ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 10, 2018 9:05 am

E, para completar, vozes pareciam soar aos meus ouvidos, ironizando-me:
— "O Grande Inácio Ferreira, médico, director de hospital, espírita, maçom, escritor, orador, tido à conta de homem de bem por muita gente..."
Custei a esperar o dia clarear para procurar aquele homem, que, infelizmente, nunca mais vi; cheguei a pensar tratar-se de um espectro só para me testar...
Até hoje, vivo com esse drama na consciência.
Envergonhado, não comentei o facto com ninguém, nem com você, Modesta, que, por vezes, fazia o papel de meu confessor.
— Doutor - disse Odilon, tocando-me o ombro de leve, com o intuito de me confortar -, isso acontece com muita gente; se fôssemos enumerar nossas falhas!...
— Durante meses, uma vez a cada 10, 15 dias pelo menos, eu percorria, de carro, as ruas de Uberaba, na esperança de reparar o meu erro e... nada.
Nunca mais neguei uma esmola a alguém, mas o meu modo de agir com aquele pobre coitado ficou na minha cabeça e está até hoje.
Não me custaria ter pegado aquele homem e levado para o Sanatório; se eu lhe tivesse dado algumas moedas para acabar de se embebedar, teria ido embora tranquilo para casa...
— Inácio, você, às vezes, tinha esses impulsos, não é? - observou Modesta.
— Tinha e, graças a Deus, sempre voltava atrás, só que, daquela vez, não pude: o homem sumiu!
Deve ter sido coisa encomendada pelo Xandico, para me atormentar - brinquei, para que Odilon e Modesta não ficassem tão penalizados.
Por isto é que eu digo:
esse negócio de caridade e consciência é complicado.
Se eu não fosse espírita...
Mas o diacho é que eu era e ainda sou, porque Espiritismo é para sempre - não sai mais de dentro da gente!
Sei que outros, ouvindo este meu depoimento, pensarão:
— "O Dr. Inácio Ferreira?...
Eu imaginava que ele fosse..."
Que eu fosse o quê?
Eu sou igual a você, que deve ter se negado a ser caridoso em mais de uma oportunidade...
Eu sou igual a você, que, com certeza, em matéria de caridade, já deve ter feito pior do que fiz...
Porque escreve mediunicamente para o mundo, nenhum espírito é superior; a reencarnação nos espera, a todos, mais cedo ou mais tarde, nos colocando em confronto com a dura realidade!
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Ave sem Ninho

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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 10, 2018 9:05 am

CAPÍTULO 9
Odilon e Modesta se despediram.
Dentro de duas semanas, voltaríamos a nos encontrar para a excursão de aprendizado, que passei a aguardar com enorme expectativa.
A noite já quase se fizera madrugada e, antes de me recolher, para breve repouso, do qual em minha condição ainda continuava necessitado, Manoel Roberto, como sempre, viera ao meu encontro.
— Tudo correu bem hoje? - perguntei ao leal companheiro, zeloso de suas funções no Hospital.
— Graças a Deus, Doutor - respondeu-me, entrando comigo em conversa informal sobre as actividades do dia.
Tivemos um dia relativamente tranquilo; aliás, um dos mais tranquilos dos últimos meses...
— Deve ter sido influência da presença do nosso caro Odilon - amigo extraordinário!
Engraçado, quando juntos, na Terra, eu não o valorizava tanto.
— O senhor sempre teve por ele grande consideração.
— Não o bastante, Manoel; às vezes, convivemos com pessoas comuns que, em verdade, não são espíritos comuns.
Você, por exemplo...
— Vai sobrar, de novo, para mim!
— Não, Manoel, estou sendo sincero, desta vez.
— Desta vez?
— Você não é a minha alma gémea - Deus me livre!
— E a mim também!
— Mas eu não sei o que faria sem você.
— O senhor está me deixando sem jeito...
— Não; desajeitado você é mesmo, não me culpe pelo que o seu pai e a senhora sua mãe fizeram.
Não me provoque, Manoel, não me inspire; deixe-me falar.
Somos amigos há quantos anos?
— Há, Doutor, não sei; contando o tempo da Terra e o de agora, uns 70 anos, por aí...
— Deve ter mais...
Tenho a impressão de que nos aguentamos há uns 200 anos!
— O senhor, não é?
— O que você está insinuando?
Que me aguenta há uns 300?!
— É pouco, Doutor!
— Seu malandro!
Não posso lhe dar um pouco de corda...
Falando sério, Manoel, a amizade é um tesouro que poucos sabem valorizar.
— Concordo plenamente.
O que devo ao senhor, o que já fez por mim e continua fazendo...
— É melhor pararmos com essa rasgação de seda...
— O senhor é que começou!
— Falemos do Odilon.
— Como consegue ser tão gentil, comedido nas palavras...
— Ponderado, sábio...
— Sensato!
— Você encontrou o termo que melhor o define: sensato.
Ah, como invejo as pessoas sensatas!...
A sensatez é virtude dos espíritos experientes e sofridos.
— O Dr. Odilon nunca diz uma palavra fora do contexto - fora do tom.
Não repreende, não censura; é fraterno, quando...
— ...precisa nos advertir!
Percebo o constrangimento dele comigo, o respeito e a deferência com que me trata.
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 10, 2018 9:05 am

Sinceramente, eu não fazia ideia de sua grandeza espiritual, escondida atrás de um sorriso maroto.
— É mesmo: sempre sorrindo, sempre de semblante iluminado, irradiando paz.
— É uma pena que, encarnados, muitas vezes nos sintamos até impedidos de atinar com a nobreza de espírito daqueles com os quais convivemos.
— O senhor tem razão; na Terra, por mais não queiramos, acabamos por valorizar o que aparenta...
Como é o termo?
— O status quo ! Uma besteira sem tamanho...
— O título académico, a posição social que a pessoa ocupa, o que representa politicamente...
— Manoel, não falemos de política, ou melhor, de políticos.
Deus, quando quer que a pessoa se revele, confere a ela um cargo político - nada corrompe o homem mais do que o poder!
— Doutor, o hospital aqui está cheio!
— Eu sei, mas vamos deixar esse pessoal esquecer e... os esqueçamos por nossa vez!
Até chefiando - desculpe-me o termo - um hospital de loucos como este.
É um perigo mandar em qualquer coisa.
A responsabilidade de dirigir...
— O senhor sempre se houve bem...
— Coisa nenhuma, Manoel; caso contrário, não estaria aqui, internado com vocês!
Por mais de 50 anos, fiquei internado lá embaixo; não sei por mais quantos anos vou ficar aqui...
— Pelo menos, estamos fora das grades, Doutor!
— O seu senso de humor anda superando o meu - comentei como se tivesse recebido um xeque-mate.
— Você vai acabar tomando o meu fã-clube...
Se isto acontecer, fique também com os que me elegeram por alvo preferencial de suas críticas.
Mas voltemos ao status quo - convidei.
— A questão das exterioridades, não é?
— Que impera, inclusive, no meio espírita:
a gente tende a valorizar quem demonstra cultura, conversa bem, é insinuante, promove a si mesmo...
- Os médiuns mais simples e humildes...?
— ...são, literalmente, os mais humildes e simples.
— Mas, Doutor, pensando bem...
— Estão preservados!
— É...
— Você se lembra, Manoel, daquele médium - vamos chamá-lo de Alberto - que, certa vez, apareceu no Sanatório?
— Lembro-me.
— Você é que me chamou a atenção para ele:
discreto, calado, nos auxiliava nos passes com os doentes...
— Por quase dois anos...
— Você sugeriu que o convidássemos para a sessão de desobsessão.
— Estávamos precisando de companheiros firmes.
— Deu no que deu: destampou a ver espíritos que não acabavam mais!
— A ver e a ouvi-los a reunião inteira!
— Coitado! Antes o tivéssemos deixado no abençoado anonimato dos passes.
Sim, porque a mediunidade passista é uma vacina contra a vaidade do médium.
Demos a ele uma chance e...
— Queria desbancar D. Modesta!
— A Modesta não tinha nem tempo para incorporar - tempo e espontaneidade, porque, afectado, ele começava a descrever as entidades que se aproximavam da mesa.
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 10, 2018 9:05 am

— Criou-nos um problemão!
— E, como sempre, sobrou para mim, não é?
O dirigente; vocês me olhavam e me pressionavam a tomar uma atitude...
Você se recorda de quando, depois de quase três meses, conversei com ele no fim de uma reunião?
— O Alberto virou uma fera...
— Acusou-me de ditador e tudo mais!
— Aquele homem pacato transfigurou-se.
Atacou-nos a todos: ao senhor, a D. Modesta, a mim...
— Não houve como contornar.
Chamou-me de invejoso, por não ser vidente nem clariaudiente...
— O que ele não sabia era que o senhor incorporava, não é, Doutor?
— Manoel, às vezes eu tenho que incorporar - a "pomba-gira", mas incorporo...
— Eu não sei por que, ao galgarem qualquer posição, as pessoas perdem a simplicidade.
— Que posição? Médium?...
Médico psiquiatra?...
Ora, Manoel, você sabe muito bem que eu, como psiquiatra, não sabia quase nada - a Psiquiatria é, das especialidades médicas, a que menos sai do lugar; se você pegar um livro de 50 anos atrás e comparar com os de hoje, as maiores mudanças são de ordem terminológica.
A gente chamava de neurose o que hoje se dá o nome pomposo de Transtorno Bipolar!
— Não, o senhor é uma autoridade no assunto.
— Vade retro!
Que autoridade o quê?...
Desculpem-me os colegas, mas, em Psiquiatria, ainda está assim: ouvimos a galinha cacarejar e não sabemos onde ela botou o ovo...
Temos um caminho enorme a percorrer.
Eu aconselharia aos psiquiatras que, diante de qualquer paciente, examinassem, primeiro, a si mesmos, identificando o problema dos outros neles próprios - o bom psiquiatra é um doente com todos os rótulos!
— Continue, Doutor...
— Não; o psiquiatra Inácio Ferreira morreu...
Voltemos a falar do Alberto.
— Foi-se embora e nunca mais voltou...
— Creio até que mudou de cidade, não?
— Ele era de Igarapava e morava sozinho em Uberaba.
— Pois é, Manoel, tem espírito que não pode subir numa caixa de fósforos:
acha que é palanque e começa a fazer discursos!
— Onde o senhor disse espírito, leia-se médium...
— Leia-se espírita - fica mais abrangente! Precisamos nos preparar melhor; ansiamos por maiores oportunidades de trabalho junto à Humanidade, mas, espiritualmente, não estamos prontos nem para sermos médiuns, intérpretes, intermediários daqueles que, de facto, podem projectar alguma luz nas veredas sombrias que palmilhamos.
— Doutor...
— Sim, já é tarde, Manoel.
Quando o dia clarear
(o Sol também nasce e se põe neste Outro Lado!), iremos às consultas agendadas para o período da manhã.
Bom resto de madrugada, meu amigo!...
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 10, 2018 9:06 am

CAPÍTULO 10
Acordei, depois de duas, três horas de sono, com o Sol varando a vidraça da janela e escutando os pássaros que, alegres, cantavam e saltavam, de ramada em ramada, no jardim de um dos pátios do Hospital.
O amanhecer no Plano Espiritual é lindo, digno da paleta de um Rafael!
O Sol, ameno, parece brilhar mais próximo, à semelhança de grande disco de ouro, e a brisa matutina é uma mistura de suaves perfumes de flores das mais variadas espécies - o ar balsâmico da manhã é o nosso primeiro alimento nas paragens onde a Vida é um cântico de glória à grandeza do Criador.
Ergui-me da cama após breve prece - a única que, formalmente, eu fazia durante o dia - e, enquanto me ajeitava para o trabalho à minha espera, pus-me a meditar, abotoando o jaleco.
— Meu Deus, quem diria - quem diria que a vida, após a morte do corpo, prosseguisse com tanta naturalidade!
Eu mesmo não supunha que tudo fosse assim, tão semelhante.
Anelava outra coisa, uma mágica qualquer...
Nunca duvidei da imortalidade, porém, com tudo que pude ler e imaginar, nunca fui capaz de concebê-la nos moldes com que se me apresenta.
Os Espíritos nos confirmaram:
"Em a Natureza, nada dá saltos", todavia, eu pensava que, sem o corpo físico...
Como dizer aos meus irmãos encarnados que estou aqui, trocando de roupa e enfiando o pé no sapato?
Sim, percebo a eteridade dos objectos, sinto-me extremamente mais leve e bem disposto, mas... não vejo diferença substancial, principalmente em meu íntimo, e, se não existe grande modificação em mim, seria ilógico que a houvesse em torno.
Sendo ainda humano, como povoar regiões sublimadas, certamente habitadas por entidades de maior transcendência espiritual?
O entorno é reflexo do que somos, plasmamos e sustentamos com a força do pensamento...
Não, o espírito, que não se emancipou da forma e das convenções transitórias, necessita de pontos de referência, a fim de se movimentar com certa segurança, após a morte.
Por vezes, em meus devaneios na carne, conjecturando sobre o corpo espiritual, eu chegava a crer que não tivesse os membros inferiores, que, enfim, sobrevivesse como se fosse um fiapo de névoa - que não mais necessitasse de olhos para enxergar, ouvidos para ouvir, boca para falar e otras cositas mas.
O meu duplo, no entanto, era o meu duplo, literalmente!
Dizemos que o corpo de carne é uma cópia do corpo espiritual - o modelo sobre o qual o corpo físico se estrutura -, mas esperamos...
Não sei. É claro que não somos implemento - o ser é o ser!
A essência, ou seja, o que somos de verdade não tem forma, sexo, frente, verso, tamanho e tudo mais que nos distingue uns dos outros, na Terra e de Humanidades que desconhecemos nas infinitas moradas do Pai.
Repito, incoerência:
admitimos o perispírito como modelo do corpo material e, quando desencarnamos, olhando para nós, nos decepcionamos!
Esperávamos, talvez, que a carne fosse capaz de chocar um anjo - esperávamos nos transfigurar, sem qualquer esforço, em um ser alado e luminoso, liberto da viscosidade material... Ledo engano!
De olho no relógio (Manoel Roberto bateria na porta do quarto, dentro de instantes), fui ao espelho dar uma arrumada na aparência e fiquei feliz:
— "Pelo menos - disse em voz alta as rugas e as papadas diminuíram, as olheiras, estou com a pele do rosto mais viva, mais rosada - remocei, um pouco!"
Virando a face de um lado para outro, examinava-me, feito um rapazola vaidoso, com a intenção de arranjar namorada.
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 11, 2018 9:46 am

Não, eu não estava - não, por enquanto - com a intenção de namorar por aqui: o coração permanecia neutro...
Casar é bom, não casar... um pouco melhor.
É a minha opinião, a minha experiência.
Por favor, não tomem o meu ponto de vista como uma orientação espiritual; afinal, precisamos, ou, por outra, muitos precisam reencarnar...
Antes que me interpretem mal, se já não o fizeram (com que pressa o povo julga a gente!), deixem-me esclarecer:
hoje, no mundo, a palavra namoro tem uma conotação diferente...
Sinceramente, por mais avançado seja, avançado e assanhado, eu prefiro a conotação de antigamente:
é muito mais romântica!
O namoro de agora... Bem, deixe para lá.
Viva a reencarnação!
Digo-lhes que adoro namorar...
Entendam como puderem; eu sou uma esfinge: decifrem-me ou os devorarei!...
Casar-me, não quero mais tão cedo; namorar, sim, hoje, amanhã e sempre! Tenho recebido tantas cartas, dos Dois Lados da Vida...
Eu não sabia que pudesse despertar tanta paixão.
Acho que é por este motivo que os homens me marretam - as mulheres ficam apaixonadas por mim, inclusive as deles!
Calma, é brincadeira; não é pornografia...
Eu as amo a todas!
Se pudesse - permitam-me provocá-los -, reencarnaria como um sheik, criaria um harém, e os homens seriam nossos eunucos...
Ah! Ah! Ah!...
Os moralistas devem estar acendendo a fogueira e vomitando vitupérios contra mim e... contra o médium, que, como eu, não está nem se lixando!
Enquanto Deus quiser, esse povo vai ter que nos aguentar...
Correndo os dedos sobre as sobrancelhas - a melhor parte do meu rosto; Deus me livre dos meus lábios, principalmente do inferior, despencado! -, por uma fracção de segundo deparei-me com os meus olhos.
De facto, os olhos são os espelhos da alma; eles não nos mentem.
Tentei aprofundar na visão de mim mesmo, focalizando a chamada "menina-dos-olhos" - interessante, quando nos vemos assim ao espelho, os olhos parecem convergir para o chacra frontal, aquele ponto que fica no meio da testa.
— "Inácio, quem é você?" - perguntei, em silêncio.
Depois de algum tempo assim me analisando, respondi:
— "Você é um homem bom, Inácio - já que ninguém lhe diz isto, eu mesmo lhe direi -, você é um homem bom! Incorrigível, voluntarioso, turrão...
Mais o quê?
Sem papas na língua, humildade pouca, impaciente, mas o sentimento não é ruim!
Você é uma criança, Inácio!
Se o apertarem muito, você chora - um coração de manteiga derretida!"
— "Eu não!" - retruquei.
- "Você, sim - respondeu aquela voz que me desnudava -; você não é nada do que deseja aparentar."
— "Não - insisti -, eu faço e aconteço..."
— "Não faz e não acontece, nada" - continuou a voz, que não se calava, travando um duelo comigo.
— Comigo ninguém pode! - disse, desafiador.
— É nome de planta.
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 11, 2018 9:46 am

— Eu...
— Você, daqui para a frente, só tende a melhorar.
— Ainda vou dar muito trabalho...
— Que nada! Você já era.
— Não dou o braço a torcer...
— Já está torcido.
— Eu sou terrível...
— Mais fumaça do que fogo.
— Tenho um repertório de palavrões...
— Tudo da boca para fora.
— Quem é você - indaguei -, para ousar me dizer essas coisas?
— O seu "eu" real!
— Eu não sou Francisco de Assis.
— Não, não é, mas adora gatos e é incapaz de fazer mal a uma mosca.
— Errou! - exclamei, contente.
Eu vivia com uma vareta mata-moscas em punho.
— Você pingava mel nos cantos para as formigas... Esqueceu-se?
— Eu brigo muito.
— E, na hora do vamos-ver, corre.
— Sou um espírito provocador...
— Bem-intencionado.
— Não sou.
— É!
— Você quer é me acordeirar - redargui, com ironia.
— Inácio, eu não acredito em você.
— Não?
— Não!
— Não acredita do que eu sou capaz?
— No bem, sim; no mal, não...
Quando eu me preparava para palavras mais incisivas, Manoel Roberto chamou-me, batendo na porta, de leve, com o dedo indicador dobrado.
— Dr. Inácio, está na hora...
Tem alguém com o senhor no quarto? - perguntou, antes que eu o atendesse.
— Tem, Manoel - respondi -, tem um espírito me atormentando!
— Doutor, os mortos aqui somos nós...
— Tem um ali dentro do espelho - disse, abrindo a porta e saindo em sua companhia.
— Dentro do espelho?!
O senhor estava conversando com o espelho?!
— Não, o espelho é que estava conversando comigo.
— O senhor tem cada uma!
As vezes, chego a me preocupar.
— Qualquer dia, vocês vão me internar, para gáudio dos meus desafectos, principalmente os lá de baixo; e não faltará espírito para dar a notícia por algum médium infeliz:
— "Finalmente, o Dr. Inácio Ferreira enlouqueceu!..."
— Doutor, o dia está lindo!
— Afora eu, quantos loucos para atender nesta manhã brumosa?
— Brumosa? O Sol brilha...
Quatro estão agendados.
— Então, vamos, Manoel, que entre o primeiro... após mim.
Por último, atenderei você, que também está perturbado...
— Eu nunca estive tão bem, Doutor!
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 11, 2018 9:46 am

CAPÍTULO 11
O primeiro paciente da manhã era um senhor de aproximadamente 60 de idade e, pelo que pude avaliar, um tanto vaidoso com questões relacionadas à aparência.
Cabelos bem cuidados, pele do rosto tratada e roupa combinando na cor e no estilo, estendeu-me a mão e esperou que eu tomasse a iniciativa da conversa.
— Flávio?...
— É o meu nome, Doutor.
— Posso saber o motivo da consulta?
— Nem eu sei ao certo...
— Esforce-se.
É importante que você nos auxilie ir ao cerne do problema que o angustia.
— Sinto-me, de facto, angustiado, sem lugar...
— Com tanto espaço, meu filho - brinquei, procurando deixá-lo à vontade.
— Pois é, Doutor, eu imaginei que, de um jeito ou de outro, a morte nos fosse solução definitiva.
— Para os problemas da vida!
— Exacto. Fui vítima de um colapso fulminante; de repente, a dor anginosa, a opressão no peito, aquela asfixia e a cabeça em rodopios...
Confesso-lhe que nunca fui um homem religioso - não pensava que a morte pudesse me alcançar tão cedo!
— Aos quase 60, tão cedo?...
— A morte não fazia parte de minhas cogitações; sentia-me mais jovem que a minha idade cronológica, fazia ginástica, corria na orla da praia...
— Rio de Janeiro?
— Sim, Doutor, carioca de Ipanema.
— Cidade encantadora e... tentadora.
Difícil que o espírito triunfe com tanto mar, sol e outros atractivos.
— O convite ao prazer, à curtição da vida por todos os lados...
— Vivi lá alguns anos e sei como era.
— Pois é, morri e estou aqui, sem saber o que fazer.
— Pela sua ficha, faz 10 anos que você deixou a carcaça...
— Custei a admitir; afinal, a morte me surpreendeu enquanto dormia - desculpe-me a franqueza - num motel...
— E?!
— Fiquei atónito, revoltado!
Como diz a canção:
"...sem lenço, sem documento, nada no bolso ou nas mãos"...
Principalmente nas mãos, não é?
— Vazio, Doutor, vazio, antes como me sinto agora - uma existência inútil...
— Ou várias!...
Com certeza, várias!
— Doutor, por favor, não seja tão contundente comigo!
— Por mais quantos anos você quer delirar?
10, 20, 30?... Você não veio para...
— Não, não vim; agora, estou sabendo...
— Sabendo exactamente o quê?
— Que deixei o corpo e que estou na mesma.
— Como conseguiu chegar até aqui?
— Intercessão de amigos; levaram-me a um centro espírita diversas vezes:
"Eurípedes Barsanulfo", em Jacarepaguá...
A minha cabeça, as minhas ideias...
— Foram sendo postas no lugar.
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 11, 2018 9:46 am

— Chorei, reclamei, revoltei-me...
Um tratamento de meses; estive para desistir...
— Por que não o fez?
— E juntar-me aos vadios da rua?
Doutor, o senhor não sabe quanta gente desocupada vagando!
Tive medo, muito medo.
Sorriam, irónicos, convidando-me para a orgia; alguns coitados eram sugados pelos outros...
— Vampirizados.
— Sim, verdadeiros vampiros, implacáveis e... maus.
Drogam-se e só pensam em sexo. Um horror!
Quase me pegaram.
Você teve sorte.
— Doutor, eu contribuía, mensalmente, para o Lar de "Santa Teresa" e para as irmãs de caridade que pediam em favor de um orfanato - coisa pouca, mas contribuía...
Creio que foi o que me valeu.
— Se a Lei Divina não se contentasse com migalhas, estaríamos todos perdidos!
— Do motel, fui para o Instituto Médico Legal, para a funerária, o cemitério; voltei ao meu apartamento, tornei a ir ao motel, diversas vezes, para me certificar...
— Se certificar...?
— ...de que tinha morrido mesmo, não é, Doutor?
Como se admitir a morte, quando se sente vivo?
— E ainda mais com todos os implementos, não?
Ou lhe faltava algo?
— Não, não me faltava nada.
— Nem aquele pedaço de sua maior estima...
Flávio sorriu e continuou:
— Doutor, como podemos, ou melhor, como o homem pode reduzir as suas aspirações a tão pouco?
— Boa pergunta - respondi.
— O sexo...
— O sexo, meu filho, é pretexto:
o nosso problema é de carência afectiva - queremos amar e ser amados, principalmente ser amados; queremos possuir e ser possuídos, mais possuir que ser possuídos...
Queremos ser amados e possuir...
Parece contraditório.
— É contraditório.
Egoísmo - eis a droga da Humanidade!
— Eu vivia namorando uma, namorando outra...
— Queria receber e não dar.
O Amor, Flávio, o verdadeiro Amor é uma coisa interessante:
você só o tem na medida em que o dá.
— Eu não tinha espírito para esse tipo de sentimento, Doutor.
— Sexo é algo primitivo - é bom, mas é primitivo, uma sensação da Idade da Pedra.
— O senhor concorda que sexo é bom?
— É óptimo, mas existe coisa melhor, superior, um orgasmo de natureza mais sublimada.
— O senhor falou orgasmo?
Pronunciou a palavra?!
— Flávio, não me diga que você é um dos meus censores, o lobo mau disfarçado de vovozinha!
— É que eu pensei...
— Pensou o quê?
— Que um espírito como o senhor não tratasse abertamente de tais assuntos.
— Temas elevados em bocas depravadas.
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 11, 2018 9:47 am

— Entendi.
— Não, não entendeu; a minha boca não é santa, mas a minha intenção não é das piores...
Não estamos aqui conversando com outra conotação.
Somos seres humanos desencarnados, adultos...
Doutor, sexo?...
— É uma necessidade fisiológica que transcende a Fisiologia; aliás, as nossas carências físicas são todas de ordem espiritual - o corpo de carne mostra o que somos.
Futuramente, estudando o corpo, para além do mero funcionamento dos órgãos, a Medicina detectará as necessidades da individualidade espiritual.
— O corpo?...
— Constantemente, envia mensagens ao exterior do nosso mundo íntimo; toda dor é sintonia mais profunda.
— Conversar com o senhor equivale...
— ...a um zero à esquerda!
Mas prossigamos - solicitei.
Você ia me dizendo...
— Estou me sentindo bem - quase nada falei de mim e...
O senhor puxa a gente para cima!
— Quem puxa os outros para cima é guindaste!
Flávio, o teor de qualquer conversa saneia ou polui a nossa atmosfera psíquica; o bom pensamento engendra a boa conversação, e vice-versa.
— Doutor, estou aqui...
— Estou vendo você.
— Nem Céu, nem Inferno... E agora?
— O seu destino está em suas mãos!
— Meu Deus! Chega a ser...
— Pior, não é?
Antes o Céu ou o Inferno e... pronto.
No máximo, um "purgatoriozinho"...
— O destino nas mãos! Meu Deus!
— É de se evocar a Deus mesmo!
— O tempo?...
— Para quem não o aproveita não existe - o teatro é o mesmo: só muda o cenário!...
— A morte não resolve o problema da Vida!
— Depois de muito morrer...
— Quantas vezes, Doutor, já terei morrido?
— Quase inutilmente, um punhado.
— E?...
— Poderá continuar morrendo, inutilmente, eternidade afora.
É uma questão de escolha, até que a Lei Divina intervenha:
berço, caixão, caixão e berço...
— Não tem outro jeito?
— Flávio, o famoso "jeitinho brasileiro" não funciona por aqui...
Ninguém avança um centímetro sem base no esforço próprio.
— Para mudar?...
— Você tem que sair do lugar e suar como um burro...
Atenção: eu não disse zoar - disse suar, transpirar, verter água salgada através dos poros...
— Isso é o quê: é religião, Espiritismo?...
— É a Lei!
— Não tem um remédio que eu pudesse tomar?
Sei lá, alguma coisa que me fortalecesse a vontade.
O meu corpo pede...
— Mar, sol e outros atractivos...
Meu caro amigo, sinto desapontá-lo.
Bem-vindo seja à realidade!
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 11, 2018 9:47 am

CAPÍTULO 12
Doutor, casos como o meu, situações assim...
— ...são extremamente comuns, Flávio - respondi.
Todos os dias, no mundo todo, milhares deixam o corpo sem maior consciência de si; morremos há milénios e ainda não aprendemos a viver um só dia!
— Por que é assim?
— Existem duas molas propulsoras do progresso espiritual, em síntese: estudo e trabalho, e o homem, de modo geral, não quer trabalhar e estudar; vive fugindo à responsabilidade, ao compromisso...
— O despertar do espírito...?
— ...é individual e intransferível.
— Não seria melhor ignorarmos, para, simplesmente, vivermos?
— Você fez isso, não fez?
Existem Leis que trabalham a nossa maturação psíquica; por mais nos atrasemos na estrada da evolução, mais dia, menos dia...
Deus não nos criaria sem um propósito de ordem superior; não somos meras folhas voluteando ao vento das circunstâncias...
— Daqui para a frente?...
— ...você viverá atormentado, aflito, inquieto...
É claro que poderá relutar por mais algum tempo, rebelar-se, como acontece a tantos - cavar profundos abismos com as próprias mãos e entrincheirar-se, digamos, por mais alguns séculos; todavia, a acção saneadora do tempo terminará por alcançá-lo...
É da Lei que ninguém fique para trás!
— Desculpe-me: o senhor vive atormentado?
— De certa forma, sim.
Sei, Flávio, que preciso trabalhar muito e estudar sempre.
O conhecimento pede sempre mais conhecimento, a fim de que, um dia, alcancemos a Verdade.
— O senhor faz tanto!
Se soubesse quanto foi difícil agendar uma entrevista com o senhor!...
Este Hospital, que dirige, os doentes aqui internados...
— A sensação é a de que não faço absolutamente nada!
É uma prova, eu sei; devo ter desperdiçado muito tempo em vidas anteriores:
mar, sol e outros atractivos - brinquei, para não perder o hábito de gracejar com tudo.
— É um homem de grande conhecimento!
— Nem como Sócrates, o maior dos filósofos, eu posso dizer:
"Só sei que nada sei"!...
O sábio grego, segundo se depreende de suas palavras, pelo menos com Espíritos e Deuses conhecia a extensão de sua ignorância.
Coitado de mim!
Sei que me chamo Inácio Ferreira, ou, melhor, me chamava, e mais nada.
Estou neste caminho e ai de mim se dele me afastar!
— O senhor me deprime, pois, se se considera assim, o que sobra para mim?
— O que sobra para todos os espíritos que, repito, já adquiriram certa noção de responsabilidade:
trabalhar e estudar, não necessariamente nesta ordem, é óbvio.
Se preferir escolher o estudo primeiro...
— O que me aconselha?
— Eu lhe aconselho o trabalho, porque só ele nos confere a indispensável experiência...
Tem muita gente - milhares! - que não sabe o que fazer com o que sabe.
O conhecimento, Flávio, sem aplicação concomitante, imediata, pode nos exacerbar o personalismo; o orgulho e a vaidade intelectual são vícios de raízes profundas, difíceis de serem arrancadas...
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 11, 2018 9:47 am

Actualmente, digo-lhe, estou preferindo o trabalho - quero me exaurir, sendo útil.
O que aprendi no mundo dos bancos universitários quase nenhum aproveitamento teve por aqui: às vezes, um sincero aperto de mão vale mais que qualquer palavra erudita.
Não recrimino quem escolhe saber - quem sou eu? -; estou falando da minha necessidade primeira.
Eu me conheço mais ou menos o suficiente para saber que o conhecimento simples e puro me transfiguraria num pavão e ninguém me suportaria!
— Doutor, eu tenho uma tendência à vaidade física.
— Todos nós, não apenas você, embora, convenhamos, seja rematada tolice.
A sua casca, Flávio, já se deteriorou, confundindo-se com o pó... Vaidade?
Hum!... Eu vivi quase 90 anos no corpo e tudo foi se desmoronando aos poucos (Diacho! Eu queria escrever caindo: o médium interferiu...
Não faz mal. Mediunidade é assim:
interferência do espírito sobre o médium, e vice-versa); todos os dias, observava no espelho a minha derrocada...
Quando arrancava a roupa, então? Um horror!...
Pelanca em cima de pelanca - tudo deformado:
nariz, músculos da face, cravos e pintas enormes, inclusive nas costas, orelhas sem a mínima irrigação sanguínea - a gente começa a morrer pelas beiradas, pela periferia do corpo...
O órgão de minha virilidade (Ah!, deixem-me falar, não há maldade nenhuma nisto!), flácido e encolhido, temeroso da morte...
— Eu não cheguei a tanto.
— Chegaria a pior, se não tivesse sido salvo pelo gongo, ou seja, pelo colapso.
Mas a velhice, meu amigo, tem as suas vantagens para o espírito - aquele que tem oportunidade de envelhecer no corpo deve agradecer a bênção que isto representa para a sua conscientização.
Infelizmente, poucos se dão conta de tal metamorfose; vivem tão distraídos de si, que não percebem que se inclinam para o caixão...
A velhice física nos induz a pensar na transitoriedade da vida terrena e na fugacidade das ilusões.
E tudo passa depressa...
— Se passa! - exclamou o paciente.
— Meu amigo, a conversa está boa, estou aqui falando, de novo, um punhado de coisas para eu mesmo ouvir, mas a fila aí fora...
— Eu sei, está enorme.
Que pena, Doutor!
Por mim, ficaria aqui horas e horas...
— Fiz por você o que pude.
Talvez um outro especialista...
— Não! Estou satisfeito.
Com poucas palavras, o senhor me tocou.
Vou ver se arranjo serviços.
— Temos vaga - não podemos pagar, mas temos vaga...
Casa, cama e comida é o que, inicialmente, podemos lhe oferecer.
— Eu poderia?...
— É claro!
— Começaria...?
— ...varrendo e limpando o chão, serviços gerais.
— Eu nunca peguei numa vassoura...
— Se você quiser, se este for o problema, eu ensino você; não tem muita ciência, não!
— Mar, sol e outros atractivos?...
— Daqui a seis meses, a primeira folga.
É pegar ou largar.
— Que coisa a morte, meu Deus!
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 11, 2018 9:47 am

— Não fui eu que a fiz assim, nem a morte nem a Vida; não obstante, fosse eu o Criador, faria tudo absolutamente igual.
Que Obra Magnífica! Irretocável!...
Com todas as lágrimas que vertemos para a subida, com as quedas e tropeços, com as dores e sacrifícios, com as angústias e os tormentos, como é bela a paisagem!
Que deslumbramento jornadear para os Cimos, caminhando entre as estrelas! Viver é uma experiência linda!...
Aos poucos, até no sofrimento descobrimos transcendência!
— Doutor, aceito a oferta!
— Não se entusiasme tanto, Flávio...
— Eu sei, Doutor, eu sei, mas o senhor tem razão...
— O Senhor, não eu, tem sempre razão.
Pressionei, de leve, um botão sobre a mesa, e Manoel Roberto apareceu.
— O nosso amigo - expliquei - trabalhará connosco, Manoel; encaminhe-o ao depósito de vassouras, baldes e esfregões...
Ah, dê-lhe também uma roupa mais apropriada!
— Vim atrás de uma consulta e...
— Não é à toa que me chamam de feiticeiro - quando me ofendem pouco, pois quando me ofendem muito é de obsessor para fora!
— Eu pensei que o senhor fosse um médico engravatado...
— Detesto gravatas!
— Doutor, o próximo paciente são dois - avisou-me Manoel.
— Dois? Uma consulta dupla?!
— Insistiram.
— Faça-os entrar.
— Dr. Inácio, obrigado - disse Flávio, levantando-se para sair.
— Obrigado digo eu, meu filho, em qualquer sentido da palavra.
— Poderei voltar a vê-lo? - perguntou, já quase à porta.
— Nos encontraremos por um desses corredores.
— O Dr. Inácio - informou Manoel -, todas as quartas-feiras pela manhã, reúne o pessoal no auditório para uma palestra - funcionários, voluntários e pacientes melhorados.
— Que palestra, conferência que nada! Trata-se de uma conversa informal.
Farei questão de vê-lo presente em uma delas. Até breve!
Flávio saiu, e Manoel, dando-me um pouquinho de tempo para ir à janela e espiar pela vidraça os pássaros que brincavam com as flores, anunciou a presença dos próximos dois pacientes daquela manhã.
— Ernesto e Murilo, Doutor!
— Sentem-se, por favor - apontei-lhes as poltronas vazias à minha frente.
Pois não, a que vieram?
São amigos, foram parentes?...
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 11, 2018 9:47 am

CAPÍTULO 13
Fomos , sim, parentes, Doutor - tomou Ernesto a iniciativa de falar -, irmãos consanguíneos por parte de mãe - fomos irmãos e sócios de uma pequena empresa de manufacturados.
Mamãe ficou viúva e casou-se pela segunda vez; éramos os únicos filhos de seus dois casamentos...
Entre Murilo e mim havia uma diferença de oito anos, sendo eu o mais velho.
— Qual o problema específico? - perguntei, procurando ganhar tempo.
— Você quer explicar, Murilo? - indagou ao irmão o que, de facto, me pareceu o mais ponderado.
— Não, depois eu apresento a minha versão.
— Éramos sócios e, aos poucos, fui descobrindo que ele me passava para trás; eu viajava com frequência, visitando os clientes, e tudo ficava nas mãos dele...
— Vocês se casaram?
— Sim, Doutor, ambos tínhamos família.
Mamãe veio a falecer quando Murilo estava com 14 e eu com 22 de idade; praticamente, acabei de criá-lo, já que o pai dele e meu padrasto era alcoólatra:
depois que a nossa mãe faleceu, vítima de aneurisma cerebral, ele começou a beber...
— A empresa de vocês...?
— ...herança de meu pai, o primeiro esposo de nossa mãe.
Tive que assumir os negócios muito cedo e, graças a Deus, fomos relativamente bem sucedidos.
Casei-me aos 25, e Murilo, aos 18, ligou-se a uma mulher dez anos mais velha do que ele, que, de certa forma, foi o pivô do nosso drama.
Fez uma pausa, olhou para o irmão cabisbaixo e continuou:
— Durante um bom tempo, 10, 12 anos, aproximadamente, tudo prosperou:
tínhamos vários empregados e cada um de nós pôde adquirir a sua própria casa de morada...
Foi quando, advertido por terceiros, comecei a notar que o meu irmão me enganava; o estoque de matéria-prima desaparecia e os clientes reclamando da qualidade dos produtos:
ele vendia o material que eu comprava e adquiria um similar pela metade do preço, embolsando o resto...
— Acho que vocês - desculpem-me - se enganaram:
eu sou um psiquiatra, não um advogado...
A princípio, o caso de vocês não é para mim.
— Doutor, o meu irmão tem razão - falou Murilo quase a gaguejar.
Ouça-nos, por favor...
De facto, fui desonesto; não tive filhos, mas a minha mulher exigia sempre mais de mim...
Ernesto não parava e quase todo o dinheiro vinha para o meu bolso.
— Eu confiava tanto nele, Doutor!
Éramos apenas os dois...
Ele traiu a minha confiança; fiquei e estou profundamente magoado!
— Deixemo-lo continuar - interferi.
— O dinheiro fácil, sem ter que prestar contas, e, depois... - hesitou, envergonhado.
— Fale, Murilo! - instou o irmão, impaciente.
— Comecei também a beber e a jogar carteado; dívidas, Doutor!...
Por um lado, dívidas de jogo; por outro, exigências da esposa, que, estranhamente, me dominava.
A minha retirada era pequena...
— Mas suficiente - aparteou Ernesto, indignado -; do tamanho da minha, sendo que eu tinha dois filhos para criar, seus sobrinhos, e você nenhum!
— Ela dizia que eu trabalhava mais, que a responsabilidade maior na empresa era minha...
— Espere aí - solicitei - não descambemos para justificativas!
Ambos têm consciência de que estão mortos, não?
— Sim! - responderam em uníssono.
— Então, não vamos prosseguir nos iludindo...
A rigor, ninguém faz isso porque fulano faz aquilo, certo?
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 11, 2018 9:48 am

Cada espírito é senhor de suas acções.
As influências que recebemos são consentidas...
A responsabilidade dos outros, em relação ao que deliberamos fazer, não é absoluta.
— Quebramos, Doutor! - exclamou o irmão mais velho, pesaroso.
Tudo foi por água abaixo!
Títulos protestados no cartório, dinheiro emprestado com agiotas...
Tive que vender a minha casa e...
— ...eu, a minha!
Quando me viu sem nada, a mulher me abandonou, não sem antes exigir metade do que tinha direito!
— É uma questão discutível, mas não vou entrar no mérito - comentei.
— Pois é - redarguiu Murilo -, a gente era muito simples, o irmão dela...
— Um pilantra! - reagiu Ernesto.
— ...ameaçou-me com revólver.
— Um traficante, fugitivo da polícia, com dois ou três crimes nas costas!
— Onde é que eu entro nesse imbróglio? - perguntei.
Vocês têm que se acertar...
— O Ernesto não quer me perdoar!
— Não é uma questão de perdão, Murilo! - indignou-se o mais velho.
Eu já me cansei de dizer:
simplesmente, eu não quero mais nada com você! Chega!
Você me traiu! Acabou-se!...
Doutor - disse, virando-se para mim -, terminei os meus dias como operário braçal, quase passando necessidades de boca com a família; os meus filhos não puderam estudar, e nada pude fazer pelos meus netos...
E eu, Ernesto, que nem tive a bênção de um filho ou de um neto?
Você era a única coisa que eu tinha, meu único irmão, quem verdadeiramente se preocupava comigo e me protegia...
— Doutor, por favor, eu não o aguento...
Quero livrar-me dele!
Eu lhe perdoo, mas que ele se afaste de vez do meu caminho...
— Isso não é perdão! - ponderei em voz sumida.
— Então, o perdão é algo terrível...
— É - concordei -, o perdão chega a ser quase sobre-humano!
— Se é sobre-humano, não é para mim...
— Nem para ninguém, se não tivéssemos que nos esforçar para superar a nossa própria humanidade.
Mas - questionei -, e você, Murilo, como terminou os seus dias na Terra?
— Bêbado, Doutor, como o meu pai; dizem que há algo de genético no alcoolismo...
— A predisposição de natureza física é determinada e não determinante; as nossas mazelas, vícios, hábitos e tendências, enfim, tudo que se nos manifesta perifericamente é exteriorização do que somos...
O corpo, deveras, é mais frágil quanto maior a fragilidade do espírito.
— Eu amo o meu irmão - frisou Murilo, apoiando a destra no ombro de Ernesto, que se esquivou, para evitá-lo.
Desde que deixamos a Terra, outra coisa não faço que tentar obter o seu perdão.
Arrependo-me amargamente e estimaria que ele me desse uma nova oportunidade de convivência...
— Definitivamente, não! - quase gritou Ernesto.
Eu não o suporto mais!
Se estou aqui com você é por conta de mamãe, que me pediu que viesse.
Reencarnar, tendo-o ao meu lado?
Não! Vamos adiar isto; eu não estou preparado.
Comigo, você teve a sua chance...
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 12, 2018 10:42 am

Não daria certo.
Acabou-se, entende!
Você me furtou, me traiu...
— Doutor, eu não tenho paz...
Estou ficando louco.
Só penso no que fiz:
não tenho cabeça para mais nada!
Neste Outro Lado, que eu nem acreditava que existisse, não consigo trabalhar; obter o perdão de meu irmão se me transformou em ideia obsessiva...
— Murilo, eu fiz tudo por você, deixava a empresa em suas mãos; mais que irmãos consanguíneos, éramos amigos...
Eu o defendia, quando pequeno, e se metia em enrascada com os meninos maiores; eu me sentia como se fosse o seu pai...
Como é que você pôde fazer comigo o que fez?
Você prejudicou a minha família.
Eu já lhe disse:
por sua causa, os meus filhos não puderam estudar, e a Maria, minha esposa e sua cunhada, ficou tão deprimida, que contraiu tuberculose, vindo a morrer em poucos anos.
Foi uma tragédia!...
— E que tragédia! - exclamei, meneando a cabeça.
Chega a ser inacreditável as consequências disso tudo...
A gente não pensa que um pequeno deslize pode resultar, para o espírito ou para o grupo envolvido, num desastre de tão graves proporções.
Como a vigilância em nossas menores atitudes, em relação a nós e aos outros, se torna indispensável!
— Doutor - solicitou Murilo, trémulo -, interceda por mim...
A mamãe me disse que o meu irmão está planeando voltar à Terra. Aceito qualquer coisa:
ser filho dele, irmão outra vez, quem sabe, até um sobrinho...
Os nossos caminhos não podem se apartar assim.
O que há de ser de mim, da minha paz?
Nada fiz por maldade; fui leviano e incorrecto - reconheço -, mas nunca tive a intenção de prejudicá-lo...
O meu irmão era e continua sendo o meu ídolo!
Estou prestes a enlouquecer de remorso; quando me acusa, cada palavra dele é como se fosse agudo punhal em meu coração!
— Murilo - argumentei -, o Ernesto tem razão...
Provavelmente, se fosse comigo, eu não iria querer vê-lo por uns 500 anos...
— Doutor, eu estou disposto a tudo, inclusive a renascer cego ou paralítico...
— O quê?!... Para me dar mais trabalho?...
Deus me livre!
Vou ter que recomeçar, na tentativa de reagrupar aqueles com os quais tenho compromisso e...
— E o seu compromisso afectivo comigo?
— Eu não tenho mais compromisso com você!
Já tive! Agora, você é que tem comigo...
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 12, 2018 10:42 am

CAPÍTULO 14
Os dois irmãos em confronto permaneciam à espera de um veredicto meu.
— Insisto em que o caso de vocês - disse -, é para advogado e não para um psiquiatra como eu...
O que querem de mim?
A minha palavra vai adiantar alguma coisa?
Murilo, eu não posso simplesmente pedir a Ernesto que lhe perdoe.
Ele é que terá que suportá-lo, não eu.
E se, entre vocês, a situação se complicar?
— Como?...
— Um crime; o ódio se reavivar na carne e um acabar matando o outro...
Quantos dramas assim nos lares do mundo!
— Eu jamais mataria Ernesto!
— O mesmo, no entanto, não posso garantir a meu respeito, Murilo, pois, confesso, tive ímpetos de fazer isso mesmo!
— Meu irmão!
— Não sou mais seu irmão!...
Você me é um espírito totalmente indiferente.
Veja a que me reduziu!
E, mostrando-me as mãos:
— Doutor, estou trémulo...
Ai, meu Deus! Murilo, não me peça além de minhas forças...
Vamos dar um tempo.
Volte à Terra e, se for o caso, ofereço-me para auxiliá-lo a conseguir outra família, mas, por favor, reencarne bem longe de mim; que os nossos passos não se cruzem!
— Você, Ernesto, está fazendo pior do que eu...
— Está vendo, Doutor: ainda sou o culpado.
A gente é vítima e tem que perdoar, que se humilhar; apanha e tem que perdoar, apanhando de novo...
— É, o perdão é assim - repliquei -:
uma virtude que não se contenta com pouca coisa, não...
Ernesto quase sorriu e ofereceu ao diálogo pequena descontracção.
— Vocês já leram o Novo Testamento? - perguntei.
— Novo Testamento?...
— É, principalmente os Evangelhos de Jesus.
— Não, não os conheço - respondeu Murilo.
— Nem eu, tampouco - emendou Ernesto.
— O que vocês eram?
Católicos? Evangélicos?
— Católicos, Doutor, mas não íamos à missa...
— Raramente - corrigiu o mais velho dos dois.
— A gente não entendia o que o padre falava...
— A gente queria confessar-se e comungar...
— Quem é Jesus Cristo para vocês?
— O Salvador! - responderam quais duas crianças na aula de catecismo.
— Vocês O respeitam?
— É claro, Doutor - adiantou-se Ernesto.
Quem não respeita a Jesus...
— Jesus é tudo! - acentuou Murilo.
Mamãe nos ensinou que Ele deu a vida para a redenção da Humanidade.
— Vocês oravam ou oram com frequência?
— Não - disseram sem titubeios.
— Nem depois de mortos?!...
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 12, 2018 10:42 am

— Não!
— Sabendo da transcendência da Criação, não reverenciam o Criador?!
Continuam indiferentes, insensíveis, impermeáveis?...
Não se prosternam diante do Infinito?...
Ah, já sei, estão ocupados demais em se odiarem um ao outro!
O Universo são vocês dois, não?
— Doutor!... - tentou intervir Ernesto.
— Agora é minha vez de falar - redargui, enfático.
— Eu já escutei vocês demais...
Querem saber de uma coisa?
Os dois estão errados:
um, por ter sido idiota - você, Murilo; outro, por se julgar no direito de ser tolo - você, Ernesto!
— Doutor!... - mexeu-se Ernesto na poltrona.
— Por favor, me escutem sem interrupção.
Vou ler para vocês apenas um trecho das palavras de Jesus e, depois, decidam o que fazer.
Abrindo um exemplar do Novo Testamento, que sempre tenho sobre a mesa ao lado de "O Evangelho Segundo o Espiritismo", li, pausadamente, o que o Evangelista Mateus anotou no cap. V, vv. 25 e 26:
"Reconciliai-vos o mais depressa possível com o vosso adversário, enquanto todos estais a caminho, para que ele não vos entregue ao juiz, o juiz não vos entregue ao ministro da justiça e não sejais metido em prisão.
— Digo-vos, em verdade, que daí não saireis, enquanto não houverdes pago o último ceitil."
— Escutaram isto antes da boca de algum padre, quando, esporadicamente, iam à igreja? - questionei.
— Não!
— Entenderam a solicitação do Cristo?
— Ele nos pede que nos reconciliemos - destacou Ernesto.
— "O mais depressa possível"!... - repeti com especial entonação de voz.
— O que quer dizer? - perguntou Ernesto.
— O que você acha? - devolvi.
Ele silenciou e prossegui:
— A reconciliação com os nossos desafectos deve ser providenciada o mais rápido possível:
o perdão não é para amanhã ou depois - o perdão é para hoje, no exacto instante em que a ofensa nos é feita...
— Impossível!
— Difícil, impossível não; quase impossível vai se tornando à medida que o tempo passa, pois o abismo a ser transposto vai se fazendo mais largo e mais profundo.
— Doutor, ele, o Murilo...
— Ele errou, você está errando; ele errou por imaturidade, ignorância - você, Ernesto, está errando de caso pensado...
Quem não se esforça para aceitar o sincero pedido de perdão de alguém está se prevalecendo de sua suposta condição de superioridade.
Não somos tão bons e justos quanto pensamos; às vezes, o que nos falta é um chicote nas mãos para que, de vítima, nos transformemos em verdugo...
Ser delinquente, para a maioria, pode ser uma questão de oportunidade.
— O Murilo...
— ...merece uma sova!
— Mereço, Doutor, mereço mesmo!
Meu Deus, como pude ser tão sem-carácter?
Chego a pensar que estava debaixo de uma influência qualquer...
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 12, 2018 10:42 am

— Alto lá! Não vamos transferir responsabilidade...
O ser humano, dotado de livre-arbítrio, não vive à mercê do mal; se assim fosse, a ninguém poderia ser imputada qualquer culpa.
— Estou me referindo à possibilidade de alguém ter feito um trabalho contra mim; a minha companheira costumava frequentar terreiros, essas coisas...
— Onde há luz, não existe espaço para a treva, que jamais engole a luz!
— O senhor não acredita?
— Acredito na força do Bem, sempre.
Ouvi dizer que os espíritos obsessores...
— Quando estabelecemos sintonia com eles; caso contrário, poderão até nos assediar perifericamente, mas não nos atingirão o âmago.
— Doutor - tornou Ernesto -, o senhor está querendo me convencer de algo...
Eu não estou preparado.
— Você, obviamente, tomará a decisão que lhe aprouver, no entanto, uma coisa lhe digo:
pode ser que, amanhã, a situação venha a se inverter...
— Como?...
— A sua consciência haverá de acusá-lo pela sua falta de clemência; você está sendo duro, Ernesto, inflexível!
Será que você não tem ninguém a quem pedir perdão?
Nunca errou ou não vai errar?
Permita-me uma leitura um pouco mais longa do Novo Testamento, igualmente anotada pelo Evangelista Mateus, cap. XVIII, vv. 23 a 35:
"O Reino dos Céus é comparável a um rei que quis tomar contas aos seus servidores.
Tendo começado a fazê-lo, apresentaram-lhe um que lhe devia dez mil talentos.
Mas, como não tinha meios de os pagar, mandou seu senhor que o vendessem a ele, sua mulher, seus filhos e tudo que lhe pertencesse, para pagamento da dívida.
O servidor, lançando-se-lhe aos pés, o conjurava, dizendo:
"Senhor, tem um pouco de paciência e eu te pagarei tudo."
Então, o senhor, tocado de compaixão, o mandou embora e lhe perdoou a dívida.
Esse servidor, porém, ao sair, encontrando um de seus companheiros, que lhe devia cem dinheiros, o segurou pela goela e, quase a estrangulá-lo, dizia:
"Paga o que me deves."
O companheiro, lançando-se-lhe aos pés, o conjurava, dizendo:
Tem um pouco de paciência e eu te pagarei tudo."
Mas o outro não quis escutá-lo; foi-se e o mandou prender, para tê-lo preso até pagar o que lhe devia.
"Os outros servidores, seus companheiros, vendo o que se passava, foram, extremamente aflitos, e informaram o senhor de tudo que acontecera.
Então, o senhor, tendo mandado vir à sua presença aquele servidor, lhe disse:
"Mau servo, eu te havia perdoado tudo que me devias, porque mo pediste.
Não estavas desde então no dever de também ter piedade do teu companheiro, como eu tivera de ti?"
E o senhor, tomado de cólera, o entregou aos verdugos, para que o tivessem, até que ele pagasse tudo que devia.
"É assim que meu Pai, que está no Céu, vos tratará, se não perdoardes, do fundo do coração, as faltas que vossos irmãos houverem cometido contra cada um de vós".
Terminando a leitura, deixei o livro aberto sobre a mesa e observei:
— Você está pegando o Murilo pela goela - não que ele não mereça -, mas age como se não devesse nada a ninguém, nem a Deus...
A razão abandona quem extrapola o senso de justiça.
Ernesto e o irmão se entreolharam em silêncio.
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Ave sem Ninho

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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 12, 2018 10:43 am

CAPÍTULO 15
Dos olhos de Murilo, abundantes lágrimas começavam a brotar.
A cena era comovente e eu - coitado de mim!, sem ser Deus, o que poderia fazer para reaproximar aqueles dois?
Onde a varinha de condão com que pudesse tocar o coração de cada um, desfazendo toda mágoa?
A ponderação, a palavra inspirada no Evangelho era o meu único argumento, poderoso, reconheço, o mais eficiente de todos, mas que, para surtir efeito, precisava contar com o mínimo de boa vontade dos irmãos envolvidos na trama, principalmente Ernesto.
Depois de breve interregno, voltei a considerar:
— Na minha opinião, não lhes resta alternativa.
Se vocês se separarem agora, quando a Vida lhes ensejará uma nova oportunidade?
O endividado sempre será alguém preso ao compromisso; a felicidade real não permite a menor tisna de mágoa no coração... Perdoar!
Tão simples e, ao mesmo tempo, tão complexo!...
Uma atitude só de nossa parte, uma atitude positiva, pode evitar-nos séculos de aborrecimentos.
Um problema insignificante pode desencadear outros de maiores proporções.
Esqueça, Ernesto!
Você não deve desconsiderar a chance de superar-se, pois quem perdoa agiganta-se espiritualmente aos próprios olhos.
Os que se comprazem no ressentimento não sabem o bem - o enorme bem - que perdoar é capaz de lhes fazer ao espírito.
Quem não perdoa, mesmo com motivos transitórios para tanto, haverá de arrastar nos ombros um peso desnecessário...
Falo em motivos transitórios, porque, a rigor, ninguém conta com motivos reais para não perdoar!
Se o homem se mostrasse mais disposto a esquecer a ofensa, a agressão, o problema da paz no mundo estaria resolvido.
O ressentimento, o ódio são emanações mentais deletérias dando força ao mal para que se propague...
A guerra é o ódio acumulado de milhões.
A violência não explode de uma hora para outra; é acalentada, devagarinho, pelos nossos impulsos negativos.
De certa maneira, quando não perdoamos, a nossa mão está lá, sobre a mão que aperta o botão que dispara um míssil contra o povo indefeso de um país...
Buscando realinhar conceitos, fiz uma pausa e continuei, esforçando-me ao máximo, para que o carma daqueles dois não prosseguisse por tempo indefinido.
— Temos aqui, internados no Hospital, criaturas que foram vítimas do ódio - não propriamente do ódio de outros contra elas, mas do que alimentaram em si mesmas...
No fundo, no fundo, não perdoar é orgulho.
Toda ofensa que recebemos nos revela como som Eu aconselharia vocês dois a se prepararem; sim, antes de tentarem uma nova experiência no corpo, preparem-se melhor, aumentando as suas chances de êxito no cometimento...
Existem escolas de convivência por aqui!
Poderíamos providenciar para que ambos se matriculassem, pois, de facto, seria uma temeridade reencarnar como se encontram.
Esperem um pouco mais...
Quando, Ernesto, você conseguir abraçar o seu irmão e ele a você, então estará na hora...
— Doutor - interrompeu-me Ernesto -, o senhor está falando como se eu tivesse concordado...
— Não, estou falando como alguém que supõe ser você uma pessoa inteligente.
O perdão, meu filho, é também uma questão de inteligência, da parte de quem toma a iniciativa de exercê-lo.
Imaginemos que você e Murilo se afastem...
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 12, 2018 10:43 am

Por quanto tempo ficarão longe um do outro?
200, 300..., 500 anos? E depois?
É da Lei que nos entendamos.
Não estou falando de amor - estou falando de entendimento, aceitação, renúncia...
Amor, para servir-me de uma expressão usada na Física, é um ponto imaginário.
O amor de uma só pessoa na Terra faria tremer as bases do Orbe!
Vocês dois não teriam vindo me consultar, caso não estivessem predispostos...
— Vim por insistência de minha mãe, Doutor, e para ver se convenço Murilo a...
— Não, você veio porque, no fundo, tem estima por seu irmão; você veio porque, em seu espírito, crepita débil chama de esperança que, graças a Deus, não se apagou de todo; você veio, Ernesto, porque você é bom e não consegue odiar...
Neste instante, o mais velho, a quem eu dirigia a palavra, começou também a chorar.
— Falta-lhe tão pouco! Um passo só!
Quando perdoamos - eu não sei -, existem forças que se movimentam em nosso favor; a nossa predisposição em perdoar é luz que dissolve as sombras, que fogem de nossos caminhos...
Digo-lhes: sempre tive, sim, uma contrariedade ou outra com alguém, um aborrecimento, uma rusga; mas odiar, nunca!
Nada tenho em meu coração contra quem quer que seja!
Nem contra os padres...
— O senhor tinha inimigos padres? - perguntou Murilo com a ingenuidade de uma criança.
— Brigamos muito no campo das ideias, mas, felizmente, eu não conseguia que a minha raiva passasse de um dia para outro - bem que eu tentava, mas...
Ernesto e Murilo sorriram e eu prossegui, descontraindo:
— Adormecia pensando:
"Amanhã, fulano me paga!"
No outro dia, eu não sabia para onde tinham ido os meus planos de vingança...
Uma amiga me definia bem:
— "Inácio, você é muita fumaça e pouco fogo, ou melhor, nenhum fogo..."
O pior é que ela tinha razão, mas eu precisava ser forte - já que me faltava tamanho, que, pelo menos, não me faltasse rompante...
No fundo, me dava pena a situação daqueles irmãos, escravos pelo pensamento de uma doutrina arcaica sustentada pela Igreja; muitos não tinham coragem de renunciar aos seus votos religiosos, com receio de decepcionarem a família e ganharem o pão com o suor do próprio rosto...
Mas isto é outra história.
— Doutor, o senhor mencionou escolas de convivência - mostrou-se Murilo, interessado.
— Sim, escolas nas quais aprendemos, não a ler e a escrever, é óbvio, mas a melhor nos relacionarmos uns com os outros...
— Através...? - indagou Ernesto.
— ...principalmente do autoconhecimento...
A medida que melhor nos conhecemos, torna-se-nos mais fácil a aceitação dos outros.
— Interessante... É uma terapia?
— Não deixa de ser.
Para nós, que somos espíritos enfermos, qualquer actividade positiva é terapêutica.
Por exemplo: este nosso diálogo nos está sendo uma terapia...
— Para o senhor também? - perguntou Murilo.
— Por que não? Eu também necessito de sedimentar convicções - precisamos repetir um milhão de vezes, aos próprios ouvidos, o que dizemos aos outros.
Não me creiam um santo ou coisa assim; sinceramente, falta-me toda vocação à santidade...
Não, eu quero ser o que sou, caminhando à frente com determinação - passo a passo, mas sempre com maior determinação do bem.
Estou convencido de que Jesus Cristo é o Caminho!
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 12, 2018 10:43 am

Neste sentido, para mim não existe retrocesso...
Não consigo, porém, abdicar do ser humano que ainda me sinto.
O pessoal lã embaixo pensa que o corpo de carne é uma espécie de incubadora para o espírito, que, quando termina a choca, sai batendo as asinhas...
Assim fosse! Que bom!
— Doutor, nessas escolas de convivência...? -aparteou-me Ernesto, intrigado.
— Ah, sim! Vocês estão interessados, não é? - redargui como quem não estivesse dando muita importância, evidentemente com o propósito velado de aguçar a curiosidade dos dois.
Os Instrutores são competentíssimos - esclareci -, e o currículo, ao que estou informado, consta de aulas teóricas e práticas, com ênfase para as aulas de natureza prática.
— Aulas de natureza prática?!
A gente não estuda Filosofia, Religião, Psicologia, coisas assim?... - arguiu Ernesto.
— É claro: muitos livros, prelecções, etc.
Tudo, porém, voltado para o autoconhecimento à luz do Evangelho.
— Meditação? Técnicas de relaxamento?...
— Nem tanto.
O segredo da evolução é: meditar um pouco, estudar muito e trabalhar mais!
Consultando o relógio, avisei:
— Que pena! O nosso tempo se foi...
Lamento não tê-los ajudado mais.
— Doutor, um último esclarecimento - solicitou Ernesto:
eu e o Murilo estagiaríamos?...
— Juntos, na mesma classe, e, com certeza, ambos terão tarefas conjuntas a cumprir, em actividade por aqui e na região da Crosta; terão oportunidade de se verem e de conversarem bastante...
Problemas relacionados com a convivência só são resolvidos através da convivência.
Mas, infelizmente, falhei...
Não lhes devolvo o dinheiro da consulta, porque vocês não estão pagando nada, e nada lhes dou porque estou sem nenhum no bolso - não me faltam casa e comida, mas, dinheiro, ó!...
Neste hospital, somos todos remunerados pelo SUS do Além:
Serviços Unicamente Serviços!
Levantei-me a fim de colocar aquela dupla para fora, pois, caso contrário, complicariam toda a minha agenda.
— Passem bem! - disse, apertando a mão de um e de outro, conduzindo-os à porta.
Antes, porém, que saíssem, percebi algo positivamente sintomático e, sem nada comentar, sorri com discrição:
é que, de maneira instintiva e protectora, Ernesto, o irmão mais velho, cedera passagem a Murilo, direccionando-o com a destra pousada em seu ombro.
Gastara muita saliva, no entanto...
Assim que os dois se retiraram, experimentando eu aquela natural alegria de ter cooperado com relativo êxito para o entendimento futuro daqueles espíritos, Manoel Roberto, desta vez sem me dar tempo de ir à janela espiar a paisagem, anunciou, adentrando o consultório:
— Carta para o senhor!
— Correspondência para mim? - interroguei, surpreso.
— E vem da Terra, Doutor!
— Como os Correios andam eficientes! - brinquei, recebendo-lhe das mãos o envelope.
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 12, 2018 10:43 am

CAPÍTULO 16
Manoel Roberto deixou-me a sós.
Eu, intrigado, abri o delicado envelope a fim de lhe verificar o conteúdo.
A missivista, que eu não conhecia, dirigia-se a mim mais ou menos nestes termos:
"Estimado Dr. Inácio:
O Senhor nos abençoe!
Tomo a liberdade de escrever-lhe estas linhas, com o propósito de encorajá-lo a continuar em sua luta, através dos livros que nos têm esclarecido tanto; refiro-me à sua obra mediúnica, a qual, infelizmente, vem sendo contestada por aqueles que se julgam donos da Verdade, os espíritas conservadores sempre prontos a criticar, mas que nada apresentam de substancial, algo acrescentando ao corpo doutrinário do Espiritismo.
Eu e o meu esposo frequentamos um centro na cidade em que moramos e, digo-lhe, o povo simples o adora, a gente mais humilde que procura vivenciar o Evangelho na prática da caridade desinteressada.
Os que se consideram intelectualizados polemizam e chegam mesmo a proibir que os seus livros circulem no centro...
Peço-lhe, não desanime!
Continue, Doutor, escrevendo para nós outros, que nos identificamos com o seu jeito espontâneo de ser.
Tenho a impressão de que já nos conhecemos de muito tempo...
Quem sabe, em vidas passadas, tive o privilégio de sua convivência?
É brincadeira.
Acontece, porém, que o meu carinho e o meu respeito pelo senhor não têm limites.
A sua palavra nos toca o coração e nos fala, sem rodeios, o que precisamos saber.
Até quando fica aparentemente bravo, eu gosto do senhor!
Eu também sou assim, pois é tudo, como se costuma dizer, "da boca para fora"...
O seu coração é grandioso, desculpe-me, mole como gelatina.
O senhor me lembra muito a figura de meu pai, um italiano que explodia fácil, rugia feito um tigre, para, em seguida, se transformar em cordeiro e fazer tudo que a gente queria".
Virei a página e, confesso, com lágrimas que insistiam em cair, continuei a leitura.
"Repito, não ligue para esse pessoal que vem fazendo campanha contra o senhor - existe inveja de todo tamanho!
É uma pena que, no Espiritismo, não seja diferente.
É médium contra médium, dirigente contra dirigente...
Na minha cidade, existem grupos espíritas que são rivais.
Não é um absurdo?
O senhor tem razão quando fala - precisamos, sim, e depressa, lavar a roupa suja que vem se acumulando...
Senão, o que há de ser da Doutrina daqui a alguns anos?
Já escutei críticas até a Chico Xavier...
Ora, onde é que iremos parar?
Eu, o meu esposo e mais um bom punhado de amigos acreditamos no senhor.
Talvez eu esteja sendo pretensiosa demais; o senhor, com certeza, não precisa ouvir de alguém tão insignificante como eu o que estou lhe dizendo, mas é que hoje me levantei com uma vontade danada de lhe escrever esta carta!
Não leve em conta os meus erros de português e a minha linguagem pobre - sou mãe de três filhos e não pude ir além do 2.° grau.
Eu e o meu marido temos uma pequena mercearia, com um varejão de frutas, verduras e legumes em anexo; é assim que sobrevivemos e esperamos poder estudar os meninos...
Aos domingos, participamos do grupo da sopa no centro.
Engraçado: os discutidores, os críticos nunca aparecem para mexer os caldeirões; qual os evangélicos mais fanáticos, vivem com "O Livro dos Espíritos" debaixo do braço e só sabem falar em Kardec...
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 12, 2018 10:43 am

De minha parte, nada contra Kardec, é claro, que também acreditamos ter reencarnado como Chico Xavier, mas, imitando um pouco o seu bom humor, esse pessoal enche..."
Sorri e prossegui lendo, de coração confortado:
"Estou escrevendo muito, não?
Não se preocupe, não é psicografia; como médium, eu não passo de uma parede imóvel e insensível como uma divisória! Doutor Inácio, por favor, traga-nos novas notícias do Mundo Espiritual!...
Eu sei que o senhor tem mais informações...
Que os do contra chiem à vontade.
Ora, a Doutrina é livre ou não é?
Se continuarem nos pressionando no centro porque somos admiradores de suas obras, eu e o meu esposo vamos sair; já conversamos, temos um pequeno terreno na periferia e iremos, lá, dar sequência ao nosso trabalho.
A gente é espírita em qualquer parte.
Isto também temos aprendido com o senhor.
Vou terminar.
Se, porventura, estas palavras lhe chegarem
às mãos, abrace a nossa querida D. Maria Modesta e o Manoel Roberto por mim; não os conheço, mas me são extremamente simpáticos...
Vocês formam um grupo maravilhoso e, quando eu desencarnar, espero, ao menos, merecer ser tratada por vocês aí no Hospital - por gostar de seus livros e divulgá-los, já me chamaram até de obsidiada!
Um grande e forte abraço.
Não descanse e não dê descanso ao médium.
Da amiga, irmã e filha espiritual que tanto o ama..."
A simpática remetente assinou o nome completo e, inclusive, anotou o número do telefone de sua casa, porém, na impossibilidade de lhe fazer uma ligação, rascunhei-lhe, mais tarde, algumas palavras em resposta.
"Querida irmã...
Recebi a sua carta, que muito conforto trouxe ao meu coração.
Não, não me julgue dispensado de receber palavras de incentivo ao trabalho que estamos desenvolvendo, sem, acredite, a menor pretensão, literária ou doutrinariamente falando.
Habituei-me a escrever nas minhas horas de folga, valendo-me das horas de folga do médium, que é meu amigo...
Não, para o desapontamento dos meus opositores, não pretendo parar - primeiro, porque não são donos da Doutrina; segundo, porque não me mandam; e, terceiro, porque quero lhes fazer pirraça...
Eles foram mexer com um espírito pirracento, que sou eu.
Penso, falo e escrevo o que quiser e não tenho satisfação a dar a nenhum deles, que deveriam olhar um pouco mais para dentro de si.
Se, quando encarnado, ninguém me amordaçava, quererão me amordaçar agora, depois de morto?
Em Uberaba, a cidade em que vivi na derradeira romagem no corpo, enfrentei a perseguição do Clero, quando a Igreja ainda mandava e desmandava...
Esse pessoal, esses patrulheiros ideológicos da Doutrina estão fazendo pouco da minha inteligência - tenho orelhas grandes, mas não sou burro!
Fique tranquila e tranquilize os nossos amigos.
Enquanto puder, enquanto não se quebrar ou se danificar o aparelho de que me sirvo, escreverei; podem espernear à vontade, censurar os meus livros, rotulá-los de antidoutrinários, fantasiosos, etc., etc..."
Procurando não extrapolar, dei sequência.
"Eu não mereço os elogios, directos ou indirectos que você me faz.
Graças a Deus, a senilidade no corpo quase nonagenário não me afectou o cérebro espiritual...
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 12, 2018 10:44 am

Sempre soube reconhecer o meu lugar e, de fato, não sou nenhum espírito iluminado - sou apenas o que sou, lutando muito para melhorar sempre.
Estou de trabalhos até ao pescoço...
1/3 ou pouco mais dos doentes internos no Hospital, segundo o último levantamento que fizemos, são espíritas.
Veja você!...
São os que me dão mais trabalho e, embora doentes, não dobram o facho...
Difícil lidar com eles!
As vezes, penso que seria preferível que isto aqui fosse um hospital para padres - me sobrecarregariam menos!
Infelizmente, porém, estamos construindo um novo pavilhão - só para os espíritas, que, como dizia Chico Xavier, estão desencarnando mal, e vamos botar mal nisso!...
Eu não sei o que eles têm aprontado, na surdina, no escuro, nos labirintos trevosos de si mesmos.
Para mim, tem sido uma prova - haja paciência!
O Espiritismo é uma doutrina extraordinária que os espíritas - não todos, é claro - estão fazendo tudo para estragar; os maiores obsessores da Doutrina estão encarnados.
Meu Deus, é tanto personalismo!
Vaidade, nariz arrebitado...
Como somos custosos, nós, os espíritas!...
Não, filha, não estou indignado, mas, se pudesse, haveria de tirar as calças de muita gente graúda no Movimento e dar-lhes nas nádegas com vara de marmelo!
Quando a vara quebrasse ou o braço cansasse, pararia.
É lógico que, conforme preceitua a caridade, prepararia uma salmoura para cada um - depois de uma tunda assim, nada como um banho de assento.
Você está rindo?
Estou falando a verdade."
Peguei a última lauda em branco e acrescentei com brandura:
"Recomendações ao esposo e aos filhos queridos, meus sobrinhos pelo coração.
Mais cedo ou mais tarde, imagino que, à guisa de um templo espírita, vocês terão mesmo que construir um barraco; lamento não estar aí para lhes fazer a minha contribuição em espécie, no entanto pedras e tijolos não haverão de lhes faltar...
Quanto mais simples o centro e menor o grupo, menos possibilidade de complicação.
Coloque só gente amiga e conhecida na directoria.
Eu tenho birra de directorias, mas, diante das exigências legais, o que vamos fazer?
Que a tónica seja a Caridade e não a Mediunidade.
Como nos fala o caro Odilon Fernandes, não raro, a mediunidade, em vez de ser solução, passa a ser problema.
É óbvio que o nosso Instrutor se refere à falta de discernimento do médium, já que, em si mesma, a mediunidade é uma faculdade neutra; o fogo pode ser utilizado como luz ou labareda, fogueira que clareia a escuridão ou chispa que incendeia a floresta...
Quanto ao fato de você vir para cá, estaremos, sim, de portas abertas para recebê-la, só não podendo lhe garantir se, até lá, ainda estarei de fora das grades; de qualquer modo, porém, se for da Vontade de Deus, nos encontraremos.
Com o meu cordial abraço, solicitando as suas escusas, sempre o servidor agradecido..."
Assinei a missiva, envelopei-a e, após endereçá-la, chamei Manoel Roberto.
— Aqui está - disse-lhe.
Por favor, trate de postá-la...
— Postá-la, Doutor?! Como?...
— Não sei; você se arranje...
Não vive se gabando de que tem amigos influentes?...
— Doutor, o senhor me surpreende a cada dia!
— Faça entrar o próximo paciente.
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