Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

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Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 06, 2018 8:09 pm

Em seguida levou-lhe mais algum alimento que ele tomou com vontade.
-Será, Ellen, que amanhã já terei condições de levantar-me?
-Queira Deus que sim, mesmo que seja por um pouco.
Uma caminhada até a sala, sentando-se lá algum tempo, far-lhe-á muito bem.
-Por que, de repente, comecei a sentir-me melhor, se os medicamentos que tomo são os mesmos e não estavam adiantando quase nada?
-Tenho orado muito a Deus, meu querido, pedindo- -Lhe que o cure.
Quem sabe minhas preces foram ouvidas.
Sabe que o amo muito, como se fosse meu filho, ou melhor, amo-o ainda mais, justamente por que não o é e não pôde contar com sua mãe.
-Sabe que às vezes penso em mamãe, e nestes dias tenho pensado ainda mais, eu que não a conheci!
-Com certeza, ela, de onde está, vela por você e o ajuda no que pode.
Ela o ama e deve ter sofrido muito por não ter podido criá-lo.
-Você acredita mesmo que aqueles que partem se importam com os que ficam?
-Da mesma forma como nos preocupamos com eles e sentimos a sua ausência.
-Desse modo forma-se uma espécie de intercâmbio entre os que se foram com os que ficaram.
-Acredito que sim!
Que entre eles e nós, embora não os vejamos, nada se modifica.
O amor que lhes dedicamos ou que eles nos dedicam permanece inalterável se realmente era sincero.
-Já pensou, Ellen, se o contrário também acontece!
-O que quer dizer?
-Que se aqueles que não gostam de nós, ao deixar este mundo, levam o mesmo sentimento de desprezo que sempre tiveram por nós?
-De quem está falando?
- Sabe que falo de papai!
Assim como o amor dos que nos amavam, ajuda-nos a prosseguir vivendo e é também um alento para eles, os que nos odiavam podem emitir esse ódio para nós e nos prejudicar.
-Em que está pensando?
-Em nada, Ellen, em nada!
Ele não ousava dizer, mas lembrou-se do pai e o seu pensamento foi captado por Stella que procurou retirá-lo da sua mente, para que aquela conversa se encerrasse.
Se continuasse, em pouco tempo eles chegariam à verdade do que estava acontecendo e não seria bom que tivesse sentimentos de mágoas contra o pai, porque só o atrairia ainda mais para ele.
Ellen retirou-se do quarto, levando a certeza de que William compreendera a razão do mal que estava enfrentando, assim como também ela sabia o que era.
EM RELAÇÃO A WILLIAM, tudo caminhava conforme desejavam e auxiliavam, e, em poucos dias, deixaria o leito e retomaria à rotina de sua vida, sem saber exactamente o que havia acontecido, nem era necessário que o soubesse para que sentimentos de mágoas não o envolvessem.
Um dia, talvez, quando no Mundo Espiritual, ele tomaria conhecimento de tudo, se fosse necessário, mas nada o afectaria mais, e, se não o fosse, nunca saberia.
Agora o problema maior era Thomas.
Continuava em seu quarto, e, impedido de aproximar-se do filho, vivia mais irritado, ainda mais que tinha que suportar, como pensava, aquelas presenças indesejáveis a lhe falar, tentando fazê-lo aceitar o oferecimento que faziam.
-Não adianta cercearem meus passos, para que me renda à sua vontade que não me terão.
Já repeti muitas vezes:
Não percam seu tempo!
Vão embora e cuidem de suas vidas que, da minha, cuido eu.
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Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 06, 2018 8:10 pm

-Da forma como o vem fazendo?
Se formos embora você voltará à sua acção de ódio contra seu filho e o fará ainda com mais força.
Dar-lhe-emos mais alguns dias para que aceite, e, se nada conseguirmos, faremos como deve ser, e que não desejávamos ainda para preservá-lo de sofrimento, porque a dor do remorso e do arrependimento são muito cruéis.
- O que é que tanto falam e não fazem?
Sabem que nada me afectará, nada me convencerá, por isso poderão fazer o que quiserem, que continuarei aqui.
Ê Você ainda não sabe dos recursos que possuímos para aqueles como você, mas não pretendíamos utilizá-los esperando que partisse por sua própria vontade, aceitando o nosso oferecimento.
- Pois usem esses recursos que quero ver!
-Não nos desafie que sabemos bem o quê e a hora em que devemos fazer.
-O que estão esperando?
De nada adiantava entrar em discussão com ele que estava empedernido a qualquer sentimento mais nobre e nada o convencia.
Assim decidiram que se calariam e não mais insistiriam com nada.
O que liderava o grupo, vendo infrutíferas todas as suas tentativas, chamou os companheiros dizendo-lhes que deveriam providenciar o que esperavam, não fosse necessário, mas que outro meio não havia.
Stella, presente, indagou:
-O que farão agora?
-Temos algumas providências a serem tomadas e depois lhe poremos a par de tudo.
-Está bem, saberei esperar.
-Você nos ajudará depois, porque se ele se comover precisará muito dos seus préstimos, da sua atenção, do seu carinho.
-Se ele aceitar, terá de mim tudo o de que precisar.
-Não só o aceitará como ele mesmo pedirá para ser levado!
-Que recurso tão poderoso será esse?
-Aquele que atinge o coração e faz com que ele sé comova, se enterneça, se envergonhe, para que, humilde, peça a nossa ajuda.
-Já pensaram na possibilidade dessa iniciativa também falhar, como tem falhado tudo o que preparamos para ele?
-Essa será diferente e ele não terá como fugir.
Esperaremos mais uns dois ou três dias apenas, até que William esteja bem mais fortalecido, para que não nos preocupemos mais com ele.
-Está bem, saberei esperar e podem contar comigo.
Durante aqueles dias que teriam de espera, eles trariam para o quarto de Thomas, uma vez que ele não aceitava sair de lá, uma aparelhagem adequada ao que precisavam.
Não era usual fazerem o que fariam fora do seu habitat, porque lá os recursos eram maiores, mas seria necessário que assim o fosse pela própria pertinácia de Thomas.
O que aconteceria depois seria imprevisível, mas eles estariam preparados para completar a acção e o levarem, aquiescente, submisso e dócil.
William melhorava a olhos vistos, continuava a receber o auxílio do passe reconfortante e, no dia seguinte em que se sentira mais bem disposto, manifestou o desejo de levantar-se e sentar-se na sala por algum tempo.
Nos dias subsequentes, mais tempo permanecia fora do leito, e fazia suas refeições à mesa.
Ellen já deixara de dormir no quarto dele, confiante de que mais nenhum mal lhe aconteceria.
Nunca mais vira aquela sombra do senhor Thomas junto do leito do filho e entendeu que ele estava protegido pelas melhoras que estava tendo.
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Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 06, 2018 8:10 pm

Em três dias, pois, o que pretendiam estava pronto.
Uma aparelhagem só visível a eles fora trazida juntamente com um irmão que ajudaria naquela operação tão importante.
Tudo estava preparado. Stella, sem que eles dissessem, percebeu o que se passaria ali e estava curiosa, porque, certamente, também participaria daquela actividade, não como actuante para ajudar o marido, mas como participante do que lhe fariam viver e que ela também ignorava.
Assim que a noite se fez e que todos foram ao repouso, eles se reuniram no quarto de Thomas, em torno dele, em preces, para prepará-lo para o que fariam.
Pediam a Deus que aquela actividade pudesse ser bastante benéfica àquele irmão tão pertinaz no seu modo de pensar e agir, mas que, antes de tudo, o auxiliasse para que ele os visse.
Que não fossem apenas vozes em torno dele a lhe falar, mas irmãos que o ajudavam e que eram vistos para que sentisse um maior impacto a fim de conseguirem a paz do lar e dele próprio.
Thomas ouvia essas palavras dirigidas a Deus, e como se nada significasse para si mesmo, como se não fossem direccionadas para as suas necessidades, mantinha-se calado, apenas esperando para verificar a força que possuíam para pretenderem levá-lo do lar.
Um deles, sem ser visto, aproximou-se ainda mais, colocou a mão sobre a sua cabeça e em prece profunda rogou a Deus o seu auxílio para o que pretendiam. Naquele momento, como primeira etapa, era necessário que as névoas que envolviam a sua visão se dissipassem para que ele participasse efectivamente do que realizariam.
Aos poucos, mesmo sem nenhum esforço de participação de Thomas, ele começou a visualizar alguns vultos ao seu redor, mas sem precisar quem fosse.
Logo mais, sua visão foi ficando límpida e nítida, e ele viu os três que oravam por ele, mas chamou-lhe a atenção a presença de Stella, que tinha conhecimento de que estava ali, conquanto nunca a tivesse visto.
Fixando seus olhos nela ele teve uma expressão de admiração, exclamando:
-Querida Stella, como a vejo linda!
-Mais uma vez estamos aqui para ajudá-lo, Thomas, e espero que hoje, depois do que lhe será feito, possamos levá-lo para um repouso, que você está precisando.
-Eu não sairei desta casa!
-Você sabe muito bem que esta casa não é mais sua, como eu senti que não era mais minha quando tive consciência de que havia partido, mesmo tendo deixado aqui os dois entes mais queridos de minha vida.
Nossa dimensão agora é outra, e o que usufruímos enquanto encarnados, aqui deve ficar, porque nossos objectivos passam a ser outros, a nossa nova realidade é outra, pois penetramos na verdadeira vida que é a do espírito.
E quanto mais rápido nos desprendermos das coisas terrenas, melhor para ele que continua a sua caminhada, com os propósitos e esforços úteis apenas ao espírito.
É isso que desejamos que entenda.
Quando deixamos o corpo e ficamos entre os encarnados, nós só os prejudicamos, mesmo imaginando que precisamos permanecer para ajudá-los.
Imagine, pois, quando permanecemos já com o declarado propósito de prejudicar, o que não fazemos, e o que faz o mal que lhes proporcionamos?
Nosso querido filho adoeceu por sua causa, o nosso querido William que sofreu tanto a vida toda e ainda teve de suportar, mesmo depois de você ter deixado o corpo, a sua atitude covarde porque ele não podia vê-lo para se defender.
-Não fale assim comigo, eu que a amo tanto!
-Eu também o amei muito, mas você, com suas atitudes, abalou esse amor.
Oxalá você mesmo, com novas atitudes, possa recompô-lo.
O que devo fazer?
-Você já sabe!
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Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 06, 2018 8:10 pm

É nos acompanhar de livre e espontânea vontade, ou se deixar levar sem resistência, reconhecendo que não vem agindo bem e quer um novo recomeço.
-Não conseguirei!
-É só se esforçar que conseguirá.
Tanto temos lutado para retirá-lo desta casa em vão, mas se quiser nos acompanhar, estará liberado do que lhe preparamos.
-O que farão?
-Tudo o que for necessário, desde que nada conseguimos até agora!
- Deixem-me a sós com Stella que preciso lhe falar!
- Por alguns instantes apenas porque não temos muito tempo para perder.
Já o conhecemos bem e sabemos que é mais um de seus recursos para retardar a nossa actividade.
Entretanto, vamos confiar mais uma vez e em pouco tempo estaremos de volta.
Antes de se retirarem, um deles falou à Stella:
-Estaremos à porta, à espera.
Se precisar de nós é só chamar que viremos em seguida.
Todos se retiraram, e, quando ficaram sós, Thomas tornou a falar:
-Você está muito bonita e incomoda-se comigo!
Isso deixa-me mais sensível e quero saber:
se eu aceitar, para onde me levam, o que farão comigo, e se eu terei a sua companhia?
-Se concordar em partir, deverá ser submisso a tudo o que lhe for proporcionado, compreendendo que é para o seu bem, seja aonde for, mesmo com ou sem a minha companhia.
Mesmo que não fiquemos juntos, pois você precisa passar por um período de tratamento que poderá ser prolongado, para refazer-se completamente modificando o seu modo de pensar, e entendendo a finalidade maior da nossa existência na Terra, estaremos cada vez mais próximos e um dia poderemos estar juntos.
Do contrário, ficaremos cada vez mais distantes, por sua própria vontade.
-Eu não quero ficar longe de você, agora que a vejo tão bela junto de mim.
Sinto-me como se os velhos tempos tivessem retornado, quando nos conhecemos, quando nos casamos.
-Mas não se esqueça de que somos espíritos libertos do corpo e nossos objectivos agora são outros.
-Eu compreendo, mas mesmo assim a sua companhia faz-me muito bem e dá-me novo alento de vida.
-Você poderia até já estar em minha companhia, se tivesse agido de modo diferente.
Se tivesse aceitado tanto auxílio que lhe viemos prestar, mas sempre recusou, apenas retardando, com isso, o momento de ser feliz.
-Eu aceito o que me ofereceu.
Não passarei por nenhuma actividade que prepararam para mim, se me retirar de vez com vocês?
-Justamente! Se aceitar a nossa ajuda, será levado e passará por um longo tratamento, submetendo-se e aceitando tudo o que lhe for proposto e proporcionado.
-Pois então chame seus companheiros e diga-lhes que aceito.
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Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 06, 2018 8:10 pm

13 - ENCONTRO FELIZ
ANTES QUE ELE MUDASSE de ideia e se arrependesse, Stella chamou seus companheiros e quando ia lhes dizer que Thomas aceitava o oferecimento que há tempos insistiam para que o fizesse, um deles manifestou-se:
— Não precisa dizer nada, minha irmã!
Estamos felizes e rendemos graças a Deus por ele ter decidido com inteligência.
Vamos nos preparar para levá-lo e prepará-lo, também, para que vá tranquilo, sem nenhum receio.
-O que farão comigo? - indagou Thomas um tanto preocupado.
-Esteja tranquilo, tudo lhe será proporcionado para o seu bem, sem que nada sinta, a não ser uma paz muito grande.
-Não percamos tempo! - manifestou-se o que era líder do grupo.
Esta noite ainda ele estará num leito, para iniciar um repouso restaurador - e continuando, pediu-lhes:
Reunamo-nos em oração em torno dele, para agradecer a Deus a decisão que está tomando, pois só virá em seu próprio benefício.
Os outros procedimentos, faremos em seguida.
Em tomo dele eles oraram com o coração feliz, depois adormeceram-no para que fosse levado sem resistência, sem estranheza, e sem que participasse conscientemente daquela operação, pois ainda não tinha condições para isso.
Quando tudo estava pronto, Stella, que até então se mantivera submissa e participante do que propunham, pois também tinha pressa de que aquele momento se concluísse da melhor maneira possível, disse aos companheiros:
-Não preciso expressar a minha alegria e a minha gratidão por tudo o que foi feito em favor de meu filho e de Thomas, porque vocês vêem no meu coração.
A minha gratidão a Deus eu já expressei e não me cansarei de repeti-la sempre.
Entretanto, apesar do muito que recebo neste momento e do que recebi em favor de meu filho, eu tenho mais um pedido a fazer.
-Pois fale, querida irmã, que a nossa alegria em servir é sempre muito maior quando vemos nossas tarefas bem-sucedidas.
-Sei que teremos de partir imediatamente para levarmos Thomas, mas sei também que eu não sou necessária nessa actividade.
Por isso peço-lhes permitam- -me permanecer mais alguns dias nesta casa até ver meu filho completamente restabelecido.
Quando melhorar mais, quero ter um encontro com ele, enquanto estiver dormindo, assim como também com Ellen. Se com a partida de Thomas nada mais nos oferece perigo, eu poderei ficar só.
-Não poderíamos negar um pedido de uma mãe que ama tanto o filho e quer regozijar-se com essa nova etapa de vida que se inicia para todos aqui.
Sabemos que em três dias ele estará completamente bem, ainda mais que contará com sua presença junto dele, transmitindo- -lhe força e coragem.
-Que Deus os abençoe por isso, e me abençoe também para que eu realize o que espero, da melhor forma possível.
Antes de partirem, podem me dizer para onde levam Thomas?
-A nossa Colónia mesmo, no pavilhão destinado àqueles que viveram e ainda se encontram em rebeldia, para que ele, depois de passar por um período de assistência intensa e constante, possa despertar mais sereno e entender o que fez, porque novo período irá começar para ele; e o que lhe seria mostrado e explicado aqui, o será lá.
Ele tem que compreender que o que fazia com o filho estava muito longe de ser o que havia prometido e do que lhe devia também.
-Eu me encontrarei com ele, quando for permitido, e se puder ajudá-lo o farei com amor.
-Com certeza ele precisará muito da sua assistência, das suas palavras de conforto.
-Se eu precisar de algum auxílio aqui, saberei como solicitar.
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Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 07, 2018 8:59 pm

-De nada precisará, pois deixaremos esta casa em paz e com grandes prognósticos de melhorar ainda mais.
- Pois vão na paz que Deus concede a Seus filhos que obram em favor de Seus outros filhos, e vele por mim, aqui, também.
Em pouco tempo eles partiram e Stella foi para o quarto do filho velar pelo seu sono.
Ele já estava bem, apenas precisaria de mais alguns dias para que seu organismo readquirisse as energias que sempre tivera, e depois retornaria ao seu trabalho, em paz, com prognósticos de muito sucesso.
Na noite seguinte Stella se apresentaria a ele pela primeira vez, pois nunca o fizera para não assustá-lo.
Mas agora não queria perder a oportunidade de abraçá-lo, de lhe falar, e também de ouvi-lo chamá-la de mamãe, que nunca tivera essa alegria.
Com Ellen falaria na primeira oportunidade que se apresentasse, pois ela merecia receber palavras de incentivo, de gratidão e a certeza de que sempre estaria amparada e protegida por todo o bem que sempre fizera ao seu filho, pelo amor que lhe dedicava e pela assistência que dera a seu marido também.
Ao amanhecer, quando Stella presenciou o despertar do filho, cuidando para que quando seu Espírito retornasse, não a visse ainda, Thomas já chegara ao seu destino e permanecia adormecido no leito em que fora colocado.
Os que dele se ocupariam tomaram as providências necessárias e, sem que despertasse, ele continuaria ainda por muito tempo sendo assistido, mas sem consciência, para que não se rebelasse e interrompesse o tratamento que lhe seria tão necessário, não só para o seu refazimento, mas para que se abrandasse e fosse mais aquiescente, para o seu próprio bem.
Conforme imaginara e esperara, aquele dia Stella ficou junto do filho, fazendo-o lembrar-se dela, para que o encontro fosse mais fácil.
E tão intensamente o fazia e orava a Deus pedindo-Lhe que fosse bem-sucedida no que pretendia, tanto para o seu bem, mas muito mais pelo bem dele próprio, que parecia a ele que a tinha já em sua companhia.
Mais fortalecido ele passou muitas horas fora do leito sob as atenções e cuidados de Ellen, que a todo instante insistia com algum alimento para que se recuperasse mais depressa.
A noite, quando o sono envolve as pessoas, sobretudo os que estão mais enfraquecidos e convalescentes como William, Stella estava já em seu quarto orando a Deus para que o encontro fosse bem-sucedido e trouxesse felicidade a ambos.
Passados alguns minutos, depois que se deitou, ela percebeu que se erguia do leito em direcção à porta do quarto, e foi ter com ele.
- Meu querido William! - exclamou ela tão suavemente que ele não a ouviu com precisão, mas pareceu- -lhe ter ouvido algum sussurro.
Continuando o seu caminho, ela tornou a lhe falar, desta vez com mais força, mas ainda com muita meiguice.
William-espírito parou e ela, apresentando-se à sua frente, disse-lhe:
-Sou eu, meu filho querido, a sua mãezinha!
-Minha mãe?!
- Sim, meu filho, a sua mãe que tem velado por você enquanto esteve enfermo e pediu muito a Deus que o curasse.
-Estou bem melhor, suas preces foram ouvidas!
-Deus sempre atende aos pedidos das mães que amam seus filhos.
-Imaginei que a senhora não se lembrasse de mim, tão pequeno me deixou!
- Como uma mãe pode esquecer um filho?
Eu acompanhei o seu crescimento passo a passo, estive muitas e muitas vezes em sua companhia.
-Por que não se mostrou antes que eu precisava tanto de uma mãe.
-Ainda não era o momento certo, filho querido!
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Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 07, 2018 8:59 pm

Você poderia não entender e ficar abalado, prejudicando-o.
Entretanto, sem me apresentar, sempre estimulei cada vez mais o amor que Ellen já tem por você, e ela supriu a minha ausência.
-Nada nem ninguém, por mais nos ame, supre a ausência de uma mãe!
-Temos que ser submissos aos desígnios de Deus, por mais nos sejam dolorosos.
-Eu compreendo!
A senhora é muito bonita, por isso papai a amava tanto!
-Não falemos de seu pai agora, que ele está bem, mas de você, de mim. Vamos fazer um passeio.
-Será o passeio mais lindo e mais feliz que farei!
-Pois então vamos!
Os dois deixaram a casa e ela levou-o a um recanto belo e tranquilo, onde passaram algumas horas conversando.
Ela o estimulou muito a prosseguir como homem de bem que já o era, falou das suas esperanças de que ele também constituísse a sua própria família junto de uma esposa e de filhos.
Enfim, conversaram bastante, e, felizes, quando retornaram, ela acompanhou-o até o leito, despediram-se, e ele, antes de retomar o corpo, pediu-lhe:
-Não me deixe mais tanto tempo assim sem se mostrar para mim, mamãe!
Fui muito feliz nestas horas em que estivemos juntos, porque pude sentir, pela primeira vez, o que é ter mãe.
- Você sempre a teve, sempre estive atenta a você, mas, infelizmente, não da forma como desejava, mas sabe que não foi por minha vontade.
-Eu sei, mamãe!
Stella beijou-o mais uma vez e ele retomou o corpo despertando muito feliz, sem ter lembranças precisas do que lhe havia acontecido, mas um bem-estar muito grande o envolvia.
Ela permaneceu no quarto, e, algum tempo depois, quando Ellen entrou para ver se ele já estava acordado para levar-lhe o dejejum, ele falou-lhe:
-Hoje estou muito feliz.
Acordei com sensações de uma felicidade imensa e não farei o meu dejejum na cama.
Vou levantar-me e tenho vontade de ir dançando ou volitando até a cozinha, tão feliz me sinto.
-Mas o que aconteceu para isso?
-Tenho alguma ideia, mas não sei com precisão!
Pois então conte-me, o que é?
-Devo ter sonhado com mamãe, pois despertei com a sua lembrança muito nítida em mim.
-Você não sabe como ela era!
Era muito bonita e disso me lembro bem!
-Pois esforce-se que se lembrará de mais alguma coisa.
-Por mais me esforce não consigo, mas que eu sonhei com ela, tenho certeza, e essa felicidade vem toda dela.
OUVINDO A CONVERSA ENTRE O filho e Ellen, Stella ficou feliz.
Sabia que havia permanecido no coração do filho.
A sua lembrança e a felicidade que via e sentia nele, davam-lhe a certeza de que, mesmo ausente, mesmo sem nunca tê-la conhecido, ele a amava.
Ficara feliz com o encontro, mas também lhe proporcionara felicidade, a ele que tanto sofrera por causa do pai.
Restava-lhe, agora, falar com Ellen e sua missão naquela casa, pelo menos, daquela vez, estaria cumprida, e ela o faria na próxima noite.
O dia, além de tranquilo, transcorreu cheio de esperanças para William.
Com o passar das horas, o pouco que ele conseguira reter do "sonho" ia se desfazendo como lembrança, mas deixando um bem-estar muito grande no seu físico e no seu espírito, e, em poucos dias, mais um ou dois, ele estaria completamente curado.
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Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 07, 2018 8:59 pm

A noite tão aguardada por Stella chegou.
Com a paz e a felicidade do dia, Ellen trabalhou bastante.
Livre de maiores preocupações, nada demorou para adormecer, quando se deitou.
Stella ficou na sala e quando ela em espírito surgiu à porta, foi ao seu encontro, dizendo-lhe:
-Minha boa e querida Ellen, você não me conhece, nunca me viu, por isso me apresento:
- Sou Stella e quero agradecer-lhe.
-Fico feliz em vê-la!
Então William não estava enganado.
Ele pensa que sonhou com a senhora, mas, ao contrário, estiveram juntos.
-Juntos e felizes!
Meu filho tem sofrido muito e precisava de um pouco de alegria e de alento, e era o único jeito de lhos proporcionar, apesar de que acompanhei o seu crescimento, e sempre que me foi possível e permitido, aqui estive junto dele.
-Realmente ele estava precisando de um pouco de alegria.
-Vim lhe falar para expressar a gratidão que meu coração sente por ter sempre tratado meu filho com muito amor, e suavizado para ele os momentos difíceis que viveu junto do pai.
-Esforcei-me bastante para que o senhor Thomas tivesse se modificado em relação ao filho, mas nada consegui.
-Nem eu consegui, minha boa Ellen!.
Mas agora nada mais haverá, vocês ficarão em paz!
-O senhor Thomas não está mais nesta casa?
-Como sabia que ele permanecera aqui?
-Eu o vi junto do leito do filho tentando prejudicá-lo!
-Mas agora tudo já passou.
Ele foi levado e não voltará mais, assim cuidaremos para que aconteça.
-William é um bom menino, eu o amo como se fosse meu filho.
-Sei disso, Ellen, por isso lhe serei grata eternamente.
Deus é muito bom.
Levou-me porque era preciso, mas deixou-a em meu lugar para cuidar dele e o fez sempre com muito amor.
Eu a acompanho quando me é permitido vir aqui, transmito-lhe palavras de estímulo e ajudo para que sempre se sinta bem.
Você merece por tudo o que tem feito, sem ter nenhuma obrigação para com ele.
- Era uma obrigação que assumi comigo mesma desde que entrei nesta casa e percebi os sentimentos do senhor Thomas para com ele.
-Ellen, agora preciso ir.
Fique na paz de Deus, continue cuidando de William com as mãos amorosas e o coração cheio de ternura, que Deus a recompensará por isso.
-A recompensa eu já a tenho e vem do próprio William que também me ama, eu o sinto.
-Isto é verdade e muito natural por todo o carinho que você sempre lhe dispensou.
Que Deus a abençoe e lhe dê sempre forças para continuar cuidando de tudo, e lhe dê muitas alegrias com seus filhos, pelo amor que tem pelo meu.
- Foi uma satisfação muito grande para mim conhecê-la.
Que a senhora possa partir na paz de Deus e volte sempre que puder, para maior alegria de William.
Stella abraçou Ellen, depositou um beijo em sua testa e foi ao quarto do filho depositar, também, o seu beijo de despedida em suas faces, para depois partir.
De tantas vezes que estivera naquela casa tentando modificar a situação em que viviam, aquela era a primeira que partia feliz, pois deixava o filho bem e preparado para prosseguir sua vida.
Ela teria ainda uma outra tarefa importante junto de Thomas, mas não tinha pressa, porque onde ele estava, não faria mal a ninguém.
Aos poucos, conseguiriam o que tanto ela desejava e o que era importante ao espírito dele, que era a sua modificação.
Deus criou Seus filhos para o bem, e os que, revoltados, praticam o mal, um dia se arrependerão, e, quais filhos pródigos, retornarão ao aprisco do Senhor, trazendo o aprendizado das experiências mal-sucedidas que lhes servirão de parâmetro para uma nova vida mais feliz, praticando somente as acções agradáveis a Deus.
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Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 07, 2018 8:59 pm

14 - EM RECUPERAÇÃO
THOMAS AINDA SE MANTINHA do mesmo modo como o deixaram, deitado no leito e adormecido, mas recebendo o tratamento que lhe era necessário.
Duas vezes ao dia ministravam-lhe um passe para que estivesse sereno e se recompusesse, a fim de que, ao ser despertado, não apresentasse surpresas, revoltando- -se e desejando fugir.
Muito tempo ainda ele passaria naquelas condições.
Cumprido o período que achavam, seria suficiente para aquela primeira etapa do seu atendimento, mesmo adormecido, provocariam em sua mente muitos quadros sobre a sua última existência, como também sobre algumas das suas existências pregressas, com o objectivo de prepará-lo para o trabalho que fariam quando ele estivesse desperto.
O que lhe mostrariam, o que o fariam recordar, com esse recurso, nada lhe seria estranho e ele aceitaria como verdades vividas por ele a fim de que tivesse condições de iniciar um tratamento direccionado à sua recomposição plena, de acordo com as falhas que teria apresentado.
Era a única forma de prepará-lo para uma futura encarnação, porque, consciente dos seus erros, ele trabalharia a si mesmo para evitá-los porque saberia o quanto lhes haviam sido prejudiciais na sua última existência.
Quando Stella retomou do seu lar teve permissão para visitá-lo, mas ele, adormecido, não a viu.
Vez por outra ela repetia a visita, mas estava longe ainda o dia em que ele, desperto e consciente, a reconhecesse junto dele, sem revoltas, como a esposa querida que lhe fizera tanta falta.
O mais importante de tudo, quando estivesse equilibrado, era reconhecer o quanto havia sido injusto com um pobre inocente que nada tinha a ver com a morte da mãe e pagara por isso durante todo o tempo em que estivera em sua companhia, deixando-lhe marcas profundas.
Muito tempo, ou muitas existências William teria que viver para que aquela sua convivência com o pai caísse no esquecimento, se é que algum dia isso pudesse acontecer.
O tempo passava e Stella continuava suas actividades de auxílio aos mais necessitados na Colónia que a abrigava.
Constantemente visitava Thomas e foi percebendo que, mesmo adormecido, sua fisionomia foi ficando mais serena como se ele estivesse num profundo repouso tranquilizador, o que significava que o dia de ser despertado se aproximava.
Ela preocupava-se quando pensava nesse momento, mas confiava que ele estaria preparado para enfrentar a verdade da sua nova condição, com todas as faltas que cometera, e ela estaria pronta para auxiliá-lo o quanto lhe fosse permitido.
Algum tempo mais passou e ela foi avisada de que, em três dias, Thomas seria despertado e que a sua presença seria importante.
Preparado ele estava, mas poderiam ser surpreendidos por alguma atitude dele, inesperada e desagradável, e ela, estando presente, o ajudaria.
Antes do horário marcado, Stella estava junto dele.
Uma pequena equipa de abnegados irmãos trabalhadores e mais bem preparados para aquela actividade estava a postos, bem como os auxiliares que o assistiam diariamente.
O grupo era grande e todos circundavam o leito, quando um deles, o que dirigiria a actividade, concitou a todos que permanecessem em prece, enquanto ele promoveria o despertamento de Thomas.
Colocando a mão sobre a sua cabeça, chamou-o algumas vezes com voz terna e suave, quase sussurrando de início e um pouco mais alto depois, porque não sabia qual seria a sua reacção, até que, aos poucos, ele começou a abrir os olhos.
Abriu e fechou-os algumas vezes, depois os manteve abertos e atentos ao que lhe diziam.
Ele não estava entendendo nada de início, e indagou com voz enfraquecida:
-O que está acontecendo aqui?
Por que todas estas pessoas em volta de mim? O que houve?
-Hoje é um dia muito feliz para nós, meu querido irmão.
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Ave sem Ninho

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Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 07, 2018 9:00 pm

É o dia em que você recupera a sua consciência depois de um longo período de alheamento, necessário ao seu refazimento.
-Não estou entendendo!
-Aos poucos entenderá, porque temos aqui alguém que o auxiliará!
A um sinal, Stella aproximou-se do leito e, tomando as mãos dele, falou-lhe:
-Estamos juntos novamente, meu querido!
-Como?! O que aconteceu?
Tenho estado sozinho a minha vida toda, e de repente vejo-a comigo.
Estarei sonhando?
-Não, meu querido, você está bem desperto e estamos juntos.
-Você havia me deixado!
-Mas você veio ao meu encontro, tornando-me muito feliz!
-Então eu também morri? Não me lembro de nada!
-Era necessário que esquecesse para o seu próprio bem, mas agora já sabe e viu, não estamos mortos. Continuamos vivos em espírito!
-Onde estamos?
-Num lugar muito agradável, de paz, de aprendizado, de trabalho e de preparação.
O que farei eu aqui?
-Há muito o que fazer, mas, por enquanto, cuide de seu refazimento que as actividades virão depois.
COMEÇAVA EFETIVAMENTE, NAQUELE MOMENTO, uma nova vida para Thomas, e ainda teria, sempre que possível, que suas obrigações permitissem, a companhia de Stella a lhe encorajar e auxiliar.
No momento certo ele se depararia com suas acções na Terra, para analisá-las e verificar o que realmente havia feito da vida do filho, como também as ligações que aquela sua vida com ele tinha com outras existências passadas.
Ele não deveria estar lembrado do que lhe fora mostrado na tentativa de modificar os seus sentimentos em relação ao filho, mas o que fosse necessário, teria que ser revisto, para que tivesse uma amplitude muito grande de conhecimento do que já fora, do que fizera e do que prometera.
Somente depois é que teria elementos para a sua reflexão, e esta, quando baseada em fatos mal vividos, em experiências que nem sempre foram agradáveis aos que com ele conviveram, por sua causa, com certeza lhe causaria arrependimento, e este sempre ocasiona sofrimento.
Era nesse momento que a sua modificação poderia ser trabalhada para que ele próprio se sentisse bem consigo mesmo.
Não podemos dizer que ele tivesse sido tão mau, que tivesse levado prejuízo a muitos, que tivesse lesado outros com actos desonestos e indignos; que tivesse praticado crueldades e ferido a outros, não, que isto, nesta sua última existência não houve.
Era um homem honesto, cumpridor de suas obrigações em relação à profissão; nunca deixou faltar nada no lar e recebera, embora tendo sido do seu interesse, Ellen com seus dois filhos, a quem também dera um tecto e alimento.
O seu erro maior foi o que fizera ao filho. Colocara no seu coração uma couraça contra ele, depois que Stella o deixara, e se recusara, em toda a sua vida, a dar-lhe atenção e carinho, mas sempre lhe proporcionou também, através de Ellen, a satisfação de todas as suas necessidade materiais, tanto que ele se formou em Direito, o que lhe dera condições de ocupar o lugar do pai quando este morrera.
Thomas levava atitudes a seu favor, mas que eram quase anuladas pelo desprezo que dera ao filho, relegando-o, senão a si mesmo, mas à criada que o amou muito e cuidou dele com carinho.
Era nisso que ele deveria pensar porque, quando tivesse que enfrentar a realidade do que fizera, iria encontrar em William, alguém a quem já devia muito e nada fizera do que prometera.
Entretanto, não vamos antecipar informações e aguardar o momento certo para que as recordações sejam feitas quando ele tiver condições de reconhecer que errou, porque só assim cuidará para não mais errar e quererá reparar seus erros.
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Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 07, 2018 9:00 pm

Enquanto imaginamos que estamos agindo correctamente, nada nos modifica, nada nos convence do contrário, por mais falem, por mais insistam.
Contudo, quando nos conscientizamos de que não agimos bem, passamos a reflectir nas nossas acções, e aí é o momento de promover a nossa modificação, justamente para desfazer o mal-estar que sentiremos pelo reconhecimento de que estávamos errados e, por mais nos advertissem, não demos ouvidos.
Assim aconteceria com Thomas.
A sua recuperação continuou a ser efectuada, seguindo os passos programados de acordo com as melhoras que ia apresentando e com a reacção que demonstrava ao que lhe era proposto, e ele já deixara o leito, já caminhava um pouco, mas ainda não deixara a enfermaria que o abrigara quando chegou.
Assim que tivesse maiores condições passaria para outro compartimento, deixando o seu leito para outros mais necessitados, que sempre chegavam irmãos infelizes em busca de um tratamento para se refazerem do que experimentaram na Terra.
Gradativamente Thomas foi readquirindo a sua consciência plena, e, sempre que possível, Stella fazia-lhe companhia.
Já deixara a enfermaria, fazia passeios pelos jardins da Colónia, recebia algumas orientações sempre que a oportunidade se apresentasse, mas nada ainda lhe fora proporcionado para que tivesse o conhecimento de algum ponto de suas encarnações pregressas.
Quando conversava com Stella, nunca tocou no nome do filho, mas ela, ao contrário, não perdia a oportunidade de fazê-lo para observar a sua reacção.
Era como se ela falasse de alguém que ele não conhecesse, tão indiferente ficava.
E o seu íntimo, seria também indiferente à lembrança do filho?
Tinha uma vaga ideia de que havia tido um filho na Terra, mas de nada mais se lembrava porque ainda não era o momento.
Ele precisaria estar tranquilo para assimilar e compreender o que recordaria no momento certo, e não enfrentar essas recordações já com o preconceito formado em relação ao filho.
Um dia o mentor da Colónia que o abrigava mandou chamar Stella.
Imediatamente ela o atendeu, sendo recebida com muita cordialidade.
Colocando-se à disposição para o que fosse necessário, ouviu-o dizer:
-Querida irmã, chegada é a hora de promovermos ao nosso irmão Thomas, um período de recordações que poderão auxiliá-lo a melhor compreender os erros cometidos na Terra, em relação ao filho, e precisamos muito da sua cooperação.
-Sabe que estou à disposição.
O que devo fazer?
- O seu trabalho será estar em companhia dele após a actividade que promoveremos, porque, certamente, ele precisará de apoio, de conforto para apaziguar o seu espírito, se as recordações tiverem para ele o efeito que esperamos.
- O irmão imagina que o contrário ainda possa ocorrer?
-Nunca podemos antever reacções.
Nós o preparamos e supomos que o momento é chegado, mas como ele foi sempre muito pertinaz e renitente no seu modo de pensar e agir enquanto encarnado, pode ocorrer o que não desejamos, mas não podemos evitar.
-Compreendo!
Quando essa actividade terá início?
- Em poucos dias!
-Ele já está avisado?
- Ainda não, por isso também precisamos do seu auxílio.
Quero que converse com ele e diga que logo será encaminhado a uma actividade de revisão de suas existências anteriores, com outras que tiverem ligação com a que vem de completar na Terra.
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Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 07, 2018 9:00 pm

E que tudo o que lhe for proporcionado o será pensando apenas em seu bem-estar espiritual, para que depois, do conhecimento de algum fato importante, ele tenha elementos de análises que serão benéficas e necessárias ao seu aprimoramento.
-Eu farei conforme me orienta.
-Não perca oportunidade de lhe falar, de fazê-lo compreender a importância dessa actividade.
-Pode contar comigo, irmão!
-A senhora e ele serão avisados do dia e da hora em que essas actividades serão iniciadas.
-Pelo que compreendi, eu não participarei delas.
-Directamente, junto dele, não, mas tomará conhecimento de tudo o que ocorrerá, de tudo o que lhe for mostrado, em uma aparelhagem em outra sala, para que ele se sinta à vontade e para que ele mesmo, como comentários, como desabafo, lhe conte o que viu e o que lembrou, que lhe será mais benéfico.
Agora pode se retirar, que, no momento certo, será avisada.
Thomas já começava a incomodar-se de nada fazer, aborrecendo-se.
Ao expressar esse sentimento a um orientador, ele lhe disse:
-Há muito o que fazer, irmão, aqui, porque temos muitos necessitados precisando de auxílio.
Entretanto, até para auxiliar precisamos estar preparados e o irmão ainda não o está!
-O que devo fazer para preparar-me?
-Você terá que passar ainda por uma actividade muito importante.
Depois, sim, conforme a sua reacção, conforme a sua aceitação e conforme o resultado das análises que fará, logo estará preparado para também auxiliar.
Por enquanto, utilize-se de nossa biblioteca, leia bastante que todos os nossos livros são salutares e instrutivos e também o ajudarão.
-Eu o farei! Procurarei a biblioteca hoje mesmo e pedirei à bibliotecária que me indique o mais adequado dentro da minha condição.
-Pois faça isso que já será um auxílio ao que deverá realizar dentro de poucos dias.
A PRÓPRIA STELLA RECEBEU a notícia de que o dia já era chegado, bem como o encargo de comunicar a Thomas que, na manhã imediata, os promotores da actividade pela qual ele deveria passar, estariam a postos para recebê-lo.
Ela mesma, conhecedora do local onde a realizariam, deveria levá-lo até eles.
-Você estará comigo? - indagou Thomas, assim que foi avisado
-Esse é um trabalho que só a você diz respeito e deverá ficar em plena liberdade para que seja bem realizado.
Quando terminar, estarei à sua disposição para ouvido no que desejar me contar.
A partir de agora, porém, você deve preparar-se em preces, rogando a Deus que o auxilie a compreender o que verá, o que sentirá, para que lhe seja realmente benéfico.
-Da forma como fala, fico receoso!
-De nada deve ter receio.
O que verá já foi feito, não tem mais volta.
A sua finalidade é para que se analise dentro do que fez e do que é actualmente.
Se houve algum progresso de sua parte ou se continua o mesmo.
Se cumpriu aquilo que se propôs ou se falhou.
Se houve falhas, em que ponto as houve, e o que poderia ter feito para que fossem evitadas.
Enfim, você terá uma série de elementos para análises e reflexões, que o levarão a concluir que tudo o que já fez, tanto de bem quanto de mal, são lições para você.
As boas, para que sejam conservadas, repetidas e sempre aprimoradas.
As más, para que as alije de seu coração e nunca mais as pratique.
O importante é que retire de cada um dos fracassos, lições que lhe serão salutares.
Essa é a finalidade maior da actividade que fará.
Não é para humilhar nem cobrar nada de ninguém, senão estimular bons comportamentos e atitudes mais nobres para o futuro, procurando despojar-se do que reconhecer de mal em si mesmo, colocando em seu lugar as virtudes tão proclamadas por Jesus Cristo, quando foi à Terra levar suas prescrições de vida.
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Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 07, 2018 9:00 pm

-Quanto mais você fala, mais receio tenho, porque sinto a responsabilidade do que farei.
-Tudo o que fazemos sempre deve ser feito com responsabilidade, tanto aqui quanto na Terra, para que erremos cada vez menos.
Bem, o que precisava lhe dizer já o fiz, que era avisá-lo da sua actividade de amanhã.
Prepare-se em prece, como lhe recomendei, que amanhã logo cedo estarei aqui para levá-lo.
Thomas estava verdadeiramente assustado.
Não se lembrava de que tivesse infringido as leis de Deus, na sua última existência terrena, mas havia outras das quais não tinha a mais leve noção.
O que deveria, porém, era esperar para ver e preparar-se para que fosse bem-sucedido.
O depois ficaria para depois, e ainda contaria com a presença de Stella que o ajudaria no que fosse necessário.
Naquela noite ele pouco dormiu.
Pela manhã, estava cansado e sonolento mas precisava levantar-se, pois, em pouco tempo, Stella chegaria e seria bom que ele já estivesse esperando.
De fato, quando Stella chegou ele a esperava, mas antes de sair, pediu-lhe:
-Querida Stella, faça uma prece comigo e para mim, que sinto-me em ansiedade.
-Nós a faremos!
Em poucas palavras, que nem sempre são necessárias muitas, que cada uma vale pela intenção que nelas se coloca, a prece foi feita e ele pareceu mais sereno.
Ela guiou-o pelos corredores até encontrar a sala onde deveria entrar.
Antes, porém, Thomas parou à porta e leu uma pequena placa que dizia: - Departamento de revisão do passado.
-Venha, chamou-o ela.
Não devemos nos fazer esperar porque todos têm suas actividades muito bem programadas.
Thomas entrou após ela, um tanto desconfiado e demonstrando intranquilidade.
O desconhecido sempre nos assusta e ele estava intimamente assustado.
-Este é Thomas, com quem começarão hoje as actividades de revisão do seu passado - disse-lhes Stella.
-Somente do que for necessário e útil, relativo à sua última existência terrena - explicou um dos que o esperavam.
E olhando para Thomas, falou-lhe:
-Esteja tranquilo que aqui estamos para ajudá-lo.
Se encontrar nas suas visualizações o que entender como erros cometidos, todos nós já erramos muito, mas Deus, nas sua infinita misericórdia, nos dá sempre novas oportunidades de recomeço.
E para que não mais erremos é que devemos tomar conhecimento do que fizemos, das consequências que tiveram para connosco, a fim de que evitemos cometê-los novamente.
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Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 07, 2018 9:00 pm

15 - ENCONTRO COM O PASSADO
À RETIRADA DE STELLA, Thomas foi convidado a se sentar em uma cadeira diante de uma aparelhagem desconhecida dele, mas que lhe deu uma vaga impressão de ter visto algo semelhante sem se lembrar onde ou quando.
Um tanto intranquilo e receoso ele obedeceu.
Não sabia o que realizariam para ele, mas mantinha-se observador e calado.
Os que o acompanhariam e dirigiriam aquela actividade rodearam-no e, um deles, disse-lhe:
- Antes de começar, transmitir-lhe-emos um passe para serená-lo, a fim de que esta actividade seja vivida intensamente por você, esquecido do momento presente e totalmente imerso naquele passado que irá reviver, como se você fosse apenas aquele.
De início, para que tome completamente conhecimento daquela existência que precisamos, seja revivida, o faremos de tal forma como se nunca tivesse havido outra antes.
No momento certo, porém, que pode não ser hoje ainda, você próprio, com o nosso auxílio, fará a ligação entre o que verá com o que viveu recentemente, a fim de estar apto a fazer análises e reflexões tão necessárias.
Thomas nada disse, apenas ouviu, porque ainda estava assustado.
Depois dessas explicações, foi-lhe recomendado que elevasse o seu pensamento a Deus, pedindo ajuda pois, o que fariam, seria uma preparação para uma actividade muito importante e necessária, diante do que ele havia vivido e como o havia feito.
Terminado aquele momento, um deles indagou como ele se sentia, e Thomas respondeu que estava mais sereno.
- Podemos começar, então? - perguntou o que tinha o comando daquela acção.
Thomas nada mais disse e o aparelho foi ligado.
Algumas imagens foram surgindo diante dele através do aparelho, e logo no início ele viu uma criança, um menino de cerca de dois ou três anos, brincando alegre num pequeno jardim diante de uma casa simples.
Ele corria para lá, para cá, às vezes caía mas levantava- -se em seguida, sem chorar, sem se preocupar e prosseguia.
Num certo momento, uma mulher ainda jovem, mas de aparência enferma, pálida e enfraquecida, surgiu à porta, e, com voz fraca, chamou-o:
- Filhinho, venha para dentro com a mamãe!
O menino parou de brincar e obedeceu à mãe.
A imagem foi imediatamente fixada e ele viu o interior da casa.
Simples, pobre, mas limpa e em ordem.
Um dos que participavam daquela actividade indagou-lhe:
-O que me diz do que viu?
-Apenas uma criança brincando e uma mãe doente.
- Nada lhe recordam essas duas pessoas?
-Nada!
- Pois então prossigamos!
A senhora sentou-se e colocou o filhinho no colo, abraçando-o com o resto de forças que possuía, e lágrimas correram de seus olhos sem brilho.
O menino, percebendo, perguntou:
-Por que chora, mamãe?
-Por nada, filho! Talvez pela alegria de tê-lo em meus braços!
-Se está alegre deve sorrir!
-Também choramos de alegria!
Ela sabia bem que em pouco tempo deixaria aquele seu filhinho só, sem o seu amor, sem os seus cuidados, porque teria que partir.
Suas energias se esvaíam consumidas pela enfermidade, e ela não resistiria por muito tempo mais, embora estivesse lutando consigo mesma para não deixar os filhos.
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Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 07, 2018 9:01 pm

Além daquele tão pequeno, possuía um outro, um menino mais velho que completava dez anos.
O seu marido a deixara logo depois do nascimento do seu filho mais novo, entusiasmado com alguém que conhecera e que o iludira com promessas de uma vida feliz e cheia de amor, e ele não resistiu, deixando a esposa e o filho pequeno nos braços.
Desde aquela ocasião ela foi fenecendo.
Entristeceu-se, mas lutou muito para criar os filhos e manter o mais velho na escola.
Além das obrigações com a casa, ela passou a trabalhar em outras casas ajudando nas obrigações domésticas de limpeza e cuidado com as roupas.
Em algumas levava o filhinho, em outras não lhe era permitido, mas ela marcava um horário em que o filho mais velho, ainda uma criança também, cheio de vida e de vontade de brincar, pudesse ficar com o irmão em casa.
Desde pequeno, pois, o mais velho cuidava do pequeno e, mais tarde um pouco, quando a enfermidade surgiu no físico de sua mãe, essa obrigação tornou-se mais constante.
O menino não reclamava, cuidava do irmãozinho com muito amor, e fazia-o com alegria, sem nunca achar que poderia estar brincando em vez de fazer o que não era de sua obrigação.
Enquanto estudava, se a mãe pudesse, cuidava do pequeno.
Colocava-o junto de si, no leito, e quando ele se ausentava para ir à escola, ficava mais difícil.
Havia dias que até à cozinha ele precisava ir para preparar o pouco que possuíam em casa.
Quando a mãe precisou deixar de trabalhar, tudo piorou.
As suas patroas, apiedadas, mandavam-lhe sempre algum suprimento para a alimentação dela e dos filhos, e era disso que sobreviviam.
Sem recursos, a saúde daquela pobre mãe só podia piorar, mas não havia outro meio.
-Preciso arranjar algum serviço para fazer - disse- -lhe um dia o menino mais velho.
-Como vai trabalhar se é ainda tão criança e tão necessário aqui em casa?
-Pois deixo de estudar e nessas horas faço algum trabalho.
Sempre dará para ganhar algum dinheiro.
-Isto eu não quero, filho.
De forma alguma desejo que deixe a escola para trabalhar.
-Mas é preciso, mamãe!
-Não me dê esse desgosto! Nunca mais repita isso!
INTERROMPENDO NOVAMENTE A TRANSMISSÃO das imagens, um dos promotores daquela actividade olhou para Thomas indagando:
-Como está se sentindo, irmão?
-Eu não sei o que querem de mim, fazendo-me ver histórias com as quais nada tenho a ver.
-É assim que considera o que está vendo?
-De que outra forma devo considerar?
-O senhor imagina que estamos aqui para nos distrair, fazendo-o ver histórias que não lhe dizem respeito?
-Até o momento eu nada entendi, senão o que eu disse.
-Mas está acompanhando o desenrolar dos acontecimentos e retendo-os em sua mente?
-É impossível não acompanhar se estão se desenrolando todos à minha frente!
- Pois vá acompanhando com atenção, como se depois tivesse que narrar tudo o que viu a alguém.
-A quem devo narrar esta história?
-Não se preocupe com isso! Talvez tenha que narrá-la a si mesmo, muitas e muitas vezes.
-Sabemos porque ainda se encontra nessa postura de observador apenas, mas depois será diferente - manifestou-se outro dos que o auxiliavam.
-Vamos prosseguir! - exclamou o que primeiro se manifestara.
As imagens retornaram num ponto em que aquela pobre mãe, já muito mal de saúde, não mais deixava o leito.
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Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 08, 2018 9:49 pm

O filho menor, sempre à volta dela, também participava do mesmo leito que ela para poder ficar juntinho da mãe.
O mais velho, embora tão criança ainda, saía à rua ver se conseguia algum dinheiro para algum alimento ou medicação, mas trazia tão pouco, que mal dava para um alimento parco que ele reservava para o irmãozinho e para a mãe, já sem vontade de se alimentar.
Para ele mesmo pedia um pedaço de pão que comia na rua para ter forças para prosseguir.
As vezes, até um prato de comida ele pedia e ganhava, mas comia com certo remorso, sabendo que os que ficaram no seu lar, nada teriam.
As dificuldades aumentavam cada vez mais, porém, ao chegar à casa, ainda encontrava a mãe, que, de qualquer forma, lá estava junto do pequeno, e, mesmo com muito sofrimento, recebia dela o sorriso de satisfação por vê-lo.
Com voz quase sussurrada ela o chamava para perto de si e pedia que a abraçasse, agradecendo a Deus ainda estar viva para vê-lo mais uma vez, porque sabia, se não acontecesse enquanto ele estivesse em casa, algum dia, quando chegasse, ela não estaria mais para recebê-lo.
Apesar dos temores, da tristeza de ter que deixar os filhos tão pequenos, ela não pôde evitar de partir, e, numa manhã em que o filho se preparava para sair à rua, aproximando-se do leito, viu que a mãe estava muito diferente.
Ofegante, os olhos embaçados, nem viu que ele estava em sua companhia.
O pequeno ainda dormia e ele abraçou-a chamando- -a, mas ela acabou de desfalecer em seus braços.
Desesperado, o menino saiu correndo chamar as vizinhas que se aprestaram em vir imediatamente, mas nada mais poderia ser feito.
Ela partiu deixando os filhos na mais extrema penúria, penúria essa que ela também experimentara, e sofrera muito por não poder proporcionar-lhes pelo menos o alimento necessário para a manutenção da vida deles.
As próprias vizinhas, embora pobres também, tomaram as providências necessárias para o sepultamento do corpo, mas o mais difícil era o que ficava.
Ela já havia partido, descansara, conforme elas consideravam, mas a luta maior teria que ser empreendida pelos filhos que ficaram sós.
O que eles fariam tão novos ainda, sem pai, sem mãe, sem recurso algum?
Como sobreviveriam se nada possuíam em casa?
Pelo menos a casa, conquanto pobre, era deles, que o pai, ao partir deixara, e com o tecto eles não precisavam se importar.
Após os funerais mostrados na tela, muito tempo havia passado em que ali estavam naquelas visualizações, e um deles, o que tinha o comando da actividade, achou por bem desligar o aparelho, surpreendendo Thomas.
-Que história mais triste me mostraram!
-Todas as histórias são tristes quando não há alimento nem o chefe da família, e ainda há a enfermidade que acaba levando o ser que deve manter a união familiar, com seu amor, com seu esforço.
-Quem são essas pessoas que me mostraram?
-Nós vamos interromper por hoje esse trabalho, mas peço-lhe que, mesmo sem saber de quem se trata, tenha toda essa história em sua mente e repense-a toda muitas vezes, para que ela fique bem guardada em seu coração, que logo ela lhe será muito útil.
-Não entendo!
- Por ora não poderei dizer mais que isso.
No momento certo você terá em sua memória tudo o que deve recordar do seu passado.
O que viu hoje o ajudará muito.
NA SALA AO LADO, acompanhando o que ia sendo mostrado a Thomas, em uma outra aparelhagem, Stella viu quando a actividade foi encerrada por aquele dia.
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Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 08, 2018 9:49 pm

Algumas poucas horas haviam sido despendidas e seria muito cansativo prosseguir, como acumular muitas informações, porque algumas poderiam se perder no esquecimento.
Quando Thomas foi dispensado, saiu com a recomendação de que estivesse ali na manhã seguinte no mesmo horário.
Ao deixar a sala, ele deparou-se com Stella que o esperava.
Fui avisada de que já estavam por terminar e vim esperá-lo.
Como foi? O que fizeram com você?
-Comigo nada fizeram, mas me mostraram uma história triste de abandono, miséria e morte, que ainda não entendi por quê, e ainda pediram-me que a recordasse muitas vezes para não esquecer nenhum detalhe.
Lembrei-me do tempo em que frequentava escola e precisava estudar em casa para reter a aula que havia sido dada.
-Nada mais lhe disseram?
-Apenas que retivesse aqueles acontecimentos que visualizei que me seriam muito úteis.
Eles sabem o que dizem e você deve seguir esse conselho.
Se quiser a minha colaboração, estarei à disposição.
Você pode, para começar a se recordar conforme foi aconselhado contar-me o que viu. Estou curiosa.
Stella sabia muito bem o que havia sido mostrado porque também vira, mas precisava ajudá-lo.
Por obrigações reencarnatórias que deveria cumprir, ela não participara daquela existência, mas estava compreendendo bem a intenção do que faziam e já desconfiava que ma conclusão a que estava chegando, era correta, mas nada podia dizer nem indagar a ninguém.
A sua tarefa junto de Thomas era ajudá-lo, e, ao final, ela teria também, aberto ao seu espírito, um pouco mais do passado do marido e quiçá do filho.
Tinha em si uma forte impressão de quem ele era ali naqueles acontecimentos, mas não lhe cabia fazer nenhum comentário.
Diante do seu oferecimento, Thomas aceitou e pediu que fossem a um lugar onde pudessem estar tranquilos para conversar.
Stella o levou a um recanto do jardim onde ninguém os interromperia, sentaram-se em um banco e ficou esperando que ele falasse.
Como demorava, ela interpelou-o dizendo que o tempo era precioso e não deveria ser desperdiçado.
Sem saber como começar, no início ele foi misturando um pouco a ordem dos acontecimentos, e, não obstante ela estivesse entendendo porque vira o mesmo que ele, disse-lhe que sua história estava um pouco obscura.
Que a recomeçasse a fim de que ele mesmo a tivesse na sequência em que lhe fora mostrada, evitando confusões depois quando tivesse que recordá-la só.
Ele foi contando tudo o que vira e, ao final, diante do silêncio de Stella que precisava deixá-lo falar, indagou:
-Você entendeu essa história?
-Devemos considerar que ela foi interrompida como você mesmo disse, e falta ainda acontecimentos para que se complete.
-Por que me mostraram acontecimentos que envolvem pessoas que não conheço e pelas quais nada posso fazer?
-O que lhe mostraram deve ter um significado muito importante para você.
Comece por analisar as atitudes de cada um dos que visualizou, sobretudo a daquele menino, criança ainda e já tão responsável.
- O sofrimento e a necessidade tomam as crianças adultas muito antes da hora.
-É verdade, mas é uma pena que assim aconteça, porque toda criança deve ter seu tempo de infância, vivido como criança, sem obrigações tão pesadas, que não as próprias da sua idade, para ir crescendo disciplinado e ser um adulto responsável.
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Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 08, 2018 9:50 pm

-Devemos considerar que ele estava vivendo uma situação muito difícil, mas se renunciava à sua vida de criança, era porque já era bom.
Se não fosse um bom menino, mesmo que a mãe passasse necessidade, mesmo enferma, ele não se importaria e quereria viver a sua vida sem pensar em ninguém.
- Muito bom que tenha prestado atenção a esse detalhe.
Realmente ele era um menino bom e preocupado com a mãe, que fora abandonada pelo marido.
-Resta-nos saber agora como vão viver, como vão se sair depois da morte da mãe.
-Tem razão! Será difícil para ele conseguir meios de subsistência tanto para si quanto para o irmãozinho tão pequeno ainda.
-Se ele se sacrificou até aqui para proporcionar algum recurso à mãe, fará o mesmo para o irmão.
Ele será capaz de deixar de se alimentar para que o irmãozinho não fique com fome.
Sabe que no início aqueles acontecimentos estavam me aborrecendo, mas analisando-os como estamos fazendo, não vejo a hora que o amanhã chegue para prosseguirmos.
O RESTO DAQUELE DIA Thomas reviveu muitas vezes em pensamento toda a história que vira.
Quando retornou na manhã seguinte para continuar a sua actividade, tinha-a toda na sua memória.
Os procedimentos foram os mesmos, a prece pedindo a protecção do Pai foi proferida e a actividade teve início.
A imagem retornou naquela mesma casa onde duas crianças permaneciam sós, e, ao vê-las, Thomas se sensibilizou.
O menino maior, tão Criança ainda, deveria começar a providenciar o de que teria necessidade para a sua sobrevivência e a do irmãozinho, tão pequeno que ainda não avaliava a situação em que se encontrava, a não ser a falta da mãe.
O que ele faria?
Costumava sair à rua para oferecer seus serviços dentro do que a sua idade e capacidade poderiam fazer, mas era quase nada.
O que poderia fazer um menino de dez anos, enfraquecido pelas carências a que era obrigado a viver, apesar da grande força interior que trazia?
Pelo pouco que conseguia, via-se obrigado a pedir, para não voltar para casa sem nada.
Seus estudos estavam ficando sacrificados e constantemente ele faltava às aulas.
Só não as tinha abandonado de vez porque sabia, que o desgosto que daria à mãe, onde ela estivesse, seria muito grande.
As vezes pedia a algum vizinho que ficasse com seu irmãozinho, tão pequeno ainda, mas eles também tinham suas obrigações e necessidades e nem sempre podiam atendê-lo.
A situação estava ficando deveras difícil e ele resolveu que, quando saísse à rua, se ninguém pudesse ficar com o irmão, o levaria consigo.
Seria mais difícil, mas melhor que nada.
O pequeno cansava-se logo, choramingava, irritava-se e ele precisava voltar ao lar quase sempre sem nada.
Quando retornava mais cedo aproveitava para dar uma arrumação na casa e fazer uma limpeza.
Até as roupas ele tinha que lavar, e preparar o pouco que conseguia em alimentos para não morrerem de fome.
Algum tempo passaram nessa situação até que um dia, quando se encontravam em casa, recebeu uma visita de uma senhora que fora notificada da condição em que viviam, dizendo que eles, tão pequenos, não podiam continuar daquele jeito.
Não poderiam ficar sós nem ele poderia perder aulas.
Ela vinha oferecer um orfanato da cidade para que o pequeno pudesse ser mais bem-cuidado.
-E eu? - indagou o menino.
-Só recebemos crianças pequenas como seu irmãozinho.
Da sua idade nos dão muito trabalho e não temos recursos para tanto.
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Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 08, 2018 9:50 pm

- Eu não vou me separar do meu irmãozinho.
-E para o bem dele e o seu também!
-Como a senhora pode saber o que é melhor para nós?
Ele sentiria a minha falta já que nem temos mais nossa mãe e sofreria muito.
-Logo ele esquecerá!
-Pois é isso mesmo que eu não quero!
- E como vão viver aqui?
-Da forma que estamos vivendo!
Se a senhora quer nos ajudar, que o faça deixando-nos juntos aqui!
Ele terá a minha companhia e eu cuidarei dele!
-Mas seria melhor para ele e mais fácil para você!
Quando ele crescer um pouco pode ser adoptado por alguma família que o queira e que cuidará bem dele.
Assim, terá um futuro muito melhor.
-Pode ser que sim, mas sem mim, sem mamãe que já nos deixou, ele sofrerá.
Não quero que, quando crescer, ele vá dizer que o deixei em mãos estranhas.
-Desse modo é que não pode continuar!
-Pois ajudem-nos, mas nos deixem juntos e na nossa casa!
Depois de muita conversa e nenhuma solução, porque o menino se mantinha irredutível, ela disse que então veria o que poderia fazer.
Que falaria com algumas das senhoras, suas amigas e colaboradoras do orfanato, e retomaria para dar uma resposta, trazendo o que pudesse conseguir.
O menino ficou mais feliz e agradeceu, e a senhora, ao se despedir, ainda lhe falou:
-Admiro muito a sua atitude.
Tão criança ainda e já valoriza de modo tão intenso a união familiar, o cuidado com o seu irmãozinho, mesmo em sacrifício de sua vida.
- Faço por mim, por ele e por mamãe, que não merece ver meu irmãozinho num orfanato.
-Sua mãe já morreu!
-Mas de onde ela está, nos vê e ficaria muito triste se nos separássemos.
Como sabe que sua mãe pode vê-los?
- Sinto isso!
-Está bem! Eu retornarei com o que puder conseguir!
Passados mais alguns dias eis que aquela senhora,
acompanhada de uma outra, os visitaram trazendo uma boa porção de víveres que daria para eles se alimentarem por muitos dias, sem preocupação.
A que acompanhou a senhora que primeiro os visitou, disse-lhes:
-Trar-lhe-emos sempre um suprimento até que possa se arranjar de outro modo.
Continue a frequentar suas aulas para ter um futuro melhor que nós o ajudaremos.
-Eu agradeço muito às senhoras por compreenderem que não posso me separar do meu irmãozinho e por estar nos ajudando, facilitando-me cuidar melhor dele.
-Como faz quando vai à escola?
-Alguma vizinha fica com ele!
-Tenho muita pena de você, tão criança, já sofrendo tanto e com tantas responsabilidades.
-Onde está seu pai?
Ele já havia abandonado mamãe há tempos, por isso ela ficou tão doente e acabou morrendo.
-Agora nós vamos embora mas voltaremos sempre.
Vou ver se consigo também algumas roupas para vocês.
-Eu agradeço muito!
As que temos já estão muito velhas e pequenas.
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Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 08, 2018 9:50 pm

APÓS AQUELA VISITA A vida dos dois garotos melhorou bastante.
O mais velho poderia se dedicar mais ao irmãozinho, à casa e sobretudo aos seus estudos, sem tanta preocupação pela sobrevivência.
Com um pouco mais de conforto e mais tranquilidade apesar de que muito ainda restava em responsabilidade para uma criança tão nova, o tempo foi passando.
Ele concluiu os estudos elementares que lhe davam o essencial para não andar pela vida como cego, e alheio às noções principais do que uma pessoa precisa saber.
E assim como ele crescera, o pequeno também se desenvolvia mais forte e mais bem-cuidado com o que as senhoras lhes proporcionavam, e com o pouco que o mais velho conseguia através de algum trabalho, que já tinha mais condições para isso.
O que poderia ter se transformado em tranquilidade pelo que conseguiram e pelo tempo que passava, foi trazendo ao mais velho dos dois uma preocupação e um trabalho maior.
A medida que o pequeno crescia, tornava-se mais voluntarioso, insubordinado e grosseiro com o irmão.
Achava que não lhe devia obediência porque ele não era seu pai e desrespeitava-o sempre.
Era indolente e, já em idade escolar, não gostava de estudar e causava problemas na escola.
Frequentemente o mais velho era chamado por alguma má-criação que ele fizera.
A vida dos dois estava se tornando difícil.
O que havia se sacrificado tanto pelo irmão, já não sabia mais o que fazer.
Quando o mais velho conseguia algum trabalho, sempre reservava o horário em que o irmão ia à escola para fazê-lo, para poder estar com ele em casa, insistir para que fizesse as obrigações que a professora passava, mas ele se rebelava e não obedecia.
Ele esforçava-se para que o irmão fosse responsável e obediente, para que cuidasse do que era seu com amor, mas estava difícil.
As senhoras que os visitavam ainda procuravam ajudá-lo, mas o pequeno dizia que elas nada tinham com a sua vida e, se estivesse em casa quando chegavam, ele dava um jeito de escapulir e ia para a rua.
A que sugerira, há anos atrás, que ele fosse levado a um orfanato e adoptado, lembrou ao mais velho:
- Se tivesse concordado connosco naquela ocasião, em colocar seu irmão no orfanato, hoje ele teria sido adoptado por alguma família, teria pais, embora adoptivos, com força suficiente para se fazerem respeitados, e o educariam melhor.
-A senhora quer dizer que ele é assim por minha causa?
-Não foi isso que eu disse!
Mas você, como irmão e muito novo ainda, não tem o respeito dele, o que seria diferente com a assistência constante de um pai e uma mãe.
-Jamais me separaria do meu irmão, já lhe disse muitas vezes.
-Eu louvo essa sua atitude, mas está sendo muito difícil para você.
-Tem razão, mas quando ele crescer um pouco mais se modificará!
-Queira Deus que sim!
Havia algumas ocasiões, no entanto, em que o pequeno era mais cordato e menos rebelde, e ambos podiam conversar.
Quando tinham essa oportunidade, o mais velho, às vezes, lhe dizia:
-Sempre me lembro de mamãe, do quanto ela sofreu, do quanto nos amava, da falta que nos faz, e penso:
- Onde será que ela está?
-Eu não me lembro dela e por isso nunca tenho esses pensamentos.
Gostaria de ter tido a nossa mãe connosco sempre, mas se não a temos, nada podemos fazer e não vou perder meu tempo pensando em quem não lembro.
-Ela o amava muito e sua tristeza maior, quando estava doente, era por sua causa, tão pequeno ainda e tão necessitado dela.
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Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 08, 2018 9:51 pm

- Não gosto quando volta a esse assunto.
Ela nada mais significa para nós e temos a nossa vida.
-Quis lembrar mamãe para que soubesse o quanto ela nos amava e o quanto deve estar preocupada com você que é tão rebelde.
-Vai começar de novo?
Não quero ouvi-lo.
Você não pode me ver bem que já começa a me irritar.
Desse modo o assunto era encerrado, o pequeno saía à rua e o mais velho ia cumprir algumas das suas obrigações no lar.
Tudo isso Thomas estava observando mas ainda não tinha a identidade daquelas crianças nem entendia o porquê daquela história lhe estar sendo mostrada.
Os fatos continuaram por mais algum tempo sem que nada houvesse se modificado em relação ao pequeno, até que as imagens foram interrompidas por aquele dia.
Como no dia anterior, Stella estava à sua espera e levou- -o a um passeio onde puderam comentar o que ele vira.
Ela, para que ele não soubesse que também estava vendo, fazia-lhe perguntas, auxiliando-o a recordar-se do que vira e a reter a história em sua mente, a fim de que fosse fazendo suas reflexões, mesmo imaginando que se tratava de duas crianças que não sabia quem eram.
Ele contou-lhe que ambas já haviam crescido, mas que o pequeno estava se revelando uma pessoa ingrata.
Não obedecia ao irmão, era rebelde e quase sempre fazia apenas o que desejava.
Ao final da conversa, depois de ter narrado a Stella tudo o que vira, feito alguns comentários mostrando-se penalizado pelo menino mais velho que dedicava sua vida ao irmão mais novo e ele não reconhecia nada, indagou:
-Você tem alguma ideia de quem sejam aquelas crianças que aparecem na história e porque as mostram justamente para mim que nada tenho a ver com elas?
De que me adianta ver o que acontece com elas, apesar de ser uma história interessante de sacrifício e ingratidão.
-É esse o seu julgamento a respeito da história? Sacrifício e ingratidão?
-Por tudo o que lhe contei, você deve fazer esse mesmo julgamento.
-Tem razão! É um ato louvável de dedicação e sacrifício do irmão mais velho, e de muita ingratidão e rebeldia do mais novo.
Entretanto, mesmo sem saber quem são aquelas crianças, a história lhe fornece elementos para muita reflexão e que podemos aproveitar para nós mesmos, uma vez que já temos a capacidade de julgar uma ingratidão em paga a tantos benefícios prestados em sacrifício à própria vida.
-Deve ser por isso que me mostram, como forma de eu ir aprendendo lições que só poderão auxiliar-me.
Nada mais Stella poderia comentar porque já sabia muito bem o porquê daquela história, quem eram as personagens nela mostradas, mas ele deveria concluir por si mesmo para que a história fosse realmente benéfica ao seu aprendizado.
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Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 08, 2018 9:51 pm

16 - REFLEXÕES
THOMAS PENSOU MUITO ENVOLVIDO com a história, e uma nova manhã chegou, durante a qual ele deveria cumprir mais uma etapa da sua actividade.
Antes de iniciar, porém, antes mesmo da prece ser feita ele falou:
- Gostaria, antes que começássemos, que me dissessem de quem trata essa história.
Por que eu devo vê-la?
-Nada fazemos aqui sem um objectivo benéfico.
Os factos estão se encaminhando para o seu final, pelo menos o que devemos mostrar, e logo você entenderá quem são as personagens e por que lhe mostramos.
Continuemos, pois, que a conclusão de tudo deve partir de você mesmo, se tem feito as reflexões que recomendamos.
A prece foi proferida, as imagens ligadas, e como mostravam um período diferente, Thomas indagou:
-Essa história é a mesma que eu estava vendo?
-Apenas as duas crianças já são adultas, a vida de sacrifício e dedicação do mais velho continuou, e o mais novo em nada se modificou.
Continuemos que você verá com seus próprios olhos.
As imagens começaram a se desenrolar e ele foi vendo o rapaz mais velho trabalhando muito.
E como nunca tivera oportunidade de uma instrução mais aprimorada, não tinha condições de realizar um trabalho menos rude, com um salário melhor.
Sempre com tantas obrigações, ele realizava um serviço árduo, louvável como são todos os serviços praticados com dignidade, mas muito pesado e mal remunerado.
A ajuda das senhoras, assim que ele pôde começar a trabalhar, foi suspensa, para que pudessem ajudar a outros em condições difíceis, piores que as deles, justamente dos que não tinham condições de trabalhar.
O mais novo completara o seu curso elementar com dificuldade e nada mais fizera.
Não trabalhava, ficava em casa o dia todo e, à noite, saía em busca de aventuras arrojadas para conseguir, através do roubo, o que não conseguia através do trabalho.
O irmão não sabia exactamente o que ele fazia e tinha medo de saber porque desconfiava que podia não ser nada bom.
Ele sempre trazia dinheiro no bolso, andava bem-vestido, alimentava-se bem, pouco se importando com o irmão.
Num momento em que a imagem foi fixada na tela, Thomas, revoltado com o que via, manifestou-se:
- É muito ingrato esse jovem!
Não respeita o irmão, não reconhece tudo o que fez por ele, os sacrifícios que enfrentou para não se separarem, as oportunidades que perdeu de ter uma vida melhor, e agora ainda é um ladrão!
- Nem sempre as pessoas reconhecem os sacrifícios que muitos fazem a seu favor.
Uma vida inteira de dedicação é esquecida, sem piedade daqueles que se sacrificaram e ainda os fazem passar vergonha pelos actos praticados.
-Esse jovem deveria ir parar na prisão para pensar no que recebeu e no que faz!
-Continuemos a ver as imagens que teremos, hoje, o desfecho dessa história, com a revelação de quem são essas pessoas, ou melhor, o reconhecimento seu de quem elas são.
-Então continuemos que estou ansioso para saber!
-Tudo tem sua hora certa, sobretudo quando estamos preparados para aproveitar os momentos vividos que nos são mostrados, como forma de análise e reeducação para novas jornadas terrenas.
Quando o mais velho descobriu o que o irmão fazia, ficou muito aflito e, preocupado, chamou-o à atenção, mostrando-lhe o perigo que corria, a liberdade que poderia perder, falando também do mal que fazia às pessoas que lesava.
As vezes elas possuíam apenas o necessário para a sua manutenção e a da sua família, e sem nada lhes seria muito difícil.
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Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 08, 2018 9:51 pm

Procurou aconselhá-lo, mas ele, rebelde e revelando-se insensível aos apelos do irmão, respondeu-lhe:
-E para mim, está sendo fácil?
Sempre vivemos na miséria, a maior parte da caridade alheia e jurei que nunca pediria nada a ninguém!
-Se esse juramento tivesse sido feito com a intenção de nada pedir, mas de trabalhar para ter o necessário, seria louvável, mas não pedir para roubar, é muito vergonhoso, terrível e desumano.
Como fica a sua consciência tirando dos outros o que lhes daria o sustento para si e seus familiares depois de tanto trabalho?
-Chega a miséria que passamos a vida toda, agora quero para mim o melhor.
-Que trabalhe para isso! Você já pensou em mamãe, em como está se sentindo, vendo o que você faz?
-Já lhe falei uma vez e repito:
Mão fale em mamãe!
Não me lembro dela e não me preocupo com isso:
-Se a polícia descobrir, você será preso.
Com certeza os que estão sendo lesados têm feito queixas e devem estar investigando.
Quando tiverem certeza, não o perdoarão e você irá preso.
-Chega de me chamar a atenção!
Cuide de sua vida e eu cuido da minha.
-Sabe que me preocupo com você, que o criei com amor e de quem nunca quis me separar!
-Pois deveria ter me dado a alguém que pudesse ter me criado com mais conforto.
Hoje eu seria outra pessoa!
-Acusa-me, então, pelo amor que lhe tenho, meu querido irmão, por não tê-lo dado a outra pessoa?
-Já estou cansado deste assunto! Deixe-me em paz e cuide da sua vida!
-Se ficar em paz para você é não ouvir suas próprias culpas, eu o deixarei.
Não falarei mais sobre isso, mas lembre-se, você está trilhando um caminho muito perigoso diante dos homens e muito condenável diante de Deus.
O jovem nada mais respondeu e sua vida continuou na mesma, até que foi descoberto e preso, para desgosto e vergonha do irmão.
Quando soube, ele correu para a cadeia ver se podia fazer alguma coisa em favor dele, mas ele já estava preso em uma cela.
Ao vê-lo, o que estava preso chegou-se à grade rogando-lhe:
-Tire-me daqui, tire-me daqui!
- Como posso fazê-lo?
Você foi pego em flagrante e não há nada que atenue a sua culpa.
A minha parte já fiz advertindo-o e aconselhando-o muitas vezes, mas você não me ouviu.
Agora nada posso fazer.
Se pudesse, sabe que o faria porque o amo.
Você é meu único irmão, cuidei de você desde pequenino e dói-me vê-lo aí!
Entretanto, são muitas reclamações, muitas culpas e você terá que pagar pelo que fez.
A justiça não o perdoará!
Ouvindo isso, ele voltou para o fundo da cela, gritando:
-Se nada pode fazer por mim por que veio?
Apenas para ver-me atrás das grades?
-Não é isso e você sabe!
Estou sofrendo também até mais que você, mas infelizmente nada posso fazer.
Começava, para aquele que sempre fora rebelde, uma nova vida. Tempo para reflectir em tudo o que havia feito ele teria de sobejo.
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Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 08, 2018 9:51 pm

E, se ao final da pena que lhe imporiam, ele tivesse se modificado um pouco, teria valido a pena.
Se não tivesse se modificado e voltasse à sua vida anterior, correria o risco de tornar a ser preso.
Dependeria apenas dele o novo rumo que daria à sua vida.
Quanto ao mais velho, continuaria com seu trabalho pesado, mas que o deixava feliz e em paz, porque nada lhe acusava a consciência.
A cena foi fixada na tela, justamente no momento em que o mais velho ainda estava postado junto à grade da cela do irmão e lhe falava.
O que dirigia a actividade, indagou a Thomas:
-Até aqui nada ainda o fez reconhecer quem são esses jovens?
-De que forma eu o faria?
Como poderia reconhecê-los se nunca os vi?
Pois fale-me, quem são eles e por que me mostram essa história?
-Nós o faremos!
Mas antes quero dizer que, de modo geral, sempre nos modificamos em algumas das nossas imperfeições, mas aquele irmão apegado ao mal e teimoso, em certos aspectos não se modificou.
Depois daquela encarnação, depois de passar por um período difícil em regiões nada agradáveis, ele preparou-se, estudou, aprendeu, mas o seu espírito ainda guarda um pouco da teimosia, das convicções que ninguém conseguiu modificar em seu íntimo a até do pouco afecto que sempre teve por aquele que o criou com carinho, cuidado, preocupação e amor.
-Pois lhe falei, há pouco, que ele era um ingrato.
-É esse o seu julgamento?
-Como poderia ser diferente?
-Pois temos aí, na tela, diante de nós, os dois irmãos e chegou a hora de você saber quem são eles.
-Espero essa revelação desde o primeiro dia em que aqui estive.
-Você a terá agora. Fixe intensamente o seu olhar nos dois que, por um processo que faremos neste momento, você saberá quem são.
Thomas fez o que lhe recomendaram, e os dois jovens, aos poucos e com bastante vagar, foram se transformando ante seus olhos.
O que estava dentro das grades foi tomando a sua própria aparência, aos olhos espantados de Thomas.
-O que é isso? - gritou ele.
Por que fazem essa brincadeira comigo?
Por que me colocam no lugar daquele cujas atitudes sempre condenei?
Eu sou eu, ele é ele!
-Não estamos aqui para brincadeiras e dissemos que íamos lhe mostrar quem eles eram.
Pois está vendo!
O jovem rebelde e ingrato como você mesmo o julgou, é você mesmo.
-Eu não acredito!
-Olhe agora para o outro, o que sempre se sacrificou para cuidar do irmão. Veja quem ele é!
Da mesma forma suas feições foram se modificando e, em poucos instantes ele tinha, à sua frente, o seu filho William.
-Essa é mais uma brincadeira que fazem comigo?
-Já lhe dissemos que não estamos aqui para brincadeiras!
O nosso tempo é precioso demais para que o percamos em actividades que nos levem a nada.
Tudo o que fazemos tem uma intenção e essa actividade que estamos realizando com você e para você, tem justamente a finalidade de fazê-lo compreender.
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Re: Meu filho - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 08, 2018 9:52 pm

E se da mesma forma como considerava o jovem desde menino, um ingrato, e passa a considerar-se como tal, reconhecendo o que recebeu e o que fez, não só ao seu irmão daquela época, mas ao seu filho desta sua última existência, já terá valido a pena.
-O que quer dizer?
-Que esse nosso trabalho teve a finalidade de fazê-lo compreender, de reconhecer o quanto foi ingrato com seu filho.
-Eu não sabia!
-Não era necessário que soubesse, mas que o tratasse como qualquer ser humano deseja e precisa ser tratado, ainda mais um pai a um filho que ficava sem a mãe.
-Pois foi por isso mesmo!
-Deixemos os comentários para depois e continuemos a analisar as nossas imagens.
-O que mais temos para ver?
- Queremos fazê-lo não apenas ver-se como aquele jovem mas sentir-se como ele para que nenhuma dúvida reste em seu íntimo de que era mesmo você.
Ê O que farão?
-Fique atento que você mesmo sentirá!
Da mesma forma como transformaram as imagens, o próprio Thomas, em espírito, ali diante de todos e sentindo-se como Thomas, para que nenhuma dúvida restasse do que lhe estavam mostrando e afirmando, ele passou a se sentir como aquele jovem rebelde a até a sua aparência se modificou.
-Veja Thomas em que se transformou.
Veja bem quem é agora, sinta sensações novas e inusitadas para você!
-O que estou fazendo eu aqui, e desse jeito?
Eu sou Thomas, mas não sou Thomas.
Estou confuso! O que fizeram comigo?
-Apenas o que era preciso para que se convencesse de vez quem é e quem foi.
Imagina que o que já viu e sentiu é suficiente para compreender de uma vez o quanto tornou a errar nessa sua última existência?
-Eu não era um ladrão!
-Realmente não o era e nesse aspecto você mudou bastante.
Essa existência que lhe foi mostrada ocorreu há muito tempo, e você conseguiu superar aquela imperfeição - pelos anos que ficou preso, pelo que sofreu dentro da prisão que não precisamos mostrar, e pela preparação que fez no mundo espiritual para que voltasse diferente.
Entretanto, faltava-lhe resgatar o amor que seu irmão lhe dedicou, os cuidados que lhe dispensou e você mesmo pediu uma oportunidade de fazê-lo em nova existência.
-E eu falhei!
Ah, se eu soubesse quem eu havia sido e quem ele era!
-Isso nada justifica!
Ao encarnarmos, trazemos adormecido em nós o que pedimos, o que preparamos dentro da nossa programação, e o que nos é permitido saber do que vamos passar, para, no momento certo, de forma intuitiva como algo que nos impele, fazermos o que prometemos.
-E eu não fiz!
^ Você não sabia que ele precisaria tanto de você.
Mas foi necessário, para outros resgates, que ficasse só com ele e que Stella retornasse ao mundo espiritual.
Era a oportunidade de demonstrar para o que era seu filho e havia sido o seu irmão, toda a gratidão que reconheceu, ele merecia.
Porém, ao ficar só, voltou-se contra ele e nada fez, agravando ainda mais seus débitos com ele.
-O que feirei agora?
-Deus sempre dá novas oportunidades a quem se arrepende e deseja reparar um erro, como já lhe deu, mas pode lhe conceder outras.
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