Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

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Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 01, 2018 8:15 pm

Vá à procura deles que, com certeza, o aguardam com muito amor e ficarão muito tristes quando souberem o que anda fazendo.
-Quem é o senhor e por que me fala assim?
-Porque não desejo vê-lo sofrer, mas feliz, sem ódio nem desejo de vingança no coração.
Você certamente nunca pensou no que vou lhe dizer, mas o ódio acorrenta corações, tira-lhes a liberdade e a paz, e não vale a pena.
Pensando que, com nossa atitude, ocasionamos sofrimento àqueles que nos prejudicaram, estaremos arrebanhando sofrimentos para nós mesmos.
Saia daqui, abandone essa empreitada infeliz, procure os seus, regozije-se na companhia deles e desfrute de todo o amor que eles puderem lhe dar, dispensando-lhes, também, o seu amor.
-Não posso!
Prometi vingança e a farei!
-É uma pena que assim pense, porque a vingança, depois de praticada, só traz um sabor muito amargo àqueles que a praticaram e a infelicidade continua, porém de modo diferente.
Vingança nunca trouxe felicidade a ninguém, pelo contrário, depois de consumada traz um vazio muito grande àquele que a praticou, além do remorso que corroerá o seu íntimo quando compreender o porquê de ter sofrido nas mãos dele.
Não sabemos, mas você deveria estar ressarcindo, naquela oportunidade, atitudes infelizes tomadas por você mesmo e que, se aceitar com resignação, o liberarão de muitos débitos, mas da forma como vem procedendo, se comprometerá ainda mais.
Até então só Juvenal falava, mas Stella, comovendo- -se também com o sofrimento daquele infeliz e desejando ajudá-lo a mudar de atitude, falou-lhe:
-Veja, irmão, você que tem acompanhado Thomas, o quanto ele se sente infeliz.
Perdeu a esposa que amava, não consegue ver o filho com os olhos do coração, e não tem paz nem alegria.
Não precisa que fique com ele para fazê-lo sofrer, que ele, por si só, por seus sentimentos, pelo seu modo de ser, já sofre bastante.
Não se comprometa mais com o que não vale a pena.
Retire-se desta empreitada infeliz e leve também os seus companheiros que se encontram na mesma situação de cobrança.
-Não posso responder pelos outros!
-Está bem! - retornou Juvenal.
Se você conseguir se libertar e partir, já se dê por feliz, que, assim como estamos conversando com você, fazendo-o ver o erro no qual está incorrendo, nós ajudaremos os outros também.
-Para onde irei?
-Ore a Deus, peça a Ele que o leve para longe daqui, a um lugar onde possa desfrutar de paz e ter condições de reencontrar os seus.
-Deus, que já me fez sofrer muito, não me atenderá!
-Se você pedir com fervor, acreditando que pode ser atendido, Ele o atenderá.
Aquele irmão infeliz já estava convencido de que poderia ter uma vida melhor, mais digna, mais feliz, e Juvenal, a esposa e Stella, esperavam-no partir.
Ele pensou mais um pouco diante dos olhos dos três, e falou-lhes:
-Se tanto me ajudaram fazendo-me compreender a inutilidade do meu trabalho e os compromissos que poderei assumir se prosseguir, ajudem-me agora a partir.
Que eu saia daqui tendo a certeza de que não estarei perdido, sem rumo, sem nenhum prognóstico de uma vida melhor.
-Deus não desampara nenhum de Seus filhos quando estão bem intencionados, mas auxilia-os para que se refaçam e sejam mais felizes, mais esperançosos e mais úteis.
Você não ficará ao desamparo, mas para que não tenha nenhum receio, faremos em conjunto uma prece pedindo auxílio para você.
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Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 01, 2018 8:15 pm

Eleve também o seu pensamento a Deus e acompanhe o nosso pedido, que logo teremos algum irmão abnegado aqui, que o encaminhará a um lugar de muito repouso e paz, para que se refaça desse período em que esteve tão apegado ao seu desejo de vingança.
Juvenal, acompanhado pela esposa, por Stella e pelo próprio irmão infeliz, fez uma ardente prece rogando ao Pai para que recolhesse aquela ovelha temporariamente afastada do seu rebanho, a fim de que se juntasse às outras que são felizes e vivem em segurança aos cuidados do Grande Pastor.
Ao terminarem, duas entidades se apresentaram para levá-lo, dando-lhes a certeza de que estavam conseguindo o que desejavam, deixando Thomas em paz e em condições de pensar melhor em si mesmo, sem nenhuma influência perniciosa quando conseguissem também que todos os outros fossem retirados.
Juvenal abraçou o irmão que partiria e percebeu que dos olhos dele, lágrimas se derramavam demonstrando a sua felicidade e a sua gratidão.
Os dois partiram levando-o, dando-lhes a esperança de que em pouco tempo conseguiriam o que tanto desejavam.
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Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 01, 2018 8:15 pm

5 - NOVA TENTATIVA
QUANDO AQUELE EPISÓDIO FICOU terminado, eles olharam ao redor, retornaram ao quarto de Thomas mas não puderam ver nenhum daqueles que ali se encontravam.
Todos ficaram amedrontados e se esconderam, esperando o perigo passar para se fazerem presentes novamente e continuarem a sua acção.
Não desistiriam facilmente apenas porque foram intimidados, e os três que ali estavam em auxílio também os convenceriam quando eles menos esperassem.
A primeira tentativa fora profícua, e os outros também partiriam, não temerosos mas felizes por terem encontrado um novo caminho de paz e realizações mais nobres.
Aquela noite terminou com bom resultado.
Na seguinte, ou mesmo durante o dia, se houvesse oportunidade, se apresentariam para convencer algum outro ou, quem sabe, mais que um de uma vez, dependendo das circunstâncias.
Aquele dia Stella passou junto do filho, regozijando-se em sua companhia.
Nova noite chegou e eles tentariam um outro trabalho.
Thomas, ainda trazendo a lembrança do "pesadelo" que tivera, receava deitar-se para dormir, mas mesmo relutando contra o sono, foi vencido por ele, e seu Espírito, desprendendo-se, como que desconfiado pela lembrança que trazia, olhava de um lado a outro, temendo deixar o quarto.
Juvenal que queria impedir uma nova situação difícil, aproximou-se e, dirigindo-lhe a palavra, falou:
-Não tenha receio, eu o protegerei!
-Quem é o senhor?
-Alguém que deseja ajudá-lo!
Venha comigo que iremos conversar.
Os que desejavam abordá-lo, fazendo-o sofrer, recolheram-se a um canto, vendo Juvenal abordar Thomas.
Enquanto isso, Áurea e Stella apresentaram-se a eles, aproveitando assim melhor o tempo para o que pretendiam.
Mesmo que aquelas entidades infelizes continuassem no lar, aos poucos seriam convencidas, mas Thomas também seria trabalhado.
-Para onde me leva?
-A um lugar seguro onde possamos conversar sem que ninguém nos perturbe!
-Não estou entendendo!
-Logo entenderá!
Eu o ajudarei mas preciso que também nos ajude!
-Em que posso fazê-lo?
-Logo saberá, acompanhe-me!
Em pouco tempo os dois deixaram a casa e se dirigiram a um lugar tranquilo, diante da natureza aberta, sob um céu estrelado e uma lua brilhante, e Juvenal começou a falar:
I Há poucos dias estou em seu lar e tenho observado o que se passa lá dentro.
Vim para realizar um trabalho e fui surpreendido por aquelas entidades infelizes que ali se encontram, desejando destruí-lo por vingança pelo que já sofreram em suas mãos.
-Não me lembro de que os tenha feito sofrer!
-Ouvimos o que um deles lhe falou a noite passada e já o convencemos a partir.
Aquele não o importunará mais, porém, há outros que pretendem prejudicá-lo mas nós estamos atentos e os auxiliaremos também.
-Qual o seu interesse em me ajudar se não o conheço?
-O meu interesse é muito maior e mais amplo do que possa imaginar e logo saberá qual é!
Existe um ser que tem se preocupado com você e sofrido por isso.
Um ser que o amou muito e o ama ainda e não deseja vê-lo trilhar um caminho que poderá ser de muito sofrimento, se você não modificar seus sentimentos.
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Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 01, 2018 8:16 pm

-Já sei de quem fala!
Só pode ser da minha querida Stella.
Sei também a que se refere, mas o que ela deseja está além das minhas forças.
-E qual é o limite dessas forças, que sabe, vai além?
Qual o limite de um sentimento de amor, ou qual o limite de um sentimento de repúdio?
Nossos limites nós mesmos os impomos.
Quanto mais os ultrapassarmos nos sentimentos elevados como o amor, maior será nosso mérito, porque o amor nos leva a sacrifícios em favor dos que amamos.
E num âmbito bem mais amplo, leva- nos a acções nobres e meritórias diante de Deus, porque o estendemos a muitos, sobretudo aos necessitados e não o restringimos apenas aos que nos rodeiam.
-O senhor está levando muito longe os seus conceitos.
-Porque vejo que os bons sentimentos não devem
ter limites nem medidas.
Veja você que falo do amor!
Imagine agora, se falar dos outros sentimentos, daqueles contrários aos preceitos de Jesus, dos que nos comprometem, sobretudo quando os direccionamos a um ser que depende de nós, um ser a quem demos vida como resultado do mais profundo sentimento de amor.
-Não quero ouvir nada sobre esse assunto que só a mim pertence!
-Podemos, para lhe mostrar a responsabilidade que assumimos, comparar o que faz com seu filho ao que fez àquele que lhe lembrou da sua história a noite passada.
Você diz que não se lembra.
Há quanto tempo aqueles acontecimentos devem ter se dado?
Você não sabe, mas acredito que tenha sido há muito tempo atrás em uma das suas encarnações que pode nem ter sido a última.
Veja que o ódio, o rancor, ultrapassam as barreiras do corpo físico e permanecem no espírito porque os sentimentos a ele pertencem.
E dos sentimentos contrários ao amor, ao perdão, gera o desejo de vingança, ocasionando sofrimentos tanto ao que se vê preso àquele que odeia desejando prejudicá-lo, como ao que sofre a acção, pelo que lhe fez.
Nada disso haveria se cada um agisse, em relação ao seu irmão em Cristo, com sentimentos mais nobres, mais elevados, mais piedosos, para que não granjeasse inimigos, mas amigos.
-Não estou interessado em ouvi-lo.
Dos meus sentimentos cuido eu e ninguém tem o direito de interferir.
-De facto, não temos o direito de interferir mas temos o dever de abrir os olhos daqueles que estão semeando sentimentos inadequados entre seus irmãos.
Temos o dever de ajudar um irmão nosso a não cair no abismo dos compromissos, dos quais não sabemos a profundidade mas sabemos a extensão do sofrimento que causa.
Ainda mais - estamos aqui para abrir-lhe os olhos em relação a seu filho, que não deve sofrer o seu desprezo por uma culpa que lhe impôs, de acordo com o seu julgamento, sem analisar a realidade.
A vida nem sempre é aquela que desejamos viver, mas temos de aceitá-la e procurar conduzi-la da melhor forma possível para não desperdiçarmos uma encarnação que é a oportunidade maior que temos como espírito imortal que somos.
Deus no-la concede porque quer Seus filhos todos redimidos dos males que um dia possam ter cometido, e não para que continuem se comprometendo mais.
Não estou só neste trabalho que estamos desenvolvendo em seu lar.
Disse-lhe que alguém sofre muito pelo que tem feito a seu filho e já compreendeu que é a sua esposa.
Se a amava como o diz, por que a deixa sofrer?
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Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 01, 2018 8:16 pm

Onde ela se encontra, não tem paz, tanto por você quanto por ver o filho desprezado.
Que sentimento você está deixando crescer no coração daquela criança?
Ele ainda nada entende da vida mas sente o seu desprezo.
Quando ele crescer mais, como viverão?
O que lhe proporcionará em oportunidades se o despreza, se o ignora?
Que contas prestará a Deus que lhe confiou esse filho para que dele cuidasse e orientasse seus passos sempre no caminho do bem, do amor?
-Nunca pensei nisso!
-Pois deveria pensar!
Cada criança que vem a um lar, não chega por acaso, mas é resultado de todo um plano para que seja ajudada a cumprir a sua encarnação da melhor forma possível, sob o apoio do amor dos pais, da sua orientação, porque ele também, como nós, é um filho de Deus em busca de evolução.
Se ele está no nosso lar é porque fomos os escolhidos para isso ou ele mesmo nos escolheu.
Ou diante de compromissos do passado que precisam ser ressarcidos, ou esperando a nossa orientação para que ressarça do modo mais nobre possível os que traz com outras pessoas, aprimorando o seu espírito e liberando-se de débitos.
Veja a nossa responsabilidade com cada ser que nasce no nosso lar!
O trabalho é difícil, mas se o realizarmos com amor, o amor que um pai deve dedicar a seu filho, torna-se não só mais fácil mas muito mais agradável, porque ele também tem muito a nos proporcionar.
É uma troca.
- De tudo o que o senhor falou o amor deve vir em primeiro lugar.
No entanto, o amor não se impõe a ninguém, ele deve nascer naturalmente como resultado da paz, da alegria, do bem-estar que se sente junto da pessoa amada, e, acima de tudo, das afinidades, e eu não sinto afinidade, não sinto amor pelo meu filho.
Sinto, ao contrário, uma sensação muito desagradável de repulsa, de rejeição, porque o culpo pela partida da minha querida Stella.
-Se o senhor pensasse um pouco em Deus, na sua magnanimidade, na sua justiça e no seu amor, olharia seu filho como a bênção que Ele lhe deixou no lugar daquela que deveria partir.
Temos o nosso tempo na Terra limitado dentro de uma programação realizada de acordo com as necessidades de resgate de cada um, não só do espírito que parte mas dos que ficam também.
Se ela o deixou foi porque o deveria, e se o senhor sofre a sua partida, também deve estar resgatando débitos que seu espírito traz.
O bebé que ficou foi para ajudá-lo a transpor esse período, para se verificar a sua capacidade de conduzi-lo pela vida, sem a esposa, dedicando-lhe muito amor, preenchendo a tristeza dos seus dias com a alegria da sua presença.
E dispensar a ele também, que veio ao -mundo sem ter o carinho da mãe, todo o seu amor, para que sinta menos a falta que ela lhe faz.
Ao invés disso o que aconteceu? O senhor, além de ignorá-lo não gosta dele, e entregou a outrem, uma pobre desconhecida, mas que o ama muito, as responsabilidades que eram suas.
E perfeitamente compreensível que tenha alguém para cuidar de seu filho, e que esse alguém o ame, mas que esse amor não substitua o seu.
O amor que um pai deve dedicar a um filho não deve ser substituído por nada.
-Já tenho falado a mim mesmo o que está me dizendo.
Procuro, às vezes, olhar meu filho com os olhos do coração, mas nada sinto.
É como se ele fosse um estranho para mim.
-Por sua própria culpa, pelos próprios sentimentos que lhe dedica, pela frieza com que o tem tratado.
Mas tudo isso pode se reverter se se empenhar, se o tiver junto de si, se se interessar pelos seus brinquedos, se se esforçar para fazer-lhe um carinho, para ouvir a sua fala, para ensiná-lo a chamá-lo de papai.
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Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 02, 2018 8:19 pm

Você nunca experimentou quão agradável e terno é ouvir um filho nos chamar de papai, nos abraçar e dizer que nos ama.
Solicitar-nos sempre para nos contar ou mostrar alguma coisa.
A sua vida seria outra, mais feliz, mais alegre, mais agradável e mais útil.
Todo pai não vê a hora de voltar para casa para poder brincar com o filho, ver o seu sorriso, esquecendo, junto dele, as preocupações que a vida impõe aos adultos, tornando seus dias mais suaves e amenos.
Porém, ao invés disso, o que faz de seus dias?
Horas intermináveis de tristeza, de aborrecimento e de irritação, dando ensejo a todos aqueles que se encontram no seu lar em cobrança de dívidas do passado, de se aproximar, de o atormentar, porque querem levá-lo ao suicídio, fazendo crer que para você nada mais é possível.
Que somente a morte o libertaria de uma vida de tanto tormento interior.
-Como o senhor sabe que tenho pensado em também me retirar da vida para encontrar-me com minha querida Stella?
-Não é difícil, basta acompanhar aqueles que lá estão, porque essa sugestão parte deles.
Primeiro eles o atormentam, depois apresentam o suicídio como única solução para você, porque querem vê-lo sofrer ainda mais.
Eles sabem muito bem o que o suicídio representa na vida de um espírito.
Você jamais se encontrará com Stella porque ela está numa faixa evolutiva diferente da sua, e àqueles que se retiram da vida pelas próprias mãos, desprezando os desígnios de Deus, um lugar muito triste e de muito sofrimento lhes está reservado.
O suicídio é a maior infracção que cometemos contra nós mesmos e contra Deus, nosso Pai, que nos deu a vida como oportunidade evolutiva, pelo aprimoramento, pelo ressarcimento de débitos.
Suponho que não queira uma vida dessas para o senhor.
Eles o fazem pensar que se encontrará com Stella, porém, mais se afastará dela.
Um encontro com aquela que foi sua esposa pode lhe ser proporcionado, depois da sua partida da Terra, se você viver pautando suas acções conforme Jesus ensinou, cumprindo as suas responsabilidades de pai, amando seu filho, cumprindo suas obrigações para com ele, aprimorando o seu espírito pelas atitudes nobres, resultado das virtudes que deve ter incorporadas ao espírito.
Nada que fuja desse preceito o aproxima de Stella.
Se a ama como diz e deseja um dia estar com ela, comece por modificar-se, que ela mesma o ajudará porque também o ama, mas ama muito mais ao filho que deixou sem poder criá-lo e sabe o quanto ele precisa do pai que o recusa.
Thomas nada disse depois de ouvir estas palavras, mas Juvenal completou:
- Bem, o que eu poderia lhe dizer para abrir-lhe os olhos e o coração, já o fiz, mas não posso modificá-lo à força porque esse é um trabalho que cabe somente a si mesmo.
O ENTENDENDO QUE JÁ HAVIA lhe falado o suficiente para que ele pudesse pensar e, quem sabe, chegar a alguma conclusão favorável ao filho e a si próprio, Juvenal convidou-o para retomar, dizendo:
-O dia começa a colocar suas primeiras claridades e devemos retornar.
Esclarecido você o foi.
Ao retornar ao corpo não terá a lembrança exacta do que conversamos, mas seu espírito guardará a essência de tudo o que lhe disse, para que possa reflectir nas próprias acções e começar a modificar-se.
No entanto, se de nada valeu esta nossa conversa, se nada irá mudar no seu coração, eu só tenho a lamentar, mas pelo menos cumpri o trabalho que me impus em ajuda a Stella que está muito preocupada.
-Onde está a minha querida Stella?
-Em seu lar, trabalhando para que seu filho tenha um pouco do seu amor.
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Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 02, 2018 8:19 pm

-Por que ela mesma não veio me falar?
-De que lhe adiantaria?
Ela já não esteve em seu lar falando-lhe, e de que adiantou?
Voltemos agora e, se quiser vê-la, falar-lhe, levar-lhe um pouco de alegria, ame seu filho.
-Vamos! - respondeu ele sem nenhum comentário.
Eles haviam se afastado do lar, mas em pouco tempo lá se encontravam novamente.
Stella estava ansiosa para saber o que haviam conversado e o que Juvenal havia conseguido.
Thomas, assim que entrou, sem nenhuma palavra, como se quisesse esconder-se de si próprio e se libertar daquela situação constrangedora e incómoda que lhe impuseram, retomou imediatamente o corpo, despertando um tanto ofegante e com uma sensação inexplicável de desagrado.
-Como Thomas se portou? - indagou Stella a Juvenal.
-Da forma como já o conhece!
Argumentei, falei muito, mas tenho para comigo que de nada adiantou.
Ele parece ter o coração fechado para sentimentos mais ternos, e fechou nele a sua lembrança que o faz ainda viver e não admite que ninguém mais penetre nele, nem mesmo o filho.
-Q senhor não lhe falou que com essa atitude ele apenas me afasta ainda mais dele?
-Falei tudo o que o podia e devia, usei de todos os argumentos, e houve um momento em que parecia que iria convencê-lo, mas depois reagiu novamente.
Entretanto, deixei para ele muitos elementos de reflexão que espero, possam lhe trazer algum bom resultado.
Devemos aguardar!
E aqui, o que houve durante a nossa ausência?
-Tentamos falar aos que restaram na casa.
Dois deles se esconderam mas um nos ouviu, compreendeu nossa boa intenção e prometeu retirar-se mas ainda não o fez.
Veja, é aquele que se encontra ali no canto do quarto, pensativo.
-Vou lhe falar! - exclamou Juvenal, dirigindo-se até ele.
-Então, amigo, como se encontra?
Levantando os olhos do chão e retornando dos seus pensamentos, ele respondeu:
-Muito mal!
-Ora, por quê? Se estiver precisando de ajuda, estamos prontos para isso!
-Preciso criar coragem para partir.
Compreendi hoje que de nada adianta ficar aqui, pois, além de estar perdendo um tempo precioso que poderia utilizar em meu próprio benefício, teremos nosso trabalho nulificado por vocês que desejam ajudar Thomas.
-O irmão está enganado!
Aqui estamos em auxílio a todos vocês para que se libertem dessa empreitada infeliz que se impuseram.
Sabemos que devem ter sofrido nas mãos dele, em vidas passadas, e não devem sofrer mais.
Um dia todos estarão redimidos diante de Deus, tanto você quanto ele; por que, então, retardar esse momento?
Seja esperto e procure a sua libertação o mais rápido que puder.
Deixe-o cumprir a sua vida de encarnado que não é nem será fácil, mesmo que não esteja mais aqui e afaste-se.
Como espírito liberto do corpo suas possibilidades são maiores.
Faça o seu aprendizado, estude, trabalhe, para se redimir sem se comprometer mais, e, um dia, quando retornar à Terra, o faça sem trazer tantos compromissos.
Você sabe que os compromissos assumidos ficam marcados no espírito e, para desfazer essas marcas, muito sofrimento terá de passar.
Parta sem demora que Thomas também tem suas marcas para desfazer, e não será sua presença que o fará sofrer mais.
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Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 02, 2018 8:19 pm

Pelo contrário, quanto mais ele sofrer, ocasionado por vocês, mais rapidamente ressarcirá seus débitos, enquanto você se compromete.
Não pense mais em ninguém senão em você mesmo e parta para ser mais feliz.
-O senhor tem razão! Ajude-me a partir!
-Ore a Deus que Ele lhe dará forças e logo um emissário Seu estará aqui para levá-lo.
Basta pedir com o coração, desejando viver uma vida melhor, pautada pelos ensinamentos de Jesus, esquecendo mágoas e desejo de vingança.
-Eu o farei! Obrigado pela ajuda que me está dando!
-Que Deus o abençoe e abençoe a todos nós, dando- mos força para sempre reagir ao mal que ainda reside em nós mesmos.
JUVENAL ESTAVA CONSIDERANDO O trabalho que realizavam bastante eficaz.
Duas entidades infelizes que habitavam aquela casa, encontravam uma nova vida pela aceitação do aconselhamento e dos esclarecimentos que lhes transmitiam.
Duas ainda faltavam, porém, como haviam sido bem-sucedidos com as primeiras, o seriam também com elas, que encontrariam um novo caminho mais feliz, com objectivos mais elevados.
Depois, os três reunidos, Juvenal, Áurea e Stella, dariam prosseguimento ao trabalho já iniciado em Thomas que, liberado de influências negativas, poderia ser mais receptivo, aceitando William com amor.
Entretanto, precisavam contar com as próprias convicções de Thomas que sabemos, eram rígidas e consistentes dentro dos seus sentimentos em relação ao filho.
Trabalhariam muito, seria difícil, mas sempre havia uma esperança.
Quem sabe algum ponto vulnerável encontrassem que o abalaria, auxiliando-os na consecução dos seus objectivos, sobretudo dos de Stella, para ver o filho mais feliz e para que ela própria tivesse paz.
Em mais dois dias eles conseguiram que os outros dois aceitassem o auxílio que lhes ofereciam e se retiraram também, compreendendo que nenhuma vingança é benéfica a ninguém, mas uma fonte de grandes compromissos.
O três estavam felizes e agora poriam em prática os planos para convencer Thomas.
Enquanto esses acontecimentos se davam, Stella passava grande parte do seu dia junto de William, transmitindo-lhe alegria e paz.
A Ellen transmitia energias para revigorar-lhe o físico e o espírito, a fim de que estivesse sempre bem disposta para cumprir os afazeres domésticos e cuidar bem do seu filho.
Na primeira noite em que ficaram liberados dos que deixaram a casa, os três se reuniram para estabelecerem o seu plano de acção, dividindo as tarefas entre os três para que fossem felizes na sua consecução.
Juvenal esperou Thomas-espírito voltar para o despertar na manhã e o interceptou à sua chegada, antes dele retomar o corpo.
Eles o haviam deixado sair em liberdade enquanto conversavam, mas, ao seu retorno, deveriam começar a agir .
Vendo-o, Thomas surpreendeu-se, exclamando:
-O senhor novamente!
-Sim, eu mesmo, meu amigo!
-O que quer de mim?
-Apenas perguntar como foi o seu passeio, agora liberado de todas as entidades que o assediavam.
-Realmente não encontrei ninguém, nenhuma se aproximou de mim e estive em paz.
-Sei que nenhuma se aproximou de você porque promovemos a retirada delas desta casa, reintegrando-as a uma nova vida feliz.
Veja que até elas, trazendo tanto ódio no coração, tantas mágoas e desejo de vingança, atenderam ao nosso apelo, reconheceram que não estavam agindo bem, e que o que faziam viria em prejuízo delas mesmas.
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Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 02, 2018 8:19 pm

-O que o senhor quer dizer com essa explicação?
-Justamente o que entendeu!
Por enquanto eu posso dizer que você está muito mais ferrenho nos seus sentimentos que elas, que se comoveram às nossas palavras e agora estão sendo auxiliadas a se recomporem para uma vida mais feliz.
-Cada um tem suas próprias convicções e eu tenho as minhas.
-Que também serão abaladas, senão por nós, pela própria vida que é a melhor mestra de cada um de nós.
-Está me desejando mal?
-De forma alguma! Estou apenas prevenindo-o de que todos se modificam para melhor um dia; faz parte da lei a que todos nós estamos submetidos.
Os que são mais sensíveis e inteligentes abreviam o quanto podem esse momento, para deixarem de sofrer, para não assumirem tantos compromissos.
E apenas uma questão de tempo e de inteligência.
-O senhor é muito inconveniente!
-Apenas porque desejo abrir-lhe os olhos?
-Deixe-me em paz! - exclamou Thomas, retornando rapidamente ao corpo e despertando visivelmente transtornado.
Juvenal ainda ouviu quando ele murmurou de si para consigo:
-O que está acontecendo comigo que não tenho mais paz?
Sinto-me pressionado de todas as formas sem saber por quê!
Até quando terei que suportar esse mal-estar, essa impressão desagradável todas as manhãs quando desperto?
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Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 02, 2018 8:20 pm

6 - UM RECURSO ESTRANHO
THOMAS SE MOSTRAVA IRREDUTÍVEL e Juvenal já não tinha tanta certeza de que conseguiriam convencê-lo a receber o filho em seu coração.
Para profunda tristeza de Stella, ela também não via bons prognósticos, mas ainda era cedo para desistir.
Na noite seguinte ela mesma se apresentaria a ele pela primeira vez, desde que chegara, e alguma esperança a mais renascera entre eles.
-Nós ficaremos orando enquanto você estiver com ele, pedindo a Deus que lhe facilite esse contacto, que coloque em sua boca palavras que lhe toquem o coração, e que os resultados sejam um pouco melhores - manifestou-se Juvenal.
-Eu mesma, hoje, renunciarei à companhia terna e agradável de meu querido filho e ficarei o dia todo em preces.
Quando chegar a hora eu o esperarei e o abordarei com muita ternura, e, quem sabe, a mim ele ouça com mais disposição de ânimo.
-É o que desejamos, conquanto eu não esteja muito esperançoso diante do que já enfrentei junto dele, da dureza de seu coração, no qual não deixa ninguém penetrar.
Se você não conseguir, resta-nos duas alternativas: abandonar esta casa ou nos utilizarmos de recursos mais eficazes, não obstante chocantes para ele.
-Que recursos serão esses?
-No momento certo, se nada conseguir, saberá quais são.
Entretanto, nem mesmo esses que guardo como última tentativa, podem nos trazer bons resultados.
Tudo vai depender da sensibilidade dele, e, esta, temos tido provas de que não existe mais, se é que algum dia existiu.
-Thomas era diferente!
A vida transformou-o assim!
-O que não o exime de responsabilidades, porque precisamos saber enfrentar as adversidades, com espírito forte e vencê-las, mesmo que nos sejam cruéis e levem o ser que mais amamos.
A vida continua e nós temos que continuar com ela, procurando cumprir as nossas obrigações, superando os momentos difíceis sem inculpar ninguém pelos desígnios que Deus nos reserva, sobretudo um bebé que acaba de nascer e que deve ser a nossa alegria, o nosso conforto e alento, mesmo nas circunstâncias em que William nasceu.
-E muito difícil se ter, enquanto encarnado, o discernimento e o equilíbrio para enfrentar situações que nos abalam, que nos desgostam, como o senhor diz.
-Mas o esforço deve sempre fazer parte de todos, para que a própria vida não se torne cada vez mais cruel connosco.
Ela nos devolve tudo o que fazemos, tanto as acções boas como as más.
Veja a vida de Thomas como é, pelas suas próprias atitudes!
Mesmo sem a sua companhia ele poderia ser feliz junto do filho, consolando-se com a companhia dele, levando uma vida normal e proporcionando também, à criança, um crescimento sadio e equilibrado.
-Quem sabe ainda consigamos modificar toda essa situação e, ao partir, levemos a alegria de vê-lo modificado também.
-Estamos aqui para isso e, esta noite, a oportunidade é sua.
-Deus me inspirará!
Quando Thomas se recolheu ao seu quarto, à noite, mesmo antes da hora de se deitar, apenas para não ter que suportar a presença dos que ele supunha, o importunavam, Stella acompanhou-o.
Embora sabendo que ele não a ouviria, ela acercou-se dele, falando-lhe, como um recurso para que pensasse nela, a fim de preparar o momento que teriam.
Quando se deitou para dormir, ela ficou em preces para que ele a recebesse bem e fosse receptivo.
Algum tempo depois, percebendo que seu espírito se desprendia do corpo e encaminhava-se para fora do quarto, ela seguiu-o sem se mostrar ainda.
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Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 02, 2018 8:20 pm

Queria ver aonde ele iria.
Porém, como ele parou na sala sem saber que rumo tomar, ainda desconfiado, olhando de um lado para outro, ela apresentou-se diante dele sorrindo.
-Querido Thomas, aqui estou!
-Stella, minha querida, tenho sofrido tanto!
Venho sendo perseguido e não tenho mais paz.
-Ora, perseguido por quê?
O que você fez?
-Eu nada fiz e acusam-me!
-Esqueçamos isso, não há ninguém aqui, agora, para acusá-lo de nada.
-Tem aparecido para mim um senhor que tem me falado muito e tem sido até inconveniente, perturbando- me a paz.
-Quem é ele?
-Eu não sei!
-Mas eu sei quem é!
E Juvenal e sei também que não o persegue!
Ele acompanha-me porque aqui estamos em trabalho e ele está ajudando-me.
Você sabe o que pretendo e para isso voltei.
Não consigo ficar em paz sabendo o que ocorre nesta casa, que William está sofrendo, e o que irá sofrer ainda quando entender melhor.
-Por que não desfrutamos deste momento, da sua presença, sem tocarmos nesse assunto que me desgosta tanto?
-Desgosta-me muito mais a mim pelo meu filho!
E por ele eu lutarei muito.
Não quero vê-lo desprezado pelo pai.
-Se era para repetir o que já me falou, não precisava ter vindo.
Sabe que a amo, sinto muito a sua falta, mas não quero falar nesse assunto.
Se continuar, volto para o meu corpo.
-É lamentável que assim pense e que precisemos nos utilizar de recursos mais drásticos para fazê-lo compreender a sua obrigação de pai.
-O que fará?
-Juvenal saberá o que fazer e eu confio nele.
Lamento muito que assim tenha que ser, mas é necessário.
Vendo que qualquer palavra que pudesse dizer seria infrutífera, Stella despediu-se dele e foi ter com Juvenal e Áurea que a aguardavam, enquanto Thomas, aborrecido, voltou ao quarto e retomou o corpo.
O seu despertar não foi calmo.
Estava irritado e ofegante, sem saber o porquê, mas sentia que algo desagradável havia ocorrido embora de nada se lembrasse, julgando que despertava de algum pesadelo.
Enquanto isso Stella, sentindo-se decepcionada e até incapaz, ao encontrar-se com os companheiros, exclamou:
-Nada consegui!
Não consigo realizar esse trabalho a que me propus. Não devo estar preparada ainda!
-Não pense assim!
O nosso trabalho não depende só da nossa parte porque somos apenas emissores mas há o receptor.
Se Thomas, como receptor, recusa todo e qualquer apelo que lhe fazemos, não podemos nos considerar fracassados.
-Se eu tivesse argumentos mais convincentes, talvez o conseguisse, mas não posso esquecer-me de que o amo, penso em William e acabo por ficar sem acção diante da sua intransigência, da sua insensibilidade.
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Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 02, 2018 8:20 pm

Ele diz que me ama, fica feliz ao ver-me mas não permite que eu fale no nosso filho.
-Tenho muito mais experiência que você, já tenho trabalhado em situações muito mais difíceis, e tenho obtido os resultados desejados.
Não é por nossa inépcia, mas por ele.
Todavia, falta-nos o recurso extremo do qual lhe falei, e penso que nada mais nos resta senão utilizá-lo.
-Que recurso é esse e de que forma o convencerá?
-Ele nos trará uma grande oportunidade de sermos bem-sucedidos, porém, em se tratando de Thomas, já não tenho tanta certeza, mas é o último expediente que temos para utilizar, por agora.
-O senhor ainda não me falou do que se trata!
-Você o saberá, mas não agora.
Preciso tomar minhas providências para a próxima noite.
Não devemos perder mais tempo.
- O que fará?
-Deixarei você e Áurea e retornarei à nossa Colónia em busca de reforço e de um aparelhamento necessário ao que vamos realizar.
-Está me deixando curiosa!
-Despenda o seu dia junto de seu filho, desfrute da companhia dele que, à noite, estaremos de volta e você ficará sabendo o que faremos.
-Eu ficarei orando para que tudo dê certo, Juvenal! - expressou-se Áurea.
-Pois fiquem na paz de Deus que irei agora!
-Que Deus, nosso Pai, que nos auxilia sempre em nossas tarefas de amor, possa acompanhá-lo também e trazê-lo de volta na certeza de que conseguirá o que tanto Stella deseja para o bem-estar de seu filho, pela paz dela própria e para que Thomas também se modifique.
Assim que Áurea terminou estas palavras, Juvenal saiu da sala e desapareceu.
Ele possuía recursos suficientes para ir e vir quantas vezes fossem necessárias e trazer o que fosse preciso para a realização da noite.
Stella não sabia o que fariam mas confiava nos companheiros e nada indagou de Áurea.
Respeitou a discrição de Juvenal porque sabia, se ele nada quisera lhe dizer era porque tinha o seu motivo.
O dia passou e quando a noite já havia se posto cobrindo a Terra com suas sombras, Juvenal entrou na casa trazendo consigo um jovem que carregava um aparelho.
Ele foi apresentado à Stella que não o conhecia, e depois cumprimentou Áurea com um sorriso, demonstrando que não eram estranhos.
-Estou muito curiosa, Juvenal! - falou Stella.
-Sua curiosidade será satisfeita esta noite!
-Não estou entendendo nada!
O que farão com esse aparelho?
-No momento certo você o verá.
Agora vamos instalá-lo e deixar tudo em ordem para quando Thomas deixar o corpo!
-Ele terá uma surpresa! - exclamou Áurea.
-Tem fugido de tudo e prosseguido como deseja, mas esta noite lhe trará surpresas! - retrucou Juvenal.
Trouxemos tudo o que é necessário e esperamos que nada falhe.
O nosso jovem Lírius tem muita prática nesta espécie de trabalho.
-E nós, o que devemos fazer?
É indagou Stella.
-Ficará connosco, orará a Deus para que tenhamos sucesso e para que Thomas receba tudo o que vai ver, compreendendo a nossa intenção, sentindo a sua responsabilidade e modificando, depois, a sua atitude em relação ao filho.
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Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 02, 2018 8:20 pm

-Não pode me esclarecer um pouco mais?
-Por ora não! O momento será de surpresa para ele mas o será para você também, que acompanhará tudo o que ocorrer aqui, e do qual também fará parte.
Ore bastante, conforme lhe recomendei, que no momento certo será solicitada a fazer parte desse acontecimento, juntamente com Thomas, e o auxiliará também.
-Procurarei fazer a minha parte da melhor forma possível, para que os resultados sejam os que esperamos.
-Agora vamos preparar o de que precisamos.
Quando trouxermos Thomas a chamaremos para participar também.
Quando ele se desprendeu pelo sono e pretendia deixar o quarto, Juvenal abordou-o, aborrecendo-o.
-Querido amigo, aqui estamos ainda e hoje teremos um trabalho diferente.
-Ainda não compreendeu que nada conseguirá de mim?
Por que não desiste e não me deixa em paz?
-Depois desta noite, se tudo ficar concluído, eu o farei.
E a nossa última tentativa.
Se nem esta trouxer resultados satisfatórios, ficará entregue à sua própria sorte, ao caminho que você mesmo escolheu, com todas as responsabilidades e compromissos que vem assumindo e que se acumularão cada vez mais.
- Se, como diz, for só hoje, faça o que desejar fazer, fale o que desejar falar, que, se cumprir a sua palavra, estarei livre do senhor!
-Promete-lho que tudo faremos para completarmos o nosso trabalho nesta noite mesmo, mas não vai depender apenas de nós, mas de você também.
-Então será mais rápido do que esperai;
-É o que veremos! Venha comigo!
Juvenal levou-o a um recanto tranquilo da casa onde o aparelho fora instalado e Lírius a postos os esperava.
Áurea e Stella também estavam presentes, a pequena distância do aparelho, aguardando em preces, mas Thomas não as viu, pois teve a atenção despertada pelo aparelho e pelo jovem.
-O que farão comigo?
Esse aparelho é para torturas?
Pretende convencer-me à força impingindo-me sofrimentos para que eu faça o que o senhor deseja?
-De forma alguma!
O nosso trabalho é sempre realizado com muito amor, visando ao bem-estar e à felicidade de todos.
Jamais torturaríamos porque cada um tem o seu livre-arbítrio.
Nós mostramos o caminho mais adequado com a melhor das intenções, sem ferir nem magoar ninguém, apenas para abrir os olhos dos que os mantêm fechados, mas a decisão não nos cabe.
-Vamos logo! O que devo fazer?
-Sente-se aquilo pediu Juvenal, indicando-lhe uma cadeira diante do aparelho, cujas características eram totalmente desconhecidas de Thomas.
Se fôssemos comparar ao que conhecemos hoje, havia muita semelhança com uma televisão dos tempos modernos, pois uma grande tela tomava toda a sua parte da frente.
-O que é esse aparelho?
Para que serve?
O que deverei fazer?
-Já será instruído e, para isso, aqui está o nosso irmão Lírius que o orientará.
Além daquele aparelho um outro instrumento bem menor havia, à semelhança de um capacete com um fone de ouvidos, que Lírius tomou e colocou na cabeça de Thomas.
-Para que isso?
O que farão comigo?
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Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 02, 2018 8:20 pm

-Agora está tudo pronto!
O aparelho será ligado e o senhor verá algumas imagens reflectidas nele, e, em pouco tempo, com a ajuda desse aparelho que lhe coloquei na cabeça, reconhecerá cada um que aparecerá naquela tela, inclusive a si mesmo, embora com aparência diferente.
-Não estou entendendo nada!
-Logo entenderá, mas antes eleve seu pensamento a Deus e acompanhe-nos numa prece que faremos! - pediu Juvenal.
Thomas teve vontade de dizer que nada faria, que não estava mais habituado a orar desde que lhe levaram a esposa, mas não houve tempo.
Juvenal começou a proferir uma prece pedindo a Deus que os auxiliasse e que fossem bem-sucedidos.
Que Thomas se sentisse tocado com tudo o que veria, a fim de que pudesse reflectir um pouco na sua trajectória de espírito, com os compromissos assumidos e as promessas feitas.
Terminada a prece, ele fez um sinal a Lírius para ligar o aparelho.
Diante de Thomas apareceu uma comunidade antiga, que demonstrava construções e costumes diferentes.
Algumas pessoas se movimentavam, os trajes eram de tempos remotos.
Fixando-se no interior de uma residência, ele visualizou uma família patriarcal, cujo senhor era autoritário e fazia os filhos tremerem à sua presença e muito mais às suas palavras.
A imagem foi fixada naquela cena e Juvenal perguntou a Thomas se reconhecia alguém.
-Sinto que aquele senhor autoritário sou eu!
-Justamente!
Veja que estamos apresentando um tempo bastante longínquo e o senhor parece que pouco mudou.
Ainda é intransigente e tem o coração insensível!
-Não estou aqui para ouvir acusações!
-Prossigamos! - ordenou Juvenal a Lírius.
As pessoas naquela imagem começaram a se movimentar e apareceu, entre elas, uma senhora muito sofrida, que tudo levava a crer, fosse a esposa do intransigente senhor, pois chegava perto dele como uma escrava temendo as ordens do seu senhor.
-Quem é aquela? - Indagou Thomas.
-Pois olhe bem que a reconhecerá!
-É a minha Stella!
-Ela mesma! Agora nós vamos parar mais um pouco essa imagem para algumas reflexões.
Juvenal fez um sinal para que Stella se aproximasse, mas se postasse de modo a que não fosse vista por Thomas.
Quando ela estava já presente e observando também a tela um pouco mais atrás do marido, Juvenal retornou com a palavra, dizendo:
-Veja, Thomas, que ambos, você e Stella, já estiveram juntos naquela oportunidade e em muitas outras, e ainda você a faz sofrer.
-Eu a amei muito e nunca a fiz sofrer.
-Vejamos novamente o que está se apresentando à nossa frente.
Veja a submissão com que ela se apresenta a você, que, com certeza, tratava-a como uma criada, como uma procriadora de seus filhos, como uma serviçal do lar.
-Era obrigação de toda mulher, naquele tempo, ser submissa ao marido em tudo.
-Mas não era obrigação do marido maltratá-la como demonstra aquela imagem.
Stella, vendo a imagem e ouvindo os comentários, não acreditava ser aquela que se lhe apresentava à frente, mas como sabia que ali não estavam para brincadeiras mas para um trabalho sério e de grande importância, de nada duvidava.
-Vamos prosseguir! - pediu Juvenal a Lárius.
As imagens começaram a se movimentar e Thomas presenciou uma das cenas que eram frequentes em sua família naquele tempo.
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Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 02, 2018 8:21 pm

A esposa, diante dele, pediu algum dinheiro para o suprimento do lar e ele, esbravejando, empurrou-a para longe, derrubando-a ao chão.
Os filhos que estavam presentes, revoltaram-se e foram socorrer a mãe que tentava erguer-se.
Um deles, o mais destemido, aproximou-se do pai e, indignado, falou-lhe:
-O senhor não tem consideração por ninguém nesta casa.
Que não nos trate bem é triste para nós, mas podemos suportar, somos jovens e fortes, porém, fazer o que faz com mamãe é imperdoável.
Eu o odeio pelo que nos faz viver nesta casa!
Thomas daquela época não respondeu, porque, se o fizesse, faria o mesmo com o filho.
-Penso que já vimos o suficiente desta encarnação, pois deu para ter uma ideia de como o foi há alguns séculos atrás!
-O que farão agora?
-Demos-lhe elementos para que possa reflectir, mas não vamos parar por aqui.
Quero que veja as consequências dessas suas atitudes, quando, envelhecido e doente, passou para o mundo espiritual.
-E Stella?
-Pelos maus-tratos que teve de suportar, ela deixou-o muito antes.
A sua velhice foi triste e só.
Seus filhos, assim que tiveram condições, depois que a mãe os deixou, abandonaram-no e você, velho e doente, não teve quem lhe desse um remédio, um copo de água.
Morreu abandonado, como acontece a todos os que são intransigentes mesmo na época actual.
Mas vamos lhe mostrar um pouco do que passou depois, quando seu Espírito se viu liberto do corpo.
- Pode mostrar as cenas! - ordenou Juvenal a Lírius.
Ah, o que ele viu assustou-o sobremaneira.
Ele reconheceu-se porque assim estava preparado, mas a sua aparência era terrível.
A fisionomia dura e amedrontadora, as roupas rotas e os cabelos longos e desgrenhadas, em situação de grande sofrimento.
Muitas entidades daquelas que ele fizera sofrer, acompanhavam-no impingindo-lhe muito tormento.
Não lhe davam paz em lugar nenhum e havia momentos em que ele gritava pedindo socorro.
-Não quero ver mais nada! - gritou Thomas.
-Se assim se manifesta é porque se identificou com aquela entidade que se mostrou a você.
Foi bom, sentiu o que é o sofrimento depois da morte do corpo, quando ofendemos, prejudicamos e fazemos sofrer.
-Vocês estão sendo muito cruéis para comigo.
-Apenas mostrando-lhe como o foi, o que já fez e o que ainda poderá sofrer se não se modificar.
-Hoje eu sou diferente!
-Em alguns aspectos o é, porque o espírito progride.
Em outros, porém, ainda tem o coração insensível e intransigente.
Nós vamos interromper por hoje e faremos com que leve no íntimo, para quando acordar, a recordação desses factos, e os tenha na mente como um sonho para que possa reflectir, durante o seu dia, no que viu, a fim de que consigamos algum bom resultado de tudo o que fizemos.
-Não quero lembrar-me de nada!
-Nós não estamos aqui nesse empenho por nada.
Demos-lhe muitas oportunidades, fizemo-lo ver como tem procedido para com seu filho e de nada adiantou.
Agora terá que enfrentar essa nova fase do que faremos como último recurso para o que pretendemos.
Se de nada adiantar, o deixaremos entregue à sua sorte e às responsabilidades que assumir pela sua atitude, com todo o sofrimento que lhe acarretará depois.
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Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 03, 2018 9:06 pm

Ainda temos muito para lhe mostrar mas o faremos por partes para que de cada uma haja a reflexão.
-Quero voltar para o meu corpo.
-Já o liberaremos e fará o que quiser.
Entretanto aconselho-o, antes de retornar ao corpo, saia para um passeio, Stella poderá acompanhá-lo e juntos poderão reflectir, ela o ajudará!
-Não quero a companhia de ninguém, já estou cansado de ouvir sempre a mesma coisa.
-Pois faça o que desejar, a escolha é sua.
THOMAS FOI LIBERADO E, com muita pressa correu para o corpo, despertando, trazendo sensações desagradáveis.
O que estava ocorrendo consigo que não tinha mais um repouso tranquilo?
Despertava sempre com sensações estranhas e amedrontado.
O que acontecia enquanto dormia?
O sono para ele era um mistério.
Perde-se a consciência sem se perceber, dorme-se, sonha-se, desperta-se, mas o que ocorre nesse período?
Ah, sonha-se e ele sonhara muito, lembrava-se.
Estivera num lugar diferente, em uma outra época, sentira-se como outra pessoa, depois vira-se sendo perseguido e sofrendo muito.
O que teria acontecido?
Que lugares eram aqueles que vira, quem eram as pessoas com quem estivera?
Lembrava-se de Stella, mas até ela era diferente.
O que teria havido?
Por que seus sonhos eram tão estranhos?
Alguém lhe dissera que ele, ao despertar, traria lembranças para fazer reflexões.
Porém, reflexões para quê?
Vira-se na envergadura de um homem mau, severo e intransigente, e sentira depois um sofrimento muito grande, um abandono terrível e amedrontador, primeiro, depois a perseguição de muitos.
Seriam o abandono e a perseguição, consequências daquela sua vida de severidade impiedosa?
Não queria pensar em nada daquilo.
Se se sentira mal durante o sonho, pior estava se sentindo com as recordações dele.
Alguma coisa que não podia precisar o que fosse andava perturbando-lhe o sono, com reflexos, depois, quando desperto.
Para esquecer todas aquelas impressões que para ele não tinham muito nexo, levantou-se rapidamente e, como ainda era um pouco cedo para se preparar para o trabalho, foi para a sala e sentou-se naquela sua poltrona predilecta.
A casa estava no mais absoluto silêncio.
Ellen e as crianças ainda dormiam, mas logo ela levantaria para começar as lides do seu dia, que eram sempre muitas, e não poderia perder tempo se quisesse realizar tudo com esmero, como o fazia.
Era reconhecida ao senhor Thomas, apesar de tudo, respeitava-o, mas não concordava com o modo como tratava o filho.
Fizera muitas tentativas para aproximá-lo da criança mas nunca fora feliz.
Agora já não insistia muito, mas quando havia alguma oportunidade, não deixava perder.
Quando deu a hora, percebendo que Ellen começava a se movimentar, ele apressou-se em voltar para o quarto para que ela não o encontrasse na sala.
O dia transcorreu em paz, Stella desfrutou da companhia do filho transmitindo-lhe bem-estar e alegria, e nova noite chegou.
Mais uma daquelas sessões seriam realizadas, mesmo com o desagrado de Thomas.
Quando todos novamente se recolheram para o repouso, como tudo já estava preparado, eles esperavam Thomas-espírito deixar o quarto para o surpreenderem sem que fugisse.
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Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 03, 2018 9:06 pm

Estranhas sensações o envolviam naquela noite e ele demorava mais que o habitual.
Juvenal entrou no quarto para ver o que acontecia e surpreendeu-o ainda acordado, com certo receio de entregar-se ao sono, pelas sensações que experimentava sempre ao despertar.
Entretanto, era necessário não perderem mais tempo.
Juvenal transmitiu-lhe um passe tranquilizante e, em pouco tempo, ele se desprendeu pelo sono.
Quando Thomas-espírito o viu, teve ímpetos de retornar correndo ao corpo, mas foi impedido.
-Você sabe que não estamos aqui para persegui-lo, para fazer-lhe mal, mas para ajudá-lo.
Nós não pensamos só no momento presente, mas no espírito que é imortal.
De cada existência mal vivida, vão se acumulando débitos e sofrimentos e é isso justamente o que queremos evitar.
Pretendemos auxiliá-lo, auxiliando o seu filho a ter um pai que não o despreze, e também Stella que sofre muito por toda esta situação que existe neste lar.
-Vejo que terei outra noite desagradável!
-Pois cabe a você mesmo ter noites tranquilas e agradáveis, se se modificar em relação a seu filho.
Thomas não respondeu e Juvenal tornou com a palavra:
-Não convém que percamos mais tempo!
Temos muito trabalho para hoje!
-O que farão comigo?
-Nada que já não saiba, apenas verá uma outra época, outras imagens que poderão ajudá-lo também.
-Não tenha tanta certeza!
-Vamos, não percamos tempo!
Juvenal conduziu Thomas ao local do aparelho.
Lírius o esperava, assim como Stella e Áurea, desta vez sem se manterem afastadas, e ele foi orientado para que se sentasse.
Antes de deixar que colocassem o capacete em sua cabeça ele olhou para Stella e pediu:
-Não deixe, querida, que façam o que estão fazendo comigo!
Tenho sofrido muito com tantas perseguições.
-Ninguém o está perseguindo, mas ajudando.
Coloque o capacete, que Lírius vai iniciar o trabalho de hoje e oxalá sejamos bem-sucedidos.
Apesar do apelo, o capacete foi colocado e o aparelho ligado.
Novas imagens surgiram, de um tempo um pouco mais recente que as anteriores, mas também um tanto remoto.
Elas mostravam um casal que havia se unido em matrimónio há algum tempo, e pelo que compreenderam, ambos desejavam muito um filho, mas não o tinham.
Naquela existência, Thomas da encarnação actual, reconheceu-se naquele homem, reconhecendo também Stella, a sua esposa.
Ambos novamente estavam unidos e parecia que ele era mais cordial com a esposa, talvez pelo desejo de ambos não realizado.
Stella mostrava-se dócil e entristecida por não ter o seu desejo de maternidade satisfeito, e o marido, que parecia desfrutar de uma boa situação financeira, queria ter um herdeiro para continuar os seus negócios e gerir bem os seus haveres.
Nenhum comentário foi feito enquanto a imagem estava parada, mas Juvenal, antes de pedir que Lírius prosseguisse, indagou a Thomas.
- Percebeu bem a cena?
Viu o quanto desejava um filho e não o possuía?
Thomas não respondeu, mas Stella comoveu-se com a cena, apesar de não se sentir como sendo aquela que a tela mostrava, porque não precisava desse recurso para aceitar pois o trabalho estava sendo realizado para o seu marido.
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Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 03, 2018 9:06 pm

Juvenal pediu que prosseguisse e Lírius percorreu algumas imagens com rapidez e fixou-se em uma muito importante.
O Thomas mais sensível que fora mostrado no início, já havia se transformado e mostrava-se tal qual o fora naquelas imagens que lhes haviam sido mostradas, de um tempo mais remoto ainda.
Não haviam tido nenhum filho e ele maltratava a esposa por isso, acusando-a de inútil.
Ela mantinha-se submissa, triste, por não poder atender aos rogos do marido, porém não estava nela, mas em algum impedimento de ordem superior e que eles não tinham condições de alcançar.
Thomas passou a maltratá-la fisicamente, agredindo -a quando a sua irritação era maior, sobretudo se havia ingerido alguma bebida alcoólica.
E em uma das imagens subsequentes, ele viu a sua agressividade em um grau elevado de descontrole, que investiu contra a esposa com tanta força derrubando-a ao chão.
Ela bateu a cabeça num móvel, desfalecendo.
Ele, vendo-a caída, nada fez e deixou a sala gritando:
-Você teve o que mereceu, mulher inútil, que nem para me dar um filho presta!
A sua esposa ali permaneceu sem condições de se erguer, e quando ele retornou à sala, algum tempo depois, vendo-a ainda ao chão, vociferou:
-Nem para se erguer você presta!
E aproximando-se, tocou-a com o pé e percebeu que ela estava morta.
Ele, porém, sem se abalar, tornou a gritar:
-Morreu!? Melhor, se para nada presta é melhor que morra mesmo!
Stella estava chocada com o que via, mas compreendia bem o que se passava, com consequências nessa última existência que estiveram juntos.
Thomas não se abalou muito, nada comentou, mas Juvenal, que não poderia perder a oportunidade, indagou:
-Observou bem, meu irmão?
Viu como era, como foi a sua vida nessa existência que acaba de visualizar?
Talvez não tenha entendido bem, mas eu explico:
- Sabe que nosso espírito passa por muitas oportunidades terrenas para fazer o seu aprendizado e demonstrar o que aprendeu para a sua evolução.
Muitos, porém, desviam-se pelas imperfeições que ainda trazem e praticam actos condenáveis diante de Deus, prejudicando e fazendo sofrer a muitos.
Essas duas existências que lhe foram mostradas, estão intimamente ligadas uma a outra.
Na primeira que visualizou viu o quanto havia sido rude, impiedoso com a esposa e os filhos, mas entre essas duas, algumas outras houve e você havia melhorado um pouco.
Permitido lhe foi que novamente retornasse com aquela que fora sua esposa - a que foi Stella - a fim de que a compensasse de tanto sofrimento que lhe impingira anteriormente e você prometeu que seria diferente.
Contudo, como não soube tratar bem os filhos naquela existência, você viveria apenas com a esposa e não teriam nenhum filho, justamente para que sentisse a falta deles e aprendesse a considerá-los de forma mais terna, mais humana e você concordou.
Com o passar do tempo, porém, sentindo a falta deles e esquecido do que trazia como resgate, revoltou-se e começou a acusar a esposa, só que o culpado era você mesmo.
Thomas ouvia sem nada dizer.
Stella observava-o para ver a sua reacção e notou que em um momento uma lágrima desceu de seus olhos e ele, baixinho, exclamou:
- A minha Stella, eu mesmo a eliminei e agora sinto tanto a sua falta.
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Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 03, 2018 9:06 pm

7 - ESPERANÇAS VÃS
PARA AQUELA NOITE JÁ fora suficiente o que lhe mostraram.
De nada adiantaria acumular informações sem que tivesse a oportunidade de reflexão.
Vendo como Thomas estava, Stella fez um sinal a Juvenal, pedindo autorização para se dirigir ao marido.
Ela desejava ajudá-lo.
Apesar do que também visualizara, do que sofrera nas mãos dele, já havia passado.
Eles se amaram muito na última existência em que estiveram juntos, só não puderam permanecer por muito tempo pelas próprias circunstâncias reencarnatórias com os resgates que deveriam fazer.
Juvenal, depois, explicaria a Stella que aquela última existência em que ela partira tão cedo, fora assim programada justamente para que saldasse débitos antigos, auxiliando também a Thomas a resgatar os seus.
Para que ele desse valor aos filhos que Deus manda a fim de serem reeducados, bem dirigidos na vida e fossem pessoas de bem, como também valorizasse o que é ter uma esposa solícita e amorável em sua companhia e compreendesse as circunstâncias da vida que foram obrigados a viver.
Tendo recebido o consentimento, ela aproximou-se do marido, dirigindo-lhe palavras de encorajamento e força para que ele pudesse compreender a finalidade maior de tudo o que fora mostrado.
A partir das imagens das quais fizera parte sempre como vítima nas mãos dele, ela compreendeu que também deveria estar resgatando débitos e não se surpreendeu tanto, pelo conhecimento que já adquirira.
Thomas, porém, estava chocado consigo mesmo.
Nem aquela existência que lhe fora mostrada na noite anterior o abalara tanto.
Nesta última ele sentira o amor que dedicava à esposa, mas pela sua incompreensão e brutalidade acabara por matá-la, e, nesta mais recente, em que a amava tanto, fora impedido de ficar com ela.
Ainda mais, tivera que ficar com o filho a quem acusava de tê-la levado.
Depois dessas imagens, com certeza, compreenderia que o único culpado de tudo era ele mesmo.
O filho, culpa nenhuma tivera, que era um inocente que mal acabara de nascer, e já fora privado do carinho e do seio materno.
Era óbvio que também aquela situação deveria ser necessária ao seu Espírito, mas não era necessário que tratasse o filho daquela forma.
Se conseguisse reflectir, unir os factos de uma existência com a outra, teria a sequência de três encarnações que estavam intimamente ligadas.
Stella o ajudaria, e, para isso, convidou-o:
-Querido, venha comigo!
-Você ainda me chama de querido depois do que eu fiz?
-Todos nós já erramos muito no passado das nossas múltiplas existências.
Não nos cabe julgar ninguém porque também temos as nossas falhas Venha, vamos dar um passeio nesse tempo que lhe resta antes do despertar!
-Não tenho ânimo para nada!
-Justamente por isso deve esforçar-se - tomando as mãos dele, fê-lo levantar-se aos olhos dos que participaram daquela reunião, e conduzindo-o, deixaram a casa e foram caminhando.
Quando se encontraram num recanto mais aprazível, sob um céu ainda coalhado de estrelas fulgurantes, ela sugeriu:
-Fiquemos aqui!
Sentemo-nos um pouco e conversemos!
-Tenho vergonha de você!
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Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 03, 2018 9:07 pm

-Pois não deve ter!
O que aconteceu comigo, com certeza deveria ter acontecido para o meu próprio aprimoramento.
Não deve, por isso, martirizar-se mas esquecer.
O que deve preocupá-lo é o daqui para a frente.
Veja a oportunidade que está tendo desse alerta para as suas atitudes.
Se tem a sensibilidade de estar sofrendo pelo que já fez, muito mais sofrerá pelo que vem fazendo ao nosso William.
Você deve ter concluído por tudo o que viu que ele não tem culpa de nada.
Se parti tão cedo deixando-os, é porque assim deveria ser.
-Como castigo para mim...
-Não diria castigo que Deus não castiga ninguém!
O que Ele faz é para promover o nosso aprendizado, dando-nos oportunidade para reflectirmos nas nossas próprias faltas a fim de que as corrijamos, auxiliando a nossa evolução.
O que você deve fazer agora é pensar muito.
Se compreendeu realmente tudo o que viu, tudo o que sentiu, despertará diferente, mais sensível, mais temo e mais compreensivo.
Se quiser a minha ajuda, ficarei na sua companhia e o intuirei o tempo todo sobre o que deve fazer, de início, até que se habitue a uma nova vida junto de nosso filho.
-Não sei se conseguirei!
Eu tenho já arraigado em meu coração uma indiferença muito grande por ele.
Não será fácil modificar-me.
-Nada é fácil, e todo esforço bem-sucedido será uma vitória e um passo a mais para eliminar de vez esse constrangimento que criou entre você e ele.
William é ainda muito criança e esquecerá tudo isso, dependendo do modo como tratá-lo daqui para a frente.
Não queira acumular mais débitos, mas desfazer os que já traz no espírito, para que numa próxima existência, se Deus permitir, possamos vir novamente juntos e desfrutar de uma vida de amor, mas de trabalho e de mais aprimoramento para nossos espíritos.
Mais algum tempo os dois permaneceram juntos.
Stella continuou a lhe falar sem que percebesse muita aquiescência de Thomas às suas sugestões, até que ela mesma, entendendo que a hora de voltar era chegada, convidou-o e ambos retornaram.
Imediatamente ele dirigiu-se ao seu quarto, ela acompanhou-o, e, antes de retomar o corpo, ele ainda pediu-lhe:
-Não me abandone!
-Mesmo que eu aqui não esteja, nunca o abandonarei.
Você está sempre no meu pensamento, sobretudo agora que me encontro neste trabalho tão importante para todos nós.
Preocupo-me com você, mas preocupo-me muito mais com William que é ainda muito criança e não sabe o que é um carinho materno.
Ele que poderia ter os seus carinhos para suprir a falta dos meus, também não os tem, o que me deixa infeliz.
Espero, porém, que esse trabalho que estamos realizando nesta casa nos dê algum benefício - a você que se modificará, a William que terá um pai sempre presente, e a mim que terei paz, vendo-os unidos e felizes.
-Nada posso prometer-lhe!
Abraçando Stella, ele retomou ao corpo, despertando.
Stella continuou junto dele para acompanhar o seu pensamento e verificar o que havia permanecido nele, e auxiliá-lo durante todo o dia.
Entretanto, pelo que verificou, ao despertar, ele trazia no espírito sensações que considerava desagradáveis, exclamando:
-Outra vez acordo sentindo-me oprimido, como se algo muito terrível tivesse acontecido em meus sonhos.
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Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 03, 2018 9:07 pm

O que sonhei esta noite?
Não consigo lembrar-me!
Tenho uma vaga impressão de que sonhei com Stella mas não sei o quê.
Aproveitando-se desse pensamento, ela aproximou-se dizendo:
- Sim, querido!
Estivemos juntos, mas não foram sonhos.
Conversamos bastante, lembra-se?
Esforce-se que se lembrará de muito mais.
Parecia que ele ouvia as suas palavras porque a sua mente foi se aclarando e ele teve o momento em que estiveram juntos.
Rememorou o que a esposa lhe dissera em relação ao filho, e após, algumas outras lembranças começaram a misturar-se em sua mente.
Mas, pelo acompanhamento que Stella fazia, ela foi esclarecendo algumas, necessárias para que ele as tivesse para suas reflexões, e incorporando outras que lhe seriam também benéficas para a situação.
Ao final, antes de se levantar, ele possuía na memória o que havia acontecido, mas em forma de sonhos.
Lembrou-se do que lhe mostraram, do que fizera, e, embora como sonhos, seriam elementos para suas análises.
Eram um tanto confusos para ele porque misturavam acontecimentos de duas existências ligadas à actual, e não obstante compreendendo que o que vira e sentira eram em referência a ele mesmo, não compreendia muito bem o que havia se passado.
O que ele tinha como certeza, porém, era que tudo o que se passara, o que fizeram, o que lhe mostraram, o que vivera, o que ouvira, tinha como ponto principal, como centro, o seu filho William.
Por que se incomodavam tanto com ele?
Seria a preocupação de Stella com o filho?
Com certeza, seria.
Porém, para que ocorresse o que pretendiam, uma mudança muito grande teria que se dar no seu íntimo, e ele, desperto, não tinha vontade de mudar nada.
Ah, quanto tormento vinha ocorrendo em sua vida ultimamente!
Por que não o deixavam em paz?
Ouvindo essa indagação depois de umas considerações conflituantes para ele, Stella novamente lhe falou:
-É para o seu bem, meu querido!
Para William que teria o carinho de um pai, mas muito mais para você que deixaria de assumir tantos compromissos.
Preste atenção nele, olhe-o com olhos de um verdadeiro pai que se importa com o filho; lembre-se de que lhe foi mostrado que ele não tem culpa de nada.
Tudo o que aconteceu era o que deveria acontecer.
Trabalhe suas lembranças, seus pensamentos, e seja diferente, mais terno, mais dócil, que, em pouco tempo, o terá conquistado.
As crianças são susceptíveis aos nossos carinhos e se voltam para nós assim que compreenderem, que sentirem que são amadas.
Com a companhia dele sua vida será mais fácil, menos árdua, mais terna.
-Novamente esse pensamento! - exclamou ele.
Parece que alguém os coloca em minha mente sobrepondo-os aos meus mesmos para me atormentar.
-Jamais eu o atormentaria, meu querido! - retrucou Stella.
O que fazemos é para trazer-lhe paz.
Cansado, talvez, dos seus próprios pensamentos e dos que lhe eram sugeridos, levantou-se rapidamente e começou a preparar-se para o trabalho.
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Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 03, 2018 9:07 pm

Nisso Juvenal entrou no quarto e Stella, indo ao seu encontro, falou-lhe:
- Temo que todo esse nosso trabalho esteja sendo feito em vão!
-Nenhum esforço é feito em vão.
Nós fazemos a nossa parte e, se agora nada conseguirmos, um dia, com certeza, ele se modificará e se lembrará de nós, arrependido do tempo que perdeu.
QUANDO ELE SE ENCONTRAVA preparado para deixar o lar em direcção ao trabalho, Juvenal sugeriu a Stella que o acompanhasse e não perdesse a oportunidade de influenciar a sua mente com o que pretendiam.
-O dia é muito longo e não podemos perder tantas horas!
Há muitos dias chegamos, temos nos empenhado, utilizamo-nos de recursos só permitidos em casos extremos e nada ainda houve do que esperamos.
Nenhum esforço ele tem realizado quando se encontra em casa em relação ao filho que continua a ser ignorado por ele.
-É-me penoso chegar a essa conclusão, mas tenho os meus receios, conforme já os expus.
Quanto tempo mais poderemos ficar aqui?
-Vou entrar em contacto com nossos superiores, expor o que temos feito e como Thomas está se portando, e eles, com sua sabedoria e experiência, saberão nos orientar sobre algum ponto a mais a ser trabalhado e nos dar um prazo para o retorno.
Vá, acompanhe Thomas, que, ao seu regresso, devo ter novas instruções.
Stella seguiu com ele que fez o seu percurso cabisbaixo e pensativo, e pôde captar o que pensou, assim que deixou a casa.
-Ainda bem que me encontro na rua e livro-me de tantos pensamentos que me conflituam o íntimo.
Aqui sinto-me liberto e nada me atormenta.
Lamentando que esse era o julgamento dele, Stella manteve-se ao seu lado sem nada sugerir, mas aproveitaria o seu dia de trabalho para fazê-lo pensar no lar e no filho, intensamente, para ver a sua reacção quando voltasse.
Contudo, ao retornar, ele vinha cansado e até com um pouco de dor de cabeça pela luta íntima que enfrentara durante o dia - a lembrança do filho, imposta por Stella, os seus próprios pensamentos e o seu trabalho.
Encontrando Juvenal, Stella estava ansiosa por novidades e ele, sem palavras dispersivas, foi directo ao assunto:
-Orientado me foi que nada mais resta senão o que estamos fazendo, e que se em três dias nada notarmos de diferente em Thomas, devemos deixá-lo e partir.
-Três dias mais?
-O que é um bom prazo!
O que deveríamos lhe mostrar, já o fizemos.
Agora cabe-nos apenas trabalhar em cima das imagens que ele visualizou, tentando sensibilizar o seu coração.
-Se tiver que partir deixando aqui a mesma situação que foi causa da nossa vinda, irei muito triste.
-Fizemos a nossa parte e nos esforçamos bastante, mas não podemos modificar ninguém que não aceita os nossos argumentos e que se mantém numa atitude como a de Thomas, que parece armado contra tudo o que se refira a William.
-Como deixarei aqui o meu pobre filhinho?
-Nós trabalharemos os sentimentos de Ellen para que nunca deixe esta casa e cuide dele com o mesmo amor que tem por seus filhos.
Você sabe que ela gosta muito dele.
- Sim eu sei, e é isso o que me conforta!
-De resto, nada mais podemos fazer!
O futuro a Deus pertence, dentro do que o próprio Thomas fizer.
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Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 03, 2018 9:07 pm

Se futuramente ele sofrer, estará colhendo o que vem semeando.
Assim como já o faziam, eles continuaram o seu trabalho.
Aproveitavam as noites para falar directamente ao espírito de Thomas, e percebiam que ele estava sendo resistente em se colocar no leito para o repouso, temendo o tormento.
Como ele considerava, estavam sendo suas noites.
Os três dias passaram e Stella não comoveu o coração do marido que se mantinha céptico a qualquer influência a favor de William.
Na última noite que ainda teriam, Stella apresentou-se a ele dizendo:
- Tudo fizemos para tentar que você aceitasse William em seu coração como um verdadeiro pai deve fazê-lo e fomos além, mas foi em vão.
Agora nada mais nos resta a fazer e vamos nos despedir esta noite.
Parto com o coração muito triste por causa de nosso filho, mas por você também que ainda sofrerá muito.
Sua vida será de muita solidão e desamor.
Seu coração está enrijecido para qualquer sentimento mais elevado e eu lamento muito.
-Gostaria de ter tido a sua companhia todos estes dias, mas para que revivêssemos o nosso amor, e não como a tive.
-Quando estamos libertos do corpo, os nossos objectivos são outros.
Os nossos olhos espirituais vêem muito mais longe, tanto o passado quanto o futuro, que sabemos, será difícil se não soubermos viver o presente.
E é com isso que me preocupo, mas de nada adiantou.
Aqui nos despedimos e, quando tiver permissão para voltar, será para visitar meu filho, ver como ele se encontra e estimular em Ellen os cuidados e o amor por ele, esse mesmo que você lhe recusa.
Se me amava como o disse tantas vezes, você quereria ver-me feliz, e não infeliz como me vou.
Thomas nada respondeu e ela ainda acrescentou:
Que Deus se apiede de você e que um dia ainda possa tocar o seu coração. Adeus!
-Não vai me abraçar?
-Acho melhor não!
Assim falando, ela o deixou, foi ver mais uma vez o filho, e, em seguida ela, Juvenal e Áurea, partiram.
Lírius já havia se retirado levando a aparelhagem que trouxera.
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Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 03, 2018 9:07 pm

8 - E O TEMPO PASSOU...
UMA OPORTUNIDADE MUITO IMPORTANTE concedida a Thomas, fechava-se.
Concluía-se um ciclo que, se aproveitado conforme esperavam, lhe proporcionaria uma vida mais fácil, mais feliz, não só para ele mas para o filho também.
Ele não podia avaliar o que perdia com a não aceitação de tudo o que lhe fora pedido.
Nada do que lhe fora mostrado como exemplo, teve ressonância em seu Espírito.
Para ele, que não conseguira comover-se, suas noites seriam mais tranquilas, sem nada nem ninguém que o perturbasse nem que quisesse convencê-lo de nada.
E sem se lembrar do que ocorrera, despertaria mais aliviado da pressão que sentira enquanto a esposa estivera no lar.
Ele não imaginava, porém, que eles, para começarem o próprio trabalho o haviam ajudado de tal forma, retirando de sua companhia aqueles irmãos infelizes que buscavam vingança, e que tudo o que pretendiam era apenas para o seu bem-estar, tanto presente quanto futuro.
Todavia, se continuasse naquele posicionamento de indiferença, pensando apenas em si mesmo sem ter se comovido com os apelos da esposa, outros inimigos do passado se achegariam e ele teria novamente uma vida de tormentos, não como considerava, com a presença dos que o queriam ajudar, mas dos infelizes que se comprazeriam em prejudicar.
Entretanto, fora a escolha dele e, se todos os esforços que fizeram haviam sido inúteis, nada mais restava senão deixá-lo à sua própria sorte.
William, alheio a tudo o que se passava, continuava a ter o amor de Ellen, e cresceria sem conhecer um carinho paterno.
Ele não compreendia muito bem, na sua inocência infantil, quem era aquele homem que morava na casa.
Ellen lhe dizia que era seu pai.
O garoto olhava-o, mas tão afastados ficavam que tinha receio dele.
Seriam os pais homens como aquele, que andam pela casa sem dar atenção a ninguém, sem se importar com nada, sem ter olhos para os filhos?
Na verdade, mãe ele não possuía, que Ellen lhe dizia que sua mãezinha estava no céu, porém, e o pai que nunca lhe fizera um carinho e estava despertando nele um certo sentimento de receio, ainda inexplicável pela pouca idade que tinha, mas demonstrado quando o via entrar em casa?
Se estivesse brincando na sala com a filha de Ellen, que lhe dava mais atenção e até uma certa tranquilidade à mãe que podia desempenhar o seu trabalho, e ele visse o pai chegar, abandonava o que estava fazendo e corria à procura de Ellen como que fugindo daquela presença que lhe causava medo.
Dessa forma o tempo foi passando, William crescendo, e já estava na hora de procurar uma escola para ele.
A boa criada lembrou o senhor Thomas dessa obrigação, mas ele, não desejando se ocupar desse encargo, delegou-lhe a tarefa de providenciar para ele a mesma escola onde estudavam seus próprios filhos.
Tentando fazê-lo compreender que era melhor que ele mesmo o fosse, porque era preciso que conhecessem os pais dos alunos, ele não se deixou convencer e impediu-a de prosseguir, dizendo que ela o fizesse.
O garoto foi para a escola, aprendeu as primeiras letras, os anos continuaram a passar, os estudos preliminares foram se completando, e o pai mantinha-se na mesma indiferença.
Porém, muito mais ranzinza, porque vivia atormentado pela cobrança de entidades do passado que sabemos, sempre se achegam e perturbam, sobretudo quando se lhes oferecem oportunidade.
Muitas vezes William, já consciente de que aquele homem era seu pai e que se tomara daquele jeito desde que sua mãe morrera, explicado por Ellen, observava-o e tinha vontade de se aproximar.
Até tentava, mas Thomas não lhe dava atenção, deixava-o falando sozinho ou mandava-o retirar-se.
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Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 03, 2018 9:08 pm

Era claro e inegável que o pai não gostava dele, e o menino sentia muito por isso.
Como gostaria, agora que tinha o entendimento mais aberto, de ter a companhia do pai para contar seus sonhos, as suas esperanças quanto ao que pretendia para o seu futuro, mas via- -se impedido.
Ellen sempre o estimulava a que não desistisse.
Que lhe levasse sempre as suas necessidades, mas seu receio era tanto que ele fazia dela a sua emissária junto ao pai, que também se sentia melhor assim, sem a presença do filho.
O filho de Ellen já estava trabalhando; não prosseguira os estudos porque a mãe não tinha condições de lhe proporcionar cursos mais avançados, e ele dizia que, quando pudesse, proporcionaria a ela uma vida mais tranquila sem ter que ser criada de ninguém, e deixariam aquela casa para uma só deles.
A filha de Ellen já a ajudava nos afazeres domésticos, o que a aliviava um pouco, e era muito apegada a William, apesar de ser um pouco mais velha que ele.
Mas, justamente por isso, por tê-lo visto crescer desde o seu nascimento, considerava-o o seu irmão mais novo, embora soubesse que não o era.
DURANTE ESSES ANOS TRANSCORRIDOS, muitas vezes Stella teve autorização para retornar ao seu lar, em visita ao filho.
Acompanhou o seu crescimento, transmitindo-lhe sempre palavras de encorajamento, de estímulo e força para que ele não sucumbisse ao problema que enfrentava no lar.
Ela percebia que ele, como que captando o que lhe dizia, olhava em torno para verificar se via alguma coisa estranha e diferente, tão forte eram as sugestões que recebia.
Ao cabo do que lhe dizia, havia sempre um sorriso nos seus lábios, como se ele tivesse passado por um banho de renovação interior, e o que enfrentava do pai, não tinha importância.
Ele vivia, a vida era bela e cheia de oportunidades, era saudável e tinha sonhos, e seus sonhos se realizariam porque ele os merecia.
Um dia a sua vida mudaria e quando tivesse uma profissão nas mãos, conquistaria a sua independência, formaria o seu próprio lar e o conduziria de modo bastante diferente.
O que levava como experiência do que acontecia e suportava, seria muito importante porque lhe dava o parâmetro do que deveria evitar.
Ah, quando tivesse o próprio lar, quando encontrasse alguma jovem que amasse e por quem fosse amado, sua vida se transformaria.
Seu coração, tão terno e tão carente de amor seria feliz, sorriria, e tudo ao seu redor teria outro valor.
Quantas palavras semelhantes ela lhe transmitia colocando esperanças novas no seu coração, esperanças de felicidade.
Ao mesmo tempo em que todos esses sonhos adentravam o seu coração, ele pensava no pai.
Era óbvio que não era amado por ele, porque, para que nascesse, sua mãe tivera que partir, conquanto Thomas nunca mais o acusara de culpado pela morte da esposa, embora no seu íntimo ainda era esse seu pensamento, mas continha-se diante do filho. Ignorava-o de tal forma, que nem para acusá-lo queria se referir ou dirigir-se a ele.
Nunca mais Stella, ao visitar o filho, falara com Thomas.
De nada adiantaria se o fizesse, depois de ter tentado tudo e nada conseguido.
Ela ainda lamentava o posicionamento do marido, sabia que ele sofria, pois encontrava sempre na casa entidades infelizes que o perseguiam, notava que ele estava cada vez mais ranzinza quando se dirigia a alguém no lar, cada vez mais fechado em si mesmo, mas nada lhe dizia.
Para ele era como se a esposa estivesse em algum lugar reservado aos mortos, de onde não poderia sair.
Nem a lembrança de todo o empenho que ela fizera para modificar seus sentimentos em relação ao filho ele tinha mais, mesmo porque tudo havia sido realizado quando se desprendia do corpo pelo sono, e nenhuma lembrança lhe restava.
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