, Diana levantou-se e, erguendo uma taça de champanha, assim falou:
— Em primeiro lugar, bendigo o Monarca absoluto do Universo, o Pai incomparável que restituiu a calma e a alegria a este solar, até então imerso em lágrimas e tristezas, agradecendo-Lhe não haver sucumbido de amarguras o dono deste solar que deverá ser chamado, de agora em diante, SOLAR DE JESUS, como preito de gratidão ao Emissário divino que baixou às trevas planetárias para dirigir a nossa redenção espiritual.
Surgiu, pois, uma nova era para todos os que aqui se encontram, que serão, doravante, eternamente congregados em missão de amor.
As inspirações divinas virão, em catadupas, sobre as nossas frontes, onde incidirão as bênçãos divinas.
Não considereis jamais como inferiores os serviçais, os desprotegidos de fartura, os próprios mendigos, esforçando-vos para que sejam tratados com humanidade, com piedade, confortando-lhes os corações desalentados ou atendendo às súplicas das mãos estendidas para receber um óbolo que os vista ou lhes mate a fome.
Ouvi o que ora vos transmito por intermédio desta irmã que, apesar de muito jovem ainda, já é um espírito milenário, com experiências adquiridas sobre o Bem e o Mal.
Todos os actos humanos são julgados pelos Emissários celestiais para que o Juiz Supremo possa exercer a mais integral justiça.
Ninguém sofre sem justa causa e todas as acções, boas ou más, têm o seu reflexo.
Chegou o momento luminoso das reconciliações terrenas, das abnegações fraternas, do auxílio cristão e, assim, dentro em pouco, este solar será bendito por todos os que dele tiverem conhecimento, como beneficiados dos pobres e desamparados.
Não ireis acolher ociosos e exploradores, mas dar-lhes ocupações dignas que os recompensem e os amparem contra a miséria.
Dai-lhes instrução, mantendo uma escola para adultos, jovens e crianças, a cargo dos professores presentes.
Transformai este castelo em um abrigo fraterno para os desprotegidos da sorte que, desde então, tornar-se-ão verdadeiramente irmãos pelo afecto recíproco, pela paz reinante, pela gratidão que, por muitos séculos, existirão em suas almas. Que o Pai universal e Jesus vos abençoem e a todos os seres humanos!”
Quando Diana terminou esta prece espontânea e inesperada, foi abraçada pelos comensais e, em voz alta, o conde de Debret dirigiu-se ao prof. Delavigne e lhe perguntou com incontida curiosidade:
— Professor, elucidai-me sobre este caso.
Por que a minha filha falou com um timbre de voz diferente, proferindo conselhos que, em sua idade, excederam o que deve ser observado.
Foi ela dominada por algum fenómeno desconhecido?
— Sr. conde, estou em condições, bem como o dr. Januário, de dar-vos as respostas desejadas.
Há na França e em muitos países civilizados uma inovação religiosa que, sob o influxo de Mensageiros siderais, há-de progredir por todo este planeta.
É o Espiritismo, doutrina codificada pelo nosso conterrâneo chamado Allan Kardec, que reuniu as melhores provas da imortalidade da alma e a sua comunicação com os seres terrenos.
Combate ele as penas eternas e ensina a redenção da alma ou espírito por provas humanas bem suportadas.
Há muito que os seres terrenos recebiam as chamadas “inspirações” na calada da noite, como a pitonisa de Endor, na Palestina, mas agora os Mensageiros divinos já transmitem os seus pensamentos, como presenciamos há pouco, por entes especialmente dotados e chamados médiuns.
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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 05, 2018 11:13 am

— A inovação sugerida pelo nosso supracitado patrício é digna de louvor, mas depende da prática para que vejamos o seu resultado! — falou o titular.
Quando terminou o banquete de regozijo no Solar, o dr. Januário, aproximando-se de Diana, felicitou-a pela sua bela manifestação psíquica e, sensibilizado, abraçou-a fraternalmente, mas ambos sentiram o despertar de um novo sentimento, até então ignorado.
Ainda com os seus olhos celestiais marejados de lágrimas, ela lhe disse:
— Dr. Januário, eu não sei expressar o meu reconhecimento por tudo quanto fizestes em meu benefício e no de meus entes queridos.
Agora tenho esperança de que este solar, tão flagelado por dores inesquecíveis, possa tomar outra directriz.
— Tudo quanto fiz, por um ato que parecia de violência, foi por inspiração surgida em minha alma que certamente estava recebendo inspirações do Alto.
O conde de Debret, aproximando-se de sua filha, falou com a voz ainda perturbada de emoção:
— Minha filha, iremos amanhã ao casebre de Flávio Sigaud, pois um herbanário que, na Argélia, nos prestou um valioso auxílio, soube do mal que sofre o meigo Luisinho e enviou, por intermédio de João Voltaret, uma planta para a sua cura definitiva, de acordo com as instruções que ele nos transmitiu.
Diana, ainda visivelmente comovida, falou ao prof. Delavigne e ao dr. Januário:
— Faço questão fechada de que amanhã cedo estejam ambos prontos para o passeio combinado. Tenho já um plano...
— Que os Mensageiros divinos te inspirem os melhores planos possíveis, Diana — disseram eles, quase em uníssono.
Terminada a amistosa reunião, retiraram-se os que nela tomaram parte, tendo nos corações uma suave impressão de conforto espiritual, como jamais sucedera naquela opulenta habitação senhorial, até então flagelados por dores que atingiam a todos eles.
Transcorria o mês de abril, já invadido pelos esplendores da Primavera no Solar de Diana.
Logo nas primeiras horas do dia, todos se ergueram do leito, tendo em pensamento uma excursão em que levariam conforto a corações desolados.
Tudo estava preparado para a partida quando chegou o dr. Januário, que, ao fitar a jovem Diana, nunca a considerou tão parecida com a sua desditosa progenitora.
Diana percebeu a emoção que dominava o médico que, ao apertar-lhe a mão, a beijou afectuosamente.
— Podias ser filha minha e, no entanto, o sentimento paternal está se transformando.
— Meu pai está nos observando, murmurou a jovem com timidez.
Confesso, porém, que ocorre em meu íntimo... igual fenómeno!
O conde, aproximando-se, fitou-os com atenção e depois falou:
— Parece-me que estamos fadados a vivermos todos neste solar... como se fôssemos membros da mesma família.
— Que Deus ouça e realize as vossas palavras, querido pai — exclamou Diana, cheia de emoção.
Partiram, decorridos alguns momentos, os que constituíam então a caravana da piedade: o conde, sua filha, o prof. Delavigne, o dr. Januário, João e os dois condutores das carruagens.
— Por que ordenastes que fossem aprestadas duas conduções... se uma só bastaria para o nosso projectado passeio? — perguntou o conde à filha.
— Permiti, meu pai, que eu guarde alguma reserva... até o local de nossa excursão — respondeu ela com um sorriso.
Quando chegaram ao local desejado, falou o conde com verdadeira emoção:
— Nunca pensei que a miséria reinante no lar de Flávio Sigaud fosse tão grande.
Quando me achava em Argel, muitas vezes pensei que estava padecendo por haver expulso do Solar de Diana esse que foi meu servo e três membros de sua família, enfermos e desamparados.
Depois que o destino me fez passar por tão acerba prova é que a compreendi com exactidão.
Todos os viajantes desceram dos veículos e dirigiram-se para o pardieiro de Flávio, percebendo um doloroso soluçar de criança.
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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 05, 2018 11:13 am

O dr. Januário foi quem vibrou na porta uma forte pancada e logo após viram o encantador semblante de uma jovem aparentando umas quinze primaveras.
— Quem procurais nesta humilde casa? — perguntou.
— Todos deste lar! — exclamou Diana.
Teu pai está em casa?
— Sim. Podem entrar, mas não temos cadeiras para oferecer-lhes para sentar.
— Estamos aqui para visitar todos deste lar e especialmente ao pequeno enfermo.
A criança, a princípio atemorizada, tendo ocultado a loura cabecinha com mísera coberta esfarrapada, sentou-se a custo em seu leito — dois caixotes unidos com um simulacro de colchão — e pôs-se a fitar os recém-chegados, sorrindo tristemente para Diana que logo se aproximou e disse-lhe:
— Viemos visitá-lo, Luisinho.
Estás melhor?
O pai dele, aproximando-se, cumprimentou os visitantes e já perto do improvisado leito, respondeu-lhes:
— Melhorou da bronquite asmática, mas está com fraqueza nas pernas e... custa muito a dar passos.
— Deus permitirá que ele obtenha melhoras sensíveis com o novo tratamento a que vai ser submetido... em outro lugar! — falou a jovem Diana, afagando-lhe a fronte.
Depois, com a voz modificada, falou com estranha emoção:
— Amigos que estais presentes, eu vos convido a erguermos ao Altíssimo uma prece em beneficio deste enferminho, para inspirar a meu nobre pai, aqui presente, a sua permissão para levá-lo para o Solar de Diana que, desde hoje, será chamado SOLAR DE JESUS, onde há excesso de aposentos confortáveis, completamente desocupados, ao passo que aqui e em outros lugares há falta de alimento e agasalho para seres humanos que também têm o direito de viver... como os que são ricos e poderosos.
Consenti, querido pai, que se realize este sonho... que já dura anos?
Todas atenções convergiram para o titular que, extremamente pálido, sem conseguir pronunciar uma só palavra, dobrou a fronte verticalmente, aprovando tacitamente a rogativa de sua piedosa filha, ato pelo qual foi abraçado pelos presentes, falando-lhe a filha entre soluços:
— Vamos orar de joelhos, agradecendo ao Juiz Supremo a grande e indescritível concessão que acaba de proporcionar.
— Minha filha, eu já proferi algumas preces... depois dos tormentos por que passei em Argel, mas nunca o fiz ajoelhado.
Ao terminar o titular estas palavras, inesperadamente e sem que ninguém o suspeitasse, com surpresa geral, viram angelical menino ajoelhar-se no seu rústico leito, unindo suas minúsculas e pálidas mãozinhas em louvor à confortadora graça que lhe foi concedida e aos seus entes queridos, mais por influência de Mentores espirituais que ali se congregaram.
A comoção orvalhou de lágrimas os olhos de todos e, constituindo uma surpresa inesquecível, ajoelharam-se, imitando o doentinho que, com voz meiga e alterada, assim falou:
— Papai do Céu... tende piedade de nós!
— Já teve compaixão de nós o incomparável Pai universal! — exclamou o dr. Januário, que se ergueu do chão de terra, e falou intensamente emocionado:
— Pai incomparável, Amigo eterno de todos os que padecem, acabo de viver o momento mais emocionante desta dolorosa existência, do qual jamais olvidarei por séculos e milénios.
Vós, Senhor, fizestes com que se curvassem todos os presentes à voz de um arcanjo terrestre, que conseguiu abalar por todo o sempre o orgulho humano, desfazendo-o em migalhas que hão-de confundir-se com a poeira das estradas desertas, e nós O louvamos agora e eternamente.
Aqui nos encontramos, após séculos de sofrimentos, desejando seguir eternamente a marcha ascensional de nossos espíritos, que aspiram ser habitantes siderais.
Abençoai todos os que aqui se acham e todos os seres deste planeta, fazendo uma especial rogativa para o pequenino ser que fez um grande e nobre titular dobrar os joelhos pela primeira vez em sua actual peregrinação terrena, devendo sua alma ter aportado nas plagas divinas para onde todos nós dirigiremos os nossos passos!
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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 05, 2018 11:13 am

Abençoai-nos, inspirando-nos os mais generosos pensamentos, a fim de que, hoje e eternamente, sigamos o caminho do Bem, do Perdão, do Sacrifício, da Abnegação, da Paz e da Piedade.
Quando o dr. Januário concluiu a prece que todos repetiram por seu turno, em suas mentes, foi abraçado, comovidamente, pelos presentes.
Intensamente sensibilizado, agradeceu e, aproximando-se do leito do Luisinho, ergueu-o nos braços, osculou-lhe as faces desmaiadas e disse com entonação vibrante:
— Este encantador menino jamais se apartará dos que aqui se acham!
Foi ele o elo bendito de nossa união ou de nossa eterna aliança.
Deixemos, pois, este bendito casebre onde se unificaram os nossos espíritos por toda a consumação dos séculos.
Proponho ao sr. conde que, neste local, seja erguido um santuário consagrado ao Redentor, onde nos reuniremos algumas vezes durante cada desfile de um ano para agradecer ao Pai celestial e a Jesus as graças que nos
foram concedidas!
Todos os presentes aplaudiram a ideia do dr. Januário que, sempre abraçado ao menino, falou ainda:
— Partamos, para sempre, para o solar de Jesus.
Os progenitores do Luisinho soluçam e, aproximando-se do conde de Debret, o pai dele murmurou:
— Sr. conde, não enlouqueci ainda de emoção?
— Não, Flávio, respondeu-lhe o titular.
Sofri muito pelo ato de violência que pratiquei contra ti e os teus entes queridos e quero agora resgatar os meus defeitos, pois a dor fez-me reconhecer a verdade que poucos seres compreendem.
Partamos todos para o nosso solar, que tem abrigo para todos os que aqui se encontram.
O prof. Delavigne e os seus, bem como o dr. Januário, pertencem a uma só família ligada pelo destino que, certamente, jamais nos há-de separar!
— Louvores eternos sejam consagrados ao Juiz Supremo! — exclamou o prof. Delavigne, abraçando o titular, a sua cara discípula e os presentes.
Nunca hei-de viver certamente hora mais emocionante do que esta, aqui nesta humilde choupana.
Como Deus é generoso para com os filhos que tantas vezes se afastam do carreiro do Bem e da Virtude.
Todos os circunstantes aplaudiram as suas palavras, depois, reunindo em modestos invólucros alguns objectos e humildes vestuários, dirigiram-se às duas carruagens que os aguardavam perto da choça que dir-se-ia tornada luminosa e resplandecente por uma verdadeira magia sideral.
— Será transformado em um santuário! — exclamou o dr. Januário Closet, fitando o miserável casebre de Flávio Sigaud com os olhos repletos de lágrimas.
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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 05, 2018 11:13 am

9 TRANSFORMAÇÃO
Partiu a caravana cujos membros iam com os corações abertos e as fisionomias tranquilas e ditosas.
Duas horas após chegaram ao Solar de Diana que, de agora para o futuro, foi conhecido pelo abençoado nome de Solar de Jesus e grande foi a admiração dos servos ao observar o outrora orgulhoso e despótico titular em companhia de humildes criados como eles.
Quando todos desceram das carruagens, conduzindo o que levavam com facilidade, o dr. Januário, sempre com o pequeno enfermo nos braços, disse com emoção:
— Não creio que tenhamos, durante a vida que transcorre, outras horas mais ditosas do que as que passamos na choupana de Flávio.
— E eu, dr. Januário, que posso dizer? — e, abraçando o seu filhinho, assim lhe falou:
— Meu querido filhinho, tudo quanto sofri por tua causa transformou-se em alegria eterna.
Agora confesso aos amigos que meu pai foi um opulento castelão além de Amiens[2].
Ele, porém, teve súbitos prejuízos decorrentes de jogo imoderado e, tendo falecido a minha desventurada mãe, em poucos meses ficamos reduzidos à mais negra miséria.
Ele pouco depois baixou ao túmulo e eu, que mal saíra da infância, tive que procurar serviço... lembrando-me de haver deixado um castelo principesco em que sempre vivera com o maior conforto e abundância.
Meu pai, porém, fora cruel e muitas vezes expulsara criados de seu lar e, ao sofrer o que sofri, muitas vezes pensei em estar resgatando uma dívida igual à minha ou dele mesmo, cujo espírito deve ter contemplado o meu sofrimento.
Perdoemo-nos, pois, reciprocamente, e confesso que jamais tereis um amigo mais leal do que este humilde servo que vos fala neste momento.
O conde, comovido, abraçou-o e, alterando a voz, falou com sensibilidade aumentada pela comoção:
— Confio em tua promessa formal e, desta data para o futuro, quero purificar a minha alma, evitando qualquer acto nocivo que a possa macular novamente, pois terá que ser julgada por um tribunal incorruptível.
— Parece-me estar sob o domínio de um sonho escutando o que dissestes, sr. conde! — exclamou o prof. Delavigne.
A vossa transformação espiritual foi prodigiosa como se feita sob a tutela de uma radiosa fada.
Eu vos felicito e a todos os presentes, pois antevejo uma nova era para o Solar de Jesus.
— Eu vos agradeço, muito, sr. professor e, amanhã, após a primeira refeição, aqui nos reuniremos, pois desejo determinar os afazeres de cada um dos amigos que compartilharão do Solar de Jesus, como se a todos pertencesse.
Vamos agora designar os aposentos para Flávio e a sua família.
— Basta que tenhamos onde nos abrigar fora do castelo, pois, desde a infância, nunca mais tive o direito de residir em um palácio!
— Não te oponhas ao que resolvi por inspiração de Diana:
vais ocupar cinco excelentes cómodos no andar térreo, onde nos encontramos neste momento.
Desejo que, em primeiro lugar, penetre o dr. Januário com o Luisinho, que nos olha com surpresa.
Aberta a porta que punha em comunicação os determinados aposentos, todos entraram e admiraram a perícia de Diana que ordenara aos servos que o mobiliassem com o indispensável para que tivessem relativo conforto.
O leito destinado ao pequeno enfermo fora o que ela mesma ocupara até os cinco anos de idade.
O dr. Januário, contente e prazeroso, colocou o infante na caminha e ele, relutando, exclamou:
— Não! A minha caminha não é esta!
— Vai ser tua desde este momento, Luisinho — disse o médico — pois agora mudaste para aqui!
O venturoso Flávio então se aproximou e falou com o seu filhinho, cheio de alegria:
— Meu filhinho, nós vamos agora morar aqui.
Quero que beijes as mãos de nossos benfeitores.
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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 06, 2018 11:55 am

O conde, o dr. Januário e Diana aproximaram-se da criança e beijaram-lhe a fronte e a todos ele retribuiu com um ósculo afectuoso.
Os pais e a irmã de Luisinho renovaram os agradecimentos e após todos se retiraram para o pavimento superior, tendo antes Diana avisado:
— Sr. Flávio, tudo o que necessitarem, em roupas e alimentos, estão nos móveis que aqui se acham.
— Obrigado. Desejo, porém, que o sr. conde me designe uma ocupação para eu retribuir, com o meu trabalho, o que for possível.
— Amanhã meu pai designará todos os afazeres dos moradores deste castelo.
Qualquer ponderação que pretendes fazer, falarás antes comigo.
— Amanhã pela manhã — disse o conde — exporei o que pretendo efectuar aqui neste castelo, que vai ser transformado integralmente, e espero o comparecimento de todos às oito horas.
O dia da chegada da família de Flávio Sigaud transcorreu quase que festivamente, com um excelente jantar depois do qual o dr. Januário assim falou ao conde:
— Vou retirar-me para regressar à hora marcada, pois eu não quero perder a reunião projectada.
— Por que não vos acolheis aqui para não viajar logo ao amanhecer?
— Tenho um consultório montado e vou convidar um colega para substituir-me amanhã.
— Não necessitais mais exercer a vossa profissão em Lille, pois eu vos farei um ordenado compensador para tratar dos enfermos deste solar e dos seus arredores.
— Obrigado, sr. conde. Eu vos darei uma resposta definitiva ao regressar amanhã.
Nesse ínterim aproximou-se Diana, fitando o dr. Januário que, ao despedir-se da jovem, falou-lhe em voz baixa:
— Tudo farei para não me separar mais de ti, Diana.
Estou dominado pela tua beleza física e moral!
Ela o fixou, sorrindo, e lhe respondeu:
— Vós tendes o dom de cicatrizar as enfermidades da alma... e do coração.
Quanto me sinto ditosa em vossa companhia.
— E eu bem sabia que, com a tua bondade, Diana, conseguirias a felicidade de todos os que aqui residem.
— E dizer que, após um ato de violência, seguido de um ato de generosidade, transformastes a vida de todos os habitantes deste solar!
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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 06, 2018 11:55 am

10 METAMORFOSE
Alvoreceu um dia de esplendorosa beleza, iluminando a natureza toda e a alma de todos os que se congregaram no castelo do conde de Debret.
— Parece um sonho o que ora sucede aqui! — falou um servo.
Estou admirado da diferença de procedimento do sr. conde desde o seu regresso da África.
— Dizem que ele padeceu muito e arrependeu-se do que fazia aqui com os seus subalternos — disse outro.
— Vamos prestar a atenção, pois que ele, o professor e o médico já surgiram e julgo que estão todos ansiosos; para que sejamos atendidos hoje.
Atenção. Vamos ouvir o sr. conde que já se destacou de entre os amigos e ergueu o braço direito.
Vamos escutá-lo, amigo!
Então, o titular, com a voz alterada pela emoção, assim falou:
— Meus amigos, sei que tendes ressentimentos de tempos idos... quando eu ainda não havia adquirido... com lágrimas e sofrimentos... as mais pungentes e valiosas experiências da vida terrena.
Quis o Senhor, que preside os nossos destinos na amplidão celestial, que eu me ausentasse da pátria bem-amada e padecesse acerbas dores morais que quase me fizeram fracassar e, se tal não aconteceu, foi devido à coragem e ao devotamento deste incomparáveis João Voltaret e Leonel Delavigne. Lembrava-me então de todos vós que aqui vos encontrais... e compreendi quanto padecestes...
Houve uma súbita interrupção do que estava expondo o conde, que foi aplaudido com sinceridade, havendo muitos olhos cheios de lágrimas.
— Prossegui, sr. conde — disse o dr. Januário — pois estais sendo ouvido com a máxima atenção.
— Meus amigos — prosseguiu ele — toda a transformação operada em minha vida... eu a devo a este que acaba de pronunciar as palavras que todos vós escutastes — o dr. Januário Closet — que conseguiu transformar a minha existência terrena... como eu nunca havia pensado.
Hoje, felizmente, compreendo que todos os que nascem na opulência julgam-se superiores aos outros seres humanos, merecedores de todas as regalias sociais e não enxergam os que vivem em casebres, os que curtem fome e frio... como se fossem entes de pedra, insensíveis à dor e ao sofrimento físico e moral.
Nunca se lembra de que, havendo em seus amplos lares excesso do conforto, há os que vivem em choupanas, em miseráveis abrigos, onde falta tudo e choram famintas criancinhas angelicais.
Devia eu ter despertado há mais tempo... pois agora julgo estar vivendo os derradeiros dias desta quase que inútil existência.
— Não, sr. conde, não!
Queremos que tenhais uma vida bem longa... em convivência com os amigos aqui reunidos... para ouvirmos as vossas comovedoras palavras! — exclamou Flávio Sigaud, tendo nos braços o seu encantador filhinho que elevou os bracinhos como se desejasse falar algo com os presentes.
— Não, filhinho — disse o enternecido pai.
Agora não, que o sr, conde está falando.
— Quero dar um beijo... em sua mão... por me haver deixado dormir... numa caminha tão linda!
— Podes trazer aqui o menino — disse o conde a Flávio.
O seu agradecimento far-me-á muito feliz... agora e para o resto da vida.
O genitor do menino levou-o até onde se achava o titular, que o arrebatou dos braços paternos, beijou-lhe as faces e disse com voz embargada de comoção:
— Foste tu, inocente, quem concorreu para a minha completa transformação, e, surpreendendo os presentes, beijou as faces da linda criança.
A emoção foi geral!
Ninguém mais conhecia o proceder do titular que, de algoz, passara a ser humilde e afectuoso.
Houve lágrimas, muitas lágrimas.
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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 06, 2018 11:55 am

O dr. Januário aproximou-se do ancião e abraçou-o, bem como à jovem Diana, que murmurou:
— Agora sim.
Posso considerar-me ditosa como nunca pensei!
— Obrigado, obrigado! — exclamou o conde, abraçando a todos os que dele se aproximavam.
— Vou continuar, amigos, o que desejava expor-vos.
Ressoaram muitas palmas no auditório.
Depois de enxugar o pranto que lhe inundava os olhos apagados pelo transcurso do tempo, assim continuou:
— Amigos, o tempo não nos deixa esmorecer, pois, quando não pensamos em partir, chega o momento definitivo e temos que deixar neste Vale de Lágrimas os que mais adoramos.
Há, porém, a esperança de um reencontro ao perpassar dos dias... ou dos decénios.
Pensemos, pois, no que resta a fazer antes que a nossa voz emudeça.
Eis o ar que aspiro: desejo que todos os que aqui se acham jamais se ausentem deste solar até o momento supremo.
Todos os salários serão aumentados e todos terão o direito de reclamar, em um caso anormal, de enfermidade, morte ou viagem.
O professor Delavigne ampliará os seus trabalhos educativos, indistintamente, pelas crianças e pelos adultos que desejarem continuar os seus conhecimentos intelectuais.
Poderá ser auxiliado por sua esposa, por Diana ou outros abnegados educadores.
Seus ordenados serão de acordo com os seus méritos, realmente conhecidos por todos os assistentes.
O dr. Januário terá dois consultórios, sendo um em Lille, já seu, e outro neste solar, devidamente remunerado.
Quanto a João Voltaret e Leonel Delavigne, este será educado sob a minha responsabilidade e João será o nosso mordomo, sendo os demais recompensados segundo as suas tarefas.
Fui criado na opulência e só depois que o meu progenitor faleceu é que fiquei sabendo quanto possuía em depósitos bancários, propriedades e dinheiro aqui guardado.
Dominado pelo orgulho e pelo receio de ser furtado, tornei-me refractário aos conhecidos e mormente aos servos, pois temia um grande prejuízo.
Mais tarde, em Argel, vi-me sem nada do que possuía e vivi à custa de um jovem de rara nobreza de espírito e de um criado dedicado... que não me deixaram morrer à fome.
Precisamos de viver com fraternidade, de estender a mão aos que necessitam de amparo e comida e não guardar o que chega para centenas de seres humanos necessitados.
A educação que os pais geralmente dão aos filhos, com raras excepções, tem múltiplos defeitos, pois incrementam o orgulho, a vaidade, a vingança, a desforra, a supremacia das raças e da instrução e uma pessoa assim criada desconhece as leis divinas e se considera digna e merecedora de todas as regalias e de todos os prestígios sociais.
Foi mister que me ausentasse deste solar, que ficasse na penúria, sofresse humilhações e falta de tudo para me lembrar dos que estiveram sob minha completa dependência, padecendo os rigores de meu génio arbitrário e violento.
Não sei o que ocorre em meu íntimo de ontem para hoje e sobretudo desde que fui à choupana de Flávio Sigaud onde sofria um arcanjo digno de celestiais venturas e que jaz preso a este planeta de dores e injustiças.
Dir-se-ia que minha alma foi transformada por meio de uma cirurgia sideral:
foram eliminados os sentimentos baixos e malsãos e substituídos por humanitários e piedosos, e, desde então, sinto-me metamorfoseado, com a coragem precisa para vos confessar o que ocorreu em meu coração, certo de que nunca mais haveis de sofrer novas injustiças neste solar, que, doravante, tornar-se-á bendito.
Todos os presentes aplaudiram calorosamente as belas palavras do conde, que tinha, ele, o antigo déspota, os olhos marejados de lágrimas felizes.
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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 06, 2018 11:56 am

11 CONFISSÕES
Quando fez-se silêncio, o professor Delavigne pediu atenção para o que ia dizer e, ainda comovido, assim expressou os seus pensamentos:
— Amigos que ora me escutais, nestes últimos dias observei que tenho passado pelas horas de maiores emoções em toda a minha presente existência.
Confesso que nunca tive tão intensas emoções, com intraduzível alegria, quando ouvi o sr. conde pronunciar palavras que pareciam provir de outro ser humano.
Creio já estar ele sendo guiado por alguma entidade sideral que conseguiu memorável vitória com a sua transformação.
Ele, sempre um incrédulo das verdades divinas, encontrou finalmente a sua estrada de Damasco.
Aqui estamos, pois, para felicitá-lo e vibrar uma prece em seu benefício e no de todos os presentes e logo mais tarde na formosa ermida pouco distante deste salão.
Terá a palavra o inspirado dr. Januário que, certamente, saberá externar melhor os seus e os nossos sentimentos.
— Bravo, professor Delavigne! — exclamaram os presentes.
Aproximaram-se do conde de Debret os amigos e os Servos que não só lhe apertaram a mão como o abraçaram e, ao chegar ao adorável Luisinho, este osculou a face do castelão que, com sensibilidade invulgar, retribuiu-lhe a angelical e inolvidável carícia.
Retiraram-se enfim, após o que dissera o professor, o conde e o dr. Januário, acompanhados dos demais.
O médico sustinha nos braços a loura criança que, em poucas horas, parecia bem reanimada, tendo o bondoso João dados aos pais dele algumas ervas que lhe foram remetidas pelo herbanário Sanei Religari.
Terminada a memorável reunião, o conde de Debret, acompanhado pela filha e pelo médico, fitou-os com visível afecto e lhes disse:
— Que opinião formulastes com referência às palavras que proferi no salão das recepções sociais?
— Ficamos arrebatados pelas vossas expressões que não se assemelham às do titular de outrora, quando estáveis imbuído da vaidade de opulento fidalgo — falou o dr. Januário.
Desculpai-me a lealdade com a qual vos falo, pois já sois outro ser humano bem diferente do que fostes há tempos.
— Eu também sinto a transformação que se operou em minha pessoa, mas tudo me revela... que cheguei ao fim de minha actual vida terrena.
— Não, meu pai, nunca tive tanto desejo de que tenhais uma vida longa para contemplar a nossa felicidade! — exclamou Diana, abraçando o seu pai.
— Confirmo as palavras de vossa querida filha, sr. conde — disse o médico — pois pleiteio a nossa ventura que depende do vós e de nosso Pai Celestial.
— Que é que resolveste, caro dr. Januário? — perguntou o titular surpreso, fitando o médico e a filha.
— Sr. conde — continuou o dr. Januário — desde que comecei a frequentar este formoso solar, a conviver convosco e os vossos seres bem-amados, uma verdadeira transformação operou-se em meu íntimo:
eu considerava a humanidade toda constituída de irmãos que ainda não se compreendem e muitas vezes se odeiam.
Era indiferente a uma afeição mais profunda, desde que os meus pais morreram e ainda muito jovem fui infeliz na sincera afeição que dedicava à Genoveva, vossa infortunada esposa.
Não me referirei nunca mais a este doloroso assunto, tão penoso para nós todos.
Já decorreram vinte anos, e eu tenho quase quarenta anos de idade.
Ao fitar Diana, a imagem viva de sua mãe, comecei a sentir um afecto paternal por ela.
Os dias foram transcorrendo e desde o memorável dia em que desejastes rever Flávio Sigaud, quando recebi o seu abraço de gratidão pelo que fiz pelo seu pequenino filho, senti que os nossos corações e as nossas almas se confundiram, aliando-se eternamente.
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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 06, 2018 11:56 am

Depende agora de vosso consentimento para que sejamos cristãmente ditosos.
— Não me surpreendem as vossas palavras, dr. Januário — murmurou o conde, colocando a mão sobre os ombros dele.
Há muitos dias que estava observando que a afeição de ambos se havia transformado...
— E não desaprovastes o que observastes?
— Não, apesar da diferença de idade existente entre vós e a minha filha.
— É verdade, sr. conde.
Eu, porém, consagro-lhe uma afeição dupla — de pai extremoso e de noivo dedicado.
Por sua causa, serei capaz de sacrificar a minha vida.
Só aspiro, para a nossa aliança, as vossas bênçãos e as do Divino Pai.
Discordais de nossa pretensão, sr. conde?
— Não! Venho observando os dois há vários dias e já havia percebido que um sentimento de intensa felicidade domina os vossos corações.
— Obrigado, sr. conde — falou o médico, abraçando-o com carinho, bem como a Diana, que emocionada, beijou a mão engelhada do pai.
Nunca pensei que pudesse ser mais feliz nesta vida depois do que aconteceu outrora, mas sinto-me hoje grandemente venturoso.
Não desejo, porém, sr. conde, que possais pensar que eu prevejo o fim de vossa existência e desejo desposar Diana com o intuito de vos substituir neste castelo. Não!
Se assim desejardes poderei efectuar o meu casamento com a vossa filha... com separação de bens.
— Não penseis tal coisa, dr. Januário.
Já vistes como desejo agir doravante e, portanto confio em vossos sentimentos religiosos, na nobreza de vossa alma, e sei que fareis tudo para tornar Diana feliz.
O que deixar sobre a Terra, quando chegar o momento extremo, que espero agora, ficará vos pertencendo e desejo que sejam entregues ao professor Delavigne e a João Voltaret quantias que lhes garantam a manutenção até o fim da vida, contanto que não abandonem este castelo. Sede venturosos.
É o que almejo e eternamente se é mesmo verdade que a vida continua depois da morte, depois que o nosso corpo baixa à sepultura.
— Podeis crer em minha sinceridade, sr. conde.
O que me dissestes será escrupulosamente observado, se partirdes antes de mim.
— Tenho convicção de que assim sucederá, não mais dr. Januário, mas meu filho de agora em diante.
Houve grande emoção nos corações dos ditosos noivos, que beijaram respeitosamente as mãos do velho conde.
— Ainda algumas palavras que acho indispensáveis neste momento:
possuo quase que incalculável riqueza, não só depositada em Bancos, conforme contas bancárias, que se acham juntamente com uma quantia considerável existente em meu dormitório, em um móvel que todos ignoram e cuja chave está oculta na minha secretária, atada por um cordão escuro.
O que ora vos revelo merece atenção e sigilo para que possais viver em completa paz, sem a ambição que ocasiona uma opulência incalculável.
Podeis revelar o que ora vos revelo a apenas uma pessoa, o professor Delavigne, se houver necessidade de o fazer em caso de viagem ou de grave enfermidade.
Nem podeis calcular o que me ocorria na ocasião em que estava na Argélia ao pensar no que poderia acontecer aqui se jamais regressasse.
Se algo acontecesse de pior, Diana seria grandemente prejudicada.
Terminada a confidência do titular, sua filha retirou-se para o dormitório e o dr. Januário desceu as escadas em busca do Luisinho, a que muito se afeiçoara.
Ao encontrá-lo, notou a diferença de aspecto que houvera em todos os que constituíam a sua família.
O menino, que despertava imediatamente a afeição de quem o visse, lançou-se logo nos braços do médico e beijou-lhes as faces.
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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 06, 2018 11:56 am

— Sois então assim feliz com a amizade de meu filhinho, dr. Januário?
Que vale ele perante a sociedade humana? — perguntou, emocionado, Flávio Sigaud.
— Meu amigo, eu não me conformo com o julgamento alheio quando esse está em desacordo com o meu íntimo parecer.
Este pequenino ser humano concorreu para que eu conseguisse a ventura que julguei haver fracassado nesta actual existência.
Vejo, porém, que todos vós estais curiosos e vou usar de lealdade convosco:
acabo de contratar o meu casamento com a encantadora e piedosa Diana Benoit, minha prima.
— Ah! dr. Januário, nós é que nos sentimos felizes, sem o menor receio de sofrermos o que já ocorreu no passado.
— Bem, meu amigo, confiemos na protecção de Jesus e de seus fiéis mensageiros que se acham espalhados pelo Universo e nunca nos faltará protecção espiritual.
— Que as vossas palavras sejam proféticas, dr. Januário.
Agora começo a confiar na protecção de Jesus, pois muitas vezes me faltou a fé nos momentos de acerba penúria.
— No entanto, tivestes o auxílio que não ignoramos, por intermédio de um ser que parece mais pertencer ao Céu do que à Terra.
Quando Deus vo-lo enviou, já estava com os seus planos idealizados.
Amanhã, Flávio, iremos todos reunir-nos na ermida deste solar e, de joelhos, agradeceremos os benefícios que nos foram concedidos e que nos fazem encarar sob outro prisma.
Vejo que aqui todos já estão com outro aspecto...
— Sim... e jamais nos esqueceremos da ventura que nos foi proporcionada pela bondosa Diana, que tanto concorreu para tudo o que estamos observando.
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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 06, 2018 11:56 am

12 A PARTIDA DO SR. CONDE
O conde de Debret, depois de tantas emoções em que foram férteis os últimos dias, encerrou-se em seu aposento particular.
— Quero que as lágrimas refluam de meus olhos sem que ninguém as contemple, pois não desejo que me considerem um covarde.
Sentou-se em uma poltrona, pouco distante de seu leito.
Uma inércia invencível causava-lhe desejo de adormecer, mas o que lhe pareceu estranho foi ouvir um ser intangível que lhe falava assim:
“Meu irmão, vossos Guias ou vossos amigos invisíveis não poderiam deixar de vir trazer-vos um amplexo fraterno, sem que cometessem uma grande injustiça.
Tudo que realizastes nestes últimos dias foi idealizado por vossos Guias espirituais, que têm por objectivo a vossa felicidade futura.
E tudo já foi efectuado, Rogério Benoit.
Operou-se uma integral metamorfose em vosso proceder e em vossa alma, que há muito estava dominada por um cruel ancestral que se vingou de alguns seres humanos por vosso intermédio.
Se tivésseis verdadeiro domino sobre os vossos sentimentos, repeliríeis o possessor por meio de preces ou de irradiações espirituais, solicitando o auxílio de vossos mentores do Além.
Vós, porém, estivestes sempre de acordo com os actos de maldades praticados contra diversos seres, mostrando-vos crudelíssimo, sem ligar para os lares de infelizes criaturas que dependem de vós, como sucedeu com Flávio Sigaud.
Éreis incrédulo das mensagens siderais que, inúmeras vezes, recebestes, como sucede neste instante, mas não acreditáveis fossem verdadeiras e, dominado pelo próprio espírito e de um outro, causastes desditas, muitas misérias... e também a morte de alguns servos seus que rolaram pelo mundo, enfermos e sem recursos.
Esses infelizes serão futuramente reunidos no mesmo lar e tendes de mantê-los com modéstia, mas piedade fraterna.
O espírito, já liberto das influências de seres arbitrários e vingativos, não obedece mais os vingativos, e, humilde, ajoelha-se como se estivesse na presença do Soberano Universal, implorando-lhe bênção e protecção para fazer a sua ascensão espiritual.
Não sereis integralmente responsabilizado pelas atrocidades praticadas, que devíeis ter repelido, com impulso generosos e somente depois dos sofrimentos passados na Argélia é que ficastes transformado, praticando actos dignos e louváveis.
Podíeis, por longo tempo, continuar a viver neste solar, ao lado de entes queridos, mas as leis supremas determinaram a vossa partida para o mundo espiritual, onde ireis receber lições confortadoras, orientações benditas e depois voltareis a este planeta para adquirir luminosidade para a vossa alma, que ainda tem manchas que precisam ser apagadas.
Não vireis como nobre, para não voltar o orgulho e a vaidade, mas em condições modestas e grandemente beneficiado pelos que moram neste castelo, que será chamado de Solar de Jesus.
Não estais adormecido, irmão querido, mas o vosso espírito se acha dominado suavemente e em contacto com um de vossos Mentores que segue os vossos passos há muitos séculos.
Não deveis mais deixar de atender os meus alvitres, que não têm outro objectivo senão a vossa isenção de provas acerbas, a lapidação do diamante divino — a Alma — até elevá-la às paragens siderais.
Não leveis, pois, em conta de um sonho fugaz o que ora vos revelo.
Nesta já longa romagem terrena nunca orastes senão nos últimos dias e não vos ajoelhastes para fazê-lo senão por influxo de uma criança.
Graças ao influxo dos Mensageiros divinos sentistes a compunção do que lhe fizestes, bem como à vossa desventurada esposa, recebendo uma verdadeira projecção radiosa em vossa alma manchada por muitos delitos de findas existências planetárias e agora ingressastes no carreiro do Bem , do Perdão e do Arrependimento, bem apto para o sacrifício e as acções nobres, mas já atingistes muito mais de meio século de peregrinação terrena.
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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 06, 2018 11:56 am

E mister, pois, ser saneado o vosso espírito nos caudais da luz da Redenção e, após, reiniciar outra batalha planetária com o amparo e a assistência dos Mensageiros celestes.
Não ides, porém, nascer na opulência enganadora para que seja dominado o orgulho, desfeita a vaidade racial e, com humildes companheiros de existências, podereis colaborar na SEARA BENDITA do Senhor, que é também Pai extremoso.
Sereis então reunidos aos que foram torturados moralmente, como sucedeu à inditosa Genoveva, tendo que resgatar o que lhe fizestes sofrer, com esforço, sacrifício e tolerância.
Não convém, pois, que vos detenhais nesta actual peregrinação, pois já adquiristes as dolorosas experiências dos últimos anos e já estais em condições de reiniciar uma fecunda e produtiva existência terrena.
Tereis provas decepcionantes, também repletas de sacrifícios e triunfos espirituais, auxiliado pelo que em breve será esposo de vossa filha,, ambos com as almas cheias de conquistas redentoras.
Ouvistes, caro irmão, o que vos transmiti esta noite?
— Sim, mas quem é que fala dentro de meu cérebro?
Estarei louco?
— Não, compreendestes o que vos revelei e amanhã, logo depois de falar o dr. Januário Closet, vireis a este aposento para orar, de joelhos, perto deste leito, em frente ao esplendor do crepúsculo que acende os faróis divinos sobre todas as frontes humanas que devem reverenciar o Magistrado Supremo em uma dessas horas sacratíssimas.
— Cumprirei as vossas determinações, pois não me sinto mais humilhado perante o Pai celestial que aprendi venerar nas horas de dores e aflições, avaliando agora quantos seres humanos padeceram exclusivamente por minha causa, quanto poderia tê-los feito felizes.
— Eles também já haviam praticado actos condenáveis no passado milenar de cada um.
Resgataram faltas penosas, mas nunca um ser humano deve vingar-se e sim saber perdoar seus ofensores, pois quase sempre a humanidade e o perdão modificam os sentimentos violentos, encaminhando os faltosos para o luminoso Reino divino onde se congregam os redimidos, os libertos dos erros, conseguindo lucificar os espíritos de todas as máculas, e conquistando então a felicidade eterna, como sucedeu a Jesus depois de martírios suportados nobremente, como todos sabem.
Deveis, pois, irmão querido, de agora em diante trilhar o carreiro do Bem, do Amor, da Piedade e, por mais decepções que tiverdes, nunca deixeis de erguer os olhos para o céu, agradecendo ao Pai Supremo os benefícios recebidos, vestindo de luz a alma antes de alçá-la aos planos celestiais.
Despeço-me agora, irmão querido, até que nos encontremos novamente no plano divino.
— Obrigado, irmão, pelos vossos amorosos conselhos.
Eu vos prometo dobrar os joelhos e orar com fervor por tudo que me tem sucedido nos últimos dias.
Mais tarde, na hora combinada, todos se reuniram na ermida do Solar de Jesus e aguardaram a presença do conde que se encerrara em seu dormitório logo depois o trato feito.
Repentinamente, quase todos reunidos, surgiu ali, qual se fora um ser extraterreno, Saul Religari, que comunicou aos presentes que a sua neta querida se casara com um moço honesto e trabalhador, o que lhe permitira partir para a França em visita aos seus bons amigos de Argel, que ficaram contentíssimos com a sua presença ali.
— E o sr. conde? Onde se encontra ele? — perguntou o herbanário.
— Esperemos mais alguns instantes, pois o sr. conde deverá fazer parte de nossas preces.
— Mas onde se encontra ele? — tornou a perguntar Saul Religari.
— Depois da primeira refeição, encerrou-se em seu dormitório, pois declarou que as suas emoções tinham sido múltiplas e desejava repousar algumas horas, pretendendo juntar-se a nós antes do anoitecer.
— Podeis levar-me até lá?
Quero causar-lhe uma surpresa!
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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 06, 2018 11:57 am

— Segui-me, prezado amigo, disse o médico, encaminhando-se para o quarto de dormir do conde de Debret.
Ao ali chegar, notou o médico um grande silêncio, em vista do que resolveu esperar, sem nada ouvir, de modo que bateu na porta, sem ser atendido.
Em seguida, verificou se a porta estava fechada à chave e, já preocupado, falou em voz alta:
— Sr. conde!
Desejamos falar-vos com urgência!
— Algo de grave deve ter-lhe sucedido, disse o herbanário, em vista do silêncio reinante.
Aberta a porta do quarto, por cuja janela entravam cascatas de luz de apoteose crepuscular, acharam o conde ajoelhado no soalho, defronte de seu leito e com a fronte pendida sobre a alva colcha que o cobria.
Estava inerte!
— Parece-me estar morto! — exclamou o médico, aproximando-se para examiná-lo.
— Eu já sabia que ele havia partido para a vida espiritual... desde que aqui cheguei — disse Saul. Não é preciso.
Ambos verificaram que o conde partira para o outro mundo havia mais de uma hora, pois o seu corpo estava gelado.
O dr. Januário saiu para dar a notícia à sua filha e aos habitantes do castelo, deixando Saul ao lado do corpo sem vida.
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Re: Na Seara Bendita - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 06, 2018 11:57 am

13 PAI, PERDOAI-OS
O dr. Januário, consternado, saiu do aposento ocupado pelo conde e foi comunicando o doloroso acontecimento aos que encontrava.
Decorridos alguns momentos, ninguém mais no castelo ignorava o sucedido e, compungidos, faziam sinceros comentários:
Justamente agora que ele era tão nosso amigo é que morreu! — disse um dos presentes.
— Que Deus lhe de um bom lugar no céu! — acrescentou outro.
— Meu pobre pai — murmurou Diana, aproximando-se do corpo inerte do conde e lhe acariciando a fronte.
— Não lamentemos em demasia o acontecido — falou o dr. Januário, pois a vida no Além, depois do golpe do Destino, tem confortadoras recompensas.
Seu espírito partiu sereno e já hoje mesmo deve estar ao lado de verdadeiros amigos espirituais que, nos últimos tempos, transformaram o seu carácter, o seu proceder, metamorfoseando o tirano em humilde e bondoso protector de todos os presentes.
— Peço licença para fazer uma vibração espiritual neste recinto — rogou o prof. Delavigne.
Todos aquiesceram ao louvável pedido, quando, inesperadamente, o piedoso Saul elevou os braços para o céu e disse com verdadeira emoção:
— Vejo, qual se fora uma neblina, o espírito que jaz inerte neste leito, cercado por diversos amigos, dentre os quais um de aparência feminina, que o levam para bem longe daqui.
Ninguém deve pranteá-lo, pois está feliz e é confortado por Mensageiros siderais que o acolheram em sua passagem para o Além.
Escutemos agora a vibração espiritual do amigo que deseja externar os seus pensamentos.
Depois de momentâneo silêncio, o prof. Delavigne proferiu vibrante alocução, externando os ideais cristãos daquela hora em que vivia:
— “Irmãos que estais presentes, este é um dos momentos mais dolorosos da vida terrena para os que não têm conhecimento algum sobre o plano espiritual.
Eis aqui uma das mais pungentes realidades de nossa vida terrena:
a partida de um ser humano com o qual convivemos por muitos anos e cuja permanência neste solar tornou-se indispensável mormente nos últimos dias.
Nunca nos foi dado contemplar tão profunda modificação em sentimentos humanos como aconteceu com o sr. conde de Debret, que se transformou em outro ser humano, bem diferente do que era.
Eis, meus amigos, um dos problemas humanos a ser debatido. O ente do plano material, dominado por adversários terríveis, comete actos de maldade e injustiça.
O domínio espiritual sobre as criaturas humanas é uma verdade patente, pois vemos que algumas não se compadecem do sofrimento alheio porque se acham sob o guante de um dominador perverso.
Devemos, pois, irmãos, nunca nos esquecermos da redenção espiritual, implorando sempre o auxílio de entidades siderais, submetendo-nos aos seus conselhos fraternos.
O caso do sr. conde foi um dentre muitos e, afastado o cruel dominador e passadas as suas provações terrenas para aquilatar o que fazia com os seus semelhantes, a sua transformação foi total e finalmente o seu corpo físico tombou
morto, mas o seu espírito, já regenerado, alçou-se aos altos planos siderais.
Que estas vibrações espirituais, partidas de nossas almas, levem-lhe a nossa eterna gratidão, que Deus, sempre piedoso e justo, compense os seus sofrimentos e perdoe as suas faltas, derramando sobre ele mananciais de luz e paz.
Elevemos os nossos pensamentos ao Omnipotente e Lhe roguemos as suas santas bênçãos pelo nosso benfeitor.
Aliados eternos, havemos de encontrar-nos neste planeta ou em outros, sempre guiados por sentimentos fraternos.
Quando ele regressar ao plano material, há-de ser acolhido com fraternidade e certamente virá continuar a sua luta pelo Bem e pela Redenção.
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