Estudando "Nosso Lar" - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

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Re: Estudando "Nosso Lar" - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 28, 2018 10:36 am

— Um pouquinho ajudaria, mas...
— Tem centro espírita hoje com dinheiro aplicado no banco!
É lamentável...
A tentação começa com a ideia de pequena poupança e... a coisa desanda!
Conheci, em Uberaba, um grupo que se esfacelou porque o centro começou a emprestar dinheiro a juros para os próprios directores e familiares.
— Mesmo, Doutor? - perguntou Clarice.
— Não estou acrescentando à verdade dos factos uma vírgula...
Há uns quarenta anos atrás, o grupo era como este aqui: extremamente promissor para a Doutrina!
De repente, é uma verba daqui, outra dali...
Como Chico Xavier dizia, centro espírita não pode ter dinheiro em caixa!
— O que houve com o grupo?
— Os directores se inimizaram e os frequentadores se afastaram: a casa, antes muito bem frequentada, ficou às moscas...
Tudo ficou prejudicado, inclusive o trabalho assistencial, do qual muitas famílias dependiam.
— Os espíritos obsessores...
— Com a anuência da turma encarnada, Clarice - essas coisas sempre acontecem, tendo a anuência da turma encarnada!
Não vamos culpar só os obsessores, não!
E a turma no corpo que vacila - não discuto a intenção, que até pode ser louvável, mas vacila!
— O senhor não é contra alguma melhoria?
— Minha irmã, diante dos riscos de alguma melhoria, se for para estragar tudo, deixe do jeito que está! Em centro espírita, onde a gente pode cimentar não deve colocar granito...
— O pessoal do curso de mediunidade ficou de voltar, a fim de explicar a sua sistemática...
— Se voltar - tomara que não! -, deverá ser convidado para o curso de Evangelho!
Notando que Odilon se fizera mais introspectivo, perguntei:
— Em que está pensando, meu caro?
Com a classe que lhe é peculiar, o Instrutor respondeu:
— Observando, Doutor, as diversas tarefas desta casa, em que cada qual procura cumprir com a parte que lhe compete, inclusive os nossos irmãos da retaguarda espiritual, eu pensava no que o Apóstolo Paulo escreveu, no capítulo 12, de sua Ia Epístola aos Coríntios:
"... os doas são diversos, mas o Espírito é o mesmo.
E também há diversidade nos serviços, mas o Senhor é o mesmo.
E há diversidade nas realizações, mas o mesmo Deus é quem opera tudo em todos.
A manifestação do Espírito é concedida a cada um, visando a um Jim proveitoso.
Porque a um é dada, mediante o Espírito, a palavra da sabedoria; e a outro, segundo o mesmo Espírito, a palavra do conhecimento; a outro, no mesmo Espírito, fé; e a outro, no mesmo Espírito, dons de curar; a outro, operações de milagres; a outro, profecia; a outro, discernimento de espíritos; a um, variedade de línguas; e a outro, capacidade para interpretá-las.
Mas um só e o mesmo Espírito realiza todas estas coisas, distribuindo-as, como lhe apraz, a cada um, individualmente."
— Muito bem lembrado - concordei -, pois é o que, de fato, constatamos na azáfama espiritual a que os nossos irmãos se entregam.
Temos aqui uma demonstração do que a mediunidade possui de mais proveitoso!
O Espírito do Senhor está a induzir ao transe do bem quase todos os integrantes do grupo.
— Chico falava - comentou Ferdinando -, que o médium devia começar pela Caridade, continuar pela Caridade e manter-se pela Caridade, se é que pretendia ser útil à Causa e fazer a coisa certa.
— Com todo o respeito a quem possa discordar, o curso prático de mediunidade mais produtivo que conheço é este:
trabalho Incansável no bem dos semelhantes!
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Ave sem Ninho

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Re: Estudando "Nosso Lar" - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 28, 2018 10:36 am

Infelizmente, muitos espíritas vêm se esquecendo disto, não é, Odilon?
— O senhor tem razão.
Ser médium de espíritos é importante, mas ser médium do Espírito do Senhor, na execução de sua Divina Vontade entre os homens, é muito mais!
— Aliás, segundo creio - ponderou Ferdinando -, este é o objectivo do chamado desenvolvimento mediúnico:
alcançar a condição de fiel intérprete de Jesus, o Senhor e Mestre!
— Podemos fazer distinção entre a mediunidade humana e a divina, não? - inquiri ao Instrutor.
— Correto. Podemos conceituar como mediunidade humana a intermediação entre espíritos comuns e como mediunidade divina aquela que transcende o simples contacto entre encarnados e desencarnados...
— O médium que se rotula ou é rotulado ainda estaria no exercício da mediunidade humana?
— Como assim?
— Por exemplo: médium disto ou daquilo...
Médium de psicografia ou de psicofonia...
— Ah!, o senhor se refere à especificidade da condição mediúnica?
— Exactamente.
— A mediunidade divina, em contraposição à humana, é inespecífica.
O Cristo, portador, digamos, de todos os talentos mediúnicos concebíveis e imagináveis, não possuía, especificamente, esta ou aquela faculdade...
— Porque o Cristo as possui todas em seu máximo grau de desenvolvimento! - concluiu Ferdinando.
— É para lá que vamos caminhar...
— Haja, porém, chão, hem, Odilon?
— Passo a passo, chegaremos, Doutor.
Então - continuou -, neste grupo, vemos o exercício da mediunidade em seu estado natural.
Evidentemente que, em todos nós, muito ainda carece ser aprimorado em termos de sentimento.
— O rótulo, em mediunidade?...
— Como o senhor mesmo costuma dizer, qualquer rótulo é limitação.
— Seria justo, então, Odilon, aspirar ao desenvolvimento da mediunidade sublime ou, para tanto, precisamos, primeiro, cogitar da mediunidade humana?
— Cogitemos de amar, e o amor fará o que é preciso.
O exercício da mediunidade é exercício de amor aos semelhantes!
— Verdadeiramente, é o exercício de todas as faculdades do espírito no que a Caridade possui de mais abrangente! - exclamei.
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Re: Estudando "Nosso Lar" - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 28, 2018 10:36 am

CAPÍTULO 26
Estando de saída, ainda pudemos registar o diálogo do dirigente do Grupo Espírita "Auta de Sousa", com dois de seus mais constantes colaboradores nas actividades da casa.
— Graças a Deus, tudo correu bem!
Devemos ser infinitamente gratos ao apoio de nossos Amigos Espirituais...
— Sem dúvida - endossou uma jovem Evangelizadora, acrescentando: —Ainda bem que neste recanto abençoado encontrei oportunidade de servir.
Estou me sentindo realizada...
No antigo centro que frequentava, infelizmente, não me davam espaço.
Chegaram a dizer que eu precisava fazer um curso preparatório de, no mínimo, um ano...
— O desafio - falou um senhor de meia-idade, enquanto enxugava os pratos na cozinha - será mantermos as tarefas dentro da simplicidade necessária.
Vamos precisar de muita vigilância e cautela.
— Segundo tenho lido, é o que Chico Xavier ensinava.
Lamento não ter tido oportunidade de conhecê-lo - disse o rapaz que abraçara a responsabilidade de dirigir a instituição.
— Eu estive com ele uma única vez, em Uberaba - contou o senhor que se esmerava com um pano nas mãos.
Vocês precisavam ter conhecido o "Grupo Espírita da Prece"...
Que simplicidade!
O prédio onde ele psicografava era ainda um pouco menor que o nosso, com uma varanda que abrigava as pessoas que não cabiam lá dentro, ficando a vê-lo trabalhar através da janela.
— Era tão pequeno assim? - a Evangelizadora indagou.
— Acomodadas nos bancos, não caberiam mais que cento e cinquenta a duzentas pessoas, se tanto.
As demais ficavam espalhadas no pátio, que também não era grande.
— E os sanitários? - tornou a jovem.
— Ao tempo em que lá estive, na década de 70, só havia um, apertadinho, para todo o mundo...
— E a construção, sólida? - interrogou o dirigente.
— Sólida, mas sem laje, o piso de vermelhão, as paredes pintadas com tinta barata...
Pelo que pude observar, se resumia no salão onde as reuniões se realizavam, pequena sala de passes, outro cómodo em anexo, no qual se processava o receituário mediúnico e... mais nada!
— Como seria em Pedro Leopoldo?
O prédio, talvez, maior?
— Nunca estive lá, mas, conversando com amigos que haviam estado, não era!
E por antigas fotos a que tive acesso, mostrando o "Luiz Gonzaga" por dentro e a sua fachada externa, obedecia ao mesmo padrão de tamanho e simplicidade.
— Localizava-se na periferia? - a jovem continuou a questionar.
— O "Luiz Gonzaga", fundado em 1927, está na região central de Pedro Leopoldo, mas, quando de sua fundação, sem demérito algum, o que é hoje progressista cidade não passava de povoado.
Por assim dizer, tudo era periferia!
Os dois interlocutores sorriram e o confrade prosseguiu:
— Quando estive em Uberaba, a rua em que o "Grupo Espírita da Prece" foi construído era uma avenida empoeirada, com poucas casas ao redor.
A noite, o bairro se mostrava mal iluminado...
Enfim, o centro foi praticamente construído no meio de uma favela!
— Então, é como o nosso aqui! - exclamou a Evangelizadora confortada.
— Guardando as devidas proporções - é claro, lá estava o centro de Chico Xavier! -, era tal e qual...
— Como tanta luz pode se irradiar de um ponto aparentemente tão insignificante, não é? - redarguiu o rapaz, embevecido.
— Pois é! Vejam vocês como o exemplo de Chico foi importante para nós! Já imaginaram se ele tivesse sido um médium cheio de exigências?
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Re: Estudando "Nosso Lar" - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 28, 2018 10:36 am

Ele nos mostrou que em qualquer lugar a gente pode construir um centro espírita, sem dar satisfações a ninguém - a não ser, é óbvio, do ponto de vista legal da instituição.
Fazendo silêncio como se estivesse tentando se lembrar de algo que ainda queria contar, o amigo acrescentou:
— Ah!, numa placa dependurada na parede, dentro do centro, na cabeceira da mesa, estava escrito mais ou menos assim:
"Aqui, com o nome de "Grupo Espírita da Prece", funciona o Culto do Evangelho no Lar do irmão Francisco Cândido Xavier, em casa de sua propriedade"!
— O que terá motivado tais dizeres? - perguntou o confrade.
— Fiquei sabendo que, à época, o pessoal ligado ao movimento de Unificação, no Triângulo Mineiro, extrapolara em suas atribuições.
— O centro do Chico era filiado?
— Não.
— Sou de opinião - argumentou o senhor - que devemos, sim, estar unidos e nos prestigiarmos reciprocamente.
Todas as instituições espíritas nos merecem respeito e consideração.
Mas a hierarquia no Movimento precisa ser evitada a qualquer preço!
— E a sua formalidade, não é?
— Sem dúvida. Chico Xavier, que se nos fez líder pelo coração, sempre se opôs ao elitismo.
Quando o visitei, também estive lá no "Abacateiro"...
— "Abacateiro"?! - interrogou a jovem.
— A reunião que Chico promovia aos sábados à tarde, na periferia.
— Eu não sabia disto.
— Vocês da nova geração precisam se inteirar das coisas - advertiu fraternalmente.
— Chico não se preocupava apenas em psicografar, não!
Ele visitava os doentes, participava de velórios, preparava com as próprias mãos lanches para os necessitados...
— Como arranjava tempo para tanto?
— A mediunidade com Jesus sabe como multiplicar o talento do tempo.
Nós, os espíritas contemporâneos, e pós-Chico Xavier, não podemos nos esquecer de sua biografia, pois ele também veio nos ensinar a vivenciar a Doutrina.
Muita gente acha que ele vivia, com o conforto possível, somente por conta de escrever o que os espíritos lhe ditavam...
— Dizem que a correspondência dele...
— Talvez fosse quem mais recebesse cartas no Brasil! Pedidos de oração, receitas, mensagens...
— Ele respondia a todos?
— Na medida do possível, sim. Em Uberaba, Chico era o melhor cliente dos Correios: semanalmente, remetia sacolas e sacolas de envelopes com cartas, caixetas com mensagens, livros que fazia questão de doar...
— Eu não sei como pode ter gente que ainda o critica - anotou a Evangelizadora.
— São tentativas inúteis de desestabilizar a missão que lhe foi confiada pelo Senhor!
Você pode reparar: os que levantam questiúnculas em torno de seu abençoado labor são os falsos intelectuais do meio doutrinário, pessoas que nunca conheceram o seu trabalho de perto, enfim, são os que querem ser mais realistas do que o rei...
— Este é dos meus! - sussurrei aos amigos.
— O povo, no entanto, ama Chico Xavier! - pontuou o companheiro, aduzindo com perspicácia:
— Ele é amado fora e dentro do Movimento!
Não é à toa que o elegeram o "Mineiro do Século" e, ao lado de Ruy Barbosa, o "Brasileiro Mais Importante da História"!
— Tenho notado certo esquecimento em relação às suas obras - considerou o rapaz.
— Há um movimento subtil para que elas sejam postas de lado...
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Re: Estudando "Nosso Lar" - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 28, 2018 10:36 am

— O senhor acha? - perguntou a professora, surpresa.
— A Federação Espírita Brasileira e outras editoras, num esforço louvável, as estão reeditando e traduzindo para outros idiomas, mas existem, sim, os que, em surdina, trabalham contra.
— Espíritas?...
— Assim eles se dizem.
— Como estão agindo?
— De várias maneiras.
Por exemplo: não as colocam em circulação nos clubes de livro, não lhes dão lugar de destaque nas prateleiras das livrarias, não as estudam e, portanto, não as comentam em suas palestras, não as citam em suas crónicas e artigos nos jornais, não as consideram como complemento natural da Codificação, não as indicam para leitura aos principiantes...
— Sinceramente, acho que a maioria não conhece a obra mediúnica de Chico Xavier!
— Vou lhe dizer uma coisa: não conhece nem Kardec!
— Apoiado! - voltei a interferir, já nutrindo imensa simpatia por aquele auxiliar de cozinha.
— O nosso meio está cheio de gente que fala muito, estuda pouco e serve menos ainda!
Se procurarmos os críticos nos departamentos assistenciais dos centros espíritas que frequentam, não vamos encontrar um! Eles só aparecem na hora da mediunidade ou da vaidade, quando assomam à tribuna...
— Apoiado duas vezes! - falei, eufórico.
— Então, em centro de periferia, se os encontrarmos, é porque se perderam...
— Três vezes apoiado! - quase gritei como cabo eleitoral.
O nosso tempo, no entanto, ali se esgotara. Precisávamos partir.
— Eu quero voltar aqui, Odilon - solicitei ao amigo.
Despedindo-nos de Clarice, de Ifigénio e outros, tomamos o caminho de regresso à "Fundação".
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Re: Estudando "Nosso Lar" - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 29, 2018 10:38 am

CAPÍTULO 27
A excursão que realizáramos fora extremamente proveitosa.
Pudéramos mensurar a situação actual do Movimento e nos firmarmos na convicção de que, tanto quanto possível, estávamos no rumo certo, pugnando pela restauração do Evangelho a partir de nossa própria vivência.
Não obstante mostrar-se com várias frentes interpretativas, no natural dinamismo das ideias em sua liberdade de expressão, em sua base, a Doutrina se revelava cada vez mais forte e coesa.
Em suma, o Espiritismo vinha se alicerçando em Jesus, Kardec e Chico Xavier.
— Devemos - observou Ferdinando, antes que dele Odilon e eu nos despedíssemos - procurar entender que, sendo a Doutrina a síntese mais avançada do conhecimento humano, à disposição da criatura encarnada na actualidade terrestre, é de se esperar toda essa movimentação das trevas no intuito de confundir as mentes incautas.
A Doutrina não se isentaria do que o próprio Evangelho não se isentou, desde os seus primórdios.
— De facto - concordei.
— Como o senhor costuma dizer, doutor - comentou Odilon -, a estrada estreita, para o espírita, é o da aplicação da Doutrina em si mesmo.
— Gostaria de ouvi-lo a respeito, Doutor - solicitou Ferdinando com delicadeza.
— A Verdade - expliquei -, conforme se sabe, aparece na Terra, de tempos em tempos, com a força de uma revelação.
Feliz, então, de quem possui olhos para enxergar a sua luz...
Foi assim com o Cristianismo; está sendo assim com o Espiritismo.
— Com os cristãos e com os espíritas!
— Mas não com todos, Ferdinando. Não foram todos os cristãos que se valeram da porta estreita do Evangelho para se redimirem. Muitos deles estão aí, até hoje, continuando a lutar...
Alguns, porém, os que souberam testemunhar fidelidade à Mensagem revelada, perseverando sem desvios do caminho traçado pelo Senhor, lograram alcançar os Planos Superiores.
— Muitos, infelizmente, se perderam nas questões de carácter filosófico, discutindo por somenos e deturpando o sentido da Palavra Divina, que procuraram adaptar às suas conveniências.
— Estão emaranhados na letra que mata até os dias de hoje, passados dois mil anos desde quando a Boa Nova nos foi anunciada!
— Estão no caminho para a travessia da porta estreita...
— Mas não se encorajaram ao passo definitivo, meu caro, permanecendo na esfera do deslumbramento ou da contemplação.
— Periodicamente, grupos de espíritos se redimem - elucidou Odilon -, promovendo-se a Esferas mais elevadas, e, quando voltam à Terra, o fazem com maior aproveitamento para si e para outros.
— O mesmo ocorrerá com os espíritas - ponderei -:
os que souberem se valer da essência das lições recebidas haverão de se libertar...
— Sem significar, todavia, que não mais necessitem reencarnar no Planeta?
— Não nos convém generalizar, pois, se tal pode acontecer com um ou outro, a maioria está comprometida com a redenção da Humanidade em geral.
Fiz uma pausa e aduzi:
— O nosso Emmanuel atravessou a porta estreita e, contudo, está novamente no corpo...
— Exacto - confirmou o Director da "Fundação".
— E, por falar em Emmanuel, você sabia que, recentemente, meu caro Odilon, surgiu mais uma teoria a respeito da volta de Allan Kardec?...
— Doutor, a este respeito ainda vai aparecer muita coisa...
— O que estão dizendo agora? - perguntou Ferdinando.
— Que Kardec era Emmanuel, ou vice-versa!
— Meu Deus! Quer dizer que...
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Re: Estudando "Nosso Lar" - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 29, 2018 10:38 am

— Estão dizendo que Kardec, através de Chico Xavier, assinava com o nome de Emmanuel.
A partir daí, alegam que, por este motivo, Chico nunca psicografou Allan Kardec, a não ser com o "pseudónimo" de Emmanuel...
— Que coisa engenhosa!
Como é que vai ficar a cabeça do pessoal lá embaixo?
— Rodopiando...
— Isto tudo - comentou o Instrutor - é para tirar a obra mediúnica de Chico do foco das atenções. Não tenhamos qualquer dúvida!
— Precisamos, pois, redobrar os nossos esforços para defendê-la - enfatizei.
— Há quem diga que a obra de Chico não carece de defensores...
— Outra artimanha dos adversários, Ferdinando.
E contei:
— Certa vez, recebi uma carta de um médium dizendo que eu, Inácio Ferreira, não precisava do nome de Chico Xavier para me promover...
Concitava-me a parar de escrever e falar sobre ele.
— Como o senhor reagiu?
— Da maneira como estou fazendo mesmo depois de morto: continuo a falar e a escrever sobre ele!
Não se trata de fazer a defesa de Chico, que não precisa de defesa.
— E tampouco de promover-se à custa dele!
— É claro. Cada qual se promove com base em seu próprio trabalho.
Se existe algo que não se transfere, é o mérito!
Quem nos dera que Chico pudesse repartir connosco o mérito que lhe pertence:
estaríamos todos muito bem, inclusive o pessoal que não faz absolutamente nada!
— O que será que o tal médium que escreveu para o senhor queria?
— Que eu passasse a falar sobre ele...
— Não!
— Não pode ser outra coisa: com certeza, queria que eu escrevesse sobre ele, mas, sinceramente, ele nunca me inspirou em nada...
— Conforme diz, doutor - aparteou Odilon -, falar a respeito de Chico Xavier é o jeito mais simples de se falar sobre a Doutrina para quem não é espírita.
— Foi o que sempre pensei e o que sempre coloquei em prática, quando, por exemplo, estava numa roda de cépticos.
Numa das poucas vezes em que estive na "Sociedade de Medicina e Cirurgia de Uberaba", participando de uma reunião social, das muitas que realizavam periodicamente, na hora do chamado coquetel, os colegas me cercaram...
— Os médicos?
— Sim, muitos deles professores da Faculdade de Medicina.
Interessante é que não me perguntaram sobre Psiquiatria e nem pelo Sanatório:
eles queriam saber de Chico Xavier, que havia transferido residência para Uberaba havia pouco mais de cinco anos!
— E o senhor?...
— Nadei de braçadas...
Ferdinando sorriu.
— Quando saí de lá, era mais de meia-noite, e, assim mesmo, por iniciativa minha que, consultando o relógio, verifiquei a necessidade de ir embora - no outro dia, bem cedo, deveria estar no Sanatório.
Mas eles me crivaram de perguntas...
— Todos interessados?
— Sim, mas com medo de qualquer retaliação da parte do Arcebispo da cidade, que controlava tudo com mão-de-ferro...
— Ele tinha poder sobre a classe médica?
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Re: Estudando "Nosso Lar" - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 29, 2018 10:38 am

— Como não?! A maioria dos hospitais era controlada pela Igreja...
Hospital "São Domingos", Hospital "São José", Hospital "São Lucas"...
Tudo com nome de santo!
— Só o Sanatório escapava, não é? - interpelou Odilon.
— Primeiro, graças aos Espíritos e, depois, à Maçonaria! - respondi.
O Sanatório, durante muitos anos, foi considerado a ovelha-negra da Medicina em Uberaba.
Fiquei sozinho durante muito tempo, porque não era fácil arranjar médico que quisesse trabalhar lá...
Os demais hospitais praticamente fechariam as portas para ele - a mando da referida autoridade eclesiástica, que, é claro, era um homem muito piedoso...
— Doutor...
— Eu sei que isto agora é coisa do passado, Odilon.
Estou apenas remexendo nos alfarrábios da memória, nas prateleiras que o tempo empoeirou e a traça, aos poucos, vem destruindo.
— Ferdinando, foi uma alegria - estendeu a mão o Instrutor, despedindo-se.
— Quem fala mais sou eu, mas quem manda é ele - gracejei ao, também, me despedir do Director da "Fundação".
Precisamos ir e retomar os nossos estudos sobre "Nosso Lar".
— Aparecerei por lá a qualquer hora, Doutor.
— Quando você quiser!
Teremos imensa alegria em recebê-lo.
No mais, não se preocupe:
continuaremos a mobilizar os recursos ao nosso alcance, para que a obra mediúnica de Chico Xavier permaneça com o destaque que lhe é de direito. Tem muita gente boa lá embaixo nos ajudando.
Nem tudo está contaminado, Ferdinando!
Eu tenho muita esperança na geração jovem que está surgindo e... na aposentadoria compulsória que, no próximo lustro, há de mandar muita gente para o IPMA!
— IPMA?!...
Antes que Odilon se me antecipasse, rematei:
— Instituto de Previdência do Mais Além!
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Re: Estudando "Nosso Lar" - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 29, 2018 10:38 am

CAPÍTULO 28
De regresso ao Hospital, depois de verificar que tudo estava na mais perfeita ordem, me preparei para a continuidade de nossos estudos sobre o livro "Nosso Lar", procurando localizar o trecho que enfocaríamos no próximo painel, sob a
competente coordenação de Domingas.
Valendo-me dos minutos que antecediam a reunião, abri o volume que tinha sobre a mesa do Consultório e passei a ler, com redobrada atenção, o capítulo 4, intitulado "O Médico Espiritual", no qual André Luiz é informado pelo Dr. Henrique de Luna sobre a sua condição de suicida indirecto.
Efectuando anotações nas próprias páginas da obra, detive-me a reflectir nas seguintes palavras:
"Não me defrontavam tribunais de tortura, nem me surpreendiam abismos infernais..."
— Uma simples frase - exclamei - modificando toda a concepção teológica a respeito da vida além da morte.
E, como se estivesse a falar sozinho, prossegui:
— Durante séculos e séculos, o homem acreditando em Céu, Inferno e Purgatório...
O testemunho pessoal de André Luiz amplia, consideravelmente, o que Kardec procurou desenvolver nas páginas de "O Céu e o Inferno", o 4º livro do Pentateuco.
Em toda bibliografia espiritualista, não há uma obra como "Nosso Lar"!
O muro milenar, que as religiões ortodoxas construíram a respeito das penas e recompensas ao espírito, após a morte do corpo, foi inteiramente demolido!
desencarnação nada mais é do que o confronto do espírito com sua própria realidade.
Literalmente, a vida continua!
Não há mistério algum a ser desvendado, a não ser a necessidade de o homem se conhecer.
Se existe algum enigma no Universo, este é o do total desconhecimento da criatura a respeito de sua essência.
O único tribunal que devemos temer é o da consciência!
Assim reflectia em solilóquio, quando Manoel Roberto veio avisar-me:
— Doutor, dentro de dez minutos a reunião terá início.
Fechei o livro e, sobraçando-o, me dirigi para o recinto em que os amigos já me esperavam em silêncio.
— Olá! - saudei-os, igualmente cumprimentando a plateia.
À resposta em uníssono, revidei:
— Meu Deus, de onde está aparecendo tanta gente? - perguntei a Domingas.
Vocês estão mesmo com vontade de estudar, hem?
— Está difícil segurar a pressão, Doutor - desculpou-se a companheira.
Mas temos apenas mais uns vinte ou trinta...
— Gente sentada no chão!
— Estamos bem acomodados, Doutor - respondeu um jovem que estava em posição de lótus.
— Dr. Inácio, vamos deixar a iniciativa com o senhor...
Qual o assunto que estudaremos hoje?
— Aqui no capítulo 4 - comuniquei -, nos deparamos com uma abordagem deveras interessante.
Se vocês me permitirem...
Não se trata, propriamente, de uma revelação, mas de oportuna advertência a todos nós.
— Somos todos ouvidos, Doutor!
— Logo após André Luiz ser informado pelo Dr. Henrique de Luna, em torno de sua condição de suicida indirecto, ele começa a meditar sobre um ponto interessante que, enquanto no corpo carnal, habitualmente desconsideramos.
Ante os presentes atentos, passei a ler:
"... não poderia supor, noutro tempo, que me seriam pedidas contas de episódios simples, que costumava considerar como factos sem maior significação.
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Re: Estudando "Nosso Lar" - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 29, 2018 10:39 am

Conceituara, até ali, os erros humanos, segundo os preceitos da Criminologia.
Todo acontecimento insignificante, estranho aos códigos, entraria na relação de fenómenos naturais".
— Pelo que podemos constatar - considerei em seguida -, André Luiz não estava sendo acusado por ninguém: a sua própria consciência é que começava a molestá-lo!
— De fato - interveio Modesta, ensejando a participação dos demais companheiros -, ninguém estava lhe pedindo contas de absolutamente nada...
— O Dr. Henrique de Luna e Clarêncio apenas conversavam com ele - frisou Domingas.
— Recordo-me, a propósito, do que Chico certa vez nos disse descontraidamente:
"Quando chegamos a desencarnar, os Benfeitores e amigos que nos recebem em seu meio não nos constrangem com os nossos erros...
Eles nos tratam bem e nada comentam de nossas falhas.
Nós é que, com o passar do tempo, sentimos não merecer estar entre eles.
É aí, então, que pedimos para reencarnar, afim de merecer a sua convivência do Outro Lado..."
E brincou, fazendo-nos sorrir:
— Do Outro Lado que, para nós, evidentemente, é este...
— Há um ponto, no entanto, que desejo destacar - prossegui.
Qual ocorre à maioria de nós, André Luiz se preocupava apenas em não cometer grandes erros...
Os pequenos deslizes cotidianos, ele os considerava como "fenómenos naturais"!
— A gente, normalmente, se preocupa em não infringir gravemente a lei...
— Para não ter, por exemplo, que responder a um processo.
Mas você já pensou Odilon - convidei o Instrutor a opinar -, se a maledicência sobre a vida alheia fosse causa de processo?
— Dependendo, Doutor, se se pode mover uma acção por danos morais contra o caluniador...
— Sim, mas eu estou me referindo à fofoca anónima que enlameia a vida de muita gente, àquele falar mal que não tem dono, mas que, muitas vezes, denigre a imagem do próximo...
Pequenos e quase ingénuos, se assim posso me expressar, actos de desonestidade!
— Doutor, se ficarmos atentos a isto, nem viveremos no corpo...
Afinal, quem é que consegue atravessar a existência sem tecer um comentariozinho qualquer? - aduziu Domingas.
— Errar é humano, não é, minha cara?
Não é este o nosso velho chavão?
— O espírito precisa ter o cuidado de não ser extremamente condescendente consigo mesmo - sentenciou Modesta.
— Está aí! - falei não querendo perder a ponta da meada.
O espírito, em termos de deslizes, se vigia no atacado, mas não se vigia no varejo!
Como muitos acham, André Luiz achou que seria suficiente não matar, não furtar, não roubar, para lhe assegurar um lugar de tranquilidade, após a morte do corpo.
— Quando nos exorta à reconciliação com os adversários - observou Odilon -, Jesus afirma que haveremos de nos responsabilizar pelo montante da dívida moral contraída até ao último ceitil...
— Muito bem colocado, Odilon! - considerei, dando ênfase ao mencionado versículo evangélico em sua íntegra:
"Digo-vos, em verdade, que daí não saireis, enquanto não houverdes pago o último ceitil"!
— Como o Espiritismo aperta a gente, hem, doutor? - comentou Manoel Roberto.
— Como diz o ditado: "Aperta, sem abraçar"! - disse Domingas, sorrindo.
— Chico Xavier dizia algo mais ou menos assim: o conhecimento que liberta é também aquele que nos coloca nas mãos a chave da cela...
A gente tem que saber a hora de entrar e de sair! Liberdade sem responsabilidade é uma utopia!
Dirigindo-me, então, ao público presente, perguntei:
— Vocês sabem por que o espírito evolui?
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Re: Estudando "Nosso Lar" - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 29, 2018 10:39 am

Quem aqui sabe me dizer o motivo de estar evoluindo?
Para que estamos nos redimindo?
Como ninguém tomasse a iniciativa de se arriscar, respondi:
— Para, num planeta semelhante à Terra, sermos, um dia, crucificados como Jesus Cristo o foi!
Em meio ao burburinho dos comentários paralelos, antecipei-me a possíveis apartes:
— Ué!, vocês pensam chegar a Cristo para quê?!
Permanecer gozando, pela eternidade, de um suposto paraíso de delícias?!
Este desejo não é incompatível com o que nos disse o Senhor, quando afirmou que o Pai e Ele sempre trabalham?!
Enquanto a turma pensava, observei:
— Mas este não é, agora, o assunto a ser discutido.
Voltemos ao tema de "Nosso Lar".
O homem, desde muito, vem se comprometendo no que considera sem relevância para o seu futuro espiritual.
André Luiz estava se sentindo embaraçado pelo que "costumava considerar como Jactos sem maior significação"!
O Dr. Henrique de Luna, apontando-lhe as causas de seu suicídio indirecto, relaciona:
"... seu modo especial de conviver, muita vez exasperado e sombrio, captava destruidoras vibrações naqueles que o ouviam.
Nunca imaginou que a cólera fosse manancial de forças negativas para nós mesmos?
A ausência de autodomínio, a inadvertência no trato com os semelhantes, aos quais muitas vezes ofendeu sem reflectir..."
Vejamos: um mundo de emoções e atitudes com as quais, comumente, não nos preocupamos, mas que, em verdade, vão solapando o aproveitamento de nossa experiência reencarnatória!
— Como este problema é sério, Inácio! - ponderou Modesta.
Os nossos irmãos na carne necessitam ser mais frequentemente advertidos quanto a isto!
— Essa miuçalha de erros cotidianos...
— Em contraposição - retruquei -, precisamos aprender a criar ensejo a pequenas acções positivas, como, por exemplo: viver com alegria!
Quão poucos os que vivem com optimismo e esperança!
Pessoas existem que, pelo seu estado de espírito deprimente, conspiram contra a sua própria felicidade.
Vivem atraindo o que é negativo e assimilando forças que as induzem ao fracasso.
Pessoas sem fé, que cavam deliberadamente o abismo da descrença a que se arrojam, assim permanecendo quase a existência inteira.
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Re: Estudando "Nosso Lar" - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 29, 2018 10:39 am

CAPÍTULO 29
A fé, evidentemente, é uma conquista - frisou Manoel cora propriedade.
— Uma conquista e construção! - emendei.
Notadamente, a fé como sendo fruto da razão, a fé verdadeira.
O nosso caro Odilon costuma dizer, e com sabedoria, que, em mediunidade, pouco conhecimento, ou seja, um conhecimento superficial, leva à descrença, ao passo que estudos mais acurados sobre o tema fortalecem a confiança do medianeiro...
— Inácio, permita-me a intromissão.
— Vocês estão aqui para se intrometerem mesmo, Modesta - brinquei, deixando a companheira mais à vontade.
— No médium, a construção da fé é resultado do esforço, da perseverança e do estudo meditado.
— Bem colocado - disse -: estudo meditado!
— Não adianta apenas ler e ler...
O médium, aliás, qualquer um, necessita aprender a pensar sobre o que lê.
Meditar sem pressa...
— Outro detalhe importante, Modesta:
meditar sem pressa!
O pessoal quer aprender o Espiritismo numa primeira leitura.
Isto não existe!
O Espiritismo é ciência de extraordinário dinamismo, no campo do pensamento.
A Doutrina carece de ser pensada...
— Doutor, se me consente...
— Ora, não seja tão económico com as palavras, Odilon.
— A rigor, o Espiritismo ainda está sendo pensado!.
— Por favor, Dr. Odilon - solicitou Manoel -, clareie o seu pensamento...
— À medida que os homens se mostrarem aptos, do ponto de vista moral e mental, irão se colocando em condições de ampliar o conteúdo de revelação da Doutrina.
Em outras palavras, o Espiritismo tem de ser levado para a Terra, o que, gradativamente, acontecerá.
— Interessante, Odilon, esta colocação sua e do Inácio...
— D. Modesta, se o Universo continua em expansão, significa que Deus ainda está criando, certo?
— Lógico.
— Deus ainda está pensando a Criação!
— Espíritos e homens, prezada Modesta - falei -, são chamados a se unir para pensar a Doutrina, e não apenas para pensar sobre a Doutrina!
Há diferença marcante entre uma e outra coisa.
Os que pensam a Doutrina são os que se colocam receptivos para desdobrá-la.
— Desde que não extrapolem, não é, Inácio?
— Exactamente.
Daí a necessidade de tudo ser sancionado pelo crivo da fé raciocinada.
Nada deve ser admitido sem análise séria e isenta, mas também nada deve ser negado a priori.
— Doutor - solicitou Domingas -, poderia voltar ao assunto, que considero de grande importância, sobre os erros que consideramos insignificantes na reencarnação?
— Mas que não o são!
— Estou interessada nisto e creio que grande parte do auditório também, já que muita gente, dentro em breve, deverá retomar a liça no corpo...
— Tanto quanto possível, precisávamos fazer ura planeamento de nossas acções diárias:
tanto lá quanto aqui!
— O senhor se refere a uma espécie de agendamento?...
— Sim, para que possamos combater o tempo ocioso.
— Para mim - comentou Modesta -, este é um dos maiores problemas no aproveitamento do espírito na reencarnação: tempo ocioso!
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Re: Estudando "Nosso Lar" - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 29, 2018 10:39 am

— Não podemos nos conceder trégua.
O minuto vazio dá ensejo à hora vazia, e esta, por sua vez, ao dia vazio.
— O dia vazio à semana vazia...
— A semana, ao mês e ao ano vazios...
— Enfim, à experiência reencarnatória não aproveitada de maneira conveniente!
— Isto sucede a grande maioria!
Milhares e milhares de espíritos, no corpo e fora dele, vivem malbaratando as oportunidades de crescimento que a Vida lhe concede.
— Como evitar isto, Doutor - perguntou Domingas.
— Aprendendo a valorizar cada hora, a partir de cada minuto!
— Como?! O senhor poderia nos dar um exemplo prático...
— A lista é enorme!
Aproveitar os intervalos ociosos, entre uma ocupação e outra.
Por exemplo: ler, sustentar um diálogo construtivo, visitar alguém que esteja doente, defender a Natureza - cuidar do jardim, plantar uma árvore, proteger uma nascente -, enfim, ocupar a mente e as mãos em qualquer tarefa que objective o bem-estar da colectividade.
— Doutor, e o lazer...
— Perdoe-me, minha cara, mas, na minha modesta opinião...
Sorri ante a referência proposital à Modesta e completei a frase:
— ... o homem já descansa demais!
Dorme de oito a dez horas por dia!
De modo quase imperceptível, para ele e para os outros, cochila inúmeras vezes quando se imagina em vigília...
— Cochila, Doutor?
— De olhos abertos, Domingas!
— Isto acontecia muito comigo!
Sem falar nos cochilos nas reuniões espíritas, durante as palestras, ou sobre as páginas de um livro que estivesse lendo...
Era só eu começar a ler, vinha o sono!
Seria acção dos espíritos das Trevas, Doutor?
— As vezes, sim; às vezes, não - respondi sorridente.
— É que, noutra obra de sua lavra, André Luiz nos fala de espíritos que nos induzem ao sono, dificultando, assim, o nosso aprendizado...
— Porém, na maioria das vezes, é falta de lucidez pessoal.
Boca acostumada ao paladar de arroz com feijão, não sabe apreciar caviar...
— O que quer dizer?
— Somos espíritos tão imaturos ou deseducados intelectualmente, minha cara, que não conseguimos digerir a ideia que nos exige um pouco mais de atenção e esforço.
— E nos vem o sono?...
— Exactamente.
— Cruzes! Então como é que vamos sair disso?
— Pela educação do espírito, Domingas!
Precisamos, todos, com a máxima urgência, criar o hábito da leitura e da reflexão.
O homem precisa cuidar do cérebro como cuida dos músculos!
— Exercitar o cérebro!
— O cérebro e, por que não dizer, o coração!
O intelecto e o sentimento!
A sua capacidade de pensar e de amar!
— Continue com a lista, Doutor; estou interessada...
— Trabalhar como voluntário numa obra assistencial:
sempre que lhe sobrar tempo, corra para uma creche, um lar de idosos, vá ensinar num curso profissionalizante...
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Re: Estudando "Nosso Lar" - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 29, 2018 10:39 am

— Ou aprender algo, não é?
— Claro! Fazer um curso universitário...
— Aos 60, 70 de idade, Doutor?
— E por que, não?!
Vá estudar Idiomas, Música, História, Literatura...
Eu não sou contra o lazer, mas, para o espírita, todo lazer deve encerrar certa utilidade.
Somos imortais e estamos caminhando, mas o passo que não for dado hoje, forçosamente terá que ser dado amanhã...
— Muita gente deixa para a outra encarnação!
— Deixa, para ver se é verdade!
Acontece, porém, minha cara, que, na próxima encarnação, a força de vontade não desenvolvida não vai aparecer...
E daí? Como é que fica?
— Chico nos dizia que o espírito que abandona a tarefa, mais tarde, quando resolve retomá-la, necessita retomá-la no ponto exacto em que a deixou...
— E que a Vida, indiferente à sua ociosidade ou rebeldia, continua passando, e ele fica!
— Doutor, o que mais? - indagou Domingas.
— Auxilie-me, Odilon - solicitei.
O que mais?
— Algo importante - lembrou o companheiro:
— Não falar mal de ninguém!
— O que significa, falar bem ou... ficar calado!
— O espírito que conseguir se educar neste sentido...
— Nossa! Como progride! - exclamou Domingas com a espontaneidade que a caracteriza.
— Muitos dizem assim: no momento ocioso, vem a inspiração do mal...
Por que não, a inspiração do bem? Ela vem, sim; é que a gente não a percebe...
Eis o que eu gostaria de acrescentar à lista, Inácio - aparteou Modesta.
— Estarmos sempre atentos à inspiração positiva!
— Ao que a consciência nos sugere fazer ou os espíritos que desejam a nossa evolução.
As boas ideias nos são sugeridas para que as concretizemos.
— Resumindo: os grandes feitos são para os grandes espíritos!
Precisamos, espíritos comuns que ainda somos, ocupar-nos das coisas que nos são compatíveis com a capacidade de realização.
O problema, no entanto, é que, ansiando pelas coisas grandes, não fazemos nem as pequenas!
Se André Luiz nos diz que factos negativos que considerava sem maior relevância pesaram para ele na balança, os positivos, de aparência insignificante, pesam também. E como pesam!
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Re: Estudando "Nosso Lar" - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 29, 2018 10:39 am

CAPÍTULO 30
Em uma de nossas reuniões subsequentes, a irmã Domingas combinou connosco que o assunto de nossos estudos, no capítulo 7, de "Nosso Lar", deveria ser levantado por um dos participantes.
Assim, franqueada a palavra, um dos presentes se levantou com um exemplar do livro nas mãos, sendo convidado, por nossa Coordenadora, a se aproximar.
— Dr. Inácio - apresentou-se o simpático rapaz -, eu sou o Rodrigo.
— Eu o conheço - respondi -, a você e aos seus pais.
— Eu sou amigo do Paulino Garcia...
— Estou sabendo.
Você é participante de um dos grupos do "Liceu", não é?
— Exactamente.
— Qual é o tema que deseja propor às nossas reflexões de hoje?
— De início, quero esclarecer ao resto da turma que eu não era espírita...
Cheguei a este Outro Lado ignorando quase completamente as questões concernentes à Vida além da morte.
Tudo, para mim, foi uma grande novidade, e ainda está sendo!
— Você se tornou espírita? - perguntei.
— Estou estudando, Doutor.
Neste sentido, os meus pais têm me auxiliado muito.
Posso dizer que, em todos os sentidos, só recentemente nasci para a Vida Espiritual...
— Sei como é isto. Também não faz muito que eu nasci
— Dr. Inácio - comentou Domingas -, eu acho que nasci foi desta última vez...
— Quem aqui - dirigi-me à turma - tem consciência de ter nascido há duzentos anos?
Ninguém respondeu afirmativamente.
— Então há um pouco mais de tempo?
Novamente, silêncio absoluto.
— E há um pouco menos?
Cento e trinta ou cento e cinquenta anos, por exemplo?
Apenas dois levantaram a mão.
— Rodrigo, quando foi que você nasceu?
— Ah, Doutor!, eu nasci quando morri!
As lembranças que tenho de meu passado, em relação às vidas anteriores, são praticamente nulas.
— Você pode não ter lembranças vivas, mas é bem velhinho, meu filho - todo o mundo aqui é bem velho!
Tem gente aqui mais velha do que eu!
O pessoal sorriu.
— Portanto, em termos de faixa etária real, ninguém sabe dizer quem é mais moço ou mais velho, certo?
— Não há o que ser questionado, Doutor - concordou Domingas.
— Eu os trato por "meus filhos", mas vocês podem ser meus avós!
— Em relação a mim, nem tanto, Doutor!
Eu ser avó do senhor?! - quis Domingas esquivar-se.
— Tem gente que envelhece, mas não amadurece; adquire rugas no rosto, mas não circunvoluções no cérebro...
Com uma piscadela para Odilon, como a pedir o seu consentimento:
— Tem 50 anos de Espiritismo, mas nem um dia de Evangelho!
O Instrutor esboçou um sorriso e eu disse a Rodrigo:
— Vamos lá, meu caro, sem mais divagações.
O que você destaca para os nossos estudos no capítulo 7, das anotações de André Luiz em "Nosso Lar".
— Doutor, como já foi dito à saciedade, a obra inteira é uma revelação, mas, para um leigo como eu, um aprendiz de Mundo Espiritual...
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Re: Estudando "Nosso Lar" - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 30, 2018 10:51 am

— Gostei: "aprendiz de Mundo Espiritual"!
Todo espírita é...
— Posso ler três pequenos trechos?
— À vontade - concordei com o jovem, então, passando a ler.
— "Forrava-se o solo de vegetação.
Grandes árvores, pomares fartos e jardins deliciosos."
Este é o primeiro.
Agora, vamos ao segundo:
"Aves de plumagens policromas cruzavam os ares e, de quando em quando, pousavam nas torres muito alvas..."
Finalmente, o terceiro:
"Extremamente surpreendido, identificava animais domésticos..."
Rodrigo pausou por instantes, olhou para mim e exclamou:
— Dr. Inácio, flora e fauna no Além, ou seja, aqui, depois da morte?!
— Pois é, meu filho, o livro em análise está recheado de anotações semelhantes.
Um pouco mais à frente, no capítulo 33, sugestivamente intitulado "Curiosas Observações", você pode conferir - solicitei -; está escrito:
"Seis grandes carros, formato diligência, precedidos de matilhas de cães alegres e bulhentos, eram tirados por animais que, mesmo de longe, me pareceram iguais aos muares terrestres.
Mas a nota interessante era os grandes bandos de aves, de corpo volumoso, que voavam a curta distância, acima dos carros, produzindo ruídos singulares."
— Cães e cavalos!...
— E o pessoal lá embaixo, com excepções, é claro, lê e não entende patavina!
Não entende que cães e cavalos, em qualquer lugar, sentem fome e, portanto, têm que comer!
Os ortodoxos só faltam dizer que eles se alimentam de fluidos...
— Doutor - aparteou Odilon -, de fluidos, todos nos alimentamos!
— Sim, apenas com a diferença de que os homens comem fluidos em forma de pão, e os cavalos, em forma de capim! Se bem que...
Bem, deixe para lá!
O pessoal entendeu o que ficou nas reticências e eu continuei:
— Cavalos e cães que, além de comer, fazem sexo...
— Eu sabia que o senhor chegaria aí! - comentou Domingas.
— Mas fiquem sabendo, desde já, que eu não sou caso para Freud!
Caso para Freud é quem acha que sexo, depois da morte, é algo pecaminoso, mórbido.
A reprodução, em qualquer nível onde a Vida se manifesta, é algo natural.
A faculdade de criar ou de procriar é divina!
Raciocinei rápido e peguei o pensamento que, por pouco, não me escapava:
— O que vocês diriam se aqui, no Mundo Espiritual, os homens pudessem se relacionar sexualmente, como se relacionam, sem função reprodutora?
Ora, como dar-se, na Terra, uma função sublime ao sexo e a ele negá-la aqui, neste Outro Lado?
Esse pessoal que nega a reencarnação no Plano Espiritual, no fundo, está defendendo o sexo pelo sexo! Ou não?!
— Doutor - disse Domingas -, eu nunca havia pensado no assunto sobre este prisma...
— Eu também não! - exclamei.
Mas existe lógica ou não?
Na Terra, o sexo para reprodução; aqui, no Mais Além, o sexo pelo sexo?...
Aí, sim, o relacionamento sexual careceria de sentido. Concordam?
Virando-me na direcção de Rodrigo, interroguei:
— Você sabe de algum de seus colegas, ou você mesmo, que não faça sexo por aqui?
— Não, Doutor, não me peça nomes, mas não sei de ninguém - descontraiu-se o inteligente rapaz, levando os colegas a sorrir.
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Re: Estudando "Nosso Lar" - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 30, 2018 10:51 am

— André Luiz fala em pomares, não fala? - prossegui.
— Fala!
— Fruto não nasce sem sexo.
Ou nasce?
Daqui a pouco, Irão dizer que é tudo fruto de incubadora ou criação da mente.
Não tem nada disto!
Nos vegetais, o gameta masculino relaciona-se com o feminino...
A menos que queiram colocar maledicência no assunto!
O pólen fecunda o estigma, na chamada polinização!
Agora, não me perguntem mais que, mesmo que soubesse, não diria.
— Isto é uma aula de Botânica! - brincou Domingas.
— Muitos dirão que é de pornografia...
Uma banana para eles, de preferência verde!
— Se André Luiz fala em pomar, fala em fruto...
Será que quem lê não entende, Doutor?
— Tem um amigo meu que acha que eles não querem entender...
— Se há reprodução vegetal, há reprodução animal!
— Eureca, Domingas! Você inventou a pólvora!...
— Eu já disse ao senhor que não me sinto tão velha assim...
— Agora, sou eu quem não quer perder a linha de raciocínio - disse, citando trecho do prefácio de "O Evangelho Segundo o Espiritismo".
— "Para dissipar as trevas e confundir os orgulhosos", André Luiz ainda faz referência a uma espécie de aves nativas - enfatizei, repetindo -, nativas do Mundo Espiritual!
— íbis viajores! - retrucou Rodrigo.
— Auxiliares dos Samaritanos, que devoram as formas mentais nas regiões umbralinas - emendou a coordenadora.
— Como se fossem os nossos urubus, devorando carniça!
— Que imagem forte!
— Mas é a realidade, minha cara.
O que os homens acumulam fixações?
Acenas os restos de sua mesa? É claro que não.
Neles, muitas vezes, está o retrato do desperdício, da indiferença e da cultura medíocre do ser humano!
Em muitos países, o que vai para o lixo daria para matar a fome dos que morrem de fome no mundo! Todavia, não é a isto que desejo me referir agora, mas sim, ao chamado íbis viajor, que é uma espécie de ave nativa do Mundo Espiritual.
— Que aqui se acasala, se reproduz, cresce...
— Em outras palavras: nasce, morre e torna a nascer, sem ser propriamente conhecida dos homens na Terra, a não ser em sua versão mais animalizada.
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Re: Estudando "Nosso Lar" - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 30, 2018 10:52 am

CAPÍTULO 31
Dando sequência à explanação, ressalvei:
— O íbis é uma ave da família Threskiornithinae, conhecida desde o Egipto Antigo, onde, inclusive era objecto de adoração religiosa.
Talvez muitos aqui a conheçam, por exemplo, com o nome de curicaca...
— Ah! - exclamou Domingas -, agora sim, posso identificá-la: curicaca!
— Todavia, minha cara, a espécie mencionada por André Luiz, íbis viajor, como disse, é nativa do Mundo Espiritual, posto que, em nenhuma das espécies, com que essa ave pernalta parece na Terra, revela as mesmas características, ou seja:
"devorarem as formas mentais, odiosas e perversas, entrando em luta franca com as trevas umbralinas"...
— Em luta franca, Doutor? - perguntou Rodrigo.
Parece ficção, não é?
— Aliás - respondi -, quando "Nosso Lar" foi publicado, no começo da década de 40, muitos o consideraram, por inteiro, obra de ficção literária.
— Ficção para os que se encontram encarnados - comentou o rapaz -, seria vivenciar o que estamos vivenciando!
— Você o disse com muita propriedade.
Mas, por outro lado, devemos reconhecer não ser mesmo fácil aceitar aquilo para o que não nos encontramos convenientemente preparados.
Efectuei pequeno intervalo e indaguei:
— Se não estivessem vivenciando a realidade da Vida após a morte do corpo, vocês aceitariam todas as informações com que nos deparamos neste livro?
— Confesso que, para mim, seria muito - respondeu Rodrigo pelos demais.
— E agora, continua sendo muito?
— Não! O muito agora é pouco...
— Quando li "Nosso Lar", Doutor - falou a Coordenadora dos estudos -, espantou-me a referência de André Luiz, quando visitava a casa de D. Laura, mãezinha de Lísias, à "Sala de Banho"...
— Ah, sim!, você quer dizer ao banheiro!
— À "Sala de Banho"...
— Foi para não chocar o leitor imaturo que André Luiz, discretamente, se referiu à existência de tal dependência na casa em que foi acolhido.
Mas vamos por partes...
Suponhamos que ele só estivesse se referindo mesmo à "Sala de Banho".
O que significa?
— Que espírito toma banho, Doutor - redarguiu Rodrigo.
— Como na Terra, nem todos aqui têm semelhante hábito...
Tem espírito por aí que não deve tomar banho há séculos!
— Eu conheço alguns, Doutor - gracejou Domingas -, que, literalmente, cheiram a defunto...
A turma, outra vez, sorriu agradavelmente.
— Embora a informação, explícita e implícita, de André Luiz, tem espírita que até hoje não se conforma:
depois de morto, não quer tomar banho! Não os censuro, não.
Quando já mais velho, eu tinha uma preguiça danada de fazer a barba, aparar as unhas e, principalmente, tomar banho todo dia!
Creio que acabei assimilando a ojeriza dos gatos à água!
Lá no "Sanatório", para dar banho em certos doentes, a gente tinha que molhá-los de roupa e tudo...
— Que falta de caridade! - provocou-me Domingas.
— Depois de quase um mês sem banho, acredite: era caridade!
Principalmente para com as nossas narinas...
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Re: Estudando "Nosso Lar" - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 30, 2018 10:52 am

— Aqui, tomo mais banho do que tomava lá embaixo, quando, tantas vezes, chegando suado do futebol...
— Eu não sabia que estávamos conversando com um goleador!
— Goleiro, Doutor - eu era goleiro!
Minha mãe tinha que brigar comigo para que eu não dormisse sem banho...
— E chuteira fede!
— Ténis fede mais!
Eu era goleiro de futebol de salão...
— Então, sua mãe, Rodrigo, é uma santa:
aquele chulé dentro de casa, à noite...
O jovem amigo emocionou-se ante as próprias reminiscências.
— Ora, meu caro - procurei confortá-lo -, você está mais vivo do que sempre, e terá a eternidade para amar os seus pais!
Estamos mergulhados num Oceano de Amor!
Não sei por que o pessoal aplaudiu...
— Continuemos - falei.
Onde é que estávamos?
— Na "Sala de Banho", Doutor.
— Ah, sim!, Domingas, no banheiro.
Além de banho, o que mais nos sugere o banheiro ou, por outras palavras, o sanitário?
Todo o mundo ficou calado.
— Ué!, vocês já transcenderam essa necessidade fisiológica?
Meus parabéns!
Sinto-me envergonhado, porque eu não!
É verdade, não vou mais ao sanitário com a frequência de outrora, umas duas ou três vezes por dia...
O pessoal gargalhou:
— Qual é a graça?
Eles se dobraram de sorrir.
— Eu ia duas, três vezes por dia, para fazer o que muito espírita faz de uma vez só!
Faz para o mês inteiro, o ano inteiro e, em alguns casos, para a encarnação inteira!
— Doutor, o senhor deveria ser humorista...
— Palhaço, Domingas, palhaço!
Enquanto a turma se recompunha, comentei.
— Pois é; espírito não é anjo, porque anjo, pelo menos assim suponho, é que deve estar livre dessas necessidades fisiológicas...
Vocês se recordam que, dias atrás, comentamos o facto de André Luiz estar barbudo?
— Sim - respondeu Rodrigo -, eu me recordo.
— Inocentemente, penso que, depois de ter dado a devida finalidade ao vaso sanitário existente na casa de Lísias e tomado um bom banho, ele raspou a barba...
— Engraçado, não é, Doutor?
Quando estava encarnada, eu pensava que todo Mentor fosse barbudo...
— Inclusive eu? - perguntei embaraçando a confreira.
— É que eu via quadros de Dr. Bezerra, de Cairbar Schutel, de Batuira, de Eurípedes Barsanulfo...
— Eurípedes, não, Domingas!
Eurípedes, como Bittencourt Sampaio, só usava bigode...
— Ah!, barba, bigode, cavanhaque, é tudo a mesma coisa!
— Domingas, você corta as suas madeixas por aqui?
Morta, você procura os serviços de um salão de beleza no Mais Além?
— Uai, Doutor!, é claro!
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Ave sem Ninho

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Re: Estudando "Nosso Lar" - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 30, 2018 10:52 am

Ainda mais cabelo ruim feito o meu?
Continua me dando um trabalhão...
Resolvido a mexer com ela, observei:
— Você sabia que a gente pode avaliar a evolução do espírito por seus cabelos?
— Como?! - redarguiu um tanto descrente.
— Espírito superior não tem cabelos não, minha cara; se, porventura, os tem, são lisos e não crespos assim como os seus!
Você não percebe que os meus estão raleando?
E que eu estou quase chegando lá...
— Doutor, a gente não sabe quando o senhor brinca ou fala sério!
— Não é para saber mesmo, não.
Conforme dizia um amigo meu: eu não vim para explicar; eu vim para confundir...
Aliás — desculpe-me pela blasfémia -, eu vim para atear fogo ao mundo...
— Ao mundo espírita, não é, Doutor?
— De preferência!
Vendo Odilon sorrir e abanar a cabeça, prossegui:
— Voltemos ao banheiro...
— De novo? - ironizou Rodrigo.
— Viu, meu filho, como sou portador de doença contagiosa?
— Quem me dera possuir, pelo menos, a metade das doenças do senhor!
— Pronto! Agora está me puxando o saco...
E o pior - o pior, não, o melhor é que espírito também tem isso...
(Literalmente, abrindo um parêntese, deixem-me aqui apreciar a cara dos ortodoxos que, com certeza, estarão exclamando, quase a espumar pela boca:
Blasfémia! Pornografia!
Mistificação! Espírito chulo!
Anátema! Para a fogueira!
Sabe qual a minha resposta:
Ah, ah, ah, ah!...)
— Estamos, Doutor, outra vez, no banheiro da casa de Lísias - frisou Domingas.
— Já se tomou banho, raspou a barba...
— Agora, só falta enxugar o corpo, pentear as madeixas e jogar, se possível, jogar um leite de colónia...
— Ah! - exclamou a plateia, esperando, com razão, um melhor desfecho.
— O quê? Estão reclamando do leite de colónia?
Então uma alfazema?
— Não! - responderam em uníssono.
— Está bem. Azzaro, e não se fala mais nisto!
— Kenzo, Doutor! - opinou Rodrigo; nesta propaganda que vou debitar na conta de seus respectivos fabricantes.
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Ave sem Ninho

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Re: Estudando "Nosso Lar" - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 30, 2018 10:52 am

CAPÍTULO 32
Ao fim de determinado número de encontros, reunimo-nos Domingas, Odilon, Modesta, Manoel Roberto e eu, para averiguarmos o aproveitamento das mesmas.
— O que você está achando, Odilon? - perguntei ao amigo, cuja opinião todos nós acatamos com respeito. — Proveitoso?
— Claro, Doutor, muito.
Creio que não apenas nós mas também os companheiros encarnados, destituídos de qualquer espírito de prevenção contra a realidade, haverão de aproveitar os debates que o senhor vem conduzindo sobre alguns temas de "Nosso Lar".
— E depois, Inácio - disse Modesta -, as reuniões têm se processado num clima de descontracção...
— Às vezes, excedo, não é?
— Não, Doutor - ironizou Manoel Roberto -, não são impróprias para maiores de... 40 anos!
— Se assim é, todo o mundo vai desejar ter mais de 40 para ouvir o senhor, inclusive eu...
— Apenas queremos comunicar a você...
— O que é, Modesta? - indaguei ante a pausa da devotada seareira.
— O pessoal andou comentando e...
— Vamos ter que fazer as reuniões num salão maior!
É isto, Doutor! - esclareceu Domingas.
— O quê?! Espere aí, eu não sou orador...
Tínhamos combinado...
— Tenha calma, Doutor - conteve-me Odilon -; o número de participantes só vai dobrar!...
— Como?!
— De pouco mais de 200 para... - a Coordenadora explicou, consultando anotações.
— Para 453!...
— Vocês não sabem fazer contas?
Mais do que dobrou... Meu Deus!
— Como iremos dizer "não"?
— N, a, o, til e pronto: não!
Eu não tenho domínio de público.
Nunca consegui falar para mais de meia-dúzia de gatos pingados...
— Tem, sim, Doutor - contestou-me Odilon.
— Vocês querem é me envaidecer!
Vade retro, Satanás!
— Prometo que não abriremos mais para ninguém! - redarguiu Domingas.
— Por favor! Parem com isto!
Não divulguem mais...
— Inácio, você quer saber de uma coisa? - perguntou-me Modesta, incisiva.
Tem até gente encarnada querendo participar!
Dias atrás, estive com uma senhora que pertence a um seu fã clube...
— "Valha-me, Deus!" - exclamei, repetindo antigo chavão a que Chico Xavier sempre recorria quando se via apertado.
— O pessoal o estima muito, Doutor - ponderou Domingas.
Para cada um que lhe torce o nariz, o senhor tem mil que lhe sorriem!
— Eu não mereço, não...
— Merece, sim!
— O nariz torcido?
— O senhor está se referindo é a ele?
— Pensou que fosse ao quê, Domingas?
— Esse Inácio! Deus fez e quebrou a forma - suspirou Modesta.
— Quebrou de arrependimento! E o pior é que me fez imortal: agora, tem que me aguentar pela Eternidade!...
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Ave sem Ninho

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Re: Estudando "Nosso Lar" - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 30, 2018 10:52 am

— Então vamos, gente - convidou-nos Domingas -, que já está na hora, e a turma espera ansiosa.
Chegando ao salão bem mais espaçoso, antes de posicionar-me, questionei a Coordenadora.
— Domingas, vocês estão me enganando...
Aqui tem mais de 453 pessoas!
— Só umas duas ou três pessoas, Doutor.
Não mais do que isto.
É que o pessoal da faxina, da manutenção...
— Ah, sim!, os jardineiros, os electricistas, os encanadores...
Sem me dar tempo para novas queixas, a arrebatada companheira de ideal espírita anunciou o início dos estudos.
— Como da vez passada - explicou -, o Dr. Inácio Ferreira conversou connosco sobre a "Sala de Banho" da casa de Lísias, hoje ele irá tecer alguns comentários sobre a questão da água.
Não é isto, Doutor?
Tentando deixar as brincadeiras de lado, respondi:
— Exactamente, pois, afinal, uma coisa tem a ver com outra, não é?
Sem água, uma "Sala de Banho" ou mesmo simples lavabo seria um contra-senso.
Em seguida, puxando pela memória, falei:
— "Nosso Lar" foi um dos primeiros livros espíritas que li, no começo da década de 50.
Eu havia me tornado espírita recentemente, tendo sido conduzido à Doutrina pela nossa Maria Modesto, aqui presente.
Ela me presenteara com um exemplar de "O Evangelho Segundo o Espiritismo".
Posteriormente, li as demais obras da Codificação, Delanne, Denis, Bozzano e outros.
Da lavra de Chico Xavier, como disse, "Nosso Lar" foi a primeira obra que tive oportunidade de ler.
Fiquei deveras impressionado e surpreso, confesso, mormente quando cheguei ao capítulo 10, "No Bosque das Águas".
Não fosse pela credibilidade moral do médium e o endosso de Modesta, talvez eu tivesse fechado o referido volume para não mais abri-lo.
Vejam vocês:
Aeróbus, Serviço de Trânsito e Transporte, o Rio Azul - um rio no Além!
Todos sorriram e mais bem se acomodaram nas poltronas.
— Quando, ainda há pouco, mandamos para a Terra o "Na Próxima Dimensão", o pessoal por lá debochou a valer...
Sabem um dos motivos?
Porque, visitando o "Bosque das Águas", um dos recantos mais aprazíveis de "Nosso Lar", contei a eles que havia visto um casal de pássaros chocando!
Pintaram e bordaram, inclusive esboçando a caricatura de um ninho nas páginas de um periódico espírita.
Eu não sei por onde é que, hoje, andam os responsáveis por aquela execração.
Deveriam ter a hombridade de vir a público e se retractar, porque, afinal de contas, o deboche foi feito à sua própria capacidade intelectual.
Demonstraram total desconhecimento da Doutrina!
Passaram eles aos leitores do jornal atestado público de sua ignorância, como alguns poucos continuam fazendo, agora pela Internet.
Efectuei rápida pausa e retomei os comentários.
— Mas, deixemos estar...
A Verdade não se compadece dos que, voluntariamente, procuram ignorá-la.
O que não aprendemos com a Vida, de livre e espontânea vontade, a morte nos enfia goela abaixo!
Neste Outro Lado, o produto mais consumido é remédio para má digestão!
Haja sal de frutas!...
Bem, não vamos ter tempo de falar sobre "as grandes oficinas do Serviço de Trânsito e Transporte".
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Re: Estudando "Nosso Lar" - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 30, 2018 10:52 am

Vamos deixar o tema para outra oportunidade.
Apenas, de passagem, gostaria de registrar que, felizmente, não temos por aqui a calamidade dos engarrafamentos!
E da poluição, provocada pela fumaça dos veículos automotores!
E também da poluição sonora, oriunda dos carros e motos barulhentos que, no mundo, arrasam os ouvidos de qualquer um!
Na Terra, precisava existir uma lei contra a poluição sonora igualmente.
Multas pesadas contra os motoristas que desfilam nos seus carangos com o som a toda a altura.
Convenhamos que isto ainda é coisa de mundo primitivo.
Em minha opinião, o homem deveria ser proibido até de escarrar no chão!
A turma, sorridente, se manifestou.
— E! Vocês já imaginaram o número de micro-organismos patogénicos que são lançados fora numa cusparada?
Além de ser um hábito de criatura não civilizada!
Para que, afinal, existem os lenços?
Não é para armazenarmos o nosso zoológico particular, com bacilos, bactérias, etc.?
Mas este não é o tema que pretendo desenvolver, no que espero seja um diálogo e não um monólogo - disse, pedindo a participação dos companheiros.
— Domingas - solicitei -, fale algo sobre água...
— Falarei algo bíblico - retrucou a irmã Coordenadora: — "... e o espírito de Deus pairava sobre as águas."
Interessante, não é, Doutor?
Na génese bíblica, temos que Deus, no princípio, criou os céus e a terra...
Fica-se com a impressão de que a água é elemento que já existia!
— Empédocles - disse eu -, filósofo grego, afirmava que a água é a substância básica do Universo - o hausto liquefeito do Criador!
— Nossa! Não estou entendendo nada...
— Ouçamos o caro Manoel Roberto.
Fale alguma coisa sobre água, Manoel.
— Anualmente, cerca de 1,5 milhões de pessoas morrem por falta de água...
— Segundo os estudiosos - emendei -, em 20 anos, se tanto, faltará água para 60% do mundo!
— E você, Odilon, gostaria de tecer algum comentário? - indaguei ao Director do "Liceu".
— Apenas recordar uma definição, transmitida via mediúnica, pelo Dr. Dias da Cruz, inserida no livro "Instruções Psicofónicas", de Chico Xavier, de que a água é afilha mais dócil da matéria tangível.
— E você, Modesta?
— Que o corpo humano é mais feito de água, ou seja, de hidrogénio e oxigénio, do que qualquer outro elemento.
Em outras palavras, a matéria de que o corpo físico se constitui é volátil...
— Então, podemos concluir que, na verdade, a desencarnação é fenómeno de desidratação!
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Re: Estudando "Nosso Lar" - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 30, 2018 10:53 am

CAPÍTULO 33
Permitam-me, todavia considerei -, abordagem mais prática sobre o conteúdo do capítulo da obra em estudo.
Falemos sobre o "Rio Azul".
Quem poderia supor a existência de um rio da natureza espiritual?
Vejamos como, aos poucos, André Luiz, orientado pelos seus Mentores, vai descortinando aos homens a realidade da vida fora da matéria densa.
Lerei pequeno trecho do referido capítulo:
"Todo o volume do Rio Azul, que temos à vista, é absorvido em caixas imensas de distribuição.
As águas que servem a todas as actividades da colónia partem daqui.
Em seguida, reúnem-se novamente, abaixo dos serviços da Regeneração, e voltam a constituir o rio, que prossegue o curso normal, rumo ao grande oceano de substâncias invisíveis para a Terra".
Quantas revelações em tão poucas palavras!
Vamos tentar enumerá-las.
Vocês, por favor, me ajudem.
— A existência de um rio pressupõe a existência de nascentes e do fenómeno da chuva - falei dando ensejo a que outros falassem, sem me preocupar aqui em lhes declinar o nome.
— Um rio sempre deságua noutro...
— Que, juntos, desaguam no mar!
Portanto os que lerem o capítulo com atenção não estarão equivocados, se cogitarem de oceanos no Mais Além...
— Doutor, a preocupação do Mundo Espiritual com a questão da água muito antes que os homens encarnados começassem a se preocupar com a sua escassez...
— Sim, o livro é do começo da década de 40.
André Luiz, então, já falava na reutilização da água, mostrando que, em "Nosso Lar", não há desperdício...
— Que, em suma, o Mundo Espiritual, sem água, seria também uma região estéril, inviabilizando a vida...
— Que a água, em seus vários níveis de densidade, é tão essencial aqui quanto lá...
— Há um serviço de canalização desses recursos hídricos e, consequentemente, de saneamento básico...
— Esgoto!...
— Irrigação!...
— Os oceanos da Terra são um prolongamento dos nossos mares...
— Portanto, em regime de coexistência, precisamos zelar pelas nossas fontes, porque a vida, em todos os seus aspectos, procede do Mais Além para o mundo...
— A vida aquática:
peixes, algas, moluscos...
Um rio sem peixes seria tão estranho quanto uma floresta sem animais!
— Aqui, não se adicionam ao precioso líquido somente substâncias como o cloro e o flúor...
— Está escrito em determinado parágrafo do livro:
"Virá tempo, contudo, em que copiará (o homem) nossos serviços, encarecendo a importância dessa dádiva do Senhor", que é a água!
— Nas Dimensões Superiores, se assim podemos nos expressar, nos depararemos com expressões mais sublimadas, ou fluidas, como queiram, da água, que, assim, deixando de ser sorvida, passa a ser somente inalada, como inalamos oxigénio...
— Quanta coisa! - exclamei satisfeito.
— Como, repito, numa leitura rápida se podem efectuar tantas ilações?
Impossível, não é?
A leitura há de ser atenta e meditada.
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Re: Estudando "Nosso Lar" - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 30, 2018 10:53 am

Pairava enorme silêncio no recinto, quando prossegui:
— Vocês duvidariam agora da existência de uma vida mais intensa e inconcebível acima de nós?
— Não! - responderam a uma só voz.
— Duvidariam que, abaixo de nós, há uma vida em condições de maior primitivismo?
Não estou me referindo à experiência no orbe terrestre, da qual somos egressos...
— Não podemos duvidar - tornaram a responder em uníssono.
— Percebam como a Vida, a partir de Deus, que é o seu Fulcro Inteligente, se projecta no Universo, com características espirituais e materiais, ocupando o Espaço...
Depois, cumprido o seu ciclo evolutivo, em sentido inverso.
De começo, o princípio inteligente quase a fundir-se com a matéria; mais tarde, espírito redimido, libertando-se dela! Entenderam?
— Mais ou menos - disse uma jovem a solicitar maiores explicações.
— A vida terrena é cópia imperfeita da vida espiritual, certo?
— Certo!
— A vida em nosso Plano, por sua vez, é igualmente cópia imperfeita da vida na dimensão imediata. Concorda?
— Concordo!
— Quanto mais perto de Deus, mais espírito; quanto mais longe, mais matéria...
— Compreendo.
— Portanto, a vida do espírito em nossas faixas de evolução é embrionária:
estamos em gestação!
Com todos os seres e com todas as coisas, assim é!
Neste ponto, interferindo, Domingas pediu um aparte:
— Doutor, no capítulo posterior, "Notícias do Plano", tendo indagado a Lísias se todas as colónias espirituais eram idênticas a "Nosso Lar", André Luiz obteve o esclarecimento que peço permissão para ler:
"De modo algum.
Se nas esferas materiais, cada região e cada estabelecimento revelam traços peculiares, imagine a multiplicidade de condições em nossos planos.
(...) importa considerar que cada colónia, como cada entidade, permanece em degraus diferentes na grande ascensão."
— Cada colónia - frisei ao retomar a palavra -, cada Plano, seja ele material ou espiritual, cada universo...
— Cada universo?! - questionou a mesma jovem da plateia.
— Filha, são múltiplos os universos existentes!
Os encarnados povoam o universo físico; nós, os desencarnados, o universo espiritual.
— Existem, então, muitos universos materiais?
— Sim, pois tudo é questão de consistência da matéria.
— Os caminhos da Evolução...
— ...são infinitos! - concluí.
— Isto não será desanimador?
— De forma alguma.
Isto, minha filha, é uma maravilha!
Você já imaginou o que nos aguarda?
Não, com certeza, não! Nenhum de nós aqui é capaz de tal conceber.
Pense na evolução de Jesus Cristo...
— Perante ela, somos insectos!
— Concordo em género, número e grau.
Mas, por outro lado, pense na lagarta que se transfigura em borboleta...
Que linda metamorfose!
Um dia, todos haveremos de transcender a forma que nos limita.
Ascenderemos a planos em que a alegria de viver supera todas as emoções mais sublimes que logramos experimentar!
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