ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 16, 2018 10:03 am

CAPÍTULO 25
Sei que o senhor é muito ocupado e já conversamos antes - explicou-se o paciente -, mas, se possível, após ouvi-lo na palestra de hoje e no diálogo com Anastácia e Benedito, gostaria de voltar a falar sobre o meu caso.
— Sinta-se à vontade, Epifânio - disse, encorajando-o a prosseguir.
— O senhor sabe que fui médium na Terra durante muitos anos...
— Sim.
— Médium consciente, no exercício de diversas faculdades.
O que eu queria saber é o seguinte:
O que o senhor falou, quando se referiu à multiplicação dos pães e dos peixes e à transformação da água em vinho, aplica-se à mediunidade?
Aplica-se?
— Em que aspecto? - perguntei, sabendo aonde o companheiro desejava chegar.
— "Do nada ninguém consegue tirar coisa alguma!"
Os espíritos, Doutor, a fim de se manifestarem entre as criaturas encarnadas, necessitam do concurso directo dos médiuns?
— Por que a pergunta, Epifânio?
— Tenho a consciência pesada e, a rigor, não sei se posso me considerar na condição de médium.
— Todos somos portadores de faculdades medianímicas mais ou menos acentuadas.
— Vamos directo ao assunto.
Sinto que interferia demais...
Dizia, por exemplo, que enxergava os espíritos, quando, em verdade, nunca os enxerguei, e assim por diante: afirmava conversar com eles e...
— Acha que nunca conversou?
— Eu não os ouvia: imaginava ouvi-los, mas não os ouvia como a uma pessoa que me falasse aos ouvidos...
— Não os escutava, como estamos nos escutando agora, sim?
— É! Não sei até onde enganei, até onde menti, mistifiquei ou fui mistificado...
Por este motivo, aqui permaneço em tratamento vai para mais de três anos.
— Continue, Epifânio - solicitei, com o intuito de permitir que o companheiro extravasasse as suas amarguras.
— Dava especial ênfase à tarefa psicográfica...
Durante quase três décadas, recebi inúmeras mensagens de conforto e esclarecimento destinadas a familiares saudosos de seus entes queridos.
— Serviço nobilitante, meu caro!
— Sim, reconheço, mas, Doutor, na maioria das vezes, eu me inteirava dos assuntos ventilados nas referidas cartas de além-túmulo - eu procurava me informar, saber de certos detalhes...
— Conforme o nosso estimado Odilon Fernandes costuma dizer, mediunidade é parceria; de certa maneira, o médium necessita, sim, se programar, facilitando a sintonia.
De minha parte, não vejo maior problema, desde que não se extrapole.
— Aí é que está: eu extrapolei!
— Em que ponto?
— Vaidade, Doutor, vaidade!
Com o tempo, infelizmente, os meus interesses passaram a ser outros.
— Você tocou em algo essencial.
Vejamos se consigo me expressar com a necessária clareza.
Para que o médium enxergue os espíritos, ele não carece de fazê-lo com os olhos da carne; para ouvi-los, não precisa registar-lhes a voz articulada...
Aliás, raríssimos medianeiros percebem os desencarnados com a nitidez que apregoam, ou seja, com clara definição de contornos e tonalidade...
O fenómeno mediúnico é de origem mental.
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Ave sem Ninho

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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 16, 2018 10:03 am

— Entendo, pois não sou assim tão neófito no assunto.
Li "O Livro dos Médiuns", as obras de Chico Xavier, alguma coisa de Leon Denis e até os controvertidos livros de Ramatís.
— Epifânio, analisemos, de modo sucinto, a mediunidade de efeitos físicos.
— Os fenómenos de materialização, voz directa, transporte de objectos, pancadas, levitação...
— Sim, sem que o médium forneça o chamado ectoplasma, os espíritos nada conseguiriam produzir.
Eis a participação do médium, participação, por assim dizer, efectiva e determinante!
Sem ectoplasma, que o médium libera em menor ou maior quantidade, nada de intercâmbio de natureza física.
Ora, na produção dos fenómenos de efeitos intelectuais, não poderia ser diferente - o princípio que rege o contacto entre as Duas Esferas é o mesmo.
O espírito comunicante não necessita de que o médium, como instrumento, lhe empreste apenas o seu corpo, o seu cérebro: ele precisa de sua inteligência, emoção, enfim, de seus recursos transcendentes.
— Então, o senhor acha que a participação consciente do médium é natural?
— Natural e indispensável!
A menos que sejamos capazes de nos comunicar, inteligentemente, através de uma pedra...
O tempo das "mesas girantes" ficou para trás!
A mediunidade evoluiu...
Os homens não se comunicam mais como os índios que se comunicavam através de sinais de fumaça; com o surgimento da escrita, veio a carta, depois o telégrafo, o telefone e, mais modernamente, a Internet...
— A mediunidade evoluiu?
— Fez os médiuns evoluírem e, consequentemente, evoluiu com a evolução dos médiuns!
— Doutor, "do nada ninguém consegue tirar coisa alguma"?...
— Pelos estudos que temos efectuado com diversos Instrutores especialistas no assunto, dentre os quais destacamos o nosso Odilon, a participação consciente e responsável do medianeiro na produção do fenómeno de natureza mediúnica, com ênfase para os que são chamados de efeitos intelectuais, será cada vez mais desejável.
— Por que, então, o drama que me aflige - perguntou Epifânio -, se não cometi nenhuma fraude?
— De fato, em termos mediúnicos, você não mistificou, não fraudou, de vez que os espíritos o sensibilizavam:
você os via, os escutava, os psicografava, os incorporava, mesmo quando não acreditava que o estivesse fazendo...
Você mistificou pela intenção!
Cometeu o deslize que, infelizmente, muitos médiuns cometem!
— Mistifiquei pela intenção?...
Mas eu não tinha a intenção de mistificar e, pelo que o senhor está explicando, não mistificava mesmo?...
Não cobrava um centavo de ninguém, nunca me passou pela cabeça a ideia de ganhar dinheiro com mediunidade!
Dinheiro, não, mas e prestígio?...
O companheiro silenciou, abaixou a cabeça e continuei, escolhendo as palavras para não aumentar-lhe o drama de consciência.
— Prestígio, renome, bajulação?...
Você há de convir que o homem não se corrompe apenas por dinheiro!
Desculpe-me, não quero magoá-lo.
— Não, não, Doutor, por favor, eu preciso ouvir...
Quer dizer que, de facto, eu era médium?
— Era e, segundo estamos informados, um dos melhores aparelhados para a tarefa chamado a cumprir na difusão dos princípios da Doutrina.
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 16, 2018 10:03 am

— Foram quase trinta anos!
— Que poderiam ter sido quarenta, ou mais...
— Como, Doutor, se acabei adoecendo?
Tive derrame e me vi impossibilitado?
— Os seus conflitos conscienciais, o choque entre o idealismo superior e a intenção subalterna minaram as suas energias, e o desgaste aconteceu.
Se você tivesse sido dócil parceiro dos espíritos, se a sua intenção no exercício da mediunidade fosse única e exclusivamente a de auxiliar, sendo útil aos propósitos do Evangelho do Cristo junto à Humanidade...
Recordando-me de um outro texto de "O Novo Testamento", anotado pelo Evangelista Mateus e também por Marcos, continuei após ligeira pausa:
— Você se lembra do que nos disse Jesus:
"...àquele que já tem, mais se lhe dará e ele ficará na abundância; àquele, entretanto, que não tem, mesmo o que tem se lhe tirará"?
São palavras que, igualmente, se aplicam à mediunidade, à acção do médium no exercício de suas faculdades.
Pouca mediunidade com nobreza de intenções pode vir a se transformar em muita mediunidade...
Os Espíritos Superiores secundam os esforços do medianeiro bem-intencionado, concorrendo na amplitude de suas possibilidades de intercâmbio com o Além.
— O meu erro?...
— Meu filho, é sempre muito fácil apontar erros cometidos por outros e, graças a Deus, não estou aqui para isto, mas, digamos assim:
o seu equívoco, na condição de médium, foi o de não acreditar no Bem que se operava através de você.
— Dr. Inácio - permita-me a indagação -, em mediunidade os fins justificam os meios?
— Em coisa alguma, Epifânio, os fins justificam os meios, mesmo porque o Bem Genuíno nunca será capaz de se originar de outra fonte que não seja a do Bem puro e verdadeiro.
Em mediunidade, é claro, não poderia ser diferente.
Não estamos incentivando os médiuns a mentirem, quando lhes damos o nosso aval ao exercício consciente de suas faculdades, coadjuvando a manifestação dos espíritos por seu intermédio.
— Os esclarecimentos do senhor estão sendo importantes para mim.
A consciência sempre me acusava...
— Acusava, porque ninguém a ludibria em seus propósitos e intenções mais ocultas.
— É, eu queria, sim, admito, retorno:
o meu retrato nos jornais, o meu séquito particular de admiradores, palavras elogiosas - adorava me sentir um missionário e ser elogiado! Humildade em mim sempre foi falsa modéstia!
Jamais fui capaz de ser tão bom e desprendido das coisas materiais, como as pessoas me supunham e eu fazia questão de aparentar.
Manipulei muita gente...
Repito: não queria dinheiro, mas queria fama, poder espiritual atribuído pelos homens!
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 16, 2018 10:03 am

CAPÍTULO 26
Epifânio - falei ao paciente que me escutava, atento -, poder espiritual atribuído pelos homens?!
Quanta ilusão, não é? Como somos ingénuos!
Impressionante, como insistimos em viver uma vida de superficialidades!
Os reais valores são adquiridos pelo espírito no anonimato, no mais completo anonimato.
Não devemos trabalhar para que sejamos vistos pelos outros...
Quase todo aplauso é hipnótico!
O médium necessita se empenhar em servir desinteressadamente - sem queixas, sem guardar resultados imediatos, sem contar com o reconhecimento de quem quer que seja:
servir por exclusivo amor ao Ideal, consciente de que se encontra construindo o destino!
Se os espíritas, os cristãos, em geral, pensassem assim, haveriam de agir com mais fé e sinceridade e, consequentemente, seriam mais acreditados, porque, em todos os tempos, a melhor pregação é a do exemplo.
Sabemos não serem fáceis o testemunho silencioso, a renúncia, o sacrifício, notadamente em meio a tantos interesses de ordem inferior que grassam entre as criaturas; os vendilhões, expulsos por Jesus, voltaram para os templos e conspiram contra os objectivos da religião...
Nem o Espiritismo tem escapado à sua influência nociva, mas... deixemos para lá.
A Verdade ainda interessa a muito poucos na Terra!
— Doutor, "pouca mediunidade com nobreza de intenções pode vir a se transformar em muita mediunidade"...
Fale-me mais um pouco a respeito.
— As faculdades psíquicas, evidentemente, independem da condição moral do médium; existem sensitivos que os espíritos inferiores utilizam como instrumentos, sem que eles sequer fiquem sabendo disto - a fé, já nos dizia Kardec, em "O Livro dos Médiuns", não é uma condição de rigor para o médium...
O mundo está repleto de paranormais, actuando inconscientemente; até mesmo entre os que desacreditam na imortalidade, nos depararemos com instrumentos quase inteiramente passivos dos que, fora do corpo de carne, prosseguem exercendo a sua influência sobre os homens...
A mediunidade é uma faculdade neutra, acessível a todos:
é uma consequência das experiências vivenciadas pelo espírito ao longo de sua trajectória evolutiva...
O Espiritismo a estuda, disciplina e torna o médium consciente de suas responsabilidades.
Um médium espírita pode, assim, sob o ponto de vista da produção do fenómeno, ser menos médium que um não-espírita, ou seja, que um médium não-evangelizado - se é que todos os médiuns espíritas são! Não são, mas façamos de conta que sejam ou que sejamos.
A recta intenção dos medianeiros portadores de faculdades discretas, menos produtivas, pode mobilizar o amparo mais efectivo e determinante da Espiritualidade Superior...
A mediunidade, em si, ensina-nos Odilon Fernandes, depende mais do médium que do espírito, mas, convenhamos, sem espírito, o médium não funciona - sem espírito comunicante, que o mediunize, bem entendido.
— Se as minhas intenções fossem mais claras, se eu tivesse sido um médium menos preocupado comigo, com o meu sucesso, com as minhas ambições de carácter espiritual, enfim, se tivesse cultivado um pouco mais de amor no coração...?
— ...você, com certeza, teria se superado! - respondi, incisivo.
Não tenha a menor dúvida quanto a isto...
Os Benfeitores Espirituais sondam os nossos corações e não investem em vão naqueles que não lhes merecem credibilidade.
Há algo de ético na faculdade mediúnica!
Mediunidade, o seu direccionamento e proveito não se circunscrevem a uma questão de flexibilidade do aparelho mediúnico.
Não é uma força apenas afecta ao organismo físico e perispirítico.
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 16, 2018 10:03 am

— Sem um sentido de ordem superior...?
— ...mediunidade é obsessão, e o médium não passa de companheiro enfermo, necessitado de tratamento.
Sem que o medianeiro trabalhe a sua própria espiritualidade, a faculdade, por mais primorosa, se embota.
Agora, naquele de faculdades incipientes, todavia sempre prestativo e disposto a cooperar no bem da colectividade, repetimos, com o esquecimento de si mesmo - com o esquecimento possível de si mesmo!
a mediunidade poderá superar as expectativas.
— Dr. Inácio, conforme esclareci, eu não enxergava os espíritos, não os ouvia, não os sentia me impulsionando o braço para escrever...
— Epifânio, concordo com um amigo que disse:
a mediunidade possui envolvimento que desconhecemos e nem sabemos definir.
"O Livro dos Médiuns" é um roteiro, porém não rígido; Kardec não teve a pretensão de classificar todo tipo de mediunidade existente.
De um médium para outro, a mesma faculdade se apresenta com certas nuances diferentes; não há, positivamente não há, uma faculdade mediúnica absolutamente idêntica a outra - depende de uma série de factores, inclusive da personalidade do médium, de sua formação cultural, doutrinária, espiritual...
Você, segundo já conversamos, se traiu pela intenção.
O fenómeno mediúnico se elabora e processa no universo da mente.
A rigor, médium algum sente ou registra a presença dos desencarnados através de seu corpo físico...
É mente a mente, perispírito a perispírito!
O corpo de carne retém as impressões superficiais do fenómeno.
A maioria dos médiuns se frustra em suas faculdades porque pretende registrar ou sentir a influência dos espíritos pelo seu corpo grosseiro.
Impossível, a menos que o fenómeno produzido seja de natureza física.
Mas procuremos simplificar.
Você enxergava, sim, os espíritos, os ouvia, os psicografava, incorporava...
Subsistia, no entanto, em sua mente, uma nuvem espessa que lhe tisnava as possibilidades: a sua consciência o questionava em seus propósitos!
O problema do médium consciente é a repreensão da consciência, por falta de transparência em suas atitudes e não de nitidez mediúnica.
Não sei se estou me fazendo entender.
O assunto é tão vasto que, confesso, às vezes me perco.
Em mediunidade, a gente vive refundindo conceitos todo dia...
— Quer dizer que o fato de eu ter acesso a informações, ler muito para me expressar com desembaraço, estar por dentro de certas circunstâncias...?
— ...digo-lhe, meu caro Epifânio, que é até mesmo desejável.
Com a permissão do médium do qual presentemente me utilizo em meus contactos com o mundo - um dos médiuns, não o único -, esclareço que, por exemplo, quando tenciono, por intermédio dele, desenvolver determinado tema, costumo, antes de efectivamente me dispor à escrita, enviar-lhe certos "clichés mentais", sementes de ideias que nos facilitem a conexão ou a sintonia.
— Doutor, e a espontaneidade do fenómeno?
— Corre, meu filho, por conta da inspiração do momento; a espontaneidade do fenómeno sempre existe, tanto para o médium quanto para o espírito.
Um orador estuda o tema a ser abordado, mas deve evitar memorizá-lo; a memorização obstrui os canais da inspiração.
Sempre li muito, mas nunca fui de decorar nenhum texto, porque, quando eu tentava decorar uma palestra, eu a proferia quase sem emoção, trancando a mente para as ideias que me ocorressem no momento.
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 17, 2018 9:24 am

Um médium, por exemplo, como Chico Xavier, que psicografava em uma única sessão pública, escrevendo ininterruptamente, cerca de 10, 12 cartas familiares, repleta de informações e detalhes, não possuía recurso mnemónico, e nem tempo, para memorizá-las todas.
Ele podia conhecer o básico, o essencial; uma ponte não se levanta sem pilastras de sustentação fincadas nas duas margens do rio...
Isto, porém, é outra história.
— Como lamento não ter tido mais confiança em mim!...
— Tudo é lição, aprendizado.
— Para o médium, o mais difícil...?
— ...é ser honesto consigo mesmo!
— Mas, Doutor, será que existem médiuns uns mais espontâneos que outros?
Qual o médium merecedor de maior confiança?
— O médium merecedor de maior confiança é o que procura conciliar palavra com exemplo.
Quanto à questão de médiuns uns mais espontâneos, ou seja, mais médiuns que outros, é óbvio que sim, embora, em termos de espontaneidade legítima, a mediunidade deixe a desejar na esmagadora maioria dos médiuns.
Não devemos efectuar julgamentos, cada qual testemunha por si:
digo apenas que em actividades mediúnicas de maior fôlego o espírito necessita contar com a participação mais consciente do médium.
— O que, agora, me resta fazer? - indagou Epifânio, percebendo que eu já me preparava para retirar-me.
— Trabalhar, meu caro, e muito!
Se choramingar resolvesse alguma coisa...
Não fique se martirizando!
— Trabalhar como médium?
— Quem nos dera, na situação em que nos encontramos, pudéssemos nos dar o luxo de escolher o serviço!
Deixemos que o serviço nos escolha ou que nos chame, enquanto isto...
— Enquanto isto...?
— ...estendamos a mão e nos agarremos à oportunidade mais próxima.
A necessidade que constatamos à nossa volta é o convite que nos está sendo formulado, a fim de que aprendamos a ser úteis.
— E se não está ao nosso alcance?
— De nossa capacidade ou boa vontade?
— De nossa capacidade.
— Não somos chamados a fazer além do que podemos, embora seja perigoso que semelhante avaliação permaneça circunscrita ao nosso discernimento pessoal.
Estamos sempre repletos de pretextos para não sairmos do comodismo que, há milénios, nos escraviza à lei do menor esforço.
Aqui, neste auditório, correndo os olhos por ele, o que você detecta destoando?
As cadeiras fora do lugar, papéis pelo chão...
— Epifânio, será um bom começo ou recomeço!
Esqueça, por enquanto, teoria e mediunidade...
Arregace as mangas e faça!
— Tão simples assim?...
— O complicado está em nós, sempre em nós, lamentavelmente em nós! - respondi, abaixando-me e recolhendo aos meus pés um lenço esquecido em que alguém assoara o nariz.
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 17, 2018 9:24 am

CAPÍTULO 27
No mesmo dia, um pouco mais à tarde, como, de quando em quando, sentia necessidade, avisei a Manoel Roberto que sairia, dando uma volta pelos arredores do Hospital, que fica próximo à populosa cidade erguida no espaço espiritual geográfico correspondente a Uberaba - imediatamente acima, sendo, todavia, três ou quatro vezes maior, deslocando-se na direcção do Rio Grande, que divide os Estados de Minas Gerais e São Paulo.
— Cuidado, Doutor! - alertou-me o companheiro.
Não é interessante que o senhor fique andando, sozinho, por aí...
— Que mal há nisto, Manoel?
E, depois, ninguém me reconhecerá, a um camaleão como eu...
Não se preocupe, que eu sei me cuidar!
— É que não estamos totalmente isolados da presença de certas entidades que conseguem acesso à cidade; Uberaba espiritual é uma cidade cosmopolita e o policiamento ainda é precário...
Conforme sabe, nos localizamos em pleno Umbral, e espíritos, provindos das regiões inferiores, costumam aportar por aqui.
— E a gente, que esperava, pelo menos depois da morte, ver os problemas sociais resolvidos, como se o túmulo guardasse solução para todos os problemas da existência!
Ledo engano!...
Continuamos a lutar com questões de natureza administrativa e, infelizmente, ainda não nos vemos livres da famigerada corrupção que campeia entre os homens; neste Outro Lado - falando com mais propriedade, neste ladinho da Terra a luta pelo poder prossegue sendo real.
Não sei se nossos irmãos encarnados entenderiam, pois, na maioria, a concepção de Céu se encontra muito arraigada; os próprios espíritas têm dificuldade para conceber a Vida após a morte...
— Com toda a literatura já disponível!
— Sim, mas qualquer aprofundamento neste sentido será, como tem sido, considerado ficção.
Muitos entendem o Mundo Espiritual como vasta região etérea, homogénea, onde os espíritos vagueiam transparentes e sem forma...
Leram - suponho que leram!
"O Livro dos Espíritos", todavia não lograram assimilar as suas informações...
— Explícitas algumas...
— Implícitas outras, dedutivas, como, por exemplo, Manoel, a questão de número 980, uma das que sempre mais me intrigaram.
— Qual é, Doutor?
Sinceramente, não estou me recordando...
— Você se lembra de quanto eu insistia para que estudasse?
— Não me sobrava tempo!
— Não é verdade; desculpe-me, mas você era comodista, Manoel!
Raramente, eu o via com uma obra espírita nas mãos!
— Eu lia "A Flama Espírita", Doutor, e tentava ler os livros que o senhor escrevia e editava.
— Ler "A Flama Espírita", o nosso mensário, era insuficiente!
O Espiritismo é uma doutrina que pede aprofundamento para melhor compreensão da parte de seus adeptos.
Quem o conhece de maneira superficial equivoca-se, com facilidade, na interpretação de seus postulados.
Silenciei por instantes e voltei à carga, ironizando:
— Tentava ler os meus livros!...
Ora, ora! Quer dizer, então, que você não entendia nada?
— Para ser sincero, Doutor, pouco, entendia muito pouco.
Não é que o senhor escrevesse difícil...
— Você não tinha cabeça mesmo, não é?
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 17, 2018 9:24 am

— Quando pegava num livro, o senhor me chamava...
— Agora, sou eu o culpado!
— Não, não é o que estou querendo dizer!
— Mas disse, está dito e não pode retirar o que disse!
Mais um carma a me pesar sobre os ombros - o de sua ignorância, Manoel!
Ora, você não lia porque era preguiçoso, não gostava de pensar - sendo um ser pensante, não gostava de pensar...
Que contra-senso!
Deus deve ter errado com você, não é?
No entanto, bem que eu o via, com frequência, lendo jornais e revistas profanas...
— Doutor, o senhor vai ou não vai me falar sobre a pergunta de "O Livro dos Espíritos"?
— Vamos lá - disse, forçando a memória.
Questão 980: "O laço de simpatia que une os espíritos da mesma ordem é para eles um motivo de felicidade?"
Resposta: "A união dos espíritos que se simpatizam pelo bem é para eles um dos maiores gozos, porque não temem ver essa união perturbada pelo egoísmo.
Eles formam, no mundo inteiramente espiritual, as famílias do mesmo sentimento, e é nisso que consiste a felicidade espiritual, como em teu mundo os homens se agrupam em categorias e gozam de um certo prazer quando se reúnem.
A afeição pura e sincera que eles provam e de que são objecto é um motivo de felicidade, pois lá não há falsos amigos nem hipócritas".
— Confesso que não me recordo de nunca tê-la lido...
— Na resposta dos Espíritos a Kardec, alguma colocação lhe chamou a atenção em particular?
— Não, está tudo certo.
Está tudo certo, como? - simulei esbravejar, indignado.
— Está tudo em ordem...
— Manoel, pare de me torrar a paciência - a paciência que eu nunca tive e nem sei quando a terei!
— É uma resposta comum...
— Preste atenção:
"Eles formam - os espíritos que se simpatizam - no mundo inteiramente espiritual...'"
Percebeu?
— Não!
— Desisto. Manoel: "...no mundo inteiramente espiritual... "
— O que quer dizer, Doutor?
— Que existem mundos espirituais que não são inteiramente espirituais!
— Hum!...
— Dois!... Sacou, agora?
— Doutor, a linguagem chula de que o acusam...
— Os que têm cabeça de chulé...
— Existem mundos espirituais que não são inteiramente espirituais! - repetiu o amigo, reflexionando.
— Como o nosso aqui!
Você considera isto aqui um mundo inteiramente espiritual?
— Em relação à Terra, sim.
— Esqueçamos a Terra...
Pergunto em relação às nossas aspirações de perfeição?
— Não, não é.
Está bem longe disto.
— Veja, então, como, em toda a obra da Codificação, há muita coisa implícita, muitas verdades veladas.
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 17, 2018 9:25 am

— Por que será?
— Porque, à época, não tínhamos cabeça para tanto, qual muitos, mesmo morrendo, continuam não tendo...
— O que o senhor está querendo insinuar?
— Quem? Eu?... Nada!
Não sou homem de fazer insinuações...
— Allan Kardec, na questão em foco...?
— ...referiu-se às múltiplas Dimensões espirituais - quanto mais próximas da Terra, mais materiais e...
— ...quanto mais distantes, mais espirituais - deduziu Manoel com acerto.
— Eureka! - exclamei, dando-lhe um tapinha na testa. Finalmente!...
A sua 3ª. visão está se abrindo!
Coloque esse chacra emperrado para funcionar!
— O que devemos entender por mundo inteiramente espiritual?
— Agora sou eu, espírito, homem mortinho da silva, liberto dos pesados grilhões da matéria, que não tenho cabeça para concebê-lo...
Penso que aquela "vasta região etérea, homogénea, onde os espíritos vagueiam transparentes e sem forma" fica mais acima ou bem mais para que lado não sei...
Ponto de referência físico no Universo é coisa de espírito atrasado!
— O senhor disse que, "à época, não tínhamos cabeça para tanto"...
— Não tínhamos e ainda não temos, Manoel!
Nem sempre conseguimos expressar em palavras as verdades que intuímos, porque a intuição está para além de toda forma de expressão conhecida.
— Se nós, os desencarnados...
— Intuí aonde você quer chegar! - aparteei o amigo com um sorriso.
Se nós, os desencarnados, ou seja, os espíritos, pouco sabemos ou podemos falar do mundo em que vivemos, coitados dos médiuns que pelejam para rastrear as realidades da Vida além da morte!
Para nós, os considerados mortos, este mundo...
— Agora é a minha vez de intuir, Doutor!...
Este mundo é material, com uma organização similar, em quase tudo idêntica aos parâmetros da existência da Terra.
— E, para nós, não havia como deixar de ser assim, já que não temos mente apurada para viver em sintonia com as Dimensões que nos transcendem o habitual; a nossa cabeça se programou para viver tomando a matéria como ponto de referência...
— Coisa de espírito atrasado!
— Por este motivo, Manoel, na condição de espírito errante que me reconheço ser, eu vou sair errando por aí...
Quero, uma vez mais, observar as coisas mais de perto - me sentar num banco da primeira praça que encontrar e ficar olhando os transeuntes, auscultando-lhes o psiquismo...
— Doutor!...
— Não, mais louco do que você eu não vou ficar!
Não se preocupe!
Quero colher material para, quem sabe?, transmitir aos nossos irmãos encarnados - isto é, se a cabeça do médium aguentar e couber dentro dela.
— Vai ser difícil...
— Vai, mas ambos somos teimosos; é por aí que a nossa sintonia se faz - na teimosia, na falta de conformação com a mesmice das coisas...
Tchau! - despedi-me e saí, caminhando com a mão no bolso.
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 17, 2018 9:25 am

CAPÍTULO 28
A tarde estava linda, com a temperatura oscilando em torno dos 20 °C.
Uma brisa amena soprava balsamizando a atmosfera e o firmamento extraordinariamente azul. Era uma espécie de cortina de seda em forma de abóbada, prenunciando uma profusão de estrelas para a noite.
Algumas pessoas - homens, mulheres e jovens - se movimentavam pelas ruas bem cuidadas, cada qual, como acontece na Terra, com um objectivo em mente.
Procediam com tanta naturalidade, que, sinceramente, não cogitavam de que estavam mortos ou não; tinha a impressão de que o único morto interessado na morte por ali era eu...
Pequenos veículos deslizavam nas ruas, quase sem provocar nenhum ruído e poluir o ar.
Eram carros pequenos, que transportavam, no máximo, duas pessoas, movidos a energia solar condensada e a bateria de água salinizada, em alta concentração; semelhantes veículos são extremamente fáceis de conduzir e, principalmente, de estacionar, sendo que, por este motivo, não tínhamos problema de congestionamento.
Algo importante que, aliás, sempre julguei dispensável numa sociedade civilizada: os veículos não têm buzina!
Substituindo-a, um único farol central, chamado "olho de ciclope", que, quando accionado pelo condutor, acende potente luz vermelha em sinal de alerta.
Outros se locomoviam através de patinetes individuais, motorizados, que trafegavam em pistas paralelas apropriadas, substituindo as antigas e obsoletas bicicletas.
Difícil - perdoem-me! - encontrar palavras para descrever tudo que, do ponto de vista tecnológico, faz do nosso mundo a Terra do futuro.
Temos, sim, ainda, diversos problemas sociais e não conseguimos extinguir de todo o cinturão de carência ao redor da cidade, de vez que, atraídos pelo progresso da metrópole, muitos espíritos, provindos das regiões inferiores, vão se lhe fixando nos arredores; todavia, por aqui, quase tudo funciona um pouco melhor administrativamente, com a preocupação dominante de que não haja desemprego.
Aproximando-me de ampla praça ajardinada, recostei-me num banco e, admirando a beleza das flores de espécies desconhecidas dos homens (a Botânica é, neste Outro Lado, uma ciência pela qual muitos se interessam, exercitando a sua faculdade de criar), vi quando diminutos pássaros, parecidos com os nossos diminutos pintassilgos, pousaram nas ramadas e começaram a trinar...
Eu não sei como é que os homens - alguns espíritas - são capazes de conceber a Vida além da morte sem flores e sem pássaros!
Certamente, imaginam o Mundo Espiritual completamente despido de beleza e, consequentemente, de poesia.
Aviso-lhes, porém, que Deus não está pobre em sua capacidade de extrair mais vida da própria Vida...
A visão dos graciosos pássaros, brincando entre as flores, outra vez me levou a reflectir sobre o problema da reprodução, objecto de escárnio dos que não tiveram sensibilidade e inteligência para entender o que insinuei nas páginas de "Na Próxima Dimensão", a minha obra favorita!
Lamento a visão obtusa desses companheiros que, por certo, concebem a Vida no Além sem gravidade e... sem gravidez!
O sexo continua algo pecaminoso para muita gente, principalmente para os que pretendem se santificar apenas aos olhos dos outros.
Ah, os moralistas!...
Deixemo-los para lá, pois, afinal de contas, eu não quero estragar a minha tarde...
Correndo entre as alamedas floridas, uma garotinha de cabelos dourados - de 5 a 6 de idade, no máximo -, era acompanhada de perto pela sua jovem mãe sorridente.
"Estelinha - disse com terna entonação de voz que somente as mães possuem -, não corra tanto, minha filha!..."
Cumprimentou-me com gentileza e, qual anjo velando pelos passos de seu tutelado, seguiu, sem me dar oportunidade de abordá-la, nas tantas perguntas que eu gostaria de fazer-lhe.
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 17, 2018 9:25 am

Todavia, com o intuito de satisfazer a curiosidade de nossos leitores, curiosidade que, tenho certeza, se aguçou neste instante, digo-lhes que, para mim, aquela criança não nasceu na Terra!
Estando prestes a me erguer (creio que eu nunca tive uma experiência reencarnatória como monge), sem paciência de ficar quieto, durante muito tempo, no mesmo lugar, um senhor, aparentando pouco mais idade que eu, pediu-me licença para se acomodar ao meu lado, no confortável banco da praça.
— O senhor mora aqui perto? - perguntou-me, como se fôssemos dois aposentados jogando conversa fora, ao fim de uma tarde na praça.
— Moro - respondi, cortês, preparando-me para ser sabatinado.
— O meu nome é Ataíde.
E o do senhor?
— Inácio - tornei, lacónico.
— O senhor é...
— Médico. Sou médico.
— Médico? Que bom!
Há pouco me submeti a uma cirurgia cardíaca - falou, levantando a camisa e mostrando enorme cicatriz no peito -: quatro pontes de safena!...
— Eu sou psiquiatra...
— Psiquiatra? Excelente!
Eu tenho um irmão esquizofrénico que não vejo há tempos...
É uma doença que não tem cura, não é, Doutor?
— Tem. Toda doença tem cura.
Tem?! Como?!...
O meu irmão é doente há mais de trinta anos...
Onde fica o consultório do senhor?
Poderíamos agendar para ele uma consulta...
— De que maneira, se você lhe desconhece o paradeiro?
— É... O senhor tem razão, mas pode ser que a qualquer hora ele apareça...
— Com certeza, a qualquer hora aparecerá!
— O consultório do senhor...?
— ...fica próximo - disse, apontando o rumo.
— Ah, já sei! O pessoal faz muitas referências a ele...
— Algumas estranhas, não?
— O senhor, então, é o Dr. Inácio...
— Inácio. Inácio Ferreira!
— Nossa, que coincidência!
A minha mãe falava muito no senhor!
— Meu amigo, qual a sua idade? - perguntei com uma intimidade que eu ainda não tinha com o meu interlocutor.
— Vou completar 70, agora, dia 30 de agosto!
— A senhora sua mãe, quando falava em mim...
— Eu era garoto!
Menos de 15 anos, talvez.
— Fiquei velho sem saber!
— Velho, o senhor aparenta menos idade do que eu!
— Não lhe ocorreu nada?...
— O quê, por exemplo?
Que eu pudesse ter me submetido a diversas cirurgias plásticas...
— O senhor é jocoso!
— Jocoso! Há quanto tempo eu não ouvia este termo!
— Espírita, não é? O senhor é espírita?
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 17, 2018 9:25 am

— Espírita e espírito, Ataíde!
— Eu não acredito muito nessas coisas...
Para mim, morreu, acabou.
— Pois é...
— Eu acho, com todo o respeito ao senhor, que isso é loucura do povo!
— Também acho!
— Uai!... - exclamou, arregalando os olhos.
— E a sua cirurgia?
Correu tudo bem? - indaguei.
— Fiz em São Paulo, no Instituto do Coração.
Não vi e não senti absolutamente nada.
— Está anestesiado até hoje?
— Acordei numa boa; é claro, ainda estou naquele processo...
— De sonolência?...
— Não, Doutor, eu tenho dormido muito bem.
— Bem demais!...
— Ora, como é que sabe?
— Olho clínico, meu caro!
Olho clínico.
— Muitos anos de prática, não?
— Pelas nossas contas, somando a sua idade e a de sua desencarnada mãezinha...
Mamãe faleceu com 78!
— Eu sou quase um dinossauro!
— Doutor, não me faça rir!...
Ficamos um pouco em silêncio, e Ataíde, polidamente, observou:
— O senhor usou a palavra desencarnada...
É tanto absurdo que a gente escuta por aqui!
Dias atrás, ouvi uma mulher falando a outra que ela estava morta...
— É, quando estávamos reencarnados - escapou-me -, a gente também não aceitava...
— Doutor, eu não acredito em vida após a morte!
Se, para mim, nem encarnados estamos, como podemos estar reencarnados?
Uma vez só já seria muito!
— Quer dizer que, para você, não estamos encarnados - somos encarnados?
— Somos corpo: carne e osso...
O Espiritismo é uma religião de caridade.
Tudo bem, concordo, mas esse negócio de Mundo Espiritual, de mediunidade...
Religião é uma questão de crença, Doutor, só isto!
— Ataíde, é impressionante...
— A minha franqueza?
— Não, o universo que cada mente engendra e, em torno dele, passa a gravitar...
Nem que eu lhe dissesse que ambos, eu e você, estamos mortos?...
— De forma alguma, acreditaria! Não posso acreditar!
— Você não tem estranhado nada?
— O quê, por exemplo?
— A cidade em que vive?...
— Ora, Uberaba é uma cidade provinciana, com carros de bois pelas ruas; um povo atrasado, Doutor!...
Mas, mesmo assim, com um prefeito dinâmico, que passasse uma tinta nela e cuidasse das praças...
— Ficaria igual a isto aqui?
— Convenhamos, melhoraria muito! Tudo é uma
questão de trato...
Mulher velha entra numa clínica restauradora e sai nova!
— Não exagere, Ataíde!
Só o que dá jeito em mulher velha é reencarnação!...
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 17, 2018 9:25 am

CAPÍTULO 29
Em mulher velha e em homem velho, só o que dá jeito é reencarnação - apressei-me em corrigir, antecipando-me à chiadeira do meu fã-clube da terceira idade.
— O senhor fala em reencarnação com uma naturalidade!... - redarguiu, Ataíde, reticente.
Um homem inteligente como o senhor...
Acredita mesmo nisso?
— Tenho certeza - respondi, sem esperança alguma de que o meu interlocutor viesse a compreender.
— Ora, Doutor, os mortos não voltam!
Nunca ninguém voltou para nos dar o menor sinal...
Os espíritas se contentam com muito pouco:
mesas que giram, copos que andam, pessoas histéricas que caem em suposto transe...
Tudo é fruto da imaginação sobre-excitada.
— Os seus familiares, Ataíde, onde estão?
Já vieram visitá-lo...?
A minha família é pequena e todos muito ocupados; a qualquer hora, aparecerão...
Sei, no entanto, que têm garantido as minhas despesas por aqui.
— É, eu vou precisar ir andando - aleguei, com o intuito de dar o papo por encerrado.
— Muitos internos na clínica, não é, Doutor?
Compreendo... Por que será que os casos de loucura, de alienação mental da realidade, parecem estar se generalizando?
— Não sei.
É louco de todo tamanho e qualidade...
Ataíde sorriu de se balançar no banco.
— O senhor é uma peça - disse, apontando-me o dedo.
Gostaria, se possível, de reencontrá-lo.
— Apareça - convidei.
— No Hospital? Não.
Prefiro que nos encontremos por aí - continuou a sorrir com a minha cara.
A fama de vocês lá não é das melhores...
Falam horrores do senhor e de um tal Manoel, Manoel...
— Manoel Roberto.
— Esse mesmo!
— Eu não sei o que falam, mas seja o que for, ele faz jus...
Quanto a mim, pobre de mim!
Ataíde, outra vez, gargalhando, sacolejou o banco.
— Quer dizer - insisti - que você não crê?...
— Nem um pouquinho!
Desculpe-me desapontá-lo.
Estou bem, estou óptimo. Um dia, quando cerrar os olhos, será para sempre...
— O sono eterno?...
— Sem pesadelos!
— Mas você ainda não notou nada de diferente?
- tornei, inclusive com dificuldade para crer que aquele meu diálogo fosse real.
— Nadica de nada, Doutor!
— As pessoas desconhecidas?...
— Ora, foi-se o tempo em que a gente conhecia todo o mundo numa cidade assim!
Nasce criança a dar com pau e, hoje, Doutor, a meninada já nasce criada...
Superalimentação!
— Bem, agora eu preciso ir mesmo.
Vou caminhar mais um pouco e, depois...
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 17, 2018 9:26 am

— Antes que se vá, deixe-me dizer, para que o senhor não fique com má impressão minha:
hospitais como o que o senhor dirige são de utilidade pública!
Essa gente não tem condições de ficar à solta...
— Não, não tem - concordei, ironizando.
É uma pena que o Hospital não possa se estender, abarcando toda esta cidade...
— Deixando-me de fora, é claro! - gargalhou, quase colocando o banco abaixo, de tanto sacolejar-se.
— Você não está brincando comigo, não é?
— Não, Doutor, os espíritas são gente de bem, fazem muita caridade...
A minha avó, coitadinha - que Deus a tenha! -, vivia conversando com os mortos, trancada dentro de um quarto...
Esquizofrénica! Mediunidade é esquizofrenia.
Era a bondade em pessoa, mas fraca da cabeça.
— Até logo!
— Até... Todas as tardes, costumo aparecer por aqui.
Aproveito a quietude do recanto ajardinado e venho meditar...
— Meditar em quê, Ataíde?
— Meditar, relaxar...
Os médicos me disseram que, após a cirurgia, eu teria que mudar os meus hábitos de vida. Não me esquento com mais nada...
— Tchau! - disse, estendendo-lhe a mão, que, levantando-se do banco, ele apertou educadamente.
— Tchau, Doutor! Recomendações ao Manoel Roberto...
— Serão dadas! Serão dadas!
— Esse Dr. Inácio!... - escutei-o a glosar, enquanto me retirava cada vez mais surpreso ante os tipos com os quais me deparava no Além.
— Não é de se estranhar tanto assim - repeti aos meus próprios ouvidos, necessitando eu mesmo escutar o que dizia -; afinal, se a maioria não tem consciência de estar reencarnada, por que haveria de ter de estar desencarnada?
A conversa com Ataíde me fez lembrar de uma das páginas de minha preferência, de Emmanuel, inserida no livro "Vinha de Luz", comentando o versículo 51, do capítulo 15, da 1 Epístola de Paulo aos Coríntios:
"Na verdade, nem todos dormiremos, mas todos seremos transformados".
A mensagem, intitulada "Transformação", diz com sabedoria e beleza incomparáveis:
"Refere-se o apóstolo dos gentios a uma das mais belas realidades da vida espiritual.
Nos problemas da morte, as escolas cristãs, trabalhadas pelas cogitações teológicas de todos os tempos, erigiram teorias diversas, definindo a situação da criatura, após o desprendimento carnal.
É justo que semelhante situação seja a mais diversificada possível.
Ninguém penetra o círculo da vida terrena em processo absolutamente uniforme, como não existem fenómenos de desencarnação com analogia integral.
Cada alma possui a sua porta de "entrada" e "saída", conforme as conquistas próprias.
Fala-se demasiadamente em zonas purgatoriais, em trevas exteriores, em regiões de sono psíquico.
Tudo isso efectivamente existe em plano grandioso e sublime que, por enquanto, transcende o limitado entendimento humano.
Todos os que se abeberam nas fontes puras da verdade, com o Cristo, devem guardar sempre o optimismo e a confiança.
"Nem todos dormiremos" - diz Paulo.
Isto significa que nem todas as criaturas caminharão às tontas, nas regiões mentais da semi-inconsciência, nem todas serão arrebatadas a esferas purgatoriais e, ainda que tais ocorrências sucedessem, ouçamos, ainda, o abnegado amigo do Evangelho, quando nos assevera - "mas todos seremos transformados".
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 17, 2018 9:26 am

Paulo não promete sofrimento inesgotável nem repouso sem fim.
Promete transformação.
Ninguém parte ao chamado da Vida Eterna senão para transformar-se.
Morte do corpo é crescimento espiritual.
O túmulo numa esfera é berço em outra.
E, como a função da vida é renovar-se para a perfeição, transformemo-nos para o bem, desde hoje."
E, exercitando a memória, como costumava fazer, quando encarnado, a fim de evitar a precoce deterioração da massa encefálica, fui repetindo os parágrafos:
"...transcende o limitado entendimento humano"; "O túmulo numa esfera é berço em outra"...
E emendava, com pensamentos de minha própria autoria:
— Morre-se para cima e morre-se para baixo; nem todos dormem, mas muitos estão sonolentos; transcende mesmo o limitado, aliás, o limitadíssimo entendimento humano; não dá para penetrar a essência de certas coisas; a vida mental do espírito liberto do corpo é quase idêntica à vida mental do espírito encarnado; "nem todas as criaturas caminharão às tontas, nas regiões mentais da semi-inconsciência" - nem todas, mas a esmagadora maioria...
Um dia - recordei-me em seguida -, encontrei-me com conhecido na fila do caixa do banco.
Como vai, Dr. Inácio? Tudo bem?
Trabalhando muito? - fez-me as perguntas de praxe.
— Tudo bem - respondi com a mesma formalidade.
E você, como vai?
— Numa correria!...
E o senhor, escrevendo coisas boas para nós?
— Um pouco...
— Gosto muito de seus escritos; um amigo presenteou-me com o seu último livro...
Como é mesmo o título?
Meu Deus, a cabeça anda ruim!...
— Cabeça ruim é minha especialidade - brinquei para quebrar o constrangimento.
— Doutor, eu ando num esquecimento!
O caixa do banco começou a atendê-lo e eu, indignado, me pus a remoer, à espera de minha vez:
— Ora, a pessoa quer ser agradável, mas...
Diz que é espírita - eu nunca o vi no centro!
Sequer abriu o meu livro, tenho certeza...
É fazendeiro, só pensa em bois na invernada...
Depois morre, vem dar trabalho!
— Quieto, Inácio! - repreendeu-me a voz da consciência, contrariando-me as elucubrações.
Não efectue julgamentos...
Nosso amigo está simplesmente querendo ser delicado.
— É - repliquei -, mas está mentindo...
Nunca leu e é provável que nunca lerá livro espírita algum.
— As vezes, Inácio, não lê porque não consegue...
Nem todo o mundo é você, e você não é todo o mundo!
Ler ou deixar de ler o seu livro... - enfatizou.
— Eu sei, desculpe-me, eu sei; você tem razão, você venceu - aliás, você sempre vence!...
Desculpe-me, não está mais aqui quem pensou...
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 18, 2018 10:16 am

CAPÍTULO 30
Passar bem, Dr. Inácio! - despediu-se o sitiante, ao sair, dobrando várias promissórias que fora quitar na casa bancária.
Continue escrevendo coisas boas para nós!
— Ore por mim, meu filho - respondi, penitenciando-me de meus pensamentos invigilantes -, pois a fonte da inspiração está secando...
— Não, se Deus quiser, o senhor ainda há de escrever muito e, quando desencarnar, há de dar muita comunicação por aí...
Pronto! A praga estava lançada e eu completamente desprevenido de um dente de alho nos bolsos da calça, de um galho de arruda atrás da orelha, de uma porção de sal grosso enrolado num patuá...
A coisa veio e me atingiu em cheio, pior ou quase igual a praga de padre...
Bem, quando me despedi de Ataíde (espero que vocês não confundam os personagens!), com a noite quase a cair, as luzes da cidade se acenderam, e continuei a caminhar, detendo-me aqui e ali, como se tudo fosse absolutamente novo para mim: as construções, o traçado das avenidas, as lojas com vitrinas amplas, as calçadas sem nenhum desnível, a limpeza na via pública...
Tudo tão antigo e, não obstante, tão novo para mim!
De repente, o som de uma sirene me chamou a atenção e, por momentos, senti-me como se recuasse no tempo, caindo, caindo...
O que será? - indaguei.
Os veículos cederam passagem e uma viatura policial - sim, uma viatura policial! - estacionou diante do prédio de um grande shopping.
— Deve ser algum ladrão! - comentou uma senhora com a amiga, que, curiosas, se juntaram à pequena aglomeração que se formou à porta do edifício.
— Meu Deus, um assalto?! - questionei, esticando o pescoço para ver de que se tratava. Um assalto, aqui?!...
Ladrões no Além?!...
Só falta ser de mão armada...
E era! Creia quem quiser acreditar:
o assalto estava sendo efectuado por um jovem de aproximadamente 22, 23 de idade, com uma arma em punho!...
O sofisticado sistema de vigilância do shopping o surpreendeu e ele fora preso, antes de consumar o ato.
Algemado pelos policiais, o rapaz esboçava um sorriso estranho e chegava a posar para os fotógrafos e repórteres de TV, que haviam chegado ao local com uma presteza impressionante.
— É o Maninho!
É o Maninho!... - disse a senhora ao meu lado.
— De quem se trata? - perguntei como se, de facto, eu fosse um ET por ali.
— É o Maninho! O senhor não lê os jornais?
Trata-se de um dos assaltantes mais procurados pela polícia...
Sempre age sozinho! Desde adolescente é assim...
Coitado!
— De onde é? - tornei a perguntar, querendo me situar dentro daquela realidade.
— Dizem que se esconde por aí, no outro lado da cidade, na periferia...
— Na periferia?
— Está tudo urbanizado, mas é periferia, um bairro pobre...
Preso em flagrante, o delinquente, que fazia questão de falar e se mostrar diante das câmaras, respondia aos repórteres que o entrevistavam:
— Maninho, quantos assaltos você já praticou?
— Perdi as contas...
Roubei pela primeira vez aos 11 anos de idade!
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 18, 2018 10:16 am

— Por quê?...
— Eu gosto; roubar faz a minha cabeça...
Sou marginal de profissão!
— Os seus pais...?
— Não sei de meus pais - respondeu com rispidez -; sou filho da Natureza, que me gerou...
Não tenho ninguém.
— Você já matou alguém?
— Já feri... A culpa não foi minha, reagiram.
(O corpo espiritual, como o corpo físico, é passível, sim, de ser ferido...
Lembro aos leitores que o corpo de carne nada mais é que uma variação do perispírito, que, pelo princípio da relatividade dos elementos, é susceptível de adoecer, ser lesado, etc.
O que é material não fere o que é de natureza etérea, e vice-versa, mas o que é de natureza etérea, menos concreta, age sobre corpos compatíveis.)
— Atirou? - indagou um dos repórteres.
— Atirei...
— Maninho, você tem religião?
— Qual é, meu! Se Deus existe ou não existe, não estou nem sabendo!
Sacou?... Eu sou eu...
— Você crê ter sido um assaltante na Terra?
— O quê? Pirou?!...
A Terra é aqui onde a gente está pisando...
Não têm nada a ver: vida passada, vida futura...
— Vamos, vamos, pessoal!
Precisamos ir - disse, erguendo a mão o chefe do destacamento policial.
Depois vocês conversam com ele no Instituto de Reeducação da Zona Sul, para onde será recambiado.
— Só mais uma pergunta! Só mais uma pergunta (repórter é repórter!) - insistiu um dos entrevistadores, com um daqueles chapéus de agente do FBI de seriado americano na cabeça.
Maninho, muitos têm pedido a pena de morte para você...
O que tem a dizer?
— Estou pouco me lixando...
Vocês não são, como se diz...?
— ...espiritualistas?
— É, é isto daí mesmo.
Se a sociedade é espiritualista, se vocês vivem pregando que a morte não existe, ora!...
É um contra-senso, meu!
Mas eu não me preocupo com essas coisas: se morreu, acabou, está tudo bem; se morreu, não acabou, continuo eu... Ah, ah, ah!...
O grupo de pessoas começou a se desfazer e, devido ao adiantado da hora, antes que Manoel Roberto enviasse alguém para me procurar, resolvi voltar ao Hospital com a cabeça fervilhando de interrogações.
Meu Deus! - pensava, caminhando sob o manto do céu constelado -, como haverei de narrar a nossos irmãos encarnados a experiência que acabei de vivenciar?
Estivesse eu na carne, acreditaria se algum espírito, ainda que por um médium idóneo, descrevesse algo semelhante?
É possível, inclusive - aduzia -, que, diante de minhas ponderações, muitos aleguem que eu esteja lhes preparando o espírito para aceitarem o que rotularão de fantasioso...
Nada, contudo - contra-argumentava, em silêncio -, deve me importar, a não ser a minha tranquilidade de consciência.
A interpretação dos factos não cabe a mim...
Imerso em tais questionamentos, percorri considerável distância quase sem perceber, com a nítida impressão de que os meus pés não tocavam o chão - arrebatado pelas ideias que me assomavam ao cérebro, eu simplesmente levitara!
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 18, 2018 10:17 am

Quando, porém, estava prestes a chegar ao portão principal da instituição hospitalar que coordenamos, deparei-me na estrada de terra com a figura de um homem caído de bruços, a gemer.
Quem seria, àquela hora da noite? - aproximei-me, cauteloso, pensando na possibilidade de uma cilada.
Segundo estava informado, de há muito, certas entidades me haviam, por assim dizer, colocado a cabeça a prémio, desde que escrevera e deliberara publicar a obra "Do Outro Lado do Espelho".
Confesso-lhes que, de coração um tanto acelerado - sim, embora a muitos não pareça, eu tenho um músculo pulsátil que é um arremedo de coração dentro do peito -, pensei em recuar e pedir a um de nossos funcionários que verificasse, mas, naquele instante, lembrei-me da Parábola do Bom Samaritano:
"Um homem, que descia de Jerusalém para Jericó, caiu em poder de ladrões, que o despojaram, cobriram de ferimentos e se foram, deixando-o semi-morto.
Aconteceu em seguida que um sacerdote, descendo pelo mesmo caminho, o viu e passou adiante.
Um levita, que também veio àquele lugar, tendo-o observado, passou igualmente adiante.
— Mas, um samaritano que viajava, chegando ao lugar onde jazia aquele homem e tendo-o visto, foi tocado de compaixão".
Diacho! - conjecturei -, estou longe de ser aquele homem bom da parábola, mas sacerdote e levita eu me recuso a ser - um escriba ainda vá, mas... um sacerdote!
— O que houve, amigo? - perguntei, tentando desvirá-lo para ver-lhe a face.
Um forte cheio de álcool emanou de todo o seu corpo edemaciado e não tive dificuldade para constatar-lhe a cirrose hepática, ante o abdome extremamente distendido.
— Como se chama? - insisti, tirando um lenço todo amassado do bolso do jaleco e limpando-lhe o rosto empoeirado e ferido.
De olhos cerrados, pálpebras inchadas, o homem começou a se debater de um lado para outro, como em inusitada convulsão.
— Fale comigo! - tentava trazê-lo de volta à consciência possível, a fim de que não se rendesse a sonolência mais profunda.
Sou médico; estou aqui para socorrê-lo...
Qual é o seu nome?
O que fazer naquelas circunstâncias?
Alguma coisa me compelia para aquele irmão anónimo, com o qual, inexplicavelmente (força de expressão!), cruzara os meus passos...
Não, eu não poderia abandoná-lo e não tinha como solicitar ajuda.
A noite se adensava e a região era perigosa, já que maltas de espíritos costumavam errar por aqueles caminhos.
Sem alternativa, ergui-o com dificuldade - como pesava, meu Deus! - e joguei-o sobre o ombro esquerdo, à feição de molambento fardo que devesse transportar.
Sinceramente, não sei onde fora capaz de arranjar tanta força!
Segundo a parábola, o samaritano ainda dispunha de um cavalo, mas eu, somente de meus braços!
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 18, 2018 10:17 am

CAPÍTULO 31
Quase dobrando os joelhos, alcancei o portão do Hospital, onde Manoel Roberto, preocupado, já me esperava.
— Doutor, o que é isso? - indagou, auxiliando-me a deitar o companheiro no chão, a soltar pela boca um líquido gosmento.
— Um homem bêbado e doente. Não está vendo?
- respondi, exausto, procurando ar.
— De quem se trata?
— Não sei... Levem-no para dentro, que já irei examiná-lo.
Providenciem uma maca! - ordenei indirectamente ao pessoal auxiliar.
Enquanto as medidas de primeiros socorros eram tomadas, fui ao consultório, lavei o rosto, as mãos e os braços, troquei o jaleco e corri para a sala de emergência, onde uma máscara de oxigénio já lhe havia sido colocada, chegando a tempo de deter um de nossos estagiários com um medicamento injectável pronto para lhe aplicar.
— Não! Vejamos se consegue reagir por si...
A medicação intravenosa poderia funcionar como indução ao coma, que devemos evitar, a fim de que não adormeça por tempo indefinido.
Recorramos ao passe, tentando desentorpecer-lhe o cérebro...
Manoel Roberto, por favor!
A minha solicitação, o prestimoso Cooperador chamou três de nossos mais assíduos Auxiliares e, por cerca de dez minutos, energias espirituais lhe foram transmitidas na região do cérebro, percebendo eu que, aos poucos, o paciente se acalmava.
— Agora, sim - disse ao estagiário a injecção...
Injecte lentamente, de modo que o medicamento naturalmente se lhe incorpore à circulação.
Um choque nestas circunstâncias pode fazer o espírito dormir por muito tempo...
Chega, já dormimos demais - há séculos e séculos, dormimos!...
— Doutor, como ele está desfigurado!
Terá desencarnado há muito?
— Pela situação de seu corpo espiritual, penso que sim, Manoel.
— Desencarnou alcoólatra...
— ...e continuou alcoólatra, certamente vampirizando e sendo vampirizado.
— Corpos ovóides?...
— Sim, quase imperceptíveis, alojados na caixa craniana.
Veja - disse, afastando-lhe alguns fios de cabelo empastados de suor e sangue -, apalpe-lhe o couro cabeludo...
Sinta-os ao toque de seus dedos, qual bernes se movimentando.
— Doutor, quantos!... - exclamou Manoel, penalizado.
— Terão que ser, cirurgicamente, extirpados um a um...
São tumorações da vida mental!
— Interviremos agora?
— Não; precisamos esperar...
Isto não é assim.
O mal que levou tempo para se articular não pode ser desfeito de improviso.
Amanhã, logo cedo, voltarei a examiná-lo.
— Alguma outra prescrição, Doutor?
— Passes, Manoel, duas vezes por dia, na região do cérebro e na do abdome, principalmente.
Era quase madrugada quando me retirei da sala de emergência, deixando dois enfermeiros velando pelo homem que encontrara caído à margem da estrada, qual se, por mistérios insondáveis da Vida, a Providência Divina o tivesse colocado ali, à minha espera.
No outro dia, em que, ansiosamente, aguardava as presenças do nosso caro Odilon Fernandes, Paulino Garcia e Modesta, para a excursão programada à India, com vistas a breve estudo sobre o universo hinduísta, ou bramânico, a minha primeira tarefa foi a de visitar o doente que recolhera na véspera.
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 18, 2018 10:17 am

- Como passou o nosso amigo? - perguntei a Manoel Roberto que já se encontrava a postos.
— Mais tranquilo, no entanto, sem melhoras evidentes.
Os enfermeiros disseram que, durante a transmissão do passe que lhe foi aplicado instantes atrás, ele delirou e pronunciou algumas palavras desconexas.
— Curioso - comentei, fitando-lhe o rosto mais detidamente -, ele não me parece ser de todo desconhecido...
— Quanto a mim, tive a mesma impressão, Doutor.
Embora esteja com as faces edemaciadas, quase posso afirmar já tê-lo visto...
Não sei, ao certo, de onde; creio que, talvez, das ruas de Uberaba!
— Então, é ele!
Não é possível!...
— Ele quem, Doutor?
Antes de responder ao companheiro que me interpelara, examinei-o mais de perto, tentando definir-lhe os traços fisionómicos e forçando a memória a recuar no tempo.
— Comentei com Modesta, mas não com você, Manoel...
Como são caprichosas as leis do destino!
Quem diria, meu Deus!...
— Doutor, estou curioso.
— Trata-se mesmo de um pedinte das ruas de Uberaba, que vivia alcoolizado.
Certa vez, há muitos anos atrás, ele me estendeu a mão, cambaleante, solicitando uma esmola que, infelizmente, neguei; eu estava num daqueles dias em que a gente já se levanta contrariado e atravessa o dia de mau humor...
Arrependi-me depois e voltei a procurá-lo onde sempre fazia ponto...
— Nas imediações da Praça dos Correios...
— E no Mercado Municipal, mas nunca mais pude encontrá-lo!
Confesso que cheguei a pensar tratar-se de um agénere, que cruzara o meu caminho, com o intuito de me testar...
Sempre me recordava do facto e me entristecia.
Qualquer outro esmoler que me abordava fazia com que, de imediato, eu me lembrasse dele.
Estivesse bêbado ou não, nunca mais neguei alguns trocados a um pedinte, mas, para a minha consciência, não servia - tinha que ser ele, a minha dívida era com ele!
— A consciência é implacável, não é, Doutor?
— Com quem a tem, Manoel, com quem a tem!
— Eu não o estou recriminando...
— E nem pode, porque você...
Bem, deixe para lá - não perdi a oportunidade de me defender e alfinetar o amigo, que, na verdade, sempre teve um generoso coração, advogando junto a mim a causa de muita gente sofredora.
Após examinar-lhe as condições gerais, com particular atenção para os corpúsculos ovóides que se lhe alojaram na cabeça, perguntei:
— Você sabe como ele era chamado, Manoel?
— Não me recordo, Doutor.
— É, o bêbado, além de perder a família, costuma perder até o nome; degrada-se tanto, que a sociedade o marginaliza...
Todavia, nesta, estou pago para ficar calado!
Num minuto de tolo moralismo de minha parte, de rebeldia não sei com o quê, deixei de ser espírita, ou melhor, de ser cristão.
— O que dá na mesma, não?
— Não, não dá, não, Manoel!
— Nossa! Numa frase tão curta o senhor pronunciou três nãos...
— É porque não couberam quatro... Hoje em dia, tem muito espírita que, de cristão, não tem nada!
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 18, 2018 10:17 am

— Concordo em género, número e grau!
— Ué, está aprendendo, hem!
— Convivência...
— De qualquer forma - voltei a falar sério -, dou graças a Deus...
A Misericórdia Divina tem sido compassiva para comigo; reconheço não merecer tanto...
Cuidarei do nosso amigo e o adoptaremos como irmão!
— Adoptaremos, Doutor?
— É! Você acha que eu vou cuidar dele sozinho?...
Ele será seu irmão também!
— Mais um, menos um...
Cada vez que sai para a rua, o senhor traz alguém!
O Hospital não tem mais espaço...
— Mas não é por culpa dos indigentes, não!
Quase todo dia, é uma nova leva de médiuns perturbados...
Meu Deus! Eu vou me queixar ao Odilon...
— O que o senhor vai se queixar ao Odilon, Doutor? - interrogou o dilecto companheiro, que, sorridente, se aproximava pelas minhas costas.
Meu caro!
— Dr. Inácio Ferreira!...
— Você não há de ver o que aconteceu...
Lembra-se daquele caso que comentei, do meu drama de consciência?...
— Lembro-me, Doutor, e...
— Já sabe de tudo, não é?
— Menos um pouco!
Que dádiva, o senhor está recebendo!
É merecimento, Doutor...
Muitos fazem a caridade para obterem mérito, outros já a fazem por mérito.
— Estou estupefacto, Odilon.
Como é que esse homem, que deve ter desencarnado antes de mim...
— Ele era conhecido pela alcunha de "Cinco-Pauzinhos"...
—O facínora? Irmão de um outro, conhecido por "Três-Pauzinhos"?...
— Sim, ele mesmo:
o Adolfo, nome que lhe foi dado pelos seus genitores.
— Dizem que morava numa tapera na Rua do Carmo, que nascia ali na Praça do Mercado.
Assaltante temido...
Eu não sabia que era ele!
— Que a bebida, feliz ou infelizmente, reduziu a deplorável condição.
Por último, andava com as pernas inchadas, mendigando aqui e ali...
Cheguei a visitá-lo algumas vezes, com um grupo de senhoras.
Outras famílias pobres se alojavam no mesmo recinto, muitas crianças passando fome...
- Está vendo, Manoel, como você julga mal as pessoas?...
— Eu, Doutor?!
Odilon sorriu e, após observá-lo, pousando-lhe a destra iluminada na fronte, comentou:
— Filho de Deus, ele se reerguerá...
É apenas uma questão de tempo. Todos, gradativamente, não importa quão fundo e escuro seja o abismo a que se tenham lançado, se levantarão para a luz!
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 18, 2018 10:17 am

CAPÍTULO 32
Deixando Adolfo sob os cuidados de competente equipe médica que trabalha connosco, retirei-me com Odilon, encontrando-nos lá fora com Paulino Garcia e Modesta que apreciavam as flores de uma de nossas muitas áreas ajardinadas.
— O que seria do mundo sem as flores! - exclamou Modesta, afagando um antúrio branco que acabara de se abrir, majestoso.
— Seria, certamente, muito triste - respondi,
emendando: sem flores, sem pássaros e sem crianças!
E querem nos destituir disto tudo, depois da morte...
Em que visão os nossos olhos redivivos haveriam de repousar?
Que imenso vazio, que aridez!
Como a Criação Divina se empobreceria!...
— Sem flores, sem pássaros, sem crianças, sem borboletas e fontes cantantes, Inácio!
Nem as estrelas no céu haveriam de substituir as bênçãos que a Natureza nos ofertava na Terra, dos vivos e dos mortos...
- Bênçãos que, infelizmente, a maioria menospreza, insensível - lamentei, correndo de leve a mão sobre as corolas de uma fila de lírios dourados, plantados à margem de empedrada passarela.
O homem ainda há de se arrepender, amargamente, pelo descaso com a Natureza!
A questão do desmatamento do Planeta é um dos crimes mais bárbaros que, sistematicamente, vem sendo praticado, ante a inércia das autoridades.
— A quebra no equilíbrio ecológico - observou Odilon - suscitará, inclusive, o surgimento e a proliferação de novos micro-organismos nocivos mutantes, qual os vírus, por exemplo, que colocarão em risco a sobrevivência da espécie humana; isto, sem mencionarmos as pragas nas lavouras, que exigirão, cada vez mais, agro-tóxicos mais agressivos, causando graves danos à saúde, no mundo celular.
O próprio ar que o homem respira vem se contaminando aos poucos, sem que consiga se purificar a contento; se analisados em laboratório, os tecidos pulmonares evidenciarão resíduos estranhos, semelhantes aos encontrados nos que cultivam o hábito de fumar...
— Não tivesse o corpo humano maravilhosa capacidade de adaptação às condições adversas - completei -, o cenário actual já seria estarrecedor no campo da Genética; todavia, a continuar assim, a mulher e o homem, antes de optarem por um filho, terão que se submeter a sofisticados exames, avaliando as condições físicas de ambos para procriação...
Os casos de anencefalia vêm aumentando consideravelmente, a tendência à obesidade precoce, a hipertensão arterial infantil, a diabete e mesmo a impotência sexual nos jovens, inclinando-os, assim, a conflitos de variada espécie...
— Abortos espontâneos, dificuldades da mulher em engravidar devido a cistos ovarianos, não é, Inácio?
- acrescentou Modesta, em tom de justa preocupação.
— Tudo isso será carma, Dr. Odilon? - indagou Paulino ao Instrutor.
— O carma propriamente dito, não nos esqueçamos, é consequência da insensatez humana, reacção desencadeada pelas suas atitudes em desacordo com a Lei.
Existem dores que poderiam e podem ser evitadas...
Exceptuando-se aquelas que nos impelem a progredir, obstáculos naturais na senda evolutiva que incrementam o desenvolvimento do intelecto e da sensibilidade, as demais resultam das escolhas infelizes que efectuamos.
— Então, é impossível não sofrer?
— As dores que nos são mais pungentes e constantes, as que mais se demoram connosco, exigindo reparação, originam-se do nosso livre-arbítrio e não das experiências que, desde os primórdios, o princípio espiritual faceia, em sua escalada para os Cimos.
— Vejamos se entendi - tornou o interessado pupilo de Odilon.
O sofrimento natural é prova de aferição de valor, capacitando o espírito, ao passo que o provocado por nós é causa geradora de carma...
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 18, 2018 10:18 am

— Paulino, façamos uma distinção, para efeito de melhor compreensão.
Normalmente se diz, em relação a quem sofre:
— "É uma prova!"
Não deixa de ser; não obstante, dir-se-ia com mais acerto:
— "É uma expiação!"
Prova e expiação diferem substancialmente.
Toda expiação é uma prova, na qual o espírito pode se eximir ou se complicar ainda mais, em seus débitos, mas a prova, em si, não é uma expiação.
Tentemos ser mais claros:
se existe carma, é expiação; se não existe, é prova.
— Odilon - aparteei -, mas quem estará isento de carma?
— Teoricamente, o espírito que não se compromete...
— Teoricamente, no entanto, na prática...?
— ...na prática, Doutor, compete-nos evitar a formação de novos carmas.
Isto, podemos fazer, principalmente agora que o conhecimento espírita tem nos ampliado os horizontes da consciência, pois, até então...
— ...tem sido carma sobre carma, ou seja, carma demais para um espírito só, não é?
Não temos feito para pagar os juros da dívida...
A nossa situação espiritual é a de tentar dar o "calote"!...
O Instrutor sorriu e continuou:
— Se em nada mais nos beneficiasse, o Espiritismo, em nos tornando despertos para a realidade de que somos construtores do próprio destino, já teria cumprido a sua missão junto a nós, os que lhe abraçamos os postulados.
A velocidade com que nos equivocávamos vem diminuindo, se desacelerando, possibilitando-nos ensejo, através da acção consciente e enobrecedora, de nova semeadura para o porvir.
— O Espiritismo, de facto, é uma luz que nos guia para fora do labirinto cármico!
Mesmo que a gente não consiga parar de errar de vez, só de errar menos e acertar mais...
— Como o senhor colocou, vamos criando "caixa" para amortizar os juros e quitar parcela do montante principal da dívida, sem necessidade de pensar em "calote"...
— Gostei do "vamos criando caixa"!...
— E tem espírita, Inácio - observou Modesta -, que acha que trabalha demais...
Você se lembra quando convidávamos alguém para uma tarefa extra no Sanatório?
— Se me lembro!
Certa vez, um voluntário chegou a dizer a mim que não era meu empregado, só porque eu havia pedido a ele que, se possível, não se atrasasse para o banho nos doentes, que precisavam jantar um pouco mais cedo por conta da medicação da noite.
— Você ficou calado, não é? - provocou-me a companheira.
— Eu?... Até que fiquei, só respondendo que, se fosse meu empregado, em vez de receber, ele teria que me pagar um bom salário todo mês!
— Com certeza, nunca mais pisou lá...
— Achei que não voltaria, mas você não há de ver, Modesta, que ele nunca mais se atrasou!
Ficamos os dois envergonhados e, de simples voluntário, passou a coordenar o banho nos pacientes da ala masculina.
Um dia, depois de muito tempo do entrevero, ele me perguntou:
— "Dr. Inácio, quanto lhe devo?"
Respondi: —"O mesmo que lhe devo, meu irmão!..."
Havíamos, os dois, aprendido muito um com o outro:
ele foi humilde antes e eu fui humilde depois.
— É, Inácio, tratou-se de um caso com final feliz, mas, em geral...
— ...em geral, os espíritas são metidos a besta!
— Este é o Inácio que eu conheço! - brincou Modesta, arrancando sorrisos de Odilon e Paulino.
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 18, 2018 10:18 am

— Somos metidos a besta! - tratei logo de me corrigir e justificar.
Estou aprendendo, Odilon.
Lentamente, mas estou...
— Mas, neste aspecto, o senhor tem razão.
— Da besta?...
— Não - apressou-se o Instrutor -, refiro-me ao aspecto de nossa ignorância e rebeldia, ante a necessidade de sermos mais úteis - de, espontaneamente, procurarmos ser mais úteis, fazendo pela Doutrina um pouco do muito que ela nos tem proporcionado.
Ocuparmos o tempo ocioso é uma bênção sem precedentes históricos em nossa jornada evolutiva, desde quando, aproximadamente há 40.000 anos, conquistamos a láurea da razão.
Eis o que o Espiritismo tem feito por nós, dando sentido às nossas vidas!
— Quando penso nos milhões e milhões de anos que permanecemos à mercê das circunstâncias, encarnando e desencarnando, sem sequer nos darmos conta do fenómeno...
Não estou, é claro, levando em consideração os estágios da mónada nos reinos inferiores, que, para mim, remontam ao princípio das coisas.
— Ao princípio das coisas, Doutor? - perguntou Paulino, admirado e curioso.
— Para a minha compreensão, sim.
Eu não consigo conceber Deus criando sem cessar.
Para mim, tudo já está aí, desde os primórdios da Criação.
É um tema no entanto, reconheço, controvertido.
Admito que as coisas estejam sendo aperfeiçoadas, ou melhor, se revelando aos olhos da criatura, como são e sempre haverão de ser.
— Doutor - convidou o Mentor -, voltemos ao enfoque anterior, sem dúvida de interesse mais prático e imediato para nós:
a questão do melhor aproveitamento do tempo, com a finalidade de gerarmos efeitos positivos para as nossas futuras incursões no corpo de carne.
— Isso é fundamental! - concordou Modesta.
O resto é especulação de natureza filosófica, susceptível de infindáveis polémicas.
— Resumindo - falei:
trabalhar no bem, aguentando as consequências do passado!
Tem carma que ainda está para chegar, não é?
— Tem, Doutor; infelizmente, o bumerangue foi lançado...
— Está por aí, dando a volta sobre si mesmo, rodopiando, para, em retornando ao ponto de origem, nos atingir a moleira...
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Re: ESPÍRITOS E DEUSES - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 18, 2018 10:18 am

CAPÍTULO 33
Carma de efeito retardado! - defini, ansioso por ouvir Odilon.
— Sim, temos carma de efeito imediato e carma de efeito retardado.
— Um exemplo de carma imediato?
— Quem esmurra a parede quebra a mão!
Quem avança o sinal vermelho provoca colisão...
— Quem se atira na água, sem saber nadar?...
— Ações de implicação mais complexa são de
ordem moral; o carma de efeito imediato é de natureza mais física...
Quando ocorre um crime, o carma de efeito imediato é a prisão, o cerceamento da liberdade - as consequências morais chegarão gradativamente:
o remorso e a reparação da falta cometida.
— No caso do suicídio...?
— ...o efeito imediato é a desencarnação; o carma de efeito retardado é a expiação dolorosa, não raro, envolvendo múltiplas existências...
- Quer dizer, Odilon...?
— ...que precisamos trabalhar, porque não sabemos que tipo de acção cometida por nós se encontra reverberando por aí!
— Ainda tem essa?...
— Essa, Doutor, e outras tantas, das quais, felizmente, não nos lembramos.
— Significa que o trabalho no bem, simbolizando os nossos esforços de espiritualização, tem dupla finalidade?
— Tripla finalidade!
- ?!...
— Anularmos as consequências presentes de atitudes do pretérito, atitudes negativas, é óbvio, amenizarmos a força de impacto das acções desencadeadas que se encontram a caminho e gerarmos causas positivas para o futuro.
— Perdoe-me incomodá-lo tanto com o meu questionamento ingénuo:
por que o carma de efeito retardado?
Se o homem experimentasse, de imediato, o que faz outro sofrer...
— ...sem anestesia e os devidos cuidados para uma intervenção cirúrgica, podemos até, numa emergência, lancetar uma colecção purulenta, mas não podemos efectuar a extirpação de tumor maligno que se encontra enraizado.
Sem o concurso da Misericórdia, a Justiça Divina não cumpriria com o seu objectivo pedagógico de reeducar; a Lei não quer a morte do pecador, mas, sim, a do pecado...
Quem haveria de suportar o peso de suas culpas, caso elas se lhe precipitassem de improviso sobre o espírito?
— O assunto, de fato, transcende a análise superficial com que comumente é apreciado.
— O sentenciado a 30 anos de prisão sobreviveria às agruras da sentença que devessem se lhe resumir em um único dia?
E, depois, o mal não carece, necessariamente, ser resgatado pelo mal - se assim fosse, Deus não seria a Fonte do Supremo Bem!
— Posso, então, tendo feito o mal a alguém, ao tomar consciência de meu erro, repará-lo, sem que me seja indispensável passar pelo mesmo tipo de sofrimento que lhe impus?
— Ninguém conseguirá evitar as consequências morais do erro cometido, que lhe servirão de estímulo e inspiração à corrigenda, mas, por exemplo, por ter matado, ninguém precisará morrer nas mesmas circunstâncias, vítima de quem, outrora, se tenha feito algoz.
O débito que, individualmente, adquirimos, pesa sobre a colectividade...
— O que fazemos a alguém, fazemos à Humanidade inteira!
— Correto!
— E se, por exemplo - questionei, interessado em extrair o máximo do Orientador -, opto por não agir?
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