Estudando "Nosso Lar" - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

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Re: Estudando "Nosso Lar" - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 26, 2018 11:13 am

CAPÍTULO 17
A s nossas reuniões de estudo sobre alguns aspectos da Vida Espiritual, com base na obra "Nosso Lar", estavam sendo bastante proveitosas, inclusive para nós, que tomávamos consciência cada vez maior das realidades que muitos, mesmo além da morte, continuavam ignorando.
No intervalo de um desses nossos encontros, entrei em animada conversação com Odilon, abordando o assunto da mediunidade.
— Odilon - perguntei -, como você avalia o trabalho mediúnico que temos procurado desempenhar?
Alguma ressalva a ser feita?
— Não, Doutor, de minha parte, não.
Tudo vai seguindo conforme esperado.
É claro que poderíamos render bem mais, caso as circunstâncias nos favorecessem.
— A quais circunstâncias você se refere?
— Às que, principalmente, dependem de nós.
Não estou fazendo nenhuma alusão à natural oposição às novas ideias.
Se médium e espírito melhor se ajustassem psiquicamente, o rendimento seria outro.
Nós aqui, com as nossas lutas, e os médiuns lá, com as lutas que lhes são pertinentes.
— O pessoal imagina que o "transe mediúnico" seja algo inteiramente mecânico...
— Antes fosse, mas não é. Espírito e médium carecem de se entrosar.
Na verdade, dependemos do médium mais até do que ele depende de nós.
— Sim, porque efectuamos o "chamado", porém, se o médium não se revela apto para proceder ao atendimento, o "telefone", como dizia Chico, fica tocando inutilmente...
— Doutor - perguntou Odilon -, como acontece o fenómeno entre o senhor e o médium?
— Está aí uma pergunta que, de facto, eu vou gostar de responder.
Você sabe: não há dois médiuns absolutamente iguais, mesmo quando portadores de faculdades semelhantes.
— Sim, cada qual com suas características e - por que não dizer - com seu grau de sensibilidade, como não há dois espíritos que, na transmissão de seu pensamento ao medianeiro, sejam idênticos.
— O que o senhor está dizendo é de suma importância para melhor compreensão da mediunidade em cada um.
Tem médium, Doutor, que nem ele próprio atina com o fenómeno da receptividade do pensamento que lhe chega do espírito comunicante.
— Por favor, exemplifique - solicitei.
— A maioria dos médiuns que supõe psicografar não psicógrafa:
"ouve-nos" o pensamento!
Não sabe que é clariaudiente...
— Muitos são intuitivos!
— Exactamente. O que, convém ressaltar, não lhes invalida a condição mediúnica, em termos de confiabilidade.
— Desde, é claro, que eles mesmos não descreiam de sua capacidade.
— Sem dúvida!
— Comigo, Odilon, e o médium de que presentemente me valho, funciona assim:
é como se eu e ele estivéssemos numa sala conversando...
— A mediunidade como uma sala-de-estar!
— Com toda a naturalidade.
Trocamos ideias, efectuamos ponderações, discutimos a conveniência, ou não, desta ou daquela abordagem...
A rigor, a menos que esteja subjugado, o médium não filtra aquilo com que não concorda.
— Nem que seja em nível inconsciente, ele há de concordar - observou com precisão o companheiro.
— Aliás, a denominação "médium inconsciente" não corresponde à realidade do que acontece durante o fenómeno.
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Ave sem Ninho

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Re: Estudando "Nosso Lar" - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 26, 2018 11:13 am

No médium dito "inconsciente", o grau de lucidez mediúnica é sempre relativo e nunca absolutamente nulo.
— Em médium algum, o grau de lucidez é absolutamente nulo!
— E o que me diz de Chico Xavier?
— Chico foi o protótipo do médium do futuro na Terra.
— Como seria, por exemplo, o seu relacionamento com Emmanuel? - questionei.
— Emmanuel estava com ele, e ele estava com Emmanuel em perfeita parceria!
— Perfeita tanto quanto possível - ressalvei.
— Digamos: parceria ideal!
— Sempre teria sido assim, Odilon?
— No princípio, não:
havia mais Emmanuel do que Chico! Com o tempo, porém, as acções entre os dois se equilibraram.
— Então, a mediunidade em Chico foge aos padrões estabelecidos?
— Em todo médium, Doutor, a mediunidade foge aos padrões estabelecidos.
Encontramos em "O Livro dos Médiuns" orientações de carácter geral.
Toda faculdade mediúnica está sujeita a evolução.
As percepções, sejam de natureza física ou psíquica, igualmente evoluem.
— Como? - indaguei, interessado.
— Os sentidos se aprimoram e, com o seu aprimoramento, o "modus operandi" da mediunidade vai se diversificando.
Já não estamos no tempo das mesas girantes...
— Chico psicografava a lápis, passou a psicografar a caneta...
— E hoje, provavelmente, escreveria ao computador!
— E a questão do médium sentir dormência no braço, respiração ofegante?...
— Sintomas arcaicos e superados.
A tendência da mediunidade é diminuir sintomas exteriores, acentuando os interiores.
— Então você acha que a mediunidade esteja passando por um processo de refinamento?
— As evidências assim o dizem.
0 senhor dita ao médium palavra por palavra do que pretende transmitir?
— Não!
— Conduz o braço dele sobre o teclado do computador?
— Também não!
— O fenómeno ocorre em nível de...
— Pensamento!
Depois da pausa, que se fez natural, perguntei:
— Odilon, e as técnicas preconizadas para desenvolvimento mediúnico?
Elas ainda são válidas?
— O senhor se recorda de alguma vez Chico ter ensinado a alguém como desenvolver mediunidade?
— Não, nunca.
— Alguma vez orientou esta ou aquela reunião específica para desenvolvimento da mediunidade?
— Não, ao que eu saiba.
— Em geral, o que recomendava aos que o procuravam com sinais de mediunidade?
Devem ter sido milhares...
— Que estudassem e trabalhassem.
Apenas isto: estudo e trabalho!
E não ficassem "inventando modas"...
— O senhor conhece alguma reunião de desenvolvimento mediúnico que, verdadeiramente, tenha dado resultado?
— Não, não conheço, e, às vezes, tal reunião até subtrairia o médium à sua capacidade de trabalho na casa espírita.
Porque participa de uma reunião de desenvolvimento, muito candidato a médium se sente desobrigado de outras actividades que lhe seriam mais produtivas justamente para o que almeja:
o desabrochar de suas possibilidades psíquicas!
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Re: Estudando "Nosso Lar" - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 26, 2018 11:13 am

Hoje, há muita teoria e pouca acção.
— Uma teoria que, infelizmente, não converge para a acção - pontificou o Instrutor.
— O que está faltando, Odilon, é Espiritismo praticado.
Não estou me referindo ao Espiritismo prático, mas, sim, ao vivenciado.
— E vivenciado, Doutor, no cotidiano:
no lar, no ambiente de trabalho profissional, na casa espírita...
— E, na casa espírita - acentuei -, de uns para com os outros.
Os nossos companheiros andam muito divididos.
O personalismo vem anulando muita gente promissora.
A vaidade vem mexendo com a cabeça de muitos médiuns e dirigentes.
A política de bastidores, coisa que não existia na Doutrina, está dando oportunidade a nefastas influências no Movimento.
Observando que Manoel Roberto se aproximava a passos apressados, considerei incisivo:
— Basta de Espiritismo prático!
0 momento é de Espiritismo praticado!
— Perdoem-me a intromissão - falou o amigo, que portava uma mensagem dirigida a Odilon e a mim.
Este comunicado, da "Fundação Emmanuel", acaba de chegar.
— Da "Fundação Emmanuel"?! - disse trocando significativo olhar com Odilon, a quem, de imediato, passei a correspondência, para que fosse ele o primeiro a se inteirar do conteúdo.
— Trata-se - esclareceu - de um comunicado de Ferdinando, que nos convoca para uma reunião em carácter emergencial a ser realizada amanhã.
— Reunião em carácter emergencial, na "Fundação"?! - murmurei.
Creio que já desconfio o que seja.
Pressinto hora de suma gravidade para o nosso Movimento.
— Manoel - adiantou-se Odilon, deixando-me a cismar -, por favor, confirme a nossa presença.
Eu e o Dr. Inácio lá estaremos.
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Re: Estudando "Nosso Lar" - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 26, 2018 11:14 am

CAPÍTULO 18
Valendo-nos da capacidade de volitar, no outro dia, logo de manhã, estávamos na "Fundação", sendo recebidos, eu e Odilon, pela gentileza de Ferdinando.
— Como vão passando? - saudou-nos com alegria, assim que nos viu.
— Tudo bem e você, como vai? - perguntei retribuindo.
— Na abençoada rotina de sempre:
trabalho e mais trabalho!
— Verdadeiramente - comentou Odilon -, o trabalho é o nosso pão de cada dia, mormente quando nos dispomos a servir ao Senhor.
— Por favor, sigam-me - solicitou Ferdinando, conduzindo-nos a sala reservada.
Acomodamo-nos, e ele passou a explicar:
— Pedi que viessem porque sei da tarefa que ambos vêm desenvolvendo junto aos nossos irmãos encarnados.
Vocês são amigos de nossa extrema confiança.
Recebemos, dias atrás, de nossos Maiores, um comunicado para que procurássemos nos entender e alertar todos os tarefeiros que, operando nas regiões da Crosta, têm sido fiéis ao propósito de servir desinteressadamente à Doutrina que abraçamos.
— Temos feito o possível - redargui.
— O assunto é grave - enfatizou Ferdinando.
Conforme pressentíamos, há mesmo um movimento sub-reptício para que as obras mediúnicas de Chico Xavier sejam retiradas de foco.
— Que absurdo! - exclamei.
— E partindo de alguns próprios adeptos, que, aparentemente, se empenham em sua difusão.
— Isto é o pior! Lobos em pele de ovelhas...
— Com certeza, estão agindo sob o fascínio das Trevas, Doutor - elucidou Odilon.
— Não creio que ajam de maneira consciente.
— A maioria, não, Dr. Odilon - observou Ferdinando com sensatez.
— Acredito que nenhum deles - tornou o Instrutor.
A perturbação possui subtilezas que estamos longe de avaliar.
Como o nosso Dr. Inácio costuma dizer, a imperfeição espiritual é uma doença.
— De fato, é - comentei - e, por este prisma, você tem razão.
Inteligência e perspicácia nem sempre traduzem equilíbrio.
— Motivações a parte - ponderou Ferdinando -, o certo é que necessitamos intensificar esforços no sentido de preservar a Obra do grande medianeiro, que, para nós, é o complemento natural da Codificação.
— Sem dúvida - concordou Odilon.
— Eles não estão agindo por si mesmos - continuou o Director da "Fundação".
Há pesados interesses em jogo...
O objectivo central é o de não consentir a emancipação mental do homem encarnado.
Vocês não ignoram que os adversários da Luz tentaram, de todas as maneiras, impedir que a Codificação surgisse a lume.
— A luta de Kardec foi titânica!
Sinceramente, não sei como ele conseguiu levar a cabo sua missão...
— O Plano Espiritual Superior conseguiu mantê-lo no anonimato até a publicação de "O Livro dos Espíritos", em 1857, mas, desde então, as suas lutas se acirraram:
durante doze anos, até a data de sua desencarnação, ocorrida em 1869, o Codificador faceou todo tipo de dificuldade...
— Tentaram comprometê-lo de todas as maneiras...
— Sendo que o objectivo - observou Odilon -, sem dúvida, era o comprometimento moral da Obra.
— O mesmo tentou-se fazer com Chico Xavier - aparteou Ferdinando -, apenas com a diferença de que o médium de Pedro Leopoldo sustentou luta mais intensa, que durou de 1932, data de publicação do "Parnaso de Além-Túmulo", até 2002, quando desencarnou:
foram setenta anos de testemunho quotidiano!
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Re: Estudando "Nosso Lar" - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 26, 2018 11:14 am

— Agora que ele desencarnou, não é...
— Exactamente, Doutor - agora que são passados pouco mais de cinco anos de sua desencarnação, os opositores encarnados e desencarnados da Doutrina...
— Estão mostrando as garras!
Antes, a força moral de Chico os inibia...
— Vejamos o que aconteceu ao Espiritismo, no berço da própria Codificação, após Kardec ter deixado o corpo.
A guerra franco-prussiana, que eclodiu em 1870...
— Um ano depois da desencarnação de Kardec!
— ...foi uma manobra das Trevas para coibir o crescimento da Doutrina.
— O que, em parte, se conseguiu, não é, Odilon? - aditei às palavras do companheiro que se manifestara.
— Sem dúvida. O pretexto, como sempre, era político, mas o que se pretendia era o cerceamento da fé religiosa!
— A Guerra do Mal, em essência, é uma guerra contra a ideia de Deus.
— Os nossos Maiores - considerou Ferdinando -, obedecendo aos ditames do Senhor, conseguiram transferir a Doutrina do cenário de tantos conflitos na Europa, localizando-a no Brasil, à distância dos embates que, infelizmente, estão longe de terminar naquelas plagas.
O Brasil, pelo menos por enquanto, permanece indene à sandice dos povos considerados mais civilizados do Planeta.
— Se bem que, conforme não ignoramos, muitos caudilhos reencarnados vêm se erigindo em perigosa ameaça à paz que reina ao redor de suas fronteiras.
— Mas pelo menos, Doutor - retrucou Ferdinando -, uma guerra lá, por absoluta ausência de poderio bélico, não promoveria tantos estragos.
Ao contrário, na Europa...
— Esperamos que sim - frisei.
Aliás, Chico nos dizia que, caso ocorresse um confronto de destruição em massa na Europa, envolvendo a América do Norte e os países árabes...
— E os asiáticos também! - emendou Odilon.
— ...os remanescentes fugiriam para o Brasil, ocupando principalmente a Amazónia.
— Eu também me recordo, Doutor, desta fala dele - concordou o Instrutor, acrescentando.
— Ainda disse que, neste exacto momento, acolhendo-os como irmãos, é que a Doutrina Espírita, então, seria apresentada aos fugitivos...
— Eis o Brasil, assumindo a sua condição de Coração do Mundo e Pátria do Evangelho!
— Daí a importância de o Espiritismo ser preservado em sua integridade doutrinária - emendou Ferdinando.
No Espiritismo, os povos necessitam de encontrar Jesus Cristo!
— E a obra mediúnica de Chico, isto é inegável, é toda voltada para o Evangelho.
— Por isto mesmo é tão combatida, Doutor - ponderou Odilon.
Se o Espiritismo, para florescer na Europa, teve que se desenvolver mais em seu aspecto científico, no Brasil é que ele deve se revelar na condição de Consolador Prometido.
— Cabe ao Espiritismo, conforme aplicado e vivenciado no Brasil, oferecer Jesus ao mundo!
— É isto mesmo.
Possuindo, como nós, esta antevisão, no que diz respeito à função precípua do Cristianismo Redivivo, as Trevas, com o intuito de desfigurá-lo, se mobilizam.
— Será uma época de grande confusão no Movimento e, portanto, há necessidade de maior vigilância! - exclamei.
— O propósito não é o espírita em si, não é o médium, mas, sim, o que ele representa.
— O propósito é o que Jesus representa!
- resumiu Odilon.
— Exacto! A proposta de renovação moral do homem, o que vem sendo marginalizado pelo próprio homem, ao longo das vidas que se sucedem.
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Re: Estudando "Nosso Lar" - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 26, 2018 11:14 am

— E Chico Xavier?...
— Chico - elucidou Ferdinando - é o alvo preferencial!
A sua vida, a sua Obra!
Vejam as polémicas que a sua tarefa vem suscitando...
— Ele vem, inclusive, sofrendo agressões morais, ataques em todos os flancos, intentando reduzi-lo à condição de médium comum.
— Subtraindo-lhe a condição de missionário da Terceira Revelação, que renasceu comprometido com a tarefa de complementação do Pentateuco...
— Que é de sua co-autoria! - reafirmei.
— ...pretendem nivelar a sua Obra à de tantos outros que, se vêm cumprindo com o dever que lhes cabe como coadjuvantes, estão longe de desempenhar o papel principal!
— Não estamos - observou Odilon com propriedade -, desmerecendo o trabalho de ninguém, pois todo empenho em favor da Causa que nos é comum é de significativa importância, no campo da difusão de nossos Princípios.
— Absolutamente!
Desconsiderar o esforço, por menor que seja, de qualquer um de nossos irmãos de Ideal seria ignorar o valor do operário humilde na edificação do mais alto edifício.
— Os continentes se formam a partir do trabalho anónimo dos corais, e extensas faixas de terra se fertilizam pela acção dos vermes que as revolvem...
À pausa que se fez natural, Ferdinando elucidou:
— A questão sobre a qual conversamos torna-se mais grave, porém, porque, com raras excepções, vem sendo fomentada pelos que ocupam cargos de liderança no Movimento.
— Tirar Chico Xavier do foco das atenções dos espíritas e do povo em geral?!
Jamais o conseguirão!
Chico está no coração da maioria, que nele e em sua Obra pressente algo do próprio Cristo na Terra - enfatizei com certa indignação.
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Re: Estudando "Nosso Lar" - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 26, 2018 11:14 am

CAPÍTULO 19
Correcto, Doutor - endossou Ferdinando o que eu acabara de dizer.
Eu também creio que as Trevas nunca lograrão o intento de empanar o brilho da tarefa que Chico cumpriu de maneira exemplar.
Não obstante, e espero que o senhor concorde comigo neste ponto, poderão lançar a cizânia entre os companheiros menos sensatos e prudentes, obstaculizando o avanço da Doutrina como almejamos, ou seja:
sem qualquer dissociação de seu aspecto ético-religioso, o único que pode induzir o homem a renovar-se para sempre!
— Concordo inteiramente com a ressalva - observei -, e precisamos mesmo trabalhar pela unidade doutrinária, sem que, por exemplo, o seu carácter científico sobrepuje o religioso, e vice-versa.
— Todavia - interveio Odilon -, precisamos deixar claro que a Verdade sem o Amor, em qualquer tempo, será objecto de dissensão entre os homens, que haverão de se conflituar pela sua primazia.
— E mais, sem o Amor, a civilização corre sério risco de esfacelar-se - acrescentei.
— Se me permitem, gostaria de destacar uma questão de "O Livro dos Espíritos".
— À vontade, Doutor - respondeu o confrade que nos recepcionava.
— Trata-se da pergunta 689:
"Os homens de hoje são uma nova criação ou os descendentes aperfeiçoados dos seres primitivos?"
Os Espíritos responderam:
"São os mesmos espíritos que voltaram, para se aperfeiçoarem em novos corpos, mas que ainda estão longe da perfeição.
Assim, a raça humana actual, que, por seu crescimento, tende a invadir toda a Terra e substituir as raças que se extinguem, terá também o seu período de decrescimento e extinção.
Outras raças mais perfeitas a substituirão, descendendo da raça actual, como os homens civilizados de hoje descendem dos seres brutos e selvagens dos tempos primitivos".
— O Planeta, sem dúvida, já abrigou diversas civilizações...
A actual, que é a nossa, um dia também cederá lugar a civilização mais avançada.
— Formada, no entanto, pelos mesmos espíritos - elucidou Odilon -, dentre os que, evidentemente, não forem expurgados.
— Espíritos que, além de terem se reciclado noutras moradas da Casa do Pai, reencarnarão com novos propósitos, dispostos a fazer da Terra um mundo melhor.
— O tão sonhado Mundo de Regeneração!
— O qual, pelo que deduzimos, poderá ou não se realizar a partir da civilização actual, não é, Ferdinando?
— Tenhamos confiança, Doutor - exortou Odilon.
— Sim, mas não estou dizendo nenhum absurdo: o Mundo de Regeneração poderá vir com outra civilização, que descenda da que constituímos!
Os Espíritos, na resposta a Kardec, foram claros:
"Assim, a raça humana actual (...) terá também o seu período de decrescimento e extinção".
O mundo primitivo não se extinguiu, dando lugar ao orbe de provas e expiações?!
Querendo, talvez, retomar o assunto que nos levara à "Fundação", Odilon perguntou a Ferdinando:
— De prático e objectivo, o que a "Fundação" vem fazendo para que as obras da lavra mediúnica de Chico Xavier não sejam retiradas de foco?
— Temos, através de companheiros espirituais diversos, ligados ao nosso modo de pensar, incentivado o seu estudo nas casas espíritas e a sua mais ampla divulgação, para que, neste sentido, não perdure o hiato que ocorreu com a desencarnação de Chico.
— Hiato, diga-se de passagem, que, formando uma espécie de vácuo, deu ensejo a candidatos à sua pretensa sucessão...
— Os candidatos aos quais se refere não são necessariamente pessoas, não é?
— Não, Odilon.
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Re: Estudando "Nosso Lar" - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 26, 2018 11:14 am

Você sabe que não, em que pese à absurda tentativa de um ou outro, apostando "todas as fichas" em que isto pudesse ocorrer.
Felizmente ou infelizmente, não sei, revelaram a sua incapacidade espiritual para tanto. Desculpe-me a franqueza, meu caro.
Silenciei por momentos e prossegui:
— Os candidatos aos quais aludi igualmente se fazem representar por grupos que, hipotecando fidelidade a Kardec, desconsideram a obra de Chico Xavier.
— O senhor tocou num ponto fundamental - redarguiu Ferdinando com o semblante preocupado.
Tais blocos reaccionários não enxergam que, sem Evangelho, o espírito humano é candidato a repisar experiências negativas, comprometedoras de seu futuro espiritual.
Em maioria, são espíritos que trazem consigo o ranço religioso do passado...
— Interessante é que se opõem a um estado de coisas, no campo da Religião, que eles mesmos auxiliaram a fomentar, com a sua ortodoxia e intolerância.
— Saem de um extremo para outro:
no pretérito, efectuando a defesa de suas posições hierárquicas na Igreja, fanatizavam-se ao Cristo...
— Agora - completei -, querem imputar ao Senhor a responsabilidade por seus equívocos!
— Precisamos agir com a máxima cautela - pontificou Odilon.
Somos todos irmãos e não devemos marginalizar a quem quer que seja.
Tanto quanto possível, necessitamos fugir a todo e qualquer rótulo.
— Odilon, você é uma alma pura: admiro-o cada vez mais!
Ah, se todos fossem iguais a você - disse com sinceridade, recordando o refrão de famosa canção popular brasileira.
Você, como sempre, está certo.
O ideal seria caminharmos todos juntos...
Impossível, porém.
— Hoje, infelizmente - considerou Ferdinando -, pretextando lealdade a Kardec, os segmentos doutrinários se diversificam...
— ...com inegável enfraquecimento do Movimento! - exclamei.
— Porque os próprios irmãos de Ideal ainda não aprenderam a discordar apenas das ideias...
— No Movimento - frisei -, está acontecendo uma coisa drástica: é proibido pensar!
— O senhor está com a razão, Doutor - tornou o Instrutor.
Não podemos cercear a liberdade de expressão de quem quer que seja.
Quem não concorda connosco merece o nosso respeito.
— Eu fico pensando, sabe, nas palavras que Jesus pronunciou na Parábola dos Lavradores Maus:
"Portanto vos digo que o Reino de Deus vos será tirado e será entregue a um povo que lhe produza os respectivos frutos".
— De fato, tal asserção do Mestre dá o que pensar - redarguiu Ferdinando.
— Chico dizia que o livro de Humberto de Campos, "Brasil - Coração do Mundo, Pátria do Evangelho" era uma exortação do Mundo Espiritual aos brasileiros...
— Mera expectativa do Alto, não é?
— Que poderá, ou não, se confirmar.
Aliás, tal expectativa não é com referência apenas ao desempenho da Doutrina no Brasil.
— O autor espiritual da mencionada obra fala em "Pátria do Evangelho" e não em Pátria do Espiritismo!
— Exactamente, Doutor.
Mas, voltando ao assunto que motivou esta nossa reunião, precisamos insistir com os companheiros que se afinam com a obra mediúnica que os Espíritos escreveram através de Chico, para que não se descurem do exemplo, que é o mais poderoso dos argumentos.
— Que não esmoreçam na tarefa, que persistam no cumprimento do dever, enfim, que vivenciem o que pregam...
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Re: Estudando "Nosso Lar" - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 26, 2018 11:15 am

— Que continuem fazendo tremular, bem alto, a bandeira da Caridade!
— Eis aí, Odilon, algo que merece mais demoradas considerações:
a tão controvertida questão da Caridade!
Articularam tal conspiração contra ela, que hoje, infelizmente, a própria palavra se encontra em desgaste...
— Lamentavelmente - concordou o amigo.
— Tem espírita combatendo a Caridade, por incrível que pareça.
Esquecem com tremenda facilidade que, graças a ela, é que o Movimento se impôs, adquiriu credibilidade, conquistou a simpatia dos adeptos de outras crenças.
A bem dizer, a virtude da Caridade, ultimamente, vem sendo massacrada!
— Os blocos opositores que foram mencionados, responsáveis por vários movimentos paralelos dentro da Doutrina, são contra a Caridade - recordou Ferdinando.
— É uma de suas características.
Incorporaram ao seu um discurso político de natureza socialista, para não dizer comunista.
Os antigos "batedores de panela" que viviam clamando por justiça social nas ruas estão aí:
corrompendo-se no poder!
— Doutor!
— É verdade, Odilon.
O problema não está no regime político em si, mas no homem.
Dirigindo-me a Ferdinando, comentei:
— Não sei se você já sabe, mas, lá no Hospital, estamos estudando sistematicamente o livro "Nosso Lar".
A turma não estuda lá embaixo; agente estuda aqui em cima...
Curioso, não?
No capítulo "Organização de Serviços", Lísias diz a André que, à época em que a obra foi escrita, 1943, o Governador comemorara "o 114° aniversário da sua magnânima direcção"...
Veja o sonho de todo ditador concretizado!
anos no poder!
Ferdinando e Odilon sorriram, e continuei:
— Antes, porém, Lísias esclarece:
"... é ele o trabalhador mais infatigável e mais fiel que todos nós reunidos.
Os Ministros costumam excursionar noutras esferas, renovando energias e valorizando conhecimentos; nós outros gozamos entretenimentos habituais, mas o Governador nunca dispõe de tempo para isso.
Faz questão que descansemos, obriga-nos a férias periódicas, ao passo que, ele mesmo, quase nunca repousa, mesmo no que concerne às horas de sono.
Parece-me que a glória dele é o serviço perene"!
Estaquei na citação e perguntei com certa indignação:
— O Governador de "Nosso Lar" não se parece com os nossos políticos no mundo?!
Ah!, e, salvo os descontos de praxe, com os dirigentes espíritas também?!
Odilon meneou a cabeça e, desta vez, nada se animou a me dizer.
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Re: Estudando "Nosso Lar" - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 26, 2018 11:15 am

CAPÍTULO 20
Convidados, então, por Ferdinando, partimos nós três para uma observação de campo, buscando constatar na prática a delicada situação vivenciada pelo Movimento Espírita na actualidade.
Vencendo a distância que nos separa da Crosta, chegamos a importante cidade no interior de um dos Estados mais progressistas do País.
Nas vizinhanças da Instituição que visitaríamos, observamos quase há suas portas um grupo de estranhas entidades que, sinceramente, não consegui identificar de imediato.
Não eram padres desencarnados e não eram monges fora do corpo...
Vestiam um roupão acinzentado, com um capuz quase a lhes cobrir o rosto por inteiro.
— Quem são eles? - perguntei a Ferdinando.
— Espíritos com alto poder hipnótico - respondeu quase em sussurro.
Revezam-se aí fora, mentalizando os dirigentes da casa que adentraremos.
— Pertencem a algum credo religioso específico?
— Não! São adversários do Evangelho e vivem pregando que Jesus não passa de mito.
— Acreditam no Espiritismo?
— No Espiritismo laico; se é que existe algum, sim.
— Combatem o aspecto religioso da Doutrina, não?
— Combatem a Jesus Cristo!
— Admitem a Reencarnação? - procurei confirmação sobre o que já sabia.
— Sim.
— Então eu não entendo...
— Nem eles mesmos, Doutor, podem se entender.
— Gostam da Doutrina Espírita? - insisti.
— Sem Jesus, sim.
— O que querem, então?
— Outra forma de poder.
— Eles possuem um líder?
— Possuem. Facção alguma existe sem liderança, Doutor.
Eles também obedecem, apenas abjuraram o "jugo leve"...
— Eu poderia, depois, conversar com algum deles?
— Sem problema - respondeu Ferdinando, adentrando connosco o prédio da instituição.
— Vamos à livraria - convidou.
Logo no piso térreo, em sala pouco mais espaçosa, nos deparamos com a livraria, onde três pessoas conversavam a um canto.
— Observem os livros em exposição nas prateleiras - concitou-nos o companheiro.
Qual se estivesse falando a sós, à medida que averiguava os títulos à mostra, ia murmurando:
— Kardec... Denis... Bozzano... Chico Xavier...
De repente, percebendo a existência de pequeno número de obras psicografadas por Chico, observei:
— Está repleta de autores novos, mas das 439 obras devidas à psicografia de Chico Xavier...
E passei a contá-las:
— 23 títulos somente! - exclamei.
— Algumas de Emmanuel, poucas de André Luiz...
Apenas um exemplar de "Nosso Lar"!
Enquanto Odilon se aproximava dos três encarnados que dialogavam, com um deles se expressando em tom quase exaltado, falei a Ferdinando:
— "A Caminho da Luz" não está aqui!
Será que está com a edição esgotada?...
— Não - respondeu o Director da "Fundação".
— De Humberto de Campos, não vejo nem uma obra para remédio...
O que estará acontecendo?
A livraria está quebrada?
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Ave sem Ninho

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Re: Estudando "Nosso Lar" - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 27, 2018 11:46 am

Não me parece, pois, inclusive, vejo livros em castelhano.
Nesse ínterim, Odilon, acenando para nós, nos chamou para presenciar o diálogo inflamado entre as três pessoas, dois homens e uma mulher, que, naquele momento, lá se encontravam.
— O Espiritismo, no Brasil, precisa mudar - dizia o que mais gesticulava.
Espiritismo é Kardec e pronto, mais nada!
Precisamos acabar com essa influência igrejeira que contamina o Movimento...
Aqui, em nossa livraria, não entra livro eminentemente religioso.
Temos, sim, alguns títulos em exposição, para atender aqueles que queiram pesquisar...
Olhei para os dois amigos ao meu lado e, com anuência de ambos, praticamente "incorporei" na mulher pela qual, então, passei eu a questionar aquele que era um dos mentores encarnados da instituição que visitávamos.
— O que você tem contra Emmanuel? - indaguei através da médium que controlava.
— Não sou eu.
É o nosso modo de pensar - respondeu, algo incomodado.
Emmanuel, a se levar em conta que, de facto, é o Padre Manuel da Nóbrega, foi jesuíta há pouco tempo...
— A se levar em conta, por quê?
O senhor descrê das informações pessoais de Chico Xavier a respeito?
— Chico não era infalível. Ou era?!
— Não, mas, durante 75 anos de exercício público da mediunidade, deu provas suficientes de sua idoneidade moral.
Uma dúvida como a que o senhor levanta coloca em xeque toda a trajectória de vida dele...
— Não estou questionando a bondade de Chico.
Eu o conheci, estive com ele pouquíssimas vezes, mas sei que era um homem bom.
O segundo homem do grupo, que era o esposo da mulher que eu induzira ao transe, olhava assustado para ela.
— Desculpe-me, mas a sua argumentação é incoerente.
Kardec coloca a idoneidade moral do médium como salvaguarda contra as mistificações.
— Chico não mistificava de maneira consciente...
— Ah, não? E de maneira inconsciente:
mistificava?...
O homem, acuado, fazia um esforço enorme para se controlar.
— Emmanuel, em suas obras, apenas recomenda o Bem, a Caridade - disse, externando a minha incompreensão.
— Por favor, não fale em Caridade - o homem se exacerbara, colocando-se mais à mostra.
Caridade é coisa de coitadinho...
A criatura humana precisa de luz e não de pão.
Kardec cometeu um erro terrível ao publicar "O Evangelho Segundo o Espiritismo" - foi o seu único momento de fraqueza!
— O quê?! "O Evangelho Segundo o Espiritismo" foi um momento de fraqueza do Codificador?
Então como ficamos, se os Espíritos, por intermédio dele, recomendam que rejeitemos nove verdades, mas não aceitemos uma só mentira?...
Embaraçado, o interlocutor gaguejou:
— Não, não foi o que eu quis dizer.
Ele somente não deveria ter editado a obra...
— Não, o senhor está sendo incoerente - retruquei implacável.
Da crítica a Emmanuel, passa a criticar Allan Kardec?!
Assim, do Espiritismo, não há de sobrar nada...
Ou será exactamente porque Emmanuel era um dos integrantes da Falange do Espírito da Verdade?
— A senhora está tirando conclusões por mim...
Vocês não sabem o que é ser chamado de "senhora", se sentindo um senhor...
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Re: Estudando "Nosso Lar" - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 27, 2018 11:46 am

— Eu não vi uma única obra de Humberto de Campos nas prateleiras...
O que vocês têm contra? - desfechei.
— Ele é sectário...
— Humberto de Campos, sectário?
— Por Chico Xavier, sim.
Onde é que já se viu uma obra como "Brasil - Coração do Mundo, Pátria do Evangelho"?
— Para o senhor, o título invalida todo o conteúdo da obra?
Os bastidores espirituais do descobrimento do Brasil, a chegada do Espiritismo à nossa terra, a imigração dos espíritos comprometidos com a colonização do País...
— Chico errou: a referida obra jamais deveria ter sido escrita!
— Chico errou, Emmanuel errou, Kardec errou, Humberto de Campos errou...
— Escute, minha irmã, qual é a da senhora?
— Nenhuma, estou apenas querendo entender.
Percebendo que o "meu" marido começava a se sentir constrangido, maneirei:
— O que me diz de André Luiz?
— O que salva, em termos, é "Evolução em Dois Mundos"...
— E aquele atendimento mediúnico de Chico às mães que o procuravam em Uberaba?...
— Feito as mães argentinas, pranteando os filhos na "Praça de Maio", não é? Cá entre nós, um despropósito...
Um médium com aquela capacidade, ocupando-se de comunicados banais:
as cartas-familiares de além-túmulo!
— Ah!, agora o senhor concorda que o Chico era capaz?...
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Re: Estudando "Nosso Lar" - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 27, 2018 11:47 am

CAPÍTULO 21
O diálogo um tanto acalorado com o dirigente da instituição cessou por ali, com o casal que com ele conversava se retirando, dando-nos ensejo de ouvir o que o marido comentou com a mulher:
— De onde você tirou aqueles argumentos, Leonor?
O homem ficou uma fera!...
— Não sei.
Senti irresistível vontade de falar, como se as palavras fluíssem em meu cérebro feito água caindo em cascata...
— Ele ficou magoado.
Não vamos poder voltar aqui.
— Não tem importância.
Afinal, quem é ele para falar daquela maneira sobre Chico Xavier.
Prefiro mil vezes continuarmos frequentando o Centro de D. Joaquina, que é semi-analfabeta, mas, pelo menos, não fica com toda aquela empáfia...
— Você tem razão.
Passando pelo grupo das entidades, o casal se afastou, e, com Ferdinando e Odilon, aproximei-me daqueles espíritos cuja condição eu não consegui definir.
— Como vão, meus amigos? - perguntei, aguardando resposta.
— Tudo em paz? - insisti, ante o silêncio em que se mantiveram.
Um dos quatro, adiantando-se, indagou-me:
— A que paz você se refere?
— A paz de espírito - respondi, cauteloso -, à paz que nos advém da consciência tranquila...
— Primeiro - disse a entidade extremamente emagrecida, de mais de dois metros de altura -: eu não costumo conversar com quem não conheço...
Qual é o seu nome?
— Inácio - apresentei-me.
— Inácio de quê?...
— Na Terra, registaram-me como Ignacio Ferreira de Oliveira, que simplifiquei em cartório para Inácio Ferreira.
— Inácio Ferreira, aquele médico psiquiatra? - interrogou, fazendo sinal aos demais para que se aproximassem.
— Sinceramente, eu não sei se existe outro!
Com o que sei, diante do que nada sei, tenho vergonha de dizer que sou psiquiatra.
— Então é você o escritor?...
— Garatujo alguma coisa, nada mais do que isto.
Quem sou eu para me considerar escritor?
Sou apenas um arremedo...
— Ah!, então é você mesmo?
Que surpresa! - exclamou, sorrindo com os seus dentes lodosos à mostra.
Desvencilhando-se do capuz que lhe cobria a cabeça, revelou a calva e as orelhas de abano.
— Você é que tem mexido connosco, não é? - inquiriu em tom ameaçador.
— Eu os estou conhecendo agora.
Aliás, sequer também sei o seu nome.
— Antero! - respondeu altivo, dando a impressão de que me agrediria, caso não estivesse eu acompanhado de dois guarda-costas.
— Podemos conversar amistosamente?
- reagi, fitando-lhe os olhos.
— Por que não?
— Qual é o objectivo de vocês? - comecei a entrevistá-lo.
— Não temos objectivo.
O problema é que vocês agem perigosamente...
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Re: Estudando "Nosso Lar" - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 27, 2018 11:47 am

— Vocês quem?
— Os espíritas que se rotulam de cristãos...
Querem mudar o mundo, quando sequer conseguem empreender em si mesmos a menor mudança.
Os outros três gargalharam.
— Vocês não são cristãos? - perguntei.
— Ora, não nos ofenda, não faça pouco de nossa inteligência.
Jesus Cristo não existiu.
A suposta biografia dele é invencionice...
— Temos os Evangelhos...
— Que foram escritos aos pedaços, por diferentes autores.
Igual ao que ocorreu com a Bíblia.
— Mas vocês são adeptos da Reencarnação, não?
— Sim, mas não somos bobos!
Essa história de evolução espiritual que vocês vivem pregando é tolice.
Estamos vivos - é o que nos basta.
Parem com essa vocação para carneiros!
Vocês estão insistindo em criar um sistema...
— Em criar um sistema?
— Sim, uma nova teologia!
Parem com isso...
A Vida é para ser usufruída, e mais nada!
Do que têm medo?
A morte não existe.
Podemos gozar à vontade.
Agora, vocês vivem incutindo na cabeça do povo a tal Lei de Acção e Reacção...
— Foram os Espíritos Superiores que revelaram a Doutrina...
— O que a eles convinha...
Acreditam no que disseram? Como vocês são tolos!
Eles querem é colocá-los para sofrer...
A Vida não é sofrimento! - verberou com indignação.
— Concordo: a Vida não é sofrimento - a Vida é uma bênção!
— Não me ironize - bradou, apontando-me o indicador.
Não faça comigo o que tem costume de fazer com os outros...
— Longe de mim, qualquer intenção nesse sentido - respondi com sinceridade.
— Você sabe o que a sua ironia lhe tem custado...
— Sei.
— A sua cabeça está a prémio...
— De facto, ela não vale um centavo!
— E estes dois seguranças que nada dizem?
— São os nossos amigos, Odilon Fernandes e Ferdinando.
— Odilon, o estudioso da Mediunidade?
Ah!, então este é outro...
Ele é mais inteligente que você, mais cauteloso e, portanto, perigosíssimo.
Vive ensinando às pessoas a como fugirem à sintonia connosco, não é?
— Não, meu irmão - tentou esboçar Odilon a resposta, sendo interceptado por Antero.
— Irmão, coisíssima nenhuma!
Somos adversários, estamos em campos opostos do pensamento...
Fez um intervalo e vociferou, ensandecido:
— Deixem-nos!
Não se preocupem connosco! Não nos coajam...
Vocês estão atentando contra a nossa liberdade de expressão.
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Re: Estudando "Nosso Lar" - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 27, 2018 11:47 am

Vocês estão armando as pessoas contra nós...
Eu estava verdadeiramente bestificado com os argumentos de Antero.
— Meu Deus, que sofismas perigosos!
- imaginei. — Como é subtil a artimanha das Trevas...
Qual se tivesse lido o meu pensamento, a entidade, de súbito, se voltou para mim, com o indicador em riste a centímetros de minhas narinas:
— Trevas?! - gritou quase a espumar pela boca.
Como é que vocês nos classificam assim?...
E, depois, são os bons, não é?
— Vocês - tentei amenizar - não acreditam mesmo na evolução espiritual, através das vidas sucessivas?
— Não e não! Somos adeptos do existir!
A Vida é respiração e não transpiração!
Aos poucos, derrubaremos esse tal de Kardec...
Por enquanto, o nosso objectivo é afastar o mito de Jesus, no qual o Espiritismo se apoia para chegar às massas.
Estamos conseguindo. Chegaremos lá...
— Por que não vêm estudar connosco? - perguntei, compadecido.
O conhecimento da Verdade liberta...
A gente ignora muita coisa, concordam?
Dizem que estamos equivocados, mas o equívoco pode estar com vocês...
Somos todos igualmente imperfeitos!
— Se já nos sentimos livres, para que estudar?
O estudo é uma prisão ao pensamento alheio.
Não deixaremos que ninguém pense por nós!
Vocês é que estão habituados a pensar pela cabeça dos outros...
Antero, definitivamente, não era qualquer.
Tratava-se de um dos mais astutos espíritos com os quais dialogara.
Tentando rastrear-me, psiquicamente, em meu silêncio, ele aduziu com asco:
— Estão muito enganados...
Temos também os nossos instrumentos, e eles estão entre vocês.
Por enquanto, dão a impressão de que estão fazendo o jogo que lhes interessa...
Esse papo de "quem é por mim não é contra mim" não é bem assim.
Olhei para Odilon e Ferdinando, enquanto a entidade prosseguia:
— Estamos infiltrados...
E você - ameaçou-me -, ainda haveremos de pegá-lo de jeito.
O seu cavalo não vai aguentar as esporadas...
Novamente, os demais gargalharam.
— A cabeça de muitos de vocês, para nós, é como se fosse um pandeiro nas mãos de um sambista: a gente toca do jeito que quer, como e quando quer...
— Confiamos em Deus, meu irmão!
— Apelando, nem?!
Constatando que seria inútil continuar dialogando com Antero e seus seguidores, instado por Odilon e Ferdinando me despedi:
— Talvez ainda nos vejamos, mas agora precisamos ir.
— E eu sei perfeitamente para onde irão...
Será mais uma decepção. Trouxas!
O Movimento de vocês está todo minado.
Cascalho não é ouro e nem nunca há de ser.
Os espíritas ostentam virtudes que não possuem!
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Re: Estudando "Nosso Lar" - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 27, 2018 11:47 am

CAPÍTULO 22
Dali saindo, seriamente preocupados com a situação tendente a se agravar, devido ao acendrado personalismo do espírito relutante em aceitar a própria necessidade de renovação, dirigimo-nos para determinada cidade, geograficamente localizada noutro extremo, a fim de continuarmos auscultando in loco a silenciosa trama contra as obras mediúnicas de Chico Xavier, na qual o Mundo Espiritual inferior está interessado.
Enquanto vencíamos a distância que nos separava do objectivo, Odilon, Ferdinando e eu íamos permutando impressões.
— Ainda não consegui assimilar a ideia de que os agentes intelectuais de quanto se pretende concretizar, que é justamente desconsiderar o valor do trabalho mediúnico de Chico, sejam os próprios espíritas - disse.
— Contudo - ponderou Ferdinando - tal empreendimento não poderia partir de fora do Movimento, o que, convenhamos, ocasionaria uma reacção contrária imediata.
— Kardec, inclusive, em discurso pronunciado em uma de suas célebres viagens de propaganda doutrinária, efectuou alerta a respeito, afirmando que os adversários mais ferrenhos da Doutrina seriam encontrados entre os seus adeptos...
— Eu sei, Odilon, mas, de facto, é difícil crer que os inimigos do Espiritismo estejam, por exemplo, ocupando as suas tribunas...
— Articulando com subtileza, não é, Doutor? - aduziu o outro confrade.
— Sendo até admirados, Ferdinando, e aplaudidos por suas propostas inovadoras!
— Propondo a actualização de Kardec e completa reforma no funcionamento da casa espírita.
— Não o lograrão, porém - considerou o Instrutor com o optimismo de sempre.
Poderão criar certos embaraços, mas, por outro lado, haverão de fortalecer a disposição de servir dos que abraçam a Causa com real desinteresse.
— Desinteresse! - exclamei.
Eis o que nos possibilita conhecer a intenção profunda de quem atua em nome da Doutrina, seja ele médium, orador, jornalista, escritor, dirigente...
— Ou mero frequentador deste ou daquele grupo! - emendou Ferdinando.
— Não levanta suspeitas o espírita trabalhando pela conturbação das coisas e ninguém admite que ele possa estar a serviço de propósitos menos dignos!
Seria o mesmo absurdo de alguém atear fogo na casa em que mora...
Assim conversávamos, quando avistamos o prédio que abrigava o grupo que, naquele momento, deveria estar reunido decidindo sobre actividades no sector da unificação doutrinária.
Não tivemos qualquer dificuldade de acesso ao interior do acanhado edifício, onde funciona uma das Federações Estaduais que representam o Movimento Espírita Brasileiro.
— Sinceramente - disse -, sempre fui avesso a esse tipo de reunião de cúpula...
Para mim, não tem nada a ver com a espontaneidade que deve imperar em nossos arraiais.
— Eu também penso assim, Doutor - concordou Ferdinando.
— Observemos, no entanto - convidou-nos Odilon.
Creio que (não me dei o trabalho de contá-las) pouco mais de vinte pessoas ali se congregavam, ouvindo falar uma delas que ocupava a tribuna.
— O nosso Movimento - dizia quase às moscas! -, composto pelas instituições federadas, carece de se fortalecer, e, objectivando-o, apelamos para o trabalho de cada um de vocês.
A casa que se diz espírita necessita filiar-se aos nossos quadros, pois, caso contrário, estará promovendo movimento paralelo...
Se não se ligar à Federação, não pode ser considerada genuinamente espírita!
Neste ponto, confesso, torci o nariz, engoli em seco e apelei para todos os santos a fim de que não me faltasse paciência.
Enquanto o irmão de Ideal prosseguia com o seu discurso cansativo, reparei que, infelizmente, a casa estava quase totalmente vazia... de espíritos!
Eram eles, os encarnados, eu, Odilon, Ferdinando e mais uns dois ou três desacoroçoados companheiros fora do corpo, certamente, como nós, penando por ali!
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Re: Estudando "Nosso Lar" - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 27, 2018 11:47 am

E, monótono, o dirigente continuava em sua exposição:
— Outra coisa: o Movimento está sendo invadido por enxurrada de livros...
E, brandindo um exemplar de "O Livro dos Espíritos" nas mãos trémulas, fez quanto pôde com a voz quase sumida na garganta:
— Obras diabólicas estão circulando por aí! - frisou, comigo esperando que ele me citasse o nome.
— Tomem cuidado! Não as comprem e nem as vendam, que são das Trevas!
Espiritismo puro é só Kardec!
Até certas obras de Chico Xavier precisam ser lidas com cautela...
— Opa! Estou bem acompanhado - pensei com certo alívio.
A essa altura, dos vinte e poucos presentes, uns cinco ou seis deveriam estar cochilando:
a metade por desinteresse e a outra metade por já estar com o passaporte carimbado para este Outro Lado.
Dos remanescentes, dois ou três bocejavam, porque haviam se empanturrado bastante à hora do almoço.
— Acordem, meus irmãos, acordem! - exortava inutilmente.
Diz a Parábola que foi quando os homens dormiram que o inimigo veio e semeou o joio na plantação de trigo...
Acordem!
Aproximando-me, curioso, do que me parecia mais atento àquela cantilena vespertina - um dos mais jovens ali, com mais de 60 de idade! -, notei que ele escrevera o nome de Chico no papel e, em seguida, o cruzara com um xis.
Fazendo sinal com a mão para Odilon e Ferdinando, chamei-os a fim de que, por si mesmos, constatassem o facto.
— Estão vendo?! - perguntei.
Notem o que é o inconsciente agindo...
— Não podemos concordar com a idolatria - argumentava o orador -; o fanatismo não se justifica - a nossa fé, a fé espírita, é raciocinada, e precisamos aplicá-la em nós mesmos...
Certo, ninguém nega a idoneidade moral de determinados companheiros que se destacam no campo da mediunidade, mas incensá-los, não; e, depois, os tempos são outros...
Chico Xavier, por exemplo, já se encontra no Outro Lado da Vida!
Em nossa grande reunião periódica, tenho comentado a respeito com outros dirigentes...
— Estão percebendo a manobra? - tornei a indagar.
— Sim - respondeu Ferdinando contrafeito.
— Esta referência à grande reunião...
— E quase um concílio espírita! - defini.
— Não podemos negar a importância do trabalho de alguns órgãos unificadores - ponderou Odilon, lamentando o episódio que presenciávamos.
Em todos os sectores de actividade humana, nos depararemos com opiniões radicais...
— Desculpe-me, meu caro, mas, na Doutrina, isto é inconcebível.
Quem sou eu para discordar de você, porém temos aprendido exactamente o contrário do que estamos ouvindo o tribuno insinuar...
— Infelizmente - prosseguia o dirigente cauteloso com as palavras -, gozamos de excessiva liberdade no Espiritismo e não estamos preparados para tanto.
Em defesa, pois, da pureza doutrinária, eu os concito a cercear, quanto possível, a circulação de certos livros...
A intenção, agora, ficara mais do que evidente, ou seja:
estabelecer uma espécie de índex librorum prohibitorum não-oficial contra as obras espíritas!
— O ideal seria que tais livros sequer fossem editados - continuava.
Essa gente fica aí, usando o nome de Chico Xavier...
Ora, eu mesmo nunca bajulei ninguém!
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Re: Estudando "Nosso Lar" - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 27, 2018 11:48 am

Nunca fui a Pedro Leopoldo ou a Uberaba.
Não privei com o médium, e, cá entre nós, médium é médium...
Neste ínterim, o que riscara o nome de Chico sobre o papel ergueu a mão, solicitando permissão para falar e acordando os que cochilavam.
— Tenho colocado o meu jornal a serviço destas ideias...
— O "meu" jornal! - repeti com desaprovação.
— O Espiritismo agora tem dono:
o "meu" jornal, o "meu" centro, a "minha" reunião...
Traduzindo: o "meu" umbigo!
— Apoiado! - aparteou um dos que acabavam de acordar, sem sequer saber do que se cogitava.
Uma senhora muito bem arrumada referindo-se a determinado confrade, interveio:
— Tenho conversado com Fulano a respeito...
Ele acha isto tudo um absurdo, Sabem o que ele me disse?
Que é mesmo acção calculada das Trevas opondo-se à tarefa que ele vem cumprindo. Coitado! Fiquei com pena...
— Ora, morto o rei, viva o rei - disse com veemência o "dono" do jornal.
Desde que o mundo é mundo, é assim...
— Eu tenho comigo - voltou a falar senhora com uma espécie de palitos espetados no cabelo em coque - que Chico Xavier errou...
Isto a gente não pode andar comentando por aí, mas...
— Eu também acho - concordou o "proprietário" do periódico espírita.
— Idem - interveio um dos presentes, ajeitando o corpo prestes a cair da cadeira.
— Ainda bem que nos afinamos - tornou o orador da tribuna.
União é isto, o resto é opinião isolada, movimento paralelo, um atentado contra a pureza doutrinária.
Tenho informações de fonte segura que esses médiuns estão fascinados - completamente fascinados!
É só observar a vida pessoal de cada um deles.
— E a de vocês também, "sepulcros caiados"! - não percebi quando disse, tomado de indignação.
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Re: Estudando "Nosso Lar" - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 27, 2018 11:48 am

CAPÍTULO 23
Felizmente, com uma prece, pedindo ao Mais Alto tolerância e compreensão de uns para com os outros - prece que, confesso, não conseguira acompanhar -, a união se dissolveu.
Odilon e Ferdinando chamaram-me, então, para observar alguns quadros expostos ao longo do corredor que conduzia à sala na qual estivéramos.
— Vejam que perfeição - exclamou Ferdinando, respeitoso - esta tela retractando o Dr. Bezerra, nosso venerável Benfeitor...
— "O médico dos pobres"! - ressalvei.
— E esta outra de Eurípedes Barsanulfo, de Sacramento!
— Viveu servindo à pobreza... Tive oportunidade de biografá-lo - comentei de relance.
— Este é Bittencourt Sampaio - apontou Odilon.
— Homem culto e médium receitista; não se descurava dos menos favorecidos... Um exemplo quase esquecido!
Identificando mais alguns dos que haviam sido eminentes vultos de nossa Doutrina, ponderei:
— O nosso Movimento é meio machista, não? As mulheres foram excluídas desta galeria...
— De facto - disse Ferdinando, passando a recordar algumas delas -:
Zilda Gama, Yvonne Pereira, Adelaide Câmara, Anália Franco, Anna Prado, Maria Modesto Cravo...
— Já que estamos aqui - ponderou Odilon -, antes que voltemos à "Fundação", gostaria de convidá-los para breve visita à periferia.
Vocês aceitam?
— Periferia é comigo mesmo - gracejei, esquecendo o aborrecimento de minutos atrás.
— Mas é claro! - igualmente concordou Ferdinando.
— Então vamos - convidou o Instrutor, atravessando as paredes do prédio e concitando-nos a segui-lo.
Em questão de minutos, alcançávamos um bairro dos mais pobres na periferia daquela cidade.
— Odilon - perguntei -, como é que você descobre esses grupos?
— Eu também tenho os meus informantes, meu caro - respondeu sorridente e enigmático.
Era uma tarde de sábado, com o Sol ainda de fora no horário de verão, e a movimentação, dos Dois Lados da Vida, se revelava intensa.
— Grupo Espírita "Auta de Sousa"! - li na parede da humilde construção e comentei:
— Aqui, as mulheres não foram esquecidas...
— Temos, nesta casa, verdadeira oficina de trabalho do Evangelho Redivivo - explicou Odilon, enquanto caminhava na direcção de uma senhora que, ao avistá-lo, o saudou com efusão.
— Meu amigo, há quanto tempo!
A que devemos a honra?
— Trouxe alguns companheiros comigo, Clarice.
— Sejam todos bem-vindos!
— Ferdinando e Dr. Inácio - apresentou-nos.
— Ferdinando?! O Director da Fundação "Emmanuel?!
Então hoje estamos em festa...
E Dr. Inácio Ferreira?!
Que bênção do Senhor!...
Estávamos desconcertados.
— Venham, venham! A nossa reunião vai começar.
Mas - avisou-nos - não reparem na criançada.
A casa está superlotada:
muitas mães com os seus filhos, avós com os seus netos...
— Que maravilha, Clarice! - retrucou Odilon.
— Teremos rápida prelecção, depois os passes e a sopa.
As crianças estão sendo evangelizadas em pequenas salas ao lado...
Aqui é tudo improvisado.
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Re: Estudando "Nosso Lar" - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 27, 2018 11:48 am

Falta dinheiro, mas, graças a Deus, sobram boa vontade e idealismo.
Eu estava realmente encantado com a simplicidade do ambiente, em que cada companheiro, encarnado ou desencarnado, procurava ser útil sem qualquer afectação.
Em torno da Instituição, recém-fundada naquela favela, diversos espíritos promoviam um cordão de isolamento, com Clarice me informando que, em maioria, eram eles os próprios familiares dos que ali se encontravam sendo socorridos que cuidavam de sua segurança.
— Os que tencionam simplesmente conturbar o bom andamento das tarefas levadas a efeito nesta casa são barrados pelos que se interessam pelos nossos assistidos - explicou a devotada irmã.
Apenas os que querem aprender têm livre acesso ao interior da casa.
Aproximei-me de um vigia que se postava em determinado sector do terreno, ainda não completamente murado, e perguntei:
— Meu amigo, o senhor trabalha aqui?
— Como voluntário - esclareceu.
Tenho dois netos aí dentro, um menino e uma menina.
0 pai, alcoólatra, abandonou a família, e a minha filha ficou sozinha.
Devo muito a esta gente, que vem matando a fome dos meus netinhos e os ensinando a ter respeito pelo nome de Jesus Cristo!
— O senhor é espírita? - indaguei.
— Aqui, eles não nos perguntam pelas nossas crenças - respondeu, emendando:
Eu sou analfabeto, não sei ler...
— Doutor, venha - convidou-me Clarice.
— Vamos participar da prece!
A mesa tosca, um rapaz que aparentava menos de 30 de idade, começou a orar, iluminando o recinto:
— Senhor, que as tuas bênçãos sejam com todos nós...
Rogamos, em especial, pelas crianças, pelas mães e pelos pais que aqui se encontram connosco, nesta tarde.
Também pedimos pelos nossos irmãos mais idosos, muitos dos quais estão doentes, necessitados de teu amparo.
Suplicamos a tua protecção e a dos teus Mensageiros para encarnados e desencarnados, que somos uma única família, carentes da Infinita Misericórdia de Deus, nosso Pai.
Não nos deixes vacilar na fé e nem tampouco, Senhor, desistir de nossos deveres espirituais.
Encoraja-nos a prosseguir, superando as próprias deficiências de ordem moral.
Confiamos em ti, hoje e sempre!...
Em seguida, abrindo "O Evangelho Segundo o Espiritismo", pôs-se de pé e leu, com boa dicção:
— Do capítulo VI, de "O Evangelho", intitulado "O Cristo Consolador", temos a lição "O jugo leve":
"Todos os sofrimentos:
misérias, decepções, dores físicas, perda de seres amados, encontram consolação na fé no futuro, na confiança na justiça de Deus, que o Cristo veio ensinar aos homens.
Sobre aquele que, ao contrário, nada espera após esta vida ou que simplesmente duvida, as aflições caem com todo o seu peso e nenhuma esperança lhe mitiga o amargor.
Foi isto que levou Jesus a dizer:
'Vinde a mim todos vós que estais fatigados, que eu vos aliviarei.'
Entretanto, faz depender de uma condição a sua assistência e a felicidade que promete aos aflitos.
Esta condição está na lei por ele ensinada.
Seu jugo é a observância dessa lei, mas esse jugo é leve e a lei é suave, pois que apenas impõe, como dever, o amor e a caridade".
Afastando-se de nós por instantes, vi quando Clarice pousou a destra sobre a fronte do jovem companheiro, inspirando-o nos comentários daquela tarde.
Sentindo-se, assim, envolvido, ele iniciou a prelecção ao público de mais de duzentas pessoas atentas, que lhe emitiam vibrações de simpatia.
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Re: Estudando "Nosso Lar" - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 28, 2018 10:35 am

— Meus irmãos e minhas irmãs - disse com terna inflexão de voz -, o Espiritismo é o Consolador da divina promessa de Jesus.
Todos os que aqui nos encontramos reunidos, somos espíritos cansados dos erros cometidos em muitas existências.
Esta não é a primeira vez que pisamos o solo do Planeta:
já aqui estivemos em várias outras oportunidades, envergando corpos diferentes em diversificadas experiências - a maioria delas, infelizmente, equivocadas!
Estamos, pois, colhendo exactamente o que semeamos...
A Lei de Deus, se é de amor e misericórdia, é também de justiça.
A rigor, ninguém sofre sem merecer.
Estamos aprendendo, a duras penas, a não mais fazermos sofrer os nossos semelhantes.
Experimentamos em nós as consequências das dores que impusemos ao próximo.
Feliz, no entanto, aquele que aceita com resignação as provas através das quais se redime.
Com Jesus, ninguém sofre sem esperança!
Estamos aqui com muita alegria no coração.
Não mais o fanatismo religioso de outrora em que apenas nos complicávamos...
Não mais a ilusão que fazíamos questão de alimentar em nós mesmos, na inútil tentativa de enganar a consciência...
Não mais a falta de perspectiva em relação ao futuro...
Sabemos que o espírito é imortal e que, consequentemente, somos os construtores do próprio destino!
A nossa felicidade ou infelicidade depende de nossas acções cotidianas.
Como é bom saber que não vivemos ao capricho do acaso, que não existe!
Percorreu, de novo, as páginas de "0 Evangelho" e releu, com ênfase, parte do texto escrito por Allan Kardec:
— "... esse jugo é leve e alei é suave, pois que apenas impõe, como dever, o amor e a caridade".
Vejamos, queridos irmãos e irmãs, o que a Lei Divina nos solicita:
unicamente que cumpramos com o dever de amarmo-nos uns aos outros, conforme Jesus nos amou e amará sempre!
Por que será que sentimos tanta dificuldade em sermos bons?
Por que achamos difícil viver dentro do que o Evangelho nos preceitua?
Não existe segredo, para que o espírito se redima!
Vejamos, não há mistério algum!
Tudo se resume na vivência do amor!
A opção que o espírito faz pelo egoísmo lhe custa muito mais, porque, como filhos de Deus, todos trazemos o germe da bondade no coração.
Não sermos bons significa contrariar a nossa própria natureza!
Um dia, o pior malfeitor haverá de ser espírito redimido.
O caminho do mal é simples perda de tempo...
Peçamos a Jesus que nos auxilie a ser o que precisamos!
Ainda não estamos em condições de Jazer apenas e tão-somente o que queremos...
Precisamos nos fortalecer espiritualmente.
Para tanto, todos somos convidados à prática incessante do bem.
A caridade, se não está ao alcance de todo bolso, está ao alcance de todo coração.
A única coisa que a Lei nos pede é que sejamos bons!
Será isto pedir algo absurdo de nós outros?
Algo que esteja fora de nossas possibilidades naturais?...
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Re: Estudando "Nosso Lar" - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 28, 2018 10:35 am

CAPÍTULO 24
O comentário evangélico que Clarice inspirara, igualmente, calara-nos profundamente: em verdade, a Lei Divina não nos constrange ao que esteja fora de nossa capacidade...
O Amor, e tão-somente o Amor, equacionaria todos os problemas existenciais da criatura, desde, é claro, que ela se mostrasse disposta a vivenciá-lo para além de todo e qualquer dogma religioso.
Não foi por outro motivo que o Apóstolo Paulo, em sua carta aos Coríntios, o destacou na condição de virtude mais excelente dentre todas.
De novo, me recordei de Chico Xavier, quando, certa vez, nos disse que o maior problema do homem sobre a face da Terra era a questão do relacionamento - e semelhante questão está basicamente ligada à ausência de amor uns aos outros!
Sob a forte impressão que aquela singela exposição doutrinária nos suscitara, passamos a observar as demais actividades do Grupo que se erguera em meio à necessidade de tanta gente.
— Esta casa - disse eu, comovido - mais me parece uma colmeia de amor!
— Agora, Doutor - esclareceu Clarice -, terá início o trabalho de passes...
Venham connosco!
Em um cómodo singelo, oito médiuns, sendo seis mulheres e dois homens, se postavam em atitude de recolhimento.
— Este é o nosso irmão Ifigénio - apresentou-nos Clarice o companheiro que, de nosso Plano, supervisionava aquela actividade de socorro.
— Muita alegria! - cumprimentou-nos, simpático.
Odilon, interessado, perguntou:
— Quantos de vocês atuam na retaguarda espiritual do serviço de passes nesta casa?
— De quinze a dez, dos quais três são médicos.
— O Ifigénio mesmo - aparteou Clarice - é pediatra; tem um carinho especial pelas crianças...
— A desnutrição nas imediações ainda é grave problema - explicou o facultativo.
Precisamos estar atentos...
Além da desnutrição, temos o perigo de enfermidades várias, devido à falta de cuidado com as vacinas.
— Pelo menos - interveio a irmã que nos recepcionava -, a desnutrição é problema que vem sendo atenuado com a sopa, que é servida aqui duas vezes na semana, e a distribuição, embora limitada, de géneros alimentícios.
O Grupo não dispõe de maiores recursos financeiros.
Enquanto conversávamos, um dos integrantes da equipe espiritual veio até Ifigénio.
— Doutor - disse -, o pequeno Olavo revela os pulmões carregados, com infecção inicial instalada na base: é pneumonia!
— Desnutrido e com pneumonia - lamentou Ifigénio, dirigindo-se para a saleta improvisada onde o trabalho de passes estava em andamento.
— A mãe é fumante inveterada...
— Eu entendo bem disto - respondi, pigarreando.
Auscultando o garoto de não mais de três anos, gemendo no colo da mãe, o médico considerou:
— Se não interviermos, haverá perigo de óbito...
Infelizmente, Maria de Jesus sequer tem ânimo para procurar o serviço público de saúde mais próximo.
— Doutor - explicou o auxiliar -, o Posto de Saúde também está sem médico...
A greve já dura mais de vinte dias.
— Isto pode comprometer a reencarnação do menino! - exclamou, meneando a cabeça.
— Ele está febril e, talvez, amanhã seja tarde...
Vimos, então, o Benfeitor se aproximar da médium, que, após a transmissão do passe, tentava fazer Olavinho ingerir determinada porção de água magnetizada.
Com rápido movimento, acrescentou um pó azulado no conteúdo do copo, ajeitando, em seguida, a cabeça da criança e facilitando a deglutição do líquido.
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Re: Estudando "Nosso Lar" - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 28, 2018 10:35 am

— E antibiótico concentrado - esclareceu feliz, ao ver que Olavinho havia sorvido toda a água que, aos goles, a médium lhe oferecia.
— E a terceira vez que livramos o menino do risco de pneumonia com mais sérias consequências - observou Clarice.
Mal assim nos falara, quando uma companheira veio até Ifigénio.
— Doutor - informou -, a Melissa teve hoje dois pequenos desmaios...
Ontem, ela caiu e bateu a cabeça.
Houve a formação de um coágulo...
A avó, uma senhora de mais de setenta anos, não tem expediente, e também quase não consegue andar.
— E os pais da menina? - indagou, preocupado.
— O pai, um jovem drogado com dezassete de idade, aparece vez por outra; a mãe está novamente grávida...
— Soninha, novamente grávida?
— De outro namorado...
Está trabalhando do outro lado da cidade e só vem a casa no final de semana.
Precisamos operar Melissa - concluiu com praticidade.
Ela já está próxima da saleta de passes?
— Sim.
— Então, vamos - disse, preparando-se.
Trazendo a menina nos braços, a pobre senhora suplicou ao médium que a encaminhava para uma cadeira:
— Eu não sei o que ela tem...
Estou com medo de ela morrer!
Por caridade, por caridade!...
— Sente-se, minha irmã - pediu o médium alisando os cabelos da garota, sem suspeitar que, na verdade, as suas eram as mãos de Ifigénio já começando a agir com precisão.
À acção dos fluidos magnéticos do medianeiro encarnado e dos fluidos eléctricos a se desprenderem, à semelhança do laser, da palma das mãos e da ponta dos dedos do Benfeitor, o coágulo em expansão foi se desfazendo como por encanto.
— Daqui a dois dias, a senhora volte para novo tratamento - orientou o médium sob inspiração de Ifigénio.
Ela há de ficar boa...
Virando-me para Odilon e Ferdinando, comentei:
— E depois tem gente que não valoriza a transmissão pura e simples do passe...
Chega ao centro, perguntando por trabalho de cura!
Meu Deus, o que simples copo d'água magnetizada pode fazer!
Sem aparato algum, no mais completo anonimato, estes médiuns realizam prodígios!
— E sem estarem sequer incorporados, Doutor - emendou Ferdinando.
— Doutor - falou Clarice -, aqui, nas imediações, três assistidos nossos estão sendo mantidos de moratória unicamente através da acção do passe.
— Que maravilha, não, Odilon?
— É verdade, Doutor.
Se o pessoal soubesse do que o passe transmitido, mas, principalmente, recebido com fé é capaz...
Em nome de Jesus, humilde copo d'água é remédio que todos os laboratórios do mundo não conseguem sintetizar!
— Louvado seja Deus! - exclamou Clarice, que, em seguida, nos chamou para a cozinha daquela instituição.
Venham ver a nossa sopa!
— Ah!, esta é a parte que prefiro - gracejei.
Num pequeno puxado, coberto com telhas de amianto, três latões de sopa fumegavam...
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Re: Estudando "Nosso Lar" - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 28, 2018 10:35 am

— Que tentação! - tornei a brincar, chegando perto e aspirando aquele cheirinho bom.
Com uma pimentinha malagueta!
— Não podemos, Doutor, por causa das crianças e das pessoas idosas, não podemos...
— Quando fazíamos sopa - lembrei -, lá no Sanatório, tinha interno que tomava cinco, seis pratos...
— Lá no "Cinza" também, Doutor! - comentou Odilon.
— Muita gente critica a distribuição de sopa, de pão, de cesta-básica, mas ignora que, segundo as estatísticas oficiais, mais de novecentos milhões de pessoas passam fome hoje no mundo!
— Tudo isto, Doutor? - perguntou Clarice.
— Quase um bilhão de pessoas, minha irmã, passa fome no mundo!
— Estamos falando da fome de pão, pois se falarmos da fome de luz...
— Somos todos famintos!
— A carência é geral!
— Sinceramente, eu não entendo...
— Nem eu, Ferdinando - aparteei o Director da "Fundação".
Nem eu entendo o discurso dessa gente que vive falando em inclusão social, em cidadania...
É claro que é melhor ensinar a pescar do que dar o peixe.
Ninguém está discutindo isto.
O problema é que os rios estão secando, ou seja:
não há oferta de emprego no mercado!
Diagnosticar a doença, sem tratá-la de maneira conveniente, não adianta nada.
Todo o mundo sabe que a base é a educação.
Mas os governos, infelizmente quase todos corruptos...
— Doutor!...
— Odilon, desculpe-me.
Tenho por você o maior respeito, mas eu não sou Espírito Benfeitor.
Os governos são, sim, quase todos corruptos!
Se medidas sérias não forem adoptadas, a corrupção vai arrasar a Humanidade!
Na condição de desencarnado, eu não vou escrever para o mundo contemporizando.
Se alguém precisa soprar, alguém precisa bater...
— Tudo bem - respondeu o Instrutor, uma vez mais se conformando com o meu jeito de ser.
— Como costumam dizer, sou bocudo assumido!
A corrupção é uma praga social pior do que a droga!
E os corruptos, neste Outro Lado, hão de pagar caro, sim - muito caro!
Um amigo meu dizia que todo homem é mais ou menos desonesto...
Que absurdo!
A frase deveria ser:
todo homem é mais ou menos honesto!
Não! A desonestidade passou a ser um comportamento social... aceitável!
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Re: Estudando "Nosso Lar" - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 28, 2018 10:35 am

CAPÍTULO 25
- Vamos servir a sopa! - avisou uma senhora de baixa estatura, com um pano amarrado à cabeça.
Lavem as mãos e venham em ordem.
Em um tanque a céu aberto, a criançada, parecendo um bando de pássaros felizes, passou a lavar as mãos, sendo, para tanto, auxiliada pelos próprios adultos que também participariam daquele banquete espiritual.
Enquanto a sopa de fubá com legumes cozinhava, duas entidades, sob a orientação de Clarice, misturaram a ela o conteúdo de pequeno vasilhame.
— E a nossa contribuição - explicou.
— Trata-se de uma substância que potencializa o teor vitamínico dos legumes...
Como explicou o Dr. Ifigénio, a desnutrição é o problema mais grave que afecta as crianças do bairro.
Elas estão em fase de crescimento, e uma boa alimentação é de fundamental importância para a constituição do cérebro.
Em minutos, a turma estava toda sentada ao redor de três mesas rústicas de madeira, ladeadas por bancos singelos.
— Senhor - orou uma das assistidas -, abençoa a nossa sopa...
Que ela nos seja alimento para o corpo e para a alma.
Que este alimento jamais nos falte, a nós e a todos os que lutam com dificuldade na obtenção do pão de cada dia.
Abençoa, ainda, os tios e as tias que, em Teu nome, nos auxiliam aqui, nesta casa de luz!
Os pratos e as colheres foram distribuídos, junto com pedaços de pão, e, em seguida, a sopa, que alguns jovens voluntários despejavam, felizes, valendo-se do concurso de baldes apropriados e grandes conchas.
— Se isto não for Espiritismo - comentei -, eu não sei o que é!
Que Deus continue a abençoar este grupo, para que não apareça alguém com ideias contrárias ao espírito de fraternidade que nele impera.
— Estamos vigilantes, Doutor retrucou Clarice.
O pessoal do Movimento de Unificação já apareceu por aqui, sugerindo a implantação de cursos de mediunidade...
Prefiro, neste trecho, não lhes dizer qual foi a minha reacção.
Vocês me perdoem!
— Cursos de mediunidade! - exclamei mais adiante.
Odilon, você, por favor, me socorra...
— Contenha-se, Doutor - solicitou o amigo.
Como dizíamos na Terra, olhe o enfarto!
— Mais mediunidade do que percebemos aqui, impossível...
Compreendam os nossos irmãos: eu não sou contrário ao estudo, mas, convenhamos...
Se toda casa espírita procurasse fazer, junto aos necessitados, metade do que este grupo faz!...
— Durante a semana, Doutor - elucidou Clarice -, temos dois grupos de senhoras que costuram, consertando as roupas que nos são doadas e confeccionando enxovais para recém-nascidos, bem como paletós de flanela, que são distribuídos no período de inverno. Infelizmente, só dispomos, no momento, de duas velhas máquinas de costura, pois, caso contrário, o serviço poderia render mais...
— Odilon e Ferdinando - disse -, vejam a simplicidade desta construção: um salão de reuniões, sendo que o chão nem cimentado é - apenas foi feita a base de concreto! -, uma saleta onde os passes são transmitidos, a cozinha acanhada, a sopa servida quase no tempo, crianças sendo evangelizadas em duas outras salas estreitas, algumas se acomodando ao chão...
— Sabe, Doutor, a gente tem muito medo de dinheiro aqui - explicou Clarice.
— Com toda a razão, minha irmã; com toda a razão!
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