Tempo - Oportunidade de Evolução - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

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Re: Tempo - Oportunidade de Evolução - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 30, 2018 7:56 pm

São Espíritos unos e independentes, não obstante, em aqui estando, se vejam jungidos aos outros pelos compromissos assumidos diante das más atitudes que as suas imperfeições os impeliram a tomar, e precisam promover o próprio progresso, pelo aprendizado, pelos resgates promovidos e pela aquisição de virtudes.
O amor une as pessoas e seus Espíritos trazem resgates para serem efectuados em conjunto, pois que em conjunto foram assumidos, mas cada um, por sua vez, tem os que independem do outro.
E mesmo numa união de amor em que um se propõe a auxiliar o outro, quando encarnado, as situações podem modificar- se e nada do que foi planeado se realiza.
Por isso, cada componente de um casal que inicia uma vida em comum deve estar atento às suas atitudes, e não mais pensar só em si mesmo, mas no outro também, como o companheiro com o qual deverá conviver, e preparar o lar para os filhos que Deus determinar, recebam em seu seio de amor.
Serão outros Espíritos trazendo também os próprios resgates para serem efectuados, procurando oportunidades de aperfeiçoamento, tendo em vista a evolução que precisam promover como uma lei da qual não se pode fugir, seja hoje, seja daqui a milénios.
Aquela união começava com grandes prognósticos de felicidade.
Conquanto não houvesse uma grande diferença de idade entre eles, percebia-se o quanto ele era mais amadurecido, mais ponderado.
Os pais de João, muitas vezes em contacto com Amarílis, de quem procuravam sondar os mais íntimos sentimentos para verificar se ela merecia o amor do filho que teria como esposo, costumavam dizer que ele era um jovem-velho, tão comedido era, tanto equilíbrio demonstrava em suas acções.
O que não revelavam mas temiam é que depois de ter encontrado Amarílis, pareceu-lhes que ele perdera aquele bom senso equilibrado de suas atitudes, pois, como um menino, vivia sempre afoito para vê-la.
Todavia, examinada a família e mesmo a jovem, nada encontraram que os desabonasse, e o casamento fora aceito.
Mas, em relação aos sentimentos que nada revelam se não se quer, eles temiam. Teria ela no coração o sentimento do amor na mesma intensidade que o dele para com ela?
Isto agora não importava mais, o casamento fora realizado e o filho estava feliz.
Amarílis também demonstrava felicidade, e mais ainda seus
pais, por terem entregado a filha a um homem de bem, a alguém que a amava e estava bem posto na vida.
A convivência agora era de ambos, e o início é sempre de muita felicidade.
A casa do casal já estava preparada, os últimos retoques foram dados enquanto viajavam e, ao voltarem, encontraram-na pronta para os receber, com um suprimento de víveres para que começassem a vida sem essa preocupação, e duas criadas contratadas para os servir.
Amarílis nunca fizera nenhum serviço doméstico, e talvez não soubesse comandar a casa de início, mas com o tempo e a ajuda das criadas, aprenderia.
João não se importava com isso, dizendo que, enquanto ela não tivesse que se envolver com problemas domésticos, teria mais tempo para ele.
A orientação do pai e a sua empresa proporcionavam a ele condições de desenvolver o seu trabalho, percebendo uma compensadora remuneração, porque era eficiente, esforçado e, mesmo antes de concluir o curso, já colaborara com o pai em muitos projectos.
Amarílis, ao contrário, estudara, completara um curso sem muita convicção, apenas para satisfazer os pais e acompanhar o que faziam suas amigas, mas nunca desempenhara a profissão para a qual fora habilitada, nem para isso houvera tempo nem necessidade.
Assim que se formou já ficou envolvida com preparativos do casamento, e João não pretendia tê-la fora de casa trabalhando.
Ele aguardava, diariamente, o instante de voltar ao lar e encontrá-la linda, feliz e ansiosa pela sua chegada.
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Ave sem Ninho

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Re: Tempo - Oportunidade de Evolução - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 30, 2018 7:56 pm

A cada dia, na oportunidade desse momento, era uma festa para o coração de ambos.
Com o passar do tempo, porém, em que o tédio do nada fazer é uma regra comum aos desocupados, Amarílis começou a queixar-se:
—Estou cansada, meu querido, de ficar o dia todo em casa!
Nada tenho a fazer, as criadas são eficientes e fazem tudo.
As horas não passam!
Vivo todas elas só da espera da sua volta ao lar.
Afora isso, estou me aborrecendo.
— Eu também vivo o meu dia aguardando a hora de regressar para os seus braços.
As vezes me surpreendo absorto, parado, aqui junto de você, para onde trago o meu pensamento para mais desfrutar da sua companhia.
— Por que você não larga tudo, nessas horas e volta para mim?
Poderíamos passear juntos!
— Infelizmente, querida, não posso!
Preciso cumprir minhas obrigações, cuidando para não ser um engenheiro relapso e levar prejuízos a papai.
— Você deveria ter seu próprio escritório e não ficar dependente de seu pai!
— Não me sinto dependente dele!
Trabalho, recebo meu salário justo pelo que faço e estou satisfeito.
Como um engenheiro jovem ainda, tenho me saído bem, e, por enquanto, preciso do apoio de papai.
E muito difícil que confiem em quem mal acabou de receber o seu diploma.
Futuramente, sim, pretendo ter minha própria empresa, ou, quem sabe, uma sociedade com papai que poderá ampliar a sua, ou até me passar o comando de tudo e desfrutar do justo e merecido descanso daqueles que sempre lutaram.
— Mas isso ainda demorará muito!
E eu, que faço?
— Você fica me esperando, fazendo-se cada vez mais bonita para me receber, e quero que logo espere mais alguém que não só alegrará suas horas mas as minhas também, enchendo-nos de alegria.
— De que está falando?
— Você não entendeu?
— Entendi muito bem, mas não é o que pretendo por enquanto!
Precisamos nos divertir, e ainda é muito cedo para ficarmos ambos em casa, presos com crianças.
— E a cadeia mais agradável e suave que teremos!
Pense no sorriso de uma inocente criança dirigido a nós?
Pense nas suas gracinhas!
— Não estou gostando nada deste assunto!
Venha aqui, abrace-me, dê-me um beijo e goste de mim por mim mesma e nada mais...
Muitas vezes aquele assunto voltou à conversa de ambos, e Amarílis, da mesma forma, recusava-se não só a atendê-lo mas a ouvi-lo.
Ela deixava-o falar sozinho, sem dar continuidade, desviando a sua atenção para outras coisas que nem eram do interesse dela, aproveitando-se do que se apresentava no momento, para fazê-lo esquecer o que dizia.
Até os pais dela, com o passar do tempo, cobravam-lhe um neto.
Depois do casamento da filha sentiam-se mais sós e ansiosos pelo sorriso e a meiguice de uma criança entre eles.
Certa vez, em casa deles, esse assunto voltou à baila em forma de brincadeira, e ela irritou-se tanto que se levantou, dizendo que iria embora.
Que ninguém mais sabia olhar para ela como a Amarílis que diziam amar, mas como uma matriz pronta para gerar muitos filhos.
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Re: Tempo - Oportunidade de Evolução - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 30, 2018 7:57 pm

Ela exigia respeito à sua vontade e, no momento em que achasse conveniente, ela mesma se manifestaria.
Até então, se não quisessem afastá-la, que não tocassem mais no assunto.
Estas palavras deixaram a todos estarrecidos, e, ao terminar, ela saiu, dizendo que voltaria para casa.
João, compreendendo a inutilidade de tentar convencê-la a ficar, levantou-se também e seguiu-a, ainda consolando-a.
Ela nada respondeu e mais nenhuma palavra foi trocada durante o percurso, até entrar em casa, quando explodiu novamente, levantando outros problemas.
— A partir de amanhã, não vou mais ficar em casa sozinha, saindo só quando você pode acompanhar-me!
Irei passear todas as tardes, pois também tenho direito de distrair-me sem que ninguém me cobre nada.
, Acalme-se, querida!
Não viu que estávamos brincando?
— Uma brincadeira de muito mau gosto!
Vocês desrespeitaram a minha vontade!
—E que todos nós ansiamos pela chegada de um bebé!
Eu, seus pais, sem falarmos nos meus!
— Que todos vão a um orfanato e lá encontrarão muitas crianças.
Se quiserem, poderão até levá-las para casa!
— Não fale assim!
Seja mais piedosa para com eles, que apenas expressam um desejo natural!
— Não voltemos a este assunto outra vez!
— Está bem, querida!
Eu respeito a sua vontade apesar de desejar muito um filho.
Venha aqui comigo, aconchegue-se em meu peito que os meus carinhos a tranquilizarão!
— Quero ficar só e não desejo seus carinhos!
— Não fale assim, Amarílis, nós nos amamos!
— Nem mais sei se isso é verdade!
Você mesmo está destruindo o amor que tenho por você...
—Por querer ser carinhoso?
Eu não compreendo.
Eu a amo e desejo vê-la feliz!
Se não quer filhos, saberei respeitar!
— Você já está avisado!
A partir de amanhã não vou mais ficar em casa sozinha!
— Onde irá todas as tardes?
— A cada dia acharei um lugar diferente!
Vou a uma compra, a um cinema, visitar alguma amiga que me compreende, a qualquer lugar, menos ficar em casa!
A João não adiantava discutir.
Deveria deixar a esposa fazer o que quisesse.
Afinal, sair a passeio, ainda mais durante o dia, não havia mal algum.
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Re: Tempo - Oportunidade de Evolução - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 30, 2018 7:57 pm

12 O TESTE MAIOR
Segundo o que prometera, Amarílis, quando o marido se retirava após o almoço, voltando para o trabalho, aprontava-se bem bonita, e, dirigindo seu próprio carro, saía para muitos lugares.
A princípio, quando João voltava no fim da tarde, ela já se encontrava em casa e sempre tinha alguma novidade para lhe contar, do que vira, do que comprara, de quem encontrara, mas, com o passar do tempo, essa satisfação foi sendo esquecida e, se ele a interrogasse, ela irritava-se.
Sobre filhos, nunca mais ninguém falou.
Até à casa dos pais ela não voltou, deixando-os muito aborrecidos.
A mãe, frequentemente, lhe telefonava convidando-a, sabendo que a filha saía todos os dias, porém, ela recusava com alguma desculpa, pretextando um compromisso.
João estava ficando preocupado com tantas saídas e com a sua recusa em comentar o que havia feito.
O amor entre ambos estava ficando abalado, não por ele que a amava cada vez mais, mas por ela que procurava afastar-se dele.
Muitas vezes a interpelava, mas ela dizia que era a mesma, e ele é que deveria estar diferente.
Certa vez, desejando tê-la mais perto de si, João propôs-lhe:
— Se você não gosta de ficar em casa sozinha, e há tanto tempo deve visitar os mesmos lugares, por que não vai comigo ao escritório, no período da tarde, e não trabalhamos juntos?
O meu trabalho seria muito mais agradável!
— Você imagina que eu, que tenho procurado sair para não me ver presa em casa, vou prender-me num escritório?
— Estaríamos juntos!
— Quanto menos estiver junto de você, melhor me sinto!
— O que lhe fiz para ter abalado tanto os seus sentimentos para comigo?
Eu a amo e sabia que era amado por você!
O que aconteceu? Eu a decepcionei?
Tenho procurado ser carinhoso e compreensivo, faço todas as suas vontades e a amo muito.
Diga- me o que houve?
Por que não me ama mais?
— Não desejo tocar nesse assunto!
Eu não disse que não o amo!
— Não é preciso dizer!
O amor sente-se e manifesta-se, e não precisa ser expresso em palavras mas em gestos e atenções.
— Você é muito romântico e sentimental!
Eu sou mais realista e prática, é por isso que não combinamos.
João estava preocupado, não só pelas atitudes de Amarílis para com ele, que sabia tolerar e compreender, mas pela falta de amor que elas revelavam.
Tão pouco tempo de casados, uns poucos anos, se considerarmos que muitos casais têm uma vida toda — até a velhice — de entendimento e compreensão, corolários do amor que deve unir duas almas.
Amarílis era uma incógnita.
Vez por outra, para que ele não a interpelasse tanto, aceitava os seus carinhos e havia dias em que ela própria os pedia, dando-lhe a impressão de que sua vida iria mudar.
Mas, logo a seguir, tudo voltava como antes, decepando, pela raiz, qualquer esperança que pudesse ter renascido nele.
Muitas indagações ele se fazia, muitas conjecturas e reflexões realizava, mas não encontrava nada que tivesse partido de si mesmo para que aquela situação entre ambos se efectivasse, e ela afastava- se dele cada vez mais.
Entre todas as suas interrogações, uma suposição começou a irromper do mais íntimo do seu íntimo, mas ele temia só em pensar.
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Re: Tempo - Oportunidade de Evolução - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 30, 2018 7:57 pm

Porém, era a única que explicava a mudança tão radical de Amarílis para com ele.
Sim, fora desde que ela passou a sair de casa diariamente, que a situação no lar começou a mudar, decorrente da própria mudança que se operava nela.
Embora não querendo pensar, tinha que admitir.
Amarílis estava amando outro homem, não tinha dúvidas!
Ela deveria tê-lo conhecido durante os seus passeios e não resistido, quem sabe, aos seus galanteios e atrevimento, e se apaixonara.
Contudo, destas reflexões, emergia um outro pensamento:
Se ela já não o amava, se não sentia mais prazer em sua companhia e recusava os seus carinhos, por que não fora franca e não lhe revelara a verdade?
Por que não fora viver com esse novo amor?
Com certeza, ele também era comprometido, e estavam apenas tendo uma aventura.
Como desejava segui-la para comprovar todas essas hipóteses!
Entretanto, não se colocaria numa situação tão humilhante e, ao mesmo tempo, tão vil.
Até o seu trabalho, que era de grande responsabilidade, estava sendo afectado.
Não conseguia concentração para realizá-lo.
E se falasse francamente com ela, fazendo-a confessar?
Segundo as suas respostas, até a perdoaria, bastava que ela se modificasse daí em diante e se voltasse para o lar.
Era uma situação deveras complicada e intrigante para o seu coração, mas nada havia a fazer, senão aguardar.
Assim, esperou algum tempo suportando a sua indiferença, a sua pouca conversa com ele, mostrando-se sempre absorta e com o pensamento longe, e não tinha mais dúvidas — fora trocado por outro.
Todavia, ele a amava tanto que não queria nem pensar em perdê-la.
Fosse como fosse queria-a perto dele, mesmo vendo-a tão afastada, não se importando mais se fingia ao aceitar seus carinhos.
Após um tempo, ele começou a perceber que ela andava mais nervosa e irritada e, sem nada explicar, já não estava saindo de casa com tanta frequência.
Ele, como sempre, formulava as suas hipóteses, mas, dentre todas, jamais imaginou o que realmente estava ocorrendo.
Quando Amarílis decidiu que não mais ficaria em casa sozinha, que iria passear, arrumando-se cada vez mais bonita, em um desses passeios, despertou a atenção de um homem mais velho que ela, cujo olhar insistente nos olhos dela fê-la também se sentir atraída por ele.
Nada demorou, abordou-a com galanteios ternos e amorosos olhares, penetrando seu coração por inteiro.
Por insistência dele, o que era casual passou a ser combinado, e eles começaram a se encontrar quase diariamente.
Iam a lugares afastados para não despertar a atenção, e até locais de encontros amorosos mais íntimos começaram a frequentar.
Mais ela se envolvia com esse cavalheiro, mais se afastava do marido.
Era uma paixão avassaladora de ambas as partes.
— Por que não colocamos um ponto final em nossos encontros furtivos e não vamos viver juntos, sem medo, sem preocupações e preconceitos? — indagava-lhe Amarílis.
Era tudo o que eu mais queria!
— Esse é, também, o meu maior desejo, mas sabe que não posso!
Sou casado, nunca lhe neguei, e tenho filhos que precisam de mim.
Eu a amo como nunca amei ninguém na minha vida, mas nos encontramos muito tarde.
Contento-me com estes momentos, se mais não posso ter, e sou feliz apenas nestas horas.
— Não suporto mais voltar para casa!
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Re: Tempo - Oportunidade de Evolução - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 31, 2018 8:23 pm

Meu marido anda desconfiado, às vezes chego depois dele, mas, como é muito bom e me ama, nada pergunta, talvez com receio de que lhe revele a verdade que não quer ouvir.
Mas não podemos ficar assim a vida toda!
— Compreendo, querida, e gostaria de passar com você o resto dos meus dias, mas não posso.
Por isso, vivamos os momentos em que nos encontramos e esqueçamos os outros!
Sejamos felizes agora, e guardemos a lembrança dessa felicidade, para quando nos virmos afastados.
Depois que Amarílis passou a permanecer em casa, mais calada e mais irritada, João compreendeu que algum fato grave deveria ter acontecido, mas ela nada dizia.
Falava com ele apenas o necessário, nunca mais fez nenhum comentário sobre nada, e, por mais a interpelasse e desejasse aproximar-se, uma barreira intransponível fora colocada entre ambos, mantendo cada um à distância.
João sofria muito e era evidente que ela também.
A verdade era que os encontros, para aquele que tocara fundo o seu coração, já não tinham mais o mesmo encanto, e ele começou a faltar aos compromissos.
Sem a companhia dele, nada mais lhe interessava fora de casa, por isso voltava mais cedo, dando a impressão ao marido que deixara de sair.
Dias depois ele retomava com alguma desculpa e tudo ficava bem outra vez, tanta era a alegria que ela sentia ao vê-lo.
Nessas condições, eles permaneceram ainda por algum tempo, e Amarílis, pretendendo, talvez, que ele tomasse uma decisão a seu favor, permanecendo para sempre em sua companhia, deixou-se engravidar.
Ao perceber que seu plano fora bem sucedido, feliz, ela contou-lhe, dizendo:
— O que eu nunca quis com meu marido, eu o quis com você!
— De que está falando?
— Vamos ter um filho só nosso, do nosso amor!
— Você está ficando louca?
—E assim que recebe essa notícia que me traz tanta alegria?
E um filho só nosso!
Venha viver comigo, querido, criaremos o nosso filhinho, seus outros já não precisam de você!
— Os filhos sempre precisam dos pais, e eu não pretendo separar-me da minha esposa nem me afastar dos meus filhos, sempre lhe disse isso!
— Se os filhos precisam dos pais, mais precisa o nosso!
— Crie-o você com seu marido.
Diga-lhe que o filho é dele.
Eu não desejo essa criança e não quero saber dela!
— Não suporto mais a vida com meu marido, só pensando em você e nos nossos encontros!
Depois, eu não posso lhe dizer que o filho é dele, pois que há muito tempo estamos afastados.
— Faça como achar melhor, fale-lhe a verdade, mas não me envolva que não posso expor-me!
— Você não tem piedade de mim, do nosso filhinho que irá nascer sem pai?
— Eu a amo, e mais ainda já a amei, mas tenho a minha família e não vou deixá-la!
Eu nunca a enganei e acho bom, diante do acontecido, por culpa tão somente da sua imprevidência, que coloquemos um ponto-final nestes nossos encontros desde já.
— Quer abandonar-me justamente agora?
— Cada um viverá a sua vida!
Eu não virei mais aqui e não me procure!
A partir desse dia começou o sofrimento de Amarílis.
Ela nunca mais saiu de casa às tardes, andava triste, irritada e impaciente, e João percebia até que ela havia chorado muito.
Certa vez, transpondo a barreira que ela própria havia construído entre ambos, ele achegou-se bem perto dela, e, com voz tema, expressou o que lhe ia na alma.
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Re: Tempo - Oportunidade de Evolução - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 31, 2018 8:23 pm

— Sei que não gosta mais de mim, embora não saiba a razão, mas sempre a amei e a amo ainda, e vejo que está sofrendo.
O que houve para ter mudado tanto?
Enquanto a via feliz, mesmo afastada de mim, e não obstante suportando a sua indiferença, também sentia certa felicidade porque você é tudo o que eu mais amo nesta minha vida.
A sua felicidade é a minha também!
Agora, porém, a vejo triste, ansiosa, angustiada, e, às vezes, percebo que tem chorado.
Diga-me, seja o que for, estarei disposto a compreender!
Se algum mal você fez, sabe que a perdoarei.
Aqueles que amam verdadeiramente, sempre perdoam.
Ouvindo estas palavras, Amarílis criou coragem e começou por indagar:
— Você está disposto a me perdoar, mesmo que meu erro tenha sido grave?
— Erro é sempre erro e não vamos medir a intensidade dele, agora!
Fale, o que aconteceu?
— Estou esperando um filho!
— Então o que imaginei é real!
Existe outro homem em sua vida.
Bem que eu estava desconfiado mas nunca quis investigar de medo da verdade.
— Pois agora a tem toda!
Amo outro homem, tenho me encontrado com ele todo esse tempo, mas agora que espero um filho dele, fui abandonada.
— O que você esperava de uma aventura fora do lar?
Ele é casado?
— Sim, tem família e disse que não vai abandoná-la por mim, apesar de me amar também!
— Quem é esse mau carácter?
— De que adianta saber?
Eu sei muito pouco sobre ele!
O que me importava era o amor que me dava!
Sou muito infeliz.
O que vou fazer com essa criança agora?
- Eu a amo muito, e, por esse amor, posso assumir essa criança como um filho meu!
— Você faria isso?
— Pelo amor que sinto por você, eu o farei!
Pode dizer a todos que o filho tão aguardado por mim vai chegar agora!
Ninguém precisa saber o que houve.
— Você é muito bom e eu envergonho-me diante de você!
— O amor sempre nos faz cometer desatinos se não tivermos
bom-senso, e você foi vítima dos próprios sentimentos.
Eu queria muito é ter sido amado por você como esse outro homem o foi!
Amarílis abaixou a cabeça envergonhada ante tanta bondade, e nada mais disse.
Ele tomou as mãos dela e beijou-as muito, mas logo ela se levantou, dizendo que iria deitar-se.
Estava cansada e precisava pensar.
—Não há o que pensar, querida, apenas descanse, cuidando do nosso filho! — tomou ele bondosamente, pronunciando com mais ênfase a palavra nosso.
Depois da retirada de Amarílis, João, com o coração partido pela dor do desprezo, do desamor, atirou-se em uma cadeira, pensando, pensando muito, sem compreender o que havia acontecido.
Sempre fora atencioso, carinhoso para com ela na demonstração do intenso amor que lhe dedicava, e sabia que o dela para com ele nunca o fora na mesma intensidade, mas acreditava ser amado.
As lembranças foram se achegando e, de uma a uma, retomou ao dia em que ela se irritara tanto, na casa dos pais, por terem voltado ao assunto que se recusava discutir — um filho.
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Re: Tempo - Oportunidade de Evolução - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 31, 2018 8:23 pm

Ah, como a vida era traiçoeira, pensava ele.
Se ela havia se decidido a ter uma nova vida na qual poria passeios, distracções, para não ficar sozinha em casa, tudo voltara àquele ponto de partida.
O que ela recusara terminantemente a ter com ele, o teria agora com outro, e ele, por amor, ainda aceitara aquele filho, resultado de uma traição, como se dele fosse.
Seu coração sangrava, sua mente trabalhava, e ainda, acima de todos esses acontecimentos, estaria a mentira.
Os familiares, felizes, festejariam a chegada do bebé tão aguardado, e ela, com certeza, voltaria com frequência para junto dos seus, pois não mais ouviria o que a desgostava.
E ele, diante dessa situação, como deveria se portar?
Como o pai feliz que, a custo, havia conseguido o que tanto desejava, mas que, intimamente, apesar de não querer demonstrar, sentia-se muito infeliz?
Não era fácil para ele ter se sentido rejeitado por tanto tempo, e depois aceitar o resultado do que ela procurara fora do lar.
João não fora obrigado a isso, mas amava-a muito e não pretendia perdê-la.
Poderia, com toda a razão, devolvê-la aos pais como a mais pérfida das traidoras e recomeçar uma nova vida.
Porém, como estaria o seu íntimo?
Seria ele capaz de viver sem ela, de suportar a ausência da sua bem amada, mesmo depois de tudo o que ela havia feito?
Sabia que não!
Sem ela, não teria mais razão de viver.
Era preferível tê-la em sua companhia, na condição que fosse.
Assim ele manteria o lar na esperança de que ela voltasse a amá-lo, mesmo em razão do reconhecimento do que estava fazendo, e não a veria humilhada e desonrada perante os outros.
Aparentemente estava feliz, e o demonstraria para ela.
Não tivera uma única palavra de recriminação diante da sua atitude.
Receberia o filho de um amor clandestino como se seu o fora, e continuariam a vida juntos.
Colocados todos os pesos na balança do seu coração, o lado que deveria perdoar, aceitando o filho como seu, pesou mais e ele não vacilou em admitir que tomara a melhor decisão.
Diante do mundo, quem soubesse, o julgaria um pusilânime, um covarde sem brio, sem carácter, sem amor-próprio, mas, diante de si mesmo, conquanto sofrendo, estava em harmonia com a sua consciência e com seu coração.
Com o tempo, seus sentimentos conturbados se apaziguariam, ele se sentiria bem e até aprenderia a amar aquela criança que não tinha culpa da imprevidência dos pais, como seu próprio filho.
Ah, quantos sentimentos rondaram-lhe a mente que flutuava entre as lembranças do passado, a realidade presente e as expectativas do futuro, com uma rapidez incontrolável, conturbando-a, às vezes.
Quando entendeu que em nada mais deveria pensar, pois a atitude já fora tomada, num repente, levantou-se e foi até o quarto ver como Amarílis se encontrava.
Ela parecia dormir.
Cuidadosamente se colocou ao seu lado e, recostado à cabeceira da cama, observava-a dormindo.
Como era bela! Como a amava!
Quantas histórias de esposas que traíam o marido já ouvira, e alguns, procurando vingança, expulsavam- nas de casa.
E outros, mais violentos, achavam que deveriam lavar a honra com sangue.
Ele, no entanto, ali estava ao lado dela, observando-a na serenidade que o sono transmitia às suas feições, tomando-as mais belas, e indagando-se o porquê daquela situação.
Por que ela o traíra?
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Re: Tempo - Oportunidade de Evolução - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 31, 2018 8:24 pm

Que atracção tão forte sentira por aquele homem, que a ele se entregara sem barreiras e sem cuidados?
Quem seria ele que também se sentiu tão atraído por ela, e onde estaria?
No mesmo instante, como que uma voz interior irrompeu do seu coração, dizendo-lhe que a decisão estava tomada e não adiantariam indagações.
O passado deveria ser, não esquecido que seria difícil, mas sufocado, para dar lugar a uma nova vida a partir de então, mesmo entre as feridas que ainda queimavam.
Em pouco tempo ele viu Amarílis voltar-se para o seu lado, e, acordando, surpreendeu-se:
— Você está aqui comigo?
— Dormiu bem? Descansou?
— Pensei muito, sinto-me envergonhada, mas consegui dormir um pouco.
Parecia que, a partir de então, aquele assunto não seria mais discutido.
Cada um, por sua vez, guardando mágoas, tristezas e decepções, conquanto de natureza diferente, se esforçaria para enfrentar o período que começava a viver, da melhor forma possível, sem agressões, sem cobranças, mas, esquecido, jamais seria.
Cada vez que João olhasse para Amarílis, relembraria de tudo, principalmente quando seu corpo começasse a demonstrar as primeiras modificações. Entretanto ele, que colocava o seu amor acima de todo e qualquer sofrimento que ela lhe ocasionara e ainda poderia ocasionar, pedia a Deus que o fizesse amar aquela criança que viria como um filho seu, e vivesse das alegrias que ele, na sua ingenuidade infantil, pudesse lhe proporcionar.
Ele estava esperançoso de que as mágoas se acomodassem, e fossem substituídas por um período de serenidade e amizade entre ambos, e que depois, talvez, agradecida por ele livrá-la de humilhações perante os outros, por acobertar o seu erro e receber o fruto dele como seu filhinho, o seu amor por ele renascesse.
Contudo, de nada adiantaria fazer previsões, pois só o tempo, o grande remédio que, se não cura totalmente as chagas do sofrimento, faz com que doam menos e até não sangrem, lhes proporcionaria uma vida regular.
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Re: Tempo - Oportunidade de Evolução - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 31, 2018 8:24 pm

13 O FILHO
A partir daquele dia, Amarílis nunca mais saiu de casa sem a companhia de João; assim mesmo, iam a lugares mais discretos, porque ainda se ressentia da vergonha que trazia no íntimo.
Quando sentiu que poderia dar a notícia aos pais, sem que nenhum vestígio pudesse demonstrar o que havia se passado, e por insistência de João, eles visitaram os familiares de ambos para levar-lhes a boa nova de que a família, conforme era o desejo de todos, iria aumentar.
A felicidade demonstrada pelos familiares foi muito grande.
Abraços de satisfação e bons augúrios foram trocados, e João, a cada um que recebia, era como se uma punhalada no peito lhe fosse desferida.
Mas, como cavalheiro, recebia-o com sorriso nos lábios, que ninguém percebeu, trazia uma ponta de amargura.
Ele se dispusera a perdoar, sentia-se bem, nunca mais tocara no assunto com a esposa, mas seria impossível, num momento daqueles, estar tão integrado no papel que representava, como o fazem os melhores atores, e nada sentir.
Ele fingia, esforçava-se, porém, não estava num palco onde, em pouco tempo, a representação terminaria, mas na roda viva da existência, onde as atribulações, as decepções, as frustrações e os problemas têm que ser vividos em toda a sua intensidade.
Depois que as famílias tiveram conhecimento, e as demonstrações de felicidade se asserenaram, mais uma etapa do que ele se propusera a enfrentar, estava cumprida.
Todavia, não deixou de sentir pena de seus pais, que tanto se alegraram pela chegada do neto.
Ele se oferecera em sacrifício do seu amor- próprio, do seu orgulho, para viver aquela situação, mas seus pais estavam sendo enganados e ele nada podia fazer.
A representação deveria continuar, e os atores, quem sabe, tão bem inseridos em seus papéis, ainda não se confundissem com a realidade, diluindo a encenação, sentindo-se, não mais num palco, mas perfeitamente incorporados no dia a dia da vida real, esquecidos do papel que precisaram representar.
O tempo foi passando.
Amarílis esforçava-se para demonstrar gratidão e voltava, aos poucos, a aceitar, não tão à vontade, mas satisfeita com eles, os carinhos que timidamente o marido lhe fazia, na esperança de que a vida de ambos ainda voltasse à normalidade que ela, com sua imprevidência e desatino, havia destruído.
A época do nascimento do bebé estava cada vez mais próxima.
Quando a data da sua chegada estava prevista para daí a poucos dias, João, pedindo desculpas a Amarílis, dizendo que seria a última vez que tocaria naquele assunto, indagou:
— Você nunca mais teve notícias daquele homem? — não desejava dizer — do pai de seu filho — porque pretendia cada vez mais acreditar que ele mesmo era pai daquela criança que em poucos dias viria à luz.
—Nunca mais!
Não sei o que foi feito dele, nunca mais me procurou, nunca mais o vi!
—Assim é melhor! — exclamou João com voz sumida.
Era preciso voltar a este assunto hoje, porque daqui a alguns dias nossa família irá aumentar, o nosso filho irá nascer, e eu preciso ter a certeza de que não só você, mas ele também, nunca será abordado por aquele que o desprezou.
Ele será o nosso filho, será criado por nós, levará o meu nome, e espero que tudo seja esquecido.
A criança não é culpada de nada e não merece sofrer pelo pai verdadeiro que tem.
Depois que ele nascer, nunca mais, em nenhum momento, por razão nenhuma, este assunto voltará à discussão.
Quero-o preservado de problemas e decepções.
Amarílis ouviu o marido até o fim e não disse mais nenhuma palavra.
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Re: Tempo - Oportunidade de Evolução - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 31, 2018 8:24 pm

Nesses seus instantes de silêncio, João, do mais profundo do seu ser, gostaria de ter a capacidade de 1er pensamentos.
Ela demonstrava esforçar-se, tinha de ser grata a ele por tudo o que lhe fizera, porém, e os seus pensamentos?
Onde estariam durante seu mais profundo silêncio?
E o seu coração, estaria liberto do amor que aquele homem lhe inspirara?
Muitas vezes, mesmo em meio às grandes decepções, não se consegue esquecer o ser que as provocara, se, antecedendo a elas, um amor os uniu, momentos felizes foram vividos, juras de amor e carinhos foram trocados.
Por isso João supunha que aquele homem ainda permanecia no coração da esposa, mesmo distante e totalmente ausente, sobretudo quando a hora do nascimento do seu filho se aproximava.
Com certeza pensava até se ele teria alguma semelhança com o pai, se traria algum de seus traços, algum detalhe de seu rosto para fazer-se presente diante dela vinte e quatro horas por dia.
João também abrigava esse pensamento, receando e pedindo a Deus que não trouxesse nenhuma parecença com o pai, para mais fácil ser esquecido e ser considerado seu filho.
Entretanto, com receio ou não, com preocupações, ansiedade ou calma, o tempo segue seu curso e os dias que ainda faltavam para que aquele corpinho completasse seus últimos detalhes para se mostrar à luz, transcorreram, e, numa madrugada, João foi acordado por Amarílis em dores, dizendo que a hora havia chegado.
As medidas finais foram tomadas, porque as que antecedem essa hora e podem ser providenciadas, já haviam sido, e João levou-a a um hospital, cujo médico acompanhara aquela gravidez desde que Amarílis a comunicara ao marido.
Expectativas, preocupações e aqueles mesmos receios agora eram mais intensos, mas, decorrido o tempo necessário para que ele se fizesse presente neste mundo de tantas provas e expiações, o seu primeiro vagido foi ouvido.
Era um forte e belo menino.
João recebeu-o com alegria mas certa mágoa.
Contudo, como já vinha se preparando interiormente para aquele momento, procurou nulificar receios e a alegria não foi difícil de ser demonstrada.
Quando pôde estar com a esposa, ela, sem ter o que lhe dizer, apenas olhou-o e respondeu a pergunta que ele lhe fizera, dizendo:
— Estou bem!
Muito obrigada, muito obrigada!
— Eu estou feliz, o nosso filho veio ao mundo, mas ainda não o vi!
— Ele é forte e bonitinho, logo será trazido arrumadinho para nós!
— Não se esqueça do que já conversamos!
As palavras eram difíceis, mesmo com tanto esforço e promessas; mas, ao seu primeiro sorriso, quando ele pronunciasse pela primeira vez a palavra papai, quando erguesse os bracinhos pedindo o seu colo, todas as mágoas estariam esquecidas de vez; assim esperava João.
Entretanto, ao ter esses pensamentos como uma desculpa a si mesmo pelos temores que trazia, muitas indagações surgiram-lhe na mente.
— Seria justo afastar assim uma criança inocente do seu pai verdadeiro e iludi-la com outra paternidade, enganando-a?
Mas se o próprio pai não se importou com ela, o que fazer numa situação dessas?
Pai não é aquele que dá amor a uma criança, que a cria com carinho?
Ou só pode ser considerado pai aquele que tem o seu sangue mas a despreza, não se importando em vê-la, em acompanhar o seu crescimento, e não se importando nem em saber se nasceu?
Diante de todas essas ponderações, ele seria o pai.
Quando visse o bebé, João se encantaria e esqueceria todos os seus pensamentos e receios.
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Re: Tempo - Oportunidade de Evolução - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 31, 2018 8:24 pm

— Tão pequeno, tão frágil, tão dependente!
Sim, o amaria muito, seria o seu filho, aquele a quem se dedicaria com muito carinho.
Mas, ele tomou a conjecturar:
Se penso nele dessa maneira, com tanto amor, como será ter nos braços um filho realmente meu?
Depois que esse tiver crescido mais, eu quero ter, com Amarílis a quem tanto amo, um filho só meu, e ela, depois de tudo, não mo negará.
Assim teriam dois filhos, tratados com o mesmo amor, sem nenhuma diferença, mas um deles teria o seu sangue, seria seu, dando-lhe a agradável sensação do que é ser verdadeiramente pai, em toda a extensão do significado das palavras, — amor e sangue — cuja sensação queria experimentar.
Ainda era muito cedo para tocar nesse assunto com Amarílis, porém, à hora que julgasse propícia, lhe falaria, e ela, se fosse reconhecida, não recusaria e até ficaria feliz em agradecer-lhe com um filho realmente dele.
Interrompendo todas essas reflexões, João viu uma enfermeira entrar no quarto, trazendo o bebé nos braços, todo enroladinho nas roupinhas que Amarílis lhe preparara.
O calor que elas lhe proporcionavam, e o aconchego dos braços que o sustinham, davam-lhe segurança e paz, como se ainda estivesse abrigado e protegido no corpo da mãe.
João ergueu a manta que o impedia de ver todo o seu rostinho, olhou-o e achou-o lindo.
Dizer que era parecido com a mãe, também muito bonita, era prematuro; o pai, não conhecia, mas, como recém-nascido ainda não revela com firmeza e nitidez, os traços de nenhum dos dois, considerou-o muito bonitinho.
Seus olhinhos estavam fechados e ele dormia tranquilamente, recuperando-se do cansaço das primeiras horas de vida à luz da Terra.
Colocado ao lado da mãe para continuar a receber um pouco do calor materno com o qual estivera habituado, ele nem acordou.
Ela olhava-o com certa ternura, mas não se percebia em seu rosto aquela alegria franca e aberta que demonstram as mães ao receber, a seu lado, bem aconchegadinho a seu corpo, o filhinho querido que acaba de nascer.
João considerou-a constrangida para demonstrar, efusivamente, a sua felicidade em receber o filho de outro homem diante do marido traído, que, não obstante por amor, soubera compreender e perdoar.
A partir daquele dia, uma nova etapa de vida começaria para ambos.
João utilizava-se de toda a sua força para harmonizar seu íntimo com os sentimentos frustrantes que ainda carregava, a fim de viverem felizes, não apenas na aparência, mas também na alma.
A recuperação de Amarílis foi normal e, em poucos dias, estava de volta ao lar, para se adentrar numa nova rotina de vida que a chegada de um bebé impõe a todos, sobretudo à mãe, a quem cabe os cuidados mais especiais de dedicação e amor.
Os dias sucediam-se, o pequeno desenvolvia-se sadio e forte, e já sorria à presença do pai que aprendera a tomá-lo em seu colo, procurando ver, naquela criança, o próprio filho.
Quando tiveram de decidir o nome do bebé, Amarílis, um tanto envergonhada e tímida, disse-lhe que, se ele não se importasse, como gratidão a tanta compreensão que demonstrara e ao amor que parecia, já dedicava ao bebé, gostaria de lhe dar o seu nome — João Batista.
João ficou um tanto surpreso com essa lembrança, e sentimentos desencontrados começaram a tumultuar sua mente.
Seria justo colocar seu nome no filho de outro homem?
E o pai da criança, como se chamaria?
Nunca perguntara nem a esposa o revelara, e ele achava melhor assim para mantê-lo mais distante das suas decepções.
Sem ter como recusar, ainda agradecendo, João concordou, mas, intimamente, pensava que gostaria de reservar seu nome a seu próprio filho, aquele que esperava, em mais alguns poucos anos, estivesse em seus braços de pai amoroso.
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Re: Tempo - Oportunidade de Evolução - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 31, 2018 8:24 pm

Amarílis, porém, sabia porque o desejava.
Outro, não teria mais.
Não porque não pudesse, pois era forte e fértil; a questão era que não desejava.
Outro filho, não queria.
A sua postura anterior seria mantida.
Bastava um para já lhe dar trabalho suficiente.
Sem saber desses pensamentos da esposa, João esperava, mas soube se conformar com o nome que ela escolhera.
Quando tivesse o próprio filho, para que o nome não fugisse à verdadeira paternidade, e como o seu já fora utilizado, colocaria o nome do seu pai, dando-lhe muita alegria.
O tempo foi decorrendo e, quando perceberam, o pequeno João já estava ensaiando os primeiros passinhos e as primeiras palavrinhas, para o encanto dos pais.
João não mais se fazia tantas perguntas, não mais pensava tanto no passado e procurava, cada vez mais, receber aquela criança que já estendia os bracinhos para ele, com amor.
Ao ouvi-lo pronunciar pela primeira vez, a primeira sílaba na qual antevia a palavra papai, sua alegria foi muito grande.
Amarílis cuidava dele, tinha criadas que a ajudavam, mas não era muito paciente para suportar, nem suas pequenas manhas, nem os carinhos que ele queria lhe fazer quando desejava estar em seu colo.
João já pensava em lhe falar sobre outro filho, aquele que seria seu, mas adiava essa conversa, porque não a sentia receptiva, sempre se queixando, sempre impaciente e nervosa.
Depois que o pequeno João completou dois anos, imaginou ter chegado a hora de lhe pedir o que tanto desejava, e aproveitando-se de um momento de paz em que estavam juntos num jardim onde levaram o pequeno para passear, criou coragem e lhe falou.
Enquanto o pequeno se distraía, disse que não deveriam ficar só com aquele filho, já estava na hora de pensarem em um irmãozinho para ele que se distraía tanto com outras crianças, mas teve o cuidado de não lhe revelar o desejo de ter um filho realmente seu.
Ao ouvir a sua fala, Amarílis, num repente jamais imaginado por João, respondeu irritada:
—Você está delirando?
Sabe que nunca quis filho nenhum, e esse, sabe como vim a tê-lo!
Outro não quero!
Já chega o trabalho que tenho com esse.
Não toque mais nesse assunto comigo para não me ver aborrecida!
João, estarrecido, sem querer ser indelicado, pois sempre soubera manter-se como o verdadeiro pai do pequeno, que assim havia decidido, surpreso pela indignação da esposa, respondeu:
— Eu suponho que tenho direito a um filho que seja meu!
— Você prometeu não mais voltar a este assunto, e vejo que me enganou!
Mostrou-se bom e compreensivo, mas agora vem com suas cobranças.
Se fosse para pedir uma retribuição à sua generosidade, melhor que não a tivesse tido.
Dizer que João estava desconhecendo Amarílis, faltaríamos com a verdade, porque ele a conhecia demais, porém, depois de tudo, imaginou que ela houvesse se modificado.
Envergonhado porque ela começara a falar alto, pegou o pequeno, dizendo que era melhor voltarem para casa.
— Não pense você, que, em casa, este assunto será novamente discutido.
Ele encerra-se aqui de vez, e nunca mais me fale nisso, para que não venhamos a nos desentender.
Pobre João!
Voltava para casa com as esperanças destruídas, com a tristeza envolvendo todo o seu ser e bastante decepcionado.
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Re: Tempo - Oportunidade de Evolução - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 31, 2018 8:25 pm

Quando Amarílis lhe anunciou que esperava um filho de outro homem, como resultado de uma vil traição, sofrerá muito, mas se pudéssemos medir a intensidade do sofrimento que toma o coração das pessoas, podemos dizer, sem sombra de engano, que, naquele momento, sofria muito mais.
A situação anterior demonstrava uma falha de carácter, um erro, mas fora passageira, não obstante levando em consideração que não fora mais além, pela atitude do homem com o qual se envolveu.
Nada servira para modificá-la e, restabelecida a paz e segurança, tanto do lar quanto da sua dignidade de mulher que traíra o marido, retomou ao que era antes.
A vida com Amarílis seria sempre difícil, ele sabia, mas antevia um futuro cada vez pior.
De nada adiantaria retomar àquele assunto, ela não cederia.
Imbuído dessas convicções que tomavam corpo e se avolumavam em sua mente e em seu coração, João foi se retraindo mais e mais, e, dentro do lar, apesar de amar a esposa, foi se tomando triste e taciturno, talvez obrigado pela própria atitude dela.
Brincava com o filho, que assim considerava aquela criança, conversava com a esposa, não mais com o entusiasmo e a alegria de antes mesmo em vista do que já havia acontecido, e percebeu que até o seu trabalho estava sendo atingido pelo desencanto.
Para que trabalhar tanto, para que se dedicar, construir um nome respeitado dentro da profissão, se não teria um filho verdadeiramente seu para deixar?
Com o passar do tempo, o seu desejo foi deixar a sua casa, o trabalho, e viver isolado, sem ter que enfrentar diariamente a nova situação que foi se instalando em seu lar, quando a esposa, também taciturna, sempre irritada e amarga, se recolhia em seu quarto.
Companhia para o marido e o filho, ela já não fazia.
A criança ia crescendo mais apegada àquele que julgava seu pai, e, para não sofrer mais, até o quarto do casal João havia deixado.
Ele não se sentia bem lá dentro, vivendo diante de tanta indiferença, e, quando entrava, parecia-lhe estar invadindo um santuário onde alguma relíquia sagrada era guardada isolada de todos.
Assim imaginava que Amarílis estava se julgando.
Ali, quem pudesse ter toda a visão do que já haviam vivido num passado não tão distante, da vida que tiveram na encarnação precedente, não poderia supor que fosse possível haver uma cópia do que havia sido para o que estava acontecendo.
Não seria possível, depois de tanto sofrer, de tanto ter malbaratado toda a existência por convicções erróneas criadas por si mesma, depois de saber toda a verdade dos factos e ter prometido tanto para poder ter a permissão de uma nova existência com aqueles com os quais convivera anteriormente, para ressarcir seus erros, que tudo se repetisse outra vez.
Como poderia acontecer?
Não estava ela preparada para o que tão ardentemente desejou?
E o pobre João que muito já havia sofrido nas mãos da então Virgínia e agora Amarílis, como suportaria nova carga de sofrimentos, apesar do grande amor que lhe devotava?
Naquela época ele deixara o lar porque fora expulso e obrigado a viver longe dos filhos.
Nessa existência, seu sofrimento não era menor, porém, permanecia no lar, junto do filho que não tinha culpa de nada.
Por isso mesmo, talvez, seu sofrimento fosse maior.
Ele a via somente quando ela deixava o quarto, se, nesses momentos, estivesse em casa.
Apesar de tudo, tinha a companhia do garoto, que, com ou sem os carinhos e atenções da mãe, crescia e já estava ingressando no mistério das primeiras letras e começando a desvendá-lo todo.
O próprio João o auxiliava, e era com ele, mesmo sem ser seu filho, que tinha um pouco de alegria no lar.
O garoto sempre interrogava o pai do porquê de a mãe andar sempre irritada e fechada no quarto, explicando-lhe, inocentemente, que nada havia feito, que não desobedecera a ela.
As vezes, pela sua incompreensão, perguntava se ela não estava doente.
João dava-lhe algumas explicações, ele satisfazia-se momentaneamente, mas, depois, as mesmas indagações retomavam.
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Re: Tempo - Oportunidade de Evolução - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 31, 2018 8:25 pm

14 DESFECHO
Cada vez mais aquela situação no lar se tornava insustentável.
O pequeno João revelava-se um menino de bom carácter, porém, ressentia-se da falta da mãe, dos seus carinhos, mas ia crescendo, estudando e mais apegado ao pai.
O tempo passava. Amarílis se transformara numa pessoa amarga, perdera o encanto pela vida, e, inexplicavelmente, vivia, dentro do lar, quase que em completa reclusão em seu quarto.
Nem as ordens tão necessárias às criadas para que as actividades domésticas se desenvolvessem com naturalidade e eficiência ela as transmitia.
As vezes as serviçais se sentiam meio perdidas no desempenho das obrigações, conquanto as duas, na rotina diária, soubessem bem como conduzi-las.
O suprimento doméstico era efectuado por João, acompanhado pelo filho, quando podia levá-lo, mas Amarílis era indiferente a tudo.
Alimentava-se, nem sempre à mesa com o marido e o filho, pois, com frequência, pedia lhe fosse levada uma bandeja no quarto.
Até a sua beleza perdera o viço.
A vaidade, perdera-a toda, e não raro ela saía do quarto sem ter passado um pente pelo cabelo.
João andava preocupado.
Dentro das suas angústias e frustrações, indagava-se o que havia feito para que ela tivesse se transformado tanto, mas nunca encontrava resposta.
Sempre a amara, renunciara ao seu amor próprio, ao seu orgulho ferido para aceitar uma situação que o constrangera e o decepcionara, tudo para não perdê-la e não deixá-la só numa contingência muito difícil, e o que recebera em troca?
Não que desejasse o seu reconhecimento constante e que se curvasse ante ele pelo que recebera de bom, mas, pelo menos, que tivesse se mantido numa vida normal dentro do lar, sem tantas amarguras e sem desprezá-lo.
As vezes lhe voltava à mente aquele desejo de tudo abandonar, mas se se afastasse de casa, o que seria deles?
O que seria dela num momento de necessidade, quando alguma enfermidade a acometesse?
O que seria do filho, tão esquecido pela mãe, e tão apegado a ele?
Com o decorrer do tempo Amarílis ficava cada vez pior.
Certa vez passou dois dias sem vê-la.
Ela não deixará o quarto, as criadas serviam-na, e uma delas, ao cabo do segundo dia, disse- lhe:
— Doutor, a senhora não está bem!
— O que tem ela de diferente de tudo o que tem feito ou de como tem vivido?
— Ela nega e proibiu-me de falar ao senhor, mas vejo que não está bem de saúde.
Está com febre alta, não tem se alimentado e recusa algum remédio que tenho lhe oferecido.
—Eu vou vê-la!
— Não diga que lhe contei!
— Saberei como fazê-lo.
Não se preocupe!
Cuidadosamente João foi abrindo a porta do quarto e, ao entrar, deparou-se com Amarílis indiferente à sua presença.
Em outra oportunidade ela própria o expulsaria do seu refúgio, mas não reagiu.
Abeirou-se da cama e, indagando o que ela estava sentindo, colocou a mão em sua testa e viu que queimava de febre.
Imediatamente se retirou do quarto e telefonou a um médico, o que mais rapidamente encontrou na lista, pedindo-lhe que viesse à sua casa ver sua esposa, sem demora.
Passou-lhe o endereço e nada mais.
Em meia hora o médico chegava e foi conduzido por ele ao quarto de Amarílis.
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Re: Tempo - Oportunidade de Evolução - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 01, 2018 8:44 pm

Ao entrar, João percebeu que ele se surpreendeu ficando transtornado.
A aparência de Amarílis mudara.
Mostrava os traços mais acentuados por algumas rugas precoces, entre seus cabelos despontavam muitos fios brancos, mas a fisionomia era a mesma.
Ela mantinha os olhos fechados e, à aproximação dele, João falou- lhe:
— Amarílis, chamei um médico para examiná-la!
Lentamente ela abriu os olhos e deparou-se, à sua frente, com aquele rosto que guardara em sua retina por todos aqueles anos.
Um pouco mais envelhecido, mas bastante forte e vigoroso.
— Você não! Você não! — gritou ela repetidas vezes.
Diante de uma pessoa que precisava de seus serviços, ele não podia recuar.
Tentando tomar o pulso da enferma, ela recusava- se a permitir, exclamando nervosa:
— Tire suas mãos de mim, canalha!
Vá embora daqui!
Para João, nada precisou ser explicado.
Compreendeu perfeitamente o que ela queria dizer.
A sua reacção revelava, ainda, em grande intensidade, as mágoas que guardava pela atitude dele do passado.
Pedindo a Deus que João, o seu filho, não chegasse da escola enquanto aquele homem estivesse em sua casa, viu a porta se abrir e ele entrar, achegando-se ao pai, perguntando o que a mamãe tinha.
Querendo afastá-lo dali, convidou-o para se retirar dizendo que a mãe estava sendo examinada, mas a criança não obedeceu e, aproximando-se, perguntou o que ela estava sentindo.
Sem dar resposta, ela gritou ao marido que o levasse do quarto.
João conduziu o filho para fora, mas ainda ouviu quando o médico perguntou à Amarílis.
— É ele?
Ela não respondeu e ele insistiu.
Quando retomou sem a criança, João fechou a porta e disse ao médico:
—Já compreendi tudo, mas João é meu filho!
O seu, morreu enquanto era ainda bebé!
— Pela idade desse, sinto que é meu filho!
— E se o fosse, de que lhe adiantaria?
Filho renegado não se reconquista!
— Eu não quero reconquistá-lo!
Se o quisesse, não teria deixado Amarílis fugir.
Mas não podia, tinha a minha família, minha reputação de médico...
— Mas não vacilou em desonrar a minha família e destruir a minha felicidade!
Naquela ocasião o senhor não pensou na sua reputação,
não de médico, mas de homem.
Vendo-se acuado e sem ter como se desculpar, ele tomou:
—Deixemos o passado e cuidemos da enferma.
Ela precisa ser levada a um hospital.
Precisa de um tratamento que, em casa, será impossível.
—Peço-lhe que a transfira para um colega seu e a deixe em paz.
Providenciarei a sua remoção para um hospital, mas não a procure mais!
Ela precisa restabelecer-se e não será em sua presença que o fará!
— Está bem! Vou retirar-me e providenciar para que ela seja recebida, bem como alguém para atendê-la.
Amarílis foi levada ao hospital, um outro médico já a esperava e o tratamento começou.
Porém, desde que aquele homem, o pai de seu filho, deixou o quarto dela, tudo se modificaria.
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Re: Tempo - Oportunidade de Evolução - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 01, 2018 8:44 pm

Se antes o seu desinteresse pela vida já era notório, a partir daquele momento, intensificou-se ainda mais.
Ela se deixara transportar como se fosse um pacote sem valor, sem vida e sem vontade própria, tão indiferente se mostrara.
Por ela, preferiria ficar em casa, no seu leito, no seu quarto, ao invés de ser levada a um local estranho e ter a sua paz perturbada a todo o instante, com visitas de médico e enfermeiras.
João, apesar de tudo, estava consternado.
Além da enfermidade da esposa, tivera que suportar aquela situação que nunca imaginara fosse enfrentar um dia, ainda mais dentro da sua própria casa — o encontro com aquele que infelicitara o seu lar e o encontro dele com o pequeno João.
Mas agradecia a Deus pelo garoto ter saído a salvo de revelações, evitando futuros problemas que pudessem abalar a sua cabecinha de criança.
O que puderam evitar para o pequeno, não fora possível para ele e até para Amarílis que reviveu, num momento inadequado, todo o seu passado infeliz.
Se antes ela possuía uma enfermidade que requeria cuidados, mas perfeitamente contornável com um bom tratamento, depois, a sua saúde se complicou.
O choque emocional impressionou-a profundamente.
Ela nunca esqueceu aquele homem, tanto pelo que a amara, como pelo que a fizera sofrer.
O sofrimento de amor é sempre muito grande e atinge o coração que comanda todo o organismo, e o dela abalou-se intensamente.
A sua constituição emocional desorganizou-se; as lembranças, não as boas, mas as ruins, voltaram-lhe todas à mente como uma avalanche, e se lhe apresentaram com muito maior força do que quando foram vividas.
E o momento não era adequado.
Ela já era uma criatura que, pelas atitudes, demonstrava algum desequilíbrio.
Nada ao seu redor tinha valor, e, como o centro de tudo, pensava só em si mesma, e sua vida só a si mesma dizia respeito.
Há alguns dias se encontrava internada passando por tratamento.
João deixara o trabalho e ficava em sua companhia o tempo todo, mas ela ignorava a sua presença.
Nunca teve para ele nenhuma palavra de gratidão, nunca o chamou para perto do seu leito reconhecendo a sua dedicação.
Era como se ele não existisse.
As enfermeiras tentavam reanimá-la, mas ela não lhes dava atenção.
O médico que cuidava dela dizia a João que estava se preocupando porque ela não reagia.
O seu mal seria perfeitamente curável, mas era preciso que ela o quisesse ser, porém, ao contrário, mostrava-se indiferente — uma verdadeira morta em vida.
Isso contribuía para que o seu estado de saúde se agravasse, que os medicamentos não fizessem o efeito desejado, e ele, vendo-a piorar, não sabia o que fazer para trazê-la de volta à vida.
Muitas vezes João, enquanto a sós com ela, abeirando-se de sua cama, ainda falava-lhe palavras de estímulo, de força; declarava-lhe o seu amor na esperança de reanimá-la, e falava de um recomeço de felicidade — ele, ela e o filho que também a amava e estava preocupado.
Não podendo levantar-se para fugir à sua presença, Amarílis conseguiu virar a cabeça para o lado oposto, mostrando a rebeldia do seu insondável coração.
O que abrigaria ele para que ela tivesse tal atitude?
Era verdade que sofrerá, mas fora por sua própria imprevidência.
Todavia, João, levado pelo amor, lhe perdoara, aceitara o seu filho e lhe propusera um recomeço mais feliz, mas, de forma inexplicável, ela trazia no íntimo uma amargura tão grande que nem ao filho dava atenção.
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Re: Tempo - Oportunidade de Evolução - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 01, 2018 8:45 pm

Não fora ele o resultado de um grande amor?
Apesar de não desejado, ali estava e merecia um pouco de amor da mãe, um pouco da sua dedicação de mulher, que todas, mesmo não sendo mães, trazem o instinto maternal muito forte em si.
Amarílis era diferente.
Isolara-se de tal forma, nunca aceitara uma conversa franca, um abrir de coração com o marido, sempre disposto a compreendê-la, perdoar-lhe e ajudá-la, e recolhia-se cada vez mais.
João pensava até num tratamento médico, de ordem psiquiátrica, e a única vez que conseguiu abordar esse assunto com ela, com muito tato e delicadamente, teve a sua revolta aumentada, respondendo-lhe que não estava louca, e que o filho e ele é que a tomaram daquele jeito.
Seria o momento para uma boa conversa esclarecedora e benéfica a todos, mas ela, para não ouvir mais nada, terminou de falar e fechou-se no quarto.
A situação era difícil, mas ele estava presente e as esperanças de que ela retomasse à vida normal, numa convivência que, se não fosse de amor, fosse pelo menos de amizade e camaradagem para que o filho crescesse num ambiente melhor, ainda existiam.
Agora, porém, que ela fugia da vida de modo proposital, seria mais difícil, tanto para ele quanto para o filho.
Algum tempo Amarílis passou nessa indiferença, piorando de modo visível, até que, decorridos alguns dias em que não demonstrava nenhuma melhora nem vontade de viver, pela primeira vez, abrindo os olhos e vendo o marido a seu lado, disse- lhe com voz bastante enfraquecida que ele precisou aplicar bem os ouvidos para poder entender:
— Eu quero falar com ele!
— Com quem, minha querida?
Com o nosso filho?
— Não, com o pai dele!
— Por que reviver lembranças tristes?
Pense em se curar. Depois você falará!
A sua presença, aqui, far-lhe-á mal!
— É preciso, não haverá depois.
Eu estou morrendo!
— Ah, Amarílis, o que você fez da sua vida?
Poderíamos ser tão felizes!
— Chame-o antes que seja tarde demais!
- Está bem, se é isso o que deseja; mas volto a lhe dizer, não será bom para você!
Desde que aquele homem deixou a casa de João para providenciar a internação de Amarílis, ninguém mais o viu.
Ele passou a paciente a um seu colega, sem muitas explicações, e procurou manter-se afastado, não só para não ocasionar problemas a ela e ao marido, mas também para proteger-se de qualquer revelação.
Naquele momento, porém, o próprio João devia procurá-lo para satisfazer a um desejo da esposa que supunha, não suportaria a enfermidade por muito tempo mais.
Informando-se, soube que ele não se encontrava no hospital àquela hora, e pedido foi que o procurasse, assim que retomasse.
Naquele resto de dia ele não apareceu.
Na manhã seguinte, antes de passar em visita os seus pacientes, foi ao quarto de Amarílis, bateu levemente à porta e entrou.
João que fazia companhia à esposa, avisou-a de que o seu pedido estava sendo satisfeito.
Ela abriu os olhos e não mais o viu com nitidez.
Seu mal se agravara, o quarto mantinha as cortinas cerradas, e, à meia luz, dificultava-lhe ainda mais a visão.
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Re: Tempo - Oportunidade de Evolução - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 01, 2018 8:45 pm

Ele aproximou-se e João, antecipando-se, disse-lhe que ela desejava falar-lhe, acrescentando que estaria à porta do lado de fora, pronto para atender a qualquer necessidade.
Ao perceber que o marido se retirara, pediu que ele se aproximasse e tentou olhar seu rosto, perscrutando-lhe os detalhes, mas sua visão turva impedia-lhe, e ela, com dificuldade, assim se expressou:
— Queria tanto vê-lo pela última vez!
Sinto-me desfalecer a cada dia e queria levar comigo a lembrança da sua presença a meu lado mais uma vez.
Surpreso com aquela declaração, supondo que ela o odiasse, sem nada dizer, tomou suas débeis mãos e continuou ouvindo-a:
—Minha vida, depois que nos separamos, perdeu o sentido!
Meu marido é muito bom, perdoou-me e eu esforcei-me, mas não consegui.
Para não maculá-lo mais, preferi afastar-me!
Percebendo que ela se cansava e fazia muitas pausas, disse-lhe:
— Não precisa dizer mais nada...
Eu também nunca a esqueci, se isso a deixa feliz!
— Preciso falar o que tenho sufocado estes anos todos!
Sou muito infeliz, a vida perdeu o encanto para mim e, sem você, não soube viver.
Por isso prefiro morrer...
— E o seu filho, nada lhe representa?
Não se esforçou para viver por ele?
— Ele é o nosso filho!
— Seu marido disse que o nosso havia morrido!
— Para que você não o procure!
João ama-o como se fosse seu próprio filho e também é muito amado por ele que o julga seu pai.
Mas eu, que nunca quis filhos, não fui uma boa mãe, afastei-me dele também para não me lembrar de você o tempo todo.
Eu lutava para esquecê-lo!
Por que nos encontramos tão tarde?
Por que não foi com você que eu me casei?
A minha vida teria sido outra; eu teria sido tão feliz...
— O destino não quis, e nós nunca deveríamos ter nos encontrado para não termos tido a vida tão perturbada — a sua e a minha!
Mas tudo isso já passou, você deve se esforçar para melhorar e criar o nosso filho.
— Nada mais me interessa!
Logo estarei partindo, mas não poderia ir sem tê-lo junto a mim mais uma vez e lhe falar de todo o meu amor.
Compreenda-me e perdoe-me por eu ter perturbado a sua vida!
— Você trouxe-me apenas alegrias, e a tristeza foi quando precisamos nos separar...
Eu tinha uma família, tenho filhos que amo e precisam de mim, e não têm culpa do pai ter se apaixonado por outra mulher.
Eles precisavam ter um lar bem constituído e a minha profissão, também, não poderia ser abalada.
— Eu compreendo tudo isso, mas não podia deixar de ter ao menos estes últimos momentos a seu lado, e revelar-lhe todo o meu amor e a verdade sobre nosso filho!
— Você está se esforçando muito!
Descanse que lhe fará bem!
— Tenho um pedido a lhe fazer!
— Pois faça-o quantos quiser!
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Re: Tempo - Oportunidade de Evolução - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 01, 2018 8:45 pm

— Contei-lhe a verdade porque você precisava saber, mas rogo-lhe que nunca procure o nosso filho, nunca lhe revele a verdade para não perturbar a sua cabecinha, e para que ele não julgue mal a sua mãe.
Eu o amo apesar de não ter cuidado dele como devia...
E um bom menino e não merece sofrer! Prometa- me!
— Pode ficar tranquila...
Eu lhe prometo!
Agora que sei que ele é meu filho, se quiser vê-lo, ficarei à distância.
E se a vida que sempre nos prepara surpresas, nos aproximar, nunca revelarei. Prometo!
— Assim eu parto mais feliz!
Agora pode chamar o João!
Antes de se retirar, ele curvou-se, deu-lhe um beijo na testa, pedindo-lhe:
— Perdoe-me, perdoe-me!
João foi chamado e entrou no quarto, encontrando-a novamente com os olhos fechados, sem dizer nenhuma palavra, sem fazer o menor comentário.
Nessa mesma posição, perdendo as forças cada vez mais, ela se manteve, mas, ao cabo de dois dias, partia para sempre.
O pequeno João nunca fora chamado para vê-la, para que não tivesse uma impressão má da mãe, nem ela também nunca manifestou esse desejo.
João estava inconsolável.
Amava Amarílis e a perdera para sempre.
Se antes não a tinha mais, nem o seu amor nem a sua companhia, restava-lhe a esperança de que ela se modificasse e ele a reconquistasse novamente.
Todavia, depois da sua partida, nada mais lhe restava, a não ser, minuto a minuto, a lembrança de toda a vivência que tiveram, desde que a encontrara naquela festa.
Ah, quantas coisas mudaram!...
Onde ficara o amor que ela sentira por ele?
Onde se diluíra aquele entusiasmo demonstrado durante os preparativos para o casamento, e para onde fora aquela felicidade que ela dizia sentir, quando se uniram em matrimónio?
O que acontecera para que a vida tivesse sido tão cruel para com eles?
Da parte dele, por mais perscrutasse sua alma, nada encontrava que o acusasse, que justificasse aquela atitude que ela tomara nos últimos anos de sua vida, a não ser o desejo de um filho.
E ela, que recusara tê-lo com ele, foi ter com outro a quem amou e foi amada, mas abandonada.
Ainda assim lhe perdoou e recebeu o filho de outro homem que nunca quisera saber quem era, mas que o destino lhe colocara à frente nos últimos dias de vida dela.
Ah, como a vida tecia suas teias, ora emaranhando as pessoas, ora abrindo-se e mostrando-se tal qual era, revelando segredos que escondera por tanto tempo!
O que seria dele e do filho?
João não sabia o que Amarílis tinha conversado, nos últimos dias de sua vida, com o homem a quem amara, e temia que ele o procurasse para reclamar o filho.
Contudo, com que direito o faria?
Sempre o ignorara, não sabia sequer se ele nascera, se estava vivo ou morto, e não podia, agora, reclamá-lo.
Lembrava-se de que lhe dissera, no dia da sua visita como médico à Amarílis, que o filho dele havia morrido, porém, o que lhe revelara ela quando mandara chamá-lo para uma conversa?
Seu íntimo era um turbilhão de pensamentos desencontrados, de indagações e de receios.
Seria preciso falar com ele.
O pequeno João não poderia sofrer mais.
Perdera a mãe de quem nunca tivera um carinho, a não ser enquanto ainda bem novo, quando ela se esforçava para se modificar; mas depois, vendo infrutíferos os seus esforços, entregara-se totalmente ao isolamento dentro do próprio lar.
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Re: Tempo - Oportunidade de Evolução - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 01, 2018 8:45 pm

Agora não poderia perder o único ser que lhe restara, e que o tinha como pai, por desconhecer a história da mãe.
Mesmo sem ter tido muitos carinhos da mãe, ele a amava e sentia muito a sua morte.
Não poderia perder também o pai e viver com um estranho apenas porque o gerara.
Preocupado e temeroso, João imaginou que se o procurasse para um entendimento, poderia tranquilizar-se.
Sabia que ele não iria se importar com o filho, mas não sabia o que Amarílis lhe dissera ou pedira.
Sabia também que não tinha o direito de invadir a privacidade daquela conversa, mas, como um inocente poderia estar envolvido nela, resolveu fazê-lo.
Decidiu ir ao hospital, porque mais detalhes da sua vida ele não os tinha, e, mesmo que os tivesse, nunca o procuraria em casa para não levar problemas a quem não merecia — a sua família.
Ele não fora respeitado, mas não era por isso que desgraçaria a vida de outros. Uma semana após o infausto acontecimento, João foi ao seu consultório, como um paciente.
Ao se deparar com o marido de Amarílis, transtornou-se mas nada disse, esperando a manifestação dele.
João, por sua vez, cumprimentando-o, falou-lhe:
Desculpe-me por tê-lo procurado aqui em seu trabalho, mas não podia ser diferente.
Não quero ser indiscreto, mas desejo saber o que Amarílis lhe falou naquele dia em que pediu para chamá-lo.
Jamais eu faria isso, mas um ponto muito importante, que não preciso revelar neste momento, obriga-me a tal atitude.
— Eu sei o que o aflige!
E o seu filho, não é mesmo?
— Sim! Conforme lhe disse o seu morreu tão logo nasceu, e aquele que o senhor viu é meu, nasceu depois.
Entretanto, conhecendo minha esposa como a conheci, temo que ela tenha me desmentido para enganá-lo e fazê-lo sentir que tem um filho com o qual nunca se importou.
— Não, o senhor está enganado!
Ela apenas confirmou o que o senhor havia falado, dizendo-me que a nossa separação — desculpe-me o que vou dizer, pois deve ser doloroso para o senhor ouvir, mas tranquiliza-o — fê-la sofrer tanto, que a criança nasceu com problemas de saúde e não resistiu.
—Foi isso mesmo o que aconteceu!
Amava muito a minha esposa, ela também dizia amar-me, e não sei como se encontraram nem como vieram a se querer tanto.
Perdoei-lhe, porém, sua vida nunca mais foi a mesma.
Fiz de tudo para reconquistá-la, mas nada foi possível.
Ainda bem que tenho o pequeno João, nosso filho, que me ama muito e me fará a companhia que alegrará um pouco a minha existência.
— Fique tranquilo, Amarílis nada me disse a não ser confirmar o que o senhor já havia falado.
Tão categórico fora na sua afirmativa, que João não teve mais dúvidas, dizendo de si para consigo:
Ao menos um gesto nobre ela teve antes de partir!
Agora viverei com ele, sem receios, e o tempo curará a grande ferida que trago no peito.
Quem sabe, juntos, ainda possamos ser felizes!
Acomodado quanto às dúvidas e receios, só o tempo faria com que o coração de João se apaziguasse totalmente, e, quiçá, ainda pudesse recompor sua vida, colocando no filho suas expectativas e cuidados.
Entretanto, se aqueles que ficaram se refariam e prosseguiriam a caminhada terrena até quando o Pai determinasse, Amarílis já tivera a sua concluída.
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Re: Tempo - Oportunidade de Evolução - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 01, 2018 8:45 pm

Já se encontrava no Mundo Espiritual, e como sabemos, cada Espírito que aporta na Terra para cumprir mais uma oportunidade reencarnatória, sempre tem, mais ou menos delineado, o seu tempo de retomo diante das tarefas a executar e dos débitos a resgatar, como promotores da evolução espiritual.
Diante disso, nós perguntamos:
— Teria, Amarílis, regressado no seu tempo previsto?
Teria ela cumprido as tarefas que trouxera no tempo que lhe fora permitido aqui permanecer?
É muito difícil fazermos essa avaliação, mas podemos, induzidos por uma análise mais acurada, chegar às respostas que desejamos.
Ao pedir para reencarnar, a então Virgínia, depois de muito sofrimento, depois de se manter obstinada nas suas convicções, e depois de conseguir compreender o quanto elas eram falsas e criadas por si mesma ante o que entendera como verdade, recusando-se a ouvir a verdade dos outros envolvidos, prometeu compensar, com seu amor e dedicação, aquele que tanto fizera sofrer.
Outrossim pedira também um reencontro com aquele que na sua última existência fora seu amado filho, e anteriormente havia sido seu noivo querido, recusado por seu pai, e do qual ela tirara a vida quando ele, deixando o tempo passar, e vendo frustradas suas esperanças de unir-se a ela, se casaria com outra mulher.
Ela teve junto de si, como marido dedicado, aquele que já o fora um dia, e que demonstrou, em dedicação e perdão, o grande amor que lhe devotava, depois de ter aceitado, feliz, a empreitada de retomar à Terra com ela, para ajudá-la se houvesse necessidade.
Mais uma vez ele cumprira bem o seu papel, muito além do que imaginara, todavia, o que poderemos dizer dela?
O reencontro com aquele de quem retirara a vida um dia, e com quem assumira graves compromissos pelo ato estouvado que praticara, ela teve-o, também.
Um pouco já os havia ressarcido, dedicando-lhe, como Virgínia, todo o seu amor de mãe, mas não soubera manter o equilíbrio dos seus sentimentos e emoções ante a sua volta à Pátria Espiritual, inconformada com os desígnios da Providência.
Era importante para o ressarcimento desse débito, que ela sentisse a dor da sua perda, diante do que fizera, e ficasse sem ele, mesmo como filho.
Era uma forma de ressarcimento.
Mas tanto desequilíbrio demonstrou na ocasião, deixando afectar tão profundamente o resto da sua vida com os outros familiares, que contraiu outros compromissos mais profundos.
Nesta sua última existência, para avaliar a sua capacidade de vencer através do teste da renúncia, um novo reencontro entre eles fora programado, mas não conseguiram resistir, sublimando o amor que retomava, diante do compromisso que cada um já assumira perante outro cônjuge, vivendo num lar bem constituído.
Se, sobretudo ela, o tendo encontrado, mesmo sentindo desabrochar em seu coração aquele grande amor que um dia os aproximara, tivesse resistido e mantido fidelidade ao marido e à integridade de seu lar, respeitando-os, um outro grande débito estaria ressarcido de vez.
E em existências futuras, eles teriam direito a esse amor, com toda a plenitude da sua força e com toda a dignidade que deve marcar uma união, quando se efectua, não somente através dos corpos, mas dos Espíritos, que é a mais importante.
Contudo, nada disso ocorreu com Amarílis.
Todos os seus pedidos, todas as suas promessas, toda a preparação efectuada, de nada valeram.
A encarnação havia sido concluída e podemos afirmar que, se ela tivesse se mantido dentro do lar, recebendo o amor do marido, mesmo não o amando tanto quanto ele desejava ser amado, e mantendo-se afastada daquele amor ao qual não soubera resistir, teria tido sua existência na Terra, prolongada, e teria sido mais feliz.
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Re: Tempo - Oportunidade de Evolução - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 01, 2018 8:46 pm

Não desejo dizer, com esta afirmativa, que Deus a levou antes do tempo, como castigo pelo não cumprimento das promessas realizadas antes de encarnar.
Esse Pai, que oferece tantas oportunidades a seus filhos, jamais assim procederia.
Referimo-nos, porém, ao rumo que ela própria deu à sua vida, o que fez dos seus sentimentos, abalando suas atitudes e comprometendo sua saúde física, como já acontecera anteriormente.
E, diante do livre- arbítrio mal dirigido, cada um é responsável pelas consequências do que provocou.
Se partiu antes do que deveria, ela, somente ela, era a responsável, e sofreria, agora, os efeitos do que fizera.
Por enquanto ainda não tinha consciência de nada disso.
Um dia, porém, depois de muito sofrer, quando se encontrasse reequilibrada e pudesse analisar tudo o que pedira em confronto com o que fizera, certamente, além da grande vergonha diante daqueles que se esforçaram para atendê-la e auxiliá-la, haveria a vergonha diante de si mesma, pelo fracasso que levava no Espírito, e aí, o seu sofrimento seria muito maior.
Não mais o sofrimento da inconsciência, mas o da consciência plena que acusa a todo instante.
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Re: Tempo - Oportunidade de Evolução - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 01, 2018 8:46 pm

Dados da médium e professora
Formada em Letras pela faculdade de Filosofia,
Ciências e Letras de Araraquara, aposentou-se como professora, leccionando português, a médium Wanda A. Canutti que era natural de Araraquara onde residiu e exerceu várias actividades.
Embora tenha recebido dos pais os ensinamentos básicos do Espiritismo, não havia ainda assumido qualquer compromisso com a Doutrina de Kardec, a não ser a crença irrefutável nos seus conceitos, nos quais encontrava lógica, até o momento em que sentiu os apelos para o despertar das faculdades medianímicas.
Isso ocorreu quando, acometida por sintomas diversos gerados por influências espirituais e para os quais a Medicina não encontrava solução, acabou sendo levada a um Centro Espírita onde, através de muito estudo, educou sua mediunidade.
Deu início, então, ao seu trabalho de intercâmbio através da psicofonia e da fluidoterapia, colaborando, também, com outros trabalhadores daquela Casa Espírita, para a construção de uma creche, que hoje funciona normalmente.
Após dezanove anos de assiduidade e dedicação aos necessitados, numa noite recebeu de uma entidade a informação de que deveria se preparar pois, em breve, passaria a trabalhar com a psicografia, não sem antes passar por um longo período de treinamento.
* A professora desencarnou em 20/04/2004, com 71 anos, tendo nascido em 18/12/1932.
Após relutar um pouco, acabou, finalmente, aquiescendo, dedicando-se ao intercâmbio com o Plano Maior de segunda à sexta-feira, a partir das seis horas da manhã, colocando-se, nesse período, inteiramente à disposição da recepção psicográfica, durante mais ou menos uma hora, sem, no entanto, deixar de prestar sua colaboração como médium psicofónica, nos dias normais de actividades no Centro Espírita "O Consolador".
A partir daquela iniciativa, as mensagens foram se tomando mais claras, formando pequenas histórias que eram assinadas apenas com três X e somente após um ano, ao término do primeiro livro, a entidade se identificou como Eça de Queirós, o que, ao contrário do que se pudesse esperar, não causou nenhuma dúvida à médium, com relação à identidade do Espírito comunicante.
Essa certeza tem suas raízes numa ligação de afecto que existiu entre ambos, reforçada pelo contacto diário, em que, além da composição das histórias, Wanda recebia aconselhamento e orientação nas mais diferentes situações de ordem espiritual.

Livros psicografados pela médium Wanda A. Canutti e ditados por Eça de Queiroz, publicados pela Editora EME:
• Getúlio Vargas em Dois Mundos
• Depende de Nós
• Um Amor Eterno
• Rastros do Vício • Foco de Luz
• O Preço da Vingança
• Em Nome de Deus - Um episódio da inquisição
• Elos do Passado
• A Camponesa da Casa de Pedra
• O Bem e o Mal
• Almas a Caminho da Redenção
• O Tempo - Oportunidade de Evolução
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Re: Tempo - Oportunidade de Evolução - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 01, 2018 8:46 pm

Os Mais Vendidos
Getúlio Vargas em dois mundos Wanda A. Canutti (Espírito Eça de Queirós) Biografia romanceada vivida em dois mundos •300 p.
Uma obra que percorre importantes e polémicos fatos da História, da época em que Vargas foi presidente do Brasil.
Descreve também, seu retorno ao plano espiritual pelas portas do suicídio.
Ditada pelo Espírito Eça de Queirós, a obra surpreenderá o leitor mais familiarizado com a extensa obra deixada pelo grande Eça há quase um século.
O Evangelho Segundo o Espiritismo Tradução Matheus Rodrigues de Camargo, revisão de Celso Martins e Hilda Fontoura Nami
• 288 p. - 15,5 x 21,5 cm - Brochura e Espiral
• 448 p. - Bolso - Brochura e capa dura com fitilho Espíritas!, amai-vos, eis o primeiro ensinamento. Instruí- vos, eis o segundo.
Todas as verdades são encontradas no Cristianismo; os erros que nele criaram raízes são de origem humana.
E eis que, além-túmulo, em que acreditáveis o nada, vozes vêm clamar-vos:
Irmãos! Nada perece. Jesus Cristo é o vencedor do mal; sede os vencedores da impiedade!
O Espírito de Verdade - "O Evangelho Segundo o Espiritismo"

Mensagens de Saúde Espiritual Wilson Garcia e Diversos Autores Meditação e auto ajuda - 124 p. - 10 x 14 cm
A leitura (e releitura) ajuda muito na sustentação do nível vibratório elevado.
Abençoadas mensagens!
Toda pessoa, sã ou enferma, do corpo ou da alma, devia ter esse livreto luminoso à cabeceira e 1er uma mensagem por noite.
Jorge Rizzini

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Re: Tempo - Oportunidade de Evolução - Eça de Queiroz/Wanda A. Canutti

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