Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Página 3 de 5 Anterior  1, 2, 3, 4, 5  Seguinte

Ir em baixo

Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 04, 2018 8:21 pm

O que ela fazia sempre que estava no lar era agradecer a Ellen os cuidados que tinha com seu filho e com o marido, e estimulava-a cada vez mais a prosseguir, encorajando-a também, para que não desfalecesse a sua vontade nem o seu amor por William.
Ela percebia também que Ellen, depois das suas palavras, sentia-se mais fortalecida espiritualmente, com reflexos no seu físico, pois precisava muito dele para continuar a desempenhar suas funções no lar.
A filha ajudava-a, mas a responsabilidade e o comando eram dela e precisaria estar sempre bem para que nada perecesse, e disso Stella cuidava, dentro da permissão e das possibilidades que possuía, e estava ajudando.
Contudo ela preocupava-se.
Se um dia a boa Ellen adoecesse, o que seria de seu filho, do seu marido?
Outra não teria para com William o amor que ela lhe dedicava, nem a paciência de suportar o mau humor e as esquisitices de Thomas.
Ela o compreendia.
Estava naquele lar desde os primeiros dias do nascimento de William, por isso compreendia as necessidades e carências de ambos, e esforçava-se para fazer o melhor para o pequeno, pois, além dos cuidados que tinha para com ele, em relação à sua roupa, à sua alimentação, amava-o como se fosse seu próprio filho.
Acompanhou-o em todas as transformações que uma criança vai apresentando.
O primeiro sorriso, o primeiro passinho, a primeira palavra, tudo ela trazia nas suas lembranças como o trazem as mães verdadeiras, e estava sempre à disposição para ouvir as suas preocupações e aconselhá-lo nas horas mais difíceis, mesmo que fosse por motivos banais, mas para ele muito importantes.
Ele sentia a falta de uma mãe, como ouvia seus colegas se referirem às deles, sentia falta do pai, não obstante convivesse com o seu diariamente, mas podia considerar-se, de certa forma, muito feliz, porque tinha a boa Ellen, constantemente no lar, como se tem uma mãe.
Era um menino bom, lamentava o afecto que não tinha do pai, mas agradecia a Deus o que tinha de Ellen, e de certa forma, sentia-se feliz.
COM OS ANOS TRANSCORRIDOS, as transformações não se operaram somente em William que, de criança tornou-se jovem.
Para Thomas o tempo pesou muito mais, foi muito mais penoso.
Sempre ensimesmado no que entendia, eram os seus problemas, sem nunca conversar com ninguém, mantendo um mutismo que causava mal-estar e desconforto aos que o rodeavam, os anos lhe estavam sendo cruéis.
Sua saúde já estava abalada, não se cuidava e ninguém poderia aconselhá-lo em nada, porque não dava a ninguém esse direito.
Ninguém sabia como se sentia, apenas o que iam observando, mas sem nenhuma confirmação.
Continuava a desempenhar o seu trabalho, fornecia a Ellen semanalmente uma importância suficiente para as despesas da casa, pagava o seu salário regularmente e dava-lhe também uma importância para as necessidades de seu filho, sem que ele precisasse lhe pedir nada.
Quantas vezes Ellen tentou penetrar naquele coração enrijecido, desfazer o seu mutismo, tecendo algum comentário acerca de algum acontecimento, mas ele, ou não ouvia, ou se ouvia, às vezes falava-lhe alguma coisa completamente diferente, mostrando que nada do que estava dizendo lhe interessava.
As mais das vezes era calado.
Sentava-se à mesa no horário das refeições e dava graças a Deus quando o fazia sozinho, caso o filho ainda não houvesse chegado das aulas, ou saíra para alguma outra necessidade que nunca perguntou qual seria ou onde ele estaria.
Não restava dúvida de que a vida no seu lar era difícil, sem nenhum atractivo, sem nenhuma esperança, a não ser pela chegada do dia em que Deus também se lembrasse dele e o levasse para junto da esposa.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 79717
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 04, 2018 8:21 pm

Alguns poucos anos mais passaram.
O filho concluiu os estudos que pretendia, que isso o pai nunca pôs nenhum impedimento e ele era um advogado.
Poderia trabalhar e viver a sua própria independência longe do pai se o quisesse, mas não pensava nisso por causa de Ellen e de seus filhos, os quais considerava irmãos, sobretudo a que agora era jovem e já se preparava para o casamento.
Ela conhecera um rapaz que a mãe julgou bom e permitiu o namoro que caminhou para o noivado, e próximo estava o dia em que ela deixaria aquela casa para morar na que constituiria.
Ellen ficaria mais só, mas William lhe daria o seu afecto, conforme ela o merecia por tudo o que fizera por ele.
Thomas não andava bem de saúde, embora ninguém soubesse o que ele sentia nem o mal que o penalizava.
Certa vez William, compreendendo certas dificuldades do pai quando tentava deixar a mesa depois do jantar, num esforço muito grande, dirigiu-se a ele perguntando o que estava sentindo e se precisava de ajuda.
Tendo se alimentado muito pouco, ele respondeu que estava bem e nada sentia, apenas não estava com vontade de comer.
William ficou sem saber o que fazer, e ele foi para o quarto.
Numa manhã em que ele demorava mais para sair do quarto, Ellen ficou preocupada e ia constantemente à porta, colocar o seu ouvido atento para ver se ouvia algum ruído diferente, mas nada ouviu.
O silêncio era absoluto e ela tinha receio de bater para chamá-lo.
Depois de esperar algum tempo e ver que não se levantava, foi chamar William contando-lhe os seus receios.
-O que farei, eu, Ellen?
-Vá até lá, abra a porta e veja o que está acontecendo!
-Você sabe que eu nunca entro no quarto de papai, pelo menos enquanto ele está lá dentro.
-Mas agora a situação é outra, é necessário.
Vamos que eu estarei junto com você.
Não podemos deixá-lo lá fechado, pois ele pode estar precisando de auxílio.
-Está bem! Não sabemos o que poderá acontecer, mas, se é preciso, iremos.
Ellen bateu suavemente à porta, mas ninguém respondeu. Tentou mais algumas poucas vezes, e, como não obtivesse resposta, olhou para William, dizendo:
-Eu vou abrir, vamos entrar!
-Se não há outro jeito!
Ellen girou a maçaneta com cuidado e foi abrindo a porta vagarosamente, até que colocou a sua cabeça na abertura para verificar o que estava ocorrendo, mas nada viu de estranho.
Ele ainda estava deitado.
Eles acabaram de entrar e ela, aproximando-se da cama, seguida por William, chamou-o diversas vezes, até que, percebendo que não se movia, tocou o seu ombro levemente, de início, mais fortemente depois, e verificou que ele estava completamente imóvel.
-O senhor Thomas está morto, William!
-Morto!!! - exclamou o jovem sem mais nada dizer.
-Precisamos tomar providências!
-Que providências devemos tomar?
-Eu sei o que devemos fazer, já passei por isso quando perdi o meu marido.
O momento era de aflição; a aflição da surpresa, do inesperado que eles tinham que enfrentar.
Ellen, com a experiência que os anos trazem, sobretudo àqueles que lutam com dificuldades, sabia o que fazer.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 79717
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 04, 2018 8:21 pm

Antes de se retirar do quarto, chamou William, dizendo:
-Tudo está consumado, de nada adianta ficarmos aqui.
-O nosso relacionamento era muito difícil, para não dizer que era nulo, mas não queria ver papai assim.
Ele deve ter sofrido sem ninguém que o auxiliasse em nada.
-Deus sabe o que faz e a nós cabe compreender.
Cada um tem a sua hora.
-O que faremos, Ellen?
-Temos que tomar as providências para o sepultamento, mas antes precisamos chamar um médico que ateste a sua morte, principalmente pelo modo como o foi.
Depois, sim, procuraremos os serviços funerários.
-Em que posso ajudar?
-Vá à procura de um médico e traga-o aqui!
William saiu imediatamente enquanto Ellen foi chamar os filhos para lhes dar a notícia.
A surpresa deixou-os atónitos.
Ninguém sabia o que fazer, o que dizer, o que pensar...
Ellen chegou a pensar em suicídio, pela vida insípida que ele levava, sem atractivos, sem esperanças, sem sonhos, sem nenhum prazer por nada, sem nenhum objectivo que o estimulasse a viver, mas procurou tirar da mente esse pensamento que não comentou com ninguém.
-Se alguma iniciativa nesse sentido, houve, o médico descobrirá imediatamente - concluiu ela.
Passada quase uma hora, William entrou em casa trazendo o médico e conduziu-o ao quarto, deixando-o só com Thomas.
Depois de alguns minutos ele retornou à sala, aos olhos ansiosos de todos da casa e, dirigindo-se a William que soubera era filho do falecido, falou-lhe:
-Seu pai teve uma síncope provocada por algum problema cardíaco que apresentava. Você sabia se ele tinha algum problema no coração?
-Ele nunca comentou nada com ninguém, e, se sabia, guardou só para si - adiantou Ellen.
-Esta senhora está nesta casa há muitos anos, desde que mamãe partiu pelo meu nascimento. Foi ela que me criou e conhece bem os hábitos de papai - explicou William.
O senhor Thomas era sempre muito calado e, quando em casa, passava a maior parte do tempo em seu quarto. Nunca se conformou com a morte da esposa.
-Bem, nada disso importa agora! Ele está morto e eu farei o atestado explicando a causa mortis.
Depois que o médico se retirou, Ellen pediu ao filho que fosse procurar os serviços funerários enquanto ela e William preparariam o corpo.
O que faremos? - indagou William, um tanto constrangido, ouvindo-a.
- Venha comigo!
Você me ajudará!
O rapaz, ainda surpreso e um tanto nervoso, acompanhou-a, e Ellen, enquanto procurava as roupas para vestir nele, recomendou ao jovem que o despisse.
- Não conseguirei fazer isso, Ellen!
E difícil para mim.
Você sabe como vivíamos aqui, e, tocar nele, é como se estivesse cometendo algum ato condenável por ele mesmo.
-Está bem! Ajude-me que eu mesma faço o que for preciso!
Em pouco tempo a diligente e dedicada Ellen preparou-o, e, quando o caixão foi trazido, ele já estava pronto para ser colocado nele.
A sala foi preparada, e o caixão, contendo o seu corpo, foi colocado para visitação.
Antes de se retirar, o responsável pelo serviço disse que tomaria as providências quanto ao sepultamento e que, no fim da tarde, voltaria para levar o corpo.
O dia transcorreu lentamente, escoando as horas com dificuldade, como se cada minuto encontrasse uma grande barreira para transpor e continuar o seu ritmo completando as horas.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 79717
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 04, 2018 8:21 pm

Muito poucas pessoas compareceram.
Apenas alguns colegas de trabalho, um ou outro vizinho e ninguém mais.
Depois do dia se arrastar vagarosamente, a hora do sepultamento chegou.
O corpo foi levado para ser sepultado junto da esposa.
Pelo menos depois da morte os dois teriam condições de ficar juntos.
Muitos assim pensaram, mas faltava-lhes o conhecimento de que enterramos os corpos que podem ficar juntos, mas os espíritos que se desprendem deles tomam rumos diversos, de acordo com o estágio evolutivo de cada um, de acordo com o merecimento que tem de ser auxiliado nesse momento tão importante de transição da vida de encarnado para a vida de desencarnado.
Cada um é levado ao lugar que lhe cabe pelas acções praticadas, pelos sentimentos abrigados em seu espírito, e há aqueles também que não recebem nenhuma ajuda.
Não como castigo de Deus pelo que fizeram ou pelo que deixaram de fazer, mas para que possam ter um período para pensar, para reflectir nas próprias acções, para analisar atitudes e comportamentos, e, quem sabe, chegar a alguma conclusão do que fez de errado, dos males praticados, para que ele próprio, sentindo-se abandonado, em sofrimento, e reconhecendo que perdeu uma grande oportunidade que tivera em mãos, rogue a Deus um auxílio.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 79717
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 04, 2018 8:21 pm

9 - NOVA REALIDADE
A VIDA NAQUELE LAR mudava.
Não mais a presença de Thomas que constrangia o filho trazendo-lhe uma certa insegurança e receio, mas também não mais os proventos, resultado de seu trabalho, e que proporcionavam a todos o necessário em alimentos e roupas, bem como a satisfação de outras necessidades e o conforto doméstico.
Ellen estava preocupada.
Passada a primeira noite em que todos mereciam o repouso, na manhã seguinte ela procurou William para uma conversa, dizendo-lhe:
- Você sabe que eu o amo como amo a meus filhos.
Estou nesta casa desde o seu nascimento e cuidei de você sempre com muito amor e carinho, pelas próprias circunstâncias que a vida o obrigou a viver.
Sem a verdadeira mãe, ignorado pelo pai, mas mesmo assim temos um ponto muito importante para ser considerado.
Se seu pai era calado, triste, não lhe dava carinho e atenções, no fundo do seu coração ele era bom.
Nunca interferiu no meu modo de conduzir a casa e confiava em mim pela importância que me dava para o suprimento doméstico e até para as suas necessidades e seus estudos.
Agora que não o teremos mais, de que viveremos?
Como continuarmos aqui se não temos o necessário para mantermos a casa?
-Papai nunca lhe falou se possuía economias?
-Seu pai não era de conversa, e, se alguma economia houvesse, não seria para mim que contaria.
Aqui eu era apenas a criada.
-Não é assim que a considero e papai também a considerava muito.
Você lhe dava segurança e tranquilidade.
Ele dava-lhe dinheiro mas não precisava ter nenhuma preocupação.
- Agora tudo se modifica!
Precisamos também pagar o serviço funerário!
-O médico que aqui esteve eu mesmo paguei com o dinheiro que ele mandava você me dar!
-Você precisa fazer uma busca no quarto dele para ver se há algum dinheiro para os primeiros tempos.
-Logo estarei trabalhando mas sabemos que, de início, é sempre muito difícil.
Eu não tenho coragem para remexer nas coisas de papai.
Faça-o você mesma.
Não era você que fazia a limpeza e a arrumação do quarto dele diariamente?
Pois então, faça-o também agora!
-É diferente!
Não estarei lá para fazer limpeza mas para procurar dinheiro.
Se não quiser mexer em nada, pelo menos fique lá comigo!
-Está bem!
Quando quer fazer esse serviço?
-Hoje à tarde, quando terminar minhas obrigações com a casa.
Depois de procurarmos, farei uma boa limpeza no quarto e você decidirá o que fazer com as roupas e com todos os objectos que lhe pertenciam.
-Se quiser aproveitar algumas roupas para seu filho, poderá fazê-lo.
O resto daremos a algum asilo.
Esta conversa encerrou-se assim, mas Ellen, preocupada, realizou o seu trabalho pensando no que fariam e no que poderiam encontrar.
E se nada encontrassem?
O seu filho trabalhava, mas o que ganhava mal dava para as próprias despesas.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 79717
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 04, 2018 8:22 pm

Sua filha em pouco tempo deixaria a casa pelo casamento e com ela, não poderia contar.
Quando terminou as tarefas do lar, ela chamou William e levou-o ao quarto do pai.
A cama ainda estava desarrumada conforme ele deixara, o pijama que lhe tiraram estava jogado sobre ela.
Antes de começarem a busca, Ellen retirou toda a roupa da cama, cobrindo-a apenas com uma colcha para dar aparência de arrumação e começaram o trabalho.
O armário que guardava as roupas estava repleto.
Thomas andava sempre bem-cuidado que o seu trabalho exigia.
Se fosse apenas por ele, qualquer roupa serviria, pelo seu desinteresse por tudo.
-O que faremos aqui? - indagou Ellen.
-Examine as roupas passando por todos os bolsos.
Quem sabe encontraremos algum dinheiro.
Ellen procedeu como o jovem sugeriu, mas nada encontrou.
Abriram gavetas, reviraram papéis e encontraram alguns recibos de depósitos bancários, mas não sabiam o montante de tudo nem se poderiam retirá-lo.
Verificando que a data dos depósitos era antiga, William falou:
-Não sabemos se ele já movimentou esse dinheiro para alguma necessidade.
-Pelo menos você tem o nome da casa bancária e poderá fazer uma consulta.
-Amanhã eu irei!
Eles continuaram a busca mas nada mais encontraram do que esperavam.
Faltava apenas examinar os bolsos do terno que ele usara na véspera, ainda acomodado em uma cadeira.
-A sua carteira deve estar aqui! - exclamou Ellen.
-Pois verifique!
Ela remexeu os bolsos e, num deles, encontrou a carteira que ele usava e deu-a a William que, verificando* encontrou uma importância que lhes daria para suprir as necessidades da casa por alguns dias.
Uma nova preocupação os tomava.
Como sobreviver se nada mais encontrassem na casa bancária?
E, se houvesse algum dinheiro lá, poderiam retirá-lo?
Afinal, ainda possuíam algum suprimento e o dinheiro encontrado lhes daria condições para mais alguns dias, enquanto William conseguisse um trabalho.
Da forma como Thomas se portava era difícil, mas nada lhes faltava.
Agora, porém, ele não estava, não haveria constrangimento nem desprezo, mas seria pior porque lhes faltaria meios de sobrevivência.
Ellen, acostumada a dirigir a casa, estava preocupada.
William teria que tomar alguma providência urgente, e prometeu-lhe que, depois de visitar a casa bancária para colher informações, sairia à procura de um trabalho.
Visitaria em primeiro lugar o local onde seu pai trabalhava para ver se poderia ficar com a vaga, conquanto não soubesse o que ele realizava, mas exporia a situação em que se encontravam e, talvez, os convencesse.
Prometeria aprender o mais rápido possível, dedicar-se com denodo e ser submisso às ordens, se confiassem nele.
Afinal era um advogado e tinha condições de aprender, fosse o que fosse.
Com esse pensamento ficou mais tranquilo e confiante, dando esperanças a Ellen, que estava ansiosa para que tudo se resolvesse satisfatoriamente.
Na casa, ela tinha tudo o de que precisava em tecto e alimentação, mas também precisava de dinheiro para as outras necessidades que não só essas.
Pensava no casamento da filha, no seu enxoval, e em tudo o mais que envolve um casamento, por mais simples que seja.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 79717
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 04, 2018 8:22 pm

Na manhã seguinte, levantando mais cedo do que o habitual, William preparou-se e saiu à rua.
Como àquela hora a casa bancária ainda estaria fechada, ele decidiu ir ao local de trabalho de seu pai.
Ele não era conhecido lá.
Thomas nunca mencionara seu nome para nada, apesar de saberem que tinha um filho e era viúvo, mas não permitia que ninguém tocasse nesse assunto.
E como não dava essa oportunidade, todos se habituaram ao seu mutismo e respeitavam porque entendiam que ele deveria sofrer.
William apresentou-se ao chefe do escritório, expôs o que pretendia, explicando a situação em que se encontravam, e ele assim se expressou:
-Lembro-me de tê-lo visto nos funerais de seu pai, e sabíamos que ele tinha um filho, mas nunca nos deu ensejo de perguntar nada, nem nunca nos contou nada do que se passava no seu lar.
-Papai era uma pessoa um pouco difícil pela vida que levava, e dizem que se transformou muito depois que mamãe morreu.
Ele vivia muito só.
-Pois bem, meu rapaz, simpatizei com você, sei que tem cultura pelo diploma que traz, mas sei também que nada sabe do trabalho que seu pai realizava, mas se aprende.
Como precisava colocar alguém para ocupar o lugar dele, podemos tentar você.
Se quiser, poderá começar amanhã mesmo.
No início não poderemos lhe pagar o que pagávamos a ele; você deve compreender que ainda precisa aprender o seu serviço.
Se assim lhe convier, amanhã começaremos a lhe ensinar as suas obrigações.
A propósito, seu pai tinha algum dinheiro para receber dos dias que havia trabalhado e eu lhe pagarei agora.
Assim irão fazendo face às despesas da casa até que receba o seu salário.
Agradecendo muito, William, depois de receber o dinheiro, deixou o local, bastante esperançoso e aliviado, mas restava-lhe ainda a visita à casa bancária.
Encontrando-a de portas abertas, dirigiu-se ao gerente, expôs também a que viera, mostrou os recibos de depósitos e ele, chamando um funcionário pediu para verificar o que realmente acontecia com aquela conta.
Em alguns minutos ele voltou trazendo todas as informações solicitadas.
O senhor Thomas, na verdade, possuía uma conta com um depósito bastante considerável, mas, segundo informação do gerente, só poderia ser movimentada através de um advogado que cuidasse do espólio.
O trabalho seria demorado mas o dinheiro seria dele.
O gerente ainda acrescentou:
-Quando tudo estiver concluído, espero que o senhor mantenha o dinheiro connosco, mas poderá movimentá-lo conforme as suas necessidades, assim como também continuar a fazer os depósitos em seu nome, a quem a conta passará por direito.
Se o senhor era o seu único filho, não haverá nenhum empecilho.
Apenas contrate um advogado especializado em espólios que ele começará logo o seu trabalho.
-Também sou advogado, mas, recém-formado, não teria a prática de um já experiente, por isso já sei a quem procurar.
-Estaremos à disposição para o que desejar e esperamos contar com o senhor como o nosso mais novo cliente, assim que tudo ficar concluído.
DEPOIS DE PROCURAR UM advogado que encarregou de tomar as providências quanto ao espólio de seu pai, William foi para casa sentindo-se alegre por ter sido bem-sucedido.
Tudo saíra a contento.
Ele teria um emprego, recebera uma importância que restara do salário do pai, encontrava uma conta significativa no banco que logo, depois dos trâmites legais, passaria às suas mãos.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 79717
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 04, 2018 8:22 pm

O que quereria mais?
Imediatamente procurou Ellen, contou-lhe o sucedido e ela também sentiu-se aliviada.
O seu salário não estaria ameaçado, porque, deixar a casa, abandonar o seu William para procurar outro emprego, ela jamais o faria.
Resolvia-se assim, de modo satisfatório, uma situação que se tornara preocupante.
-Meu querido William, meu coração se tranquilizou e nossa vida, nesta casa, será feliz.
Não teremos o senhor Thomas a quem também me afeiçoei e que sempre me tratou com educação apesar dos problemas entre vocês, mas eu aprendi a entendê-lo, e só me entristecia ver o que fazia com você.
Agora, entretanto, tudo terminou, e, graças a ele, teremos uma vida tranquila.
-Tem razão, Ellen.
Eu nunca tive dele um minuto de atenção, mas por intermédio dele pude estudar, hoje tenho a minha carreira que será promissora, temos economias para alguma eventualidade, e até o dinheiro para saldar nosso débito na casa funerária, fornecido ainda pelo trabalho dele.
Não precisamos nos preocupar mais. De hoje em diante teremos uma vida nova nesta casa.
O quarto de papai deve ser aproveitado.
Desocupe tudo o que era dele e assim que tivermos o dinheiro liberado, modificaremos os móveis, transformando-o completamente num outro local, sem que nenhuma lembrança dele possa perturbar quem o ocupar.
-Penso que aquele quarto deveria ficar para você, que se encontra num muito pequeno.
É o melhor da casa e deveria ser seu.
-Por enquanto não penso nisso, mas, quando estiver modificado, quem sabe! Aguardemos!
A vida começava a transcorrer numa rotina diferente.
Parecia que na casa todos se sentiam mais livres, sem receio da presença de Thomas que os coibia até de um riso mais solto diante de alguma situação hilária.
Até Ellen, sempre tão calada quando ele estava em casa, agora cantarolava enquanto cumpria as suas obrigações.
Os preparativos para o casamento da filha continuaram, seria uma cerimónia simples, mas sempre traz preocupações e demanda providências, e até o noivo dela passou a frequentar a casa como se já pertencesse à família.
William, no seu emprego, estava se saindo bem.
O seu patrão estava satisfeito, o jovem trazia ideias mais novas com aplicação mais lucrativa e ele pensava que logo o filho suplantaria o pai que era um bom profissional.
-O advogado contratado estava trabalhando no inventário que já ia bastante adiantado, em pouco tempo estaria consumado, e William de posse do dinheiro, com direito pleno de movimentá-lo conforme desejasse.
O quarto de Thomas ainda estava com todos os móveis, mas as roupas e todos os seus pertences já haviam sido retirados.
Ellen aproveitou muitas peças e objectos para o filho.
William nada quis, não se sentiria bem usando nada do pai.
Era como se ainda estivesse entre eles, numa presença mais íntima e mais estreita que lhe causaria mal-estar.
Assim que o dinheiro fosse liberado, os móveis seriam trocados.
Ellen já havia levado algum para o seu quarto, sobretudo o grande armário para as roupas, onde pôde acomodar tudo o que possuía, com o enxoval da filha até que se casasse.
Os que não fossem aproveitados no lar seriam doados a alguém que pudesse se interessar por eles.
A cama fora oferecida à filha de Ellen, mas ela, apesar de que não teria uma casa com grande conforto, não aceitou.
-Quero começar a minha vida tendo uma cama nova que não tenha sido usada por ninguém.
-Tem razão! Você tem esse direito - considerou a mãe.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 79717
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 04, 2018 8:22 pm

A VIDA, TRANSCORRENDO DESSE modo, nada os afligia, nada os preocupava, tudo eram esperanças de paz e felicidade.
Quando imaginamos, porém, que vamos viver com tranquilidade, que nada poderá abalar a nossa paz e a rotina feliz que a vida nos proporciona, que desempenhamos as nossas actividades sem nenhum impedimento e com prazer, sobretudo depois de um longo período de dificuldades, alguma coisa acontece.
Ninguém sabia o que estava acontecendo mas à noite eles começaram a ouvir certos ruídos que os estava amedrontando.
Durante a noite, muitos deles eram despertados repentinamente com passos pela casa, com alguns gemidos, que ficavam ouvindo sem se mexerem na cama.
Pelo medo que os tomava, nenhum deles tinha coragem de se levantar para ver o que estava acontecendo.
Depois de noites seguidas daquele jeito, Ellen decidiu que iria ver o que se passava, mesmo com muito medo.
À noite, depois de ouvir os passos, ela levantou-se enrolada num cobertor e assustou-se com o que viu.
Ao chegar à sala, com muito cuidado e receio, ainda pôde ver uma sombra um tanto imprecisa caminhando em direcção ao quarto do senhor Thomas, e arrepiou- -se toda.
Fixando melhor seus olhos, ela não teve dúvidas - não obstante o tivesse vendo de costas, tinha toda a aparência dele, a mesma que ela vira diariamente por mais de vinte anos.
Assustada e tremendo, ficou parada até que ele desapareceu, e ela voltou para o seu quarto.
Por que tivera aquela visão?
Seria o senhor Thomas em espírito que ainda permanecia no lar?
Não tinham os espíritos um lugar para ficar depois da morte de seus corpos?
O que faria ele no lar e por que ouviam ruídos durante a noite?
E durante o dia onde ficaria e o que faria?
Ao ter esse pensamento, mais amedrontada ficou.
Durante o dia passava muitas horas sozinha em casa, como poderia conviver com ele observando-a?
Ou viria ele apenas à noite quando a casa estava em silêncio e durante o dia teria outro lugar para ficar?
Ah, quantos pensamentos assustadores diante dessa nova realidade que se instalara na casa!
Onde teria ele ficado desde que morrera até a noite em que ouviram os primeiros ruídos?
E como seria daí para a frente?
Não haveria um meio de retirado d» casa ou convencê-lo a que partisse para o lugar que pertencia aos mortos?
Que meio seria esse?
Quando contasse a William o que havia visto, certamente também ficaria mais amedrontado ainda, mas ele precisava saber.
E as orações, não seriam eficazes?
Não se ora para os mortos para que tenham o descanso eterno?
O senhor Thomas não estava descansando, pelo contrário, deveria estar em aflição porque andava pela casa e algumas vezes gemia.
Teria o seu espírito noção de que já não pertencia ao mundo dos vivos?
Seria isso possível acontecer?
Quando deixamos o corpo não temos imediatamente a noção da nossa condição e não vamos para o lugar dos mortos?
O que quereria ele ali entre os vivos, se não precisava se alimentar mais nem poderia se utilizar de suas roupas?
Ah, como o desconhecimento das coisas mais elementares pelas quais um espírito passa após a morte do corpo físico traz medo, aflição e muitas conjecturas!
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 79717
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 04, 2018 8:23 pm

- Tão fácil seria o entendimento de cada um se tivesse a verdadeira noção do que acontece nessas circunstâncias.
É óbvio que não podemos generalizar porque cada um se encontra num estágio evolutivo decorrente dos seus sentimentos e acções, e não podemos ser categóricos ao afirmar que assim que o espírito se desprende do corpo vai acontecer isso e isso, ou seja, termos a certeza do que lhe vai acontecer, por mais conhecimento tenhamos a respeito da doutrina espírita.
O íntimo de cada um, os seus sentimentos, são insondáveis, e o conhecimento dos seus débitos ou méritos só a Deus pertence.
Entretanto, se todos soubessem que um espírito, ao deixar o corpo pode ser auxiliado para compreender a sua nova condição, pode ser levado a postos ou colónias espirituais onde, pelo auxílio de irmãos abnegados, permitido por Deus, se refaz e começa uma nova vida, a de espírito liberto; trabalha, estuda, aprende e espera uma nova oportunidade terrena, seria mais fácil, haveria mais tranquilidade e mais cuidado com suas acções.
Infelizmente nem sempre é assim.
Nem todos têm condições de receber um auxílio desses, e outros, quando o auxílio chega, recusam-no.
Ou por entender que vão perder a liberdade e não desejam submeter-se à disciplina, ou para mais livremente perturbar aqueles que ficaram, principalmente se guardam no espírito algum ressentimento contra alguém e desejam ir à forra.
Há também aqueles que ainda não merecem receber ajuda e ficam perambulando como se ainda encarnados fossem, porque não têm condições de perceber que já perderam o corpo.
Muitos desses permanecem no próprio local em que viveram, sobretudo se eram apegados aos bens terrenos e deles não querem se afastar.
Outros há ainda que levam uma vida desregrada enquanto encarnados, e arrebanham para a sua companhia entidades infelizes com as quais se afinizam e que mais os estimulam à prática dos vícios.
Ao deixarem o corpo, juntam-se a eles para continuar a fazer o que sempre gostaram.
Há muitas facetas de vida para um espírito que deixa o corpo.
A cada um ocorre de um modo, conforme as suas tendências e o seu merecimento, mas todos estão sob os olhos do Pai.
O que acontece é para que eles possam reflectir no que fizeram, no que deixaram de fazer, assim que tiverem condições de compreender a sua nova situação pois, muitas vezes, não são apenas as acções praticadas que comprometem mas o que poderíamos fazer e não fizemos.
Ellen nem ninguém naquela casa tinha esses conhecimentos, explicados de forma bastante elementar como primeiro passo, para que compreendam; por isso, a presença entre eles de Thomas, depois de morto, conforme diziam, causava-lhes estranheza e medo.
Que não tivesse condições de ir para o céu, pensava Ellen, pelo desprezo que dera ao filho, mas também não merecia ir ao inferno porque sempre soubera manter as suas obrigações em relação à manutenção da casa e aos estudos de William. Poderia, porém, ir para o purgatório para onde vão aqueles que ainda não merecem o céu mas podem merecê-lo depois de purgarem os seus pecados.
Mas ficar no lar é que ele não poderia.
Aquele resto de noite Ellen não conseguiu mais dormir e já prenunciava muitas outras iguais àquela.
Os demais da casa, quando os ruídos cessaram, retornaram ao sono e tiveram o seu descanso.
E Ellen, o que faria pela manhã quando todos estivessem despertos?
Contaria o que vira?
Se o fizesse levar-lhes-ia muito medo, mas pelo menos William deveria saber.
Quando houvesse uma oportunidade em que estivessem a sós, ela lhe contaria.
Em relação aos encarnados, habitantes da casa, sabemos o que estava acontecendo, faltando apenas saber a reacção de William ao saber que o pai permanecia na casa ou retornara.
Mas, e quanto àquele espírito que deveria estar atormentado, o que poderemos dizer?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 79717
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 05, 2018 8:45 pm

10 - ACÇÃO NEFASTA
THOMAS, SURPREENDIDO TÃO REPENTINA e inesperadamente pela morte do corpo, ainda não sabia o que havia acontecido.
Naquela noite ele começara a sentir um mal-estar mas nunca imaginou que poderia ser a última que teria como encarnado.
Um mal do qual nunca supusera ser portador o surpreendeu, e seu espírito abandonou o corpo pela impossibilidade de seu coração continuar a trabalhar com regularidade, a mínima que fosse para poder manter a sua chama de vida.
Tudo fora muito repentino e ele, despreparado para aceitar ou entender o momento que passara, ainda continuava na casa.
Confuso e adormecido, permaneceu algum tempo e não percebeu quando entraram no seu quarto, retiraram o corpo e, dias depois, revistaram armários e gavetas bem como a sua roupa.
Há poucos dias despertara imaginando que estivesse acordando de uma noite de sono profundo, mas ainda confuso e encontrando seu quarto um tanto modificado pela retirada do armário que Ellen pretendia utilizar, ele não entendia o que estava se passando.
Falara muitas vezes com Ellen que nunca lhe respondeu, e, preocupado, não imaginava o que poderia estar acontecendo.
Ela sempre fora atenciosa para com ele e respeitava-o como seu patrão e senhor da casa, conquanto não concordasse com a sua atitude em relação ao filho.
Ele perdera a noção de noite e dia e andava pela casa.
Preferia caminhar por ela quando estava silenciosa e vazia de quem o incomodava, como o filho.
Por isso passaram a ouvir ruídos durante a noite e, às vezes, até algum gemido que nem ele tinha noção ou conhecimento de como o emitia.
Talvez fosse em algum momento que murmurava resmungando de alguma coisa que não entendia ou com a qual não concordava.
Thomas nunca fora ligado à religião alguma.
Nunca se preocupara em realizar nenhum aprendizado sobre a destinação do espírito na Terra e o que lhe acontecia quando a deixasse, e fora surpreendido de tal forma que ainda estava confuso.
Muito distante dali, a sua esposa, no seu recanto de aprendizado, trabalho, mas de muita paz, soubera da partida do marido e tinha conhecimento também de que ele ainda permanecia no lar e constantemente pedia autorização para auxiliá-lo.
Aqueles, porém, que têm uma visão mais ampliada porque abarcam algumas encarnações e penetram no mais recôndito dos sentimentos, ainda não permitiam porque não era o momento.
-Ele precisa entender o que está se passando, e se ninguém estiver com ele para explicar, até quando ficará ignorante da sua nova condição? - justificava-se Stella.
-Ficará o tempo necessário!
Ele poderá sair do lar, não tem necessidade de permanecer lá.
-O que faria ele fora do lar à mercê de entidades infelizes que lhe imporiam sofrimentos?
- Talvez o informassem do que se passou e ele começasse a reflectir em sua vida.
-Deixem-me estar com ele, esclarecê-lo, orientá-lo.
-Ainda não é o momento e a irmã deveria entender.
-Eu entendo as suas razões e considero-as necessárias ao seu espírito, mas não tenho paz.
-Nenhum dos filhos do Pai fica ao desamparo.
No momento certo ele será auxiliado.
Lembre-se de quantas vezes retornou ao seu lar para esclarecê-lo, para ajudá-lo e nunca foi ouvida.
Agora é a vez dele permanecer como está e ir analisando-se a si mesmo e a todos os que o rodeiam, e comece a perceber algumas diferenças, até entender que não pertence mais ao mundo dos encarnados.
-Ele terá que fazer isso por si mesmo?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 79717
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 05, 2018 8:45 pm

-É assim que deverá acontecer, irmã.
Não se preocupe!
No momento certo ele terá o auxílio permitido por nós, mas apenas quando o solicitar.
Se chegasse a seu lar agora, ele, ignorante da sua situação, poderia entender a sua visita como para convencê-lo em relação ao filho, não aceitar o que pudesse lhe esclarecer e ainda ser grosseiro.
Tudo neste mundo regido por leis que emanam do Pai, tem sua hora de acontecer.
Confie n'Ele, pois, e ore por seu marido para que o momento do seu entendimento chegue o mais rápido possível.
Nada mais podemos fazer por enquanto.
- Está bem!
Eu compreendo suas razões, mas pelos meus sentimentos de esposa que o amou muito, preocupo-me.
Todavia, seguirei seu aconselhamento, orarei por ele e serei submissa.
Quando tiver permissão para ir, serei obediente e farei o meu trabalho com muito amor.
JÁ TEMOS CONHECIMENTO DA reacção que causou a presença de Thomas-espírito no seu lar, tanto para Ellen quanto para Stella, mas falta-nos chegar até ele e sondar os seus sentimentos, os seus pensamentos dentro da sua nova condição.
Aproximando-nos dele, ficaremos atentos e captaremos o que desejamos.
Thomas estava em seu quarto, deitado em sua cama, mas desperto.
Sua mente confusa emitia muitos pensamentos ao mesmo tempo e, sem que os concluísse, passava de um para outro rapidamente.
Ele próprio não entendia o que estava se passando consigo.
Falava muitas vezes com Ellen que não lhe dava atenção e revoltava-se.
Afinal, ela era uma criada da casa, apesar de estar com eles há muitos anos e ter cuidado de seu filho, mas era uma serviçal assalariada e lhe devia submissão e obediência.
O filho quase não via mais no lar, porém, isso não o incomodava, pelo contrário, aliviava-o, mas, ao mesmo tempo, procurava imaginar onde ele estaria, uma vez que já havia concluído os seus estudos - disso ele lembrava bem.
Tudo o que se referisse ao filho ele retinha com muita intensidade, cujas lembranças, mesmo desejando retirá-las do seu íntimo, era impossível, como acontece connosco, às vezes, quando queremos nos libertar de um pensamento que nos incomoda, e com essa preocupação, mais pensamos nele.
Certa manhã, depois que Ellen já o havia visto no lar e andava amedrontada, ele levantou-se e surpreendeu o filho pronto para sair.
Era o que desejava.
Por que não segui-lo e verificar o que fazia, onde ia?
Pois assim o faria!
Andando após ele, depois que deixou a casa, foi seguindo-o.
Aquele percurso era-lhe muito familiar, até que chegaram em frente a um prédio que Thomas reconheceu, era o lugar onde trabalhava.
Sua mente confusa fez algumas indagações a si mesmo, principalmente sobre o que estaria acontecendo que ele reconhecia, há tempos não comparecia ao trabalho.
Sempre fora um funcionário exemplar e dedicado, por que se afastara do escritório?
Intrigado consigo mesmo e indagando-se também o que o filho estaria fazendo naquele local, entrou após ele.
Viu-o cumprimentar os companheiros que já haviam chegado, sobretudo o chefe, e encaminhar-se à sua mesa, aquela que era sua.
Sentou-se, abriu a gaveta, retirou dela alguns papéis e começou a trabalhar.
A revolta de Thomas foi muito grande e dirigiu-se ao filho com palavras duras, dizendo-lhe:
-Não bastava ter sido o causador da morte de sua mãe, agora me atraiçoa desta forma!
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 79717
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 05, 2018 8:45 pm

Esse lugar é meu, quem trabalha aqui sou eu!
Por mais falasse, ninguém lhe dava atenção.
Com a mesma intensidade, correu à mesa do chefe pedindo-lhe explicações, mas também não teve respostas.
Procurou alguns dos companheiros para saber o que estava acontecendo, e, da mesma forma, cada um se manteve calado realizando o seu trabalho.
Depois de algum tempo William levantou-se da sua mesa com alguns papéis na mão e foi à mesa do chefe trocar algumas ideias, aos olhos de Thomas que se colocou entre eles, ouvindo o que diziam.
Depois de algumas considerações para ver se o chefe concordava com ele em relação a um parecer, ouviu- -o responder:
-Você sabe que eu considerava muito seu pai e o tinha na conta de um óptimo profissional, mas vejo que você é muito melhor.
Thomas assustou-se com esse comentário.
Então ele é melhor que eu, por isso perdi o meu emprego?
- Tenho me esforçado muito mas ainda sou novato na profissão! - respondeu William.
-Seu pai, antes de morrer, deve tê-lo orientado bastante.
Deveriam conversar sempre, trocar ideias, por isso você é muito bom, mas está se revelando ainda melhor que ele.
Se antes Thomas havia se surpreendido com o comentário, agora estava mais confuso e assustado, e, levantando a voz, encaminhou-se ao seu antigo patrão vociferando:
-Eu não morri, o senhor é que me traiu tirando-me o lugar, dando-o a esse infeliz do meu filho!
E William, prosseguindo a conversa, ainda falou:
-Eu e papai quase não conversávamos, sobretudo a respeito do seu trabalho.
-Então vejo que você é melhor do que eu pensava!
-Tenho me esforçado.
-Pode finalizar o seu parecer conforme me expôs, que a causa está ganha.
Se Thomas até então apenas tivesse se dirigido a eles imaginando que estivesse vivo, agora sua acção seria muito diferente.
Revoltado pelo que ouvira e tendo entendido que estava "morto", mas sentindo-se vivo, com sua capacidade de locomoção e de reflexão perfeitas, para ele começaria uma nova vida.
Não a que deve ser de todos que desencarnam e precisam procurar um recanto de paz para se refazer, sobretudo quando ainda leva as sensações do sofrimento experimentado na Terra, para novos aprendizados e análises, mas a que lhe facilitaria a forra de tudo o que entendia, havia sofrido.
A perda da esposa pelo nascimento do filho e a presença constante daquela criança que fora culpada da solidão em que vivera.
Enfim, se como "vivo" tivera que conter seu ódio pelo filho, principalmente pela vigilância de Ellen, agora ele estaria totalmente livre.
Se falara com ela por diversas vezes e fora ignorado, agora entendia, era porque estava "morto", o que facilitaria a sua acção.
Poderia fazer o que quisesse que jamais ela o impediria nem desconfiaria que fosse ele, porque, afinal, estava morto e os mortos não agem.
Ah, como se sentia feliz por essa descoberta!
O seu filho seria a sua vítima e recairia sobre ele com toda a força da sua revolta, do seu ódio.
Se até o seu emprego ele tomara, o que não faria depois.
Assim pensando, aquela confusão mental da qual era acometido, desvaneceu-se e deu lugar á pensamentos lúcidos e coerentes, a raciocínios lógicos que lhe permitiam até a formulação de planos.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 79717
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 05, 2018 8:45 pm

Começaria ali mesmo.
No trabalho do filho é que daria início à sua acção.
Assim decidindo, aproximou-se da mesa que era sua e emitiu ao filho todo o ódio acumulado durante tantos anos, dizendo-lhe que ele era o culpado da morte da mãe, atormentando-lhe tanto a mente que ele não conseguia mais concentrar-se no trabalho.
William parou por instantes o que estava fazendo, comprimiu a cabeça com as mãos esperando com isso obter algum alívio, mas estava impossível.
-O que está acontecendo comigo, meu Deus? - indagou-se ele.
Comecei o meu trabalho sentindo-me bem, cheguei bem disposto.
As palavras que ouvi em relação ao meu trabalho e à minha capacidade estimularam-me a mais me esforçar e deixaram-me feliz.
O que houve comigo agora?
Por que de repente tudo mudou?
Não consigo concentrar-me e tenho a mente tomada pela presença de meu pai, como a tinha antigamente em que ele me olhava com rancor.
Agora papai está morto, nada me fará!
Uns instantes após estes pensamentos, ele retirou as mãos da cabeça, e, sentindo-se melhor, retomou o trabalho.
Assim que começou, nova investida do pai que lhe dizia:
-Além de assassino também é ladrão!
Matou a sua mãe e roubou-me o emprego!
Ah, como William recebia estas palavras!
Afectavam-lhe profundamente, retirando-lhe a paz, causando-lhe mal-estar, conquanto ele não as captasse conforme eram emitidas, mas captava o sentimento que elas traziam em si.
Aquele dia ele não conseguiu mais trabalhar.
Passadas algumas horas, sua cabeça atormentada doía muito e o seu trabalho foi abandonado.
Ele retornou à mesa do chefe, como o fizera há horas atrás, mas desta vez para desculpar-se:
-Sinto-me mal, pareceu-me que depois que conversamos, depois dos elogios que me fez, não consegui fazer mais nada.
Minha cabeça está atormentada por pensamentos desencontrados, dói muito e não pude concentrar-me no trabalho.
Se já não o conhecesse, se não soubesse da sua capacidade e esforço, diria que está pretendendo ir embora, por isso desculpa-se com mal-estar.
Eu compreendo, você deve estar doente.
Vá para casa, cuide-se e volte amanhã, refeito e bem disposto, que trabalho temos muito.
-Agradeço a sua compreensão apesar de que não vinha pedir para retirar-me, mas, como sugeriu, penso que é o melhor que tenho a fazer agora, para poder estar bem amanhã.
-Pois vá, que o seu trabalho o espera amanhã!
Com a compreensão de seu chefe, William! Rumou para casa, pretendendo tomar algum medicamento que aliviasse a sua dor de cabeça e o seu mal-estar geral.
Ellen estranhou a sua chegada antes do horário habitual e, quando ele contou o que sentiu, imediatamente mandou-o deitar-se que ela própria providenciaria o remédio e o levaria para ele.
William não habituado a enfermidades, sempre gozara de perfeita saúde, não entendia o porquê daqueles sintomas.
Ellen levou-lhe o medicamento, ele tomou, continuou deitado conforme ela o aconselhara, dizendo que à hora do jantar viria chamá-lo, mas de nada adiantou.
A dor de cabeça amenizou um pouco mas as sensações estranhas e inexplicáveis continuavam.
Thomas, desde que o filho deixara o escritório, acompanhara-o, e estava junto dele no quarto.
Era para ele, que nunca gostara do filho, muito desagradável ficar em sua companhia, mas, à simples lembrança de que junto dele poderia levar-lhe prejuízos, animava-o a prosseguir.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 79717
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 05, 2018 8:45 pm

A hora do jantar, Ellen foi chamá-lo, mas o jovem não tinha disposição para levantar-se, e, se ela ouvisse o que Thomas lhe dizia, saberia que nem na manhã seguinte levantar-se-ia para trabalhar.
- Quero ver quanto tempo esse seu emprego vai durar.
Patrão nenhum suporta empregado doente e que vive faltando.
Era o que ele pretendia e o faria.
Deixaria William acamado por alguns dias, quantos pudesse, até que o patrão, cansado de esperar o dispensaria e colocaria outro no seu lugar.
De fato, na manhã seguinte, depois de uma noite mal dormida, William não conseguiu se levantar.
Thomas estava feliz.
Não sabia que sua força, como Espírito liberto do corpo, fosse tão grande, chegando mesmo a pensar que se assim soubesse, quereria ter deixado este mundo de tristezas e crueldades, muito antes.
O que não pudera fazer ao filho enquanto encarnado, o faria agora, sem que ninguém o recriminasse, nem ele se revelasse diante de ninguém.
Ele não sabia, porém, que naquela casa, Ellen, a guardiã fiel de seu filho, era portadora de certas possibilidades, e já o havia visto pela casa, quando ruídos estranhos eram ouvidos, durante a noite.
Durante o dia, mesmo permanecendo no lar, ele nunca fora visto.
Talvez pela preocupação com seus afazeres, pela claridade que desvia o pensamento de "fantasmas", ela nunca o vira.
Dois dias passaram sem que William se sentisse disposto a voltar ao trabalho.
Ellen, preocupada pelo rumo que a sua enfermidade poderia tomar, não estava dormindo muito bem à noite, e, por algumas vezes, levantava-se e ia ao quarto do jovem para ver como ele estava passando, e se precisava de alguma coisa.
Numa das vezes que empurrou a porta para entrar, foi surpreendida por uma visão que a assustou muito.
Próximo ao leito do jovem ela pôde visualizar Thomas com a mão na fronte do filho, mas não imaginou o que poderia estar ocorrendo.
Ela voltou imediatamente para o seu quarto, deitou- -se assustada, e não dormiu mais.
O que quereria o senhor Thomas ali junto do filho?
Estaria ele transmitindo-lhe alguma coisa boa para que ele melhorasse?
Se ela tivesse a possibilidade de visualizar as coisas espirituais de forma mais profunda e intensa, veria que, enquanto retinha a mão na fronte dele, da sua mente saíam, emitidos por ele, filamentos negros que atingiam intensamente o filho, justamente para que piorasse mais.
De fato, pela manhã, William sentiu-se pior.
Quando Ellen foi ao seu quarto e encontrou-o em piores condições, lembrou-se do que vira e concluiu o que deveria ter acontecido.
Jamais ele se importaria em assistir o filho para ajudá-lo a se recompor. O que pretendia era fazê-lo piorar para não ter condições de trabalhar.
Vendo-o naquele estado, ela indagou o que estava sentindo.
-Uma sensação terrível em minha cabeça.
Há momentos que não consigo formular um pensamento equilibrado, tão estranho me sinto.
-Até agora não quis que chamássemos um médico, mas de hoje não passará!
Até quando ficará nessa cama?
Quando imaginamos que vai melhorar e levantar-se para retornar ao trabalho, você piora!
Algum remédio mais adequado ao que sente, o médico deverá prescrever e logo estará curado.
-Faça como achar melhor, pois já estou cansado de ficar aqui.
Preciso trabalhar.
-Hoje mesmo, meu querido, eu o chamarei.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 79717
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 05, 2018 8:46 pm

Quero vê-lo pela casa novamente, desempenhando o seu trabalho no escritório, quero que volte à sua vida normal.
O médico foi chamado, os sintomas explicados, mas nenhuma enfermidade das que ele tratava identificou- -se com as sensações expostas.
Era um caso muito estranho, pois quando ele pensou que poderia chegar a um diagnóstico correto, pela exposição dos sintomas, outro estranho sê interpunha, anulando qualquer diagnóstico.
Sem ter como explicar o que o jovem tinha, ele prescreveu um medicamento para não dizer que nada fizera, e retirou-se, mas sabia que de nada adiantaria.
O medicamento foi providenciado e tomado por William, mas tudo continuou na mesma.
Ellen, cuidadosa e preocupada com o que poderia estar acontecendo, tomou uma decisão e comunicou a William:
-Esta noite eu ficarei com você neste quarto.
Quero velar pelo seu sono, para que durma tranquilo e acorde melhor.
-Não há necessidade!
Você precisa ter um bom repouso porque trabalha muito durante o dia.
- Nenhum trabalho é tão importante quanto você.
Quando sarar cuidarei de tudo melhor.
Por enquanto faço apenas o essencial.
ELLEN ESTAVA PREPARADA PARA ajudar, só não sabia como.
Ela imaginava que só a sua presença seria suficiente para afastar Thomas do quarto do filho, mas não sabia, porém, que ele, já de posse do conhecimento de que deixara o corpo e vivia em espírito, nunca poderia imaginar que alguém o visse.
Se antes desse conhecimento falara com Ellen e não fora visto nem ouvido, por que o seria agora?
E se o visse, o que poderia fazer contra ele?
Ninguém poderia fazer nada, e ele faria o que quisesse.
Seu filho ficaria doente, cada vez mais, até perder o emprego e, depois, pensaria em como continuar.
Aquela noite, conforme se dispusera, Ellen providenciou para passar no quarto de William, que ela considerava também como filho pelo carinho que lhe dispensava, mais ainda que aos seus próprios, por compreender que a necessidade dele de afecto era muito maior.
Depois de lhe levar um chá, de dar-lhe o medicamento, e mesmo sob a recusa dele que se sentia constrangido com tanta preocupação da parte dela, ela deitou-se no colchão que havia colocado ao chão, um tanto afastado da cama dele, para poder observar melhor.
O quanto suportasse, queria ficar bem desperta.
O seu cansaço era grande pelas lides do dia, mas mantinha-se atenta.
Entretanto, passadas umas poucas horas de resistência contra o sono, ela não conseguiu controlar-se mais e adormeceu.
A preocupação, porém, não deixou-a dormir por muito tempo e logo despertou, olhando para o leito de William.
Qual não foi a sua surpresa quando se deparou com a mesma cena já visualizada na noite anterior.
Thomas-espírito estava à cabeceira da cama do filho com a mão em sua fronte, só não via nem sabia o que ele emitia.
Entretanto, pelo resultado da noite anterior, não poderia ser nada bom, por ele ter piorado.
Mesmo assustada e com medo, levantou-se rapidamente, e, chegando ao leito do jovem, chamou-o despertando-o.
Thomas vendo a acção de Ellen, surpreendeu-se, desejando saber o que ela quereria do seu filho.
Interrompeu o que fazia e ficou observando.
William despertou, lamentando ter sido acordado quando repousava tão bem.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 79717
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 05, 2018 8:46 pm

Ela, para justificar-se, disse-lhe:
-Tive a impressão de ouvi-lo gemer, meu querido!
Como está se sentindo?
-Agora que acordei, muito mal, Ellen!
Dormindo, pelo menos, desligava-me dos meus problemas.
-Você dormirá novamente!
Ah, como gostaria de poder falar directamente ao senhor Thomas, expulsando-o daquele quarto para que William pudesse repousar tranquilo.
Se ele dormisse novamente, ela não poderia tornar a chamá-lo sem lhe dar algumas explicações que, se lhas desse, seria pior.
A situação era preocupante, mas nada poderia fazer de imediato.
Ajeitou as cobertas do enfermo e pediu que ele não se preocupasse e procurasse dormir novamente.
-Eu estarei velando por você - tranquilizou-o ela.
-Se eu dormir, não me chame mais. Deixe-me afastar do mal-estar que sinto, pelo sono.
-Eu não o farei mais!
Você sabe que desejo apenas o seu bem e quero que se cure o mais rápido possível.
Thomas, meio recuado, mas presente, ouviu tudo o que conversaram e não se importou, porque ele mesmo faria com que o filho dormisse para continuar a sua acção interrompida por Ellen.
Jamais ele imaginou que estava sendo visto por ela.
Em pouco tempo William dormiu novamente e Thomas viu Ellen ainda ao lado do leito dele, colocar a mão na fronte do jovem e orar.
Orou muito a Deus para que o protegesse do perigo que estava passando nas mãos do pai que o odiava, mas que seu filho era bom e não merecia.
Pediu-Lhe com fervor para retirar daquele lar o espírito Thomas que estava prejudicando a recuperação do filho, fazendo-o pior a cada dia.
Por suas palavras, não pronunciadas, mas formuladas no seu pensamento e percebidas por Thomas, ele concluiu que Ellen o via.
Por isso se colocara no quarto dele pretendendo protegê-lo como fizera a sua vida inteira, e agora desejava impedir que se aproximasse.
- Ela não aguentará ficar aqui o tempo todo.
Sobrará muito tempo para mim.
Vou retirar-me para dar a impressão de que suas palavras foram ouvidas por Deus que me afastou dele, e logo mais, quando ela estiver tranquila e despreocupada, deixará William e também dormirá.
Ela não suportará por muito tempo.
De facto ele fez o que imaginara.
Depois de algum tempo ela percebeu que ele não estava mais no quarto, terminou suas orações agradecendo a Deus a graça que recebera e voltou para o seu colchão a fim de repousar um pouco, mas com a intenção de ficar atenta para ver o que aconteceria.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 79717
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 05, 2018 8:46 pm

11 - RECURSOS ESPIRITUAIS
AH, BOA E DEDICADA Ellen que se esforçava para auxiliar o seu menino, aquele que, não sendo seu filho, tivera-o nos braços desde poucas horas do seu nascimento, e amava-o como se fora seu próprio.
Esforçava-se para ajudá-lo mas suas possibilidades eram limitadas.
Por mais fizesse, por mais se sacrificasse dedicando-se a ele, as possibilidades do desencarnado são muito maiores e impossíveis de serem contidas, se não tiver a ajuda de outras abnegadas entidades do Mundo Espiritual que dedicam seu tempo a auxiliar os que necessitam.
Ellen, porém, de nada disso sabia.
O que fazia era orar e aqueles que oram com o coração, expondo as suas necessidades, o seu pedido sempre tem receptividade e o auxílio chega, permitido por Deus.
Naquela manhã, William despertou sem melhoras mas também não havia piorado.
De alguma valia fora o sacrifício de Ellen e ela continuaria, o quanto pudesse, a impedir que o senhor Thomas prejudicasse o filho.
Nem sempre ela poderia estar junto dele em todas as horas do dia, pelas obrigações domésticas, mas, no que lhe fosse possível, estaria atenta.
No entanto, mesmo que não estivesse no seu quarto, nada impedia que orasse e orasse muito, rogando a Deus que levasse o senhor Thomas do lar, para que tivesse uma nova vida dentro das suas condições atuais de espírito liberto do corpo e pudesse ser feliz, talvez a felicidade que não tivera enquanto encarnado.
Da retirada dele daquele lar dependeria também o bem-estar físico de William, que não merecia ser assediado tão intensamente pelo pai depois do que já sofrera em toda a sua vida.
Tanto pediu e orou que suas orações, com um pedido de socorro, chegaram àquela que pusera no mundo o filho tão aguardado, mas que não pudera criá-lo, e ela assustou-se.
Não lhe fora permitido ainda saber o que acontecera a Thomas, por isso o apelo de Ellen preocupou-a.
Sentindo, sem precisar o que fosse, que no seu lar terreno algum problema muito sério deveria estar ocorrendo, ela procurou um seu superior.
Expôs o que estava sentindo, pedindo autorização para visitá-lo.
- Querida irmã, é muito natural que se preocupe com os entes queridos que deixou na Terra, mas eles não estão ao desamparo, e o que está ocorrendo lá, durante estes dias, era necessário.
- Não compreendo!
O que está acontecendo de tão grave?
Sinto que sou necessária lá, mas não sei por quê.
- Eu explicarei.
A senhora sabe que cada um tem seu tempo limitado na Terra, de acordo com as suas necessidades reencarnatórias dentro da programação que leva.
-Sim, eu sei, irmão!
Ninguém melhor que eu para saber disso que fui retirada do meu lar num momento em que era tão necessária ao meu filho.
-No entanto sabe que era o que deveria acontecer.
-Sei, irmão, e não reclamo, apenas desejo saber o que está ocorrendo lá!
-Seu marido há algum tempo, há cerca de dois meses, também deixou o corpo, mas não deixou o lar.
Seu espírito permanece lá e, pelos sentimentos que experimentava em relação ao filho, ele o tem prejudicado.
Por isso sentiu o apelo que veio justamente daquela que vive no seu lar, que criou seu filho.
Ela, por uma possibilidade que levou, tem visto Thomas pela casa e já o surpreendeu junto do filho tentando prejudicá-lo e tem conseguido.
O jovem encontra-se enfermo sem que o médico chamado tivesse conseguido explicar os sintomas que ele apresenta, e Ellen concluiu que só pode ser pela influência de Thomas, que considera prejudicial a seu filho.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 79717
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 05, 2018 8:46 pm

-Pois ela tem razão!
Ah, quanto devo à boa Ellen!
O irmão deve lembrar-se do quanto me empenhei há anos atrás para que Thomas mudasse sua atitude em relação ao filho e não consegui.
-Ele precisou inculpar alguém pela sua perda, e o filho foi a sua vítima.
Todavia, a senhora sabe que o que cada um sofre na Terra, ou faz parte dos resgates que deve realizar, ou, se não faz parte, é aproveitado da mesma forma para isso, além do aprendizado que o sofrimento facilita a cada um.
-Eu sei, irmão, mas era-me penoso ver meu filho tão desprezado pelo pai.
-O que a senhora deseja quanto ao que veio expor-me?
-Que me permita ir ao meu lar e verificar de perto o que está acontecendo para poder ajudar, tanto meu filho quanto Thomas.
-Essa não é uma tarefa que possa realizar sozinha.
Já conhece bem o seu marido para saber o quanto será difícil.
-Mas não impossível!
-Eu permitirei que vá, mas deve levar mais alguns companheiros para ajudá-la.
-Eu o farei conforme me aconselha, mas não dispenso também a ajuda que puderem me dar daqui, para que sejamos bem-sucedidos nessa tarefa que se me apresenta difícil.
-Pode preparar a sua ida que tem todo o nosso apoio.
Eu mesmo determinarei três irmãos nossos habituados a tarefas difíceis na Terra.
Eles levarão a orientação de como deverão agir e, quando conseguirem retirar Thomas do seu lar, o trarão para cá e aí começará para ele um novo período em que, na hora certa, ele terá muitos esclarecimentos.
A PARTIR DAQUELE MOMENTO, o pensamento da pobre mãe aflita pelo filho e pelo marido, ocupou-se somente com a preparação para a sua vinda.
Ela realizava actividades de auxílio, e o seu tempo livre, utilizava-o em orações, pedindo a Deus a sua protecção para a tarefa que viriam realizar, a fim de que fossem bem-sucedidos, tanto na recuperação da saúde do filho quanto no trabalho que fariam com Thomas.
Ela sabia o quanto ele fora pertinaz, enquanto encarnado, e, por mais tivesse se esforçado para fazê-lo aceitar o filho, nunca conseguira.
Que ele não quisesse aproximar-se dele pelas convicções erróneas que abrigara em seu espírito, era imperdoável mas compreensível dentro do entendimento dele.
Porém, o que realizava agora, além de imperdoável era incompreensível.
Como ele poderia prejudicar daquela forma o ser que colocara no mundo como uma extensão da sua própria vida?
Era inadmissível o que fazia, por isso ela lutaria com todas as suas forças, agora de espírito para espírito, ambos desencarnados, o quanto fosse necessário, e não deixaria o seu antigo lar enquanto não retirasse Thomas de lá, e enquanto seu filho não tivesse recuperado a saúde.
A tarefa seria difícil, mas confiava nos benfeitores espirituais, que, com a permissão de Deus, se empenhariam com os recursos que trariam.
Com certeza algum argumento forte e eficaz seria utilizado para convencê-lo, e como sabemos que nesta vida de espírito imortal tantas jornadas terrenas já tivemos, tantos erros praticamos, tantos compromissos assumimos, algum ponto, mesmo trazido desse passado, poderia ser eficaz.
Sabemos que aqueles com os quais convivemos, na sua maioria, são afectos ou desafectos do passado, que prometemos auxiliar para nos redimirmos de actos que os prejudicaram.
Assim sendo, poderia haver, em algum tempo do passado, alguma oportunidade em que Thomas e William da recente encarnação estiveram juntos e que um já seria devedor do outro, nessa imensa cadeia de elos que envolve a todos.
Ela não estava de todo errada e era por isso que o seu superior determinara que três companheiros a acompanhassem, trazendo informações e recursos que poderiam convencê-lo, mas dos quais ela ainda não tinha conhecimento.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 79717
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 05, 2018 8:46 pm

Três dias ainda demorou até que tudo estivesse preparado para a vinda em auxílio àqueles dois entes queridos.
Ela tomara conhecimento de quem a acompanharia, estiveram em reunião para algumas providências e directrizes, mas nada eles revelaram do que fariam.
Enquanto isso, na casa terrena em que vivera e onde deixara o filho e o marido, continuava como antes.
Ellen, com as armas e a força que possuía, lutava para impedir que Thomas se aproximasse de William, mas nem sempre conseguia.
Às vezes ele parecia melhorar, de outras recaía novamente no seu estado anterior e inexplicável à ciência médica.
O chefe do escritório onde o jovem causídico trabalhava, tinha conhecimento de que o seu mais recente contratado e com prognósticos de um grande futuro na profissão, estava enfermo e preocupava-se, mas o aceitaria de volta assim que se
recuperasse.
William era forte e não se deixaria abater por muito tempo mais.
Logo reagiria de alguma forma e tudo voltaria à rotina normal.
Ele não sabia o que se passava nem ninguém, a não ser Ellen, mas nem mesmo ela tinha meios de fazer Thomas retirar-se de lá, por isso orava e orava muito, e era pelas suas orações que o auxílio estava sendo preparado e chegaria a seguir.
Quando os quatro entraram no lar de William, Stella foi imediatamente procurar o filho em seu quarto e encontrou-o sentindo-se mal, e já desanimado de que pudesse ainda se recuperar, retomar o seu trabalho, retornando à vida.
Naquele momento Thomas não se encontrava junto dele e Ellen saía depois de ter lhe levado uma refeição leve que ele recusara comer.
Stella abraçou-a e deu-lhe um beijo de gratidão, e lágrimas rolaram de seus olhos, comovida por tudo o que a boa senhora fazia pelo seu filho.
Ellen não a viu, mas sentiu uma sensação muito agradável e uma esperança nova e promissora adentrou o seu coração, justamente ela que se afastara do leito do jovem tão entristecida.
Ela parou à porta, olhou para trás e, dirigindo-se a William, falou-lhe:
- Não sei o que é nem por quê, mas sinto que você irá começar a se recuperar.
William não deu resposta pois não entendia como Ellen podia lhe dizer aquelas palavras quando nada sentia de melhora.
Nem o alimento conseguira ingerir, mas levou suas palavras à conta do amor que ela lhe dedicava, para que não desanimasse e mantivesse também a esperança que sempre ajuda na recuperação e reequilíbrio dos que se encontram enfermos ou em situação difícil.
Stella achegou-se ao leito, penalizada por ver o filho no estado em que se encontrava;
Como poderia, um rapaz forte e cheio de vida, ficar tão enfermo apenas pela influência demolidora do pai?
Mas ainda era tempo! Há; com o seu amor, com o trabalho dos companheiros que trouxera e com a permissão do Pai que não deseja ver seus filhos sofrerem e lhes proporciona a oportunidade do auxílio, o levantariam novamente e o colocariam em condições de retornar à vida, com tudo o que podia lhe oferecer para que ele também cumprisse a sua programação de vida.
Sem perda de tempo, ela abaixou-se, depositou um beijo em seu rosto e depois, colocando a mão em sua fronte, pediu a Deus ardentemente que os ajudasse a ajudar o seu querido filho.
Dois dos que a acompanharam entraram no quarto, postaram-se do outro lado do leito e, percebendo a prece que ela fazia, acompanharam-na também, enquanto lhe transmitiam um passe para desfazer todos os fluidos deletérios que ele acumulava, emitidos pelo pai.
Aos poucos foram verificando que as névoas escuras iam se dissipando e deixando-o livre das impurezas que o envolviam.
Em seguida os três transmitiram-lhe energias espirituais para que seu físico se revigorasse, e perceberam que o jovem começou a sentir um leve bem-estar sem saber de onde vinha.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 79717
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 06, 2018 8:08 pm

Muito ainda faltava para que se recuperasse completamente, mas o caminho era aquele.
Se ali estavam para auxiliar, o auxílio lhe seria prestado e, em poucos dias, o poriam de pé e pronto para retomar o seu trabalho.
O empenho maior, porém, era o que seria realizado com Thomas.
Sempre um dos três estaria junto de William como seu guardião, para impedir que ele agisse sobre o filho.
Os outros, na medida da necessidade, estariam com Thomas para convencê-lo a deixar a casa, porque, junto do filho, ele nada mais faria.
Ele permanecia em seu quarto e ainda não visitara o filho, o que fazia a altas horas da noite.
Um dos três que acompanharam Stella e que não estivera no quarto do jovem, ocupava-se dele.
Tão obcecado estava nos seus propósitos de destruir o filho que não o havia visto nem tinha ainda condições de ver entidades mais elevadas, pelos sentimentos sombrios que abrigava.
No entanto ele ali estava como seu guardião e o impediria de prosseguir no seu trabalho.
Os outros dois, deixando Stella junto do filho, foram se reunir àquele que estava com Thomas.
Ele permanecia deitado em sua cama, mas seu pensamento era o filho.
-Logo conseguirei o que desejo e aquele que desgraçou a minha vida terá o que merece.
Não prejudicará mais ninguém porque nada mais fará.
O trabalho que era meu, cujo lugar ele ocupa, ficará novamente vago.
Se não conseguir trazê-lo para o meu lado, tão aniquilado ficará que não trabalhará mais.
Apreendendo estes pensamentos, um deles aproximou-se mais, falando-lhe:
-O irmão está enganado!
Nada mais conseguirá junto do seu filho porque aqui estamos para protegê-lo; não só a ele mas a você também, que não vê mais nada senão o seu desejo de destruir, justamente o ser que deveria ter recebido de você todo o amor que um pai deve a um filho, ainda mais que não tinha mãe.
-Quem me fala dessa maneira e parece conhecer a minha vida?
Se sabe tanto deveria saber que ele não tinha mãe porque ele mesmo a matou, privando-me também da minha querida esposa.
-Você não sabe o que diz!
-Quem não sabe é essa voz que me fala e não vejo quem a emite.
-Se não me vê é justamente pelas condições em que vive, pelos sentimentos que abriga em seu coração.
Mude de atitude, peça perdão a Deus pelo que tem feito que sua vida mudará!
- Quem é você para me ditar ordens?
Faço o que quero, estou em minha casa e ninguém manda em mim.
Vá embora, não perca tempo comigo.
-Saiba que esta casa não é mais o lugar onde deve estar.
Quem já deixou o corpo precisa procurar a própria vida, com propósitos benéficos ao espírito, para poder reequilibrar-se e recomeçar uma etapa diferente, a de espírito liberto do corpo, tão ampla de possibilidades, de aprendizado e de trabalho dignificante e redentor.
Antes que ele desse resposta, vendo que o filho estava bem, descansando tranquilo, e que Thomas estava sendo vigiado, Stella foi se reunir aos companheiros.
Ouvindo o que acabaram de dizer, ela mesma, aproximando-se de Thomas, falou-lhe:
-Também estou aqui, meu querido, e não viemos para perder tempo, mas para trabalhar muito.
William, nosso filho, está doente por sua causa, pelo que lhe tem feito e viemos para proteger a ambos.
A ele para que se recupere e a você para que não se aproxime mais dele, tentando prejudicá-lo como o vem fazendo, pois está prejudicando a si próprio.
-Pois torno a repetir:
- Não percam seu tempo!
-Não é possível que você não tenha entendido ainda que aqui não viemos a passeio nem para perder nosso tempo que é precioso.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 79717
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 06, 2018 8:09 pm

Precisamos sempre ajudar a tantos que esperam o nosso auxílio, para que tenham um alívio dos inales que sentem e reencontrem o caminho que os faça feliz - falou um dos companheiros de Stella.
-Pois ocupem-se desses, então, e deixem-me em paz!
-No momento é de você que estamos nos ocupando e vamos lhe dar paz, sim, mas não essa na qual pensa, mas a verdadeira paz que é resultado das acções nobres e da consciência tranquila.
-Até quando terei que ouvir o que me dizem?
Não vejo ninguém, nem mesmo Stella, não sei quantos são, mas sei que me aborrecem.
-Se quiser nos ver é muito fácil.
Se quiser ver Stella a quem disse que tanto amou, também não será difícil.
Basta que eleve seu pensamento a Deus, peça-Lhe perdão pelo que tem feito, que novos caminhos se lhe abrirão, e você começará por nos ver.
-Não me interessa nada do que me dizem, estou em minha casa e daqui não sairei.
-Não nos obrigue a nos utilizarmos de recursos outros dos quais talvez não gostará.
Stella, vendo tanta pertinácia do marido, sabia que não seria diferente.
E desejando fazer uma nova tentativa para, quem sabe, comover o seu coração, pediu aos outros que aguardassem que ela lhe falaria, apelando para antigos sentimentos e esperanças.
-Ah, meu querido, quantas recordações agradáveis que sensibilizam o meu coração este quarto me traz!
Por isso quero ver em você aquele mesmo que eu amava, aquele que ficou feliz quando lhe revelei que esperava um filho, aquele que esperou dia a dia, mês a mês, que ele se formasse e seu corpinho estivesse preparado para vir à luz.
Lembra-se das esperanças que tínhamos?
- Justamente por causa dessas esperanças que se viram frustradas, foi que meu coração se modificou.
Por causa dele você partiu da minha companhia.
-Era o que deveria ser, agora eu o sei.
Se não fosse por ele seria por outra razão!
Mas Deus, para que você não ficasse tão só, aproveitou a vinda dele para me levar, deixando-o no meu lugar, para o seu consolo, para que você direccionasse a ele o amor que me dedicava.
- O amor que lhe dedicava era só seu e não ia transferi-lo para ninguém, muito menos para aquele que foi o culpado da sua morte.
-Eu já expliquei que nada foi como você pensa.
- Não adianta falar mais nada.
Ele terá que pagar o que me fez, e agora chegou a hora.
Se me controlei a vida toda nada fazendo contra ele, agora ninguém me impedirá.
-Vejo que de nada adianta continuarmos esta nossa conversa.
Com certeza teremos novos meios para chegarmos ao fim que desejamos, e não descansaremos enquanto não o levarmos daqui.
-Se fizermos o que estamos pensando e que só utilizaremos como último recurso, você mesmo pedirá para que o retirem daqui, mas irá levando um grande sofrimento, o sofrimento do remorso que é sempre muito cruel.
-Façam o que fizerem, nada me comoverá.
Agora me deixem que preciso fazer uma visita a William.
Quero ver como está e ajudá-lo a piorar um pouco mais.
-Engano seu, meu irmão!
Nada mais do que fizer atingirá seu filho.
Estamos aqui para protegê-lo e ajudá-lo também.
Se não quer a nossa ajuda, o impediremos de se aproximar dele, e, se se aproximar, nada conseguirá, porque nulificaremos tudo o que lhe transmitir.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 79717
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 06, 2018 8:09 pm

A prova disso é que em poucos dias ele estará deixando o leito, tão bem se sentirá, e logo depois retornará ao trabalho retomando a sua vida.
-Esperarei para ver!
-Pois vá até ele agora!
Queremos ver o que conseguirá!
Thomas que apenas ouvia sem ver ninguém, levantou-se entendendo que seria muito fácil, e dirigiu-se ao quarto do filho.
Eles apressaram-se em postar-se junto do leito de William e aguardaram-no chegar.
Ele entrou como o fazia sempre.
Ellen ainda dormia no quarto dele e não percebeu a sua entrada.
Colocando-se à cabeceira do leito do filho ele tentou pôr a mão em sua cabeça, mas teve-a paralisada antes de chegar ao lugar que pretendia.
Por mais forçasse, não conseguia nem levantá-la para recomeçar a sua acção, nem abaixá-la para completar o ato.
Depois de algum tempo em que assim permaneceu forçando, ele conseguiu voltar-se e deixou o quarto.
Os que estavam junto do jovem aproveitaram para transmitir-lhe mais energias através do passe reconfortante, esperançosos de que, pela manhã, ele despertaria bem mais disposto para surpresa de Ellen, que se sentiria feliz e atribuiria à sua presença vigilante no quarto que impedira a actuação de Thomas.
Isso não tinha importância.
O importante era que William se recuperasse e depois ela ficaria sabendo o que estava ocorrendo na casa, porque Stella se apresentaria a ela para lhe contar e também para agradecer tudo o que tinha feito e estava fazendo para seu filho.
Depois do passe Stella permaneceu ao lado do filho, enquanto os outros três foram ao encontro de Thomas.
William dormia, o pai, com certeza, não retornaria vendo a sua tentativa infrutífera, mas Stella quis ficar em companhia dele.
Enquanto isso os três retornaram ao quarto, encontraram Thomas nervoso, irritado por ver seu objectivo frustrado, mas ele acreditava que ainda o conseguiria.
Fora mal-sucedido, mas ainda teria outras oportunidades.
Eles falaram-lhe fazendo-o ver que tinham condições de impedi-lo, mas ele não aceitava, respondendo que ainda venceria.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 79717
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 06, 2018 8:09 pm

12 - ACEITAÇÃO
A NOITE DISSIPOU SUAS sombras e as claridades foram tomando o seu lugar até que se instalaram por completo, e Ellen acordou.
O cansaço do dia lhe proporcionara um bom repouso e, quando viu a manhã clara, assustou-se, recriminando a si própria por ter dormido tanto e descuidado do objectivo primeiro que era velar por William.
Imediatamente ergueu-se do seu colchão com os olhos voltados para o leito do jovem e teve uma surpresa.
- Ele também despertava sentindo-se bem e, vendo a boa Ellen, disse-lhe:
-Dormi a noite toda e acordei com vontade de alimentar-me.
Sinto-me melhor e agora estou esperançoso de que ficarei bom.
-Graças a Deus, meu menino querido!
Ele ouviu as minhas preces, pois tenho pedido tanto pela sua saúde.
Vou imediatamente buscar o seu dejejum com tudo o que gosta.
-Também não precisa tanto assim!
Ellen nem ouviu a sua resposta porque já estava longe, tão apressada saiu para que ele não se arrependesse de ter manifestado o desejo de se alimentar.
Em pouco tempo voltou trazendo-lhe uma bandeja com algumas guloseimas de que ele gostava, mas ele se satisfez apenas com um copo de leite e era um bom começo.
-Se não quer mais nada, logo lhe trarei mais alguma coisa.
Quem sabe agora, em pouco tempo, você poderá deixar esse leito.
Stella, ouvindo estas palavras, disse de si para consigo:
-Em pouco tempo, filho!
De hoje em diante suas melhoras se farão sentir dia a dia, e, em breve, você voltará a ser o mesmo jovem forte e belo.
Em nada William parecia com Thomas, a não ser no porte elegante e forte de quando ela o conhecera, mas os traços do rosto tinham muito dos dela. Ele era um belo rapaz.
Feliz, ela deixou o quarto e, antes de se reunir com os companheiros que se ocupavam de Thomas, foi à cozinha levar o seu abraço a Ellen, estimulando-a a prosseguir cuidando tão bem do seu filho.
Sem saber o que estava acontecendo, Ellen sentiu um bem-estar e uma alegria interior que há muito não sentia, e que atribuiu à melhora do seu querido menino.
No quarto de Thomas, a situação em nada se modificara.
Ainda ele estava irritado por sua frustração e por ser obrigado a ouvir o que lhe diziam.
Bem que ele tentara deixar o quarto e ir para algum lugar onde pudesse estar só consigo mesmo, sem a companhia incómoda dos que lhe falavam tanto, mas assim como fora impedido de agir sobre o filho, não conseguia sair, e mais revoltado ficava.
Num momento de irritação maior ele acabou por gritar:
-Afinal, o que querem de mim?
Quem são vocês que não me dão paz?
-O que queremos você já sabe, não há necessidade de repetir; e quanto a não lhe dar paz, engana-se, porque é justamente o que queremos lhe proporcionar.
Muita paz, a paz de um coração tranquilo que não tem ódio nem persegue ninguém ocasionando-lhe mal.
-Nesses meus propósitos, não admito interferência de ninguém.
-Nem de Stella?
-Stella não é mais aquela que amei e por quem chorei a minha vida toda.
Ela também está contra mim!
-Ela o ama muito, preocupa-se com você por isso aqui estamos, mas preocupa-se também com o filho que ama tanto.
-Não consigo entender como o ama se por causa dele ela teve que partir.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 79717
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 06, 2018 8:09 pm

-Apenas porque compreende os desígnios de Deus, submete-se a eles sem reclamar.
Ela sabe que era a sua hora, e, não fosse por William, seria de outra forma.
Você é que deveria entender, que já lhe foi explicado muitas vezes...
-Ainda mais agora que também não tem seu corpo e deveria procurar a sua própria vida que é a do espírito, aceitando o oferecimento que lhe fazemos, esquecendo rancores infundados, para recomeçar - explicou um dos outros.
-Nada disso me interessa.
Se não me deixarem mais me aproximar de William, também não me terão.
Estou na minha casa e daqui não sairei.
-Esperemos mais alguns dias e queremos ver se a sua postura será a mesma. Temos recursos para fazê-lo modificar-se se ainda restar em si um pouco de sentimento.
-De que fala?
-No momento certo saberá!
DEIXANDO THOMAS ENTREGUE A si mesmo, os três, acompanhados por Stella, retiraram-se para poder confabular em paz.
Antes que o que tinha a liderança do grupo se manifestasse, Stella comunicou-lhes que William já havia despertado, tomara um pouco de leite e sentia-se mais animado, completando:
-Isto, para mim, é o mais importante de tudo!
-Concordo que seja importante para o momento, porque encontramos uma situação difícil e precisávamos reerguer o rapaz.
Porém, para o futuro, para que permaneçam em paz, é necessário que retiremos Thomas desta casa.
Nós não podemos permanecer aqui indefinidamente, impedindo a sua acção, até que ele resolva se retirar por sua própria vontade.
-Temos muito o que fazer e somos necessários em outros locais, para atender outras necessidades igualmente importantes - considerou um deles.
-Se assim é, e compreendo que não pode ser diferente, o que faremos?
Entendo que não podemos ficar à disposição da vontade de Thomas que parece brincar connosco.
-Trouxemos um recurso muito importante que deverá ser utilizado, se nada mais nos restar.
-Que recurso é esse?
- Esperemos ainda mais alguns dias.
Agora que William começa a melhorar, pode ser que desanime e queira aceitar o nosso oferecimento,
-Não acredito muito! - tornou Stella.
Thomas é persistente e quererá esperar novas oportunidades.
Ele não se dará por vencido mesmo que William se restabeleça totalmente.
-Continuemos tentando!
O que fazer, já sabemos...
-Eu vou para junto de meu filho!
Quero acompanhar o seu restabelecimento e estimular nele a força de vontade e a coragem, que contribuirão para que se recupere mais rapidamente.
-Nós a acompanharemos e lhe transmitiremos novo passe de energias, que o ajudará ainda mais.
William estava desperto e esperançoso.
Desde que enfermara, nunca se sentira como naquela manhã.
Até Ellen estava feliz e mais lépida em suas actividades e, constantemente, entre meio a um trabalho e outro, ou mesmo deixando uma obrigação pela metade, visitava o jovem desejando vê-lo cada vez melhor.
O passe foi transmitido, ele sentiu-se mais revigorado e, em uma das vezes que Ellen entrou no quarto, pediu que o ajudasse com o travesseiro que ele queria recostar-se um pouco na cabeceira da cama.
Feliz, ela ajeitou o travesseiro, colocou mais um para lhe dar mais apoio, e ele ficou algum tempo assim.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 79717
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Conteúdo patrocinado


Conteúdo patrocinado


Voltar ao Topo Ir em baixo

Página 3 de 5 Anterior  1, 2, 3, 4, 5  Seguinte

Voltar ao Topo


 
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum