O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 20, 2018 8:19 pm

Não há como reunir os homens, a luta está instalada e é cada um por si.
Infiltraram-se magistralmente os miseráveis.
Isso foi uma armadilha.
Tudo fazia parte, desde o maldito banquete com o Califa.
E caímos como moscas no mel…
Kaleb deveria ter encontrado a morte antes; agora o prejuízo é inevitável.
Desgraça! Nada disso resolve… remoer é perda de tempo.
O mal do arrependimento é ser sempre tardio.
Por isso, ele não resolve problema algum.
É passado. Que fazer? Que fazer? É nisso que preciso pensar. ”
Omar sabia que o tempo corre rápido quando é nosso inimigo.
Batidas insistentes na porta seguidas de chamados o alertavam de que os minutos transcorriam, literalmente, transpassados no fio da espada e na ponta das flechas.
O rumor da luta se avizinhava da antiga residência do emir.
Homens guerreavam e perdiam. O desespero e a desunião eram péssimas estratégias, mais condutores de acções humanas em qualquer empreitada.
Aliás, a rigor não se poderia falar deles como estratégias, mas, sim, como ausência delas.
Falta de estrutura, de previdência e de providência para com a vida conduz qualquer ser humano aos caminhos do desespero, que, regra geral, anda de mãos dadas com a desunião.
A legião dos desesperados é composta por solitários que vivem em grandes populações, sem se enxergarem e reconhecerem, cada qual mais envolto em si do que o outro; nenhum com disposição de despir-se um pouco em favor do outro, nem que seja de um sorriso, de um segundo de atenção.
Assim, a corte dos desesperados cresce e caminha.
Omar tinha consciência desse proceder humano.
Que esse tronco provém da raiz do egoísmo era facto notório para ele, daí a razão de usar sempre a fé e o nome de Alá – outra raiz primordial no pensamento e sentimento humanos – como forma de uni-los e dar-lhes motivação para lutar.
Nunca foi causa de preocupação a crueldade que seus exércitos manifestavam, pois, seu olhar apenas se mantinha fixo neste alvo:
combater as manifestações directas do egoísmo no campo de batalha.
Muitos líderes julgavam que elas eram o abandono de mortos e feridos; não enxergavam o real, aquilo que conduzia à vitória ou à derrota: o sentimento interior de cada um, cultivando o egoísmo; estavam sozinhos, desunidos.
A frieza era apenas a fruta madura nas extremidades do galho.
Interessava-lhe cuidar da raiz que garantiria o fruto.
Naqueles preciosos segundo era o egoísmo e o desespero que imperavam entre as tropas africanas.
Ele sabia. A luta era injusta e desigual.
Outras batidas na porta o enervaram.
– Infelizes! Incapazes!
Por que não fazem alguma coisa em vez de ficarem me importunando.
Que saiam também a rua e morram!
Ao perceber-se desequilibrado pela acção dos emires, de alguma forma contaminado pelos sentimentos deles, a inteligência manifestou-se.
Infelizmente, essa grande capacidade do ser humano, enquanto não integrada, harmonizada, a uma consciência maior da vida e a sentimentos mais desenvolvidos, serve ao lado inferiorizado respondendo pela barbárie da fria crueldade.
– É isso! Claro!
Achei o caminho – bradou Omar e saiu da sala a passos determinados.
Em curta frases, expôs sua ideia aos demais.
Dado o estado de urgência, não houve questionamento, apenas um maciço acatamento do plano.
Evitando as zonas de maior confronto, Omar e alguns
emires, acompanhados de soldados, ganharam o acesso à muralha da cidade.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 20, 2018 8:19 pm

Correram ao portão principal, em frente ao qual estava estacionado o grupo liderado por Jamal Al Hussain.
“Ele veio.
Demorou, mas veio.
Vejamos o que fará.
Era visível a ambição pelo posto de Kaleb, até não o condeno, o homem era patético.
Um bárbaro com armas na mão, mas fora isso…
Não merecia ocupar o lugar que ocupava.
O que me fez pensar que talvez os outros não sejam muito diferentes”, pensou Jamal ao ver a imponente figura do xeque Omar recortada contra o amanhecer de Cádiz.
“Parece destemido”.
– Jamal Al Hussain - chamou o xeque que ignorava ter seus mínimos gestos sob o olhar atento de Karim e dos homens infiltrados na guarda do portão principal.
Você propôs ao sultão Kaleb, cuja alma repousa nos braços do Misericordioso, há algumas semanas passadas, um encontro diplomático.
Agora sou eu quem lhe faço essa proposta.
Venha, apenas com a sua guarda pessoal, ao nosso palácio.
Enquanto conversamos, que cesse a batalha.
– Não – respondeu Jamal.
Dei a vocês todas as chances de se retirarem de Al-Andaluz, sem derramamento de sangue, além daquele que vocês fizeram correr das veias de nosso povo.
Agora é tarde.
A única coisa que aceito e, mesmo lhe ofereço, são as condições para acatar a rendição e retirada de seus homens da cidade.
– Não seja intolerante, Jamal.
Venha conversar connosco.
Agora estamos deliberando em conselho.
Você apenas ouviu a opinião do sultão…
– Era a mesma de vocês.
Tenho certeza.
Não perca tempo, xeque Omar, seus homens morrem.
Sei que estamos vencendo a luta e veja – fez um gesto apontando os soldados prontos para a luta-:
basta um simples sinal e meus homens atacarão.
Sei que no Egipto existem povos sob o comando dos senhores, e é em nome dessas pessoas e desse dever maior que eu os exorto a que deponham armas e partam de Cádiz.
Eu não irei a nenhum encontro com vocês.
“Esperto, força-me a agir agora, porém…
Não adianta relutar”, pensava Omar, encarando com raiva o calmo Jamal parado em frente ao portão principal.
O xeque trocou um olhar com seus pares e sua mão escorregou até a faixa que trazia presa à cintura onde pendia um afiado punhal de prata.
Karim, atento, acompanhou cada movimento do xeque, numa sincronia perfeita e, quando ele ergueu a mão para atirar o punhal em Jamal, teve sua mão atravessada por uma flecha.
A luta generalizou-se, caiu o portão principal.
Jamal ingressou na cidade e horas depois contemplava a fuga dos xeques africanos em direcção a seus navios atracados no porto.
– Facilitem a fuga – foi a ordem de Jamal.
Deixem-nos ir.
Não os queremos em nossa terra.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 20, 2018 8:20 pm

A cidade retornava ao domínio dos andaluzes; restabelecia-se a ordem e a paz, mas as marcas da luta e das mortes eram visíveis em cada metro de chão, em cada olhar humano ou animal, no fundo iluminado pelo temor.
Do alto da muralha Layla observava, serenamente, a partida dos invasores.
Muitos guerreiros comemoravam eufóricos a vitória; outros traziam no rosto a expressão do mais puro cansaço, arrastavam-se como se cumprissem um dos castigos de Hércules; parecia que o mundo lhes pesava sobre as costas.
Ela, no entanto, olhava a cidade e os invasores em retirada. Nenhum dos dois era mais o mesmo.
Nada voltaria a ser como havia sido no passado.
“O tempo era implacável, modificava, transformava, construía e destruía.
Possivelmente fosse uma das poucas forças da natureza que não conhecesse a inércia.
O tempo deveria ser uma das coisas escondidas na caixa de Pandora que, uma vez libertado, ninguém jamais conseguiu recolher de volta.
Talvez ele tenha sido o primeiro a fugir.
Não, não, a criação do tempo é anterior ao mito de Pandora”, pensava e constatava a jovem, em meio ao rebuliço do final da batalha.
A seu lado Kiéram analisava-lhe as reacções com interesse.
Pela natural exuberância do carácter de Layla, não esperara como comemoração apenas aquela serena contemplação da vitória.
Quando for encontrá-lo, no acampamento, seus olhos brilhava, irradiavam alegria, era olhos vitoriosos, brilhantes como estrelas.
Teria ela se arrependido?
Ou sofria pela derrota imposta aos invasores?
Era um facto comum a empatia com o perdedor, pois desperta piedade.
Mas ela não parecia sofrer.
Estava, de facto, serena, calma, altiva, como uma nobre dama vistoriando os preparativos de uma festa bem organizada, onde não faltava sequer um mínimo detalhe.
– Bem, e então, era o que desejava?
– Era o que precisava ser feito – respondeu Layla sucinta.
– Sim, eu sei.
Mas foi você quem planejou cada etapa.
Embora poucos saibam, isso não altera o facto de que, para os que sabem, essa vitória lhe pertence.
Como se sente?
– Em paz.
– Paz?
– Sim.
– Pensei que desejasse comemorar, que ficasse exultante, satisfeita.
– Eu também.
E teria ficado em outros tempos.
Eu olhava os invasores partindo e a cidade e pensava que nenhum dos dois era mais o mesmo.
Eu também não sou mais a mesma jovem que foi criada com extremo afecto e tolerante protecção masculina.
Eu fiz o que fiz, porque era necessário não só para mim, mas também para os outros.
Alguém tinha que a realizar esse trabalho, quis Alá que fosse eu o instrumento de sua acção.
Está feito.
– Mas…
– Sem mas, Kiéram.
Descobri a tempo que o ódio não é bom hóspede.
Não o quero morando em mim.
Felizmente ele esvaiu-se com meu suor, transpirou de meu íntimo e se desfez.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 20, 2018 8:20 pm

Vê aqueles homens em fuga, lá embaixo?
Pois bem, eles o levam consigo.
Convivi todos esses dias com eles.
Foi tempo suficiente para reconhecê-los de uma formação moral inferior.
Odiá-los seria como odiar um ataque de insectos, ou uma praga de qualquer outro tipo.
Absoluta perda de tempo. Inútil.
Um rebaixamento e acréscimo de tortura.
Basta a ausência daqueles que amo para suportar.
Basta-me a incerteza de meu próprio destino; não preciso acrescentar a ele o fardo pesado e incómodo do ódio.
– E a alegria de horas atrás?
– Era por mim mesma.
Por ter sido capaz de realizar o que era necessário e o que me propus a fazer.
Todos os dias eu me lembrava das pessoas que dependia de minhas acções.
Creia, o dever foi meu lenitivo contra a loucura.
A nota de solidão na voz dela era quase palpável.
Kiéram continha o anseio de abraçá-la, cortá-la, fazer-lhe promessas e juras de amor e felicidade.
Ouvindo-a falar, tão serena, tão fria e racional, sentiu-se um jovem tolo apaixonado.
Sabia que nada do que gostaria de dizer poderia se realizar facilmente, e a atitude dela era prudente.
Lutar contra os homens era mais rápido e menos doloroso do que lutar com as ideias dos homens, essas monstruosas carcereiras de almas.
Homens são seres circunscritos, materiais; ideias são o oposto.
Um inimigo material ferido está fora de batalha; uma ideia atacada leva muito tempo até ser de facto erradicada e sofrer transformação.
É um monstro invasor que se reproduz.
Quando o pensamos morto, eis que ressuscita, apenas dormia em cantos escuros de almas ainda ignorantes, e a batalha recomeça.
Enfrentá-lo exige reconhecer que há vitória na derrota, que é preciso saber perder para ganhar.
As futuras gerações recolhem o fruto da luta do homem do presente com as ideias humanas vigentes, com sua cultura e nem sempre sabem reconhecer que ele foi regado com sangue e lágrimas daqueles que ousaram ser livres e fazer de suas vidas anónimas alavancas do progresso.
A tarefa de viver e fazer o necessário no campo do avanço das ideias muitas vezes é o de promover o escândalo.
Ninguém melhor do que Kiéram para saber que, como todo ser humano, Layla também tinha seus momentos de fraqueza, suas carências, que ela escondia sob a máscara da ira.
A mal falada e incompreendida agressividade era sua fonte de coragem para lutar e não se entregar à autopiedade ou à tristeza desmesurada crendo-se vítima impotente – fonte que muitos de nós, por abrigar equivocadas noções ensinadas pelas religiões sobre esse sentimento, sufocam, desprezam, sentindo culpa e adoecendo; e que é parte de nossa natureza feita amorosa e sabiamente por Deus.
Usar bem é sinónimo de conhecer e disciplinar – de uma cultura por demais discriminatória da condição feminina.
Entendeu que ela de fato superara o ódio contra seus agressores e admirou-a, mas compreendeu que aquele era o momento de silenciar.
Acompanhando o olhar da jovem perdido no infinito, a razão o advertiu para que se colocasse no lugar dela.
Ele comemorava a vitória porque tinha um amanhã previsível, e a batalha fora apenas uma etapa, havia para o que voltar.
Com Layla, o olhar cravado no infinito distante era significativo, seu amanhã era uma absoluta incerteza.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 20, 2018 8:20 pm

A batalha fora tudo, não uma parte.
– Layla, me escute, sei que seu irmão a ama e tem uma visão diferente sobre…
– Meu irmão tem uma cidade destroçada para reerguer.
Feridos a quem acudir, enfim, ele tem muito a fazer.
– Sim, mas…
– A verdade, Kiéram, é que vivi em uma redoma de cristal por muitos anos e uma pedra a quebrou.
Não vivo mais sozinha, isolada e protegida.
A ilusão se desfez.
Conheço as leis, sei que Karim precisará dar o exemplo para conquistar a confiança e a lealdade desse povo ferido.
Como disse, um ou dois contra o mundo… é um doce sonho, apenas isso.
O plano de casar–me com meu querido primo naufragou; ele está morto.
Pobre amigo!
Jamais imaginei que ele me amasse até o sacrifício, mas amava.
Por favor, não falemos do que se passou entre nós.
– Por quê? Eu a…
– Pare – pediu Layla calma; sua voz era um sussurro.
Há palavras que não devem ser ditas.
É melhor para nós que elas fiquem guardadas.
Sabemos que especialmente para nós a lei é cruel.
– Os muçulmanos aceitam a conversão – lembrou Kiéram baixinho.
Aquele era um assunto que não poderia ser ouvido.
– Sim, é verdade.
Mas ela seria de coração, pelas razões que deve ser ou seria por mim?
Eu não sou razão para que mude suas crenças, assim como você não é razão para que eu faça o mesmo.
A hipocrisia é um terreno movediço demais para que sobre ele se construa algo.
Não, não faça isso.
Eu não aceitaria.
Ao contrário do que pensa, esse proceder não iria nos unir, mas, sim, separar.
Pense em sua família, na minha família.
Além do mais, nos falta, ou melhor, me falta, tempo.
A conversão não se faz da noite para o dia.
– Mas você seria minha noiva.
Layla piscou várias vezes, elevou o olhar ao céu, para afastar teimosas lágrimas que lhe enchiam os olhos.
– Por favor, Kiéram, não insista.
Se pensa que eu não sofro, saiba que este é o momento de mais intensa dor que experimento desde que essa loucura toda se abateu sobre minha vida.
Acho que faz parte da natureza feminina aliar a suprema dor e o supremo prazer no mesmo instante… fugaz instante.
Não peça minhas lágrimas como prova.
A vida deu-me o direito de nada provar.
Um estranho direito, mas é meu.
Ela o deu a vultos importantes, é uma honra, sabe.
Sócrates, Jesus e, provavelmente, uma legião anónima de mulheres por toda a Terra devem ter usufruído desse privilégio de nada provar a seu favor.
– Você está sendo dura. Muito dura.
– Como um diamante, eu espero.
É assim que sobreviverei, caso contrário serei esmagada por mim mesma.
Ilusão, piedade e sonhos de ventura fácil são vãos.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 20, 2018 8:20 pm

Agarrar-me a eles seria me dependurar em uma teia de aranha.
Prefiro as cordas que ferem as mãos e fazem calos, são reais.
– Prometa-me, então, apenas uma coisa:
que irá me procurar sempre que necessitar, não importa o que seja, nem quando; esse é um pedido que lhe faço por toda vida que nos resta. Promete?
Um sorriso triste iluminou o belo rosto da altiva filha de Al Gassim.
Um sim murmurado, mas pleno de carinho, soou como música aos ouvidos de Kiéram.
Saber que ela aceitava sua ajuda era um lenitivo, com sabor amargo, mas ainda assim dava-lhe algum conforto.
– Outra coisa.
Você, para todos os efeitos, é um guerreiro do meu exército.
Assim deverá retornar comigo a Córdoba.
Quero que permaneça como tal pelo tempo que desejar para decidir o rumo de sua vida.
Vou hospedá-la em minha casa, ninguém ficará sabendo.
Como guerreiro, também receberá a parte da recompensa que fez por merecer.
Por favor, não decida nada às pressas.
Não é bom.
– Eu s…
– Kiéram – chamou um soldado mercenário que se aproximava, interrompendo o diálogo.
O Califa mandou chamá-lo.
Layla virou o rosto, ajeitando a faixa de tecido, ocultando a face do olhar curioso do soldado.
Boatos corriam entre a tropa de mercenários de que o novo guerreiro era um renegado muçulmano, por ter uma deformidade ou doença na boca, por isso, usava o turbante à moda dos beduínos.
Mas admiravam-se pela coragem e ousadia de haver se infiltrado entre os africanos.
O sumiço e o reaparecimento antes da batalha diziam a todos que fora o “homem” enviado.
O episódio da escrava do Califa vendida ao sultão não era sequer comentado.
A mulher devia ter morrido nas mãos dos invasores e ponto final na sua história.
– Voltarei, aguarde – falou Kiéram, dirigindo-se a Layla.
Um meneio afirmativo foi o que recebeu como resposta.
Encontrou Jamal e Karim reunidos, em íntima e alegre conversação.
– Vim participar da comemoração – anunciou Kiéram após os cumprimentos de praxe.
– Merecida comemoração – retrucou Karim, indicando-lhe que se acomodasse junto a eles.
E minha irmã?
Está com seu exército, não está?
Infelizmente, neste momento, não podemos, sob pena de estragar seu disfarce, trazê-la para participar connosco.
– O que é uma injustiça – lembrou Kiéram.
Sabemos que devemos à inteligência e à coragem de Layla esta vitória e a paz para os andaluzes por mais algum tempo.
Não acredito que os africanos desistam.
– A paz para os andaluzes é um bem raro – argumentou Jamal.
Mas, tem razão Kiéram, Layla merece ser compensada por seu sacrifício por nós.
E será, não tenha dúvida.
Acabo de ter meu pedido de casamento aceito por Karim Al Gassim.
Ela será minha esposa em poucos dias.
Kiéram sentiu como se levasse um soco na altura do estômago.
Uma dor profunda nas entranhas o feriu ao ouvir a notícia.
Empalideceu, sentiu que suava frio, e a voz emudeceu.
Tinha que dizer qualquer palavra, mas nenhuma lhe vinha aos lábios.
Um vazio total se abatera sobre sua mente.
– Está se sentindo mal, Kiéram?
Foi ferido na luta? – indagou Karim, preocupado com o choque estampado no rosto do cristão.
Jamal não se surpreendeu.
A reacção violenta apenas vinha comprovar sua desconfiança de que o mercenário cristão nutria uma paixão secreta por Layla.
Calmamente, ofereceu um copo com água a Karim a fim de que auxiliasse na recuperação de Kiéram.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 20, 2018 8:20 pm

A PIOR LUTA
O aroma perfumado dos óleos de massagem enchia o ar morno da casa de banho anexa ao palácio do Califa em Córdoba.
Layla entregava-se aos cuidados da habilidosa Salma, a mulher designada para servi-la.
– É uma pena que tenha tantos hematomas pelo corpo – dizia a serva.
Teremos que vesti-la com uma túnica bem fechada e não poderemos usar tecidos transparentes.
Deve ter sido um acidente horrível o que sofreu.
Bendito seja o Clemente por preservar-lhe a vida.
Caiu de uma escada, não foi?
Era muito alta?
Devia ser de pedra.
Salma estava curiosa com as feridas do corpo de sua nova senhora.
Encantara-se com a beleza de Layla, com a maciez de sua pele e cabelos, com o corpo de formas definidas, com a expressão profunda e misteriosa de seus olhos negros.
Mas chocara-se ao vê-la nua, a pele coberta de manchas arroxeadas, algumas esverdeadas, muitas escoriações, arranhões; nem mesmo o lindo rosto escapava.
Olhando com atenção ainda eram perceptíveis algumas manchas.
O Califa explicara-lhe que sua jovem noiva havia sofrido uma queda da escada na casa de familiares distantes, mas, convivendo com os ferimentos de Layla, tratando deles, a criada tinha mais do que certeza de que eles haviam se produzidos em diferentes dias.
Era o que revelavam as mudanças de cor nas manchas.
– De que é mesmo o óleo que está usando, Salma?
– Amêndoas, senhora.
O mesmo que usei ontem. É muito bom…
– Sim, claro. Gostei muito.
Deixou minha pele aveludada.
Você tem mãos de fada, Salma.
Minha antiga criada era judia, já lhe falei dela?
– Muito pouco, senhora.
Disse-me apenas o nome, que era uma mulher muito experiente na vida, que foi a parteira que ajudou a senhora sua mãe a trazê-la e a seu irmão à luz.
– Leah era uma grande amiga.
Como eu espero que venhamos a nos tornar com o tempo.
Sinto falta dela.
Era uma mulher muito forte, tinha vários conhecimentos.
Todas nós, em casa, gostávamos dela.
– Viver em Córdoba ser um pouco diferente, senhora – alertou Salma.
Observei quando servi à senhora Farah e à senhora Adara, que não havia disputas entre elas; surpreendi-me com o quanto são unidas e amigas.
Acredito que sua família deva ter sido, digo, ser muito especial.
– Especial? – repetiu Layla atenta e pensativa; não passara despercebida a subtil sugestão de cuidado na fala de Salma.
Sim, éramos todos especiais uns para os outros.
Muito especiais, talvez seja isso que muitos chamam de amor.
– Em Córdoba não é assim.
Talvez porque a cidade seja maior e, naturalmente, exista maior diversidade e competitividade.
Há um isolamento entre as pessoas; estão juntas, mas não próximas; muito menos compartilham a vida, a senhora me entende?
– Creio que sim.
Mas… é a cidade ou são os habitantes do palácio do Califa, mais precisamente suas esposas, que agem de tal maneira.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 20, 2018 8:21 pm

– A senhora entendeu perfeitamente.
Sim, é isso mesmo.
E também alguns outros que ficam à volta.
O pior, deste estamos livres, era o cunhado.
Uma peste traiçoeira.
– Por que está me dizendo todas essas coisas, Salma?
– Gostei da senhora.
Gostei de sua família.
Alguém precisava alertá-la.
Só por essa razão.
A vida neste palácio pode ser maravilhosa ou infernal dependendo de onde, como e quando põe seus pés em algum lugar e que lugar é esse.
Nosso Califa, o Clemente o abençoe, é um homem muito bom, muito justo, mas, entenda bem, é um homem.
– Quer dizer que não devo esperar santidade do meu marido, nem acolhida amigável de suas esposas.
Bons augúrios.
A compensação é o luxo, o conforto, a condição social de esposa do homem mais importante de Al-Andaluz – resumiu Layla com ironia.
– É. Minha mãe não tinha lá muitos conhecimentos, como era o caso de sua amiga Leah, mas viveu muitos anos e ganhou sabedoria.
Ela dizia: Quem não recebe bem a visita da decepção nunca entenderá devidamente a felicidade, a vida e o equilíbrio.
– Somente sofre decepção aquele que nunca contempla a realidade crua e dura da natureza humana e da natureza em si.
Quem vive num mundo de imaginação, enxergando miragens de oásis e perfeições morais revestidas de corpo físico nos seres humanos, esse não se decepciona, mas também não cresce.
Seu mundo é o da ilusão.
Não enxerga que o pântano pode ser bonito; que há inteligência e justificativa nas acções mais duras do mundo animal.
Não consigo entender por que o ser humano é cruel.
É esse sentimento que faz sofrer desnecessariamente, e o usamos de formas tão variadas!
– Nunca lhe ocorreu que os iludidos, como disse, por não entenderem e enfrentarem as desilusões e decepções naturais da vida, por terem essa visão tão longe do possível, quando confrontados com ela passam dos limites, desgovernam seus sentimentos, exageram e têm atitudes cruéis, até violentamente cruéis?
Agradavelmente surpreendida com a sagacidade da criada, Layla a encarou com um brilho de satisfação no olhar e afirmou:
– Já somos amigas.
– É uma honra, senhora.
Mas permita dizer que simpatizamos uma com a outra.
Amizade é um sentimento puro e profundo que, como tudo em nossas vidas, não nasce pronto e criado, ao contrário, nasce frágil e dependente, precisando de muitos cuidados, à semelhança de um bebé.
– Ver e viver o reino do possível e do natural.
Gostei de você, Salma. Uma boa surpresa.
E, como tocamos no assunto dos habitantes do palácio, o que pode me informar da irmã do Califa?
Vive na residência do outro lado da praça, não é?
– É, sim, A princesa Amirah é um encanto.
Sensível, inteligente, bondosa… é uma lástima que enfrente doença tão terrível.
– Doença? Não sabia.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 20, 2018 8:21 pm

Conte-me o que sabe sobre ela.
Salma, massageando-lhe as omoplatas e os ombros, pensou por alguns instantes e depois narrou o que sabia sobre a irmã do Califa.
– Por isso não a vejo no palácio.
Pobre criatura! Que vida triste! – lamentou Layla penalizada.
– É verdade. Sofre desde menina, é um milagre que ainda viva.
O Califa a adora, são muito unidos; ele padece muito quando ela tem crises.
Passa dias e noites sem dormir.
Não fossem tantos cuidados com ela, já teria morrido, com certeza.
– Obrigada por me contar também esse facto.
Seria muito mais difícil se eu não soubesse de nada.
– É preciso conhecer para saber julgar com justiça, senhora. Informei-a com essa intenção.
Este palácio não é a porta do paraíso e nada pode contra o impossível; mesmo aqui ele põe suas garras de fora.
– Ninguém pode – acentuou Layla séria, pensativa.
Depois de alguns instantes questionou directamente:
– O que mais devo saber, Salma?
– Senhora! Quem sou eu… – protestou a serva.
– A vida fez de mim uma mulher muito clara e directa, Salma – anunciou Layla.
Viveremos juntas não seu por quanto tempo, mas supõe-se que seja bastante.
Disse que gostei de você e é verdade.
Você alertou-me para diversas circunstâncias que vou enfrentar em breve, como a quarta esposa do Califa.
Sinto que existe algo mais que deseja me revelar, mas você faz rodeios. O que é?
– Não sei se devo… não sei se será um benefício à senhora.
Talvez seja melhor…
– Diga e deixe que eu julgue – ordenou Layla.
– Está bem.
É assunto íntimo.
Fico constrangida.
Não sei de seus sentimentos…
– Por quem ou pelo quê?
– Pelo Califa e pelo casamento – respondeu Salma apressada.
Com medo da determinação que sentia na jovem sob seus cuidados, observou todos os músculos dela se retesarem sob suas mãos, num indício claro de fortes sentimentos.
– Não é segredo.
Admiro o Califa, mas como toda mulher ou ao menos a maioria, caso-me para cumprir uma decisão alheia.
Respondi a sua pergunta?
– Sim. Eu temia que houvesse uma paixão de sua parte.
Afinal, esse casamento foi tão repentino, inesperado.
É uma grande novidade aqui, não se falava de uma nova esposa para o Califa e, ainda mais, tão diferente das outras.
– Eu imagino o quanto e o que não comentam em toda cidade.
– Crêem que, enfim, nosso Califa tenha encontrado o amor.
As outras uniões foram políticas, com filhas de homens importantes…
Ah! Desculpe, não quis…
– Compreendo. Fique calma, você não diz mais que a verdade.
Meu pai não era um homem que se envolvia em questões políticas, e estamos longe de ser uma família influente.
Bem, mas… prosseguindo com o que contava…
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 20, 2018 8:21 pm

– Bem, senhora, é que criados não são cegos, nem são feitos de matéria diferente da dos senhores.
Entendemos e enxergamos as coisas humanas que se dão, entende?
– É lógico, mas fale logo.
Não precisa de rodeios.
– Bem… é que…
O Califa tinha uma predilecção especial pela criada cristã da princesa Amirah. É isso.
Um suspiro brotou do peito de Layla.
Imaginara problema maior.
Para surpresa de Salma, riu da notícia.
– E por que não a tomou como escrava? Poderia.
Seria até um fato estranho, pois ela, não tenho dúvidas, exerce influência sobre Jamal.
– Não se sabe a razão, mas ela negou-se e não foi obrigada.
O Califa é um homem bondoso.
Ela casou-se com um homem da sua fé, mas é uma união estanha, parecem mais amigos do que casados.
Ela vive, dia e noite, ao lado da princesa; mora no palácio, não em sua casa.
É recebida aqui a hora e momento que desejar, por cuidar da princesa, é claro.
– Qual é o nome dela?
– Ximena.
– Não esquecerei.
– Por favor, senhora, veja bem, tudo que contei agora é passado.
O Califa não a tomaria por esposa sem que o fizesse por razões do coração.
Ele não se obrigaria, por causa das atitudes de seu finado cunhado.
– Eu sei, Salma.
Prefiro não falar sobre isso.
Chega de massagem por hoje.
Nada aliviará o que preciso enfrentar.
Agradeço-lhe, mas basta.
Traga meus trajes. Prepare a noiva.
A festa não deve demorar a iniciar.
Conhecerei as pessoas de quem falamos, a todas de uma só vez.
Salma estendeu à jovem um roupão de seda e delicadas sandálias de couro.
– Admiro sua coragem.
Desejo que seja feliz – murmurou a criada, retirando-se apressada em direcção aos cómodos conjugados que foram destinados ao uso e residência da quarta esposa.
– Existe coragem em aceitar os limites do possível?
Em cumprir aquilo para o que se nasceu? – questionou Layla, baixinho para si mesma, fitando o horizonte tingido com as cores do entardecer, visível pela parede vazada do salão de banho.
***
Numa taberna, nos arredores da cidade, Romero acompanhava, consternado, o estado alterado de seu comandante.
Desconhecia a razão, mas suspeitava que fosse por causa de alguma mulher.
Kiéram Simsons não era homem de entregar-se à bebida; era moderado, comedido.
Mas, naquela tarde, perdia a medida.
– Por favor, Kiéram, já chega.
Amanhã você irá se arrepender desse ato.
Acredite, uma bebedeira de vinho é horrível – pediu Romero, pela décima vez.
Olha, por que não me fala a causa dessa tristeza, dessa mágoa?
Kiéram, com os olhos avermelhados, empunhando uma caneca de vinho, o encarou com inacreditável lucidez ao responder.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 21, 2018 8:24 pm

– A causa… a causa, meu amigo… como posso dizer… – e fitou o tecto da taverna que o dono iluminava com velas e archotes.
Você já desejou a lua?
– Mas que ideia?
Você bebeu bem mais do que eu vi.
– Diga-me, você já desejou a lua?
– É linda, todo mundo sabe.
Mas a lua é impossível, é inatingível.
Está no céu, Kiéram, e nós na terra.
É querer o impossível.
– Pois é isso que quero:
o impossível – declarou Kiéram voltando a encarar o amigo.
– Homem, isso não é racional.
Não é do seu feitio.
Está dizendo bobagens, aprece enfeitiçado, além de bêbado.
– É.
– Vamos subir e nos deitar, basta de vinho.
Já tomou um barril dos grandes, chega.
– Não exagere, Romero – e ignorando as advertências e pedidos do amigo, fez sinal ao jovem que atendia o balcão pedindo outra jarra de vinho.
– Ah, não! Amanhã sua cabeça pesará como ferro, vai doer mais que uma lança atravessada na perna e você vomitará as tripas e verá as coisas girando de pernas para o alto. E depois…
– Tudo isso é pouco.
Já vejo o mundo de pernas para cima e girando ao contrário, se quer saber.
Que me importa que doa a cabeça, desde que adormeça a dor maior, o resto… é nada.
– Ih! Então é coisa séria.
É mulher, não é?
– Não sei, tenho dúvidas de que ela seja humana.
– Ah, não! Não se apaixonou por uma bruxa, por alguma alma penada…
– Eu bebo e você diz bobagem – debochou Kiéram dos medos supersticioso de Romero.
Por que não poderia ser uma fada, uma deusa, um anjo?
– É blasfémia, Kiéram.
Você bebeu demais, não sabe o que está dizendo.
Vamos subir, deitar.
Olhe, você leva esta jarra e termina de beber lá em cima.
Eu tenho certeza de que daqui a pouco você vai dormir, desmaiar, qualquer coisa assim, e você é grande, muito pesado, para que eu o arraste escada acima.
Vamos agora – e Romero levantou-se encarando Kiéram com autoridade.
– Você já deve estar vendo dois ou três de mim – completou Romero constatando que Kiéram não conseguia manter os olhos fixos em sua pessoa.
Com esforço colocou Kiéram de pé.
Sentindo o peso, praticamente, inerte do corpo, chamou:
– Taberneiro, me ajude.
O homem forte e calvo, aparentando meia idade, sorriu da dificuldade de Romero e aproximou-se, amparando o outro lado e mantendo Kiéram de pé.
– Ele abusou – declarou o homem.
Que houve com você, homem?
Precisava esquecer a vida?
– É, é… Deus!
Sentado estava melhor.
– Vamos levá-lo par cima – decidiu Romero – antes que tenhamos que pedir mais ajudantes.
Por enquanto ele ainda troca os pés.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 21, 2018 8:24 pm

– Eu sei que… es… tou sendo co… var… de de ho… je – respondeu Kiéram ao ser colocado no leito, segundos antes de perder a consciência, como uma vela apagada pelo vento.
– Paixão por mulher? – indagou o taberneiro acenando na direcção da cama.
Acho que sim. Ele não falou muito.
Disse que queria algo impossível – explicou Romero.
– Deve ser.
E, como nunca o vi nesse estado antes, deve ser uma paixão daquelas roxas.
Mas passa, tudo passa.
Daqui algum tempo arranjará outra.
– É.
– Que será que houve com ela?
Não sabe nem quem é?
Ao ver o meneio negativo de Romero completou:
– Vai ver… morreu, por isso ele diz que quer o impossível.
Romero que guardava, no íntimo, uma suspeita da verdade, anuiu dubiamente.
– Há muitas formas de morrer, não é mesmo?
Foi a vez de o taberneiro concordar e apontar para o corredor, sugerindo que deixassem Kiéram sozinho.
Romero lançou um último olhar de pesar ao amigo que dormia sob o efeito do álcool ingerido em excesso e saiu do aposento.
***
Karim, ao assinar o contrato de casamento de Layla, tinha uma sensação de irrealidade.
Parecia que tudo estava errado e que também estava certo.
Não era para ser assim, insistia em lembrar-lhe uma voz no fundo de si mesmo.
E outra respondia:
É o único jeito agora.
Aposta a assinatura, ergueu a cabeça e contemplou seu cunhado, o Califa de Córdoba.
Nos grandes olhos do jovem, espelhava-se sua alma; transpareciam dúvidas, incertezas, desejos diferentes, lamentos, esperanças;
– Layla é uma jóia preciosa, Jamal.
Cuide muito bem dela.
Eu não suportarei saber que ela venha ser infeliz nessa união.
– O que estiver ao meu alcance fazer pela felicidade de minha esposa será feito – prometeu Jamal, estendendo a mão a Karim para o gesto que daria por encerrada a parte oficial do contrato nupcial.
Os movimentos de Karim também seguiam o ritmo de seu impasse interior.
Devagar ele tocou a mão de Jamal, porém não correspondeu ao sorriso.
Os homens que testemunhavam o contrato aplaudiram e parabenizaram o Califa e Karim e, na pressa de usufruir do banquete, empurraram os dois para fora da sala reservada onde se passara a formalidade.
No grande salão de festas do palácio, a música, os aromas e a alegria das danças e trajes dos convivas não deixavam dúvida de que, apesar de apressado, o casamento era comemorado com primor.
Zahara, ostentando o protuberante ventre próximo dos oito meses de gestação, estava sentada entre as outras esposas do Califa.
Seu olhar, entretanto, a distinguia e ofuscava qualquer outra percepção.
Era duro, irado, ciumento, magoado.
Reflectia todo o desprezo de que julgava estar sendo vítima.
Aidah e Kamilah trocavam olhares compreensivos.
Já haviam cruzado aquele portal de iniciação na vida de uma mulher muçulmana.
Aliás, havia uma diferença – Zahara era apaixonada pelo Califa; elas não; tinham desenvolvido um vínculo de forte amizade e afeição, mas não guardavam paixão.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 21, 2018 8:25 pm

Foram educadas dentro da cultura de seu povo e a aceitavam como “normal e certa”, sem questionamentos.
A terceira ousara questionar, desejava sentir, sonhar e viver um relacionamento de paixão.
Encantara-se com o Califa, e, de sua parte ao menos, o casamento ultrapassara as barreiras da conveniência política e social.
Envolvera-se e acreditara ser a última esposa do Califa.
Por algum tempo, seduzido pela paixão e enlevo da jovem, ele a preferira às demais, embora cumprisse os deveres assumidos com cada uma.
Mas nenhuma de suas esposas tocava-lhe com profundidade os sentimentos.
Em todas parecia encontrar apenas a sombra de si mesmo, o eco das próprias palavras, a repetição de seus pensamentos.
Não havia, em seus relacionamentos, desafio, troca, construção conjunta, nem mesmo o tempero da divergência.
Eram monótonos, vazios, em razão da submissão delas ao poder masculino.
O anseio de agradar era tanto que o fazia se sentir enjoado, como alguém alimentado por semanas apenas com mel e doces.
Layla era uma rajada de ar frio, o sabor do sal e da pimenta, de um alimento nutritivo e não enjoativo.
Mas os sentimentos do Califa, também para com ela, eram confusos – admiração, respeito, satisfação do ego pela beleza e inteligência, despertava seu desejo, mas por quanto tempo?
Quando suas noites voltariam a ser assombradas com visões de uma mulher proibida?
E a conhecida e velha solidão interior se abateria sobre ele uma vez mais.
Ela entrava no salão majestosa, altiva, distante como uma soberana.
Suas atitudes pareciam dizer que não tinha nada a provar a ninguém e que era uma concessão sua a concordância com a união.
Ela não estava sendo casada pela família; ela aceitara, e isso estava claro em cada passo que dava ao encontro do Califa, agora seu marido.
– Agora entendo esse casamento às pressas. – murmurou um convidado em uma das fileiras que se abria para dar passagem ao cortejo da noiva.
É fascinante! Não é só bonita…
há qualquer coisa de perigoso no olhar dessa mulher.
– Já ouvira falar da beleza da jovem, mas é soberba! – endossou um dos homens próximos que ouvira o comentário.
– Jamal pode casar-se com a mulher que desejar, segundo nossas leis – comentou um velho e, piscando o olho malicioso para os demais, indagou:
– Quem não desejaria essa jovem?
Nem as virgens do paraíso a ofuscam.
– Jamal não é bobo, por que esperar as virgens do paraíso se pode ter esta aqui na terra, daqui a pouco?
Se eu fosse ele, faria o mesmo.
– Algo me diz que essa mulher é perigosa – insistiu o primeiro convidado que se manifestara, agora observando Layla estender a mão para o marido.
É fria, mas tem qualquer coisa que arde nela.
– Você está querendo fazer profecias sobre a noiva do Califa – advertiu o velho.
Perde seu tempo.
Nenhum de nós poderá mais do que olhar e cobiçar, em segredo, a nova esposa do Califa.
– Espere e verá – teimou o convidado encantado com a noiva.
Córdoba é grande, mas, graças a Alá, têm poucos mudos.
Os pés carregam as línguas.
Creia, ouviremos falar dessa mulher.
– Está louco!
Quem se atreveria?
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 21, 2018 8:25 pm

É a esposa do Califa – grunhiu o velho.
– A soberana de Córdoba, provavelmente – retrucou o convidado, sem se dar por achado na discussão.
Ela tem poder e sabe disso, qualquer mulher com essa consciência é perigosa e fascinantes.
Se unir a isso a beleza física e a inteligência… bom, então, é uma rainha da vida.
Reina sobre a vida e a morte.
– Você parece falar dos antigos cultos das deusas das tribos do deserto – comentou o homem que assistia calado à discussão.
– Ela encarna perfeitamente o conceito, não concorda?
Silencioso, o homem contemplou Layla sentar-se, serena, olhar firme, ao lado do Califa e concordou com o insistente e encantado convidado.
A mulher que adentrava a corte de Córdoba, em tão alta posição, não viera até ali para ser a sombra de quem quer que fosse, ela tinha luz própria e não escondia o brilho, embora não se pudesse falar que desfilasse alegria, contentamento ou felicidade.
AO contrário, estampava tamanha aceitação e conformidade com a cultura e as leis vigentes que ficava claro que concedia a sua presença, mas não a participação interior.
Era uma noiva que desfilava coram, tão somente, palavra que nenhum deles ousou atribuir a uma mulher.
Zahara, desconfortável e despeitada, evitava olhar a jovem, pois odiava o que se passava.
Adara e Farah, conhecedoras da personalidade de Layla, não se iludiam; limitavam-se a sorrir e conversar educadamente com os convivas, sem nada revelar.
Mas Adara corria o olhar entre as esposas de Jamal e o que se dava com Zahara foi claro como o dia à sua percepção apurada.
“Problemas no caminho de nossa menina”, pensou ela.
“Não posso partir sem conversar com Layla.”
A oportunidade concretizou-se três dias após as núpcias.
Conversavam amenidades, à sombra de um fresco jardim interno do palácio.
Um recanto aprazível com o som dos pássaros e sua alegre agitação, acompanhados pelo doce ruído de uma fonte que alimentava um espelho d’água repleto de plantas aquáticas.
– Córdoba é uma bela cidade.
Não a imaginava tão grande, nem tão cheia de atractivos – comentou Adara, segurando a mão de Layla e observando seu rosto sério, calmo.
O olhar, desde que chegara à cidade, era aquele abismo negro indevassável e fascinante.
– Que bom que gostou!
Posso ter a esperança de recebê-la várias vezes. Isso me alegra.
– Virei sempre que possível, Layla.
Ou sempre que você precisar.
Sabe que basta me chamar, não é?
– Sei e agradeço.
Mas, sendo assim, talvez fosse melhor você não partir – sugeriu Layla, apertando a mão da amiga.
Se basta pedir, considere esse o primeiro pedido.
Fique, Mamãe pode acompanhar Karim e tratar de tudo em Cádiz.
Adara abriu a boca surpresa com o pedido, para tornar a fechá-la.
– Por quê? Você está casada há tão poucos dias.
– Por isso mesmo.
– E Farah?
Não seria mais apropriado que ela ficasse?
Será que não ficará magoada?
– Agora não preciso de minha mãe.
Respeito-a muito e a amo, mas neste momento ela não é a mãe adequada para estar comigo.
Prefiro minha segunda mãe.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 21, 2018 8:25 pm

Adara sorriu enternecida com o carinho da jovem.
Acariciando suas mãos, insistiu em tom suave:
– Por que, minha menina?
O que houve que eu não sei, conte-me.
– São muitas coisas, mãezinha.
Muitas, talvez, demais até para seus fortes ouvidos.
Não sei se é a hora de contar algum deles e se é necessário.
Prefiro omitir factos.
Deixe-me falar do que eu sinto.
Resume-se a uma palavra: solidão.
Novamente Adara abriu a boca surpreendida com a confissão.
Repetiu o gesto mais de uma vez.
As palavras pareciam não sair, recusavam-se a se propagar no ar.
– Mas… mas… você casou… ontem.
Concordou, aceitou, tudo.
Não disse uma única palavra contra a ideia, nem questionou.
Eu pensei: bem, o Califa é um jovem atraente, inteligente, poderoso, pensei… pensei que pudesse haver uma chance de você… gostar dele, por isso casava-se.
Mas, não é assim, ou é, filha?
E você está com medo da animosidade das outras esposas.
Esse é um fato muito comum em nossa sociedade, sabe disso.
Não se deixe abater; com e tempo e a maturidade, essas picuinhas se resolvem e aprendemos a amar sem selos de propriedade.
A vida é tão fugaz para que nos detenhamos em atitudes pequenas, possessivas.
Seja feliz, faça seu marido feliz quando ele estiver com você; deixe-o livre e ele sempre voltará.
Layla sorriu triste, deixando que seu rosto estampasse pela primeira vez a dor que suportava em seu coração.
– Lamento, mãezinha.
Sei o quanto sonhou que eu teria uma vida como a sua junto ao meu pai, mas não é verdade.
É muito diferente.
Jamal é um homem interessante, sua companhia é agradável, no entanto não o amo.
Digamos que temos uma relação conveniente.
E, sim, a sua outra questão:
a animosidade das outras esposas é palpável, quase uma entidade corporificada, eu diria.
Não me iludo com a aparência de normalidade, sei que devo observá-las com atenção.
Não tenho medo, mas gostaria de contar com sua presença.
Por favor, fique.
Eu arranjarei uma desculpa para mamãe.
Ela sabe o quanto gosto de você, e, afinal, vocês compartilharam um marido e, de certa forma, a mim e Karim também.
Ela entenderá.
Adara estendeu o braço sobre os ombros da jovem e apertou-a, delicadamente, com ternura.
Beijou-lhe a testa e respondeu:
– Não precisa contar-me nada.
Creio que posso imaginar um pouco do que você viveu e, de facto, basta.
Você cresceu, amadureceu rápido demais.
Sempre foi muito inteligente e ousada, mas, agora, eu a sinto como uma mulher experiente, muito experiente.
Posso dizer que você vivenciou experiências práticas que colocaram em xeque o que pensava sobre a vida?
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 21, 2018 8:25 pm

– Pode, mãezinha – respondeu Layla, recostando a cabeça no peito de Adara, numa demonstração clara de carência afectiva.
Lágrimas inundaram os olhos de Adara ao perceber a fragilidade da jovem que um dia fora uma menina alegre e feliz, a qual ensinara a dançar e encantar as pessoas com sua leveza e graça.
Respirou fundo, para conter a emoção, e acariciou os longos cabelos da moça.
– A vida é dura, mas é linda.
Não deixe nunca de perceber a beleza de cada dia, minha filha.
Pode ser estranho dizer, mas é real, mesmo a dor mais profunda pode ser um momento de rara beleza em nossas vidas, se tivermos a consciência de que fizemos o melhor ao nosso alcance e que diante de Alá estamos em paz.
O resto é o resto, simplesmente.
Coma o melhor da vida e não se preocupe com as sobras.
A essência de cada um, de cada ato, de cada sentimento, de cada coisa que vive, é o que importa.
O resto é o resto. Dê sua essência a quem a merecer e aos outros deixe o resto.
A vida da mulher, em nosso meio, e também nos outros povos, não creia que seja muito diferente.
Alteraram alguns costumes conforme a necessidade de cada época, mas, em essência, filha, somos todas iguais, não importa a raça, a crença, a cor, a posição social.
O Criador, o Misericordioso, nos fez assim.
Eu sempre lhe disse, Layla, e espero que não tenha esquecido, temos um grande poder; não é à toa, nem é por nada, que a Terra e Lua se assemelham à natureza feminina.
A vida pulsa diferente aos olhas da mulher.
Nós a sentimos, é por nossos corpos que ela passa.
Enxergamos o que os homens não vêem, e muitos sábios dizem grandes besteiras quando se referem a nós.
– Eu sei. Como você disse:
vivenciei minhas ideias.
Foi duro, mas fiz o necessário, acredite.
Se alguém soubesse tudo que vivi, eu não viveria mais, entende?
Um profundo suspiro de resignação e embalar a jovem que abraçava foi a resposta de Adara.
Era como se desejasse acolher no próprio corpo a dor que vislumbrava na alma de Layla e que seu afecto ansiava por acalentar.
– Hoje sei como se sente um copo, um barril, uma jarra.
Eu me coloquei nessa situação e não estou reclamando, apenas desabafando o que sinto e o que aprendi.
– Eu sei, querida. Eu sei.
Você agora é uma mulher adulta.
Algo me diz que você comeu o resto da vida.
É ruim, mas como disse, é necessário que alguém o faça.
Entendo o que diz quanto a saber o que sente um copo.
É uma experiência que muitas vivenciam, mas se esqueça jamais:
você não é um copo.
Você é uma mulher, um ser humano, digno, criado pelo Eterno e com quem ele compartilha as grandes leis da vida.
Infeliz é aquele que a tomou como um copo.
É um cego, um resto, jamais merecerá tocar sua essência.
Não se veja pelos olhos de tal homem. Nunca.
– Mas é ruim, muito ruim – murmurou Layla.
Quantas mulheres, e talvez eu venha a ser mais uma, atravessam a vida inteira sob tal olhar?
Um mero receptáculo, um objecto de uso qualquer, um bem para deleite ou simples satisfação de necessidades.
É cruel!
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 21, 2018 8:25 pm

– É, concordo.
Mas muitas dessas mulheres acabam por se ver pelos olhos masculinos; perdem sua própria percepção feminina.
Acreditam-se copos e vivem até satisfeitas.
São medíocres, anulam o que existe de mais belo na obra da criação: a capacidade de pensar e sentir individualmente.
São copos mesmo, existem aos milhares de dúzias, quase iguais, e qualquer uma faz o mesmo trabalho e serve ao mesmo fim, nunca se sobressaem.
São o que pensam e como se vêem.
Talvez não entendam a essência da vida, nem de si mesmas.
Copos não raciocinam, afinal de contas.
– Adara! – protestou Layla.
Que horror o que disse.
– A vida lhe mostrará se estou certa ou errada.
O facto de nossa cultura exigir total submissão da mulher e encher-nos de regras, fazendo-nos carregar sobre as costas toda a moral e honra de uma sociedade, não é menos horrível.
Horrível é ver que muitas não se dão conta do facto e que mais seguem as leis da sociedade do que são submissas ao Altíssimo.
Nas leis maiores da vida elas trapaceiam.
– Trapaceiam Alá?
– Sim, querida.
Abortam, fazem jogos emocionais mesquinhos, intrigas, aparentam o que não são, preocupam-se mais com o material, mortal, transitório, do que com a vida que é imortal.
Você falou em sentir-se como um copo, mas pode também sentir-se como a Terra que recebe e alimenta nas próprias entranhas a semente da existência, da vida, que dá da sua essência para que outro ser venha à luz.
Nós somos as entranhas da Terra, querida.
O solo em que o Altíssimo cultiva sua mais bela lavoura – a espécie humana.
E não pense que isso é apenas o ato de gerar um filho, não, a mulher cultiva a lavoura da consciência – esse é, a meu ver, o grande diferencial de nossa espécie.
As vacas também parem seus filhos e também são receptáculos; nós não somos vacas.
Porque cultivamos na consciência, temos um poder grande, imenso.
Nossas mãos, palavras e gestos podem erguer um outro ser ou afundá-lo no mais negro abismo, seja ele uma criança indefesa ou o mais importante dos homens.
No íntimo de cada um – homem ou mulher – existe uma representação feminina, materna, e mexer com esse ser invisível é uma capacidade da mulher e, por esse caminho, ela comanda e nunca é comandada.
Tal qual a Terra, o homem jura que faz dela o que deseja, mas, no fundo, não é bem assim, há vida própria.
– A Terra recebe e germina qualquer semente que se lance no solo.
Você acha que nós também devamos proceder dessa forma?
Que não devemos negar a germinação?
Outro suspiro profundo irrompeu do peito de Adara.
“Que conversa difícil”, pensava ela e indagava-se:
“Que terá vivido essa menina? ”
– Quando arrancamos uma planta, deixamos uma ferida na terra revolvida.
Um buraco, um espaço vago.
Somente o tempo o apagará, mas, na consciência, sempre que passarmos em frente a tal canteiro, lembraremos da planta arrancada.
Quem sabe um dia, no futuro, as mulheres possam de facto escolher ser mães, dar a vida, ser a Terra germinada física ou espiritualmente, e não venha mais a ser uma imposição da natureza, um acontecer ser mãe.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 21, 2018 8:26 pm

No futuro, quem sabe, quando as mulheres tiverem de si mesmas um olhar feminino e maior domínio da natureza.
– Você ficará?
Ainda não respondeu – indagou Layla, erguendo-se do colo de Adara e a encarando.
– É claro. Ficarei por quanto tempo julgar que precisa de mim.
– Obrigada! – agradeceu Layla, sorrindo e abraçando Adara.
À pequena distância, Nagib e Safia as observavam.
– A pior luta se aproxima – falou Nagib, fitando do espelho d’água o reflexo das plantas e da copa da árvore.
– Uma grande batalha, sem dúvida.
Mas bem sabemos que o crescimento não se faz de graça ou sem se vencer grandes obstáculos – comentou Safia, calmamente, fitando a jovem protegida.
– Que lhe parece: podemos esperar uma vitória?
– Assim desejo.
Ela está em dúvida, e isso é compreensível.
Vamos deixá-la com suas forças e analisar.
Ela tem condições de raciocinar sozinha e chegar a suas próprias conclusões, além do mais uma das fortes características de Layla é o conhecimento e o domínio que tem sobre suas emoções.
Na luta que se aproxima o uso dessas forças é fundamental.
Ela precisa estar segura dos próprios sentimentos, embora a dúvida que permeará sua decisão é, inegavelmente, importante.
Veremos se o entendimento e o perdão são sólidos ou não.
– Ela está fragilizada – asseverou Nagib.
– Eu sei.
– Não seria prudente um contacto maior, talvez um diálogo…
– Somente se for necessário.
A fragilidade de agora é a vontade férrea de amanhã, meu amigo.
Você nunca observou como os ferreiros moldam as espadas de aço?
– Já vi, sim.
Amolecer, fragilizar sob o fogo intenso a lâmina bruta, depois, ainda frágil, moldá-la, martelá-la sem piedade, imprimindo os contornos definitivos; por fim, um mergulho em água fria e não há metal mais resistente – narrou ele.
Entendo seu plano.
É duro, mas eficiente.
– Fico feliz.
E não diria eficiente, mas, sim, coerente.
Minha função não é evitar a dor, o sofrimento; eles são mestres necessários.
Seria como impedir o professor de ensinar a criança alegando ter piedade das horas que ela fica privada de brincar e sujeita à autoridade e à exigência.
Não, Nagib, tal proceder seria exemplo de maldade e vista curta.
Apenas a pequenez de algumas mentes humanas enxerga nossa função ao lado dos irmãos na matéria desse jeito.
Protecção excessiva é asfixia, morte de valores, desenvolvimento de vícios na alma alheia.
É preciso não confundir fragilidade com fraqueza.
O estado do que é frágil é delicado, sensível, requer tacto, cuidado no manuseio; a fraqueza é a falta de força, a debilidade.
Coisas muito diferentes.
Se eu impedisse o estado de fragilidade que Layla vivencia, eu a estaria colocando no caminho de fazer dela uma fraca.
Meu propósito não é esse; é o oposto, quero que ela desenvolva as próprias forças; sei que pode e sei que ela as possui, como qualquer ser humano.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 21, 2018 8:26 pm

Observe a lição dos pássaros com seus filhotes; eles são zelosos.
Enquanto os filhotes são pequenos, os pais procuram o alimento e o ruminam para dar-lhes no bico; conforme eles crescem, a conduta muda para auxiliar a natureza.
Eles sabem que os filhotes precisam usar o próprio bico para que este se enrijeça e lhes sirva por toda a vida e, quando os vêem prontos para voar, lançam-nos dos ninhos propiciando o nascimento da necessidade de abrir e bater as asas.
É lógico que são desengonçados, mas, sem passar por esse estágio de sofrimento, não serão capazes de viver, não terão aprendido a usar as próprias capacidades de que os dotou a natureza.
Zelo não se confunde com protecção excessiva, porque permite a experimentação da própria fragilidade.
– Mesmo assim, não será uma decisão fácil.
– Ninguém jamais ousou dizer que viver e bem aproveitar as experiências seja algo fácil.
Exige esforço, superação, ampliação dos próprios limites.
Somente aqueles que vivem voltados à satisfação da vida animal instintiva é que, talvez, proclame, tal sandice.
Layla venceu essa fase há muito tempo.
É um espírito bastante lúcido e consciente.
Confio que podemos deixá-la agir por conta própria.
Ela está pensando, procurando caminhos, tacteando em si mesma.
Irá perceber, eu creio, que na terra germinam diversas sementes, produzindo em suas entranhas organismos distintos; exactamente, o que se dá com o corpo feminino.
A mãe é um organismo; o feto é outro.
São natureza diferentes, seres distintos.
O que serve a um pode não servir a outro.
E os nossos direitos acabam onde começam os dos nossos semelhantes.
E, veja bem, esse limite não é material, não pode ser medido, demarcado.
É moral, imaterial, o que torna possível que o direito alheio exista dentro das próprias entranhas, e deve ser respeitado.
O que, em última instância, é o surgimento do dever.
– Layla é consciente o bastante para ouvir a voz do dever – sentenciou Nagib, olhando as duas mulheres sentadas no recanto do jardim.
– Vê as razões de minha confiança, então?
Nagib balançou a cabeça aquiescendo.
****
Três semanas depois…
Salma corria aos aposentos onde Layla, prostrada sobre o tapete, entregava-se às orações vespertinas, profundamente concentrada na recitação das suras.
A prática da oração lhe trazia grande calma, era um verdadeiro refrigério às chamas e dores que varriam sua alma.
As palavras que recitava agora lhe despertavam ideias e reflexões que antes não lhe ocorriam.
Algumas, que não poderiam ser compartilhadas, mas que lhe preenchiam vazios, agiam como compressas e alimentavam-lhe as forças de aceitação, resignação e tolerância, consigo e com os demais.
– Senhora, senhora – chamava a serva adentrando o aposento e, vendo-a em prece, calou-se e aguardou.
Quando observou pequenos movimentos de Layla, voltou a falar.
– Desculpe-me, mas é urgente.
A senhora Zahara passa mal.
Todas as mulheres estão a seu lado, só falta a senhora.
Mandaram vir buscá-la.
– Por quê? – questionou Layla, tranquila.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 21, 2018 8:26 pm

Zahara não faz segredo que não suporta minha presença.
Não vejo razão para afligi-la ainda mais.
Se já está passando mal, só irei piorar seu estado.
– Na verdade, são as outras que estão cansadas e pedem ajuda.
– Não tenho prática em partos.
Tudo o que sei é de conversar e por ter assistido a alguns nascimentos, e vi muito mais animais do que humanos nascerem.
– Quem sabe algumas dessas experiências sejam úteis.
Por favor, vá vê-la, temem que ela morra.
É sempre melhor termos paz em nossa consciência nessas horas – pediu Salma, com a intimidade amistosa que se desenvolvera entre elas.
Admirava a nova ama, mas nem sempre a entendia.
– E o médico?
E Jamal, onde está?
– O Califa não está ao lado dela, senhora.
– Como não?
– Não sei lhe dizer, mas ele não está no palácio, parece que precisou resolver um problema fora.
E, bem, nenhuma das mulheres se anima a chamar o médico.
Estão tão desesperadas que não pensam mais.
– Adara está lá?
– Não.
– Chame-a. Iremos juntas.
O caos imperava na ala do palácio designada para residência de Zahara.
Corre-corre, irritação, desespero e sensação de impotência.
– Que ambiente! – exclamou Adara olhando a azáfama.
Nem parece que este é um fato natural.
Por que tamanho descontrole?
– Estão nisso há um bom tempo, nem sei quanto.
– Ensinou-nos a boa Leah que um parto nunca é igual a outro.
Lembra-se de que ela dizia que acontecia de mulheres que haviam dado à luz com facilidade um filho enfrentarem dificuldades em outro nascimento?
Em suma, que a regra da probabilidade não era absoluta.
As mulheres, todas exaustas, se revezavam ao lado leito, onde Zahara revolvia-se e debatia-se em crise.
– Por Alá! – surpreendeu-se Adara ao observar a cena.
Aqui se dá algo de muito estranho e fora do comum.
Ela está muito mal.
Layla aproximou-se, despachou as mulheres que ficavam segurando Zahara.
Mãos e braços contorcidos, rosto vermelho como se o sangue não retornasse às extremidades do corpo, olhos revirado, corpo sacudido por temores e movimentos bruscos.
– Zahara – chamou Layla –, Zahara, fale comigo.
– Não adianta, ela não responde – alertou Kamilah.
Nunca vi nada igual.
Tenho filhos, assisti a inúmeros partos.
Mas como este, nenhum.
Layla ergueu o olhar para a primeira esposa de Jamal; naquele momento não havia animosidade nas feições maduras de Kamilah.
– E Jamal, onde está? Não deveria ser chamado?
– Ele partiu ontem pela manhã.
Zahara sentiu as primeiras dores após o almoço.
Era um assunto urgente e sigiloso.
Voltará amanhã.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 21, 2018 8:26 pm

E quem me informou foi e secretário.
Resignada com as informações embaralhadas, Layla notou que os tremores tornavam-se amenos e os membros contorcidos relaxavam.
Parecia que Zahara caía em uma sonolência incomum.
Layla afastou-se apressada do leito.
Quase correndo, ganhou os corredores que levavam à ala administrativa e, lá chegando, ordenou a um dos vizires:
– Mande chamar o médico de confiança do Califa.
É urgente. Grava.
Não perca um segundo.
Se não houver nenhum homem que possa ir buscá-lo, vá você mesmo.
– Mas o que é isso? Quanta ousadia! Com o devido…
Cale-se. Não quero ouvir nenhuma palavra.
É um caso de vida ou morte.
E, se você não fizer o que estou mandando, acredite, quando meu marido voltar, em poucos minutos haverá outra pessoa exercendo as suas funções. Fui clara?
Dominado pela energia que emanava de Layla e pela autoridade que ela exercia, o homem correu porta afora.
Pouco depois, Ibn Rusch ingressava afogueado no palácio.
Layla o aguardava na mesma sala, impassível.
– O que aconteceu? – questionou Ibn.
Somente me disseram que era grave, mas não fizeram o favor de dizer com quem, muito menos qualquer outra informação.
– Incompetentes.
Sabem muito bem o que se passa – resmungou Layla irada com a atitude do subalterno de Jamal.
– É Zahara. Está mal.
Não me parece uma situação comum num trabalho de parto. Venha comigo.
No caminho narrou ao médico o que havia observado e viu surgirem rugas de preocupação na testa alta de Ibn.
Após um rápido exame, assistido por Layla, Kamilah, Adara e Salma, que dava assistência ao médico, ele voltou-se e disse:
– Grava, gravíssimo, eu diria. Gostaria de ouvir a opinião de Benjamin bem Baruch, Providencie para que ele seja trazido com a mesma pressa que eu fui.
– Onde o encontramos? – indagou Layla.
– Na sinagoga.
Ele é rabino e médico excelente, de grande experiência e sabedoria – informou Ibn Rusch.
Sem se dar ao trabalho de responder, Layla novamente andou apressada pelos corredores.
Outra vez deparou-se com o mesmo vizir e, sem delongas, transmitiu a ordem em tom que não admitia senão a obediência.
Benjamin ben Baruch foi um caso de afinidade à primeira vista com a nova esposa do Califa.
Era um jovem rabino, de feições comuns e simpáticas,
olhar alegre e inteligente, que, ao entrar na ante-sala dos aposentos de Zahara, de imediato dirigiu-se a Layla.
– Senhora, sou Benjamin ben Baruch.
A senhora é a quarta esposa do Califa, estou certo?
Layla sorriu, examinando o homem à sua frente.
Instantaneamente, confiou nele.
Parecia que emanava uma aura de paz, conhecimento e bem-estar que a atingiu de maneira prazerosa.
– Sim. Obrigada por atender tão rápido ao meu chamado.
Por favor, não temos tempo a perder.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 21, 2018 8:27 pm

Foi Ibn Rusch quem solicitou sua presença.
Zahara, a terceira esposa do Califa, está grávida, quase no final da gestação, tanto que pensei que estivesse em trabalho de parto, mas não.
Ela passa mal, muito mal.
Benjamin ouviu a explicação em silêncio e seguiu Layla ao aposentou onde estava a enferma acompanhada por Ibn Rusch, Adara e Kamilah.
As demais, por ordem de Layla, haviam sido afastadas do local, e o ambiente tornara-se mais calmo.
– Benjamin! Que bom que veio tão rápido! – comentou Ibn aproximando-se do amigo.
– Em que posso ajudá-lo?
Indagou Benjamin, após responder à saudação com um leve aceno de cabeça.
Ibn transmitiu a ele suas observações e suspeitas.
Depois deixou que ele examinasse Zahara.
– Então? – perguntou Ibn com rugas de preocupação vincando-lhe a fronte tensa.
Layla e as demais mulheres acompanhavam o exame distantes do leito.
Zahara envolva nas brumas da inconsciência a nada respondia; a pele tornava-se levemente amarelada; o rosto, ainda congestionado, destoava numa vermelhidão contrastante.
– É o primeiro filho dela? – indagou Benjamim.
– Sim.
O médico judeu afastou-se do leito, aproximou-se de Ibn e, conduzindo-o pelo cotovelo, o levou a um canto dos aposentos.
– Eclampsia, você estava certo.
Convulsão, pernas inchadas além do esperado, primeiro filho, fim de gestação, tudo com Hipócrates já ensinava.
Quadro grave; está inconsciente depois da última crise.
É preciso tirar a criança – falou ele sem rodeio ao amigo muçulmano.
– E o que acha que podemos esperar para depois?
– Vida ou morte, meu bom amigo.
É só o que podemos ter certeza de esperar nesta Terra.
Se me pergunta as condições de uma ou de outra, sou sincero: não sei, qualquer coisa.
Mas é preciso tentar, ou se dará o óbvio, a morte da mãe e do filho.
Enquanto não tirarmos a placenta, ela estará doente; depois, poderá haver sequelas ou não.
Agora, não há como prever.
Novos tremores voltaram a sacudir o corpo de Zahara.
Kamilah, que correra ao leito, viu um filamento de sangue escorrer por entre as pernas da paciente espalhando-se e gritou:
– Sangue! Ibn, venha!
Ela está sangrando.
Os dois médicos trocaram um olhar; por alguns instantes nenhum se mexeu, para agonia de Kamilah que insistia em chamá-los.
Ambos examinaram as expressões das mulheres que presenciavam a cena.
Em todas a expressão era de temor, beirando o pânico.
Só não fugiam dali porque a emoção as dominava, excepto Layla que olhava, com frieza, a situação de Zahara.
“ A natureza é uma força crua, não cruel.
É ela que se manifesta”, pensava Layla.
Em seu olhar também não havia laivos de piedade; apenas a aceitação do momento e a disposição de fazer o necessário.
– Vamos falar com ela – decidiu Benjamin e andou resoluto na direcção de Layla, acompanhado por Ibn Rusch.
– Senhora – começou o médico judeu –, a situação é de extrema gravidade, podemos falar em particular?
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 21, 2018 8:27 pm

– Ela está sangrando – gritou Kamilah apavorada.
Não vão fazer nada?
– Mande-a embora – ordenou Benjamin.
O que teremos que fazer ela não suportará ver e precisamos da decisão da família.
Layla apenas abaixou os olhos e saiu do aposento seguida pelos médicos.
Do lado de fora, ordenou a Aidah:
– Entre lá e leve Kamilah para outro lugar.
De preferência fiquem todas lá.
A voz de comando foi tão incisiva que a outra nem pensou; habituada, apenas obedeceu.
Benjamin olhava encantado para a segurança da jovem e para sua capacidade de decisão e voz de comando que não vacilavam.
– Muito bem – disse ela aos médicos.
O que desejam me dizer?
– Layla, você viu com muita clareza a condição de Zahara, ela não está em trabalho de parto.
Ela está em convulsão, uma doença que acomete algumas mulheres grávidas, especialmente na primeira gestação.
A única coisa a fazer é retirar a criança e a placenta, para tentar salvá-la.
Temos que agir rápido, não há tempo de chamar mais ninguém, para nos autorizar a fazer o que é preciso.
A decisão é sua; as outras não estão lúcidas, seriam estorvo, entenda-nos, por favor.
Layla ouvia em silêncio.
Nunca ouvira falar daquilo.
– Tirar a criança como? – perguntou.
– Morta – respondeu Benjamim sem floreios.
Retiramos em pedaços.
Um arrepio de horror percorreu toda coluna vertebral de Layla e a sacudiu de leve.
– É horrível, eu sei.
Mas é a única chance de tentarmos salvar a vida da mulher.
Senão fizermos isso, ela morrerá junto com a criança.
Portanto, veja, essa criança é inviável de qualquer forma – continuou ele.
– Que fazemos Layla?
Qual é a sua decisão? – inquiriu Ibn Rusch.
– Vocês estão seguros desse diagnóstico?
É uma decisão difícil.
Eu sou uma estranha aqui…
– É a única lúcida esta noite.
Eu explicarei a Jamal tudo o que for necessário, não tema que não a abandonarei – esclareceu Ibn Rusch.
E, quanto à sua pergunta, a resposta é sim, não temos dúvida.
Aliás, não tive, apenas pedi que Benjamim viesse porque queria outra opinião e sei que o Califa reconhece a competência dele.
Em outros casos já trabalhamos juntos para o seu marido.
– Entendo. Eu os autorizo a fazer o que for necessário para tentar salvar a vida de Zahara.
O que será preciso?
– Fico satisfeito com a sua compreensão, senhora. – disse Benjamim.
Entendeu que nesse procedimento, como em nenhum outro, se pode garantir a vida de um ser humano.
Faremos o que estiver ao nosso alcance.
– O reino do possível, senhores.
Sim, eu sei que vivemos inseridos e subjugados a ele.
Façam. Ao menos tentaremos o que está ao nosso alcance.
Benjamin trocou um olhar de mudo entendimento com Ibn e, ante a aquiescência deste, manifestada com um leve meneio da cabeça, voltou-se para Layla e solicitou tudo que se fazia necessário.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 21, 2018 8:27 pm

A cena que seguiu foi e espectáculo mais dantesco de luta entre a vida e a morte que Layla já havia presenciado.
A violência do ato era inenarrável, embora não houvesse um único sentimento destrutivo associado a ela.
As mãos de Benjamim, dentro do corpo da enferma, empunhando um pequeno punhal de lâmina extremamente afiada, operavam aos olhos de Layla e de alguns assistentes a retirada, aos pedaços, a criança que se havia gerado no ventre da mulher inconsciente sobre o leito.
Salma, que segurava uma bacia, ao lado do médico, virava o rosto, para não ver o que era depositado nela.
Era claro que ele não pensava em matar, mas em salvar a vida.
O sacrifício era necessário, não cruel, embora bárbaro.
O brilho no olhar dele era em tudo semelhante ao abismo negro dos olhos de Layla, e mais pura determinação.
Era a ira transformada.
O mesmo sentimento capaz de matar, dando chance à vida.
Assim, como em outras ocasiões, é esse mesmo sentimento sublimado, transformado no espírito humano numa escala de progresso ascensional, que fará seu portador exercer sobre inúmeros expectadores, o poder do carisma da oratória,
de encantar e elevar com palavras.
Na escada de Jacó, da evolução emocional dos seres humanos, tudo, assim como no eixo das ordenadas da ciência da matemática, a linha vertical onde os números inferiores são negativos, o zero é o ponto de neutralidade, e ascensão se faz rumo aos números positivos.
A luta estendeu-se após a retirada de todo material que havia no ventre grávido e varou a madrugada na tentativa de conter a hemorragia.
Foi com os primeiros raios do sol que Benjamim declarou que o necessário estava feito.
Dali para a frente era esperar a reacção do organismo de Zahara.
– Salma, chame os encarregados da limpeza.
Mande-os aqui, com urgência.
Chame, também, a criada pessoal de Zahara para que vele por sua senhora.
Depois, vá directo a minha ala e mande preparar uma refeição e banhos para mim, para Adara e para os médicos – ordenou Layla cansada, mas atenta.
Voltando-se para Ibn e Benjamim, completou:
– Mandarei que preparem aposentos para vocês descansaram.
Acredito que será preciso que fiquem próximos de Zahara.
Ela ainda não acordou.
– Em parte pelos elixires que lhe demos – explicou Ibn.
Mas tem razão; ao menos pelas próximas horas ficaremos aqui, não é Benjamim?
Ela enxugando as mãos numa toalha, murmurou um “sim”.
Seu rosto tinha uma expressão de exaustão, e Layla quase riu ao observar o alívio que viu no rosto do judeu quando mencionara banho e descanso.
Ela também precisava deles como do ar que respirava.
A noite fora desgastante física e emocionalmente.
Ela tinha certeza de que bastaria fechar os olhos para que as horríveis cenas que presenciara desfilassem em sua imaginação.
Após a refeição, enquanto Adara e os médicos encaminhavam-se para seus quartos, ela caminhava resoluta na direcção dos estábulos.
Ignorando rodo aparato de segurança que cercava as esposas do Califa, escolheu uma montaria e galopou para fora da cidade.
Precisava ver os campos, os animais, a vida silvestre.
Acima de tudo, a solidão.
Do alto da janela do segundo andar do palácio de Al Jerrari, a irmã do Califa e Ximena observavam a determinada amazona e o desnorteio dos homens por ela ostensivamente ignorados.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 21, 2018 8:27 pm

PERSEGUIÇÕES
– Eu descansarei menos – disse Ibn fitando Benjamim confortavelmente instalado no leito ao lado do seu.
Você trabalhou mais, é justo que durma.
Prefiro não deixar a paciente muito tempo aos cuidados das outras esposas do Califa e de suas criadas.
Estão desequilibradas.
– Passionais demais – murmurou Benjamim com o braço sob o travesseiro, erguendo a cabeça voltada para o companheiro.
Impressionei-me com a mais jovem.
Tem uma força incomum.
– Layla. Você usou a palavra certa, ela é absolutamente incomum.
Conheci sua história antes de conhecê-la e julguei que era exagero dos que falavam.
Mas, a cada dia, vejo que o errado era eu. Você viu muito bem.
– Sem dúvida, é uma mulher sobre quem há o que se falar; mulheres assim são raras.
Verdadeiras jóias.
Mas vamos descansar.
Nossa missão aqui é outras, não fazer estudos sobre a personalidade da nova esposa do Califa, Ibn riu das palavras do amigo e de seu movimento decidido de afofar o travesseiro e enterrar a cabeça nele.
Silenciou, deixando o outro descansar.
No entanto, não conciliou o sono, e sua memória vagou pelos encontros com Zafir, Karim e o desespero de Nasser Al Gassim com o desaparecimento da filha, a renúncia à reparação devida de casá-la com Munir Al Jerrari; rememorou tudo quanto ouvira de Layla e concluiu que tudo que sabia ainda não desvendava o abismo negro dos olhos da jovem.
Recordou a frieza com que tomara as decisões, o modo como participara e fora útil naquela noite dantesca e, principalmente, como, mesmo em sua pouca experiência com partos, soube identificar o que as outras não tinham conseguido:
a grave doença e não fores de parto.
– Não sei se é bom ter uma mulher assim por perto.
É um desafio, uma glória, uma escravidão ao seu fascínio, mas é inegável que indiferença e monotonia não existem ao lado de alguém como Layla – murmurou Ibn para si mesmo, pois Benjamim ressonava, exausto.
Um breve cochilo foi tudo que Ibn conseguiu dar de descanso ao corpo, mas acordou revigorado e pronto a retornar para junto de Zahara.
Aproximava-se o crepúsculo quando Layla retornou ao palácio.
Do modo como havia saído, ignorando guardas e servidores, retornou.
Adentrou a ala onde residia encontrando Salma com olhar aflito.
– Por favor, não me dê mais nenhuma notícia de desgraça – comentou Layla.
Ou melhor, se aconteceu o pior, diga-me, mas depois do meu banho e das minhas orações.
Quero conservar minha paz.
– Fique tranquila, senhora.
Nada mudou – respondeu Salma.
Vou providenciar o que pediu.
– Óptimo. Assustei-me com seu olhar aflito.
– Era por sua causa.
Desapareceu. Deixou a todos aflitos.
Foi a senhora Adara quem orientou que não fizessem nada.
Disse que era seu costume agir desse jeito. Fiquei assustada.
– Acostume-se.
A liberdade é meu remédio.
Salma calou-se.
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