Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

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Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 29, 2018 7:50 pm

Meu filho
Wanda A. Canutti

Espírito Eça de Queiroz

Verso
O LAR É o lugar primeiro onde os resgates são efectuados.
É justamente lá que desfazemos os compromissos que trouxemos, ou adquirimos outros se não soubermos nos conduzir, mantendo uma convivência cristã e fraterna com aqueles que foram determinados por Deus para partilharem connosco da existência terrena.
Ninguém é colocado em nosso lar por acaso.
Ou temos Compromissos com eles para serem ressarcidos, ou eles têm connosco e precisam do nosso amor, do nosso entendimento para desfazerem os seus.
Saibamos, pois, viver o presente pensando no passado das nossas múltiplas existências, mas pensemos também no futuro para vivermos em paz, sem sofrimentos, porque, sabemos* erro nenhum praticado por nós fica sem ser ressarcido.
Eça de Queirós (espírito!)

SUMARIO
Palavras do autor
1 - Terrível imprevisto
2 - Estranho sentimento
3 - Preocupações de mãe
4 - Hóspedes inesperados
5 - Nova tentativa
6 - Um recurso estranho
7 - Esperanças vãs
8 - E o tempo passou
9 - Nova realidade
10 - Acção nefasta
11 - Recursos espirituais
12 - Aceitação
13 - Encontro feliz
14 - Em recuperação
15 - Encontro com o passado
16 - Reflexões
17 - Um teste fundamental
18 - O perdão
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Ave sem Ninho

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Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 29, 2018 7:50 pm

PALAVRAS DO AUTOR
TODOS OS HOMENS QUE ainda vivem na Terra têm muitas imperfeições.
Sendo ela um planeta de provas e expiações, os que aqui estão têm seus compromissos para serem desfeitos, e trazem uma programação de vida justamente direccionada para os resgates que devem realizar, visando o seu aprimoramento espiritual.
Em aqui estando, porém, quando uma adversidade lhes bate à porta modificando a vida que esperavam viver, se desesperam, não conseguem adequar-se à nova situação e revoltam-se.
Justamente por não compreenderem os desígnios de Deus, precisam inculpar alguém pelo que lhes aconteceu, e, quando o encontram, descarregam sobre ele a sua ira, a sua inconformação.
E esse alguém passa a ser o objecto do seu desprezo, mesmo que seja um ente que deveria lhes ser muito caro.
Um ente que fora trazido ao seu lar para também cumprir a sua programação de vida e, inocente de culpas, recebe constantemente toda a carga de sofrimento que lhe impõem.
O lar é o lugar primeiro onde os resgates são efectuados.
E no dia a dia, no seio familiar, que estão as nossas maiores oportunidades de aprimoramento espiritual.
E justamente lá que desfazemos os compromissos que trouxemos, ou adquirimos outros se não soubermos nos conduzir, mantendo uma convivência cristã e fraterna com aqueles que foram determinados por Deus para partilharem connosco da nossa existência terrena.
Ninguém é colocado no nosso lar por acaso.
Ou temos compromissos com eles para serem ressarcidos, ou eles têm connosco e precisam do nosso amor, do nosso entendimento para desfazerem os seus.
Saibamos, pois, viver o presente pensando no passado das nossas múltiplas existências, mas pensemos também no futuro para vivermos em paz, sem sofrimentos, porque sabemos, erro nenhum praticado por nós fica sem ser ressarcido.
Deus é justo e nada faria a um filho seu para vê-lo sofrer.
Se hoje sofremos, é porque muito já erramos.
A Justiça Divina sempre se cumpre, mas ela está estreitamente relacionada às nossas acções, e só se aplica pelo mal que praticamos, pelos débitos que contraímos, como forma de nos reeducar e reencaminhar para o bem.
Façamos, pois, tudo para termos uma vida tranquila, vivendo dentro dos preceitos prescritos por Jesus quando esteve connosco, se quisermos ser feliz.
Alijemos o sofrimento de nossa vida, sabendo vivê-la pensando em nós e naqueles com os quais convivemos, compreendendo-os, auxiliando-os, orientando-os e encaminhando-os, para que nós próprios possamos receber de volta o amor que lhes dedicamos e, acima de tudo, a gratidão de Deus por termos auxiliado seus outros filhos que aqui estão, também em processo evolutivo.

Eça de Queiroz Araraquara, 05 de abril de 2001
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Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 29, 2018 7:50 pm

1 - Terrível imprevisto
CAMINHANDO POR UMA RUA movimentada da cidade de Londres, numa manhã de verão, ia um homem cabisbaixo, triste, sem dar atenção aos transeuntes que cruzavam com ele.
Trazia o coração partido pois acabara de deixar, num cemitério da cidade, a sua querida esposa.
Tão unidos eram ambos no amor que se dedicavam, que ele não podia imaginar a vida sem ela.
Quantas esperanças tiveram naquele casamento que fora realizado no verão passado!
Quantos preparativos para a formação do novo lar e quantas alegrias quando souberam que um filho lhes chegaria!
Ah, mas se soubessem que para a chegada dele seria necessária a partida da sua querida esposa, nunca teriam se alegrado tanto quando ele se fez anunciar.
Agora, o que faria ele sem a esposa, a sua querida Stella, com um filhinho recém-nascido para ser criado, se o seu coração sangrava de tanta dor?
Ah, doces esperanças que alegraram as expectativas da sua chegada!
Quantas vezes formularam, em suas mentes, planos para ele!
Entretanto ele chegara e nada fora como esperavam.
Ao invés da alegria que toma os corações naquele momento em que Deus os presenteava com o fruto mais sagrado do amor que os unia, era só tristeza e desespero por nada poderem fazer.
Ela esvaía-se da vida deixando em seu lugar aquele que, para ter vida, roubara a da mãe.
Ele não queria aquele filho sem ela!
O que faria para criá-lo sozinho?
No momento em que caminhava depois de ter deixado a esposa na sepultura, dirigia-se para casa onde o filho estaria esperando por um carinho seu, uma vez que não contaria com os braços ternos da mãe, nem com o leite com que ela o amamentaria.
Caminhando, caminhando, cada vez mais devagar, não desejando chegar para não ter que se deparar com uma realidade que se recusava a aceitar, o espaço que o separava do lar foi vencido.
Ao entrar, antes de procurar ver o filho que ficara com uma senhora que o ajudara a nascer, atirou seu corpo numa poltrona e chorou muito.
Como sua vida se transformara tanto num ano apenas! Num verão tantas esperanças, no outro tanta dor!
A senhora que cuidava do bebé, ouvindo-o entrar, foi ao seu encontro, dizendo:
- Ele está bem, senhor Thomas!
Está bem aconchegadinho no berço e agora dorme.
Dei-lhe um pouquinho de leite, e ele nada sabe do que aconteceu.
Agora o senhor precisa arrumar alguém que cuide dele e continuar a sua vida.
Ela falava, falava, mas Thomas não ouvia nenhuma das suas palavras, tão mergulhado estava nos próprios pensamentos, na própria dor.
O que lhe interessaria ouvir sobre o filho, se o ser que tanto amava não estava mais em sua companhia?
Como se movimentaria dentro daquele lar que preparara com tanto carinho e alegria para viverem uma vida cheia de amor?
Como permanecer ali sem o ser que lhe dava vida, que tomava a casa alegre, mesmo no dia mais cinzento do inverno que tiveram naquele ano?
A senhora que lhe falava tomou ao quarto onde o bebé se encontrava, mas logo voltou dizendo que apenas o esperara mas precisava ir embora.
Alertado com aquela notícia que lhe deixava sem acção, ele respondeu, indagando:
-Como posso ficar aqui sozinho com o bebé se nada saberei fazer para ele?
É necessário os cuidados de uma mulher!
É preciso banhá-lo, alimentá-lo...
-Vou ver se encontro alguém que possa ajudá-lo, por enquanto.
Depois o senhor verá o que fazer.
Onde estão seus pais? - indagou ela.
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Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 29, 2018 7:51 pm

-Meus pais não moram nesta cidade e nada sabem do que aconteceu!
-Sua esposa não tinha mãe?
-Não, ela era só!
Sua mãe havia morrido há muito tempo e seu pai casou-se com outra, mas não moram aqui.
-Então o senhor tem que se sujeitar a uma pessoa estranha.
Vou ver se arrumo alguém o mais rápido que puder.
-E enquanto não arrumar, o que farei?
-Eu voltarei mais tarde, mas agora preciso ir à minha casa.
Quem sabe na minha volta eu já tenha alguma notícia para o senhor.
Vou ver com uma vizinha, uma senhora que ficou viúva há pouco tempo e precisa trabalhar para acabar de criar os filhos.
-Eu preciso de alguém que possa morar aqui!
-Não será fácil, mas de início terá que aceitar o que conseguir, até que tenha alguém como deseja.
-Está bem, se não há outro jeito...
-O senhor precisa alimentar-se e descansar, que se sentirá melhor!
Não se preocupe comigo!
-Lembre-se de que agora tem um filho para criar e precisa cuidar-se para não deixá-lo só.
-Antes não o tivesse! Se para ele chegar foi preciso que minha querida esposa partisse, seria melhor que não tivesse vindo.
-Não fale assim! São os desígnios de Deus, que, embora não possamos compreender, acontece o que deve acontecer.
Ele não deu resposta e ela saiu prometendo voltar.
0 BEBÊ CONTINUOU DORMINDO e algumas poucas horas passaram.
Mais tarde, quando aquela senhora voltou, Thomas estava ainda sentado na mesma poltrona, absorto, desanimado, com o pensamento na esposa e na grande desgraça que se abatera sobre ele.
Algumas vezes precisou bater até que ele despertasse das suas recordações e da sua dor e levantasse para atender.
Ao abrir a porta, deparou-se com a mesma senhora que o ajudara até algumas horas antes, trazendo uma outra que deveria ser a vizinha a que se referira.
-Trouxe a pessoa da qual lhe falei.
Se o senhor aceitar, dentro do que lhe é possível ela aceitará o trabalho.
-Entrem, por favor!
-Já expliquei a ela o que deve fazer.
Cuidar do bebé em primeiro lugar e, enquanto ele dormir, cuidar do resto das necessidades da casa, inclusive preparando as refeições para o senhor.
Ele ouviu sem nada dizer, como se nada tivesse com o que a senhora expunha, mas foi despertado pelo que ela lhe falou:
-Agora cabe ao senhor decidir o que fazer.
Ela tem duas crianças ainda muito pequenas que precisam ser cuidadas, mas só poderá aceitar o trabalho se permitir que as traga consigo, porque não tem com quem deixá-las.
Quanto ao trabalho e os cuidados com o bebé, o senhor poderá ficar descansado que ela dará conta de tudo.
Tendo os filhos em sua companhia trabalhará despreocupada.
Pense que, para o momento, é com o que poderá contar, até que tome alguma outra decisão.
O bebé não pode ficar sem ninguém que dele cuide.
-Está bem, eu aceito as suas condições.
Preciso de alguém e muito mais precisa meu filho.
Quando a senhora poderá começar?
-Agora mesmo! Verei o que fazer, ficarei até o início da noite.
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Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 29, 2018 7:51 pm

Amanhã pela manhã virei com meus filhos e ficarei o quanto for necessário.
Minhas crianças são pequenas mas não darão trabalho.
São boazinhas e calmas, mas precisam ainda de mim.
Tenho um menino de quatro anos e uma menina de dois.
-Está bem, depois combinaremos o seu salário.
Aqui terá as suas refeições, que a senhora mesma preparará e alimentará também seus filhos.
-Vamos ver o bebé! - convidou-a a senhora que a trouxera.
Elas se afastaram, e ele retornou à posição em que estivera até então.
Em nenhum momento desde que entrara em casa foi ao quarto ver o filho.
Como estava dormindo, para ele era como se não existisse ninguém,
A noite, porém, deveria ficar só com ele e precisaria estar atento.
A senhora lhe daria algumas orientações, deixaria uma mamadeira pronta, mas logo pela manhã estaria de volta e cuidaria dele como deveria.
O trabalho começou a ser desenvolvido, e, enquanto o bebé continuava dormindo elas foram à cozinha ver o que possuíam e o que poderia ser preparado para o jantar.
A que a trouxera, depois de lhe mostrar a casa e dar algumas instruções, foi logo embora.
Os filhos da vizinha haviam ficado em sua casa com sua filha mais velha e ela precisava vê-los.
Quando algum alimento foi preparado para a refeição ela o chamou, mas ele não quis comer nada.
Ela insistiu, dizendo-lhe que era necessário, que ele precisava continuar vivendo, falando do seu próprio caso.
Havia perdido o marido há cerca de um mês, sofrera muito e ainda sofria, mas precisava continuar lutando porque tinha os filhos, explicando que sua situação era ainda pior pois quem trabalhava em sua casa era o seu marido.
Com a morte dele, ela ficara sem nada e, se não trabalhasse, não teriam nem o que comer.
Ele não prestou atenção ao que ela dizia, mas depois, diante de tanta insistência, decidiu alimentar-se um pouco.
Enquanto se alimentava, ela retornou ao quarto para ver o bebé que já estava acordado, cuidou dele, preparou-lhe uma mamadeira e ele se apaziguou novamente.
Antes de sair ela também se alimentou, deixou a cozinha em ordem, deu algumas orientações sobre como ele deveria proceder com o bebé se chorasse, deixou uma mamadeira pronta, mas, ao retirar-se, ele lhe disse;
-Eu preciso de alguém que fique com ele dia e noite!
Eu não sei cuidar de criança!
-Mas se aprende, senhor!
Os filhos são os nossos maiores bens.
Por causa deles nos esforçamos para superar problemas.
-Não gosto dele!
Não fosse por ele, minha esposa ainda estaria aqui comigo.
-Não lhe imponha culpas que ele não tem! Deus sabe o que faz, e, no lugar de sua esposa que Ele deveria levar, ainda lhe deixou um filho para que o senhor se lembre dela, como um presente que lhe deixou.
Thomas não respondeu e ela, repetindo alguma recomendação, retirou-se dizendo que na manhã seguinte, bem cedo, voltaria.
O pior para ele foi ficar com o bebé sem saber o que poderia acontecer.
Até aquela hora ele estava quieto, mas, e durante a noite?
Com certeza acordaria chorando, com fome, e deveria até ser trocado, e ele, o que faria?
Se até aquele momento a dor e a tristeza corroíam o seu coração, agora sentia desespero.
A solidão em que se encontrava doía muito, e o receio de ter que cuidar do filho o amedrontava.
Desde que chegara do cemitério onde deixara a esposa querida, ainda não entrara no quarto, não vira o filho.
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Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 29, 2018 7:51 pm

Como entrar no local onde vivera com a esposa momentos ternos de amor e de esperanças, quando o filho se fez anunciar?
Como olhar para o seu bercinho que fora preparado com tanto carinho por ela, e a cada noite que se deitavam ela dizia:
-A cada dia mais se aproxima a hora do nosso querido filho chegar e ocupar o seu berço vazio, mas já cheio de amor para lhe dedicar.
Todo o amor que nós mesmos colocamos para recebê-lo.
De que lhe adiantava agora ter o berço ocupado por seu filho, se o lugar da mãe estaria vazio para sempre?
O que faria ali sozinho com aquele ser que deveria ter sido recebido com tanto amor mas que só lhe inspirava revolta?
Sentado ainda na sua poltrona na sala, ele não tinha coragem de entrar no quarto.
O filho deveria estar dormindo porque o silêncio era profundo, e quanto maior ele pesava, mais feria o seu coração.
Passadas algumas horas, porém, mesmo sem conseguir dormir, mas tão alheio pelos seus pensamentos, ele foi despertado pelo choro do bebé.
O que fazer?
Esperou mais um pouco para ver se se acalmava, mas o choro continuava e ele teria que tomar alguma atitude.
Sem vontade e até irritado, mas compreendendo que era de sua obrigação ir vê-lo, vagarosamente levantou- se, caminhou até a porta do quarto, parou um instante, mas não pôde evitar de entrar.
Ele estava vermelhinho de tanto chorar, deveria estar sujo e com fome, mas o que poderia fazer era dar-lhe a mamadeira e nada mais.
Foi à cozinha onde a encontrou pronta e levou-a ao filho, segurando com cuidado enquanto ele mamava sofregamente, acalmando-se.
Quando acabou de lhe dar a mamadeira ficou olhando algum tempo para o filho até que ele adormeceu novamente e voltou para a sala.
As horas continuaram a passar e as primeiras claridades do dia começaram a se derramar sobre a Terra, mas ele nem deu acordo disso.
A noite passara e ele não dormira um só minuto.
Logo mais ouviu bater à porta, e, indo atender, encontrou a senhora que contratara com os dois filhos.
Ela logo foi perguntando como passaram a noite, entrou rapidamente recomendando aos filhos que a esperassem quietinhos e foi ao quarto ver o bebé.
-Ah, pobrezinho! - exclamou ao retirá-lo do berço e tomá-lo ao colo.
Está todo sujo e com fome, mas vou lhe dar um banho, mudar a sua roupinha, depois tomará a mamadeira e ficará bem outra vez.
As crianças ficaram esperando a mãe na sala, quietas, sem se mexerem do lugar, um tanto assustadas pelo local desconhecido.
Quando o bebé estava preparado e calmo, ela começou as outras providências da casa.
Preparou a primeira refeição do patrão, ê insistiu para que ele tomasse um banho, trocasse de roupa e se alimentasse pois se sentiria melhor.
-O senhor não descansou esta noite que a cama estava arrumada.
Se não se cuidar, quem ficará doente será o senhor.
Lembre-se de seu filho que precisa muito do pai.
-Mas eu não preciso dele!
-Não fale assim! Esse menino ainda lhe dará muitas alegrias; será a sua companhia e o amará muito.
Sem responder para não ouvir mais nada, decidiu ir tomar o banho, mudar a roupa e depois tomar a sua refeição matinal.
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Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 29, 2018 7:51 pm

E depois, o que faria?
Teria que retornar ao trabalho mas não se sentia com coragem.
A senhora perguntou se ele não iria trabalhar, e ele respondeu-lhe que ainda não.
No dia seguinte, se se sentisse mais bem disposto, iria.
- O senhor precisa fazer alguma coisa, distrair-se, que lhe fará bem.
O trabalho é uma bênção de Deus que nos auxilia a enfrentar os problemas.
O senhor precisa reagir!
Como não tinha vontade de responder, ele foi para a mesma poltrona em que estivera a noite toda.
A senhora, vendo-o no mesmo lugar, tornou a lhe falar:
- Por que enquanto o seu filho dorme, não se deita também e descansa um pouco?
Far-lhe-á bem!
Thomas continuou calado e ela achou melhor não lhe dizer mais nada.
Na verdade ele passava por um período muito difícil de sua vida e não seriam as suas palavras que modificariam os seus sentimentos, o seu estado de ânimo.
Ela sabia bem o que ele estava passando, compreendendo também que aquela situação para o homem era mais difícil que para as mulheres que, obrigadas pelos seus afazeres, distraem-se muito mais e enfrentam as situações com mais coragem.
O dia foi transcorrendo, as actividades da casa sendo desenvolvidas, sem se descuidar do bebé, e Thomas sempre sentado, absorto, calado.
Algumas horas mais tarde, quando o almoço estava para ser servido, ele levantou-se e, sem avisar, saiu à rua.
Não competia à senhora que cuidava da casa perguntar onde ia e ele também, achando que não lhe devia satisfações, nada comunicou.
Talvez nem ele mesmo soubesse, mas o desejo de deixar aquele ambiente de tantas recordações, fê-lo sair.
Que rumo tomaria? Não tinha planos, nada queria fazer na rua, apenas andar, andar, para, quem sabe, aliviar a mente do peso de tantas recordações e o coração de tanta dor.
Andando sem rumo, ele viu-se no cemitério diante da sepultura da esposa e lá chorou toda a sua dor, sem barreiras, sem preconceitos, sem nenhum constrangimento.
Mais aliviado começou o percurso de volta, e depois de duas horas entrava em casa.
A senhora tranquilizou-se e chamou-o para almoçar, dizendo-lhe que o esperava há tempos, e, como ele demorava, tomara a liberdade de alimentar seus filhos, mas que esperara que ele fizesse a sua refeição que depois ela faria a sua.
-A senhora não precisava esperar-me, deveria ter almoçado também. Eu não tenho vontade de comer nada.
-Mas deve comer!
A mesa está posta, eu o servirei!
O senhor não pode continuar como está.
Compreendo o momento difícil por que está passando, mas precisa reagir.
Os que aqui permanecem têm que prosseguir cumprindo suas obrigações, principalmente as de trabalho, que ajudam a esquecer um pouco o sofrimento.
-Eu não quero esquecer nada!
Quero ter a minha esposa a todo instante no meu pensamento.
-O senhor já ouviu dizer que temos uma alma e que, ao deixarmos a Terra, ela é recolhida a um lugar onde continuará vivendo?
-Nunca ouvi falar nada disso!
-Mas é verdade!
Ouvi também dizer que elas, onde se encontram, sentem a nossa tristeza, vêem as nossas lágrimas e ficam infelizes quando assim acontece.
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Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 29, 2018 7:51 pm

Elas, que partiram, querem que aqueles que ficaram sintam-se tranquilos e continuem a sua vida.
-De onde a senhora foi tirar tantas sandices?
-Não são sandices, senhor!
Eu sei que é assim!
-Não diga bobagem!
A minha querida deixei no cemitério e hoje fui visitar a sua sepultura. Ela está lá!
-Almoce, senhor, que se sentirá melhor!
De nada adiantaria, naquele momento, falar-lhe a respeito da alma que continuava vivendo, porque ele não estava preparado, mas ela não desistiria.
Sempre que houvesse oportunidade lhe falaria alguma coisa até que ele se habituasse e passasse a se interessar em mais aprender para o seu próprio conforto.
Quase ao fim do dia, quando se aproximava a hora da senhora ir embora, ele, assustado por ter que ficar só com o bebé, chamou-a para uma conversa.
-Sente-se, senhora....
A senhora está trabalhando aqui e ainda não sei seu nome.
-Chamo-me Ellen, senhor!
-Pois bem, senhora Ellen, tenho uma proposta a lhe fazer, mas antes vou lhe fazer uma pergunta:
- Onde mora?
-Perto daquela senhora que me trouxe aqui.
É muito longe, num lugar pobre.
A casa é sua?
-Antes fosse! Pago aluguel e, se não trabalhar, ficarei na rua.
-Era o que eu queria saber.
Se a senhora gostou de trabalhar aqui, tenho dois quartos vagos na casa, como já deve ter visto, e, se quiser, pode ocupar um deles com seus filhos, levando também, consigo, para o seu quarto, o berço com o bebé, porque não sei lidar com ele nem tenho vontade de aprender.
-O senhor está me convidando para morar aqui?
-O seu salário será o mesmo mas economizará o dinheiro do aluguel.
Traga suas coisas, o necessário para o quarto, e mude-se para cá.
-E uma proposta muito vantajosa para mim.
Não tendo que ir e vir todos os dias, que fica difícil por causa das crianças, posso dedicar-me mais ao seu filho.
-Se aceita, pode providenciar a sua mudança, mas que não passe de amanhã.
-Está bem, senhor!
Amanhã me mudarei para cá.
Talvez eu chegue um pouco mais tarde pelas providências que devo tomar, mas pedirei à senhora que me indicou que venha aqui logo cedo para as primeiras obrigações com o bebé.
Depois o senhor poderá ficar sossegado que tomarei conta de tudo.
A propósito, também ainda não sei seu nome.
-Chamo-me Thomas!
-Está bem, senhor Thomas!
E o bebé, como se chama?
-Ainda não lhe colocamos o nome.
Havia até me esquecido!
Minha esposa sempre dizia que se fosse um menino, desejava que tivesse o meu nome, mas eu não quero.
Vou pensar em outro porque preciso registá-lo.
-Não deve esperar muito porque ele precisa ter o seu registro de nascimento.
A conversa ficou encerrada.
Ela prometeu deixar tudo em ordem para que ele pudesse passar a noite tranquilo, dizendo que, na noite seguinte, estaria ali e ele poderia ter a sua noite de sono em paz.
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Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 29, 2018 7:52 pm

2 - ESTRANHO SENTIMENTO
NÃO só A SUA decisão mas a aceitação de Ellen abriam novas perspectivas na vida de Thomas, não de felicidade, mas de menos preocupações.
Se ele não precisasse se ocupar com o bebé, era como se o não tivesse e estaria mais tranquilo.
Ouvi-lo-ia chorar, que os bebés choram muito, mas não precisaria atendê-lo, satisfazer as suas necessidades de banho e de alimentação, nem embalá-lo se tivesse dificuldade de dormir.
A sua vida prosseguiria e o seu lar estaria totalmente modificado.
Não mais aquele para o qual se via ansioso para voltar e encontrar o seu amor, porque agora, sem a presença dela, seria apenas uma casa, um tecto que os abrigava das intempéries.
Um lugar onde tinha a sua alimentação, a roupa lavada e passada por uma desconhecida, convivendo com crianças que não eram seus filhos e com uma que, apesar de sê-lo, não sentia por ela o amor que um pai deve trazer no coração.
Era um estranho em meio a estranhos, mas a vida que teria daí para a frente precisava vivê-la.
Porém, esperanças, interesse, anseios, esses haviam sido enterrados com a esposa.
Até os utensílios da casa que ela cuidava com amor, passaram para mãos estranhas.
Mesmo assim ele agradecia ter encontrado aquela senhora que tomava conta da casa e do seu filho, desobrigando-o de tarefas para as quais não sentia a menor inclinação.
A mudança de Ellen foi realizada.
Trouxe poucos móveis, o necessário para o quarto dela e os filhos, mesmo porque muito pouco ela possuía.
O resto deixara para a vizinha vender se alguém se interessasse por eles, fechou a casa, entregou a chave, e, a partir de então, começaria uma nova vida.
Se Thomas estava desolado, ela também o estava.
Perdera o marido há pouco tempo, ficara sem nada e agora precisava se sujeitar a trabalhar para os outros.
Desfizera a sua casinha que não tinha mais condições de manter, e ainda agradecia a Deus que o patrão a convidara para morar em sua casa com seus filhos, pois, pelo menos, a alimentação teriam, mesmo trabalhando bastante.
A vida de todos mudou muito, mas, dentro das possibilidades que a situação lhes oferecia, deveriam seguir seu rumo, um se adaptando ao outro, e estavam satisfeitos, cada um à sua maneira, cada um por um motivo.
Passados mais alguns poucos dias, Thomas retomou o trabalho.
Era um homem calado, pouco se alimentava e nunca se interessava por nenhum assunto que se referisse ao filho.
De tanto Ellen insistir, registou-o com o nome de William, mas era-lhe difícil referir-se ao filho pelo nome e nunca perguntava por ele.
Quando chegava, se o encontrasse na sala, no carrinho que já haviam preparado para ele antes de nascer, passava sem parar, sem olhá-lo, como se ali não estivesse ninguém.
Muitas vezes Ellen o observara fazendo isso, e, um dia, sem adverti-lo que não era seu direito, mas empenhando-se para que desse um pouco de atenção ao filho, ela tomou-o ao colo retirando-o do carrinho e, aproximando-se dele, falou-lhe:
- O senhor já percebeu como William está crescendo, como está forte e belo?
Veja, ele está sorrindo para o senhor!
Afinal, é o pai dele.
Thomas não lhe deu resposta nem teve nenhuma reacção, e ela sentiu-se constrangida como se estivesse penetrando num território que não lhe pertencia, mas teria que ser assim.
Ela teria que fazer esse trabalho de aproximação entre pai e filho.
Se o pai não se interessava pelo filho, ela faria com que o menino, à medida que fosse crescendo, se interessasse pelo pai, e tanto o faria insistir que ele se renderia.
Afinal, a criança não tinha culpa do que acontecera pelo seu nascimento.
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Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 29, 2018 7:52 pm

O tempo foi passando e William crescendo forte e sadio.
Começou a engatinhar pela casa, obrigando o pai a sempre desviar dele para não machucá-lo.
Muitas vezes o menino, inocente, se dirigia para ele sentado naquela poltrona que passara a ser o seu local de descanso, desde que a esposa partira, olhava-o, agarrava nos braços da poltrona para levantar-se, sob a indiferença do pai, e, quando conseguia, sorria para ele, que não tinha um gesto de carinho em retorno.
As vezes, no esforço de erguer-se, caía para trás, chorava, sem que o pai se abalasse para fazê-lo parar.
Era preciso Ellen interromper o seu trabalho e vir correndo socorrê-lo.
Ela tomava-o ao colo, levava-o longe do pai, dizendo-lhe:
- Papai está cansado mas ele gosta muito de você, meu querido!
Ela agradava-o um pouco, repunha-o no chão, e ele começava a engatinhar novamente sem que o pai desviasse os olhos do ponto impreciso em que os colocava, para olhar para o filho.
A medida que William ia crescendo ia se apegando às crianças de Ellen que também gostavam dele, sobretudo a menina que era menor e o considerava um irmãozinho.
A mãe sempre lhes explicava que aquela não era a sua casa, que estava ali apenas para trabalhar, para cuidar de William, do senhor Thomas e de tudo o mais.
Ela não queria criar os filhos pensando que eram donos da casa, que o conforto e a boa alimentação de que desfrutavam eram resultado do que eles mesmos possuíam.
Fazia questão de lhes dizer que era necessária ali, mas não passava de uma criada.
Se o senhor Thomas não quisesse mais os seus serviços, teriam que se mudar, e ela precisaria procurar novo emprego para sobreviverem.
- E William? - indagava ingenuamente a menina.
-William é filho do senhor Thomas e faz parte da família dele.
-Ele não é meu irmãozinho?
-Gosto muito dele como se fosse meu próprio filho, mas não o é.
Cuido dele desde que nasceu, mas a mãezinha dele já morreu.
-O que é morreu, mamãe?
-Foi para o céu viver entre os anjinhos!
E por que ela não o levou?
-Porque ele deveria ficar, para o pai não ficar tão sozinho.
-Eu gosto muito do William!
-Todos nós gostamos!
Ele é um menino adorável!

WILLIAM CRESCIA, ELLEN ESFORÇAVA-SE para fazê-lo aproximar-se do pai e este aceitá-lo com amor, mas estava muito difícil.
Quantas vezes chamava a atenção do senhor Thomas para alguma gracinha do filho, ou para o seu crescimento que se fazia de forma salutar, mas ele não se importava.
William ainda era muito pequeno, não entendia a indiferença do pai, mas, certamente, quando pudesse entender, sofreria muito.
Não tinha a mãe que lhe faria muita falta, não teria o pai que se recusava a aceitá-lo e ainda o culpava pela morte da mãe, o pobre inocente que não tinha culpa de nada,
Ele já contava dois anos de idade, já falava, e Ellen  o ensinara a falar papai, mas o senhor Thomas não se comoveu ao ouvir chamá-lo assim.
Os anos passavam, as crianças de Ellen também cresciam sadias e fortes e o menino já se encontrava na escola.
Todos viviam bem e em paz, mas muito melhor viveriam se Thomas fosse diferente com o pequeno William que já começava a perceber o desprezo do pai.
As vezes procurava-o, mostrava-lhe algum brinquedo que a própria Ellen se esforçara para fazer para ele, mas o pai não demonstrava o menor interesse.
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Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 30, 2018 8:43 pm

Nunca comprara um simples brinquedo para o filho.
Roupas, que não podia fazer de menos, dava dinheiro a Ellen para que as comprasse, da mesma forma que ela cuidava de todas as compras da casa.
Em meio a uma compra e outra, às vezes ela trazia um agradinho ao menino, que ficava feliz com a novidade.
Ellen preocupava-se em como seria o futuro de ambos naquela casa.
Bom mesmo seria se o senhor Thomas se casasse novamente, trouxesse para casa uma esposa que o transformasse, fazendo-o aceitar o filho mas parecia que ele não se interessava mais por mulher alguma desde a perda da sua querida Stella.
Ainda ia ao cemitério chorar a sua solidão, voltava para casa mais aliviado e não ia a lugar nenhum a não ser ao seu trabalho.
Tornara-se um homem cada vez mais taciturno e perdia a oportunidade de viver mais feliz junto do filho, acompanhando o seu crescimento, sorrindo das suas gracinhas, fazendo-o rir também das brincadeiras que faria com ele, como qualquer pai o faz quando ama o filho.
O pobre William, porém, nada tinha dele, e seria uma criança totalmente triste, não fosse Ellen e seus filhos.
Mas ao filho, o pai era necessário.
Quantas vezes o pobre menino se aproximava dele e era repelido?
Thomas nem percebia que o filho estava crescendo e logo também iria à escola.
Ainda não perguntara pela mãe pois não sabia o que era ter mãe.
Para ele os cuidados de Ellen bastavam, mas quando crescesse mais, quando entrasse na escola, quando ouvisse os seus colegas falarem das suas mães, iria sentir que não a possuía e, com certeza, perguntaria ao pai.
Ellen tremia ao pensar nesse momento, porque, ainda magoado e culpando o filho, poderia lhe dizer que não a possuía por que a havia matado.
E não era difícil que assim procedesse se era o que tinha em mente e nada o fazia mudar de opinião.
Mas o tempo transcorria e não adiantava antecipar acontecimentos que poderiam causar problemas e sofrimentos, mas aguardar para que ele cuidasse de fazê-los amenizar e, quem sabe, diluí-los sem que acontecesse o que ela temia.
Certa vez William estava no meio da sala, ao chão, junto com a filha de Ellen, entretido num brinquedo, bem à frente do pai.
Thomas, que sempre tinha o pensamento distante, o olhar perdido, não se importava com as crianças tão perto de si.
Num momento, empolgados que estavam na brincadeira, Thomas foi despertado por uma exclamação de alegria das crianças e retornou das suas recordações, fixando seu olhar no filho.
Ah, que surpresa teve!
A sua fisionomia trazia muitos dos traços da mãe, traços esses que ele fixara em sua mente desde que ela se fora, para que a tivesse junto a si, mesmo distante.
Os olhos eram os mesmos, de um azul celeste muito intenso.
Seus cabelos claros emolduravam-lhe o rosto, caindo em pequenos cachos encaracolados.
Se tivesse conhecido a esposa enquanto criança, ele seria o retrato dela daquele tempo.
Olhou-o com um pouco de ternura, mas não via nele o filho que tanto precisava de um pouco de carinho do pai, mas a sua esposa, como se ela, em pessoa, tivesse retornado diante dele, em forma de criança, na pessoa do filho.
Algum tempo ficou observando, mas logo Ellen, havendo terminado o seu trabalho de arrumação da cozinha, depois do jantar, entrou na sala e chamou William e sua filha que era hora de se deitarem.
Thomas foi despertado pela fala de Ellen e sentiu repulsa por si mesmo, por ter se detido a olhar para o filho, mesmo vendo nele a sua esposa.
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Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 30, 2018 8:44 pm

Depois que a boa criada levou as crianças, ele também levantou-se e foi para o seu quarto.
Lá continuou recordando da esposa com mais força ainda, pelo local tão íntimo em que se encontrava, o mesmo em que trocaram tantas juras de amor, que expuseram os seus anseios um ao outro, principalmente depois que passaram a acalentar a esperança de terem seu filho nos braços.
Ah, como foi tudo diferente dos sonhos tão aguardados!
Ele via-se só, triste, desesperançado e ainda tinha que suportar o filho que fora causa de não ter mais a esposa em sua companhia.
O melhor mesmo seria que também partisse e, se era verdade o que Ellen lhe dizia que nossa alma continuava vivendo, ele queria se encontrar com ela para ser feliz novamente.
Ao ter esse pensamento, um outro tomou conta de sua mente instantaneamente.
E se quando se fosse, se se encontrasse com a esposa e ela lhe pedisse contas do que fizera com o filho, dos cuidados que lhe negara, o que lhe diria?
Ah, teria tantas justificativas a dar e lhe diria que não poderia ter tratado bem daquele que fora causa da separação de ambos e ela entenderia.
E se não entendesse, se cobrasse dele os carinhos que não dera ao filho, as atenções e os cuidados que deveria lhe dispensar, suprindo a falta que ela própria lhe fazia?
E se ela não o culpasse pela sua partida e tivesse outras explicações, o que ele faria?
Não seria possível que isso acontecesse!
Jamais se encontrariam, porque, para ele, quem morre parte para sempre e se desfaz na sepultura.
Ninguém lhe pediria contas de nada.
Ele não poderia ter agido de modo diferente.
Não gostava do filho e não poderia fingir.
Com todos esses pensamentos, ele acabou por adormecer, e depois de algum tempo, sonhou com a esposa.
Era a primeira vez que ocorria.
Quantas vezes esperara sonhar com ela, tê-la em sua companhia por algum tempo para amenizar tanta saudade, mas nunca aconteceu.
Naquela noite, porém, antes de adormecer, tivera todos aqueles pensamentos em relação ao filho, talvez pela semelhança que encontrara nele, mas o que ele não sabia era que ela, em espírito, estava no lar.
Brincara com o filho quando ele se encontrava no chão, fizera-o rir e chamara a atenção do marido para os traços dele, o que ele nunca havia percebido, para ver se comovia o seu coração e lhe daria mais atenção.
Na manhã seguinte lembrava-se de algum detalhe do "sonho", mas não tinha o todo.
Não se lembrava de que assim que adormecera e que seu espírito se desprendera do corpo pelo sono físico, ela se apresentara a ele, deixando-o em grande felicidade.
A sua surpresa ao vê-la foi expressa com uma exclamação:
-Então você não morreu!
-Não, querido!
Continuo viva e muito triste!
Onde estou não tenho paz e precisava vir lhe falar.
-O que está acontecendo que não tem paz?
-Sua atitude para com nosso querido filho.
Se não pude permanecer neste lar, cabe a você cuidar dele, dar-lhe o seu carinho.
Ele não tem culpa se não pude ter ficado para criá-lo, mas restou você que tem a obrigação não só de cuidar dele mas de lhe dar muito amor, o mesmo que lhe tenho mas não posso demonstrá-lo.
-Ele foi a causa da sua partida desta casa!
Como devo amá-lo se ele privou-me da sua presença que amava tanto?
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Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 30, 2018 8:44 pm

-Se me amava como diz, deve amar seu filho, o nosso filho, esperado com tanto amor.
Ele não tem culpa de nada, são os desígnios de Deus.
Eu não podia mais permanecer, mas restou você que deve ser para William não só um pai amoroso e sempre presente, mas também a mãe dedicada que toda criança deve ter.
Se realmente me amava como afirma, não deixe que eu sofra por ver meu filho tão desprezado.
Não fosse a querida Ellen, o que teria sido dele?
Você o teria deixado morrer...
Sem saber o que responder, Thomas não esperava aquela conversa e não estava satisfeito com ela.
Gostaria mesmo de estar com a esposa mas para reviverem momentos ternos que tiveram e terem outros, se fosse possível, mas ouvir recriminações, não estava gostando nada.
Seria melhor que não tivesse vindo.
Formou-se entre ambos alguns minutos de silêncio que ela utilizou para observá-lo, e percebeu nele um certo desgosto pela sua presença.
Ele esperava que Stella revelasse a sua saudade, reafirmasse o seu amor, o mesmo que ele ainda cultivava no coração, mas a situação de William era prioritária naquelas circunstâncias, e apesar de amá-lo muito, viera em missão a favor do filho.
Vendo-o decepcionado, ela estendeu a mão para ele, convidando-o:
-Venha comigo!
-Onde me leva?
-Vamos ver nosso filho!
-Eu não quero, vejo-o diariamente pela casa!
-Mas ignora-o!
Quero que me acompanhe, que sinta o amor que tenho por ele, para que cumpra a sua obrigação de pai.
Logo ele estará maior, compreenderá o seu desprezo, e, sem a minha presença, sofrerá muito.
Se eu o vir sofrendo, sofrerei também, não terei paz, e o sentimento que sempre nutri por você ficará abalado.
Reconhecerei que não é aquele que eu amei e em quem depositei todas as minhas esperanças.
Você ainda não compreendeu o valor de uma união na Terra, como o foi a do nosso casamento.
Amamo-nos, que Deus permite o amor, mas temos nossos resgates para realizar.
A união de dois seres que se amam é justamente para que um dê forças ao outro nos momentos de angústias, tristezas e de provas cruéis.
Se um dos dois precisa partir, como foi o meu caso, o que fica tem a responsabilidade, perante Deus, de continuar, de não se entregar à dor como o tem feito, e de cumprir as obrigações que antes eram de ambos e passam a ser de um só.
Por isso você ficou, para cuidar do nosso William, para amá-lo como eu própria o amo mas aqui não estou, e para prosseguir a sua vida, até sendo feliz com outra, se encontrar, par completar seus dias sem tanta solidão.
-Pelo que me diz, você não me ama, talvez nunca tenha me amado...
-Jamais duvide dos meus sentimentos para com você.
Justamente porque o amo que quero vê-lo feliz, fazendo o nosso filho feliz, para que eu também o seja onde estou.
Eu não tenho paz vendo o William totalmente entregue a uma criada.
Ellen é muito importante na casa e reconheço o bem que ela representa para o nosso filho, mas não é da nossa família.
Se qualquer situação mais difícil a envolver, ela poderá deixar esta casa e William ficará ao desamparo.
Por isso ele precisa ter o amor do pai, como um ancoradouro firme que lhe dará segurança em qualquer circunstância.
Não sabemos o que poderá acontecer a Ellen ainda.
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Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 30, 2018 8:44 pm

Ela é muito jovem, poderá encontrar alguém que lhe dê novas esperanças e uma vida mais tranquila juntamente com seus filhos, sem que precise trabalhar tanto.
Se isso acontecer, como ficará você e nosso filho?
Poderão até se arranjar com outra, mas e o amor que William tem por ela, a única que o trata com consideração e amor nesta casa?
Vamos, venha comigo, vamos ver nosso filho!
Sem ter como recusar, ela levou-o ao quarto onde Ellen dormia com as três crianças - seus dois filhos e William.
Era a primeira vez que ele o fazia.
Nunca se interessara em saber como o filho estava instalado, pois, quanto mais distante, quanto menos fosse solicitado, melhor se sentia.
Ao entrar, achegaram-se ao seu berço, que ele ainda dormia nele, e ela chamou a atenção do marido.
- Veja, querido, como ele está forte e belo, como dorme tranquilamente!
Thomas não deu resposta e ela, passando a mão pelo seu rostinho e pelos seus cabelos, curvou-se e depositou um beijo muito terno em sua testa.
-Faça o mesmo! - pediu a Thomas.
-Não posso!
- Você o pode e deve começar agora a prestar atenção nele!
-Não posso! - repetiu ele.
-Curve-se e deposite um beijo no seu rostinho lindo!
Faça-o por mim, se não tem nenhum afecto por ele.
Comece a se esforçar, procure conviver um pouco mais com ele, ouvir o que tem a lhe dizer, - coisas banais de criança, mas muito importantes para ele que terá alguém para ouvi-lo.
E só a partir dessa sua primeira atitude, que tudo começará a mudar.
Nosso filho se sentirá mais feliz vendo em você um companheiro, um verdadeiro pai que se interessa por ele, pelo que faz, e, com o tempo, isso se tornará um hábito para você.
E daí para o amor, é um passo muito pequeno.
Não queira continuar vivendo desprezando-o, para não ter que prestar contas de sua atitude quando também deixar a Terra.
Os filhos que nos são confiados, são responsabilidades que adquirimos e deles devemos cuidar enquanto crianças, encaminhar e orientá-los quando maiores, a fim de que sejam pessoas de bem, equilibradas e úteis.
Se ao invés disso estivermos criando crianças frustradas, revoltadas e infelizes, o que poderão ser quando forem adultos?
A educação, o carinho, a boa orientação é obrigação dos pais que receberam um espírito que lhes foi confiado por Deus, para que deles cuidassem, fazendo-o crescer espiritualmente.
Thomas ouviu todas as palavras da esposa, mas o que lhe pedia estava além do que conseguiria fazer, e, para que ela não insistisse mais, afastou-se rapidamente do quarto.
Ela, depois de depositar outro beijo no rostinho sereno do filho, afastou-se também para ir ao encontro do marido, novamente expressar toda a sua tristeza e decepção, mas não o encontrou.
Indo ao seu quarto, encontrou-o já acordado, assustado e ansioso pelo que havia "sonhado", como ele considerava.
Aproximando-se, começou a lhe falar novamente, esperando que ele captasse suas palavras a fim de juntá-las às lembranças que seu espírito poderia ter guardado do que já lhe dissera, para tentar mais uma vez fazê-lo pensar profundamente no que vinha fazendo, nas responsabilidades das quais estava se eximindo, com graves consequências para o filho, mas muito maiores para seu próprio espírito.
Ela tentou despertar nele o remorso pelo que fazia, õ desgosto que lhe ocasionava agindo daquela forma, não levando em consideração a sua própria tristeza e o esforço que fizera para vir em espírito despertar-lhe o coração.
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Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 30, 2018 8:44 pm

Ah, quanto lhe falou tentando despertar nele um pequeno sentimento pelo filho, nem que fosse a piedade por vê-lo desprezado, mas nem esse conseguiu.
Tinha a impressão de que falava a uma rocha, tão insensível ele se mostrava.
Ao final, vendo que nada lhe penetrava o coração, comovendo-o, ela falou:
- Por tudo o que tenho observado, por tudo o que tenho falado e insistido, chego à conclusão, com muita tristeza, de que nem a mim você amava.
Se me amasse como dizia, quereria ver-me feliz e não causar-me tanto sofrimento.
Acredito agora que você amava somente a si mesmo, um amor egoísta que não o deixa levantar os olhos ao que está ao seu redor, a seu filho tão carente de afecto.
Você fechou-se para as demais pessoas, excluiu do seu coração o seu filho, e nem o considera como tal, quando o acusa da minha morte.
Quem você pensa que é? Um dia, quando se deparar com a realidade do mundo espiritual, sofrerá uma grande decepção.
E o remorso pelo que deixou de fazer, pelas responsabilidades e obrigações que eram suas como pai e foram relegadas por não cumpri-las, tomarão o seu sofrimento muito grande.
Não me foi fácil vir até aqui para fazê-lo ver que está trilhando um caminho errado, mas foi permitido pelo bem do nosso filho, e pelo seu próprio bem, para que não leve no espírito marcas tão profundas que você mesmo está insculpindo nele, porque, para retirá-las depois, para desfazê-las, haverá muito sofrimento.
Entretanto, parece que meu esforço foi em vão e nada conseguirei, mas, pelo menos, não posso dizer que não tentei.
Eu parto triste por nosso filho, por você, mas continuarei orando para que Deus possa tocar o seu coração e nele penetrar para despertá-lo da insensatez que vem cometendo.
Cada palavra que ela pronunciava era para ele como se a própria consciência o advertisse, misturadas com as lembranças que tivera do sonho, e tão atormentado foi ficando que levantou-se rapidamente, colocou as mãos tapando os ouvidos comprimindo a cabeça, como querendo impedir de pensar, deixou o quarto e foi para a mesma poltrona onde passava o tempo em que permanecia em casa.
Ela ainda o acompanhou, mas vendo infrutíferas as suas palavras, depois que ele se sentou, depositou um beijo no seu rosto dizendo-lhe:
- Continuarei orando por você e por nosso filho! - e retornou ao quarto de Ellen para vê-lo mais uma vez.
E, mais triste do que ao chegar, porque não tinha mais esperanças, retirou-se, retomando para a sua morada no mundo espiritual.
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Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 30, 2018 8:44 pm

3 - PREOCUPAÇÕES DE MÃE
A CABEÇA DE THOMAS era um verdadeiro turbilhão.
Agora mais lúcido sem a interferência da esposa, ele pensava, pensava no que havia acontecido e não chegava a nenhuma conclusão.
- O que teria ocorrido?
Nunca se defrontara com nada semelhante em toda a sua vida, diante de situação alguma.
Sua mente trazia lembranças do "sonho", misturadas às da esposa e do filho, depois vinham as palavras que ela lhe dissera e que ele interpretara como se fosse o seu próprio pensamento, e estava muito preocupado.
- Sinto uma sensação muito desagradável dentro do peito! Penso no meu filho, como se uma força tivesse me impelido para ele e fugi.
O que aconteceu?
Todas essas lembranças se misturam com as da minha querida Stella, mas não a senti como a tinha nos nossos momentos de ternura e amor.
Ela estava diferente, triste, preocupada, e deve ser por causa de William.
Por que não sonhei com ela como vivíamos nos velhos tempos, sem interferência de ninguém para que essa dor que sinto pela sua ausência fosse amainada?
Se o sonho foi para me trazer preocupações e confusão mental, não deveria ter ocorrido.
Por que não tive uma noite tranquila sem nada sonhar como acontece sempre?
O que estará acontecendo comigo?
Estará a minha mente ficando transtornada com tantos pensamentos?
E por que de todos eles William faz parte?
Enquanto ainda estava absorto por esses pensamentos confusos e tantas preocupações, eis que Ellen surgiu à sala, trazendo William nos braços e assustou-se com Thomas.
- Senhor Thomas!
Por que está aqui?
Não dormiu esta noite?
Já amanheceu! William levantou-se e vou dar-lhe um copo de leite.
Thomas nada respondeu, levantou-se apressado e foi para o seu quarto.
Enquanto se preparava para enfrentar um novo dia de trabalho, com o coração atormentado e a mente confusa, sua querida esposa já se encontrava em sua morada no mundo espiritual, triste e frustrada pela empreitada mal sucedida.
Só, ela revivia a sua estadia no seu antigo lar junto do filho, e não podia deixar de sorrir intimamente por tê-lo visto tão forte, tão belo, tão crescido.
Ah, se ela pudesse ter estado junto dele, embalá-lo, alimentá-lo, acompanhar o seu crescimento, sorrir às suas gracinhas, como seria feliz!
Entretanto, compreendia os desígnios de Deus e aceitava-os, mas precisava trabalhar para que o filho não fosse infeliz junto do pai, não sentisse o seu desprezo, prejudicando o desenvolvimento físico e mental que deve ter todo o ser encarnado em lutas redentoras.
Não fora feliz na primeira tentativa que fizera, mas não desistiria.
Seu amor pelo filho valeria todos os esforços, todos os sacrifícios.
Ainda transformaria a atitude do marido e tinha certeza, se não fora feliz conseguindo a sua modificação na primeira tentativa, ele teria material suficiente para pensar, meditar, reflectir, e, quem sabe, alguma atitude menos rigorosa e cruel para com o filho pudesse acontecer.
Depois de muito meditar, de reconhecer o seu fracasso, mas também de compreender que sua empreitada fora difícil, sabia que plantara uma semente que poderia germinar, ela procurou a sua orientadora, a que permitira a sua vinda, para contar-lhe o sucedido.
-Não precisa me dizer!
Vejo que nada conseguiu por enquanto, mas fará novas tentativas.
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Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 30, 2018 8:45 pm

Embora não tivesse sido bem-sucedida, seu marido terá muitas lembranças da conversa que mantiveram, e isso o ajudará a pensar e até a olhar o filho com outros olhos.
Aos poucos a aversão que sente por ele irá se desfazendo, e um novo sentimento surgirá em seu coração.
Não digo que o amará de pronto, porque ele ainda o culpa pela sua morte, mas a raiva se abrandará, e o caminho para o amor irá ficando cada vez mais livre.
-Que esses seus prognósticos se realizem o mais rápido possível para que William tenha uma vida diferente, e não cresça vendo no pai um ser que o odeia.
Que não se sinta só e culpado, porque Thomas, se não se modificar, ainda lhe dirá que ele é responsável pela morte da mãe.
-Nada se realiza de um momento para outro; toda modificação é difícil e demorada.
Cabe a você, depois dessa visita, depois de ter presenciado e entendido toda a extensão do sentimento negativo que ele dispensa ao filho, orar muito para que seu coração seja tocado um dia.
-Enquanto isso William irá crescendo num ambiente hostil e desagradável.
-Graças à bondade de Deus que nunca desampara ninguém, ele conta com Ellen que cuida dele como se fosse sua própria mãe e o ama muito.
- Sou-lhe muito grata por isso e oro sempre para que ela tenha saúde e força para permanecer em meu lar, cuidando de meu filho e de meu marido.
Não fosse ela, não sei o que seria deles.
Meu filho poderia até ter morrido por falta de cuidados.
Apesar do meu fracasso, ou justamente por causa dele, ouso perguntar: quando poderei retornar para nova tentativa?
-Se foi infeliz nos resultados dessa que acaba de empreender, não poderá retornar logo, para não se decepcionar novamente.
É preciso lhe dar tempo para pensar, a fim de que a sementinha que deixou no coração de seu marido comece a se romper, e novos sentimentos modifiquem suas atitudes.
Se retornar logo, encontrará as mesmas condições e nada conseguirá.
-Eu saberei esperar, orando muito por ele, por meu
filho e por Ellen, para que nada lhes falte, mas para que Thomas seja receptivo quando eu puder retornar.
DEPOIS DA VISITA DA esposa, o coração de Thomas começou a travar uma luta íntima entre o que era e o que deveria ser, em relação ao filho.
Olhava-o à distância mas não enternecia o coração por algum sentimento mais nobre.
Quando o observava mais atentamente, aquele rancor, a acusação que lhe fazia tomavam vulto e ele precisava desviar o olhar.
William, pobrezinho, não chegava mais perto do pai.
Andava pela casa, procurava Ellen que lhe dava muitas atenções, brincava com os filhos dela, sobretudo com a menina, mas passou a se distanciar do pai.
Como uma criança, mesmo com toda a inocência que lhe é característica, pode andar à volta de quem a despreza?
Elas são sensíveis e percebem quando são rejeitadas e passam também a afastar-se daqueles que não correspondem ao seu carinho, às suas expectativas.
Toda criança necessita ser bem tratada e sentir que é querida.
É um Espírito em adaptação na Terra, para que a encarnação que vem de iniciar seja equilibrada e profícua, e ele cumpra a sua programação de vida sem entraves, sem frustrações, sem vícios, sem recalques, sem rejeição.
Para isso precisa sentir que é amado, precisa ser orientado e assistido por um ser que lhe transmita segurança, como um porto em que ele possa ancorar sem receios, sem preocupações, sem cuidados, porque tem uma mão firme que o ampara.
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Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 30, 2018 8:45 pm

Quando a criança encontra um lar bem constituído, quando recebe amor dos pais, ela se sente segura e o seu desenvolvimento faz-se de modo natural, sem maiores preocupações que não as comuns a todo o ser que encarna na Terra.
Na falta de um dos dois, como no caso de William que perdeu a mãe, o pai precisa suprir o carinho que ela não pode mais lhe dar, redobrando-se em atenções, para que ele se sinta da mesma forma em segurança.
Mas, em relação a Thomas e William, nada disso ocorria.
Ele, fechado em suas convicções, em seu egoísmo, nada proporcionava ao filho, a não ser a alimentação e o tecto.
Ellen, entendendo todas as carências de William, excedia-se em atenções e cuidados para com ele, mas preocupava-se quanto ao seu futuro.
Como poderia ser um jovem feliz, equilibrado, se lhe faltava o carinho, as orientações e o aconselhamento nas horas de incertezas e dúvidas?
Se Thomas não se modificasse em relação ao filho, o seu futuro seria muito incerto e infeliz.
Assim como Stella, receava que um dia, por qualquer circunstância mais vantajosa, Ellen pudesse deixá-los, ela também se preocupava.
E se em algum momento de irritação maior do senhor Thomas, impaciente e incompreensivo, a dispensasse dos seus serviços, o que seria de William?
Se isso ocorresse, ela o levaria consigo, fosse para onde fosse, e o pai não se importaria, mas nunca o deixaria naquela casa, só, vivendo sob o desprezo do pai.
O tempo ia transcorrendo, nenhuma modificação ocorria.
A esposa de Thomas, em sua morada espiritual, preocupava-se e estava ansiosa para voltar.
Sentia saudades do filho e mesmo do marido, e queria tentar novamente convencê-lo a aceitar o filho sem restrições, sem rancores e sem culpá-lo de nada.
Já pedira autorização para vir, mas ainda não lhe fora permitido.
Um ano mais havia transcorrido da sua visita.
William estava mais crescidinho, mas nada havia se modificado.
Se viesse, seria novamente em vão, ela não conseguiria convencê-lo de nada e se sentiria mais infeliz.
No entanto ela orava e muito pedia, argumentando:
-Se não fizer nova tentativa, como poderei saber se dará resultado ou não? Pior do que já está não poderá ficar, pelo menos não ficarei com a preocupação de que poderia ter feito alguma coisa e nada fiz.
-Você já tentou uma vez e nada conseguiu.
O coração de seu marido, passados os primeiros tempos da sua visita, em que ele se preocupou e tinha suas palavras de recriminação na mente, acomodou-se, e tudo continua como antes,
-Se falar com ele outra vez, lembrar-se-á do que já lhe disse e será um reforço a mais para que se modifique.
-Não podemos impedir que vá, apenas nos preocupamos por você, para que não volte infeliz.
-Mais infeliz ficarei aqui se nada tentar!
-Está bem! Você irá, mas desta vez faremos de outra forma e quem sabe seja mais bem-sucedida.
- Como o farão?
-Dê-me alguns dias mais que vou arquitectar um plano, arrumar alguém que possa acompanhá-la, e, quem sabe, teremos mais sorte...
A EXPECTATIVA PERDUROU POR mais alguns dias, e eis que a orientadora chamou-a para uma conversa, dizendo que havia traçado um plano para o seu retorno à Terra, à casa que lhe pertencera, e que esperava, fosse profícuo em resultados.
Entretanto advertia-a de que se nada resultasse conforme esperavam, que ela retornasse e nada mais seria promovido em relação àquele particular, por enquanto.
Que se empenhasse, porque outra oportunidade seria muito difícil.
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Ave sem Ninho

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Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 30, 2018 8:45 pm

Explicando-lhe em linhas gerais o que fariam, ela disse-lhe que dois companheiros seguiriam em sua companhia para ajudá-la naquela empreitada tão difícil, comunicando-lhe também que eles levariam os detalhes do que deveria realizar, para ajudá-la mais efectivamente a transformar os sentimentos do marido em relação ao filho.
Combinado ficou que partiriam em três dias, mas que, na manhã seguinte, ela teria uma entrevista com os que a acompanhariam, a fim de se integrarem melhor um ao outro e discutirem as medidas a serem tomadas diante do que levavam como informação.
Aquele resto de dia ela passou com o pensamento ligado ao seu marido e ao filho, imaginando mentalmente como ele deveria estar, passado aquele ano.
As crianças desenvolvem-se depressa e ele deveria estar grande e bastante mudado.
Orou muito pedindo a Deus o auxílio para que fossem bem-sucedidos, a nova manhã chegou e ela partiu para o encontro que teria.
Ao adentrar a sala em que a esperavam, encontrou um irmão sorridente e confiante que foi recebê-la, e uma irmã também de aspecto cordial e amigável.
-Que Deus os abençoe por me ajudarem nessa empreitada que é minha.
-O trabalho no bem é dever de todos, e quando podemos emprestar a nossa colaboração para aliviar as preocupações de um irmão ou para desfazer enganos e ressentimentos, proporcionando-lhe uma vida mais feliz, o fazemos com muito amor.
-Vejo, pela disposição de vocês que terei excelentes companheiros e que a esperança de obter sucesso torna-se muito maior agora.
-Comecemos, pois, por nos conhecer, que deveremos passar algum tempo juntos e, para isso, nada melhor do que sabermos os nossos nomes - disse o irmão que falava.
Chamo-me Juvenal, e esta é Áurea, a que foi minha esposa na nossa última existência terrena e em muitas outras, e temos trabalhado sempre em conjunto, sobretudo para auxiliar a resolução de problemas familiares.
-Tenho muito prazer em conhecê-los e sei que estarei muito bem acompanhada.
Mas falando em nomes, chamo-me Stella.
-Pois bem, agora que já nos conhecemos e temos também conhecimento do problema que levamos para conseguir resolver, vamos falar sobre a nossa estratégia para surpreender seu marido e tocar o seu coração de modo profundo - considerou Juvenal.
Algumas horas os três passaram reunidos, expondo, conjecturando, antevendo atitudes e resultados, lembrando das dificuldades, mas tendo esperanças de que seriam bem-sucedidos.
Ao final, Stella, agradecida e esperançosa, falou-lhes:
-Diante de tudo o que conversamos, uma esperança muito grande de ver Thomas aceitar o filho, sem culpá-lo de nada, está crescendo em mim, e daí para chegar a amá-lo, não faltará muito.
Sofro muito por vê-lo tão desprezado, sem a mãe e sem o pai que poderia dar-lhe um amor redobrado para compensá-lo da minha ausência.
-Tenhamos esperanças e nos preparemos em preces, sobretudo a senhora.
Nós vamos continuar a examinar arquivos para levarmos, bem solidificado em nós, tudo o que diremos, tudo o que faremos.
Podemos nos despedir agora e, se nada mais se nos apresentar, nos reencontraremos depois de amanhã à noite para a nossa partida.
Sairemos desta mesma sala onde faremos a nossa prece pedindo a Deus o seu auxílio e a sua bênção para que sejamos bem sucedidos.
A nossa querida orientadora estará connosco para nos dar força e esperança - tornou Juvenal.
Stella retirou-se e o casal ainda permaneceu algum tempo naquela sala discutindo algumas estratégias do plano, agora com mais esperanças em relação à sua aplicação, depois que presenciaram a aflição daquela mãe e esposa que se preocupava tanto com os que ficaram, sobretudo com o filho tão abandonado pelo pai.
Os dois dias que faltavam pareciam a Stella que demoravam muito a passar, mas finalmente o momento de retornar àquela sala para o encontro que antecederia a partida, chegou.
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Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 30, 2018 8:45 pm

O casal já se encontrava presente quando ela entrou.
Saudou-os com alegria e perguntou se a orientadora não viria.
Nem havia completado a pergunta, e eis que ela também entrou saudando-os:
- Vejo que já se encontram reunidos, mas não poderia deixá-los partir sem participar da prece que farão, e eu mesma quero pedir a Deus, juntamente com vocês, para que sejam bem-sucedidos e que, não obstante partam para uma missão muito difícil, nada é impossível, se contamos com a ajuda do Pai que quer ver Seus filhos sempre felizes.
E, aproximar o pai de um filho, embora difícil, não será impossível.
Os sentimentos, não obstante resistentes a qualquer sugestão ou esforço, podem ser modificados se souberem transpor barreiras para que se expandam e atinjam os carentes de afectos.
Vocês já sabem o que devem fazer, empenhem-se bastante que poderão voltar felizes.
Agora vamos à nossa prece, depois poderão partir abençoados pelo Pai.
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Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 01, 2018 8:14 pm

4 - HÓSPEDES INESPERADOS
ENLEVADOS PELA PRECE PRONUNCIADA com fervor, eles partiram.
Ah, quantas esperanças de resgatar o filho para o amor do pai aquela mãe levava, ao mesmo tempo resgatando o seu marido de tantos compromissos que poderia assumir.
Pela madrugada os três chegavam ao seu destino. Diante da casa, antes de entrar, Juvenal sugeriu que fizessem nova prece, agora direccionada para aquele lar, para os seus habitantes, sobretudo para Thomas e William, e depois entraram.
O silêncio era total.
Todos dormiam e nenhum deles teve possibilidade de descobrir ou sequer imaginar que entre eles havia uma pequena caravana vinda do mundo espiritual, trazendo missão tão importante.
Thomas se surpreenderia e até ficaria irritado por quererem penetrar nos seus sentimentos mais íntimos e profundos, a fim de modificá-los em favor do filho.
Ellen, ao contrário, se soubesse, se empenharia em colaborar para que William tivesse um pouco de carinho.
Entretanto, de início, eles não se apresentariam a nenhum deles, apenas sondariam o íntimo de cada um e todo o ambiente no qual estavam imersos.
Depois, diante do plano que traziam, se necessário, fariam algumas modificações para que melhor fosse aplicado.
Os três andaram pela casa, e Stella quis, em primeiro lugar, visitar o filho.
Acercou-se de seu leito, admirou-se do quanto crescera naquele ano e agradecia a Deus e a Ellen por ele estar forte e belo.
Curvando-se, depositou um beijo na face dele, acariciou seus cabelos, e depois dirigiu-se a Ellen que dormia profundamente, refazendo suas energias para um novo dia de muito trabalho, e também depositou um beijo em sua testa, expressando todo o seu agradecimento pelo que fazia pelo seu filho e pelo seu lar.
Retirando-se, visitou o seu antigo quarto onde o marido também dormia despreocupadamente.
Olhou para ele desejando penetrar seu coração e exclamou:
- Ah, meu querido, como tudo poderia ser tão diferente!
O casal que a acompanhava, observava todos os recantos querendo perscrutar o ambiente, a fim de verificar se tudo estava favorável ao que desejavam.
Quando entraram, no quarto havia uma entidade de aspecto muito feio, como que guardando Thomas e aguardando que seu espírito retornasse, mas retirou-se rapidamente, escondendo-se embaixo da cama, prevendo algum perigo pela natureza dos visitantes; mas ao casal, nada passou despercebido.
Sem nada fazerem, deixaram-na pensar que poderia esconder-se, porque, no momento certo, ela também seria alvo da atenção deles.
Ao se retirarem, Juvenal perguntou a Stella se nada havia visto junto de Thomas, mas ela, emocionada por retornar ao lugar que lhe fora tão querido e palco de tantas esperanças, não prestou atenção, devido, também, à rapidez com que ela se escondera.
Restava-lhes apenas aguardar algumas poucas horas mais, acompanhar cada um sondando seus pensamentos e sentimentos, para depois entrar com seu trabalho.
Ao que trouxeram como meta a ser desenvolvida, acrescentava-se o trabalho que teriam com aquela entidade, se ainda permanecesse no lar.
Eles não sabiam, mas ela não estava só.
Havia mais três que se encarregavam de acompanhar Thomas-espírito quando se desprendia do corpo pelo sono físico, com a finalidade de fazerem com que se mantivesse irredutível em relação ao filho.
Para eles, porém, sobretudo ao casal que estava habituado a tarefas entre os encarnados, não seria difícil saber o que faziam e convencê-los a se retirar.
Sem muita demora eles viram Thomas Espírito retornar para casa, trazendo consigo os companheiros a que nos referimos, e caminharam para o quarto.
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Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 01, 2018 8:14 pm

Juvenal imediatamente seguiu-os, utilizando-se de  recursos para não se deixar ver.
Thomas retomou o corpo, despertando, enquanto aquele que se escondera embaixo da cama, livre do que considerara perigo, aproximou-se dos outros indagando:
-Então, o que conseguiram?
Tudo conforme desejamos!
De forma alguma o deixaremos se comover pelo filho nem modificar suas atitudes.
-Assim mesmo que se fala! - exclamou o que fora recebê-los, e, continuando, informou-os:
- Hoje este quarto recebeu visitas, mas eu fui ágil e escondi-me.
Penso que não fui visto.
-Quem eram?
-Pelo que ouvi, uma delas era a esposa de Thomas.
-Isto nos oferece perigo!
Ela poderá querer modificar os sentimentos do marido em relação ao filho.
-Mas nada conseguirá!
Por isso estamos atentos!
Thomas está em nossas mãos e não haverá quem o tire de nós!
Queremos vê-lo só, abandonado e triste, e, quiçá, um dia, ainda o tenhamos connosco.
Tenho lhe sugerido que essa sua vida nada pode oferecer-lhe, uma vez que lhe retiraram o que ele mais amava.
Que ele deve tudo fazer para estar com a esposa o mais cedo possível, mesmo promovendo a sua morte pelas próprias mãos, que seria o único meio de ser feliz.
Juvenal assustou-se com o que ouviu.
Sabia que seu trabalho naquela casa não seria fácil, mas não contava com nenhum empecilho.
O plano que trazia se modificaria, ou melhor, a sua aplicação deveria ser postergada, porque antes teriam que trabalhar aquelas entidades infelizes, saber o que desejavam de concreto, por que estavam perseguindo Thomas, para depois começarem a agir.
Satisfeito com o que já havia ouvido, ele retirou-se para a sala levando as informações à esposa e à Stella, falando-lhes da necessidade de realizarem primeiro o trabalho com eles, para depois se ocuparem da tarefa que traziam.
Num primeiro momento os três se sentiram sem acção.
Não contavam com o que encontraram, mas, de certa forma, explicava um pouco a atitude de Thomas.
Não queremos dizer, com essa afirmativa, que eles eram responsáveis pelo que acontecia naquele lar, nem pelos sentimentos que Thomas nutria em relação ao filho, que esses eram só dele.
Aqueles irmãos infelizes ali alojados, porém, demonstrando ódio e desejo de vingança contra ele, acirravam ainda mais o seu ânimo contra o filho, a sua atitude de isolamento e indiferença, porque esse estado era conveniente para o que desejavam.
Os que assim agem, quando encontram os que pretendem atingir por prejuízos sofridos num passado, estudam toda a situação em que eles se encontram, examinam sentimentos, e de tudo o que encontram se aproveitam para agir em desfavor daqueles de quem querem se vingar, e era o que acontecia com Thomas.
Quando Stella visitou o lar há um ano atrás, eles lá não estavam e a situação era a mesma.
 chegada deles, porém, depois de analisarem o ambiente e a situação em que viviam, não precisaram se esforçar para encontrar um meio de prejudicá-lo, porque ele mesmo lhes oferecia condições, e assim exacerbavam sentimentos e estavam conseguindo muito para o que pretendiam.
Que Thomas se retirasse da vida pelas próprias mãos, imaginando que seria mais feliz, e depois o abandonariam porque sabiam, não precisavam mais impor-lhe nenhum sofrimento porque as próprias consequências do ato praticado se encarregariam de proporcionar-lhe um sofrimento tão atroz, que eles seriam perfeitamente dispensáveis.
Por essa razão é que são muito importantes as atitudes dos encarnados. Erros do passado, de existências pregressas, todos os têm, senão não estariam encarnados.
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Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 01, 2018 8:14 pm

A Terra ainda é um planeta de provas e expiações e todos os que aqui se encontram têm seus compromissos para ressarcir.
Entretanto, se mantiverem uma postura cristã, se se esforçarem para progredir um pouco policiando suas acções, palavras e pensamentos, empenhando-se para seguir as prescrições de Jesus para seus irmãos da Terra, mesmo que os inimigos do passado se acheguem desejando prejudicá-los, não encontrarão as condições de que necessitam para isso.
Sejamos, pois, cristãos, na verdadeira acepção do termo, mesmo trazendo compromissos do passado, porque o nosso esforço no aprendizado e na nossa modificação nos ajudará em muito, tanto no nosso progresso quanto nos preservando de companhias infelizes que desejam nos prejudicar.
Conforme elas nos encontram, a sua acção é dificultada ou facilitada por nós mesmos, resultando daí, para nós, ou uma vida bastante tranquila e profícua em aprimoramento espiritual, ou uma vida de muito sofrimento.
Thomas havia fornecido aos seus inimigos do passado tudo o de que necessitavam para torná-lo mais infeliz, em virtude de suas próprias atitudes e sentimentos.
Se ele fosse diferente, se vivesse, apesar de só, sem a esposa, uma vida normal de dedicação ao filho, trazendo no coração sentimentos mais temos e mais elevados; se não tivesse se tornado um homem frio e indiferente, mas interessado na educação do filho, em proporcionar-lhe os carinhos que ele se vira privado com a partida da mãe, mesmo que eles tivessem se achegado, a sua acção teria sido muito mais difícil.
Entretanto, encontraram em Thomas um campo aberto e favorável ao que pretendiam, e o levariam ao suicídio se alguma providência urgente não fosse tomada para retirá-los daquela casa.
Juvenal, a esposa e Stella estavam surpresos e teriam que agir imediatamente.
Todavia, não se pode agir sem se conhecer todas as intenções do adversário para se atacar o alvo certo sem perda de tempo e da oportunidade.
Dessa forma, os três se subdividiriam e fariam as investigações para depois começarem a agir.
Cada um se encarregaria de um deles e Juvenal ficaria com a parte maior.
Cada descoberta passariam aos outros para que tivessem o todo da situação.
Por enquanto ainda nada fariam além de observar, anotar, para só depois agirem com conhecimento e segurança.
A partir dessa decisão, cada um se postou junto de um deles, de modo a que não fosse visto e começaram o seu trabalho de escuta, perscrutando também o íntimo de cada um.
Ah, pobres infelizes!
Nenhum sentimento mais nobre, em nenhum momento, foi revelado por eles.
Somente ódio, desejo de vingança e destruição, como esperança de felicidade, depois que tivessem concretizado seus planos de vingança.
Cada um trazia o seu motivo, e aliaram-se num único objectivo, destruí-lo totalmente sem piedade.
Quando Thomas saía para o trabalho, apenas um o acompanhava, porque não era no trabalho que eles estavam tendo os elementos para mais facilmente conseguir o que desejavam.
Esses elementos estavam no seu lar, fornecidos por ele mesmo.
O que o acompanhava era somente para verificar como ele se saía e, se pudesse atrapalhá-lo em alguma tarefa, não perdia a oportunidade.
Stella, que pretendia reverter essa situação no seu lar, sem se deixar ver pela entidade infeliz, seguiu com eles e sondava os pensamentos do marido.
Enquanto trabalhava ele desligava-se do seu problema familiar, desempenhava bem a sua actividade, mas quando percebia que era hora de retornar, um desgosto muito grande o acometia, e tinha vontade de fugir para longe.
Algumas vezes, nessa hora, pensou em Stella, na alegria de retornar para casa quando ela lá se encontrava, mas depois da sua partida, o seu lar era para ele o pior lugar do mundo, sobretudo quando se lembrava de que lá estava William, aquele que, para chegar, eia tivera que partir.
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Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 01, 2018 8:15 pm

Entretanto, apesar do desgosto que sentia, apesar de não gostar do filho, a sua casa era o único lugar para onde poderia ir, era o lugar onde tinha o seu tecto, a roupa limpa e a alimentação, mesmo com o coração partido.
De uns tempos para cá ele trazia no coração, quando esses pensamentos ocupavam-lhe a mente, uma ideia que vinha se agigantando cada vez mais, mas ele não sabia que não era sua mas imposta por aqueles que o assediavam.
Eles trabalhavam-na justamente na hora em que deveria voltar para casa, como se representasse para ele a libertação, o encerramento completo de uma situação que o desgostava.
Quando Stella percebeu o que se passava, assustou-se.
Se não interferissem rapidamente poderia ser tarde demais, porque, ao receber aquelas sugestões, ele se demorava pensando nelas, concluindo que para ele seria a única solução, ainda mais que lhe colocavam na mente como a única oportunidade de reencontrar a esposa e ser feliz novamente.
Como o trabalho dos três, de início, era apenas de investigação, ela nada fez, mas não via a hora de chegar, reunir-se com Juvenal e Áurea para contar-lhes o que visualizara e saber, também, o que eles haviam conseguido apurar.
As entidades que permaneceram no lar enquanto Thomas trabalhava, apenas descansavam, todas deitadas em sua cama.
Conversavam sobre o que estavam conseguindo, esperando poder concretizar em breve os seus planos para partirem para outros trabalhos.
Em nenhum momento nenhum dos dois conseguiu saber o que eles estavam vingando, em que haviam sido ofendidos ou prejudicados, porque ali pensavam e discutiam apenas o que esperavam conseguir, o que fariam, sem se referir ao que para eles, com certeza, não precisava ser recordado.
Quando Stella chegou contando-lhes o que havia descoberto, Juvenal, sem perda de tempo, falou-lhe:
-Precisamos agir imediatamente.
Se demorarmos nas nossas investigações, poderemos ser surpreendidos com uma atitude tresloucada de Thomas, complicando muito a situação para William e para si mesmo.
Hoje à noite nós os abordaremos e saberemos o porquê de estarem aqui, o que houve e os convenceremos a partir.
Se não conseguirmos, teremos de pedir reforços e sanar de vez esta situação, auxiliando também esses infelizes imbuídos de tanto ódio e de desejo tão funesto.
Faremos um trabalho completo, para Thomas e para eles também.
A atitude de Thomas, naquela noite, não foi diferente.
Ficou a maior parte do tempo no próprio quarto, abrigando no coração a tristeza e a desesperança que eles incentivavam ainda mais, e a hora que sentiu, deveria dormir, acomodou-se no leito.
Para ele apenas que ali estava como encarnado, muitas entidades o acompanhavam - as que o queriam prejudicar e as que queriam ajudá-lo.
Quando seu espírito se desprendeu do corpo pelo sono que o envolveu, ele logo deixou o quarto e os seus companheiros o seguiram.
Fora do quarto, mas ainda dentro da casa, um deles aproximou-se de Thomas, dizendo:
-Aonde pensa que vai?
-Vocês novamente?
Deixem-me em paz!
Não me atormentem mais do que já tenho sofrido!
-Você tem apenas o que merece, não reclame!
-Não sei do que falam, deixem-me!
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Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 01, 2018 8:15 pm

Pretendendo sair correndo foi impedido por eles, e um outro, aproximando-se, indagou-lhe:
-Então, esqueceu-se do que fez?
Não se lembra mais de mim?
-Não me lembro de nada!
-Pois então eu vou avivar a sua memória!
Lembra-se de quando eu, doente e sem condições de trabalhar, necessitado de um tratamento para a subsistência da minha família, fui despedido?
Lembra-se de que implorei que me desse uma oportunidade de me tratar, que trabalharia dobrado depois para ressarci-lo de algum prejuízo que lhe ocasionasse, mas não podia deixar a minha família ao desamparo?
Lembra-se de que não me deu atenção, dizendo-me que não poderia manter no emprego ninguém que não lhe rendesse nada e até lhe desse prejuízo?
Lembra-se de que me despediu imediatamente, e que depois a minha saúde só piorou e eu deixei o meu lar, a minha família, em situação de penúria por sua causa porque perdi a minha vida?
Thomas ficou estupefacto de tudo o que aquela entidade lhe falou e não reagiu.
Não se lembrava de nada, não o reconhecia e tentou continuar o seu caminho.
O pobre infeliz que havia desabafado, fazendo reviver de forma muito mais intensa todo o ódio que mantinha por ele, impediu-o, e, pulando novamente à sua frente, disse-lhe:
- Ainda acabo com você!
Eu o destruirei por completo e farei com que retorne para este lado em que me encontro pelas próprias mãos.
Os outros, enquanto aquele desabafava os seus sentimentos, calaram-se, mas o olhar que dirigiam a Thomas era fulminante de ódio.
Sem poder reagir da forma como pretendia, fugindo para longe, ele teve outra atitude que o salvaguardava de modo diferente, deixando-o alheio ao que se passava ao seu redor.
Correu para o seu quarto retomando rapidamente o corpo, despertando assustado, sufocado e ofegante, imaginando que tivera um terrível pesadelo.
Juvenal, a esposa e Stella, que até então haviam se mantido invisíveis aos olhos deles, acercaram-se do que havia falado a Thomas, a um sinal de Juvenal, e, mostrando-se a ele, o próprio Juvenal falou-lhe:
-Irmão, acabamos de ouvir o que disse a Thomas e compreendemos o quão infeliz se sente, guardando no coração um sentimento tão destruidor, não só direccionado para ele, mas muito mais prejudicial a si mesmo.
-Quem é você que assim me fala?
-Alguém que se comoveu com a sua história e quer ajudá-lo a libertar-se desse sofrimento.
-Eu só estarei livre do sofrimento quando conseguir vingar-me dele.
-Suponhamos que conseguirá!
O que fará depois?
Como se sentirá, percebendo que foi muito mais cruel com ele do que ele próprio o foi, fazendo-o sofrer?
Se condena a atitude dele, não queira cometer o mesmo erro.
Compreendemos o quanto sofreu, não só por si mesmo, mas pelos seus familiares, e queremos impedir que sofra mais.
Nada do que fazemos fica impune diante de Deus, que faz cumprir a sua justiça sem que nos comprometamos por isso.
O que ele tiver de passar pelos actos praticados, passará, estando você junto dele ou não!
Não queira comprometer-se distanciando-se cada vez mais daqueles familiares que amava. Onde estão eles?
-Não sei!
-Pois então!
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