Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Página 5 de 5 Anterior  1, 2, 3, 4, 5

Ir em baixo

Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 09, 2018 8:24 pm

Vai depender apenas de você, mas isso ainda vai demorar muito tempo.
William está na Terra cumprindo a sua programação de vida, e, pelo que sofreu por sua causa, já resgatou muito do que levara, porém, precisa completar sua existência.
Por isso não sabemos quando o reencontro será possível.
-E se eu retomasse como filho dele, depois que se casar?
-É muito cedo ainda, você poderá falhar novamente, comprometendo-se mais.
Tenha paciência e modifique o seu coração de modo definitivo para poder ter o que deseja.
-Esta actividade encerra-se aqui?
-Como actividade conjunta, da nossa parte, sim!
Mas ela deve continuar agora somente com você, nas suas análises e reflexões, para verificar em detalhes a sua atitude desde pequeno, o auxílio que sempre recebeu, o amor que seu irmão, hoje seu filho, sempre lhe dedicou e, com esses elementos, tirar suas próprias conclusões.
É pelo conhecimento das nossas faltas que podemos nos modificar, se realmente chegarmos à conclusão de que erramos, de que poderíamos ter agido de modo diferente.
Você terá, pelo que viu e pelo que viveu na sua última existência terrena, muitos elementos para reflexão.
Aproveite este período que tem todo o tempo à sua disposição para fazê-las, mas sendo verdadeiro, sem querer dar desculpas a si mesmo, que assim não chegará a nada.
Aproveite o julgamento que fazia do jovem que viu, quando não sabia de quem se tratava e o receba como se estivesse fazendo a você mesmo, sem desculpas nem máscaras.
A sua última existência você a tem toda em sua mente porque foi vivida recentemente, e analise suas atitudes do mesmo modo que fez pensando tratar- -se de um desconhecido.
-Posso me retirar agora?
-Antes faremos uma prece de agradecimento a Deus que nos permitiu a realização deste trabalho em seu benefício, e rogaremos também a Ele que o ajude a trabalhar em seu espírito tudo o que viu e viveu, para que as nossas intenções sejam compreendidas por você como um auxílio que lhe prestamos para a sua modificação e, consequentemente, para o seu aprimoramento espiritual.
A prece foi proferida, e, ao final, Thomas, um tanto comovido, retirou-se, encontrando já à porta, à sua espera, Stella.
-Ah Stella, como foi difícil para mim o dia de hoje! - exclamou ele.
- O que aconteceu?
-Preciso contar-lhe tudo, mas não aqui!
Vamos ao nosso passeio e conversaremos.
Os dois dirigiam-se ao jardim, Thomas ia em silêncio, pensativo e ela observava-o, até que chegaram a um local que lhes ofereceria a paz de que necessitavam e um banco que lhes daria condições de conversarem mais bem acomodados.
Ele contou-lhe tudo o que viu, identificando-se como o protagonista daquela história que considerava triste; falou de William mostrando-se arrependido e ingrato, mas desculpando-se por não saber quem ele era, e por ter ficado sozinho com ele quando ela partiu.
-Não tão sozinho, querido!
Lembre-se do anjo que teve em sua casa e que tomou a si cuidar do nosso filho, porque você o desprezava.
É compreensível que a tivesse porque alguém precisava cuidar da casa e do bebé, que não deviam ser atribuições suas.
Mas o amor que deveria dedicar a sem filho, esse você nunca poderia ter lhe negado, mesmo sem saber quem ele era, porque a obrigação de um pai é dar ao filho todo o amor e carinho que ele merece, ainda mais quando não tem a presença da mãe.
-Eu sei que falhei e até pedi para voltar junto dele como filho, para reparar meu erro.
-Seria outra atitude impensada, porque, carregando ainda no íntimo os mesmos sentimentos que nutria por ele na sua última existência, você falharia novamente.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 81199
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 09, 2018 8:24 pm

Ninguém se modifica de uma hora para outra.
A modificação é resultado de muita reflexão, do conhecimento das consequências que sua atitude causava, do desejo intenso de se aplicar em actividades enobrecedoras, e isso tudo leva tempo.
Se realmente esse desejo de modificação faz parte do seu espírito, você conseguirá, mas se for resultado apenas da emoção pelo que viu, em pouco tempo se desvanecerá, assim como a emoção se desvanece com o tempo e com a mudança de situação.
- Você está sendo cruel comigo!
- Estou sendo realista porque não quero vê-lo em erro novamente.
Você ainda traz aquele constrangimento para com William, para não dizer desprezo.
Se voltasse junto dele, em pouco tempo esse desprezo afloraria, você lhe levaria mais desgostos e se comprometeria ainda mais.
- Compreendo o que diz, e tem razão.
Quando aceitei ou pedi, não sei, para receber William como meu filho, devo ter feito promessas que não cumpri.
-Aproveite tudo o que viu para reflectir e fazer análises, pois, cada uma que fizer, examinando todos os ângulos das suas acções, você as irá incorporando ao seu espírito de modo perene, o que o ajudará muito.
-Preciso muito da sua ajuda.
-Você a tem tido e terá sempre.
Eu o ajudarei sempre que me for permitido.
Sabe que o amo muito, apesar de não ter concordado com o que fez ao nosso filho.
-Muitas vezes você tentou abrir-me os olhos, desejando modificar-me e eu sempre recusei atendê-la.
-Empenhei-me para ajudá-lo ajudando o nosso filho, mas meus esforços e o daqueles que me acompanharam foram sempre inúteis.
Se, porém, agora, reconhecer que agiu mal, já é alguma coisa.
-Eu preciso redimir-me, Stella, junto de meu filho.
-Um dia você o fará.
Quando o momento chegar, você o fará!
-De que forma?
-Não se preocupe com isso, agora, mas com as cenas que viu.
Repasse-as todas em sua mente, reviva-as com intensidade penetrando em cada uma, como se as estivesse vivendo ainda, a fim de senti-las em toda a sua plenitude, e fazer depois, as reflexões acerca do que sentiu, do que viveu.
A cada uma que reviver, agora que reconheceu que errou, mais benéfico lhe será.
Não perca tempo.
O tempo é sempre muito precioso e devemos aproveitá-lo plenamente em nosso favor.
Quanto mais depressa fizer o que lhe foi recomendado, mais condições terá de se reequilibrar, depois, através do estudo e da vontade de aprimorar-se para redimir-se.
-Quanto tempo levarei nessa actividade de reflexão que só a mim pertence?
-Só você mesmo poderá dar essa resposta!
Irá depender do seu empenho, da sua dedicação, da sua sinceridade ao realizá-la.
-Irei esforçar-me!
-Vou deixá-lo, para que comece agora mesmo.
A minha presença pouco lhe valerá.
Quando precisar conversar, fazer algum comentário, expor algum sentimento, estarei pronta a ouvi-lo.
Estarei orando sempre, para que essa nova fase que começa para você lhe seja realmente benéfica.
Fique na paz de Deus.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 81199
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 09, 2018 8:24 pm

Stella retirou-se e Thomas permaneceu no mesmo lugar, pensando, rememorando as cenas visualizadas, agora com outro objectivo.
Muito tempo ele ali permaneceu e, quando entrou, procurou descansar.
Estava triste e decepcionado consigo mesmo.
O que haviam promovido para ele, com a intenção de que se modificasse, parece que estava começando a dar algum fruto.
Ainda era muito cedo para afirmarmos que ele mudara porque apenas o tempo mostraria, mas estava caminhando para isso.
Do momento em que reconhecemos que erramos, que deixamos de ser radicais em nossos julgamentos e atitudes, alguma esperança começa a brotar no coração dos que tanto se empenharam.
Eles deixariam Thomas entregue a si mesmo, porque assim era necessário naquela fase da sua recuperação, mas só aparentemente porque estavam atentos.
Precisavam saber como ele estava se conduzindo, o que fazia, para depois, ao final, quando se reencontrassem novamente para uma avaliação do que fora feito e conseguido, a realizassem com bons resultados.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 81199
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 09, 2018 8:25 pm

17 - UM TESTE FUNDAMENTAL
ALGUNS DIAS ELE PASSOU assim, só, reflectindo, recriminando-se a si próprio pela oportunidade perdida, e acabou por procurar Stella.
-Ando cansado, Stella!
Preciso da sua companhia, da sua palavra amiga de incentivo, para que eu possa continuar.
Não sei mais quanto tempo me darão, mas já fiz o que me pediram, muitas vezes.
-E o que concluiu de cada vez?
Como se considera agora, e como se considerava no início?
-Não entendo a sua pergunta!
-Quero saber se se sente modificado desde que começou essa sua actividade, ou se é o mesmo ainda. O que mudou dentro de você?
Como está o nosso William no seu coração?
-Reconheço que errei, que perdi oportunidade, mas isso eu já o havia feito desde o início.
Todas essas lembranças têm sido um tormento para mim.
Gostaria de fazer algum trabalho, mudar o meu pensamento, ocupá-lo com outros interesses.
-Quem pode avaliar se já pode realizar algum trabalho, encerrando essa sua actividade, não serei eu e sim aqueles que a promoveram. Entretanto, quero adverti-lo de que o que foi mal vivido, se assim posso considerar, depois de reconhecido por nós, permanece na nossa consciência, e só conseguimos retirá-lo quando ficarmos bem connosco mesmos, ressarcindo o que reconhecemos falho em nós.
-Então vai demorar muito para eu ter paz.
-Contudo, se ainda não podemos ressarcir o que fizemos, directamente com aqueles que prejudicamos, com quem não agimos bem, podemos aliviar o nosso coração trabalhando em favor dos outros.
O trabalho nos redime, auxilia-nos a nos sentirmos bem, e isso tudo nos alivia.
-Pois é o que eu quero.
O que devo fazer para merecer realizar um trabalho desses, sentindo-me útil?
-Falarei com os que o acompanharam na sua actividade e veremos o que decidirão.
STELLA DESPEDIU-SE PROMETENDO A Thomas que providenciaria o que ele estava desejando e, se fosse considerado merecedor, com certeza lhe seria concedido, porque trabalhadores eram sempre necessários.
Thomas continuou como vinha procedendo e mais alguns dias passaram, até que foi chamado para uma entrevista, justamente com aquele que o acompanhara em todas as visualizações.
Ao se encontrarem no lugar determinado, o seu orientador explicou-lhe:
-Deixamo-lo a sós todo esse tempo, sem nos falarmos, porque assim era necessário, mas hoje vamos avaliar, através da nossa conversa, o quanto esses dias lhe foram benéficos.
-De que forma o fará, irmão?
-Vamos apenas conversar! Fale-me, como se sentiu durante estes dias, como desenvolveu o que recomendamos e como está o seu íntimo?
- Vou começar pela última pergunta que talvez já responda todas as outras.
Não me sinto bem, tenho uma sensação muito desagradável em mim.
-Resultante de quê?
- Das reflexões que fiz, conforme me aconselhou.
- E a que conclusão chegou?
- A de que errei em relação a William, mas não sabia quem ele era.
Se tivesse sabido de toda aquela história, teria sido diferente.
-E esse o seu pensamento?
-É o que penso!
-Pois lhe digo que antes de encarnar você tomou conhecimento de tudo o que lhe mostramos, porque era necessário que recebesse o que fora seu irmão para dispensar-lhe, em carinho e atenções, um pouco do que ele lhe proporcionara, e pela ingratidão que você lhe fizera.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 81199
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 09, 2018 8:25 pm

Você não tinha conhecimento, mas nós sabíamos que Stella não permaneceria muito tempo na Terra; apenas o suficiente para que aquele espírito fosse levado à sua casa e lá renascesse, a fim de que você cumprisse o que estava preparado, e com o qual concordara.
Era a sua oportunidade de ressarcir aqueles compromissos, liberando-se também, de outros débitos que levava, pela dedicação e amor que lhe devotasse.
-E eu falhei!
-Por isso sente-se mal agora, arrependido e desgostoso.
-Como reparar o mal que fiz?
-Você já teve oportunidade de reparar aquele mal e falhou.
-Gostaria de tentar novamente!
-Muito tempo ainda deverá passar até que tenha outra oportunidade como aquela.
O que hoje é William não merece sofrer novamente.
-Estou arrependido!
-Antes também estava e não levava a mágoa de achar que ele fora o culpado pela morte de sua esposa.
Sua situação diante dele, agora, complicou-se ainda mais.
O seu desprezo por ele é muito recente; retomaria todo se tivessem nova convivência, e poderia magoá-lo ainda mais.
-Então não tem solução para mim?
-Continue a manter vivos em sua mente todos os actos praticados, toda a vida que lhe mostramos e a que viveu recentemente, que a sua modificação efectiva vai depender apenas de você mesmo.
-Eu ainda não mereço confiança?
-Não se trata disso, mas precisamos cuidar para que não se comprometa mais e nem faça William sofrer.
-Lembrei-me agora de que Stella esteve em meu lar diversas vezes para fazer-me aceitar meu filho.
-E você sempre recusou!
-Falo disso apenas porque sei que temos a possibilidade de retornar nos mesmos meios em que estivemos enquanto encarnados.
-E o que tem em mente?
-Se assim é possível, permita-me, pelo menos, que eu retorne para um encontro com William quando se libertar pelo sono do corpo físico, para que eu lhe peça perdão.
Você o faria de coração?
— Se não o fosse, não lhe pediria.
Quero humilhar-me diante dele, mostrar o meu arrependimento para estar bem comigo mesmo.
Depois, se tiver permissão de um dia ter nova existência junto dele eu já levo o coração mais tranquilo e terei mais oportunidade de me sair bem.
Por Deus, conceda-me essa graça!
-Considero uma ideia que poderá ser estudada, mas a resposta não dependerá apenas de mim.
Prometo que vou consultar os meus superiores e lhe trarei a resposta assim que a tiver.
-Agradeço-lhe muito, mas há também outro pedido que desejo lhe fazer; se tiver que ser levado ao seu superior, o senhor o levará também.
-Pois fale, do que se trata?
-Há tempos sinto-me inútil, tenho sofrido com essa actividade que venho desenvolvendo e gostaria de executar alguma tarefa em favor de alguém.
Não sei se já me faço merecedor, mas me ajudaria bastante.
Sentindo-me útil, eu estaria melhor e também levaria minha parcela de auxílio dentro do que me determinassem fazer.
- Prometo que levarei esse pedido também, e, quando tiver a resposta, eu o procurarei.
Entretanto, enquanto não a tiver, continue na sua actividade.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 81199
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 09, 2018 8:26 pm

Faça suas reflexões, que elas só lhe farão bem. Leia também, que a leitura é sempre um bem muito grande ao nosso espírito, sobretudo pelos livros que temos, todos com instruções evangélicas e exemplos de vida que enobrecem.
Com esse aconselhamento Thomas foi dispensado para recomeçar a sua actividade, a que já o entediava, porque a considerava, por ser um trabalho mental de análises e reflexões, aborrecida.
Já estava cansado de passar e repassar por todos os factos que lhe foram mostrados, porque imaginava, o que poderiam fazer por ele, pelo seu modo de agir e pensar, pelos conceitos que poderiam ser modificados em seu espírito, já o haviam feito.
Não se sentia arrependido do que fizera ao filho?
Não reconhecera já que fora ingrato e que errara, e não pedira até para reparar seu erro?
O que mais quereriam que fizesse com suas reflexões?
Por mais pensasse e repensasse, recaía nas mesmas conclusões e nada mais se modificaria.
Depois dessa conversa ele imaginou que logo em seguida teria alguma resposta dos pedidos que fizera, e que algum outro rumo poderia ser dado em sua vida, pelas próprias conclusões a que o orientador chegara, mas já havia passado muitos dias e nenhuma resposta lhe chegava.
Contara a Stella o que se passara, o que conversaram, o que pedira e aguardava.
Conhecedora de que no mundo espiritual não há pressa, de que nenhuma resolução é tomada senão depois de analisado tudo o que a envolve com as possíveis consequências que pode ocasionar, para que sempre os direccionamentos sejam efectuados tendo-se em vista os melhores resultados, ela fazia-o entender que deveria esperar em paz, sem prejuízo da actividade que realizava.
Depois de passar um tempo que Thomas estava considerando longo demais, ele foi novamente chamado.
Com olhos interrogativos e ansiosos, deparou-se com o seu orientador e ouviu-o dizer:
-Trago para o senhor alguma solução para o que me pediu.
-Estou ansioso! O que farei?
-Ouça-me com atenção!
Se se lembra, o senhor encarregou-me de levar aos meus superiores dois pedidos.
-Sim, lembro-me bem!
Desejo uma entrevista com meu filho para lhe pedir perdão e desejo também realizar alguma actividade para sentir-me útil.
-Pois bem! Vamos começar por esta última, pela actividade que pediu para realizar.
-O que me determinaram para fazer?
-Depois de estudadas as suas possibilidades, as suas falhas e o seu desejo de ser útil, uma actividade foi-lhe proposta.
Se concordar em realizá-la, lhe fará muito bem e ajudará a enternecer o seu coração.
-Ainda não confiam em mim?
-Se não confiassem não lhe atribuiriam uma tarefa, mas por ela poderão também avaliar a sua modificação, porque lhe afirmo:
Somente depois que estiver bem integrado nessa actividade, e que a estiver realizando com dedicação e muito amor, é que terá autorização para realizar o seu segundo pedido.
Se não se sair bem, será retirado dela logo em seguida, porque aqueles com os quais irá trabalhar não poderão sofrer, caso a sua irritação, a sua insensibilidade emergirem do seu coração.
Para o que vai realizar é preciso muita afabilidade, muita dedicação, muito amor e carinho.
-O que devo fazer que exige tantas qualidades assim?
-Um trabalho muito sublime de amor que só lhe foi dado justamente para a sua avaliação.
-O que quer dizer?
-Se realmente está arrependido do que fez ao seu filho, se realmente se modificou, o senhor se sairá muito bem.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 81199
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 09, 2018 8:26 pm

O seu trabalho será sempre vigiado, mas sabemos o que é feito com o coração e o que é feito apenas com um interesse determinado, porque ninguém consegue fingir por muito tempo.
Uma hora ou outra, quando menos se espera, revela seus verdadeiros sentimentos.
-Está me deixando muito curioso e até um pouco amedrontado.
Que trabalho é esse que devo realizar?
-Eu explicarei:
- Pelo seu passado, não só desta sua última existência como da que visualizou, o senhor irá desenvolver um trabalho com nossas crianças.
-Com crianças? - indagou surpreso.
-Sim, com crianças!
É com elas que irá demonstrar os seus verdadeiros sentimentos.
Se não soube ter nenhum sentimento nobre para com seu filho, se não soube reconhecer o que seu irmão lhe fazia, uma criança ainda que muito se sacrificou por sua causa, é com crianças que irá trabalhar para aprender a amá-las; e elas, aqui, são muito carentes de amor.
-Eu não saberei o que fazer com elas!
- Para que não alegue desconhecimento, nem demonstre insegurança do que deve fazer, o senhor passará por um período como observador junto daqueles que com elas convivem, até que se sinta preparado para ajudá-las efectivamente, sem fazê-las sofrer, mas sempre cuidando, com muito carinho, para que elas se sintam bem.
Lembre-se de sua esposa que o deixou, deixando também o filhinho, causando-lhe muito sofrimento.
Pois bem, as crianças, quando deixam a Terra e chegam connosco, precisam de muito carinho e amor para se readaptarem ao mundo espiritual.
-Esse trabalho é de muita responsabilidade!
-Para quem realmente deseja trabalhar, não há actividades de maior ou menor responsabilidade, mas actividades que devem ser desempenhadas com amor.
Somente a capacidade de amar é que revela os verdadeiros sentimentos.
-Eu tentarei!
Quando devo começar e onde estão essas crianças que nunca as vi aqui?
-Temos um departamento só para elas, totalmente separado deste aqui e eu o levarei lá, amanhã pela manhã.
-Agora que está determinada a minha tarefa que espero realizar da melhor forma possível, eu pergunto:
- E meu outro pedido, o que me levará junto do meu filho para que lhe peça perdão?
-Essa permissão só lhe será dada conforme se sair na sua actividade.
E através dela que o senhor demonstrará se está preparado para pedir perdão ao seu filho, aquele perdão que nasce do mais profundo do coração e revela sinceridade.
-Então um vai depender do outro?
Justamente!
Por isso iniciei minha explicação por essa parte.
Dependendo do amor que colocará na realização do seu trabalho é que lhe será concedido seu outro pedido.
-Esforçar-me-ei de tal forma que conseguirei.
Assim esperamos, mas que esse esforço seja acompanhado da sua modificação, e que o amor que demonstrar seja a revelação do que traz no coração.
Espere-me, pois, amanhã pela manhã, e vá se preparando mentalmente para o que irá realizar.
Thomas ficou preocupado.
Não tinha certeza de que se sairia bem.
Se fracassara com o filho que deveria amar, como se sairia bem com outras crianças que nada lhe diziam ao coração?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 81199
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 09, 2018 8:26 pm

Ao mesmo tempo em que fazia esses raciocínios, imaginava que seria melhor.
Não conhecia as crianças e seria muito mais fácil tratá-las com amor, porque não trazia nenhuma mágoa contra nenhuma delas, como trazia contra o filho.
Afinal a manhã chegou e, mesmo preocupado, em companhia do orientador, ele chegou ao seu local de trabalho.
O departamento que acolhia as crianças era completamente diferente do dos adultos.
Até os jardins eram diferentes, mais apropriados a elas, para que se reunissem em pequenos grupos e brincassem, sempre monitoradas por um irmão ou irmã abnegada que lhes dava muito carinho e as aconchegava, quando percebia a menor sombra de tristeza em seus rostinhos.
Conversavam bastante com elas, explicavam-lhes o porquê de estarem ali, separadas dos pais, e elas iam se habituando, porque, amor, não lhes faltava.
Elas sentiam-se bem e, quando totalmente refeitas, equilibradas e preparadas, eram levadas a outro departamento.
Lá iam retomando e incorporando aos seus espíritos, lembranças de um passado que as iam transformando em adultos prontos para novas jornadas terrenas, depois que passassem por um período de estudos, actividades e novamente a preparação para o retomo.
Essa transformação era necessária para que elas, aos poucos, fossem perdendo a identidade de crianças a fim de melhor compreenderem a finalidade do espírito e a bênção das reencarnações, e seguissem sua vida de espíritos imortais, sempre prontos a se aprimorarem e a progredirem, rumo a Deus.
Mas, antes que tudo isso fosse possível, era necessário aquele período primeiro do qual Thomas faria parte, a fim de que ele também enternecesse o coração e aprendesse a amá-las, não importando quem eram ou quem haviam sido, mas lhes dedicasse o amor que deve ser próprio de uma criatura para com outra, conforme nos prescreveu Jesus.
Thomas foi levado ao responsável por aquele departamento, e deparou-se com uma irmã de aspecto sereno, bondoso e maternal, que lhe falou como somente as mães o sabem fazer.
-Meu querido irmão, é uma alegria para nós, recebê-lo em nosso departamento para um novo aprendizado.
Aqui o trabalho é realizado com muito amor, e o nosso coração recebe cada criança que chega, como se um novo filho nos chegasse aos braços, com a diferença que a essas mais amor ainda precisamos dedicar, porque acabam de deixar a Terra onde ficaram os entes queridos que delas cuidavam, sobretudo as mães.
E nós devemos suprir, para elas que chegam, o carinho que vai lhes faltar.
E um trabalho abnegado, muito benéfico e terno aos olhos de Deus, mas se faz muito benéfico a nós também, que aprendemos com elas a ternura, a dedicação, o amparo constante para que se sintam protegidas e amadas.
-Compreendo, irmã, e temo não conseguir realizá-lo, porque aqui estou também para um aprendizado.
-Tudo o que realizamos, se o fazemos com responsabilidade e com o real desejo de sermos úteis, sempre é um aprendizado para nós.
-O que deverei fazer?
-Deve lhe ter sido explicado, já que, de início, fará apenas observações para ver como o trabalho aqui se realiza.
Temos muitas das nossas crianças ainda acamadas, aquelas recém-chegadas, que trouxeram da Terra os sintomas da enfermidade que foram causa da sua vinda, e que precisam refazer-se.
Por isso, necessitam de mais carinho ainda que as outras.
É justamente entre essas que ficará, observará o que fazem, mas nada impede que, diante de uma necessidade maior, o senhor vá auxiliando dentro do que lhe for possível, até que possa ter a responsabilidade total de uma tarefa entre elas.
Thomas já vinha preocupado, mas jamais pensou que houvesse um departamento assim com uma dependência onde as crianças mais necessitadas ficassem abrigadas.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 81199
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 09, 2018 8:27 pm

Diante da tarefa que lhe foi atribuída, a sua preocupação foi maior, mas prometia a si mesmo esforçar-se para fazer o melhor e expressou para a irmã que lhe passara a sua actividade, essa disposição.
Depois de todas as explicações, ele foi dispensado e levado directamente ao local onde estagiaria.
Uma espécie de enfermaria onde as crianças mais necessitadas estavam recolhidas para o seu refazimento, e foi apresentado àqueles que lá se dedicavam a elas.
Um deles, o que se encarregaria mais directamente de orientá-lo, depois de algumas palavras de força e estímulo, convidou-o para visitar o local.
O salão era grande, abrigando um número considerável de leitos.
Conduzido entre eles, Thomas foi observando as crianças deitadas.
Separadas em grupos, havia aquelas que ainda dormiam profundamente o sono do refazimento, outras já despertas, porém sem condições de se levantar, e outras mais alegrinhas e bem dispostas, pois já haviam passado pelas fases anteriores, mas ainda não podiam deixar a enfermaria porque precisavam de uma assistência mais direccionada às suas necessidades.
Estas deixavam o leito por pouco tempo; muitas vezes levadas no colo pelos auxiliares, chegavam até à porta, vislumbravam o sol aquecedor e brilhante, mas logo eram trazidas de volta, com palavras de esperança de que logo o deixariam de vez.
Thomas ia observando atento às explicações e informações que lhe eram passadas, e, ao final, depois de percorrer todo o local, o auxiliar indagou:
-Então, o que me diz do que observou?
-Não sei se digo que é um local triste ou de muitas esperanças.
-A esperança, aqui, sempre faz parte do íntimo de cada um de nós e a transmitimos às crianças em palavras de estímulo e força, porque aqui não deve haver tristezas.
É um local transitório e necessário para que elas, depois, possam readquirir o bem-estar e a alegria que é própria das crianças.
Por isso o carinho para com elas, aqui, é regra geral e primeira.
Em nenhum momento admitimos tristezas, e aquelas que estão despertas, mas não podem ser dispensadas ainda, têm a nossa assistência constante.
-O que eu farei entre elas?
-O senhor deve ter visto que temos serviços variados dentro das necessidades que cada uma apresenta.
Pois vá observando, como lhe foi recomendado, aproxime-se da que lhe tocar mais o coração, com desejos de auxiliar, que logo o senhor mesmo se imporá uma tarefa junto do local com o qual se afinizar mais.
- Eu o farei, e até já sei onde me darei melhor, mas ainda devo observar mais.
Entretanto, enquanto observo, posso caminhar entre os leitos, deter-me mais diante de um ou de outro, dizer umas palavras a algumas delas?
Com certeza! E assim que deve proceder para que num tempo muito curto o senhor já esteja totalmente integrado na sua tarefa.
Thomas estava comovido entre os leitos das crianças, mas verificava o amor com que eram cuidadas, as palavras e os gestos de carinho que lhes eram dispensados, e concluiu que, se todas as mães que tiveram os filhos levados de seus braços, soubessem que era dessa forma que estavam sendo cuidados, elas ficariam tranquilas.
As horas iam transcorrendo e Thomas fazendo o que lhe fora recomendado, até que se completou o tempo em que deveria permanecer entre as crianças.
Outra equipe tomaria o trabalho, sempre num revezar para que a actividade fosse bem desenvolvida, sem solução de continuidade, porque a assistência entre as crianças deveria ser contínua.
Assim que deixou a enfermaria procurou Stella que não pôde atendê-lo prontamente, mas prometeu que assim que se desobrigasse iria ao seu encontro.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 81199
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 09, 2018 8:27 pm

De facto, depois de algum tempo foi ter com ele, ansiosa para saber a sua opinião sobre a tarefa que haviam lhe dado e como se saíra no seu primeiro dia.
-Fiquei comovido entre aquelas crianças, Stella!
Cada uma é cuidada com tanto carinho como se fosse a própria mãe ali entre elas.
-Muitas mães são trazidas, durante o sono do corpo físico, para visitá-las, não só as que se encontram na enfermaria, mas as que já estão liberadas dela.
Elas vêem como os filhos são tratados, como estão bem e se tranquilizam.
E um bálsamo para cada uma delas conviver algumas horas com os filhos.
-E elas se recordam disso ao despertar?
-Não com detalhes, pois não devem levar em sua lembrança a visão dos locais onde elas vivem, mas guardam a sensação de que "sonharam", com os filhos, estiveram com eles, os viram felizes, e isso para elas é um estímulo para que continuem vivendo sem tantas preocupações nem tantas saudades.
-Isto, então, lhes faz bem?
-E a força de que precisam para continuarem vivendo sem desesperos e sem revoltas.
Através de Stella mais informações Thomas recebia, e as ia incorporando ao seu espírito para melhor compreender o trabalho que realizaria.
Continuando a conversar, Stella perguntou-lhe:
-O que tem a me dizer do seu íntimo?
Você falou-me do que viu, mas eu quero saber qual a influência de tudo o que viveu lá dentro.
Você disse que ficara comovido, mas até que ponto a sua comoção pode modificar seus próprios conceitos, sobretudo em relação a nosso filho?
-Eu mal comecei e você já vem com essa pergunta?
-Justamente para que você vá trabalhando o seu íntimo em relação ao objectivo primeiro de lá estar.
É muito cedo ainda!
-Analisemos o seguinte:
Você disse que ficou comovido ao ver aquelas crianças, e eu me lembro do nosso próprio filho, quando eu parti.
A situação dele era pior do que a que enfrentam essas crianças agora.
Elas não estão com os pais, mas podem, se Deus permitir, receber a visita deles para o conforto de ambas as partes.
São tratadas com muito amor, e em nenhum momento sentiram no seu coração o que é o desprezo de ninguém.
Imagine agora você, como não se sentiu nosso filho a sua vida toda enquanto você lá permaneceu, pelo desprezo que sempre lhe dispensou?
Lembre-se de quantas vezes lá estive tentando convencê-lo e estimulá-lo a que se modificasse, e você sempre se manteve irredutível.
-Você não deveria ter tocado nesse ponto!
-Pois se é justamente por causa dele e para poder dulcificar o seu coração, que você se encontra junto das crianças!
Como não tocar nesse assunto?
Ele é a causa de tudo!
O que você não aceitou pelo meu empenho, agora tem que enfrentar e se empenhar por si mesmo.
-Agora a situação é diferente!
Tenho conhecimento de quem fui, de como fui, de quem foi William e o que ele fez por mim.
-Se todo esse conhecimento conjugado à actividade que deve realizar, servir para a sua modificação, o objectivo maior para o seu crescimento estará atingido.
-Vou me esforçar porque do sucesso desse meu trabalho vai depender a autorização para o pedido que fiz.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 81199
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 10, 2018 8:31 pm

-E eu posso saber qual é?
-Desejo retomar para pedir perdão a William.
Se me sair bem, serei atendido, aí estarei em paz comigo mesmo.
-Isto quer dizer que você não está em paz?
-Depois que tomei conhecimento daquela história, a minha paz ficou abalada e eu devo a William um pedido de perdão.
Se ele conseguir me perdoar, poderei continuar a minha vida aqui até que me seja permitido retomar novamente.
-Fico feliz que assim pense.
O que lhe estão promovendo está dando certo.
Mais algum tempo ainda os dois permaneceram conversando, mas depois Stella considerou que Thomas deveria descansar para retomar sua actividade no dia seguinte, e aconselhou-o a que se recolhesse, não sem antes recomendar-lhe:
-Meu querido Thomas, você está tendo uma oportunidade ímpar.
Por isso, pela bondade de Deus que lhe concedeu essa tarefa, você deve aproveitá-la em tudo o que ela lhe oferece.
Não fique apenas no que deve realizar como obrigação, mas vá além.
Observe, mas faça, faça muito, tudo o que puder auxiliar as crianças.
Dispense-lhes muito amor para que elas se sintam felizes, que mais feliz se sentirá você.
Toda a vez que praticamos alguma acção meritória em favor de alguém, as bênçãos de Deus recaem sobre nós em forma de alegria interior e de paz, e é disso que você está precisando.
Se quiser ter essas sensações, dedique-se muito, que o retomo lhe virá em bênçãos de paz.
Agora vá para o seu repouso.
Thomas partiu levando as palavras de Stella, e sobre elas reflectiu bastante.
Na manhã seguinte levantou-se com nova disposição de ânimo e dirigiu-se à enfermaria infantil levando no coração o firme desejo de servir.
De fato, ele teria que observar para ver onde poderia ser útil.
Os que estavam em actividade ofereciam seus préstimos, e como ele ainda não tinha a sua própria tarefa, acompanhava os outros e sempre auxiliava.
Quando nada tinha a fazer, aproximava-se dos leitos daquelas que sentia, estavam mais carentes e levava-lhes o seu carinho, e até alguma brincadeira fazia para ver o sorriso nos seus rostinhos.
Dessa forma os dias iam passando e ele dedicando-se cada vez mais, até que, tão integrado estava naquela sua actividade e tão útil estava sendo, que foi chamado para que tivesse a sua própria tarefa.
À medida que ele observava e auxiliava conforme fora recomendado, também era observado para verificarem onde se saía melhor, por isso, depois de alguns dias, foi designado para permanecer junto daqueles que haviam passado pelas primeiras fases e estavam quase prontos para serem liberados da enfermaria.
O seu trabalho era justamente prepará-los para que fossem integrados aos outros que já estavam libertos dos sintomas trazidos da Terra, e viviam em uma outra dependência daquele departamento.
Quando uma criança já estava pronta para se mudar, ele ficava muito tempo com ela, conversava, fazia brincadeiras e até levava-a para conviver um pouco com seus futuros companheiros e participar das brincadeiras, dos jogos, dos passeios e dos cantos com os quais elas passavam seu tempo, até que se sentisse segura para permanecer de vez, passando a receber o carinho de outras mãos abnegadas e tendo a companhia alegre das crianças que já estavam totalmente equilibradas e saudáveis.
Cada uma que ele deixava de vez, era uma alegria, mas, ao mesmo tempo, tristeza, porque não estaria mais ligado a ela directamente, embora pudesse vê-la sempre junto das crianças quando levava outra para o treinamento.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 81199
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 10, 2018 8:32 pm

18 - O PERDÃO
THOMAS FOI SE DEDICANDO a esse trabalho, o tempo foi passando e ele, sempre que havia oportunidade ou mesmo esforçando-se para que ela surgisse, perguntava quando se fazia merecedor de retornar à Terra para o encontro tão esperado com o filho.
- Ainda é cedo! - exclamavam em resposta.
O senhor vem progredindo bastante e o momento chegará, mas para que ele seja aproveitado em toda a sua plenitude e tenha resultado definitivo e não passageiro, deve esperar um pouco ainda.
Ele continuava, mas depois de algum tempo tomava a perguntar, até que um dia foi chamado para uma entrevista com o mentor da Colónia, frente ao qual nunca estivera.
Em princípio ele assustou-se, mas Stella, que lhe levara o recado, tranquilizou-o dizendo que o mentor desejava falar com os dois.
Que ele ficasse sereno pois ela estaria em sua companhia.
A entrevista seria no final da tarde quando ambos encerrassem suas actividades.
Um tanto constrangido, mas seguro pela presença de Stella, eles partiram para atender ao pedido que lhes . fora feito.
Já eram esperados e foram recebidos com cordialidade fraterna e convidados a se assentarem diante dele.
| Sempre é um prazer conversar com nossos irmãos, internos nesta Colónia e auxiliares dedicados nas nossas actividades.
Stella, desejando também expressar a sua alegria em estar em presença de tão sublime criatura, respondeu:
-A alegria, irmão, é nossa de poder compartilhar, por um pouco que seja, com o senhor, a quem respeitamos e cujas ordens, acatamos com amor, porque sabemos, todas são para o nosso próprio bem.
-Aqui não damos ordens, mas conselhos e direccionamentos, os que são adequados às necessidades de cada um.
-Para nós, porém, que entendemos a intenção mais profunda de cada um, os recebemos como ordens e nos esforçamos para cumpri-las da melhor forma que nos é possível.
-Pois bem, mandei chamá-los porque tenho para vocês, não uma ordem nem um direccionamento, mas uma autorização a dar a nosso irmão Thomas, da qual a senhora também fará parte.
Calado até aquele instante, Thomas, feliz com a surpresa, exclamou, indagando:
-Posso visitar meu filho!?
-Foi para isso que mandei chamá-lo!
Tenho tido notícias de como vem se portando no desempenho do seu trabalho, do bem que tem feito às crianças sob sua responsabilidade e compreendemos que já merece ter o que tanto tem solicitado.
Antes que ele respondesse, Stella tomou:
-Pelo que compreendi, devo acompanhá-lo!
-Sim, irmã! A sua companhia será muito importante não só junto de Thomas, mas junto de seu filho.
Estamos confiando na modificação desse nosso irmão, mas como não podemos prever o que poderá acontecer, a senhora os ajudará a ambos e também terá a alegria de ver seu filho.
- Fico-lhe muito grata!
Ajudarei no que me for possível, mas estou confiando em Thomas.
Eu o conheço bem, tantas vezes me empenhei para que aceitasse o filho e nunca consegui.
Agora, porém, como esse pedido partiu dele próprio por compreender o quanto errou, acredito que esse encontro será benéfico aos dois.
-E se o meu filho não me perdoar? - indagou Thomas.
-É um risco que deve correr, depois de tudo o que fez, mas acredito que ele o entenderá, sobretudo pela vida que está vivendo agora.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 81199
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 10, 2018 8:32 pm

-O que quer dizer com isso, irmão? - indagou Stella.
-É uma surpresa que lhes reservamos!
-Quando podemos partir e quanto podemos permanecer lá?
-Quanto à partida deixo para que ambos decidam sozinhos, sem que haja prejuízos para as actividades que desenvolvem.
Em relação à permanência que terão lá, lhes darei dois dias.
Terão duas noites para o reencontro que tanto Thomas deseja, e, durante o dia, poderão se regozijar com a companhia dos que encontrarão lá.
-Quem encontraremos?
-Nada devo adiantar!
As boas notícias sempre nos trazem mais alegrias como surpresas.
-Então teremos uma surpresa boa?
-Se não o fosse, não os deixaria ir sem estarem prevenidos.
-Está bem, irmão! Se não tem mais nenhuma recomendação a nos fazer, vamos nos retirar para o nosso repouso e pensarmos na melhor ocasião de partir.
-Por mim estão liberados e podem ir quando lhes aprouver.
-Iremos o mais rápido que pudermos, para que meu Espírito se apazigue de remorsos! - expressou- -se Thomas.
Os dois retiraram-se da presença do mentor, e o que Thomas sentia antes em ansiedade e desejo de logo estar em presença do filho, se transformara em receio.
Vendo-o tão preocupado, Stella falou-lhe, advertindo-o:
-Não era o que tanto esperava?
Por que agora a preocupação?
-Por que não sei como serei recebido e tenho medo de ter uma decepção.
-Você diz isso porque não conhece William, e sabe por quê!
DURANTE OS DIAS QUE antecederam a ida deles à Terra, Thomas não teve outro pensamento.
Preparou-se mentalmente para o encontro com o filho, orou muito pedindo a Deus que o auxiliasse a ser bem-sucedido, mas pensou muito na possibilidade de não obter o seu perdão.
Se assim ocorresse, pensava ele, William tinha razão.
Sofrera o seu desprezo e não era agora porque surgiria a sua frente pedindo perdão que ele deveria conceder-lhe.
Todavia, esperara bastante por aquele momento, teria de enfrentá-lo fosse qual fosse o resultado.
Stella fez-lhe companhia nesses dias, orientando-o como deveria proceder para preparar-se, dando-lhe coragem e estimulando-o, mas também preparando-o caso não conseguisse o que tanto desejava.
Ela não acreditava que William pudesse negar o perdão ao pai que humildemente lho pediria, mas precisavam partir pensando também nessa possibilidade.
Ninguém mais os acompanharia.
Stella sabia como proceder para ir à Terra, e tratava-se de uma situação extremamente familiar.
Ela orientaria Thomas e chegariam em paz, sem maiores problemas.
Quando Stella entendeu que estavam preparados, a viagem foi empreendida.
Ao chegarem, o dia estava fechando suas claridades, e as névoas da noite em pouco tempo se estenderiam sobre a Terra, facilitando-lhes a tarefa que haviam ido realizar.
Entrando na casa, tiveram uma surpresa.
Uma criança brincava na sala aos cuidados de uma bela jovem a quem ela chamava de mamãe.
Um olhou para o outro, ao mesmo tempo em que Thomas perguntou a Stella:
-Será que nosso filho não mora mais aqui?
Quem são essa moça e a criança?
-Imagino que seja a surpresa que o mentor disse que teríamos.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 81199
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 10, 2018 8:32 pm

-Onde estará William?
-Não deve ter voltado do trabalho!
Aguardemos mais um pouco.
Enquanto esperavam, Stella foi à cozinha para ver se ainda encontrava Ellen, e de facto, lá estava ela, mais envelhecida, mas muito forte ainda, preparando o jantar.
Stella aproximou-se, deu-lhe um beijo.
Ela parou o que fazia e ficou pensando no que poderia ter sido aquela sensação tão agradável que a envolvera.
Deixando a cozinha, ela voltou à sala e surpreendeu o filho entrando em casa.
Ele beijou a jovem, e tirando o paletó, colocou-se ao chão para brincar com a criança, que o recebeu feliz.
-William casou-se! - exclamou Thomas.
Essa criança é seu filho!
-Nosso neto, querido!
Veja que cena mais bonita!
Veja o carinho com que brinca com seu filhinho!
-Era assim que deveria ter sido se você tivesse permanecido ao meu lado, mas tudo saiu contrário às minhas esperanças.
-Mesmo que a vida não seja aquela que esperamos, a que gostaríamos de viver, sobretudo quando é levado de nós um ente muito querido, temos que nos adaptar â nova situação.
Mesmo com tristeza, com o coração sangrando de dor, temos que continuar vivendo, ainda mais quando há outros que dependem de nós, principalmente quando esse alguém é uma criança que acabou de perder a mãe.
-Não me lembre mais disso, Stella!
Eu não preciso lembrá-lo de nada, que você traz na própria consciência o que fez.
-Pedirei perdão a William e ficarei bem comigo mesmo.
Ele me perdoará!
As horas passaram e o repouso chegou.
Thomas tomou assento na mesma poltrona em que gostava de ficar enquanto encarnado e esperou em preces.
Stella fazia-lhe companhia e ambos aguardavam o momento em que William deixasse o corpo e chegasse à sala.
Ela se propusera a se apresentar a ele em primeiro lugar e para isso foi esperá-lo à porta de seu quarto.
Logo ele surgiu, surpreendendo-se:
-A senhora aqui, mamãe?
Há quanto tempo não nos vemos!
-De facto, filhó, não tenho podido vir, mas estou sempre com o pensamento ligado a você, mas hoje, ao chegar, tive uma surpresa que me deixou muito feliz!
-Sei o que é!
Casei-me com uma jovem que amo e que também me ama, e já temos um filhinho.
-Fiquei feliz ao vê-lo chegar e pôr-se ao chão para brincar com ele.
-Pretendo criar meu filho com muito amor.
Não quero que ele sofra o que eu sofri por causa de papai.
-A situação era outra, filho.
Se eu também tivesse podido ficar com você, tudo teria sido diferente.
Mas quero lhe dizer que não vim só.
Seu pai veio comigo.
Ele tem sofrido muito desde que reconheceu o mal que lhe fez, e só terá paz depois que lhe pedir perdão.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 81199
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 10, 2018 8:32 pm

-Onde ele está?
-Na sala, sentado na sua antiga poltrona, orando para que você lhe conceda o perdão que deseja pedir-lhe.
-Vamos até ele!
Chegando em frente ao pai que, de olhos fechados, orava, William chamou-o:
-Papai!
Thomas abriu os olhos, e, deparando-se com o filho, começou a chorar.
-Este é um momento de alegria, papai!
Por que as lágrimas?
-Tenho sofrido muito, filho!
Reconheci o quanto eu o fiz sofrer e desde então hão tenho mais paz.
Aguardava este momento para ajoelhar-me a seus pés e pedir-lhe perdão.
Enquanto falava ele foi se arrojando ao chão, mas William impediu-o.
-Não é preciso nada disso, papai!
A felicidade que vivo agora me fez esquecer o que passei.
Hoje tenho um filho que crio com muito amor e sou feliz.
O que passei serviu-me de lição para que eu soubesse tratar meu filho.
Tenho sido bem-sucedido na minha profissão, a mesma que o senhor desenvolveu aqui, e nada mais desejo da vida.
Se sofri, com certeza eu mereci.
-Você não merecia, filho, eu é que fui impiedoso.
-Não falemos mais nisso e dê-me um abraço.
Não para pedir-me perdão que nada tenho para perdoá-lo, mas um abraço de felicidade, a que eu sinto e a que o senhor deve sentir também.
Tê-lo aqui connosco, nessa reunião familiar, é uma alegria muito grande.
-O seu coração, filho, é nobre, e eu não o conhecia.
Quanto poderia ter aprendido com você e me regozijado com a sua companhia!
Sei que agora é tarde, e o tempo perdido não se recupera.
Mas, se Deus me permitir, ainda teremos, um dia, uma nova convivência juntos, numa vida de amizade, de amor e de fraternidade, para que você possa me ajudar a que meus erros sejam desfeitos e as imperfeições que ainda trago em mim sejam transformadas em virtudes.
-Não se humilhe assim, papai!
Veja que estou feliz com este encontro, e nós, juntos de mamãe, devemos desfrutar desse momento de felicidade, sem recordações tristes.
Esqueçamo-nos do passado!
Todos nós erramos, mas felizes devemos nos considerar quando reconhecemos os nossos erros, porque deles retiramos lições para nossa vida.
-Você é nobre, seus sentimentos são elevados e você merece, agora, toda a felicidade do mundo - falou Stella.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 81199
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 10, 2018 8:33 pm

-Eu gostaria, filho, - tomou Thomas - que você, ao despertar, levasse a alegria desse momento, desta união de família e esquecesse de vez o que já sofreu.
Não digo que eu, ao partir daqui, vá esquecer o que lhe fiz, mas levarei a alegria de ter tido o seu perdão, perdão esse que eu não merecia, mas a sua nobreza de carácter mo concedeu.
-Já lhe pedi que esquecesse o que passou.
Abracemo-nos demonstrando o amor que sentimos um pelo outro, para que eu desperte revigorado e estimulado a prosseguir a minha vida, até quando Deus me permitir, e espero que me permita ficar ainda muito tempo, para encaminhar meu filho com muito amor.
Os três abraçaram-se e Thomas não conseguiu conter as lágrimas.
Enquanto se abraçavam, Ellen-espírito, que também havia se desprendido do corpo pelo sono, surgiu na sala.
Stella vendo-a, chamou-a:
-Venha, minha querida, partilhar desse momento de felicidade que estamos vivendo, porque você faz parte da nossa família e é responsável pela nobreza de carácter do filho que criou para nós.
Ellen aproximou-se, Thomas também abraçou-a pedindo-lhe perdão por tudo o que havia feito, mas no seu íntimo era um perdão que se referia não somente àquela existência que acabara de viver, mas a que ela fora também sua mãe e ele tanto errara.
De nada ela se lembrava nem William, mas Thomas e Stella sabiam bem o que ela significara para eles em tempos idos, como também o que fizera para ambos recentemente.
Não mais como mãe, mas como a criada dedicada que o fora para Thomas e muito mais que mãe para William.

Fim

WANDA ALBERTINI CANUTTI
nasceu no ano de 1932, em Araraquara (SP), onde actuou como professora.
Levada a um centro espírita por conta de algumas influências espirituais, educou sua mediunidade dando início ao trabalho da psicofonia e da fluidoterapia.
Dezanove anos depois, recebeu do espírito Eça de Queiroz a informação de que deveria se preparar, pois em breve passaria a trabalhar com psicografia.
Ligado a Wanda por laços de afectividade, o grande escritor português ditou a ela diversos livros, todos publicados pela Editora EME, dentre eles:
O amor sempre vence, Renascendo do ódio, Conquistando virtudes — combatendo defeitos, o best-seller Getúlio Vargas em dois mundos e A saga de dois irmãos.

§.§.§- Ave sem Ninho
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 81199
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Conteúdo patrocinado


Conteúdo patrocinado


Voltar ao Topo Ir em baixo

Página 5 de 5 Anterior  1, 2, 3, 4, 5

Voltar ao Topo

- Tópicos similares

 
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum