Estudando "Nosso Lar" - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

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Re: Estudando "Nosso Lar" - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 23, 2018 9:55 am

— O quê?! - manifestou-se Modesta, surpreendida.
— Você não sabia? - perguntei.
— Não! Que interessante!...
— O nosso Chico, como aconteceu a Kardec - prosseguiu Odilon -, foi um coadjuvante da Obra que os Espíritos grafaram por seu intermédio!
Todas aquelas revelações não eram, propriamente, novidade para ele...
— Não eram?!
— Não, D. Modesta, não eram! Ao deixar o corpo, conforme dissemos, em 1869, Kardec ascendeu às Dimensões Superiores, passando a viver em contacto directo com o Senhor, com cujo espírito se entendia amiúde.
Vivendo entre os seus Prepostos, como, por exemplo, o Espírito da Verdade, que João Batista personificou, e tantos outros, Kardec, antes de seu regresso à Terra, se submeteu a uma reciclagem espiritual.
— Que espécie de reciclagem? - perguntou a confreira.
— Estudou, minuciosamente, os Evangelhos, inteirando-se da complexidade da vida nas diferentes Dimensões do Mundo Espiritual, reactivou os seus arquivos mnemónicos, no que tange a seu vasto património intelectual e moral...
Fez ligeira pausa e prosseguiu:
— E, antes de reencarnar, concluindo todo o trabalho de preparação para a missão que ia desempenhar, recebeu do próprio Cristo sublimado toque em seu espírito, ampliando consideravelmente a sua capacidade!
— Odilon - interrogou Modesta -, Chico era poeta?
— Era.
— Literato?
— Também.
— Filósofo?
Odilon sorriu e respondeu:
— Ele foi Platão!
— Um homem de génio, então?
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Ave sem Ninho

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Re: Estudando "Nosso Lar" - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 23, 2018 9:55 am

CAPÍTULO 09
Sem dúvida - respondeu o Instrutor, ampliando considerações.
— Chico, a reencarnação do Codificador, possuía conhecimento enciclopédico, o que sobremodo facilitou o trabalho dos Espíritos por intermédio de suas faculdades mediúnicas.
— Odilon, em vista do exposto, o espírito comunicante está subordinado ao que o médium lhe oferece, não? - interroguei.
— Doutor, é extremamente raro que o espírito consiga actuar fora das condições que o médium lhe proporciona.
Daí a importância do estudo por parte do médium, assumindo o seu papel de coadjuvante, ou co-autor, como queira.
— Mas - insisti - o espírito poderia suprir a falta de capacidade intelectual do medianeiro?
— A rigor, não, a menos que o utilizasse na condição, por exemplo, de uma mesa girante...
— Entendo.
— O médium há de oferecer algo ao espírito, nem que seja dos arquivos mais profundos de seu subconsciente.
A participação intelectual do médium, nas comunicações inteligentes, é determinante.
— Eu notava, Inácio - observou Modesta -, que os espíritos, quando se expressavam por meu intermédio, tinham extrema dificuldade para falar sobre um assunto que me fugia ao domínio.
Eu mesma, temendo estar mistificando, lhes oferecia resistência ao que expunham.
Não raro, eles me induziam a pensar durante o dia sobre o que pretendiam discorrer à noite.
De outras vezes, me inspiravam a ler a respeito deste ou daquele tema que tencionavam abordar...
Quando eu conseguia vencer os meus escrúpulos, o serviço do intercâmbio era facilitado.
— Voltando ao caso de Chico...
— Conforme dissemos, Doutor, durante 40 anos, ele se preparou para completar a tarefa iniciada.
Chico reencarnou médium, com a sensibilidade mediúnica à flor da pele.
— O trabalho que desempenhou não poderia ser confiado a outro?
— Da maneira como foi desempenhado por ele, não.
— Por que motivo? - perguntei.
— Porque Chico-Kardec trazia, como ninguém, a Doutrina em seu espírito - ele estava impregnado dela!
Outros, com certeza, se necessário, poderiam ser chamados à liça, mas não haveriam de se desincumbir tão bem quanto ele o fez.
Além do mais, Chico é um espírito altamente compromissado com o Evangelho do Cristo.
— Ele fora tocado por Jesus...
— O Espiritismo é a restauração do Evangelho em sua primitiva pureza.
— Muitos adeptos não pensam assim.
— A grande maioria, porém, sabe que assim é!
Sem Jesus, não temos no Espiritismo o advento do Consolador.
A Verdade tem como objectivo precípuo a renovação moral da criatura.
Espiritismo sem Jesus é uma doutrina como outra qualquer, que apregoa a crença na imortalidade e na Reencarnação:
uma fórmula que existe há milénios e que, convenhamos, não foi suficiente para induzir a criatura a definitivo esforço de redenção.
— Gostaria, Odilon - pediu Modesta -, que você discorresse um pouco mais sobre o facto de Jesus ter tocado o espírito de Kardec, antes que ele reencarnasse como Chico.
— O toque de Jesus! - exclamou Odilon reverente.
Se repararmos bem, perceberemos que quase todas as pessoas que o Mestre curou o tocaram ou foram tocadas por Ele...
— No episódio da chamada ressurreição da filha de Jairo:
"Mas, afastado o povo, entrou Jesus, tomou a menina pela mão, e ela se levantou" - citou Modesta a anotação de Mateus, no capítulo 9, versículo 25.
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Re: Estudando "Nosso Lar" - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 23, 2018 9:56 am

— "Tendo ele entrado em casa, aproximaram-se os cegos, e Jesus lhes perguntou:
Credes que eu posso fazer isso?
Responderam-lhe:
Sim, Senhor.
Então lhes tocou os olhos dizendo:
Faça-se-vos conforme a vossa fé." - citei por minha vez.
— A cura da mulher que, por doze anos, sofria de uma hemorragia! - lembrou Modesta:
"E eis que uma mulher, que durante doze anos vinha padecendo de uma hemorragia, veio por trás dele e lhe tocou a orla da veste".
— Neste caso - elucidou o Instrutor -, ele foi tocado!
— Na cura da sogra de Pedro - enumerei outro episódio igualmente descrito por Mateus.
- "Tendo Jesus chegado à casa de Pedro, viu a sogra deste acamada e ardendo em febre.
Mas Jesus tomou-a pela mão e a febre a deixou.
Ela se levantou e passou a servi-lo".
— Permitam-me lembrar ainda - aparteou Modesta - a cura de Paulo, em pleno deserto...
Está escrito no livro "Paulo e Estêvão", da lavra mediúnica do próprio Chico, que Jesus redivivo tocou os ombros do ex-doutor de Tarso...
— Um fato emocionante - ajuntei.
Ao toque de Jesus, Paulo, de imediato, se converte!
— Pelo toque e pela palavra, Jesus vivia a curar os enfermos e os endemoninhados...
— Corpos perecíveis e espíritos imortais!
— Pois Allan Kardec - explicou Odilon -, antes que voltasse a se corporificar no Planeta como Chico Xavier, teve a bênção de ser duplamente tocado pelo Mestre, nas Esferas Resplandecentes: pela palavra e pelas mãos!
Ao que estamos seguramente informados, Kardec, em várias oportunidades, se avistou pessoalmente com o Senhor.
— Talvez isto explique o facto de que, mais do que estar impregnado de Kardec, Chico estivesse impregnado de Jesus - considerei.
— Chico se referia a Kardec como se se referisse a outra pessoa e não a si mesmo.
Sendo um a reencarnação do outro, não é intrigante? - perguntou Modesta.
— Kardec, para Chico - observei -, era secundário...
— Qual Chico para o próprio Chico...
Ele vivia se comparando a um cisco.
— Sabem vocês qual é o significado do nome Francisco? - indagou-nos Odilon.
- ?!...
— "Pequeno francês"!
— Odilon, de onde é que você tirou isso? - repliquei com a curiosidade aguçada.
— Do estudo do significado dos nomes - respondeu sorridente.
Por exemplo, o seu nome - Inácio -, sabe o que quer dizer?
— Sinceramente, não, nunca tive a curiosidade de saber.
— Pois é o retrato de sua personalidade -esclareceu.
Significa: ardente, pessoa vivaz e inteligente, que supera com bom humor e perseverança os obstáculos...
— Meu Deus! Inteligente, não, mas ardente, sim - concordei -, e bem humorado também!
Modesta e Odilon sorriram, ensejando-me oportunidade de perguntar:
— E Maria, o que quer dizer?
— Senhora soberana! - respondeu Odilon.
— Está vendo, Inácio?
— E, mas logo em seguida você tem Modesto no nome...
Senhora soberana, mas...
Modesta! - gracejei.
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Re: Estudando "Nosso Lar" - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 23, 2018 9:56 am

— E Odilon, o que quer dizer? - indagou a confreira.
— Não tem nada a ver comigo esclareceu o Instrutor, tentando esquivar-se.
— Não, diga: o que significa? - insisti.
— Prosperidade! - disse por fim.
— Qual é a origem do nome?
— Francês!
— Ah!, então você também...
— Eu, nada, Doutor! - respondeu, ruborizando-se.
— Além de prosperidade, Odilon, o seu nome também traduz: honestidade, franqueza, facilidade de adaptação, serenidade...
É você escrito, da cabeça aos pés!
— Uai, Inácio, você disse que não sabia!...
— Não tanto quanto o Odilon, mas sei, sim!
— Este nosso doutor! - exclamou companheiro, alisando-me o ombro com destra.
— Vocês sabiam que Chico ensinava que o espírito, ao reencarnar, traz na face ou no nome algum sinal de sua pregressa existência no corpo?
— Pois ele trazia - reafirmou Odilon -, no nome, no espírito e na obra que realizou!
— Tem gente espírita argumentando - pasmem! - que Chico não pode ser a reencarnação de Kardec porque um era mulato, estrábico e o outro europeu, de olhos azuis...
— Quanta imaturidade de raciocínio!
— Ora, Modesta, você está sendo muito benevolente:
isto é um horror!
Imaturidade de raciocínio?!
Para mim, tem outro nome:
preconceito!
— Dr. Inácio, da Reencarnação e seus meandros, a única coisa que realmente sabemos é que o espírito volta ao corpo.
Quanto ao mais, que nos perdoem os nossos irmãos, quase tudo ainda nos está para ser revelado.
— Assino embaixo e reconheço a firma! - retruquei.
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Re: Estudando "Nosso Lar" - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 23, 2018 9:56 am

CAPÍTULO 10
- A propósito, Odilon - acentuei não desejando mais tomar o seu tempo, nem o de Modesta, que sei ser muito precioso...
— Fique à vontade, Doutor.
— Você se recorda de uma entrevista concedida por André Luiz, através dos médiuns Chico Xavier e Waldo Vieira, que saiu no primeiro número do "Anuário Espírita", em 1964?
— Não, não me recordo.
— Os temas que, então, foram abordados são interessantíssimos.
Com a consideração feita por você sobre a Reencarnação, lembrei-me dela de imediato.
Lá embaixo, muita gente anda falando e escrevendo do que não sabe...
— Inácio - interveio Modesta interessada -, eu também não me lembro da entrevista a que você se refere.
— Foram 32 perguntas abordando os temas:
Vida no Espaço, Sexo, Reencarnação e Actualidades.
Já que estamos dispostos a estudar, se vocês me permitirem, gostaria de citar duas perguntas cujos assuntos estão interligados e são de nosso imediato interesse.
Na questão de número 12, indagaram:
"As funções reprodutoras do sexo se destinam, somente, à vida na Terra?
A resposta, sucinta, nos induz a inúmeras reflexões:
"Em muitos outros orbes, compreendendo-se, porém, que mundos existem nos quais as funções reprodutoras não são compreensíveis, por enquanto, na terminologia terrestre".
— Tem gente que acha que sexo é coisa de mundo primitivo...
— Eu já ouvi até gente dizer que o espírito assexuado...
Um disparate!
Na célebre questão e número 200, de "O Livro dos Espíritos", próprios Espíritos disseram que não têm o como os homens o entendem - eles não eram que são assexuados!
A sexualidade está implícita na Criação.
Os seres vegetais e animais se reproduzem!
As células procriam e, arriscaria dizer, até os átomos!
— A sexualidade é manifestação que tende a sublimar-se - elucidou Odilon cauteloso.
— A comunhão espiritual entre duas pessoas é permuta de afecto.
Amor é reciprocidade.
Entre a terra e a semente, ocorre o fenómeno da complementação natural, sem que, a rigor, se possa dizer em qual existe maior entrega.
A pecaminosidade do sexo não está no sexo, em si, pois tudo o que Deus criou é sagrado.
— Ainda na aludida entrevista - argumentei -, foi perguntado a André Luiz se "os perispíritos das entidades espirituais, que se localizam nas vizinhanças da Terra, conservam o órgão do aparelho sexual humano"...
A resposta denotou surpresa do ilustre entrevistado:
"Sim, e por que não?
O órgão sexual é tão digno quanto o olho e como não se deve atribuir ao olho os horrores da guerra, o órgão sexual não pode ser responsável pelo vício".
— Ficou mais do que claro - ponderou Modesta.
Virtude e vício são pertinentes ao espírito, e não ao que se quer inculpar, na tentativa de eximir-se de responsabilidade.
— Tem-se a impressão de que o homem deseja inculpar o Criador pelos desvios que comete em matéria de sexo, não é?
E os que ele comete, então, valendo-se das mãos para surripiar e, por vezes, matar? Da boca para espalhar a maledicência? Dos olhos para destacar apenas o que é negativo?
A raciocinar assim, para não errar, o homem teria que viver sem corpo, porque, amputando todas as partes que lhe são causa de escândalo, o que sobraria dele?
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Re: Estudando "Nosso Lar" - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 24, 2018 9:50 am

— O corpo, por mais animalizado, é uma bênção para o espírito que, caso não reencarnasse, não encontraria meios de evoluir.
Sem reencarnar, o espírito não lograria a consciência de si mesmo:
o corpo físico é o cadinho em que ele se retempera!
— Aproveitando este seu comentário, Odilon, deixe-me destacar a segunda questão das duas que, inicialmente, mencionei a vocês.
É a de número 21:
"A reencarnação é lei imperativa em todos os orbes do Universo?"
— Eis aí, Inácio, algo que eu gostaria muitíssimo de ter lido em alguma publicação espírita confiável...
Infelizmente, quando encarnada, não tive acesso às páginas do "Anuário" de 1964:
já estava muito doente e desencarnaria no mesmo ano...
— Veja, então, a resposta:
"Mais razoável dizer que a reencarnação é princípio universal, compreendendo-se que existem esferas sublimes nas quais a reencarnação, como recurso educativo, já atingiu características inabordáveis ao conhecimento humano actual".
— Que síntese fantástica!
A Reencarnação como princípio universal!...
— E nas esferas sublimes também se reencarna! - frisei com incontida euforia.
— Logo...
— Logo - emendou Modesta, sem esperar por mim -, ocorre gestação!
— Não sabemos por que processo, mas ocorre: a fecundação, a gestação, enfim, todo o processo da reencarnação!
— Com a devida vénia espiritual - falou o Instrutor, sempre respeitoso -, consideremos o caso do espírito de Jesus.
Ele não reencarnou na Terra, concordam?
Jesus encarnou, pois que nasceu homem entre os homens uma única vez!
A sua evolução, feita em linha recta para Deus — concordando com o parecer de Emmanuel a respeito -, se deu em outros orbes, inclusive fora do nosso Sistema Solar.
A palavra dele, no Evangelho de João, capítulo 8, versículo 58, é um atestado da realidade da Reencarnação:
"Antes que Abraão existisse, eu sou"!
— Ora, sou onde, não é?
Se a Terra nem existia... - rematei reticente.
— Jesus era um extraterreno!
Isto foi dito por ele mesmo! - concordou Modesta.
— O que não quer dizer que tenha chegado à Terra de disco voador...
— Não, Inácio.
Você sabe que em minha palavra não há tal conotação.
— Sei, mas é bom que deixemos as coisas claras.
— Jesus era um extraterreno no sentido de que foi gerado fora da Terra, que, de facto, sequer existia.
— Agora, vejam a evolução do espírito do Divino Mestre:
segundo estimativas, o espírito humano está lidando com a razão há cerca de 40.000 anos!
Antes, era princípio inteligente.
Daí se pode deduzir que...
— Que eu sou uma toupeira! - ironizei.
Odilon e Modesta não se contiveram e sorriram.
— Do que vocês estão sorrindo? - perguntei sério.
Eu sou uma toupeira, mas, com o respeito que ambos me merecem, vocês também são!
Nós três somos toupeiras e o povo que está lá embaixo idem...
Em trocados e miúdos, somos um bando de toupeiras!
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Re: Estudando "Nosso Lar" - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 24, 2018 9:51 am

Toupeiras encarnadas e desencarnadas...
E, para provocar o meu revisor e amigo particular, o Prof. Fausto De Vito, transformei o substantivo em verbo e passei, literalmente, a conjugá-lo, sem modo algum:
— Eu, tu, ele, ela, nós, vós, eles, elas...
toupeiras!
Modesta e Odilon, de tanto sorrir, quase perderam a linha.
— Doutor, o senhor...
— Você é que é culpado, Odilon, me reduzindo a muito menos do que sou, ou seja, me fazendo praticamente inexistente, com as suas elucubrações filosóficas e cálculos matemáticos.
Se Jesus já era Jesus ao tempo de Abraão - de Abraão, que era praticamente um bárbaro no seu tempo! -, o que era eu?
Uma pedra, certamente!
Após a sessão-sorriso, infelizmente sem direito a pipoca, voltamos a falar com a seriedade que o assunto exigia.
— Odilon, brincadeiras à parte, Jesus, não tendo sido criado perfeito, o que, convenhamos, seria uma parcialidade do Criador, onde fez Ele a sua evolução?
Está aqui uma pergunta que, do Mais Além, endereço a todos os teólogos, espíritas ou não.
Respondam-na, se forem capazes!
Sem se recorrer à tese da Reencarnação, é impossível explicar Jesus Cristo e suas palavras.
Sem a ideia de que se renasce noutros mundos, mais físicos ou menos físicos - não importa a consistência da matéria em que se estruturem! -, Jesus, como tipo mais perfeito que Deus concedeu à Humanidade para lhe servir de guia e modelo, não se explica!
A menos, é claro, que passemos a adoptar a teoria da criação dos anjos e aí...
— Aí o quê, Inácio? - questionou Modesta, para me ouvir responder.
— Aí, eu vou reclamar!
— Reclamar com quem?...
— Com quem de direito!
Onde se viu um pai privilegiar um filho em detrimento de outro?
Eu sofrendo para deixar de ser Inácio e, um dia, no fim da eternidade, me transformar em anjo, e alguém já saindo com asas da casca do ovo...
— Todos os espíritos, porém, são criados simples e ignorantes - elucidou Odilon.
— Se assim é e sabemos ser assim, em Jesus Cristo a Reencarnação se confirma!
Jesus empreendeu a sua trajectória evolutiva no seio de outras Humanidades, e não foi por outro motivo que ensinou:
"Há muitas moradas na casa de meu Pai..."
— A ideia da Reencarnação, Doutor, transcende o aparecimento de qualquer religião na Terra.
Nasceu concomitante com a crença na imortalidade!
Trata-se de algo imanente, como a ideia de Deus na criatura humana.
— Dizem que a Reencarnação é uma tese criada por nós, os espíritas...
— Errado. A crença nas vidas sucessivas é anterior ao Bramanismo, que floresceu na índia Védica.
Ninguém sabe de que cérebro humano ela emergiu primeiro...
Não se trata, pois, de um sofisma, já que não foi pensada com segundas intenções.
— Com certeza, Odilon, foi um espírito exilado de Capela, não é?
Chico Xavier dizia que os que admitem a crença na Reencarnação não são todos da Terra...
— Como assim, Inácio? - inquiriu Modesta.
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Re: Estudando "Nosso Lar" - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 24, 2018 9:51 am

CAPÍTULO 11
-O que Chico disse é de grande profundidade, aliás, como tudo o que saía de sua boca, quando, evidentemente, não estivesse gracejando - sim, porque ele era humano e gracejava também.
O problema, Modesta - considerei -, é que os espíritos da Terra, no acto de reencarnar, apenas e tão-somente imigravam de um corpo para outro, com insignificante "deslocação da mente"; em outras palavras, não tinham qualquer percepção do fenómeno, como ainda hoje a maioria não tem...
— O que você está dizendo, Inácio, é importante, porque, de tanto entrar e sair do corpo, no fenómeno da reencarnação, já era para que quase todos os espíritos não mais dela duvidassem.
— Estamos, não obstante, alcançando progressos neste sentido - disse.
Em nível de inconsciência, a crença na reencarnação vai se alastrando:
hoje se pode dizer que boa parte da Humanidade, independente de cultura religiosa, é reencarnacionista.
Muitos católicos e, inclusive, protestantes, aceitam a tese da pluralidade das existências, porque a Reencarnação é o mais lógico dos argumentos para se explicar a Vida em suas aparentes contradições.
— Mas o que tem a ideia da Reencarnação com os capelinos? - perguntou Modesta.
— É que os espíritos capelinos - expliquei -, além de trocarem de corpo, trocaram de mundo!
— Trocaram de sistema solar!
— Exactamente.
A sua "deslocação mental", em relação aos que apenas mudam de corpo sem que, no entanto, se transfiram de planeta, foi acentuada - tão acentuada, que deu origem à teoria dos anjos decaídos!
— Como o Chico sabia das coisas, hem, Inácio?
— E como sabia, minha cara!
Ele foi à Terra, sentiu o ambiente, disse o que podia ser dito e veio embora, trazendo de volta consigo muita coisa que, infelizmente, não estávamos em condições de assimilar.
Por este motivo, Neio Lúcio, conforme já mencionamos, comentando o conteúdo do livro "Nosso Lar, escreveu:
"E creiam que as narrativas são pálidas no confronto com o real!"
— E são mesmo!
— E, por muito tempo ainda, haverão de continuar sendo! - repliquei.
Veja você que, quando conseguimos avançar um pouquinho, ou, às vezes, não significa nem avançar, mas simplesmente por dizer as coisas com maior clareza, somos rotulados de mistificadores.
— Daí, Doutor - interveio Odilon -, a necessidade de se ir dosando o conhecimento, não é?
— Concordo em parte, porque também não podemos deixar de atender aqueles sinceramente empenhados em aprender.
— Sim, mas estes sempre haverão de "correr atrás", não se contentando com a mesmice em que tantos se satisfazem...
— Em que tantos fazem questão de se satisfazer, Odilon - retruquei.
Você sabe que, infelizmente, muitos querem simplificar para atender a seus próprios interesses na lei do menor esforço.
Sobre a tese da reencarnação no Mundo Espiritual que levantamos nos livros de nossa lavra, muitos são contrários a ela, porque não querem continuar renascendo! Consideram que já é muito reencarnar na Terra!...
Pausei por instantes e prossegui:
— Pude constatar pessoalmente o que digo.
Os mais ferrenhos adversários da tese argumentam que não admitem a possibilidade de continuar morrendo indefinidamente, pois se já morrem o suficiente na Terra, por que ainda morrer nos Planos Espirituais?!...
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Re: Estudando "Nosso Lar" - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 24, 2018 9:51 am

— Inácio, eles não entendem que o corpo espiritual está para nós como o corpo físico está para eles...
— Entendem, sim, Modesta; muitos entendem, mas se fazem de desentendidos.
A conversa entre nós, embora extremamente proveitosa, se alongara em demasia e precisávamos encerrar.
Despedimo-nos, com a expectativa de breve reencontro, quando nos reuniríamos para dar início aos estudos concernentes a certos tópicos de "Nosso Lar".
Ao me ver sozinho em meu gabinete e tendo ainda algum tempo livre, antes de retomar a faina junto aos doentes sob a minha responsabilidade, vasculhando papéis sobre a mesa, me deparei com a carta que uma irmã me endereçara da Terra.
— "Dr. Inácio - escrevera ela -, fico encantado com o seu amor aos animais...
verdade mesmo que os animais também sobrevivem à morte do corpo? O meu gatinho de estimação, de nome Lenis, desencarnou e sinto muita falta dele.
Eu moro sozinha, não tive filhos e, desde que Lenis partiu, a minha solidão aumentou - o apartamento em que moro ficou grande demais!
O que devo fazer?
Será que ele pode reencarnar e voltar para casa?
É verdade que os animais de estimação tendem a reencarnar junto a seus antigos donos?
Responda-me, por favor. Beijos."
— Querida Yara - comecei a responder à gentil missivista -, agradeço as palavras carinhosas que não mereço.
Graças a gente como você é que me sinto encorajado a prosseguir na luta sem quartel, travada entre os Dois Planos da Vida.
É verdade, sim, minha cara:
qual nos acontece, os animais também sobrevivem à morte do corpo; aliás, nada desaparece para sempre, nem um simples átomo!
Compreendo a sua solidão...
Não raro, eu também experimentava a angústia de não ter ninguém para conversar.
Como eram longas aquelas noites!
O domingo, para mim, tinha a duração de quase uma semana, pois era o dia em que eu mais permanecia ocioso.
A ociosidade é provação voluntária, que o espírito precisa combater, sob pena até de se habituar a ela.
Neste Outro Lado da Vida, conheço espíritos que se acostumaram tanto ao tempo vazio, que hoje não sabem aproveitar a bênção dos minutos e das horas.
Sim, o Lenis poderá reencarnar e, com certeza, o fará na primeira oportunidade.
Afinal de contas, embora a castração geral a que os felinos estão sendo submetidos por aí, sempre um ou outro mais assanhado há de escapar e aprontar das suas com as gatinhas da vizinhança...
É possível, pois, que o seu Lenis, novamente "engatado", ou melhor, devidamente encarnado, venha a ser esquecido por alguém à porta do prédio em que você mora.
E com a sua sensibilidade, tenho certeza, você conseguirá identificar o miado dele entre milhões de outros miados, não importando, inclusive, se ele tiver trocado de corpo e, em vez de macho, for uma linda fêmea.
Você não é uma mulher preconceituosa, é?
Os animais também não são.
Preconceito, por incrível que pareça, é coisa de gente, não de animal.
A esta altura, sinceramente, eu nem sei quem é mais gente ou bicho - se os homens ou os animais!
Sim, respondendo a mais uma de suas perguntas, os animais, quando são amados, tendem a voltar para a companhia de seus antigos donos.
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Re: Estudando "Nosso Lar" - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 24, 2018 9:51 am

O amor é algo a quem ninguém resiste, concorda?
Em sã consciência, quem é que dispensa um cafuné?
Nem um bichano ou principalmente um bichano.
Eu tive vários que, quando não estavam sendo acariciados por mim, viviam ronronando entre as minhas pernas. Lembro-me, por exemplo, de Sónia - era uma gatinha especial que dormia enrolada aos meus pés.
A carência de um se juntava à carência de outro e, como resultado, dava carência ao quadrado.
Sónia era tão ciumenta - Ah, meu Deus, o que há de ser quando ela reencarnar mulher! -, que não permitia que nenhuma outra gata ou mesmo gato subisse na minha cama.
Era briga na certa, e Sónia tinha umas garras afiadíssimas!
Já tive vontade de saber por onde ela anda agora, mas, sinceramente, tenho medo:
vamos que ela tenha se transfigurado numa morena atraente dessas que são irresistivelmente fatais...
Estou brincando, mas nem tanto.
Afinal, ninguém sabe quando o princípio inteligente dos animais começa a se metamorfosear em gente.
Tomara que nenhum doutor da lei, travestido de espírita, venha a apontar nesta missiva ingénua um crasso erro doutrinário.
Ultimamente, Yara, eu não posso nem mais exercitar a minha vocação para palhaço, que logo aparece alguém me rotulando o espírito disto ou daquilo.
Mas deixemos isto para lá.
Outra hora, eu prometo desabafar com você.
Agora, aceite um conselho meu.
A minha casa também, um sobrado, era muito espaçosa para mim.
Quando, no entanto, percebi que não estava destinado a ser pai em minha derradeira existência no corpo, sabe o que fiz?
Com um grupo de amigos abnegados, fundei um lar para crianças, o Lar Espírita, em Uberaba.
Adoptei como sendo minhas aquelas meninas todas!
Toda criança que, por este ou aquele motivo, tá ia morar connosco, passou a ser minha filha!
Os meus dias, então, se transformaram...
Eu não mais tinha tempo para pensar em solidão!
Chegamos a ter mais de cinquenta crianças no lar.
Eu, que não tinha uma família propriamente minha, de repente me vi sem tempo para mais nada, tendo que me dividir entre os doentes internados no Sanatório e aquelas meninas que queriam o meu colo, a minha mão, a barra da minha calça e que me chamavam de papai e, por vezes, de vovô.
Confesso que não gostava muito quando uma delas me chamava de vovô - não gostava, mas, como todo avô, me derretia todo!
Talvez, com as dificuldades da vida actual - sei que a coisa anda um pouco mais feia por aí - você não possa fundar uma instituição semelhante a tantas outras que cuidam de crianças esquecidas pelos pais ou mesmo uma casa de amparo aos idosos que a família marginaliza.
No entanto, querida Yara - e aqui vai o conselho de que lhe falei -, desça de seu apartamento, atravesse a rua, dobre a esquina, ande mais duas ou três quadras e você, com certeza, se deparará com uma instituição necessitada de voluntários que possam ceder, pelo menos uma vez por semana, uma ou duas horas de seu tempo.
Assim como Sónia pode estar numa dessas morenas que desfilam na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, no Rio de Janeiro, o seu Lenis - quem sabe? - pode estar num desses recém-nascidos ainda sem nome, à espera de seus braços, que, como os meus, também se frustraram para a bênção da maternidade nesta vida.
Eu tenho plena convicção de que você se derreterá toda, ao ouvir uma dessas crianças chamá-la de mamãe ou de vovó!
Se tal ocorrer, não chore, que é proibido, certo?
Você me perdoe este bilhete escrito às pressas.
Estou com a mesa entulhada de serviço e o Hospital abarrotado de gente que chegou destrambelhada da Terra.
Isto aqui literalmente, é uma loucura!
Ainda bem que alguns bichanos me eram fiéis e me seguiram nos caminhos além da morte.
A Mimi é um encanto!
Antes, eu tinha medo de que os meus gatos desencarnassem, como, aliás, acabava acontecendo; hoje, eu tenho medo de que eles reencarnem e voltem para esta selva perigoso que é a Terra, onde eles poderão ser devorados por uma jararacuçu, dessas que andam, falam e são consideradas civilizadas.
Fique com Deus e conte com as minhas vibrações, que prossiga contando com as suas preces.
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Re: Estudando "Nosso Lar" - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 24, 2018 9:51 am

CAPÍTULO 12
Se eu fosse dar nome a este capítulo, certamente seria:
"Um Encontro Inusitado".
Naquele dia, de manhã, chovia a cântaros.
Sim, depois da morte também chove!
Por mais que isto possa escandalizá-los, digo-lhes:
relampeja, troveja e chove!
— Dr. Inácio - avisou-me Manoel
Roberto -, tem um senhor aí fora...
— O que ele quer?
Uma consulta?
— Não, disse que apenas quer falar ao senhor.
Faço-o entrar?
Com certo pressentimento n'alma que ainda tem um corpo como envoltório, respondi que sim.
O homem, de terno e gravata (tal indumentária também existe por aqui) cumprimentou-me de maneira formal.
— Dr. Inácio Ferreira?
— O próprio, por enquanto.
— Eu sou o Evilásio - apresentou-se, carregando na pronúncia.
— Estou ao seu dispor. Não temos muito tempo, mas posso ouvi-lo.
— Sou recém-chegado por aqui, Doutor!
— Parece-me muito bem.
Faz quanto tempo que deixou a carcaça?
— Há um ano e três meses...
— Meus parabéns!
— Eu sou espírita, e isto ajudou muito.
— Quando não atrapalha, ajuda!
—Antes de desencarnar, tive oportunidade de 1er os seus três primeiros livros mediúnicos:
"Sob as Cinzas do Tempo", "Do Outro Lado do Espelho" e "Na Próxima Dimensão".
Fez uma pausa estudada, suspirou e prosseguiu:
— Parei por aí.
— O senhor até que foi longe!...
— Eu era Director de uma Federação - disse, arrumando o corpo na poltrona.
— Desconfiava.
— Critiquei muito as obras do senhor; fiz campanha contra elas.
— É um direito que lhe assiste.
— Tomei a iniciativa de vir aqui para saber se o senhor é o senhor mesmo!
Simulando olhar ao redor, vasculhando o ambiente, respondi:
— Só nós dois estamos aqui!
A sala, aparentemente, está vazia.
Não sou vidente...
— O senhor é o senhor mesmo?
— Como?!
— É o senhor o Dr. Inácio Ferreira, que escreve aqueles livros?
— Até prova em contrário, sim, sou eu.
— O senhor não é o Ignacio?
— Nasci Ignacio, mas vivi e morri Inácio.
Eu não estou entendendo...
— O senhor, de facto, me parece tão irónico quanto o outro.
— Não; eu sou um pouquinho mais...
Quando está chovendo, assim como hoje, eu fico mais calmo, sabe.
Adoro chuva!
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Re: Estudando "Nosso Lar" - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 24, 2018 9:52 am

— Chuva neste Outro Lado, que absurdo!
— O senhor é contra Deus?
— Não foi o que quis dizer.
Mas imagine chover, ainda mais a cântaros, no Mundo Espiritual...
— Tem região em que neva - verdadeiras nevascas!
— O senhor admite que possa estar errado, Doutor? - perguntou-me.
— Sobre?...
— O que escreve em seus livros, que estão causando uma verdadeira arruaça no Movimento!
— Ah!, sim, admito.
Estou longe da Verdade, da qual, pelo que vejo, o senhor deve estar perto.
— Para mim, a Verdade está com Kardec e com mais ninguém.
— Para mim também: primeiro com Jesus e, depois, com Kardec!
Ah, e com Chico Xavier!
— Chico era um médium...
— Incomum!
— Não sei, não.
Por onde é que ele anda, para eu comprovar se, de fato, ele é a reencarnação de Kardec.
— Não tenho o endereço dele, não.
— O senhor precisa parar de escrever que ele é o Codificador!
Não tem nada a ver, não acrescenta.
— Esta é a sua opinião, mas entre ela a minha, eu fico com a minha!
— E o médium, pelo qual o senhor escreve?
— O que tem ele? - perguntei.
— Filtra tudo direitinho? É fiel?
— Infalível não é, mas não tenho que não. Dá para o gasto.
— Não muda nada de seu pensamento?
Às vezes, estamos achando que é o senhor, e é ele.
— Não, assumo: sou eu mesmo!
— Estou aqui, Doutor, representando muita gente...
— Gente que gosta de actuar nos bastidores, não é?
— O que quer dizer com isto?
— O que disse. Não fui claro?
— O senhor parece não ter medo de nada...
— Engano seu. Tenho medo, sim.
— O que teme?
— Só a mim mesmo, meu caro!
Eu sou um perigo!...
Vivo aqui sob o controle de muita gente.
Se dependesse apenas de mim...
— Quem o controla?
— Olhe, é tanta gente, que nem sei...
— Quer dizer que tudo o que escreve ainda passa por um crivo?
— Infelizmente, passa; os meus revisores do Lado de Cá são extremamente rigorosos - benevolentes, mas rigorosos.
Não me dão moleza, não!
— O senhor fala gírias?
— Falo gírias e outras coisas mais!
O meu vocabulário é bem diversificado.
— Mas o senhor é um Mentor?!
— Evelácio...
— Evilásio, Doutor, por favor - corrigiu-me.
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Re: Estudando "Nosso Lar" - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 24, 2018 9:52 am

— Com s e acento agudo no á!
— Eu sou mentor do prato de arroz com feijão que como todo dia!
— Mas espírito que escreve para a Terra...
— É quase tudo gente, como os médiuns mesmo e vocês também! Ou não?
— O senhor não tem papas na língua...
— Eu não tenho papa em lugar nenhum, meu filho, nem no Vaticano ou nesta ou naquela Federação.
Graças a Deus! Eu sou livre!
Não faço conchavos, não negocio, não bajulo.
Tráfico de influência não é comigo!
Satisfação? Somente à minha consciência.
— Podemos, pelo menos, conversar como duas pessoas educadas...
— Eu não estou à venda!
Se você veio aqui para me comprar, perdeu o seu tempo.
— O senhor é mal-educado, não?
— Entre ser mal-educado e covarde, prefiro ser mal-educado.
— Por que é contra as Federações?
— Eu não sou contra as Federações; simplesmente me oponho aos que se valem do chamado Movimento de Unificação para cercear a liberdade de expressão dos espíritos e dos médiuns...
Uma Federação deveria funcionar como uma casa espírita mãe das demais casas espíritas, que lutam com tantas dificuldades para sobreviver.
Você militou em alguma casa espírita? - perguntei.
— Não - respondeu Evilásio, hesitante.
— Comecei, mas depois...
— Já trabalhou fazendo sopa ou participou das campanhas do quilo...
Pelo menos, já actuou como médium passista?...
— Não!
— Já enfiou a mão no bolso alguma vez, cotizando-se com os companheiros para pagar a conta de energia ou de água?
— Sinceramente, não!
— Mas "O Livro dos Espíritos" você conhece, não é?
— Ah, sim, conheço.
Participei de vários cursos...
— E "O Evangelho Segundo o Espiritismo", na prática?
O confrade, perdendo a pose, começou a pensar.
— Você me desculpe, porém tenho mais que fazer - disse, levantando-me.
— O senhor, então, vai continuar escrevendo? - indagou por último.
— Eu não sou homem de me intimidar, meu caro. Passar bem!
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Re: Estudando "Nosso Lar" - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 24, 2018 9:52 am

CAPÍTULO 13
Finalmente, chegara o dia de nosso primeiro painel de estudos sobre os temas do livro "Nosso Lar".
Odilon, Modesta, Manoel Roberto, Domingas e eu estávamos a postos, diante de um público de mais 150 interessados.
Tomando a palavra, Domingas, com o seu entusiasmo contagiante, explicou a sistemática da reunião, pedindo que os apartes ou possíveis questionamentos fossem feitos por escrito.
Em cadeiras dispostas em semicírculo, simulando uma sala-de-estar, nos acomodamos para aquele "bate-papo informal", que esperávamos fosse proveitoso.
Notei que vários dos participantes, certamente por orientação de Domingas, portavam um volume da obra a ser estudada.
Aqui, no resumo que apresento, dispensar-me-ei de transcrever o resultado dos estudos que efectuamos sobre o primeiro capítulo de "Nosso Lar", já que, como os nossos irmãos devem se recordar, o fizemos páginas atrás, quando, então, Domingas sugeriu que estudássemos todo o livro.
Passaremos, pois, de imediato, ao segundo capítulo, que descreve o encontro de André Luiz com Clarêncio.
— Dr. Inácio - disse Domingas -, este capítulo de "Nosso Lar" é repleto de informações explícitas e implícitas de grande importância.
No entanto, poderíamos iniciar com o que nos deparamos no segundo parágrafo.
E leu:
— "Para quem apelar?
Torturava-me a fome, a sede me escaldava.
Comezinhos fenómenos da experiência material patenteavam-se-me aos olhos.
Crescera-me a barba, a roupa começava a romper-se com os esforços da resistência, na região desconhecida."
— E evidente - comecei - que não se trata de uma figura literária do autor desencarnado.
O espírito, após o seu desenlace, experimenta, na maioria das vezes, sensações físicas idênticas às que experimentava no corpo que deixou:
sede, fome, frio, cansaço, sono...
Em "O Livro dos Espíritos", quando escreveu um "Ensaio Teórico sobre a Sensação nos Espíritos", Kardec considerou:
"Liberto do corpo, o espírito pode sofrer, mas esse sofrimento não é o mesmo do corpo; não obstante, não é também um sofrimento exclusivamente moral, como o remorso, pois ele se queixa de frio e de calor."
Compreendamos que Kardec não pôde avançar mais.
— Mas deixou claro aí, não é, Doutor?
- comentou a própria Domingas. — "...não é também um sofrimento exclusivamente moral..''
— Não, não é. As necessidades, se assim posso me expressar, embora sejam fictícias, são, para o espírito, necessidades reais.
— Fictícias ou ilusórias, são as nossas próprias necessidades, quando no corpo carnal!
— Exactamente. A imperfeição espiritual nos cumula de necessidades supérfluas, completamente dispensáveis.
— Que iremos, gradativamente, dispensando ao longo da evolução - ponderou Modesta.
— As nossas necessidades aqui, no Mundo Espiritual, já sofreram certa redução e, nas Dimensões Superiores, se reduzirão mais ainda.
— Ao ponto de determinados órgãos, por dispensados de suas funções, desaparecerem!
— Que interessante! - exclamou Domingas, satisfeita com o resultado daquele diálogo.
— Um pouco mais adiante - frisei -, neste segundo capítulo, no sexto parágrafo, André Luiz considera textualmente:
"Persistiam as necessidades fisiológicas, sem modificação."
O auditório estava em suspenso.
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Re: Estudando "Nosso Lar" - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 24, 2018 9:52 am

— O que os nossos irmãos encarnados devem subentender aqui, ao lerem este trecho?
- perguntei.
— Doutor - respondeu Manoel -, o que está escrito, não?!
— Que a gente vai ao sanitário, não é, Manoel?!
Todos sorriram.
— Uai!, vocês não vão? - questionei provocativo.
Não existe sanitário nas casas onde moram?...
Fiz ligeira pausa e brinquei:
— Ufa!, que calor? Estou transpirando, Domingas!
O perispírito possui glândulas sudoríparas ou estarei delirando?
— Estas duas colocações - opinou Odilon -, isoladas do texto do segundo capítulo de "Nosso Lar", remete o leitor a profundas reflexões em torno da constituição do perispírito.
— Como também - disse Manoel Roberto - o facto de André Luiz ser retirado do Umbral...
— Que começa na Terra mesmo! - enfatizou Modesta.
— Isto - concordei.
Aliás, dizia Chico que o Umbral começa dentro de nós mesmos:
não se trata de uma região alhures...
Mas, por favor, complete Manoel o seu pensamento.
— Eu ia me referindo ao facto de André Luiz, após uma permanência de quase nove anos no Umbral ter sido retirado de maca!
— Muito bem colocado, Manoel! - incentivei.
Numa maca improvisada!
— E, de imediato, como qualquer mortal, ser conduzido para um hospital...
— Onde permaneceu sob os cuidados do Dr. Henrique de Luna durante quase um ano, efectuando curativos no abdome aberto!
— Vejamos que o nosso corpo espiritual é susceptível de trazer sequelas para este Outro Lado da Vida!
Não somente as leva daqui para lá!
Sendo comum que o espírito ressurja no berço como estava antes de reencarnar, o inverso, com excepções, também pode acontecer.
— Óptimo! Não é à toa que sou seu fã, Odilon!
Muitos reaparecem por aqui nas condições em que se encontravam antes de desencarnar.
— Por tal motivo, após a desencarnação, quase todos fomos hospitalizados, não é?
Acho que todo o mundo aqui, ao voltar da Terra, passou pelo hospital, certo?
Não sei se o Dr. Odilon...
— Domingas, por que não, minha filha?
Durante meses fui, sim, espírito convalescente.
Careci de tempo para recuperar-me.
— Interessante, quando estávamos lá embaixo, os espíritos diziam que estavam hospitalizados e nós deixávamos por isso mesmo - não os interrogávamos a respeito, perdendo incontáveis oportunidades de maior elucidação, não é, Modesta?
— É verdade, Doutor.
— Permanecíamos com aquela ideia um tanto vaga de se estar hospitalizado no Além...
Ora, quase todos, em suas breves comunicações connosco, repetiam que estavam internados!
— Que estavam ou seriam, após a chamada doutrinação - termo que o nosso Odilon não gosta muito de empregar.
— É algo particular, D. Modesta; prefiro diálogo fraterno, já que não estamos em condições de doutrinar sequer a nós mesmos...
Espontaneamente, o pessoal aplaudiu, deixando o amigo desconcertado.
— Mas falávamos sobre o perispírito - saí em defesa de Odilon que se sentira constrangido.
— 0 desconhecimento da natureza do corpo espiritual nos induz a equivocadas deduções sobre o Mundo Espiritual.
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Re: Estudando "Nosso Lar" - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 25, 2018 10:07 am

Lógico, quando estamos lá embaixo, pois aqui a história é outra - pelo menos, para a maioria a história é outra.
— Eu não sei bem se para a maioria, Dr. Inácio - comentou Domingas.
Mesmo aqui, existe resistência voluntária à realidade.
Infelizmente, milhões e milhões permanecem de consciência adormecida.
— Você tem razão - concordei.
Eu deveria ter dito: a história deveria ser outra!
E, por falar em consciência adormecida, permitam-me perguntar - disse voltando-me para a plateia.
— Quantos de vocês aqui presentes connosco, se recordam de sua anterior estada no Mundo Espiritual?
Por favor, levantem a mão.
Algum de vocês tem qualquer lembrança de sua anterior permanência no Mundo Espiritual, antes desta de agora?
Dos mais de 150 presentes, apena quatro timidamente levantaram a mão.
— Pouco mais de 0,5%! - exclamei.
E de vocês quatro, as reminiscências são nítidas ou vagas?
Um após outro, respondem:
— Vagas!
— Então, podemos dizer que praticamente todos têm a impressão de que esta foi a sua primeira desencarnação?
Todos abanaram afirmativamente a cabeça.
— E quantas vezes já morremos?
Alguém aqui poderia precisar?
— Presumo que centenas - respondeu uma jovem sentada nas fileiras da frente.
— Domingas - perguntei -, você se recorda de sua anterior estada no Mundo Espiritual?
— Não, Doutor.
Creio que foi a primeira vez que desencarnei - gracejou.
Sinceramente, não tenho a menor reminiscência de nada.
Posso dizer que tudo para mim aqui é novidade.
— O Espiritismo nos faz desencarnar com lucidez, correto?
— Lucidez relativa, não é, Doutor?
— Sim, mas em vista das experiências anteriores...
— Espiritualmente, sinto que estou me alfabetizando - observou Manoel -; estou aprendendo a soletrar as primeiras letras do alfabeto...
— Vejam - disse -, André Luiz não era um espírito qualquer, concordam?
Ele era, e continua sendo, um cientista humanitário.
— O que sobra para nós outros, hem, Doutor?!
Ele saiu de maca do Umbral...
— Tem gente, principalmente espírita, que acha que vai sair volitando!
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Re: Estudando "Nosso Lar" - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 25, 2018 10:08 am

CAPÍTULO 14
- O Mundo Espiritual - opinei - tem sido pensado de maneira muito ingénua e mística pela maioria.
— Concordo, Domingas -, porém carecemos de levar em consideração os séculos e séculos de uma doutrina religiosa deturpada, influenciando as mentes.
Mesmo o espírita, por vezes, pensa na vida de além-túmulo com a cabeça do católico.
Refiro-me ao Catolicismo por ser, no Ocidente, a doutrina religiosa predominante.
— André Luiz, logo após ser conduzido à cidade de Nosso Lar, ignorando completamente em que lugar se encontrava, perguntou, aos enfermeiros que o assistiam:
"Amigos, por quem sois, explicai-me em que novo mundo me encontro..."
— Ora - redargui -, quantas vezes, certamente, André Luiz já houvera desencarnado?
Qual a razão de sua surpresa?
Como desencarnara ele das vezes anteriores?
Deduzimos, de suas palavras, que aquela sua visão de Mundo Espiritual era absolutamente nova?
— Salvo melhor juízo - aparteou Manoel Roberto -, outra dedução que o texto nos sugere:
Nosso Lar foi a primeira cidade espiritual erguida nos céus dos Brasil - certo ou errado?
— Certo! - exclamei.
É possível até que noutras regiões do espaço geográfico brasileiro existissem esboços de colonização, mas, com certeza, a cidade de Nosso Lar pôde ser considerada a Capital Espiritual do Brasil!
— Há um trecho da obra que, se me permitissem, gostaria de citar, corroborando o que vocês estão dizendo.
— Pois não, Domingas.
Com voz pausada, a distinta companheira começou a ler:
— "Nosso Lar" é antiga fundação de portugueses distintos, desencarnados no Brasil, no século XVI.
A princípio, enorme e exaustiva foi a luta, segundo consta em nossos arquivos no Ministério do Esclarecimento.
Há substâncias ásperas nas zonas invisíveis à Terra, tal como nas regiões que se caracterizam pela matéria grosseira.
Aqui também existem enormes extensões de potencial inferior, como há, no planeta, grandes tratos de natureza rude e incivilizada.
Os trabalhos primordiais foram desanimadores, mesmo para os espíritos mais fortes.
Onde se congregam hoje vibrações delicadas e nobres, edifícios defino lavor, misturavam-se as notas primitivas dos silvícolas do país e as construções infantis de suas mentes rudimentares."
— Em outras palavras, o espaço geográfico espiritual, sob os céus do Brasil, era ocupado
pelos indígenas desencarnados...
— E suas criações mentais rudimentares, Manoel! - confirmei.
Nosso Lar, realmente, foi a primeira cidade da colonização do espaço espiritual de nosso País.
Enquanto, no Plano Material, os bandeirantes desbravavam a extensão territorial da nova terra, o mesmo acontecia no Plano Espiritual.
— Por este motivo - observou Domingas -, tudo era novidade para André Luiz na desencarnação.
— Será que André Luiz não vivera antes no Brasil? - perguntou Manoel.
— Quem sabe, Manoel? - respondeu Odilon, tomando a palavra.
O problema é que o próprio André, em várias de suas experiências no corpo, não guardou consciência do fenómeno reencarnação/desencarnação!
— Pode-se dizer, então, que somente quando desencarnou da última vez ele o fez de maneira mais consciente?
— É o que, claramente, se depreende de suas palavras:
"Amigos, por quem sois, explicai-me em que novo mundo me encontro..."
— Mas não poderia, por exemplo, Dr. Odilon, ele apenas não estar se recordando imediatamente do Mundo Espiritual?
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Re: Estudando "Nosso Lar" - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 25, 2018 10:08 am

André era recém-saído do Umbral...
— Poderia, Domingas, no entanto é pouco provável que este tenha sido o motivo de seu espanto inicial.
Ele não faz perguntas alusivas à cidade; ele pergunta:
"... em que novo mundo me encontro...?".
— A gente precisa reflectir muito! - comentou Manoel.
Daí, talvez, os espíritos, conversando com Kardec, não terem feito referência à existência de cidades no Mundo Espiritual:
eles mencionaram a Erraticidade.
— Aliás, termo um tanto quanto vago, vocês concordam? - perguntei.
— Nossa, como um assunto vai levando a outro! - disse Domingas com espontaneidade, fazendo o pessoal sorrir.
É mesmo! Estudar não é brincadeira, não.
A gente precisa de estar atento.
— Erraticidade - explicou Odilon -, é um termo genérico para designar a situação do espírito que ainda não logrou alcançar a perfeição.
— Daí a denominação "espírito errante"?
— Sim. Enquanto não atingirmos o estado de espírito puro, libertos da necessidade de reencarnar, todos, desencarnados e encarnados, podemos nos considerar "espíritos errantes"!
— Então, a Erraticidade é o Mundo Espiritual? - indagou Manoel.
— Com mais propriedade, diríamos que são as múltiplas Dimensões, Físicas e Extra-física, que o espírito carece de percorrer, em sua carreira evolutiva.
— Jesus não era um espírito errante?
— Não, Manoel, não era. Jesus é espírito puro!
— Quer dizer que todo espírito que ainda carece de reencarnar, na Terra ou noutros mundos...
— É espírito errante!
— Mais ou menos errados, Manoel - ajuntei.
— Doutor, agora a minha cabeça bagunçou de vez.
— E a minha também! - exclamou Domingas.
— Gente, é simples:
Jesus é espírito puro; nós - todos nós, sem excepção de nenhum - somos espíritos errantes, mais ou menos errados...
— Por que mais ou menos errados?...
— Depende do tamanho do carma de cada um, uai!
É simples. Somos espíritos errantes, porque ainda sujeitos à Lei da Reencarnação - estamos em trânsito para a perfeição!
— Agora está começando a clarear - falou Manoel. — Todo espírito em trânsito é errante?
— Exactamente! Todo espírito numa condição evolutiva transitória é errante e...
— Mais ou menos errado.
— Eureca, Manoel! - gracejei. — Finalmente!
Louvado seja! Aleluia!...
— Doutor, não é fácil entender isso, não - redarguiu Domingas, emendando com uma pergunta:
Nosso Lar, então, está na Erraticidade?
— Está! É uma cidade de transição; aliás, como a Terra é um mundo de transição e a própria dimensão em que nos encontramos presentemente...
— Vocês entenderam? - interrogou Domingas ao público atento.
— Infelizmente, sim - respondeu espirituoso jovem lá das últimas fileiras.
— Pois é. Esta é a nossa classificação:
espíritos errantes, mais ou menos errados!
— Mais para mais do que para menos!
— Domingas, minha cara - agora fui eu a solicitar -, não complique: deste tamanho está óptimo!
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Re: Estudando "Nosso Lar" - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 25, 2018 10:08 am

— E depois de Nosso Lar? - inquiriu Manoel.
— Enquanto o Brasil era colonizado por terra, os espíritos mais conscientes colonizavam o seu espaço geográfico espiritual, e várias cidades foram surgindo...
— As chamadas "bandeiras" iam ocorrendo no Mundo Espiritual?...
— Exactamente!
Silenciou por instantes e aduzi:
— Creio que este comentário seja pertinente.
Vocês sabem que quase toda vila ou pequeno povoado se desenvolveu a partir da fundação de uma igreja, não é?
André Luiz, referindo-se à fundação de Nosso Lar, escutando explicações de Lísias, faz observação interessantíssima:
"Os fundadores da colónia começaram o esforço partindo daqui, onde se localiza a Governadoria"!
Não é curioso?
— Sem dúvida - concordou Domingas.
— Podemos inferir, de tal informação, que Nosso Lar seja uma cidade espírita?
— Ecuménica! - respondeu Odilon.
— Em Nosso Lar existem templos consagrados às mais diversas vertentes do pensamento religioso.
— Templos católicos, protestantes, espíritas, budistas?...
— Situando-se nas faixas mais altas do Umbral, denominadas genericamente de "Umbral Fino", Nosso Lar, através de seus Ministérios, tanto se liga às dimensões inferiores quanto às superiores.
Delas, a maioria desce para novas experiências no corpo de carne; alguns, no entanto, ascendem a regiões onde a Vida, por agora, transcende a nossa capacidade de compreensão.
— O nosso tempo de hora e meia esgotou-se - avisou Domingas.
— Ah! - exclamou o pessoal - Que pena!...
— Que alívio, digo eu - brinquei suspirando.
— Amanhã, continuaremos.
— Não tivemos tempo de nos referir à questão do vestuário - observei. — Amanhã, retomaremos o estudo falando sobre ela.
— Como tem gente que, efectuando uma leitura dinâmica sobre uma obra como "Nosso Lar", repleta de conteúdo, pode dizer que a conhece?
Estamos conversando há mais de noventa minutos e não esgotamos o assunto em torno, praticamente, de um único parágrafo!
- observou Domingas, dando a reunião por terminada.
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Ave sem Ninho

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Re: Estudando "Nosso Lar" - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 25, 2018 10:08 am

CAPÍTULO 15
No outro dia, após as costumeiras tarefas no Hospital, estávamos novamente reunidos para os estudos programados.
— Bem - explicou Domingas -, ontem, o nosso caro Dr. Inácio disse que teceria mais algumas considerações sobre o parágrafo que destacamos...
— Sobre a questão da indumentária dos espíritos - frisou Manoel Roberto.
— A nossa própria, Manoel! - rectifiquei, já arrancando sorrisos iniciais da plateia.
— Doutor, de quando em quando a gente esquece que está desencarnado...
— Como esquecíamos que estávamos encarnados!
Um pequeno esquecimento, porém, fundamental, para que nos perfilemos diante da verdade dos factos.
— Creio ser este o tópico, não, Dr. Inácio? - perguntou Domingas, passando a ler.
— "... a roupa começava a romper-se com os esforços da resistência..."
— Justamente - concordei.
Como também imaginávamos, o pessoal imagina que tudo, neste Outro Lado da Vida, é criação da mente.
Modesta, que de nosso primeiro painel quase não participara, inquiriu:
— Mas, afinal, o que não é criação da mente?
— Ora, viva, Modesta! - brinquei.
— Finalmente, a cor de sua voz!...
Achei que estivesse aborrecida com alguma coisa!
— Eu estava aprendendo, Inácio.
Agora, como hoje o assunto é sobre roupa...
— Se a Domingas deixar, falará mais, não é? - provoquei com alegria.
— Sobre a Terra - Modesta foi directo ao tema -, o que não é criação da mente?
O pensamento está na base de toda realização.
Qualquer engenho é concebido pela capacidade humana de intuí-lo, certo?
Singela peça de roupa é entretecida por nós ténues, a que a imaginação do estilista e a habilidade da costureira ou do alfaiate, posteriormente, dão forma.
— Uma casa, um edifício...
— Criação da mente humana, Manoel - frisou a companheira.
— A televisão, o computador...
— Idem, Domingas.
O Universo é criação da Mente Divina!
Nada existe fora dos domínios do pensamento.
— É que o pessoal lá embaixo acha que, neste Outro Lado, as coisas não têm consistência real, ou seja, não são constituídas de matéria.
— Ledo engano! Tudo é relativo:
a matéria para nós aqui possui consistência real!
O corpo espiritual, mesa, cadeira...
Neste Outro Lado, não atravessamos paredes!
— Eis o ponto! - exclamei.
A turma encarnada precisa saber que nós, onde nos encontramos domiciliados, não atravessamos paredes.
Atravessamos paredes lá, não aqui!
— O espírito encarnado, desde que em estado de desdobramento, pode, sim, atravessar paredes - elucidou Modesta.
Muitas vezes, quando saía do corpo, eu as atravessava como, igualmente, me sentia a volitar...
Agora, neste Outro Lado, se quero passar de um cómodo a outro, tenho que abrir portas!
— Kardec chegou a mencionar o problema do vestuário dos espíritos? - perguntou Manoel Roberto.
— Recordo-me de ter lido algo em "O Livro dos Médiuns" - replicou Domingas.
Ou terá sido noutra obra da Codificação?
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Ave sem Ninho

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Re: Estudando "Nosso Lar" - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 25, 2018 10:08 am

— Não, foi em "O Livro dos Médiuns" mesmo, Domingas - esclareceu o Dr. Odilon - no capítulo VIII, "Laboratório do Mundo Invisível".
Ali, no entanto, Kardec trata das criações temporárias de objectos, quando, por exemplo, um espírito deseja mais bem se identificar junto aos encarnados.
— Criações temporárias? - interrogou Manoel.
— Sim, quando o espírito deseja ser identificado por uma roupa que usava na Terra, um chapéu, uma bengala ou uma tabaqueira, coisas assim.
— São fenómenos fugazes, semelhantes aos de materialização.
O tema de nossos estudos, porém, é outro; estamos nos referindo aos objectos de uso mais ou menos permanente no Mundo dos Espíritos, quais aqueles de que os encarnados se utilizam na Terra - definiu Modesta.
— Interessante - aparteou Domingas -, eu me recordo de Chico, em conversa descontraída connosco, se referir às roupas de Meimei, aos broches e colares com os quais costumava aparecer a ele...
Não eram adereços de ordem mental; eram criações reais, vestes e jóias trabalhadas no Mundo Espiritual, como este lindo broche, D. Modesta, que a senhora está usando...
— Ah, sim! Este mandei fazer sob encomenda:
trata-se de um pequeno cisne talhado em material semelhante a madrepérola...
Você gostou?
— Muito! Nunca fui de usar jóias, se bem que nunca as tive, a não ser bijuterias que podem ser adquiridas em bancas de camelo.
— Domingas, é bom que eu diga a você que não tem nada a ver com vaidade, e não estou, é claro, fazendo a minha própria defesa.
— Notem - chamei a atenção do público presente para o desdobramento do diálogo entre Modesta e Domingas - o natural aprofundamento do assunto, partindo de uma simples observação de André Luiz em seu livro.
Da questão da indumentária em si, passamos à discussão de transcendência relevante, mais afeito às mulheres que aos homens - isto é, salvo uma ou outra excepção -, e tudo por conta de um broche!
Embora a discordância da plateia feminina, o público sorriu.
— Vamos lá, Modesta!
Quer dizer que você não está fazendo a sua e a defesa das que estimam...
— ... dos que estimam, Inácio! - apressou-me em rectificar.
— Certo. Se nunca nos atritamos pelo muito, quanto mais pelo pouco!
Tem homem mais vaidoso do que mulher mesmo - disse olhando maliciosamente para o Manoel Roberto.
— Doutor, cuidar do corpo não é vaidade - respondeu o amigo à minha provocação.
- Está lá em "O Evangelho Segundo o Espiritismo", no capítulo 17, "Sede Perfeitos".
— Manoel, você deve ser a reencarnação de um filósofo sofista. Só pode!
O pessoal tornou a descontrair-se, e continuei.
— Você ia dizendo, Modesta, que não é vaidade...
— Não, em minha opinião absolutamente.
Vaidade por vaidade, a que a pessoa às vezes acaba tendo por seus dotes naturais é muito pior.
A vaidade da inteligência, a vaidade da beleza, da maciez dos cabelos...
— Ih!, os meus eram encrespados!
- exclamou Domingas. — Davam-me um trabalhão para desenroscá-los...
— A vaidade de uma arcada dentária perfeita...
— Esta eu perdi na ponta do boticão! - foi a minha vez de dizer.
Mas a culpa não cabe ao Odilon!
— D. Modesta tem razão, meu caro - interveio o companheiro.
— A vaidade é coisa do espírito e não do corpo.
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Ave sem Ninho

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Re: Estudando "Nosso Lar" - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 25, 2018 10:08 am

Como, de resto, todas as mazelas morais que, infelizmente, ainda nos caracterizam a imperfeição.
Pior do que a vaidade de quem, por exemplo, ostenta um anel de brilhante é a de quem se considera mais brilhante que os outros.
— Conheci uma pessoa que tinha vaidade do timbre da própria voz...
Coitado, com certeza, se já não aconteceu, irá renascer mudo ou com uma voz igual à minha: mais rouquenha, impossível!
— Deus ama a perfeição da forma! Deus ama a beleza!
Nada é mais belo do que a Vida!
A Natureza é a face da Perfeição Divina!
O que não é belo é porque ainda não se integrou em Deus!
A fealdade está em nossa maneira estrábica de contemplar a Criação!
Todas as coisas são potencialmente belas!
Estávamos embevecidos com as palavras de Odilon, que prosseguia:
— A única descrição histórica que possuímos da figura física de Jesus é de autoria de Emmanuel, quando, então, Senador Públio Lêntulo, em carta que escreveu a Tibério Cesar:
"Há tanta majestade no rosto, que aqueles que o vêem são forçados a amá-lo ou temê-lo.
Tem os cabelos da cor da amêndoa bem madura, distendidos até as orelhas das orelhas até as espáduas, são da cor dá terra, porém mais reluzentes.
Tem no meio de sua fronte uma linha separando os cabelos, na forma em uso nos nazarenos; o seu rosto é cheio, o aspecto é muito sereno, nenhuma ruga ou mancha se vê em sua face de uma cor moderada; o nariz e a boca são irrepreensíveis.
A barba é espessa, mas semelhante aos cabelos, não muito longa, mas separada pelo meio; seu olhar é muito especioso e grave; tem os olhos graciosos e claros; o que surpreende é que resplandecem no seu rosto como os raios do Sol, porém ninguém pode olhar fixo o seu semblante, porque, quando resplende, apavora e, quando ameniza, faz chorar; faz-se amar e é alegre com gravidade.
Diz-se que nunca ninguém o viu rir, mas, antes, chorar. Tem os braços e as mãos muito belos; na palestra contenta muito, mas o faz raramente e, quando dele alguém se aproxima, verifica que é muito modesto na presença e na pessoa."
E enfatizou:
— "E o mais belo homem que se possa imaginar, muito semelhante à sua mãe, a qual é de uma rara beleza, não se tendo jamais visto, por estas partes, uma donzela tão bela..."
Depois do silêncio que pairou no recinto, exclamei:
— Embora, do ponto de vista místico, Jesus Cristo tenha na face os traços fisionómicos dos homens de todas as raças, não podemos negar que Ele foi a Face mais perfeita com que Deus se apresentou aos homens na Terra!
Ele foi a Face do Pai revelada aos seus filhos!...
E, procurando quebrar o silêncio que se prolongava, comentei:
— Vocês estão vendo como a gente vai longe, quando se dispõe a estudar qualquer tema da Vida à luz da Doutrina, que é Fé Raciocinada?
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Re: Estudando "Nosso Lar" - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 25, 2018 10:09 am

CAPÍTULO 16
- Voltando a falar sobre a vaidade ligada ao uso de jóias - argumentou Domingas -, recordo-me de que, certa vez, uma senhora que se havia tornado espírita lamentava junto a Chico o capricho do esposo, empresário abastado em São Paulo, que fazia questão de vê-la usando os anéis, colares e braceletes com que sempre a presenteava.
Principalmente, quando se dispunha a acompanhar o médium à periferia, nas reuniões do sábado, a tarde, à sombra do abacateiro, ela se confessava muito constrangida.
"Minha filha - disse-lhe o Chico -, faça a vontade de seu marido...
Não se esqueça de que muita gente que trabalha no garimpo sobrevive à custa da venda de pedras preciosas.
Tudo é de Deus.
Quantos ourives e joalheiros não sustentam as suas famílias com o trabalho que realizam, comercializando o ouro, o diamante, a esmeralda?!..."
— Sem dúvida - concordei de imediato.
— Mas, a fim de não perdermos o foco, tornemos a falar sobre a indumentária dos espíritos.
Odilon, você havia citado "O Livro dos Médiuns"...
— Sim, no capítulo "Laboratório do Mundo Invisível", Kardec escreveu:
— "Dissemos que os espíritos se apresentam vestidos de túnicas, de roupagens ou mesmo com as suas vestes comuns.
As roupagens parecem ser um costume geral no mundo dos espíritos; mas perguntamos onde eles vão buscar suas vestimentas em tudo semelhante às que usavam quando vivos, com todos os acessórios de sua toalete".
— "...com todos os acessórios de sua toalete" - enfatizou Modesta.
— Que coisa de mau gosto, se todos os espíritos apenas trajassem túnicas da mesma tonalidade, como aqueles longos roupões que eram confeccionados com tecido americano cru!...
— Não nos esqueçamos - observei - de que, neste sentido, ou seja, do guarda-roupa dos espíritos, as primeiras especulações estavam sendo feitas; em tempo algum, a literatura espiritualista cogitara a respeito de assunto aparentemente sem importância...
— Aparentemente, Doutor - frisou Odilon -, porque a questão do vestuário dos espíritos no Além é de máxima importância para que o homem possa atinar com os detalhes de sua própria sobrevivência.
— No livro "Nosso Lar" - aduzi -, no capítulo referente ao "bónus-hora", André Luiz deixa claro aos que dele efectuam uma leitura mais cuidadosa:
"... em 'Nosso Lar' a produção de vestuário e alimentação elementares pertence a todos em comum"...
— Outro assunto interessante é o da alimentação dos espíritos, não é, Doutor?
— Sim, mas deixemo-lo para outra ocasião, Domingas: seria muita coisa para abordarmos ao mesmo tempo...
Por enquanto, nos detenhamos no problema alusivo à indumentária dos mortos.
0 público se manifestou sorridente.
— Páginas adiante, Inácio, creio que no capítulo 26 da obra, há mais uma citação de relevo - disse Modesta, localizando o parágrafo que passou a ler:
"Temos aqui as grandes fábricas de 'Nosso Lar'.
A preparação de sucos, de tecidos e artefactos, em geral, dá trabalho a mais de cem mil criaturas, que se regeneram e se iluminam ao mesmo tempo".
— Óptimo! - exclamei.
Permitam-me um comentário paralelo.
À época em que "Nosso Lar" foi psicografado, em 1943, a cidade contava um milhão de habitantes...
Hoje, principalmente após a chegada em massa dos espíritas, se transformou numa megalópole!
Mas cerca de 10% da população se ocupavam nas fábricas dela...
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Re: Estudando "Nosso Lar" - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 25, 2018 10:09 am

— Doutor - perguntou Manoel Roberto -, quer dizer que, após a chegada em massa dos espíritas?...
— "Nosso Lar", literalmente, explodiu - respondi.
Não é mais um bom lugar para se viver...
— Doutor! - conteve-me Odilon.
— A turma tem que entender que estou brincando, Odilon - retruquei.
Podem dar aí um desconto de 5% no que disse...
É o abatimento que faço.
O Instrutor, desistindo de mim, meneou a cabeça.
— Mas é ou não é? - indaguei.
Depois que André Luiz revelou a existência de "Nosso Lar", quase todo espírita que desencarna quer ir para lá, como se ela fosse a única cidade existente no Além.
Que falta de imaginação, vocês não acham?!
Ora, o Planeta inteiro hoje está rodeado por cidades, povoados, vilas e chácaras em seu espaço geográfico espiritual, abrigando uma população desencarnada que é de três a quatro vezes a população encarnada.
E gente que não acaba mais!
Se, de facto, não acontecer um êxodo, estaremos perdidos...
Eu não me importo de ir junto, não - já estou até com as malas prontas!
Como diz um amigo, serei ração de dinossauro em algum mundo primitivo...
— Doutor - chamou-me Domingas, consultando o relógio -, a questão da indumentária...
— Ah, sim!
André Luiz ficou nas regiões inferiores do Umbral durante quase nove anos.
Pergunto a vocês, parodiando a letra de antiga canção:
Com que roupa? - "... a roupa começava a romper-se com os esforços da resistência..."
Será que ele ficou praticamente nove anos sem mudar de roupa?
O que me dizem?
Como ninguém se manifestou, falei:
— Com certeza, ele se via com a sua melhor roupa no Além...
O costume que as pessoas têm de vestir o defunto com a melhor roupa não é destituído de fundamento, não!
Muitos aparecem neste Outro Lado de paletó e gravata...
Depois é que vão sendo despidos pela realidade.
Perdem a aparente compostura.
Fiz ligeira pausa e prossegui:
— Roupa alguma dura nove anos no corpo de alguém!
Se durar, não há quem chegue perto, concordam?
André Luiz, que deve ter sido muito bem enterrado, fez a sua aparição neste Outro Lado vestido a carácter:
com o duplo das roupas com que lhe cobriram a nudez cadavérica!
Aos poucos, no entanto, as suas vestes apodreceram...
Sim, porque a situação dele, quando é resgatado por Clarêncio, é a de um esmoler!
Nem casa tinha para morar...
Todos acompanhavam as minha!
reflexões em silêncio.
— Como foi a chegada de vocês a lado de Cá? - perguntei.
Encontraram um guarda-roupa à disposição?
Com a maioria, isto não ocorre!
Vamos por analogia.
Quase todo espírito que renasce na Terra ganha de presente um enxoval: fraldas, cueiros, pagãzinhas mantas...
Não é assim? Muitos, porém, são enrolados num cobertor sapeca-negrinho.
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Re: Estudando "Nosso Lar" - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 25, 2018 10:09 am

Antigamente, menino andava descalço, e calça e camisa eram feitas com pano de saco de açúcar que as nossas mães suavam para alvejar.
Um camisa melhor custava uma fortuna! A gente vestia as roupas usadas, que iam passando de irmão para irmão, de primo para primo...
— Eu só tinha uma calça e duas camisas - comentou Manoel Roberto.
Ah! um par de meias, que lavava toda noite!
— Pois é. Ainda hoje, nas ruas das cidades, muitos andam esfarrapados...
E contei:
— Conheci um pedinte que usou, durante exactos dois anos, a camisa que lhe dei:
ela chegava a grudar em sua pele!
A calça só não se rompera na região que cobre as partes pudendas...
Dois anos! André Luiz ficou quase nove anos no Umbral!
E eu insisto:
Com que roupa?
— Ele deve ter ganhado de alguém, não?
— Correto, Domingas: ganhou ou achou!
— Não ele, mas alguns certamente chegam, inclusive, a surripiar...
— Exacto! Odilon - perguntei ao amigo -, o que você tem a dizer?
— Nada, eu estava aqui pensando, Doutor.
— Pensando?...
— Sem ter o mérito de André Luiz, tivemos, ao deixar o corpo, maior regalia.
— André foi um escolhido, predestinado!
- exclamei. — Não temos como sondar os Desígnios Divinos!
— Se ele ficou quase nove anos no chamado "Umbral Grosso", a rigor era para que eu tivesse ficado, no mínimo, quarenta anos - falou Domingas.
— E eu, então? - emendou Manoel Roberto.
— Ah!, você, Manoel, no mínimo, cem anos - gracejei.
— Olhe, Doutor, em sua companhia, eu ficaria até duzentos; todavia, sem o senhor,
— Não está mesmo me saindo um filósofo sofista este rapaz?
Você deve ter sido a reencarnação de Protágoras ou Górgias...
— Vocês, como sempre, dois meninos traquinas! - disse Modesta com carinho.
— A desencarnação não fez com que o Manoel deixasse de ser Manoel e nem que o Inácio deixasse de ser Inácio.
Espírito é gente, é pessoa!
Não estamos aqui falando em roupa, alimentação e tudo mais?
A rigor - interroguei -, o que muda?
— A paisagem, Doutor! - respondeu Domingas.
— Para muitos, nem a paisagem muda, minha cara - sentenciei.
Brincadeiras à parte, não fosse o conhecimento espírita, talvez nada tivesse mudado para nós.
— A não ser para pior, como aconteceu a André Luiz.
— Para ele, no entanto, a piora antecedeu significativa melhora.
A sua permanência nas Dimensões inferiores do Plano Espiritual foi a sua abençoada estrada de Damasco!
André era um diamante que o limo das convenções humanas havia tisnado temporariamente...
Quem nos dera ser ele!
— Realmente.
— Para a grande maioria, o fenómeno da desencarnação é como alguém que, entrando pela porta da frente de uma casa, sai pela porta dos fundos, indo parar no quintal...
O conhecimento do Espiritismo faz com que, entrando pela porta dos fundos, saiamos pela porta da frente desta mesma casa, deparando-nos com a beleza do jardim em manhã banhada de Sol!
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