Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 21, 2018 8:30 pm

— Ainda não me é permitido, mas um dia eu saberei!
Se até aqui vivi solicitando esse encontro com você, agora desejarei conhecer a razão de não podermos estar unidos por muito tempo.
—O fato de nos encontrarmos, de nos amarmos tanto e sermos obrigados a nos separar de modo tão definitivo, deve ter sua razão em um passado longínquo.
Alguma coisa fizemos que agora nos impede de sermos felizes juntos...
— Também penso assim, mas não foi para isso que vim, mas para desfrutar um pouco da felicidade que tivemos interrompida.
Façamos um passeio durante o qual conversaremos.
— Farei tudo para estar em sua companhia e, por esta noite, quanto mais tarde voltar ao corpo, mais feliz eu serei!
Ao retomar e me deparar com a realidade da sua ausência, estarei
infeliz outra vez!
— Vim para lhe dar alento e alegria, recolher forças para prosseguir e não para lhe trazer infelicidade.
— Eu sei, minha querida.
Vamos ao nosso passeio e desfrutemos dos momentos que nos forem permitidos, com alegria e com esperanças de que outros ainda possamos ter!
A noite se estendeu pelas horas, e todas foram de Felício e Cíntia.
Ao perceberem, porém, no horizonte, o primeiro raio de claridade anunciando a chegada de um novo dia, e, com ele, toda a carga de obrigações e deveres que carrega em si para os aplicados e diligentes, eles verificaram que era hora de retomar.
Sempre de mãos dadas, eles passearam pelos prados verdejantes, um desfrutando do temo enlevo da presença do outro, trocaram juras de amor, e ela prometeu vir vê-lo todas as vezes que lhe permitissem.
Cíntia acompanhou Felício até o momento do seu despertar no corpo físico, depois da sentida mas necessária despedida.
E, permanecendo algum tempo ao seu lado, captando seus pensamentos, percebeu-o lamentar-se por ter despertado, dizendo de si para consigo:
— Eu nunca deveria ter acordado, depois de uma noite toda de sonhos com minha querida Cíntia!
Ah, doces momentos!
Eles me alimentarão o coração por muito tempo...
Desde que ela havia partido, eu nunca sonhara com ela!
Logo a seguir, recordando a sensação da sua presença na noite anterior, quando ele se encontrava em família, tomou a falar, mas, dessa vez, expressando maior felicidade.
— Não foi sonho! — exclamou ele.
Estivemos realmente juntos!
Ela veio visitar-me e eu a senti.
Não foi sonho...Não foi!
O que mais Cíntia precisaria viver ou presenciar, depois de tantas provas de amor?
Seu Espírito também se sentia revigorado e feliz e, no Mundo Espiritual, trabalharia com mais amor e dedicação, para poder ter, vez por outra, momentos tão felizes.
Depositando um beijo em sua face, que ele se preparava para levantar, Cíntia foi para junto da filha e não viu, em nenhum lugar da casa, a sua mãezinha.
Enquanto velava pelo sono da filhinha, à beira da sua cama, eis que ela chegou.
— Onde esteve que não a vi?
— Também tive o meu encontro!
— Com quem?
A senhora nada me disse!
— Estive com seu pai que precisava do fortalecimento e do encorajamento que lhe levei.
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 21, 2018 8:30 pm

A um tempo não muito distante, talvez um ano ou até menos, ele também estará junto a nós.
Eu precisava encorajá-lo a enfrentar o que ainda lhe resta como provas, com bastante força e espírito de coragem, para que tenhamos a felicidade de nos reunirmos, depois.
— Por que se separaram nesta encarnação?
— Já lhe dei algumas explicações, mas sempre temos de nos submeter aos desígnios de Deus, sabendo compreendê-los e aceitá-los, para que possamos ter a felicidade que
venhamos a merecer, de acordo com a postura que mantivermos.
Lembra-se de que lhe falei que desta vez eu fiquei no Mundo Espiritual para auxiliá-la e recebê-la?
— Lembro-me bem!
— Como foi seu encontro com Felício?
— O melhor possível...
— Já preveni seu pai de que, na próxima noite, você estará com ele!
Seu coração alegrou-se bastante, porque nós três formamos uma espécie de cadeia, tanto de compromissos quanto de amor, e podermos estar juntos é uma alegria e um reconforto muito grande.
— O que faremos durante todo o dia?
— Poderá fazer companhia à pequena Cíntia, se desejar, ou visitar outros recantos!
— Quero apenas estar com minha filha e acompanhar todo o seu dia, até que chegue a noite para o encontro com papai.
Quando partiremos de volta?
— Assim que se despedir de seu pai!
— Quando poderei ter outra concessão como esta?
— Dependerá de você, de sua aplicação ao trabalho e aos estudos, sem que faça deles o único motivo para a volta.
Pense em si mesma, no seu aprimoramento, que a recompensa virá de Deus, no momento em que Ele entender que a merece.
— Eu compreendo e tudo farei para merecê-la!
— Logo mais a pequena Cíntia será acordada por Linda que a leva todas as manhãs a um passeio, e você poderá acompanhá-las.
Eu voltarei para junto de seu pai e, à noitinha, virei buscá-la.
Não faça nada que possa prejudicar sua filhinha.
Saiba manter-se com o pensamento sublimado e leve-lhe o conforto da alegria, apenas!
— Saberei como me portar, não se preocupe...
—Não se esqueça de que amor e emoção demais, quando em desequilíbrio, apenas prejudicam!
— Eu sei, pode ir tranquila!
A mãe de Cíntia despediu-se da filha e partiu para estar com aquele que fora seu marido em algumas existências.
Enquanto isso, a jovem mãe desencarnada voltou para a companhia da filhinha, e com ela despenderia o seu dia, todo ele de carinho, ternura e amor.
Quando a avó chegou para acordá-la, ela estava presente e assim acompanhou todos os seus passos durante o transcorrer do dia, estimulou-lhe a alegria, conforme recomendação da mãe, e lamentou quando, ao final da tarde, ela voltou para levá-la até o pai e aguardar o sono da noite para estar algum tempo junto dele.
Cíntia depositou um beijo no rostinho da filha, abraçou Linda expressando sua gratidão por todos os cuidados e carinhos que dispensava à sua filhinha e achegou-se mais uma vez a Felício, àquela hora já de volta ao lar.
Abraçou-o, beijou-lhe as faces, e disse-lhe:
— Até quando Deus me permitir retomar, meu querido!
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 21, 2018 8:30 pm

Ambas partiram, surpreendendo a mãe de Cíntia da última experiência terrena, cuidando do marido e dizendo-lhe:
— Hoje você passou muito bem o dia!
Percebi que, desde o seu despertar, pela manhã, mostrou-se mais bem disposto e até revigorado.
Esforce-se, querido, cuide-se e deixe-me cuidar de você, para que se restabeleça logo!
— Tem razão, acordei bem, e o meu dia, hoje, não foi tão difícil!
Pareceu-me que uma força interior revigorava-me, trazendo-me novas esperanças e eu senti muita vontade de viver...
— Suas palavras deixam-me feliz!
Há dias em que você se prostra tão acabrunhado e sem esperanças, que me preocupo muito!
Eu sei o quanto ficou abalado com a partida da nossa querida Cíntia, e sabe o quanto também senti a sua morte.
Temos, porém, que reagir e não podemos nos entregar ao sofrimento para que não soframos ainda mais.
Queira Deus seu repouso desta noite seja tão bom quanto o foi o da noite passada e você, amanhã de manhã, desperte melhor ainda.
Mãe e filha, do lado espiritual, ouviam essa conversa, e Cíntia comentou:
— Sua visita fez-lhe tão bem, que está visível até para mamãe!
— E esta noite, depois do seu encontro com ele, melhor ainda ficará!
— Mas a senhora disse que seu regresso não tarda...
— Sim, é uma consequência natural para todos nós, a ida à Terra e o retomo como Espírito liberto, mas que o resto de tempo que ainda lhe falta, seja de menos sofrimento e mais esperanças!
Seu pai tem algum conhecimento dos preceitos e verdades que a Doutrina Espírita lhe transmite através das leituras que realiza, e ele compreenderá mais facilmente a sua condição, quando passar para o nosso lado.
— A senhora estará comigo, hoje à noite, quando eu o encontrar?
— No primeiro momento, não!
É importante que estejam a sós, que ele verifique o quanto você está bem, para que se reanime; depois, sim, também me achegarei, e os três estaremos juntos por algumas horas, devolvendo-lhe, com o nosso estímulo e amor, a sua alegria de viver.
Quando ele se recolheu ao leito, em hora não muito tardia pelo próprio estado de saúde e o cansaço natural do dia para os que vêem suas energias falindo, Cíntia aguardou alguns instantes, esperando-o deixar o quarto.
Sua mãe o havia acompanhado sem, contudo, aparecer, e providenciou para que ele adormecesse logo, a fim de terem sua companhia por mais tempo.
Em alguns momentos seu Espírito deixava o quarto e, ao se deparar com a filha na sala onde tantas vezes estiveram juntos e mantiveram longas conversas, ele se alegrou, indo rapidamente ao seu encontro.
O que seu físico já havia perdido em vitalidade, seu Espírito guardava em boa disposição e energia, e, com a felicidade estampada no rosto, abraçaram-se intensamente.
Depois, ali mesmo, recordando tempos passados que nem estavam tão longínquos, ambos sentaram-se e começaram a conversar.
Cíntia procurou estimulá-lo para a sua recomposição, insistindo em demonstrar o quanto estava bem.
Depois de algum tempo, a mãe, que a acompanhara naquele evento, apresentou-se e convidou-os para saírem um pouco, a fim de revigorarem seus Espíritos ante a Natureza aberta e cheia de energias salutares para, quem sabe, captá-las.
E os três deixaram a sala e partiram.
Só depois de algumas horas é que retomaram, e, deixando Guilherme no corpo físico, retomaram ao seu recanto de origem.
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 21, 2018 8:31 pm

16 - CURIOSIDADE DESPERTADA
Cíntia sentia uma certa indefinição de sentimentos, no imo de seu Espírito.
Não sabia se partia feliz pela concessão que tivera, permitindo-lhe uma pequena convivência com os que mais amara na Terra, ou triste, por estar novamente sem esses entes tão queridos e sem saber quando poderia vê-los outra vez.
Ao expor à mãe essa incerteza, ela, mais experiente e desejando auxiliar a filha, disse-lhe:
— Sempre devemos ser gratos a Deus por tudo o que nos concede, que, muitas vezes, é muito mais que merecemos...
— Eu não merecia rever os meus?
—Não me referi a você particularmente!
Com certeza, se lhe foi concedido é porque o merecia, mas desejava ressaltar que sempre devemos ser agradecidos, pois Deus, na sua misericórdia, bondade e amor, nos devolve, em recompensa do pouquinho que fizemos, o muito que desejamos!
Esteja feliz e energizada pela alegria que desfrutou junto dos que lhe foram e são muito queridos, sobretudo pelo primeiro encontro e conhecimento de sua filhinha.
— Eu sei, mamãe!
Se um pouco realizei e tive de Deus essa recompensa, muito mais farei e mais terei!
Um dia ainda retomarei para vê-los!
— Que não seja a realização de suas actividades, voltada para a recompensa, que Deus vê os nossos mais íntimos sentimentos e não negocia com ninguém!
O que fizermos, deve ser feito com amor c desprendimento, e a recompensa vem, sem que a esperemos ou peçamos.
— Sempre que eu estiver em erro, ajude-me a entender para que eu saia dele e vá compreendendo cada vez mais todas as verdades eternas e possa progredir.
— Você é para mim, neste período, a minha razão maior, e em quem eu concentro os meus objectivos mais nobres!
Sempre a ajudarei e a instruirei, dentro do conhecimento que já adquiri e da vivência que tenho, até advertindo-a, se necessário for, para o seu próprio bem...
— Se todos os que chegam ao Mundo Espiritual tiverem uma pessoa tão querida como a senhora para orientá-los, o esclarecimento e a conscientização das suas necessidades serão mais rapidamente conquistados.
— Todos sempre têm, no nosso mundo, entes queridos que os antecederam e com os quais se preocupam, mas nem todos podem se aproximar, a não ser no momento certo.
Muitos dos que chegam, trazem o Espírito tão carregado de desatinos cometidos em nome do orgulho, da concupiscência e da ambição, que precisam passar um bom tempo sós, para reflectir no que fizeram e, arrependendo-se, procurar melhorarem-se.
Deus, na sua infinita sabedoria, sabe como agir com seus filhos que transgridem, e, embora também sofrendo por eles, precisa devolver-lhes ao bom caminho.
— Quero me aplicar bastante e aumentar, se me for permitido, o número das minhas actividades; e um dia, se Deus entender que sou merecedora, voltar a ver os meus.
— Agora compreendeu bem o que comentamos!
Logo cada uma retomou suas anteriores actividades, mas Cíntia aprestou-se em fazer um pedido para trabalhar mais, oferecendo- se para outras tarefas que, em poucos dias, lhe foram concedidas, porque trabalho, para os que desejam ser úteis, sempre há, seja de que natureza for.
Assim a sua vida continuou.
Às vezes passava muitas horas e até mais de um dia sem ver a mãe, cada uma presa às suas obrigações.
A pergunta que Felício lhe fizera quando da sua visita insistia em permanecer em seu Espírito, e, conquanto não comentasse, teve também, por ela, sua curiosidade despertada.
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 21, 2018 8:31 pm

Desejava saber o que teria havido entre eles para que a convivência terrena lhes fosse sempre vedada, depois de se encontrarem e revivescerem tanto amor.
Informações sobre suas precedentes existências terrenas, ela não tinha nenhuma, a não ser as que trouxera da Terra como resultado das lembranças de Felício.
Mas era preciso saber muito mais. Tantas concessões já havia obtido, que não tinha coragem de fazer nenhum pedido nesse particular.
Se falasse à mãe, sabia que ela responderia que, aquilo que nos é permitido conhecer, Deus no-lo concede sem que o peçamos.
Ela sempre dizia que tudo tem a sua hora certa, e nada é antecipado se não for benéfico.
Desse modo, quando lhe fosse benéfico ou, pelo menos, quando não lhe fosse prejudicial, o momento certo surgiria, e ela tomaria conhecimento do que tanto esperava saber.
Assim, continuou suas actividades, cada vez mais aplicada ao trabalho, desenvolvendo-o com esmero e dedicação.
Certa vez, num final de tarde, quando lhe era permitido um passeio ao término de suas obrigações diárias, Cíntia encontrou- se com a mãe, o que nem sempre acontecia.
Como naquele momento ela dispunha de algum tempo, acompanhou a filha que, sem muita demora nem rodeios, foi ao assunto, objecto de seu interesse.
— Mamãe, já vão um tanto distantes os dias em que estive com os meus, na Terra, e desde então, uma pergunta tem me povoado a mente, trazendo-me ao Espírito uma grande curiosidade.
Até agora, porém, não vi meios de satisfazê-la.
—Nada, aqui no Mundo Espiritual, é realizado para satisfazer curiosidades, se não tiver um fim nobre e salutar a quem abriga tais sentimentos menores.
— A minha é muito natural e não vem de encontro a nenhum preceito que rege a vida neste plano, e eu, tendo-a satisfeita, não estarei transgredindo nenhuma norma que norteia as acções aqui...
— De que se trata, filha?
— Quando lá estive, Felício perguntou-me se eu já sabia do motivo de tanta separação entre nós, impedindo a nossa felicidade, quando nos reencontramos como encarnados.
— E em que esse conhecimento lhe é importante?
— Conforme a senhora mesma advertiu-me, não é uma simples curiosidade, mas a sua satisfação traz em si o conhecimento de alguma situação do passado que eu gostaria de saber, até como lição.
Sei que não é por nada que nos encontramos e somos afastados sempre, quando o nosso amor nos une de modo tão intenso.
A senhora sabe o motivo e não quer me dizer...
— Não se trata de querer ou não dizer, mas cada informação passada, aqui, tem o seu momento certo.
Às vezes, a imprevidência pode provocar um desequilíbrio na organização psíquica, com graves prejuízos, retardando, sobremaneira, a plena aquisição de todas as potencialidades do Espírito .
— Não me faço, ainda, bastante equilibrada para compreender?
Sei que algum acontecimento grave deve ter ocorrido e que vem se arrastando por algumas encarnações!
— Por aí você pode verificar a extensão da gravidade do que fizeram, já que uma encarnação apenas não foi suficiente para o resgate.
— Segundo lembranças de Felício, a primeira separação de que ele tem conhecimento foi há séculos!
Quando, então, cometemos ato tão execrável diante de Deus, e quantas vezes já nos reencontramos e fomos separados?
—Tem razão, foi há muito tempo, e já se reencontraram e se separaram cerca de três ou quatro vezes!
Contudo, pelo que fui informada, aquele débito está totalmente saldado.
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 21, 2018 8:31 pm

— Então, quando nos reencontrarmos, vamos poder permanecer juntos?
— Temos que nos submeter à vontade de Deus, que sabe o que é melhor para nós e nos permite o que pode para a nossa alegria.
Nada sabemos sobre isso!
É até possível» conforme já temos verificado em casos semelhantes que resgatados os débitos assumidos em conjunto, cada um siga o seu rumo para o resgate de outros compromissos contraídos ao longo das inúmeras caminhadas terrenas, e o reencontro demore muito ainda para se dar.
— Quem pode me autorizar a ter o conhecimento do que fizemos?
— Quando chegar o momento, que não tardará, eu mesma providenciarei...
Também fiz parte daquele acontecimento, como espectadora embora, e saberei como lhe narrar os fatos!
O importante é que continue a desempenhar suas actividades e não dê, ao conhecimento desse fato, uma importância tal que prejudique seu equilíbrio e seu trabalho.
— Saberei me conter, mamãe, mas pressinto que é algo muito grave; do contrário, me seria permitido saber!
******
O que restaria à Cíntia senão esperar?
Nada lhe seria adiantado, e a ansiedade só atrapalharia.
Era melhor, mais adequado e benéfico, seguir o aconselhamento da mãe e saber aguardar.
Com certeza, na hora certa, sem que ela pedisse, o que tanto desejava lhe chegaria.
Por outro lado, sua mãe, sem nada lhe revelar para não deixá-la mais ansiosa, que essa não era a sua intenção, mas satisfazê-la, começou a tomar as suas providências.
A primeira iniciativa foi comunicar-se com seus superiores e informá-los sobre as actividades da filha, falar da sua dedicação e esforço e pedir-lhes autorização para que seu passado mais remoto, justamente aquele em que factos tão desastrosos, ocasionados pela sua imprevidência e pela de Felício, lhe fosse aberto ao conhecimento.
Explicou-lhes que ela se encontrava preparada, e lhe seria benéfico saber, para que se acautelasse convenientemente para quando tivesse que regressar.
Seria um meio de ir aprendendo mais com a própria experiência e compreender que aqueles que cometem actos, como o cometido por eles, naquela ocasião, têm de ressarci-los, além do sofrimento muito grande pelo qual são obrigados a passar, ao se depararem com as verdades do Mundo Espiritual, já que ninguém pode burlar a justiça de Deus.
E deverão reparar o mal que fizeram, através das encarnações, quantas forem necessárias, até aprenderem a gravidade da acção praticada.
Depois de alguns esclarecimentos e instruções, permitido lhe foi comunicar à filha o que ela tanto desejava saber, tendo sido, ela mesma, incumbida de tal revelação.
— Ninguém melhor que a própria irmã para fazê-lo!
A sua presença física, naquela ocasião, dar-lhe-á autenticidade aos factos, como também o seu amor de mãe lhe proporcionará o amparo de que ela necessitar.
A senhora está autorizada, diante do exposto, a narrar-lhe todos os factos que se constituem numa pequena história de amor, mas com consequências desastrosas que perduram por tanto tempo.
— Sempre é benéfico que ela os tenha como lição, como entendimento e como preparação para outras oportunidades...
— Pois esteja à vontade, e, quando considerar conveniente, fale-lhe!
— Que Deus possa abençoá-lo, sempre, por compreender meus anseios de mãe!
— Que Ele abençoe a todos nós, nas nossas mais nobres intenções!
Mais tranquila e feliz, a mãe de Cíntia deixou a sala onde estivera, e retomou às suas actividades para aguardar o momento propício.
Enquanto isso, ela, nas suas lembranças, ia recompondo todos os pormenores que faziam parte daquele acontecimento.
Assim, trouxe para a sua mente o período distante em que ela e aquele que
fora pai de Cíntia recentemente, e o havia sido na existência da qual Felício tivera as lembranças, estiveram juntos, em outras circunstâncias.
Era uma época em que a intransigência e o ódio faziam parte de seus corações, e nada abatia o orgulho de um pai de família, nem para ver a felicidade da filha.
Ah! tempos longínquos tão infelizes, que culminaram numa tragédia tão grande, com consequências que transpuseram o tempo e se arrastavam ainda, não permitindo que aqueles, que tanto se amaram e continuavam a se amar, pudessem se reencontrar e ser felizes...
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 21, 2018 8:31 pm

17 - JUSTIÇA DIVINA
À noite, no silêncio de seu repouso, quando suas actividades eram interrompidas e nenhuma necessidade maior e mais urgente a solicitasse, ela ordenou melhor os pensamentos e viu-se num tempo muito remoto, muitos séculos atrás, quase há um milénio da época em que estavam vivendo, se na Terra estivessem.
Aos poucos, ela foi-se colocando no ambiente no qual viveu, e viu-se, repentinamente, dentro de um pequeno castelo, onde ela era a rainha, como esposa de um poderoso rei, dominador e enérgico, que chegava à maldade para conseguir seus objectivos.
Os tempos eram outros, e a lei do mais forte e do mais poderoso era regra.
Vizinho ao seu pequeno reino, havia um senhor de muitas posses, mas sem título de nobreza, que dominava a região com sua argúcia e poderio financeiro, e era objecto dos olhos do rei a quem aquela personalidade incomodava.
Os dois eram quase da mesma idade, e muitas vezes o rei mandara seus emissários até ele para propor-lhe negócios e mesmo certos privilégios dentro da nobreza, em troca de terras que seriam vantajosas ao seu reino e à sua ambição.
O senhor, independente pelos próprios méritos, não se submetia à vontade nem à cobiça daquele soberano, e não se importava com títulos de nobreza que não lhe levavam nenhuma vantagem financeira, a não ser a livre entrada e saída no palácio, desfrutando da convivência do rei, a qual não lhe interessava, pela própria autonomia de que era portador.
Cada um tinha sua família.
O rei, além de uma filha jovem muito bonita e dócil, tinha anda dois outros filhos, mas eram crianças ainda.
O outro tinha como primogénito um belo e forte varão que o ajudava nas suas actividades e era alvo da inveja do rei.
Tanto a jovem princesa quanto o rapaz plebeu, mas de muitas posses, não se conheciam, nunca haviam se encontrado.
Ela era sempre muito vigiada e, em seus passeios, uma criada a acompanhava.
A princesa gostava de cavalgar pelos domínios do pai, e, às vezes, afastava-se um pouco das imediações do palácio, empolgada pela bela e agradável paisagem que tomava toda a região.
Certa ocasião, um tanto voluntariosa, num galope ligeiro afastou-se da criada que a acompanhava e, distanciando-se, foi ter num recanto muito ameno, onde árvores frondosas proporcionavam ao ambiente uma sombra e um frescor agradáveis.
Um riacho de águas puras e cristalinas entrecortava a relva macia, convidando o espectador a uma aproximação para um reconforto.
Ela desceu do animal, prendeu-o a um tronco e achegou-se ao riacho, refrescando o rosto, e ali permaneceu, mirando-se, até que as águas remexidas asserenaram-se, e, seguindo tranquilas seu curso, davam-lhe a oportunidade de admirar-se em seu leito espelhado.
Enquanto assim se contemplava, sentada na relva à margem do riacho, notou que alguém mais estava reflectido nas águas e assustou-se.
Sem ter ouvido nenhum ruído, voltou-se, deparando-se com um belo e jovem cavalheiro que a observava.
Vendo-a atemorizada, ele sorriu, dizendo-lhe:
— Não pretendia assustá-la, mas apenas admirar de perto a sua beleza que tenho estado a observar de longe!
— Então me conhece?
— Sim, há algum tempo tenho estado à espreita, quando realiza seus passeios, mas nunca havia visto ensejo de me aproximar, e hoje foi o dia.
— Quem é o senhor?
— Alguém que a admira e agora verifica, é muito mais bela do que se me apresenta à distância!
— Eu não o conheço e papai não quer que ninguém se aproxime de mim sem a sua autorização!
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 21, 2018 8:32 pm

— Ele não está aqui, neste momento, e não pode me impedir de admirá-la!
— O senhor é muito estranho...
— Apenas alguém que pretendia aproximar-se e não via oportunidade.
Hoje, porém, consegui o que tanto desejava!
— O senhor não me disse quem é!
— Que importa?
Se souber, talvez me mande embora, e eu não quero me afastar da senhorita!
Enquanto conversavam, ouviram um trote apressado e, pela aproximação, verificaram ser do animal trazendo a criada que a acompanhava, que, depois de muita procura, encontrava-a.
— Seu pai não quer que se afaste tanto! — exclamou ela, demonstrando desagrado.
— Papai não precisa saber até onde cheguei!
— Hoje é um dia muito feliz para mim! — sussurrou o rapaz ao seu ouvido.
Volte amanhã que eu a esperarei neste mesmo lugar...
— Não sei se poderei!
— Se quiser, saberá como fazer...
— Diga-me, então, quem é!
— Volte amanhã que eu direi!
Hoje não quero quebrar o encanto da sua companhia,
pois desse encantamento quero viver até amanhã, quando a esperarei a esta mesma hora!
— Está bem! — respondeu baixinho a princesa. — Farei o possível para vir...
Atendendo ao chamado da criada, ela despediu-se do rapaz e partiu, deixando-o parado no mesmo lugar, deslumbrado com a presença que tivera junto a si.
Durante o percurso de volta a criada advertiu-a, dizendo que, se ela se portasse novamente como naquela manhã, seria obrigada a contar ao rei.
— Eu quero tê-la como amiga e não como uma espiã em minha companhia!
Nada conte a papai, porque eu não tive culpa de ter encontrado aquele rapaz.
Nem sei quem ele é!
— Mas eu sei e, se seu pai souber que falou com ele, impedir-lhe-á de realizar esses passeios.
— É só você não contar!
Se é realmente minha amiga, papai não precisa saber dos passos que dou durante o meu passeio.
São meus únicos momentos de liberdade...
O resto do dia passo presa no palácio, numa monotonia sem fim!
— Seu pai tem planos para a senhorita e sabe que, mais dia, menos dia, seu prometido chegará e o casamento se realizará!
— Não quero me casar com quem não conheço.
Só me casarei com aquele de quem gostar!
— Sabe que não é assim.
As filhas devem obediência aos pais, ainda mais uma princesa como a senhorita...
— Amanhã sairei novamente e, se me encontrar com aquele rapaz, não terei culpa nenhuma como não a tive hoje — a seguir, enternecendo a voz, interrogou:
— Você não o achou bonito e muito simpático?
— Mas não é para a senhorita!
Seu pai jamais consentirá numa aproximação entre vocês!
— Quem é ele, afinal?
— Filho do inimigo de seu pai, daquele que tem recusado suas ofertas e impedido todas as suas pretensões!
— Eu nada tenho com os desejos e negócios de papai!
As palavras da criada, prevenindo-a quanto ao rapaz, por ser justamente o filho daquele que, de alguma forma incomodava seu pai, fosse pelo sucesso financeiro de que desfrutava ou pelas terras que eram objecto da sua cobiça, não lhe importaram.
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 21, 2018 8:32 pm

Ele fora corajoso, pois sabendo quem ela era, se a observava há tempos, não tivera receio de se aproximar.
Por que ela o teria, por que deveria se esquivar de lhe falar, apenas porque seu pai desagradava ao rei?
Não era justo!
Depois, um encontro furtivo, vez por outra, nada tinha de mal, se ela também simpatizara com ele e ficara impressionada com sua bela e forte aparência.
Quando chegaram ao palácio, um pouco além do horário habitual, não despertaram a curiosidade de ninguém.
Atrasos em passeios eram comuns e nada havia com que se preocupar.
Sua mãe, porém, aquela mesma que, então recolhida em seu leito, trazia, depois de tantos séculos, essas recordações para o momento presente, notou, à entrada da filha, um ar estranho que a envolvia, não percebendo se de uma alegria incomum ou de felicidade.
Sem alarde e com bastante naturalidade, vendo-a dirigir-se aos seus aposentos, a rainha seguiu-a e entrou após ela.
Antes mesmo que a jovem princesa mudasse seu traje de montaria, ela aproximou-se, manifestando-se:
— Vejo que você voltou com um ar de felicidade no semblante, embora só perceptível às mães que conhecem muito bem os filhos.
O que aconteceu, filha? Hoje você demorou mais que o costume, por quê?
— Nada houve!
Apenas afastei-me um pouco do palácio e, num galope, fui parar num recanto muito bonito e tranquilo, onde me demorei, descansando.
— Não foi só isso!
— O que teria sido, então?
— Não sei, por isso pergunto!
Você encontrou alguém?
— Como a senhora sabe?
— Então é verdade?
Quem encontrou para ter voltado feliz?
— Um cavalheiro muito elegante e belo que disse estar me observando há tempos e hoje se aproximou!
— Eu estava certa!
Quem é ele?
— Eu não sei, ele não quis me dizer!
— Se não quis dizer é porque não podia!
—A criada disse-me que é filho daquele senhor, vizinho deste reino, que tem recusado todas as ofertas de papai para negociar uma parte de suas terras!
— Você não pode falar com ele, filha!
Seu pai não permite!
— E o que tenho eu com as pretensões de papai?
— Procure evitá-lo para não termos surpresas desagradáveis com seu pai...
—Mas eu simpatizei com ele, e ele, também, se me observava há tempos, é porque gosta de mim...
— Filha, não desobedeça seu pai para que não venhamos a ter sérios problemas.
Sabe que já está
prometida em casamento desde menina e logo o seu noivo virá para marcar o dia da cerimónia!
— Não me casarei com quem não conheço e de quem não gosto!
— Entre nós, os nobres, é assim!
Também casei-me com seu pai nas mesmas circunstâncias e hoje sou feliz...
— Mas eu não me casarei!
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 21, 2018 8:32 pm

— Bem, isso é assunto para depois!
Por ora, deve cuidar para manter-se afastada desse
cavalheiro, a fim de não procurar problemas para você mesma e para todo este reino!
— Se eu o vir, durante algum passeio, não me afastarei!
Não há nenhum mal em trocarmos
algumas palavras!
— Por enquanto não há, mas vi a felicidade em seus olhos e isso é perigoso!
— Estou cansada de viver sempre presa neste palácio!
— É a nossa vida!
As mulheres têm que ser submissas, primeiro ao pai, depois ao marido...
— Eu não quero ser!
Nada conte a papai do que lhe falei, se não ele proibirá meus passeios.
— Eu não contarei, mas talvez não esteja agindo bem, e contribuindo para sua própria infelicidade...
— Nada de mal irá acontecer, não se preocupe!
É muito bom encontrarmos pessoas diferentes daquelas com as quais convivemos todas as horas do dia, sobretudo quando é alguém que se interessa por nós...
— Ai é que está o mal, filha!
Cuide-se para não sofrer, e para não trazer sofrimento a todos nós.
Se continuar a se encontrar com ele, a que isso a levará?
Seu pai, se souber, a proibirá de sair e até poderá mandar perseguir o cavalheiro, o que não será bom para ninguém...
— Está bem, mamãe.
Não se preocupe apenas porque, ocasionalmente, encontrei-me com alguém de quem papai não gosta!
A princesa ouviu as advertências e receios da mãe, mas não partilhou deles, tão entusiasmada se encontrava.
Mais as horas afastavam-na do momento do encontro, mais o rapaz crescia em sua mente e começava a adentrar o seu coração.
Ele fora o primeiro a se aproximar, dizendo-lhe palavras temas.
E ela, coração sensível e intocado pelo amor, sentiu-se abalar, e a lembrança dele permaneceu em sua mente sem se retirar um só instante.
Reviveu suas palavras centenas de vezes, e, na manhã seguinte, preparou-se com mais cuidado para o tão agradável passeio.
A criada, como responsável pela princesa, temia.
O que lhe acontecesse e que desagradasse o rei, ela seria penalizada.
A jovem, porém, às vezes, mostrava-se voluntariosa como o fizera na véspera.
Quando a sua vontade mais rebelde se manifestava, e ela saía num galope ligeiro sem consequências, a criada alcançava-a e nada havia de mal.
Naquela manhã, entretanto, acontecera o imprevisível, aumentando-lhe o temor, mas a sua função era segui-la.
Muito antes do horário habitual para o passeio, a princesa já se encontrava preparada, esperando pela criada que chegaria com o encarregado da cavalariça, trazendo os animais.
O rei, como que imaginando o que ocorreria, fez muitas recomendações pelos cuidados que tinha com a filha.
Fê-la lembrar-se de não se arrojar demais com o animal para não se ferir, pois, em breve tempo, seu prometido chegaria e deveria encontrá-la mais bonita ainda.
Seu casamento significava um compromisso antigo e de muitos benefícios para si mesmo e para o seu reino.
A princesa não deu atenção às palavras do pai, preocupada com o encontro que teria.
No seu íntimo sabia que não se submeteria a nenhum casamento com desconhecidos.
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 22, 2018 7:50 pm

Assim, o passeio foi realizado, durante o qual nenhum galope distanciando-a da criada foi necessário realizar.
Passeando como de costume, ela dirigiu-se ao local onde se encontraria com o rapaz, sob os protestos da criada que temia, e, ao chegarem, ele já a esperava.
Ao ouvir o trote do cavalo farfalhando as folhas secas caídas ao chão, ele foi ao encontro da princesa, e, refreando o animal, ajudou-a a desmontar.
A alegria dos dois era visível a qualquer espectador, mas a criada fora recomendada estar atenta a qualquer movimento diferente nas imediações.
Era um segundo encontro, mas tão intensamente um havia permanecido na mente do outro, estreitando um afecto nascente, que ambos pareciam se conhecer há muito.
Quando ele a ajudou a desmontar, tomando suas mãos, não as soltou mais e reteve-as entre as dele durante todo o tempo do reencontro.
A princesa, sentindo-se feliz, em nenhum momento fez a mais leve menção de retirá-las, tão bem e tão à vontade se sentia.
À hora da despedida ele implorou que ela retomasse no dia seguinte, pois não conseguiria mais ficar sem vê-la, e ela, entusiasmada e feliz, prometeu fazê-lo.
Não é necessário dizer que esses encontros prolongaram-se por muitos dias, tendo completado um mês, sem que o rei de nada desconfiasse, não obstante a rainha estivesse a par de tudo.
Muitas recomendações ela fez à filha, muito lhe pediu que não procurasse sofrimento para si própria, mas de nada adiantou.
— Se não puder mais me encontrar com ele, mamãe, eu morrerei de desgosto!
Ele tem sido a minha razão de viver...
— Se seu pai souber, mandará matá-lo, filha!
— Se ele fizer isso, também me matarei!
Ainda não sabemos o que irá acontecer connosco, mas sei que, com outro, não me casarei!
— Seu noivo não tardará pelo que ficou combinado, e logo algum mensageiro virá anunciando a sua chegada!
— Não quero pensar nisso, ainda, só sei que não me casarei!
— Você não poderá desobedecer seu pai...
— Ele é que não pode me impedir de amar a quem quero!
— Eu estou muito preocupada e cada vez que a vejo sair, fico orando para que nada lhe aconteça.
Tenho medo de que seu pai fique sabendo, e, se isso ocorrer, ele será implacável.
— Enquanto não acontecer, deixe-me ser feliz!
Se não puder ficar com ele para sempre, conforme desejamos, os momentos vividos até agora terão valido a pena.
Depois, a vida não terá mais valor para mim, e, sem ele, não viverei...
Ele fala em vir até aqui e conversar com papai, mas eu não deixo, porque sei, se isso acontecer, eu ficarei presa no palácio e não o verei mais.
Por isso, enquanto pudermos, vamos nos encontrar!
E digo à senhora que só tenho vivido para esperar os momentos em que passamos juntos, ouvindo as juras de amor
que ele me faz e recebendo os seus carinhos.
— O que eu preciso fazer para que você me ouça, filha?
— Nada, mamãe!
Se a senhora quer me ver feliz, deixe-me viver esta felicidade!
Não a tire de mim para que eu não feneça de vez!
O que mais restaria àquela mãe aflita senão deixar a filha e esperar? Nada!...
Mesmo advertida e aconselhada, a princesa prosseguiu nos seus encontros com o rapaz que amava e por quem era amada, cujo sentimento do mais puro amor crescia cada vez que se encontravam.
Tanto sua vida quanto a dele, era um enlevo de amor.
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 22, 2018 7:50 pm

Nem aquele que o rei elegera como seu inimigo tinha conhecimento do que estava ocorrendo com o filho, mas, se soubesse, com certeza não daria importância.
Uma semana após a conversa mais séria entre a princesa e a mãe, eis que o rei recebeu um emissário do noivo, um príncipe de um reinado distante, trazendo uma mensagem do soberano, seu pai.
Era chegada a hora de efectivar o compromisso assumido e, dentro de quinze dias, o suficiente para que os preparativos para a cerimónia fossem efectuados, eles chegariam e, após três dias, queria o casamento realizado.
De sua parte, dizia a mensagem, as providências estavam sendo tomadas para receber em seu palácio, como novo membro da família, aquela que lhe traria os herdeiros para a continuidade de seu reino.
A rainha sobressaltou-se, o rei alegrou-se.
Com esse casamento, ele receberia um dote muito importante para os seus domínios.
Como avisar a filha, pensava a rainha.
Seu coração já estava tomado por outro amor que o arrebatara por inteiro, e ela mesma dissera que não se casaria com desconhecido.
O que aconteceria, era imprevisível!
A princesa teria que ser cuidadosa, pois, do contrário, até o seu querido amor correria risco de vida.
Assim que tomaram conhecimento da mensagem e encaminharam o emissário para uma boa alimentação e um descanso, o rei, em pessoa, procurou a filha em seu aposento.
Ele mesmo desejava levar-lhe a nova, que, na sua ingenuidade, achava que a faria feliz.
A esposa, preocupada, quis acompanhá-lo também.
A princesa estranhou a presença do pai em seus aposentos, o que ele fazia somente se ela não estivesse bem de saúde, mas nada disse, compreendendo que o momento tão temido havia chegado.
Ele trazia nas mãos a mensagem que acabara de receber, e como a filha aprendera a 1er, que ele fizera questão de contratar professores para esse mister, antes de lhe dizer o que continha, estendeu-a para que ela mesma a lesse.
— O que é isso, papai? — indagou ela, já prevendo o seu conteúdo.
— É uma mensagem que me deixou muito feliz e espero que a deixe também...
Desconfiada e temerosa, a princesa tomou o pergaminho, desenrolou-o e leu, palavra a palavra, e, sem um único comentário, enrolou-o novamente e devolveu-o ao pai, como se, com sua atitude, ela estivesse fechando no pergaminho a sua alegria e suas esperanças.
— Nada me diz? — interrogou ele.
— O que lhe diria?
— Que ficou feliz!
Seu noivo chegará em quinze dias!
— Mas eu não estou feliz...
Não quero me casar com quem não conheço.
Eu não o amo!
— Quem falou em amor, filha?
Falamos em casamento, e o amor não conta quando há interesse!
Essa transacção era tudo que eu mais precisava para a continuidade da segurança do nosso reino!
— E eu sou o objecto que o senhor negocia para isso?
Eu tenho sentimentos, papai!
— Mulheres devem ser obedientes e submissas e não ter sentimentos!
A rainha ouvia sem nada dizer, enquanto o rei insistia com a filha, que resolveu calar-se.
De nada adiantaria falar.
Em sua mente, transportada para junto daquele que amava, ela dizia de si para consigo que quinze dias seria mais que suficiente para que alguma atitude fosse tomada.
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 22, 2018 7:50 pm

Casamento é que nunca haveria, pelo menos nos moldes que seu pai desejava.
Pedindo ao marido para que se retirasse, ela mesma conversaria com a filha, e ele, sem mais nada a dizer, deixou aqueles aposentos.
Quando sós, a filha abraçou-se à mãe e chorou muito.
— Eu não me casarei, mamãe! — exclamou ela, depois de algum tempo.
Se não posso me unir a quem amo e por quem sou amada, não me casarei com ninguém!
— Acalme-se, filha...
Você verá que precisa obedecer a seu pai.
Seu reino está em jogo!
— E eu devo sacrificar-me por isso?
Então ele dá mais valor ao seu reino que a mim?
Ele não merece que eu lhe obedeça!
— Não fale assim.
Seu pai a ama...
— Se me amasse, quereria o meu bem e não promoveria a minha desgraça!
Deixe-me só, mamãe...
Nada do que me disser, modificará os meus sentimentos...
Triste, sem ver solução para problema tão sério na vida da filha, ela retirou-se, enquanto a princesa permanecia em pensamento junto daquele a quem amava, aguardando ansiosamente a manhã vindoura para contar-lhe o sucedido.
Ela não saiu do quarto para o jantar em família e nada dormiu aquela noite.
Logo pela manhã, com os olhos tristes e desesperançados, arrumou-se para o passeio, mas sem o esmero dos dias anteriores.
À hora habitual ela montou o animal e saiu com a criada.
O pai, vendo-a deixar o castelo, comentou com a esposa:
— É bom que ela vá passear.
Voltará melhor e mais cordata!
Ao chegar ao local do encontro, ele já a esperava, e, ajudando-
a a desmontar, reteve-a nos braços por algum tempo, enquanto ela, sem nada dizer, chorou muito.
— O que aconteceu, minha querida princesa?
Não chore! Seja o que for, nada há que não tenha solução!
— Esse meu problema não a tem!
— Nós damos a cada problema a solução que desejamos, basta que tenhamos coragem.
Eu já imagino o que possa ter acontecido!
— Aquele que meu pai diz ser meu noivo, chegará em quinze dias!
— Tempo suficiente para decidirmos o que fazer...
— Nada há a fazer...
— Como não?
Poderemos fugir!
— Meu pai mandaria nos procurar por todo o mundo, até nos encontrar e nos mataria!
— Então pensaremos em outra solução.
Só não quero vê-la chorar.^
— Eu não quero me casar com ele!
— Nem eu permitirei que o faça!
Já que não podemos nos unir como desejamos, você não se casará com ninguém!
Só se for comigo...
— Eu não poderei me casar com você!
— Eu saberei como fazê-lo!
******
Os dias pareciam correr mais céleres que os de costume e nenhuma solução estava sendo encontrada.
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 22, 2018 7:50 pm

No palácio, os preparativos começaram a ser efectuados. Uma grande festividade que duraria três dias se preparava.
Desde o nobre de posição mais elevada até o mais humilde reinol participaria da festa.
Todos precisavam saber da felicidade do rei ao entregar a filha a um príncipe de um reinado importante e bastante promissor.
A cada iniciativa tomada, mais o coração da princesa se confrangia.
Se ela não houvesse conhecido o rapaz a quem amava, se não houvesse sabido o que era o amor e o que era ser amada, submeter-se-ia à vontade do pai, pois que para isso fora educada.
Contudo, depois de sentir toda a força do amor em seu coração, todas as alegrias que ele lhe trouxera, como entregar-se submissamente a outro homem, apenas porque seu pai ordenava? Não, ela não se submeteria de forma alguma!
Seus passeios continuavam, e seu pai até achou que ela deveria interrompê-los.
Não ficava bem1 para uma princesa, em vésperas de casamento, sair pelo reino a cavalo.
Ela não acatou a sugestão do pai, dizendo-lhe que eram os únicos momentos de liberdade que possuía, e deles não abriria mão.
O rei não quis impedi-la e concordou que ela os realizasse até a véspera da chegada de seu noivo e não mais.
— É suficiente! — pensava ela, já sabendo o que faria, se nenhum outro meio houvesse.
Não ela, exactamente, mas, não vendo outra solução, uma foi encontrada pelo rapaz, que os deixou felizes, facilitando que ela não se casasse com quem não desejava e que eles ficassem unidos para sempre.
Depois desse caminho encontrado, sugerido por ele e aceito por ela, a princesa passou a ficar mais tranquila.
Não se rebelara e deixava que os preparativos fossem sendo efectuados, pois sabia, não seriam para ela.
Mais alguns dias de muito enlevo entre eles transcorreram, para a preocupação da criada que não sabia mais o que fazer, porém, entendendo o drama que sua princesa estava vivendo, nada revelou a ninguém do que presenciava.
Eram os únicos momentos de felicidade que ela vivia.
Sua mãe, preocupada, diariamente interpelava a filha para que aceitasse a imposição do pai e se casasse, dizendo-lhe que logo ela esqueceria o seu amor e passaria a viver tranquila sua nova vida de princesa no reino de seu marido.
A jovem não reclamava mais nem teimava que não se casaria, e a mãe tinha para consigo que ela estava aceitando resignadamente o que não tinha outra solução.
Mal sabia ela o que estava planeado entre ambos.
Na véspera da chegada do noivo, quando todos os preparativos estavam encerrados, pela manhã, antes de sair para o seu passeio, ela aprontou-se com bastante esmero e cuidado, e, procurando a mãe, abraçou-a intensamente, causando-lhe certa estranheza e apreensão.
Indagando o porquê daquela atitude, ela respondeu que aquele seria o último passeio que realizaria e, ao abraçar a mãe, estava se despedindo da liberdade que tivera até então.
Um tanto confusa por suas explicações, a mãe aceitou-as sem saber o que se preparava, e a princesa deixou o palácio com sua acompanhante.
Ao se aproximarem do local do encontro, ela parou o animal e falou à criada que, naquela manhã, como seria a última vez que veria seu amor, desejava ficar a sós com ele, pedindo-lhe que ela a esperasse ali onde estavam.
— Não devo deixá-la só, princesa!
— Eu não estarei só, e você sabe disso.
Deixe-me desfrutar dos meus últimos momentos de liberdade do modo como desejo, depois eu virei ao seu encontro.
— Sei que não devo, mas eu obedecerei...
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 22, 2018 7:51 pm

A princesa afastou-se, e a criada, desmontando, prendeu o animal a um tronco de árvore, sentou-se sob sua fronde e ficou aguardando.
Muito tempo ela passou esperando, e a princesa demorava muito mais que o habitual.
Com receio de ser advertida ao chegar em casa, ela começou a caminhar em direcção ao ponto de encontro dos dois, chamando a princesa, sem que ninguém respondesse.
À medida que se aproximava, mais aflita ela ia ficando e, ao chegar mais perto, viu os animais dos dois, soltos, tranquilamente pastando na relva fresca.
Cuidadosamente ela foi andando e chamando a princesa, dizendo que as horas já haviam passado sem que ela retomasse, quando se deparou, no recanto mais tranquilo e belo do local, aquele mesmo onde a princesa descansara um dia e conhecera o rapaz por quem se apaixonara, com dois corpos estendidos ao chão, um ao lado do outro, como que dormindo.
Ao se aproximar, porém, pôde verificar, para seu espanto e pavor, que ambos estavam mortos.
Tudo indicava que ele lhe dera um veneno fatal e o tomara em seguida, porque o recipiente que o contivera, ainda estava junto da mão dele.
Apavorada, ela não sabia o que fazer.
Voltou correndo para onde deixara o animal e, montando-o com dificuldade, galopou até o palácio onde ela e a princesa eram aguardadas com ansiedade, pelo adiantado da hora.
Lembrando-se do abraço de despedida da filha, a rainha estava preocupada, mas, ao mesmo tempo, confortava-a saber que ela estava em companhia da criada.
Todavia, quando, desesperada, ela chegou só, e, desmontando, entrou terrificada no palácio, chamando pelo rei e pela rainha, seu coração apavorou-se.
A rainha correu ao seu encontro e, vendo-a só, no estado em que estava, deduziu que uma grande desgraça havia acontecido.
— A princesa, minha rainha, a princesa e ele... — gritava ela sem conseguir articular a palavra fatídica.
— O que aconteceu?
Tenha calma e fale! — implorou ela, no momento em que o rei, ouvindo o barulho que a criada fazia, também aproximou-se.
— A princesa está lá à beira do riacho!
— E por que não veio com você, o que aconteceu? — gritou o rei exasperado.
— Ela está morta!
—Como?!!!
Ouvindo essa revelação, a rainha não resistiu e desmaiou.
Mas o rei, bastante lúcido, chegou à criada e, segurando-a pelos braços, sacudiu-a em desespero, indagando:
— O que aconteceu, por que a minha filha está morta?
Onde estava você, o que houve?
A muito custo, mais apavorada ainda, temendo a reacção dele, ela conseguiu narrar, com palavras entrecortadas e sem muitos detalhes, o que havia acontecido.
— A sua companhia era para protegê-la e não deixá-la um só instante!
Por que não nos avisou do que estava ocorrendo?
Sem ouvir nenhuma outra explicação, o rei chamou os guardas pedindo que a prendessem, ao mesmo tempo que ordenou, lhe preparassem um animal e o acompanhassem, que ele iria pessoalmente verificar o que havia acontecido.
O local, a criada conseguira explicar, e ele sabia bem onde era, pois conhecia a palmo todo o seu reino.
A rainha já havia sido socorrida por criados que ficaram à espreita pela confusão que se formara, e fora levada para seus aposentos onde permanecia deitada.
O que se passou a seguir não é necessário ser relatado com detalhes, pois todos são capazes de compreender a dor que se abateu sobre a família real, ao mesmo tempo que o ódio contra a família do rapaz acirrou-se.
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 22, 2018 7:51 pm

Quando o noivo chegou com sua comitiva para a cerimónia de casamento, ainda pôde vê-la antes de ser sepultada.
A pobre mãe revivia, com suas lembranças, toda a dor que passara naquela ocasião, reconhecendo, também, o quanto o desejo da filha e do rapaz, de ficarem juntos, havia sido frustrado.
Por isso, inconformados partiram para o gesto supremo, imaginando concretizarem, depois da morte, aquele sonho de amor.
No entanto, cada um teve um destino diferente ao se desprender do corpo.
Cada Espírito tem seus próprios débitos e seu grau evolutivo, e, por terem praticado o ato mais grave diante de Deus, como transgressão às suas leis, cada um seguiu seu rumo sem nunca terem-se encontrado, ocasionando-lhes o desespero da frustração ao se depararem com uma realidade bem diferente da que sonharam, e um sofrimento muito intenso e prolongado pela forma como haviam se retirado da vida.
Temos a obrigação de preservar a vida que nos foi concedida como oportunidade de aprendizado e aprimoramento, e não aniquilá-la, a fim de evitarmos a aquisição de compromissos que se prolongam por séculos e séculos.
Além disso, não conseguimos, muitas vezes, saldar os débitos trazidos para resgate, nem cumprir o plano anteriormente elaborado para a nossa evolução.
Afora todos os sofrimentos por que foram obrigados a passar naquela ocasião, no Mundo Espiritual, como sempre ocorre aos que atentam contra a própria vida, extinguindo-a, seus Espíritos, quando puderam desfrutar do ensejo de novas reencarnações, algumas vezes haviam se reencontrado, o amor fora reacendido, mas não tinham direito de permanecerem juntos, ocasionando-lhes maior sofrimento ainda.
Ele, o jovem daquela época e o Felício de época recente, o autor intelectual do plano que fora colocado em acção, aquele que tomara as providências para executá-lo, ministrando, ele mesmo, a poção venenosa que lhes extinguira a existência, via-se impedido de concretizar uma união feliz, tanto amor trazia no peito.
Se um dia ele a eliminara da vida, embora com seu consentimento, a vida passou a levá-la dele, através da morte, aquela mesma que ele provocara, fazendo-o sentir a dor plangente de uma separação sem remédio.
Vingança de Deus?
Não, que Deus não se vinga, mas sua justiça se cumpre!
É o único meio de fazer com que seus filhos, aqueles que transgrediram suas leis, possam pensar nas causas do que se vêem obrigados a enfrentar, e, mesmo sem terem o preciso conhecimento do que estão resgatando, têm a noção de que ninguém resgata um débito num campo que não o contraiu.
Cada efeito tem sua causa e cada um é levado a saldar seus compromissos, de modo mais ou menos ligado ao que cometeu, e assim, após a reflexão, se já se encontra em condições de fazê-la, começa o esforço de modificação.
Nenhum meio há de entendimento e modificação que não seja através do cumprimento da Justiça Divina, que não condena, mas se cumpre para o bem de seus filhos.
No caso de Felício e Cíntia, o que lhes acontecia, era a única forma de valorizarem o que temos de mais sagrado, concedido por Deus, que é o dom da vida, com todas as oportunidades que ela nos oferece, e chegarmos à conclusão de que sempre depende de nós, de nossos actos, o sofrimento pelo qual estamos passando, ou as alegrias que poderemos ter.
Todos esses acontecimentos Cíntia saberia no momento certo e teria, também, a permissão de contar a Felício, para que ambos compreendessem o que haviam feito e o que estavam resgatando, como o cumprimento da Justiça Divina.

§.§.§- Ave sem Ninho
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