Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

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Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 11, 2018 7:52 pm

Depende de Nós
Wanda A. Canutti

Espirito Eça de Queiroz

Orelha
Uma história actual, relatando a morte prematura de um garoto e seu retorno no mesmo lar, onde passa a recordar sua última encarnação.
O encontro de pessoas com quem conviveu e o envolvimento entre eles faz renascer lances da vida pregressa, com factos autênticos de identificação, tendo participado dessas ocorrências personalidades espíritas que pesquisam a mediunidade e os fenómenos de recordações de vidas passadas.
Com o crescimento do jovem, outras existências começam a brotar em sua mente e a visualização de uma encarnação há muito tempo decorrida traz lembranças de um grande amor.
Em linguagem acessível ao grande público, a mesma médium do livro revelador, Getúlio Vargas em Dois Mundos, professora Wanda A. Canutti, recebeu através da mediunidade intuitiva este novo romance do espírito Eça de Queirós, que orienta:
— A vida está constantemente a nos ensinar, mas precisamos ter o entendimento aberto, precisamos ter olhos de ver, se não passaremos por ela sem termos aproveitado as oportunidades que se nos oferecem.

INDICE
PALAVRAS DO AUTOR
1 - DOIS EXTREMOS
2 - O REGRESSO
3 - UM CASO ESTRANHO
4 - EXPLICAÇÕES CONVINCENTES
5 - O CENTRO ESPÍRITA
6 - O CASTELO
7 - NOVO EMPENHO
8 - O TEMPO NÃO PÁRA
9 - CÍNTIA
10 - EM BUSCA DE ESCLARECIMENTO
11 - REVIVESCÊNCIA DO AMOR
12 - REVELAÇÕES
13 - UM PASSADO QUE RETORNA
14 - EM OUTRA DIMENSÃO
15 - VISITA RECONFORTANTE
16 - CURIOSIDADE DESPERTADA
17 - JUSTIÇA DIVINA

A vida está constantemente a nos ensinar, mas precisamos ter o entendimento aberto, senão passaremos por ela sem termos aproveitado as oportunidades que se nos oferece.

Eça de Queiroz
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Ave sem Ninho

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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 11, 2018 7:52 pm

PALAVRAS DO AUTOR
Quando nos vemos deparados com determinadas situações, neste orbe de aprendizado, trabalho e redenção, muitas vezes sentimo-nos impotentes para suportá-las ou para compreendê-las.
Entretanto, o Pai misericordioso e bom nos auxilia, enviando-nos, de uma forma ou de outra, o amparo de que necessitamos, basta que estejamos preparados para compreendê-lo e recebê-lo como bênção de entendimento e amor.
Há situações que reportam apenas aos problemas de ordem física e material, sem relação com o mundo invisível.
Há outras, porém, estreitamente ligadas ao Mundo Espiritual, e por sua própria natureza, mais difíceis de serem compreendidas.
Àqueles que já têm um conhecimento prévio das verdades aqui deixadas por Jesus, quando esteve entre nós, e nelas se apegam como o único recurso que lhes abre as portas do entendimento, é mais fácil.
Todavia, há os que nada sabem e, ao serem deparados com problemas que vão além daqueles que envolvem apenas os sentidos físicos, vêem-se aturdidos, sem saber a atitude correta para enfrentá-los adequadamente.
Mesmo esses, sem o entendimento que lhes esclareceria qualquer ocorrência dessas acima expostas, se uma acuidade maior os leva a procurar os recursos adequados para solucioná-las, se tiverem solução, ou pelo menos aceitá-las, se forem inevitáveis, não lhes será tão difícil.
Após esse primeiro momento, eles poderão se encaminhar para outros conhecimentos mais profundos, que os auxiliarão na sua condução diante da vida, com tudo o que ela lhes reserva e que, às vezes, os aturde.
Os desígnios de Deus são insondáveis, e se aqui estamos, resgates têm que ser efectuados, mas, justamente com eles, o mais importante é o aprendizado que deve ser realizado.
A vida está constantemente a nos ensinar, mas precisamos ter o entendimento aberto, senão passaremos por ela sem termos aproveitado as oportunidades que se nos oferece.
Saibamos, nós, diante de qualquer situação, neste orbe de provas e testes, tomar o posicionamento mais adequado, pela compreensão, pela renúncia, se a ela formos solicitados, ou pelo aprendizado; porém, nunca pratiquemos actos dos quais venhamos a nos arrepender.
Nada fica sem consequência diante de Deus, que, embora não nos castigue, faz com que Sua Justiça se cumpra.
Atentemos, pois, para nossas atitudes, e cuidemos para sermos aprovados!
Só assim não seremos obrigados a sofrer por muitas e muitas encarnações, o que não soubemos conduzir em um momento de infortúnio, que nada mais era do que um teste ao qual estávamos sendo submetidos para que a nossa reacção fosse avaliada.
Que cada leitor aproveite das lições que este livro contém, tendo olhos de ver cada uma com suas consequências, em acordo com o caminho escolhido pelas personagens, cópias de nós mesmos na nossa jornada de Espíritos imortais, ora encarnados na Terra, ora libertos no Mundo Espiritual.
Às vezes, diante de uma adversidade, sofremos muito, mas, se soubermos nos conduzir, mesmo que nossos anseios mais momentâneos sejam frustrados, o futuro nos reservará muitas alegrias.
Depende de nós, portanto, termos uma vida de alegrias e paz, ou vivermos assoberbados pelos resgates dos compromissos que nós mesmos acumulamos.
Saibamos, pois, ser felizes, porque depende apenas de nós!

Eça de Queiroz Araraquara, 27 de janeiro de 1997.
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 11, 2018 7:52 pm

1 - DOIS EXTREMOS
Todos deixavam o salão, onde a festa estava terminando.
Um por um, cansado da noite, procurava o repouso do lar.
A casa que os recebera como convidados ia ficando vazia, e os anfitriões, felizes do que puderam proporcionar, também aguardavam o repouso.
A alegria pelo sucesso, porém, era tanta, que, talvez, não conseguissem o sono desejado para o resto de noite que ainda persistiria por umas poucas horas.
O lar dos Correias sempre era palco de festas grandiosas.
Tudo era motivo para reunir amigos, mas, o que os trouxera naquela noite fora muito especial.
Os donos da casa, o senhor António José e a esposa Linda, comemoravam dez anos de uma união muito feliz.
Há dez anos haviam se unido em matrimónio, com o assentimento de ambas as famílias.
Além do amor que florescia e transparecia em seus olhos, sem conseguir se conter só nos seus corações, havia a ligação de duas famílias muito bem conceituadas diante da sociedade e muito bem posicionadas no mundo dos negócios.
O casamento era promissor para ambos os lados, e passados dez anos, nada lhes provara o contrário.
O casal era feliz!
Duas belas crianças brotaram como rebentos de uma planta de flores perfumadas, e quando comemoravam dez anos de feliz consórcio amoroso, o garoto que chegara em primeiro lugar e recebera o nome do avô paterno, Felício, contava oito anos.
A menina, a flor mais bela que aquela plantinha pudera produzir, recebera o nome de Magda e já completara cinco anos.
O que mais desejava aquela família?
O conforto que o dinheiro proporciona, a alegria dos que são felizes, a consistência de uma união familiar que o amor favorece, o enriquecimento do lar com os filhos que chegam, tudo isso eles possuíam.
Nada mais desejavam!
Nunca havia pensado em como seria, se, um dia, uma grande transformação os surpreendesse e suas vidas mudassem.
A solidez do que possuíam dava-lhes a certeza de que continuariam sempre, como até então, vendo os filhos crescerem belos e saudáveis, fazendo a alegria do lar e a felicidade dos seus corações.
António José criava Felício pensando em tê-lo consigo nos negócios, assim como ele próprio continuava o comando que o pai deixara há poucos anos, quando um imprevisto o levou do convívio familiar.
Depois desse acontecimento, mais ainda pretendia preparar o filho, dizendo que o amanhã sempre traz surpresas e ele não queria estar desprevenido para nenhuma delas, agradecendo ao pai por tê- lo capacitado para prosseguir em seu lugar, sem nenhum prejuízo.
Não que ele fosse o único filho, que dois mais havia, porém, em seguida a ele, chegara uma mulher que se casara e vivia mais ligada à vida do marido e aos seus afazeres, e outro bem mais jovem que não trazia nenhuma tendência para gerenciar nada que o prendesse dentro de quatro paredes por muitas horas.
Era aplicado mas desejava um outro tipo de actividade, para a qual ainda não havia se decidido.
Da retirada de todos os convidados, Linda e António José passaram pelos quartos dos filhos, que dormiam profundamente, ajeitaram-lhes as cobertas, depositaram um beijo em seus rostos, e foram para os próprios aposentos.
— Cada vez que vejo nossos filhos tão tranquilos, dormindo, meu coração se enternece mais e o meu orgulho de mãe se exacerba!
— Ora, por que orgulho, querida?
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 11, 2018 7:53 pm

— Por que eu os amo, eles são fortes, saudáveis e muito bonitos.
Você já analisou os traços delicados de Magda?
— Ela é muito parecida com você!
Os olhos são uma cópia perfeita dos seus!
Verdes como as águas de um mar tranquilo...
— E o nosso Felício!
É um menino saudável e de traços mais acentuados que os de Magda, próprios daqueles que serão belos modelos de Adónis, prontos para perturbarem os corações femininos...
— Às vezes, Linda, fico pensando em nossos filhos, não para admirar a beleza que possuem, como você o faz, mas preocupado com seu futuro.
— Por que pensar no futuro, se temos suficiente solidez para que eles sejam felizes, realizando o que desejarem?
— Não é no conforto material que penso, que esse eles já o têm assegurado, mas falo de sentimentos!
- — O que quer dizer?
— — Penso em nós, no quanto somos felizes, no quanto a nossa união deu certo, nos completamos um ao outro...
— ... é porque nos amamos muito, querido!
— Justamente o que ia dizer!
Encontrarão, eles, futuramente, no matrimónio, quem os faça felizes, quem os complete como nós nos completamos?
— Não leve seu pensamento tão longe para não trazer essas preocupações!
Cada coisa vem a seu tempo, e, se no tempo deles não acharmos conveniente o que supõem, os farão felizes, não permitiremos que se unam!
— Infelizmente, Linda, não é assim, e você sabe!
— Tem razão! Enquanto são crianças, os temos sob nossos olhos, deitamo-nos tranquilos porque eles estão em suas camas dormindo!
— Damos-lhes um beijo, ajeitamos as suas cobertas, fechamos a porta e nada mais nos preocupa!
Futuramente, porém, não será assim!
Mesmo que queiramos o melhor para eles, mesmo que lhes proporcionemos as melhores escolas e a melhor educação, nunca saberemos o que os irá deslumbrar fora do lar!
— É verdade!
Mas por que trouxe esses pensamentos preocupantes depois de uma noite tão feliz como a que tivemos?
—Não sei!
Talvez, justamente por isso!
Por sermos tão felizes nessa convivência de tanto amor!
— Esqueçamo-nos deles, agora, e descansemos também.
— Amanhã é domingo e poderemos ficar até mais tarde, despreocupados!
— Mas as crianças deitaram cedo, que não permitimos alonguem-se demais dentro da noite, e nos acordarão.
— Até as estou vendo entrarem correndo por aquela porta e se colocarem connosco em nossa cama!
— Não diga que não gosta quando elas assim procedem...
— Não gostaria se não viessem!
Sabe que, aos domingos, sempre as esperamos!
— Pois então aproveitemos o resto da noite para descansarmos, que logo as horas se escoarão e elas estarão aqui!
O repouso do sono em pouco tempo os envolveu, mas as horas que se faziam tardias, não esperaram muito para devolver o brilho do sol com seus raios aquecedores e suas energias salutares, e um novo dia estava completamente instalado.
Pressa em deixar o leito, não havia.
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 11, 2018 7:53 pm

Era dia de descanso das obrigações profissionais, dia dedicado à união mais estreita da família.
António José e Linda ainda dormiam, quando perceberam leve mãozinha tocando-os.
Magda já se colocara entre os dois e chamava-os, mas estava só.
Linda, com sua sensibilidade materna, despertou mais rapidamente e viu que Felício não viera.
— Onde está seu irmão, minha querida?
— Eu o chamei, mas ele não veio!
Parece que não me ouviu.
— Ora, por quê?
Já é tarde!
Despertando, António José levantou-se e, preocupado, foi ter com o filho, enquanto Magda permaneceu abraçadinha com a mãe.
Apressado, retomou chamando a esposa, dizendo que o menino estava queimando de febre.
— Há não muitas horas ele estava bem! — exclamou ela.
Lembra-se de quando o beijamos?
Não senti que estivesse febril!
— Mas agora está e precisamos tomar alguma providência!
—De que se queixa ele? — indagou Linda, já de pé, dirigindo-se ao quarto do filho.
— Sua febre está tão alta que não se queixa de nada!
Ele está meio indiferente e, ao tocá-lo, chamando-o, ouvi apenas um ténue gemido!
— Então é muito mais grave do que imaginava!
Ligue imediatamente para o médico, enquanto eu lhe farei companhia!
Felício estava com a temperatura tão alterada que não deu atenção à mãe, e ela,
desesperada, abraçava-o ternamente, mas a criança só reagia com algum gemido.
Indagado se sentia alguma dor, ele não respondeu, e a aflição tomou conta do casal.
A esperança de que um medicamento adequado lhe fosse prescrito e a febre logo debelada alegrou-os à chegada do médico.
Entretanto, realizados os exames, problemas mais sérios foram constatados, e a internação em hospital foi solicitada de imediato.
— Mas o que tem meu filho? — indagava a mãe, aflita.
— Nada posso afirmar ainda, pois dependo de exames mais acurados e específicos.
— Pela madrugada aqui estivemos, beijamo-lo e nada percebemos!
Sua temperatura estava normal! — voltou a manifestar-se a mãe.
— Se for o que penso, é assim mesmo que ocorre.
A febre se instala e sobe a temperaturas altíssimas em poucos instantes.
—O senhor não vai ministrar-lhe nenhum medicamento para aliviá-lo? — indagou o pai.
— Com certeza!
Apenas para abaixar um pouco a febre e ele sentir-se melhor, mas, quanto a medicamentos específicos, só depois dos exames.
— Então levemo-lo rapidamente! — exclamou o pai.
— Eu os acompanharei para que não haja perda de tempo!
António José tomou o filho nos braços, chamou o motorista,
que colocou o carro à disposição imediatamente, e Felício foi levado, para desespero dos pais.
Magda não os acompanhou, não seria conveniente, e uma criada foi chamada para fazer-lhe companhia.
No hospital, toda uma equipe foi movimentada às pressas.
Muitos exames realizados, o menino passou por diversas mãos, e todos eram unânimes em confirmar o mal que o médico havia prognosticado no lar, sem nada esclarecer aos pais.
Medicamentos foram ministrados, porém, seu estado de saúde não se modificava.
Aquele resto de domingo terminou, chegou a noite com suas sombras atemorizadoras, mas Felício, ao invés de reagir positivamente, se prostrava ainda mais.
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 11, 2018 7:53 pm

Parecia que os cuidados dispensados, os medicamentos ministrados não eram alvos da atenção da altiva e orgulhosa enfermidade que não se curvava diante de nada.
O desespero e a aflição dos pais aumentavam cada vez mais, pois viam o filho adorado, esperança, alento e força de suas vidas, lhes fugir com o escoar das horas.
Finalmente, durante a madrugada, tendo os pais a seu lado, médicos tentando as últimas esperanças, ele, sem ter reagido, num suspiro mais profundo desfaleceu de vez, deixando-os para sempre.
*****
Só os que já passaram por situação semelhante, poderão avaliar a dor e o desespero daqueles
pais, ao verem fugir da alegria e das esperanças de suas vidas um ser tão profundamente amado, resultado do grande amor que os unia.
Os outros, por mais se comovam e procurem compreender, supondo estarem partilhando do sofrimento dos pais, numa situação dessas, não têm a mais leve impressão do que seja a dor da perda de um filho, sobretudo para aqueles que não possuem o conhecimento da continuidade da vida, e não sabem que aqui estamos cumprindo tarefas como instrumentos dos desígnios de Deus.
Somente o Criador sabe o quanto aqui cada um deve permanecer, porque a Terra não é o nosso lugar, senão onde vimos para as expiações e provas do Espírito, alvo das benesses de Deus.
O Espírito, que é imortal, é mais importante!
A fragilidade de um corpo físico é um momento diante da eternidade do que somos, porque, antes de mais nada e acima de tudo, somos Espírito e é nele que devemos pensar.
Todavia, nesse momento supremo de dor, ninguém pensa assim, e o sofrimento da perda é muito grande.
É como se se mergulhasse no nada, e nada mais tivesse interesse.
A vida como que cessa até para os que ficam, porque vêem, nos que partiram, a sua própria razão de viver.
Quanto mais cada um, neste orbe de aflições, estiver afastado de Deus e ignorar as verdades espirituais, insofismáveis e indiscutíveis, maior será o seu sofrimento.
Até a revolta, às vezes, toma conta de seus corações, por se compreenderem injustiçados diante de um Pai que os escolheu para lhes testar tanta dor, enquanto outros continuam felizes e despreocupados a deambular, não raro desperdiçando oportunidades valiosas, mergulhados no vício, nos prazeres desregrados e na delinquência.
No entanto, o que nos aflige, neste momento, ocasionando estas divagações, foi a dor que aqueles pais estavam sentindo.
António José e Linda, companheiros de uma intensa felicidade, para quem a vida, até a véspera, apenas sorria, de repente conheceram o seu lado raivoso e vingativo, levando-lhes um dos dois seres mais queridos que seus corações abrigavam.
O ato consumado, aquele corpinho forte e ainda até corado, jazia imóvel, insensível aos apelos daquela mãe, que não sabia se conseguiria suportar tanta dor e continuar vivendo.
António José, em grande desespero, acercou-se mais de Linda e abraçou-se a ela profundamente, derramando em seus ombros copiosas lágrimas, ele que, até então, havia resistido à demonstração de tanto sofrimento.
O médico, sem saber que atitude tomar diante daquele quadro de sofrimento e de impotência frente aos desígnios de Deus, de cabeça baixa e também bastante abatido, retirou-se do quarto.
Alguns parentes, chamados às pressas, estavam do lado de fora do quarto, esperando, mas, à visão do médico, compreenderam que o pior havia acontecido.
Novas providências deveriam ser tomadas, e os pais foram solicitados a deixarem o quarto, mas era-lhes impossível.
Como deixar aquele ser tão amado, só, apesar de que ele mesmo os havia deixado?
Não! Eles estariam em sua companhia até o último instante, só não pensavam em como seriam suas vidas, depois de terem sido decepados nos seus mais caros sentimentos.
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 11, 2018 7:53 pm

Contudo, a vida continua para aqueles a quem Deus permite prosseguir, e eles ainda tinham Magda, que precisava muito deles.
Todas as providências necessárias e de praxe foram tomadas, porém, não pelos pais, que não tinham condições de fazê-lo e não se afastavam do filhinho querido.
As horas transcorreram como se tivessem asas e voassem a grande velocidade, e a hora da separação suprema, a mais dolorosa, se deu.
O que lhes restava?
Tinham Magda que estava saudável e pouco entendia do que se passava, mas ela estava bem.
Seus pensamentos não se desligavam do pequeno Felício, alegria, esperança e alento de suas vidas.
Todavia, o vazio de sua presença estava consumado, não o vazio de seus corações, que, esse, ele o tomava por inteiro.
O auxílio dos amigos, o conforto dos parentes próximos, a palavra de até desconhecidos que se comoveram com a tristeza do casal, aos poucos, com muita lentidão, faziam com que, pelo menos aparentemente, eles fossem se acomodando, mas nem o lar, nem a família, e nem eles próprios eram mais os mesmos.
Aquela vida encantada de sonhos, de facilidades, de alegrias, de esperanças, de reuniões festivas, tudo envolto pelo grande conforto material de que desfrutavam, não existia mais.
O conforto continuava, pois, a solidez da fortuna ainda os agraciava.
Porém, afora isso, nada mais era motivo de alegria para eles.
Até a esperança lhes fora decepada dos corações.
Esperar o quê, se, de um momento para outro, a vida impiedosa lhes levava o que tinham de mais caro?
Por que fazer planos para o futuro, como haviam feito para Felício, se a vida traiçoeira e insensível e já com seu projecto traçado ria do que eles próprios planeavam, porque sabia que, no momento certo, o seu desígnio é que seria concretizado?
Nessa desesperança, nesses pensamentos negativos, conquanto aparentemente mostrando-se fortes, porque ainda possuíam Magda, o tempo foi passando.
Quando Linda abraçava a filha, fazia-o como se também estivesse abraçando Felício, e o seu ardor era tanto, que a menina estranhava.
Linda pensava:
- Até quando, meu Deus, eu a terei?
Até quando a deixarás comigo?
Não ma leves nunca, que eu não resistirei!
Deixa-me esta, pelo menos, para que eu não morra também!
O tempo continuou a correr e um ano passou.
Quem conheceu aquela casa, a união familiar com a alegria que espalhava, agora não a reconheceria.
Nunca mais houve, naquele lar, nem uma simples reunião de amigos.
O sorriso se esboçava, às vezes, nos lábios dos pais, apenas para mostrar alguma satisfação a Magda, que se ressentia da mudança e da falta do irmão.
Exteriormente eles estavam acomodados, mas a rotina da casa se modificara sem nenhum prognóstico de retomar ao que era.
— Se tivéssemos um outro filho, Linda, talvez a alegria voltasse aos nossos corações — considerou António José, com a intenção de procurar um novo alento e esquecer tanta dor.
— Não quero mais filho nenhum.
Já temos Magda...
E se tivéssemos outro, por quanto tempo o teríamos?
— Não deve pensar assim, minha filha! — interveio a mãe de Linda, presente à conversa.
— Só eu sei o sofrimento por que passei e não quero ter mais esperanças!
— Lembre-se de que passamos por situação semelhante em nossa casa, quando eram crianças, e nos recompusemos...
— Meu irmãozinho era apenas um bebé e não tínhamos tido a convivência e os laços tão profundos de amor como os que tivemos com Felício.
— O amor de mãe é sempre o mesmo.
Não importa a idade do filho que lhe é retirado...
— Vamos mudar de assunto, e nunca mais voltem com essa conversa!
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 11, 2018 7:54 pm

2 - O REGRESSO
Parecia que nada modificava o pensamento de Linda, e mais de um ano já havia passado.
Um dia, porém, mesmo sem ter desejado, ela começou a sentir sensações estranhas que a assustaram por já as conhecer, e comprovado foi, por exames, que novamente teria um filho.
Ao ter a certeza do que ocorreria, uma tristeza e um receio muito grande invadiram-lhe o Espírito, intranquilizando o seu coração.
Ela não gostaria de ter novamente nos braços uma criança, dar-lhe amor e ter para com ele os mais temos cuidados que um bebé requer, e que só as mães sabem lhes proporcionar, sem a certeza de que ele ficaria consigo, que crescesse, se tomasse adulto, seguindo sua própria vida, como acontece com a maioria das pessoas.
António José estava feliz. Seu pensamento, sempre junto de Felício, teria outro rumo.
Não que o esquecesse, que não seria possível, mil anos vivesse na Terra.
Mas novas esperanças e nova motivação de vida, com certeza, aplacariam um pouco a dor da perda do filho e a dor da sua ausência.
—Se vier outro menino, Linda, nós nos sentiremos renovados, voltaremos no tempo, como se tivéssemos outra vez, nos braços, o nosso querido Felício.
Poderemos, se for homem, colocar-lhe o mesmo nome!
Será um novo Felício, para substituir o que se foi...
Sinta-se feliz como eu e tenha novas esperanças!
' — Mesmo que eu me esforce para ter esses sentimentos, até quando teremos alegria novamente?
Lembre-se de que ele nos foi arrancado em poucas horas, sem que nada pudesse ter sido feito!
— Não é porque assim ocorreu que deverá se repetir!
Pense que é a misericórdia de Deus que tem visto o nosso sofrimento e quer nos alegrar outra vez...
— Parece que você já esqueceu o nosso Felício!...
— Isso nunca acontecerá, mas precisamos confiar.
Deus não nos enviaria outro filho, para levá-lo logo em seguida, outra vez!
Ele, que nos conhece, sabe que não resistiríamos.
Recebamos, pois, esse que chega, com bastante alegria e confiança em Deus, que está nos auxiliando e não nos castigando.
Nós não conhecemos os seus desígnios, mas se Felício foi levado, mesmo com a nossa grande dor, era assim que deveria ser.
Esse de agora ficará connosco, confie, e, se for um homem, ao invés de ser o nosso primogénito, será o nosso caçula.
Veja, eu já o amo!
Ame-o também, e espere-o com alegria, confiando na Misericórdia Divina.
— Talvez você tenha razão...
Vou me esforçar para agir conforme me aconselha e para amá-lo também.
Quem sabe, ele nos traga tantas alegrias, que a dor ainda sentida pela perda de Felício, vá-se amainando, substituída pelo amor que nós lhe dedicaremos e que ele nos dedicará!
*****
Mais uma parte do trabalho estava realizada.
Linda precisava receber seu novo filhinho, com muito amor, porque, se ela amara tanto a Felício, deveria amar agora muito mais, porque era ele mesmo que regressava.
Os pais não sabiam e não saberiam, mas sentiriam uma ternura diferente, estranha, porém, muito agradável e doce quando o bebé chegasse.
O seu olhar de amor procurando os olhos dos pais, sobretudo os da mãe, para, no encontro, um sorriso aflorar de seus lábios meigos como uma pequena e delicada flor desabrochando, os faria lembrar-se do que se fora.
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 11, 2018 7:54 pm

Nunca, porém, imaginariam que fosse ele mesmo de regresso, e um regresso muito rápido, pois, se soubessem, além de não acreditarem, perguntariam:
— Se deveria retornar, por que se foi?
Por que não permaneceu, evitando tanto sofrimento e tanto desespero?
Todavia, os desígnios de Deus são insondáveis, e o que não é compreensível para os encarnados, para Ele é apenas o cumprimento do que estava muito bem planeado, e, por necessidade de resgates, deveria acontecer.
Um dia, se eles tivessem condições, saberiam por que Felício havia partido e por que havia voltado.
Seria impossível, com o passar do tempo, que esse mesmo Espírito não demonstrasse as características de antes, não obstante animasse agora um novo corpo.
O seu modo de ser, os gestos, tudo seria igual, e os pais se assustariam, às vezes, até da forma como falaria e agiria em relação a eles.
Dependendo das suas disposições, crenças, e da permissão do Pai, eles poderiam ter todas as explicações que desejassem.
Os sentimentos de Linda foram se acomodando e, à medida que mais sentia aquele ser tomando corpo em seu corpo, novas esperanças foram envolvendo seu coração, e ela já podia dizer que o amava e aguardava com ansiedade a hora de tê-lo nos braços.
Eram as mesmas sensações que antecederam o nascimento de Felício, diferentes das sentidas enquanto Magda chegava, e ela, imaginando, com a fantasia da sua mente, que acalentava o seu querido Felício, passou a amá-lo mais e aguardá-lo com alegria.
Os dias, as semanas, os meses foram passando um a um, e Deus, o Supremo Criador, foi preparando aquele corpinho.
Assim que o tempo se completou e ele já estava preparado para ser desatado do cordão que o prendia à mãe, e passar a ver a luz por si mesmo, ele saiu do seu esconderijo e passou para o aconchego mais íntimo dos braços matemos, como se coração com coração se irmanassem num congraçamento de muito amor.
Ao vê-lo, ela não pôde evitar de se lembrar do seu querido Felício, tal a semelhança.
Mas, ao mencionar ao marido a sua observação, ele lhe respondeu:
— Querida Linda, hoje, mais uma vez, você me faz muito feliz!
Temos o nosso filhinho recém-chegado, mas não se esqueça de que este, que já amamos muito, terá sua própria personalidade e traz suas próprias características.
Procuremos, pois, ver nele, o que ele tem de si, e deixemos o nosso querido Felício, tranquilo, onde estiver!
Amemos a este, por ele mesmo e não pelo outro, pois, se assim não o fizermos, cada vez mais faremos comparações e, quando ele puder entender, não se sentirá à vontade.
—Tem razão, querido!
Vou me esforçar para ver nele o outro filho que Deus nos mandou, além do nosso querido que se foi.
— Assim será mais benéfico a todos nós...
— Lembro-me, porém, de que você desejava manter o nome, caso fosse um menino...
— É verdade! Não pelo nosso querido que perdemos, mas como uma homenagem a papai, de quem copiamos o nome!
— Se é esse o seu desejo!...
— Desde que você concorde comigo...
— Agrada-me bastante, também, mas será mais difícil não fazermos comparações!
— Aos poucos ele irá mostrando suas próprias características, e nos habituaremos a que Felício seja este, como o temos agora.
O outro ficará guardado no nosso coração, nas nossas lembranças mais queridas, mas este é que estará connosco. Nosso lar volta a ser feliz novamente, Linda!
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Ave sem Ninho

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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 11, 2018 7:54 pm

— Mesmo, assim, não quero mais ter a vida que tínhamos antes, cheia de festas e divertimentos.
Estamos mudados e seremos felizes unidos, no nosso lar, com nossos entes mais caros, não obstante façamos parte de uma sociedade.
— A vida nos mostrou o seu lado cruel, e nós nos modificamos, embora nunca tivéssemos feito nada que nos comprometesse diante de ninguém, nem diante de Deus.
— Eu compreendo, mas Deus mostrou-nos e reafirma-nos, agora, a beleza da união
familiar, do amor dentro do lar e da simplicidade da vida.
Quero me dedicar bastante a este nosso filho e a Magda, que logo estará uma mocinha e precisa muito de mim.
— Estamos vendo prazer em outras coisas, e somos muito felizes...
Oxalá Deus nos permita permanecer unidos por muito e muito tempo, para vermos nossos filhos encaminhados na vida, casados e dando-nos netos!
— Não leve tão longe suas esperanças!
— As asas da nossa imaginação, quando estamos felizes, alçam voos imprevisíveis...
*****
O bebé era forte e bonito.
Linda, em poucos dias, se recompôs.
A ajuda das criadas facilitava-lhe os cuidados com o bebé, mas ela mesma fazia questão de estar à frente de tudo o que se referisse a ele.
Como pequeno botão que desabrocha e de tenra plantinha se transforma numa bela flor, o novo Felício se desenvolvia, mostrando cada vez mais semelhança com o que se fora, tanto nos traços fisionómicos como no jeito de ser.
Sem que os pais pudessem evitar, muitos detalhes chamavam- lhes a atenção, e, quando os dois estavam envolvidos com ele, um olhava para o outro, como que a dizer:
—Veja como são parecidos!
Veja o modo como faz beicinho, veja como nos olha!
Mas, mesmo com esses pensamentos, nada comentavam.
Era preciso que o Felício bebé se afirmasse por si mesmo, sem que eles vissem nele o outro que se fora, conquanto a semelhança fosse muito grande e os fizesse lembrar dele a todo instante.
Em nenhum momento, contudo, nenhum dos dois atreveu-se a pensar na possibilidade de ser ele mesmo. Eles não possuíam esse conhecimento, mas, depois da sua partida, passaram a ficar mais atentos e a imaginar onde estaria o seu querido que se fora.
Para eles, os que partem, sobretudo os bebés, tinham seu lugar assegurado junto de Deus, como anjos temos, amoráveis e belos, e lá no céu permaneceriam para sempre.
Se eles soubessem que tanto o Espírito que anima o corpo de um frágil bebé, quanto o de um homem adulto, tem seu passado vivido em muitas existências e não foi criado na hora do nascimento, assim não pensariam.
Por isso, mesmo partindo na mais tenra idade, é um Espírito milenar, com inúmeras experiências nem sempre felizes.
E, libertando-se do corpo, passado o período de recomposição de todas as suas energias, ele recupera sua antiga individualidade e parte para novas experiências, segundo a necessidade de seu Espírito, segundo o que o Pai tem reservado para ele.
Desse modo, postas essas explicações preliminares, podemos afirmar que Felício, ao deixar este orbe de modo tão repentino, mas perfeitamente compreensível ao Mundo Espiritual que o acompanhava, foi recolhido por antigos familiares, principalmente pelo avô de quem herdara o nome, e foi levado para um pouso tranquilo de bondade, amor e refazimento.
Passados os primeiros dias em que sua consciência turva pôde readquirir a lucidez dos que estão se refazendo, Felício viu-se num local estranho, e, mesmo sendo muito bem tratado, sentia a falta dos pais.
Os pensamentos de tristeza e dor que lhe chegavam da Terra, pelo posicionamento de Linda e António José, atingiam-no completamente, e a saudade do lar, dos pais, da irmã, era muito grande.
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 12, 2018 8:35 pm

Por mais o avô, com quem ele estava mais directamente ligado, e de quem pouco se lembrava dos tempos na Terra, se empenhasse em auxiliá-lo, a saudade era tanta que o impedia de recomeçar sua nova vida, readquirindo a plenitude de seu Espírito milenar.
Não obstante o tratamento e os esforços que lhe eram direccionados com muito carinho e amor, ele só se referia à casa terrena, aos pais, revelando que sua adaptação estava muito difícil.
A prova pela qual havia passado fora benéfica ao Espírito, e o planejado se cumprira, tanto para resgates seus quanto dos próprios pais, que lhe eram devedores.
O amor que lhe dispensaram naquela convivência feliz de oito anos desfizera todo e qualquer ressentimento anterior de ambas as partes, e tão bem haviam se saído que laços profundos de amor foram conquistados.
Uma criança, com suas necessidades, sua ternura e a total dependência que a sua fragilidade impõe, faz demover desafectos.
Assim, os laços de amor de que desfrutaram em tempos mais remotos mas que se viram abalados por atitudes infelizes, foram completamente revivescidos.
Ele, como Espírito liberto, não havia ainda readquirido a totalidade de suas lembranças, e nem era necessário que as readquirisse tão imediatamente.
Por isso, via-se muito ligado àqueles que deixara na Terra.
Como nunca se deve perder oportunidade, e muito ainda havia para ser trabalhado, estudada foi a possibilidade, solicitada pelo avô, de um retomo.
Seria um recurso para aquele Espírito, recém-chegado, voltar ao mesmo lar e cumprir novo planeamento, utilizando-se da possibilidade de progredir sempre e cada vez mais em direcção a Deus.
E para os pais, se um dia haviam assumido compromissos com ele, conquanto os tivesse resgatado durante a sua curta existência, seria a oportunidade de mais ainda fazerem.
Ele levar-lhes-ia amor e o receberia, igual mente, em grande dose, e novas oportunidades se abririam para as duas partes.
Quando o avô, vendo essa possibilidade, consultou seus superiores, levando-lhes seus argumentos, a ideia foi estudada e, após algum tempo, aprovada, por ter sido considerada benéfica.
Os preparativos foram realizados, e Felício foi novamente levado aos braços de Linda e António José, para cumprir mais uma etapa de sua vida de Espírito imortal, mas, dessa vez, permaneceria por longo tempo, o suficiente para sobreviver aos pais, constituir sua própria família, estudar e evoluir.
Essa era a intenção mais íntima com que o plano fora elaborado, contudo, das suas linhas gerais, dependendo da própria condução que ele desse à sua vida, poderia encontrar muitos meandros, nos quais ele teria a possibilidade de se perder, retardando o cumprimento da planificação, e, ainda mais, vindo até a assumir outros compromissos.
Cada oportunidade reencarnatória é uma bênção concedida por Deus, mas, ao mesmo tempo, se aquele, que a receber, não conseguir se direccionar bem dentro dos planos traçados, e, pelas próprias invigilâncias e vontade, atraído pelas ilusões terrenas, se desviar, novos compromissos serão assumidos, retardando o seu progresso.
Uma encarnação é uma oportunidade, mas é, também, uma incógnita.
E como se soltássemos alguém com os olhos vendados num caminho bastante conhecido, mas com o risco de, em busca de novas sensações, desviar-se por si próprio das metas que fixou.
A cada dia, mais belo e viçoso ficava Felício, e os pais, cujas atenções voltavam-se para ele, para o seu crescimento, para as suas gracinhas, para o seu sorriso, lembravam-se do que se fora, que um filho nunca se esquece mesmo que séculos passem, porém, já não sofriam a sua ausência.
A paz e a alegria retomaram àquele lar, por completo, e o pequeno crescia, cada vez mais apegado aos pais, e olhava a irmã como se a estivesse reencontrando.
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 12, 2018 8:35 pm

O momento de aprender as primeiras letras chegou, e a irmãzinha, já bem mais adiantada nos estudos, ajudava-o nas lições que ele aprendia com muita facilidade e rapidez.
— Este, agora, será preparado para me auxiliar e depois me substituir!
Nossos negócios precisam estar sob a vigilância e a administração de nós mesmos, para que progridam e não nos advenham prejuízos.
No entanto, era muito prematuro fazer previsões, e, quando António José assim falava, Linda, lembrando-se de todas as esperanças que já haviam tido, nada respondia.
Parecia que era tomada de um receio muito grande, e até a iminente chegada da idade com que o outro partira, atemorizava-a.
Era como se ele tivesse de transpor os oito anos de idade, para que nenhum perigo mais houvesse.
Certa vez, junto da mãe em seu quarto, ele começou a mexer gavetas e encontrou, muito bem guardado, velho álbum de fotografias.
Algumas dos pais, quando recém-casados, felizes.
Outras deles, depois que Felício nascera, e ainda outras em que o irmão, mais crescidinho, aparecia entre os pais e junto de Magda, no colo da mãe.
E assim foi folheando-o com atenção, até que chegou àquelas mais próximas do período em que o menino havia partido, justamente com a idade em que ele se encontrava, então, com sete anos.
Fixando seu olhar com muita atenção em algumas delas, em que o menino aparecia só ou com a irmãzinha, ele perguntou à mãe:
— Por que Magda está tão pequena nesta foto, se ela é bem mais velha que eu?
A mãe sobressaltou-se e, sem saber o que responder, optou pelo silêncio.
Ele, contudo, insistindo, repetiu:
— Ela não é bem mais nova que eu, mamãe?
—Filho, este não é você.
E seu irmãozinho que Jesus chamou de volta para estar com Ele no céu.
Ele é um anjinho, agora...
— Não, mamãe, este sou eu!
Até me lembro do dia em que fizemos esse passeio...
Quando nos aproximávamos do rio, eu saí correndo para vê-lo mais de perto e papai gritou amedrontado.
Quando eu parei, voltando-me, ele falou-me:
“Não se mova.
Fique quietinho, que papai vai tirar um retrato de você”
...Eu me lembro!
A mãe assustou-se.
Aquelas lembranças estavam completamente esquecidas para ela, porque os cuidados dos pais, em situações de perigo, ainda mais onde existe água, é rotineiro; mas o garoto recordou-se com detalhes, e ela, que naquela ocasião ficara mais atrás, acompanhando os passinhos vagarosos de Magda, lembrou-se muito bem de quando ele parou, obedecendo ao pai, e ficou imóvel para a fotografia.
Bastante aturdida, ela retirou o álbum das mãos do garoto, guardou-o novamente, e levou-o para fora do quarto.
Sem conseguir esquecer aquele acontecimento, Linda não via a hora de António José voltar para lhe contar o estranho e assustador incidente, conforme ela o classificara.
Assim que ele chegou, ela o chamou ao quarto, pegou o álbum, e, folheando-o, parou na foto que despertara no menino recordações de factos dos quais ele não participara, e, ainda perturbada, contou ao marido o acontecido.
Ele não deu tanta atenção, achando que, à vista daquele álbum, guardado desde que Felício se fora, ela é que se transtornara.
— Não é verdade, António.
Você precisava ver como Felício se portou diante destas fotos!
— Crianças não sabem bem o que dizem e se identificam com qualquer coisa que vêem e que lhes agrade!
Se fosse a figura de um animalzinho que o tivesse encantado, poderia até dizer que era ele...
— Mas não foi assim que ocorreu!
E a lembrança dos factos que envolveram essa fotografia?
António José calou-se, pensou e respondeu apenas:
— Eu não sei, Linda, eu não sei!
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 12, 2018 8:35 pm

3 - UM CASO ESTRANHO
Nunca, em nenhum momento da vida, António José e Linda haviam ouvido falar em semelhante situação.
O que haveria de diferente com seu filho, que se pronunciava como se fosse o outro?
Seria o nome que se repetia e lhe influenciava a mente?
Mas e os detalhes de um facto ocorrido há tantos anos e do qual nem eles mesmos guardavam a lembrança?
Como uma criança que nem havia nascido naquela época, poderia saber do que ocorrera com o outro Felício, dizendo que era ele próprio?
Seria impossível!
Os pais não sabiam mais o que pensar nem o que fazer, mas passaram a observá-lo mais atentamente e a ouvi- lo sem perder nada do que dizia.
Alguns dias transcorreram daquele estranho acontecimento, sem que nenhum incidente semelhante tivesse havido.
Numa tarde, porém, em que se encontrava em casa com a mãe, Felício pediu para novamente ver aquele álbum de fotografias.
— A mamãe guardou-o, filhinho.
— Deixe-me pegá-lo!
Eu sei em que gaveta está!
— Para que quer ver aquelas fotografias?
— Estou com saudades!
— Saudades de quê, filho?
— Gostaria de rever alguns lugares aonde a senhora e o papai me levavam, quando saíamos a passeio!
A mãe sobressaltou-se, mas a criança continuou:
— Estou me lembrando de uma viagem que fizemos e das fotografias que papai tirou...
A senhora não se lembra de quando passamos uns dias numa fazenda longe daqui?
Linda ficou estupefacta.
Que fazer diante de tais argumentos?
Pouco antes de completar os dez anos de feliz matrimónio, em que os encontramos numa festa muito animada, a família viajara para uma fazenda, a convite de um amigo de António José, e as crianças haviam se divertido muito.
Até passeio a cavalo haviam realizado.
Linda permaneceu pensativa, lembrando-se de cada dia do passeio, enquanto Felício insistia:
— Posso ir buscar o álbum, mamãe?
Quero ver aquela fotografia em que eu estou a cavalo!
Lembra-se de quando papai colocou-me sobre ele, recomendando-me que ficasse quieto, pois antes do passeio queria tirar uma fotografia minha?
A mãe nada respondeu, e ele acrescentou:
— Tem uma, também, tirada depois, em que papai pôs a Magda comigo, somente para a fotografia.
Então, a senhora ficou com ela, e papai, tomando o cavalo pela rédea, conduziu-o bem devagar, com medo de que eu caísse!
Gostaria de voltar àquela fazenda e andar a cavalo novamente...
A descrição estava correta, tudo havia acontecido conforme ele narrava, e a fotografia lá estava no álbum.
Entretanto, deveria ela deixar que ele a visse, alimentando ainda mais aquela atitude estranha?
Estaria seu filho com a mente perturbada?
Mas ele era inteligente, aprendia com rapidez e se destacava na escola.
Em casa, afora esses momentos inexplicáveis
e assustadores, era uma criança normal, terna, carinhosa, observadora e bastante inteligente.
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 12, 2018 8:35 pm

Mesmo assim, um médico deveria ser consultado para que tivessem alguma explicação.
Nesses pensamentos e preocupações, o menino continuava a seu lado, insistindo, e Linda teve uma ideia.
Seu marido precisava presenciar um daqueles momentos, pois, por mais ela o descrevesse em detalhes, nada seria como se ele mesmo estivesse presente.
Assim, ela explicou ao filho:
— Querido Felício, vamos esperar a chegada do papai!
Hoje à noite, depois do jantar, eu lhe darei o álbum e você se recordará daquele passeio, juntamente com ele!
Está bem assim?
— Se a senhora preferir desse modo, eu esperarei.
Era muito importante que António José estivesse presente numa ocasião daquelas, e, ainda, o adiamento teria um outro significado que poria à prova a atitude de Felício.
Se aquilo de que falava ou recordava, fosse resultado de um momento passageiro, quando o pai chegasse, ele nem se lembraria mais da conversa mantida com a mãe.
Contudo, se aquele facto tão estranho fizesse parte da sua intimidade, estivesse integrado em si mesmo de uma forma que ela não entendia nem conseguia argumentos para explicar, ele também estaria ansioso pela chegada do pai e insistiria para rever o álbum, repetindo o que já lhe havia falado.
A espera, além de ser um teste importante para Felício, seria benéfica se o facto acontecesse diante do pai, a fim de que alguma atitude fosse tomada.
Era inexplicável e incompreensível, mas o relato era preciso como se o próprio Felício daquela época estivesse presente, recordando factos que lhe pertenceram, e não uma outra criança, nascida poucos anos depois.
Falava como se o tempo não tivesse passado e não existisse nenhum hiato entre um e outro, e ambos fossem um só.
Todos esses pensamentos permaneceram na mente de Linda, e, ansiosa, aguardava o retomo do marido.
Na horário costumeiro, depois das obrigações diárias em que o cansaço leva para o reconforto do lar, junto dos familiares, aqueles que utilizaram seu tempo trabalhando, António José chegou.
Linda observou o filho recebendo o pai com o beijo habitual de alegria, sem nada revelar nem pedir do que ela temia, mas esperava.
Todavia, quando o jantar em família terminava, antes de deixarem a mesa, o menino falou:
— Mamãe, o nosso jantar terminou.
A senhora prometeu que depois...
— Antes que ele concluísse, a própria Linda interrompeu-o, afirmando:
— Se a mamãe prometeu, ela cumprirá.
— Então posso ir buscá-lo?
— Eu não estou entendendo essa conversa — manifestou-se António José.
Pode me explicar, Felício, o que a mamãe prometeu e o que você quer ir buscar?
— Eu explicarei, querido! — interferiu Linda.
Vamos deixar a mesa que eu mesma irei buscá-lo, filho!
Esperem-nos na sala que o papai irá comigo e logo mais nós o levaremos.
Magda também não estava entendendo e perguntou sobre o que falavam.
— Vá com Felício para a sala, que logo lá estaremos e você verá também o que ele deseja. — aconselhou a mãe.
Era necessário que Magda presenciasse aquela atitude.
Mesmo sem compreender, chamou o irmão, e, fazendo indagações que a sua curiosidade impelia, caminharam para a sala, enquanto Linda e António José iam para o quarto.
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 12, 2018 8:35 pm

Linda fechou a porta e, aos olhos ansiosos e indagadores do marido, exclamou:
— Aconteceu de novo!
— O que aconteceu de novo?
— Felício! Ele está falando daquele passeio que fizemos à fazenda do seu amigo antes do nosso filho partir.
E conta detalhes de acontecimentos!
Desta vez foi diferente!
Ele não precisou das fotos para ter as recordações, mas teve-as espontaneamente e agora insiste em vê-las.
Eu pedi que deixasse para a noite, para que você estivesse presente, na esperança, também, de que esquecesse o facto, mas ele não esqueceu.
O que está acontecendo com o nosso filho, António?
Tenho muito medo de perdê-lo também!
Sem saber o que pensar, ele pediu-lhe o álbum, dizendo:
— Eu quero ver pessoalmente o que acontece.
Depois tomaremos alguma providência! Você fez muito bem em pedir que ele me esperasse...
António José recebeu o álbum das mãos da esposa, apertou- o ao peito como se nele estivessem as suas esperanças, conferindo-lhe a responsabilidade de ser o ponto de decisão do que deveriam fazer, depois do que presenciassem na sala, junto do filho.
Ele abriu a porta e saiu, pedindo à esposa para acompanhá-lo.
O menino, vendo o pai chegar com o álbum ainda apertado de encontro ao peito, correu para ele, demonstrando alegria.
— O senhor o trouxe? — indagou satisfeito.
Posso vê-lo agora?
— Ele é todo seu, filho!
O que deseja ver?
— O nosso passeio à fazenda!
—Magda, atenta, sem entender as palavras do irmão, perguntou:
— Quando o senhor o levou a uma fazenda que eu não me lembro?
Sem nada responder, António José entregou o álbum ao filho, dizendo:
— Vejamos o que Felício quer ver e o que tem a nos contar!
Tomando o álbum, ele explicou:
. £== Aqui tem muitas recordações, mas quero ver o nosso passeio à fazenda.
Quero ver a fotografia que o senhor tirou quando me colocou sobre o cavalo, e depois, puxando-o vagarosamente pelas rédeas, andou comigo.
Magda estava meio aturdida e, chegando-se à mãe, indagou baixinho:
— O que Felício está dizendo, mamãe?
Que álbum é esse?
— Esperemos, filha.
Depois conversaremos.
Nem eu mesma estou compreendendo essa atitude dele!
Como quem sabe exactamente o que deseja e onde procurar, o menino passou rapidamente pelas folhas iniciais e chegou quase ao seu final, local das fotos do passeio, porque, depois, muito poucas havia, devido à partida de Felício.
Linda achava que ele não deveria conter mais nenhuma fotografia, nem mesmo de Magda, e guardou-o bem guardado em uma das gavetas de seu quarto.
Vez por outra, no tempo da saudade mais atroz, ela fechava- se no quarto, chorava muito e depois folheava-o todo, página a página, verificando foto a foto e recordando os momentos felizes que lhe traziam, mesclados da grande tristeza de não ter mais o filho consigo.
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 12, 2018 8:36 pm

Depois do nascimento do outro Felício, as ocupações com ele, a alegria que lhe trouxera, fizeram-na deixar o álbum guardado sem nunca mais tê-lo folheado, mas o filho, o novo Felício, descobriu-o, e, pelo que viu nele, recordações que não lhe pertenciam foram trazidas para o presente, causando aos pais grande preocupação.
Aquele, entretanto, era um momento muito importante.
Seria um teste decisivo para que atitudes fossem tomadas, mas nem eles mesmos sabiam quais.
Quando um filho está doente, a iniciativa primeira é procurar um médico.
E o que ele apresentava, seria doença?
Felício sentia-se bem e, como toda criança sadia, alimentava- se bem, brincava, estudava e dormia tranquilamente.
Se fosse sinal de enfermidade, seria muito estranha.
Estaria a sua cabecinha afectada?
Mas as suas atitudes eram equilibradas, a não ser naqueles momentos, e, até nessas ocasiões, o equilíbrio e a sensatez eram grandes.
Apenas as recordações eram de fatos e locais dos quais ele não participara.
O que fazer?
Felício, de posse do álbum e depois de encontrar o que desejava, exclamou alegre:
— Eu não disse, mamãe, que lembrava quando papai tirou estas fotografias?
Aqui estão elas!
E voltando-se ao pai, indagou:
— O senhor lembra, papai, quando me colocou neste cavalo e pediu que eu ficasse quietinho para a fotografia, e depois, puxando o animal pelas rédeas, levou-me a passear?
— Lembro-me muito bem, filho, mas esse que aí está não é você, é seu irmãozinho que Jesus chamou para estar com ele no céu...
—Sou eu, sim!
Se fosse meu irmãozinho eu não me lembraria!
Eu nem o conheci!
Quando eu nasci ele já havia morrido, não é mesmo?
— Sim, filho, há mais de dois anos. Por isso preocupo-me com o que diz!
Magda, já com o entendimento daqueles que têm a lucidez e o equilíbrio das situações, não compreendia nada do que ele dizia e nem se lembrava do passeio, porque era bem mais
nova, mas, assim mesmo, pediu ao irmão para ver as fotografias e, depois, falou-lhe:
— Felício, você não vê que eu estou grande agora?
Se fosse você nestas fotos, como se explica que eu era tão pequena?
— Isso eu não sei explicar.
Quem sabe, papai possa!
— O que eu podia esclarecer, filho, já o fiz.
Esse não era você; era seu irmãozinho, junto de Magda, bem mais nova que ele.
Agora, quem é mais novo é você, não ela que está quase uma mocinha!
— Por que, então, eu tenho essas lembranças?
O senhor e a mamãe também se lembram e confirmam o que eu disse!
— Nós não sabemos!
É muito difícil, para nós, dar uma explicação do que não entendemos.
Mas eu vou procurar me informar acerca do que diz, e, quem sabe, poderemos ter algum esclarecimento!
A situação era deveras difícil.
Faltava-lhes o entendimento, faltava-lhes uma direcção correta para onde se dirigir e obter explicações.
Contudo, para os que nada sabem das verdades espirituais e se defrontam com um caso estranho, o primeiro cuidado a tomar é procurar um médico.
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 12, 2018 8:36 pm

Não existem aqueles que se especializam em tratar dos que se desviam das atitudes equilibradas e têm esquisitices, comprometendo a sua saúde mental?
Pois era num desses que levariam Felício!
Antes, porém, os próprios pais teriam com ele uma entrevista, a fim de contarem o que vinha acontecendo, sem exporem o filho à consulta.
No dia seguinte, logo pela manhã, Linda incumbiu-se de procurar o melhor médico de que tinham notícia na especialidade pretendida, para marcar uma consulta. Entretanto, naquele mesmo dia, seria impossível, mas na tarde seguinte, com uma deferência toda especial e um esforço muito grande, ele se propunha a recebê-los depois do término da última consulta.
Para Linda, que estava ansiosa, parecia muito tempo, mas o horário satisfez a António José, pois não prejudicaria o seu trabalho.
Antes da retirada do último cliente, os dois já aguardavam, um tanto ansiosos, temendo que nem ele tivesse explicação para o caso.
Um rapaz um tanto perturbado, acompanhado pelo pai, deixou o consultório, e eles foram convidados a entrar.
— O que nos traz é um caso muito estranho com o qual estamos sendo defrontados em nosso lar, com nosso filho caçula. — começou por dizer António José, depois de ter sido convidado a se sentar com a esposa, diante da mesa do médico.
— De que se trata?
O que têm observado?
Dessa vez foi a própria Linda que falou, começando pela partida do filho, e, cerca de dois anos depois, um outro havia lhe nascido, explicando também o motivo pelo qual o pai
mantivera o mesmo nome.
Até aí, nada de anormal havia, e o garoto crescia belo, forte e inteligente como o era até então.
O médico ouvia, imaginando, de início, que seriam cuidados exagerados de pais que já haviam perdido um filho e temiam que algo acontecesse ao outro.
Linda, contudo, prosseguiu a narrativa e contou o episódio do álbum de fotografias da família, muito bem guardado em seu quarto e há tempos não consultado, mas que, naqueles últimos dias, havia sido descoberto pelo filho caçula.
E que, ao folheá-lo, ele começou a narrar as histórias que haviam sido causa de algumas das fotos, reconhecendo-se como sendo aquele que lá estava.
— Fantasias de criança! — exclamou o médico.
Mas prossiga...
— Esse fato preocupou-me, mas estaria esquecido se há dois dias, mesmo sem as fotografias, ele não tivesse narrado um passeio que havíamos feito há anos, antes do seu nascimento, com o nosso outro filho.
Ele insistiu para ver o álbum, porque tinha a certeza de que as fotografias lá estavam.
De cada uma contou exactamente o que havia acontecido e fê-lo em presença do pai, pois fiz questão de esperá-lo para entregar-lhe o álbum.
— Estamos aflitos e sem saber o que fazer! — Manifestou-se António José.
— E como é o seu comportamento fora desses momentos?
— Completamente normal para uma criança da sua idade...
— Quantos anos tem ele hoje?
— O nosso outro filho nos deixou com oito anos, e aquelas fotografias das quais este se recorda, haviam sido tiradas quando ele tinha sete, justamente a idade que o nosso Felício tem agora!
O médico nada respondeu, ficou pensativo.
Mas António José, preocupado, indagou:
— O que o senhor pensa que seja, doutor?
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 12, 2018 8:36 pm

O senhor já se deparou com algum caso semelhante?
— Eu não sei o que dizer, e nunca me deparei com tal problema.
Mas penso que este não seja o lugar adequado para obterem alguma explicação!
Eu poderia pedir que trouxessem o garoto, poderia examiná-lo, mas sei que não levaria a nada!
Se ele é inteligente, desempenha bem suas tarefas escolares, brinca, conversa, e tem atitudes próprias de uma criança da sua idade, o seu problema não será resolvido comigo, que não saberei o que fazer...
— Como faremos, então?
A quem recorrer?
— Essa situação não é tão grave e não deve perturbar-lhe a mente!
Por isso aconselho que o deixem como tem estado até agora!
—Tememos que esse comportamento lhe traga consequências!
Ele pode ser tomado como demente se passar a se confundir com o irmão, mais continuamente — explicou Linda.
— Por enquanto só tem acontecido connosco, mas, se ele começar a falar também diante de outras crianças ou mesmo diante da professora, o que faremos? — indagou o pai.
— Têm razão, mas eu nada posso fazer!
Trato de comportamentos desequilibrados, mas nada parecido com o que temos neste caso.
Meus pacientes têm atitudes excêntricas constantemente.
Choram ou riem sem motivo, falam coisas desconexas, fecham-se em si mesmos, enfim, há inúmeras manifestações de desequilíbrios que tratamos, mas não me consta que este seja um caso de desajuste mental.
Julgo mais o resultado das fantasias infantis!
— Que chegam ao ponto de narrar detalhes de um acontecimento do qual ele não participou e nem era nascido, ocorrido justamente com o irmão que ele insiste em dizer que é ele mesmo? — indagou o pai, um tanto impaciente.
O médico, sem nada poder responder de concreto, desculpou-se:
— Eu sinto muito.
Mas nada posso fazer!
Quem sabe exista alguém que cuide desses problemas...
Mas eu não sei quem poderia ser.
Continuem procurando, informem-se, que poderão encontrar...
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Ave sem Ninho

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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 12, 2018 8:36 pm

4 - EXPLICAÇÕES CONVINCENTES
Bastante desesperançados, os pais de Felício deixaram o consultório médico.
Pelo menos, se o doutor tivesse demonstrado alguma forma de interesse, desejando ver o menino ou indicando-lhes alguém que pudesse fazê-lo, eles estariam mais esperançosos.
Mas não! O médico fora categórico ao dizer que aquele caso não estava no rol dos que costumeiramente tratava, e, por isso, nada poderia fazer.
Entretanto, deveria haver alguém que já tivesse ouvido falar em semelhante situação, alguém que pudesse lhes dar explicações do que ocorria.
Se eles tivessem um esclarecimento convincente, se conseguissem entender o filho, sabendo que aquele “mal” não lhe traria nenhum perigo para a sua integridade física ou mental, fosse o que fosse, eles procurariam compreendê-lo e até aceitariam o facto sem tanto receio.
Afinal, Felício era diferente das outras crianças e até dos adultos, pois eles nunca haviam ouvido falar que tal caso já tivesse ocorrido com alguém.
Novas tentativas deveriam ser efectuadas, mas como um cego que precisa chegar a algum lugar e tem muitas dificuldades porque desconhece os caminhos, eles também assim se sentiam, sem saber se algum dia chegariam a algum lugar ou a alguém que lhes desse explicações.
Os dias foram passando, e Felício trazendo novas recordações que não se limitavam mais somente às fotos, mas falava de situações e acontecimentos que não haviam sido registrados por nenhuma máquina fotográfica, mas que, no armazém de lembranças de Linda e António José, lá estavam.
Ultimamente ele dera para falar na professora que ensinara as primeiras letras ao outro Felício, manifestando desejo de vê-la, indagando, a todo o instante, sobretudo enquanto estudava, onde estaria a senhora Margarida que ele não via mais.
Nunca, nem Linda nem António José haviam feito nenhum comentário com ninguém do que ocorria com o filho, guardando aquele incidente para si próprios, esperando uma solução.
Porém, depois que ele começou a se referir à professora, uma ideia passou a rondar a mente de Linda.
— Se procurássemos dona Margarida e lhe contássemos o que vem ocorrendo? — indagou ao marido.
— De que adiantaria?
— Eu não sei, mas sinto que ela deveria saber!
Lembro-me de que ficou muito abalada quando o nosso Felício morreu e foi vê-lo, chorando muito.
Ele foi um excelente aluno e ela deve se lembrar.
Se levarmos o Felício de agora para que ela o veja, talvez tenhamos uma palavra a mais!
— Onde ela está?
— Eu não sei, mas posso me informar.
— Então faça isso, e vamos ver o que acontece!
Linda, o mais naturalmente possível, procurou informações na escola onde o filho caçula estudava, a mesma onde o irmão havia estudado, e soube que ela, há dois anos, estava aposentada.
Difícil não foi conseguir o seu endereço e marcar uma entrevista.
Linda foi sozinha e apresentou-se como sendo a mãe de um aluno a quem ela ensinara as primeiras letras anos atrás, e que havia morrido de uma forma repentina e inesperada, afectando-os intensamente.
— Fala de Felício! — lembrou a professora.
“Sim!
— Nunca me esqueci dele!
— Pois é sobre ele que venho lhe falar...
—A senhora não deveria ficar se recordando tanto dele assim, depois de tantos anos, para não continuar sofrendo...
— Eu não me expressei direito.
Eu nunca o esqueço, dona Margarida, mas já não sofro tanto a sua ausência.
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 12, 2018 8:36 pm

O que me trouxe aqui é um outro facto, muito ligado a ele.
Depois de pouco mais de dois anos da morte do meu querido e inesquecível Felício, eu tive outro filho, outro menino, a quem demos o mesmo nome, atendendo a vontade do meu esposo.
Hoje, o meu “outro” Felício está com sete anos, frequenta a escola e tem aprendido bem; é uma criança muito boa, como o era aquele que se foi.
— Por que, então, veio me procurar?
— Há algum tempo vem acontecendo um fenómeno muito estranho com o nosso filho.
Já consultamos um médico, todavia ele não soube dar nenhuma solução para o caso.
— Seu filho está doente?
— Eu não sei se isso poderia ser chamado de doença, porque é forte, inteligente e bastante parecido com o irmão.
— O que acontece, então?
— Sem nenhuma explicação, ele começou a falar de modo estranho.
Tem recordado de fatos que pertenceram ao irmão, e há momentos em que fala como se fosse ele!
Agora tem insistido em vê-la, lembra-se de quando a senhora foi sua professora, como diz, e tem falado muito na sua pessoa!
— Gostaria de vê-lo, será possível?
— Foi para isso que vim!
Se a senhora concordar, poderei trazê-lo, mas precisava preveni-la!
—Se a senhora o trouxer, dizendo que ele irá me ver, mesmo que não me reconheça, poderá falar que se lembra de mim.
Sabe como é a imaginação das crianças...
— Como faremos, então?
— Se a senhora permitir, eu irei à sua casa como em uma visita, sem identificar-me.
Se ele me reconhecer e se lembrar de factos, como diz...
— A senhora já ouviu falar de casos semelhantes?
— Nada quero lhe adiantar.
Depois conversaremos!
— Quando poderá nos visitar?
— No momento em que for conveniente para a senhora...
— Amanhã à tarde está bem?
— Às quatro horas, estarei em sua casa.
— Eu mandarei o motorista buscá-la!
Linda retomou para casa mais esperançosa, pelo bom senso que a professora revelara, e por compreender que, após a sua visita, ela teria alguma consideração a fazer ou até poderia indicar quem afizesse.
Ela não se surpreendera nem estranhara o facto, como tão inusitado, o que lhe dava alguma esperança.
A hora da visita passou a ser bastante aguardada, e, um pouco antes das quatro horas do dia imediato, o motorista recebeu a ordem de ir buscá-la, levando o nome e o endereço anotados.
Dona Margarida já se encontrava à espera, e, em pouco menos de meia hora, era recebida por Linda, que, atenta à entrada do carro, aguardava-a.
Felício ainda não havia aparecido.
Ele estava ocupado com seus deveres escolares, supervisionado por Magda, mas a jovenzinha estava avisada para levá-lo à sala com alguma desculpa.
Depois de alguns minutos de conversa, eis que Magda entra na sala acompanhando o irmão.
Entusiasmado pelos estudos, ele comentava a lição que estudara há pouco, sem saber que havia visita.
Ao deparar-se com a querida professora, sem que ninguém houvesse feito qualquer referência à visitante, correu para ela, abraçando-a:
— Estava com saudades da senhora!
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 13, 2018 7:46 pm

Linda olhou para Margarida, que também encontrou o olhar daquela mãe ansiosa, e, sem revelar espanto nem estranheza, a professora respondeu:
— Por isso vim vê-lo hoje!
Sabia que você estava com saudades de mim!
— Como a senhora sabia?
— Isso não importa agora!
Como vai indo nos estudos?
— Vou bem, mas gostava mais das suas aulas.
Por isso tenho me lembrado da senhora!
— Mãe e filha não sabiam o que dizer e apenas observavam, mas os dois continuaram a conversar.
Dona Margarida pediu para ver seus cadernos e ele saiu correndo para buscar, enquanto a mãe do garoto indagou:
—Por que está procedendo como se ele fosse o nosso primeiro Felício?
— De nada adiantaria contestar!
Queria uma prova e a tive!
Depois conversaremos!
— O que tem a me explicar sobre o que está observando?
— Depois, dona Linda, depois!...
Felício retomou, trazendo os cadernos.
Ela examinou-os com interesse, elogiou o capricho com que as lições estavam sendo realizadas, mas, depois, dizendo que precisava retirar-se, fechou- o, entregou-o ao garoto, pedindo que ele os guardasse.
Enquanto o pequeno deixava a sala, Margarida voltou-se à mãe:
— Quando a senhora desejar conversar comigo, estarei à disposição.
— Estou ansiosa para isso!
Vejo que tem alguma explicação para nós e gostaria que nos esclarecesse o mais rápido possível, mas que fosse em presença de meu marido.
Ele também está muito preocupado!
Poderíamos vê-la hoje à noite?
— Infelizmente hoje tenho compromisso do qual não posso me desfazer, mas amanhã eu os aguardarei em minha casa.
Espero poder elucidá-los, para depois partirem para alguma espécie de atendimento...
— É um caso de enfermidade, então?
—Não diria que é enfermidade, mas alguma providência pode ser tomada.
Não para curá-lo, que não está doente, mas para que ele assuma a sua própria personalidade actual e viva como o Felício de agora, sem que nada interfira no seu desenvolvimento, tanto físico quanto mental!
— O que quer dizer com “o Felício de agora”?
Nisso o garoto retomou à sala, e ela apenas acrescentou:
1— Amanhã, talvez, possa lhes dar algum esclarecimento, e oxalá possam me compreender.
Agora devo ir...
Com a retirada de Margarida, a mãe ficou ainda mais pensativa.
Quando António José chegou, Linda contou-lhe o ocorrido, explicando que Felício reconhecera de pronto a professora e a tratara como se fosse o irmão.
Esclareceu que ela, por sua vez, não desmentira nem revelara surpresa, conversando naturalmente com a criança.
— Foi só isso?
Ela não lhe deu nenhuma explicação?
— Suponho que ela saiba mais do que revela e, amanhã à noite, irá nos receber para uma conversa.
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 13, 2018 7:46 pm

— Será que justamente ela, de quem Felício lembrou e insistiu em ver, nos trará esclarecimentos?
— Pelo que entendi, ela nos encaminhará, depois, a alguém ou a algum lugar que poderá auxiliar nosso filho, a fim de que esse fenómeno não aconteça mais.
Esperanças novas adentravam o coração de Linda e António José, em relação ao filho tão querido.
O que poderiam fazer, não sabiam, porque ainda nem entendiam o que acontecia com ele.
Deus, na sua misericórdia e bondade, vendo o sofrimento por que eles haviam passado na perda de Felício, lhes teria brindado com a possibilidade do novo Felício ser ora um, ora outro, pensava Linda.
Ao mesmo tempo ela sabia que não era possível.
Alguma coisa estranha haveria, e era o que eles desejavam investigar e compreender, para auxiliar o filho, tão criança ainda, a assumir a própria vida.
Que tivesse recordações, sim, mas somente as suas, somente aquelas de factos dos quais participasse.
Margarida lhes acenava com alguma explicação, e a ansiedade, de irem ter com ela, era grande.
No dia imediato à sua visita, Felício referiu-se à professora várias vezes, contando acontecimentos da sala de aula, tanto dele quanto de colegas.
Ao mencionar colegas, Linda estremeceu.
Se ele inventasse também de querer ver alguns deles, o que faria ela?
Eles deveriam ser todos moços e o julgariam uma criança insana.
Novas experiências haviam sido acumuladas às suas vidas e nenhum se lembraria do que ele lhes narraria como recordações, e ele mesmo não compreenderia a aparência que traziam.
Entretanto, para tranquilidade da mãe, o dia terminou e ele não manifestou esse desejo.
Mais ansiosos do que haviam estado até então, pela iminência das circunstâncias nas quais estariam inseridos, à hora combinada eles chegavam à casa de Margarida.
Ela já os esperava.
Conduziu o casal a uma pequena saleta onde poderiam ficar à vontade, sem interrupções nem interferências.
Linda olhava para ela e, sem querer demonstrar ansiedade além do comum, nada perguntava.
Mas a professora, revelando bondade e compreensão do problema que enfrentavam, não se fez esperar:
— Não desejo ser indiscreta, mas, antes de qualquer consideração, preciso saber a crença
religiosa que professam.
— Os pais surpreenderam-se com a pergunta.
Estavam ali para receberem esclarecimentos, e ela vinha perguntar sobre crença religiosa!
Entretanto, sem muita demora, Linda respondeu:
— Fomos educados na fé católica e procuramos transmitir esses valores a nossos filhos.
Mas podemos lhe dizer que não frequentamos seus cultos com regularidade, apesar da crença...
— Muito bem...
Devem ter estranhado a pergunta, mas precisava fazê-la, para ter um ponto de partida correto para as minhas considerações.
— Perdoe-me a pergunta! — atreveu-se Linda.
Mas o que a nossa religião tem a ver com o problema que enfrentamos em casa, com nosso filho?
— Quanto à religião em si, nada.
Porém, quanto à compreensão do problema, tudo!
— Não compreendo... — murmurou António José.
— Eu explicarei.
Embora respeite a religião católica e afirme que todas as religiões, desde que praticadas com amor em obediência a seus preceitos, é um bem que o ser humano possui, posso afirmar que as religiões, sobretudo a católica, não têm a crença justamente no ponto que desejo chegar para fazê-los entender o que deve estar acontecendo com Felício...
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 13, 2018 7:47 pm

— Que crença é essa, dona Margarida? — indagou António José.
— Vocês já ouviram falar em reencarnação?
—Muito ligeiramente.
Às vezes, mas nunca pensamos nesse assunto como algo sério!
— Se não quiserem acreditar na reencarnação como crença religiosa, poderão crer nela pelas provas que a Ciência tem procurado trazer à luz, para explicar esse fato, que, em nossa religião, acreditamos sem contestação, porque temos provas de sobejo de que ela é uma verdade da qual ninguém pode fugir.
— A senhora poderia nos explicar melhor, dona Margarida? — solicitou Linda.
— É o que estou tentando fazer, da forma mais simples possível, para que possam compreender sem contestar, aceitando como o único meio que explica o que acontece em sua casa.
— Então fale, senhora! — apelou António José.
— Vocês devem saber que somos, neste planeta que habitamos, corpo e Espírito...
— Alma, a senhora quer dizer! — considerou Linda.
— Sim. Dizemos alma quando nos referimos ao Espírito encarnado, ou seja, vivendo no mundo físico, de posse de um corpo.
Pois bem: nossa permanência na Terra tem um tempo limitado, que não sabemos precisar exactamente.
Uns partem na velhice, outros enquanto jovens e outros quando ainda crianças, como Felício.
Mas, se o corpo é perecível, o Espírito é imortal!
Quando o corpo completa a sua permanência na Terra, o Espírito retorna ao meio ao qual pertence, o Mundo Espiritual, para onde vai se preparar para novas oportunidades na Terra ou em outros mundos.
E quando chega o momento, quando Deus o permite, o Espírito retoma ao plano físico para cumprir nova encarnação, como chamamos.
— Estou compreendendo onde a senhora quer chegar! — manifestou-se António José.
— Quando temos essa crença, tudo se toma mais fácil para nós mesmos...
— Prossiga, por favor! — pediu-lhe o pai de Felício.
— Desse modo, nós, como Espíritos imortais, vimos para a Terra e desta retomaremos ao Mundo Espiritual, muitas e muitas vezes, quantas forem necessárias ao nosso aprimoramento moral.
Por isso, cada existência na Terra é uma bênção que Deus nos concede, a fim de que nos libertemos de comportamentos infelizes que adquirimos noutras existências.
— E o céu e o inferno, dona Margarida, que aprendemos desde criança?
- São alegorias, de que se serviram as igrejas dogmáticas, para simbolizar o prémio ou a punição, conforme os homens ajam no bem ou no mal.
Com vistas no céu e pelo medo das penas infernais, cada qual policiaria as próprias acções, buscando a paz de consciência e o progresso espiritual.
— Não é fácil acreditar em tudo o que nos diz!
— Importante aqui é ressaltar que não sou eu quem criou tais verdades, que são obra do Criador.
A lei da reencarnação é a base sobre a qual repousa a Justiça Divina.
Nada do que fazemos, tanto de bem quanto de mal, fica perdido.
Se ofendemos, se prejudicamos, temos que ressarcir o mal praticado, retomando à Terra quantas vezes nos forem necessárias, até que aprendamos e tenhamos resgatado os males efectuados no passado, sem precisarmos ficar extremamente amargando as nossas imperfeições, num lugar de penas eternas como as do inferno...
Os esclarecimentos de Margarida prosseguiam, mas, tanto Linda quanto António José estranhavam aquelas palavras.
Nada do que ela dizia fazia parte de nenhum conhecimento ou entendimento anterior, realizado por eles.
Por isso não estava fácil compreender e aceitar aquelas explicações.
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 13, 2018 7:47 pm

Contudo, o motivo que os levara àquela casa era de capital importância, e eles aplicavam a atenção para captá-las todas.
Se nem o médico tivera explicações para o caso de seu filho, o que Margarida dizia só poderia ser verdade.
Assim, mesmo sabendo que lhes era difícil aquele entendimento, mas o único que explicava a situação de Felício, ela, com o desejo de ajudá-los, transportava suas explicações, à primeira vista difíceis, para uma forma muito simples e que envolve a vida diária de cada um com tudo o que o circunda.
Depois desse último esclarecimento em que ela se referira ao céu e ao inferno de penas eternas, Linda indagou:
— Quer dizer que em sua crença religiosa não há o céu nem o inferno?
— Entendeu-o bem!
É uma explicação preliminar, mas poderemos entrar em outros detalhes que os convencerão do que digo, conquanto a minha intenção, aqui, não seja convencê-los de nada, mas apenas esclarecê-los!
—Pois então prossiga, dona Margarida! — solicitou António José.
—Para entender melhor, façam uma observação em tudo o que está à nossa volta, nesta Terra maravilhosa que Deus criou para seus filhos! Cada pessoa tem sua vida, suas dificuldades, suas facilidades, uns sofrem muito e alguns se vêem até impossibilitados de desenvolver um trabalho para o próprio sustento.
A outros, parece que a vida lhes sorri a cada instante, acenando-lhes sempre com vitórias...
Uns são bondosos, preocupados em auxiliar os mais necessitados, outros são orgulhosos e egoístas, preocupam-se apenas consigo, e, se podem auferir algum lucro de alguma situação, prejudicando, eles não hesitam em fazê-lo!
— O que a senhora quer dizer com todas essas diferenças sociais? — indagou António José.
— Não só sociais, mas de carácter e de inteligência!
Isso é uma prova de que não vivemos uma só vez. Que Deus seria esse que privilegiaria uns e castigaria outros?
Cada um vive na faixa evolutiva que já conquistou para si, dentro dos valores que integrou ao seu Espírito.
Por isso as diferenças, não só do modo de ser como das oportunidades.
Não somos todos diferentes por vontade de Deus, que nos criou com iguais possibilidades.
Nós mesmos nos desviamos da meta que Ele traçou para cada um de nós, que é o aprimoramento do Espírito através da aquisição dos bens espirituais, atraídos que ficamos pelas ilusões terrenas, fugazes e passageiras.
Os dois ouviam-na atentamente, sem interromper, e ela continuava, falando com a veemência daqueles que já têm todas essas verdades solidificadas no Espírito:
— Dentro de todo o amor que dedica a seus filhos, desejando vê-los progredir cada vez mais, caminhando para a purificação dos próprios Espíritos, imaginem se Deus iria condenar sem apelação ou premiá-los com uma vida de contemplação infrutífera, no céu!
A vida é acção e devemos direccionar todo esse potencial para o bem, para o crescimento espiritual!
Por isso, Ele permite que venhamos à Terra quantas vezes forem necessárias, para o ressarcimento dos débitos contraídos por nós mesmos, por nossas invigilâncias do passado.
De encarnação em encarnação, se já aprendemos que precisamos progredir, vamos nos desfazendo de compromissos e evoluindo.
Para isso Ele enviou-nos Jesus, para nos mostrar todas essas verdades e nos orientar, a fim de que ficássemos mais atentos às nossas atitudes.
— Suas explicações têm bases lógicas! — ponderou António José.
— Diga-me, dona Margarida: que religião lhe dá todos esses conhecimentos? — perguntou Linda.
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 13, 2018 7:47 pm

—Eu sigo a Doutrina Espírita.
No meu entender, no momento a única que nos traz esse conforto e nos esclarece quanto às oportunidades que constantemente Deus está a nos oferecer...
— E o que a senhora tem agora a nos dizer, com todas essas explicações, sobre o que está acontecendo com o nosso filho? — voltou Linda, ansiosa, a indagar.
Eu não podia ir directo ao que está ocorrendo com Felício, sem antes dar estes esclarecimentos.
Tomemos como ponto de partida o que falei sobre a imortalidade do Espírito e sobre a reencarnação:
o pequeno Felício, por razões que desconhecemos, pois os desígnios de Deus somente Ele os conhece, retomou ao Mundo Espiritual, deixando-nos numa consternação profunda.
Cerca de pouco mais de dois anos depois, eis que a senhora recebeu em seus braços de mãe um outro filho, um Espírito que estava reencarnando em sua família, para cumprir, também, as suas tarefas neste orbe.
Depois de mais alguns anos, por mecanismos que ainda desconhecemos, e sobre os quais muitas pesquisas científicas estão sendo realizadas, deixando o campo puramente religioso, ele começou a ter lembranças de um passado que não viveu, como afirmam.
Mas, quem pode garantir que ele não tenha vivido aquele passado do qual se lembra?
Quem pode garantir que o Felício de agora não seja o mesmo Espírito que animou o corpo do outro que se foi?
Linda e António José estavam boquiabertos.
— Então a senhora quer dizer que o nosso Felício foi e retomou nesse que hoje está connosco?
— É a única explicação para o que vem acontecendo!
— E por que nós não nos lembramos do que já vivemos, mesmo em outras famílias?
— O esquecimento do passado é a bondade de Deus a favor de seus filhos, para que eles, por si mesmos usando do livre-arbítrio, possam progredir.
E, em relação a algumas pessoas que se lembram de encarnações vividas, há bastante tempo, e não apenas as tão recentes, como acontece com Felício, muito ainda nos falta em informação para explicar esse fato, mas ele ocorre.
Um dia, com certeza, quando Deus permitir, teremos esse conhecimento, não só transmitido pelos Espíritos que se comunicam connosco, trazendo-nos as verdades espirituais, mas também provado pela ciência terrena.
—Enquanto isso, devemos acreditar ou não, sem indagações?
— A Doutrina Espírita tem muitas explicações, esclarece- nos bastante sobre o que ocorre no Mundo Espiritual, fala dos diversos locais para onde vão os Espíritos que deixaram a Terra, cada um adequado ao estágio evolutivo dos que o habitam, a fim de se recomporem da existência que vieram de terminar e se prepararem para a outra que terão.
Às vezes, o retorno leva muito tempo para ocorrer, e, de outras, é muito rápido, como no caso de Felício.
Temos muitas obras espíritas que nos explicam muitos desses fatos.
— Dona Margarida, penso que por hoje já tomamos muito do seu tempo, e já nos esclareceu bastante.
Foram muitas explicações novas para nós, nas quais devemos pensar.
Só lhe peço que não nos abandone nesta circunstância, porque desejo voltar a conversar com a senhora.
E fora de dúvida que, depois de reflectir bastante, muitas indagações teremos.
Se a senhora puder nos esclarecer, agradeceremos muito, porque irá nos ajudar a enfrentar essa situação com Felício.
—Estarei sempre à disposição!
E nossa obrigação esclarecer aqueles que precisam, a fim de que compreendam o que ocorre e saibam como lidar com os problemas que porventura tenham.
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