Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 18, 2018 8:10 pm

Depois, eles terão muito o que lhe contar!
— Você não está ansiosa para conhecer meus pais?
— Justamente por isso!
Quero conhecê-los quando já souberem da minha existência, num momento de serenidade, para podermos conversar sem os atropelos de uma chegada de viagem.
— Compreendo, mas gostaria da sua companhia!
—Por você eu iria se fosse outro o motivo, mas para conhecê-los, não será o momento!
Magda não irá?
— Ainda não a avisei !
— Pois então avise-a e vá com ela e seus filhos, receba-os com alegria, e depois, quando eles estiverem em casa, descansados, fale a meu respeito.
Quando sua mãe manifestar desejo de me conhecer, eu irei!
— Está bem!
Você sempre pensa em tudo...
— Tenho que pensar, pois é a minha felicidade que está em jogo.
— Não entendi!
— Muito simples.
Não desejo deixar perder um momento tão importante!
Ter a simpatia e a amizade de seus pais, significa muito para mim...
— E outra confissão de amor!
— Sempre que tenho oportunidade eu confesso o meu amor por você.
Só lhe faço um pedido...
— Pois que o faça!
— Não vá se entusiasmar por alguma garota que chegue de viagem, deixando seus pais para segui-la...
Felício sorriu da sua lembrança e, abraçando-a ternamente, falou-lhe:
— Você sabe que depois que eu a reencontrei, não vejo mais nenhuma delas, pois meus olhos e o meu coração só vêem você, minha querida!
— Insiste em falar em reencontro!
— É o que eu sinto e tenho esperanças de que você, um dia, também se lembre de mim...
—Eu lembro-me de você todos os instantes de todos os dias...
— Agrada-me ouvir isso, mas entendeu-me bem!
— Que importa se é um reencontro ou um conhecimento recente se nos amamos?
— É importante, pois, se já estivemos juntos em outras vidas, amamo-nos e agora nos reencontramos, fazendo esse amor reacender, é porque ele está cristalizado em nosso Espírito.
Assim, depois desta existência^ poderemos nos reencontrar ainda muitas vezes em outras, basta que o mereçamos.
— Preocupemo-nos com esta que estamos vivendo, com a felicidade e o amor que sentimos, e deixemos o que passou, sem nos preocuparmos com o que há-de vir!
— Tem razão, minha querida, mas é que a amo tanto e saber que esse nosso amor pode transcender a nós mesmos, nesta vida, e tomar a brotar em outra, faz-me mais feliz ainda!
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 18, 2018 8:10 pm

12 - REVELAÇÕES
À hora determinada já encontrou Felício, Magda e os filhos, no aeroporto.
Assim que o avião pousou, a ansiedade em vê-los foi maior, mas o desembaraço da bagagem sempre toma algum tempo.
Quando surgiram à porta que dava saída aos
passageiros, o momento foi festivo.
As crianças correram para abraçar os avós, enquanto Felício e Magda aguardavam, concordando que eles haviam chegado mais felizes e mais descansados.
Era natural, depois de quase dois meses de passeio, um vivendo para o outro no grande amor que os unia e que mais se estreitou naquela convivência longe dos filhos e dos netos.
Abraços efusivos, Felício desejando ajudar com a bagagem, e o motorista que havia levado Magda com as crianças também demonstrava sua satisfação em recebê-los.
Ocupado em acomodar as malas, perguntou em que carro as colocaria.
Magda, antecipando-se, respondeu:
— Em qualquer um, pois vou acompanhá-los!
— Mas papai e mamãe irão comigo, no meu carro! — exclamou Felício.
Em casa, depois da bagagem descarregada, muito maior do que ao partirem, Linda considerou:
— É muito bom passear, mas é bem melhor voltar para casa, junto dos nossos!
— Não gostou da viagem, mamãe? — indagou Magda.
— Foi a melhor que realizei em minha vida, pois tive seu pai constantemente a meu lado, sem preocupações com negócios!
Foi como se revivesse a minha lua-de-mel, mas de um modo mais agradável pela solidez de sentimentos que nos une...
— Mamãe e papai sempre românticos e sempre se amando!
— António José, que ouvira essa afirmação do filho, respondeu:
— Nascemos um para o outro, e eu não seria o que sou, não fosse Linda!
— Está ouvindo, mamãe? — perguntou Felício de um modo travesso.
E, prosseguindo, disse-lhes:
— Quando estiverem descansados, tenho uma revelação a lhes fazer...
— De que se trata, filho?
Como foi o trabalho na minha ausência?
— O senhor mesmo avaliará, mas pode ficar tranquilo que correu tudo bem!
Se quiser, pode pensar em descansar, tomando mamãe mais feliz com a sua companhia...
— É o que estou aguardando! — interferiu Linda.
Mas você falou em revelação...
— Eu sei o que é, mamãe, mas deixarei para Felício contar!
— Será o que estou pensando, filho?
— Ainda não adivinho pensamentos, mamãe, mas a senhora ficará feliz!
— Então, por que deixarmos para depois se podemos ficar mais felizes agora?
— Adianto-lhes apenas que encontrei o meu amor, mas as circunstâncias e outros detalhes ficarão para outra hora...
— Então há uma história atrás desse amor!
— Sim, uma história, mas não vamos entrar em pormenores, agora, quando tanto têm a nos contar da viagem!
Os netos indagavam, Magda queria saber muito, e o assunto foi temporariamente desviado.
A retirada de Magda e os filhos, Linda e António José pretendiam se recolher para um descanso, e Felício, que sairia para algumas providências no trabalho, afirmou-lhes:
— Quando voltar para o almoço, conversaremos bastante!
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 18, 2018 8:11 pm

As narrativas da viagem continuaram durante aquele ensejo, mesmo entrecortadas pela refeição, mas, ao final, eles se retiraram para a sala de estar, e Linda, chamando o filho, pediu-lhe:
— Venha sentar-se junto de mim e conte-me sobre o amor que disse ter encontrado.
Fiquei contente mas preciso saber quem ela é e se realmente o fará feliz...
— Eu já sou o homem mais feliz sobre a face da Terra!
— Quem é ela para tê-lo transformado em tão pouco tempo?
— A história remonta a um tempo muito longínquo!
— Não está falando de Cíntia, está?
— Justamente dela!
E sabe como se chama hoje?
— Não vá me dizer que o nome é o mesmo?
— O mesmo, mamãe!
— Por isso você se impressionou, filho! — interveio o pai.
Tome muito cuidado para não criar sentimentos em cima de lembranças... -
— Não os estou criando, mas apenas revivescendo-os!
— Como pode ter certeza?
— Vou contar como aconteceu e posso lhes assegurar que, o tê-la encontrado, devo a vocês!
— A nós que estávamos ausentes!? — perguntou a mãe, admirada.
— Eu a encontrei no dia em que os levei ao aeroporto...
— Então não sentiu a nossa ausência?
— Mais do que possam imaginar!
Não tinha com quem conversar sobre o que estava acontecendo, e acabei por ir à Casa Espírita para poder conversar com alguém.
Lá encontrei o senhor Álvaro, lembram-se dele?
— Nós o vimos algumas vezes proferindo palestras.
Conte- nos exactamente o que aconteceu, o que sentiu, sem omitir nada e sem dar saltos na narrativa!
Linda ansiava pelos detalhes e Felício, tomando como ponto de partida o momento em que deixava o aeroporto, contou, pormenorizadamente, cada minuto, revivendo-os e alegrando-se com as recordações.
Nem António José nem Linda o interromperam, e ele chegou até a hora em que ela recusou esperá-los, diante dos motivos que expôs.
— Parece-me, filho, pelo que nos contou, que ela também o ama e deseja preservar esse amor.
— É o que sinto, mamãe!
— Mas ela não tem as mesmas lembranças que você tem!
— Não directa e nitidamente, porém, se penetrei com tanta rapidez em seu coração, é porque ela também, inconscientemente, me amava e me aguardava.
— É possível, é possível...
Mas o que ela diz dos seus sentimentos, das suas recordações?
— Sou cuidadoso...
Contudo, às vezes, não consigo ficar calado, e ela considera-me estranho!
— Vá com cuidado, filho, se não quiser perdê-la!
— Eu não a perderei, a menos que ela seja levada de mim como já o foi...
— Nada se repete com tanta identidade!
— Penso não ter comentado, mas vejo, no pai de Cíntia, o mesmo soberano daquela época, que a amava muito e se abateu bastante com a sua morte!
— Disse-lhe isso, também? — indagou o pai.
— Nada mencionei.
Nesse particular, consegui me conter, mas sinto um carinho muito grande por ele.
Tanto seu pai quanto sua mãe a amam muito e os três vivem felizes.
— E quando vamos conhecê-la? — indagou Linda.
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 18, 2018 8:11 pm

—Por mim, agora mesmo!
Mas respeito o cansaço que ainda sentem e aguardarei que me autorizem a trazê-la, assim que se sentirem dispostos...
— Estou curiosa! — exclamou Linda.
— Ela é muito bonita, mas não foi sua beleza que me atraiu.
Se a tivesse encontrado, mesmo não sendo tão atraente como é, não me importaria, pois vejo nela o Espírito, aquele mesmo que amo há séculos!
— Por isso ela o considera estranho! — manifestou-se o pai.
— Só faço esses comentários com vocês que me entendem e sabem das possibilidades que eu trouxe.
Quando a conhecer, mamãe, desejo que lhe conte o que aconteceu com o outro Felício, fale do meu nascimento e dessas possibilidades que se manifestaram em mim desde criança...
— Já falou sobre esse assunto com ela?
— Cíntia parece não se interessar muito pelos preceitos da religião que professamos, e, um dia, ao lhe falar que vivemos muitas vidas, ela pediu-me provas.
Eu nada revelei para que ela não me julgasse mais estranho ainda, mas adiantei-lhe que a senhora teria um caso para lhe contar.
—Cada assunto vem a seu tempo e eu não poderei falar nessas particularidades à primeira vez que ela entrar nesta casa.
§§ Vai depender do andamento da conversa.
Se algum momento propício se fizer, a senhora poderá aproveitar...
— Quando a trará, então?
— À hora que me autorizarem...
— Poderíamos combinar um jantar.
— Sem nenhum outro convidado! — exclamou Felício.
— Certamente.
Se convidássemos outras pessoas, perderíamos a oportunidade de conhecê-la melhor.
Que tal marcarmos para sábado?
— Está óptimo, mamãe!
—Em nosso nome, você a convidará...
Preciso examinar bem a quem vou entregar meu filho!
— Está com ciúme?
— Não, filho... Por mais que ela o ame, o amor de mãe é diferente, e o meu lugar não será tomado! Mas sou cuidadosa e quero ver se ela o fará feliz!
Linda ficou pensativa, embora satisfeita.
Confiava no filho e tinha esperanças de que Cíntia era a moça que o faria feliz.
Acreditava no que ele dissera, pois tinha comprovadas as suas possibilidades e fora testemunha de fenómenos que atestavam a veracidade das suas afirmativas.
Por que não confiar no que ele dizia?
Se o episódio do desenho do castelo, vivido por eles no lar, fora tão marcante dentro do conjunto das recordações de outras existências vivenciadas por Felício, por que ter dúvidas de que a Cíntia de agora não fosse a mesma de então?
Dúvidas, ela não tinha nenhuma!
Restava-lhe apenas conhecê-la e verificar se ela merecia o amor de seu filho e se o faria feliz.
Um outro pensamento tomou-lhe a mente:
Se naquela época a jovem Cíntia o amava e era uma boa moça, conforme Felício a fizera crer, por que não o seria no presente?
Se naquela ocasião não se uniram apenas porque ela fora levada em retomo ao Mundo Espiritual, e Deus, na sua misericórdia e amor, permitiu que se reencontrassem, não iria levá-la novamente e nem deixar que outro motivo os separasse.
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 18, 2018 8:11 pm

Felício, talvez, não resistisse à nova separação.
Teriam eles tantos débitos para que novamente se reencontrassem e fossem separados?
É muito difícil que duas situações se repitam de forma semelhante, e ela esperava ver o filho consolidando uma união de amor com alguém que o fizesse feliz, e Cíntia era, no momento, naquela existência, a pessoa indicada.
Muitos pensamentos Linda formulou enquanto aguardava a hora de conhecê-la, alguns dos quais expôs a António José, ouvindo dele, também, seus receios, preocupações e esperanças.
*******
Linda que fora uma exímia anfitriã no tempo em que as recepções eram uma constante
em sua casa, ainda guardava a mesma habilidade e finesse, e preparava o jantar com todo o requinte que a sua posição e a ocasião requeriam, ao mesmo tempo com simplicidade para deixar a jovem à vontade.
Seria uma reunião de alegria, cordialidade, através da qual eles poderiam conhecê-la, pois, num tempo não muito distante, ela faria parte da família como esposa de seu querido filho.
Felício estava ansioso, e, algum tempo antes do combinado para o jantar, ele foi buscá-la.
Ela, não menos preocupada, já o esperava e, sem demora, chegaram.
Linda e António José receberam-na com cordialidade, e o primeiro momento foi de satisfação.
Linda achou-a muito bonita, e o constrangimento natural, sobretudo de Cíntia que enfrentava uma situação muito importante, da qual dependia o seu futuro junto com Felício, foi-se desvanecendo e o bem-estar envolveu a todos.
Conversas amistosas marcaram o início daquele encontro, tendo sempre a direcção da anfitriã, que conduzia os assuntos e criava outros, para que nenhum silêncio perturbador tomasse conta do ambiente.
Logo que ela foi avisada de que o jantar estava servido, António José convidou Cíntia, oferecendo-lhe o braço para conduzi-la à mesa, o mesmo fazendo Felício que ofereceu seu braço à mãe.
O jantar transcorreu dentro de muita cordialidade, sem tantas etiquetas, proporcionando a Felício a alegria de ver Cíntia bem recebida entre os seus.
A jovem, por sua vez, depois do primeiro constrangimento, foi-se integrando na família daquele que aprendera amar, ou que já amava de há muito, sem saber.
Depois de um encontro com tanto calor humano, tão fraterno e amigo, Cíntia retomou em visita aos pais de Felício, por diversas vezes.
Em uma delas, o jovem pediu à mãe que narrasse o que havia acontecido com seu outro filho Felício, falando do seu próprio nascimento, das suas recordações, e enquanto ela o fazia, até o antigo álbum de fotografias foi mostrado à Cíntia, para melhor ilustrar a narrativa.
Ela ouvia surpresa, compreendendo o que Felício, vez por outra, lhe sugeria, sem ser tão explícito.
Ao término da exposição, ele pediu o seu parecer sobre aquela situação, e a jovem, sem conseguir fazer seu próprio julgamento, respondeu:
— Gostaria que papai estivesse aqui para ouvi-la, dona Linda!
— Não faltará oportunidade para que nos encontremos, e, um dia, poderemos até voltar a esse assunto, que o temos muito marcado, por tudo o que nos envolveu, justamente a nós, que nada sabíamos nem compreendíamos do que se passava.
Depois de mais algumas considerações, a própria Linda prosseguiu, dizendo ao filho:
— Pena, Felício, que não temos o desenho do castelo, assim como temos as fotografias, não é mesmo?
— De que falam? — indagou a jovem.
— Já saberá em instantes! — respondeu-lhe Felício, que, voltando-se à mãe, considerou:
—Depois de tantas provas, Cíntia acreditará em nós, mesmo que não mostremos o castelo...
— Estou ficando curiosa...
De que castelo falam?
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 19, 2018 8:39 pm

— Qualquer dia vou tentar desenhá-lo novamente para lhe mostrar, querida, e sem a ajuda de papai!
Agora também sou um engenheiro e saberei construí-lo no papel, com as lembranças que ainda estão gravadas em mim. Mas fale, mamãe, que Cíntia está curiosa.
Com bastante cuidado, Linda foi contando a história da confecção do desenho, primeiramente, como resultado das lembranças do filho, até chegar ao seu interior junto das pessoas que nele conviviam, concluindo com o acontecimento que envolveu a jovem, filha do soberano do castelo.
Para Cíntia, era uma história de ficção que estava sendo narrada, e em nenhum momento ela se sentiu como aquela que assumira o compromisso de casamento com o jovem que amava, e que depois adoecera e partira da presença de todos.
— Creio no que me dizem pelos antecedentes da outra narrativa, mas não me sinto naquela época e nem tenho nenhuma lembrança.
— Ninguém as tem, filha! — exclamou António José.
Você já imaginou se cada ser humano, encarnado na Terra, tivesse as lembranças de suas existências pregressas?
Já imaginou como seria o mundo?
No caso de vocês, as lembranças de Felício são de amor e lhe dão alegria e prazer, mas se tivéssemos todas as lembranças, muito ódio seria revivido, e a face da Terra seria um campo de lutas muito mais acirrado, com graves consequências, e o progresso espiritual seria impedido!
— Deus proporciona-nos o esquecimento para que possamos sempre recomeçar, sem as lembranças das desavenças, ódios e prejuízos, tanto os que praticamos quanto os que sofremos!
Só assim o nosso Espírito progride, redimindo-se, modificando-se e aprendendo cada vez mais os ensinamentos de Jesus, para que a Terra, um dia, esteja toda transformada.
— Papai tem essas mesmas ideias!
— E você, não? — indagou Felício.
—Nunca me preocupei com esse assunto, mas tenho-o como bastante lógico e mesmo sábio!
— Tudo o que parte de Deus, nosso Pai, é sábio!
Ele é a sabedoria suprema! — tomou Linda.
— Por que Felício, então, teve essas recordações?
— Não sabemos ainda como se processam no seu Espírito, e nem o que ele trouxe consigo para que elas ocorressem, mas temos para connosco, conforme nos foi explicado, que, vez por outra, Deus permite que alguns de seus filhos tragam tais recordações para provarem a seus outros filhos que não vivemos uma única existência. — explicou António José.
— E qual a finalidade desse conhecimento?
—O nosso próprio aprimoramento, a compreensão da Justiça Divina quanto às diferenças sociais e humanas, tanto de inteligência quanto de outras possibilidades, a fim de que, por nós próprios, promovamos o nosso progresso!
Sabe que a evolução espiritual de cada um de nós só a nós pertence!
Por mais amemos alguém, não podemos progredir por ele, mas podemos ajudá-lo a que ele promova a sua evolução!
— A sabedoria de Deus que quer todos os seus filhos evoluídos e perfeitos, para deixarem de sofrer, cuidando das próprias acções, é infinita.
Cíntia ouvia, ora Linda ora António José, e ia absorvendo todos os conceitos emitidos, sentindo, ao mesmo tempo, um bem- estar muito grande em conviver com aquelas pessoas que manifestavam sua crença com franqueza e humildade, sem receios nem vergonha, como muitos o fazem, sobretudo aqueles mais bem posicionados económica e social mente na vida, e, sem saber o que dizer, manifestou-se com poucas palavras:
— Sinto-me bem entre vocês!
— E nós também, de a termos connosco! — exclamou Linda.
Oxalá, num tempo muito curto, você e Felício possam se unir em casamento e você venha a fazer parte em definitivo da nossa família.
— Alegra-me ouvir isso da senhora, dona Linda!
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 19, 2018 8:39 pm

13 - UM PASSADO QUE RETORNA
O relacionamento entre Cíntia e os pais de Felício estava solidificado e nada mais precisariam esperar para que a data da união fosse marcada.
Contudo, as famílias ainda não se conheciam e era importante que se encontrassem para que o pedido formal de casamento fosse efectuado em presença de ambas as partes.
Assim decidido, ao invés de António José e Linda visitarem os pais de Cíntia, o que fariam oportunamente, mandaram convidá-los para um jantar em família, ocasião em que Felício efectuaria o pedido oficial.
Magda e o marido, juntamente com seus filhos, também foram convidados, e a reunião se efectuou com simplicidade mas bastante alegria.
Entre entendimentos e planos, ficou estabelecido que, em três meses, o casamento se realizaria, completando seis, desde o momento em que se conheceram, não obstante sabemos que o conhecimento entre os dois que se uniriam, datava de muitos séculos, quiçá milénios.
Cíntia já aceitava bem o que Felício lhe dizia, e até fazia perguntas, às vezes, desejando algum esclarecimento a mais, e acabou por tomar conhecimento de que seu pai, também, era o mesmo daquela época.
Numa outra oportunidade, esse mesmo assunto foi ventilado diante dele, numa das suas visitas.
Três meses de preparação, de esperanças de felicidade, de expectativas para a reunião que realizariam para a cerimónia, de planos para a viagem de lua-de-mel; a confecção do vestido de noiva, o término do enxoval, a preparação da nova residência que os receberia, tudo foi realizado com carinho e esmero.
O que dependia da família de Felício, ficou sob a responsabilidade de Linda e, constantemente, Cíntia a consultava sobre algum detalhe, acatando a sua opinião.
Afinal, diante de tantas providências e ocupações, não vemos o tempo passar, mas ele, sem se importar connosco ou com nossos problemas ou ansiedades, segue seu curso, indiferente, e os três meses se completaram.
Foram expedidos poucos convites, somente para os parentes mais próximos e os amigos mais íntimos, pois os noivos pediram uma cerimónia simples.
Uma grande viagem os aguardava, e, para eles, era mais importante que qualquer cerimónia pomposa.
O irmão de Cíntia conseguiu vir da Alemanha e também esteve presente, contudo não lhe foi possível trazer a esposa e os filhos, que Felício conheceria por ocasião da viagem que realizariam por alguns países da Europa.
O amor de Felício, que revivescera do antigo conhecimento com Cíntia, multiplicara-se muitas vezes, e ele amava-a cada vez mais.
O receio antigo de perdê-la sempre rondava a sua mente, mas, com a concretização do casamento, parece que se desvaneceu por completo.
Era como se uma barreira muito perigosa tivesse que ser transposta, e, ao fazê-lo, nenhum perigo mais os ameaçaria. Por isso ele estava tranquilo, feliz e esperançoso.
Um pouco antes da data do casamento, Felício quis levar sua noiva para que o amigo Álvaro a conhecesse e convidá-lo para a cerimónia.
Não foi esquecido o que ele prometera, e confirmando a sua promessa, disse-lhe:
— Depois do casamento, quando retomarmos da nossa lua-de-mel e já estivermos instalados em nossa casa, voltaremos a conversar.
Eu o autorizarei a relacionar a nossa história no rol das que fazem parte das suas pesquisas, sem que nossos nomes sejam citados, é evidente, para que não sejamos alvos da curiosidade alheia e tenhamos problemas com os mais curiosos.
— Compreendo, e assim será!
Nada farei que não me seja permitido.
Trabalhamos com pesquisas, mas cada uma envolve seres humanos que devem ser respeitados e tratados com a caridade que a nossa Doutrina impõe.
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 19, 2018 8:39 pm

******
Os sonhos estavam concretizados, e a alegria era tanta, a felicidade de tê-la consigo por toda a vida, fazia com que Felício não acreditasse no momento que estava vivendo.
Todavia, a realidade comprovava a sua veracidade.
Estavam casados e prontos para partir em viagem de lua-de-mel!
Cíntia conseguira uma licença em seu trabalho, até que tomasse uma resolução definitiva.
Para Felício, ela não mais trabalharia, não tinham necessidades financeiras e, no lar, vivendo só para ele e para os filhos que esperava, chegariam, era o seu verdadeiro desejo.
Cíntia, porém, gostava do trabalho que realizava e pretendia prosseguir por mais algum tempo, pelo menos enquanto estivessem sozinhos.
Sua casa estava toda preparada, Linda providenciara a contratação de empregados domésticos, recomendados por alguns que já a serviam, e Cíntia sentir-se-ia inútil se nada fizesse.
— Quero-a só para mim!
Quero chegar em casa e encontrá-la esperando-me para receber o seu abraço e o seu beijo de saudade, pelas horas que estivemos separados! —justificava Felício.
— Nada será diferente do que imagina, e a cada dia me farei mais bonita para esperá-lo, entretanto, se estiver trabalhando nas horas em que você me deixar só, sentirei- menos a sua falta...
— Não poderei proibi-la de fazer o que deseja, que não tenho esse direito, mas prometa-me, quando o nosso primogénito anunciar a sua chegada, você deixará o emprego!
— Quando esse momento chegar, veremos o que fazer.
Eu sou importante no trabalho que realizo!
—Muito mais importante você é para mim, e, no seu trabalho, qualquer outra sentir-se-á feliz em ter o seu lugar, mas, para mim, você é insubstituível...
— Você sabe, querido, o quanto o amo, e o meu maior desejo é satisfazer todas as suas vontades, mas, por enquanto, ainda continuarei a trabalhar!
Depois decidiremos como fazer...
O meu trabalho traz-me alegrias e satisfação, mas a sua companhia é tudo o que mais quero, e nada farei para privar-me dela.
Não saberei mais viver sem você!
— Estaremos juntos para sempre!
Envelheceremos juntos e teremos, ao nosso redor, nossos filhos e nossos netos...
— Já está pensando até nos netos?
— Para mostrar o quanto espero dessa nossa vida em comum, desse amor que sentimos...
A felicidade de ambos era plena.
As alegrias que tiveram durante a viagem foram muitas.
Os lugares antes visitados por Cíntia ganharam outra aparência.
Tomaram-se mais belos, as pessoas pareciam mais sorridentes e cordiais.
Quando se é feliz, o tempo cria asas e nelas nos envolvem, levando-nos consigo, voando rápido, e assim, o período de que o casal dispunha para a viagem completou-se e eles regressaram.
Linda e a mãe de Cíntia, juntamente com as criadas contratadas, prepararam a casa, transportaram e guardaram os presentes, e deixaram-na pronta para recebê-los.
As modificações Cíntia faria posteriormente, a seu gosto.
Da chegada do casal, Linda reuniu todos os familiares — os pais de Cíntia e a família de Magda para um jantar de recepção, durante o qual eles contaram todas as peripécias da viagem, demonstrando sempre, em qualquer detalhe das narrativas, o quanto estavam felizes.
Terminada a reunião, eles partiram para sua casa, onde começariam a enfrentar a realidade do casamento, com suas alegrias, problemas e a rotina que sempre se faz.
Cabia aos dois, porém, cuidar para que essa realidade fosse sempre enfrentada, como se um sonho ainda estivesse sendo vivido em cada minuto, para nunca quebrar o encanto.
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 19, 2018 8:39 pm

É muito difícil para um casal que se une em matrimónio pelos laços do amor, ainda mais quando vem de existências passadas, sentir-se infeliz.
São só alegrias e esperanças que um desfruta na companhia do outro, compartilhando de todos os momentos, para que nenhum fique alheio a tanta felicidade.
Felício e Cíntia, sentindo cada vez mais o amor se consolidar na convivência intensa do dia-a-dia, do minuto a minuto, não fugiam a essa regra.
Não haveria, sobre a face da Terra, alguém que se sentisse mais feliz que eles.
Não seria possível haver felicidade maior.
O reencontro no horário do almoço e no final do dia era sempre aguardado com esperanças renovadas.
Os dois se completavam, como se tivessem nascido um para o outro, somente para serem felizes.
Diante disso, nada mais desejavam senão desfrutar da plenitude desse amor, mas não pelo receio de que um dia ele pudesse terminar, que nisso não pensavam. Como um amor tão intenso poderia se extinguir?
Entretanto, não é só a extinção do amor que perturba o bom relacionamento de um casal.
A vida, com tudo o que traz preparado, apresenta surpresas nem sempre agradáveis.
Sem que o amor termine ou seja estremecido por uma contingência menos feliz, há outros motivos que podem abalar a vida dos que desfrutam de tanta felicidade.
Parece heresia falarmos em tristezas, em preocupações, em surpresas infelizes que a vida apresenta, quando estamos tratando de momentos tão venturosos.
Todavia, não somos nós os criadores da felicidade ou os promotores da desventura, pois nos cabe apenas a narrativa e nada mais.
Aquela preocupação primeira de Felício, em relação à Cíntia que lhe deixara há séculos, não existia mais.
Não havia tempo para nela pensar.
Eles tinham conseguido realizar o sonho do qual foram impedidos naquela ocasião e nada mais importava.
Desse modo, a vida de ambos prosseguia, cada um exercendo suas funções profissionais, mas Felício já estava ansioso para que o prolongamento do amor que os envolvia, pudesse se manifestar num entezinho muito querido que lhes encheria os braços e o coração de maior felicidade.
No entanto, o tempo estava passando e ele não se fazia anunciar.
Felício já administrava inteiramente as empresas da família, e António José descansava junto da esposa, em viagens, passeios, ou recolhido na paz doméstica, nos intervalos em que nenhuma actividade recreativa fora do lar se apresentasse.
Constantemente ele inquiria Cíntia sobre esse seu desejo, e ela, sem mais saber o que responder, depois de mais de um ano de feliz união, decidiu procurar um médico para lhe dar alguma orientação ou até promover um tratamento, se necessário fosse.
A felicidade do seu lar não deveria ser abalada pelo desejo não satisfeito do marido, e que era também o seu.
— Eu a acompanharei! — manifestou-se Felício, à decisão da esposa.
— Não há necessidade, mamãe o fará!
Não precisa prejudicar seus afazeres por isso...
— Nada que eu fizer para estar com você, ainda mais num momento desses, será em prejuízo dos meus afazeres, mas uma alegria, uma obrigação.
— Se assim pensa, sentir-me-ei mais tranquila e segura em sua companhia.
E se algum tratamento ou orientação houver, convém que estejamos juntos.
— Pode marcar a consulta que eu a levarei, seja quando for!
Cíntia marcou a consulta e o marido acompanhou-a.
Exames foram realizados, e verificado foi que nada de tão anormal havia.
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Ave sem Ninho

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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 19, 2018 8:40 pm

Que ela esperasse, pois de um momento para outro, teria a surpresa que tanto aguardava.
Quando as expectativas se transformassem em certeza, que ela retornasse para um acompanhamento e orientação, a fim de que o seu filho lhe chegasse aos braços, sadio, sem problemas, e ela, também, continuasse com toda a sua integridade física para cuidar dele.
Alguns outros aconselhamentos foram efectuados, inclusive quanto à postura mental, para que não aguardassem com tanta ansiedade, mas deixassem acontecer naturalmente, facilitando a concretização do tão ansiado desejo.
Mais confiantes, pois nenhum problema mais grave fora diagnosticado, eles deixaram o consultório médico e, como ainda dispunham de tempo, Felício decidiu visitar os pais.
Depois de alguns meses, durante os quais nenhuma surpresa nesse particular lhes fora feita, um dia, Cíntia começou a sentir sensações estranhas e diferentes de tudo o que já havia sentido antes, e, desconfiada, disse ao marido:
— Não sei o que vem se passando comigo, mas imagino que o que tanto esperamos já esteja acontecendo!
— Como sabe?
O que vem sentindo?
— As mulheres têm, nessas circunstâncias, além de sintomas diferentes, uma intuição mais profunda do que pode ser! Sinto que o nosso desejo será satisfeito...
— Então está na hora de retomarmos ao médico para termos a certeza!
— Certeza, eu diria que a tenho, mas é bom ouvirmos a sua palavra, e, se for realmente verdade, acatar as suas orientações.
A partir daquele instante, outros pensamentos passaram a invadir a mente do feliz casal, enchendo-lhes o coração de esperanças, e uma ternura muito grande começou a fazer parte dos seus sentimentos.
A consulta foi marcada, as orientações e prescrições, passadas, assim como os cuidados e
advertências, com tudo o mais que pudesse contribuir para que Cíntia tivesse uma espera serena e saudável, até que seu filhinho pudesse ser colocado em seus braços.
As famílias de ambos os lados foram notificadas, as alegrias redobraram, os preparativos começaram a ser efectuados e o tempo foi passando.
Felício convenceu Cíntia a deixar o emprego, que assim haviam combinado anteriormente e, no seu lar, o filho que se anunciava, tomava quase todas as conversas e envolvia grandes providências.
O enxolvalzinho, a decoração de seu quarto, os cuidados com a futura mãe, tudo era motivo de alegria.
As consultas regulares ao médico estavam sendo efectuadas, e, durante uma delas, depois de alguns meses, foi diagnosticado pequeno problema envolvendo a mãe, motivo pelo qual muitas recomendações foram feitas, consultas mais constantes recomendadas, e todos ficaram alarmados.
Cíntia tranquilizava-os, dizendo que nenhuma sensação diferente havia sentido até então, e que não se preocupassem.
Tanto ela quanto o bebé estavam bem, portanto, nenhum cuidado maior deveria inquietá-los.
Felício, sem mesmo desejar, retomou seu pensamento, antes acomodado, àquele outro período de sua convivência com Cíntia, quando ela lhe fora levada, e preocupou-se mais ainda.
Sem nada mencionar à esposa, procurou a mãe e desabafou seus receios.
Linda, sempre com sua palavra de conforto, reanimou-o e devolveu-lhe a esperança, advertindo-o para que não se deixasse levar por ideias inadequadas, num período que deveria ser somente de alegrias e pensamentos salutares, direccionados ao Espírito que se encontrava junto da mãe, no novo ser que se formava, para que nada se agravasse e viesse a prejudicá-la.
Felício compreendeu e procurou esquecer, esforçando-se para demonstrar tranquilidade e alegria, mas Linda sabia o quanto ele estava preocupado, receando perder o seu amor novamente.
O que poderia fazer o jovem casal para que aquelas preocupações se desvanecessem de vez?
Nada, além de esperar, porém, agora, de modo diferente!
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 19, 2018 8:40 pm

É óbvio que os cuidados com Cíntia estavam sendo redobrados, até constrangendo-a, porque ela nada sentia além do que vinha sentindo antes.
Os poucos meses para o nascimento estavam sendo de muitos cuidados, mas de aparente tranquilidade, para não levar inquietação à futura mãezinha, nem o temor do momento que, a cada dia, ficava mais próximo.
As prescrições estavam sendo seguidas à risca, as atenções e cuidados dispensados, as consultas mais constantes, efectuadas, mas, em nenhuma delas o médico tranquilizara-os, dizendo que a situação se modificara.
Faltavam já poucos dias para que Cíntia fosse levada ao hospital, conforme havia sido
determinado pelo médico, e nada além do que aparentemente era normal, ocorria.
Até esperanças de transporem aquele momento e desfrutarem depois, da paz, da tranquilidade e da alegria de uma situação vencida e de terem o filhinho nos braços, fazia parte das expectativas de todos.
Quando três dias ainda faltavam, numa noite, Cíntia começou a sentir-se mal.
Dores muito fortes acometiam-na, e Felício foi despertado rapidamente.
Sem muito pensar, telefonou para o médico, e, segundo sua orientação, ela deveria ser levada imediatamente ao hospital, que ele também para lá se dirigiria.
As dores não passavam, e, ao chegarem, o médico já os esperava com as enfermeiras convocadas por ele. Felício entregou- lhes a esposa, confiando que nada mais grave, além da antecipação de três dias do momento esperado, havia ocorrido.
Assim que a levaram, ele telefonou para seus pais e para os pais de Cíntia, avisando-os do ocorrido.
Enquanto eles chegavam, os cuidados com Cíntia estavam sendo dispensados, e diagnosticado foi que uma cirurgia de emergência deveria ser realizada, para que o bebé não sofresse mais, e ele e a mãe não corressem perigo de vida.
Felício foi notificado do que ocorria, e, muito aflito, recebeu, logo a seguir, os pais e os sogros, que acorreram com bastante presteza.
Na sala de cirurgia, todos os esforços estavam sendo realizados, algumas dificuldades preocupavam o médico, mas, ao Final, ele pôde ter nas mãos, para provocar o primeiro vagido, uma forte e bonita menina, que logo entregou aos cuidados de uma enfermeira experiente, porque lhe cabia cuidar da mãe que passara por momentos muito difíceis e ainda estava em grande perigo de vida.
Tido o que poderia ser realizado dentro dos conhecimentos da medicina actual e dos esforços e competência do médico, foi realizado, e aquele momento difícil, transposto.
Mas o receio de que algumas complicações adviessem, pelo que ele havia diagnosticado há meses e pelas dificuldades do momento que acabaram de enfrentar, ainda persistiam.
Felício foi comunicado do nascimento da filha e ficara feliz, mas preocupava-se com a esposa e queria vê-la.
O médico explicou-lhe toda a situação, comunicando-lhe que ela ainda não seria levada ao quarto, pois inspirava cuidados especiais, mas ele, desesperado, insistia.
Cíntia dormia profundamente e permitido foi a Felício que a visse através de um anteparo de vidro, e ele precisou contentar-se.
A visão que teve, impressionou-o sobremaneira.
Pelo sono profundo, a sua aparência confundia-se com a do sono definitivo, tal era a sua imobilidade e palidez.
Naquele instante, ele não sabia se via a sua Cíntia actual, ou se estava se deparando com a outra, quando ela acabara de lhe fugir, tão semelhantes se lhe apresentavam.
Ele esforçou-se para afastar esse pensamento e concentrar-se apenas na esposa, que
sabia, estava viva e acabara de lhe dar uma filha, mas sofrerá e ainda corria risco de vida.
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 19, 2018 8:40 pm

Nada havia que ele pudesse fazer senão aguardar e orar, e era o que estava fazendo desde que a trouxera para o hospital, pedindo a Deus que não a levasse novamente. Todavia, os desígnios que Deus havia traçado — porque sempre sabe o que é melhor para seus filhos — ele não sabia.
Três dias mais se passaram, mas Cíntia não teve nenhuma reacção de melhora. Lucidez para conhecer a filha, reconhecer Felício e todos os seus familiares, ela não recobrou mais.
O desespero era uma constante no coração de todos e muito mais no de Felício, que sabia, iria perdê-la.
O que teria havido entre ele e Cíntia, em passado longínquo, para não merecerem permanecer juntos?—Com o conhecimento da imortalidade do Espírito e das múltiplas encarnações por que ele passa, buscando aprimorar-se como meta de evolução, fazia- se constantemente a mesma pergunta.
Por que eu, que já tive tantas recordações de existências anteriores, não consigo compreender por que a infelicidade nos persegue?
O que fizemos juntos, de tão grave, que ainda não merecemos ter uma existência tranquila e feliz, criando nossos filhos, dando oportunidade a que outros Espíritos também promovam a sua redenção?
Ah, pobre Felício!
Quantas indagações fazia como resultado do desespero que trazia no peito!
Seu lugar constante passou a ser junto daquele visor que lhe permitia vê-la à distância, procurando descobrir nela qualquer reacção, mínima que fosse.
Em uma das vezes que o médico a visitou, ele implorou, em prantos, para entrar e vê-la de perto.
Foi muito pior!
Cíntia não respondeu a nenhum de seus apelos, e ele mais desesperado ficou, sem saber se ela não o ouvira, ou se ouvira e não tivera condições de fazê-lo.
Ao deixarem-na, suplicando, ele rogou ao médico que lhe desse alguma esperança.
Franco, porque a situação não era para mentiras nem esperanças vãs, respondeu-lhe que não via nenhuma melhora, pelo contrário, seus reflexos estavam se perdendo e o seu estado era muito grave.
Sem dizer palavra, Felício abandonou por algum tempo seu posto de observação, e, fora daquela unidade de tristeza e desesperança, atirou-se nos braços da mãe e chorou muito.
Linda não sabia o que dizer.
Que palavra mágica teria o poder de transmitir-lhe conforto numa situação daquelas?
Nenhuma! Nada que dissesse naquele momento podia transformar uma realidade tão cruel.
Assim mesmo ela tentou lembrá-lo da filha, do quanto ela precisaria dele, dizendo-lhe, também, que ainda os três estariam reunidos no lar e felizes.
— Cíntia está me fugindo novamente, mamãe, e eu não consigo saber por quê!
O que fizemos nós de tão terrível, que não temos o direito de permanecermos juntos?
— Não pense em nada disso, filho, e ore!
Enquanto há vida há esperanças!
Algum tempo Felício passou abraçado à mãe, que indagou, depois, se ele não queria ver a filha.
— Ela está bem, está sendo bem cuidada e não precisa de mim, agora...
— Precisa pensar no seu nome, filho!
Devemos registá-la!
— Há tempo para isso!
— Vá vê-la! Veja o seu rostinho tranquilo e alegre-se do presente que Deus lhe mandou...
— Se para me mandar esse presente, Ele precisa tirar a quem tanto amo, não deveria tê-lo feito!
— Só não o recrimino pelo que está dizendo porque sei a dor que está sofrendo!
Sei, também, que você compreende muito bem os desígnios de Deus, pois tem conhecimento de que não vivemos uma vez somente, e tudo o que nos acontece, tem uma razão de ser nas nossas próprias invigilâncias e desatinos.
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 19, 2018 8:40 pm

Sem nada responder, ele deixou a mãe e retomou para ver Cíntia, não obstante à distância, mas estava atento.
Assim, ao cabo de três dias, sem que nenhuma melhora fosse manifestada, mas o mal trabalhado nas suas estranhas, seu corpo, sem nenhuma condição de abrigar o Espírito, expulsou-o de si.
Felício, a postos no seu local de observação, percebeu um movimento incomum.
Enfermeiras aflitas, o médico que a examinava mais atentamente, até que, numa atitude de derrota, ele afastou-se da enferma e olhou em sua direcção, deixando transparecer no olhar a sentença definitiva:
Nada mais há a fazer, fomos vencidos!
Em grande aflição, compreendendo a mensagem, num ímpeto, Felício abriu a porta e entrou abruptamente, dirigindo-se para ela que já fora abandonada pelo médico e pelas enfermeiras, e, tomando seu corpo que ainda guardava um resto de calor, abraçou- o profundamente, soluçando muito.
O médico, que até então permanecia na sala, aproximou-se e, sem conseguir dizer nenhuma palavra, abraçou-se a eles, como que se desculpando da sua impotência diante da vontade de Deus.
Em seguida, com dificuldade, fez com que ele a soltasse e a recolocasse deitada.
Mesmo assim, ele ficou debruçado sobre ela algum tempo, mas o médico, amparando-o e compreendendo o seu sofrimento, retirou-o de lá.
Providências deveriam ser tomadas quanto ao corpo, que também não poderia mais permanecer naquele local, lembrando Felício de que os familiares precisavam ser avisados.
Nenhum deles se encontrava no hospital, pois haviam se retirado para um descanso.
Não imaginavam que aquela situação de tanta dor fosse ter um desfecho tão trágico, justamente naquele momento.
Nada mais precisa ser detalhado dessa circunstância tão adversa, pois não existe, sobre a face da Terra, quem não possa avaliá-la, por não ter se deparado com momentos de tanta
dor, que é a perda de um ente querido.
Entretanto, quando se tem algum conhecimento da perenidade do Espírito, quando se sabe que a morte do corpo físico não é o fim, e que muitas outras ocasiões de reencontro ainda haverá diante dessa eternidade, o sofrimento não deixa de ser grande, que esse momento é difícil para todos, mas existe o consolo de que a separação não é permanente, mas apenas transitória.
Felício, porém, que possuía esse conhecimento, como se encontrava?
Não fora a primeira vez que sua querida Cíntia lhe fora levada, e, por isso, seu sofrimento ainda era maior.
Mesmo assim, passado aquele momento de profunda aflição, quando pudesse reflectir, isento e liberado de tanta emoção, ele compreenderia que ainda se reencontrariam.
E se nessa reencarnação que ela acabara de completar, eles haviam tido a felicidade de uma convivência mais estreita e um pouco mais prolongada, desfrutando do amor que sentiam, e, um dia, Deus lhes permitiria ter uma vida mais plena, por um tempo mais longo de felicidade.
Com certeza, débitos antigos estavam sendo saldados e, a cada existência, quando temos essa compreensão e nos esforçamos, resgatamos um pouco do muito que já fizemos, contrário aos preceitos de Jesus.
Ainda eles teriam a felicidade de ficar juntos para sempre, se não nesta Terra de redenção, provas e sofrimentos, no Mundo Espiritual, quando já liberados de compromissos.
Essas reflexões, certamente Felício faria, com o entendimento que possuía e o auxílio dos pais que professavam a consoladora Doutrina Espírita, ajudado ainda pelos conhecimentos do pai de Cíntia, e reuniria forças que lhe trariam conforto e consolo.
Restava-lhe ainda a filhinha, tão esquecida por ele, naqueles dias de aflição, mas quando seu coração se asserenasse, ela seria o alento que lhe daria forças para continuar a sobreviver, só, sem a felicidade e o amor que Deus lhe permitiu reencontrar, mas que logo levou.
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 19, 2018 8:40 pm

14 - EM OUTRA DIMENSÃO
Enquanto as providências materiais eram tomadas em relação ao corpo e ao momento de aflição e desespero que estavam vivendo, se eles pudessem enxergar, não com os olhos do corpo físico perecível, mas com aqueles que foram criados para serem imortais e tudo abarcarem além deste plano de sofrimentos e resgates, uma cena de rara beleza lhes seria dado entrever.
Há alguns dias, desde que Cíntia trouxera sua filhinha ao mundo dos encarnados e passava por momentos de aflição diante da vida física, amigos do plano espiritual se achegavam.
A hora de terem-na consigo novamente, abandonando aquele que amava e reencontrara há pouquíssimos anos, e aquela que acabara de adentrar o plano físico para também cumprir suas tarefas, aproximava-se cada vez mais.
Três dias eles a deixaram naquela situação de sofrimento e aparente indiferença pela vida, mas, seu Espírito lúcido e atento ao que ocorreria, estava vivendo um período bastante benéfico.
A liberdade chegar-lhe-ia sem demora, contudo, intimamente havia uma grande luta.
Ela sabia que o Mundo Espiritual era o seu lugar de origem e de permanência definitiva, quando ressarcida de todos os males que um dia praticara, mas lutava porque amava aquele com quem Deus lhe permitira uma convivência como encarnado, e não estava satisfeita em deixá-lo.
Meio afastada do corpo, em alguns momentos, para que o desprendimento total se fizesse com naturalidade, ela estava sendo trabalhado por aqueles Espíritos que chegaram, invisíveis aos olhos dos que lutavam para salvar-lhe a vida, mas bastante activos na realização do que haviam trazido como tarefa.
Entre os que tiveram permissão de comparecer, havia uma senhora, cujo conhecimento com aquele Espírito que logo se libertaria, datava de longa data, tão longa, quando na Terra ainda não havia chegado aquele que traria aos homens o conforto da sua presença, o consolo da sua palavra, aquelas que perdurariam através dos séculos, por serem a verdadeira mensagem de esperança que deveria transformar os homens.
O seu carinho pelo Espírito que, na recente encarnação, recebera o nome de Cíntia, e não fora a primeira, era grande.
Um relacionamento de amor intenso as unia, e diversas vezes estiveram juntas em provas terrenas.
Muito ela se esforçara para encaminhar aquele Espírito às boas acções, e, até então, muito havia conseguido.
Quando Cíntia readquirisse a lucidez do Espírito, temporariamente confuso pela recente libertação, teria uma grande alegria em tê-la a seu lado.
Com certeza a reconheceria de pronto, tão fortes eram os laços que as uniam.
Nessa última existência terrena de Cíntia, estabelecido foi que ela não a acompanharia, como havia feito em muitas outras.
Ela concluíra que, permanecendo no Mundo Espiritual, maiores condições teria de ajudá-la, e fora o que fizera, desde que a entregara, ela mesma, para ser colocada junto da mãe que a receberia, desde o momento da concepção, a fim de se adentrar neste orbe de provas e resgates e cumprir mais uma parte da longa caminhada que os Espíritos precisam realizar até que se tomem puros.
Cíntia, na sua recente encarnação, como em algumas poucas anteriores, nada realizara de desabonador ao seu Espírito, nada que a fizesse sair mais comprometida que ao chegar.
Pelo que já havia conquistado, ela tivera permissão de uma convivência com aquele que seu Espírito escolhera para sua companhia constante, depois de ressarcidos os males que um havia feito ao outro, não obstante o grande amor que os atraía.
O tempo fora curto mas a alegria do amor e a certeza do reencontro por parte de Felício foram vividas com toda felicidade que Deus permite, por sua bondade, a seus filhos aqui
neste orbe, para suavizar-lhes as agruras que a vida terrena lhes obriga a sofrer.
O que restava, naquele momento supremo, aos que ali estavam em auxílio a um Espírito que retomava ao Mundo Espiritual?
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 19, 2018 8:41 pm

Tomá-la com todo o carinho, como quem carrega um bem precioso, e levá-la para o descanso de momentos tão difíceis.
Depois do desprendimento total do seu corpo, ela foi entregue àquela mesma que anos atrás o trouxera e a deixara junto da que seria sua mãe terrena na experiência que vi veria.
Não foram tantos anos de separação, mas o necessário para que alguns resgates fossem efectuados e algum aprendizado incorporado ao seu Espírito, como aquisição perene.
Aos que aqui permanecem, parece que uma viagem interminável aguarda os que passam por situações semelhantes, como eles mesmos vão passar um dia.
Entretanto, o Mundo Espiritual tem recursos os quais ainda não nos é possível aquilatar, e, em pouco tempo, ela foi depositada no leito já preparado, esperando-a, desde que a equipe havia partido em seu auxílio.
Ela chegara adormecida e como tal ainda permaneceria por um bom tempo, o suficiente para que, com o tratamento que lhe fosse sendo dispensado, readquirisse as condições de vivência no Plano Espiritual, com serenidade e sem surpresas prejudiciais à sua integridade.
Contudo, enquanto Cíntia-Espírito estava recebendo todo o amparo de que se fazia merecedora, no plano físico, uma grande tristeza e uma profunda desolação envolvia a todos os que haviam desfrutado da sua convivência, sobretudo seus pais e Felício.
Para ele, todo aquele tempo anterior, quando por suas recordações ela também lhe fora levada, foi rememorado e revivido em minúcias.
Se aqueles que passam por idênticas circunstâncias, na Terra, de perda de um ente querido, sofrem muito, Felício sofria duas vezes.
As duas ficaram tão próximas e se confundiam em sua mente, aumentando-lhe o sofrimento.
Linda ajudava-o bastante, confortava-o, assim também procedia seu pai, mas os dois encontravam dificuldades em fazê-lo como desejavam.
A pequena, depois da partida da mãe, ficara com Linda, que a levara para seu lar, juntamente com Felício, que não tinha condições de permanecer sozinho com ela em sua própria casa.
Tão tenra, tão bonitinha e tão inocente, a criança ainda não poderia saber que, para sua vinda ao mundo dos encarnados, sua mãezinha precisara ser levada de volta a esse mesmo mundo de onde seu Espírito viera.
Linda compreendia os desígnios de Deus e procurava auxiliar o filho, lembrando dos conhecimentos que possuíam.
Mas, mesmo com todo o seu entendimento, mesmo sabendo que a separação não era definitiva e que um dia, quando Deus permitisse o reencontro, eles estariam felizes outra vez, a dor da separação era muito grande.
Até quando Deus lhes permitiria o reencontro e depois os separaria?
O que haviam feito que não tinham direito a uma convivência mais longa, quando tantos casais se conhecem e caminham juntos para a velhice, vendo os filhos crescerem, os netos chegarem, e eles sendo privados dessa felicidade?
Essas perguntas Felício fazia-as constantemente à mãe, e, como resposta, ela lembrava-lhe de que temos débitos a ressarcir, dos quais não podemos avaliar o alcance, e tudo o que Deus faz e nos permite viver é o que merecemos.
— Você nunca se perguntou, filho, se nem a essa convivência que mantiveram, vocês tinham direito, e que Deus, na sua bondade e misericórdia, lhes permitiu viver para desfrutarem um pouco da felicidade do amor que os une, e ainda lhes deixou uma filha tão linda e saudável para auxiliá-lo a enfrentar a separação?
Sempre devemos pensar no que Ele nos permitiu viver e não naquilo do qual nos sentimos privados.
— Talvez a senhora tenha razão, mas a minha dor é muito grande!
— Mas não será eterna...
Olhe para sua filhinha e veja como está tranquila e alheia a tudo o que está ocorrendo à sua volta.
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 20, 2018 8:09 pm

Espelhe-se nela, não para ficar alheio ao que aconteceu, mas na sua serenidade, e agradeça ao Pai o tê-la deixado connosco!
Felício nada respondeu e Linda voltou a lhe falar, indagando:
— Você se deu conta de que sua filhinha nem nome recebeu ainda?
Quase uma semana é passada do seu nascimento, e é preciso que a registremos.
Seu pai tomará essas providências, mas é necessário que ela tenha um nome...
— Não havíamos escolhido, ainda, e, antes, eu não pensava no que vou dizer.
Mas se Deus me enviou uma menina e levou a minha Cíntia, ela será a minha nova Cíntia, a que trará ao meu coração, não os sentimentos que a outra deixou, mas ela terá o seu lugar como minha filha querida e, como um pai que muito a ama, ela estará no meu coração.
Os dias foram passando e cada um, com o Sol que traz a cada manhã, o calor e a claridade sobre toda a Natureza e atinge a toda a criação do Pai, auxiliando seus filhos a irem-se tranquilizando intimamente e a guardarem, no mais recôndito de seus corações, as suas tristezas, porque a vida precisa prosseguir, Felício também ia-se acomodando.
Cíntia permanecia como pano de fundo em todas as suas actividades profissionais e durante o relacionamento a que estão obrigados todos os que neste orbe vivem interligados.
Todavia, no silêncio da sua solidão, ela era trazida para o primeiro plano, e todas as lembranças eram revividas desde o instante em que ele a vira pela primeira vez e a seguira, até o momento decisivo, quando o deixara para sempre.
Eram momentos só seus, e neles Felício rememorava um pouco da felicidade que experimentara, mas os instantes de lembranças, quando não se tem mais o objecto que as provoca, são só lembranças, e, como tal, fugazes, fazendo com que ele logo caísse na realidade da tristeza que guardava só para si.
Linda cuidava da pequena Cíntia e via o Filho se recompor, aos poucos, pois, no seu íntimo, ninguém penetrava.
É assim mesmo que ocorre, e só com o passar do tempo sua vida retomaria ao que
chamamos de normalidade, sem, contudo, jamais esquecê-la.
Não apenas pela convivência última que Deus lhes permitiu, mas por tudo o que seus Espíritos representavam um ao outro.
No Mundo Espiritual, também Cíntia se refazia aos poucos, cuidada com carinho por aquela que a levara e por outros auxiliares abnegados, mas continuava adormecida.
Algum tempo ainda lhe seria necessário, mas todos estavam satisfeitos.
Apesar de adormecida, ela ia absorvendo o tratamento que lhe era dispensado, e logo teria condições de ser despertada.
A senhora que cuidava dela mais de perto, habituada a esse tipo de trabalho, estava preocupada, sem poder prever qual seria a sua reacção ao compreender que já não estava mais na Terra.
Ela, porém, ali estava e lhe daria toda a assistência, e contava, ainda, com a esperança de que Cíntia a reconhecesse.
Se assim se desse, o amor que as unia de tantas existências, dar-lhe-ia o apoio e a força de que ela necessitaria naquele momento tão importante.
Diante dessa expectativa, nada mais restava a fazer senão prosseguir com o tratamento e aguardar mais algum tempo, que, sabemos, transcorre com rapidez, até atingir o que esperamos.
Decorridos cerca de dois meses da sua chegada, verificado foi que ela poderia ser despertada.
—E muito importante este momento, mas, apesar de confiar, receio por ela. — expressou-se a senhora que a assistia.
Terei eu condições de recebê-la, sem que ela se desequilibre e aceite seu novo estado?
— Nós a auxiliaremos! — exclamaram seus companheiros.
Não tenhamos receio e confiemos no Pai* que não desampara ninguém.
Nós estaremos assistidos por Ele e tudo transcorrerá naturalmente.
Na manhã imediata os preparativos foram efectuados, e um grupo de amigos se colocou em tomo do seu leito, transmitindo-lhe passes de fortalecimento, enquanto aquela mãe, postada à sua cabeceira, orando e acariciando-lhe a fronte, chamava-a ternamente para que ela despertasse.
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 20, 2018 8:09 pm

Passados alguns instantes, ela percebeu que Cíntia abria os olhos, tomava a fechá-los e novamente os abria, como querendo retomar de algum lugar que não sabia qual fosse.
Entretanto, com as palavras daquela que a assistia mais de perto, e o auxílio dos que estavam ao seu redor, depois de algumas tentativas, ela abriu totalmente os olhos, olhou em tomo e assustou-se um pouco.
— Onde estou? -— indagou fracamente.
— Está entre amigos, minha querida, sendo cuidada.
— Meu filho já nasceu?
— Sim, uma bela criança!
— Onde está? Quero vê-la!
— Ainda não é possível, o seu estado não permite.
— Que hospital é este?
Não foi para este lugar que fui levada.
— Mas depois, visto o seu estado, precisou ser transferida para cá...
— Onde está Felício?
— Junto de sua filha...
— Então foi uma menina?
— Sim, forte e bonita.
—O que aconteceu, estou estranhando este lugar, as pessoas...
Quem está me falando?
—Colocada bem no alto da cabeceira onde os olhos de Cíntia não podiam alcançá-la, para não se assustar se a reconhecesse logo, ela apresentar-se-ia para fazer o teste.
Seria impossível que a reconhecesse, tão ligada ainda se mostrava aos últimos acontecimentos que a envolveram na Terra.
A boa senhora, continuando a acariciá-la, tomou-lhe as mãos e foi-se mostrando aos poucos, sem nada dizer nem indagar, esperando que ela mesma se manifestasse.
Cíntia, entretanto, não a reconheceu de pronto mas, interiorizando o carinho que ela lhe transmitia, disse-lhe:
— A senhora é muito bondosa!
Vendo que o esperado não acontecia, a boa senhora decidiu nada lhe dizer, aguardando que a filha de tantas jornadas terrenas, por si mesma, fosse compreendendo sua nova condição de Espírito liberto, e ela lá estaria para lhe dar toda a assistência que a ocasião exigiria.
Muitos dias ainda Cíntia passou desperta alguns momentos, adormecida outros, e sempre indagando muito.
Pedia que lhe trouxessem a filha, pois estava se recuperando, que Felício não a abandonasse, e que não a deixassem tão só do afecto familiar.
Não obstante a diligente senhora lhe explicasse que ainda não seria permitido, pela difícil situação pela qual ela havia passado, Cíntia insistia.
Depois de alguns dias ela pôde deixar por instantes o leito e sentar-se em uma cadeira à beira da cama, sendo-lhe prometido que, no dia seguinte, pequeno passeio lhe seria proporcionado.
Tão solícita e carinhosa aquela senhora se revelava que, às vezes, surpreendia Cíntia olhando-a de modo estranho, como que a querer perscrutar.
Depois de algumas tentativas, certamente em vão, a jovem afirmou-lhe:
— Não consigo precisar, mas sinto que a conheço de algum lugar!
Esse não é o nosso primeiro encontro, já estivemos juntas outras vezes.
Estava chegando a hora de ser reconhecida, o que para ela significaria não só a conscientização de tantas oportunidades que as envolveram, mas a consecução do objectivo que estavam se propondo.
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 20, 2018 8:09 pm

Sem nada revelar, sabendo que em pouco tempo não haveria mais segredos, ela limitou-se a indagar:
— Então tem essa impressão?
— Sim, mas por mais me esforce, não consigo descobrir.
A senhora não poderia me ajudar?
— Não deve se esforçar!
Isso não tem importância!
Se realmente me conhece, lembrar-se-á de um momento para outro.
Qual seria a sua reacção ao tomar conhecimento de que já deixara os seus e não fazia mais parte daqueles que envergam um corpo físico para os resgates do Espírito?
Fosse como fosse, ela precisaria enfrentar sua nova condição, e teria a ajuda da mãezinha de tantas jornadas terrenas e reencontros no Mundo Espiritual.
Sem nada precipitar, ambas esperavam, cada uma à sua maneira, até que não seria possível esperar mais para não retardar o seu próprio refazimento.
Assim, dia chegou que uma medida foi tomada.
Durante um de seus momentos de sono, provocado pelas intenções que trazia, a boa senhora, ao lado de seu leito, começou a lhe falar, relembrando antigas situações de experiências pregressas que haviam ficado marcadas, mas somente as felizes.
Inconscientemente ela as ia incorporando, sem choques nem desesperos, e teria, no Espírito, a plena consciência do que acontecia, e, mais que isso, reconheceria completamente aquela que lhe dava tantas atenções e carinho.
Abnegados irmãos ajudavam nessa operação, enquanto ela lhe falava, e podemos comparar, para que esse processo fique mais claro e compreensível ao leitor, a uma sessão de hipnose com fins terapêuticos.
Terminado o tempo que consideraram suficiente, nada mais lhes restaria senão aguardar que ela despertasse, o que ocorreria um pouco mais tarde.
Sem deixar a cabeceira do seu leito, que, naqueles dias, a boa senhora nada mais fazia por ter tomado a si a tarefa de ajudar a filha, ela aguardava.
Duas horas mais passaram até que a viram abrir os olhos, e a expectativa se fez sem que ninguém se manifestasse.
Qualquer reacção deveria partir dela, sem nenhuma interferência.
Quando Cíntia se sentiu totalmente desperta, adquiriu uma postura surpreendente.
Sentou-se no leito e abraçou-se à mãe, chorando muito e exclamando:
— Eu lembrei-me!
A senhora foi minha querida mãe por muitas vezes!
Eu sonhei, eu sonhei, e lembrei-me de tudo.
Explique-me, como estamos nos reconhecendo, o que aconteceu comigo?
Ainda com a filha nos braços ela foi revelando, com muita bondade e ternura, o que havia ocorrido, fazendo-a compreender sua nova condição de Espírito livre.
— Então não vou mais ver Felício e nem conhecer minha filha?
— Por que não?
— Como o farei se estou aqui e eles permanecem lá?
— Você sabe que não há tantas barreiras assim entre os dois mundos, e o nosso intercâmbio com a Terra e seus habitantes é uma constante.
Você poderá vê-los ainda e até um reencontro com Felício poderemos promover!
— Não será a mesma coisa!
— Mas era o necessário.
Quando você tiver todas as lembranças do que já viveram e do que fizeram, compreenderá!
— Soltando-se da mãe, Cíntia tomou a deitar-se, chorando muito, e ela, que não descuidava da filha nem um instante, permaneceu para assisti-la.
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 20, 2018 8:09 pm

Depois do desabafo e alguma reflexão, Cíntia foi se acalmando e novamente o sono lhe foi proporcionado, para que seu Espírito se refizesse de situação tão importante.
Quando despertasse, estaria diferente.
Mais calma, mais serena, trazendo a compreensão necessária para prosseguir.
A meta do Espírito é sempre a perfeição.
Mas, para que ela seja atingida, ele passa por muitos percalços, decorrentes das suas próprias invigilâncias e imprevidências, e, muitas vezes, uma caminhada que poderia ser mais curta, mais livre de empecilhos, é longa e cheia de tropeços.
Ele sempre se emaranha no caminho que julga mais fácil, pois é o que lhe dará todas as satisfações dos prazeres que o mundo oferece e com os quais a sua imperfeição se compraz, e envereda justamente no mais difícil, mais longo e mais cheio de pedras, que tanto podem feri-lo, como ele próprio utilizá-las para ferir os outros.
Deus, porém, que respeita a liberdade dos seus filhos, espera, ao final do caminho, a chegada de cada um.
Apenas lamenta quando vê aqueles que, sem saberem fazer uso dessa liberdade que lhes foi concedida, enveredam pelos caminhos pedregosos, porque sofrerão mais, retardando o momento da chegada.
Todavia Ele lá está, aguardando sempre, e um dia todos chegarão, mais rapidamente ou mais atrasados, todos chegarão para desfrutarem da felicidade que Ele reserva a cada um.
Se temos esse conhecimento, não sejamos nós a escolher o caminho que se nos afigure mais fácil, mais cheio de atractivos, porque nos veremos enredados, logo a seguir, dificultando a nossa caminhada.
Esforcemo-nos sempre para passarmos pela porta que, mesmo se nos apresentando estreita, é aquela que, depois de transposta, nos mostrará um caminho mais livre de empecilhos e mais pleno de alegrias.
Não a dos prazeres fáceis e das conquistas efémeras, mas a da alegria do coração, a que será perene e sabe olhar para os lados e auxiliar um irmão caído, olhar para o céu e louvar a criação de Deus, olhar para a Natureza e agradecer por tudo de belo que Ele colocou para nos alegrar e dar alento, neste orbe de tanta aflição.
Saibamos, pois, escolher o nosso caminho, para não sofrermos tanto e chegarmos mais rapidamente junto d* Aquele que nos criou e nos ama, fazendo assim a Sua vontade, cumprindo Suas leis sábias e justas para nossa plena felicidade.
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 20, 2018 8:10 pm

15 - VISITA RECONFORTANTE
Enquanto Cíntia se refazia para a plena retomada de sua vida espiritual, os que permaneceram na Terra também se recompunham.
Aquela que ingressara num corpo físico para cumprir mais uma existência terrena, iniciando-a já sem o amor e os cuidados amoráveis da sua mãe, e ainda indiferente ao que ocorrera à sua volta, também se desenvolvia e ficava, a cada dia, mais graciosa e mais bela.
Felício estava encantado com sua pequena Cíntia, e Linda fizera dela a sua própria razão de viver.
Contudo, um receio tomava-lhe, às vezes, o coração — não conseguir acompanhar o seu crescimento, auxiliando-a, orientando-a, como fazem todas as mães.
Nas suas horas de recolhimento, Felício levava o pensamento à esposa, e, pelas próprias convicções acerca da continuidade da vida, indagava-se se a sua querida já havia readquirido a lucidez completa e se já tomara conhecimento da sua nova condição no Mundo Espiritual.
O seu desejo era estar com ela, acompanhar o seu refazimento para não vê-la sofrer.
Entretanto, como é vedado na maioria das vezes a cada um, que aqui permanece, penetrar nos segredos do mundo espiritual, ele apenas conjecturava, imaginando-a recuperada e bastante assistida, e não sofria tanto.
O tempo, apenas o tempo seria o bálsamo que levaria ao seu coração um pouco de alívio, e esse ninguém faz retardar ou adiantar, mas segue seu curso.
Nós é que não devemos nos acomodar a ele, vendo-o passar, mas caminharmos juntos para sermos úteis e produtivos, sem perdermos minutos que podem ser de grande proveito ao nosso Espírito.
Os pais de Cíntia também se acomodavam, e sua mãe regozijava o coração nos momentos em que estava com a neta, revivendo situações anteriormente experimentadas com a própria filha.
O filho que residia na Alemanha e que viera apressadamente por ocasião da partida da irmã, ficara com os pais durante uns poucos dias e prometera-lhes tudo fazer para retomar com seus familiares para sempre, auxiliando-os a não sentirem tanto a falta de Cíntia.
Mas ainda não havia acontecido, apesar de estar tomando as providências exigidas junto à companhia na qual prestava seus préstimos, alegando que voltaria mais experiente e muito mais capaz, com condições de ajudá-los melhor e mais eficientemente.
Decorridos mais alguns poucos meses, se retomarmos ao Mundo Espiritual, encontraremos Cíntia totalmente recuperada, mas ainda sob os cuidados e atenções daquela mãezinha querida.
Ela ainda não desenvolvia nenhuma actividade, mas pedia alguma tarefa para ocupar melhor seu tempo, ajudando, com sua parcela, companheiros mais necessitados que ela, porém, ainda não era o momento.
— Você pode auxiliar com a própria experiência e palavras de estímulo, aqueles que ainda estão desesperados e não conseguem se libertar das lembranças dos que deixaram na Terra, terminando de cumprir suas provas.
—Peça-me para fazer qualquer outro trabalho, mas, para esse, ainda não me sinto com forças!
— Você tem estado tão bem, filha, e seu exemplo pode servir a outros...
—Como levarei o estímulo ajudando a compreensão dos que aqui estão e ainda não se conformaram» se meu pensamento é uma constante junto de Felício e da filha que nem conheci?
— Compreendo e sei, é assim que ocorre quando somos separados dos que amamos!
Em você, porém, não há a inconformação nem o desespero. Você aceita a vontade de Deus e procura se adaptar à sua nova condição, cada vez mais.
— Mas não significa que tenha esquecido os meus que lá ficaram!
—Graças a Deus que assim acontece!
Você tem sentimentos, e aqueles, que amamos verdadeiramente, nunca esquecemos.
O amor faz parte do Espírito e mesmo que nasçamos na Terra e voltemos para cá muitas vezes, o amor que é verdadeiro, que faz parte do Espírito, continua.
Naquele instante, uma lembrança acudiu-lhe à mente e ela ficou pensativa.
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 20, 2018 8:10 pm

Sua mãezinha, vendo-a tão distante, indagou:
— O que está acontecendo, filha?
— Suas palavras fizeram-me lembrar de um facto que ocorreu lá na Terra, com Felício!
— Sempre Felício em seu pensamento!
— Sim, penso nele em todos os instantes, mas o que me veio à mente é muito importante e estranho a um ser que lá vive e não deve ter lembranças de outras existências.
— De que está falando?
— De Felício! Ele tem reminiscências de outras existências que viveu na Terra e, quando me viu, seguiu-me imediatamente para não me perder, porque tinha a convicção de que vivêramos juntos em outras existências.
Nas lembranças que trazia vivas na mente, eu partira muito cedo, antes de concretizarmos nosso sonho de amor.
Ele fez todas as descrições de como era o castelo onde eu vivia com minha família e até do momento em que o deixei para sempre.
— Eu conheço muito bem essa história, filha!
— Se a senhora a conhece, não era resultado da imaginação criativa de Felício!
— Não! Tudo o que ele viu e narrou, foi verdade!
Eu também estava lá com vocês!
— Connosco?
— Sim! Eu era a sua mãezinha naquela ocasião e também muito sofri pelo que aconteceu.
— Eu nunca dei muita importância às histórias de Felício, embora seus pais acreditassem nelas totalmente!
— São todas verdadeiras!
— Por que isso ocorre? Por que só ele tinha essas lembranças e eu não?
— Deus tem seus motivos em tudo o que faz ou permite, sempre tendo em vista o nosso próprio bem!
— Por que seria um bem para ele ter tais recordações?
— Um dia voltaremos a esse assunto e conversaremos bastante!
Você irá compreender muitas coisas, mas, por enquanto, ainda não é o momento, não lhe seria benéfico e obstaria a sua recuperação que caminha tão bem!
— Saberei esperar, mas não esquecerei!
O que poderia fazer Cíntia, senão aguardar o momento apropriado para ter todas as revelações que seu Espírito poderia abarcar, depois de refeito do recente retomo ao Mundo Espiritual?
Ela precisaria ser submissa e obediente, aceitar o que lhe fosse concedido como um bem que, aos poucos, lhe estivesse sendo devolvido, até a plena reaquisição de toda a sua integridade.
E quando assim ocorresse, ela teria, abertas ao seu entendimento e lembranças, todas as suas passagens pelo orbe terrestre, justamente as que lhe explicariam com precisão a sua última existência, o seu reencontro com Felício e a pouca convivência que haviam tido para um amor tão grande.
Até a causa principal de todas essas ocorrências ela saberia.
Quando sofremos na Terra, devemos sempre agradecer ao Pai, porque o sofrimento pelo qual passamos, na maioria das vezes, tem como causa principal, como ponto de partida, uma razão que emana de um passado já vivido, e, por causa dele, somos obrigados a nos submeter a certas vicissitudes que nos porão, um dia, livres dos débitos que nosso Espírito carrega.
Desse modo, pois, todos os impedimentos para uma união feliz e duradoura entre Felício e Cíntia, tinham o seu ponto de partida numa atitude infeliz, que, de tão grave, transpunha o tempo e os fazia saldar, em cada existência, um pouquinho da dívida contraída.
Igualmente ocorreria até que pudessem, se assim nos fosse conveniente afirmar, retomar àquele ponto, desfazê-lo por completo e prosseguir com mais alegria, mais felicidade e sem comprometimentos, permitindo-lhes uma união de amor duradoura e tão almejada.
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 20, 2018 8:10 pm

Se ainda faltassem situações a serem vencidas, quando as tivessem saldadas, Deus, que ama seus filhos e sempre quer somente o seu bem, lhes devolveria o bem-estar e o que tanto desejavam.
De outra forma, como valorizariam eles a vida com todas as oportunidades evolutivas que oferece, e não como acúmulo de débitos a saldar?
Um dia, os dois compreenderiam essas afirmativas, desfariam suas incertezas e indagações, e partiriam felizes, bendizendo a Deus que lhes dera a possibilidade do resgate.
Enquanto Cíntia, no Mundo Espiritual, aguardava a ocasião de também realizar um trabalho redentor, no orbe terrestre, a pequena Cíntia, que fazia os encantos dos avós, e a própria razão de ser de Felício, crescia cada vez mais viçosa e bela.
Linda, às vezes, insistia com Felício dizendo que ele deveria se esforçar para encontrar uma outra jovem que pudesse vir a ser sua esposa, uma vez que dois anos de solidão já haviam transcorrido, mas ele não lhe dava ouvidos.
Quem ele desejava ter tido para sempre consigo, não lhe fora permitido, por isso, outra, ele não queria.
Tanto esperara um reencontro com aquela que amava, mas Deus não lhes permitiu desfrutar por mais tempo da felicidade esperada.
Ele deveria ter suas razões, mas, outra, Felício não desejava ter.
Soubera o que é a felicidade junto de alguém que se ama e por quem se é amado, e as lembranças de tanta ventura, apesar de terem estado condensadas em um curto período, bastavam-lhe para prosseguir vivendo até quando Deus o permitisse.
Não havia argumento que transformasse seu modo de pensar, mas Linda, sempre que um ensejo se apresentasse, não deixava de voltar ao assunto, ainda mais sabendo o quanto tantas donzelas de boas famílias esperavam por um olhar dele. Felício, porém, vivia para o trabalho, para o lar e para a pequena Cíntia que, de tão graciosa na beleza e ingenuidade infantil, preenchia o vazio que a solidão lhe trouxera.
Aqueles que permanecem na Terra sob os olhos de Deus, conscientes da sua missão como seres encarnados, não dão preocupações ao Pai, porque sabem se conduzir, mesmo em situações adversas, e Felício assim procedia.
Sua querida Cíntia permanecia no Mundo Espiritual, totalmente recomposta e activa, e auxiliava, com desenvoltura, em diversos sectores, sendo útil não só a muitos mas sobretudo a si mesma, dentro das suas possibilidades, estudando e aprendendo para melhor compreender os desígnios do Pai, a fim de aceitá-los com entendimento e resignação.
Quando só, sua mente, apesar de ligada às suas tarefas para realizá-las cada vez melhor, não deixava de dar um salto e ir à Terra junto do seu querido Felício, dos pais e da filha, cujo crescimento ela acompanhava em pensamento.
Ela não sabia, mas seu pai andava adoentado, ficara muito abalado com a sua partida, e já não trabalhava mais.
Seu irmão conseguira a transferência e voltara da Alemanha, dando aos pais maior assistência e o carinho da sua presença, juntamente com seus familiares.
Desse particular Cíntia fora informada, e alguns irmãos abnegados do Mundo Espiritual até o auxiliaram na consecução desse objectivo, para que ela própria estivesse mais tranquila e prosseguisse o seu refazimento.
Todavia, depois desses dois anos transcorridos, ela pediu a concessão de uma visita à Terra.
Quanta saudade carregava no coração e achava-se no direito de conhecer a filha.
Cíntia gostaria de ter permanecido cuidando dela, de dar-lhe o carinho que só as mães têm para com os filhos, acompanhar o seu crescimento, auxiliar nas suas dificuldades, participar das suas vitórias e alegrias, mas lhe fora negado.
Que, pelo menos, permitissem conhecê-la e acompanhá-la de longe!
Assim, quando pensasse nela, teria o seu rostinho na sua lembrança, tomando esses momentos mais autênticos.
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 20, 2018 8:10 pm

Tanto solicitou, que um dia obteve a permissão, mas com a condição de que a sua mãezinha do Mundo Espiritual a acompanhasse, cuidando para que ela não se desequilibrasse pela emoção.
Invadida por uma alegria muito grande, imediatamente Cíntia quis saber o que lhe seria permitido:
se apenas ficaria à distância, observando, ou se poderia manter um contacto com eles, daqueles que ouvia dizer, na sua nova morada, ser possível, quando o Espírito do encarnado se desprende do corpo em razão do sono físico.
De posse de toda a orientação, a mãezinha informou-a de que lhe fora permitido dois desses encontros, aos quais teria direito pelo trabalho e pelos esforços que estava realizando.
Um com o pai, para levar-lhe o conforto da sua presença, auxiliando-o a se restabelecer mais rapidamente e a não se entregar à enfermidade.
O outro, com Felício, para o reconforto de ambos.
A ansiedade em saber quando partiriam e quanto tempo permaneceriam, foi grande.
— Poderíamos partir hoje mesmo, mas não lhe é conveniente! — disse-lhe a mãe.
E, instruindo-a, acrescentou:
— Você deve preparar-se adequadamente, porque o momento é importante.
Ele deve ser benéfico a você e a quem terá permissão de falar, a fim de não pôr a perder o que já tem conquistado para si mesma, nem desequilibrar a organização psíquica e espiritual daqueles que se encontram ainda encarnados.
Eles devem prosseguir com suas tarefas, não obstante o tempo de permanência de seu pai esteja por terminar.
— Compreendo e farei o possível para estar bem e levar-lhes alegria e reconforto, como também recolher deles o fortalecimento de que eu própria preciso para prosseguir meu trabalho e meu aprendizado, até o dia em que possamos nos reunir de vez.
— Não esperava de você outra atitude!
Ocupe o resto do dia de hoje com preces, meditação e pensamentos agradáveis e sublimados, que amanhã, bem antes do anoitecer, partiremos.
*****
Feliz e aplicada às instruções recebidas, Cíntia perfez o período que antecedia a sua ida à Terra, e, no momento que sua mãe considerou adequado para a partida, foi ao seu encontro.
— É agora, filha, podemos ir!
— Estou preparada!
E uma experiência nova para mim, por isso estou ansiosa e preocupo-me.
— Estaremos protegidas!
Também preparei-me bastante para que você tenha tudo o que espera e pretende, e retome feliz!
A mãe de Cíntia, cuja viagem ao plano terrestre não era a primeira que empreendia, sabia muito bem como proceder para chegarem ao destino pouco antes do sono ter envolvido aqueles a quem a filha desejava ver, e sem que nada adverso ocorresse, impedindo-a de ter o que tanto almejava.
No lar de Linda, os familiares estavam reunidos.
António José brincava com a netinha a quem adorava, e Felício e a mãe, observavam-nos, conversando.
Era uma cena familiar que deixaria Cíntia-Espírito muito feliz, caso chegasse a tempo de presenciá-la.
Depois de muito brincarem, Linda chamou a neta dizendo- lhe que era hora de dormir,
que a levaria ao leito, mas a netinha, contente com as brincadeiras que o avô inventava, pediu:
— Só mais um pouquinho, vovó!
— Está bem, querida, só mais um pouco!
Parecia que a menina tinha conhecimento do que ocorreria a seguir, e desejasse esperar a mãe para que a visse brincar com o avô.
De fato, logo aportaram no jardim da casa, Cíntia e a mãe.
A jovem observou, sentiu saudades, mas não fora para isso que viera.
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 20, 2018 8:10 pm

— Entremos sem demora, mamãe! Não posso me deixar levar pela saudade!
— Está bem!
— A cena interior ainda era a mesma.
As palavras de alegria da filha, ao brincar com o avô, a conversa de Linda com Felício, deram-lhes o rumo correto, e, em poucos instantes, Cíntia foi se deparando com aquela reunião da qual gostaria de estar fazendo parte como encarnada, sentada no chão, brincando com a filha.
Contudo, não deveria lamentar, mas usufruir do que lhe fora permitido, agradecendo a Deus a graça que lhe concedera.
Ela olhou para Felício, achou-o mais envelhecido, apesar de muito jovem, mais circunspecto, mas compreendia que ele ainda deveria estar sentindo a sua falta.
Olhou para a filha e achou-a linda na sua ingenuidade infantil e lamentou ainda mais.
Caminhou até ela, curvou-se e deu-lhe um beijo com muita ternura e até colocou-se no chão, também, para melhor observá-la.
Ah! quanto era grata aos sogros, Linda e António José, por tratarem sua filha com tanto carinho e amor!
Depois de algum tempo entretendo-se com a filha, levantou-se e postou-se atrás da cadeira de Felício e abraçou-o longamente, acariciou seus cabelos, fazendo-o lembrar-se dela mais intensamente.
Ele sentiu a intensidade do momento, sem nada ver, e comentou com a mãe:
— Pela primeira vez depois que a minha Cíntia se foi, tenho a nítida impressão de que ela se encontra aqui, entre nós!
— O que o leva a pensar assim?
— Não sei explicar com exactidão, mas são sensações!
Ela está aqui!
— Quem sabe ela teve permissão de visitá-lo, de ver a Filha que não conheceu!
— Deve ser isso!
Mas não posso negar, é uma sensação muito agradável!
Se não posso tê-la junto a mim como encarnada, saber que ela está comigo, em Espírito, é uma compensação.
— Vocês se amaram muito, lembra-se?
— Eu a amo ainda e quero fazer por merecer tê-la comigo, um dia, para sempre!
Enquanto conversavam, a pequena Cíntia, deixando as brincadeiras com o avô, chegou-se à Linda dizendo que queria ir dormir.
— Eu a levarei, querida!
— Tomando-a nos braços, deixou a sala rumo ao quarto, e Cíntia acompanhou-as, deixando Felício.
— Quero estar com ela o maior tempo que puder, quero fazê-la adormecer e dar-lhe um abraço muito apertado, quando seu sono ocorrer! — disse à mãe.
— Lembre-se da permissão que tem!
Você só falará com seu pai e com Felício, mais ninguém!
— Gostaria tanto de falar com minha filha!
—Não é conveniente! Esteja com ela agora, abrace-a o quanto desejar, mas quando seu Espírito deixar o corpo, não se aproxime.
De retomo, haveria problemas para a sua tranquilidade, que ela está bem habituada com os avós...
Quando o tempo passar e sua reencarnação estiver completamente firmada, lhe será permitido ter também a sua companhia!
—Compreendo e prometo nada fazer em prejuízo de ninguém, muito menos de minha filha.
Só a sua lembrança, agora, com a nitidez dos traços de seu rostinho e da desenvoltura de seu corpo, já me faz feliz.
Quando a pequena Cíntia adormeceu, ela depositou um beijo no seu corpinho que jazia no berço e saiu ao encontro de Felício.
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Re: Depende de Nós - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 20, 2018 8:10 pm

Ele ainda permanecia na sala conversando com o pai, repetindo o que havia falado à mãe sobre a sensação que tivera.
Ao aproximar-se novamente, ela abraçou-o com intensidade, convencendo-o a ir descansar, para não retardar mais o encontro que teriam.
O próprio António José, dizendo que estava cansado, que se excedera nas brincadeiras com a netinha, iria recolher-se.
Felício resolveu imitá-lo, despedindo-se do pai e da mãe que retomava à sala, e foi para o seu antigo quarto.
Cíntia acompanhou-o, e enquanto ele se preparava para dormir, seu pensamento buscava-a, tão estreitamente ele a sentira durante o seu abraço.
— Onde estará minha querida Cíntia?
Senti claramente que ela esteve connosco, na sala, mas depois fugiu-me.
Por que não a tenho comigo, mesmo em Espírito?
Se os Espíritos guardam os sentimentos experimentados na Terra e se o nosso amor vem de longa data, porque não podemos ter, juntos, alguns momentos de lembranças, de conforto espiritual, para que possamos prosseguir mais fortalecidos, e esperançosos, e, um dia, estarmos juntos para sempre?
Enquanto Felício formulava essas indagações, Cíntia captava- as todas, mas não devia aproximar-se.
Teria que esperá-lo adormecer.
Quanto mais ela se aproximasse, provocando-lhe devaneios, mais ele demoraria para conciliar o sono, regozijando- se com eles, retardando o instante do encontro.
Sua acção, portanto, era nula e consistia apenas em aguardar.
Depois de alguma espera que não foi grande, ela percebeu que o pensamento de Felício
ia perdendo a força e a vontade, e ele ia-se deixando dominar pelo sono que o envolvia.
Mais atenta ela ficou e até um tanto ansiosa, como uma adolescente no seu primeiro encontro com o namorado.
Logo ela viu seu Espírito se desligar do corpo que jazia adormecido no leito, mas viu, também, que ele não se afastou do quarto, ficando como que a perscrutar em todas as direcções, talvez procurando-a, por ter percebido a sua presença.
Postada à distância, ela aproximou-se, e, sem nada dizer, tomou-lhe a mão, levando-o fora do quarto. Felício deixou-se levar sem nenhuma palavra, mas, fora do quarto, abraçou-a profundamente.
Ela falou da sua saudade, e ele, em resposta, disse apenas que há muito esperava por aquele instante.
— Por que não veio antes, tanto a busquei?
— Só agora tive permissão! Por mim, estaria sempre ao seu lado e junto de nossa filha, que soube, hoje, leva o meu nome, porém, sabe que não seria benéfico nem para vocês nem para mim!
— Eu compreendo, você precisava refazer-se sem ficar apegada a nós para não sofrer mais...
— E para não fazê-los sofrer, também!
Se não estivesse recuperada e bem como me encontro agora, o meu desequilíbrio seria um obstáculo à vida de vocês e só os prejudicaria...
— Esqueçamos esses anseios e aproveitemos este momento!
Quanto estou feliz em tê-la comigo...
Se a sua companhia me fosse sempre possível durante o sono do meu corpo físico, eu não queria acordar mais!
— Lembre-se de nossa filha que precisa muito de você.
Um dia ainda nos reencontraremos, sem barreiras, sem impedimentos e sem despedidas, e ficaremos juntos para sempre!
— Você já tem conhecimento da causa de não podermos ficar juntos, sempre tendo de nos separar nos momentos mais felizes e de maiores esperanças em nossas vidas de encarnados?
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