Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Página 3 de 5 Anterior  1, 2, 3, 4, 5  Seguinte

Ir em baixo

Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 16, 2018 9:51 pm

Entretanto, diante da maior prescrição que O Evangelho Segundo o Espiritismo contém, quando transcreve as palavras de Paulo, falando da caridade, ele tentaria, de si mesmo, com o conhecimento que já interiorizara em seu Espírito, transmitir-lhes algumas palavras.
Talvez não fossem as que eles desejassem ouvir, mas não os deixaria na angústia de tantas interrogações.
— Compreendo a situação que enfrentam, seu filho é ainda garoto e não entende exactamente o que se passa com ele, como afirmou Dona Linda, mas eu, como pai que também sou, preocupado com os filhos, muito pouco tenho a lhes orientar.
Em todos os casos que tenho levantado, muito mais por pesquisas através de notícias vindas de fora do que por tê-los presenciado por mim mesmo, nunca tive informações de que alguém, sobretudo os pais, em circunstâncias semelhantes, tivessem tido alguma atitude especial diante do comportamento do filho.
O que posso lhes dizer é que encarem esse fenómeno como natural, diante dos conhecimentos que já têm, sem considerarem o garoto um ser diferente.
— É justamente nisso que penso! — interveio Linda.
— No meu entender, — tornou o senhor Álvaro — nada é tão estranho nem anormal.
Ele está contribuindo para que esse esclarecimento chegue a muitos, crentes no Espiritismo ou não!
A reencarnação é uma verdade contra a qual ninguém poderá lutar nem fazer contestações, e digo mais — de muito maior importância para a ciência são esses fenómenos, quando ocorrem em crianças, enquanto nem a malícia nem o embuste fazem parte das suas atitudes.
O que elas narram, nos chega com a pureza da realidade!
Sintam-se felizes por terem, no lar, alguém que contribuirá para o esclarecimento de muitos, e não se avexem nem o reprimam, mas anotem!
— Como, anotar!? — interrogou o pai do garoto.
— Sim. Cada manifestação que se revele fora do período da actual existência deve ser anotada.
Não sabemos até quando esses fenómenos continuarão.
É muito importante para a Ciência que tenham registrado tudo o que acontece, pois darão, também, a sua contribuição.
Assim, a oportunidade que Deus está oferecendo a seus filhos de instruírem-se sobre a Verdade, não se perderá.
— O senhor está querendo dizer que devemos dar conhecimento público do que ocorre com nosso filho, e expô-lo à curiosidade dos mais incautos? — perguntou Linda, assustada.
— Jamais iria sugerir algo assim.
Apenas peço que anotem, pois a nossa memória, com o passar do tempo, deixa perder detalhes importantes.
Mas não estou aconselhando a que exponham o garoto à curiosidade popular!
—Como devemos proceder, então? — indagou António José.
— Apenas registrem, e, um dia, se sentirem que devem também dar a sua contribuição para o esclarecimento de muitos, sem que isso tragam constrangimentos ao menino, poderão fazê-lo de modo discreto, entregando as anotações a quem confiem, sem, contudo, citar nomes.
Apenas o caso em si, como um contribuição à ciência, quando acharem adequado.
— Ao senhor, por exemplo? — indagou Linda, descortesmente, movida pelo receio.
— Não foi o que quis dizer!
Jamais me utilizaria da confiança que estão depositando em mim, para trazer qualquer problema à sua família...
Trabalho com esse assunto, interesso- me por casos idênticos, como subsídio a um entendimento maior daqueles que ainda precisam de provas para aceitar a reencarnação, e já tenho arrolado muitos exemplos, mas nunca transgredi o direito à privacidade de qualquer pessoa...
Temos a contribuição de casos acontecidos há muitos anos, e os senhores poderão fazer o mesmo.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 79717
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 16, 2018 9:51 pm

Por isso aconselhei-os a anotar tudo o que presenciarem.
A minha intenção, ao comparecer aqui, foi a melhor possível, e não a puramente especulativa.
— Peço que nos perdoe, se não soubemos nos expressar! — tomou António José, em defesa de Linda.
Estamos agradecidos em tê-lo connosco hoje, agradecemos todos os esclarecimentos que nos deu e confiamos no senhor!
Além de ser um pesquisador, é, antes de tudo, um espírita.
Só isso nos basta...
— O importante é que aceitem com naturalidade, compreendendo que têm em casa um elemento de auxílio a muitos, pois, tenho a certeza, não é em vão e nem para expor seus filhos a situações difíceis que Deus permite, vez por outra, que algum Espírito retome à Terra, trazendo as lembranças do que já viveu!
Será que nesses o trabalho de preparação e esquecimento do passado, para um recomeço em novas bases, não foi bem realizado?
Não me consta que, no Mundo Espiritual, um trabalho dessa natureza, efectuado por técnicos especializados e competentes, teria falhas.
Fala-se numa força muito grande do Espírito, que, por qualquer razão, rompe os arquivos do passado e muitas das lembranças afloram.
Mas nem isso está provado!
Eu prefiro ficar com a hipótese de que é a vontade de Deus, permitindo que ocorram fenómenos como esses, quando entende que seus filhos se encontram preparados para tanto, em seu próprio benefício.
Olhando firmemente nos olhos dos pais de Felício, Álvaro continuou:
— Sabemos que tudo o que emana do Pai tem uma finalidade elevada.
É muito confortante, para quem sofre tanto neste orbe de expiações e provas, saber que existências mais felizes o aguarda.
Ao mesmo tempo, somos informados também de que seremos chamados a resgatar, em existências futuras, se não na presente existência, as faltas e transgressões a essa mesma Lei.
À despedida, o casal acompanhou o grupo, com expressões de agradecimento e simpatia, prometendo que, se as histórias em torno do castelo tivessem desdobramentos, eles comunicariam tudo e também se dispuseram a anotar cada comportamento que fugisse aos hábitos do filho.
Fariam uma espécie de diário, registrando, a cada vez, juntamente com a data, cada detalhe digno de nota.
O desejo maior do casal era obter instruções de como coibir aquelas manifestações, mas entenderam que seria impossível.
Quando se ignora o processo desencadeador de um fenómeno, como impedir que ele ocorra?
Os pais de Felício poderiam até saber suas razões, se Álvaro estivesse correto na sua exposição, mas ninguém, nem ele mesmo conseguiria explicar o seu processo, pois fazia parte de algo ocorrido no Mundo Espiritual e trazido à Terra por ocasião da reencarnação, sem que ninguém pudesse desvendar-lhes os mistérios.
Eles estavam dispostos a ver o filho como uma criança normal e a entender o fenómeno, do qual era o agente, como algo natural.
Depois que a surpresa do primeiro momento é superada, tudo fica mais fácil.
E aos poucos iriam-se acostumando com a vida nova que deveriam trilhar.
O que Linda decidira era não deixar o filho sair de casa com o papel no qual o castelo estava desenhado, impedindo-o de ter consigo um instrumento de lembranças, evitando que ele fosse alvo da chacota de alguém, sobretudo dos companheiros da escola, que não o compreenderiam.
Felício entendeu os argumentos da mãe e conformou-se em deixar o desenho em casa, dizendo-lhe:
— A senhora tem razão!
Quando me lembrar de mais detalhes da vida daquele jovem que era eu, quero que a senhora seja a primeira a saber.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 79717
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 16, 2018 9:52 pm

— Você pode guardá-lo onde desejar, ninguém irá mexer!
Quando retomar das aulas, o desenho será todo seu e você fará o que quiser com ele...
—Não desejo fazer nada, apenas recordar o que falta!
Alguma visão nova começa a rondar minha cabeça, mas ainda não está definida...
— Não se preocupe com nada disso durante as aulas, para que nada atrapalhe suas lições.
— Nada me atrapalhará!
Sabe que gosto de estudar, e cada lição nova que aprendo, deixa-me feliz...
Essa conversa entre os dois passou-se no dia seguinte ao da visita de Álvaro, e, durante alguns poucos dias, nada mais houve.
Felício, vez por outra, lembrava-se do desenho e o tomava, sem que outra lembrança lhe viesse à mente.
Num final de tarde, quando a família estava em tomo da mesa para o jantar, Linda notou que o filho parou de se alimentar e tinha o semblante de quem estava com o pensamento longe, mas nada lhe disse.
Tocou o braço do marido fazendo-lhe um sinal para que olhasse para o filho, e ambos passaram a observá-lo sem nada dizer, procedendo assim também a irmã.
Passados alguns instantes daquele distanciamento, Felício piscou os olhos repetidas vezes como se estivesse retomando de algum lugar, e exclamou:
—Lembrei-me!
— Lembrou-se de que? — indagou Linda, sem deixar transparecer a curiosidade.
— Vi-me naquele castelo, durante um jantar em que se comemorava o compromisso de um noivado!
— E quem era o noivo? — perguntou o pai.
— Era eu! A minha noiva, Cíntia, era filha do soberano do castelo!
— Cíntia, filho? — indagou Linda.
—Sim, minha noiva chamava-se Cíntia.
Era uma moça muito bonita, por quem me apaixonara, e estávamos comemorando o noivado!
—E o casamento? — perguntou Magda, interessada naquela história de amor.
— Não houve!
— Como não houve? — perguntou a mãe.
—Cíntia contraiu uma doença e, após alguns meses, morreu, sem que tivéssemos nos casado...
— E você, o que fez? — voltou a perguntar Linda.
— Nunca quis casar com mais ninguém!
Eu acompanhei o seu sofrimento, também sofri muito, e muito mais ainda depois que ela partiu.
— Isso não é conversa de criança! — exclamou António José para Linda, pretendendo pôr-lhe um ponto final.
Felício, que ouviu o pai, disse-lhe:
— Eu não era uma criança, papai!
Durante a enfermidade de Cíntia, eu passei a residir no castelo para estar mais junto dela, que só pedia a minha presença!
— Quanto aos pais dela, o que viu? — perguntou Linda.
— O rei estava desolado!
Era sua única filha, e ele esperava, pelo casamento, ganhar um filho para substituí-lo, um dia.
— Então você seria rei!? — exclamou Magda, admirada.
— Se não eu, algum de meus filhos, que ele ainda era forte e estaria no poder por muitos anos!
Com a morte de Cíntia, tudo mudou!
Eu voltei para os meus, ele perdeu a vontade de governar, foi ficando abatido e também enfermou, e aquele reinado se desfez em pouco tempo.
— Então era essa a história do castelo? — tomou Linda, esperando que, a partir daquele momento, tudo ficasse encerrado no armazém das lembranças que Felício trouxera para expor.
—Foi o que vi!
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 79717
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 16, 2018 9:52 pm

Cíntia era muito bonita, muito tema e sensível, gostaria de vê-la outra vez...
— Se tudo acontece como temos aprendido, se vamos e voltamos muitas vezes, cumprindo o processo reencarnatório, e se você se viu há muito tempo atrás, mas está aqui connosco, agora, ela poderá estar em algum lugar, e vocês poderão se reencontrar!
— Não coloque ideias na cabecinha de nosso filho, António!
Como você mesmo se referiu há pouco, ele é ainda muito criança, e, apesar de ter se visto como um homem pronto para o casamento, muito ainda tem que viver, até encontrar aquela que, um dia, será a sua esposa.
O menino pareceu não ouvir nem a fala do pai nem a da mãe, e eles entenderam que era hora de trazê-lo por completo à realidade actual.
Assim, Linda chamou-o, falando-lhe:
— Filho, sua comida está esfriando no prato, vamos terminar nosso jantar!
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 79717
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 16, 2018 9:52 pm

8 - O TEMPO NÃO PÁRA
Os factos narrados por Felício ficou na mente de Linda por muito tempo.
Pelos detalhes que ouvira, ela recompusera toda uma história de amor e tristeza, e não podia imaginar que o seu inocente menino já a tivesse vivido.
Mas o conhecimento que estava adquirindo da Doutrina, dava-lhe a certeza de que fora real.
O que o aguardaria, agora, nessa sua nova oportunidade terrena?
Se tantas existências vivemos e ele se lembrava daquela tão distante no tempo, era porque algum significado ainda teria em sua vida.
Entretanto, ela não poderia manter esse pensamento e ficar aguardando algum acontecimento relacionado com o fato de séculos passados.
A vida continua, muitas experiências nos aguardam, e ela sabia, também, que males praticados teriam que ser ressarcidos.
Tanto o filho quanto a jovem Cíntia, nada haviam feito naquela existência que lhes desabonasse o carácter, mas também era possível que a separação havida num momento de tanta felicidade, quando aguardavam uma união de amor, já fosse indício de algum passado delituoso.
Se assim fosse, o resgate do compromisso havia sido feito, e, possivelmente, durante todo o tempo transcorrido desde aquela época até o presente, eles poderiam ter já vivido juntos.
Afinal, ela não deveria se impressionar com conjecturas, mas deixar a vida correr.
Embora nossas vidas sejam bastante interligadas,—cada uma tem a sua programação de acordo com as necessidades reencarnatórias — o que estivesse reservado para Felício, aconteceria, sem que ela quisesse antecipar o seu conhecimento. Deus, na sua infinita sabedoria, tem o momento certo para tudo, e de tudo tem o controle.
Linda externou suas preocupações ao marido que não levou em consideração, dizendo que não poderiam dar tanta atenção à narrativa do filho, pois deveria ser o resultado de sua imaginação criativa.
— Como pode pensar assim, depois de tudo o que já presenciamos e vivemos com Felício?
— Assim falei para que não continue a querer imaginar o que vai acontecer, e até se algum dia ele vai encontrar a bela e sensível Cintia...
— É possível que já tenham se reencontrado, tanto tempo passou.
—Esqueçamos mais essa preocupação e vivamos o presente, cuidando de nossos filhos, orientando-os e proporcionando-lhes o melhor para que sejam pessoas de bem.
— Isso já o fazemos...
— Pois que fiquemos só nisso, agora.
— A propósito, você acha que devemos dar conhecimento ao senhor Álvaro, da história do castelo?
— Nós lhe prometemos, não foi?
— Então devemos?
— Se assumimos o compromisso e se essa história puder ajudá-lo nas suas pesquisas, não há mal algum!
— Vou me comunicar com dona Margarida, conto-lhe o que houve e ela se encarregará de lhe transmitir.
Depois, se ele quiser algum contacto com Felício...
— Não acho recomendável!
Deixemo-lo quieto, sem demonstrarmos tanta estranheza!
Lembre-se de que devemos encarar todos esses fatos com naturalidade, para que o próprio Felício não se considere um ser diferente.
—Tem razão! Eu falarei com dona Margarida e nada irá além.
Da forma como dispuseram, a vida da família Correia prosseguiu.
Os fenómenos que vez por outra ocorriam com o pequeno Felício, não lhes causavam mais surpresa, nem aos pais, nem ao próprio Felício, que aprendera a conviver com eles.
Contudo, os familiares perceberam que, à medida que o tempo passava e ele deixava de ser um garoto e se desenvolvia física e mentalmente, as lembranças também iam-se rareando.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 79717
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 16, 2018 9:52 pm

Numa família bem estruturada, onde se respeitam os preceitos do Cristo, onde se cultiva o hábito das boas leituras e onde os seus membros se dedicam às actividades doutrinárias, de estudo e de serviço aos semelhantes, os laços familiares se estreitam, permitindo que o grupo esteja unido nos embates da vida, aceitando as provas com resignação e coragem.
No lar dos Correia, os meninos cresciam num ambiente de respeito, fé e trabalho.
Os filhos, pelos exemplos dos pais, iam-se integrando nas actividades doutrinárias do Centro, e Felício já frequentava, juntamente com os pais, algumas das reuniões a que compareciam.
Com o passar de alguns anos, Magda completara seus estudos e preparava-se, também, para constituir o próprio lar, noiva que estava de um rapaz bem aceito pelos seus familiares, assim como a sua entrada na família dele, considerada como afortunada.
Muito pouco faltava para o matrimónio.
As famílias tomavam as providências para ajudá-los na preparação do novo lar, enquanto Felício continuava seus estudos, levando muitas esperanças ao pai, que desejava vê-lo prosseguir nos seus interesses profissionais, a fim de que o já construído não perecesse.
Ele era dócil, e o pai, com esses propósitos, preparava-o com pequenas sugestões, de início, e conversas mais directas com o transcorrer do tempo.
O rapaz aquiescia, sentindo-se feliz de poder trabalhar com o pai, na esperança de, um dia, ser como ele.
A família era feliz, e aqueles fenómenos, tão preocupantes da infância, haviam escasseado na juventude e há muito não aconteciam.
Todavia, a mente do rapaz guardava muitas das lembranças que tivera.
Com o seu crescimento, foi-lhe explicado, pelo que os pais haviam compreendido, o que ocorria com ele e por que ocorria.
Nada mais daquilo era estranho à família.
O desenho do castelo se desfez e acabou perdido.
Um papel, constantemente manuseado, é muito frágil para resistir ao tempo, mas as lembranças de Felício não haviam se apagado.
Vez por outra ele voltava ao assunto, como que esperando, um dia, pelos conhecimentos adquiridos, encontrar a sua Cíntia de outrora.
A festa de casamento de Magda estava sendo preparada, para a qual voltava-se toda a preocupação da família.
Era como se os velhos tempos retomassem, e, apesar de terem estado retraídos por alguns anos, aquele momento era muito importante, e dele Linda cuidava com seu bom gosto.
Seria um grande acontecimento social que marcaria época.
Experiência, condições financeiras, ambas as famílias possuíam, e nenhuma das duas iria regatear gastos para tão feliz evento.
O enxoval fora todo preparado com carinho, que dele Linda se ocupara, e Magda levaria para o seu lar o que havia de mais fino, dentro do mais requintado gosto.
A veste nupcial estava sendo confeccionada com esmero e riqueza, e a festa, encomendada dentro do que Linda propusera.
Os últimos dias foram de bastante actividade, das quais Felício não participava, apenas observava.
Ele não era dado a reuniões sociais, gostava de permanecer no lar com seus estudos, alguns poucos amigos, e toda aquela azáfama pouco lhe significava.
Ele já contava dezasseis anos de idade e, após o casamento da irmã, estaria mais só com os pais.
A diferença de idade entre os dois propiciava-lhes um distanciamento maior.
Os interesses e as actividades de ambos eram diferentes, embora um gostasse muito do outro.
Enquanto crianças, Magda cuidara bastante dele, acompanhara seus estudos, como se faz a um irmão dependente e muito querido, e ela se sentia feliz em conduzi-lo bem nos estudos e ajudá-lo em suas necessidades.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 79717
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 16, 2018 9:52 pm

Com o passar dos anos, porém, com a diversificação de interesses que o próprio sexo impõe, cada um cuidava de si mesmo e se integrava nas actividades de que gostava.
A presença física da irmã lhe era muito querida, sem que dela Felício dependesse em nada, mas, ao pensar que não estaria mais no lar, ele aborrecia-se.
O dia da cerimónia chegou, tudo ocorreu conforme haviam programado e desejado, e Linda sentia-se com uma parte da sua tarefa de mãe, cumprida.
Entregara a filha àquele que seria seu esposo, pronta para enfrentar o lar com todas as responsabilidades que envolvem mesmo aquelas que não precisam se ater aos afazeres domésticos; preparara-lhe uma bela cerimónia de casamento e suas preocupações voltavam-se, agora, para Felício.
Muito ainda ele precisaria fazer a fim de se preparar para a vida, mas estava bem encaminhado.
Era um jovenzinho estudioso, dócil e cordato, e, em nenhum momento, nem o pai nem a mãe, perceberam que o conforto e as oportunidades que lhe proporcionavam, advindas da sua posição social e financeira, modificaram-lhe o carácter.
Era um pouco cedo para tais afirmativas, todavia, conhece- se a árvore logo quando começa a mostrar a sua primeira ramagem, e ele nada tinha que desgostasse os pais.
Restava-lhes apenas esperar o tempo decorrer para que concluísse seus estudos e se encaminhasse na vida, dentro do que pretendesse realizar como profissão, caso os apelos e o desejo do pai não encontrassem eco nas suas próprias tendências.
Mas até isso lhes parecia favorável e, com o passar do tempo, Felício interessava-se cada vez mais pelos negócios do pai, demonstrando claramente que não o decepcionaria em suas esperanças.
Na vida feliz de Magda, após o casamento, na nova rotina do lar de Linda e António José, nos estudos de Felício, o tempo foi transcorrendo, até que chegou o dia em que também aquele filho que lhes chegara nos braços, num momento de grande angústia, concluía o seu curso e era um engenheiro capacitado para, junto do pai, conduzir a empresa da família.
Até ideias novas e promissoras para agilizar e modernizar métodos de trabalho, dentro do que havia aprendido, Felício expunha ao pai e discutia os seus propósitos.
António José, excelente administrador, continha o filho em seus arroubos de entusiasmo, quando tratavam, no lar, de assuntos profissionais, mas compreendia o quanto iria ganhar em tê-lo consigo.
Logo após a sua formatura e umas férias a que os pais entenderam, ele tinha direito, Felício começou a desempenhar o seu trabalho junto de um pessoal mais experiente, mas percebia- se que, em pouco tempo, a experiência que os outros haviam adquirido com anos de trabalho, ele a trazia em métodos e técnicas modernas e mais avançadas.
O pai estava feliz e confiava no filho, esperando que, em alguns poucos anos mais, pudesse lhe deixar as responsabilidades todas e descansar um pouco, permanecendo mais no lar, junto da esposa a quem amava bastante, dispensando-lhe as atenções que ela merecia.
Poderiam empreender viagens, o que, até então, apesar das condições financeiras e do desejo de conhecer outras terras, via-se impedido, para não deixar responsabilidades em mãos que não saberiam conduzi-las a contento.
Quando nos acomodamos bem nas nossas tarefas, quando as desenvolvemos com amor e desejo de cada vez mais nos aperfeiçoarmos, e temos condições de fazê-lo, nossas actividades nos são de grande importância, e, conquanto o progresso seja o nosso objectivo, a rotina se faz, e até ele passa a ser uma constante rotineira.
Assim estava sendo o trabalho de Felício junto ao pai.
Suas ideias, pouco a pouco, iam sendo implantadas, maquinaria de maior desempenho, colocada em sua empresa, e os negócios floresciam, trazendo, ao pai e ao filho, grande alegria e novas expectativas.
Não obstante no desempenho profissional ele estivesse sendo considerado um vencedor, no campo afectivo, na procura de alguém que lhe completasse a vida e lhe trouxesse a alegria do amor, nada ainda havia feito.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 79717
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 16, 2018 9:52 pm

Requisitado por jovens que viam nele não só a segurança de um bom casamento, mas alguém que poderia lhes dar o amor que desejavam, e algumas até o sentiam em relação a ele, Felício ainda mantinha o coração ileso.
A mãe preocupava-se e estimulava-o a aceitar o amor de alguma que ele escolhesse dentre as que o procuravam, mas ele não se importava, respondendo-lhe:
— Não vou entregar minha vida a ninguém, senão àquela que tocar fundo meu coração, pois desejo ser feliz no amor e dar felicidade à minha eleita.
Entretanto, mamãe, o que espero e desejo ainda não aconteceu!
—Não faça o amor esperar muito, filho, que estará retardando a sua própria felicidade!
— A senhora não pode julgar o amor pelo que sentiu e recebeu, que nem sempre assim acontece!
A senhora e papai são dois afortunados, mas há muitos casais infelizes que chegam até à separação, por terem estado iludidos acerca do amor, e a realidade, quando surgiu, os decepcionou!
Não quero que aconteça isso comigo e não desejo fazer ninguém infeliz.
Portanto, só me casarei quando sentir que amo e sou amado, e tudo farei para conservar esse amor através dos anos, como a senhora e papai!
— Fico feliz de vê-lo falar assim, de sentir que é digno e responsável, mas o tempo que se perde de amar, é tempo que se perde de ser feliz!
— Ainda sou jovem, e o que me estiver reservado, quanto ao amor, acontecerá.
— Você não está pensando na sua Cíntia do castelo, não é mesmo, filho?
— Trago-a ainda na minha lembrança, apesar dos anos passados daquelas minhas
recordações, e gostaria muito de reencontrá-la!
Se Deus me permitir que aconteça, serei muito feliz, se não, saberei aceitar o que Ele me determinar.
— Qualquer mulher sentir-se-ia feliz em ter o amor de um homem como você, filho!
— Sabemos, mamãe, pelo que temos aprendido, que tudo tem o seu momento certo, e aquela que me está reservada, aquela com a qual assumi o compromisso de uma união de amor e casamento, na hora adequada, aparecerá.
Não fique ansiosa, que eu não estou.
Vou preparando o meu futuro para oferecer solidez à minha família, quando a tiver...
— Eu compreendo-o e louvo a sua atitude tão ponderada.
Apenas falo porque desejo vê-lo feliz...
— Eu sou feliz!
Amo o que faço, amo a família que tenho e nada me falta.
No momento certo, o complemento do meu coração chegará!
— Voltando a falar na jovem Cíntia, filho, nunca mais você teve qualquer visão ou lembrança?
— A senhora sabe que elas se foram escasseando com o tempo, mas as que tive enquanto criança, sobretudo as do castelo, permaneceram em mim, sem que nada tivesse sido acrescentado.
— Voltei a falar sobre ela porque não quero que se retraia do amor de outras jovens, esperando que um dia possa encontrá-la!
Você sabe que vivemos muitas vidas — ninguém mais é prova disso que você — e em cada uma podemos encontrar pessoas que nada têm a ver com nossa vivência anterior.
— Sei que é verdade, mas sabemos também que, por compromissos de afectos ou de desafectos, reencontramos quase sempre as mesmas, e eu poderei reencontrá-la um dia.
Se não nesta minha existência, em outras, tenho a certeza de que nos reencontraremos, tão grande é o nosso amor!
— Não há dúvida de que você está certo, mas o que não quero é que fique arredio ao amor, esperando por ela que pode nem estar encarnada, e, se estiver, pode estar em outro lugar, por compromissos com outras pessoas...
— Sei de tudo isso e não a estou esperando e nem me guardando para ela.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 79717
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 16, 2018 9:53 pm

Guardo-me para o amor e para aquela que tocar meu coração, seja Cíntia ou não!
— Orgulho-me de você, filho, do seu equilíbrio, da sua ponderação, do seu carácter...
— Sou o que vocês fizeram de mim.
Orgulhem-se, pois, de si mesmos!
— Por mais os pais se esforcem para conduzir bem os filhos, e quanto mais o fazem mais o conseguem, cada um traz suas tendências do passado que podem se sublevar, desprezando princípios.
Por mais tivéssemos nos esforçado e lhe transmitido amor, você poderia ter se rebelado...
— Quem é feliz na família que tem, quem verdadeiramente ama os pais como eu os amo, tudo faz para tomá-los felizes!
—É porque você já traz no Espírito muitas conquistas, e nós somos afortunados por tê-lo connosco.
Com certeza já o tivemos muitas outras vezes!
— De uma temos certeza, mas possivelmente tenhamos convivido também em outras existências, talvez por um tempo muito maior que o do pequeno Felício, anterior a mim...
— Com certeza, filho!
Felício derramava o coração para a mãe, revelando os sentimentos e as esperanças que abrigava, e ela, vendo-o tão puro e leal, sentia-se orgulhosa e feliz do filho que possuía.
Entretanto, ele não se preocupava com nada do que expusera e nem ansiava para antecipar momentos, pois sabia que o que lhe estava reservado, chegaria.
O seu trabalho continuava cada vez mais eficiente, e o pai orgulhava-se da sua capacidade, não só demonstrada no conhecimento profissional, mas na humanidade com que (ratava os que lhes emprestavam colaboração.
Todos viam para ele um futuro promissor e desejavam tê-lo consigo, na chefia, junto do pai, o maior tempo possível.
Nada do que a mãe esperava, acontecia, e ele não iludia nenhuma jovem, à guisa de distrair-se, esperando o amor chegar.
Não desejava levar esperanças que pudessem se transformar em sofrimento a ninguém que não amasse.
Dessa forma, algum tempo mais passou.
O pai ia deixando a direcção dos negócios nas mãos do filho, porém, atento ao seu desempenho, para, no momento em que se afastasse de vez, nenhum receio ou preocupação pudesse empanar o seu descanso, bem como as viagens ansiadas.
Linda, quando o marido se referia a essas viagens tão pretendidas mas sempre adiadas, pensava no filho e dizia:
— Gostaria de me afastar daqui apenas quando Felício estivesse casado e feliz!
Ele é tão ligado a nós e ao lar, que sentirá muito a nossa falta.
— Se cada vez tivermos um motivo para adiá-la, nunca a realizaremos.
Até quando esperaremos nosso filho encontrar sua felicidade num lar só seu, se até agora nunca se decidiu por ninguém, ainda que tantas jovens o tenham procurado?
Lembre- se de que Felício é um homem, e quem tem a capacidade que ele demonstra na gerência dos nossos negócios e convive bem com os subalternos, saberá se conduzir sem nós!
Não se esqueça de que nossos caseiros saberão cuidar muito bem da casa e também dele..«
— Você tem razão, e também penso assim, mas ele não terá a nós!
— Um pouco que nos ausentemos, ser-lhe-á benéfico.
Quem sabe, isso o ajudará decidir a ter a sua própria vida, como todos os jovens procuram tê-la.
Nós não seremos eternos e já não somos jovens!
Precisamos desfrutar um pouco da jovialidade que demonstramos em Espírito, enquanto nossos corpos não falirem pelas enfermidades e nos impedirem de deambular.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 79717
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 16, 2018 9:53 pm

— Não pense em nada triste!
Se assim o deseja, nós iremos.
Pode marcar o que pretende, mas dê-me tempo de preparar o de que precisaremos.
Quanto pretende ficar fora?
— Uns três meses, de início, é suficiente! Desejo conhecer alguns países, sem pressa...
— Não é tempo demais?
— Lembre-se do que já conversamos.
Felício tem Magda e dois sobrinhos com quem se distrair.
Não se apegue tanto, para não sofrer quando ele nos deixar...
— Quando Felício se casar, estarei tranquila, e será apenas uma mudança de casa, se ele desejar ter a sua; caso contrário, poderá continuar connosco!
— Todas as mulheres querem dirigir o próprio lar, sem estar na dependência de ninguém, ainda mais de sogra...
-- Não seja cruel!
Eu serei uma excelente sogra para a esposa dele!
— Se é o que pretende, poderá até se esforçar para consegui-lo, mas estará em sua casa, no comando de tudo...
— Bem, estamos discutindo um problema que ainda não sabemos quando irá ocorrer e com o qual não devemos nos preocupar por ora!
Pode providenciar a viagem que eu o acompanharei feliz, como se estivéssemos realizando uma nova lua-de-mel!
Tantos anos passaram, tantas situações vi vencíamos, e, novamente sós, faremos essa viagem.
— Sem as esperanças que levávamos naquela ocasião...
— Contudo, mais felizes, porque as temos concretizadas!
Tivemos a tristeza de perder o nosso Felício, mas Deus, vendo o nosso sofrimento, no-lo mandou de volta!
Somos felizes, António José, muito felizes, ainda!
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 79717
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 17, 2018 8:24 pm

9 - CÍNTIA
Os preparativos da viagem não se fizeram esperar.
António José deu todas as instruções ao filho, pois seria o primeiro desligamento total, seria a primeira vez que Felício agiria por si próprio, e um teste para o pai que confiava, mas queria experimentar.
Linda, por sua vez, cuidava das outras providências.
Ordens no lar, orientações quanto aos cuidados com o filho, a preparação da bagagem pelos lugares que visitariam e pelo tempo em que permaneceriam fora.
As passagens foram marcadas, os hotéis nos diversos países europeus, reservados, e nada mais faltava, a não ser os arremates finais.
Em três dias a partida se daria.
Antes, porém, Linda quis reunir os familiares para um jantar íntimo, onde os planos seriam discutidos, as esperanças expostas, e a convivência mais estreita com entes tão queridos, efectuada, para o qual compareceriam apenas Magda, o marido e seus dois filhos, ela, António José e Felício.
Durante a sua realização, Magda falava bastante.
Visitara a Europa por ocasião da sua viagem de núpcias e fazia recomendações à mãe, sobretudo no que se referia aos lugares onde a moda mais actual e actuante era exibida, como Paris e algumas cidades da Itália, falava dos locais de arte, indicando os museus mais famosos de Florença e Paris, e assim o jantar esteve animado.
— Aqui será nossa despedida!—expressou-se Linda à filha.
Não desejo despedidas emocionadas no aeroporto, porque vamos apenas para um passeio e nada mais.
— Então a senhora não nos permite acompanhá-los? — indagou o genro, surpreso.
— Não há necessidade.
Cada um tem suas obrigações, das quais não desejo retirar ninguém...
— Se esse é seu desejo, ele será cumprido! — exclamou Magda, um tanto decepcionada.
Pelo menos permita-me ajudá-la com a organização das malas...
— Se você conhece bem a sua mãe, deveria saber que, a esta altura, a nossa bagagem está toda pronta! — falou jocoso o pai.
— Faltam apenas os últimos retoques, e desses, eu mesma cuidarei.
— Parece que vocês estão querendo nos excluir de tudo! — voltou a falar Magda.
— Você ainda não compreendeu, minha Filha!
Vamos sair em lua-de-mel, e quem vai para uma viagem dessas não tem filhos para acompanhá-los...
Não ficaria bem! — tomou António José, ainda mais brincalhão.
—Está bem, está bem, não se fala mais nisso! Felício, porém, irá acompanhá-los!
— Ah! É diferente...
Ele nos ajudará com a bagagem e, se necessário, em alguma outra providência no aeroporto, nada mais!
— Compreendo !...
*** ***
A noite foi alegre, a reunião familiar bastante festiva e cheia de esperanças para António José e Linda, e, em dois dias mais a viagem se daria.
À hora determinada para a chegada dos passageiros para a verificação da documentação e o desembaraço da bagagem, eles se apresentaram.
Nada lhes foi adverso, cada detalhe fora bem preparado, e as despedidas também se efectuaram.
Os pais entraram na parte reservada somente aos passageiros, e Felício achou por bem retirar-se.
Quando deixava o aeroporto, viu, muito rapidamente, uma jovem só, entrando num táxi e dando uma ordem ao motorista.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 79717
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 17, 2018 8:24 pm

Sua bagagem já havia sido acomodada, e, em instantes, ela partiria.
Uma sensação estranha o envolveu.
Ele conhecia aquela jovem de aparência muito bonita, mas, quem seria?
Onde a conhecera?
Não podia perdê-la de vista e correu para o táxi, mas, antes de chegar, o motorista deu partida e ela se foi.
Ato contínuo, daqueles que realizamos primeiro, para reflectirmos depois, ele correu para o carro da família, onde o motorista o aguardava e entrou rapidamente, ordenando que ele seguisse o táxi em questão.
— O que aconteceu, dr. Felício?
—Nada, mas preciso saber quem é aquela jovem!
Não posso perdê-la de vista!
— Quem é ela, se me permite perguntar...
— É justamente o que estou tentando saber...
Quem é e onde mora!
A habilidade do motorista logo colocou seu carro junto do táxi apontado e seguia-o bem de perto.
Eles entraram na cidade e, em poucos instantes, paravam diante de um edifício.
Assim que ela desceu, Felício fez o mesmo, sem saber o que dizer ou como se apresentar.
O motorista do táxi começou a retirar a bagagem e ele foi ajudá-lo a colocar as malas na calçada.
— Quem é o senhor? — indagou ela, depois da partida do motorista.
— Acredito que não me conheça e eu também não sei quem é!
Eu a vi no aeroporto quando entrava no táxi e pedi ao meu motorista que a seguisse.
Eu precisava averiguar...
— Averiguar o quê?
—Tenho a impressão de que a conheço, mas não sei de onde...
— Não poderia ter imaginado uma frase mais original?
É o que todos dizem quando desejam se aproximar...
— Não me interprete mal, eu falo a verdade!
Ao vê-la, uma profunda sensação de retorno a algum tempo, fez-me segui-la.
É aqui que mora?
—Sim, e estou cansada!
Estou chegando de uma longa viagem e preciso entrar...
— Eu a ajudarei com a bagagem e irei embora, mas permita-me vê-la outra vez...
—Está bem! Telefone-me em outra ocasião e conversaremos mais.
Não é meu hábito dar confiança a rapazes que se aproximam como o senhor o fez, mas senti que é diferente...
Ele ajudou-a com a bagagem, e ela, retirando da bolsa um pequeno cartão, estendeu-o a ele, dizendo:
— Meu telefone aí está!
— Ele tomou o cartão, e, ao ler o seu nome, sobressaltou-se:
Cíntia de Araújo e Souza!
O cartão permaneceu nas mãos de Felício, dando a impressão de que ele o estivesse olhando, tão fixos ficaram seus olhos no primeiro nome da jovem.
Seu pensamento porém, se afastara para um tempo muito longínquo, cujas recordações, já meio adormecidas, estavam sendo avivadas.
— O que houve? — indagou ela.
Retomando de dentro de um castelo, da cena em que Cíntia fugira da vida, deixando-o desolado, ele levantou os olhos e fixou- os nela.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 79717
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 17, 2018 8:24 pm

Tomando a indagar o que havia acontecido, ele, um tanto perturbado, respondeu apenas:
— O seu nome!
— Meu nome nada tem de especial!
É igual ao de tantas outras mulheres...
— Para mim tem um significado muito grande!
Era a forma de eu reconhecê-la!
— O que está dizendo?
Como me reconhecer se nunca nos vimos antes?
Compreendendo que aquele não era o momento de nenhuma revelação, para não assustá-la e perdê-la para sempre, por julgá-lo insano, ele respondeu:
— Tem razão... Devo estar confundido!
Mas ainda desejo lhe falar novamente!
— Meu telefone aí está — repetiu.
— Quando poderei chamá-la?
— Deixe-me descansar da viagem, e depois faça-o quando quiser!
— Você não tem nenhum compromisso?
— Apenas com o meu trabalho, mas ainda tenho dois dias de folga!
Agora preciso entrar, vou fazer uma surpresa a meus pais!
— Vive com eles?
— Sim! Esperavam-me apenas amanhã, mas consegui antecipar a minha volta!
—Foi para que eu a encontrasse!
Do contrário, como iria vê-la?
— Acho-o um tanto estranho!
— Nada há de estranho em mim.
Apenas simpatizei-me bastante com você e não desejo perdê-la de vista, Cíntia!
Ao pronunciar seu nome, Felício sentiu como se estivesse se dirigindo à outra e não a que estava à sua frente.
Você impressionou-se com meu nome e eu nem sequer sei o seu...
— Chamo-me Felício Correia!
Devo retirar-me agora, mas amanhã à tarde eu a chamarei pelo telefone!
Será suficiente até amanhã para o seu descanso?
— Com certeza, e poderemos conversar mais!
Felício retirou-se, levando o coração tocado por aquela jovem que acabara de conhecer.
Mas não tinha dúvidas:
ela era quem ele estivera esperando encontrar desde as recordações do castelo, com todas as visões do que vivera naquele período!
No resto daquele dia, ele pensou muito.
Tinha algum conhecimento da Doutrina Espírita, que seus pais lhe transmitiam, resultado do interesse demonstrado por eles por ocasião dos acontecimentos que o envolveram, e por ele mesmo, que sempre lia alguns livros instrutivos e frequentava, vez por outra, a casa espírita.
Entretanto, ele gostaria de conversar com alguém que lhe pudesse dar maiores explicações.
Por que, sendo Cíntia tão diferente da que fora sua noiva há alguns séculos, ele a reconhecera?
E ela, por que não o reconhecera, se, naquela ocasião, também o amara?
A resposta era difícil.
Já aprendera que os Espíritos se reconhecem mesmo que seus perispíritos tomem outras características, mas, com os encarnados, como acontecia?
Sabia que não eram todos que possuíam essa possibilidade.
Por que ele a possuía e por que só se manifestou com Cíntia?
Lembrou-se de Margarida, a professora que orientara seus pais quando ele começou a se confundir com o irmão desencarnado há alguns poucos anos antes, e desejou falar-lhe.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 79717
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 17, 2018 8:24 pm

Há tempos não a via e nem sabia se ainda ela teria condições de recebê-lo.
Deveria estar bastante envelhecida, mas, se conservava a saúde física e mental, a idade proporcionara-lhe maiores conhecimentos, e alguma explicação adequada encontraria.
Com esse pensamento, decidiu que, à noite, compareceria à casa espírita que vez por outra visitava, a fim de pedir informações acerca de Margarida ou mesmo encontrá-la.
Enquanto Felício, com o pensamento na Cíntia de outrora, provocado pela actual, retirara-se e passara o resto do dia em conjecturas, a jovem, depois que ele a deixou, dirigiu-se ao seu apartamento, e, sem se utilizar da chave da qual tinha a posse, tocou a campainha.
Sem muita demora, a mãe atendeu, deparando-se com a filha.
A surpresa misturou-se com alegria e ambas abraçaram-se intensamente, sem palavras.
Quando a saudade, satisfeita do retomo, retirou-se, a mãe conseguiu falar.
— Nós a aguardávamos amanhã, filha! O que houve?
— Nada mais que a saudade...
— Por que seu irmão não nos avisou?
Iríamos ao aeroporto esperá-la....
— Não havia necessidade!
Onde está papai?
— Esqueceu-se de que é hora do seu trabalho?
Ele iria buscá-la amanhã...
— Quando ele chegar, terá uma surpresa!
— Conte-me, como está seu irmão, Maria e as crianças?
—Todos muito bem!
Passei umas férias muito boas! Conheci
muitos lugares e diverti-me bastante.
Porém, o inusitado aconteceu aqui mesmo, ao chegar!
— O que quer dizer? O que aconteceu?
— Um fato muito estranho que ainda não consegui desvendar...
— Explique-se melhor, filha.
— Vou contar apenas quando papai chegar.
Quero ouvir a sua opinião...
— Deixa-me curiosa!
Diga-me apenas se foi bom para você ou a desagradou?
—Não sei dizer se foi bom, mas não me desagradou em nada; pelo contrário, lisonjeou-me bastante!
— Então aguardarei o resto em presença de seu pai!
Cíntia acomodou sua bagagem e, conversando com a mãe, esperou a chegada do pai.
Quando ele voltou para o almoço, o tempo foi pequeno para tantas perguntas e respostas.
Num dado momento, porém, a mãe, ansiosa para saber o que a filha reservara para contar em presença do pai, falou ao marido:
— Guilherme, nossa filha tem um acontecimento para contar e não quis adiantar-me nada, esperando-o!
— Pois eu falarei!
Os olhos do pai, ansiosos e indagativos, aguardavam a sua fala, e ela, detalhadamente, demorando-se em cada pormenor, relatou o que Felício fizera, o que lhe dissera, narrando também a impressão estranha que ele sentira ao saber seu nome.
O pai, cuidadoso, chamou-a a atenção, dizendo:
— Você conhece muito bem como são os rapazes quando desejam se aproximar de uma jovem, ainda mais, bonita quanto você!
Precaução nunca é demais...
Você não o conhece, nem sabe das suas intenções.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 79717
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 17, 2018 8:26 pm

—Simpatizei com ele, papai, e não acredito que tenha nenhum propósito escondido.
Estava com um carro dirigido por um motorista e deve ter boas condições financeiras.
Pareceu-me educado e respeitoso!
— É assim que eles se apresentam, de início!
— Não tenha cuidados...
— Pelo menos o nome dele, você sabe?
— Felício Correia!
— Seria ele da família do senhor António José Correia, o que tem uma bem-sucedida empresa de construção e detém em suas mãos um património invejável que lhe permite empreendimentos grandiosos?
— Nada sei sobre isso!
Ele ficou de telefonar, quer se encontrar comigo.
Vai chamar-me amanhã à tarde...
—Cuidado com o que fará, filha!
Você é o nosso mais precioso tesouro e queremos vê-la feliz.
Não perdoarei quem a fizer sofrer!
— Não exagere, papai!
Ele apenas irá me telefonar e combinaremos algum passeio, se ele desejar!
É bom que o faça, preciso fazer algumas averiguações...
— O que quer dizer?
— Quero verificar bem o que ele me falou, a impressão que meu nome lhe causou, e analisar!
Depois de pensar alguns instantes, exclamou:
— Bem, já nos falamos bastante, contei as novidades da viagem e agora preciso descansar...
Num avião, por melhor estejamos, nunca é como na nossa própria cama!
— Eu também já devo retomar...
— E eu vou ficar sozinha outra vez?
— Somente por algumas horas, mamãe...
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 79717
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 17, 2018 8:26 pm

10 - EM BUSCA DE ESCLARECIMEMTO
À noite, um pouco antes do horário do início dos trabalhos, Felício estacionava seu carro à pequena distância da casa espírita e adentrava o salão, onde a exposição evangélico-doutrinária se efectuaria.
Tomou assento em um lugar bem à frente e aguardou.
Seu pensamento ainda permanecia no acontecimento da manhã, não obstante, naquele local, devesse manter uma ligação mais intensa com Jesus, para melhor aproveitar dos ensinamentos da noite.
Na verdade, o motivo que o levara à casa espírita era muito mais particular.
Vez por outra ele lançava o seu olhar naqueles que se movimentavam como seus trabalhadores, esperando reconhecer Margarida em algum deles, mas até então não a vira.
Um pouco antes do horário determinado para o início da reunião, sentaram-se à mesa dois senhores, um dos quais a sua lembrança de criança guardara como alguém que já havia visto.
O outro era trabalhador assíduo e sempre lá estava para apresentar o expositor da noite.
Quem seria aquele homem de quem guardava uma leve recordação, sem conseguir precisar quem fosse?
Ao ser anunciado o seu nome, Felício foi tomado de uma grande alegria.
Era justamente Álvaro, que visitara seu lar há alguns anos, interessado nos fenómenos que lhe ocorriam, e cujo nome muitas vezes fora referido pelos pais, sobretudo pela mãe que o acompanhava mais de perto.
Ele era a pessoa indicada para explicar-lhe o que havia acontecido.
Atentamente ouviu a sua explanação, cujo tema, tendo em vista o trabalho que ainda realizava, não poderia ter sido outro senão a reencarnação.
Alguns casos foram citados como exemplo, histórias narradas das que acumulava em suas pesquisas, e a exposição foi encerrada.
—Coincidência? — indagava-se Felício.
Seria impossível!
Ao término da prece final, quando ambos se preparavam para deixar o salão, Felício acercou-se dele, dizendo:
—Se o senhor me permitisse, gostaria de lhe falar.
No entanto, compreendendo que o momento talvez não lhe seja oportuno, pediria que me recebesse quando pudesse.
— De que se trata, meu jovem?
Está passando por algum problema?
— Não exactamente problema, mas, diante do trabalho que realiza e do que aconteceu comigo, gostaria de lhe falar...
— Deixa-me curioso.
O que lhe aconteceu em relação ao meu trabalho?
— A história é longa e seria melhor conversarmos em outra ocasião.
Sei que o senhor não se lembra de mim, mas já esteve em minha casa, onde seu nome tem sido citado pelos meus pais.
Por isso lembrei-me...
O senhor é a pessoa certa que pode me ajudar!
— Quem é você?
—Desde muito cedo eu passei pelo fenómeno das recordações de outras vidas, provas vivas para mim da reencarnação, tema, aliás, tratado nesta noite.
Preciso lhe falar, porque, hoje, participei de um fato estranho!...
—Acho que tem razão.
Precisamos conversar demoradamente e agora não seria uma boa ocasião...
Retirando do bolso um cartão, estendeu-o a Felício, dizendo- lhe:
— Procure-me neste endereço, amanhã pela manhã, se puder!
— Eu irei!
— Às nove horas está bem?
— Para mim está, e agradeço-lhe a atenção!
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 79717
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 17, 2018 8:26 pm

— Pelo que me disse, nós dois seremos beneficiados porque seu caso interessa-me deveras!
Deparei-me já com alguns, mas não me lembro exactamente do seu!
— Amanhã o senhor se lembrará!
— Esperançoso e confiante, Felício despediu-se e partiu.
Seu pensamento retomou para junto de Cíntia e se confundia com a de outra era, misturando-se de forma tão intensa, que, para ele, a que conhecera, ou melhor, reencontrara pela manhã, era a mesma.
As aparências se fundiam em sua mente, uma tomando as características da outra, e seu desejo era correr ao seu encontro e abraçá-la intensamente, como que libertando uma saudade contida que nem ele mesmo podia definir.
Em dado momento, porém, fez um esforço para separar os pensamentos, a fim de que seu equilíbrio fosse mantido, e ele, em presença da jovem, não passasse por algum insensato atrevido e a perturbasse.
Naquela noite, Felício muito pouco dormiu.
O coração sobressaltado e feliz mantinha-o ligado pelo pensamento à Cíntia, e a esperança da conversa, na manhã seguinte, com Álvaro, também deixava-o inquieto.
Entretanto, era necessário organizar os pensamentos, concatenar as ideias para expô-las, e estava difícil.
O transcorrer das horas venceu o corpo pelo cansaço, e ele conseguiu dormir os últimos momentos que precediam o dia, auxiliando-o a apresentar-se em melhores condições ao senhor que o esperava.
À hora combinada, Felício, depois de procurar o endereço anotado no cartão, chegava para a entrevista.
O senhor Álvaro mesmo o recebeu e o introduziu no seu gabinete de trabalho, dizendo-lhe:
— Confesso que também estava ansioso por essa conversa, que, espero, trará uma grande contribuição às minhas pesquisas.
— Se eu conseguir expor o que pretendo, com clareza!...
— A clareza é sempre resultado da verdade dos factos, eu não o julgo alguém que aqui veio com um embuste!
— De forma alguma!
— Então acomode-se e conversemos!
Enquanto Felício tomava assento na cadeira que lhe fora indicada, Álvaro ia falando:
— Depois de nossa rápida conversa de ontem, penso que consegui me lembrar de você enquanto criança.
Como seus pais não consideraram conveniente que eu revelasse o que lhe acontecia, procurei não me preocupar mais, e aqueles fenómenos acabaram no esquecimento.
Mas por que procurou-me agora?
O que aconteceu de tão importante?
Teve alguma outra recordação?
— O que me fez procurá-lo, ontem, não foi nenhuma recordação, mas um encontro.
— O que quer dizer?
— Procurarei ser claro.
Quando o senhor esteve em nossa casa, levado por dona Margarida, eu havia tido lembranças de um castelo que papai ajudou-me a desenhar...
— Lembro-me...
Eu vi o desenho!
— Pois bem: passados alguns dias, eu vi-me naquele castelo, em uma cena que ficou marcada em minha mente até agora!
— Lembro-me de tê-lo ouvido dizer que se via lá dentro, sem, contudo, precisar sua ligação com os moradores...
— Nas lembranças posteriores, vi-me junto de uma jovem muito bonita, filha do soberano do castelo, com quem eu assumira o compromisso de casamento.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 79717
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 17, 2018 8:27 pm

Cíntia, porém, cujo nome também recordei, logo adoeceu, deixando-me para sempre, sem que tivéssemos concretizado nossos sonhos.
Aquelas visões permaneceram em mim, dando-me a impressão de que ainda eu a reencontraria.
— Foi esse o encontro a que se referiu?
— Ontem pela manhã, acompanhei meus pais ao aeroporto, que partiram em viagem para a Europa.
E quando saía, vi uma jovem tomando um táxi.
Não sei o que ocorreu, naquele momento, mas senti que a conhecia de algum lugar e vi-me impelido a segui-la.
E foi o que fiz, em outro carro, até sua casa.
Consegui falar-lhe e manifestei desejo de voltar a fazê-lo.
Ela, solícita, deu-me o seu cartão, e qual não foi a minha surpresa ao 1er seu nome impresso — Cíntia.
— Pessoas com o mesmo nome há uma infinidade!
— O nome, por coincidência ou não, veio lembrar-me da outra Cíntia, mas o impulso que eu tive de segui-la, por achar que a estava reconhecendo, de alguma forma, só me confirmou que ela é a minha Cíntia de outrora!
Fiquei feliz, mas estou confuso!
Álvaro ouvia-o atentamente e, desejoso de esclarecimentos, Felício prosseguiu, indagando:
— O senhor considera possível, dentro das verdades da Doutrina Espírita, que elas sejam a mesma pessoa?
Como eu fui impelido a segui-la e lhe falar?
Por que antes nunca me interessei mais profundamente por outra jovem, e esta não me sai do pensamento?
— A nossa Doutrina tem, nos seus princípios, muitas explicações que revelam a nossa finalidade, neste planeta, e sabemos que convivemos e voltamos a nos encontrar quase sempre com as mesmas pessoas com quem já tivemos algum relacionamento.
Quando se trata do sentimento do amor, que fica gravado no Espírito, e este nunca esquece o ser amado, as afinidades, o prazer que um sente na companhia do outro são muito grandes e, a cada reencontro, novamente afloram.
— O senhor supõe, então, que o amor que eu nutria por ela, adormecido pela separação, agora, pelo reencontro, irá florescer?
— Já está florescendo!
E ela, o que disse sentir ao lhe falar!
— Imagino que nada igual aos meus sentimentos, mas sei que simpatizou comigo.
Do contrário, não concordaria que eu lhe telefonasse para um encontro!
—Com certeza seu Espírito também guarda alguma impressão agradável de sua pessoa...
— O que me deixa curioso é saber por que eu a reconheci como sendo aquela Cíntia de outrora, se hoje ela está tão diferente...
Há momentos em que as duas se misturam em minha mente e eu as confundo!
Tenho receio de não conseguir manter-me equilibrado em minhas palavras, diante dela, e assustá-la...
— É preciso fazer um esforço para, temporariamente, esquecer a outra e manter com essa um relacionamento tranquilo, sem nada lhe dizer do passado...
— Então o senhor acredita que sejam a mesma?
— Diante do que já conheço de suas lembranças, é bem possível!
,—Por que me recordei, mesmo com a aparência que ela traz hoje?
— Você sabe que os sentimentos pertencem ao Espírito e explicam simpatias e antipatias que nutrimos por alguém, sem causa aparente, justamente porque não trazemos a sua capacidade de recordar outras vidas.
Mas os que possuem essa faculdade, como você, embora em corpos diferentes, os Espíritos se reconhecem com mais facilidade e novamente se amam, acontecendo o mesmo com o ódio...
Mas não é dele que estamos falando.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 79717
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 17, 2018 8:27 pm

— De que forma os Espíritos se reconhecem, mesmo com um corpo diferente?
— Cada um traz, impregnado no Espírito, uma essência que exala, se exterioriza e expande as próprias características e sentimentos, extrapolando as suas dimensões, porém, sempre de modo velado, sem a clareza com que ocorre com você! O que está sentindo, o que aconteceu ontem, pode ocorrer com qualquer um, mas não de forma tão clara, indiscutível e intensa, a ponto de as duas se confundirem.
— O que preciso fazer para não deixar perder esse momento que está me acontecendo?
Álvaro ouvia as indagações de Felício, reveladoras da confusão que seu íntimo experimentava, percebendo, também, que aquela era uma circunstância muito importante para sua vida.
Ele havia-se deparado com muitos casos de lembranças de encarnações pretéritas, mas, até aquele instante, nenhum se lhe apresentara tão completo.
Além das lembranças, um reencontro com uma pessoa muito querida que fazia parte delas, parecia estar ocorrendo, e Felício tinha receio de perdê-la, tão importante ao seu coração, à sua vida, se lhe afigurava.
Como duvidar de que ele estivesse certo, diante da possibilidade que trazia?
Como recordações vindas à sua mente, anos atrás, ficaram guardadas em seu coração que ansiava por um reencontro?
Como classificar o ímpeto intenso que ele sentiu, provocando-lhe a atitude que tomou, seguindo-a?
Como não tomar a lhe falar, se seu coração desejava reencontrá-la?
Todavia, com qual ele desejava estar novamente?
Com a Cíntia que há séculos lhe fugira, ou com a que conhecera na véspera?
Como separá-las, porém, se ambas eram uma só?
Sim, eram uma só, pois o Espírito é que conta, são eles que se reconhecem, fazendo sublevar antigos sentimentos!
Que importava o corpo com outra aparência, embora também bonita, se os sentimentos ficaram retidos no Espírito?
Não fora ele, também, a reencarnação daquele que já estivera nos braços de seus pais e, partindo, retomara?
Por que ela também não poderia ter retomado?
Enquanto Álvaro, um tanto alheio, fazia todos esses pensamentos, Felício aguardava a resposta à sua pergunta, e, vendo-o demorar, tomou a fazê-la.
Despertado de tantas conjecturas, ele respondeu:
— Apenas ser natural, compreendendo, por sua vez, o que está ocorrendo, sem nada lhe dizer ainda!
Desfrute dessa convivência que começa, desse amor, que, para você, refloresce, e verifique se ocorre o mesmo com ela, mas sem comentários.
No Mundo Espiritual temos o conhecimento de muitas das suas verdades, as que nos permitem conhecer, mas o corpo físico é uma barreira para lembranças.
Você tem uma crença, a que decorreu do que lhe aconteceu enquanto criança, transmitida por seus pais, que procuraram o caminho certo para compreender o que lhe acontecia e para apaziguar seus corações preocupados; entretanto, o que dizer em relação a essa jovem?
Por isso, você não pode e nem deve, de início, falar-lhe sobre um assunto que poderia lhe ser estranho, assustando-a...
— Ela já me classificou de estranho e eu acordei para o que senhor está me advertindo...
— Então nada mais é necessário.
Você já sabe como agir, e com o passar do tempo, poderão, conforme caminhar esse relacionamento que se inicia, para ela apenas de amizade e simpatia até que aquele amor antigo aflore, conversar mais à vontade.
Quando sentir, em ambos, a solidez e consistência desse amor, você poderá ir-lhe falando, aos poucos.
Primeiro, dizendo que tem a sensação de que já a conhecia, tanta impressão ela lhe causou, e com o tempo, chegar ao castelo com a lembrança da cena que teve.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 79717
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 17, 2018 8:27 pm

Ela, não com a sua clareza, terá, também, o seu amor revivido, e vocês se entenderão muito bem.
— Tenho medo de que tudo se repita!
— A que se refere?
— Ao desfecho daquela época!
— Pense em você mesmo e conclua!
Para cada encarnação, o Espírito traz uma programação dentro dos resgates e do aprendizado que deve realizar, e nunca uma existência se repete de forma tão semelhante como receia.
— Penso que o fiz perder muito tempo com meus problemas!
— Os problemas dos outros também são nossos, se podemos ajudar!
Eu nada fiz, mas fiquei feliz em ter esse conhecimento.
Pena que seu caso não está relacionado nas minhas
pesquisas, se não, agora eu acrescentaria mais uma parte!
— Faço-lhe uma promessa.
Actualmente não existem mais os receios de meus pais, pois já não sou mais uma criança.
Peço-lhe apenas que espere.
Se eu conseguir concretizar, agora, o que fomos impedidos naquela época, prometo que o senhor terá não só o conhecimento mas minha autorização para relacioná-lo de modo completo, em seu trabalho.
— Espero que aconteça, não por mim, mas para vê-lo feliz, que é a nossa finalidade.
Todavia, não me deixe sem notícias até que tudo se concretize.
Quando quiser ou sentir necessidade, estarei aqui para conversarmos.
Se em nada puder ajudar, quero ser um amigo com quem você possa contar para desabafar os seus receios e esperanças, e também para ouvi-lo falar de sua felicidade...
******
Felício deixou a casa de Álvaro, tendo desabafado suas preocupações e compartido suas esperanças, e partiu para o trabalho, que algum tempo ainda lhe restava na parte da manhã.
Seu pensamento contido tomara outra direcção.
Deixara temporariamente um passado longínquo e fixara-se num passado de algumas horas, quando conhecera Cíntia.
Mas voltava suas esperanças para o futuro imediato, à tarde, quando iria lhe telefonar.
Seu desejo era chamá-la àquela hora mesma, mas combinado era combinado, e ele deveria esperar.
Fá-lo-ia da metade da tarde para a frente, para não atrapalhá-la em alguma obrigação no lar, com a esperança já de marcar, com ela, um encontro para a noite ou mesmo para o fim de tarde.
Tudo deixaria para revê-la!
As horas que mediaram a sua saída da casa de Álvaro até a chegada ao lar foram rotineiras, apesar da ausência do pai, que já de algum tempo estava lhe passando suas obrigações.
Enfim, o telefonema foi dado!
O cartão de Cíntia, enquanto ele aguardava efectuar a ligação, dançou em seus dedos, e o seu nome foi lido centenas de vezes.
Ao lhe falar, ele percebeu, também, a alegria que a sua chamada lhe provocara.
Mal o sinal tocou, o telefone foi atendido, como se ela estivesse a seu lado, esperando aquele instante.
Por mais tentassem ou disfarçassem naturalidade, não conseguiram.
Vozes ansiosas, frases entrecortadas como resultado de um nervosismo e da ansiedade que tomava a ambos, foram percebidas.
Afinal, depois de alguma conversa sem que tivessem mantido nenhum assunto que pudessem narrar, pela falta de consistência e continuidade, Felício propôs-lhe um encontro para aquela noite mesma, ficando combinado que, às oito horas, ele a apanharia para um passeio.
Ao desligar, os dois estavam felizes.
Felício, consciente de que não conseguira se sair bem, lamentava, mas a alegria do reencontro fê-lo esquecer-se logo do fracasso da conversa mantida, que, afinal, não fora nenhuma.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 79717
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 18, 2018 8:09 pm

—Ela deve ter tido uma impressão má! — pensava ele, mas, logo a seguir, justificava:
— O nervosismo que senti, estava presente também nas suas palavras, e deve ter sido revelador de que ela também me aguardava.
Poderia eu pensar que ela também teve alguma recordação?
Não é possível! Pelo menos simpatizou comigo!
Seu Espírito deve guardar as lembranças sem que aflorem, como no meu caso, mas elas se revelam e se manifestam pela simpatia, até que todo o amor que já sentimos retome totalmente aos nossos corações, devolvendo-nos as esperanças interrompidas!
Se mamãe estivesse aqui, estaria tão ou mais ansiosa que eu!
É pena, pois estou habituado a partilhar com ela todos os meus sentimentos e expectativas, mas devo reconhecer, não fosse por ela e papai, eu não teria reencontrado Cíntia.
Sim, posso dizer que foi um reencontro, pela conversa mantida com o senhor Álvaro...
Quando eu e Cíntia tivermos retomado a plenitude daquele amor antigo, e que ela tiver conhecimento das minhas lembranças e da razão de tê-la seguido, quero levá-la até o senhor Álvaro para que ele a conheça.
De repente, como que acordando de tantos pensamentos, ele fez novas indagações, mas relacionadas à realidade presente:
— Eu não posso levar tão longe as expectativas de um primeiro encontro!
Não sei o que poderá acontecer, não sei como Cíntia irá me receber, e não posso e não devo ter como certa a revivescência do nosso amor...
E se hoje seus sentimentos se modificaram, e ela apenas quer se encontrar comigo para ser gentil?
E se após o nosso passeio ela concluir que não devemos nos ver mais?
— Felício, Felício...
Coloque os pés no chão e mantenha o seu coração acobertado de ilusões! — exclamou para si mesmo.
Mas não são ilusões! — prosseguiu.
Tenho a certeza de que é a realidade, e eu não posso mais desejar resguardar meu coração, se ele está todo tomado por ela, se já nasceu trazendo esse amor de outras vidas!
Nada será contrário ao que espero...
Olhando para o relógio, verificou que era hora de retomar para casa, preparar-se para, às oito horas, pontualmente, estar diante do edifício onde Cíntia morava.
Concluíra que, profissionalmente, o seu dia havia sido muito pouco profícuo.
Em contrapartida, punha todas as esperanças no amor que confiava, já estava acontecendo.
Afinal — pensou ele, voltando para casa - a nossa existência é composta de um trabalho profissional ao qual nos dedicamos, mas o amor por alguém vem nos impulsionar e nos completar a vida, e não há mal nenhum em amar!
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 79717
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 18, 2018 8:09 pm

11 - REVIVESCÊNCIA DO AMOR
Felício preparou-se rapidamente.
O lar vazio dos pais não lhe oferecia o aconchego de sempre, apesar da solicitude e cuidados dos empregados em serviços domésticos, e ele saiu.
Muito antes das oito horas, já estacionava o carro defronte do edifício em que Cíntia
morava, e passou a aguardá-la.
Faltando um pouco para o horário combinado, ela apresentou- se diante dele, muito mais linda que na véspera.
O cansaço da viagem desaparecera de sua fisionomia e dera lugar a um frescor radiante, que, unido à alegria que demonstrava, tomara-a mais bela.
Quando Felício deixou o carro para cumprimentá-la, um certo constrangimento envolveu-os nos primeiros momentos, mas, ao perguntar onde ela desejava ir, Cíntia, com naturalidade, respondeu-lhe:
—Resolveremos depois, porque agora quero que suba comigo e conheça meus pais!
Eles ficaram ansiosos por vê-lo e desejo proporcionar-lhes essa alegria.
— Agora?! — indagou ele um tanto surpreso.
— Há algum impedimento para que os conheça?
— Nenhum. Se esse é o seu desejo eu a acompanharei!
Sem cerimónia, ela puxou-o pela mão, dizendo com alegria:
— Então vamos!
Não era exactamente o que ele esperava, mas compreendeu que seria melhor.
Não era Cíntia o seu amor e não pretendia ele estreitar aquele relacionamento para chegarem ao matrimónio?
Pois então, nada seria mais importante, diante das suas expectativas, que conhecer seus pais.
Quando a jovem abriu a porta com sua própria chave e introduziu-o na sala onde eles se encontravam, Felício teve mais uma surpresa.
Ao ser apresentado a seu pai, sua vontade era dizer que já o conhecia de outra vida, mas conteve-se e nada disse além das palavras de praxe para essas ocasiões.
Em relação à mãe, nenhuma sensação teve, nunca a vira.
Eles nem se sentaram!
Conversaram rapidamente, o suficiente para o pai de Cíntia indagar se ele era filho do senhor António José, ao que Felício, sem responder directamente, perguntou se ele conhecia seu pai.
— Somente de nome, pelos empreendimentos que realiza, nada mais!
— Pois agora trabalho com papai, e logo estarei à frente de todos os negócios.
Ele já está pensando em descansar um pouco, tanto que ontem embarcou com mamãe para a Europa...
— Viajar é muito bom quando podemos fazê-lo!
Actualmente tenho um filho residindo na Alemanha, mas ainda não pude visitá-lo...
— Ah, então foi de uma visita a seu irmão que você chegou ontem? — indagou Felício à Cíntia.
— Sim, os seus partiam e eu chegava.
Estava em férias do meu trabalho e passei quase um mês com meu irmão!
— Você precisa me falar sobre essa viagem!
— Vendo que a conversa se particularizava, Guilherme lembrou-os:
— Não iam passear?
Pois que o façam e não percam tempo com velhos! — exclamou jocosamente.
— Não diga isso, papai!
Vocês são meus amores, por isso quis que Felício os conhecesse.
Agora vamos ao nosso passeio.
Os dois despediram-se e retiraram-se.
Novamente, ao entrar no carro depois de acomodar Cíntia, Felício indagou:
— Pois então, onde vamos?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 79717
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 18, 2018 8:09 pm

— Em sua companhia estarei bem em qualquer lugar. Escolha você!
— Para mim, só estar aqui, conversando com você, me basta, mas não é conveniente...
Vamos dar uma volta e depois decidiremos.
Felício rodou por diversos lugares, mas, desejando estar mais liberado da preocupação do trânsito para calmamente admirá-la e conversarem, decidiu que iriam a um lugar aconchegante e agradável, onde ouviriam música e tomariam algum drink.
Cíntia concordou, e Felício, sabendo onde a levaria, dirigiu o carro em direcção ao local desejado, e em poucos instantes eram recebidos por um cavalheiro que lhes indicou uma mesa vaga, num lugar discreto.
Suave, mas alegre melodia era retirada de um piano a um canto do salão, por um rapaz ainda bem jovem.
— Não conhecia este lugar! — disse-lhe Cíntia, depois de acomodada.
— Pois agora aqui está, e comigo! — exclamou ele alegremente.
Sua companhia deixa-me feliz!
— Você mal me conhece!
— Mas tenho a impressão de tê-la conhecido sempre!
—É verdade, ontem você fez alguma referência nesse sentido!
— Quando se simpatiza com alguém como eu simpatizei com você, é essa a impressão que temos.
Contudo, você ainda nada me falou a seu respeito...
— O que deseja saber?
— Em primeiro lugar, a impressão que lhe causei...
— Confesso que ontem me surpreendi e achei sua atitude estranha, mas hoje estou tranquila!!
— De estar comigo?
— De estar com você neste ambiente tão agradável!
— Sem muita espera, Felício tomou-lhe as mãos nas quais depositou um beijo muito temo, e, levantando a cabeça, olhou-a nos olhos, dizendo:
— Você não avalia o quanto me faz feliz!
Cíntia também sentia-se feliz.
Parecia que seu coração estava despertando e, nesse despertar, um amor suave e temo brotava no seu âmago.
Vendo a atitude de Felício e sentindo a sinceridade de suas palavras, ela respondeu:
—Também estou experimentando, neste momento, estranhas sensações.
Sinto meu coração acordando de algum sono profundo, para receber a sua alegria em estar comigo!
— É o amor que volta aos nossos corações, querida!
— De que está falando?
— O coração foi feito para o amor e até hoje eu ainda não havia encontrado o meu; e se você sente o mesmo por mim é porque também não lhe sou indiferente!
É o amor que renasce, trazendo-nos essa alegria! — tentou explicar Felício, sabendo que ela não entenderia o alcance da suas palavras.
— Não sei me expressar desse modo, mas posso dizer que estou contente!
Sua companhia me é agradável, transmite-me bem- estar e uma alegria muito grande, fazendo-me desejar estar junto de você!
— Eu também sinto o mesmo!
— Não é estranho para um primeiro encontro?
— E se não for um primeiro encontro?
Se já estivemos juntos em outras vidas?
— Você crê que já vivemos outras vidas?
— Plenamente!
— Você pratica alguma religião que lhe dê essa crença?
— Creio que devemos esquecer esse assunto por agora!
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 79717
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 18, 2018 8:10 pm

Vamos nos deixar envolver por essa música e desfrutar desse momento de felicidade!
— Como quiser!
— Você disse que viajou em férias...
Em que trabalha?
— Trabalho numa companhia estrangeira, onde desempenho a função de secretária bilingue!
Meu irmão fazia parte da mesma companhia e foi enviado à matriz, na Alemanha, para trabalhar em condições tão boas que ele não pôde recusar.
Sempre tivemos facilidade com a língua e ambos falamos o alemão satisfatoriamente!
— Por isso esteve na Alemanha?
— Tinha muita vontade de conhecer esse país e aproveitei essa ocasião.
A Companhia facilitou-me a passagem de avião e não quis perder a oportunidade!
—Muito bem, então estou diante de uma secretária de grandes possibilidades?
— Realizo meu trabalho com dedicação e amor, junto dos directores, e cuido da correspondência mais relacionada a eles directamente.
Da correspondência de rotina, outras secretárias se encarregam.
Retomo ao trabalho amanhã!
Ficaria aqui com você, por muito tempo ainda, mas suponho que seja hora de voltar para casa.
— Eu a levarei, se me prometer que nos tomaremos a ver.
Não conseguirei ficar sem vê-la um único dia sequer!
— Amanhã é dia de trabalho, mas tenho as noites livres.
Já conhece meus pais e poderá me visitar em casa...
— Gostaria muito!
Simpatizei com eles, sobretudo com seu pai que foi muito atencioso comigo...
— Eu o esperarei.
Agora leve-me para casa!
Os instantes vividos pelos dois foram de muito enlevo, felicidade e alegria.
Para Felício, que retomava uma companhia tema e tão querida do passado, e para Cíntia, que sentia o amor nascer em seu coração, embora sem as lembranças tão claras.
Na noite seguinte, conforme o combinado, ele a visitou, e a convivência com sua família, não obstante algum constrangimento, no início, trazia-lhe a alegria que não estava desfrutando no seu lar tão vazio dos pais.
Sabia que eles haviam chegado bem, que lhes comunicaram, tranquilizando-o, mas desejava ter a mãe junto de si, para com ela falar sobre Cíntia a todo o instante, como se a tivesse mais intensamente em sua companhia.
Entretanto eles não estavam, e até que voltassem, ele esperava ter estreitado bastante os laços de amizade com os familiares da jovem, sobretudo com seu pai, e os laços de amor com Cíntia, que, da sua parte, sempre estivera em seu coração, mesmo que uma ou mais encarnações lhes tivessem interrompido a convivência.
Por diversas noites ele a visitou em casa, e algumas vezes a levara a passeio.
Até em visita a Magda ele a levara, desejoso de apresentá-la à irmã.
Nessa convivência feliz de passeios, visitas e colóquios de amor, pois Felício sentia que chegava ao coração de Cíntia cada vez mais, um mês passou.
Até em casamento ele se referira, e ela, assustada, achou prematuro aquele assunto, quando se conheciam há tão pouco.
Ele, porém, desejando convencê-la, respondeu-lhe, argumentando:
— O tempo não existe quando há amor! Se nos amamos, o que é um mês, um ano ou mesmo um dia?
Nada e tudo! Nada quando marca as horas de felicidade que temos juntos!
Tudo, quando estamos ausentes um do outro, vendo-o arrastar-se com lentidão, até chegar outro momento em que ele adquire asas e voa, se nos encontramos!
— Você tem comparações estranhas e surpreendentes!
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 79717
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 18, 2018 8:10 pm

— Não é a primeira vez que se refere a mim como estranho!
Por que? Por que a amo e desejo estar para sempre em sua companhia?
O tempo é muito frágil e, às vezes, pode nos aprontar alguma, separando-nos!
Por isso, quero me unir a você no espaço de tempo mais curto que houver!
O meu amor não nasceu quando a vi no aeroporto!
Eu já a esperava de há muito, por isso não quis perdê-la naquele instante e acompanhei-a até a sua casa!
— Como esperava-me, se nunca nos havíamos visto!?
— Eu lembro-me de você de outras vidas!
— Outra vez com o mesmo assunto!
— É a minha crença, são minhas lembranças!
Qualquer dia devo lhe contar um acontecimento que irá provar que vivemos outras vidas! Você não acredita?
— Nunca pensei nisso...
Papai gosta de certas leituras que falam sobre esse assunto, e, às vezes, comenta comigo e mamãe!
— E vocês não acreditam?
— Ouvimo-lo falar, explicar, mas não temos provas de nada...
— Quem crê, não precisa de provas, mas, para os incrédulos, existem fatos atestando que vivemos muitas vezes!
— Fale-me de um, apenas!
— Quando meus pais voltarem, vou apresentá-los a você, e mamãe tem um fato muito importante e significativo que vem provar o que estou dizendo!
— Você mesmo não pode me contar!
— Logo eles estarão de volta!
Mais duas semanas, você irá conhecê-los e mamãe lhe contará!
Se eu falasse, talvez não cresse!
— Como seus pais irão me receber?
Percebo que você tem uma ligação muito grande com eles, sobretudo com sua mãe, e as mães são ciumentas dos filhos!
— Mamãe não é assim!
Ela preocupava-se comigo, dizendo que não podemos ser felizes sem amor!
—Ela tem razão.
Sinto que passei a ser feliz, somente depois de perceber que o amava!
— É uma confissão de amor?
— Acredito que não!
Você já sabia dos meus sentimentos!
— Eu também estou muito feliz pelo amor que sinto e pelo que recebo de você!
O tempo, que decorre célere para os felizes, transcorreu rapidamente para António José e Linda, que passeavam, e rápido também para Felício, que, não obstante sem a companhia querida dos pais, conhecera o alento e o pulsar de um coração que ama.
Quando ele foi avisado do retomo dos pais, que pediam, mandasse o motorista esperá-los no aeroporto, ele decidiu que iria pessoalmente, dispensando os serviços do profissional, mas convidou Cíntia para acompanhá-lo.
Ela, também desejosa de conhecê-los, contudo um tanto receosa, convenceu-o de que não deveria ir.
— Será melhor que eu não vá!
Sei como é a chegada de uma viagem.
O cansaço das longas horas de voo traz-nos o desejo de rapidamente nos dirigirmos para casa, nos refazermos com um banho bem agradável e descansar.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 79717
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Conteúdo patrocinado


Conteúdo patrocinado


Voltar ao Topo Ir em baixo

Página 3 de 5 Anterior  1, 2, 3, 4, 5  Seguinte

Voltar ao Topo


 
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum