O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 14, 2018 7:54 pm

Tão friamente que mirou e antecipou o resultado com precisão assustadora.
Sabia a quem, como e onde ferir para alcançar os propósitos que tinha e sabia como matar de forma certeira, sem dor, sem gritos, uma execução primorosa.
Tirou-lhe, completamente, em segundos, a capacidade de respirar; encharcou-lhe os pulmões com sangue. Misericórdia!
Por Deus, que essa é a mesma mulher que me encantou com suas histórias de águias e caçadas.
Tão serena, tão tranquila, tão insondável em sua dor e coragem.
Que alma é essa? Por Deus, eu quero saber; eu preciso saber. ”
Lembrando-se de que Kiéram lhe dissera que, após o “incidente”, ela fora cavalgar desaparecendo em direcção à praia, lançou um olhar naquela direcção, obviamente barrado pelos tecidos que faziam os compartimentos e limites de sua tenda. Deter o olhar no tecido cor de palha mudou o rumo de seus pensamentos.
Tinha providências a tomar.
Chamou pelo secretário e, assim que o viu, despejou ordens e informações sobre o ocorrido.
Mal terminava de ditar suas ordens, os homens de Kiéram
pediam para depor a seus pés os líderes insurrectos.
– Então são estes os patifes.
Vermes! Vocês não merecem viver.
Aquele que não é fiel no pouco não merece o muito – disse o Califa.
Trezentas chibatadas, cem em cada, no meio do acampamento, para execração pública destes traidores.
Carregarão para sempre na pele os sinais que informarão o tipo de gente que vocês são: indignos de confiança.
Levem-nos daqui.
Mantenham-nos presos e em vigilância até o cumprimento do castigo; depois, quero-os longe daqui o mais rápido possível.
Passem seus exércitos em revista; se forem fieis e dignos de confiança, somar-se-ão ao meu exército; caso contrário, expulsem todos.
Na guerra e na vida precisamos saber com quem matemos contenda, onde e como está o inimigo e, principalmente, temos que conhecê-los.
Não quero lutar contra o desconhecido nem ao lado de quem eu precise ficar de sobreaviso.
Como ensinava o profeta Yeshua:
aquele que comigo não ajunta espalha. Fora!
E, irritado, deu-lhes as costas.
Os rebeldes, feridos no corpo e na alma, tinham o orgulho seriamente abalado.
Ouviram calados a decisão de Jamal Al Hussain.
Sabiam-no impiedoso ante traições; apenas o tremor dos corpos denunciava o estado emocional que viviam e o quanto de esforço faziam para controlar-se e escaparem com vida daquele episódio.
Maldisseram o momento em que deram atenção às palavras de Munir Al Jerrari.
O castigo foi executado com o sol a pino.
Pouco tempo depois o corpo de Munir foi enviado a Córdoba, acompanhado de uma carta de esclarecimentos à viúva.
Caía a tarde quando Layla regressou de volta no mesmo manto de silêncio em que partira.
Foi directamente para a tenda que dividia com o capitão mercenário.
Romero, que conversava com Kiéram, não pôde deixar de notar a mudança na atitude do chefe ao avistar a figura da jovem disfarçada.
Parecia que o manto de silêncio dela havia se estendido sobre eles, de repente, encobrindo mais ao capitão.
Como ele demorasse a retomar o assunto, Romero comentou:
– As mulheres muçulmanas me fascinam.
São tão misteriosas, tão encantadoras.
Despertam um anseio de desvendá-las, descobri-las; também não sente isso?
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 14, 2018 7:55 pm

Kiéram franziu as sobrancelhas, pensou e respondeu:
– Não, nunca senti nada como o que fala.
Mas acredito que, se você sente essas coisas, talvez seja porque elas nos são proibidas.
Nunca me envolvi com mulheres muçulmanas; sempre foram figuras que eu via se moverem a uma saudável distância de mim.
Acho que tenho pena delas.
Romero riu.
Depois, com a intimidade e familiaridade que Kiéram concedia a seus liderados, colocou-lhe a mão no braço e disse:
– Boa história, mas não estou bêbado.
Pena? Por favor.
Bem dizia meu avô que a boca mente… mas os olhos ou dizem a verdade ou se escondem.
Eu sou o único que sabe quem é o “homem” que passou por aqui, lembra-se?
Você devia ter visto a sua cara, Kiéram Simsons.
Olhe, aceite meu conselho:
comece a usar um disfarce.
O brilho em seu olhar é traidor; revela o que você não quer contar.
Como você não o viu, eu lhe digo:
não enxerguei pena em seus olhos.
Vi um interesse grande, para dizer o mínimo.
– Guarde suas opiniões para si, Romero! – ralhou Kiéram, rude.
Agradeço seus avisos, mas lhe garanto que não são necessários.
Você sabe mesmo de tudo; é bom que não esqueça que jurou guardar sigilo e respeito.
Romero baixou a cabeça.
Conhecia Kiéram havia muitos anos, admirava-o e confiava nele, não desejava perder a credibilidade ou extrapolar a autonomia que tinha.
Entendeu que a jovem muçulmana era um terreno tão movediço na vida de Kiéram quanto as dunas de areia.
Era fácil afundar nele e difícil de locomover-se e sair dele; prazeroso, porém pesado.
Melhor era seguir a sabedoria dos árabes: ver e calar.
Pretextando supervisionar o preparo e a arrumação das armas da tropa, deixou seu líder sozinho e o assunto que os entretinha, antes da chegada de Layla, inacabado.
Kiéram dirigiu-se à tenda que compartilhava com Layla.
Vendo-a deitada sobre o tapete, com os olhos fitando o tecto e o rosto descoberto, não pôde furtar-se ao encanto de contemplar-lhe a beleza das feições, naquele momento envoltas em uma expressão misteriosa, indefinível, que não saberia dizer se concentrada, se reflexiva.
Parecia indiferente ou até ausente.
Pigarreou chamando-lhe a atenção e foi e foi com extrema lentidão que ela voltou o rosto e o olhar em sua direcção, fitando-o silenciosa.
– Você está bem?
Ela fez, vagarosamente, um gesto afirmativo com a cabeça e tornou a prender o olhar no limite do tecido que encobria as estrelas à sua visão.
– Se quiser… conversar… sobre o que aconteceu… hoje cedo… –
insistiu Kiéram, incomodado com a insegurança que sentia para tocar no assunto.
A verdade é que não sabia como agir, pois a assassina era uma mulher e esta não era uma atitude que ele esperasse de alguém do sexo feminino.
Não a condenava, ao contrário, entendia as razões que a levara, ao ato de vingança.
Reconhecia que agiria da mesma forma se estivesse em seu lugar.
Entretanto, por ela ser mulher, não sabia como dizer-lhe o que ia em seu pensamento, tinha dúvidas, anseios e fazia mil rodeios para abordar o tema.
Para piorar, lhe faltavam as palavras e por muito pouco não gaguejava:
– Pensei… sobre o que lhe disse… de manhã.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 14, 2018 7:55 pm

Bem,… não era… verdade.
Mas é que… lido com homens, entende, e… bem… acho que é diferente.
Daí, me atrapalhei todo… quando falei com você.
E o facto é que, bem, não gostaria que você tivesse a impressão de que sou… sem sentimentos.
E, também, queria lhe dizer que… que…
Maldição! Coisa difícil! – e respirou fundo pela boca para depois declarar num só fôlego, disparando as palavras como flechas velozes:
– Que matar é uma experiência terrível.
É muito forte. Desnorteia.
Arrasa com a gente, nos faz sentir um minuto de poder e horas de miserável agonia.
É como se a gente olhasse no espelho e visse em lugar do nosso rosto a face do demónio.
– E é – respondeu Layla imperturbável.
É a face escura do dia, é a noite de lua nova.
Surpreendido com o tom de voz firme e claro da mulher estirada sobre o tapete, e em sua admissão da consciência que tinhas dos próprios sentimentos, ele aproximou-se, agachou-se ao seu lado e perscrutou seu rosto com o olhar, em busca de algum vestígio de lágrimas, de descontrole.
Nada. Nenhum vermelho no globo ocular, nenhum inchaço, nenhuma marca de choro.
Apenas a expressão misteriosa e profunda que ele não sabia descrever.
– Isso não a incomoda? – questionou ele e, sem esperar resposta, prosseguiu falando se si:
– Até hoje abomino o início e o fim das batalhas.
No início porque sei tudo que precisarei fazer e o que irei ver; no final, por tudo que foi feito.
Ainda não consegui deixar de pensar se os homens já não têm condição suficiente para resolverem seus conflitos através do diálogo e do entendimento.
Confesso: não gosto de matar, embora às vezes o faça com prazer.
Parece loucura, não é mesmo?
– A grande batalha da vida é no interior dos seres humanos.
Você disse ver a face do demónio, em vez de seu rosto, depois que mata alguém; eu lhe digo:
há uma parte de cada um de nós que é demoníaca, que é má, vingativa, invejosa, ciumenta, dominada por uma ira absoluta.
Essa parte de nossa alma destrói, mata.
É ela que se sente poderosa e lhe dá a sensação de prazer nesses actos.
O arrependimento é a outra face do seu íntimo, aquela que aflora assim que as chamas da ira arrefecem.
É essa face que nos diz para não matar, é a voz de Deus em nosso interior.
– As duas faces do ser humano.
Jesus ensinava que temos duas faces, dois caminhos de comportamento – emendou Kiéram atento ao que falava a filha do emir de Cádiz.
– Nem sempre conseguimos mostrar a outra face.
Algumas pessoas nos mostram sua cara demoníaca e isso acaba desvendando a nossa.
A superioridade dos sentimento e atitudes do profeta Yeshua é um árduo caminho para ser seguido e exemplificado.
Perdoar é um ato sublime, mas confesso que não sei o que seja tal atitude, muito menos os sentimentos que devem ser vivenciados para externar uma conduta igual.
– Tenho aprendido que a desgraça une.
Nessa vida como pária algumas coisas acabam sem importância, aliás, estranhamente sem importância, pois são as razões gerais de toda essa estrutura social em que vivemos; uma delas e a intolerância entre as religiões dos cidadãos de segunda classe, o judaísmo e o cristianismo.
Tenho amigos judeus, grandes amigos, e a convivência com eles me faz pensar em muitas lições às quais na igreja cristã é dada uma conotação diferente e até me parecem muito difíceis de entender.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 14, 2018 7:56 pm

Kiéram fez uma pausa e observou Layla.
Percebeu interesse em seu olhar; a expressão misteriosa ainda estava presente em suas feições, especialmente nos olhos, mas perdera espaço.
Estava mais humana e próxima do concreto e do presente.
– Não sei por que diz que a desgraça – e aqui entendo que isso signifique não ser muçulmano e assim ser considerado um cidadão de segunda classe em Al-Andaluz – une.
Eu, quando vivia como a protegida filha do emir de Cádiz, tinha amigos judeus; minha serva pessoal era judia; cuidou de mim desde que nasci.
Eu a amo, aprendi muito com ela, é uma mulher sábia.
Debatíamos muito a questão da mulher em nossas religiões.
Apesar de muito se falar, no fundo, as diferenças são pequenas.
Entendo e aceito que na minha fé muitas posições com relação a nós, mulheres, são muito duras e radicais.
Porém, também no judaísmo a visão escrita e ensinada no livro sagrado é diferente da praticada e do entendimento “oficial” dos ensinamentos.
Mas diga-me o que aprendeu com seus amigos.
– Entendi lições e expressões usadas por Jesus que, quando não se conhece um pouquinho da cultura judaica, se tornam incompreensíveis.
É engraçado observar o andar do tempo e as transformações que ele realiza.
Os ensinamentos de Jesus foram dados a um povo e todo povo tem suas crenças, seu modo de viver, sua história e todas uma dinâmica social, política, religiosa e militar de acordo com a época.
É preciso saber um pouco disso tudo para ver com mais clareza o que ele desejava ensinar e como era esse homem especial.
– Homem especial, interessante seu modo de falar.
Sabia que nós, muçulmanos, o vemos como o profeta da vida interior, aquele que desvenda os caminhos do reino da consciência e da própria alma? – questionou Layla.
Eu gosto muito das lições do profeta Yeshua, como o chamamos.
– Sim, eu sei.
Não se esqueça de que trabalho para líderes muçulmanos.
Nem sempre estou com armas nas mãos; às vezes também pego livros ou sento-me para conversar.
Layla balançou a cabeça levemente aprovando o que ouvia e disse:
– Mas, afinal, não me contou o que aprendeu, nessa união, na desgraça.
– Ah, várias coisas.
Por exemplo, a importância que algumas correntes do judaísmo dão às práticas de purificação.
Eles têm uma imensidade de rituais.
Eu, sinceramente, creio que não conseguiria aprender todos ao longo de uma vida, é pouco tempo, são mais de seiscentos.
Impossível para qualquer ser humano, penso eu, cumpri-los com o rigor da lei.
Jesus entendeu isso e rompeu com esses preceitos.
E a forma como afrontou essa prática me faz pensar que muitas pessoas, independentemente de crença, se cercam de práticas exteriores para fugir ao confronto com esse ser de duas faces que, no final das contas, é o que cada um de nós é e carrega no fundo da alma.
Ocupam-se lavando pratos e copos, determinando com que mão se come, o que e de que forma, listam e separam o que é puro e o que é imputo.
Mas, e dentro de si, como fica?
Tudo misturado; não fosse assim, o mundo seria um lugar bem melhor.
- Quer dizer que seria bem melhor conviver com as outras pessoas, mais fácil, mais simples, mais pacífico?
O mundo, a meu ver, é maravilhoso, foi Alá que o criou e é perfeito.
Nós, criaturas humanas, é que somos complicadas e complicadoras.
– É, tem razão.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 14, 2018 7:57 pm

Ele sabia dessas coisas todas e de muitas outras que ainda não tomamos conhecimento sobre nós mesmos, por isso dizia que precisamos nos perdoar não sete vezes, mas setenta vezes sete.
Conhecendo um pouco de cultura judaica, entende-se essa lição:
como aprender a perdoar com plenitude, depois de cumprido um ciclo de transformação em nosso carácter.
O número sete, que os judeus adoram, significa plenitude, o que está completo.
Esse meu amigo ensinou-me esse significado me mostrando as sete partes da estrela da Davi.
– Sete partes?
Mas não são seis pontas? – retrucou Layla, incrédula.
– Sim, são seis pontas e o centro é a sétima parte.
Entre outras coisas, significa os seis dias da criação do mundo e, no sétimo, quando tudo estava pronto, o Criador descansou; são os seis dias da semana de trabalho e o sétimo – sábado – consagrado ao descanso, à lembrança da libertação do exílio no Egipto.
O ciclo está completo e a tarefa é plena, portanto, Jesus dizia que devemos perdoar plenamente aos que nos ofendem.
É um dos ensinamentos com que eu tenho maior dificuldade… perdoar, eu não sei, ainda.
Mas conforta-me entender que perdoar não é um ato, mas um ciclo, uma construção a ser feita.
Talvez eu esteja a caminho; ainda não tenha completado nenhum ciclo.
– Eu também não.
Consigo entender esses ensinamentos, acho-os lindos, creio que devam fazer grande bem à alma de quem consegue dar-lhes cumprimento.
Talvez seja preciso tornar-se um ser pacífico antes de perdoar.
Você, que é cristão, talvez saiba responder melhor; não é necessário pacificar-se antes de perdoar?
Kiéram ficou olhando a jovem muçulmana, mas parecia não enxergá-la; navegava na própria mente em busca de elementos para responder.
Só a honestidade o socorreu e ele declarou sorrindo:
– Para dizer a verdade, acho difícil perdoar e não me ocupo disso, nem em pensamento.
Porém, nunca esqueci a conversa sobre esse assunto com meu melhor amigo judeu.
– Bem, você falou em ciclos, em fases, eu pensei em quais seria e me ocorreu a ideia.
Parece lógica, não concorda?
– É, parece. A ira, a raiva, o rancor, o ódio são sentimentos absolutos.
Muitos fortes, pouco sobra em nós, quero dizer, não conseguimos pensar, falar, sentir qualquer outra coisa.
É como se esses sentimentos nos enchessem, não deixassem espaço para mais nada.
Uma pessoa realmente enfurecida é insana – comentou Kiéram com dificuldade.
As palavras não eram sua melhor arma.
Embora reflectisse sobre a vida e várias questões do mundo da alma, não estava habituado a expressá-las, a conversar sobre esses assuntos.
A experiência era nova e deliciosa, fazendo-o sentir-se íntimo de alguém em quem confiava de maneira instintiva.
Layla lia com enorme facilidade nas expressões de seu novo amigo o que ele não comentava.
Mentalmente agradeceu às pessoas que a educaram, Farah, Adara, Leah, Zafir, seu pai.
Ao recordá-los, suas lágrimas marejaram de lágrimas.
Vendo a dificuldade de Kiéram, pôde avaliar o quanto fora rica, tanto no aspecto moral como intelectual, sua convivência em família.
Doía sabê-los mortos.
Doía pensar na destruição que Al Jerrari causara em sua vida e que se completara com os invasores africanos.
Entretanto, não sentia o vazio da ausência; era a falta da presença, do contacto concreto, mas não era um vazio de ausência.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 14, 2018 7:57 pm

Todos eles viviam em seu íntimo; nenhum dos sentimentos que lhes consagrava havia morrido; continuava tão plena daquelas vozes amigas, dos carinhos afectuosos que recebera, que não havia vazio, apenas faltava a presença física.
Essa era sua dor, imensa dor, que ocupava grande parte de sua alma, misturando-se a todos os seus sentimentos como uma mancha gordurosa se espalha em um tecido.
Num gesto impulsivo Kiéram estendeu a mão.
Com a ponta dos dedos recolheu as lágrimas que fugiam dos olhos da filha do emir.
Tocou-a delicadamente.
Estava tão envolvido pelos sentimentos que ela demonstrava que se podia dizer que a tocava com a ponta dos dedos da alma.
Muito além do contacto com a pele, a carícia queria confortar o coração ferido, acolher, abraçar, proteger a parte indefesa que vislumbrava existir em Layla.
Nesse diálogo eloquente e paradoxal, sem palavras, que nos mostra que a real comunicação é, e facto, realizada através do pensamento e dos sinais deixados pelos sentimentos, ele entendeu a carinhosa mensagem do amigo e, confiante, retribuiu a carícia esfregando suavemente a face nos dedos masculinos húmidos com suas lágrimas
Foi o suficiente para que Kiéram a abraçasse, protectoramente.
Correndo a mão por sua cabeça, afastou o turbante, soltando a cabeleira negra, e deslizou os dedos por entre os longos fios.
Seus gestos diziam que queria confortar a mulher magoada e sofrida que fora trancafiada em algum canto ao longo daqueles dias.
Queria vê-la e dizer-lhe que a aceitava, que desejava ajudá-la, que a admirava tanto quanto a guerreira impávida que lhe salvara das agressões na manhã daquele dia.
Foi um abraço demorado.
Nenhum dos dois tinha qualquer pressa em se separar. Encontravam algo novo, embora fosse tão velho e humano como o mundo:
a cumplicidade daqueles que se harmonizam e se atraem.
Não como seres incompletos, não como criaturas pela metade, mas como seres completos, inteiros, porém inacabados, imperfeitos, e que no encontro se fortalecem, se ampliam na permuta das experiências e vivências do outro.
Párias que eram, gozavam, naquele momento, do bem que os integrados às castas daquela sociedade não tinham:
a liberdade de um encontro.
Ela chorou recostada no peito de Kiéram; deixou que ele visse toda a fragilidades que também fazia parte dela.
Esvaziou a dor de suas perdas e as energias mais densas do ódio que nutria por aqueles que destruíram sua família e a lançaram naquela sorte incerta.
Sentiu como natural o carinho do amigo cristão; esqueceu onde estava e como vivia.
Desejava, apenas, usufruir do calor do abraço, ouvir outro coração batendo junto a si, saber que não estava sozinha.
A cumplicidade descoberta na intimidade com Kiéram lhe devolvia a noção de lar, de porto seguro, de destino.
Assim ficaram; o silêncio da noite os envolveu.
O pranto cedeu a uma ténue paz interior, e abraçados, vencidos pelo cansaço, adormeceram.
Kiéram acordou sentindo o frio do amanhecer.
O sono gostoso e pesado entorpecera-lhe a memória.
Estranhou o compartimento e a inusitada sensação de vazio, como se faltasse algo que estivera segurando e aquecendo junto ao corpo.
Ao olhar para os braços, encontrou alguns fios de cabelos negros e longos colados em sua pele e recordou.
Levantou-se de um salto, aflito.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 14, 2018 7:57 pm

“Onde estava Layla?”
Era seu único pensamento.
Lá fora ainda brilhavam as estrelas da madrugada, e a lua do quarto crescente lunar parecia não querer se apagar, afrontando os luminosos alaranjados e prenunciando o nascer do sol.
Todos dormiam, e da porta da tenda não foi difícil a Kiéram ver a silhueta de Layla andando em direcção ao mar, sem olhar para trás.
Do alto de uma duna a viu alcançar a praia e despir-se.
Encantou-se com sua beleza nua.
Naquele cenário, parecia uma pintura da perfeição da natureza ou do paraíso, talvez uma lembrança do Jardim do Éden, embora lá não se ouvisse o som das ondas e o canto das gaivotas que pescavam o alimento entre as vagas do mar.
A aragem fria, se houvesse sido percebida por ele, talvez fosse tomada à conta da serpente.
Ficou olhando-a entrar no mar que ocultou seu corpo.
– Então é isso que ela faz toda madrugada.
Banha-se – murmurou Kiéram, ainda preso ao encantamento de observá-la.
Preciso sair daqui, ela não gostará de saber que eu a vi.
Mas aquela imagem o acompanhou e passou a persegui-lo, sem trégua, pelo resto do dia, dificultando-lhe a concentração.
***
A tarde ia a meio.
O Califa negociava com o sultão Kaleb uma saída diplomática para o impasse.
O encontro ocorrera no vale, próximo da cidade ocupada.
Depois de horas de diálogo, a situação apresentava-se sem mudança.
Os invasores não tinham nenhuma disposição de abandonar o pequeno reino taifa do qual se apossaram.
Antes que se agastasse com o sultão e seus emires, Jamal optou por encerrar, temporariamente, a negociação.
É sempre melhor interromper uma conversa que segue o rumo da fúria ou da perda do controle emocional dos participantes, por qualquer motivo.
A indisciplina dos sentimentos pode conduzir uma tentativa de diálogo a uma luta ferrenha, agravando uma desavença em vez de contribuir para sua solução.
Sabedor dessa realidade, o Califa de Córdoba amenizou o diálogo e com muito tacto encerrou o encontro, deixando a porta aberta à retomada das conversações, embora, de antemão, soubesse que aquilo era um sonho impossível.
Os emires africanos tinham posições radicais, fanáticas.
Não havia tolerância e abertura de ideias, base para qualquer negociação entre opositores.
De volta ao acampamento, reuniu o conselho de emires que compunham seu exército.
Expôs a situação, e eles deliberaram articular um plano de invasão para retomar a cidade que, afinal, ainda tinha um emir, entre a vida e a morte, em Córdoba.
Caso Nasser Al Gassim morresse, caberia ao Califa entregar a cidade a outro chefe, pois, pelo que sabiam, o filho e herdeiro morrera.
Jamal não se sentia plenamente de acordo com o rumo da reunião e a solução que ela parecia apontar. Temia um confronto armado e directo.
Os soldados sob o comando do xeque Omar, líder militar do sultão Kaleb, eram capazes das mais extremas crueldades, ele o sabia.
Eram cegos da razão, dominados pelo xeque que lhes tangia as cordas de sentimento apaixonados, para não dizer ensandecidos.
Seus líderes não sabiam o que iam enfrentar.
Ele sabia. Visitara o Oriente; conhecia muito bem a facção xiita de seu povo; sabia com quem estava lidando.
Ao cheiro de sangue os homens de Omar reagiriam como cães selvagens, violentos, estraçalhando suas vítimas.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 14, 2018 7:57 pm

Era precisa usar astúcia nessa luta, mas ele pensava, pensava, e nenhum plano lhe acudia à mente.
– Muito bem, vamos chamar Kiéram Simsons.
Ele é bom estrategista – e com um gesto determinou a Fátim que cumprisse a ordem.
Minutos depois, o mercenário cristão chegava à reunião acompanhado de um franzino guerreiro, de cabeça baixa.
Acomodaram-se nos lugares indicados.
Kiéram ouviu, paciente, as razões que haviam determinado sua participação na reunião do conselho dos emires.
Layla a seu lado, em silêncio, esforçava-se para se controlar cada vez que mencionavam seus familiares.
A reunião se estendeu, mas sem resultado significativo.
Deliberaram retomá-la no dia seguinte, pois era noite, estavam cansados e o raciocínio era lento.
Deitada, insone, Layla ruminava as informações a que tivera acesso durante a tarde.
Entendera a resistência e os temores do Califa, e o admirara por sua prudência.
Compartilhava com ele o desejo de retomar Cádiz e expulsar os invasores.
Queria vingar-se do que eles haviam feito a sua terra, seus amigos, sua família.
Um plano começou a desenhar-se em seu pensamento.
Ponderou os prós e contras, meticulosamente.
Questionou-se quanto ao que se impunha fazer, reconheceu que seria difícil.
Remexendo-se de um lado para outro, acabou vendo chegar a madrugada.
A água fria do mar auxiliaria a clarear sua mente.
Levantou-se e foi em direcção à praia.
Como era seu costume, não olhou para trás; não viu Kiéram que, também insone, abandonara a tenda antes e caminhava a esmo pelo acampamento.
Tampouco percebeu que ele a seguia e, escondido na duna, observava seu banho.
A brisa fria fez arrepiar sua pele ao sair do mar.
Andou apressada até onde deixara suas roupas e, ao abaixar-se para apanhá-las, sentiu-se observada.
Era uma percepção que desenvolvera no convívio com suas águias; sentia-lhes o olhar observando-a do alto do céu.
Naquele momento sentir recair sobre si um olhar atento, próximo.
Quase imperceptivelmente moveu a cabeça para cima, lançando o olhar na linha do horizonte, e avistou uma sombra na duna.
Com cuidado continuou vestindo-se como se não houvesse notado que alguém a observava.
Terminada a tarefa, tomou o arco e disparou uma flecha mirando rente a cabeça de quem a observava e gritou com voz grossa:
– Venha até aqui ou atirarei para matar.
Envergonhado, Kiéram ergueu-se e obedeceu, sentindo-se como quando era repreendido por uma traquinagem na infância.
Sabia estar errado invadir a privacidade de Layla e, mais envergonhado se sentia, por admitir o quanto lhe dava prazer observá-la na intimidade.
Era um voyeurismo, e ele ficou encabulado.
Cabeça baixa, encoberto pela sobra da madrugada, foi o porte e a voz que o identificaram.
– Perdoe-me, Layla – pediu ele humildemente, sem coragem de encará-la.
Fui fraco, deixei-me levar por um prazer clandestino.
Perdoe-me, juro que não voltarei a fazer isso.
Ao reconhecer a voz de Kiéram, a moça primeiro espantou-se; depois, ao ouvir sua confissão e notá-lo tão acabrunhado, tão reverente, pôs-se a rir.
Em sua memória desfilaram lembranças de Adara a falar-lhe dos homens e do quanto pode ser fácil a uma mulher dominá-los usando seu corpo erótico como arma.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 14, 2018 7:57 pm

Na atitude do amigo ela via a verdade das palavras de sua mestra nas artes da dança e da sedução.
Desconcertado, ele ouvia a inexplicável risada da jovem.
Não conseguia, nem tinha como, saber o que ela pensava, tampouco cogitava que sua atitude era uma espécie de referendo que faltava ao plano da filha do emir.
Kiéram não ouviu os passos de Layla; apenas soube que ela estava bem perto ao sentir sua mão delicada pousar em seu rosto áspero, com a barba por fazer e acariciá-lo.
Tomado de espanto, sentiu a mão da jovem descer pelo pescoço, roçar-lhe a nuca e a viu colar seu corpo inteiramente ao dele, oferecendo-lhe os lábios num convite silencioso, enquanto as mãos dela seguiam passeando, descobrindo o corpo masculino, fazendo com que sua respiração se tornasse acelerada.
– Layla, você sabe o que está fazendo? – indagou ele.
– Sei. Preciso disso, eu confio em você.
– Mas não se trata de confiança…
– Sim, para mim se trata de confiança – respondeu Layla, colando os lábios ao dele, impondo-lhe silêncio e liberando a paixão que brilhava no olhar de Kiéram.
Era a lição prática que faltava.
Precisava romper com o medo de ser violentada.
Em uma sociedade na qual a mulher era vista como coisa e objecto de troca na mão dos homens, para servir-lhes na produção de filhos ou na satisfação dos desejos sexuais, a presença da violência física era marcante em todas as suas formas, desde o espancamento sumário até o estupro; tudo podia acontecer.
Layla conhecia-se suficientemente bem para saber que não toleraria ser violentada, não queria essa marca e podia tê-la.
Na condição em que vivia, seu próprio corpo e suas artes convertiam-se em armas e ela precisava delas inteiras.
Ouvira histórias suficientes dos padecimentos de mulheres cujos homens haviam sido grosseiros e violentos no contacto sexual e do horror que elas carregavam, perdendo grande parte de seu poder de resistência e sobrevivência naquela sociedade onde eram consideradas algo semelhante a um animal de tração ou menos…
Ela decidira que tinha direito a, pelo menos, boas lembranças; afinal, era isso que preenchia seu passado; e preencheria, também, seu futuro.
– Por que fez isso? – indagou Kiéram já quando os raios solares alaranjavam o céu, ofuscando o quarto crescente.
Eu pensei que… bem, Munir raptou você e nessa condição, bem… eu pensei que…
– Que ele houvesse me violentado – completou Layla calmamente aninhada nos braços do mercenário cristão, aparentemente alheia ao facto de que sobre eles caía uma condenação mortal.
Eu jamais permitiria que aquele verme tocasse um dedo em mim.
Kiéram, não sei como será meu amanhã.
Eu cresci ouvindo lamentações de mulheres maltratadas; decidi que não queria o mesmo destino.
Sou uma pária, já lhe disse, preciso viver como tal.
Eu precisava saber como seria fazer sexo e, mais do que isso, eu confio em você, sabia que não seria maltratada.
E não tenho arrependimentos; ninguém acreditaria que era virgem, minha reputação já estava comprometida.
Apenas decidi exercer meu restrito poder de escolha nessa situação. Eu o escolhi.
– Que vida louca! – murmurou Kiéram, apertando-a contra si.
Eu sei que você tem razão, mas como eu gostaria que as coisas fossem diferentes.
Beijou-lhe os cabelos no alto da cabeça repetidas vezes e pediu:
– Prometa-me que irá se cuidar.
Prometa-me que mandará me chamar quando precisar, não importa onde e nem quando.
Eu atenderei seu pedido, tenha certeza.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 14, 2018 7:58 pm

Layla riu baixinho do pedido e, com o olhar luminoso e terno, respondeu brincando:
– Você não sabe o que está pedindo, mas eu prometo.
Se precisar, o chamarei.
– Outra coisa, Layla, você pode gerar um filho nosso.
Por favor, se isso acontecer, não me engane, nem esconde de mim.
– Não quero pensar nisso, Kiéram.
Ele não insistiu; permaneceu abraçando-a, protegendo-a da brisa fria que soprava, mas em pensamento não conseguia esquecer nem a experiência vivida nas areias da praia, nem o facto de que poderiam ter dado início a outro ser.
“Meu Deus, como esquecer?”, indagava-se em pensamento.
Quanto mais a pergunta se repetia, mais as cenas se tornavam vívidas em sua mente.
***
Nas ruínas da igreja cristã, o dia amanhecia com experiências bem diversas.
Karim, atendendo a insistência de irmão Leon – que soubera rapidamente cativá-lo –, decidiu partir para Córdoba, deixando os feridos aos cuidados do religioso.
– Vá, meu amigo – dissera-lhe ele.
Cuide de dar repouso à alma de seu parente.
Providencie-lhe um sepultamento digno.
Busque as autoridades de seu povo, ouço falar muito bem do Califa, há-de ser um bom homem.
Vá, sepulte seu amigo; depois volte com ajuda para os que ficam comigo.
Garanto-lhe que o que estiver ao meu alcance, para minorar-lhes o sofrimento do corpo, eles terão.
Se aceitarem minhas preces e algumas palavras, poderei lhes ajudar as almas.
Mas sei que, embora sejamos todos filhos de um mesmo Deus, muitos homens ainda teimam em aferrar-se às pequenas diferenças.
Eu não me importo.
Cuido para que meu coração seja livre dessas ideias que nos separam e que me olhos vejam o bem e o amor.
Meu amigo, acredite, não sou profeta, mas Deus fala comigo e, acima de tudo e de todos, eu ouço a voz dele.
Karim o olhou com estranheza.
A conversa do cristão soava como a de um louco; havia séculos que não se ouvia falar em profetas.
Será que entre os cristãos também havia sufis, crentes muçulmanos que buscavam uma experiência directa e concreta de religiosidade, que que queriam conhecer Deus.
Seu olhar abandonou o rosto do religioso franciscano e pousou sobre o local onde estava acondicionado o cadáver de Zafir.
“Ela, mais que qualquer um, merece ser sepultado com honra e dignidade, foi por isso que trouxe seu corpo. Córdoba não é tão distante.
Esse homem tem razão, se eu partir com os homens sãos ou com ferimentos leves, não são muitos, chegaremos lá ao fim da tarde.
Em poucos dias deveremos regressar com ajuda, ou até posso enviar de imediato, ao chegar à cidade, algum socorro.
É o que farei”, Ignorando as “esquisitices” de alguns argumentos de irmão Leon, Karim declarou concordar com o plano.
Depois visitou, um a um, os habitantes feridos de Cádiz que estavam lúcidos, explicando as razões de sua partida e orientando-os que aceitassem o auxílio ofertado de boa vontade.
Sob os raios solares da manhã partiu com um pequeno grupo estropiado rumo à capital de Al-Andaluz.
***
Em Córdoba, à noite, Amirah recebia a carta do irmão e o corpo de seu marido para sepultamento.
No acampamento militar o dia chegava ao fim, sem que tivessem tomado decisões significativos.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 14, 2018 7:58 pm

Sentada ao lado do amigo cristão, Layla ouvira todas as colocações feitas pelos líderes e as apreciações do Califa.
Em um intervalo, quando uma pequena confusão se formou em torno da refeição, ele aproximou-se do Califa e, puxando-lhe discretamente as vestes, murmurou:
– Preciso lhe falar.
Tenho um plano a sugerir. Entre todos, aqui presentes, eu sou quem melhor conhece Cádiz e a propriedade ocupada pelo sultão.
Mande chamar Kiéram e seu “novo auxiliar” para uma entrevista particular.
É importante.
Jamal notou a firmeza na voz da ousada mulher disfarçada de guerreiro.
“É insolente”, analisou ele.
“Está dando ordens ao Califa; será que ela percebeu?”
Ao notar, pouco depois o olhar dela cravado em si, frio e determinado, não teve dúvidas de que ela sabia o que fizera e agira atendendo a propósitos deliberados.
Obedecendo mais à curiosidade que a qualquer outro sentimento, Jamal faz o que ela determinara.
No compartimento principal da tenda do Califa se sentaram sobre um grosso tapete persa cercado de almofadas, num luxo tipicamente oriental.
Ela acabara de expor seu plano, e os dois homens a olhavam com assombro.
Trocaram olhares entre si, não havia como não reconhecer que a moça era astuta, inteligente e perigosa.
A ideia era viável, nas próprias palavras dela: não oferecia riscos, senão a ela que a estava propondo.
Entretanto, se fosse exitosa, seria de proveito geral.
Jamal fez um gesto determinando a Kiéram que se aproximasse mais e confabularam rapidamente.
– Aceito o plano e louvo sua coragem, Layla Al Gassim.
Saiba que, se for exitosa, será recompensada – declarou o Califa.
– Não busco recompensa, Califa.
Quero justiça, ou melhor, serei honesta, quero vingar a morte de todos que amei.
Não tenho nada mais a perder.
Já me tiraram tudo.
Kiéram abriu a boca para protestar, mas a lembrança de onde estavam fez com que as palavras morressem na garganta.
Seu olhar, porém, gritava protestos ao que ouvira, como a clamar:
“E eu? O que sou?
Nada? Não, não é verdade.
”Ruminando suas apreensões, Kiéram retornou com Layla à tenda que dividiam.
Ao entrarem, a tomou pela mão e levou-a ao compartimento principal que ocupava, a abraçou forte e murmurou em seu ouvido:
– Você se tornou a favorita do Califa em palavras, mas ainda não sabe de tudo.
Fique comigo esta noite porque eu confio em você.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 14, 2018 7:58 pm

O PRESENTE
– Jamal Al Hussain é um homem surpreendente – declarou o sultão Kaleb ao xeque Omar com que despachava no antigo gabinete de Nasser Al Gassim, agora propriedade sob ocupação.
A mensagem trazida é um convite para um banquete no acampamento.
– Um banquete? – estranhou o xeque coçando o cavanhaque preocupado.
Qual a razão para um evento social?
– É o que lhe digo, é um homem surpreendente.
É também uma cobra diplomática, do tipo que se enrosca em sua vítima para matá-la asfixiada, moer-lhe os ossos, de preferência, para depois a engolir. Eu sei.
– Sendo assim, podemos pensar que ele deseja enroscar-se em nós.
A questão é: deixaremos?
– Não sou homem de deixar que me envolvam em manobras diplomáticas.
Sei o que quero e o que viemos fazer.
É hora dessa dinastia sunita desaparecer; estão esfacelando a verdade de nossa religião.
Não nos interessa universidades, artes, saber se o povo desconhece seu real compromisso com Deus e as verdades a nós confiadas.
Não posso permitir que tudo se degenere; não tolero traidores e infiéis como os outros povos do livro.
Os olhos do sultão pareciam crescer nas órbitas, querer aram-se rubras sob a pele morena queimada pelo sol africano dos desertos do Egipto.
O fanatismo o incendiava, e o ardiloso xeque Omar manejava esse fanatismo para enriquecer suas arcas, navios e propriedades.
Omar era um homem violento e ambicioso.
De índole apaixonada, era extremado em tudo.
A função de homem de confiança do sultão, de ter uma posição política destacada junto aos outros xeques era cómoda, caia-lhe como uma luva.
– Recusaremos o convite, então.
Mas, meu caro sultão, se me permite externar minha opinião, não creio que devamos negar a oferta de hospitalidade do irmão sunita.
Penso que deveríamos ir, ouvi-lo, observá-lo; seria uma excelente oportunidade de avaliar suas tropas e armas.
É sempre prudente conhecer o inimigo.
Além do mais, cientes, como estamos do carácter de nosso anfitrião, não há o que temer.
Creio que deveríamos ser dóceis, mas atentos – comentou o xeque, andando de um lado para outro numa fingida preocupação com o convite do Califa, como se ponderasse as ideias do sultão.
Entretanto, era sincero quando dizia desejar observar Jamal Al Hussain.
Afinal, era o mais importante muçulmano do Ocidente.
O sultão Kaleb o encarou e ficou pensativo ante a argumentação exposta.
– Você tem razão, Omar.
Não tenho por que temer e recusar o convite do banquete.
A oportunidade é muito boa e, principalmente, se ele crê que estamos dispostos ao diálogo, a evitar o enfrentamento, isso os deixará desprevenidos para a batalha real.
– Excelente visão, meu sultão – elogiou o xeque.
Eu mesmo redigirei o comunicado de nossa aceitação e agradecimento pela renovada “oportunidade de entendimento”.
O sultão apreciou a ironia na voz de Omar e, entre risos, disse:
– É hilário! Ah!
Se ele sonhasse… sim, sim, informe-o de que aceitamos e “estamos ansiosos pelo encontro”.
O xeque baixou a cabeça, deu meia volta e saiu da sala.
Caminhou apressado ao compartimento onde encontrou o material necessário à elaboração de uma missiva rápida.
Entregou-a ao mensageiro e voltou ao gabinete onde o sultão o esperava.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 14, 2018 7:58 pm

– Cumprido – informou o xeque ao sentar-se em frente a Kaleb.
Só precisamos aguardar o cair do dia. E o mistério se desvanecerá.
***
Kiéram e Romero retornavam ao acampamento já próximo ao entardecer.
Acompanhava-os uma mulher, enrolada em uma manta azul, ostentando uma corrente de ouro a enfeitar-lhe a testa com um pingente em ouro com o formato de quarto crescente lunar.
Ela parecia frágil, de estatura mediana, cabeça altiva.
Chamava a atenção a perfeição de seus traços e os belos olhos negros, profundos, inquietos e misteriosos.
Parecia que se sentar de lado na montaria não lhe agradava, pois vinha com o tronco voltado para a frente.
Não era como as outras mulheres, que olhavam a vida passar a seu lado.
Ela encarava o horizonte e cavalgava ao seu encontro – eis a mensagem corporal que transmitia.
Montava como “devia” montar uma mulher – aliás, uma posição que transmite a visão de alguém que observa a vida passar, que é levado, conduzido sem ter as rédeas do cavalo do destino nas mãos, andando de um lugar a outro sempre sob o comando de uma vontade alheia à sua –, com as pernas fechadas, absolutamente decente, mas o tronco virado para a frente denunciava a rebeldia interior da amazona e seu desconforto.
Romero olhava ora para a mulher que saíra do acampamento como um saco e voltava como a “escrava favorita” do Califa e ora para seu comandante cristão, visivelmente zangado, aflito, diria preocupado como nos momentos que antecedem uma batalha séria.
Ela, ao contrário, era uma criatura muda, decidida, misteriosa.
Não conseguir distinguir nos olhos dela nenhum sentimento especial, nenhum pensamento, nem ao menos um brilho fugaz que revelasse um pensamento inconfessável ou travesso; havia apenas aquela profundidade misteriosa, indefinível, que, ao encará-la enquanto a auxiliava a desmontar em frente à tenda do Califa, por fim ele conseguiu definir com um comparativo.
Layla Al Gassim, ao ver do soldado Romero, tinha olhar de serpente: encantam enfeitiça, paralisa e pode ser mortal, mas não revela nada.
Ela manteve a cabeça baixa, não olhou para nenhum lado, andou apressada para o interior da tenda.
Sabia, afinal, comportar-se como convinha a uma muçulmana, ainda que escrava de harém, concubina do Califa.
Kiéram acompanhou com o olhar a trajectória de Layla.
Entendia que ela, naquele momento, deixava de ser a pária que compartilhava a tenda e a intimidade com ele, para representar um status feminino que, absurdamente, tinha mais privilégios do que a condição em que vivera antes.
– Permita Deus que esse plano ousado e perigoso tenha êxito, caso contrário, somente ela arcará com as consequências, apesar do envolvimento do Califa – murmurou Kiéram ao conduzir seu cavalo para a parte do acampamento onde ficavam seus homens.
O aroma de finas iguarias da culinária árabe enchia o ar.
Um verdadeiro banquete fora preparado.
A fogueira ardia no centro do pátio em frente à tenda principal, ocupada por Jamal; um grupo de músicos substituía a cadência militar pelo som das flautas e pandeiros num ritmo lento e sensual.
Jamal, trajando sua melhor túnica, caminhava, averiguando se tudo estava a contento, se nada havia sido esquecido.
Notou que detalhe fora, minuciosamente, pensado, Layla não esquecera nenhum, sem dúvida era uma mulher bem-nascida e preparada para uma vida entre a nobreza.
Satisfeito, retornou à sua tenda.
Na hora aprazada os convidados fizeram anunciar sua chegada e Jamal os recebeu como se sobre Al-Andaluz não houvesse nenhuma ameaça, como se o reino destruído nunca houvesse existido e aquele encontro não estivesse sendo realizado em acampamento militar.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 14, 2018 7:58 pm

Entreteve os convidados com maestria.
O sultão e o xeque, de início desconfiados até dos alimentos que eram ofertados foram, pouco a pouco, relaxando e passaram a apreciar a hospitalidade do Califa.
Fartos de comer e beber, gastavam o tempo em conversas sem importância quando o sultão chamou a atenção para a música que o lembrava do Oriente distante.
– Ao menos o bom gosto de nossa cultura é preservado nestas terras – alfinetou o sultão.
Não há como nossa verdadeira música.
Esses ritmos misturados que se ouvem tanto por aqui são horríveis.
E as danças… Argh!
Jamal optou por ignorar a desdenhosa opinião e a crítica ao modo de vida dos muçulmanos por ele dirigidos, com maior liberdade de costumes do que o sultão julgava correto.
Mas o argumento serviu como deixa pera ele introduzir o assunto que faria desenrolar o plano.
– Sultão Kaleb concordo com sua opinião, em parte, é lógico.
Mas esta note não vamos discutir.
Não tenho esse propósito.
Eu os recebo em Al-Andaluz e é meu dever alegrá-los.
Gosta de música e dança? Entendi bem?
O xeque Omar passou a encarar o Califa com redobrado cuidado.
O zelo e o temor que haviam reinado voltaram repentinamente, como se ele pressentisse algo ruim, um perigo no ar.
– Qual homem, meu caro Califa, não aprecia a beleza da dança oriental?
Ouça estas flautas, são lindas – confirmou o sultão.
Na minha terra não se troca a boa música e a dança por discussões filosóficas.
A religião nos ensina tudo o que precisamos saber, e a vida nos oferece boas coisas para usufruir.
Belezas, formas harmoniosas, reservadas e resguardadas para nosso prazer.
O xeque pigarreou e lançou olhares descontentes ao sultão.
O rumo da conversa, a seu ver, não era adequado a chefes militares.
Lembrar-se de fraquezas do espírito não era bom tema; debilitava a vontade e o corpo; destilava na mente pensamentos inoportunos.
Jamal sorriu ao observar o desespero calado do xeque.
“Nosso religiosíssimo sultão é um homem fraco.
Será que Layla adivinhou seu calcanhar de Aquiles?”, pensou ele.
Fingindo não ver a atitude de Omar, insistiu no assunto, aclarando o tema e levando o sultão a falar sobre as mulheres que deixara em seu reino.
“Luxúria. Sensualidade.
E todo o puritanismo de seu discurso que se aplique aos outros!
Toda essa rigidez de conceitos é apenas para esconder uma licenciosidade de práticas na vida pessoal.
Maravilhosos! Só espero que Layla saiba, de facto, usar essa arma”, pensava Jamal ao ouvir os relatos do sultão, o que talvez pudesse qualificar como orgias.
Os olhos de Kaleb brilhavam; as faces avermelharam-se; seus gestos eram nervosos; a voz se elevara e notava-se que salivava.
Jamal não pôde deixar de sorrir e, fingindo acompanhar seu destempero, segredou-lhe ao ouvido:
– Nunca viajo, nem para acampamentos militares, sem levar ao menos uma de minhas escravas.
Tenho muitas, mas sempre…
– Há uma mulher aqui? – indagou o sultão, baixando a voz.
E seus homens?
Ah, eles não sabem; não, isso não é possível…
– Eu mandei buscar minha favorita quando percebi que nossas negociações poderiam se alongar.
Está comigo há pouco tempo.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 14, 2018 7:59 pm

É um sonho, uma beleza morena.
Quando a vi, logo me veio à lembrança a história do Carregador e das três jovens de Bagdad.
Minha escrava reúne a beleza das três irmãs em um único corpo.
O sultão riu gostosamente.
A história era antiga e por demais conhecida.
Caía-lhe no agrado a narrativa de todos os prazeres que ela encerrava; era indecente na medida certa para acossar ainda mais o carácter libidinoso de Kaleb.
Aproveitando-se, habilidosamente, da reacção de seu convidado, Jamal, pôs-se a recordar trechos da história que exaltavam qualidades físicas das irmãs de Bagdad, reportando-as à sua escrava.
– AH! Tenho mulheres lindas em meu harém – gabou-se Jamal.
Mas esta que tenho comigo é uma das mais belas.
Do tipo que nos faz pensar em poesia.
– Poesia?! – riu jocoso o sultão envolvido pela artimanha de Jamal, para desespero do xeque que a tudo assistia calado e com visível desgosto.
Só se for:
“Se acaso medires seu talhe com ramo húmido, sobrecarregarás meu coração com inúteis pesos, pois o ramo é melhor que o encontremos coberto, enquanto tu, é melhor que te encontres desnuda”.
Jamal riu e bateu palmas três vezes – era o sinal combinado com Layla.
Para surpresa do sultão, a mulher saiu da tenda do Califa, enrolada em um manto azul, de cabeça baixa.
Em silêncio aguardou ordens de seu amo, numa evidente demonstração de submissão.
– Dance para meus convidados – ordenou Jamal.
Ela assentiu com um gesto de cabeça, sem encarar os homens.
Retornou para o interior da tenda e de lá saiu quando ouviu os acordes da música que determinara a Jamal que fizesse executar.
Lânguida, sensual, permitia que ela demonstrasse tudo o que aprendera com Adara.
Atrás da porta da tenda, ela lançou longe o manto.
Usava uma roupa que deixava descoberto seu ventre, enfeitado com correntes de ouro e pequenos pingentes; os braços desnudos estavam enfeitados com jóias; em seu colo o ouro também brilhava.
Os seios fartos estavam perfeitamente delineados deixando pouco à imaginação, o mesmo com os quadris e as pernas, cobertos por um tecido vermelho transparente.
Naquele conjunto, o véu que a encobria tornava-se mais uma artimanha sensual do que um artefacto religioso.
E ela o sabia.
Era preciso expor, mas a lição de sabedoria de suas antepassadas ainda era válida:
é preciso deixar espaço ao mistério no jogo da sedução e do encantamento.
Antes de ingressar no pátio, Layla rememorou um a um seus familiares, seus amigos, a terra onde crescera e fora tão amada.
Precisava de força, e a encontrou no ódio que sentia por aqueles homens para os quais dançaria.
“Alá, misericordioso, ampara-me.
Eu me converto em arma para que a justiça se faça.
É da lei que, sendo mulher, tenho direito de me defender com as mesmas armas; sei que não estou usando somente as armas dos homens, estou usando a arma que Tu deste a todas nós, mulheres.
É a nossa natureza, é para nossa defesa nesse meio, tanto quanto as garras e presas dos animais.
Sou Teu instrumento.
Farei justiça a todos que amei e me foram usurpados.”
Com um brilho intenso no olhar e uma energia que pulsava em cada músculo de seu corpo, Layla saiu dançando.
Encarou o sultão e o xeque; teve vontade de rir do espanto deles, e mesmo de Jamal.
Nenhum escondeu a cobiça que sentia ao vê-la requebrar, mover os quadris, inclinar o corpo e lançar-lhes os braços num gesto convidativo.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 15, 2018 8:09 pm

Eles viam a dança, extremamente sensual, da escrava do Califa por entre as labaredas da fogueira que ela habilmente usava como cenário.
Ao senti-los presos a seu encanto, Layla passou a dançar em torno da fogueira, movimentando-se em frente a eles, sem nenhum obstáculo, e a encarar fixamente o sultão, com seu olhar de serpente, insinuando que dançava para ele.
Kaleb não resistiu e acariciou as pernas da dançarina que movia o ventre à sua frente, numa entrega total aos encantos dela, esquecido de que o “senhor” da bela escrava sentava-se a seu lado.
– Linda – murmurava ele, correndo as mãos pelas pernas de Layla.
Bem disse de ti há pouco, sem nunca ter posto meus olhos em ti:
é melhor te ver desnuda.
– Quer levá-la esta noite, sultão Kaleb?
Se lhe agrada, eu a oferto a você; como disse, tenho várias e estou perto de casa.
Kaleb lançou um olhar rápido ao Califa e não titubeou em aceitar.
– É um homem generoso, Jamal Al Hussain.
Esta jovem é uma propriedade preciosa.
Não gostaria de tê-la por uma noite, faça um preço e eu a compro.
O xeque Omar levou a mão ao rosto.
A situação piorava a cada segundo e, agora, fugia definitivamente ao controle.
A questão era perigosa e, conhecedor do carácter do sultão, sabia ser inútil aconselhar-lhe o contrário.
Só lhe restava a esperança de que ele agisse como o fazia em seu reino – depois de satisfeito, se a escrava se tornasse inoportuna ou rebelde, mandava matá-la sem pensar duas vezes.
Era um homem violento e não poupava suas mulheres.
A revolta rugia dentro de Layla.
Em vez de requebrar o ventre, sentia vontade de dar pontapés no sultão, mas canalizou as energias para tornar sua dança ainda mais vibrante e provocativa, levando o sultão a implorar que o Califa fizesse um preço pela mulher.
Ante o silêncio do anfitrião, fez uma oferta de valor exorbitante que o embasbacou.
Não havia pensado na hipótese de vender Layla, tampouco imaginara a gloriosa beleza da apresentação sensual da filha de Al Gassim, nem que se sentiria tão perturbado.
Precisou sentir a força do olhar da dançarina sobre si, encará-la e captar um gesto imperceptível de aquiescência, para declarar que aceitava a proposta.
Não era necessária grande sensibilidade para entender que o sultão desejava ir embora.
O banquete estava acabado.
O negócio sacramentado.
O secretário do Califa, acompanhado de alguns soldados, iria receber o pagamento e efectuar a entrega da escrava ao sultão, nas portas de Cádiz.
Escondido nas sombras da noite, Kiéram assistira ao banquete.
Sentira punhaladas de verdadeiro ódio ao ver o sultão atrevidamente acariciar Layla.
Acompanhou à distância a entrega da “escrava”.
Sofrendo, viu-a caminhar ao encontro dos inimigos africanos, sem olhar para trás.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 15, 2018 8:09 pm

A REPRESENTANTE DE NÉMESIS
Ximena conduzia Ibn Rusch devagar, parando a cada degrau da escadaria.
Respondia às perguntas do sábio médico, esforçando-se por conter as suas.
Não era adequado a uma criada, ainda que com regalias, indagar um cidadão.
– Não houve nenhuma crise mais séria com nossa querida Amirah ao saber da morte do marido?
– Não. Ela está calma, quase nada da rotina se alterou.
Apenas o que é de costume nessas ocasiões, mas como minha
recebe poucas pessoas…
– Entendo. Creio que Jamal se precipitou ao realizar o casamento dela com Munir.
– Bem, se o Califa errou, a vida corrigiu – defendeu Ximena, automaticamente.
– É uma forma interessante de ver a situação.
Pobre Amirah!
Viúva e nem sequer completou um ano de casada.
Foram meses, não é?
– Cinco.
– Graças a Deus, a saúde dela resistiu ao abalo de tantas mudanças.
Mais difícil foi o primeiro mês; por Deus que cheguei a pensar que ela nos deixaria.
– Não diga isso, senhor Ibn, nem de brincadeira.
O Califa sofreria muito se isso acontecesse.
– Bem, é melhor, então, que ele reveja seus sentimentos pela irmã, pois o certo é que morreremos e não sabemos o dia e nem a forma.
Veja o caso do falecido emir Al Jerrari.
Não brigou tanto, não renegou a doença de Amirah, não queria ferir o Califa, não fez tantas bobagens cego em sua arrogância, vítima de seus desejos mesquinhos?
No que deu? Está morto.
Ninguém escapa da morte e, por maior que seja o conhecimento das doenças e dos métodos de cura, somos falíveis e imperfeitos por natureza.
A vontade de Alá é soberana.
Pequena Ximena, o homem é criado para amar, por amor; apegar-se e iludir-se que temos o poder de impedir o sofrimento de cumprir seus propósitos não é saudável, nem para o espírito nem para o corpo.
Antes de vir para cá, pensava nesse assunto:
por que é tão difícil dar liberdade a quem amamos?
Somos tão apegados e possessivos que cremos ter mais sabedoria e poder que o próprio Criador, o amor supremo.
Chegamos aos píncaros do absurdo de não aceitarmos a maior das verdades da vida – a morte – para aqueles que amamos, como se vivêssemos à parte das leis de Deus.
Não é espantoso que se pense assim?
Ximena ouvia o sábio encantada.
Ibn vivia, sem dúvida, muito mais a vida mental e interior – a vida da alma, alheia às normas e tradições terrenas de comportamento.
Obedecendo às leis desse reino interior, não fazia distinções, nem discriminações de qualquer espécie.
Tinha a certeza plena da capacidade intelectual de sua ouvinte, mesmo sendo ela mulher, cristã, sem descendência semita, alguém sem direito algum, literalmente “uma coisa”, objecto de troca mercantil pura ou disfarçada sob o nome de casamento.
– Há tanta coisa espantosa no mundo – comentou Ximena.
Não nascem todas na mente dos homens?
– É verdade. Todas essas “coisas espantosas” existem primeiro na cabeça dos homens.
E o verdadeiramente espantoso é que eles não percebem; e agem, falam, escrevem governam a própria vida e alguns ainda se responsabilizam pela vida dos outros.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 15, 2018 8:09 pm

É preciso cultivar o conhecimento, desenvolver as capacidades intelectuais do homem, fazer pensar.
Como incomoda quando fazemos perguntas, não é mesmo?
– Não sei, senhor.
Não posso perguntar para muitas pessoas…
Chegamos. Vou anunciar sua visita.
Por favor, aguarde.
Deixando Ibn Rusch aguardando na pequena saleta íntima que antecedia o aposento principal de Amirah, a criada bateu suavemente na porta e foi ao encontro da ama.
Amirah estava sentada ao lado da janela, como de hábito, atrás da cortina.
Tinha o rosto mais pálido que de costume e os olhos levemente vermelhos e inchados.
Saudou Ibn com genuína afeição e o fez acomodar-se a seu lado.
– Você está bem? – perguntou ele, tomando-lhe a mão e correndo o dedo para o pulso, o que a fez rir e afastar-se do contacto.
– Quem está comigo:
meu amigo Ibn ou o médico que veio me examinar?
Encarando-a, ele respondeu com sinceridade:
– Se não posso ser o dois, não posso ser inteiro.
Não me queira partido a seu lado.
É muito triste viver divisões.
– Hum… Sempre me ganha pela sabedoria de suas palavras.
Está comigo meu mestre – retrucou Amirah, sorrindo.
– Sim, estou bem.
Acabou um período de prisão em minha vida.
Não precisava ter sido de forma tão drástica, mas… a cada dia, eu penso, construímos nossa morte.
Munir construiu a dele em pouco tempo.
– Morreu em um acidente no acampamento?
Foi o que me disseram.
– Foi o que também me disse Jamal.
Entretanto, como viúva, assisti ao preparo do cadáver para o funeral.
Munir morreu com uma flecha na garganta.
O ferimento não mente.
Pergunto-me: como pode alguém se acidentar dessa forma?
– Suspeita que ele foi assassinado?
Por que o Califa encobriria o crime?
– Talvez fosse merecido.
Meu irmão há de ter fortes razões para agir assim, tenho certeza.
Quando nos encontrarmos, ele me explicará.
Não tenho pressa. Lamento por ele, mas não o que seria esperado de uma jovem viúva.
Meu casamento era a pior prisão que já experimentei.
Espero não ser mais constrangida a esposar ninguém.
Prefiro juntar-me a alguma comunidade sufi, que aceite mulheres, em algum lugar do Oriente e cuidar das sepulturas de santos.
– Não consigo imaginá-la numa vida ascética.
Você não foi criada para os voos da religiosidade, e, sim, para os da razão, minha boa amiga.
Não posso imaginá-la longe de Córdoba – retrucou Ibn.
O que farei quando houver doentes a tratar, livros a escrever, com quem vou conversar?
– Não esqueça de colocar na sua lista de actividades o cuidado com o estado moral das pessoas, que você faz com zelo exemplar.
Sim, devo crer que em toda Córdoba, a maior e mais populosa cidade da Europa, não haja mais ninguém com quem você possa conversar.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 15, 2018 8:09 pm

Não exagere, Ibn.
– Não estou exagerando.
Você é que está.
Exagera no pouco apreço a sim mesma.
É uma mulher de inteligência e cultura extraordinárias, não preciso mentir para “cuidar do seu estado moral”.
Agora não estou fazendo isso, embora seja uma necessidade de todo aquele que cuida de corpos doentes também tocar a alma, os sentimentos.
Se não fizer isso, conseguirá recompor tecidos, vai cuidar de uma ferida aqui – e apontou um ponto aleatório do próprio ventre –, ela vai fechar para reabrir mais adiante.
Hoje, logo cedo, precisei irritar um doente.
Imagine que ele estava com pena de si mesmo, prostrado no leito, sentindo-se a última das criaturas.
As esposas – em conselho – alegaram já terem dito e feito de tudo para consolá-lo, sem nenhum resultado.
Ficaram escandalizadas com meu procedimento.
Ibn ria, lembrando a encenação que fizera com o paciente, despertando a curiosidade de Amirah.
– O que você fez?
Ameaçou o coitado com o fogo do inferno?
– Não, ele não teria nenhum temor.
Já aprendi que para quem tem pena de si o fogo do inferno é um motivo a mais para se lamuriar.
Não, não fiz isso.
Eu fui estúpido, grosseiro em palavras, atitudes e até ao examiná-lo.
Provoquei até que ele se enfurecesse comigo.
Disse-lhe que não aguentava mais a doença dele, chamei-o de covarde, sem valor, falei que gostava de ser mimado por mulheres e viver sem trabalhar jogado numa cama a gemer… e mais algumas outras coisas que não
vou repetir.
Encerrei declarando que da forma como ele estava piorando eu acreditava que ele ainda ia incomodar vários anos naquele estado, porque tudo era lento, até a evolução da doença, que não regredia nem melhorava.
Que horror! – espantou-se Amirah.
Não se surpreenda se ele dispensar seu trabalho.
– Pode ser.
Mas eu o curei, ou, pelo menos, o fiz encontrar energia para buscar o caminho da cura.
Ele me detestou, odiou tudo que lhe disse.
Quando saí de seu quarto, pude ouvir as ofensas que ele lançava quando a porta de fechou.
Eu vi seu rosto ficar vermelho e senti sua pulsação acelerar.
Por experiência, aposto que amanhã o encontrarei fora da cama e, em poucos dias, ele me dirá que as novas prescrições – as mesmas que ele tinha, apenas mudei nomes – enfim
solucionaram seu problema e fizeram efeito, e quando estiver melhor vai me dizer alguns desaforos velados.
Ao pagar-me, lhe direi que está curado; autopiedade não leva a lugar nenhum.
– Eu que o diga.
Fosse cultivar esse sentimento viveria de que forma?
Talvez já estivesse morta.
Quando falei em cuidar do estado moral de seus doentes, não havia imaginado essa forma de “tratamento”.
Tinha pensado em elogios, carinho,
atenção.
– Para cada doente um tratamento, Amirah.
Elogios, incentivo, atenção, afectos são terapêuticos, mas não posso usá-los ndiscriminadamente.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 15, 2018 8:09 pm

Há situações em que usar ou despertar sentimento mais violentos, e até grosseiros, é necessário.
Eu vejo no fundo da autopiedade uma alma tomada pelo medo.
O doente antecipa a própria morte, que teme com horror; lamenta-se como se estivesse em seu funeral, chora pela dor dos familiares e não enfrenta o tratamento, as mudanças necessárias, as dores que deve suportar.
Povoa o pensamento com fantasmas de um futuro temível.
Isso lhe tira toda força.
Faz com que viva distante do momento e das questões do presente.
É como se eu tratasse um corpo sem alma.
Em uma pessoa nesse estado muito chamego só torna suas angústias piores e suas lágrimas mais abundantes.
Por raiva e por orgulho ela melhorará.
O ser humano é muito complexo; e mais complicado que a anatomia do corpo e das doenças é o mundo invisível que carrega no íntimo.
Esse é devastador.
– Um mundo invisível dentro de mim – filosofou Amirah, contornando o desenho dos arabescos do tecido da cortina com o dedo indicador.
Há também um mundo encoberto pela pele.
É muito parecido com o olhar a rua pela minha janela.
Eu vejo um mundo invisível de relações.
– Expressões do que cada um carrega nesse invisível interior.
Isso do que eu falo não é tão invisível assim; diria que é tão invisível quanto o organismo oculto sob a pele.
Eu posso ouvir, apalpar todos os seus órgãos.
Seu eu cortar sua pele e sua carne, vou vê-los.
O interior invisível pode ser examinado e conhecido por quem tem um olhar atento.
Só não posso apalpá-lo, eu acho; a forma mais comum de examiná-lo é vendo e, principalmente, tocando as pessoas.
– Também não adiantará cortar pele e carne.
– Não, não vai adiantar.
Uso meus ouvidos e meu pensamento.
É uma medicina muito… pouco refinada.
Sem medicamentos, sem instrumentos, cada um tem uma anatomia muito diferente.
Existem apenas alguns sentimentos que identifico com qualquer pessoa.
Afinal, como disse antes, eles acabam sendo a doença e o medicamento ao mesmo tempo.
Funcionam como antídotos.
– É mesmo. Existem sentimentos que passeiam no rosto de todo mundo.
Outros não. Há alguns até bem raros.
A cólera é dos que passeiam frequentemente.
Estranho que possa curar, ter uma utilização positiva.
Sempre a associei com morte, destruição.
– Destruição é um tema muito amplo, Amirah.
Nós estamos destruindo a todo instante.
Para beber o chá de hortelã que você mandará que nos sirvam, pois estou com sede – sugeriu Ibn sorridente –, foi preciso que alguém “colhesse” a planta e assim destruísse sua vida, afinal ela é um ser vivo.
Meu paciente estava se destruindo por não tomar contanto com a ira, veja que disparate.
Outras pessoas matam um semelhante, quase sempre uma mulher, e alegam que agiram por amor.
Bem, então amor mata. Sabe, quando penso nesse “interior invisível”, às vezes eu faço comparações com o corpo visível, tangível.
Temos vários órgãos, cada um serve para uma função específica, e todos têm que estar harmónicos para que nos sintamos bem.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 15, 2018 8:10 pm

Eu não posso simplesmente tirar um órgão vital e dizer que ele não faz falta, que é dispensável ou que é ruim; o mesmo se dá com os sentimentos.
Há alguns que são vitais, “passeiam” em todos nós, não são bons ou ruins por excelência.
São necessários ou o Misericordioso criador da vida não nos teria dado a capacidade de experimentá-los.
Nós, seres humanos, é que somos.
Melhor dizendo, estamos – apenas estamos, pois creio que todos são capazes de mudar – bons ou ruins.
– Vou pedir o chá – informou Amirah e bateu palmas chamando Ximena; fez o pedido à criada e voltou a atenção ao visitante:
Adoro conversar com você.
Hoje está disposto a encher minha cabeça de ideias, a fazer-me questionar meus valores.
Você não acha que a bondade não é transitória?
Não é precipitado dizer: estamos bons?
– Não, possuir um carácter marcado pela bondade é coisa rara.
Tão rara, que nossos olhos não identificam facilmente e não compreendemos, a meu ver, o que seja bondade.
Parece-nos que boa é aquela pessoa que concorda connosco, que cumpre seus deveres, que é afável, doce, gentil.
E tenho visto que nem sempre é assim.
Voltando ao meu exemplo: quando eu tratei com afabilidade meu doente, ele não melhorou, portanto eu não fui bom, nem competente.
Quantas vezes concordamos com os pedidos alheios para não nos incomodar, pouco nos importando com o resultado.
Em outras situações, somos cordatos, gentis, delicados, doces e hipócritas, mentirosos e desonestos, porque agimos em total discordância com o que estamos sentindo.
Aproveitamos que é invisível, não é, e fingimos.
Aparentamos tudo o que comumente se diz de uma boa pessoa, sem que, de facto, sejamos.
Aliás, cada um de nós se acha o centro do universo e filho único de Deus.
A briga das religiões é um reflexo disso:
todas querem ser criadas e dirigidas pelos ensinamentos do mais amado filho de Deus, desfazendo-se dos outros.
Nesse aspecto, o profeta Yeshua é imbatível, diz ele que bondade se encontra apenas em nosso Pai Celestial.
Nós, quando muito, estamos bons.
É como acontece com nossas orações, precisamos repeti-las ritualisticamente a fim de desenvolvermos o hábito de conversar com Deus.
Assim também precisamos praticar actos de bondade até que se tornem um hábito e depois sejam naturais em nosso proceder.
E precisamos reflectir muito sobre o que é ser bom.
– Intercalamos, somos mistos de bondade e maldade; de honestidade e de mentira…
– Penso que sim.
Você pense e conclua por si – declarou Ibn, e como Ximena ingressasse na sala com a bandeja do chá, calou-se.
Depois, buscando redireccionar a conversa, indagou:
– Mas me diga: afora a morte de Munir, alguma outra notícia sobre a nova invasão?
Gritos vindo de fora interromperam o diálogo.
Amirah voltou o olhar à ruela calçada.
O barulho era por causa da entrada de um grupo de cavaleiros maltrapilhos e feridos.
O chefe vinha empertigado sobre o cavalo, sujo, com a testa sangrando, a escorrer um filete vermelho pelo lado de sua face.
Espantada, a princesa levou a mão à boca.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 15, 2018 8:10 pm

– Por Deus é o filho de Nasser Al Gassim – reconheceu Ibn.
Ele vem para cá.
A vida respondeu à minha pergunta com muita pressa.
Se me permite, vou deixá-la para atendê-los.
Precisam de ajuda.
– Eu também vou – declarou Amirah, recompondo-se.
Ximena, mande chamar as esposas de nosso hóspede.
Não ouse me impedir, meu irmão não está em Córdoba.
***
Apesar da exaustão causada pela tensão e pela caminhada entre o acampamento e as portas da propriedade invadida, Kiéram tinha a mente excitada e nenhuma vontade de dormir.
Naquela noite, literalmente, ele esquecera que todos os mortais dormem.
Viu nascer o dia sentado sobre as dunas, próximo da praia.
A maresia era uma lembrança do cheiro de Layla, não a filha do emir, mas a mulher corajosa e frágil que tivera nos braços.
A criatura que fora capaz de matar seu agressor e, ao ato de vingança, atrelar uma dupla piedade – o executara sem crueldade e na defesa de um amigo.
Tentar julgar o carácter da rebelde muçulmana era uma tarefa por demais exigente para um juiz humano, quiçá para ele que se sentia tão comprometido.
Negava-se a pensar no que ela poderia estar vivendo entre os muros da propriedade onde um dia fora princesa e à qual voltara, naquela noite, como escrava de harém, adquirida a preço de ouro para satisfação da grosseira cobiça de um sultão inimigo.
Ela perdera todo e qualquer status diante da sociedade da qual fazia parte.
Uma construção absurda de leis e costumes humanos era seu algoz, e ela convertia-se numa anónima heroína daquela mesma sociedade e cultura, arriscando-se a pagar com a própria vida o preço da libertação e expulsão dos muçulmanos vindos da África e de suas ideias religiosas radicais.
Fazia isso movida pelo desejo de vingar seus amores mortos na invasão da cidade, mas, se fosse exitosa, seus actos de bravura, ainda que vingativos, teriam efeitos benéficos a toda população de Al-Andaluz.
Como julgá-la?
Não, Kiéram não se atrevia a tanto.
“Quem sou eu – pensava ele –, provavelmente fizesse o mesmo ou pior.”
Admitia que talvez não tivesse coragem para nada, nem para errar catastroficamente, nem para acertar e tinha a consciência de que coragem era um bem necessário a todo aquele que se arrisca a viver, crescer e sujeita-se a enfrentar adversidades naturais ao processo.
Sabia que esse “agir e viver com o coração” não era nada fácil.
Conhecia poucas pessoas corajosas; conhecia muitas imprudentes, temerárias, algumas até de conduta insana ante o perigo e sabia que nenhuma delas era corajosa.
A coragem implica um comportamento integrado entre razão e sentimento, uma confiança em si e nas forças maiores da vida que regem nossos destinos; é andar sempre de mãos dadas com a esperança; outra forma de interpretar o “não separareis o que Deus uniu”.
O Criador nos concedeu a razão e os sentimentos juntos.
Nós é que teimamos em separá-los, pagando o preço dessa desunião/divisão interior reflectida em nossa conduta.
Coragem não é expor-se de forma voluntária ao perigo; ao contrário, é conjurá-lo quando possível e enfrentá-lo racionalmente e com ousadia quando inevitável.
É reconhecer os próprios limites e aceitá-los em busca de superação.
“As mulheres são corajosas.
Têm uma coragem diferente dos homens.
Elas não se desesperam.
Quando nós, homens, não sabemos mais o que fazer, elas confiam e esperam.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 15, 2018 8:10 pm

Não esmorecem na luta, abrem-se a alguma intuição que não sei de onde vem, mas chega e, quase sempre, resolve.
Deve ser por isso que é a elas que chamamos para cuidar dos pacientes que estão para morrer e das mulheres que vão dar à luz.
Elas vivem extremos com tranquilidade.
Acho que aceitam, por um lado, o inevitável – e onde os homens já não vêem o que fazer elas enxergam a mão pedindo apoio para a hora da travessia –, por outro, se resignam diante da impossibilidade de evitar a dor para outro ser humano e de presenciá-la e confortá-la; em ambos os casos reconhecem a força maior da natureza e cooperam.
Devem saber lidar melhor com o sentimento de impotência que essas experiências trazem”, reflectia Kiéram, com o olhar perdido no mar que se iluminava à sua frente sob o sol do amanhecer.
Lembrou-se das lições de sua infância quando a avô e a mãe o ensinavam a conhecer a história que as imagens dos vitrais e as cenas pintadas nos quadros da igreja retractavam.
Muitas vezes percorrera a via-crúcis com elas.
A avó fazia questão de parar ante a cena do mestre Jesus crucificado e chamar-lhe a atenção, não para os horrores da cruz, mas para o facto de que apenas três mulheres tiveram coragem suficiente de testemunhar com Cristo até o fim, de não renegar sua mensagem e fugir com medo de serem perseguidas e condenadas à morte.
A velha descendente de galeses tinha como ponto de honra nominar as três mulheres mais próximas que, segundo o evangelho e Matheus, foram fiéis até o fim.
Ele ainda lembrava seus nomes e a voz dela, depois de tantos anos, recitando-os e apontando as figuras desenhadas:
Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago e de José, e a mulher de Zebedeu.
Nenhum dos apóstolos homens tivera a necessária coragem de “viver e agir com o coração”.
Eram fragmentados, separados, ou só razão ou só coração.
A coragem real exige razão e sentimento para manifestar-se.
Layla os possuía, ele não duvidava, ainda que eivados de motivações contraditórias ou pouco nobre, porém humanas.
“Será que Layla está mesmo preparada para o que possa vir a acontecer? -voltava ele à pergunta inicial que não lhe dava descanso e toda a teoria que, com justiça, tecera em torno dos valores femininos ia por terra, não lhe dando o conforto que ansiava e a paz que – ainda não tinha consciência – perdera naquela praia.
Voltar ali era emblemático.
Compreendera a necessidade de um comportamento coeso entre razão e sensibilidade, mas não percebia que, em si, acabava de se processar a divisão.
A racionalização das experiências sobre o entendimento do comportamento feminino não fora suficiente para dar sossego à paixão e ao apego – que ainda não admitia conscientemente sentir – despertados na relação com Layla.
Não via que havia muito ultrapassara as barreiras da admiração e da amizade.
É interessante como o ser humano consegue ser cego a seu próprio respeito, como não se enxerga.
Se vivesse em uma casa de espelhos, possivelmente não reconheceria a própria imagem.
Entre os muros da propriedade de Nasser Al Gassim, a escrava recém-adquirida pelo sultão fingia total docilidade.
Aguardava, cabeça baixa, postura submissa, encolhida, como se desconhecesse o ambiente onde estava, as ordens de seu amo.
Entretanto, quando o sultão e o xeque lhe davam as costas, seu olhar varria, esquadrinhava, minuciosamente, o local. Havia poucas alterações; resumiam-se a marcas de batalha, alguns móveis danificados, manchas, tecidos rasgados.
De facto, eram poucas coisas, todas materiais.
As mudanças significativas estavam na atmosfera da propriedade.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 15, 2018 8:10 pm

Antes era alegre, suave, livre; agora era escura, pesada, circunspecta e dominada, com exclusividade, pelos homens.
Não vira nenhuma outra mulher.
E, a julgar pela reacção dos soldados à sua passagem, era a única que eles enxergavam havia um bom tempo.
Se o leitor observou, Layla não tinha o hábito de olhar para trás; isso é um reflexo de sua postura mental, de sua personalidade não afeita a viver de lembranças, de fixar-se no passado.
Ela costumava olhar para frente, numa postura altiva e decidida.
Não fosse assim, aquele regresso em tão duras e ameaçadoras condições não seria possível.
As lembranças a teriam esmagado.
A força das paixões que nutria não teria sido domada pela razão e denunciaria a farsa.
Percebeu que o xeque Omar era desconfiado e não estava contente com sua presença.
Parecia ser um homem metódico ao extremo, do tipo que não lida bem com alterações em seus projectos.
Não precisava ser uma criatura genial para perceber que sua presença e o que significava – um motivo de desatenção, de distracção para o sultão dos objectivos da empreitada militar – o desagradavam.
Apesar de sua inexperiência com os homens, tivera muitas “aulas teóricas”, como poderia chamar as conversas com sua mãe, Adara e Leah, a respeito do comportamento masculino quando dominados pelo desejo sexual por uma mulher.
Rira, em várias dessas conversas, das descrições que elas faziam e das histórias que contavam.
Agora, reconhecia no sultão um homem dominado pela sensualidade, beirando ao descontrole.
E em seu súbdito um homem desconfiado e descontente.
“Preciso tomar cuidado com esse xeque”, concluía Layla.
Atenta à movimentação dos homens, interessava-lhe observar como faziam a segurança da propriedade.
Obviamente, não haviam tido tempo suficiente para explorá-la em detalhes; eis a vantagem que tinha sobre eles.
Conhecia cada porta secreta ou não, cada muro e portão que cercavam as paragens de sua infância.
Não podia era demorar a desvendar o esquema de defesa dos invasores.
Irritou-se ao sentir a mão do xeque fechar-se em torno de seu braço como uma garra, mas manteve a postura submissa e deixou que ele, praticamente, a arrastasse pelos corredores, fingindo fazer grande e inútil esforço em tentar acompanhá-lo.
– Ande mais rápido, mulher! – ralhou ele, com voz grossa e ameaçadora, lançando olhares de visível desdém e menosprezo.
Aqui não é lugar para mulher, mas o sultão a quer, então entenda desde já:
não seja estorvo ou empecilho, pois de tais coisas eu me livro facilmente.
Para mim não é nada, para você é vida ou morte. Entendeu?
– Si… sim, senhor – respondeu Layla, fingindo inclusive gaguejar de medo.
Intimamente a leoa rugia e regozijou-se quando ele sorriu prazeroso, crendo no temor que incutia.
– É, talvez, acabe sendo boa a sua vida entre nós.
Talvez até eu acabe tendo prazer em sua companhia quando o sultão Kaleb não a quiser mais – disse o xeque, apertando o braço de Layla com mais vigor e olhando-a de forma sugestiva.
Seja dócil e nos entenderemos.
Não quero vê-la andando entre os soldados.
Está proibida de sair dos aposentos do sultão.
Layla meneou a cabeça sinalizando ter entendido a mensagem e, ao final do corredor, onde antes eram os aposentos de seu pai, ele abriu a pesada porta do cómodo.
Saiu e bateu a porta com estrondo.
Era a hora da verdade entre ela, o sultão e seus planos.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 15, 2018 8:10 pm

– Aproxime-se – ordenou o sultão alegre.
Venha descansar a meu lado. Deixe-me ver a bela pérola que adquiri.
E, olhando-a de cima a baixo, de forma que fez sentir-se nua, ele completou:
– Linda! Alá me abençoou nesta viagem. Louvado seja!
Layla sentiu o sangue subir-lhe a face:
duras verdades transmudadas em palavras borbulharam em sua boca, e a custo, controlou-se.
Respirou fundo várias vezes até dominar a revolta e a repugnância que sentiu pelo homem largado, preguiçosamente, entre as almofadas do leito que fora de seu pai.
“Repugnâncias e pudores não me levarão a nada”, pensou a filha de Al Gassim, aproveitando a postura submissa para esconder os olhos que brilhavam como ónix.
“Ele tocará meu corpo, jamais minha alma.
Eu sou instrumento de justiça, converti meu corpo em arma.
Pensarei como arqueira.
Atenção, concentração, silêncio interior, mente e sangue frios para alcançar meu objectivo.
Sim, Alá abençoou esse porco imundo com a justiça que se fará por meu intermédio.
Ele terá todas as ‘bênçãos” que merece, ou não farei jus à memória e ensinamentos de meus ancestrais.
Também é filho de Deus aquele que encaminha vermes como este ao fogo do inferno.
É essa a minha missão e, por Deus, ele irá.”
Mas, por uma milésima fracção de segundos, Layla vacilou.
Seus pés pareceram não querer sair do lugar para ir ao encontro de Kaleb e enfrentar o que se impusera realizar.
O estômago revirou, náuseas lhe subiram à garganta.
E ela implorou ajuda aos céus.
“Esther, rainha dos judeus, ajuda-me.
Dá-me a tua força.
Guia-me. Também tenho um povo a defender. ”
Safia acompanhava sua protegida.
Enterneceu-se ao ouvir-lhe a rogativa.
Não duvidava da bondade que havia em Layla, das sementes de espiritualidade que jaziam em seu coração e haviam sido cultivadas zelosamente até aquele amargo ingresso na idade adulta.
Conseguia reconhecê-las e via que, ao lado da vingança, coexistia a preocupação com seu povo.
A rogativa era sincera.
A prova era rigorosa, áspera, tinha o saber do fel.
Vencer a cólera, domar os instintos e sentimentos mais grosseiros, transformando-os na essência da própria coragem e determinação, sem se macular com o rancor e o ódio, exigiam situações de teste extremo.
Era o que começava a presenciar e pedia a Deus em pensamento que desse a Layla a necessária força de vencer a si mesma.
Até então, ela não esbarrara na crueldade; tornara-se assassina, assumindo as consequências dessa falta.
Mas a misericórdia que sempre presidira seus actos de extermínio não estivera ausente.
Aproximou-se dela e, tocando-lhe a fronte com a mão, sussurrou-lhe ao ouvido:
“Esther jamais esqueceu o amor.
Busque em si a coragem, a determinação, a racionalidade, mas não sufoque o amor.
Evite guardar o rancor, o ódio. Entenda que mesmo brutos e ignorantes sofrem transformações.
Acima de tudo lembre-se de que ninguém pode dar o que não possui, e isso vale para as coisas da matéria e do espírito.
Esse homem à sua frente talvez não possua os dons da compreensão, da espiritualidade e dos sentimentos; por isso não os vemos em seu comportamento.
Há muitas formas, querida, de a justiça realizar-se.
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