Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 13, 2018 7:47 pm

Ambos levavam, da casa de Margarida, muitas informações, oriundas de conhecimentos que ela revelara e nos quais eles nunca haviam pensado.
A crença que professavam era muito mais simples.
Era só seguir seus rituais e se esforçar para ganhar o céu ou evitar o inferno e estava explicada a sua passagem pela Terra.
Margarida, porém, viera com outras explicações, um tanto mais complexas e muito mais abrangentes, levando-os à reflexão e à crença.
De que outra forma explicariam aquela identidade entre seus dois filhos, as lembranças que Felício trazia, o relato de factos acontecidos com o irmão que não conhecera, colocando-se neles como se tivessem acontecido consigo?
Sim, a professora falara em reencarnação!
O mesmo Filho que haviam perdido lhes retomava nesse que amavam também.
Mas por que isso acontecera?
Deveriam eles acreditar em todas as explicações recebidas, nos conceitos expostos com tanta segurança por ela, resultado de uma crença solidificada em sua mente?
Onde teria adquirido tais conhecimentos, e como os incorporara como verdades sem contestação, a ponto de passá-los para que eles entendessem o que acontecia com o filho?
Tanto ela falara, tanto eles ouviram, conjecturando a cada afirmativa, silenciosamente, para não interrompê-la, mas nada ela explicara quanto ao que fazer a fim de que Felício assumisse sua própria personalidade, fosse mais feliz, esquecendo-se do outro, e vivesse dentro dos padrões de todos os que estão na Terra.
Todavia ela dissera, também, que esse fato não era tão inusitado.
Diversas pessoas tinham essas mesmas lembranças e eram até objecto de pesquisas científicas.
O que desejariam os cientistas com investigações nesse campo?
A essa pergunta de Linda ao marido, quando ainda em caminho para casa, António José respondeu:
— Pelo que entendi, há duas formas de crença...
— Como duas formas? Ou se crê ou não se crê!
— Há a crença religiosa, que nasce dentro das pessoas como uma certeza e por isso não lhes é difícil incorporar seus princípios como verdades.
Aceitam-nos sem contestação, como se um conhecimento anterior lhes alertasse de que não devem duvidar do que, em outras vidas, já aprenderam.
Admitem, até com certa naturalidade.
Porém, há o método de investigação da Ciência, que não crê apenas por crer, mas quer provas e conclusões satisfatórias.
Entre os cientistas, há os que não possuem aquele conhecimento anterior, como dona Margarida, e desejam provar o que afirmam a fim de que nenhuma dúvida reste...
— Então, pelo que diz, a reencarnação pode ser provada cientificamente?
— Foi o que entendi da conversa com dona Margarida.
— Você tem razão, foi isso mesmo que ela tentou explicar.
— Os cientistas são cépticos e não incorporariam uma teoria apenas por terem ouvido falar!
Por isso se esforçam e averiguam, até chegarem às conclusões que, de alguma forma, já haviam compreendido.
Por isso pesquisam.
— É assim que você pensa?
— Eles nunca iriam se empenhar numa pesquisa se não tivessem a crença nos resultados do que pretendem provar.
É apenas uma satisfação que desejam dar a si mesmos e aos outros, provando com fatos o que já haviam compreendido.
— De algum modo, então, o cientista e o convicto têm a mesma crença...
Apenas um precisa de provas e o outro não.
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 13, 2018 7:48 pm

Quando o carro, conduzindo o casal, entrava na casa, Linda aventurou-se a perguntar:
— António, precisamos ter uma certeza de tudo o que ouvimos.
Você acreditou no que dona Margarida falou?
— É a única explicação do que vem ocorrendo com Felício.
Até aqui procurávamos um ponto para nos apoiar e, até podermos, se não ajudá-lo, pelo menos, compreendê-lo e não contestar mais!
Eu acredito em todas as explicações, por compreendê-las lógicas, e até gostaria de ter algum conhecimento de pesquisas realizadas nesse campo!
— Quer dizer que você acreditou com o coração mas sua razão exige provas?
— Não que as exija, mas o assunto é muito fascinante e me despertou a curiosidade...
— É seu espírito científico que está falando?
—Todos nós temos, em alguma dose, um pouco de empirismo em nossos Espíritos.
Segundo dona Margarida, devemos tê-lo trazido de outras vidas!
Terminando a frase, olhou para Linda com um sorriso maroto e feliz, acrescentando:
— Vamos ao encontro dos nossos queridos Felício, o de ontem e o de hoje, que agora sabemos, não são dois, mas um só!
Ao entrarem em casa, o garoto distraía-se com algum entretenimento que Magda lhe proporcionara, mas, vendo os pais, foi ao encontro deles.
Linda, que vinha com os braços abertos para aconchegá-lo ao peito, abraçou-o com muita força, mas com uma ternura que só as mães o conseguem, como se estivesse recebendo seus dois filhos ao mesmo tempo.
Demonstrava seu amor ao Felício actual, ao mesmo tempo fazia-o como se estivesse reencontrando o Felício de outrora.
O menino estranhou aquele abraço, mas regozijou-se com ele.
Quando Linda o soltou, o pai fez o mesmo, como que desejando reviver um pouco da convivência com o outro que lhes deixara, com sua ausência, uma profunda dor na alma.
Daí em diante, não teriam mais a lamentar a partida do outro, a imaginar onde estaria, o que poderia estar fazendo ou pensando, que ele estava sob seus olhos e coberto da sua protecção e amor.
Magda, observando atenta aquela atitude estranha, não pela demonstração de amor, que sempre o faziam aos filhos, mas estava sendo diferente.
— Era só de Felício que ficaram tão saudosos? — indagou ela, acrescentando:
Eu também estou aqui e, no entanto, não recebi nenhum abraço!
— Ah, filha, você sabe o quanto os amamos!
Vocês fazem a alegria de nossas vidas e a nossa razão de viver.
Mas Felício foi ao nosso encontro, é tão criança ainda e precisa mais da demonstração do nosso amor e carinho... —justificou-se a mãe.
— Você já tem certeza de que a amamos, mas receberá também o nosso abraço! — falou-lhe o pai, aproximando-se, e abraçando-a, depositou um beijo em seu rosto.
Depois soltou-a e prosseguiu:
— Sabe que venho notando que você está cada dia mais bonita?
Logo teremos muito trabalho com todos os rapazes que a procurarão!
— Não fale assim, papai!
Por enquanto, só penso em estudar bastante...
— Não poderá evitar que eles se interessem por você.
Um dia terá sua própria família, seus filhos...
É para isso que a mulher foi criada, para desempenhar a missão mais sublime que há sobre a Terra, a de ser mãe!
Linda, atenta à fala do marido, advertiu-o:
— Não acha que ainda é muito cedo para essa conversa com Magda?
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 13, 2018 7:48 pm

— Nunca é cedo, querida.
Quando menos esperarmos, virá alguém à nossa porta pedi-la em casamento.
—Vamos mudar de assunto, papai!
O senhor está me deixando constrangida!
E, desejando desviar completamente o rumo daquela conversa, Magda indagou:
— Contem-me: onde foram?
— Seu pai foi tratar de assuntos relativos ao seu trabalho e, como visitaria um cliente em casa, pediu-me para acompanhá-lo.
Linda não desejava falar com a filha sobre o assunto que os vinha preocupando e no qual vinham pensando muito desde a conversa com dona Margarida.
Era ainda muito cedo.
Ela gostaria de fazer mais averiguações, colher mais informações, reflectir, investigar, e, sobretudo, observar o filho.
Depois, sim, dar-lhe-ia conhecimento do que ocorria, com mais segurança, e, conforme o caminhar das atitudes de Felício, até ele mesmo acabaria por saber.
De qualquer forma ela não desejava antecipar nada nem alarmá-los, sem conseguir lhes dar explicações do que nem ela mesma ainda possuía conhecimento.
Os filhos, à chegada dos pais, permaneceram um pouco em sua companhia e depois se recolheram para o repouso.
António José e Linda fizeram o mesmo, e no isolamento do quarto, onde ninguém os ouvia, voltaram ao mesmo assunto, tão surpresos ainda estavam com todas as explicações da professora.
— Precisamos conversar muitas vezes com dona Margarida — falou António José.
— Sabe em que estava pensando, lá na sala, em companhia de nossos filhos?
— Como poderia saber, Linda?
Mas arrisco dizer que era em tudo o que ouvimos...
— Em parte, acertou, mas pensava um pouco além...
— Não entendi!
—Veja bem! Se dona Margarida tem todos aqueles conceitos firmados em seu Espírito como crenças sólidas, ela os adquiriu em algum lugar...
— Ela falou em livros, lembra-se?
— Sim, lembro-me, mas não é neles somente que penso.
Gostaria de visitar um local onde a Doutrina Espírita é ensinada e onde todos os seus frequentadores têm, como verdades insofismáveis, tudo o que ela nos explicou!
— Informe-se com dona Margarida!
Ela poderá orientá-la!
— Você não gostaria também de ver o que ocorre num lugar desses, para que tenham esses conhecimentos?
Não gostaria de ver como conduzem seus cultos?
— Não havia pensado nisso, mas posso acompanhá-la.
Conversar com a professora, tinha-se me afigurado como suficiente...
— Pois eu gostaria!
Da próxima vez em que a vir, pedirei informações, e nós iremos ver o que fazem, o que lhes dá tais convicções!
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 13, 2018 7:48 pm

5 - O CENTRO ESPÍRITA
Mais algumas vezes Felício voltou àquele mesmo assunto.
Falava de situações das quais se recordava, tanto provocadas por fotografias ou não, falava da professora...
Porém, nunca mais os pais o contestaram. Nunca mais lhe disseram que o participante daqueles factos não era ele, mas o irmão que já se fora.
Eles começaram a encarar a situação com naturalidade, pelo menos diante dele, não obstante se preocupassem.
Acreditavam que, não lhe dando tanta atenção, ele iria esquecendo aqueles fatos.
Mas tal não estava ocorrendo.
Ao contrário, perceberam que as lembranças estavam se intensificando.
Até a professora actual mandara chamar Linda, por ter notado nele atitudes estranhas.
Às vezes a chamava de dona Margarida, sem atinar que outra estava à sua frente.
Às vezes perguntava por que a querida professora não havia comparecido.
Era um comportamento impróprio de quem sempre fora atento, aplicado e disciplinado.
Sem saber o que dizer — pois Linda não queria expor o menino à curiosidade pública — afirmou que o chamaria à atenção.
Contudo, o que faria?
Como reprimir aquelas sensações que não sabia como ocorriam, se nem ele próprio tinha consciência de que se transportava para um outro tempo, identificando-se com outra pessoa?
Naqueles momentos, ele era o outro e não o Felício actual!
Entretanto, depois dos conhecimentos que os pais tiveram, como destacar as duas personalidades?
Não eram os dois uma mesma individualidade? Não era apenas o mesmo
Espírito que animara um corpo e que agora animava outro?
Eles só não entendiam o porquê das recordações e como aquele fenómeno ocorria.
Existida alguém que pudesse lhes dar maiores explicações?
Era preciso voltar a conversar com Margarida, obter outros esclarecimentos e até frequentar um local onde a Doutrina Espírita fosse ensinada, para aprenderem mais e entenderem melhor a situação que enfrentavam.
Eles receavam por Felício, que poderia ser considerado insano.
Não poderiam impedir que as lembranças se manifestassem nem sequer pedir ao filho que guardasse tais recordações só para si...
Essas ocasiões que se lhe apresentavam apenas como recordações eram, na verdade, um retorno!
Ele mergulhava com tal profundidade naquele tempo, que se esquecia de que actualmente era outro.
Felício estava vivendo duas situações, revelando duas personalidades, como poderiam explicar facilmente, para não entrarem em maiores detalhes, e uma não interferia nem se interpunha à outra.
Cada uma tinha a sua vez, como se naquele momento ele fosse apenas um, esquecendo-se de que era ou havia sido o outro.
A situação era deveras difícil!
Os pais e a irmã, Magda, a quem a mãe dera algumas informações para também tratá-lo com naturalidade, compreendiam-no e tentavam ajudá-lo, mas, e as outras pessoas com as quais teria que conviver fora do lar?
A escola, os companheiros e até o clube recreativo onde os pais o levavam aos domingos?
* * *
Margarida não lhes dera nenhum esclarecimento a mais do que já o fizera. Indicara-lhes alguns livros que tratavam do mesmo assunto, mas, por mais avidez com que Linda os lesse para encontrar uma solução e ajudar o filho, eles se limitavam à narrativa de fatos semelhantes, com a única finalidade de provar que a reencarnação existe e que não podemos contestá-la.
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 13, 2018 7:48 pm

Quando a professora lhes indicou os livros, Linda quis saber o endereço do lugar que ela frequentava, para também adquirir mais conhecimentos sobre a Doutrina, mas, entretida com as leituras, nem ela mesma nem o marido haviam encontrado oportunidade de visitá-lo.
Lembrada por António José, Linda explicou:
— Quero antes tomar conhecimento do que os livros narram, para depois conseguir entender melhor o que vamos ver lá.
— Pelo que você tem me contado das leituras, será difícil ajudarmos nosso filho...
— Tenho pensado muito no nosso outro Felício!
O nosso de agora logo completará o tempo em que tivemos o outro connosco e eu tenho medo!
— Quanto a isso não há o que se preocupar.
Segundo Dona Margarida, o facto de Felício haver desencarnado em tenra idade naquela existência, não significa que terá prova igual nesta vida.
— Não é nisso que penso...
Já compreendi que cada um, ao nascer, traz uma programação de vida que nada tem a ver com a duração do tempo da anterior.
I r G que a preocupa, então?
—O que recordará o nosso Felício, depois?
Suas lembranças cessarão ou ele, mesmo adulto, manterá sempre as lembranças do outro como criança?
— Será difícil prever, e não sou eu que saberia fazê-lo.
— Penso que é chegada a hora de visitarmos o lugar que dona Margarida frequenta...
E é o que vamos fazer!
Afinal, a decisão estava tomada.
Os livros lidos até então, os que tratavam do assunto que envolvia o seu filho, não lhe traziam maiores esclarecimentos, mas Linda estava despertada para saber mais, muito mais!
Com essa expectativa, telefonou a Margarida, falou-lhe o que desejava, e a professora prometeu esperá-los à porta da casa que frequentava e encaminhá-los ao seu interior.
Todavia, não seria naquela noite, mas na seguinte.
Naquele Centro Espírita, assim como em outros que trabalhavam sob a mesma orientação, havia alguns tipos de trabalhos diversificados, a fim de abrangerem uma extensa gama de necessidades.
Para um primeiro contacto, o que se apresentaria na noite seguinte seria o mais adequado.
Sempre uma palestra era realizada, para a transmissão de conhecimentos evangélicos ou orientações doutrinárias, e, após, para os que desejassem, um grupo de trabalhadores de boa vontade se reunia para a transmissão de passes reconfortantes.
Foi o que a professora explicou à Linda, mas ela não entendeu bem o que seriam esses passes.
Para não prolongar muito a conversa telefónica, ela achou por bem deixar para tomarem conhecimento por si mesmos, na noite seguinte, e depois conversariam a respeito, se necessidade houvesse.
O assunto da conversa foi passado para António José, que concordou em levá-la.
Na noite imediata, no horário marcado, pouco antes do início dos trabalhos, o casal chegava, encontrando Margarida à porta.
Linda olhava, curiosa.
Nunca havia entrado num local daqueles, que a professora informou chamar-se Centro Espírita.
O salão não era grande, e uma parte já estava tomada por uma assistência acomodada e silenciosa, que se mostrava em atitude de recolhimento.
Margarida conduziu-os a dois lugares bem à frente, e, pedindo licença, deixou-os e foi para o interior de uma outra sala, reunir- se com trabalhadores da casa, que se preparavam para a transmissão de passes, ao final.
Ninguém havia sentado à mesa, à frente do salão, com algumas cadeiras.
Ali, certamente, sentar-se-iam os que conduziriam os trabalhos.
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 14, 2018 8:07 pm

Ao aproximar-se o horário marcado para o seu início, dois cavalheiros deixaram a sala onde a professora havia entrado, e, silenciosamente, acomodaram-se à mesa.
Linda examinava o ambiente, muito simples mas muito bem arrumado, e, às vinte horas, um dos dois cavalheiros levantou-se, dizendo da alegria de novamente ali estarem para mais uma reunião de amor.
E, elevando o seu pensamento a Deus e a Jesus, pedindo- lhes protecção, proferiu uma prece que, se percebia, saía do âmago do seu coração em direcção aos céus, como Linda considerou.
Ao terminá-la, anunciou o tema da palestra que o orador, em sua companhia, iria proferir.
António José e Linda observavam e, para o espanto de ambos, naquela noite o assunto a ser tratado não seria evangélico, mas doutrinário.
Ele falaria da reencarnação!
Linda e António José se entreolharam, sequiosos para saberem como o assunto seria desenvolvido.
Referir-se-ia ele às pessoas que trazem lembranças de outras vidas, como a dizer-nos “eu voltei, já vivi outras vidas e delas me lembro’*?
Quando o orador, agradecendo a oportunidade, começou a falar, o casal, atento, concentrou toda a atenção em suas palavras.
Com bastante segurança e eloquência, fruto de quem conhece bem o assunto, o orador discorria pelos meandros do tema que empolgava a assistência atenta, mas muito mais Linda e o marido.
Ele falava da necessidade da reencarnação.
“Em passado longínquo ou mesmo mais recente, muito já delinquimos, muito trabalhamos contra o Pai, mas Ele, que nos ama, vai nos dando oportunidades de redenção...”
Suas palavras giravam em tomo dessas oportunidades, e, desejando trazer mais esclarecimentos, prosseguiu:
“Somos Espírito!
Quanto ao corpo, este constitui um instrumento para manifestação daquele, no mundo material.
Hoje o temos de uma forma, envergando uma aparência segundo os determinismos genéticos trazidos dos pais, que fornecem o material para construção do corpo físico, entretanto o modelador somos nós.
Hoje nascemos numa determinada família, num determinado local, segundo as necessidades de resgates; amanhã, em outros.
Portanto, estamos no corpo, mas não somos o corpo.
Somos Espíritos imortais, abrigados num corpo transitório, perecível.”
António José e Linda ouviam com atenção os postulados de uma fé renovadora.
O orador, inspirado, continuava sua exposição:
“Não que devamos desprezar o corpo, pois que ele também tem sua importância!
Ele é o meio de que o Espírito dispõe para progredir, é o sagrado instrumento doado por Deus para o ressarcir-se de débitos e para a aquisição de virtudes.
Com ele, temos o compromisso da boa utilização, valorizando-o enquanto o possuímos, nada fazendo para destruí-lo antes do tempo que nos foi permitido utilizá-lo e aproveitando o máximo da oportunidade concedida, com o pensamento sempre voltado ao Espírito.”
“Sim, que vivamos no corpo mas com o pensamento no Espírito!
Ele é que resplandecerá, um dia, quando deixarmos o corpo e regressarmos ao Mundo Espiritual, a nossa verdadeira morada, depois de ter resgatado todos os seus débitos e de ter vivido suas existências, na Terra, aprimorando-se e esforçando- se para exemplificar o que Cristo Jesus veio nos ensinar.”
Assim discorrendo, o orador ia penetrando os vários aspectos da reencarnação, a necessidade do nascer de novo, a finalidade das vidas sucessivas e encerrou sem ter tocado, em nenhum momento, no que Linda e António José mais desejavam.
Terminada a explanação, o mesmo cavalheiro que havia feito a prece inicial, encerrou a reunião, e as pessoas começaram a se movimentarem direcção à sala onde os passes seriam transmitidos.
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 14, 2018 8:08 pm

António José e a esposa haviam aprendido bastante e reforçado ainda mais os conhecimentos passados por Margarida, mas, no íntimo de Linda faltava o mais importante, deixando-a um tanto insatisfeita.
Favorecida pelo local onde haviam sentado, ela falou qualquer coisa ao ouvido do marido e levantou-se.
António José fez o mesmo e acompanhou-a, para não deixá-la só na sua pretensão, e conseguiram abordar o orador antes que deixasse o salão.
Pedindo licença, Linda perguntou se poderia trocar algumas palavras com ele, sobre o tema abordado, que os envolvia muito de perto.
Sem entender muito bem onde ela desejava chegar, o orador, solícito, respondeu-lhe:
—Estou à sua disposição para o que desejar, mas todo assunto que trata de reencarnação nos envolve a todos directamente, porque somos todos Espíritos reencarnados, procurando a nossa redenção.
— Eu compreendo e, talvez, tenha me expressado mal.
Hoje é a primeira vez que comparecemos a este local e a primeira que ouvimos um orador discorrer sobre a Doutrina Espírita!
Sempre professamos a religião católica, que não aceita a reencarnação, mas estamos enfrentando uma situação muito delicada em nosso lar, para a qual estou precisando de ajuda!
— De que se trata, minha senhora?
— Temos conversado com Dona Margarida que é frequentadora desta Casa, e ela tem nos orientado.
A nossa posição de pais, porém, está difícil, porque não sabemos no que irá resultar o comportamento de nosso filho.
Ele se lembra da encarnação anterior, como nosso outro filho que havia morrido dois anos antes do seu nascimento...
O orador ouvia o seu desabafo, bastante atento, sem interferir, deixando-a falar tudo o que desejava, e ela prosseguia:
—Quando a senhor começou a sua explanação, hoje, depois do tema anunciado, eu fiquei feliz, entendendo que já era uma ajuda de Deus, mas o senhor nada se referiu ao que tanto nos tem preocupado.
— Já sei do que fala! Margarida contou-me o que vêm enfrentando no lar, mas aqui,
hoje, não havia necessidade de comentar o que esperava, e eu também desconhecia a sua presença neste recinto.
— O que vem acontecendo com nosso filho não se circunscreve à reencarnação?
— Certamente, e muito importante por um aspecto!
Apenas provar que ela existe, através de tantos exemplos semelhantes ao do seu filho.
Entretanto, para os frequentadores desta casa e para nós mesmos, todos em romagem terrena, outros aspectos são muito mais importantes.
Precisamos estimulá-los para melhor aproveitarem a oportunidade que estão tendo, e, através do conhecimento libertador, cuidarem mais de suas acções, assim como, alertá-los para o vigiai e orai.
Os companheiros desta casa e de outras semelhantes, não têm dúvida sobre a lei da reencarnação, e nos parece mais útil alertar as criaturas para que façam bom proveito da existência, deixando à Ciência que se ocupe de buscar as provas.
Sabemos também que há os mais cépticos, em busca de evidências científicas, mas aqui tratamos a reencarnação não como objecto de polémicas mas como consequência natural da nossa vida de Espírito, do que não temos a menor dúvida!
— Nós também já a compreendemos e não duvidamos, mas pensamos muito em nosso filho.
Está sendo difícil, para ele, conviver com essa situação dupla, em que uma hora é um e logo depois é outro...
— Compreendo. Se me permitirem, gostaria de ver o garoto e até de lhe falar.
Quem sabe, poderemos ajudá-lo de alguma forma...
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 14, 2018 8:08 pm

— Estamos aceitando toda a ajuda que nos chega!
É por isso que estamos aqui, hoje.
Queremos auxiliá-lo, de alguma forma, para que não passe por insano perante os outros.
—Como faremos para que o veja?
De que modo seria melhor para o senhor? — inquiriu António José.
— Se me permitirem, eu os visitarei e o surpreenderei em seu próprio ambiente!
— Quando poderá fazê-lo?
Estaremos ansiosos por esse momento!
— Amanhã à noite estarei livre, se puderem me receber...
— Nós o aguardaremos e, se desejar, mandaremos nosso motorista buscá-lo!
— Não é necessário, é só deixarem o endereço!
Uma esperança nova adentrava o coração de Linda e António José, não obstante já compreendessem, mesmo pelo pouco conhecimento que tinham, que quase nada poderia ser feito em favor do filho.
Linda não queria que ele fosse alvo de especulação e tomado como um ser raro e estranho que poderia oferecer espectáculos hilários aos mais curiosos e desprovidos de boas intenções.
Entretanto, com o orador da noite seria diferente.
Ele não só professava a fé espírita, a única que lhes dava explicações lógicas e contundentes para a situação do filho, mas, militante da doutrina, fazia-se um seu divulgador estudioso.
Aqueles que divulgam os seus preceitos, têm que estudar para transmitir com convicção e segurança o que eles mesmos já incorporaram em seus Espíritos como verdades.
Ela confiava e aguardava a hora da visita.
Seria possível, até, que ele nada presenciasse, que Felício se mantivesse como o era sem lembranças e ele nada visse.
Pensando, também, nessa possibilidade, o orador da véspera comunicou-se com Margarida e convidou-a para acompanhá-lo.
Seria a sua presença um teste muito importante, embora o garoto pudesse não reconhecê-la.
Era uma expectativa para ambas as partes.
No horário combinado, sem que se fizesse esperar, ele chegava à residência da família de António José, acompanhado por Margarida.
— Tomei a liberdade de convidá-la, pois sua presença ajudará em muito.
— Hoje Felício passou um dia tranquilo, bastante normal, imerso apenas na sua existência actual.
Em nenhum momento, que eu tivesse presenciado, ele demonstrou ter tido alguma recordação das que já sabemos.
— Esses momentos são imprevisíveis e ninguém ainda conseguiu provar como e por que aparecem, sem que nada os justifique, como desaparecem da mesma forma.
Deve ser em razão de algum componente que a Ciência ainda não conseguiu descobrir, que os ocasiona — explicou o visitante.
—Com certeza muito mais relacionado com o recôndito mais íntimo do Espírito, onde a Ciência não conseguiu chegar - aduziu Margarida.
—Ela tem se limitado a narrar o que presencia sem, contudo, ir mais a fundo e dar as causas.
Não a espiritual, que essa a reencarnação prova, mas a sistemática do Espírito na sua parte funcional, se assim podemos dizer.
Como se fosse a fisiológica para o organismo físico! — tomou o visitante.
— Vejam que nos faltam até os termos científicos que poderiam explicar melhor o surgimento desses fenómenos, a fim de que entendêssemos o que acontece com o Espírito para que eles ocorram e desapareçam! — considerou Margarida.
— Um dia ainda teremos, com precisão, todo esse conhecimento, que nos ajudará a conduzir mais adequadamente essas situações.
— Pelo que entendi até agora, cabe-nos apenas observar e aprender a conviver com tais situações.
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 14, 2018 8:08 pm

Apenas aceitar e nada mais! — expressou-se António José.
—Infelizmente ainda estamos nesse estágio, mas a Ciência é dinâmica e caminha — explicou o orador.
—E que dizem os Espíritos a esse respeito? — indagou Linda.
— Em relação ao lado espiritual, desprendido da Ciência, temos esses fenómenos como prova da reencarnação e não nos aprofundamos em detalhes que só à Ciência diz respeito.
Entretanto, os cientistas não falam nem se interessam pelo que os Espíritos poderiam explicar, pois nem acreditariam.
— Só levam em conta o que pode ser demonstrado, e, por enquanto, eles ainda estão interessados em provar se existe ou não reencarnação!
O que nos preocupa, agora, será um segundo estágio da Ciência, a cujo conhecimento Deus lhes facilitará o acesso, se achar conveniente, conduzindo as suas pesquisas para direcções que os levem às conclusões requeridas, como procede com os cientistas em outros campos.
— Então o senhor supõe que Deus regula até o que os cientistas devem ou não descobrir? — indagou um tanto céptico, António José.
—Temos a certeza disso.
Quando é chegado o momento de a Terra receber algum benefício, Deus tem os recursos adequados para fazê-lo chegar ao homem!
— Nunca havia feito tal pensamento — voltou a falar o pai de Felício.
— Bem, nossa conversa tomou um rumo diferente do que imaginávamos!
— Mas muito interessante e fascinante! — tomou o anfitrião, completando, entusiasmado.
— Sim, interessante e amplo, que vem mostrar a magnitude de Deus.
Mas vim para conhecer o garoto e, se nos ativermos a esses detalhes, eu não o verei!
Em outra ocasião poderemos conversar mais, é só se manterem sempre em contacto connosco.
— Eu vou buscá-lo! — exclamou Linda, levantando-se, enquanto António José voltou a falar:
—? Nunca imaginei que a Doutrina Espírita tivesse explicações sobre pontos que só cabem à Ciência e que vão muito além do que imaginava!
— A Doutrina Espírita também é Ciência, mas a maioria das pessoas imagina que nos ocupamos apenas em falar com Espíritos para lhes pedir favores e nada mais!
No entanto, vamos muito além e temos explicações para o que Deus permite, o homem tenha conhecimento...
— Deus tem o controle de tudo, mas dá liberdade aos indivíduos... — começava a falar Margarida, quando Linda entrou na sala acompanhada pelos filhos Magda e Felício.
— Estes são nossos filhos! — exclamou Linda.
Magda fez um cumprimento com a cabeça, enquanto Felício, dirigindo-se a Margarida, estendeu-lhe a mão, dizendo:
— É muito bom vê-la, Dona Margarida!
— Como está, Felício? — perguntou ela, com naturalidade, sem saber se ele se dirigia à professora do outro Felício, ou à professora que conhecera há poucos dias.
Desejando mais alguma informação, ela indagou:
— Como está indo na escola?
Está encontrando alguma dificuldade?
— A senhora sabe em que tenho mais dificuldade, mas vou bem!
A senhora sempre me elogia e estimula bastante...
E agora, como proceder, pensou ela, enquanto lançava um olhar de indagação à mãe do garoto.
Contudo, o próprio visitante acudiu-a, perguntando a Felício:
—Então dona Margarida é sua professora?
Foi o que entendi.
— Sim, senhor.
Eu gosto muito dela e tenho aprendido bastante.
Mamãe sempre diz que eu estou indo muito bem!
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 14, 2018 8:08 pm

— Tenho muita alegria em conhecê-lo!
Dona Margarida sempre fala em você!
De que mais você gosta, além de estudar?
— Gosto de passear com papai e mamãe, gosto de andar a cavalo, mas papai tem medo de me deixar montar sozinho!
— Ah, então você gosta de andar a cavalo?
Você tem um?
— Não, mas uma vez papai nos levou a uma fazenda de um seu amigo, e eu andei...
Temos até fotografias!
E, olhando para a mãe, indagou:
— Posso mostrá-las ao senhor, mamãe?
—Certamente, filho!
Eu mesma vou buscá-las enquanto você conversa com ele!
Linda retirou-se e voltou em seguida trazendo o álbum e entregou-o ao filho.
Ele mesmo foi folheando e contando as histórias que envolviam as fotos, acrescentando outras das quais se recordava.
Uma criança sempre gosta da atenção dos adultos, do interesse que demonstram pelos seus gostos, e Felício não era diferente.
Ele falou durante um bom tempo, até que o visitante, vendo muitas fotografias de Magda enquanto bem criança, desejando provocar alguma outra situação, indagou:
— E essa menininha bonita que está sempre em sua companhia, quem é?
— É minha irmã Magda!
— Essa que entrou com você não é também Magda?
Por que vejo-a agora como uma linda jovenzinha?
Felício voltou o olhar na direcção da irmã e disse apenas:
— Eu não sei!
Ela era menor que eu e agora está bem mais velha... eu não sei!
Estaria ele retomando ao momento presente?
Percebendo a indagação que se formara na cabecinha do garoto, o visitante tomou:
—Posso lhe explicar porque Magda agora é alguns anos mais velha que você, e nessas fotos era uma criança?,
Linda e António José tremeram e olharam para Margarida.
O que lhe diria?
Contudo, deveriam confiar!
Não estava ele ali para trazer-lhes alguma ajuda? Não demonstrara bom senso em tudo o que dissera, desde que o conheceram?
Todos permaneceram calados, e ele ia prosseguir, quando Felício lhe indagou:
— O senhor sabe por que não vejo mais a Magda como a minha irmãzinha?
—Não é fácil explicar, mas eu vou tentar!
Seus pais contaram- me que, há alguns anos atrás, bem antes de você nascer, eles possuíam um outro filho que também se chamava Felício e que Deus levou para o céu, deixando-os muito tristes!
— Eu já sei desse facto!
— Pois então, se o outro Felício que morreu foi para o céu, ficar com Jesus, é porque, além do seu corpinho que ficou doente e morreu, tinha o Espírito que não morre, e esse é que Jesus levou!
O corpinho ficou na Terra e seu Espírito foi para junto de Jesus!
O garoto olhava-o, tentando compreender, e ele prosseguia:
—Se o seu Espírito foi para junto de Jesus, é porque o Espírito não morre, e, se não morre, às vezes Jesus permite que ele volte outra vez junto dos seus, em outro corpinho.
E foi o que aconteceu!
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 14, 2018 8:08 pm

O outro Felício morreu, mas seu Espírito voltou e agora é você!
— Eu?.
— Sim, você!
Você foi o outro que era aluno de dona Margarida, que fez todos esses passeios cujas fotografias me mostrou, e voltou no Felício que é agora!
Compreendeu? Por isso nas fotografias Magda era pequena e agora é uma jovem.
Magda ficou e cresceu...
Você foi e voltou, por isso é ainda uma criança e, às vezes, tem lembranças que não são desta sua vida mas da do outro Felício!
António José e Linda estavam intrigados.
Por que daria ele aquelas explicações a uma criança tão pequena que nada deveria entender?
Quando ele terminou, o próprio Felício indagou:
— É por isso que papai e mamãe me diziam que esse das fotos não era eu, mas meu irmãozinho que havia morrido?
— É isso mesmo!
— E por que eu me lembro dele como se fosse eu mesmo?
—Justamente por isso eu quis lhe dar essas explicações.
Com esse conhecimento você vai tentar fixar-se somente no Felício de agora, tentando esquecer o outro...
— Mas eu não sei quando isso acontece!
— Agora ficará mais atento e pode ser que essa verdade o ajudará.
Você já sabe que o Espírito é o mesmo, tanto o do outro Felício quanto o seu, o que deixou seus pais felizes porque têm o filho de volta em você mesmo...
O menino olhava-o desconfiado, mas era inteligente e conseguiu entender.
Só não sabia como evitar de se transportar para um tempo e para situações que não eram suas, como diziam.
O álbum de fotografias foi fechado, e Linda pediu que ele mesmo o guardasse, dando-lhes oportunidade de conversar.
Assim que ele deixou a sala, Linda perguntou:
— Por que lhe deu tais explicações?
— Ele precisava saber!
— Porque, se é ainda tão pequeno, e não tem consciência de como o fenómeno ocorre?
— Tendo conhecimento, alguma coisa poderá se modificar!
É como se o seu Espírito, agora, passasse a ser mais vigilante das próprias acções...
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 14, 2018 8:09 pm

6 - O CASTELO
As visitas retiraram-se, as crianças recolheram-se, restando Linda e António José, pensando e fazendo comentários, até que eles mesmos se decidiram pelo repouso.
Nada poderiam fazer senão aguardar, e aguardar é o que fariam.
No dia seguinte, logo pela manhã, antes de sair para a escola, Felício abordou a mãe, indagando:
— Mamãe, a senhora acreditou no que aquele senhor explicou-me ontem à noite?
— Sobre o que fala, meu filho?
— A senhora ouviu-o dizer que eu sou o Felício, seu filho que não conheci, e que nós dois somos os mesmo Espírito?
Segundo ele, somos um Espírito que foi e voltou na mesma casa, renascendo num outro corpo, como filho dos mesmos pais!
—E uma explicação na qual devemos acreditar!
De que outra forma entenderíamos essas suas lembranças de fatos que não viveu, mas vividos por ele?
— A senhora tem razão...
Deve ser isso mesmo!
— A sua pergunta leva-me a uma curiosidade que me ocorre neste momento...
— O que é, mamãe?
— Já que agora você tem esse conhecimento, no qual acreditamos, eu gostaria de saber o que sente quando se vê transportado para outro tempo?
— Não entendi sua pergunta!
— A mamãe deseja saber se você tem conhecimento de quando esse fenómeno irá ocorrer?
O que faz com que, de repente, você comece a falar como o nosso outro Felício, esquecendo-se de quem é agora?
—Eu não sei.
Para mim, nada há de estranho...
Tudo é normal, tanto nas horas em que tenho o que vocês chamam de lembranças, quanto como sou agora, não há diferença!
Eu sinto-me o mesmo, vocês é que estranham...
Não há avisos nem divisão entre os dois momentos.
Sou sempre o mesmo!
Eu não percebo nada, não sei como ocorre e nem que está ocorrendo.
A senhora compreendeu?
— Sim, meu querido...
Isso só vem provar que as explicações têm fundamento, pois são duas etapas de vida de um mesmo Espírito que trouxe, não sabemos por quê, recordações de sua outra existência.
— Isso acontece com todas as pessoas?
— Não, filho, não é tão comum assim, e não sabemos por que ocorre justamente com você!
Com certeza ainda teremos outras explicações...
Quando somos envolvidos por uma situação, de cujos fenómenos somos protagonistas ou dele participamos muito estreitamente, como é o nosso caso, muitas indagações vão surgindo em nossa mente, e, aos poucos, vamos aclarando o nosso entendimento com a ajuda que os mais esclarecidos no assunto podem nos dar.
— Eu não gosto de ser assim!
— Mas deve ser preciso por alguma razão, que, um dia, descobriremos!
Se você pudesse controlar suas lembranças, pelo menos fora de casa, seria muito bom!
— Não saberia como fazê-lo, já expliquei!
— Está bem, filhinho...
Agora vá para suas aulas!
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 14, 2018 8:09 pm

Quando tivermos outras explicações, você saberá.
Quantas indagações povoavam a mente de Linda!
Porém, ela também cuidava em tratar o filho com naturalidade, não lhe provocando qualquer espécie de receio, que o fizesse sentir-se diferente das demais pessoas, e que ele próprio assim não se considerasse.
A rotina no lar dos Correias parecia continuar.
O que lhes causara tanta estranheza, no início, já não os surpreendia mais.
Não fora fácil, todavia.
Depois que o entendimento adentrara suas consciências e eles aceitaram a situação como uma decorrência inevitável, o problema parecia não preocupá-los tanto.
Encaravam-no com naturalidade, sem espanto, mas pensavam no próprio Felício, imaginando o que ainda poderia surgir, embora esperassem que, ao completar a idade com que o outro partira, as recordações cessassem, e não faltava muito.
O casal, interessado em melhor compreender os postulados espíritas, com todas as verdades que encerra, passaram a comparecer mais assiduamente ao Centro, onde eles eram transmitidos pela divulgação dos pregadores, nos dias reservados a palestras e passes.
Conheceram outros divulgadores da Doutrina, estreitaram mais os laços de amizade com Margarida e com o orador que os visitara.
Linda começou a 1er muitas obras doutrinárias, assinadas por autores encarnados ou recebidas mediunicamente, as quais lhe traziam novas revelações, esclarecimentos, orientações, ensinamentos morais, além de outras leituras que lhe serviam como recreação salutar.
A vida no lar prosseguia, e as lembranças de Felício também.
A data, que trazia de volta duras recordações ao casal, se aproximava.
Juntamente com essa data, ficara profundamente marcada a última festa realizada para a comemoração de uma união tão feliz — dez anos de matrimónio!
Precisamente o dia seguinte àquela comemoração fora marcado pelo profundo desgosto de ver o filho querido, o primogénito em quem depositavam tantas esperanças, fugir da vida, deixando-os num terrível abatimento.
Nunca mais nenhuma festa fora organizada para tal comemoração, pois que, da lembrança de uma data tão feliz e sempre festivamente comemorada, juntara-se outra de muita dor.
No entanto, passados mais dez anos, aproximava-se a data do vigésimo aniversário do casamento de Linda e António José, época em que o filho, já tinha, completos, seus oito anos de retomo à convivência dos pais.
António José, feliz com a família recomposta, pensava em uma grande comemoração.
—São vinte anos de felicidade, Linda!
Por que não relembrar as nossas festas?
Seria uma oportunidade ímpar!
— Hoje, meu querido, passados dez anos da nossa última comemoração com os amigos, eu não sou mais a mesma Linda!
Muita coisa aconteceu em nossas vidas e eu sinto-me modificada.
Se, naquela época, eu desejava partilhar com os amigos a minha felicidade, hoje faço questão de partilhá-la somente com os meus familiares mais próximos, os entes que mais amo nesta minha vida.
Eu não quero festas... Os vinte anos em que estivemos unidos, não só pelos laços do casamento, mas do amor, do entendimento e da compreensão, só a nós pertencem!
— Compreendo...
Mas uma festa traria novas alegrias ao nosso lar...
— Já temos todas que merecemos!
Só a graça de termos tido o nosso Felício de volta... é uma felicidade!
Não precisamos de festas.
Tenho muito medo do dia seguinte, lembra-se, não?
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 14, 2018 8:09 pm

—Nunca me esquecerei daquele dia, mesmo depois de partir desta vida... se tudo ocorre como temos aprendido.
Não devemos, porém, ter receio de nada!
O nosso Felício continuará connosco e trouxe um novo plano para ser desenvolvido.
Deus não iria permitir que o tivéssemos de volta, para depois tomar a retirá-lo!
Ainda mais no mesmo dia que temos marcado em nossos corações...
— Esqueça-se de festas e vivamos a nossa união familiar.
Logo Magda completará seus quinze anos, e aí, sim, se quiser, poderemos fazer uma grande festa, mas para ela, que não deve ter o coração marcado pelas nossas dores e lembranças!
Ela desperta para a vida e deve vivê-la alegremente, feliz e cheia de esperanças, como eu própria vivi.
— Até que me conheceu!... — completou António José, desejando tomar a conversação mais amistosa.
— Pois lhe digo: tudo o que tive antes de conhecê-lo, nada mais significou!
Só passei a viver realmente depois que nos encontramos, e muito mais intensamente depois que nos casamos!
— Você tem razão, Linda.
A nossa felicidade a nós pertence e só nós devemos vivê-la em companhia de nossos filhos, da alegria que eles nos dão, procurando encaminhá-los do modo mais correto possível, para que eles, também, sejam felizes connosco e continuem a sê-lo, quando tiverem que viver por si mesmos...
Conforme ficara decidido, o dia do aniversário de casamento foi lembrado em família.
A data transcorreu com certo temor por Linda, junto de Magda e Felício, que estava muito bem de saúde, forte e um belo garoto.
Parecia que aquela impressão guardada por Linda há tanto tempo se desvanecera e nada mais ela receava.
Intimamente ela compreendia que dois acontecimentos nunca se assemelham, e que a vida de Felício não estaria tão profundamente marcada para que se repetisse o que já havia
acontecido.
Contudo, um leve receio estava sempre presente.
Nem planos para ele Linda desejava fazer, temendo que se dissipassem, como havia acontecido com o outro, mesmo depois de haver obtido esclarecimentos na Doutrina Espírita.
Passada, porém, aquela data tão profundamente assinalada em sua alma, ela parecia sentir-se liberta e olhava para o filho como alguém que também teria muitas oportunidades.
Um outro ponto chamava-lhe a atenção e ela aguardava.
De que modo Felício iria proceder com suas lembranças?
Estariam elas totalmente fechadas, armazenadas no casulo de seu Espírito, ou se expandiriam, atingindo outros períodos de suas existências?
O período da existência anterior, que poderia trazer-lhe recordações da vida do outro Felício, se completara, com pequena diferença de poucos meses.
Mas a data-chave, o ponto em que sua vida se encerrou, pela ligação que ela fizera com a festa de seu aniversário de casamento, já havia passado, dando-lhe certa tranquilidade.
O que mais recordaria ele se o tempo de vida do outro Felício se fechara?
Que lembranças teria?
Repetiria sempre o que já havia recordado, ou alguma modificação haveria?
Na verdade, o que Linda esperava e desejava é que elas se encerrassem de vez, deixando-o livre para as próprias vivências a partir de então, sem mais recordação alguma.
Mas nada pode ser previsto nem acontece apenas porque desejamos.
Por isso, ela e o marido deveriam aguardar, observando sem ansiedade e sem muitas expectativas, e alguns dias transcorreram sem que nada mais houvesse.
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 14, 2018 8:09 pm

— Suponho que passada a data que tanto temia, fecharam-se as lembranças para Felício e, de agora em diante, ele viverá apenas sua vida actual, e será considerado uma criança comum, para a nossa alegria! — falou Linda ao marido, numa noite em que os dois o observavam entretido com um desenho, enquanto Magda, recolhida em seu quarto, estudava.
Em dado momento, porém, ele chegou-se ao pai, mostrando o que havia desenhado, dizendo:
—Tentei desenhar o castelo que trago há alguns dias na mente, e não consegui fazê-lo como desejava.
O senhor quer me ajudar?
— Como eu poderia saber traçar um castelo que está em sua mente, filho?
A mente de cada um é indevassável, e só você sabe como ele é!
— Eu explico e o senhor vai corrigindo para mim!
— Onde foi buscar essa ideia de castelo, Felício? — indagou a mãe, temerosa.
Você o viu em algum livro de histórias?
— Não, ele surgiu na minha cabeça, não sei como!
Se conseguir desenhá-lo bem, eu me lembrarei onde o vi...
— Explique, então, que eu tentarei — voltou a falar o pai.
— Deixe disso, filho, e faça outros desenhos!
Castelos, não os temos mais!
Por que não desenha a sua escola? — expressou-se Linda, revelando certo receio.
—Não, eu preciso ver esse castelo direito.
E papai vai me ajudar!
À medida que ele ia explicando, o pai ia traçando no papel, torres, ameias, pontes levadiças e até uma vala ele quis que fosse colocada ao seu redor.
Depois de pronto, não era a cópia fiel de um castelo.
Mas dava bem a entender que se tratava de uma construção medieval.
— Assim está bem, filho?
É isso que tem em mente?
— Ficou bem melhor que o meu e me dá a ideia precisa do que imaginava!
— E agora, o que fará com ele? — interrogou o pai.
— Com esse desenho, vou me lembrar exactamente como era por dentro!
— Não podemos desenhar a parte interna!
— Mas, por essa, eu me lembrarei!
— O que quer dizer com “lembrarei”?
—Quero dizer que vou me lembrar de tudo quanto vi vi nesse castelo...
—O quê!? — indagou Linda, assustada.
E, de si para consigo, bem baixinho, mas que o marido ouviu, ela exclamou:
— Meu Deus, vai começar tudo de novo!...
Mais uma vez Felício surpreendia os pais, e não eram recordações tão recentes vivenciadas pelo outro Felício, cujo período de vida, de curta duração e pouca vivência, se fechara.
Agora, novas lembranças retomavam-lhe, demonstrando nuances diversificadas.
Quando se identificava com o outro, passava a ser ele.
Transportado para o passado, fazia afirmações categóricas, como se fora ele mesmo vivendo no outro tempo, ou aquele da outra época, vivendo agora.
A verdade inegável é que uma identificação muito profunda se realizava e, de tal forma, que o Felício de antigamente retomava no actual, ainda mais, facilitado pelo mesmo ambiente, pela mesma família, pela mesma escola.
Tudo isso propiciava uma identidade profunda entre eles, chegando Felício a mergulhar em factos não vividos na sua presente encarnação, e, com tanta facilidade, mencioná-los como recordações vividas por ele mesmo num passado recente.
A forma como se manifestava agora era diferente.
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 15, 2018 8:16 pm

Ele não mergulhara em nenhuma personalidade do passado, pelo menos até então, e referia-se àquele tempo como lembranças apenas, distintas da sua vida actual.
Linda e António José novamente se sobressaltaram, mas não interferiram nem o recriminaram, tentando impedi-lo.
O conhecimento auxiliava-lhes a compreensão, e de nada adiantaria interferir, confundindo a cabeça do filho.
Era uma primeira manifestação, simples ainda, que talvez nem continuasse, e, por mais quisessem, sabiam que nada poderiam fazer para interrompê-la.
A nossa mente, com as situações que se vão acumulando através dos factos vividos, das cenas presenciadas como espectador ou como participante dos conhecimentos adquiridos pelo estudo ou pela vivência diária, vai armazenando experiências, e é muito natural que elas aflorem a qualquer momento, espontaneamente ou quando provocadas.
Todavia, porque a mente de algumas pessoas, como Felício, continua a revelar fatos, locais e experiências vivenciadas em outras existências?
Que tivesse acontecido como até então, era compreensível, pela revelação que tiveram e pelos conhecimentos adquiridos.
Contudo, como seria possível recordar-se de locais em que vivera há muitos séculos?
Com certeza, do local relembrado, factos seriam trazidos e mesmo pessoas.
Como conviveriam com tal situação?
Se lhes fora difícil compreender o que já passara, como entender o que começava a ocorrer?
Restava-lhes a esperança de que nada iria além daquele desenho, mas não poderiam prever a extensão de tais lembranças.
Seria necessário aguardar e, se acontecesse, precisariam colher mais informações e novos esclarecimentos que os levassem a um tempo longínquo, a fim de compreenderem e aceitarem o que o filho lhes diria.
Olhando para o desenho, Felício esmiuçava detalhes como que a recordar.
Fixava seu olhar na torre, na ponte levadiça e até acompanhava esses locais com seu dedinho indicador, deslizando-o de um para outro lado, como se ele pudesse ajudá-lo nas recordações as quais, tinha certeza, viriam por completo.
Se me lembro de uma casa ou mesmo de um castelo onde vivi, é natural que me recorde do seu interior e de como e com quem convivi!
Apesar de tudo, para os pais, desta vez seria mais fácil compreender.
Enquanto observavam o filho detalhando o desenho com o dedinho, e a mente voltada para aquele tempo, eles procuravam trocar algumas palavras sem que Felício percebesse, tão mergulhado estava na sua sondagem.
— Por que sua mente traz tantas recordações? — indagou Linda ao marido.
— Eu gostaria de saber, querida!
Às vezes nos é difícil recordar com precisão locais, pessoas ou acontecimentos recentes.
Como Felício pode ter lembranças de uma época tão afastada?
— Isso também tem acontecido comigo.
Quero recordar de coisas que sei que fiz ou presenciei, mas não consigo...
—Temos partes de lembranças ou, muitas vezes, nada temos.
A mente humana tem surpresas inexplicáveis!
Ela pode reter ocorrências distantes e nos fazer esquecer das recentes!
Mas, com Felício, é diferente!
—De que maneira enfrentaremos esse novo período que se nos avizinha?
Antes esperávamos um espaço de tempo limitado, mas, e agora?
Quais serão as fronteiras do espaço e do tempo?
Se muitas existências já vivemos, e Deus nos proporciona o esquecimento para que o recomeço se dê em bases novas, auxiliando a nossa evolução, por que justamente Felício precisa ter tais recordações?
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 15, 2018 8:17 pm

— Quem sabe, elas não irão além do desenho e ele nunca venha a penetrar no seu ambiente interior!
— É o que esperamos aconteça.
No entanto, se não ocorrer, alguma razão deve haver...
Linda, com a intenção de desviar o filho daquela actividade, chamou-o, dizendo que era hora de se recolher.
Felício beijou o pai e a mãe e, tomando o desenho para levá-lo consigo, foi aconselhado por Linda a que o deixasse.
— Queria levá-lo, mamãe! — contestou ele.
— É bom que nada atrapalhe o seu descanso.
A mamãe o guardará para você!
— Está bem, mas amanhã a senhora me devolve!
—Só quando voltar das aulas!
Nada deve desviar sua atenção do que precisa aprender!
— Está bem! — repetiu ele e, entregando-o à mãe, beijou-a novamente.
Linda abraçou-o, dizendo-lhe:
— Que os anjos da guarda que vêm do céu para estar com as crianças, possam velar pelo seu sono, filho!
Sem nada responder, Felício retirou-se, e Linda, que detinha o papel desenhado nas mãos, entregou-o a António José e acompanhou o filho.
Ela gostava de arranjar-lhe a cama e deixá-lo bem coberto.
Naquela noite, porém, antes de deixar o quarto do filho, recomendou que ele não pensasse mais no desenho para não perturbar seu sono.
Voltando para junto do marido, depois de passar também pelo quarto da filha, Linda convidou-o para se recolher.
Levando o desenho, António José indagava:
—Como pode, Linda, acontecer o que vem acontecendo com nosso filho?
Se houvesse algum lugar onde pudéssemos obter mais esclarecimentos e indicar os meios que pudessem impedir que se repetissem os fenómenos que vêm ocorrendo, eu o levaria até lá...
—Sabe que nada podemos fazer.
Entretanto, seria conveniente voltarmos a conversar com alguém que já esteja a par do que ocorre com nosso filho e comunicar o que presenciamos hoje!
— É uma medida, mas que pode esperar, pois não ficaremos só no que vimos hoje!
Muito mais ele irá revelar e, em pouco tempo, teremos a história do castelo com seus habitantes, e Felício entre eles, numa outra existência!
— Você crê nisso?
— Se não cresse, não falaria...
— Ele é muito criança para ter a mente tão perturbada por situações estranhas a essa sua vivência actual!
— Se não nos é possível evitar, precisamos aceitar, ajudando-o bastante, para que nada venha transtornar a sua vida, com tudo o que ele ainda tem a realizar...
— Linda guardou o desenho, e o repouso da noite se fez.
A manhã radiosa, encaminhando cada um às suas actividades, estabeleceu-se, e, quando retornou das aulas, Felício logo perguntou à mãe pelo desenho.
— Você não o esqueceu ainda?
— Não, mamãe!
Já tenho algumas lembranças que ele me trouxe e preciso saber mais!
— Que lembranças são essas?
— Eu me vi lá dentro, mas eu não era uma criança...
—Como assim?—perguntou a mãe, interessada em ter mais detalhes.
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 15, 2018 8:17 pm

— Eu era um rapaz forte e vestia roupas estranhas, dessas que, às vezes, vemos nos livros de História ou nos filmes!
Eu tinha, presa na cintura, uma espada de metal guardada em uma capa...
— Essa capa chama-se bainha...
— Bainha, mamãe?
— Sim, e com quem você vivia lá no castelo?
— Eu ainda não sei!
Pelo desenho vou lembrar...
—Não deve preocupar sua mente com tais fantasias!
Se tiver que lembrar de alguma pessoa ou de algum facto, isso acontecerá naturalmente!
— Mas eu quero o desenho!
—Está bem, filho, o desenho é seu e aqui está! — concordou Linda, entregando o papel desenhado ao filho.
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 15, 2018 8:17 pm

7 - NOVO EMPENHO
Novos motivos de preocupação rondavam o coração de Linda.
O desenho de Felício tinha um significado muito mais amplo que simples traços para qualquer criança.
Na verdade, naquele papel, para ele, o castelo tomava vida e era visto em todas as dimensões, não só na forma linear com que se apresentava, mas levara-o ao seu interior e nele Felício estava procurando encontrar habitantes.
Até já se reconhecera como um deles!
Vira-se jovem, mas não sabia ainda a sua ligação com os outros membros do castelo.
Seria ele um descendente directo da nobreza que o habitava, ou algum cavalheiro com alguma função importante, pelas roupas que usava, sem, contudo, pertencer à família?
Ele não saberia explicar nem tinha condições de fazer esses raciocínios.
O que lhe surgia na mente, vinha de modo espontâneo, e ele precisava aguardar, sem inquietação nem ansiedade, mas aguardar.
Naquele resto de dia Felício esteve com o desenho nas mãos, e mesmo na realização dos deveres escolares, ele ficara depositado na mesa, bem à sua frente.
Linda não sabia o que fazer, mas também não deveria se precipitar.
À noite, ela e António José, como já era de hábito no dia em que haviam determinado, foram ao Centro Espírita para ouvir uma explanação evangélico-doutrinária e receber a bênção do passe reconfortante.
Àquela reunião, porém, sobretudo Linda, ia com uma intenção a mais. Conversar, por primeiro, com Margarida e contar-lhe o sucedido.
No início, não fora possível, pois, ao chegarem, a reunião estava prestes a começar e eles aguardaram o final.
Teriam que esperar o salão esvaziar-se para que Margarida se desobrigasse da função que desempenhava.
Terminada a parte expositiva, os passes foram sendo transmitidos e, em pouco tempo, o salão ficou vazio.
Linda e o marido tomaram um lugar bem à frente, perto da porta por onde a professora sairia.
Com a retirada do último frequentador que recebeu o passe, poucos minutos após, a equipe de trabalho também começou a deixar a sala, e Margarida, vendo-os, foi encontrá-los, abraçando- os com afecto e alegria.
— Como vão, meus amigos? — indagou, atenciosa, acrescentando:
Algum problema?
O casal levantou-se, mas foi Linda quem se expressou primeiro:
— Não sei se poderíamos classificar de problema, mas queríamos falar sobre Felício!
— O que aconteceu agora?
— As lembranças da última existência, como o filho que perdemos, haviam cessado por algum tempo, e eu estava feliz, pensando que o fenómeno estivesse encerrado por completo.
Mas, ontem, tivemos outra surpresa.
Margarida ouvia-os atenta, aduzindo:
— Se os surpreendeu, é porque fugiu do habitual...
—Tem razão, Dona Margarida! — concordou António José. — Ontem nosso filho desenhou um castelo e...
Tanto António José quanto Linda, cada um por sua vez, foram narrando em detalhes o que havia acontecido, e, ao final, ela compartilhava das mesmas interrogações dos pais.
— Então novas recordações afloram a sua mente e de uma época bem mais longínqua?
As anteriores eram perfeitamente explicáveis pelo pouco tempo de ida e volta do mesmo Espírito, facilitadas pelo mesmo local e os mesmos familiares, mas agora as lembranças levaram-no a um tempo muito distante, à Idade Média, como o senhor deduziu...
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Ave sem Ninho

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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 15, 2018 8:18 pm

— É isso mesmo, e ele parece regozijar-se com elas procurando penetrar mais intensamente naquele castelo, como se as vivesse novamente!
— Agora, dona Margarida, o modo como tem ocorrido é diferente!
Ele não perde a sua identidade actual, mas diz que se vê naquela época.
É como se fossem dois!
Ele vê aquele, sabendo que é ele mesmo, sem esquecer-se de que é Felício!
— São duas manifestações diferentes de um mesmo fenómeno.
Talvez essa modificação se dê pelo afastamento no tempo, pela mudança de hábitos e costumes...
— Pode ser. Mas estamos aqui para receber alguma orientação de como devemos proceder...
— Por mim mesma digo que nada façam que lhe cause repressão.
Encarem com naturalidade, como aprenderam a fazer nas primeiras lembranças de Felício.
As existências vividas são um património do Espírito, e as recordações poderão referir-se às épocas mais remotas.
Nesse processo de reencarnações, o Espírito vai armazenando as experiências no seu arquivo indestrutível.
O que ocorre é que, ao nos prepararmos para o retomo à came, numa nova encarnação, esquecemos temporariamente de tudo o que já vivemos, pelo menos enquanto encarnados.
Felício, por um processo ou característica que não sabemos ainda qual seja, mantém vivas as lembranças, ainda que parciais e esporádicas.
— E o que faremos?
— Nada além do que têm feito até agora.
Eu vou procurar conversar com companheiros mais experientes e voltaremos a nos falar e até permitir que façam algum contacto com vocês.
— E aquele senhor que nos visitou em sua companhia?
— Por questões de trabalho profissional, viu-se obrigado a nos deixar e mudou-se de cidade.
— É uma pena...
— Nós também sentimos muito a sua falta, temporária, esperamos!
Como nada podemos fazer neste momento, podem ir com a paz que Deus concede a todos os seus filhos e aguardem, que me comunicarei com vocês.
Os pais de Felício deixaram o Centro levando algumas esperanças, mas, intimamente, sabiam que nada ou muito pouco poderia ser feito em favor do filho.
Na verdade eles desejavam uma orientação de como lidar com aquela nova circunstância, ajudando também o filho, tão criança ainda, a conviver com aquele fenómeno inusitado mas esclarecedor, a compreender o que ocorria com ele, sem que nada afectasse a integridade do seu equilíbrio emocional.
Dois dias após a entrevista com dona Margarida, Linda recebeu um telefonema da professora, dizendo-lhe que havia conversado com alguns de seus companheiros de fé, sobre a nova manifestação que se operava em Felício, e um deles, que tinha contacto com um senhor, também profitente da Doutrina Espírita e interessado nos estudos da reencarnação, demonstrara desejo de ver o garoto, se os pais permitissem.
Linda, de momento, concordou, concluindo que uma luz poderia se abrir para trazer-lhes alguma explicação, mas, ao final da conversa, quando ficou combinado recebê-los, recomendou:
— Eu compreendo, Dona Margarida, que Felício desperta o interesse e a curiosidade dos estudiosos da reencarnação, e penso que ele seja um caso vivo que pode
trazer certa ajuda.
Todavia não desejo, de forma alguma, ver meu filho exposto como objecto de estudo, sem que levem em consideração a criança que ele é, com uma vida inteira pela frente, e que não pode estar abalada pelo que acontece e nem que se considere um estranho.
—Compreendemos plenamente seus receios e nada faremos contrário aos preceitos que a nossa Doutrina nos impõe, lembrando-nos do que nos ensinou Jesus.
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 15, 2018 8:18 pm

— Assim espero, pois, se Felício é importante para ele, muito mais o é para nós, como um ser que amamos e que desejamos ajudar.
Concordo, desde que ele, com a experiência já adquirida, possa também nos auxiliar a conduzir o nosso filho com equilíbrio e naturalidade.
— Nada será transgredido e o respeito será mantido, dentro do que já aprendemos dos preceitos deixados por Jesus.
Quando a ciência está ligada à religião, nada há a temer.
As pesquisas são realizadas dentro da consideração que o ser humano merece, e a visita que faremos é apenas para um conhecimento da situação, sem perturbar Felício, de forma alguma!
— Está bem!
Nós os aguardaremos amanhã à noite. Conversarei com o meu marido e os receberemos com alegria, sem que nada seja mencionado ao menino.
Serão amigos nossos que nos visitam, nada mais...
Linda começou a imaginar o que faria uma pessoa estudiosa desses casos de reencarnação, e o que faria com Felício, mas ela e o marido estariam presentes e não permitiriam nada que não considerassem adequado.
António José foi comunicado tanto da visita quanto dos receios da esposa, mas compreendeu que eles mesmos haviam buscado orientação, e ninguém poderia fazer nada se não visse o garoto e até presenciasse um de seus momentos.
O desenho do castelo estava sendo mantido por Felício, e o papel estava até meio amassado, tantas vezes ele o tomava, preocupando Linda.
Afinal, a hora da visita chegou!
Linda avisou os filhos de que receberiam novos amigos da Casa Espírita que frequentavam, e que eles poderiam estar presentes.
Seria uma oportunidade para ouvirem conversas salutares, dentro da Doutrina e dos preceitos evangélicos, para que fossem aprendendo a também conhecê-los e, aos poucos, interiorizá-los.
Os visitantes, ao chegarem, foram conduzidos à sala onde Magda já estava acomodada, mas Felício ainda se demorava no interior da casa, entretido com algum brinquedo.
O senhor que fora com a intenção de conhecer o garoto, olhava em tomo, esperando descobrir-lhe a presença.
Conversas amistosas entretiveram-nos por algum tempo, mas dona Margarida, desejando dar rumo novo ao assunto para chegarem ao motivo central da visita, indagou:
— Felício não se encontra em casa?
— Crianças sempre se entretêm com qualquer coisa, e ele deve estar
distraído com seus brinquedos... —justificou Linda.
E, completando, acrescentou:
— Vou mandar chamá-lo!
A irmã foi encarregada de fazê-lo, dizendo-lhe que tinham visitas.
Enquanto Magda se retirava para atender a mãe, um silêncio profundo pesou na sala, só desfeito quando o garoto entrou, acompanhando a irmã.
Ele foi apresentado aos demais e, à vista de Margarida, reconheceu-a, cumprimentou-a, mas como alguém que já estivera em sua casa e não como quem havia sido sua professora, como afirmava ao se identificar com o outro Felício.
Não é necessário dizer que o papel com o desenho do castelo estava em suas mãos, despertando o interesse do senhor Álvaro que os visitava, desejoso de conhecer o garoto e conversar com ele, na esperança de presenciar algum fenómeno dos que lhe interessavam, para mais ilustrar suas pesquisas.
— O que traz nas mãos, Felício? — perguntou Álvaro, revelando curiosidade.
— É um desenho...
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 15, 2018 8:18 pm

— Posso vê-lo?
Também gosto de desenhos.
Felício estendeu-lhe o papel, e ele, sabedor do que se tratava, exclamou:
— Ah, é um castelo!
Você gosta de desenhar castelos?
— Papai ajudou-me.
Eu ia explicando e ele foi corrigindo o que eu havia feito, tomando-o tal como eu desejava.
— Quantos castelos já desenhou?
— Somente este!
É o primeiro que faço.
— O que o levou a desenhar este castelo?
Você o viu em algum livro de histórias?
— Não, eu o vi na minha mente e lembrei-me de que já morei nele.
— Neste castelo!? — indagou o senhor Álvaro, simulando surpresa e admiração.
Onde estava localizado?
— Eu não sei, mas ainda lembrarei!
Todos os presentes estavam atentos à conversa dos dois, informal e espontânea, mas com intenções profundas, e eles prosseguiam.
— E com quem morou nesse castelo... você se lembra? — retomou Álvaro, falando com naturalidade.
— Lembro-me apenas de que era jovem e vestia-me com roupas diferentes das de papai ou das que se usam hoje.
Eu trazia uma espada presa à cintura!
—É... Hoje os homens não andam com espadas.
Além disso, são muito perigosas! Gostaria de conversar com você outras vezes.
Vejo que é um menino muito simpático e inteligente!
Estou interessado em conhecer mais sobre essa história do castelo...
— Quando me lembrar de mais alguma coisa, poderei contar ao senhor.
— Você tem certeza de que não leu essas histórias em algum livro?
— Como iria 1er num livro que eu era um cavaleiro deste castelo?
As histórias dos livros, tanto as que li quanto as que mamãe já me contou, falam de outras pessoas e não de nós mesmos.
—Tem razão!
Tomo a afirmar que você é muito inteligente... Como vai na escola?
- Felício não nos dá trabalho para estudar — interferiu a mãe, a fim de dar um novo direccionamento ao assunto.
Sempre faz seus deveres com responsabilidade e deseja aprender cada vez mais...
António José, pretendendo manter uma conversa mais directa sobre o que ocorria com o filho e aproveitando a presença de Álvaro, liberou Felício, caso quisesse se recolher.
O menino, compreendendo que nada mais teria a fazer entre os adultos, obedeceu ao pai e retirou-se, ocasião em que António José interrogou o visitante:
— O que pensa do que presenciou, senhor?
— Ainda é pouco para que firme um juízo, mas há fortes indícios de que ele se recordará de muito mais!
—Temos connosco o que aconteceu anteriormente em relação ao nosso outro filho, como o senhor já deve saber...
— Margarida colocou-me a par de tudo, e não temos dúvida de que se trata realmente do seu outro filho, que foi e retomou.
Para António José e Linda era a oportunidade de obter mais explicações, mais amplos conhecimentos, e, se fosse possível, até alguma orientação.
Na verdade, isso era o que mais lhes interessava.
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 15, 2018 8:19 pm

Assim, desejando aproveitar aquele momento, o próprio António José prosseguiu:
— Pelo que sabemos, o senhor tem dedicado muito do seu tempo aos estudos da reencarnação, tem feito pesquisas e catalogados vários casos...
— Sim. Tudo o que pode ilustrar o meu estudo, interessa-me sobremaneira.
—O senhor é um profitente da Doutrina Espírita? - indagou o pai de Felício.
—Nasci e fui criado dentro dos seus preceitos esclarecedores, recebendo, através de meus pais e de muitos estudos que realizei e ainda realizo, algum conhecimento.
— Todos os crentes nesses preceitos, estatuídos por essa Doutrina, têm a reencarnação como um dos seus pilares fundamentais, não é?
Esse conhecimento decorre dos que os Espíritos revelam e das suas próprias conclusões acerca da vida?
— Sem dúvida, e o senhor está correto em seu juízo!
Crente que sou, para mim, não preciso que me dêem provas da reencarnação, pois tenho-a como verdadeira lei da vida e a mais alta expressão da Justiça Divina.
Pela bênção das vidas sucessivas, temos as oportunidades de resgatar erros e construir a própria evolução espiritual.
É a lei que explica o fato de coexistirem, sobre a face da Terra, criaturas que nascem em berço de ouro, ao lado de outras que nascem nas mansardas mais miseráveis.
Seres bafejados pela sorte e todos os tipos de privilégios, gozando de saúde e inteligência, e outros desprovidos das mesmas oportunidades e recursos...
António José e a esposa, atentos, iam absorvendo cada palavra, e ele continuava:
— Sabem que não há acção sem reacção, efeito sem causa.
Os actos contrários às leis de Deus, praticados hoje, terão de ser ressarcidos num amanhã próximo ou mais longínquo, quando Ele entender que estamos preparados para reparar o mal que fizemos.
E de que forma o faríamos, se não houvesse a bênção do ensejo reencarnatório?
Tudo tem o seu momento certo, e até para resgatar débitos também há o tempo adequado, para que não se perca a oportunidade.
É a sabedoria de Deus, infinita e misericordiosa!
— Mas há, também, os que não conseguem, apesar de preparados, cumprir a programação que trazem, e se comprometem mais. — interveio Linda, com algum dos conhecimentos que já adquirira.
— Sempre há os reincidentes, que, por mais preparados estejam, não conseguem superar as imperfeições que carregam.
Em aqui chegando, deslumbram-se com as ilusões terrenas e, fazendo uso do livre-arbítrio de que cada um é portador, por dádiva celeste, novamente se desviam, atraídos por elas!
Mas Deus é misericordioso e não tem pressa.
E àqueles que não conseguem realizar o que trazem como metas, Ele concede novas oportunidades, só que retardam, por sua própria vontade, o progresso espiritual e a vida feliz que poderiam ter...
— É muito importante reflectir sobre a Justiça Divina e todas as suas implicações aqui na Terra, porque vamos nos deparar justamente com a inevitabilidade da reencarnação! — falou a professora Margarida.
—Pois, então, falávamos sobre a reencarnação, sobre os estudos que o senhor realiza, desejando provar a sua existência, mas o senhor ainda nada nos explicou sobre o que acontece com o nosso filho. — lembrou Linda, expressando as suas preocupações de mãe.
—Nós tentaremos chegar onde desejam, minha senhora, mas precisávamos reavivar conceitos!
Pelo que os senhores disseram, sei que não têm dúvidas de que a reencarnação existe e que dela dependemos para a nossa evolução espiritual, mas, neste planeta de provas e tantos sofrimentos, somos uma minoria!
Cada um quer aproveitar a vida em toda a plenitude de suas possibilidades, porque não sabe que esse Pai bondoso nos oferece muitas oportunidades.
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 15, 2018 8:19 pm

E, nesse desejo de vida plena, malbaratamos a existência que Deus nos permitiu viver como forma de aprimoramento e resgates, crentes que, depois da morte do corpo, nada mais existe.
Se crêem na existência do Espírito, imaginam que, liberto do corpo, ele tem a sua sorte selada para sempre.
— Então o senhor estuda e deseja provar não para si mesmo, mas para os outros?
—Muitos estudiosos e pesquisadores da reencarnação, cépticos e desprovidos do Espírito de religiosidade, desejam provar para si mesmos, o que não é o meu caso.
Não podemos pensar só em nós!
Se pudermos, com nosso trabalho, levar alguma luz àqueles que estão longe desse conhecimento, estaremos auxiliando a modificar as atitudes e a não contrair tantos débitos...
— Há ainda um outro pormenor muito importante! — interveio Margarida.
Há muitas pessoas que sofrem, que têm suas expectativas frustradas, e, se tiverem o conhecimento de que outras oportunidades lhes serão concedidas, saberão suportar com maior resignação, entendimento e paciência as provas a que estão submetidas, porque estarão conscientes de que aquela vida não será o fim nem o sofrimento eterno.
Existências mais felizes as aguardam, quando mais liberadas de débitos, o que as auxiliará a suportar o que passam...
—Compreendemos!—exclamou António José, procurando reflectir em cada palavra ouvida.
E, prosseguindo, depois de uma pequena pausa, considerou:—Se todos nós estamos sujeitos a muitas idas e vindas à Terra, como acredito e aprendi a entender, por que alguns, como Felício, trazem a lembrança do que já viveram?
O interlocutor ouviu atentamente a pergunta e não tinha dúvidas quanto ao que responderia.
Era óbvio que, para ele, a crença na reencarnação estava incorporada ao seu Espírito como uma verdade insofismável, e a única forma de provar a justiça de Deus entre os homens.
Aqueles que criam como ele próprio, porém, eram poucos, não obstante a Doutrina Espírita estivesse já bastante divulgada.
Além dessa crença, a família de António José se deparava com uma circunstância estranha — um filho, para quem uma existência passada não tinha segredos, e outra aflorava, da qual ainda traria muitas recordações.
Por isso os pais desejavam saber muito e indagavam.
pi O senhor deve compreender, — começou a explicar o senhor Álvaro — como há pouco nos referimos, diante de toda a humanidade que habita este Planeta, a reencarnação ainda é uma ilustre desconhecida.
Seus princípios são claros e transparentes em alguns grupos selectos — assim me expresso para definir os profitentes da Doutrina Espírita, não como os escolhidos de Deus, mas como aqueles que já fizeram algum esforço de entendimento
— e muito ainda temos a realizar!
De que forma faremos os mais cépticos acreditarem nas nossas diversas existências, se não pudermos provar?
E como provar, se Deus não permitir que casos semelhantes ao do seu filho aconteçam?
António José e Linda prestavam bastante atenção, acompanhando cada palavra da sua exposição, esperando obter mais conhecimento, e ele dava continuidade às suas explicações:
— Para nós, não haveria necessidade de que, vez por outra, surgisse um encarnado trazendo lembranças de outras vidas, mas, para os descrentes, é muito importante, sem mencionarmos aqueles que ainda nem acreditam que a vida continua após a morte do corpo físico.
A existência humana, para a maioria, sobretudo para os não profitentes da nossa Doutrina, é um amontoado de incógnitas, e tem posto a pensar os interessados em descobrir-lhe os mistérios.
De que forma chegariam às conclusões adequadas, se não tivessem nenhum elemento como ponto de partida, a não ser o depoimento daqueles que se recordam, que se vêem mergulhados numa vida diferente da que têm hoje e dela trazem pessoas e factos que são indiscutíveis por sua autenticidade?
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 15, 2018 8:19 pm

—Penso no seu trabalho, apesar de sua crença!—tomou Linda.
— Não trabalho para mim, mas desejo provar aos cépticos mais contumazes, independentemente da crença nos preceitos espíritas, que a reencarnação é uma lei da qual não nos podemos furtar.
E que passem a acreditar nela!
—Essa crença lhes trará algum bem? — indagou António José.
— Sem dúvida! Aqueles que dizem não acreditar em Deus e na sua soberania, um dia não terão como fugir da verdade da sua existência, e essas provas que vamos recolhendo é um caminho!
Quem promoveria, no Universo, um trabalho dessa natureza senão uma inteligência suprema que está muito acima da nossa, embora sejamos criados por Ele e à sua semelhança?
Margarida, vendo a possibilidade de interferir, acrescentou:
— Com provas ou não, a reencarnação é uma lei da qual não podemos fugir, não importando o credo que abracemos.
Entretanto, a Doutrina Espírita ajuda-nos bastante, porque reafirma o que Jesus veio ensinar aos homens e estes não puderam compreender a seu tempo.
— É o reforço científico para a crença religiosa! — esclareceu o senhor Álvaro.
— Por que justamente o nosso filho teria que ser um desses elementos que vêm provar a existência da reencarnação?
— Deus tem caminhos nos quais ainda não nos é permitido penetrar!
Se ele tem a intenção de propagar esse conhecimento como um alerta e um consolo a todos os seus filhos, alguém teria que ser escolhido para os testes.
Vocês já pensaram na grande oportunidade que Felício lhes oferece, por ter ido e vindo dentro da mesma família, tendo-os como os mesmos pais?
Se a ninguém mais além de vocês, chegar o conhecimento do que acontece com ele, para Deus, que não tem pressa, mas tem seus meios de revelar a verdade a seus filhos quando os entende preparados para recebê-las, terá valido a pena!
Veja o quanto estão interessados nesse conhecimento, o quanto já interiorizaram das verdades que nossa Doutrina professa, e o quanto ainda aprenderão e policiarão as próprias atitudes, partindo apenas do que Felício lhes tem oferecido!
Deus estará satisfeito se, entre seus filhos, um que seja, aprender o que Ele tanto tem se esforçado para transmitir, como o fez através de seu filho, Jesus, que há dois mil anos esteve entre nós e ainda muitos desconhecem a sua existência e a sua passagem pela Terra!
— Jesus, em seus ensinamentos, foi categórico quanto à necessidade do retomar à came como forma de avançarmos rumo a Deus, não foi? — acrescentou Margarida.
— Senhor Álvaro, pela experiência que revela e muito mais pelos estudos que realiza,
desejando ampliar o conhecimento de seus irmãos, oriente-nos sobre como devemos agir com o nosso filho! — pediu-lhe o pai de Felício.
Antes que ele proferisse qualquer palavra, Linda aduziu:
— Não é fácil, para nós, conviver com tal situação, pois nunca sabemos o que Felício nos trará!
Agora mesmo estamos na expectativa de que ele se recorde de muito mais, referente ao castelo do desenho, e não sabemos como agir.
Nosso filho é uma criança e não vai entender tudo o que nos explicou.
Ele é incapaz de controlar essas reminiscências e evitar as próprias reacções emocionais.
Há poucos dias viu-se totalmente mergulhado na sua existência anterior, como se ainda vivesse aquele tempo!
É muito difícil para nós!
O que poderia responder o senhor Álvaro, diante desse apelo tão veemente?
Ele era um estudioso de casos semelhantes, arrolava-os todos para compor um trabalho que ajudasse de vez a tirar dúvidas sobre a reencarnação, para muitos, mas o seu trabalho não ia além.
Era um profitente da Doutrina Espírita, conhecedor de seus preceitos e de tudo o que o Evangelho prescreve como normas de moral, e, mesmo assim, nada possuía que pudesse satisfazer o desejo daqueles pais preocupados.
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