ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 13, 2018 12:18 pm

CAPÍTULO 17
Tomei um gole d'água, não que estivesse com sede.
— Não teria nada de errado se estivesse -, mas para lubrificar as cordas vocais, pois, afinal de contas, por quase duas horas argumentava sem parar com meus pacientes...
Penso que, no estágio espiritual em que me encontro, com milhares e milhares de outros espíritos, se não necessitasse de boca como órgão fonador, a evolução já a teria eliminado; enganam-se - de novo, enganam-se - quantos imaginam que os desencarnados adquiram subitamente a faculdade da telepatia, dispensando, no contacto uns com os outros, o concurso da palavra articulada.
— Dr. Inácio Ferreira? - disse, assomando à porta do consultório a figura de um homem bem apresentável.
— Sou eu mesmo, por enquanto... Acomode-se.
— Por enquanto?...
— É este um dos meus nomes, das dezenas de nomes que, com certeza, me rotularam nas múltiplas existências.
Estou Inácio, sem saber se, de facto, sou Inácio e por quanto tempo serei...
Mas não se preocupe: não sou um camaleão; você está me vendo como, de hábito, me apresento - infelizmente, esta é a minha melhor cara...
— Estou aqui, Doutor, justamente por este motivo:
eu não creio na Reencarnação...
Não sou espírita e, por insistência de amigos, vim para uma consulta.
Dizem que estou morto...
Ora, como pode ser uma coisa destas?
Posso estar louco, mas morto, não!
— Concordo...
— Não estou morto, não é?
— Não, a morte não existe - é uma utopia, uma balela...
Nada desaparece da economia do Universo.
As coisas, os elementos e os seres sofrem mutações, de parecença, mas jamais perdem contacto com a própria identidade.
Faço-lhe aqui uma indagação que não é minha:
se alguma coisa desaparecesse, para onde iria?
— O senhor disse que não estou morto... E louco?...
— Vamos conversar a respeito.
Alguém constatar ou admitir a loucura em si é mais difícil que admitir ou constatar a própria morte ou o que nos acostumamos a chamar assim.
— Para mim, a Vida é uma só, inteira, não-segmentada...
Disseram-me que estou no Plano Espiritual; sinceramente...
— A Vida - você tem razão em qualquer parte, é sempre a mesma; os diferentes Planos em que ela se manifesta têm inúmeros pontos de contacto, o que a torna, como bem a definiu, inteira.
Não existe solução de continuidade entre uma maneira e outra de a Vida se expressar.
Tudo, basicamente, se resume em menor ou em maior densidade da matéria - da velocidade das partículas que a constituem...
— Eu não entendo nada de Física.
— Nem eu sou especialista no assunto.
— Quem me garante que morri, se sou a mesma pessoa?!...
Por que a paisagem à minha volta se alterou?!...
Por que os meus familiares e outros amigos?!...
Por que não tenho mais o mesmo estilo de vida?!...
— O Espiritismo ensina que a morte é uma viagem, e, quando a gente viaja, é natural que deixe certas coisas que nos serviam de ponto de referência para trás.
Por exemplo, se nos mudamos para um país estranho, teremos que nos adaptar ao clima, à cultura, aos hábitos do povo.
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 13, 2018 12:18 pm

Não podemos, é lógico, exigir que se adaptem à nós...
Seria um contra-senso!
— O senhor acredita que tenha morrido?
— Um defunto velho, quase uma múmia - não tenho a menor dúvida!
— Não poderíamos, os dois, estar vivenciando um pesadelo?
Doutor, se nada à nossa volta é real?...
— A Realidade só existe em Deus!
O resto é projecção transitória da mente.
O que nos rodeia é ilusório.
O espírito está para além de toda forma e limitação.
— Suponhamos que eu tenha morrido: fisicamente, não tenho como constatar o fenómeno...
Tudo é semelhante, quase igual - para mim, idêntico: o meu corpo, os valores, as preocupações...
A diferença é imperceptível.
Quando entrei, o senhor estava acabando de tomar água...
Não posso estar delirando: o copo d'água, como prova, ainda jaz sobre a mesa.
Temos fome - pelo menos, eu continuo tendo necessidade de almoçar e jantar, todos os dias.
O Sol está brilhando lá fora; as pessoas se movimentam, trabalham e... fazem sexo.
Se há morte e a vida continua, a ilusão também!
Ora, vivíamos iludidos e, mortos, prosseguimos iludidos?
Não dá; não tenho cabeça...
— Compreendo...
Como você - perguntei - explica a ausência de seus familiares mais próximos?
A casa em que presentemente mora é diferente da sua, não?
— É um sonho do qual, de repente, posso acordar, ou não.
Digo que é sonho, o que está mais para pesadelo.
Ninguém é capaz de dimensionar a duração de um sonho...
— Podemos, se for o caso, ir à sua cova.
Quem sabe, deparando-se com o seu esqueleto?...
— Já tentaram isso comigo e não deu resultado.
— Então, disse, o diagnóstico é mesmo de loucura; você está louco - não daqueles que atiram pedra na Lua, mas ainda chega lá...
— Doutor, eu sou um homem pacífico; louco, eu tenho certeza de que não...
Desculpe-me, mas já aventou a hipótese de a loucura ser do senhor?!
Confesso-lhes que a minha cabeça baratinou, pois.
no começo de minha morte, essas ideias haviam me assaltado.
E o homem, que me disse chamar-se Confúcio, continuou:
— Com todo o respeito, o senhor e os espíritas podem estar alucinados...
Allan Kardec, não é? - a quem vocês chamam de Codificador?
— Sim, o Codificador da Doutrina.
— Que pode não passar de uma teoria mirabolante da cabeça dele - um incontido anseio de imortalidade, natural em todos os mortais.
— Outros corroboraram os seus pensamentos...
— O povo é massa de manobra; a multidão concordou que Jesus deveria ser crucificado...
— Você acredita em Jesus Cristo?
— Como personagem histórico, não; acredito que "ele" seja a personificação do que o ideal humano contém de mais elevado...
Jesus, até prova em contrário, foi "criado" - a mais bela gestação mental do inconsciente colectivo da Humanidade!
— Meu Deus!...
— O quê?...
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 13, 2018 12:18 pm

— Nada, meu filho, estou chamando por Deus - respondi.
Como você disse chamar-se mesmo? Confúcio?...
Não, Doutor: Confúcio!
Os meus pais me deram este nome em homenagem ao...
— Eu sei, antes, porém, fosse Bastião (nada contra os Sebastiões, por favor!
Tenho um grande amigo dentre eles, o nosso estimadíssimo Sebastião Bernardes Carmelita)...
— O senhor está me tirando uma casquinha, não?
- perguntou, cortês, esboçando um sorriso na comissura dos lábios.
— Não leve a mal; você está sonhando - redargui em tom mais ou menos irónico, como, positivamente, não era de meu feitio.
— Conversar com o senhor é agradável; trata-se de um homem inteligente e espirituoso.
— Tentemos resumir - solicitei: para você, a Vida...
— ...é simplesmente a Vida.
Esse negócio de reencarnar, desencarnar não faz o menor sentido...
Querem, não sei por quê, me convencer de que a Verdade é esta.
Daqui a pouco, estarei despertando e, então, tudo voltará ao normal: abrirei os olhos e estarei em casa, no ambiente que sempre me foi familiar.
— Que seja, mas você morrerá, um dia?
— Mas não morri...
Nunca me senti tão pleno de vida.
— E quando morrer?
— Talvez vire pó!
Estive pensando.
A Reencarnação, por exemplo:
talvez aconteça, em se referindo às moléculas que nos constituem...
É difícil, realmente, admitir que algo possa se perder no Universo.
Quem foi que disse que "em a Natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma"?
— Lavoisier!
— O senhor concorda?
— Em parte.
— Contradiz o grande cientista?...
— Acho que ele deveria ter dito:
a partir da Criação Divina, nada se cria de original; a primeira criação, da qual todas as outras derivam, existiu...
O Universo foi criado, num dado instante.
"Haja luz; e houve luz".
— Bem, os nossos átomos, ou seja lá o que nos estruturar, "reencarnariam" em formas subsequentes, não necessariamente humanas.
Os amigos que me convenceram a procurá-lo são adeptos da tese de que já "fomos" pedra, planta, bicho, gente...
— O princípio inteligente em sua escalada evolutiva!
— Não cogito do espírito, Doutor.
Refiro-me ao de que somos formados - não sei como nomeá-lo...
Admito, sim, que, conforme dizem os espíritas, já vivemos muitas "vidas" e... tornaremos a vivê-las.
Somos imortais a partir daí...
— É uma concepção materialista.
— Não morrerei! Serei sempre alguma coisa, em algum lugar...
Agora, essa teoria de que o espírito progride, de que somos essência, de que a nossa natureza difere do que chamamos matéria, sinceramente...
Allan Kardec, repito - ele e tantos outros -, pode ter sido um homem bom, mas equivocou-se; aliás, todas as religiões que nasceram da adoração aos elementos da Natureza se equivocaram.
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 13, 2018 12:19 pm

CAPÍTULO 18
Deixei-o falar à vontade, enquanto pensava, pensava...
Como somos diferentes, os filhos de Deus!
Como o Pai nos tolera e nos espera, pacientemente, sem jamais violentar-nos a consciência!
Cada espírito - um mundo completamente à parte, um universo em si mesmo!...
Percebi que, naquelas circunstâncias, pouco poderia fazer pelo paciente que amigos encaminharam ao meu consultório.
Longe de mim a pretensão de realizar o trabalho do tempo, que, em síntese, é o trabalho de Deus.
Apiedei-me do amigo e comecei a me imaginar no lugar dele; sim, poderia perfeitamente ser eu, se, em determinado instante da caminhada evolutiva, não tivesse conhecido a Doutrina Espírita, à luz do Evangelho do Mestre.
Por onde vagaria o meu espírito, de temperamento difícil, caso outras concepções filosóficas tivessem feito a minha cabeça?
Confesso-lhes que tremi só de pensar e, inspirado pela compaixão, argumentei como se estivesse dirigindo a palavra a um jovem impetuoso - o espírito milenar à minha frente, mas que ainda não havia logrado o necessário amadurecimento do senso moral.
— Filho - disse-lhe, num fiapo de voz -, o que tenho a lhe falar é que, independente do que você pensa, procure fazer o bem; torne-se útil, sem se importar que esteja sonhando ou acordado...
Tudo existe para cumprir determinado objectivo na Vida.
Não posso, evidentemente, fornecer a você uma prova da existência do Criador, mas, com base na lógica, há de convir comigo que não podemos ser obra do acaso - o acaso não é inteligente, ao contrário, é o caos; se lhe atribuíssemos inteligência, o proclamaríamos Criador!
Há uma Lei presidindo todos os fenómenos...
— É razoável - admitiu.
— O movimento dos astros, o ritmo das ondas, o pulsar do coração - tudo revela uma certa harmonia, que transcende a nossa compreensão imediata.
A semente, a flor, o fruto...
Existe ordem, sequência.
A criança, o jovem, o velho, a vida e a morte.
Os estados emocionais que se alternam, que vêm, vão e tornam a vir.
O dia e a noite, o frio e o calor, a tristeza e a alegria...
As coisas estão perfeitamente arranjadas.
Vivemos, sonhando ou acordados - não importa -, dentro deste contexto, somos, queiramos ou não, partes integrantes do Todo, partes essenciais...
Não temos, sonhando ou acordados, como nos subtrair do processo - nada, absolutamente nada nos coloca à margem...
Está entendendo?
— Continue, continue - solicitou.
— Desculpe-me; outro, talvez, tivesse melhores argumentos...
Esqueçamos a vida, esqueçamos a morte, do que somos ou não somos constituídos; o certo é que estamos aqui conversando, ou não?
— Estamos!
— Sonhando ou acordados...
— Sonhando ou acordados...
— Então, procuremos vivenciar esta realidade ou ilusão.
O mal conspira contra a nossa felicidade, essa sensação de bem-estar íntimo que experimentamos, de paz que não se traduz.
Você, por exemplo - permita-me perguntar -, está satisfeito consigo?
— Não, Doutor, não!
Aparentemente, sim, mas sou um homem angustiado...
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 13, 2018 12:19 pm

Não gosto desta situação.
Falta-me algo, que não sei o que é.
Sofro de depressão crónica; não tenho ânimo para nada!
— Animo!... Anima...
Você sabe o que significa?
— Alma, não é?
— Falta de ânimo - falta de alma!
— Alma, espírito...
Voltamos à estaca zero.
— Você admite que pensa para falar?
— É claro!
— Então, falemos em pensamento...
— Admite que sente?...
— Sim, tenho sensibilidade.
— Então, falemos em pensamento e emoção; mera questão de terminologia - já que você não quer falar em alma e espírito.
— Responda-me: uma pedra pensa?
— Até onde sei, não.
— Você é mais que uma pedra!
— As plantas?...
Têm emoções como as suas?
— Como as minhas, não.
— Você é mais que uma planta!
— Os animais?...
É capaz de se entender racionalmente com algum deles?
— Não!
— Você é mais que um animal!
— Ou menos?...
— Não apele, Confúcio, não apele.
Seja sincero.
— O senhor está me confundindo.
— Absolutamente!
— O senhor está me fazendo sentir-me algo...
— Óptimo!
— Eu não quero, não creio...
— Não crê ou não quer?
Escolha. Ou não crê porque não quer?
— Não quero o quê?
— O que eu também não queria - a responsabilidade!
— O senhor é um bruxo!...
— Sonhando ou acordado?
— Eu quero ir embora...
Por favor, não consigo me levantar desta poltrona.
O que está fazendo?
— Não toquei em você!
— Tocou, tocou sim!
O senhor é um feiticeiro!
Socorro!... - começou, inexplicavelmente, a gritar.
— Como é mesmo o seu nome? - inquiri de propósito.
— Confúcio!
— Se você responde por um nome, admite a sua individualidade.
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 13, 2018 12:19 pm

— É uma tortura... Meu Deus!
— Você chamou por Deus, Confúcio?
— Pare, pare... Não quero.
E, tapando os ouvidos, repetia sem pausa, numa reacção inesperada para mim:
— Sou átomo, sou molécula, sou pó...
Sou átomo, sou molécula, sou pó...
— Meu filho, responda-me - insisti prevalecendo-me de minha força telepática, para que as minhas palavras ecoassem em seu cérebro:
Um átomo faz o que quer?
Dirige ou é dirigido?
— Não, um átomo não tem vontade própria...
Pare, pare com isto!
— Então, você é mais que um átomo; se fosse passivo, não reagiria...
O que é um grão de poeira que o vento conduz para onde quer?
— O meu cérebro vai estourar!
Olhe para mim...
Relaxe e acalme-se!
— Um copo d'água...
Estou me sentindo mal.
Se soubesse, não teria vindo...
O senhor me hipnotizou, não?
— Quem me dera ter esse poder!...
Não, eu não o hipnotizei.
Creio que começamos a fazer o contrário.
De respiração ofegante, Confúcio, prostrado na poltrona, se mostrava lívido, e, sinceramente, passei a me preocupar com ele.
— Doutor, sinto-me desmoronar...
Não me deixe morrer!
— Já discutimos muito sobre a morte hoje...
— O que está acontecendo?
— Nem eu sei.
— Qual o seu diagnóstico?
— Mente espacial e temporalmente deslocada da realidade - voluntariamente deslocada da realidade!
— O que é? Não estou entendendo...
— Amnésia atemporal, ou seja:
você apaga a memória do passado e anula a perspectiva do futuro!
Tem muita gente com a sua doença, em quadros mais ou menos graves; o seu é dos mais graves que tenho visto.
— Um remédio, Doutor, quero dormir, dormir profundamente...
Ai, a minha cabeça!...
— Confúcio! - chamei-o, sem, contudo, evitar que desfalecesse.
Accionando pequeno dispositivo à guisa de campainha, solicitei a presença de Manoel Roberto.
— Providenciemos a sua internação e avisemos os amigos.
— O que houve?
— Não sei, conversávamos e...
— Quase não tem pulso!
— Dormirá por longo tempo.
— Parecia tão bem disposto...
— Manoel, você se lembra daquela senhora que certa vez, desmaiou no meu consultório?
— O esposo queria processar o senhor...
Ficou mais de um mês em estado comatoso!
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 13, 2018 12:19 pm

— Sem nenhum problema físico...
Fizemos todos os exames, chamamos diversos cardiologistas ao Sanatório.
Depois ela acordou e... foi para casa.
— O marido, que queria mover um processo na justiça, depois escreveu agradecendo: a mulher, extremamente geniosa, como que mudara de personalidade...
— Quando chega a hora de sermos despertados ou de despertarmos alguém, Deus põe certas palavras em nossos ouvidos ou em nossos lábios - palavras comuns, que, com certeza, já foram ditas um milhão de vezes, mas que, naquele instante, soam diferentes.
Eu não havia falado nada demais com aquela senhora...
Conversávamos somente!
— Doutor, o senhor é meio estranho mesmo!
— O que você insinua?
Que eu tenho parte com...
— Com Deus, Doutor!
— Ainda bem, pois perdi a conta das vezes que me acusaram de feiticeiro, sem que eu conheça uma única fórmula cabalística.
Eu até queria mesmo saber fazer certas mandingas...
Por falar nisto, ainda envergávamos a carcaça física, quando lhe emprestei o meu exemplar de "A Cruz de Caravaca" e você não mo devolveu!
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 13, 2018 12:19 pm

CAPÍTULO 19
No intervalo do atendimento aos pacientes, enquanto aproveitava para respirar (graças a Deus, o trabalho no Hospital era intenso e não me concedia trégua), pus-me a pensar nos companheiros de Doutrina que, infelizmente, não conseguiram avançar além do campo teórico; estavam sempre prontos a discutir sobre determinados temas polémicos e opinar sobre actividades no centro espírita, sem nunca darem a sua contribuição efectiva ao serviço inadiável.
De ainda encarnado, lembro-me, especificamente, de um deles, que aqui identificaremos pelo nome de Alan - ainda bem que com um 'l' só...
Alan era o que, na actualidade, se poderia chamar de um espírita zen, como tantos que enxameiam em nossas fileiras; entendera que Jesus, em vez de dizer "Bem-aventurados os mansos e pacíficos", dissera:
"Bem-aventurados os mansos e passivos"...
De quando em quando, conversávamos e, confesso, sem vontade nenhuma de minha parte, já que, em termos práticos, não surtia resultado algum.
De mãos nos bolsos, aparentando tranquilidade, fala mansa, ele não contribuía com o menor esforço em benefício da Causa; vivia escutando música clássica, exercitando yoga, com a cabeça nas nuvens, preocupado apenas com o seu bem-estar físico e espiritual e mais nada.
— Como é, Doutor?
Na luta de sempre? - perguntou-me num dia daqueles em que o meu estopim estava um pouco mais curto.
Tenho lido os artigos do senhor em "A Flama Espírita"...
Parabéns! O senhor é um homem corajoso, combativo...
— Carecemos de nos movimentar, não é? - cutuquei.
O Espiritismo não precisa de adeptos que façam número...
E você, como vai? Frequentando algum centro?
— Numa boa...
Leio os meus livros, faço as minhas orações, tomo passes.
— Toma passes, onde?
— Com uma senhora que atende em casa; é óptima médium, passista e vidente...
No mais, cuido do meu jardim; sou coleccionador de orquídeas.
— Alan, o Espiritismo faz tanto por nós!
Precisamos fazer por ele, nem que seja o mínimo.
Com o seu potencial, você poderia ajudar muito; tem centro espírita que não conta com gente sequer para efectuar a leitura de um trecho de "O Evangelho" nas sessões públicas...
— Eu sei, mas, por enquanto, não posso assumir compromissos...
— Não pode ou não quer?
Você não tem problema financeiro; conforme me disse noutra ocasião, vive de aplicações bancárias, possui vários imóveis de aluguel...
O Mundo Espiritual não é como você imagina!
— Doutor, a convivência em grupo não é fácil; o senhor vai me perdoar, mas os espíritas exploram muito - pedem dinheiro, fazem diversas campanhas, vivem criando tarefas novas...
O essencial é a iluminação íntima.
Decidi cuidar de mim. É o bastante.
— Meditando, fazendo exercícios, contemplando a Natureza, numa boa?...
— Tenho, porém, repito, uma grande admiração pelo senhor e pelo seu trabalho.
— Desculpando-me a franqueza, dispenso a sua admiração por mim; estou convicto de que cumpro, e mal, o meu dever...
— Primeiro, eu preciso me preparar melhor...
— A gente se prepara é vertendo suor!
A qualquer hora, você deixa o corpo e vai chegar ao Outro Lado de mãos completamente vazias!
— Também não é assim; eu faço as minhas caridades...
— Alan, você é muito zen para o meu gosto - atalhei, procurando me conter.
Você está sempre elegante, magro...
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 13, 2018 12:20 pm

— Não como carne, não fumo, não bebo...
— Eu faço isto tudo e muito mais: como carne, fumo, bebo e o resto eu não vou lhe contar; sou um pecador confesso...
— Bebe socialmente, não é?
— Tomo o meu vinho todos os dias.
— E como é que vai para o centro fazer palestras, doutrinar espíritos?...
— Com as minhas emanações etílicas e, de sobra, cheirando a nicotina...
— O senhor não deveria falar isto para os outros.
— Eu não preciso falar: o pessoal cheira!
— Depõe contra o senhor: médico, líder espírita...
Sinceramente...
E, perdendo a paciência com o espiritista zen, resolvi esculachar de vez:
— As vezes, fico um dia ou dois sem tomar banho!
— O quê?!...
— Não tenho tempo.
Ah, olhe o tamanho das minhas unhas! - disse, mostrando-lhe as das mãos.
— Nossa!...
— A dos pés, eu não vou tirar sapatos e meias aqui...
— Não, não precisa!
Seria constrangedor.
— Para as suas narinas e as dos pobres transeuntes!
Você tem razão: vou poupá-los...
Crendo-me certamente perturbado, Alan, olhando ao redor, ameaçou deixar-me falando sozinho na calçada.
Espere aí - segurei-o delicadamente pelo braço - ainda não terminei.
Veja a minha protuberância abdominal, contrastando com a sua barriga de atleta...
— É uma questão de saúde; não de vaidade.
— Coronárias entupidas - as minhas - quase enfisematoso, pré-diabético - devo tomar um litro, ou mais, de café, por dia...
Você tem uma bela arcada dentária, o rosto sem rugas; veja o meu como está todo pregueado!
E, tirando as chapas da boca, ou seja, as dentaduras:
— Pode tocá-las!
Não tem problema...
— Não, Doutor...
— Ainda não pude lavá-las hoje, mas não contaminarão você; poucos micro-organismos proliferariam em meio à acção sistemática da nicotina e da saliva abundante que sou obrigado a gastar.
— O senhor está bem? - perguntou, desconfiado.
— Óptimo!
— Eu não sabia que andava assim tão mal.
— Alan, o meu cabelo está caindo:
não sei se é sífilis...
— Sífilis, Doutor? - retrocedeu um passo.
— É, sífilis.
Não faça mau juízo de mim; afinal de contas, convivo com muita gente...
Os banheiros do Sanatório, você precisa ver:
um horror, calamidade pública!
Fezes e urina de cima em baixo; a gente entra pisando naquela lagoa, em que nenhum sapo sobreviveria...
— Falta de higiene...
— Falta de voluntários!
Você não teria uma hora ou outra disponível?...
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 13, 2018 12:20 pm

— Estou lendo "O Livro dos Espíritos"; aliás, decidi reler todo o Pentateuco - reler, fazendo anotações.
Gostaria imenso de colaborar, mas...
— Mesmo? Não sobra nem um tempinho, por exemplo, de manhã ou à tardinha, durante a semana?
— De manhã, pratico yoga, exercícios respiratórios; à tarde, tenho mais de uma centena de vasos de orquídeas - são flores sensíveis que requerem cuidados.
— No sábado, no domingo?...
— No sábado, tenho reunião no clube - sou da directoria - e, às vezes, vou pescar com os amigos; no domingo, o senhor sabe...
— Não, não sei.
— Vem o meu irmão, com os meus sobrinhos...
— Você já se casou?
— Não, estou namorando.
— Aquela mesma coitada?
— Não fale assim, Doutor: somos noivos!
— Há quase 10 anos, não?
— 9, Doutor!
Enquanto a mãe dela for viva, não tem jeito...
— E a velha, não morre? Quantos anos?...
— 90!...
— Que prova, meu Deus!
— A dela, não é? Viver tanto assim!
— Não, a de sua noiva...
Consultando o relógio de bolso que estava preso por uma corrente dourada no colete, anunciou:
— Quase 11 horas! Preciso ir!
Deixei o meu poodle ali na clínica veterinária...
— Alan! Alan! - alertei-o, antes que se retirasse.
Você está perdendo a encarnação...
Arregace as mangas, homem!
O corpo de carne é putrescível.
O conhecimento espírita por si só não vale nada - significa muito pouco.
Você já está com quase 50 de idade...
— Faço o que posso.
— Não faz coisíssima nenhuma!
Aquele que mais faz pela Doutrina ainda continua devendo.
Olhei para os sapatos dele e os meus:
— Os seus sapatos estão brilhando - comentei.
— Eu os engraxo sempre!
— Engraxei os meus ontem, mas hoje, de manhã, um paciente vomitou nos meus pés - sujei, inclusive, a barra da calça...
— A profissão de médico...
— Não é a profissão de médico, é a profissão de fé!
— O senhor é um abnegado...
— Não se trata de abnegação, mas de consciência da necessidade própria.
Não é a Medicina que ensina isto, não - é o Espiritismo, é a Vida!
— Preciso ir buscar o meu poodle; deixei-o para tomar um banho e tosar os pelos...
— Deus queira que, no Além, você não venha a ser tosado, como eu e o seu cachorro estamos sendo aqui...
— Intimamente, estou bem, estou bem - repetiu!
— É o que importa.
E saiu, a passos largos, somente ousando olhar para trás quando dobrava a esquina, certificando-se de que eu não o seguira.
Havia, sim, concordo, exagerado um pouquinho no diálogo com o companheiro, mas, por outro lado, vendo tantos confrades assoberbados, a minha paciência se esgotara com aquele Espiritismo Zen de Alan e de tantos outros que só querem filosofia e aplauso, bajulação e vedetismo.
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Ave sem Ninho

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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 14, 2018 9:59 am

CAPÍTULO 20
Reportei-me ao caso de Alan porque, encaminhando o último paciente do dia, Manoel Roberto, antes que o fizesse entrar, observou:
— O senhor vai ter uma surpresa...
— Surpresas para mim, depois da morte, já não mais se constituem em novidade - comentei.
— Alan, é a sua vez - anunciou, promovendo maior abertura na porta e concedendo passagem ao companheiro hesitante.
— Alan, é mesmo você? - perguntei, com dificuldade inicial para identificá-lo sob aquele semblante abatido e taciturno.
— Como o senhor costuma dizer, com um só, Doutor!
— Nada em comum com Allan Kardec...
— Infelizmente, nada.
— O que houve, homem? Sente-se.
Eu não sabia que você tinha morrido...
Certas notícias demoram a chegar por aqui; já outras chegam depressa demais.
— Morri, Doutor.
Morri um pouco depois do senhor, vítima de um enfarte...
— Enfarte?! Com aquele corpo esbelto, barriga de atleta, com aquela sua tranquilidade zen?!...
— Com aquela tranquilidade zen e tudo.
— Como?! Não bebia, não fumava, não comia carne...
Casou-se, Alan?
— Não, a mãe de minha noiva foi aos 95 de idade e... desistimos, depois de quase 15 anos de noivado.
— A senhora que seria sua sogra?...
— Apegou-se à filha de tal maneira, que...
Bem, a verdade é que eu nunca me entusiasmei muito com a ideia de me casar; gostava de viver sozinho, de curtir a minha casa...
— As suas orquídeas...
— Eu e a Valéria chegamos a um acordo:
desmanchamos o noivado e ficamos amigos - não foi uma ruptura litigiosa.
— O relacionamento não resistiu à acção corrosiva do tempo, não é?
— Foram mais de 20 anos:
15 de noivado e uns 6 de namoro...
— Ficou para a próxima - que agora, de facto, ficou mais próxima - encarnação...
— É - respondeu desenxabido.
O meu drama maior, porém, não é este.
O senhor se recorda de suas advertências a mim?
— Desculpe os meus exageros, Alan.
Reconheço que excedia.
Inclusive, em uma das últimas vezes que nos encontramos, creio que passei das medidas.
— Não, comigo não, deveria até ter sido mais duro.
O senhor era a única pessoa que me falava as verdades.
O resto contemporizava.
Sabe, Doutor?, eu procurava evitá-lo...
— Sempre pegando no seu pé, não era para menos!
— Quando o via passando por uma rua, mudava
de caminho; muitas vezes, avistando-o na agência bancária, eu não entrava...
— Neste sentido, também tenho algo para confessar: eu fazia de conta que não via você...
— Quer dizer...?
— ...ultimamente - perdoe-me -, eu tinha preguiça de conversar com você, pois sabia que a conversa não iria render nada...
Aquele seu Espiritismo zen...
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 14, 2018 10:00 am

— Equivoquei-me por completo; iludi-me!
— O Espiritismo, Alan, é uma doutrina de acção, de trabalho, de calejar o espírito...
Ser espírita não é ser santo, mas não é mole, não!
— Quando me vi fora do corpo, imaginei que fosse sonho...
Fiquei tentando retomá-lo um tempão, e o meu poodle de estimação latindo em volta da cama.
— Foi dormindo?
— Um colapso fulminante de madrugada!
— Quem poderia supor que as suas coronárias estivessem entupidas: yoga, vida metódica...
— Metódica demais, Doutor!
Agora estou aqui, pedindo serviços como voluntário.
— Finalmente!
Disposto a enfrentar a barra?
— É o jeito...
O senhor conhece outra alternativa?
— Não!
— Há algo que eu possa fazer de imediato?
— "Os banheiros do hospital, você precisa ver:
um horror, calamidade pública!
Fezes e urina de cima em baixo; a gente entra pisando naquela lagoa, em que nenhum sapo sobreviveria..." - respondi, esfregando as mãos feito um sádico para fazê-lo sorrir.
— Eu tinha raiva...
— Eu sei, de mim!
Não tem problema!
Você não está sozinho nesta...
— Achava-o excessivamente petulante.
— Tem gente que ainda acha - petulante e orgulhoso!
— Enganei-me.
— Talvez não, Alan!
Admito que, no fundo, talvez eu seja mesmo.
O pior orgulho não é aquele do rico contra o pobre, o de origem racista, religiosa ou cultural; o pior é o que, veladamente, nos faz crer que, do ponto de vista espiritual, estamos em posição superior à dos outros.
É um perigo, quando nos convencemos de que a Verdade está exclusivamente connosco; isto nos torna moralistas...
Os Espíritos Amigos viviam me advertindo a respeito.
Existem muitos espíritas assim:
porque conhecem parcela da Verdade, menosprezam os que a ignoram.
Lembrei-me da ocorrência de um diálogo que certa vez, mantive com um companheiro que me procurou - um irmão de ideal de Recife, Pernambuco, que fora a Uberaba especialmente para uma consulta.
— Alan - disse, sumariando -, tem um caso de obsessão interessante, se é que algum processo obsessivo possa ser considerado assim.
Fui, em meu consultório, procurado por um confrade de Recife.
— Doutor, eu estou perturbado! - falou logo que entrou e se acomodou.
Sou espírita e sei que estou perturbado...
— Só de admiti-lo, o caso não é tão grave assim.
— É sim, Doutor.
Começou de uns dois anos para cá...
Tenho me submetido a tratamento de passes, participado de desobsessão...
Aliás, até meses atrás, eu dirigia o grupo.
De repente, com subtileza...
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 14, 2018 10:00 am

— Seja claro; fale tudo que você tiver que falar, sem a preocupação de escolher palavras.
Estamos aqui eu e você, que viajaria tamanha distância para...
— Não, eu vou dizer.
O senhor tape um dos ouvidos, para não se escandalizar tanto. Aparentemente do nada, comecei a pensar que, por ser espírita, o meu espírito era mais limpo que os dos outros, o meu corpo, o meu sangue e até as minhas fezes...
— Continue - encorajei-o, pois, sem dúvida, tratava-se de um quadro obsessivo inusitado.
— Doutor, eu passei a acreditar, e ainda acredito, que nós, os espíritas, temos uma constituição diferente, física e espiritual, das demais pessoas, que são inferiores e sujas.
Eu jamais seria capaz de beijar a boca de uma mulher que não fosse espírita:
aquela saliva pegajosa e fétida!
Nem de me conspurcar, me relacionando sexualmente com ela!
Para mim, o senhor me perdoe...
— Fale tudo!
— O espírita não solta gases, não arrota, não ronca, não cospe no chão...
— Não?
— Não! Isto é coisa de espírito inferior...
— Eu tenho muita flatulência... - consolei-o.
— O senhor?!...
— Uma produção tremenda de gases que, por algum orifício, devem sair.
— Está brincando!
— Prossiga - solicitei.
— Fico olhando as outras pessoas na rua: católicos, protestantes, ateus...
Essa gente é inferior!
Não consigo deixar de pensar assim: o sangue deles - não é possível! - não é como o nosso; o ar que exalam de seus pulmões é contaminado!
Quando entro num banheiro público em que defecaram ou urinaram, Deus me livre!
O Espiritismo nos torna puros de corpo, o senhor não acha?
A esta altura, de propósito - creiam ou não, essas minhas atitudes de irreverência faziam parte do meu processo terapêutico -, enfiei o dedo no nariz e comecei a cavucá-lo...
— Vamos! Não pare! - insisti com o paciente.
— Doutor, o espírita não enfia o dedo no nariz...
— É o que mais faço, meu filho; é um dos meus hobbies preferidos...
— É anti-higiénico...
— Tem umas cacas que se enrolam nos pelos das narinas e dão o maior trabalho! - afirmei, vitorioso, mostrando uma delas dependurada na unha do indicador direito, ante o olhar incrédulo dele.
— O suor, Doutor - seguiu, hesitante -, o suor do espírita, os hormônios do corpo...
— Não anda muito fácil ver suor de espírita, não; só se for lá pelas suas bandas, onde faz muito calor.
— O que tem a me dizer? - afinal, perguntou.
— Uma obsessão e tanto!
— Tem cura?
— Se você se submeter ao tratamento!...
— Tomo qualquer medicamento.
Nem a presença do senhor eu estou aguentando direito!
— Dá-lhe asco, não é?
— O senhor me pediu...
— ...que falasse tudo!
— Escarrou no lenço duas vezes, Doutor!...
— Um escarro amarelado...
Quer ver? - ameacei tirar do bolso do jaleco o produto da gripe forte daqueles dias, com leve teor de nicotina e alcatrão.
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 14, 2018 10:00 am

CAPÍTULO 21
Não, não! - apressou-se em responder Bezerra Veríssimo, o nome do companheiro de Recife.
— Dois meses comigo, no Sanatório!
— O quê?!...
— Dois meses internado, um pouco mais, um pouco menos, e é possível que você melhore.
— Os obsessores se afastarão de mim?
— Se eles se afastarão de você, não sei, mas você se afastará deles.
Isto eu posso lhe garantir, pois, afinal, conserva alguma lucidez.
— Remédio não resolve, Doutor?
Tenho negócios em Pernambuco...
— Telefone e avise a família.
— A esposa ficou no hotel...
— Então, será mais fácil.
Se quiser, pode usar o meu telefone e...
— Preciso, pelo menos, pegar a mala, acertar com o gerente...
— Veríssimo - disse-lhe - é daqui para o Sanatório ou... você não volta:
irá directo para a Rodoviária.
— Dois meses?...
— 60 dias!
— Num quarto em separado?
— Numa cela individual...
— Cela?...
— Lá não é um hotel; mas você ficará confortavelmente instalado.
E o nosso amigo Manoel Roberto, Alan, que era e continua sendo o meu carma, quanto o dele era e continua sendo eu, veio e levou o confrade de Pernambuco.
Nos 10 primeiros dias, tivemos que vigiá-lo para não fugir:
reclamava da comida, do gosto da água, das roupas que dizia mal lavadas, dos gritos dos outros internos que não o deixavam dormir, do hálito dos funcionários, que, de facto, não era lá essas coisas...
— Eu nunca soube de nada parecido - comentou o confrade zen desencarnado, ou melhor, ex-zen, com quem eu voltava a conversar.
— Mas, aos poucos, Veríssimo foi se enquadrando...
— Os obsessores foram doutrinados?
— No final da segunda semana, praticamente o obriguei a lavar o banheiro, um daqueles...
— "Fezes e urina de cima em baixo; a gente entra pisando naquela lagoa..."
— Exactamente.
— Como conseguiu obrigá-lo?
— Depois do trânsito do pessoal pela manhã, mais ou menos uns vinte, tranquei-o lá dentro, não sem antes, é claro, colocar uma vassoura, um rodo, um balde e alguém de fora com água à sua disposição...
Em seguida, fomos almoçar e, naturalmente, ele estava com a roupa salpicada e, graças a Deus, porque ninguém consegue isto sem a ajuda de Deus, com uma fome danada! Quando terminamos todos de comer, ele, num canto, com os olhos arregalados para mim, aproximei-me e disse-lhe:
— Bezerra - às vezes, também o chamava assim -, o seu cabelo está duro...
Depressa, para o banho! Você está um horror:
nunca vi um espírita, para não dizer outra coisa, cheirando a fossa dessa maneira...
— Manoel Roberto - gritei -, um banho com umas gotinhas de creolina para o nosso amigo!...
E saí do refeitório, tapando as narinas.
— E nos dias subsequentes? - perguntou Alan, identificando-se com a sorte do pernambucano, intuindo, por certo, o que o esperava.
— Tornou-se excelente auxiliar de serviços gerais e, gradativamente, compreendeu que o espírita, seja por dentro ou por fora, não é melhor que ninguém; aquelas ideias estranhas foram deixando de assediá-lo - eu também, observando a eficácia do método terapêutico que não costumava falhar, não lhe dava descanso...
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 14, 2018 10:00 am

No segundo mês, Veríssimo já estava cooperando connosco, dando comida na boca dos internos mais dependentes:
dava gosto, entre uma colherada e outra, vê-lo limpando a secreção abundante que lhes escorria do nariz...
— Quando recebeu alta?
— Exactamente 81 dias depois.
Ficamos amigos e, nos últimos dias, tinha que mandá-lo cuidar da aparência, caso contrário, a saúde pública...
— Doutor, não havia espíritos obsessores com ele?
— Alan, precisamos parar um pouco com esse negócio de tudo rotular de obsessão.
É claro que os espíritos perambulam por aí, notadamente os oportunistas, sempre à espreita.
— Ele tomava passes?
— Todos os dias, às vezes de manhã e à noite.
— Remédios?
— Prescrevi-lhe algo de que não me lembro mais, creio que um placebo.
Remédio não muda a personalidade de ninguém...
No Sanatório, em Uberaba, a nossa farmácia, às vezes, era também o cómodo de material de limpeza.
Graças a Deus, à época, não dispúnhamos de tantas drogas assim, diga-se de passagem, realmente drogas no sentido pejorativo do termo!
— Nenhuma entidade se manifestou dizendo perturbá-lo?
— Não, o problema maior residia nele mesmo, como acontece a você, com esse seu Espiritismo zen...
Alan adquiriu um ar circunspecto e ruborizou-se.
— Meu filho, o que é isto?...
Se Espiritismo fosse só conversa com os espíritos, cultivando a mediunidade, etecetera e tal, não faria mais que as outras crenças têm feito pela Humanidade!
O espírita consciente é aquele que trabalha o seu interior, laborando no campo exterior da Vida.
Desculpe-me a franqueza.
— Sei que preciso ouvir, Doutor. Não me poupe...
— Não me peça isso - caçoei.
— Em matéria de fé, fui muito comodista.
O senhor não sabe quanto me arrependo e lamento a oportunidade que se foi.
Fazia as minhas caridades, mas...
— Detesto a palavra caridade no plural...
Se não se faz caridade, caridades ninguém faz!
Caridade no atacado é um modo de esquivar-se de praticá-la no varejo...
Você dava esmolas, livrava-se de roupas e utensílios usados, contribuía como sócio desta ou daquela instituição...
— O Instituto de Cegos!
— Quantas vezes o visitou?
— Nenhuma!
— Alguma vez, lembra-se de ter auxiliado um cego, pelo menos, a atravessar a rua?
— Não!
— Vamos voltar - argumentei - ao assunto de obsessão; os espíritas adoram o tema...
Por que, por exemplo, os espíritos haveriam de se incomodar com você, se você não os incomodava? Com a sua inoperância espiritual, você era inhambu na capanga...
— O pessoal dizia à boca pequena que o senhor...
— A boca grande, enorme - você quer dizer!
— ...que o senhor, D. Modesta e outros companheiros de frente da Doutrina, viviam atormentados pelos espíritos adversários da Causa!
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 14, 2018 10:00 am

— Não estavam mentindo, não: vivíamos mesmo.
Os espíritos que combatiam o Espiritismo, principalmente os padres desencarnados, nos assediavam dia e noite; no meu caso, quase sem nenhuma sensibilidade mediúnica, chegava a senti-los no meu corpo.
— Como assim?
— As vibrações deles, os seus pensamentos em meu cérebro, inclusive o toque - chegavam a me tocar!
Certa vez, me empurraram escadaria abaixo; rolei por todos aqueles degraus e não sei como não me quebrei todo.
De outra feita, sem mais nem menos, um menino de uns 8, 9 anos me atirou uma pedra com estilingue - eu estava no portão de entrada do Sanatório:
foi a conta de me virar, a pedra, que tinha a minha cabeça por alvo, atingiu-me o ombro e provocou um hematoma.
Você já imaginou que jeito inglório de desencarnar?
De estilingada?!...
— Quantas peripécias, Doutor!
— Pois é, meu caro Alan, enquanto apanhávamos a valer, de encarnados e desencarnados, você curtia o seu Espiritismo Zen, respirando a longos haustos em contacto com a Natureza...
Passando de carro defronte à sua casa, eu o via compenetrado em seus abdominais...
Você deve ter sido a reencarnação de um asceta indiano,
de um yogue, e eu, de um saco de pancadas!
Estou disposto a me redimir - retrucou, humilde.
— Então, mãos à obra, meu caro.
A jornada é longa, e quem não caminha não sai do lugar.
Accionei a campainha electrónica, silenciosa, Manoel Roberto apareceu e lhe fiz as recomendações, pedindo que o amigo integrasse uma das equipes de limpeza do hospital.
Quando ambos se retiraram e, por instantes, pude ficar a sós, efectuando rápido balanço das actividades do dia, entrei a pensar:
— Meu Deus, eu preciso me controlar um pouco mais; não posso ser tão duro assim, principalmente com os irmãos espíritas que por aqui aparecem...
É por isto que, com razão, eles me malham tanto!
Tenho que aprender a controlar os meus impulsos, deixar a língua quieta dentro da boca e não falar tudo que penso...
Como, porém, escrevendo para a Terra, deixá-los iludidos, imaginando que, ao desencarnar, desfrutarão de alguma situação de privilégio?
Eu sei que a Verdade dói aos ouvidos da gente muito mais que uma pedrada de estilingue no ombro - e que pedrada!
Tenho me esforçado para dizê-la de maneira suave, descontraída e até, como também já me acusaram, chula...
Que os meus irmãos encarnados me perdoem, se não possuo ainda a indispensável elevação de espírito para causar-lhes menos hematomas na alma!
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 14, 2018 10:01 am

CAPÍTULO 22
No outro dia, pela manhã, funcionários, voluntários e pacientes em melhores condições, quase aptos a receberem alta do hospital, reuniram-se no auditório da instituição para que eu tivesse oportunidade de falar-lhes em conjunto.
A meu pedido, um dos nossos internos proferiu pequena e sentida prece, evocando a protecção do Senhor.
— Mestre Jesus - orou deixando-nos sob forte emoção -, estamos aqui, Senhor, desejosos de trilhar Contigo um novo caminho...
Fortalece-nos a vontade ainda vacilante e não consintas que as nossas imperfeições se sobreponham, uma vez mais, aos nossos propósitos de renovação.
Agradecemos a Tua Bondade, divina expressão da Misericórdia de Deus, nosso Pai, que nos acolhe nesta casa e nos ensina a recomeçar...
Onde estaríamos se, porventura, amigos abençoados, em Teu nome, não nos descerrassem as portas deste abrigo de luz, erguido nas regiões penumbrosas com as quais nos deparamos depois da morte?
Por certo, prosseguiríamos vagando, indefinidamente, na inconsciência de nós mesmos, qual acontece a tantos irmãos que nos cabe socorrer e auxiliar, tão logo nos sintamos habilitados a isto, engrossando as fileiras dos que já aprenderam a se esquecer para melhor servir-Te!
Por quanto tempo, Senhor, voluntariamente permanecemos à margem do Teu amor, agravando as próprias lutas, ignorando deveres e obrigações que transcendem anseios e caprichos de ordem pessoal?
Por quanto tempo nos fizemos surdos à Tua voz, que sempre nos orienta em meio às adversidades, afastando-nos dos perigosos atalhos e abismos da desilusão nos quais enveredamos ou nos precipitamos de livre e espontânea vontade?
Não nos deixes retroceder, temerosos da corrigenda, nas tarefas de reajuste que nos aguardam nos domínios da carne, quando, então, embora a passos trôpegos, haveremos de reencetar a jornada, em demanda aos Sítios Resplandecentes...
Eis que, uma vez mais, tão-somente Te pedimos:
não nos permitas continuar à mercê de nossas erróneas concepções, padecendo sob o jugo opressor de nossas tendências infelizes!
Contamos Contigo e com os Teus emissários, os espíritos anónimos e benevolentes que se apiedam de nossas fraquezas e, quando prestes a desfalecermos, nos infundem coragem e bom ânimo, estendendo-nos vigorosos braços por escora...
Sê connosco, hoje e para todo o sempre!
A exortação sincera do irmão, que ainda trazia à mostra no corpo espiritual os sinais de desditosas experiências em sua derradeira romagem no corpo, deixara-nos de olhos húmidos e de espírito profundamente consternado.
Aqui e ali, muitos enxugavam discretas lágrimas, inclusive nós, que nos demoramos por instantes a nos recompor emocionalmente, para darmos início à prelecção.
— Bem - comecei, dirigindo-me ao companheiro que orara, tentando descontrair -, você também não precisava fazer com que chorássemos assim!
Simplesmente, ficará proibido de orar em nossas reuniões!...
O pessoal ensaiou pequeno sorriso e, devagar, prossegui:
— De facto, estamos aqui - todos nós - na condição de doentes em recuperação, à excepção de Manoel Roberto, que é um caso perdido, padecendo de uma doença crónica de muitos séculos - tão doente, que nem sei como está de pé entre nós:
deve ser o seu espectro...
- disse com uma piscadela ao amigo, que sempre me prestava o seu apoio em situações constrangedoras semelhantes.
O grupo reunido sorriu um pouquinho mais e dei sequência à fala daquela manhã.
— Devemos nos considerar felizes e nos sentirmos incentivados à recuperação...
Muito trabalho a ser realizado permanece na expectativa de nossas mãos.
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 14, 2018 10:01 am

É uma bênção!
Quanto trabalho a ser feito, por dentro e por fora de nós!
Não há motivo real para tristeza ou desalento...
Jesus nos aceita como somos e nos destina tarefas compatíveis com as nossas possibilidades.
É uma maravilha!
O próprio verme é chamado a ser útil nas entranhas do solo...
Estamos verdadeiramente, agora, começando a viver.
Esqueçamos o passado!
Haveremos, sim, de colher o resultado da semeadura efectuada...
O erro é profundamente desagradável, todavia confere-nos experiência.
O que podemos fazer?
Assumamos, com amor, as consequências de nossa ignorância; não sabíamos ou sabíamos sem vontade de saber...
Se dormíamos antes, hoje já não dormimos mais - às vezes, ainda reincidimos e cochilamos, não é?
Graças a Deus, pelo menos, doravante, não tomaremos mais o pesadelo por realidade...
Algo de muito importante aconteceu, está acontecendo, dentro de nós!
Estamos recomeçando a viver, partindo do zero, empenhados, de maneira consciente, na construção de nós mesmos...
Afeiçoemo-nos ao Bem e descobriremos a alegria de servir!
Todos somos capazes de, sempre e sempre, transcender a própria capacidade de ser...
Encaremos os desafios da subida...
Basta de permanecermos horizontalizados na dor!
Não podemos, é certo, assumir compromissos além de nossas forças - é inútil que, não passando de um pardal, intentemos o voo da águia...
Chegaremos lá!
Digo-lhes, no entanto, que passei a minha existência física inteira sem nunca ver uma águia...
Quem aqui, dos presentes, já terá visto uma?
Empalhada ou no zoológico não vale...
Todas as manhãs, porém, eu acordava com a orquestra dos pardais, que promoviam grande arruaça nos meus pés de jabuticaba e no telhado, fazendo, eventualmente, a alegria de um ou outro gato mais esperto...
Os pardais também têm a sua utilidade!
As águias vivem como que distantes do mundo, pairando nas alturas - quando descem, descem para caçar, rápidas como uma flecha certeira...
Não possuímos a agilidade das águias; somos pardais chilreantes!
Mas, sem eles, as manhãs e as tardes nunca seriam as mesmas; são eles que motivam o canto dos outros pássaros e ousam saltitar dentro de nossas casas, à procura de um grão de arroz que a vassoura esqueceu no chão da cozinha...
Pardais e pardalocas da evolução - eis o que somos!
Filhotes de pardais recém-nascidos, implumes e chorões...
O que isto quer dizer?
Cumpramos com alegria as tarefas que o Senhor da Vida nos destina.
Tudo é tão belo!...
Não fomos, não, expulsos do Éden, como se apregoa; vivemos e caminhamos em meio a flores de variadas espécies, aspirando o seu perfume e nos extasiando com a formosura de suas pétalas...
Vivemos num imenso jardim, que é o Universo!
Arvores, pássaros de plumagem exuberante, fontes e cascatas, montes cobertos de neve, planícies atapetadas de verde, estrelas cintilando na noite, chuvas fazendo crescer a semente...
O problema do homem é ele mesmo!
Nós é que nada vemos ou sentimos, que não nos colocamos em sintonia com a Natureza...
A morte?! O que é a morte?...
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 14, 2018 10:01 am

Fenómeno natural, que concorre para o aperfeiçoamento de tudo que se transforma à acção inexorável do tempo.
Ser feliz ou não ser feliz, em essência, é uma questão de escolha!
Nós é que fazemos opção pelo sofrimento...
As dores advindas das experiências evolutivas inevitáveis não são carmáticas, ou seja, não são causas geradoras de mais dor.
O destino efectivamente está em nossas mãos:
somos nós que o entretecemos!...
Sendo assim, de quem haveríamos de nos queixar - de quem ou de quê, senão de nossa incúria e de nossa imprevidência?
Não lancemos a culpa pelo que somos às gerações passadas...
A Reencarnação é a mais equânime das Leis!
O homem herda do próprio homem...
Queixando-nos de nossos antepassados, estaremos, não raro, anatematizando a nós mesmos.
Promovendo ligeira pausa, preocupado com o aproveitamento das palavras daquele momento ao entendimento de todos, continuei com a informalidade possível:
— Meus irmãos!...
Viver não é difícil, nem complexo; complexo e difícil é viver com as escolhas erradas, em flagrante desarmonia com as Leis da Criação...
Odiar, por quê?
Qual o lucro, a vantagem?
Se a gente recebesse a ofensa ou a agressão e não lhe desse importância, tudo pararia ali...
Aceitamos a provocação e revidamos; quando revidamos, alimentamos o mal, que de outra forma se aniquilaria, anémico, sem força.
A ambição? Para quê?...
As nossas necessidades básicas são limitadas - ninguém pode comer mais do que deve, sem prejudicar a saúde, ou acumular bens materiais de que, sem deles se desfazer, não conseguirá aproveitar.
Todos os dias, milhares desencarnam, deixando milhões nos bancos, que os herdeiros dissiparão; venderão apartamentos, fazendas, inviabilizarão empresas que pertenceram aos seus avós e aos seus pais...
Existem leis de Justiça que não se burlam, nem se corrompem.
A fortuna amoedada não se eternizará nas mãos de quem imagina retê-la...
O mesmo ocorre com o poder.
Onde os vultos eminentes da história da Humanidade?
Os reis, os ditadores, os guerreiros sanguinários?... Todos passaram e continuarão passando.
Depois da própria Vida, a morte é a mais sábia invenção do Criador!
O túmulo é o inevitável sorvedouro das tolas ilusões humanas.
O que conta é o espírito!
O apego a qualquer coisa ou sentimento de ordem inferior nos conserva presos na retaguarda...
Cuidássemos apenas e tão-somente de nossa essência, tudo ser-nos-ia diferente.
Façamos um propósito de, doravante, não nos distrairmos com a visão das formas que nos impressionam, não concentrando a nossa motivação de viver nos sentidos do corpo que passa - mesmo do corpo espiritual que também haverá de passar!
Trabalhemos, sejamos úteis, exercitando a bondade com os seres que, igualmente, se encontram a caminho...
Recordemos Jesus:
"Não acumuleis tesouros na Terra, onde a ferrugem e as traças os corroem e onde os ladrões os desenterram e roubam; - acumulai tesouros no Céu, onde nem a ferrugem nem as traças os corroem; - porquanto, onde está o vosso tesouro aí está também o vosso coração."
Sem dúvida, o homem gira na órbita de seus interesses...
Querer ou desejar algo de maneira exclusiva, por sentimento de posse, ansiando pela propriedade disto ou daquilo, é candidatar-se a indefinível e prolongado sofrimento, de vez que ninguém é dono absoluto de coisa alguma!
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Ave sem Ninho

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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 14, 2018 10:01 am

CAPÍTULO 23
Passando a conversar com os presentes, dispondo-me a responder a uma ou outra pergunta formulada, fui, inicialmente, questionado por Flávio, o paciente que me procurara dias atrás.
— Doutor - indagou, erguendo a mão e esperando vez de falar -, por que não conseguimos controlar os nossos pensamentos?
Isto é algo que me intriga profundamente!
Se o espírito é pensamento, como podemos não ter controle sobre nós mesmos? Tenho me empenhado numa luta exaustiva, que me consome...
Não quero pensar em nada negativo, mas, de repente, surpreendo-me em devaneios que me assustam!
— Meu filho - respondi à curiosa questão proposta -, por este motivo, porque ainda não alcançamos o necessário domínio sobre nós mesmos, carecemos de, oportunamente, voltar ao corpo de carne; em contacto com a matéria densa, o pensamento se desacelera e, aos poucos, aprendemos a controlá-lo.
Aqui, na Vida Espiritual, tudo se nos torna mais difícil neste sentido, e o que intrinsecamente somos se faz mais evidente aos nossos olhos.
Não aguentaremos permanecer muito tempo neste Outro Lado...
O esquecimento do passado é uma bênção que o homem não sabe avaliar.
Depois da morte física, as nossas reminiscências, em relação ao que já vivenciamos, são mais vivas.
Nem sempre - graças a Deus! - nos recordamos de tudo com detalhes, todavia as nossas tendências e inclinações vêm à tona da personalidade e, se não reencarnássemos, por certo não lograríamos superá-las.
A Reencarnação é uma medida pedagógica, que nos enseja recomeçar a partir da formação de novos hábitos.
Aquele que, por exemplo, comete um crime e é sentenciado a vários anos de prisão, à margem do convívio social, do meio em que vivia, é levado a reflectir e, mentalmente, reconsiderar a atitude perpetrada; o objectivo da pena, em essência, não é puni-lo, mas reeducá-lo.
Se isto não ocorre nos institutos de reeducação no mundo, é porque, conforme sabemos, a corrupção e a má vontade permeiam a aplicação da Lei e, não raro, os que estão fora das grades deveriam se trancafiar com os que foram flagrados em seus delitos...
Este, porém, é um assunto que agora não nos cabe discutir.
Retomando o tema sob o aspecto que me interessava abordar no momento, continuei:
— Se não controlamos as nossas reacções, como controlar os nossos pensamentos, e vice-versa?
A reencarnação nos ensina a ser mais contidos; a Lei Divina nos possibilita o renascimento em condições que algo possam nos acrescentar...
Um delinquente não renascerá apenas e tão-somente para expiar os seus deslizes!
Na expiação está a oportunidade do reerguimento moral.
A cruz, de instrumento de flagelação, de suplício e morte, foi transfigurada pelo Cristo em instrumento de Ressurreição e Vida!
Espíritos em estágio mais avançado, moral e intelectualmente, se oferecem para receber na condição de filhos espíritos que, a rigor, não se lhes assemelham; quem pode mais é chamado a auxiliar quem pode menos...
Por isto, observam-se crianças e jovens que, no que se refere a carácter, pouco se parecem com os seus.
É óbvio que o inverso pode ocorrer, ou seja, espíritos mais evoluídos reencarnando como filhos de pais que, em vez de educá-los, serão educados por eles.
— Que interessante, Doutor! - exclamou Flávio.
— Como, sob a óptica espírita, a Vida transcende em significado!
E a gente no mundo vivendo sem saber de nada, interpretando os factos de acordo com os pronunciamentos da Ciência materialista...
— Do berço ao túmulo e do túmulo ao berço - prossegui - existe muito mais que genética funcionando.
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Ave sem Ninho

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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 16, 2018 10:02 am

O pensamento determina os fenómenos de ordem material, que não acontecem aleatoriamente.
Espíritos simpáticos e afins realmente se atraem para uma convivência em comum, contudo quem verdadeiramente se mostra interessado em amar com Jesus oferece-se para tarefas de sacrifício junto à Humanidade, trabalhando no resgate da colectividade humana.
Qual seria a afinidade espiritual do Mestre para nascer desta ou daquela família consanguínea na Terra?
Por mais respeito nos mereçam Maria e José, que lhe serviram de genitores, o Senhor estava, como está, infinitamente acima de suas possibilidades espirituais...
De seus possíveis irmãos consanguíneos, então nem se cogita!
E do resto da Humanidade, não é bom nem falar.
Os próprios Apóstolos não tinham a menor noção de quem Ele era - sentiam-se, inexplicavelmente, atraídos pelo seu magnetismo, mas não lhe comungavam as aspirações de ordem divina; e Jesus, todos os dias, fornecia-lhes prova cabal de seu ministério entre os homens - curando leprosos, cegos, paralíticos, ressuscitando criaturas quase cadaverizadas, proferindo palavras que, antes, jamais haviam soado aos ouvidos humanos...
Estamos indo longe demais, não?
Vocês estão entendendo?
— Por favor, Doutor, continue - solicitou Rosária, simpática senhora que nos auxiliava na condição de voluntária -; queremos saber um pouco mais...
A pergunta colocada pelo nosso irmão Flávio é interessantíssima!
— A gente, depois da morte do corpo, educa o pensamento para, em reencarnando, educar a palavra, e, quando, por fim, reencarna, educa a palavra para, em desencarnando, educar o pensamento.
Confuso, não?
Vejamos se consigo ser mais claro.
Estamos aqui, na Dimensão em que o pensamento se manifesta sem tantos obstáculos; muitos de nós, neste Hospital, os temos impressos em nosso corpo espiritual, em forma de chagas e deformações...
Aqui, mais do que na Terra, a nossa saúde depende do teor de nossas ideias e emoções:
na Terra, o pensamento infeliz cria campo propício ao ataque de micro-organismos nocivos, que podem levar a óbito o corpo de carne - abalos emocionais, stress, remorso, sentimento de culpa, ideias fixas em objectivos inferiores, paixões exacerbadas...
A defesa orgânica se resume na defesa do espírito - espírito vulnerável, organismo vulnerável.
Neste Outro Lado da Vida, porém, pela plasticidade do perispírito, o que somos se nos reflecte exteriormente, notadamente em nossa fisionomia.
Corrigir a forma, pois, significa educar o pensamento.
Vocês conhecem a situação lamentável dos doentes que temos em nossos pavimentos subterrâneos...
Muitos deles, dificilmente, serão identificados como seres humanos, tal o estado de aberração da forma em que se encontram transitoriamente - estado que, não obstante, transitório, pode requerer séculos para se reverter.
Antecipando-se a maiores explicações, Rosária perguntou, aflita:
— Doutor, vamos nos curar?
— Vamos, minha filha, todos nós, inclusive eu, que estou melhorando um pouquinho...
A minha deformação facial é coisa natural - brinquei.
Não se preocupem...
Não se trata de uma aberração cármica - é feiura mesmo!
A irmã voluntária sorriu e, valendo-me da descontracção de quase todos os presentes (alguns, infelizmente, não sorriam com facilidade), continuei.
— Então, aqui, na Dimensão em que moramos, o nosso salão de beleza é o pensamento...
Ainda bem que estamos irmanados pela solidariedade:
ninguém tem muita coragem de falar de alguém, com as suas próprias mazelas à mostra!
Se este princípio funcionasse na Terra...
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 16, 2018 10:02 am

O dono de uma fábrica de espelhos ficaria trilionário - enriqueceria para toda a eternidade!
Felizmente ou infelizmente, por lá a gente camufla...
Quem financeiramente pode, procura um cirurgião plástico e conserta o nariz adunco, a mandíbula proeminente, diminui o tamanho das orelhas.
Já plástica para diminuir o tamanho da língua, ninguém cogita de fazer!
Coloca silicone aqui, ali, estica a pele, dá um novo formato aos lábios, elimina rugas e papadas, transplanta cabelos...
Vamos resumir, tentando clarear um pouco mais:
neste Outro Lado, educamos ou tentamos educar o pensamento; assim, reencarnamos com um vocabulário melhor...
Quando no corpo de carne, não podendo falar tudo que nos dá na telha, ou seja, o que pensamos, somos forçados a educar o verbo, a manter a língua mais quieta dentro da boca; com o passar do tempo, o hábito vai sendo criado...
Cada vez mais, falar o que não se deve está dando cadeia para os encarnados!
Os homens, engolindo as próprias palavras, são constrangidos a reconsiderar o que pensam.
— Quer dizer, Doutor - interveio Flávio, educadamente...
— Quer dizer, meu filho, que a disciplina mental é a base da evolução do espírito.
Enquanto não conseguimos pensar o que devemos, vamos nos forçar ao trabalho...
— Qualquer trabalho? - indagou Rosária.
— De natureza edificante, sim, qualquer trabalho, pois nos é essencial na criação de novos hábitos.
— Alguns exemplos práticos?... - insistiu a companheira.
— O meu preferido, por acessível e barato:
uma vassoura nas mãos, varrer o chão
O espírito que passa a existência de vassoura nas mãos, às vezes, progride mais que com uma caneta!
Depois, vamos lá:
servir na caridade, ler um bom livro, ocupações de natureza doméstica, obrigações profissionais não apenas motivadas por dinheiro...
Enfim, ocupar-se para evitar pensar em bobagens; o pensamento ruim cristaliza o hábito ruim.
O pensamento negativo cria o hábito negativo!
— Forçar o espírito, Doutor?...
— Sim, Flávio, ao máximo.
Aproveito a sua deixa para um recado aos espíritas - que muitos de vocês o são:
Costurem para os pobres, façam sopa, participem de campanhas na rua, reformem o prédio da casa espírita, inventem moda na Caridade...
Não se concedam trégua!
Evangelizem crianças, criem cursos profissionalizantes, visitem os doentes, peregrinem à periferia...
Isto tudo e muito mais, evidentemente, sem brigar - sem brigar por comando de tarefa, por cargo em directoria, por chave desta ou daquela sala cheirando a mofo, por fazer a sua opinião sobre este ou aquele ponto doutrinário, porque, em matéria de saber sobre a Doutrina e Vida depois da morte, vocês não sabem nada!
Deixem de ser orgulhosos, personalistas, cheios de si...
É tanto pavão reencarnado como médium, tribuno, articulista!
Deus me livre!...
A morte irá precisar de uma pá carregadeira só para levar espíritas enfatuados para o Umbral ou, é mais provável, para as Trevas, onde já têm sido despejados aos montes!...
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 16, 2018 10:02 am

CAPÍTULO 24
Aproximando-se, Anastácia, uma de nossas pacientes, disse-me:
— Doutor, sinto-me apática, desanimada...
Não consigo reagir, sustentando a vontade firme.
Oro todos os dias e peço auxílio aos nossos Maiores...
Um dia, estou bem; outro dia, mal.
— Por este motivo, minha filha - esclareci -, a sua recuperação ainda não se concretizou.
Somos o que pensamos.
A nossa vida mental é determinante para o nosso equilíbrio.
Precisamos ajudar mais, a fim de sermos mais ajudados.
Ocupar o próprio tempo ocioso...
— Tenho trabalhado, conforme o senhor me orienta, mas sinto-me cansada!
Sofro dores no corpo, não durmo bem à noite...
— Sim, você tem trabalhado, porém não o suficiente.
Quando passo pelos corredores, vejo-a na poltrona, de olhar perdido e mãos desocupadas...
De outras vezes, vagueia por aí, conversando sem proveito com os demais internos.
A maior parte do tempo, está parada, queixando-se, queixando-se...
Eu já lhe disse:
Você não está acometida de doença mais grave; o seu problema espera solução advinda de seu próprio esforço.
— Doutor, e a intercessão dos nossos Mentores?
O poder da oração?...
Não fico assim tão parada - não quero discordar do senhor!
Estou orando!
— Filha, os nossos Benfeitores, os que velam por nós de Planos Superiores, necessitam que lhes ofereçamos algo em nosso mundo íntimo a fim de trabalharem em nosso favor...
Do nada ninguém consegue tirar coisa alguma!
Precisamos, no mínimo, proporcionar-lhe um ponto de apoio moral...
O que pode, sozinha, a alavanca?
Sem um ponto de fixação, o instrumento referido não removerá o menor obstáculo.
Se queremos paz, carecemos de nos asserenar - e assim por diante.
Como, por exemplo, obtermos o perdão de quem magoamos, se não lhe damos oportunidade para tanto?
E como perdoarmos a quem, porventura, tenha nos ofendido, se não nos compadecemos de sua fraqueza e ignorância?
Outros pacientes e voluntários haviam se aproximado, participando do diálogo informal.
— Dr. Inácio - interpelou-me Benedito -, quer dizer que a Providência Divina...?
— ...conta com o que a Ela possamos oferecer, multiplicando benefícios em nosso favor - respondi, insistindo no raciocínio.
Queremos ajudar alguém que, de forma alguma, colabora connosco...
Em tais circunstâncias, o que poderemos fazer?
Não raro, o Alto permanece na expectativa de nossa boa vontade para intervir em nossas vidas de maneira mais efectiva.
A nossa Anastácia afirma orar boa parte do dia...
Tudo bem!
A oração é luz que se amplia indefinidamente.
No entanto, quando oramos, oramos com sinceridade?
Não estaremos apenas pronunciando palavras tocantes, que não nos tocam?
A oração que não nos predispõe a sermos melhores, à renovação, à mudança de atitudes diante da Vida, ao serviço em prol dos semelhantes, não logra mobilizar os recursos da Divina Providência em nosso favor.
A prece que se articula sem o envolvimento do pensamento e do coração é um conjunto de palavras ocas!
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 16, 2018 10:02 am

Fiz ligeira pausa e continuei:
— Quem está doente pelo menos deve tomar a iniciativa de chamar o médico.
Se se encontra incapacitado de fazê-lo, deve aceitar que alguém o faça por ele, admitindo que necessita de tratamento.
De que adiantam o diagnóstico e o remédio, se o enfermo, por rebeldia ou o que o valha, se recusa a cooperar?
Quantos aqui, internados connosco nesta casa, ainda não aceitaram a sua condição de espíritos enfermos?
A Terra e o Mundo Espiritual estão repletos de gente que quer receber sem doar de si absolutamente nada!
O que nos resta fazer, a não ser esperar que se decidam pelo contrário?
Vejamos o inesquecível episódio da multiplicação dos pães e dos peixes, narrada por Mateus, no capítulo 14 de suas anotações:
"Ao cair da tarde, vieram os discípulos a Jesus e lhe disseram:
O lugar é deserto e vai adiantada a hora; despede, pois, as multidões para que, indo pelas aldeias, comprem para si o que comer.
"Jesus, porém, lhes disse:
Não precisam retirar-se:
dai-lhe vós mesmos de comer.
"Mas eles responderam:
Não temos aqui senão cinco pães e dois peixes.
"Então ele disse: Trazei-mos.
"E, tendo mandado que a multidão se assentasse sobre a relva, tomando os cinco pães e os dois peixes, erguendo os olhos ao céu, os abençoou.
Depois, tendo partido os pães, deu-os aos discípulos, e estes, às multidões.
"Todos comeram e se fartaram; e dos pedaços que sobejaram recolheram ainda doze cestos cheios.
"E os que comeram foram cerca de cinco mil homens, além de mulheres e crianças".
Que lição fantástica!
A partir de cinco pães e dois peixes, Jesus alimentou uma multidão de "cinco mil homens, além de mulheres e crianças", sendo que, depois que todos comeram e se fartaram, "dos pedaços que sobejaram", os discípulos "recolheram ainda doze cestos cheios"!
Se o Senhor não contasse com uma base para o fenómeno, ou seja, se os discípulos não contassem com o mínimo indispensável - cinco pães e dois peixes -, a multiplicação teria ocorrido?
E provável que não.
Carecemos, pois, de oferecer o princípio...
Tudo, na Vida, é uma questão de sintonia.
Para que os nossos Maiores nos socorram conforme esperamos, precisamos dar-lhes algo de nós - algo com que nos trabalhem, aumentando a nossa capacidade.
Nas Bodas de Caná, na Galileia, o Mestre transformou a água em vinho.
Atentemos para a narrativa de João, destacando pequeno trecho do capítulo 2:
"Estavam ali seis talhas de pedra que os judeus usavam para as purificações e cada uma levava duas ou três metretas [almudes, ou 12 camadas, igual a 31,94 litros].
"Jesus lhes disse:
Enchei d'água as talhas.
E eles as encheram totalmente.
"Então lhes determinou:
Tirai agora e levai ao mestre-sala.
Eles o fizeram.
"Tendo o mestre-sala provado a água transformada em vinho, não sabendo donde viera, se bem que o sabiam os serventes que haviam tirado a água..."
Pelo menos água, Benedito - observei com ênfase, pousando a destra no ombro do companheiro -, pelo menos água precisamos oferecer ao Senhor para que ele a transforme em vinho!
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 16, 2018 10:02 am

O Evangelho está repleto de lições semelhantes.
Se naquela casa não houvesse a "matéria-prima" necessária, com que, então, Jesus haveria de trabalhar, produzindo a alegria dos convivas?
O problema é que queremos vinho e não temos água...
— Doutor - indagou Benedito -, em trocados e miúdos?...
...em trocados e miúdos, respondendo a você e à nossa prezada Anastácia, os nossos Benfeitores não estão alheios às nossas necessidades e requisições - às nossas e às de nossos irmãos encarnados...
Quase sempre - para não dizermos sempre - o socorro pelo qual clamamos é inviabilizado por nós!
— Dr. Inácio, a "Parábola do Semeador?"... - perguntou Anastácia.
— ...traduz o mesmo ensinamento.
O Senhor não se reporta à qualidade da semente, mas à da terra em que caiu...
De que vale a semente ser boa, se, ao ser lançada, cai em terreno pedregoso ou em meio a espinhos?
A protecção do Alto jorra à semelhança de uma fonte inesgotável para todas as criaturas - o Caudal Divino jamais se interrompe para a terra ressequida de nossos corações!
Nós é que não nos fazemos receptivos e não lhe absorvemos os benefícios.
Criamos uma espécie de crosta asfáltica no espírito: a água da chuva cai, não consegue se infiltrar no solo, fecundando-o, e corre, de volta, na direcção do imenso reservatório, que é o mar das bênçãos excelsas!
Entendeu, minha filha?
— Sim, Doutor, mas é tão difícil!
— Concordo: fácil não é, mas não nos resta alternativa.
O segredo da mais longa caminhada é não parar!
A decisão de seguir ou não seguir adiante é sua.
Sigamos, pois, nem que seja avançando um único passo...
— ...a cada dia!
— A cada encarnação, Anastácia!
Estará óptimo!
Não é pouco, Doutor: a cada encarnação?...
— É quase nada, todavia, comparando com os que estacionam por séculos à margem da estrada, já é alguma coisa, mesmo porque, a cada passo, estando mais próximos do objectivo, nos sentiremos mais fortes.
A evolução que, a princípio, se faz em progressão aritmética, passa, em determinado momento, a se fazer em progressão geométrica. Entendeu?
— Não, Doutor, eu sou péssima em matemática!
— Eu também! Vamos deixar assim mesmo...
— Compreendi a essência, Doutor - comentou Benedito: um passo hoje pode, amanhã, se transformar em dois.
— É por aí.
Agora, sem passo nenhum?...
— Não existe caminhada! - exclamou Anastácia.
Mas eu já comecei, não é, Doutor?
— Sim, começou, todavia há de ter cuidado para não ficar andando em círculo!
— Eu estou andando em círculo?! - indagou, encabulada.
— Quase, minha filha, quase...
Um só passo adiante, de cada vez, vale por muitos passos em círculo dados num dia só!
— Como não nos perdermos em tão terrível labirinto?
— Seguindo Jesus!
Ele, e somente Ele, pode nos conduzir com segurança para a frente...
Liguemo-nos a Ele, através da prática sistemática do Bem, e não nos desviaremos da rota.
Quase todos haviam já se retirado, quando um dos pacientes, permanecendo no auditório, solicitou alguns minutos de minha atenção em particular.
— Dr. Inácio, podemos conversar rápido?
Prometo não tomar muito tempo do senhor.
— É claro, Epifânio! - respondi, procurando quebrar formalidades.
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