O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 10, 2018 8:10 pm

Pobre Jamal, deve estar exausto.
Não disse quando viria visitar-me?
Ximena sentia-se incomodada com o conhecimento que Amirah tinha de seus actos.
Eles deveriam ser discretos para que a princesa não soubesse que era vigiada.
Mas, em muitos momentos, sentia que era transparente ao olhar âmbar e cristalino de Amirah.
– Você esteve no palácio, não é mesmo? – indagou Amirah ante o incómodo silêncio de Ximena.
Vai lá todas as manhãs.
Ou houve alteração na rotina de nossa casa de que não fui informada?
– Estive no palácio agora há pouco – respondeu Ximena nervosa e apressada.
Deve ter me visto atravessar a rua.
Faço isso todo dia.
Não houve nenhuma mudança em nossa rotina.
– Óptimo!
Você fala com Jamal quase todos os dias, Ximena.
Não precisa mentir para mim, eu sei.
E você também sabe.
Responda, portanto, o que lhe perguntei, sem motivos para ataques de nervos:
Jamal virá aqui?
– Ele não disse nada.
– Então ele virá amanhã participar de nossa reunião semanal.
Espero que Munir tenha a sabedoria de ficar bem longe, de preferência que tenha uma indisposição qualquer – falou Amirah, voltando a encarar a rua e sua típica agitação matinal.
– Na verdade, não sei se devemos fazer muito planos para amanhã – comentou Ximena, cautelosa.
– Qual a razão dessa ideia? – questionou Amirah, acompanhando com o olhar o jovem hóspede de seu irmão que aprendera a reconhecer, de tanto o ver parado na calçada em frente à sua janela.
Achava-o interessante, penalizava-se pela agitação que percebia em seus movimentos.
Era perceptível seu sofrimento.
– O emir Al Gassim não passa bem.
Mandaram buscar suas esposas – informou Ximena - Parece grave.
O Califa chamou nossos melhores médicos.
– Ibn Rusch já deu algum parecer?
– Quando saí do palácio, ele ainda estava com o doente.
– Então, quando terminar seu trabalho, volte ao palácio e procure se informar.
Se puder, fale com Jamal e diga que pedi que estenda o convite aos seus hóspedes.
O sorriso de Ximena expressava alívio e encantamento.
Entendia a intenção de Amirah.
Convidando a família da jovem raptada, demonstrava ao irmão que não estava magoada com o marido, por querer uma segunda esposa, embora fizesse tão pouco tempo que houvesse casado com ela; e aos Al Gassim garantiria que Layla seria bem recebida e tratada com dignidade em sua casa.
Aceitava o casamento do marido.
A união de Layla e Munir devolveria a honra da jovem e satisfaria a família injuriada.
***
O tropel dos cavalos chegou aos ouvidos de irmão Leon antes que qualquer dos outros habitantes o notasse.
A vida solitária, na planície semidesértica, apurara sua audição.
A prática constante do pensamento elevado e atento ao bem contribuiu para torná-lo bastante sensível.
– Logo termos visitas – anunciou ele aos que compartilhavam a refeição em torno da velha mesa cujo tampo cheio de marcas contava um pouco da história da passagem do tempo e dos moradores que por ali tinham vivido.
– Como sabe, irmão? – indagou Layla curiosa.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 10, 2018 8:10 pm

– Nada de especial, querida menina.
Apenas ouço o trote de cavalos.
Como não os temos em nosso rebanho, são estranhos.
O ritmo é cadenciado; isso me faz pensar que alguém os dirige e como o som se torna mais forte…
Eles se aproximam de nós.
Paco e Balboa, habituados ao convívio com o religioso, nada estranharam, continuando a mastigar sem pressa seus nacos de pão.
A reacção foi tão somente uma troca de olhares que comunicavam em silêncio: “São eles”.
– Como pode dizer que isso não é especial?
É, e muito especial.
Eu sempre me orgulhei de ter boa visão e pontaria, de entender-me perfeitamente bem com os animais, mas, sinceramente, essa habilidade que o senhor demonstrou me causa inveja – declarou Layla.
– Não devia.
A inveja é um grande mal que faz sofrer aquele que o carrega no peito.
Não me inveje; exercite sua atenção.
Será uma forma melhor de empregar seu tempo e sua saúde, do que o desperdiçando com um sentimento digno apenas dos preguiçosos.
– O silêncio ajuda nesse exercício – lembrou Layla.
De onde vim há um vale lindo; lá é silencioso.
Porém, como vou para caçar ou treinar as águias, não percebia que podia aprender a ouvir no silêncio.
– Querida, o silêncio não só é possível de ser ouvido como ele também fala.
E o mais interessante é que ele não existe.
– Como não existe? – ralhou Balboa, interferindo na conversa.
Aqui é tudo tão quieto que se escuta o assobio do vento varrendo os campos.
Irmão Leon sorriu, sem nada responder, não era preciso.
A atitude benevolente trouxe alegria ao olhar de Layla que, encarando-o, comentou:
– E é sábio e eloquente.
Pensando melhor, acho que eu é que não havia percebido até agora a forma de usar o que ouço.
– Que bom que acha isso.
Eu apenas descobri que ouço o que quero, quando quero.
Se não quiser ouvir nada, também consigo, basta prestar atenção em tudo ou em nada especificamente e deixar o pensamento à toa, rolando. Pronto.
É só balbúrdia.
Coisa que deixa qualquer um enlouquecido, atordoado.
Começamos a correr e a nos movimentar apressados, dirigidos por mil sons sem sentido, nem ritmo.
Mas, escolhendo um som…
Os ruídos vindos do pátio, agora percebidos por todos, impuseram silêncio.
Irmão Leon apontou a Layla o caminho do porão e disse:
– Se forem da sua família ou a mando dela, eu a chamo.
Diligente, a jovem desceu ao húmido e escuro porão, enquanto irmão Leon, com a costumeira tranquilidade, passava a manteiga nova em uma grossa fatia de pão e a mordia com indisfarçável prazer.
– Bom dia! Há alguém em casa? – gritou Romero montado em seu cavalo, parado no pátio entre a igreja e a casa paroquial.
– Que há pessoas morando aqui não tenho dúvidas – comentou Kiéram, olhando ao redor e notando o pátio limpo e varrido, o poço da água com corda e roldana novas, e os animais domésticos que desfrutavam do calor da manhã.
Não se é onde podem estar.
– Aqui, senhor respondeu irmão Leon, aproximando-se dos cavaleiros e dirigindo-se a Kiéram, que identificara como o líder do grupo.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 10, 2018 8:10 pm

Bom dia. Em que posso ajudar, senhor?
Respeitosamente, Kiéram desceu do cavalo e, apresentando-se como cristão, pediu a bênção do religioso.
Depois respondeu:
– Estamos a serviço do Califa Jamal Al Hussain, de Córdoba.
Procuramos uma jovem chamada Layla, filha de Nasser Al Gassim, emir de Cádiz.
Temos ordens de levá-la, em segurança a Córdoba, onde a espera sua família.
– Sim, meu senhor. Entendo.
Mas o que o leva a pensar que a dita jovem se encontra justo nesta planície quase deserta? – questionou Irmão Leon, erguendo a mão para encobrir o sol que incidia sobre seus olhos.
– Essa jovem foi vítima de rapto por um emir de Córdoba e fugiu de seus raptores enquanto atravessavam a planície em direcção à nossa cidade.
– Mas que barbárie!
Não compreendo meus irmãos muçulmanos.
Por que tamanha violência com suas mulheres?
Nuca vou entender essa permissividade de raptar uma mulher.
É absurdo. Sabe o que pretendem fazer com essa pobre moça?
Por certo irão casá-la com o raptor; ou a família mandará matá-la.
É o mandamento da lei islâmica.
– Também não concordo com esses métodos, padre…
– Irmão – corrigiu imediatamente o religioso.
– Perdão. Mas como dizia, não concordo com esses métodos dos árabes muçulmanos.
Kiéram falava devagar.
Focando sua atenção nas reacções do homem à sua frente, começava a desconfiar que aquela conversa escondia propósitos ocultos.
– Porém, sou muito pouco influente para mudar uma cultura antiga.
– Pobre moça! Deus tenha piedade de sua alma e de seu destino.
Creio que seja triste ver-se obrigada a receber como marido um homem violento e numa situação de imposição intolerável.
Vendo o grupo de soldados impacientes, o líder mercenário ergueu a mão num típico pedido de calma e, ao mesmo tempo, ordenava que se mantivessem parados aguardando sua conversa com o franciscano.
– Da grande maioria das moças árabes eu tenho piedade, pa… irmão – declarou Kiéram calculadamente.
Mas pela jovem que procuramos eu não tenho esse sentimento.
É uma mulher muito forte, diferente da maioria.
Aliás, eu diria que muito diferente.
O senhor viu alguma jovem perambulando por essas bandas?
Creio que não exista mais do que uma muçulmana vagando livre por essa vastidão de terras.
Concorda?
– Sim, sim. Nem muçulmana, nem cristã.
É uma região desértica, perigosa.
Sabe o destino da jovem, senhor Simsons?
– O senhor quer dizer quando ela chegar a Córdoba?
– Sim.
– O primo, a quem era prometida, exige o cumprimento do compromisso.
Aceita a noiva maculada pelo rapto.
A família apoia o pedido, creio que o Califa vá entregá-la aos Al Gassim.
– Deus seja louvado! – exultou irmão Leon, sorrindo satisfeito com a resposta.
Bendita seja a justiça de seu mestre!
A jovem está comigo.
Eu irei chamá-la. Siga-me.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 10, 2018 8:10 pm

Deixando Kiéram postado ao lado da mesa, onde ainda estava servida a refeição matinal, irmão Leon sumiu nas sombras da casa.
– Layla – chamou o religioso descendo cuidadosamente as escadas do porão.
Venha. O cavaleiro que veio buscá-la é digno de confiança.
É enviado do Califa Jamal Al Hussain, de Córdoba e dos seus familiares, menina.
Pode confiar nele.
Aliviada, a jovem subiu os degraus ao encontro do amigo.
Curiosa e levemente nervosa, indagou:
– Como o senhor sabe que o tal cavaleiro é digno de confiança?
– Tenho meus métodos, querida.
A vida nos ensina a conhecer os caracteres humanos.
Às vezes são pequenos gestos que nos revelam uma atitude suspeita ou incoerente; mas é, sobretudo, nos olhos das pessoas que eu conheço a índole do coração.
Quem veio buscá-la é um bom homem.
Olha nos olhos, fala sem pressa, seu corpo lhe obedece como um cavalo bem domado, é directo, sem rodeios.
Não foi violento.
Eu o testei com algumas perguntas e constatei que ele diz a verdade.
É um bom homem, creia em mim.
Layla sorriu e pensou alguns segundos.
Não poderia ficar para sempre abrigada sob o tecto do irmão Leon.
Sentia falta de sua família, de seu povo.
Fora bem recebida pela pequena comunidade cristã, entretanto sabia que aquilo era temporário.
Decidida, colocou a mão no ombro do religioso, apertou suavemente os dedos em sua carne e disse:
– Eu creio.
Obrigada por tudo que fez por mim.
Jamais esquecerei.
Se precisar de qualquer coisa, por favor, me procure.
– Não sou orgulhoso, querida; ou melhor, estou procurando não ser.
Portanto, se algum dia vier a precisar de auxílio, irei procurá-la.
Mas, por ora, deixemos assim.
Todo dia Deus nos dá a luz e a escuridão, o trabalho e o descanso, a fome e o pão.
Nada nos falta.
Agradeçamos a Ele e sigamos a vida, certo?
– Que Alá, o Misericordioso, jamais o esqueça!
O senhor estará em minhas preces.
A virtude nunca é esquecida entre nosso povo, não importa de onde venha.
Os virtuosos têm seu lugar sempre entre nós – respondeu a moça com um amplo sorriso, que a escuridão não permitia ao religioso ver, mas a entonação terna e confiante da voz que permitia imaginar o semblante iluminado.
– Deus a abençoe, menina. Conserve sua fé.
Também, para mim, os virtuosos têm seu lugar e são lembrados; os viciosos aqui também têm lugar, mas seus vícios devem ser esquecidos, por eles e por nós.
Irmanados num sentimento de amizade e alegria, típicos de uma despedida feliz, subiram os degraus restantes e, em segundos, Layla estava frente a frente com Kiéram.
– Você! – exclamou ela surpresa e, voltando-se para irmão Leon, perguntou:
– O senhor tem certeza de que ele vem em nome do Califa?
Este homem, se não me falha a memória, é chefe da guarda pessoal do homem que me raptou.
Antes que o religioso tivesse tempo de abrir a boca, Kiéram esclareceu:
– É verdade. Mas neste momento estou a serviço do Califa Jamal Al Hussain e tenho ordens de conduzi-la, sã e salva, a Córdoba, onde a espera sua família e seu noivo.
Sou um mercenário, senhora; trabalho a peso de ouro para quem me paga, eis tudo.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 10, 2018 8:11 pm

Minha fidelidade é mercadoria de compra e venda.
Layla buscou o olhar de irmão Leon e nele leu uma insuspeita confiança.
Encarando-a, ele sorriu e comentou:
– Isso é honestidade.
Louvo sua coragem, senhor.
Não é qualquer homem que faz tal declaração, embora muitos tenham idêntica fonte de renda.
Kiéram os olhou em silêncio.
Não era herói, nem se julgava corajoso; julgava agir de acordo com seu dever.
A ninguém enganava quanto aos conceitos e valores que abrigava e eram os motivos de suas acções.
– Siga com ele – incentivou irmão Leon, dirigindo-se a Layla, reforçando a confiança e aceitação da companhia do cavaleiro cristão e, conduzindo-os para fora da residência, despediu-se sem delongas.
Boa viagem. Deus os acompanhe.
Kiéram agradeceu com uma suave inclinação de cabeça.
Dirigiu-se a seu cavalo e, notando os passos hesitantes de Layla, voltou-se e explicou:
– Você viajará comigo.
Mal terminou de dizer a última palavra e a ergueu do chão, sentando-a sobre a sela que dividiriam.
Rindo da surpresa estampada no rosto da bela muçulmana, comentou:
– Eu sei a forma como gosta de cavalgar.
Esqueceu que nos encontramos no vale?
Em uma das raras ocasiões em que não soube como agir, Layla envolveu-se no silêncio e deliberou ser um fardo dócil, indiferente, entre os braços do mercenário cristão.
Enquanto ele montava e tomava as rédeas, ela acenou para os amigos que deixava nas ruínas da igreja.
Olhou seus trajes, os mesmos com que fora raptada, cheios de grosseiros cerzidos; recordou os cabelos que trançara logo cedo, naquela manhã, e, por fim, lembrou, do véu perdido na desabalada fuga.
“Farei uma entrada digna de uma rainha em Córdoba”, pensou, ironicamente, e, um sorriso misterioso insinuou-se em seu rosto, encantando Kiéram que aproveitava a concentração da jovem para observá-la.
O calor que sentiu aquecer-lhe o peito era fruto do inegável prazer proporcionado pela proximidade da filha de Nasser Al Gassim.
***
Na noite seguinte, sob o estrelado céu de Córdoba, os convidados do banquete de Amirah movimentavam-se em direcção ao palácio da anfitriã.
Karim, irritado e aflito, acompanhava Zafir, cujas rodas azuladas em torno dos olhos denunciavam preocupação e insónia.
Tinha a aparência abatida, embora, diferentemente do primo, mantivesse a calma e o domínio.
– Não suporto mais essa situação ridícula – declarou Karim.
Estamos como palermas aguardando, entre banquetes, festas e passeios, que nos entreguem Layla.
Sinto que a receberemos bem; porém, não posso deixar de pensar que minha intuição pode ser falsa, um fruto do meu querer vê-la bem; tenho receio de que eu crie esse sentimento, essa certeza profunda e meio irracional de que ela está bem.
A inacção me incomoda.
E agora é dupla, temos que esperar as esposas de meu pai.
– Acalme-se, Karim.
Também estou incomodado, mas reconheço que, sendo ruim para nós, é o melhor para Layla e para a situação como um todo.
Infelizmente há outros interesses que precisam ser considerados.
Seu pai é o emir de uma cidade estratégica.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 10, 2018 8:11 pm

Uma desavença com o Califa seria uma faca de dois gumes; cortamos e saímos cortados. Tenhamos fé.
Alá é clemente, sejamos nós também indulgentes e, ao menos, tenhamos disposição para perdoar.
Assim, esses dias não passarão de um transtorno quando no futuro os recordarmos.
– Banquetear-me na casa de Munir Al Jerrari é bem mais que um transtorno, é uma descida ao inferno.
Será que precisamos aprender clemência lidando justo com criaturas semelhantes a esse verme?
– E, por ventura, pretende ser clemente com anjos, meu primo? – inquiriu Zafir.
Nossas virtudes garantem-nos boa companhia e é agradável conviver com os virtuosos, entretanto é preciso reconhecer que as desenvolvemos e exercitamos em convívio com o vício.
Somos todos lírios, florescemos no lodo.
A colocação sensata e racional de Zafir teve o condão de mudar o rumo dos pensamentos do jovem Karim, apaziguando-os.
Envolto nas reflexões que a admoestação do primo despertara, Karim viu-se adentrar as altas portas da residência de Amirah sem prestar atenção e sequer lembrar-se da curiosidade que o atormentava acerca de sua dona ***.
Munir, no segundo andar da construção, assemelhava-se a uma fera enjaulada.
Ferido em seu orgulho e vaidade primeiro pelo desprezo de Layla, depois por sua fuga, que literalmente o lançara no desprestígio, pois fora vencido pela força de uma mulher, ele era um leão machucado, rugindo sua revolta.
Os servidores que o atendiam eram os destinatários imediatos do rancor e do despeito que o consumiam.
Recebera o educado e frio aviso de sua “frágil” esposa – como o advertia com frequência o poderoso primo e cunhado:
“Amirah é frágil, sua saúde é delicada” – para que não comparecesse ao banquete daquela noite.
Claramente, ela o aprisionava dentro do lar.
“Jamal imbecil, tolo, idiota.
Não percebe o que sua doce e frágil irmãzinha é na verdade.
Víbora! Casei-me com ela e foi o que bastou para descobrir as garras afiadas que ela esconde” - pensava Munir.
“Argh, mulheres!
Terão todas perdido o juízo ou sou eu o ‘felizardo’ que só encontra loucas?
Cada uma pior que a outra.
Elas hão-de pagar caro, muito caro, pelo que estão me fazendo passar.
Doente! Sim, doente, mas a alma é de uma besta feroz.
Nada tem de frágil e doentia.
Hei de mi vingar.
Ah! Que delícia seria desfilar com uma mulher bela, saudável, de fazer inveja às mulheres de Jamal.
Pisar sobre essa ‘víborazinha doentia’ com a qual me casei.
Desgraça” Essa união não me trará os dividendos pretendidos; sou apenas mais um dos vizires deste reino; minhas decisões não servem para nada”.
Munir, como todo covarde, remoía suas justificativas, mas não ergui a voz ou mão para exercitar um mínimo de honestidade.
Escondia-se sob o confortável e morno manto da hipocrisia.
Seu plano falhara.
Nele, segundo seu pensamento, Layla seria o espinho a ferir a carne e as entranhas da alma de Amirah, reduzindo-a a uma condição de mulher inválida, imprestável e não desejada pelo marido.
Ele posaria de vítima da paixão, no legítimo exercício de seus direitos como homem.
Jamal ficaria impotente ante a dor da irmã e, assim, ele cravaria sua lança nos pés do grande Califa.
Entretanto, quisera o destino ser caprichoso e o colocar naquela desconfortável situação.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 10, 2018 8:11 pm

A vida arrancara a luva de pelica, e sua mão estava a descoberto.
Não havia como fugir de seus actos.
Criara um desagradável e sério incidente.
Claro, ele sabia que o casamento com Layla ainda resolveria a situação ante o emir de Cádiz, mas já não servia aos seus interesses pessoais.
“E se aquela mulher estiver morta?
Se caiu do cavalo e quebrou o pescoço?
Se algum animal selvagem a atacou?
Que será então de mim?
Serei julgado e condenado…
Por Deus, é o fim! - preocupava-se Munir, jogando-se de costas, sobre o leito coberto de almofadas de cetim, com a mão na testa e o olhar estático a mirar o dossel como se ali estivesse escrita a resposta à ideia que lhe invadira a mente acrescendo aflições.
Até aquele minuto ocupara-se apenas e tão somente com seus propósitos naquela tresloucada aventura; agora percebia que sua situação poderia tornar-se muito pior.
Em meio a pensamentos desconexos e imagens da rebelde filha de Al Gassim, ele balbuciava preces e pedidos de ajuda a Alá.
***
Sentado sobre um elegante tapete persa em frente a uma espécie de nicho para orações que indicava a direcção da Caaba{10} entre velas acesas, que, além da luz, exalavam um suave perfume almiscarado, Jamal salmodiava textos do Alcorão com voz suave.
O livro estava aberto diante de si, mas ele não necessitava ler.
Conhecia de cor as suras.
“Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso, Tudo quanto existe nos céus e na terra glorifica Deus, por que Ele é Poderoso, o Prudentíssimo.
Seu reino é o reino dos céus e da terra; dá a vida e dá a morte, e é Omnipotente.
Ele foi Quem criou os céus e a terra, em seis dias; então, assumiu o trono.
Ele bem conhece o que penetra na terra e tudo quanto dela sai; o que desce do céu e tudo quanto a ele ascende, e está convosco onde quer que estejais, e bem vê tudo quanto fazeis.
Seu é o reino dos céus e da terra, e a Deus retornarão todos os assuntos.
Ele insere a noite no dia e o dia na noite, e é Sabedor das intimidades dos corações.
Crede em Deus e em seu Mensageiro, e fazei caridade daquilo que Ele vos fez herdar.
E daqueles que, dentre vós, crerem e fizerem caridade, obterão uma grande recompensa.
(…) Sabei que a vida terrena é somente jogo e diversão, veleidades, mútua vanglória e rivalidade, com respeito à multiplicação de bens e filhos; é como a chuva, que compraz os cultivadores, por vivificar a plantação; Logo, completa-se o seu crescimento e a verás amarelada e transformada em feno.
Na outra vida haverá castigos severos, indulgência e complacência de Deus.
Que é a vida terrena, senão um prazer ilusório? ”{11}
Ele não ouviu os passos pesados de sua terceira esposa.
Zahara ingressou no ambiente de preces do marido e, com respeito, prostrou-se, a certa distância dele, sobre um tapete, acompanhando a recitação do Al-Hadid.
Foi com pesar que reconheceu que ele recitava as últimas frases do texto; sentira-se tão calma que gostaria que ele fosse bem mais longo.
“Que os adeptos do Livro saibam que não têm qualquer poder sobre a graça de Deus, porque a graça somente está na Mão de Deus, que a concede a quem Lhe apraz; Sabei que Deus é Agraciante por excelência. ”{12}
Após concluir a declamação, um fundo suspiro brotou do peito de Jamal, revelando seu cansaço e uma tristeza guardada no íntimo do coração.
Fechou o livro que tinha à sua frente e o depositou no nicho.
Acariciou a capa de couro, ornamentada com arabescos dourados, enquanto sua mente ainda viajava pelas mensagens recitadas.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 10, 2018 8:11 pm

Tinha especial apreço pelo Al-Hadid (O Ferro).
Toda vez que o recitava ecoavam em seu interior os belos conceitos acerca de Deus.
Gostava de pensar que Ele conhecia a intimidade de seu coração – saber da existência de alguém que o conhecia profundamente, o amparava, confortava um vago sentimento de solidão que perambulava desde a juventude em sua alma –; entretanto, incomodava-o muito a pergunta incisiva:
“Que é a vida terrena, senão um prazer ilusório?”.
Ergueu-se e, ao se virar, contemplou Zahara.
Gentilmente aproximou-se dela estendendo-lhe a mão para auxiliá-la a se pôr de pé.
– Não a ouvi entrar – disse ele.
– Estava muito concentrado em suas preces.
Com também precisava dar paz à minha alma, o acompanhei em silêncio.
Mas vim à sua procura para avisá-lo de que o aguardam para ir à casa de Amirah – respondeu baixinho a jovem Zahara.
– O banquete?
Eu orava justamente para me preparar.
Esse encontro não será nada fácil.
Há momento em que eu daria de bom grado tudo que tenho a alguém que assumisse minhas funções como Califa – confessou Jamal, cansado.
Que situação descabida ocorre nestes dias!
Tudo por falta de bom senso de Munir.
Bastariam as confusões da guerra entre muçulmanos e cristãos, essa disputa que vara séculos.
Ofensores e ofendidos há muito partiram deste mundo para o outro; o que era objecto de cobiça virou pó; hoje somos outras pessoas, outra cultura, criamos uma nova sociedade; a ninguém ofendemos ou desprezamos, porém…
– Tenha calma, meu Califa – pediu Zahara.
Confiamos em Deus, o Agraciante, como ainda há pouco era recitado.
Ele tudo pode, dá e retira, como apraz à sua sabedoria e bondade.
Tudo correrá bem.
Tenho, também, uma boa notícia:
Ibn Rusch garante que o emir de Cádiz está se recuperando, ele viverá, e nosso bom amigo aceitou comparecer ao banquete.
As sobrancelhas de Jamal se ergueram, demonstrando a surpresa causada com a informação.
Depois, relaxou o semblante e, buscando tonar-se descontraído, comentou:
– A presença de Ibn Rusch é garantia de boa conversa, ao menos essa alegria terei esta noite.
Amirah deve estar se sentindo péssima com a atitude do marido.
Ah! Como eu gostaria de mandar dar-lhe umas chibatadas…
É um irresponsável, invejoso.
Contemporizo e falo na justiça de ouvir as partes envolvidas, mas, em meu coração, sei muito bem a quem cabe a responsabilidade neste caso.
Graças a Deus, o noivo da jovem raptada exige a devolução da prometida.
Seria uma terrível injustiça ter que casar essa moça com Munir; pior me sentiria em entregá-la à família para que a matassem, caso eles desejassem cumprir os costumes.
– A vida das mulheres inteira se escreve com uma só palavra: aceitação.
A filha do emir Nasser me parece não ter lido essa lição – disse Zahara.
Ela sofre e sofrerá até aprender.
A meu ver essa fuga complicou ainda mais a situação.
Jamal olhou sua terceira esposa e a docilidade dela o incomodou.
A onda de solidão fez sentir sua presença, obrigando-o a buscar as energias em ideias ouvidas, aprendidas e reproduzidas desde cedo, sem maiores questionamentos, reafirmando-as como verdadeiras.
Entre elas a ideia de que a mulher era parte frágil, criada para o prazer do homem, e sob quem se devia ter olhos de muito cuidado, pois as tentações rondavam-lhe e com facilidade eram a causa de perdição e traição.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 10, 2018 8:11 pm

Portanto, as melhores virtudes femininas eram a obediência e mansuetude.
Zahara, assim como suas outras esposas, além de boas alianças políticas, eram também boas mulheres: obedientes e mansas.
Desistindo de suas reflexões e fugindo ao contacto com os sentimentos, simplesmente tomou a mão da mulher e, com ela, se dirigiu à sala, onde, costumeiramente, suas esposas o esperavam para acompanhá-lo aos eventos sociais.
***
Nas tempestades é interessante notar que há sempre um tempo silencioso de preparação, geralmente quente, sufocante; mesmo nas épocas frias, há um aquecimento.
Tudo que existe no exterior, existe no interior.
As leis que regem a natureza física não são incompatíveis com as leis que regem a natureza moral, muito pelo contrário.
Quando abafamos crenças, valores, ideias, pensamentos ou sentimentos, estamos preparando tempestades em nossas vidas.
Em nosso interior revolvem-se as nuvens de energia que são movimentadas pelo que sufocamos.
Com o avançar natural do processo, são elas que começam a nos sufocar; sentimos e peito oprimido, as ideias em reboliço, como que em vendaval, perdidas e sem controle a nos atormentar e amedrontar.
O próprio corpo desestrutura-se, podendo entrar em colapso.
Depois de longas estiagens, o céu ruge com trovões e a terra é cortada pelos raios; ventos arrastam nuvens pesadas e desabam as enxurradas.
A seca e a enchente são destruidoras.
A seca é calma, instala-se lentamente e vai aos poucos se tornando insuportável.
É tão lenta e pacífica sua acção que vemos tudo à nossa volta morrendo e, ainda assim, permanecemos nela, inertes, como que acostumados ao sofrimento, aguardando nossa própria morte, sem forças para escapar.
Quando há escassez de sentimentos e de novas ideias em nossa existência, é um tempo de seca, de carência, em que tudo vai, devagar, fenecendo, sem renovação, num solo estéril.
Se nos apercebemos desse evento e reagimos, a força irá no sentido oposto e nos lançaremos com demasiada sede em tudo quanto possa nos satisfazer.
Pode-se promover uma violenta tempestade, enchendo os espaços com nossa revolta, rebeldia, fazendo barulho com nossa insatisfação, chamando a atenção.
Rapidamente nos saturamos.
Porém pensemos: a reacção é instintiva, fruto de mecanismo natural, não é reflectida.
Logo, nossa atitude de buscarmos a saturação pode ser tão destrutiva quanto a quem nos levou à escassez.
Aquilo pelo que todos almejamos é a conquista do famoso caminho do meio, do equilíbrio, que não é escassez nem saturação, mas satisfação em todos os sectores e dimensões da existência e da personalidade humana.
A maioria de nós debate-se na vida em busca do caminho da satisfação e, por não reconhecê-lo como sinónimo de equilíbrio, escorrega para a falta ou os excessos de todas as naturezas.
E as tempestades sucedem-se em ciclos de seca e enxurradas, carregando consigo um cortejo de sofrimentos inevitáveis, pois os elegemos em nossos caminhos através da escolha de nossas atitudes.
Em Córdoba como em Cádiz; cristãos, judeus e muçulmanos; homens e mulheres, cada um, dia a dia, enfrentava os períodos sufocantes, irrespiráveis, em que lançavam no fundo da alma experiências significativas órfãs de reflexão.
Sementes de tempestades…
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 10, 2018 8:12 pm

O INESPERADO
A vida apresenta-se, frequentemente, com duas faces.
Há uma certa preferência pela dicotomia.
Enquanto a irmã do Califa recepcionava seus convivas cercada de luxo, boa comida e cultura, Kiéram, Layla e os soldados do grupo partilhavam a refeição em torno de uma fogueira, no acampamento erguido em meio à planície, tendo o céu cravejado de estrelas faiscantes como tecto e o solo umedecido pelo sereno como piso.
O mercenário cristão observava a desenvoltura da tutelada em manejar facas grandes e surpreendia-se com a docilidade e a força que emanavam dela.
“Mulher estranha”, pensava.
“Comporta-se como um guerreiro treinado.
Maneja armas e animais com a mesma serenidade e confiança com que caminha com a postura uma rainha.
Lutou e venceu, o que é mais importante, dois bons e experimentados guerreiros.
Não titubeou em lançar sua vida na incerteza e no desprezo públicos.
Afronta sua religião repudiando o véu, mas, ao mesmo tempo, se prostra em preces, se purifica com terra e, nessas horas, seu olhar é igual ao que devem ter os anjos, do que somente terei certeza se algum dia eu vir um deles.
É estranha, muito estranha!
Está calada desde que saímos da igreja; sua voz apenas é ouvida quando recita o Alcorão, nas horas sagradas.
Não causou, até agora, nenhum inconveniente comum ao se viajar com mulher.
Não fosse ela a atrevida que tentou me matar em Cádiz, ou a arrogante domadora de águias com quem falei no vale, eu poderia jurar que não há mulher mais pacata em toda Terra.
Não entendo por que Deus a fez tão linda e tão estranha.
Ela parece mulher, mas… nem sei se o é, coisa estranha!
Viaja em meio a meus braços, mas é arredia, distante, altiva como se fosse ela a dirigir o cavalo.
Que farão com ela em Córdoba?
Qual será o destino que a aguarda?
Será uma imensa infelicidade vê-la casada com Munir.
Ele não a merece. Somos amigos.
Eu o aprecio apesar de algumas de suas ideias serem muito tolas e das fanfarronices a que se presta, porém reconheço que esta pobre mulher não merece servir de brinquedo para uma vingança boba, medíocre e injusta contra Al Hussain, mesmo porque quem mais sofreria nessa história seria a irmã dele, que não tem culpa de ser irmã do todo-poderoso da cidade.
Layla não fala comigo.
É uma lástima… bem que eu gostaria de saber o que ela pensa encontrar em Córdoba.
Agora, vendo-a contemplar as labaredas da fogueira, seus olhos são escuros e misteriosos como a noite, nada revelam. ”
Layla sentia o interesse de Kiéram sobre si.
Percebia, lendo os sinais grafados na forma como a olhava, no brilho da íris, na maneira como a tocava, no tom de voz e nas palavras, que a mente de seu condutor centrava-se, inteiramente, nela.
Às vezes, achava graça e sorria; em outras, seu rosto como que escurecia semelhante ao sol quando eclipsado pela lua; repentinamente o brilho da vida era ofuscado.
Nesses momentos, ele lembrava com saudades das mulheres que faziam parte de sua vida e questionava-se sobre o que viria a ser sua existência doravante.
Recordava as lições aprendidas sobre o que era ser mulher naquela sociedade tão masculina.
Sem dúvida, a facilidade com que observava e entendia os sentimentos de Kiéram se explicava pelo exercício das percepções femininas, muito bem direccionadas por Leah e Farah.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 10, 2018 8:12 pm

“Ele preocupa-se comigo.
Olha-me como se eu fosse uma fera africana exposta em jaula, um animal que ele ainda não tinha visto.
Devo me parecer – como os leopardos se assemelham aos gatos – com algum tipo que ele conheça.
Não posso culpá-lo, é natural; eu sou diferente, sempre soube.
Aliás, as pessoas me ensinaram isso.
Mas meu prezado protector talvez não saiba o que é ser diferente.
Talvez fique tentando comparações, buscando julgar o melhor e o pior, sem entender que sou apenas diferente.
Eu já descobri que o melhor e o pior não existem em relação aos outros; eles são o que são, o que Deus criou e, assim, são perfeitos na sua forma de ser.
O engraçado é que me julgam estranha, diferente e não enxergam que também o são, que cada um deles é tão diferente quanto eu.
Esses cristãos de Al-Andaluz ainda mais, vestem-se de maneira tão parecida, é como se usassem uniformes, por isso se sabe o que fazem da vida:
militares, camponeses ou religiosos.
Precisam vivem em bandos. São incultos.
Talvez aí esteja a causa.
Mas… toda essa ânsia por se igualarem não é bastante para esconder o quanto são diferentes.
Falta enxergarem-se.
Adoram e endeusam o profeta Yeshua, entretanto não o entendem:
ele foi o igual mais diferente dentre os profetas.
Ou então, quem sabe, é a sina dos “diferentes” serem primeiro achincalhados, depois, covardemente, assassinados pelos que querem ser “iguais” e, enfim, “endeusados” por terem ousado expor a diferença e a verdade.
Deus, Tu que ergueste os céus, ajuda-me a entender a humanidade!
Sozinha eu não consigo”.
Ao redor do planeta, naquela noite, por certo, centenas de pessoas dormiam ao relento pelas mais diversas razões; outras tantas compartilhavam festins e banquetes.
A sabedoria divina provê muitos caminhos, que podem ser semelhantes e conduzir ao mesmo lugar, mas nada impede que diferentes experiências se dêem com cada um ao percorrê-los.
***
Na residência de Amirah, os convidados serviam-se com disposição do lauto banquete.
Comiam, bebiam e riam descontraídos.
Eis o ambiente percebido por Karim e Zafir, que pararam em frente à residência, reunindo forças, buscando munir-se de paciência, elemento que se tornava raro no irmão gémeo de Layla.
– Esses nobres de Córdoba riem e se divertem como se nada houvessem feito – reclamou Karim irritado.
Eu gosto a cada hora menos de tudo o que estamos vivendo.
Zafir respondeu com o silêncio à nova queixa do primo.
De nada adiantava irar-se, ponderava ele, lutando por conter os próprios sentimentos.
Manter a racionalidade os faria resolver a questão de maneira apropriada, ainda que demandasse um controle Hercúleo.
Sentia seus nervos como se fossem as cordas de uma harpa, tensos e estirados ao extremo, porém sob o controle da mente.
Nesse estado de espírito viram se aproximar um homem, de aproximadamente trinta anos, de aspecto agradável, que irradiava uma aura de alegria e bem-estar.
Barba negra, bem aparada, os cabelos escondidos por um turbante branco combinando com a túnica bordada.
Amistosamente, o recém-chegado os saudou dando a conhecer seu nome: Ibn Rusch.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 10, 2018 8:12 pm

– É uma honra conhecê-lo, tive o prazer de ler alguns de seus trabalhos. Considere-me um humilde apreciador de seu pensamento.
Sou Zafir Ibn Abu Gassim, de Cádiz e este é meu primo Karim, filho de Nasser Al Gassim.
Uma leve inclinação de cabeça foi a resposta delicada de Ibn Rusch que, encarando Zafir, comentou:
– Conheço as razões da permanência de vocês em Córdoba.
A cidade é grande, mas não há distância que certas notícias não alcancem, embora, para ser sincero, fiquei sabendo do facto em carácter sigiloso ao atender o chamado do Califa para ver o emir Al Gassim.
Lamento o que aconteceu à família.
Os propósitos de Alá são impenetráveis e sábios, mas tudo é para o nosso bem.
– Que suas palavras sejam abençoadas – respondeu Karim, simpatizando com o homem de quem até então conhecia apenas o nome e o pensamento expresso em alguns textos lidos, por recomendação de Zafir.
Eu o imaginava bem mais velho.
Ibn riu da sinceridade do rapaz e, tocando-lhe o ombro, respondeu:
– Comecei cedo.
Vamos entrar, nossos anfitriões nos esperam.
Juntos adentraram a sumptuosa residência de Munir Al Jerrari.
A sala regurgitava o som alegre das flautas.
Eram poucos convivas, porém a animação reinava.
Observando-os, Karim sentiu-se, outra vez, incomodado.
– Já conhecem a princesa Amirah? – indagou Ibn.
– Nãos – respondeu Zafir, analisando discretamente o ambiente.
– É uma mulher encantadora.
Muito inteligente, apreciadora da cultura e da filosofia, venham… vou apresentá-los.
Karim acompanhou os passos de Ibn, deparando-se com uma jovem reclinada em almofadas.
Era pálida, sua face contrastando com a pele clara; os lábios cheios e rosados; seus trajes de seda reproduziam as cores do arco-íris; um véu diáfano, vermelho alaranjado, bordado com linha de prata deixava entrever os longos cabelos.
Sentiu que seu proceder indiscreto chamara-lhe a atenção e, numa fracção de segundo, alheio às regras sociais, fixou os olhos de Amirah.
Uma sensação de reconhecimento tomou-lhe a alma, mexeu no íntimo de seus sentimentos e impôs-lhe a estranha certeza de que conhecia aquela mulher e a sabia digna da mais alta confiança, entretanto nem ao menos ouvira o som de sua voz.
“Loucura”, pensou Karim preso ao fascínio do momento.
“Deve ser o descalabro de emoções que vivo neste dia.
Sou vítimas de minhas próprias fantasias.
Mas… eu sinto, não tenho como evitar, é uma confiança plena.
Loucura! Nunca senti algo desse tipo.
Não é como nos meus pressentimentos…
é bem mais claro e definido.
Sim, loucura ou não, começo a entender a atracção pela mulher atrás da cortina. ”
– Senhor Karim – cumprimentou a princesa, encantando-o com o som doce de sua voz.
É o irmão da jovem desaparecida.
– Raptada, senhora – corrigiu ele, recuperando-se da sensação que o dominara.
Layla não está desaparecida por seu desejo, foi uma necessidade que lhe impuseram injustamente.
Amirah, num gesto, convidou-o a sentar-se à sua frente.
Queria observá-lo tão minuciosamente, se não mais do que ele fizera.
Mal sabia Karim que o olhar de Amirah atravessava a pele como os raios do luar atravessam os espelhos d’água; ela não se satisfaria com menos do que uma percepção segura do pensamento do herdeiro de Al Gassim.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 10, 2018 8:12 pm

Zafir assentou-se ao lado do primo, e Ibn Rusch ao lado da anfitriã, com a intimidade de um velho amigo.
– Fale-me de sua irmã – pediu Amirah.
Anseio por vê-la.
Ela tem sido assunto corrente e recorrente nesses dias; suas façanhas já são notórias.
– Layla é incomum, princesa.
Faltariam palavras para descrevê-la e sobrariam história para contar a respeito de minha irmã.
Prefiro resumir dizendo-lhe que ela é a alma e o coração de nossa família.
Todos a amamos acima de qualquer convenção e não aceitaremos qualquer explicação para nos darmos por satisfeitos quanto ao seu destino.
– Expressivas suas colocações.
Entendo que esteja ferido e, de coração, ofereço-lhe minha estima.
Apreciei sobremaneira a opinião que deu de sua irmã e a clareza com que falou de seus sentimentos.
Veja, eu não a conheço ainda, mas sou mulher e morreria feliz se meus familiares dissessem de mimo que o senhor disse sobre sua irmã.
– Também o parabenizo Karim Al Gassim.
São poucos os homens que conheço capazes de declarar seu afecto por uma mulher e reconhecer que por esse afecto transgridem tradições que, a meu ver, merecem ser delegadas ao esquecimento e ao desuso para o bem de todos – interveio Ibn Rusch.
A mulher é parcela importante da vida e da sociedade.
Não compartilho da visão do filósofo de que ela é um homem incompleto ou deficiente.
Muito poderiam ver na sua declaração um indicativo de fraqueza e vício; eu vejo coragem e honestidade.
A maioria dos homens não em contacto suficiente com seu universo interior para reconhecer que uma mulher pode ser, sim, a alma e o coração de uma comunidade.
É uma postura mais fácil torná-la frágil, submissa, como se nós – seres do sexo masculino – fôssemos o próprio Senhor dos senhores.
Apesar de minha admiração pelo filósofo, discordo dele integralmente; nesse assunto prefiro a visão de Sócrates.
Defendo tudo quanto possa instruir a parcela feminina de nossa sociedade e conferir-lhe a dignidade do papel que precisa e deve desempenhar.
É um néscio o homem que impede o desenvolvimento da mulher.
E, digo mais, é um vil, reles e covarde escravo da paixão moral que tem por si mesmo.
Amirah serviu as taças e ofertou-as a cada um deles, ouvindo com atenção as colocações de Ibn Rusch.
Um franzir do nariz, ao ouvir a menção ao pensamento aristotélico sobre a mulher, foi a reacção que lhe denunciou o repúdio àquela ideia, a qual não pôde furtar-se de comentar:
– Devemos muito ao génio do grande filósofo.
Mas, dentro da minha pequenez, como mulher, discordo dele a esse respeito.
Pela admiração que tenho por seu pensamento lógico e racional, busco entender como deve ser difícil descrever uma realidade e uma experiência oposta à pessoal.
Ele é um homem e descreveu o mundo e as pessoas sob a óptica masculina.
Parece-me natural e não poderia ser diferente; entretanto, é necessário entender que essa visão comporta apenas a parcela masculina da humanidade, não o todo.
Eu não me sinto um homem, quanto mais deficiente ou incompleto, e não desejo ser um homem.
Zafir ouvia o diálogo com interesse, porém reticente em participar.
Confiava, desconfiando.
Não sabia avaliar aquelas pessoas e mensurar o grau de credibilidade a lhes conceder.
Conhecia o trabalho escrito de Ibn Rusch; não o homem influente na nobreza de Córdoba que estava à sua frente.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 10, 2018 8:12 pm

Em sua mente ouvia um dito popular a repetir-se como um mantra:
“Quem observa o silêncio se salva”.
Tinha consciência de pisar em solo estranho e da situação ambígua, na qual palavra poderia ser uma atenuante ou uma agravante.
Enquanto não tivesse certeza, era um observador.
Karim, dotado de uma natureza mais passional que a do primo, embrenhava-se na discussão e a noite transcorria sob o olhar analítico de Zafir e a discretíssima participação de Jamal, que a tudo ouvia com um tolerante sorriso no rosto.
O tema e as referências ao comportamento de Layla – essa mulher sem rosto cujo nome e história o obsediavam nos últimos dias – levavam seu pensamento a viajar no mar de seus próprios desejos insatisfeitos.
“Muçulmanos, judeus e cristãos apregoam que a mulher é o complemento do homem e que o Deus único a fez para sua companheira e auxiliar.
Tenho já três, várias amantes e em nenhuma encontrei uma companheira ou a satisfação duradoura.
É quando muito uma satisfação fugaz das minhas necessidades sexuais.
Sou um homem, não sou somente necessidades sexuais, e todas as outras necessidades que tenho serão algum dia preenchidas?
Onde estará a mulher que me completará? Será que ela existe?
Será que precisamos mesmo de um complemento? Não será essa ideia um eco longínquo de vozes do passado?
Uma imagem antiga e desbotada que não reproduz mais a visão inicial de quem a produziu? Sei lá… São tantas quimeras que enchem nossas bocas e gozem de direitos em nossas vidas que já não sei mais se penso ou se deliro.
Ouso crer que qualquer homem de Córdoba, gostaria de estar em meu lugar julgando que nada me falta e, assim, pensar que eu seja uma encarnação da felicidade…
Ilusão! Mal sabem eles o que se passa em minha cabeça e todos os anseios comuns que meu coração abriga, ou quanto eu sufoco.
Sufocar é uma expressão suave para o que faço; eu estrangulo alguns dos meus desejos.
Ser maldito! Eu o mato e ele renasce, debochando da minha pretensão e da minha violência.
Não sei de onde tirei essa força, mas o maldito é imortal, eu o reconheço.
Sei que não devia estar pensando isso, pois desse modo reconheço minha impotência e a soberania dele que me acena e faz sonhar com prazeres e satisfações, ele me curva e dobra ao sabor de sua vontade.
Será que desejo e insatisfação são pares, inseparáveis como sapatos?
Um só é inútil ao homem.
Ou será que preciso caminhar de pés descalços?
Despido de todas as quimeras criadas pela cultura humana, não importa em que época, para sentir-me integrado com a vida.
Talvez seja um caminho.
Mas o poder que exerço é também uma quimera, uma grande feira de ilusões, e a verdade é que eu estrangulo muitos quereres em nome dele, por continuar ambicionando participar da feira em lugar de destaque.
Eles pensam que sou muito diferente, entretanto sei o quanto somos iguais, talvez essa seja a grande razão por que o Misericordioso traçou-me o destino de governante.
Não posso fugir.
Ninguém foge à própria vida e ao que é, este é o meu destino.
Não sei até quando continuarei a estrangular alguns para me regozijar com outros desses seres imortais chamados desejos que vivem em mim, mas sei que é uma luta de cada segundo e de cada decisão.
Há em tudo um gosto doce-amargo, um nascer e um morrer, uma satisfação mergulhada em insatisfação…”
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 10, 2018 8:13 pm

Mastigando, distraidamente, grãos de uva, Jamal não dava nenhum sinal dos pensamentos que tinha naquele momento.
Tornara-se alheio ao diálogo e à cena a seu redor a tal ponto que o secretário que invadira a sala apressado chamava-o pela segunda vez, sem lograr tirá-lo do transe de sua auto-análise.
Foi preciso que Amirah lhe tocasse o ombro e indagasse aflita se estava sofrendo algum mal-estar para trazê-lo de volta ao presente.
– Estou bem – respondeu ele, piscando rapidamente.
Eu reflectia sobre algumas ideias que têm ocupado minha mente.
De facto, não prestava atenção à conversa, fugi ao tempo e às horas. Desculpem.
– Preciso lhe falar com urgência. É grave.
Imploro que volte comigo ao palácio – segredou Fátim junto ao ouvido de Jamal.
Assunto de estado.
De pronto, ele levantou-se, disse algumas palavras de despedida, deu uma justificativa de praxe, que não diz nada além do óbvio e saiu.
Zafir o segui com o olhar, desconfiado.
Sinalizou a Karim, que também observava a saída de Jamal, que aquele era o momento de se retirarem.
***
Kiéram, sentado ao chão, recostava-se contra o grosso tronco de uma árvore secular. Contemplava a lua cheia que iluminava a noite.
Seu olhar passeava por seus soldados descansando, pelos cavalos, mais adiante, e sentia o calor de uma pequena fogueira a extinguir-se.
Alguns metros à sua direita jazia o corpo esbelto da jovem muçulmana enrolado em uma rústica manta de lã.
Tinha a mente vazia; desfrutava de uma hora de paz.
Layla repousava a cabeça contra o braço, que servia como travesseiro; também contemplava a lua cheia, porém não via nenhuma beleza.
Seu pensamento estava inquieto.
Pela primeira vez media as consequências de sua rebeldia; sentia-se aflita e revoltada.
Seu senso de justiça gritava fundo de sua consciência, repudiando os pensamentos tecidos pela razão e pela lógica de sua cultura.
Estes lhe diziam que se lançara numa condição social indigna para uma mulher e que melhor teria sido manter-se no estado de raptada – no qual teria direito a ser desposada e honrada pelo agressor.
“Ridículo.
Essas leis não são reflexo da justiça, não podem ser, quanto mais da lei divina.
Não! Deus não é mau, não pode ser injusto.
Tudo que vejo é belo, harmonioso.
Em tudo vejo machos e fêmeas e eles também vivem em beleza e harmonia.
Onde a mão do homem não toca eu reconheço igualdade, liberdade, afecto.
Onde escreve a mão do homem eu leio: disputa, cerceamentos, anseios insatisfeitos gerando tristeza e dor.
É claro que humanos não poderiam viver como animais.
É claro que em nós existe muito mais trabalho do Eterno Misericordioso – glorificado seja pelas belezas que fez – do que neles – nos animais.
Nós temos alma; eles não.
Por essa razão nossas vidas deveriam ser uma ampliação, um melhoramento, uma evolução da vida dos animais.
Aqueles que formam casais e famílias o fazem por livre escolha, atendendo unicamente aos comandos da natureza e a suas vontades.
Os pombos se casam, voam e habitam sempre junto a seu par, numa fidelidade invejável.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 11, 2018 8:29 pm

Os lobos também agem assim; nós, humanos, desvirtuamos:
um macho pode casar com várias fêmeas e habitar com elas, as escolhe por diversos motivos (na maioria das vezes o querer é o menos importante); já nós, mulheres – a grande maioria – não temos voz nem vez.
Comunicam-nos que estamos comprometidas, nem sequer perguntam se gostamos ou não, se estamos felizes ou não.
Aliás, algumas raras afortunadas foram felizes sob o jugo dessa lei.
Há expressões que deveriam ser revistas.
Dizemos que algo é desumano quando contraria nosso senso de bondade, de beleza, de justiça, de compreensão, de tolerância; e que outra coisa é animalesca quando é agressiva, selvagem, impetuosa.
Ora, a conduta dos animais é mais condizente com os padrões do humano do que a dos humanos – propriamente dita – que é animalesca, no que se refere à condição da fêmea, da mulher.
Nunca vi uma fêmea de qualquer espécie animal ser enxotada do bando por defender-se de uma agressão, tampouco vi os machos negociarem entre si a posso das fêmeas.
É absurdo! É absurda minha situação.
Que será de mim amanhã?
Disseram que Zafir deseja desposar-me, para tanto meu pai terá que renunciar à reparação da ofensa sofrida.
E eu que não desejo casar-me a isso serei obrigada.
Não tenho mais como escapar.
Lei absurda!
Que me perdoa o profeta, mas não posso crer que seja essa a vontade do Altíssimo para a mulheres que criou.
Ah! Vida… vida louca!
Cheia de homens animalizados”, riu baixinho ao perceber que não conseguia usar uma expressão diferente, ainda que sua consciência reprovasse a escolha, forçando-a a reconhecer a liberdade de todas as fêmeas do reino animal.
Nesse momento, o silêncio da noite foi quebrado pelo tropel de cavalos e gritos de homens se aproximando com rapidez.
Como de costume, um vinha na frente ostentando um estandarte do Califa e chamando Kiéram.
– Aqui – informou Kiéram, acenando para o emissário.
E indagou assim que ele desmontou à sua frente:
– O que houve?
– Outra invasão africana em nosso litoral.
O Califa marcha com muito homens para o local, pede que se reúna a ele.
Seguem rumo ao leste.
– Seguir daqui para uma batalha? – murmurou Kiéram atordoado.
O Califa esqueceu que cumpre a missão de resgate da filha do emir de Cádiz.
O que faço com a mulher?
– Deve levá-la consigo.
AO que sei, o irmão e o noivo dela, assim que informados da invasão próxima a Cádiz, retornaram à cidade para organizar a defesa.
O emir Nasser ficou em Córdoba aos cuidados de duas de suas esposas.
A mulher deve seguir ao encontro do Califa, assim ficou resolvido.
– É uma loucura!
Carregar connosco uma mulher para o meio de uma batalha com os emires africanos é… insano.
Layla, que ouvia a conversa entre os dois, sentiu o coração acelerar ao compreender a extensão e a gravidade das informações.
Sua aventura ganhava, a cada segundo, tintas mais vibrantes e inusitadas.
Retomando sua linha de pensamento anterior, concluiu que, ao ser levada para uma frente de batalha, sua ruína seria completa.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 11, 2018 8:30 pm

Sentiu um frio de medo ou pavor – não conseguiu precisar – invadir-lhe o corpo e a alma.
Por alguns minutos deixou-se embalar na ideia de que
a existência que escapava das mãos e de que o destino punha-lhe apertadas algemas.
Foi quando se lembrou das conversas com Leah e sua admiração pela rainha Esther.
“Que faria uma mulher como Esther em meu lugar?” - matutava Layla em busca de resposta à sua indagação.
Quando sentiu cair sobre o olhar de Kiéram, abandonou seus pensamentos e o encarou.
Seu olhar expressava medo e determinação ao mesmo tempo, despertando no mercenário cristão compaixão e respeito.
O contacto com aquela estranha mulher exercia sobre ele um fascínio poderoso, muito além que ela julgava ver e entender.
– Não tenho escolha – disse ele, dispensando esclarecimentos e informações.
Percebera que Layla acompanhara a conversa.
- Mas quero dizer que é contra a minha vontade e por absoluta impossibilidade de agir de outro modo que a levarei comigo.
– Sei que cumpre seu dever – respondeu Layla.
Eu cumpro meu destino.
Dê-me armas e não tema.
O senhor conquistou meu respeito.
Sei que a hora é delicada, e meus familiares partiram para cumprir obrigações maiores com o povo.
Peço que confie em mim.
Sabe que domino o uso das armas; eu as quero para minha defesa, assim não serei um fardo tão pesado.
Espantado, Kiéram a encarou em silêncio, levando-a a insistir:
_ confie em mim, senhor Simsons.
Prometo que não se arrependerá.
Entenda minha situação:
não tenho marido, fui retirada de meu lar violentamente e fugi.
Por força dos costumes minha mãe deve pedir minha morte.
Nesse exacto momento não sirvo para nada.
Chamei para minha todas as desgraças da lei.
Como mulher, hoje, talvez eu possa vir a ser negociada como escrava para um harém de qualquer homem.
Não mais do que isso. Sou uma pária.
O que poderá tornar essa situação pior?
Dê-me ao menos a oportunidade de morrer com dignidade, com armas em punho e lutando.
– Esse é um pedido masculino – rechaçou Kiéram.
– É um pedido de dignidade humana.
Nós, mulheres, somos uma significativa e importante parcela dessa raça dita humana.
Mesmo sendo pária, ainda sou parte dela.
Peço que confie em mim.
– Está bem, farei sua vontade.
Afastou-se a passos largos para voltar um pouco depois carregando arco, flecha e facas, além de um fardo enrolado sob o braço que entregou a Layla dizendo:
– São minhas roupas.
Ficarão grandes, mas será melhor que as use e coloque também a malha e a capa.
Disfarçarão seu corpo, será melhor.
Enrole um turbante nos cabelos e esconda o rosto.
Aqui estão suas armas.
Layla olhou firme para os trajes e armas que ele passava a suas mãos.
Reconheceu a sabedoria da estratégia.
Era uma forma de protegê-la e dar-lhe o que havia perdido.
Baixou a cabeça e rumou decidida para trocar-se atrás de um pequeno arbusto.
“Será que Esther teria feito isso?! - indagava-se ela, minutos depois, deixando o acampamento e seguindo ao encontro do Califa.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 11, 2018 8:30 pm

VIRTUDES VERSUS PAIXÕES – O CALOR DE UMA GUERRA INTERNA
– Acabou nossa agonia, Adara – declarou Farah ao atravessarem os portões do palácio do Califa.
Logo saberemos qual é o destino de Layla e o estado de Nasser.
Que Alá os proteja!
Há visitantes que melhor seria nunca termos recebido.
Munir é desse tipo.
Por Deus que, se, de alguma forma, eu tivesse sabido o que aconteceria À nossa família com tal visita, teria infringido de uma só vez todos os deveres de hospitalidade.
Até aqueles prescritos no Alcorão.
– Somente sabemos do que somos capazes quando testados pela vida em situações reais.
É fácil ser rígido, intolerante e exigir o cumprimento literal das leis quando não sentimos na pele o preço da obediência a tais preceitos – concordou Adara, ajeitando-se no banco do veículo em que viajavam.
À frente o cocheiro ia atento ao trânsito da cidade, dando-lhes plena liberdade para conversarem.
A escolta cavalgava a alguns metros; não poderia ouvir as heresias que diziam as mulheres de Al Gassim.
– Nossas leis são feitas pelos homens e para os homens.
Somos objecto delas, temos nossas vidas reguladas em detalhes, mas não fomos consultadas sobre quanto custa viver sob esse jugo – resmungou Farah, revoltada com o destino da filha.
Há coisas absurdas que meu coração se nega a obedecer.
Sei que não deveria, que o correto, o esperado, o certo, seria conformar-me e obedecer, pois são nossas leis e nossa religião.
Mas… era mais fácil antes da maldita visita.
Você me entende, Adara?
– Claro. Também sinto uma rebeldia feroz, uma vontade de gritar, de bater, arrancar véus e roupas, e… tudo o mais, e dizer o quanto é injusto tudo que acontece com nossa Layla.
Dói no fundo da minha alma ter que calar.
Zafir é um anjo de bondade entendendo o que se passa em nossos corações e prontificando-se a manter o casamento.
Não posso nem imaginar como me sentiria se fosse obrigada a assistir o casamento de Layla com Al Jerrari, aquele porco.
Pobrezinha!
Morreria antes de conseguir dizer uma palavra pedindo que a…, você sabe.
Ela deve ter sofrido horrores nas mãos do verme.
Ah! Fico furiosa quando penso que ele tenha forçado intimidades com ela.
Nenhuma mulher merece tal violência.
– Não quero nem pensar.
Que me perdoe Alá e o profeta, mas é muito injustiça sobre uma pessoa.
É absurdo! Ser raptada, sujeitar-se à violência física e moral, e a grande bênção e única salvação, em regra, é aceitar viver com esse mesmo homem por toda a vida.
Isso não é salvação.
É maldição!
Não irei censurar minha filha se ela preferir abandonar a virtude e lançar-se às portas do inferno.
– Não qualquer pessoa, Farah; esse é destino de mulheres.
Houvesse acontecido o fato com Karim e uma guerra já estaria feita.
Agora eles, os poderosos de Córdoba, não estão nem cogitando do que pode ter acontecido à menina; a preocupação é a honra paterna que foi agravada.
– Nasser aflige-se pela filha.
Nosso marido a ama, eu não tenho dúvida – protestou Farah.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 11, 2018 8:30 pm

– Concordo. Ele é um pai amoroso, merecia ter muitos filhos…
Mas isso é o que pensamos em família.
Zafir deseja casar-se com ela independentemente do que possa ter acontecido, ainda que Layla possa estar carregando no ventre o filho de outro homem.
Quantos pensam assim em nosso povo?
E, se não existisse esse homem abençoado, o que faria nosso marido?
Aceitaria o lamentável destino que a lei determina em nome da honra da família?
Isso que os homens chamam de honra – e que nós, mulheres, pagamos o preço – é mais importante que a felicidade?
Se digo bobagens, esqueça.
Estou muito revoltada.
Para piorar tudo, ainda temos a doença com companhia.
– Nem sei por qual meu coração se aflige mais, se por Layla ou por Nasser.
Que Alá os proteja, é só que peço.
Elas ainda desconheciam o destino de Karim e Zafir.
Esperavam encontrá-los em Córdoba.
E a notícia da invasão foi outro duro golpe que sofreram antes de conhecerem a gravidade do estado de saúde do emir de Cádiz.
Nos aposentos destinados ao emir Al Gassim elas se espantavam com o luxo e a quantidade de criados.
Zahara as recebera, com certa frieza, mas cumprindo com rigor os deveres de hospitalidade.
Limpas e alimentadas, foram conduzidas pela anfitriã até o quarto onde descansava o doente assistido por Ibn Rusch, que o examinava acompanhando a evolução do estado de saúde.
Na antecâmara do aposento, Zahara convidou as visitantes a sentarem e aguardarem a saída do médico, explicando:
– Ibn Rusch é o melhor médico de Córdoba.
Goza da confiança de meu marido; podem ficar tranquilas; o emir Al Gassim está sendo cuidado com toda competência.
Ibn nunca errou em um diagnóstico connosco.
É um sábio, estuda muito.
Se ele não conseguir restituir a saúde do emir, então termos que aceitar que é a vontade do Altíssimo prová-lo com a doença.
– Em nome da vontade do Altíssimo, muitas coisas já foram feitas na Terra que o envergonham.
Não creio que fosse da vontade Dele a metade – retrucou Adara seca e áspera.
Não simpatizara com a jovem grávida que parecia não saber enunciar um pensamento ou dar uma informação sem falar no marido.
– Estamos cansadas, querida – desconversou Farah, fazendo ouvido de mercador à grosseria de Adara com a anfitriã.
Seu marido deve ser muito ocupado.
Não o vi até agora.
Nem o emir Al Jerrari, onde estão?
Aliás, peço que mandem chamar meu filho e meu sobrinho; também não os encontrei.
– Não sabem?
Não lhes informaram onde está meu marido e os demais homens?
– Por Deus que não – respondeu Adara.
Ou não estaríamos indagando.
– Acalme-se Adara – pediu Farah, sussurrando-lhe ao ouvido.
Infelizmente, precisaremos ter paciência e aceitar muitas coisas.
Azedume não nos levará a resolver nada melhor nem mais rápido; ao contrário, colocará mais pedras no caminho.
Tenha boa vontade, por favor.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 11, 2018 8:30 pm

– O que aconteceu?
Perguntou Adara, dirigindo o olhar a Zahara.
– Houve uma denúncia de que emires da África preparavam uma invasão ao nosso litoral.
Uma frota de navios foi avistada próxima de Cádiz.
Todos partiram para lá.
Karim Al Gassim e seu primo partiram para organizar a cidade contra um provável ataque.
Meu marido está comandando a defesa.
É um problema essa incompreensão de nossos irmãos africanos.
Adara e Farah sentiram o chão sumir sob seus pés; a cabeça rodar numa sucessão desenfreada de imagens; o coração palpitava acelerado; parecia um tambor rufando no peito.
– Não sabíamos de nada – declarou Adara e amparou Farah, que cambaleou a seu lado, confortando-a:
– Seja forte.
Nasser precisa de você.
Foi para isso que viemos.
É o que podemos fazer agora; tudo mudou.
– Tenhamos fé – convidou Zahara, enternecida com o visível abalo que a notícia causara a Farah.
Logo serei mãe, creio que posso avaliar o que a senhora sente.
Farah lançou um olhar incrédulo à jovem e nada respondeu.
“Ela precisará sofrer para pôr no mundo um filho, depois aguardar que ele cresça, ano após ano, superar todas as dificuldades e – que não lhe aconteça, não rogo praga –, então, surgir um imbecil do nada e lançar dor e tristeza no coração de toda família.
Depois, terá de saber que seu marido está mal, sendo cuidado por estranhos e, por fim, que seu filho amado e sobrinho querido caminham para uma guerra que terá por palco a sua casa.
Daí ela poderá me vir com essa conversa de ‘avaliar como me sinto’.
Só eu sei o quanto dói cada batida do meu coração neste momento.
Nunca mais direi bobagem igual a essa de saber como se sentem os outros.
Ninguém faz senão pálida ideia do que sinto. Jovem boba!”
Nesse momento a porta do quarto se abriu e por ela saiu Ibn Rusch, com o semblante sério, compenetrado.
Saudou, respeitosamente, as esposas de Nasser, e com objectividade expôs a situação do paciente.
Conscientizando-as da gravidade da doença, disse-lhes:
– Estamos fazendo o melhor.
Ele é forte, mas uma hemorragia interna é difícil de estancar.
Evitem agitá-lo muito.
Ele precisa descansar, não deve se preocupar.
Informei que seu filho e sobrinho viajaram a Cádiz em razão de negócio.
Ele nada sabe sobre os reais motivos, entendem?
Recebeu como resposta acenos afirmativos e completou:
– Venho vê-lo duas vezes por dia.
Os cuidados são… – paciente, explicou os procedimentos necessários ao cuidado do enfermo.
***
Munir corria os dedos pela barba escura, longa e bem aparada que lhe cobria a face.
Seu olhar percorria a extensão da praia.
Cumprindo ordens do cunhado, marchara à frente e chegava ao litoral horas antes com a missão de investigar o território e preparar o terreno para os demais.
Escolhera um local protegido por dunas, de vegetação rasteira, para acamparem.
Ficava bastante próximo da praia, o que facilitava a vigilância sobre o mar.
A ideia era, tão logo avistassem a frota africana, dimensionar o contingente que comportava a preparar o ataque quando os africanos tentassem desembarcar.
Jamal não gostava de demora; acreditava que melhor era agir antes do que aguardar a acção do inimigo.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 11, 2018 8:31 pm

Considerava-se afrontado pelo Califa africano que pretendia desembarcar tropas militares na costa de Al-Andaluz.
Não era bobo, tampouco precisava que lhe dissessem as intenções óbvias de seu oponente.
Rechaçaria, sem piedade, os irmãos muçulmanos de volta ao próprio território.
Munir sabia bem dessas intenções.
Reconhecia nele um grande estrategista.
Quatro soldados o acompanhavam numa vistoria pela praia.
Envolvidos em pensamentos belicosos, nenhum deles prestava atenção na beleza do cenário natural, nas areias tingidas de vermelho pelo sol, quase poente; nem nas ondas que quebravam mansamente nos cascos dos cavalos, ou mesmo, no som das gaivotas que pescavam seu alimento no entardecer, cortando o céu com suas asas brancas.
Olhavam o casamento do mar com o firmamento, no horizonte distante, porém não viam a infinita beleza.
Os sentimentos que os animavam espelhavam-se nos olhares ferozes que varriam, vasculhavam as ondas e enfrentavam o infinito que a vista abrangia unicamente em busca do inimigo, de um mastro, de uma bandeira negra tremulando ao longe.
É triste ver, em qualquer época, o descaso dos seres humano com a beleza com que o Criador nos cercou neste mundo-escola, seria tão mais fácil aprendermos nos aliando ao princípio do prazer, sempre próximo do belo, do que encararmos a face, tão nobre quanto a outra, porém tão feia da dor.
Um rosto sorrindo é, luminosamente, belo; um rosto crispado pela dor enruga-se, torna-se opaco e disforme; as cores e os traços perdem a suavidade e a harmonia.
Fomos todos criados para a felicidade, assim nos diz a natureza, ao apresentar-se sempre mais bela ao lado do prazer.
É lendário o ensinamento apócrifo de Jesus e o lobo feroz, em que, vendo a fera morta, enquanto todos viam horrores, o Mestre preferiu elogiar-lhe os belos dentes.
Procurar o bom, o belo, é o mesmo que buscar o princípio do prazer que orienta a vida e nos comunica as forças da alegria e das virtudes.
Cada virtude que conquistamos é uma fonte de prazer e felicidade em nossas vidas, garante-nos bons momentos na matéria e fora dela.
Precisamos pensar que o prazer é uma constante e uma das certezas que vislumbramos em nosso futuro espiritual.
A dor é mestra transitória em nossa vida, ensina-nos enquanto teimamos com as causas que a atraem para nosso lado.
O prazer, companheiro da felicidade, está connosco desde as idades mais remotas de nossa civilização, respondendo e manifestando-se, gradativamente, conforme nosso aprendizado e evolução; e seguirá até onde nos conduzir o progresso.
O princípio da dor encerra sua trajectória nos mundos de regeneração; o princípio do prazer prossegue vivendo nos mundos felizes e nos mundos celestes.
Infeliz a criatura que não descobre e caminha com o prazer de viver!
Que não vê nas pequenas coisas motivos de satisfação.
Que não enxerga a alegria, a paciência, a confiança.
É preciso descobrir o prazer como mestre para encontrar os caminhos do amor, afinal o amor vive e habita onde existe virtudes e, em tal lugar, há o prazer de viver.
Por enxergar na natureza esses dois grandes princípios, lamento quando meu olhar se depara com seres cegos desse entendimento, ainda quando sobre essas cenas o tempo tenha lançado suas cortinas e transformado o cenário.
Sei que eles
enxergarão que o dia da compreensão raiará para todos no momento oportuno, mas, ainda assim, eu sinto.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 11, 2018 8:31 pm

Voltemos à patrulha de Munir e seus homens:
– Não vejo nada, emir – declarou o mais alto dos cavaleiros.
É tudo céu e mar.
Só azul, até onde minha vista alcança.
– Também não vejo nada – endossou o outro.
– Você ficará de guarda – ordenou Munir ao mais alto.
Mantenha-se atento.
Durante a noite outro homem virá trocar a guarda. Os demais voltam comigo.
Descansando sob sumptuosa e confortável tenda, Jamal alimentava-se, displicente.
O pensamento vagava repassando os últimos acontecimentos.
Dias enlouquecidos!
Iniciados com uma simples e corriqueira missão de visita comercial que redundara num complexo caso de relações com o pequeno reino taifa de Cádiz num momento delicado; tão delicado, que ali estava comandando as defesas de Al-Andaluz contra uma invasão.
Muçulmanos brigando e matando muçulmanos!
Para quê?
Indagava-se ele, ou melhor, por quê?
Intolerância, concluía.
Precisamos crer que somos os donos da verdade.
É por orgulho que não admitimos que ela é relativa e cada um a compreende de determinada forma.
Ela acompanha nosso grau de evolução.
Pensar assim é admitir que ditos conceitos não se excluem; antes, se completam.
Aceitar a relatividade na vida abre espaço para o diálogo e o entendimento.
É o arado que prepara o solo da alma para a humildade.
Liberta-a de vícios daninhos decorrentes do orgulho e do egoísmo, sendo a intolerância o primeiro a ser retirado.
Os muçulmanos dos reinos da África queriam uma expansão religiosa maior, queriam dominação económica e imposição de crença.
Muçulmanos xiitas eram exaltados.
Criticavam a atenção dada pelos sunitas de Al-Andaluz ao desenvolvimento das ciências, das artes e da filosofia.
O desenvolvimento da medicina, da matemática, da arquitectura e da filosofia no Ocidente deve muito às dinastias muçulmanos que governaram Al-Andaluz e fizeram de Córdoba a cidade mais culta e próspera do Ocidente na Idade Média.
Enquanto os reinos cristãos da Europa mergulhavam na idade das trevas, sucumbiam à ignorância e ao fanatismo, judeus e muçulmanos investiam no conhecimento e desenvolviam o saber; faziam florescer a cultura e a inteligência em seu meio.
Porém era uma facção, de orientação sunita, mais moderada, e a disposição progressista encontrava obstáculos no seio do próprio islamismo.
A disputa sadia faz crescer, mas, promovida sob o império da ganância e do orgulho, separa e destrói.
A casa dividida está fadada a tornar-se ruína.
A luta entre xiitas e sunitas é fruto azedo da intolerância; cada qual julga ser seu o melhor direito a proclamar-se sucessor do profeta Muhammad.
Diga-se que o próprio profeta não fez da sua sucessão um ponto de fé para o islã.
A intolerância tem o condão de tornar principal o que é, por natureza, secundário.
Os homens, em geral, disputam picuinhas, puerilidades; em especial se a discussão é religiosa.
Por de trás de todas as banalidades, o que aquece a contenda é o bom e velho orgulho de crer-se o dono da verdade; o melhor entendedor das “coisas sagradas”; todavia, quase sempre não vê seu próximo como “coisa sagrada” criada por Deus.
Tampouco se interroga como os demais membros da criação vivem a relação com a verdade do outro.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 11, 2018 8:31 pm

Observassem um pouco mais, leriam, nesse imenso livro chamado natureza, que os animais respeitam as verdades uns dos outros e não interferem.
As abelhas não pretendem ensinar as andorinhas a reconhecer os sinais da passagem das estações; os cavalos não querem mudar a orientação dos cachorros que se enrodilham para deitar.
Não, cada qual vive à sua maneira, com a natureza, como o Criador o fez e lhe permitiu existir.
Não se impõe aos outros, nem é preconceituoso.
Somente o ser humano vivencia a intolerância e o preconceito.
Tristes experiências, porque sempre têm por destinatários de suas crueldades outro ser humano.
Todos os preconceitos e intolerâncias são em razão de outro homem e fazem sofrer os da mesma espécie. Tristes vivências!
O entendimento da lei de reencarnação é o que fará a mudança, transformando consciências; desvendando que não existem posições ou estados definitivos para a raça humana em nosso actual estágio de desenvolvimento.
Portanto, cores, sexos, orientação sexual ou religiosa, raça, classe social… tudo, absolutamente tudo, está sujeito às transformações necessárias ao progresso do ser espiritual no curso das muitas reencarnações.
O que hoje é, no futuro, poderá não ser; necessariamente, será modificado, fazendo ampliar a visão e a compreensão humana.
Dentro de suas possibilidades de entendimento, Jamal reflectia sobre a estupidez da intolerância.
Intimamente confortava-se e justificava-se por integrar um dos polos dessa contenda, dizendo-se que o fazia não pelos motivos ocorridos séculos antes, mas por todas as vidas que naquele momento dependiam dele e confiavam em sua protecção.
E, lógico, por coerência a suas convicções na necessidade de promover o desenvolvimento da inteligência e da cultura do povo.
Apenas religião, não. Seria o mesmo que fechar a mente em um labirinto, condenando-se a andar perdido, sem nunca achar a saída, em todas as portas detido por um dogma.
Acreditava perfeitamente possível a convivência harmónica da religião com a ciência, com a filosofia, com as artes, e uma interpretação menos rígida das leis.
A mente humana precisa de serenidade, de tranquilidade, e para tal conquista muitos são os caminhos, todos necessário; nenhum excludente do outro.
Mas tinha especial paixão pela filosofia; adorava conversar com Amirah e Ibn Rusch.
Agora, meditando sobre a discórdia que os levava a embates entre muçulmanos, as palavras do amigo ecoavam em sua mente, fortalecendo as razões íntimas pelas quais lutava pelo progresso.
Ibn repetia com frequência:
– Caro Jamal, não há razão nem lógica em se desprezar algo benéfico por natureza.
E o conhecimento, o desenvolvimento do intelecto humano, é o que mais benéfico eu posso ver para a humanidade. Lembremos os males, o desconforto que o homem já conseguiu abolir da existência através do avanço da própria inteligência.
Se há aqueles que abusam e malversam a finalidade das coisas, isto não é razão para desprezar a coisa em si ou diminuir-lhe o valor.
Consideremos isso um acidente.
A culpa não é do progresso, do conhecimento, do homem avançado, é, antes, do ignorante que a usa indevidamente.
Lembro-me do ensino do Profeta – Deus Altíssimo o envolva em sua paz – ao homem a quem ordenara dar mel a seu irmão acometido de diarreia, que aumentou após a ingestão do, voltando o homem ao Profeta – abençoado seja – para queixar-se.
Recebeu como resposta:
“Deus está com a verdade; o ventre de teu irmão é que mentiu.
Isso se aplica, a meu ver, ao mau uso que alguns fazem do conhecimento, mas não pode servir de argumento para que se proíba aquele que está apto ao estudo da filosofia, da ciência, a fazê-lo.
Seria como negar água a quem está sedento e do líquido depende para viver.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 11, 2018 8:31 pm

Se alguns se engasgam e morrem com a água, muitos viverão pela mesma causa.
– Eu o entendo, amigo.
E comungo de seu modo de pensar.
E o que me diz do temor de nossos irmãos de que favorecendo o conhecimento estamos afastando nosso povo de Deus?
– Novamente a questão é de entendimento.
Não está escrito em nosso livro: “convoque [os homens] ao caminho de teu Senhor, pela sabedoria e pela boa exortação, e discuta com eles do melhor modo”?
Ora, sabedoria, boa exortação e capacidade de discutir não nascem do nada.
É preciso desenvolvê-las, ou seja, conhecer.
Não temer avançar.
Se a lei divina é a verdade e ela convida a desenvolver o exame racional de todas as coisas que levam ao conhecimento da verdade, é porque ela nada tem a temer com o progresso da razão humana.
E nós, a comunidade muçulmana, estamos convictos disso:
a especulação, o conhecimento, a discussão das ideias não podem conduzir a conclusões diferentes das contida na Lei.
A verdade não contraria a verdade, mas lhe dá prova e testemunho.
O progresso da racionalidade, creio eu, só fará à relação do homem com Deus.
Quanto mais compreendermos a natureza e a nós mesmos, mais próximos de compreender o Altíssimo estaremos.
Não, Jamal, a inteligência real, aquela que comporta a humildade, não afasta o homem da inteligência religiosa.
Defensor dessa visão, lá estava o Califa, administrando o conflito de ideias que se desenhava pela intolerância de muitos.
– Quisera eu saber quem vem nessa frota – murmurou Jamal alheio ao movimento que se passava no exterior da tenda.
Conheço o pensamento geral dos irmãos muçulmanos da África, mas não conheço os homens que os professam.
Já vivi e observei pessoas o suficiente para saber que uma coisa é o pensamento geral, a bandeira sob a qual se aglomeram ou se escondem, e outra são os indivíduos que a professam e empunham.
Com esses, frequentemente em particular, se chega ao termo do real objecto por detrás do geral.
Na arte da guerra, conhecer o inimigo ainda é a grande chave.
Que Alá me ilumine é tudo que peço, que inspire minhas palavras.
Por tudo quanto há de sagrado não desejo derramamento de sangue entre irmãos de fé…
Um ruído das cortinas de entrada silenciou Jamal que permaneceu onde estava, recostado entre almofadas, mas todo seu corpo se empertigou, denunciando estado de alerta.
Munir avançou pela tenda cumprimentando o parente e Munir avançou pela tenda cumprimentando o parente e informando-o das determinações dadas à patrulha de alerta.
– Fez bem. Mantenha-me informado.
Quero saber, tão logo avistem as bandeiras, de quem se trata.
– É claro – respondeu Munir, subserviente.
Jamal irritava-se com a postura adoptada pelo cunhado após o evento do rapto da filha do emir de Cádiz, mas, tal como ele, punha em prática a noção de que o silêncio salva, assim, ambos engoliram a indignação que nutriam por diversos motivos entre si, e o tema num acerto tácito foi abandonado em prol de um assunto maior – a invasão africana.
Era hora de somar, não dividir; por maior que fosse o desejo de livrar-se do familiar hipócrita, aquele não era o momento indicado.
Como governante, obrigava-se a calar a revolta pessoal.
– Algo mais? – indagou o Califa, sugerindo que não toleraria por mais tempo a presença de Munir, a menos que razões de estado o determinassem.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 11, 2018 8:32 pm

– Não, mas pensei que talvez desejasse com…
– Não desejo nada. Obrigado. Pode retornar.
Preciso pensar.
Faça o que lhe pedi, sim?
– É claro – respondeu Munir, engolindo em seco a sumária dispensa do Califa. “Desgraçado!”.
Praguejava ele, em pensamento, constatando que a relação com Jamal estava estremecidíssima.
“Culpa daquela mulher selvagem.
Não fosse indócil daquele jeito, tudo seria diferente. ”
***
Preocupado com a situação complexa que se desenrolaria dali para a frente, Kiéram aproximava-se do acampamento.
À distância, na luz amena do amanhecer, vislumbrava as bandeiras tremulando sobre as tendas.
Parou o cavalo e lançou um olhar à mulher a seu lado, envolta num traje negro, masculino.
– Lá está o acampamento – apontou e, como ela aquiescesse silenciosa, prosseguiu:
Seu disfarce, visto de longe, está bom.
Mas vendo-a de perto, seus olhos são femininos demais.
Não sei o que o Califa pretende com você, mas, até entregá-la a ele, fique perto de mim e mantenha a cabeça baixa quando ingressarmos no acampamento, e não fale.
Não quero que nenhum soldado desconfie da verdade.
– O homem mente, a natureza não – comentou Layla.
Sei que o lugar para onde me conduz não é para mulher.
É interessante o pensamento dos homens.
Desejam tanto proteger as mulheres que pertencem ao seu povo, à sua família, entretanto não teme em desgraçar as que não lhe pertencem.
As outras podem ter suas casas saqueadas, seus familiares mortos e serem violentadas.
Tenho uma tia que se tornou esposa de meu pai por coisas desse tipo.
A pobre não é mulher, é um ferimento de batalha não cicatrizado.
Por que me protege, capitão?
– Cumpro meu dever, senhora.
Não esqueça, minha espada é paga a preço de ouro e prata.
Não luto por questões de fé ou poder.
– Mentira.
Ouro e prata são símbolos de poder – retrucou Layla.
– Concordo, eu menti.
Digamos então que minha espada é vendida para a aquisição de um poder relativo.
Ficou melhor? – indagou Kiéram sorrindo, serenamente, da petulante jovem muçulmana, porém encantado com sua força.
Em meio à adversidade máxima, para uma mulher de sua raça, ela mantinha a cabeça erguida e a mente alerta ao que se passava à sua volta.
Contemplando-a enquanto ela encarava as tendas ainda distantes, Kiéram deu-se conta de que naquele momento ele se igualavam: ambos era párias.
E expressou o que pensavam ouvindo em troca:
– Eu sou pária, caro capitão.
O senhor é um cidadão cristão, um mercenário; pertence a uma classe da sociedade. O senhor é um cidadão de segunda classe, ainda que seja rico.
Eu sou, neste exacto momento, uma pária.
Mulher, sem honra, sem posses, sem família; meu destino é tornar-me escrava; devo considerar escapar da morte uma bênção.
Em nosso meio uma mulher não “existe” sem a protecção dos homens da família.
Pensa que ignoro minha condição?
Eu a reconheço bem.
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