ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

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ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 08, 2018 10:37 am

ESPÍRITOS E DEUSES
Carlos A. Baccelli

[pelo espírito] Inácio Ferreira

Leitor amigo.
Este livro, que se encontra pronto há cerca de cinco anos, foi escrito com o único intuito de demonstrar que o Politeísmo, ou seja, a crença na existência de muitos deuses, é o eloquente atestado da História, segundo o qual os espíritos, desde tempos imemoriais, se colocam em contacto com os homens na Terra.
Aproveitamos o ensejo para, igualmente, estudar a precária condição humana, da qual o próprio homem, no corpo ou fora dele, embora a sua origem divina, ainda não conseguiu se libertar.
Nas páginas que você irá ler, desfilam, pois, personagens míticas e reais que se entrelaçam na experiência comum, revelando que o mito nada mais é que a expressão da realidade que, não podendo ser compreendida em sua essência, foi relegada aos domínios do imaginário ou do sobrenatural.
Esperando que nosso despretensioso esforço possa ser acolhido com a boa vontade de sempre, rogamos ao Senhor que a todos nos guarde e abençoe.

INÁCIO FERREIRA
Uberaba - MG, 30 de junho de 2010.
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Ave sem Ninho

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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 08, 2018 10:37 am

Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14
Capítulo 15
Capítulo 16
Capítulo 17
Capítulo 18
Capítulo 19
Capítulo 20
Capítulo 21
Capítulo 22
Capítulo 23
Capítulo 24
Capítulo 25
Capítulo 26
Capítulo 27
Capítulo 28
Capítulo 29
Capítulo 30
Capítulo 31
Capítulo 32
Capítulo 33
Capítulo 34
Capítulo 35
Capítulo 36
Capítulo 37
Capítulo 38
Capítulo 39
Capítulo 40
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 08, 2018 10:38 am

CAPÍTULO 1
Precisamos continuar trabalhando - instava eu com o médium, tentando convencê-lo.
— Mas Dr. Inácio - argumentava, relutante, no diálogo mental que se desdobrou -, o senhor sabe que...
— Sei, sei que não é fácil, para você nem para mim, no entanto carecemos de ser fiéis ao compromisso; muitos permanecem na expectativa do nosso esforço conjunto, e não devemos decepcioná-los.
— Lançar-nos, assim, à empreitada de uma nova obra...
Temo não estar à altura!
— Você teme, eu tenho certeza.
Não, de facto, não estamos à altura, mas, se não trabalharmos, o que nos resta fazer?
Você está aposentado, e eu... morto!
— É que, o senhor sabe, eu me angustio muito.
— Eu também.
— Quando estou escrevendo, ou melhor, quando o senhor está escrevendo por meu intermédio, sofro...
— Todo médium sofre e... todo espírito!
Você acha, então, que eu estou aqui ditando palavras aos seus ouvidos?
Mediunidade, que o diga o nosso caro Odilon Fernandes, é pensamento a pensamento - custamos a nos entender.
Contento-me com eventuais e inevitáveis prejuízos no processo de transmissão.
— Para o senhor, a obra não é inédita, mas, para mim...
— Não, ela não é totalmente inédita para mim - sequer a tenho rascunhada!
Pode ser que outros autores espirituais utilizem método diferente, que, por exemplo, efectuem anotações prévias ou coisa que o valha.
— Quer dizer?...
— Que estamos escrevendo juntos, agora, neste exacto momento.
Não vou dizer a você que não procuro promover uma certa aproximação...
— Há dias que o sinto...
— Rodeando-o, não é?, fazendo-lhe uma proposta de trabalho...
Mas você também vive me sintonizando.
— Eu?!
— Qual o motivo do espanto?
Sim, você, através de todos aqueles que o interpelam a respeito de um novo livro nosso!
— Chego a pensar...
— Que se trata de uma artimanha minha, não é?
E se for?
No sentido de incentivar os médiuns ao trabalho, temos que engenhar...
Sinceramente, eu não sei o que vocês pensam de mediunidade.
O médium não é um poste fincado no chão, sustentando a lâmpada acesa - ele é o fio condutor da energia, que capta na usina geradora; sem o fio, a energia não chega ao poste e, consequentemente, a lâmpada não se acende!
— Tem médium...?
— Com vocação para poste!
Que este não seja o seu caso, pois, se for... terei que procurar outro, e achar médium disposto...
— Disposto?
— Sem preguiça!
De modo geral, os médiuns não querem participar, dividindo connosco a responsabilidade do intercâmbio - querem tudo pronto.
Isto não existe; seja existiu, não existe mais.
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 08, 2018 10:39 am

— O Dr. Odilon...
— O Odilon, com outros companheiros abnegados, tem feito o que pode, para, digamos, combater nos médiuns essa síndrome de poste!
Vocês precisam aprender a buscar a energia na fonte, facilitando o contacto.
— Há quem alega que semelhante providência, da parte dos médiuns, tira a espontaneidade do fenómeno...
— Tal alegação, trata-se de um sofisma.
O fenómeno, por contar com a participação consciente deste ou daquele medianeiro, não perde em autenticidade.
Nós, os mortos, não podemos continuar arcando com todo o trabalho - não é esta a passividade mediúnica que nos interessa.
— O senhor me desculpe, se sempre evoco o exemplo de Chico Xavier...
— Chico levou nove meses para psicografar "Paulo e Estêvão" - uma preciosidade literária!
— Na opinião do senhor, qual teria sido a participação dele na recepção do mencionado livro?
— Certamente, não a de mero instrumento - o médium não é um mero instrumento!
— Nunca?
— Nunca!
— Permita-me uma questão...
— Quantas você desejar.
— Como se desenvolverá este nosso novo trabalho?
— Não sei. Vai depender.
É claro que tenho algumas ideias básicas, que pretendo abordar...
— Depender do quê?
— Basicamente, de você - das condições mediúnicas em que poderemos trabalhar, de suas oscilações psicológicas e... das minhas!
— Das influências espirituais negativas?...
— Não tanto.
— As vezes, como médium, eu me aborreço, quando o serviço não rende e não consigo, em todos os capítulos, manter um nível de qualidade.
— E natural: eu e você estamos somando imperfeições; o perfeccionismo pode ser uma ideia obsessiva...
Sejamos nós mesmos - eis o que importa.
— Dr. Inácio, o Mundo Espiritual...
— ...é um continente desconhecido, até mesmo por nós, os que o povoamos.
Os homens existem sobre a Terra há milhares e milhares de anos e ainda não a desvendaram por completo; aliás, estão muito longe isto...
Conhecem-na superficialmente, no sentido literal.
O homem quase nada sabe da vida que palpita no seio dos oceanos e no interior do orbe em que respira.
— O homem desconhece...
— ...bem lembrado, o seu próprio corpo!
— Eu não cheguei a falar!
— O seu pensamento me chegou antes.
— Incrível, não é, Doutor?
— O homem pouco sabe do corpo que lhe reveste a essência, pouco conhece da casa planetária em que se abriga e quer saber da Vastidão Etérea!
— O que sabemos das Dimensões Espirituais?...
— E o que sabemos de um grão de areia do Saara, não mais do que isso!
— Vocês, os espíritos?...
— Não, meu filho, o que temos são conjecturas; sabemos alguma coisa do que está à nossa volta...
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 08, 2018 10:39 am

— André Luiz?...
— ...representou e representa um avanço extraordinário, inigualável, mas tão-somente ergueu uma ponta do véu.
Se pudesse tê-lo erguido mais...
— ...não acreditaríamos!
— Com certeza, não.
Quando eu estava por aí e manuseei "Nosso Lar"...
— Desacreditou?
Custei a assimilá-lo; precisei lê-lo e relê-lo diversas vezes, pensando, pensando...
— Tem gente que, até hoje, coloca certas informações em questão...
— Não é de se admirar e nem de se criticar.
— Dr. Inácio, desculpe-me, o senhor não está fazendo a defesa das obras que tem escrito por meu intermédio?
— As minhas obras de natureza mediúnica, ou seja, as nossas obras em regime de parceria, sinceramente, não fazem e não devem fazer parte das minhas e de suas cogitações a respeito; elas representam - estejamos ambos conscientes disto! - singelo ensaio das experiências que permutamos no conhecimento das coisas que nos empolgam o espírito.
Você me conhece!
— Conheço.
— E eu conheço a você.
Fosse de outra maneira, não estaríamos juntos.
— Depois da obra de Chico Xavier, eu tenho vergonha de apresentar qualquer trabalho ao leitor espírita, que, diga-se de passagem...
— ...é exigente e não sabe nada, qual nós mesmos!
— É mais ou menos por aí.
— É inteiramente por aí!
Eu - permita-me -, doutor da lei, não sabia!...
Somente quando desencarnei é que incorporei a minha ignorância.
Você quer saber de uma coisa?
Neste Outro Lado, eu não sei nem para onde dar o meu próximo passo...
O que significa?
— Meu filho, ainda bem que a gente tem o perispírito para nos preservar a individualidade!
Caso contrário, perderíamos totalmente a referência...
— De espaço e tempo?
— E o que é pior: de nós mesmos!
Graças ao perispírito é que eu continuo sabendo quem sou - que sou o Inácio e me chamo Inácio!
— Por este motivo?...
— ...tudo por aqui tem que ser mais ou menos igual ao que é por aí.
Vejamos: os homens foram à Lua e tiveram que permanecer amarrados à nave espacial, para não saírem voando, perdidos no Cosmos.
— E estamos falando de mundos de natureza física semelhante.
— Agora, você imagina o espírito que, de repente, perde o seu referencial milenar - o corpo de carne - e, na condição de náufrago, chega às praias do Infinito...
— Dr. Inácio, é de fazer a cabeça da gente rodo piar!
— Rodopiar e dar cambalhotas, meu filho!
— Como pode ser isto, se o Mundo Espiritual é "preexistente e sobrevivente a tudo"?...
Que coisa! A desencarnação não deveria ser novidade para nós!
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 08, 2018 10:39 am

CAPÍTULO 2
E nem a reencarnação para nós, os candidatos a ela.
(Assim, demos sequência ao proveitoso diálogo, como se o médium e eu estivéssemos num de nossos bate-papos descontraídos na biblioteca de minha antiga moradia.)
O facto, porém, é que a gente reencarna e esquece...
— E, depois, desencarna e não se lembra - pelo menos, não totalmente e de imediato.
— Você tocou num assunto que sempre me intrigou e, a bem da verdade, intriga até hoje, de vez que continuo a estudá-lo.
— O que é?
— Quando militava nas sessões de desobsessão, eu ficava sem entender os espíritos inconscientes da própria condição de desencarnados.
Cheguei a conversar com Modesta - a nossa estimada Maria Modesto Cravo, médium de excepcionais faculdades - diversas vezes.
— O que o senhor acha que ocorre?
— Que é um problema de ordem mental, não padece qualquer dúvida.
— De ordem espiritual, em suma?
— Sim, mas em nível de cérebro e mente. Eu ficava comparando os doentes do Sanatório, alheios à sua realidade existencial - parcial ou totalmente alheios -, com os espíritos que se comunicavam sem noção do próprio desenlace do corpo...
— Interessante é que, para desencarnar, quase todos adoecem...
— Aí é que está: adoecem, mas esperam o Céu, depois da morte, como não se deparam com ele...
— Nem com o Inferno.
— Embora a probabilidade neste caso seja maior, não atinam com a morte:
raros, inclusive, constatam mudança na paisagem ao redor, pois a Terra também tem o seu duplo...
— Tem o caso...
— ...sim, dentre outros, tem o caso dos espíritos que não querem aceitar a versão diferente com que a chamada morte se lhes apresenta.
— Não querem ou não podem?
— Alguns não querem, outros não podem.
— Não querem?
— Oferecem resistência à Verdade.
Acreditam que podem fazer com que a Verdade seja conforme se habituaram ou foram habituados a nela crer...
É uma questão de cultura religiosa, não?
Li alguma coisa a respeito, depoimentos de pessoas que foram consideradas clinicamente mortas; cada qual, dependendo de seu credo, teve um tipo de experiência.
— Não estou me referindo aos casos de EQM - Experiência de Quase Morte, que são curiosíssimos e, por si sós, deveriam despertar maior interesse dos pesquisadores, cientistas e religiosos não-fanáticos; refiro-me aos que, exercitando a sua faculdade criadora insistem em imaginar a vida...
— Imaginar a vida do Outro Lado?
— Sim, criar o seu universo com a força plasmadora da mente!
— Dr. Inácio, não é possível!
— Por que não? Espíritos que pensam igual formam extensas comunidades.
Tudo não é tão simples assim; se fosse, ao desencarnar, o homem se defrontaria com a verdade - e vamos escrever aqui verdade com v minúsculo, já que não temos pretensão de cogitar da Grande Verdade, da Verdade Integral e Absoluta.
— Esses espíritos rebelam-se?
— Agrupam-se naturalmente; "semelhante atrai semelhante"...
— Agem por mal?
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 08, 2018 10:39 am

— Quanto mais vivo - e a perspectiva é de que viva eternamente - convenço-me de que o mal não existe; trata-se de um estado ilusório, acidente de percurso na caminhada evolutiva do espírito...
Todos somos, essencialmente, bons!
Filhos de Deus, não poderíamos sequer admitir a menor parte de nós destoando das virtudes divinas.
Não, o mal não existe, não tem consistência:
é exteriorização transitória da mente!
Acreditar nele é a mesma coisa que tentar agarrar fumaça com as mãos.
— Por que, no entanto, insistem em seus pontos de vista?
— Mais cedo ou mais tarde, haverão de cair em si.
A violência, qualquer forma de violência, não consta das Leis que regem os princípios da Criação; a educação do espírito, a sua conscientização, não lhe é imposta...
Aprendemos à custa do próprio esforço, sob a influência do meio e das circunstâncias em que vivemos.
— O processo, então...?
— ...pode levar milénios.
Deus, que é a Eternidade, não tem pressa; o tempo não conta para Ele:
a questão do tempo fica afecta a nós, prisioneiros do convencionalismo...
— Deus não tem pressa?
— Pressa para quê, se Ele não pretende chegar a parte alguma?
Se Ele está, esteve e sempre estará onde deve estar?
— O senhor disse:
alguns não querem, outros não podem...
— Os que não podem são os que se encontram em outro nível de imaturidade - espíritos comuns, incapazes ainda de pensar por si mesmos; não conquistaram certa independência intelectual.
— Os que não podem?...
— ...são mentes submissas, não raro dominadas com tirania pelos que não querem.
— Todos os que não querem são insinceros?
— Não generalizemos!
Existem os que não querem por nada terem encontrado, além da morte, conforme foram instruídos e passaram a instruir.
— Dr. Inácio, será que os nossos leitores entenderão?
— Esforcemo-nos por simplificar.
De minha parte, estou me empenhando ao máximo.
É importante que os nossos irmãos compreendam.
— O senhor não se importa de repetir?
— Não, de forma alguma; eu também nunca fui de apanhar as coisas assim tão depressa...
Vamos com calma.
— Os que não querem por nada terem encontrado?...
— Digamos, a grosso modo, que, indo ver uma casa para alugar, com ela se depararam completamente vazia, sem mobiliário...
— Estou entendendo, mas os outros...
— Você não é mais inteligente, não!
Os outros entenderão.
— O senhor poderia clarear mais?
— Só se me arranjarem uma lanterna!
O problema, meu filho, é que não estamos acostumados a pensar
nisto - aliás, os ocidentais não são dados à meditação:
é a cultura do "tudo pronto", do "tudo mastigado"...
O ocidental sequer consegue ficar naquela posição de lótus dos iogues - os joelhos não se dobram para os lados, só para a frente...
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 08, 2018 10:39 am

É um pequeno defeito religioso!
— Um problema de articulação.
— De articulação espiritual!
— Bem, se deparam com a casa vazia, sem mobiliário...
— Passando a decorá-la segundo as suas possibilidades...
— O que o senhor quer dizer?
— Começam a trazer os móveis da casa velha. Na impossibilidade de adquiri-los novos, efectuam a sua mudança para Cá, transportando as tranqueiras da Terra...
— Levam a Terra para o Mundo Espiritual.
— Em vez de levarem o Mundo Espiritual para a Terra!
— Complicou outra vez!
— Pare um pouco, vá tomar um café...
— O café poderá me fazer ainda mais perder o fio da meada.
— Meada! Agora você me fez lembrar da miada dos meus gatos... Que saudade!
— A vida na Terra não é um retrato da vida no Mundo Espiritual?
Uma caricatura; se quiser, uma foto descolorida e feia.
— Os espíritos, em geral, não se misturam no Além?
— Não! É óbvio - deixemos claro - que não estamos nos referindo às Esferas Superiores, embora em certas Esferas Superiores, até determinada altura...
— ...até determinada altura das Esferas Superiores...?
— ...prevalecem diferenças de concepção...
— O mal?
— Não, o mal é condição quase totalmente superada.
Não vou me arriscar a dizer completamente superada, pois, enquanto não mergulhamos em Deus...
— Diferenças de concepção - o que quer dizer?
— Discussões que transcendem... Mesmo os Espíritos Superiores divergem em determinados pontos de vista, com respeito às origens da Criação.
Apenas na Esfera Crística...
— Esfera Crística?!...
— Entre os espíritos que comungam directamente com o Cristo, que possuem relativo acesso ao seu Pensamento - somente entre eles há homogeneidade de ideias: todos pensam como se fossem um!
— Pensam como Jesus?
— Ainda não, porque pensar como Jesus significaria pensar como a Mente Divina, o que nenhum deles, por enquanto, pode lograr. Para a Humanidade - vamos nos ater à Humanidade Terrestre -, Jesus Cristo é Único!
— Nenhum outro?
— Nenhum outro.
— Da Esfera Crística para baixo?
— Eu vou responder.
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 08, 2018 10:40 am

CAPÍTULO 3
Eu me encontrava em meu gabinete de trabalho no Hospital, naquele começo de noite, esperando a visita do Odilon, que, de tempos em tempos, aparecia para conversarmos.
Tudo estava relativamente tranquilo, e me punha a desenhar sobre pequena folha de papel, efectuando um esboço primário - nunca fui bom desenhista, mas tentava dar forma a um cilindro, com diversos cilindros, de comprimento e espessura variáveis, dentro...
Alguma coisa mais ou menos assim; vocês, por favor, façam um esforço, pois, quando estudante, eu mal conseguia desenhar um círculo com o compasso!
Sempre fui péssimo em muita coisa, e a morte não me dotara de habilidades que eu não possuía.
Reminiscências do passado?
Se existiam em mim, ainda não haviam aparecido...
Com certeza, nunca fora músico, actor, pintor; no máximo, um arremedo de poeta, nos versos que me atrevia a fazer - fora da métrica, da rima e tudo mais que caracteriza um poema... singular.
— Como vai, Doutor? - cumprimentou-me, alegre, o amigo que chegara.
Levantei-me, estendi-lhe a mão e soltei a caneta por cima da lauda que rabiscava, chamando a atenção do companheiro, que perguntou:
— Desenhando?
— Umas bobagens minhas, ideias que, ultimamente, me têm vindo à cabeça; nada de importante...
— Permita-me ver, Doutor? - solicitou, detendo-me na acção de amassar o papel e jogá-lo no lixo.
— É apenas um cilindro ou algo parecido - expliquei, feito um aluno que se apressasse em se desculpar.
— O que quer representar? - indagou, deixando-me à vontade para o diálogo, enquanto examinava a imperfeita figura geométrica.
— É a concepção de Einstein do Universo - um cilindro!
Eu imaginava que o Universo fosse redondo...
— E esses tubos dentro, alguns menores, outros maiores?
— Está mais para um órgão ou uma flauta de Pan, não é?
Estes "tubos", Odilon, são ou, pelo menos, querem ser cilindros pequenos - universos menores!
— Que interessante! Prossiga.
— O universo maior - continuei um pouco mais animado - é o de Deus; os cilindros, ou seja, os universos menores são os dos homens!
— Onde o senhor leu a respeito?
— Não, não li. Trata-se de um pensamento bobo:
falta de ter o que fazer ou de querer procurar o que fazer...
— É algo originalíssimo! - exclamou o amigo, entusiasmado.
Como, de facto, a Verdade está por aí, solta no ar...
— Quem a soltou?
Enjaulem-na, depressa!
— Não estou brincando, Doutor.
— Nem eu - redargui, confesso, sem a intenção de fazer piada.
— Os físicos modernos...
— De físico, eu só entendo, mal, do meu corpo...
— Os físicos modernos - insistiu Odilon, sem desviar a linha de raciocínio - estão tendo esta concepção do Universo e da Vida!
— Os físicos de onde, da Terra?
— Alguns poucos de lá...
— Eu admiro Einstein; não sei mais nada de ninguém.
— Universos paralelos!
— Já ouvi falar.
— Mais do que isto, doutor: universos mentais paralelos!
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 08, 2018 10:40 am

— Agora, sim, comecei a me interessar.
— O senhor se lembra dos nossos comentários, daqueles que fazíamos...
— Quando encarnados?
— Sim; comentávamos sobre as reuniões de desobsessão, mais especificamente sobre os espíritos que nelas se comunicavam.
— É um assunto que ainda hoje me intriga.
Sinceramente!
Eu imaginei que a desencarnação me trouxesse a solução do enigma, que, diga-se de passagem, é também de natureza doutrinária.
— Está aqui! Eis a solução!
— Onde? - perguntei, basbaque.
— No esboço feito pelo senhor...
— Ora, Odilon, a sua convivência comigo o está transformando num humorista, e de primeira!
Eu vou cobrar royalties...
Nem sei como se pronuncia esta palavra.
Eu vou cobrar franquia, pronto!
— O Universo das religiões...
— Hem?!...
— O senhor se recorda de que, por exemplo, em nossas sessões mediúnicas, fossem no Sanatório ou na "Casa do Cinza", nunca apareciam...
— ...espíritos budistas!
—Isto!
— Hinduístas...
— Nem tampouco taoístas ou muçulmanos.
— Era muito raro aparecer um deles; católicos e protestantes eram mais frequentes...
— Materialistas também.
— E espíritas!
— A cultura religiosa oriental...
— Sabemos que até hoje é assim - não sei se por dificuldade de sintonia dos médiuns.
Você se lembra de que discutíamos muito este tópico, Odilon?
— Alguns se desgarravam, não é?
De quando em quando, aparecia um cristão de outro segmento religioso.
— Uma única vez, conversei com um muçulmano, todavia, com padres...
— Não era, Doutor, e não é apenas uma questão idiomática, dificultando o trabalho dos médiuns: o pensamento universal...
— A Modesta me dizia que sequer chegava a sentir um deles por perto; espíritos mais liberais apareciam com relativa frequência.
— Cientistas, filósofos...
— Pude dialogar com alguns deles, especialmente franceses e espanhóis; expressavam-se em português, no máximo falando arrastado.
— Sem tanta necessidade disto - pontificou o Mentor -, os médiuns é que se sentiam sugestionados pela presença deles; poderiam se expressar sem sotaque.
— Era um arremedo de xenoglossia, não? Talvez para conferir maior autenticidade ao fenómeno.
— E para impressionar; contudo um expediente mediúnico dispensável.
— Observação sem crítica!
— Sem crítica alguma; estamos apenas estudando.
O facto dava-se na psicofonia, na incorporação...
— Na psicografia não acontecia e não acontece - escrever com sotaque! Por que será?
— O homem domina o mecanismo da fala há mais tempo; a escrita é uma conquista recente.
— Prefiro falar a escrever! Por este motivo, é provável que eu nunca chegue, de fato, a ser escritor.
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 09, 2018 10:00 am

— O senhor tem a eternidade pela frente!
— Você, deveras, Odilon, está me saindo melhor que a encomenda!
Sorrimos, e o amigo continuou:
— O seu esquema é interessantíssimo - disse, examinando a folha em suas mãos.
O universo das religiões!
Isto explica muita coisa...
— Será - perguntei - que eu estaria preparado para escrever algo a respeito?
— Por que não?
— Eu era psiquiatra e nem isto sou mais; estou aqui tomando conta de um hospital - dou-me muito bem como carcereiro...
Não conseguiria colocar no papel o que você está me dizendo - faltar-me-iam palavras -, ainda mais escrevendo por um médium...
— Vale a tentativa.
Sua concepção é bem próxima da realidade...
Lance a ideia, e que outros, que se sentirem mais habilitados, a desenvolvam.
Universos mentais paralelos criando mundos paralelos!...
— O Cristo?...
— Para nós, os cristãos, paira acima disto tudo.
— Acima de Buda, de Maomé?...
— O Senhor é Co-criador do planeta em que vivemos e...
— Não apenas do orbe terrestre, não?
— Igualmente das Dimensões Espirituais que o circundam!...
— Um maometano, um judeu o consideram somente na condição de profeta...
— O Profeta dos profetas!
— Os universos paralelos principais?
— São os que congregam maior número de espíritos, exercitando o poder criador do pensamento.
— Quais poderíamos destacar?
— O universo católico, o muçulmano, o judeu, o hinduísta, o budista, o que poderíamos chamar de bíblico - não necessariamente nesta ordem de extensão e influência.
— E o universo espírita?
— O Universo, Doutor, é naturalmente espírita; agora, do ponto de vista doutrinário, é insignificante...
— Dos Dois Lados da Vida?
— Sim, a não ser nas Esferas que transcendem a formalidade das religiões.
— A religião que se formaliza...?
— ...perde em espiritualidade.
— O Espiritismo, convenhamos, tem se organizado...
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 09, 2018 10:00 am

CAPÍTULO 4
- ...Com reais prejuízos para as verdades que defende - sentenciou Odilon.
— O perigo...?
— ...está na hierarquização, na ausência de espontaneidade, no Movimento feito pelos homens...
— Como proceder?
— Não podemos ter um Vaticano espírita no Lado de Cá!
— Não temos, temos?
— Tem gente querendo criar.
— Meu Deus!
— Os católicos têm o seu Vaticano.
— Os muçulmanos, a sua Meca?
— É óbvio!
— Os budistas, o seu Nirvana?
— Sim.
— É difícil conceber tudo isto.
— À mente humana, Doutor, nada é impossível.
— Isso eu sei!
— Dos tubos cilíndricos que o senhor desenhou...
— Dentro do cilindro maior...
— ...podemos retirar o cilindro que representaria o universo espírita!
A título de praticidade, deixemos apenas os que simbolizam os seis universos que citamos.
— O católico, o muçulmano, o judeu, o hinduísta, o budista, o bíblico...
— O budista, mais por tradição do que propriamente por força; a sua filosofia é interessante.
— Buda viveu antes de Cristo!
— Foi um de seus Emissários, ao lado de Moisés, de Lao-Tsé, de Sócrates...
— De Maomé...
— Até mesmo Maomé!
— Ele reuniu as tribos nómades, combateu o politeísmo.
— Mas, infelizmente, fez a apologia da guerra - da "guerra santa" - e incutiu o fanatismo nas mentes.
Eu não sei como, no grande futuro, as religiões haverão de se entender na Terra...
Só existe um caminho: a unificação em Jesus Cristo!
— Séculos e séculos rolarão...
— Doutor, não seja tão pessimista!
— Não, eu estou sendo optimista; pessimista, se tivesse dito que milénios e milénios rolarão.
Neste instante, abrindo a porta do consultório com delicadeza, Modesta, pedindo licença, veio se juntar a nós.
— Sente-se, minha irmã - solicitou Odilon, cavalheirescamente cedendo-lhe a poltrona.
— Fique à vontade, Doutor - gracejou a companheira -; o que não falta aqui é cadeira, não é, Inácio?
— Quando os nossos irmãos terrenos ou terráqueos, poderiam pensar que espírito também se senta!
Eles imaginam que a gente só conversa de pé ou levitando...
— O Inácio não perde oportunidade de cutucar...
— Principalmente os espíritas, Modesta!
— Estávamos falando sobre as nossas sessões mediúnicas - explicou Odilon -, destacando que, nelas, raramente se comunicava um espírito da cultura oriental.
— A não ser um oriental ocidentalizado, aclimado à nossa cultura.
É mesmo! - exclamou a notável médium, que, naturalmente, começou a participar da conversa que entabulávamos.
— Você nunca recebeu um budista desencarnado, não é, Modesta? - indaguei-lhe.
— Que eu me recorde, não.
— Nem procurou sintonia com eles? - inquiriu o Instrutor.
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 09, 2018 10:00 am

— Tentei por algumas vezes, pois, na condição de médium, eu também estimaria ouvi-los, mas nada, nenhum deles por perto.
— A senhora...
— A senhora, não: você, Doutor!
— É questão de hábito, desculpe-me.
— Modesta, é melhor assim - aparteei.
Caso contrário, vamos provocar uma confusão danada na cabeça do médium!
— Se é assim...
— A senhora, pelo menos, chegou a sentir algum deles:
um budista, um judeu ortodoxo, um muçulmano, um xintoísta...
— Odilon, mesmo que quisessem, os padres não deixavam esse pessoal se aproximar, não; era carga total sobre o Sanatório!
Você não se lembra?
Era só gente de batina!...
— Certa vez, motivada por uma leitura que fizera na véspera sobre a vida de Buda, fiquei pensando, pensando...
— Mediunidade tem dessas coisas:
cabe também ao médium a iniciativa de estabelecer sintonia - endossou o Instrutor, convicto.
— Esforcei-me, ao máximo, naquela noite, tentando me isolar psiquicamente de outras entidades que sempre estavam connosco; rastreei mentalmente quanto pude, chegando a me desgastar...
— Modesta porejava suor e... nada!
Raramente a vi com tanta dificuldade para incorporar...
— Eu queria entender a sua forma de sobrevivência, como, afinal, era a dimensão em que se movimentavam após a morte...
Não consegui visualizar um deles sequer!
"O Livro dos Espíritos", tratando da questão da vida no Mundo Espiritual...
— Odilon, "O Livro dos Espíritos" trata de forma genérica; à época, não houve condições de maior detalhamento...
— Doutor, o que eu queria dizer é que todos sobrevivemos à morte do corpo.
Este é um princípio básico; agora, cada qual sobrevive...
— ...sobrevive como pode, como sua mente o permite!
— O espírito gravita ao redor de suas aspirações...
— Permitam-me concluir - pediu Modesta.
Depois de quase 30 minutos, o meu único registo foi o de um estranho silêncio, como se aqueles espíritos, em estado de contemplação interior, não existissem.
— Excessivamente introspectivos!
— Não falavam, não pensavam...
Comentei com você, Inácio.
Era como se, para eles, nada mais significasse alguma coisa - um Mundo Espiritual vazio!
— Para os budistas, a forma é uma ilusão - aduziu Odilon.
Sabemos que a matéria toma a forma que lhe damos; se não lhe damos forma alguma...
A Vida exterior é uma projecção do nosso pensamento.
— Assim como o Universo é uma projecção do Pensamento Divino.
— O Universo em sua essência! - concordou o Mentor.
— A Terra, em seus primórdios?...
— Doutor, trata-se, evidentemente, de uma simples conjectura!
Quem sou eu?!
— Se você não sabe - aliviei a tensão natural de assunto tão sério -, o que me resta saber?
Por favor, esclareçam-me, quem sou?
Um verme, um roedor?...
— Inácio, em futuras existências, você ainda há de ser...
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 09, 2018 10:00 am

— ...um Cantiflas, um Zé Trindade, um Mazzaropü...
— Pausa para a minha conjectura, Doutor, em resposta à sua pergunta.
— Pois não!
— O orbe planetário, há biliões de anos atrás, em seu estado natural, reflectia a nossa condição natural primitiva:
estávamos nas pedras, nas folhas, nas florestas, nas fontes, nos rios, nos animais...
A Divina Providência deu-nos um berço compatível.
— Com a criança que éramos...
— Criança somos ainda hoje!
Dizendo melhor, com o vir-a-ser que éramos...
— Princípio espiritual!
— Crescemos com a Terra!
— Que maravilha! - exclamou Modesta, emocionada.
— A Terra quase desolada da actualidade...?
— É o nosso retrato íntimo!
— Estamos piorando, Odilon, regredindo?
— Não, o progresso é inexorável; tem-se a impressão do contrário, mas são definitivas as conquistas da evolução.
— Muitas civilizações desapareceram...
— ...para ressurgirem mais tarde - respondeu-me o Instrutor com segurança.
Os mesmos espíritos, renascendo em culturas diferentes, construindo e reconstruindo...
Nada, absolutamente nada, se opõe aos Desígnios de Deus.
— Os obstáculos...?
— Saltos quânticos de qualidade...
Os empecilhos, engendrados pelo próprio homem, são motivações ao trabalho, desafios à inteligência.
— Dr. Odilon - interveio Modesta, interessada -, o orbe terrestre nos reflecte a condição espiritual?
— Como uma casa reflecte o estado de seus moradores, nos menores detalhes.
— No asseio, no arranjo dos móveis, na paz ambiente...
— Sim, inclusive em suas preferências alimentares, em seus hábitos, em seu modo de relacionar-se uns com os outros, com a vizinhança...
E vamos estendendo a nossa influência.
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 09, 2018 10:00 am

CAPÍTULO 5
— A Terra - prosseguiu o Mentor - é um organismo vivo, com o qual nos encontramos integrados; o homem nada mais é que um dos elementos da Natureza.
A medida que fomos evoluindo, o nosso pensamento foi se exercitando em sua capacidade criadora; concebíamos e, utilizando as mãos, dávamos forma à ideia concebida...
— Brincando de Deus! - exclamei.
— Como uma criança com massa de modelar.
— Por este motivo, a encarnação nos é necessária?
— Imprescindível, já que, no mundo físico, vivemos em um meio mais compatível...
Não sei se estou me expressando com clareza.
— Você sempre é preciso em suas colocações, Odilon.
Gostaria apenas, a título de facilitar para os nossos irmãos aos quais pretendo escrever de esmiuçar o assunto um pouco mais.
O espírito não lograria cumprir toda a sua trajectória evolutiva no Mundo Espiritual?
— Não. A encarnação, voltamos a frisar, é uma imposição evolutiva...
— E não uma punição?
— Trata-se de um processo pedagógico; a criança não chega à Universidade sem, antes, se alfabetizar e adquirir conhecimentos básicos.
A Lei do Carma não é punitiva.
— Nunca?
— Em essência, não.
O objectivo é sempre o de educar ou reeducar.
Ninguém sofre somente com o propósito de verter lágrimas...
A Terra é um Plano Espiritual compatível com a nossa natureza - por esta razão, vivemos alternando situações, no corpo de carne e fora dele.
Estamos aprendendo a respirar por aqui; figuradamente, não temos pulmões para uma atmosfera tão rarefeita!
— Continue, continue - solicitei ao amigo que não pausasse.
—Assim como não temos pulmões a fim de vivermos na Terra para sempre...
— ...não os temos para ficarmos por aqui, desencarnados, por tempo longo.
— E vivemos...?
— ...nos adaptando, gradativamente.
— A vida na Terra ou no Além?
— À vida no Além, subindo sempre...
— Quando estivermos mais habituados a viver nesta Dimensão mais eterizada...?
— ...ascenderemos a Plano Superior - concluiu Modesta.
— Exactamente; submetendo-nos ao mesmo processo...
— ...subimos um degrau, paramos, respiramos e...
— ...apoiamos o pé no próximo, até que, um dia, alcancemos o topo da escada!
— Sem reencarnar...?
— ...o espírito não adestraria as suas faculdades de percepção.
— O contacto com a matéria grosseira, de que a vida no mundo se constitui...?
— ...o coloca em sintonia com o próprio nível de consciência, ou seja, com a realidade espaço-tempo compatível.
— Se o espírito não reencarnasse? - insistiu Modesta.
— Não possuiria elementos para evoluir - respondeu Odilon.
Vejamos: a vida começou no mar e, paulatinamente, veio para a terra...
— E, depois, para o ar!
— Exacto, Doutor. O corpo humano...
— ...se desenvolve num meio líquido.
— Do meio líquido, vem para a terra.
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 09, 2018 10:01 am

— Poderíamos, então, dizer: o homem é um animal aquático, terrestre e aéreo...
— A vida orgânica, já que o homem, enquanto no corpo denso, não possui a faculdade da volitação.
— Que, não obstante, os espíritos possuem!
— Dr. Odilon, por favor - atalhou Modesta - criado simples e ignorante, o espírito foi projectado a distância...
— Rumo à periferia da Criação; foi viver nas adjacências do Foco de Toda a Luz - intrometi-me com espontaneidade.
— É por aí...
O Universo material, de facto bem colocado pelo senhor, é periferia...
Estamos num movimento de volta às origens.
— O assunto é de uma complexidade.
— E de uma transcendência sublime, Doutor!
— Tudo é Mundo Espiritual ou tudo é Mundo Material? - inquiri.
— Tudo é energia, mais ou menos compacta.
Quanto mais longe de Deus, menor a velocidade com que as partículas se movimentam - eis a matéria!
— Quanto mais próximo do Criador...?
— ...maior a velocidade, o dinamismo da Vida - eis o espírito!
— A velocidade da luz é estonteante!
— Em nosso meio, Doutor, onde a luz, para se propagar, deve vencer aglomerações de treva; nas Dimensões Superiores, a velocidade da luz é infinitamente maior...
— ...que 350.000 km por segundo? Incrível!
— Por isto, por uma questão até de Física, se diz que Deus abarca a Eternidade!
— Consegue estar presente em toda parte...
— O dom da multiubiquidade levado ao infinito! - definiu Modesta.
Confesso-lhes que, àquelas alturas, eu já estava com a cabeça um tanto cansada - o meu lado aéreo começara a funcionar...
— Odilon - falei, provocando -, a gente aqui cogitando de tanta coisa e o estômago reclamando comida...
Estou com fome. O que vocês querem?
Feijoada, lasanha, pernil assado?...
— Inácio - observou Modesta, sorrindo —, você continua o incorrigível de sempre!
— Não, não é isto:
é que isto tudo é muito para a minha e para a cabeça da maioria de meus irmãos lá embaixo...
E tudo começou com este desenho que fiz, Modesta.
O Odilon é capaz de tirar leite de pedra!
O pessoal lá embaixo, e mesmo nós, por aqui, ainda temos que ir ao banheiro!...
Eles sequer acreditam que somos dotados de estômago, de intestinos e tudo mais.
— Doutor, vamos ficar no "tudo o mais" - advertiu, fraternalmente, o companheiro.
— O que tenho escrito já vem rendendo muita confusão...
E, querem saber de uma coisa?
Vai render mais, porque eu não vou ficar calado.
Eles lá é que se virem!
— Dr. Odilon - perguntou Modesta -, não nos seria possível uma visita, ainda que rápida, uma excursão de aprendizado, para que pudéssemos colher mais precisas informações a respeito desses universos mentais paralelos?
— Uma viagem à Índia, Odilon, observando o que se passa em suas regiões espirituais mais próximas...
Seria extremamente interessante.
Visitaríamos um desses cilindros menores, não é? - o universo hinduísta!
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 09, 2018 10:01 am

— Creio que não haverá problema - concordou o Mentor -, mesmo porque o território indiano é de livre trânsito aos estudiosos e pesquisadores; a índia, ao contrário de tantos outros países, marcados pelo preconceito e fanatismo, não se constitui em ameaça para os turistas que desejem conhecer-lhe a cultura milenar...
Poderíamos, sim, programar uma excursão que, tenho certeza, muito nos acrescentará à compreensão da Vida além da morte.
— Para quando, Doutor? - indagou Modesta, tão ansiosa quanto eu.
— Para daqui a duas semanas; teríamos tempo para nos preparar e cuidar de alguns problemas pendentes em nossas tarefas.
— Quem diria que, depois de morto, eu pudesse satisfazer a minha vontade de conhecer um país de tantas tradições!
Eu não trocaria uma viagem à índia por nenhum outro país da Europa, nem mesmo pela França, o berço do Espiritismo!
E, depois, de Espiritismo na França quase só resta o túmulo de Allan Kardec, no Père Lachaise...
— Não é bem assim, Doutor - ponderou Odilon -; existem alguns grupos remanescentes.
O vento das adversidades não apagou de todo a chama...
Não nos esqueçamos de que, no decurso de três décadas, a Europa se viu mergulhada em duas grandes guerras que a afligiram pelo total de dez anos!
— Conspiração das trevas, não?
A Doutrina estava indo tão bem por lá!
— Não podemos dizer que as guerras tenham sido provocadas com o propósito de obstruir o progresso da Doutrina, mas, sem dúvida, é sempre com a intenção de fazer com que os valores da civilização se percam.
— Eu sou um pouco mais radical, Odilon.
Analisemos a questão no Oriente...
Desde que Jesus nasceu, e mesmo antes, tem-se a impressão de que as trevas querem apagar os derradeiros vestígios de sua Presença no mundo:
motivadas por problemas políticos e económicos de fundo religioso, é uma guerra após outra...
— Sem contar - reforçou Modesta - o que foi feito aos judeus durante a Segunda Guerra: mais uma vez, quase foram exterminados!
— Não por serem judeus - isso foi um falso pretexto -, mas por descenderem do Cristo.
— O assunto, Doutor, é complexo, e o senhor não deixa de ter boa parcela de razão.
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 09, 2018 10:01 am

CAPÍTULO 6
O intuito - continuei - é o de se opor ao Evangelho; para mim, não se trata de petróleo, coisa nenhuma!
Muitos americanos é que estão de olho no petróleo do mundo árabe...
— Doutor, não nos convém prejulgar intenções.
— Eu sei, Odilon, eu sei; no entanto, para os analistas políticos, isto parece estar mais do que claro; os jornais do mundo denunciam todos os dias essas manobras escusas - alegam que agem em defesa da democracia, mas, desculpe-me, eu não acredito.
Os árabes e os judeus, que são povos irmãos, brigam por conta de religião, disputando pedaços de terra que consideram sagrada; paralelamente, os americanos e seus aliados...
E uma coisa impressionante!
— O Brasil que se cuide, não é? - comentou Modesta.
— Com o Brasil, não será o petróleo; será a Amazónia...
— Doutor!...
— Odilon, eu estou querendo destacar a perseguição ao Evangelho.
Para onde emigra a luz, as trevas acompanham! Fadado a ser o Coração do Mundo e a Pátria do Evangelho, o Brasil está começando a se perder:
violência, corrupção, tráfico de drogas, fabricação de armas...
Não faz muito que o Espiritismo chegou ao nosso país, com a sua proposta de reviver o Cristianismo!
A Amazónia...
Você quer saber a minha opinião:
se uma comissão internacional não tomar conta da Amazónia, administrá-la, em breve não restará uma única árvore em pé!
É uma pena, os brasileiros...
— Nós, os brasileiros, Inácio...
— Modesta, eu já estou me sentindo um extraterrestre; já desencarnei há mais de vinte anos e me considero um cidadão do Universo.
Amo, sim, aquele pedaço de chão, que é o Brasil, porém...
Certa vez, eu queria pegar o General De Gaulle pelos colarinhos, quando declarou que o nosso país não era sério - no tamanho, dava dois de mim, mas sairia com ele na bronca...
Que arrogância, que prepotência! Agora...
— Você está dando razão a ele?
— Se o encontrasse, solicitaria:
— Ó do boné, o Brasil é um país muito sério; alguns poucos brasileiros é que não são tanto...
Por favor, reconsidere!
Odilon, calado, sorria, ante o meu inflamado discurso patriótico.
— E os brasileiros são assim - justificava -, porque quase todos são franceses reencarnados!
Com esse negócio da guerra por lá e do Espiritismo vir para cá, vocês...
— Doutor!...
— Não, Odilon, eu não vou dizer qualquer impropriedade, porque muito nos honra o facto de Allan Kardec ter vindo, só que, de quebra...
— Inácio!...
— Até você, Modesta, me controlando?!
Eu ia dizer:
de quebra, veio um povinho...
— Do qual muito fazemos parte, doutor!
— Odilon, essa história do espírita brasileiro achar que é francês reencarnado...
Tem muito espírita, a maioria, que é nativo do Brasil mesmo.
Deus me livre de espírita de sangue azul!
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 09, 2018 10:01 am

Fizemos uma pausa e, retomando a seriedade, perguntei ao Instrutor:
— Você não acha, Odilon, que há uma perseguição das trevas ao Evangelho, acirrada e sem tréguas?
— Acho, sinceramente acho.
As artimanhas para comprometer e ridicularizar o trabalho do Cristo e de seus Prepostos são inimagináveis - o alvo da perseguição, em todos os tempos, é mesmo Jesus!
— Qual o motivo de tanto ódio?
— Por causa da proposta de renovação íntima!
O homem é capaz de fazer tudo pelo Reino dos Céus, inclusive sacrificar-se como "homem-bomba", transformando-se em mártir da fé, menos ceder em seu egoísmo, menos renovar-se!
— O que é essencial! - enfatizei.
— O Senhor nos solicita o desprendimento dos bens materiais e, consequentemente, de toda cobiça - observou Modesta.
— As trevas - comentou o Instrutor - trabalham justamente sobre o espírito de posse da criatura.
— O problema das religiões na Terra, salvo uma ou outra excepção - nem sei se há! -, no fundo não é tanto de ordem teológica, quanto de domínio político.
Posso até estar equivocado...
— Se nos concentrássemos em nossa necessidade de espiritualização, não valorizaríamos os conflitos de natureza doutrinária, sobrepondo a letra que mata ao espírito que vivifica.
— Não existe maior contra-senso que as guerras motivadas pela religião!
Os crimes, por exemplo, praticados pela Inquisição ainda pesam sobre a consciência da Humanidade; os cristãos fizeram pior do que os nazistas!...
— A responsabilidade dos espíritas é grande - acentuou Modesta.
— O pessoal, no entanto, parece não estar plenamente consciente.
Sinto que o Movimento está começando a enveredar por perigosos caminhos...
O assédio do Mundo Espiritual inferior tem sido implacável, sobre dirigentes e médiuns.
Concorda, Odilon?
— Precisamos, todos, estar atentos, de vez que, até fora do corpo, podemos ser atingidos.
— Até fora do corpo?...
— Doutor, existem entidades de mente poderosa vibrando negativamente contra nós - vibram contra os médiuns e contra nós, que necessitamos, igualmente, de permanecer vigilantes.
— Influência espiritual a distância?
— Induzindo-nos à fascinação...
Companheiros valorosos têm se desvirtuado assim.
A única defesa é o trabalho aliado à humildade.
Essas entidades procuram nos alcançar em nossas fragilidades pessoais.
— E somos um campo fértil!
Vaidade, personalismo, ambição e todo um imenso séquito de imperfeições facilmente manipuláveis.
— O senhor usou o verbo correto - "manipulável" que expressa quanto, em nossas mazelas, estamos à mercê das circunstâncias que, não raro, são urdidas com a intenção de nos comprometerem.
Os espíritos aos quais nos referimos, chegam, caprichosamente, a estudar as nossas inclinações íntimas; favorecendo-nos a queda, enviam instrumentos ao nosso caminho...
— Eu lutei contra muitos deles, Odilon!
Nossa Modesta sabe quanto sofri na pele, para não ceder à tentação:
jovens lindas, pacientes minhas, que se insinuavam com lascívia; propostas de dinheiro fácil para atestar a insanidade de alguém, com vistas à partilha familiar de bens; altas somas para livrar criminosos das garras da justiça; ideias absurdas que ficavam me martelando o cérebro, reforçadas pelos argumentos dos espíritos sofistas que vinham conversar comigo nas sessões...
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 09, 2018 10:01 am

— Eu também, - disse o amigo com a sua habitual nobreza de carácter-, experimentei toda espécie de assédio dos espíritos adversários da Doutrina; evidentemente que não queriam a mim, que nada era e nada continuo sendo na ordem das coisas, mas transformar-me em motivo de escândalo para a Causa...
Rodeavam-me, e eu os percebia, chegando ao cúmulo de me visitarem em sonhos, na tentativa de me induzirem à hipnose.
Certa vez, resisti a três deles por várias noites consecutivas; acordava transpirando, completamente exausto, sem coisa alguma a dizer à companheira, que, notando-me abatido e acabrunhado logo de manhã, me recomendou ir ao médico...
— Não se tratava de uma obsessão clássica - considerei.
— Não, não era nada pessoal; aquelas entidades, de grande poder de indução hipnótica, procuravam me sugestionar, me alterar a personalidade, a fim de que, no estado de vigília, se infiltrassem com maior facilidade em meu psiquismo, controlando-me a vontade.
— Comigo também era assim - falou Modesta, sem constrangimento -; para perseverar na condição de médium, travava, todos os dias, uma luta que, com base em minhas próprias imperfeições, os espíritos infelizes me suscitaram, valendo-se dos problemas mais comezinhos, inclusive dentro de casa, no relacionamento com os familiares.
Várias vezes, confesso, estive para recuar e, com certeza, o teria feito, não fosse o amparo dos nossos Maiores, que, por intermédio de minhas faculdades, me alertavam.
— Interessante, não é, Modesta? - considerei.
E os nossos confrades nos supunham imunes à perseguição espiritual; imaginavam que não fôssemos feitos de carne e osso e que não nos víamos às voltas com o passado...
— Com os compromissos de natureza cármica, Inácio; por estarmos ali, sempre firmes, na linha de frente, procurando sorrir e animar os outros...
— Não admitiam que, por vezes, estivéssemos prestes a sucumbir!...
E creio que só não sucumbíamos porque estávamos conscientes de que tínhamos exemplos para dar e, depois, não podíamos proporcionar semelhante alegria aos nossos adversários, que viviam preconizando a nossa queda...
— O senhor tocou num ponto curioso - observou Odilon com inteligência.
Sem perceber, os que se nos opunham ao esforço, prestavam-nos grande benefício:
faziam-se nossos benfeitores às avessas, incentivando-nos à vigilância...
— Mexiam com os nossos brios - emendei.
— Com o nosso orgulho, Doutor!
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 10, 2018 9:04 am

CAPÍTULO 7
Vejamos como - continuou o Mentor em determinadas circunstâncias, mesmo as nossas emoções negativas são utilizadas pela sabedoria da Lei em nosso proveito espiritual.
— Eu perseverava, sim, por amor à Causa, mas também para que meus desafectos não tivessem motivos para tripudiar sobre mim; desapontei-os a todos, um a um!...
Andei sobre o fio da navalha, mas não caí - pela Misericórdia Divina, não caí!
Ficavam na expectativa do escândalo que, graças a Deus, nunca surgiu - de algo tenebroso que estourasse no Sanatório e redundasse no fechamento do hospital.
— E no Sanatório, Inácio - lembrou Modesta com propriedade além de vigiar a gente mesma, tínhamos que...
— Sem rodeios, tínhamos que vigiar quase todo o mundo: funcionários, pacientes, médiuns, visitantes; sim, porque a coisa era como se fosse um rastilho de pólvora, à espera de um fósforo aceso...
— A anunciada explosão nunca aconteceu!
— E a imprensa ali, de mutuca, ávida por qualquer notícia sensacionalista, que a Igreja - você se lembra, Odilon? - se mostrava disposta a remunerar; para nos difamar, o Xandico era capaz de tudo, colocando a sua influência e o dinheiro dos fiéis a serviço de seus escusos interesses.
— O mais lamentável, porém - aduziu Modesta -, o mais triste, não partia propriamente de nossos opositores declarados, ou seja, dos inimigos da Doutrina - o Xandico, Inácio, até que nos foi muito útil...
— Contrariado, admito que sim.
Eu sei a que você se refere:
o pior era a vibração negativa dos supostos companheiros, daqueles que, sinceramente, nos invejavam não sei o quê e torciam pelo nosso fracasso.
Meu Deus!... O Xandico estava comigo numa queda-de-braço face a face, mas... é melhor nem falar!
— Pois não falemos, Doutor, não falemos - aconselhou Odilon, sensato.
— A minha intenção não é a de nomear ninguém, mesmo porque alguns deles devem ainda estar vagueando nas trevas...
Não posso, no entanto, Odilon, com a sua permissão, omitir que os nossos mais dolorosos embaraços partiam de confrades que não concordavam com a nossa postura doutrinária; por este motivo, habituei-me de tal forma à crítica, a mim e aos meus artigos em "A Flama Espírita", que os ataques que me são desfechados agora...
Eu fico é sem entender, pois os que mais falam, são os que menos fazem.
— Isto é de todos os tempos!
— Até que enfim, você concordou em alguma coisa - caçoei, provocativo -; às vezes, Odilon, você me tira a espontaneidade...
— Não é intencional.
— Quero descer a borduna de acordo!
— Doutor!
— Está vendo?
Agora foi intencional.
— Inácio, mas a gente nunca sabe quando você está brincando ou falando sério - saiu Modesta em defesa do Instrutor.
— E não é para saber, porque assim eu falo o que me dá vontade - falo e escrevo; detesto escrever ou falar, tendo que medir as palavras para não ofender fulano ou sicrano...
Eu não tenho a intenção de ofender - aliás, sinceramente, nunca tive, a não ser uma ou duas vezes, se não me falha a memória.
Odilon e Modesta sorriram e... prossegui:
— Uai, a gente cansa de apanhar!
O Espiritismo não quer nem que a gente gema!
Apanhar calado dói pra chuchu!
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Ave sem Ninho

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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 10, 2018 9:04 am

Mas deixem-me concluir.
Modesta, você se lembra das intrigas, não?
— E como?!
— Chegaram a dizer que éramos namorados, eu e você.
Tinha cabimento?
— Não, não tinha; você não fazia o meu tipo e, depois, eu era muito bem casada!
— Não era o seu tipo, por quê?
O que você está insinuando?
Que eu era baixinho e feio?...
— Estas palavras não são minhas.
De facto, Inácio, você...
Foi, então, uma das poucas vezes que vi Odilon gargalhar, gostosamente.
— Eu era disputadíssimo!
Um homem charmoso, de fino trato, inteligente...
— Mas eu preferia o Major Cravo!
— Eu também, ainda mais com aquele trabuco na cinta...
— Brincadeiras à parte, Inácio, a verdade é que a maledicência de alguns espíritas não nos poupava.
— Só não foi maior a maledicência, porque eu era médico, director de um hospital psiquiátrico, e o seu marido da polícia; o pessoal tinha medo de cair nas minhas ou nas garras dele, ou seja, de escolher entre o hospício e a cadeia...
Cá entre nós, tinha gente, ou melhor, tinha e tem gente que merece os dois - passar uma temporada num, uma temporada no outro.
— Inácio, se você fosse tão mulherengo e depravado quanto o pessoal...
— Alto lá! Eu me orgulho de ter namorado muito - o resto era coisa do Xandico, para ocultar o que se passava no...
— Doutor!
— Todo o mundo sabe; não preciso falar.
Depois, não tenho nada com a vida de ninguém; não quero praga alguma sendo jogada em cima de mim!
— Você se recorda de quando andaram dizendo - os espíritas, não todos, é óbvio - que eu estava ficando rico às custas da Doutrina?
— Disseram pouco: só que eu tinha adquirido um prédio na Avenida Dr. Fidélis Reis, no centro da cidade, trocado de carro, comprado acções no Banco do Brasil, uma fazenda com cabeças de gado...
— Às custas do Sanatório e dos livros que escrevia.
— Infelizmente, eles não viveram para conhecer o meu testamento.
Coitada da viúva! Herdou uma casa velha, uma aposentadoria razoável e uma biblioteca repleta de cupins e mofo!
Quando desencarnei, fazia quase dez anos que eu não comprava roupas para mim.
Ah, deixei-lhe também uns trinta gatos, talvez quarenta, em casa e no Sanatório!
— Não há como negar, contudo, que estamos melhorando - amenizou Odilon.
— Em vidas anteriores, em vez de falar, a gente se empenhava no mal dos semelhantes...
A evolução é lenta.
— Coloque lentidão nisto! Uma existência no corpo não é nada; reencarnamos e desencarnamos, praticamente na mesma situação...
E, depois, o pessoal fica imaginando tolices em relação à vida além-túmulo.
Quando será que entenderemos que morrer é o fenómeno mais natural que existe?
O espírito é o decalque do corpo...
O domicílio dos Espíritos Superiores nos é completamente inacessível.
Que ilusão! Os espíritas, de modo geral, acham que irão sair do corpo voando...
Capengando, isto, sim!
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Ave sem Ninho

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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 10, 2018 9:04 am

O conhecimento da Doutrina, sem dúvida, já nos é uma bênção, mas traduzi-lo...
Não é por conta de meia-dúzia de acções generosas que resolveremos o nosso milenar drama existencial.
Se fosse assim, óptimo, que beleza!
Morrer seria uma maravilha!
— Doutor, seria oportuno que, escrevendo aos nossos irmãos de Ideal, o senhor tocasse nesse assunto, pois, de facto, a caridade...
— ...tem sido muito mal entendida! - completei.
— A caridade que não nos muda interiormente...
— É preciso senti-la! - exclamou Modesta.
— Enfiar a mão no bolso e destinar algumas moedas...
— Melhor do que nada, mas...
— Concordo, Odilon, melhor do que nada, do que quando sequer cogitávamos de qualquer exercício de desprendimento, mas...
— É necessário o mínimo de amor na menor das atitudes no bem!
— Isto é que é difícil, Modesta, extremamente difícil.
Quando se fala em amor, eu fico abobalhado:
eu não sei o que é amor - eu nunca o vi em alguém!
— Jesus Cristo...
— Eu não vivi ao tempo de Jesus, Odilon.
Penso que o amor de mãe é o que mais se aproxima - é o exemplo que temos aos olhos, digamos assim; todavia, fora do amor de mãe...
— Muitos, seguindo nos passos do Mestre, amaram sobre a Terra.
— Não fui contemporâneo de nenhum. Repito:
não vi o amor em nenhum daqueles com os quais convivi, muito menos em mim, que apenas me preocupava em ser um pouco melhor.
— É assim que tudo começa - redarguiu o Mentor.
— A caridade deve ser amor e não simples gesto de solidariedade.
A solidariedade é sentimento humano; o amor é divino.
Eu era fraterno, solidário; no entanto, incapaz de amar...
— Inácio - comentou Modesta -, eu também não amava; fazia o bem, todavia amor mesmo...
O amor, quando se manifesta em alguém, faz tremer as bases do mundo!
— Devemos, ao máximo, evitar automatizar a caridade, como, por vezes, acontecia comigo; pessoalmente, eu poderia ter me beneficiado mais...
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 10, 2018 9:04 am

CAPÍTULO 8
O diálogo seguia proveitoso. Tomando a palavra, Odilon pontificou:
—A caridade feita com maior sentimento beneficia em dobro quem doa e quem recebe.
A dádiva material é o invólucro da verdadeira caridade.
Sim, em determinadas circunstâncias, precisamos de pão, de remédio, de agasalho, mas a nossa carência de amor é flagrante em todas as situações.
O pão não é apenas alimento para o corpo perecível; aliás, alimento para a fome transitória é o que ele menos é...
O espírito tem fome de amor e luz!
Tudo, nas Dimensões em que vivemos e respiramos, é pretexto para que venhamos a amar como Jesus nos ama.
O Mestre nos multiplicou pães e peixes, porém o seu objectivo não era propriamente nos alimentar o estômago faminto.
O pão, símbolo do alimento material, é energia; em suma, todas as coisas são constituídas de energia, que se concentra tanto no grão de trigo quanto no átomo.
Deus é Energia Criadora!
A nossa fome é de Deus, a nossa fome é de Amor! - grafemos aqui a palavra com A maiúsculo.
O mais sofisticado acepipe é um alimento primitivo que manipulamos, aprendendo a lidar com a forma rudimentar em que a energia se expressa.
Jesus dizia que o seu alimento era fazer a Vontade do Pai!...
Não se trata apenas de uma verdade filosófica, que transcende a compreensão de muitos.
Os Espíritos Superiores não comem e não bebem como nós e outros que estão acima de nós...
Certa vez, inclusive escandalizando os Apóstolos, Jesus se comparou ao pão - ao Pão que havia descido do Céu!
As palavras alimentam - as Palavras de Vida Eterna!...
Porque não nos alimentamos do que é essencial, estamos sempre com fome, com aquela indefinível sensação de vazio interior...
O Budismo afirma que os que comem em excesso, sem jamais se saciarem, são criaturas carentes - comem na vã tentativa de se suprirem afectivamente, psicologicamente.
Estávamos embevecidos com a dissertação do sábio companheiro, que sempre muito nos acrescentava com suas judiciosas considerações.
— Quem oferta um óbolo com amor, ou, se preferirem, com algum sentimento de vera solidariedade recebe amor de volta - o Amor é assim: quem mais doa mais tem!
— E quando - perguntei - recebemos ingratidão por paga?
— O Amor não cogita de recompensa - é um sentimento que se basta.
Os que se iniciam na prática do amor aos semelhantes satisfazem-se com a alegria advinda da própria capacidade de amar.
Os que esperam por retribuição, reconhecimento ou louvores podem ser generosos e fraternos, mas não amam.
Quem ama nunca se decepciona, jamais se frustra!
A Caridade - também grafamos a palavra com C maiúsculo - é alimento espiritual que se processa segundo as necessidades de quem busca por ele: para uns, é paz; para outros, felicidade; para outros ainda, integração mais profunda com a Vida, ou seja, harmonia interior...
— A gente não faz ideia que um prato de sopa possa tanto!...
— Não fazemos - concordou Odilon.
— Se fizéssemos...
— ...estenderíamos o prato de sopa ao faminto com profunda reverência, como alguém que oficiasse ao Amor num altar iluminado!
— Não mecanizaríamos o bem, não é? - ponderou Modesta, introspectiva.
— Não vulgarizaríamos a Caridade, humanizando um sentimento divino; estamos experienciando, na Terra e no Mundo Espiritual, no sentido de divinizar o humano - em outras palavras, resgatar o divino do que se tornou, inicialmente, subhumano, e, agora, com a conquista da láurea da razão, humano...
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 10, 2018 9:05 am

Deus habita em nós!
A meta de criatura é a sua plena identificação com o Criador...
— Por que será que agimos de modo tão indiferente em algo de importância transcendente para nós, como a Caridade?
— Doutor, no fundo, falta de cérebro e... de coração.
— Como assim?
— Inconsciência das coisas.
O homem ainda é um ser de inteligência rudimentar e sentimento primitivo.
Raramente, um espírito se destaca do comum dos espíritos corporificados no Planeta - reencarna para nos servir de luzeiro...
— E, incapazes de imitá-lo, o matamos!...
— Quando não o banimos assim do nosso meio, o fazemos sofrer, se não logramos, é claro, corrompê-lo.
— Quer dizer que não apenas as trevas conspiram contra os missionários da Grande Luz?
— As trevas invisíveis se associam aos homens que, psiquicamente, se lhes vinculam.
Herodes cumpriu à risca as instruções dos obsessores que, em sonho, o preveniram sobre o nascimento de Jesus; Judas, Anás, Caifás e Pilatos se viram enredados na trama das sombras para condenarem o Mestre à morte; a multidão, fascinada, pediu a absolvição de Barrabás...
— Jesus...?
— ...representava e ainda representa, para grande parte da Humanidade encarnada, o inacessível, o impossível, o supremo absurdo...
— O supremo absurdo?!
— Humildade, renúncia, perdão, sacrifício, desapego, paz...
— Todas as religiões pregam esses valores aos seus adeptos...
— Pregam, Inácio, superficialmente, preocupadas em não incomodar muito a consciência de seus seguidores; caso contrário...
— Mudarão de religião?
O Espiritismo não contemporiza.
— Não, mas nem todos os que o abraçam...
— ...se animam a segui-lo à risca; acreditam na Reencarnação, na Lei de Causa e Efeito, exercem as suas faculdades mediúnicas, mas... fica nisto.
O grande problema do espírita está ligado à coerência; o seu embate é consciencial...
Para ele, o testemunho é individual e intransferível. Sei o que é isto.
Fiz pequena pausa e contei:
— Certa vez, fui abordado na rua por um homem bêbado, que me pediu esmola...
Eu nunca gostei de dar dinheiro a pessoas alcoolizadas.
Neguei, não dei importância, sequer fui educado; para mim, foi como se ele não existisse - desconsiderei-o completamente.
Indignado, fui para casa, tentando justificar a minha atitude:
— Um homem forte, bêbado, pedindo dinheiro com o sol quente?...
Ora, por que não arranja um serviço?
Eu estava saindo do banco, aonde fora depositar parte do meu salário.
O que me custaria estender-lhe algumas cédulas?
Acendi um cigarro e fui, a pé, embora para casa.
No meio do caminho, quando tinha andado mais ou menos uma quadra e meia, a consciência começou a me incomodar.
Fiquei o resto da tarde pensando naquele homem, não dormi - cochilei e acordei pensando nele.
Nunca fiquei tão chateado comigo na vida, nunca!
— "Meu Deus - argumentava, em silêncio -, eu sou espírita...
Como pude tratar um ser humano com tanta indiferença?"
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

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