ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 19, 2018 10:21 am

Como é que fica a questão do carma, palavra que significa acção?
Se escolho não agir?...
— É aí, Doutor, que muitos se enganam, principalmente alguns adeptos do Hinduísmo, do Jainismo e outras vertentes da filosofia oriental.
Escolher não agir já é uma escolha.
A rigor, não há quem consiga se manter absolutamente neutro.
E, como estamos nos preparando para uma excursão de aprendizado à Índia, com o intuito de observarmos o universo bramânico, recorramos às páginas do "Bhagavad Gita".
— A "Sublime Canção", o livro milenar que inspirou o Mahatma Gandhi e milhares de outros místicos
em todo o mundo, obra que, segundo Huberto Rohden, perfila ao lado do "Tao Te King" e de "O Evangelho do Cristo"; segundo ele, um de seus tradutores, "a Humanidade possui três livros, pequenos em volume, grandes em conteúdo, que são a síntese de toda a sabedoria dos séculos e milénios"...
— Concitando Arjuna à batalha, Krishna, o homem cósmico, lhe diz:
"Ninguém pode existir um só momento sem agir; a própria natureza o compele a agir, mesmo sem querer; pensar também é agir, no mundo mental.
Quem é externamente inactivo, mas cede a desejos internos, este se ilude a si mesmo.
Mas aquele que, pelo poder do espírito, alcançou perfeito domínio sobre seus sentidos e realiza todos os actos externos, ficando internamente desapegado deles - tal homem possui sabedoria.
Cumpre, pois, o teu dever consoante a lei!
Actividade é melhor que inactividade!
Até a conservação do teu corpo exige acção; nem há santidade sem acção."
— É a chamada yoga da acção!
— Yoga, ao contrário do que se encontra popularmente difundido, não se circunscreve à prática da meditação contemplativa, não se limita a exercícios respiratórios e físicos ritmados.
Em sua mais alta expressão, yoga é uma atitude activa, jamais passiva.
O "Bhagavad" nos fala:
"Na prática da yoga, nenhuma actividade redunda em perda, nem é possível uma aberração, nesse caminho; qualquer progresso, na yoga, por menor que seja, liberta o homem da ominosa rotina de nascer e morrer (sansara) ".
— O Espiritismo é uma doutrina de acção, de trabalho, de co-responsabilidade...
Com outras palavras, o que Krishna disse a Arjuna, o aprendiz, os Espíritos Superiores disseram a Kardec.
"O Livro dos Espíritos" contém, acessível a todo e qualquer entendimento, a mais alta filosofia.
É uma síntese do que nos ensinou Krishna, Lao Tsé e Jesus!
Inclusive, pedagogicamente, logo após a "Lei de Adoração", o Codificador inseriu em suas páginas, no capítulo III das Leis Morais, a "Lei do Trabalho"...
— Destaquemos, Doutor, alguns tópicos:
"O trabalho é uma lei da natureza e por isso mesmo é uma necessidade";
"Toda ocupação útil é um trabalho";
"Sem o trabalho, o homem permaneceria na infância intelectual;
(...) Ao que é de físico franzino, Deus concedeu a inteligência para o compensar, mas há sempre trabalho;
"A natureza do trabalho é relativa à natureza das necessidades;
quanto menos necessidades materiais, menos material é o trabalho.
(...) a ociosidade seria um suplício, em vez de ser um benefício".
— Quanta sabedoria, Odilon!
— Citemos, ainda, o "Bhagavad":
"Homens sem sabedoria deliciam-se na análise da simples letra dos Vedas, declarando que nada há para além do texto.
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 19, 2018 10:21 am

Os que estão cheios de desejos egoístas consideram o Céu como meta final, louvando excessivamente complicados rituais e cerimónias multiformes, com o fim de conseguirem poder e prazer em encarnações futuras".
— Permita-me o destaque - solicitei:
"...louvando excessivamente complicados rituais e cerimónias multiformes, com o fim de conseguirem poder e prazer em encarnações futuras"...
Que coisa! E isso até hoje, não?
— Na Terra e no Além, Doutor, entre os vivos e os mortos, o que teremos oportunidade de constatar.
A crença na Reencarnação, só por si, não leva o espírito a lugar algum!...
— Sem o Evangelho, estaremos perdidos!
Modesta e Paulino, que haviam permanecido em silêncio, manifestaram-se um após o outro, exclamando:
— O Espiritismo é a Verdade que liberta!
— Como o conhecimento espírita nos amplia os horizontes da compreensão de nós mesmos e da Vida!
— O negócio - falei -, convenço-me cada vez mais, é trabalhar...
— E trabalhar sem apego ao resultado do trabalho - emendou o Instrutor.
Krishna adverte Arjuna:
"...realiza o teu trabalho, para que aconteça o que deve acontecer, mas age sem apego nem interesse".
— É o que nos ensina Jesus:
"Tende cuidado em não praticar as boas obras diante dos homens, para serem vistas, pois, do contrário, não recebereis recompensa de nosso Pai que está nos Céus"!
A medida que nos aprofundamos no conhecimento da Doutrina, vamos nos sentindo despojados...
— Não dos bens materiais, não é, Inácio, dos quais igualmente ela nos ensina a abrir mão?...
— Dos bens materiais, Modesta, até que, para quem pouco ou quase nada tem, não é nada; a Doutrina vai nos despindo das ilusões e nos deixando completamente nus...
Paulino gargalhou.
— "Eu sou pobre, pobre, pobre de marré, marré, marré" - entoei, lembrando antiga canção infantil, de nosso folclore, que as meninas do Lar Espírita costumavam cantar para mim, em suas brincadeiras de roda.
— Ricos, Doutor, somos infinitamente ricos de luz! - redarguiu Odilon com o seu habitual optimismo.
— De facto - concordei -, o Espiritismo em nós é luz nas trevas!
Somos escuridão pura ou pura escuridão - fica a critério dos senhores, a penumbrosa colocação mais adequada.
É óbvio que, diante de tanta fartura, não vamos brigar por um pouco mais ou um pouco menos de treva!...
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 19, 2018 10:21 am

CAPÍTULO 34
Antes de encetarmos jornada em direcção à índia, um dos berços da civilização, país que sempre me cativou pelo seu misticismo, eu, Modesta e Paulino, sob a segura orientação de Odilon, nos pusemos a rememorar algo sobre a sua milenar cultura filosófica.
— O Hinduísmo - esclareceu o Mentor, em conversa informal que acompanhamos com grande interesse - derivou-se do Brahmaismo; Brahman é o supremo princípio do Universo, a partir de cuja essência tudo que existe foi criado - é "a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas"...
— Como o Espiritismo conceitua Deus, não é?
— Do ponto de vista filosófico, é inegável que, entre a Doutrina e o Hinduísmo, Doutor, há vários pontos de contacto, com destaque para a Reencarnação e a Lei do Carma.
— Aliás, Odilon, não pretendendo interrompê-lo, de certa maneira, o Espiritismo está presente nas principais religiões, que, por assim dizer, se alicerçam em muitos de seus postulados.
— Inclusive na Mediunidade; quase todas as religiões tradicionais, senão todas, são de origem mediúnica...
O Zoroastrismo, por exemplo. Zoroastro, à feição de Moisés, entabulava diálogo com Ahura-Mazda, o senhor da luz; antes, idólatra, o povo persa adorava as mais bizarras divindades, mas, mesmo assim, no politeísmo, subsistia a crença nos espíritos, nos diversos espíritos, "deidades em comum com os hindus da idade védica".
O "Avesta", ou "Zeud-Avesta", é um livro de natureza mediúnica!
Zoroastro, também chamado Zaratustra, o recebeu sob a inspiração do Espírito...
— Como Moisés, recebendo o Decálogo no Monte Sinai...
— Não apenas o Decálogo, que, de fato, foi produto do fenómeno que Kardec chamou de escrita directa...
— Ou de "psicografia na pedra", conforme tive oportunidade de ouvir Chico Xavier mencionar no programa "Pinga-Fogo", ao qual compareceu por duas vezes com enorme sucesso, na extinta TV Tupi, em São Paulo.
— Os cinco livros básicos do Judaísmo, o Pentateuco Hebreu, foram escritos por Moisés, com a participação directa de 70 anciãos - 70 médiuns, segundo se pode ler em Êxodo, capítulo 24, versículos 2 e 3:
"Disse também Deus a Moisés:
Sobe ao Senhor, tu e Aarão, e Nadabe, de Abiu, e setenta dos anciãos de Israel; e adorai de longe.
(...) Veio, pois, Moisés e referiu ao povo todas as palavras do Senhor e todos os estatutos..."
— A título de melhor fixação, permita-me nomeá-los - solicitei:
"Génesis", "Êxodo", "Levítico", "Números" e "Deuteronómio"...
Em "Deuteronómio", capítulo 18, versículos 10 e 11, é que está colocada a controvertida questão da suposta proibição da evocação dos mortos:
"Não se achará entre ti quem faça passar pelo fogo o seu filho ou a sua filha, nem adivinhador, nem agoureiro, nem feiticeiro; nem encantador, nem neciomante, nem mágico, nem quem consulte os mortos..."
Ora, Moisés não cometia o contra-senso de proibir uma prática inexistente!
Os homens sempre estiveram em contacto com os espíritos, e vice-versa - mais "vice-versa" do que "versa-vice", não é?
— Seria fastidioso enumerar todos os fenómenos mediúnicos constantes no Antigo e Novo Testamentos - a Bíblia é um livro de Mediunidade!
— No primeiro livro de Samuel, está escrito - em minhas polémicas com os padres, através da imprensa, eu sempre recorria a este tópico -, capítulo 9, versículo 9 e seguintes:
"(Antigamente em Israel, indo alguém consultar a Deus, dizia:
Vinde, vamos ter com o vidente; porque ao profeta de hoje, antigamente se chamava vidente.) "
— Samuel era o profeta, ou seja, o médium, que o Rei Saul fora procurar.
Mais tarde, estando Samuel já morto, segundo se pode ler no capítulo 28, o Rei Saul torna a procurá-lo...
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 19, 2018 10:21 am

— Vejamos como são as coisas:
Saul havia desterrado os médiuns e os adivinhos, e se sente compelido a recorrer aos préstimos da pitonisa de En-Dor!
"Então disse Saul aos seus servos:
Apontai-me uma mulher que seja médium, para que me encontre com ela e a consulte".
— "Fazei-me subir a Samuel" - capítulo 28, versículo 11 - solicitou o rei à sensitiva temerosa.
— A perseguição aos médiuns é de longuíssima data!
— Convém esclarecer, Doutor - pontificou Odilon com propriedade -, que a palavra "médium", originada do grego, não existia à época e, portanto, não poderia constar na Bíblia; foi Allan Kardec que a retomou e popularizou...
— Falando nos gregos, a filosofia socrática...
— ...pode, igualmente, ser considerada de origem mediúnica.
Estando com a pitonisa, em Delfos, no templo consagrado ao Deus Apolo, Sócrates se inspirou no "Conhece-te a ti mesmo"; inclusive, dizem os historiadores, que, sem conhecê-lo, a pitonisa o saudou em meio à multidão como o mais sábio dos homens...
— A médium, ou seja, a pitonisa, que se acomodou sobre um tripé de bronze, caía em transe e atendia aos consulentes que, por sua boca, imaginavam ouvir as instruções do Deus Apolo!
— Sócrates dizia:
"Os demónios ocupam o espaço que separa o Céu da Terra; constituem o laço que une o grande Todo a si mesmo.
Não entrando nunca a divindade em comunicação directa com os homens (permitam-me grifar), é por intermédio dos demónios que os deuses entram em comércio e se entretém com ele, quer durante a vigília, quer durante o sono ".
— Está mais do que claro:
os espíritos se entretinham com os homens, no caso, com os gregos, "quer durante a vigília, quer durante o sono"!...
Kardec, na introdução de "O Evangelho Segundo o Espiritismo", explica que "a palavra daimon, da qual fizeram o termo demónio, não era, na antiguidade, tomada a má parte, como nos tempos modernos.
Não designava, exclusivamente seres malfazejos, mas todos os Espíritos Superiores, chamados deuses, e os menos elevados, ou demónios propriamente ditos, que se comunicavam directamente com os homens:
— Falando de Mediunidade e da origem transcendente das religiões, convém, Odilon, que algo lembremos sobre o Islamismo.
— Sem dúvida.
É público e notório que Maomé, o grande profeta do Islã, era portador de diversas faculdades mediúnicas.
— O "Alcorão" é também um livro mediúnico!
— Pode, perfeitamente, ser assim considerado, já que a sua essência foi ditada pelo anjo Gabriel a Maomé, quando este se recolhia a uma das cavernas do Monte de Hira, para meditar.
— Ele não sabia escrever...
— Não, mas, em estado de transe, ditava o rudimento do livro sagrado dos muçulmanos a um secretário.
É evidente que, em todos os casos de mediunidade, há de se levar em conta a questão da filtragem; o espírito, de certo modo, está sempre sujeito às influências culturais e psicológicas do medianeiro, às suas predisposições, ideias preconcebidas...
— É porque fica difícil admitir que um anjo, no caso Gabriel, que pode ser o mesmo que anunciou à Maria de Nazaré o nascimento de Jesus, preconizasse a "guerra santa", oriunda do exacerbado fanatismo religioso.
— E o Budismo, Dr. Odilon? - perguntou agora Paulino.
Pode ser considerado uma religião mediúnica?
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 19, 2018 10:21 am

— Paulino - respondeu o Mentor -, os budistas preferem não usar o termo "religião" para as concepções filosóficas em torno da Vida.
"A palavra Buda - escreveu um historiador -, com a significação de "Iluminado", figura entre os muitos títulos dados ao Mestre, cujo nome pessoal era Siddártha, e cujo nome de clã era Gautana.
Também foi chamado Shakya-Muni, ou o "Sábio dos Shakyas", e Tathagata, "Um Que Conseguiu a Verdade".
O seu nascimento e a sua vida estão repletos de fenómenos espirituais, que, sem dúvida, podemos rotular de mediúnicos, embora, ostensivamente, os adeptos do Budismo não se digam médiuns, em que pese ao contacto que mantêm com os ancestrais desencarnados.
— Os biógrafos de Buda - aparteei - registraram que, durante o seu nascimento, "uma grande luz apareceu no céu; os surdos ouviram; os mudos falaram; os paralíticos se levantaram; os deuses se debruçaram nos céus para contemplá-lo; e de longe vieram saudá-lo os reis"...
— Assemelha-se à descrição do nascimento de Jesus - observou Paulino.
— Simbolizando - tornou Odilon - a integração do Céu com a Terra, do espiritual com o material, dos espíritos com os homens...
Ainda vejamos:
à semelhança do episódio da tentação de Jesus, Mara, o Príncipe do Mal, apareceu a Buda e tentou-o com o oferecimento de grandes impérios.
— Ao que estou informado - ponderei -, os budistas não cultivam o contacto sistemático com as personalidades desencarnadas, porque consideram que os que não lograram atingir o Nirvana devem reencarnar de imediato ou quase de imediato.
Li, certa vez, algo um tanto confuso para os neófitos:
Buda "não acredita na alma".
Nenhum Deus, nenhum paraíso, nenhuma alma"...
— Não acredita na alma? - questionou Paulino, um tanto surpreso.
Não se trata de uma doutrina espiritualista?
— Pelas palavras de Osho, um de seus mais eminentes discípulos contemporâneos, creio que já desencarnado, Buda dizia que "vivemos num oceano de consciência, somos uma só consciência, iludidos pelas fronteiras do corpo..."
— Complicado!
— Nem tanto, Paulino - elucidou o Instrutor -; é uma questão de interpretação...
A essência da Verdade é a mesma em todas as crenças.
Temos dificuldade em nos imaginar sem sermos criaturas individualizadas, sem as características que nos constituem o "ego"...
O que quis Jesus dizer quando afirmou:
"Eu e o Pai somos um"?
Um dia, chegaremos lá...
— Daqui a uma eternidade e meia, é o que você quer dizer, não é, Odilon?
Paulino e Modesta sorriram com descontracção.
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 19, 2018 10:22 am

CAPÍTULO 35
Doutor - abordou-me Odilon onde está o desenho concebido pelo senhor, representando o universo das principais correntes filosóficas e religiosas da Humanidade - o Universo em forma de cilindro, com outros cilindros menores?
— Você se refere àquela "preciosidade", não é?
- respondi, abrindo uma gaveta da escrivaninha, retirando a singela folha de papel com os meus rabiscos.
— Aqui está!
— O universo católico, o muçulmano, o judeu, o bíblico, o budista e o hinduísta ou bramânico...
— Inácio, eu não conhecia os seus dotes de desenhista - gracejou Modesta.
Um pintor modernista!
— Tudo, menos um pintor modernista - redargui -; eu nunca entendi nada daquela abstracção...
Uma tela de um deles - com todo o respeito - dependurada na parede, de cabeça para cima ou para baixo, para mim, não faz a menor diferença!
Sou, reconheço, completamente leigo...
Prefiro quadros retractando a Natureza, morta ou viva!
— Falemos um pouco sobre o Hinduísmo - disse Odilon -, que, filosoficamente, como quase todas as crenças religiosas, se antecedeu pela Mitologia; o panteão védico chegou a ter um número maior de divindades que o grego...
— Mais deuses do que homens...
— Quase, Doutor!
— Houve época - ironizei - em que a Igreja Católica entrou na competição, canonizando por atacado; o objectivo de um santo para cada dia do ano foi logo alcançado...
O Céu ficou pequeno.
Sem se importar com os meus comentários, Odilon explicou.
— O Hinduísmo surgiu por volta de 1100 a.C.
No final do século IV a.C, a população da índia atingira a marca dos 100 milhões de habitantes.
Imaginemos, numa população assim, o misticismo proliferando.
Além do mais, o país foi dominado, sucessivamente, pelos gregos, pelos árabes e pelos britânicos, raças brancas, negras e amarelas, constituídas por nómades, comerciantes e guerreiros.
Escreveu um estudioso que "havia sociedades grandes e requintadas, com poetas e trovadores, e havia pequenos clãs de comedores de raízes ainda primitivos.
Graças ao Hinduísmo, a Índia achou lugar para todos.
— Como esses povos conseguiam transpor a fortaleza de pedra do Himalaia! - comentou Paulino, evidenciando os seus conhecimentos em Geografia.
— Do Himalaia e da cadeia de montanhas do Hindu Cuxe, que constituíam e constituem uma grande muralha de 250 quilómetros de largura, 3.500 quilómetros de comprimento e - pasmem - 7.500 metros de altura!
Mas, para compreendermos melhor, falemos sobre os principais deuses cultivados pelo povo.
Tomando de uma caneta, Odilon esboçou significativo gráfico numa lauda de papel em branco.
— Cuidado para não concorrer com a minha obra de arte...
— Não concorrerei, Doutor.
Os árias, que eram pastores nómades, compuseram os Vedas, formados por quatro grandes livros:
o Rig-veda, o Sama-veda, o Yajur-veda, o Atherva-veda; é o período denominado "Índia Védica", que data, aproximadamente, de 2500 a 1500 a.C.
Existem, é claro, controvérsias quanto à referida data.
— Dr. Odilon, a palavra "Veda"?...
— Significa ciência, conhecimento.
Os hindus acreditam que os "Vedas" tenham sido escritos pelo Deus Brahma - alguns grafam Brahman - em folhas de ouro...
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 19, 2018 10:22 am

Os Upanishads - há quem prefira escrever Upanichades, não importa - é um dos textos mais preciosos dos "Vedas", reunindo o pensamento dos filósofos, incluindo, é óbvio, a Reencarnação, a Lei do Carma, etc.
— O que significa Upanishads? - interpelou Paulino, traduzindo a sua natural curiosidade de aprendiz.
— "Sentar perto" do mestre; os eruditos o consideram "o mais velho documento filosófico e psicológico da espécie humana"...
Aborda as transcendentes questões:
"Donde viemos, onde vivemos, para onde vamos?"
Apenas com o propósito de ilustrar os nossos estudos, permita-me a citação de um texto de suas páginas:
"Senhor, neste malcheiroso corpo, que é um conglomerado de ossos, pele, músculos, medula, carne, sémen, sangue, muco, lágrimas, catarro, fezes, urina, respiração, biles e fleuma, que bem há no gozo do desejo?"
— Meu Deus, a quem será que se refere?...
— "Neste corpo aflito de desejo, - prosseguiu Odilon, diante da classe estarrecida (confesso-lhes que me vi encolhidinho na carteira...) - cólera, cobiça, ilusão, medo, desânimo, inveja, separação do desejável, união com o indesejável, mágoas e o resto, de que vale o gozo dos desejos?"
— Isto, definitivamente, não é comigo - aparteei, erguendo a mão.
— "E nós vemos que o mundo inteiro se corrompe como esses mosquitos, essas varejas, esses capins e essas árvores que crescem e perecem...
Entre outras coisas há o secamente dos grandes oceanos, o desmoronar dos picos das montanhas, o desvio da estrela polar... a submersão da terra...
Neste ciclo de existência, de que vale o gozo do desejo, se depois que o homem o sacia o vê retomar?"
— Depois disso, não desejo mais um picolé!
Meu Deus, os Upanishads nos reduziam a pó!
O mestre punha a gente sentado perto dele e escarchava...
— Inácio! - procurou Modesta conter-me em meus exageros.
— Bem, continuemos.
Simplificando: como em toda mitologia, os mais antigos deuses hindus eram as forças ou elementos da natureza - o céu, o Sol, a Terra, o fogo, o vento, a água e o sexo.
"...o céu, por exemplo, se tornou um pai, Varuna - escreveu Odilon; a terra, tornou-se mãe, Prithivi; os vegetais constituíam o fruto da união da terra com o céu através da chuva.
A chuva era o deus Parjanya; o fogo era Agni; o vento, Vayn; a tempestade, Índia; a peste,...
— Até a peste era deus? - questionei, provocativo.
— "...Rudra; a aurora, Ushas, o sulco do campo, Sita; o Sol, Surya, Mitra ou Vixnu", e vai por aí afora.
— Garanto que isto era obra dos sacerdotes!
— De certa forma, sim, Doutor.
— Eu sabia que tinha padre metido no meio disto...
— Os brâmanes, inimigos de Buda...
— ...que procurou acabar com o comércio dos fariseus hindus e fechar-lhes os templos, não é?
— Os brâmanes, Doutor - deixe-me dar-lhe uma "colher de chá", ou melhor, uma colherinha... -, cobravam caro a ajuda aos fiéis para a realização de certos sacrifícios litúrgicos...
— Safados!
— Inácio - insinuou Modesta talvez, quem sabe, por um incidente reencarnatório, você...
— ...tenha sido um deles! Neste caso, estou xingando a mim mesmo...
— Os brâmanes - prosseguiu Odilon -, "se não viam o dinheiro na mão, recusavam-se a recitar as necessárias fórmulas; tinham de ser pagos antes dos deuses"...
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 19, 2018 10:22 am

— Antes dos deuses?!
— "Havia regras estabelecidas por eles quanto à remuneração de cada serviço - quantos cavalos ou vacas ou quanto ouro; o ouro era substância mais adequada a comover o sacerdote ou o deus.
Os Brahamanas, escritos pelos brâmanes, instruíram os sacerdotes quanto aos meios de inverter as orações e sacrifícios sem o devido pagamento." Convém que paremos por aqui...
— Fale-nos um pouco dos Chawakas, os materialistas hindus - solicitei.
Parece incrível que, em meio a tanto misticismo e religiosidade...
— O senhor conhece a história tanto quanto eu.
Os Chawakas, digamos, foi um fenómeno de reacção ao excesso de superstição e fanatismo e à exploração dos brâmanes...
Pregavam o que pregam os materialistas modernos:
"Todos os fenómenos são naturais; só os ingénuos os relacionam a deuses e demónios.
A matéria é a única realidade; o corpo, uma combinação de átomos; o espírito, mera matéria pensante; o corpo, não a alma, sente, vê, ouve, pensa.
Quem já viu a alma separada do corpo?"
Combatiam a imortalidade, a Reencarnação, afirmando que "a religião é uma monstruosidade, uma doença ou uma patifaria..."
— Interessante como a evolução, inclusive a do pensamento, se faz através de ciclos, ou fases oscilatórias.
— É justamente o que eu estava imaginando, Doutor - comentou Paulino.
— A religiosidade excessiva, fé destituída de razão, seguiu-se uma onda de materialismo...
— O que, por sua vez - pontificou o Mentor -, deu origem ao aparecimento do Jainismo e do Budismo.
— Sinceramente, nunca ouvi nada sobre o Jainismo - disse o interessado pupilo de Odilon, que, de pronto, sumariou:
— Apareceu em torno do século VI a.C.
Um jovem, cujo nome se desconhece, passou a ser chamado por Mahavira pelos seus discípulos - o termo significa Grande Herói.
Aos 31 anos, renunciou a tudo, à vida mundana, e, semelhante a Francisco de Assis, "despiu-se de todas as roupas e perdeu-se nos ermos de Beny-la"...
— Basicamente, o que pregava?
— Ele e os jains, seus seguidores, se obrigavam a cinco votos:
não matar coisa nenhuma, não mentir, não tomar o alheio, guardar a castidade, renunciar aos prazeres mundanos.
— Teria sido Francisco de Assis a reencarnação de Mahavira? - indagou Paulino.
— Quem sabe?
É perfeitamente possível.
"O bom jain refugava o mel porque é ele a vida das abelhas; filtrava a água para separar dela qualquer vidinha que contivesse; velava a boca, de medo de aspirar e matar organismos impalpáveis que boiassem no ar; resguardava a luz das lâmpadas para que nela não morressem mariposas; antes de dar um passo, varria o chão para não pisar alguma vidinha incauta.
O Jain nunca matava ou sacrificava um animal; e, se era extremado, estabelecia hospitais ou asilos (...) para os animais velhos cansados ou doentes".
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 19, 2018 10:22 am

CAPÍTULO 36
Finalmente, partimos.
Não, não nos utilizamos da faculdade de volitar, mesmo porque haveríamos de atravessar regiões desconhecidas, adentrando espaços espirituais aos quais não poderíamos ter acesso sem prévio consentimento dos que lhes guardavam as fronteiras.
Os nossos irmãos encarnados se enganam, imaginando que, fora do corpo, o espírito possa ir aonde quer...
Para o espírito completamente liberto das injunções da matéria, não existem alfândegas no Além, no entanto este não era o nosso caso - pelo menos, não o meu.
Fomos transportados por uma aeronave, parecida com um helicóptero, que deslizava com extrema facilidade tanto na horizontal quanto na vertical - uma aeronave silenciosa que, sobrevoando o Himalaia, nos permitiu a visão extraordinária de seus picos cobertos pela neve, num espectáculo grandioso de cores provocado pela incidência dos raios do Sol a prumo.
não nos demoramos a avistar o Ganges, o centro espiritual da Índia, serpenteando em silêncio por entre cadeias de montanhas e imensas planícies, banhando inúmeras cidades e vilarejos.
O Rio Ganges está para a Índia como o Nilo está para o Egipto, o Amarelo para a China, o Amazonas para o Brasil...
Campos de arroz e trigo o margeavam por quilómetros e quilómetros e, à medida que a aeronave descia, percebemos que centenas de locais sagrados o pontilhavam em sua trajectória.
Sagrado para os hindus, considera-se que um banho em suas águas lava todos os pecados terrestres...
Ah - pensei -, se eu tiver a oportunidade de um mergulho, sem mais receio que um crocodilo me abocanhe!
Convém esclarecer aos nossos leitores que, por sugestão de Odilon, havíamos adensado os corpos espirituais, a fim de que os sentidos físicos melhor registassem a paisagem terrestre que se desdobrava aos nossos olhos.
O veículo que realizava o nosso transporte pousou e passamos a caminhar às margens do rio caudaloso, que, visto mais de perto, se apresentava com as águas um tanto turvas, devido, talvez, à estação das chuvas.
Inúmeros devotos hindus, homens e mulheres - alguns turistas do Ocidente -, faziam oferendas às divindades, flores e alimentos, mergulhados quase até à cintura, permanecendo imóveis em atitude de adoração.
— É assim desde séculos e séculos - esclareceu Odilon, respeitoso.
Os hindus, em maioria, continuam a crer na influência dos deuses, como também na dos espíritos inferiores, em suas vidas; o país é uma potência emergente, todavia, em matéria de crença religiosa, vive das tradições do passado...
É claro que existem excepções.
Cientistas e pensadores modernos vêm tentando acordar os espíritos que, todavia, ainda se prendem a rituais, incapazes de se libertarem do círculo vicioso em que a reencarnação se transformou para muitos deles.
Na Índia, temos hoje, num só país, dois países diferentes: um que, praticamente, parou no tempo, e outro, que procura assimilar o progresso.
Homens seminus, com os corpos cobertos de cinza e pintados, e mulheres com as suas roupas típicas - sáris - entravam e saíam das águas, em movimentos quase ritmados, como se, em verdade, o Ganges lhes fosse um grande templo!
— Que fumaça é esta? - interrogou Paulino.
Um cheiro estranho, de carne queimada...
— Corpos que estão sendo cremados - explicou o Mentor -; nas proximidades do rio, os mortos são queimados em improvisados fornos crematórios.
Como estávamos nas proximidades de Benares, cidade sagrada para os budistas, decidimos percorre-la, nos deparando com diversas estátuas consagradas a Buda, verdadeiras obras de arte.
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 19, 2018 10:22 am

— Incrível - observou Modesta -, do ponto de vista religioso, a Índia é um país cosmopolita:
estátuas e templos budistas, inúmeras mesquitas, igrejas católicas...
— Por que - perguntou Paulino - Buda está sempre de túnica amarela?
— Para os seus seguidores - respondeu Odilon-, o amarelo representa a morte, o pôr-do-sol, o entardecer...
Em suas pregações, Buda enfatizava a morte; sempre que iniciava um novo saniasin, ele lhe recomendava:
"Vá a um cemitério e fique ali, e fique observando as piras funerárias, os cadáveres sendo carregados e queimados...
Fique observando.
E fique se lembrando de que isso também vai lhe acontecer".
O trânsito estava um caos, igual ou pior ao de uma metrópole como São Paulo:
carros velhos enguiçados, contrastando com automóveis importados, bicicletas, o povo a pé atravessando as ruas e os guardas tentando colocar ordem em tudo...
Nisto, contemplando a belíssima arquitectura de uma mesquita, com elevado minarete a erguer-se de sua cúpula em forma de redoma, escutamos uma forte freada e os pneus de um carro cantando na rua larga:
um pobre cão, assustado, com certeza, entre os ruídos de tantas buzinas, acabara de ser atropelado...
O motorista desceu com as mãos à cabeça, se lamentando, ajoelhou-se ali mesmo diante do animal agonizante, pronunciou palavras em oração, chorou e...
seguiu adiante.
— Para os hindus - comentou Odilon diante do inusitado - ou para os indianos, de modo geral, os animais são sagrados; os hindus, os budistas e os jains consideram importantes todas as formas de vida, pois as julgam encarnações de uma energia ou força vital.
Segundo a mitologia, um exército de macacos teria, um dia, ajudado Rama a salvar sua mulher do demónio Ravana.
— Todavia, dentre as várias espécies, eles parecem ter uma predilecção pela vaca, não é?
— É que Crisna, ou Críxena, criador do Universo, teria crescido entre o gado e os vaqueiros; de preferência a vaca, no entanto, os hindus reverenciam o touro, que associavam ao deus Xiva, ou Shiva...
Os elefantes também são adorados; Ganesha, a divindade com cabeça de elefante, é considerado o Deus da Boa Sorte...
— Tem muita gente que coloca o enfeite de um elefante em casa, com a traseira virada para a porta de entrada - comentei, atinando, finalmente, com semelhante prática tão em voga no Brasil...
Que é para atrair a boa sorte, entendi, mas... por que tem que ser com a traseira voltada para a porta da sala?
Sinceramente, eu não entendo como um povo que, desde milénios, acredita na Reencarnação...
— Não entende o quê, Doutor? - interrompeu-me Odilon, distraído, apontando a Modesta um outro belo templo que se erguia, com intensa movimentação de fiéis.
— Se são reencarnacionistas - argumentei -, como podem se fixar em tantas exterioridades, objectos de culto, rituais, formalidades?...
— É um assunto a ser estudado mais detalhada mente, por nós, os espíritas - redarguiu o Mentor.
— Perguntemo-nos: A crença na Reencarnação tem surtido em nós os efeitos éticos esperados?
De certo modo, não seremos convictos indiferentes, com maior agravamento da própria situação espiritual, porque, em nosso caso, ainda temos Jesus?!
Sem que pudéssemos levar o assunto adiante, Odilon, delicadamente, tomando Modesta pelo braço encaminhou-se ao templo defronte.
— É justamente constituído em consagração à Deusa-mãe!
— A Kali!... - exclamou a companheira.
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 20, 2018 10:55 am

— Kali é apenas um de seus muitos nomes:
é também chamada de Durga, Parvati, Uma...
De acordo com os textos védicos mais antigos, "era a Deusa, e não as divindades masculinas aparentemente dominantes do panteão védico, a verdadeira conhecedora do sagrado poder central oculto do Universo..."
— O Deus hindu é uma Deusa! - disse, em meu anseio de tudo sintetizar.
— "Ela é Brahmán, a força vital do Universo, que habita secretamente todas as coisas."
— Lembro-me - emendei - de um texto de Ramakrishna, desencarnado em 1886, que, certa vez, citei em uma de minhas conferências:
"Kali, minha Divina Mãe, é de pele negra? - porque o Deus Supremo dos hindus, além de ser mulher, é negra.
Ela parece negra porque é vista de alguma distância; mas, quando conhecida intimamente, ela não é assim.
(...) Prisão e liberação são obras suas.
Através de sua maya, os habitantes do mundo se envolvem em "mulheres de ouro" e novamente, por sua graça, eles conseguem a liberação.
Ela é chamada a Redentora e a Removedora do cativeiro que prende a pessoa ao mundo."
É evidente não ser nossa intenção escrever qualquer tratado sobre a mitologia hinduísta.
Os irmãos leitores, no entanto, a título de pequeno acréscimo ao nosso trabalho, nos permitirão recorrer às palavras de Joseph Campbell, quando interrogado se, em vez de orarmos "Pai Nosso que estás no Céu...", não deveríamos dizer:
"Mãe Nossa...?"
— "Tenho pensado, muitas vezes - respondeu -, que a mitologia é uma sublimação da imagem da mãe.
Estamos falando da Mãe-Terra.
No Egipto, você tem a Mãe-Céu, a Deusa Nut, representada como sendo toda a esfera celeste.
(...) a floração básica da civilização ocidental ocorreu nos grandes valores dos rios - o Nilo, o Tigre-Eufrates, o Indo, e mais tarde, o Ganges.
Esse era o mundo da Deusa.
O nome do Rio Ganges (Ganga), por exemplo, é o nome de uma deusa".
Já dentro do templo, deparamo-nos com dezenas de devotos em fila, tocando, cada um por sua vez, os pés da estátua da Deusa Kali, guardada por monges, numa atmosfera quase irrespirável de fumaça de incenso e cheiro de suor.
— Agora - exortou-nos o Instrutor -, atentemos para o cenário espiritual, paralelo ao que nos está sendo possível observar na Dimensão Física.
— Meu Deus - exclamei, assim que passei a reparar na Dimensão em que propriamente nos movimentávamos -, um templo dentro do outro!
— É aqui que começa a nossa observação do universo bramânico, que, naturalmente, se estende para o alto, como também ocupa considerável espaço nas entranhas da terra.
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 20, 2018 10:55 am

CAPÍTULO 37
— As pessoas na Terra ignoram - elucidou Odilon - que Mundo Espiritual é uma denominação genérica e que habitamos num planeta, constituído de matéria tão consistente quanto a que os nossos irmãos encarnados pisam e aferem com os sentidos físicos.
A Terra, à semelhança do menor corpúsculo existente, um grão de areia, por exemplo, possui o seu duplo...
— Quanta gente! - exclamou Paulino.
Quantos espíritos sustentando as mesmas convicções e participando dos mesmos rituais!...
Chega a ser inacreditável.
— Paulino, não raro, as sociedades terrestres, as organizações religiosas e outras foram criadas com base nas reminiscências dos espíritos que retornam ao corpo de carne ou as inspiram aos que se encontram encarnados - a vida física é uma extensão da vida no Plano Espiritual, e vice-versa; dos Dois Lados, o homem exercita a sua capacidade criadora e carrega consigo a experiência que lhe diz respeito...
— Quer dizer - perguntou Modesta -, que os Planos Espirituais mais próximos são igualmente susceptíveis de serem influenciados pelos hábitos e cultura dos que envergam a roupagem material?
— Para sintetizar:
a Terra importa e exporta ideias?...
Não é, Modesta, o que você deseja saber? - completei.
— Sim, em termos práticos, é isto.
— É evidente - respondeu o Mentor - que, neste sentido, mais importa do que exporta, ou seja, a Humanidade encarnada é mais influenciada do que influencia.
— Odilon, se subirmos?...
— Se subirmos, Doutor, pelo universo bramânico, explorando-o nas Dimensões acima, nos depararemos com uma hierarquia espiritual...
— Na prática? - questionei, ansiando por esclarecimentos mais específicos.
— Exactamente como está nos livros!
— Não!... Com representações espirituais de suas deidades?
Difícil de acreditar e conceber...
Você está querendo dizer que...
— Que as petições de nossos irmãos aos deuses de seu culto não ficam sem resposta!
Há séculos e séculos, milhões e milhões de mentes pensando, plasmando...
O pensamento é criador!
— Mas chegará a tanto? - insisti.
— Há tanto e muito mais.
— À Deusa Kali?...
— Doutor, quantas visões os nossos irmãos católicos têm tido, no mundo todo, das inúmeras formas com que a dita Nossa Senhora se lhes apresenta?
— Não sou versado no assunto, mas sei de algumas:
Nossa Senhora Aparecida, Nossa Senhora do Rosário, Nossa Senhora de Guadalupe, Nossa Senhora de Medjugorie...
— No Hinduísmo, também encontramos a figura da Santíssima Trindade...
— Pai, Filho e Espírito Santo!
— Personificada em Brahman, Shiva e Vishnu, sendo que Crisna, ou Críxena, é uma das encarnações de Vishnu.
— Como Jesus, uma das encarnações do Cristo!
— Kali é a deusa-mãe...
— Nossa Senhora, Maria de Nazaré!
— Se, para os católicos, essas Entidades são reais, por que não haveriam de ser para os hindus?
— Um hindu médium vidente visualizaria a deusa Kali...
— Como ela está representada pela estátua à nossa frente, Doutor!
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 20, 2018 10:55 am

— Os espíritos, então, respondem pelo culto dos deuses?
Espíritos respondiam quando, na Grécia antiga, os deuses do Olimpo eram evocados?
— Perfeitamente.
— As vezes, a aparição de um espírito é que inspirava aos homens primitivos a concepção de mais um deus...
Kardec, em "O Livro dos Espíritos", estudando a questão do politeísmo, inquiriu no item 668:
"Os fenómenos espíritas, sendo produzidos desde todos os tempos e conhecidos desde as primeiras eras do mundo, não podem ter contribuído para a crença na pluralidade dos deuses."
Resposta: "Sem dúvida, porque os homens, chamando deus a tudo o que era sobre-humano, os espíritos lhes pareciam deuses, e, também por isso, quando um homem se distinguia entre os demais pelas suas acções, pelo seu génio ou por um poder oculto, que o vulgo não podia compreender, faziam dele um deus e lhe rendiam culto após a morte".
— O tema é interessantíssimo!
— Odilon - solicitou Modesta, timidamente - será que...?
— Sim, será que - emendei com espontâneo entusiasmo - não poderíamos?...
— Não poderíamos, Doutor - endossou Paulino -, a título de?...
— De curiosidade, não é? - adiantou-se o Instrutor.
— Que seja, Odilon, que seja - assumi.
Será que não poderíamos a título de curiosidade e para intrigar?...
— Intrigar os seus leitores!
— Intrigar e provocá-los - admiti -, estar, já que estamos aqui, na presença de um desses...
— Deuses?! - tirou Modesta a palavra da minha boca.
- Especificamente no templo da deusa Kali - respondeu - como num dos demais consagrados aos deuses maiores do Hinduísmo, acho difícil - são aparições raras, que ocorrem em ocasiões especiais.
— Contentar-nos-íamos - argumentei - com um deus popular; afinal, espíritos comuns como nós, aliás, como eu, Modesta e Paulino...
— O senhor pode me incluir na lista, Doutor!
— Espíritos comuns como a maioria - pronto! -, estão por aí, acessíveis.
Ante a nossa insistência, que nos comportávamos quais crianças ingénuas em torno do instrutor, Odilon concordou:
— Está bem - disse-nos -, iremos a Nova Delhi, onde, segundo informações que possuo, acontece fenómeno interessante num dos templos onde Ganesha, a divindade com cabeça de elefante, é cultuado.
Sem mais delongas, pusemo-nos a caminho, agora utilizando da faculdade de volitar, sem, contudo, procurarmos chamar a atenção das entidades que encontrava-mos em peregrinação.
Digo-lhes que, pelo que pude observar, na Índia, milhares de espíritos retomam o corpo de forma quase inconsciente - encaram e aceitam a reencarnação com naturalidade, mas permanecem alheios ao seu transcendente significado.
Raros são os que atingem um nível de compreensão superior e começam a se importar com o próximo.
Os indianos, de um modo geral, vivem num círculo psíquico vicioso, entrando e saindo do corpo físico repetidas vezes, à espera de súbita iluminação interior às custas de austeras disciplinas espirituais.
Infelizmente, nestas páginas, não dispomos de tempo e oportunidade para um estudo mais detalhado da situação espiritual em que vivem cerca de um bilião de espíritos encarnados e, talvez, três vezes mais desencarnados.
Nos arredores de Nova Delhi, às portas de um templo pequeno construído nas proximidades de um bosque quase devastado, entre minas, pudemos ler, com a tradução efectuada por Odilon, interessantes dizeres que anónimo yogui resumira numa parábola:
"Traz daí um figo."
"Aqui o tens, senhor."
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 20, 2018 10:55 am

"Divide-o."
"Ei-lo dividido, senhor."
"Que vês?"
"Pequeninas sementes, senhor."
"Divide uma delas."
"Está dividida, senhor."
"Que vês nela?"
"Nada, senhor."
"Na verdade, meu caro, é dessa fina essência que tu não vês que as grandes figueiras crescem.
Crê, meu caro, que esta é a mais alta essência, o Universo tem esta essência como a sua alma.
Esta é a Realidade.
Isto é Atman... Tat twam así- isto és tu, Shwetaketu."
"Fizeste-me compreender, senhor."
"Assim seja, meu caro."
— Que palavras transcendentes e profundas! - admirou-se Modesta.
— Contrastando - observei - com tanto misticismo e idolatria...
— A Índia é o país dos contrastes espirituais - definiu o Mentor.
Ao mesmo tempo que foi capaz de produzir intelectuais, poetas e luminares como Tagore e Gandhi, dentre centenas de outros, conserva, profundamente arraigados, traços de um certo primitivismo religioso.
— De modo geral - indagou Paulino -, podemos rotulá-los de politeístas?
— Não; seria, filosoficamente, mais correto empregarmos o termo monistas...
— O que significa?
— "Todos os seres e coisas são manifestações de um só espírito (Brahman) que enche o Universo"; é o que podemos depreender do texto que acabamos de ler...
Segundo os Upanichades, "do mesmo modo que os rios que correm desaparecem no mar e perdem nome e forma, um homem sábio, libertado de nome e forma, vai para a pessoa divina que está além de tudo".
— Com outras palavras - acentuei -, o Espiritismo diz o mesmo:
estou Inácio, mas não sou Inácio...
— ...estou homem, mas não sou homem! - gracejou Paulino, que, como Odilon, passara a estimar por filho espiritual.
— Alto lá! Como dizem vocês, os mais jovens, eu sou espada...
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 20, 2018 10:56 am

CAPÍTULO 38
Sorrindo, adentramos o templo de Ganesha, sendo que o cheiro de incenso e guirlandas de flores emurchecidas era tão forte, que tive a impressão de estar num cemitério, um dia após o Dia de Finados.
Alguns poucos turistas europeus, facilmente identificáveis pelas roupas e pela tez branca, e devotos indianos se encontravam naquela hora dentro do templo.
Diversas outras estátuas menores, representando divindades desconhecidas para mim, se incrustavam em rústicos nichos na rocha.
— Agora - disse-nos Odilon -, concentremo-nos e procuremos alçar um degrau acima...
Dando-nos as mãos, como que por encanto, nos vimos qual, de repente, alguém se visse no topo de um edifício, cuja cobertura fosse de cristal ou material similar.
Sirvo-me da imagem para que os nossos irmãos compreendam a diferença entre um plano e outro - para nós, os desencarnados, relativamente subtil, mas não para vocês, os que arrastam na poeira da Terra a pesada carcaça; relativamente subtil porque, na verdade, matéria é sempre matéria, variando, como explicou Einstein, apenas a velocidade das partículas que a constituem...
Sentindo-nos protagonistas de um filme de ficção, estávamos num templo de proporções maiores, repleto de entidades que não se incomodavam com a nossa presença, tão habituadas a turistas de várias partes do mundo.
— O universo hinduísta ou bramânico! - falei, maravilhado com a arquitectura.
— A Vida, Doutor, se afunila de cima para baixo e, em sentido inverso, se amplia de baixo para cima - converge para a Terra e diverge para o Alto!
O universo do espírito é infinitamente superior ao do homem encarnado; os horizontes da vida além da morte são extremamente vastos, ilimitados...
— Tacanha a nossa concepção, não? - comentou Paulino em tom de questionamento.
— É um problema, meu filho, de sinapse?...
— De sinapse?!...
— De neurónios, digamos assim, ou, se preferir, de circunvoluções...
— Eu não estou entendendo...
— É um problema de sinapse - brinquei, dando-lhe um tapinha na cabeça.
— Fiquemos atentos - advertiu Odilon, notando maior movimentação de alguns sacerdotes vestidos de branco, que se aproximavam de uma cadeira vazia, à guisa de trono, sobre o cume de uma escadaria interna.
Eram - pude contá-los - quarenta e oito sacerdotes, que se dividiam em dois grupos iguais, postados um a um, lado a lado, nos vinte e quatro degraus da escada...
— São médiuns de efeitos físicos - esclareceu o Mentor - preparando-se para a doação de ectoplasma.
O sacerdote que me pareceu conduzir a cerimónia, abaixou a cabeça, no que foi seguido de imediato pelos demais, permaneceu em silêncio por minutos e, após, em voz ritmada, começou a evocar:
— Ó grande Ganesha, mensageiro de Brahman, estamos prontos...
Trazei-nos a vossa bênção!
Vinde a nós...
Dignificai-nos com a vossa presença, antes que muitos de nós nos vejamos, de novo, encobertos pelos véus da ilusão...
Estamos prestes a voltar ao corpo!
Não nos deixeis partir sem a vossa visão, a fim de que nos sintamos encorajados...
Tememos renascer na condição de sudras!
— Sudras? - sussurrou Modesta, pedindo explicação.
— Os sudras - resumiu Odilon - seriam os párias...
Os hindus ainda se prendem a determinados preconceitos de natureza social, que vinculam ao carma de cada um.
Não houve tempo para maiores esclarecimentos.
Uma nuvem acinzentada, com tonalidades amarelas, começou a se formar e, gradativamente, foi se adensando, a turbilhonar sobre a cadeira destinada a Ganesha.
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 20, 2018 10:56 am

— Odilon!... - disse, sem mais nada acrescentar.
— Doutor, o deus evocado está materializando-se.
— Mas ele existe? - perguntei, pasmo.
— Para os católicos, os espíritos não se transfiguram em anjos ou demónios?
Para os espíritas, os desencarnados não podem, inclusive, aparentar formas animalescas, nos fenómenos de zootropia?...
— Ganesha, especificamente, existe?
— Inclusive em nós, Ganesha existe!
Fôssemos nós um hinduísta, vivendo sob condicionamento mental milenar, não hesitaríamos em lhe assumir a aparência...
O que, afinal, é a aparência?
Moisés viu Deus sob a forma de um fogo ardente nas sarças do Sinai...
Afigura humana é figura de transição.
O espírito é, simplesmente!
O tema, é claro, comportava outros questionamentos, todavia, aos nossos olhos, a entidade do universo bramânico foi se tangibilizando, até se apresentar sob a forma de um homem obeso com cabeça de elefante.
Os devotos que lotavam as dependências do templo se ajoelharam, reverentes, diante da divindade, de cujas mãos espalmadas para os fiéis clarões de variados matizes se projectavam, percebendo eu que muitos adormeciam instantaneamente.
- Os que adormeceram serão, dentro em breve, encaminhados à reencarnação - elucidou o Mentor.
Tudo o que observávamos fugia aos nossos padrões de entendimento, pelo menos aos meus, de pensamento vinculado ao universo espírita da Vida.
O espírito, provindo de Dimensão mais alta, que representava Ganesha, não pronunciou uma palavra sequer.
Sinceramente, tive receio que algum daqueles raios que lhe escapavam das mãos espalmadas me alcançasse e que eu... adormecesse!
— Odilon, não sabemos nada!... - enfatizei.
Modesta, você está vendo o que estou vendo?
Será que deliro? Que coisa!
O Mundo Espiritual é...
— Repleto de maravilhas, Doutor! - completou Odilon.
Os fenómenos imperceptíveis que se passam dentro de um simples átomo...
— Serão atendidos em suas petições? - perguntei.
— Em que sentido?
— O sacerdote orava, temendo renascer na condição de pária...
— As Leis do destino são indefectíveis!
Nem os espíritos de maior envergadura têm a elas acesso...
O carma de cada um há de se cumprir.
Os que não possuem mérito reencarnarão filhos de pais que lhes estejam disponíveis...
— E a lei de afinidade?
— Não é tão-somente pertinente ao amor, à ternura, à simpatia...
Existem espíritos afins na mesma prova, Doutor - na mesma prova, ou expiação.
Reencarnar com qualidade é para bem poucos...
A aparição não durou mais que cinco minutos.
A materialização logo se desfez, e os monges que não haviam adormecido passaram a recolher em lençóis os que caíram sob pesado torpor.
— Vi - disse Modesta -, entre os que adormeceram sob o forte impacto da presença da entidade personificando Ganesha, dois espíritos não-indianos...
— Permitiram-se sugestionar e reencarnarão.
— Assim sem mais, nem menos, Odilon?
— Sem mais, nem menos. Serão crianças de novo, espíritos de formação cultural diferente que levarão algo de seus conhecimentos na indispensável permuta de experiências.
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 20, 2018 10:57 am

A Reencarnação, sobretudo, é uma lei niveladora, que terminará por extinguir toda espécie de desigualdade entre as criaturas irmãs!
A pátria do espírito é o Universo e, aos poucos, todas as barreiras, inclusive as de consanguinidade, deverão cair.
A Reencarnação coloca o branco ao lado do negro, o judeu, do palestino, o hindu, do muçulmano, o católico, do protestante - culturas e raças se miscigenam, em nome do Amor Universal.
— Há quem imagine que todo processo reencarnatório obedece a prévia preparação no Mundo Espiritual...
— Sabemos que tudo o que ocorre, em qualquer parte do Universo, é supervisionado pelas Leis Divinas- nada acontece à revelia dos Desígnios Superiores; neste sentido, podemos considerar que todos reencarnam sob determinada programação, todavia a interpretação literal é um equívoco, pois a volta do espírito ao corpo de carne é cercada de cuidados consoante os méritos que apresenta...
Quando a necessidade supera o mérito, o espírito reencarna com espontaneidade, qual limalha de ferro que se sentisse atraída pelo campo magnético de um ímã...

A Lei tudo prevê; se assim não fosse, o caos se estabeleceria no mundo físico quanto no mundo moral, mas daí afirmar, por exemplo, que todo processo reencarnatório...
— ...seja como o que André Luiz narra no célebre caso Segismundo, na obra "Missionários da Luz", da lavra mediúnica de Chico Xavier?...
— No caso Segismundo apresentado, com riqueza de detalhes, por André Luiz, trata-se quase de uma excepção, embora o espírito referido não possuísse assim tantos ascendentes espirituais.
O universo espírita ainda se encontra em fase de organização e expansão...
— Nem todos os espíritos se matriculam em institutos preparatórios?...
—A maioria, não; a maioria reencarna inconsciente, por este motivo, não guardando na memória qualquer reminiscência de seu período de permanência no Além...
Seria ilógico um espírito de formação católica, que não admite a Reencarnação, procurar um instituto no Mundo Espiritual...
— ...e protocolar o seu pedido de reencarnação!
— A maioria, Doutor, reencarna sem saber...
— Reencarna como desencarna, sem noção do Desconhecido...
— Pássaros abatidos em pleno voo!...
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 20, 2018 10:57 am

CAPÍTULO 39
Saindo do templo e ganhando as ruas tumultuadas de Nova Delhi, eu e Odilon continuamos a conversar.
— O universo hinduísta ou bramânico!...
— Os espíritos se agrupam segundo os seus interesses.
Traduzindo: segundo o seu entendimento, as suas aspirações, crenças, objectivos...
Cada universo espiritual é um círculo relativamente fechado, no qual é fácil entrar, mas difícil sair.
Os homens não desistem de ter a primazia da Verdade.
Até mesmo a Reencarnação se depara com dificuldade para romper os elos dessa cadeia...
— Às vezes...
— ...às vezes, a Lei Divina se vale de expedientes incompreensíveis à primeira análise.
— Como a conquista de um povo por outro?
— Allan Kardec, em "O Livro dos Espíritos", no capítulo "Lei de Destruição"...
— No Hinduísmo, Xiva, ou Shiva, tem em duas de suas mãos emblemas de sua natureza: o tambor da criação e o fogo da destruição - cria e destrói, tornando criar e destruir, em busca da perfeição...
— Kardec pergunta aos Espíritos Superiores, na questão 744:
— "Qual o objectivo da Providência, ao tornar a guerra necessária?"
Resposta: — "A liberdade e o progresso".
Em seguida, na 744-a, indaga com lucidez:
— "Se a guerra deve ter como efeito conduzir à liberdade, como se explica que ela tenha geralmente por fim e por resultado a escravização?"
Resposta: — "Escravização momentânea, para sovar os povos, a fim de fazê-los chegar mais depressa".
— Em outras palavras, é o que Jesus nos fala sobre a necessidade do escândalo, a necessidade do mal...
— Do mal que, não sendo criação de Deus, é ilusório!
— "Ai do mundo por causa dos escândalos; pois é necessário que venham escândalos; mas ai do homem por quem o escândalo venha".
— Ai do homem e da nação!...
— Em outro texto:
"Vim para lançar fogo à Terra; e que é o que desejo senão que ele se acenda?"
— Fora da interpretação espírita, palavras incompreensíveis soando estranhas nos lábios de quem nos recomenda o amor aos inimigos...
— Ainda citando "O Livro dos Espíritos", Odilon, gostaria de lembrar a questão da destruição necessária e destruição abusiva.
Kardec indaga no item 733:
— "A necessidade de destruição existirá sempre entre os homens na Terra?"
Resposta: — "A necessidade de destruição se reduz entre os homens à medida que o espírito supera a matéria; é por isso que vedes, ao horror da destruição, seguir-se o desenvolvimento intelectual e moral".
— Como, recentemente, ocorreu na Alemanha...
— A queda do muro de Berlim!
— No Vietnam...
— Tem muito vietnamita filho de soldado norte-americano, com direito a dupla cidadania...
— Os norte-americanos que dizimaram as nações indígenas são os peles-vermelhas, que transferiram residência das aldeias Sioux e Apache, por exemplo, para New York e Los Angeles...
— Como haverá de ser no Afeganistão e no Iraque...
Deus lembra-se de seus filhos carentes de um modo estranho!
— Vocês estão se referindo a "expedientes incompreensíveis" - interveio Modesta -, citando as guerras...
Que outros "expedientes" mais podemos considerar?
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Ave sem Ninho

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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 20, 2018 10:57 am

— Modesta - tomei a iniciativa de falar -, dentro de um mesmo país, o Brasil, por exemplo...
No nosso tempo de encarnados, quando um rapaz negro namoraria uma branca, casando-se com ela e tendo filhos?
Uma jovem da raça negra se apaixonaria ou despertaria a paixão de um homem branco?...
— Há 30 anos atrás...
— Não mais do que isso!
— Não é bom nem comentar...
— Mas eu comento: dava morte, cadeia...
Hoje, a cor morena se generalizou; no Brasil, ninguém é branco...
Quem tem a pele mais clara e os olhos mais azuis tem um genda raça negra dormindo, preguiçosamente, - desculpem-me - em seu sémen ou carga cromossómica.
A qualquer hora, pinta um neto com diferente pigmentação na família, para deleite do vovô e da vovó que se orgulham de seus traços europeus... Ah, ah, ah!...
— Interessante! - exclamou Paulino.
Doutor, na opinião do senhor - perguntou-me -, a que se deve o facto...
— Para ser franco - não sei se Odilon concorda -, digo-lhe:
o desporto e a cultura têm contribuído enormemente para tanto:
a música, o samba, o pagode, até o carnaval...
O erotismo da raça!
— Da raça branca?
— Não, Paulino, da negra!
— Doutor, não abordemos o assunto - solicitou o Mentor.
— Em respeito a você, não abordarei, Odilon.
— O preconceito também vem decrescendo...
— Concordo, principalmente, se o rapaz negro é um milionário jogador de futebol ou de basquete ou a jovem negra é belíssima modelo...
— Doutor!
— Não, não estou falando em erotismo...
— Passemos a outros "expedientes" - convidou Modesta -; é melhor...
Que factores ainda poderiam ser apontados promovendo a mistura dos povos?
— Compromisso cármico - respondeu Odilon.
— No Brasil, especificamente, os escravos de ontem são herdeiros de grandes glebas...
Tem muito peão que, no passado, era dono de fazenda; os negros saíram da senzala para a casa-grande, que os brancos se viram compelidos a desocupar...
— Agora, por incrível que pareça - observou Modesta -, a religião, que deveria ser o principal factor de integração...
— O fanatismo religioso é pior que o preconceito racial - pontifiquei; nem o erotismo é capaz de vencê-lo...
Um evangélico dificilmente se casaria com um espírita: seria casar com um demónio!...
Um muçulmano com uma judia, e vice-versa...
Por este motivo, de quando em quando, acontecem essas paixões avassaladoras, que desafiam a tudo e a todos, mobilizando a opinião pública internacional.
Aí não se trata de erotismo:
é amor mesmo, afinidade.
"Amor mesmo" é força de expressão de minha parte...
Conversávamos assim pelas avenidas de Nova Delhi, quando um casal nos chamou a atenção: um inglês, vestido a carácter, de braço dado com uma indiana esguia de lindos olhos amendoados...
Brincando à sua frente sobre a calçada, duas crianças, uma mais clara, outra mais morena, com pequena diferença de idade, que, com certeza, eram seus filhos.
— Vejamos o fruto da ocupação inglesa! - apontei os meninos, um garoto e uma garotinha, acariciando os cabelos louros de um e crespos do outro...
O retrato do futuro da Humanidade, sem cor, sem raça, sem injustiça social.
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 20, 2018 10:57 am

— Aos poucos, a Reencarnação porá ordem na casa planetária - comentou Odilon, sorridente.
Mesmo, por enquanto, acontecendo de forma aleatória, a Reencarnação provocará a queda de todos os muros ideológicos do separatismo humano.
— Odilon, desculpe-me:
os homens fazem sexo e Deus promove o Amor!
— Desculpe-me: os homens imaginam fazer o que fazem e Deus faz o que faz!
O que existe de real e verdadeiro é tão-somente o Amor.
O resto é experiência transitória...
Do átomo às estrelas, tudo vive imerso no Amor Divino.
O mal e todo o seu séquito não passam de material pedagógico da Evolução.
Assemelhamo--nos a um viajor com excesso de bagagem acumulada às costas...
Haveremos de deixar o que for obsoleto pelo caminho; chegaremos, diante de Deus, completamente despojados...
O espírito é luz, amor - nada além disto.
A imperfeição nos reveste de múltiplas ilusões...
Damos valor ao que é efémero e desprezamos o essencial.
Estamos debaixo de uma hipnose, cujo jugo opressor precisamos sacudir de nossas mentes.
Vivemos em função do corpo; mesmo nós, os desencarnados, vivemos em função do perispírito, em função da forma...
Está certo, temos compromisso com a Terra, mas carecemos de nos espiritualizar, pois o orbe terrestre não é a nossa casa definitiva.
O Amor jamais reclama a posse do que quer que seja.
Precisamos ser livres...
Paixão, prazer, sentimento de posse - nada disto é Amor!
A vida material é fomentada pelas nossas mentes...
Vivemos num mundo compatível com os nossos interesses.
O panorama social e espiritual do planeta retracta o que interiormente somos...
— Você está indo ao cerne da questão! - aparteei, concordando com as ponderações sempre judiciosas do companheiro.
Entretanto, o que vamos fazer, se não damos conta de mais, não é, Odilon?
Eu me lembro...
Quando encarnado, eu pelejava, por dias e dias, para expressar uma ideia, e não conseguia; tentava colocá-la no papel, conversar com alguém a respeito e... nada!
Ninguém apressa a evolução, não é?
Podemos, por exemplo, dilatar a nossa capacidade de amar, mas, não tendo cérebro para tanto, como ampliar a nossa capacidade de pensar?
Não sei quem escreveu que o homem é o único ser que desenvolveu um órgão - o neocórtex - que não sabe como usar!
Nunca me deparei com tamanha realidade:
usamos pernas, braços, mãos, olhos, ouvidos, etc., na máxima capacidade destes órgãos; o músculo cardíaco trabalha em seu limite, o fígado, os rins, os pulmões, mas o cérebro - um universo inexplorado!
— Doutor, já que não podemos, por absoluta incapacidade momentânea, saber mais, procuremos amar mais!
Isto podemos fazer...
— Podemos. O difícil é querer e acreditar no poder transformador do Amor - com A maiúsculo.
— Tales de Mileto dizia que é a mente que move a matéria, mas, concluímos, é o Amor que dá sentido à Vida!
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 20, 2018 10:58 am

CAPÍTULO 40
De Benares e Nova Delhi, por sugestão de Modesta, passamos em Calcutá, com a finalidade de apreciarmos a obra que Madre Teresa continua a inspirar na Índia e em várias partes do mundo.
Trabalho de grande alcance espiritual o da abençoada missionária da Caridade, que permanece repercutindo nas consciências adormecidas.
Comovi-me, ao ver aquelas irmãs católicas, em seus hábitos singelos, velando à cabeceira de inúmeros agonizantes, muitos deles resgatados ao monturo...
— Diversos adeptos do Hinduísmo - esclareceu Odilon - interpretam equivocadamente a questão do carma...
— Acham que ninguém deve interferir na vida dos que renascem para expiar faltas de pregressas existências, não é?
— Se assim devesse ser, estaríamos todos perdidos...
Quem nos estenderia as mãos, para que nos levantemos do abismo em que voluntariamente nos precipitamos?
Para os hindus conservadores, a doutrina do carma concorre para a segregação do sistema de castas e faz com que se acomodem diante da injustiça social.
— Quem está sofrendo é porque merece...
— Esquecem-se do darma, ou seja, do dever para com os semelhantes, aplicando-o tão-somente a si mesmos.
Pregam que "o homem mais humilde pode esperar melhor sorte na vida seguinte, se viver bem na presente..."
— O conhecimento da Reencarnação sem base no Evangelho...
— ...induz a sofismas de variada natureza.
A questão social para os mais ortodoxos está relacionada ao mérito adquirido pelo espírito:
o rico é superior ao pobre, que, para deixar de ser pobre, deve sofrer as consequências da situação em que renasceu...
— Se Jesus Cristo não tivesse nascido numa estrebaria...
— Todavia, não possuía Ele uma pedra onde reclinar a cabeça...
Jesus nasceu escravo, descendendo da menor das tribos de Israel.
Vejamos que, em todos os aspectos, nos menores detalhes, a sua passagem na Terra se revestiu de sublime significado.
— Tivesse Ele a Índia por berço...
— ...as suas palavras, por certo, teriam soado sem eco, pois os brâmanes haveriam de considerá-lo um pária...
Aos poucos, com o progresso de tudo, as mais arraigadas concepções vêm se refundindo, mas, de modo geral, ainda impera, entre os indianos, o seu milenar sistema de castas:
os brâmanes (sacerdotes), no topo da escala, seguidos pelos reis e guerreiros, criadores de gado, negociantes, lavradores, e, por último, os servos.
Ao contrário de Jesus, filho de um carpinteiro, Buda descendia da casa real, era um príncipe...
— A Humanidade, infelizmente...
— A Humanidade, que somos nós, Doutor, infelizmente...
— ...não sabe, ou não quer, interpretar as mensagens que lhe chega do Alto! Gandhi, o Mahatma, que libertou o povo indiano de secular jugo opressor, era um homem completamente despojado, que, inclusive, chegava a se alimentar do leite de uma cabra emprestada por um amigo...
— Para que tenhamos ideia do quanto o povo valoriza o chamado status quo...
— Ainda hoje, é assim - não mudou muito, não!
— ...o próprio Moisés era tido por filho de faraó!...
Teria conseguido liderar os judeus em sua fuga do Egipto, caso não pertencesse a tal linhagem?
— Só com as suas extraordinárias faculdades mediúnicas, não - com certeza, não!
Os próprios romanos consideravam os imperadores figuras divinas...
— Júlio César, que era epiléptico, quando em convulsão, supunha-se que estivesse em contacto com os deuses; na China e demais países do Oriente, os governantes constituíam uma dinastia - o poder era hereditário...
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 20, 2018 10:58 am

— Nero, uma divindade!...
Veja se tem cabimento?
Um dos imperadores mais sanguinários da História!...
Ao silêncio que se seguiu, acrescentei:
— Não vamos longe...
No mundo actual, em alguns países, como a Inglaterra, embora o sistema político parlamentarista, a monarquia sobrevive com toda a pompa de séculos passados.
— Graças a Deus - disse Modesta -, o Espiritismo, como o Cristianismo, teve origem singela.
— Tão singela - brinquei -, que os directamente responsáveis por ele, ou seja, os mortos, se apresentaram despojados até de seu corpo físico, quanto mais do que haviam sido no jogo das convenções humanas.
— Allan Kardec, o nosso Prof. Rivail, era um homem comum, pertencente à classe média, que tinha que leccionar e escrever obras pedagógicas para sobreviver...
— Os melhores médiuns, Modesta, com excepção de um ou outro, eram e continuam sendo todos matutos, não é, Odilon? - perguntei, pedindo o aval do Mentor.
— Leon Denis, sucessor contemporâneo de Kardec, foi um homem pobre, filho de humilde operário braçal e de uma dona-de-casa; Gabriel Delanne, outro baluarte da Doutrina, ganhava o pão com o suor cotidiano...
— Chico Xavier - ponderei -, o maior fenómeno mediúnico de todos os tempos, era filho de um vendedor de bilhetes de loteria e de uma senhora que lavava roupas para fora...
— Que maravilha! - não conteve Modesta o seu entusiasmo.
— De fato, que beleza, a Doutrina! - emendou Paulino.
A s suas origens deveriam ser mais bem estudadas pelos espíritas, o senhor não acha?
— Acho, não, tenho certeza!...
Paulino, lá pelas nossas bandas, em Uberaba e região, deixe-me lembrar:
D. Cherubina, a primeira médium escrevente de que tivemos notícia na cidade, era semianalfabeta; António Logogrifo mal assinava o próprio nome; Joaquim Cassiano nunca frequentou banco de escola; D. Rufina de Oliveira, tal como a mãezinha de Chico Xavier, vivia da lavação de roupas...
— Médiuns, todos eles, de uma idoneidade moral a qualquer prova! - aparteou Odilon.
Portadores de raras faculdades, que muito fizeram pela Doutrina...
— Além de pobres e analfabetos, eram negros, Odilon, párias da sociedade!...
Vamos lembrar mais:
Antusa Ferreira Martins, excelente médium de cura, vítima de meningite na adolescência, ficou surda e muda — o centro em que atendia as pessoas era uma casinha de madeira; Adelino de Carvalho, um pouco mais letrado, era funcionário dos Correios...
— Casou-se com uma senhora - falou Modesta - que, mais tarde, apresentou hanseníase...
— Acompanhada de terrível perturbação mental - acrescentei.
João Urzedo, no Capão da Onça, era cego e analfabeto...
— Mesmo em tal condição - observou o Instrutor -, fundou um sanatório e lidava com a obsessão como ninguém.
— O seu pai, Odilon, o Sr. Ludovice Fernandes...
— O papai era um homem sem qualquer evidência social...
— Bento Polveiro...
— Outro médium fantástico que, pela vidência, radiografava as pessoas por dentro: pobre e quase analfabeto...
— Tivemos, é claro, gente mais intelectualizada - redarguiu Modesta -, como Inácio Ferreira...
— Eu?! Coitadinho!
Do ponto de vista espiritual, o mais indigente de todos.
— O Prof. Chaves, João Augusto Chaves, o Prof. Alceu de Sousa Novais, o Dr. Henrique Krüger...
— Outros intelectuais complicados, que não assumiam...
Não vamos citá-los, porque os descendentes encarnados poderiam não gostar.
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 20, 2018 10:58 am

E outros, Modesta, que você conheceu bem:
fazendeiros, latifundiários, que, quando a coisa apertava, quando a Igreja os inquiria, se diziam meros simpatizantes da Doutrina.
— Em Sacramento, Inácio, além, é claro, de Eurípedes Barsanulfo, o apóstolo da Mediunidade no Triângulo Mineiro, tivemos Maria da Cruz, Corina Novelino; em Conquista, Maria Cantora...
— Maria da Cruz e Maria Cantora, ambas eram negras e analfabetas... Maria Cantora, inclusive, foi escrava!
— São tantos e tantas, que, de facto, não conseguiríamos enumerá-los.
— Doutor - interveio Odilon -, vamos deixar patente:
nada contra os eruditos ou os que renasceram mais bem aquinhoados...
— É evidente que não - disse com ênfase.
— Mas que o Espiritismo hoje está cheio de doutores da lei, está...
O elitismo permanece rondando as nossas portas.
Olvida-se que, se se fizesse um levantamento no Movimento Espírita no Brasil, pesquisando-lhe as origens em cada cidade onde se mostra mais actuante, deparar-se-ia, em suas raízes, com o suor derramado por muita gente simples.
E digo mais: homens e mulheres destituídos de quaisquer recursos, à margem da sociedade, como os semi-analfabetos, os considerados "de cor", as meretrizes...
Enfim, os que constituíam o séquito de Jesus Cristo nos primeiros dias do Evangelho na Terra!
O nosso tempo havia se esgotado e precisávamos partir.
A excursão, sem dúvida, fora extremamente proveitosa.
Convencera-me ainda mais de que a única esperança da Humanidade jaz consubstanciada no Cristianismo, que a Doutrina Espírita tem proposto reviver, através, principalmente, da exemplificação de sua Mensagem.
— Odilon - perguntei ao Instrutor, já dentro da aeronave que nos conduziria de volta -, por quanto tempo, os espíritos que nos encontramos vinculados à evolução do Planeta, permaneceremos tão segmentados em nossos universos particulares?
— Até que, um dia - respondeu o amigo de olhos postos no horizonte enfumaçado, empalidecendo o Sol no crepúsculo -, sejamos capazes de abdicar de nossos pontos de vista pessoais, enraizados em superada tradição cultural e religiosa, para aceitarmos, em definitivo, o Cristo no coração, convictos de que Ele é o Caminho, a Verdade e a Vida.
A aeronave silenciosa singrava a atmosfera com velocidade e, logo, pude divisar o complexo hospitalar sob a nossa orientação, na existência além da morte, onde o trabalho activo me esperava, junto a centenas de irmãos e irmãs que insistiam em continuar orbitando ao redor de si mesmos!

§.§.§- Ave sem Ninho
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