O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 03, 2018 7:48 pm

– Deus do céu!
Se mil homens invadissem o palácio de seu primo, não causariam furar tão grande quanto a notícia dessa missiva – previu Kiéram assustado com a insensatez de Munir, jogando incerteza sobre o futuro próximo.
O emir Al Jerrari riu baixinho, demonstrando que se divertia com a previsão e a considerava acertada.
– Agora sabe por que deve ser meu primo a receber a mensagem.
Ele que se entenda com a “irmãzinha”.
A atitude de Al Jerrari enchia de temor seu amigo e servidor.
Pensamentos desconexos e temerosos varreram-lhe a mente com a força de um vendaval, rápidos, fortes; impossível opor barreiras, trazendo cenas de destruição à sua mente.
Uma pergunta queimava-lhe a língua e não pôde calar:
– Valerá a pena, Munir?
Essa não é uma decisão importante demais para ser tomada de forma tão afoita?
O emir sorriu. Um brilho eivado de cobiça, prazer e ansiedade iluminou seus olhos castanhos antes de responder.
Sem dúvida, era um brilho traidor dos seus pensamentos, das lembranças, das emoções fortes que o tomaram de surpresa e o encantavam.
– Não, Kiéram – respondeu após a pausa reveladora.
Há decisões que são ditadas pelo coração e não pela razão.
Elas são rápidas, não deixam margem à dúvida.
Simplesmente são.
– Hum… sei do que fala.
Mas com a liberdade que me permite nossa longa amizade, não ousaria chamá-las de “decisões do coração”.
O que vejo em seus olhos, meu caro, tem pouca relação com o coração – retrucou Kiéram irónico e sério.
Munir gargalhou do comentário e concluiu:
– Que seja! Conhecemo-nos faz tempo.
É meu melhor amigo, Kiéram, a única pessoa em quem confio plenamente.
Não me farei de rogado, você tem razão.
Quando conhecer minha futura noiva, dirá que estou certo, que minha decisão vale todos os transtornos que possa gerar.
É a mulher mais linda e fascinante em que pus meus olhos até hoje.
– E precisa ser casamento? – indagou Kiéram com um olhar sugestivo.
– É a filha de Al Gassim.
– Por Deus, Munir!
Não havia outra para enchê-lo de amores e desejo?
– São as ciladas da vida.
Há fogo nos olhos dela, Kiéram…
há… há uma força estranha nela.
Algo que não consigo descrever. Layla é encantamento…
– Munir, eu lhe imploro: pense bem.
Esta não é a primeira vez que se toma de amores; com suas conquistas eu já conseguiria formar uma guarnição.
Mas uma segunda esposa agora não será complicar desnecessariamente a situação em Córdoba?
Além do mais, você mal conhece essa moça, encontrou-a ontem à noite…
Al Jerrari parecia surdo aos apelos do amigo.
Tinha a mente fixa na lembrança do dia anterior e poder-se-ia dizer que no íntimo, havia também um prazer secreto, uma razão oculta ao afrontar o Califa de Córdoba, seu primo e cunhado.
Mesmo percebendo essas reacções, Kiéram insistiu:
– Mandarei o mensageiro amanhã ao raiar do dia.
– Agora, Kiéram!
Siga as ordens que lhe dei.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 03, 2018 7:49 pm

RELACIONAMENTOS EM CONFLITO
Alheia às aflições que dominavam eu senhor e aos episódios da noite anterior, Leah caminhava rapidamente cortando distâncias pelo pátio de treinamento até a entrada dos fundos da residência de Al Gassim.
Um véu diáfano, de seda branca, tremulava ao vento pendurado sobre as flores que ornamentavam os canteiros laterais.
Apanhou-o resmungando baixinho:
– É de Layla. Menina travessa!
Se a mãe a descobre sem o véu…
Que briga! Quando o terá perdido?
Não veio treinar com as armas.
Terá sido ontem à noite? Não é possível!
Havia um banquete para receber os visitantes…
Leah permanecia parada com o véu nas mãos, confabulando consigo mesma.
A jovem odiava usar o véu, símbolo da sua condição de protegida do sexo masculino, no caso, do pai.
Em família, na intimidade do lar, as mulheres muçulmanas podem ficar descobertas, mas nunca na presença de estranhos, especialmente homens.
Layla rebelava-se contra o véu, costumava atirá-lo pelos cantos da propriedade sem nenhum cuidado.
O uso a incomodava até para dançar.
Não foram poucas vezes que, em suas excursões com o pai e o irmão, ela dava um jeito de deixá-lo cair, de perdê-lo para usufruir a brisa e o calor sol.
Quando o pai a admoestava, ela sorria, estendia a mão mostrando o vale e os campos.
– Só há animais selvagens e vegetação, meu pai.
Por certo o único olhar que recai sobre mim é o do Altíssimo e a Ele me submete com ou sem véu.
Por fim, todos entenderam a profunda aversão que ela sentia em “ser obrigada” a ostentar o símbolo que, a seu ver, a diminuía como ser humano.
Era uma de suas muitas rebeldias às normas de comportamento ditadas pela sociedade islâmica, porém sua devoção a Alá e sua crença não podiam ser alvo de nenhuma crítica; ao contrário, reconhecia-se que muito de sua forte personalidade vinha desse escudo de fé no Criador que a sustentava.
Podia-se dizer que ela era uma crente muçulmana no que há de mais profundo nessa vertente religiosa.
Layla era uma alma livre que se submetia unicamente a Deus, e o fazia em plenitude.
Nunca alguém a ouviu questionar, reclamar ou imprecar contra algo da natureza.
– Reconheço a vontade de Alá e que sou submissa – dizia ela e, sem murmurar, suportava vento, frio, calor, todos os movimentos da vida com seus ciclos de ganhos e perdas, de nascer e morrer, todas as dores e mal-estares físicos.
De nada reclamava.
Porém, onde não tivesse plena certeza de que fora uma determinação divina, suas próprias forças a guiavam, não acolhia imposições, e se, porventura, fosse obrigada a tolerar – como era o caso do véu na presença de visitantes ou em público -, isso a desgastava e o fazia, tão somente, pelo tempo necessário.
Largá-lo em qualquer canto denunciava seu desprezo.
Servia como mudo protesto.
Enrolando o véu e escondendo-o sob a manga do vestido, Leah retomou o caminho, reflectindo que era bem provável que sua jovem senhora o houvesse largado em um momento de raiva.
Era típico dela; desde que passara a ter de usá-lo, se algo a incomodava, era a primeira coisa arrancada e jogada longe.
“Que terá acontecido? ”, questionava-se a servidora dos Al Gassim ao adentrar na residência dos senhores.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 03, 2018 7:49 pm

Conforme avançava, mais se acentuava o sentimento de que algo estranho estava acontecendo.
– Amanheceram nervosos – respondeu uma das criadas à sua indagação numa breve conversa enquanto Leah vestia o avental sobre o vestido.
Não sei o que se passou na festa de ontem, mas, com certeza, deve ter acontecido algo para deixá-los neste estado.
As mulheres estão agitadas.
A senhora Farah tem os olhos vermelhos e inchados.
A senhora Adara está muito calada, caminha de um lado para outro, procurando pela menina Layla.
As outras estão prostradas rezando.
E o emir mandou chamar o senhor Zafir antes da refeição matinal.
Os visitantes parecem ter sido esquecidos.
– Obrigada, Mara.
Já sei o que posso encontrar. E Layla?
Alguém a viu?
– Não sei da menina.
Deve estar em seus aposentos à sua espera.
– Deve estar – concordou Leah, afastando-se ainda mais apressada.
“Algo está acontecendo e não creio que seja bom.
Pressinto problemas”, reflectia a criada, repassando em pensamento as informações recebidas.
O movimento relatado estava longe do usual.
Chegando à porta do aposento de Layla, bateu como se costume, e, assim que recebeu permissão, entrou.
A jovem estava sentada entre almofadas, na posição de lótus, em frente às altas janelas que se abriam para os jardins e campos cultivados.
Leah notou que a jovem ainda usava as roupas de festa:
a túnica branca bordada alcançava a altura dos joelhos e a calça de seda da mesma cor cobria-a até os pés, em cujo dedo mínimo brilhava um anel de ouro cravejado de pedras preciosas.
– O que houve, Layla?
Não se sente bem? – indagou a criada com a familiaridade de quem a conhecia desde o nascimento.
A sombra de um sorriso se desenhou de modo fugaz no rosto moreno da filha de Al Gassim.
– Estou bem, Leah, apenas precisei meditar e depois perdi o sono. Foi isso.
Leah agachou-se próximo de Layla notando-lhe o olhar sombrio e distante.
– Algo ou alguém a incomodou na festa – afirmou Leah.
Não quer conversar, contar o que aconteceu?
Layla respirou profundamente; uniu as mãos.
Seu olhar vagava pelo verde além dos umbrais das janelas.
– Muitas coisas me incomodam.
Diria que há tempos; apenas algumas se renovaram à noite passada.
– Encontrei um véu no pátio de treinamento. É seu?
– Jogue-o no fogo – resmungou a jovem, irritada.
– Conte o que houve.
Vai se sentir melhor.
Quando encontrei este véu, ele me pareceu um aviso.
Você só iria ao pátio à noite se estivesse revoltada.
O pobre véu estava jogado sobre as flores, mais desprezado só se houvesse jogado em uma cocheira.
– No chiqueiro seria melhor.
Odeio esse trapo!
– É bonito, Layla – retrucou Leah, na tentativa de apaziguar a disposição da moça com o emblema de sua religião.
– Use-o e verá quão belo ele é.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 03, 2018 7:49 pm

Não deveria se chamar véu, mas, sim, sujeição.
Há homens que são mais imbecis que os muares.
E pensam que são superiores, que tudo podem.
Arrogantes, imbecis. Prepotentes!
– Posso saber se tem um nome o homem que recebe tanto elogios? – questionou Leah, divertida com a fúria controlada de Layla, que esbravejava sem se mover ou alterar a expressão da face.
Apenas o olhar e o tom da voz denunciavam seu estado emocional.
“Parece um temporal se anunciando com nuvens escuras e pesadas”, comparou Leah mentalmente.
Quando via sua jovem ama irada, lembrava cenas de tempestade.
– Sim, o mais recente atende pelo nome de Munir Al Jerrari.
Ele reivindica o título de senhor supremo da prepotência.
– O visitante de Córdoba! – espantou-se Leah.
Mas o que ele fez?
– Resolveu cortejar-me, bajulou-me até que todos prestassem atenção.
Agiu como se eu fosse uma mercadoria à disposição para compra e venda.
Como se fosse obrigada a tolerá-lo e ainda devesse me sentir honrada.
– Você é uma mulher bonita, Layla, solteira.
Está na idade de chamar a atenção dos homens.
É natural. Não devia se irritar.
É um facto da vida, aceite, como convém à sua fé.
– Essa atitude não é a vontade de Alá.
Não me curvo e não aceito.
Não sou mercadoria.
– Minha querida criança, sabe o quanto eu respeito sua crença e, muito especialmente, sua fé, mas não concordo com o que disse.
Quem pode saber qual é a vontade do Criador?
Conheço histórias da manifestação da vontade Dele no seio do meu povo.
É dos factos concretos que se entende por onde andou a mão do Senhor escrevendo em nossas vidas.
Uma situação bizarra, absurda, aos nossos olhos, pode ser um caminho da vontade Dele.
Você conhece a vida dos profetas, elas são cheias de fatos deste tipo.
– Leah, você quer me fazer crer que a atitude petulante do emir Al Jerrari é uma manifestação do Altíssimo?
E que aceitar sua conduta e seus desejos é seguir o caminho correto? – questionou Layla, incrédula com o pensamento expresso pela criada.
Conhecia-a desde quando se entendia como gente.
Admirava-a pela convicção e fé que demonstrava em sua vida, bem como pela férrea força de vontade e persistência.
Não podia conceber que justo ela a aconselhasse a ser submissa.
– Todas as coisas do mundo são manifestações de um mesmo poder, são obra de um única Criador; nós mesmos suas criaturas e, se não somos perfeitos, é preciso reconhecer que Ele assim não desejou fazer.
Mas que escolheu nos dar a vida, a liberdade e o mundo inteirinho para descobrirmos e aprendermos e, especialmente, aprendermos a amar a Ele que nos deu a vida.
É assim que os muçulmanos também crêem, certo?
Ante a concordância tácita de Layla, a criada concluiu:
– Por pensar desse modo eu respeito e aceito as imperfeições próprias e alheias como manifestações da vontade de Deus.
Ele quis que participássemos da melhora pessoal e do mundo, que fôssemos testados por dores e prazeres; que nas lutas do mundo desenvolvêssemos a têmpera, a força, a fé e o amor incondicionais.
Olhe, o que quero mesmo lhe dizer é que você precisa aceitar que, hoje ou amanhã, se não for Al Jerrari, será outro, aparecerá um homem e desejará se casar com você.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 03, 2018 7:49 pm

Esse é o facto da vida a ser aceito.
Você cresceu, minha criança.
A vida começa a lhe mostrar que traçou caminhos que são somente seus, de mais ninguém.
– Seu pensamento é sábio, verdadeiro, mas eu ainda creio que muitas coisas que acontecem não são manifestações do Misericordioso.
São manifestações da imperfeição humana.
Concordo com o que disse quanto a isso, mas essas imperfeições precisam ser corrigidas e, se formos sempre submissas, elas não mudarão.
Leah sorriu e ergueu-se, indo apanhar uma das escovas de cabelos enfileiradas sobre um aparador de madeira escura.
Retornando, sentou-se atrás da jovem e começou a desfazer o penteado.
Escovou os longos fios negros, enquanto falava como se pensasse em voz alta:
– Desde menina você tem dificuldade em entender a submissão das mulheres.
Lembro que era pequena e já questionava a forma como vivemos.
Agora você é adulta, pode conhecer o que antes não era conveniente.
Leah sorriu das ternas lembranças que lhe vinham à mente da rebeldia de sua ama e prosseguiu:
– Você nasceu aos gritos, Layla.
Não é coisa comum bebés nascerem berrando.
Devia ser sua alma anunciando que você não se conformava, nem sabia se calar.
Mas nem só de gritos se faz uma luta; no silêncio também há poder.
Os homens só o enxergam e reconhecem onde há barulho e ele está exposto.
São imediatistas, impacientes.
Nós, mulheres, temos um aprendizado diferente.
Nossas mentes vagam buscando caminhos no silêncio e, justamente, no saber esperar, na força da paciência, da perseverança e em todos os poderes que se podem exercer em silêncio e, sem ser notadas, é onde aurimos forças.
A natureza nos deu corpos diferentes; isso vale dizer aprendizados diferentes.
Nós aprendemos a suportar as dores, os ciclos, a gerar e criar outros seres, e essas experiências ensinam a esperar, a ter paciência com a vida, a harmonizarmo-nos com seus ciclos.
Sabemos que não adianta berrar; descobrimos forças e poderes dentro de nós que não imaginávamos existir.
Eu já lhe conte a história de Esther ou, como nós a chamamos, Hadassa?
– Já ouvi você falar dela, foi uma rainha do seu povo.
– Exactamente. Hadassa foi rainha, sendo judia, pobre, vivendo sob a dominação dos persas quando isso parecia impossível, um absurdo.
A história do meu povo é cheia de dominações, de escravidão.
Era uma menina que ficou órfã muito cedo; acabou sendo criada e educada por um tio.
Tornou-se uma jovem linda, como você.
Certo dia, o rei dos conquistadores incomodou-se com sua rainha, desentenderam-se e ele a repudiou, ficando livre para tomar nova esposa.
Mas estava desiludido com o casamento, não sabia como escolher uma nova mulher.
Aconselharam-no a que mandasse vir à sua presença as mais belas virgens da cidade e, entre elas, escolhesse a que lhe fosse do agrado.
Seus soldados buscaram todas as jovens bonitas da cidade.
Hadassa foi retirada da casa de seu tio e era a mais bela.
Desconheciam sua origem e ela não a revelou de imediato.
O rei a escolheu; tomou-a como esposa e rainha.
Assim Hadassa tornou-se Esther, rainha dos persas.
Com o passar do tempo ele apaixonou-se pela esposa que soube como nenhuma outra cativá-lo.
Ocorreu, então, uma traição ao rei.
Aquele em quem ele mais confiava o atraiçoou e desejou lançar a culpa sobre o povo hebreu.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 04, 2018 8:27 pm

Esse traidor conspirou para que os judeus fossem considerados culpados do crime e dizimados.
Hadassa foi informada, recebeu todas as provas e, com a astúcia feminina, sou desmascará-lo.
Revelou ao rei, nesse momento, sua ascendência hebreia, pediu e obteve a condenação do culpado.
Porém, já não havia como impedir a tentativa de massacre aos judeus, mas ela conseguiu que nosso povo tivesse garantido o direito de se defender e lutar com igualdade de condições.
Resultado: o culpado foi condenado.
O massacre não aconteceu porque de defenderam; houve guerra, não massacre.
O tio e tutor da rainha tornou-se o homem mais influente junto ao rei dos persas e, por causa dela, a rainha judia, nosso povo conquistou melhores condições de vida na época.
Nos livros sagrados, a história de Hadassa é contada pelos homens da minha raça, e, lógico, privilegiam o ponto de vista masculino, ressaltando a figura do tio e tutor que depois foi um governante, mas não é difícil perceber que Hadassa foi uma grande mulher, tanto que seu nome persa, Esther, significa a estrela do amor, do planeta Vénus.
Você acha que ela era submissa?
Que não tinha nenhum poder?
– Não, não era – respondeu Layla, após reflectir algum tempo sobre a história da órfã judia que se tornou rainha dos persas.
Parecia ser, é isso que você quis dizer, quando falou da paciência e de que Hadassa cativou o rei.
– Se você cativar um animal, ele é dócil à sua vontade.
Não é assim com suas águias?
Pois bem, a mulher tem meios de cativar os que desejam submetê-la e, então, há a inversão do jogo.
É o poder da paciência e de reconhecer o próprio valor.
– Quem cativa manda, embora o cativo pense ser ele.
– É, minha criança, não creia que a história do mundo é feita de homens e guerras.
É feita também pelas mulheres.
A diferença é que não somos nós que a contamos.
Entretanto, mesmo na história contada pelos homens, se lida com atenção, se percebe a sombra da mão feminina.
Só se submetem realmente aquelas de nós que, infelizes, ignoram o poder que carregam.
Leah observou que o diálogo fazia bem à jovem cujo olhar ainda estava perdido na paisagem além das janelas, mas o brilho da ira arrefecera, dando lugar a uma expressão compenetrada.
Os olhos de Layla não viam o céu, nem a clara paisagem de Al-Andaluz.
Estavam fixos na contemplação interior.
Na reflexão provocada pela mítica figura de Hadassa e sua extraordinária trajectória da orfandade ao cume do poder.
Nenhuma delas ouviu a suave aproximação de Adara, que, silenciosa, ficara ouvindo o diálogo.
Aprovando o que ouviu, anunciou sua presença:
– Bom dia. Perdoem, pois ouvi a conversa.
Layla sorriu para a recém-chegada e estendeu-lhe a mão num convite para que se sentasse a seu lado.
– Notei que a noite de ontem a perturbou, por isso vim vê-la tão cedo.
Como está?
– Melhor. Leah tem uma boca abençoada.
Sempre encontra palavras que me acalmam, trazendo-me novos pensamentos.
Ouviu a história da rainha persa?
– Já conhecia a história de Esther – e, olhando para a criada, sorriu ao comentar:
– Uma elogiável mulher da sua raça. Um exemplo.
Leah sorriu ao responder:
_ Hadassa tem o poder feminino, senhora Adara.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 04, 2018 8:27 pm

Seu exemplo serve a todas nós, independentemente da raça ou crença.
Ela reinou entre estrangeiros.
A menina Layla estava incomodada com o véu, como sempre.
Com dúvidas sobre submissão e…
– Eu ouvi. Layla, você pensa que eu gosto de usar o véu?
– Não sei – retrucou Layla.
Não me lembro de termos discutido o assunto.
– Pois eu detesto, na maioria das vezes.
Acho-o sufocante.
Mas é uma tradição do nosso povo, é uma prescrição religiosa, e eu o aceito.
Sinceramente, nesta conversa entre mulheres, ouso assumir que aceitar talvez não seja a palavra certa para dizer o que sinto, tolerar é mais honesto.
E a vida tem me mostrado que a tolerância é uma virtude de valor inestimável; ela nos põe a caminho da aceitação real e da misericórdia.
Vocês falavam de rainha e do poder da mulher, pois eu creio que a tolerância nos acrescenta um valor muito grande.
Quanto será que Hadassa não teve que tolerar em sua vida?
Será que todos a aceitaram incondicionalmente no lugar da antiga rainha?
Quais foram os incómodos íntimos que ela não teve que calar?
Quanto hábitos diferentes dos seus não precisou suportar, acatar e até adoptar?
Talvez alguns muito sérios.
Sabemos que o povo hebreu é zeloso com sua fé.
Hadassa, como rainha, será que não teve que aceitar a participar da fé do marido tão diferente da sua?
Será que isso não causava um desconforto interior?
Leah ouvia a argumentação de Adara e balançava a cabeça concordando.
Questionara muitas vezes em sua vida, aqueles mesmos pontos, entre outros, e informou:
– Sabe-se que, para se manter fiel ao nosso calendário e cumprir as prescrições de nossa religião, ela baptizou cada uma das criadas que a serviam com o nome de um dia da semana e ordenou que elas se revezassem.
Era dessa forma que sabia quando era sábado.
Ninguém, além dela, entendia o sentido daquele pedido; é possível que muitos a tenham criticado, julgado uma excêntrica, louca até.
– E esse caminho silenciosa valerá o sacrifício? – indagou Layla, séria.
– O tempo deu a Hadassa a glória, a vitória.
Mesmo numa cultura em que a mulher também é submissa ao homem, ela soube escrever seu nome e ser lembrada – arrematou Leah.
Creio que sua vida é mesmo uma mensagem para as mulheres.
– A tolerância é, de facto, um caminho silencioso, cheio de espinhos, não é qualquer um que o percorre, é difícil – respondeu Adara à sua rebelde filha do coração.
Porém, ser tolerante é garantia de jamais se andar sozinha, é ter a certeza de que, quando precisar, alguém lhe estenderá a mão.
Eu creio que Hadassa tenha sido uma mulher muito tolerante e que, por ser assim, conquistou o que desejava e realizou o que conhecemos de sua vida.
A tolerância nos dá um poder benéfico sobre as pessoas, desperta confiança.
A tolerância deve ser a companheira preferida da paciência, pois quem é tolerante sabe esperar.
Trombetas e tambores anunciam violência; o poder da mulher não é, em essência, violente, embora a violência não seja descartada de nossas atitudes.
– Hadassa autorizou uma das maiores chacinas e batalhas sangrentas que nosso povo conheceu – comentou Leah –, mesmo sendo tolerante…
– Por ser tolerante – atalhou Adara corrigindo o pensamento da criada –, ela sacramentou o que possivelmente não tinha outra forma de ser, o que não tinha caminho de volta.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 04, 2018 8:27 pm

Eu penso que nós somos tão cruéis e violentas como os homens, mas de forma diferente.
Violência é emprego de força, e a força feminina é de ordem moral, não física, é fruto da astúcia e do sentimento.
Adara voltou-se para Layla e completou, retomando a questão do véu e da submissão da mulher muçulmana:
– Querida, pense no véu da seguinte forma:
ele demarca território. Fora das paredes do domínio da família, é o reino dos homens, e nós escondemos nossas cabeças.
Na intimidade, entre os familiares, desvendamos nosso rosto, aí é o nosso território.
E, se você tiver olhos de ver, como dizia o profeta Jesus, entenderá que absolutamente tudo nasce dentro, no interior.
As nascentes dos maiores e mais caudalosos rios brotam do ventre da terra; todos os homens, sem excepção, nascem das entranhas da mulher.
Vem de dentro o que está aparente.
– Mais uma razão para mudarmos – retrucou Layla,
teimosa.
– Por que tolerar o que nos incomoda?
Vamos mudar o pensamento dos homens a nosso respeito.
– E a prescrição religiosa? – recordou Adara.
Como sermos submissas a Alá e não tolerarmos sequer a prescrição de Muhammad?
Tal argumento impunha silêncio à jovem Layla.
Expor ante uma das esposas de seu pai o que pensava sobre o livro sagrado e sobre muitas de suas prescrições seria motivo de uma terrível discussão doméstica.
“Isso deve ser um exercício de tolerância.
Não posso chocar todos eles com meu modo de ver e pensar, só lhes traria sofrimento, nenhum proveito imediato.
A questão de não discutir as prescrições de fé é tão ferrenhamente entranhada neles que nem ao menos gastariam alguns segundos para reflectir se o que penso tem algum sentido.
É melhor calar”, pensou Layla sorrindo para Adara e espelhando seu comportamento na história de Hadassa.
– Continuarei tentando tolerar o véu – declarou a jovem.
– E quanto ao emir que nos visita? – perguntou Adara.
Será tolerante também?
Foi muito desagradável a maneira como o abandonou o banquete ontem.
Foi indelicado com o hóspede.
E você bem conhece a importância de se receber bem um viajante. É um dever.
– Saí ao pátio a fim de evitar uma indelicadeza maior.
– Não precisará agir assim.
Se não tolera este homem, antecipe-se a ele e fale com seu pai.
Nasser não a forçara a ceder ao provável pedido, por melhor que ele seja para os nossos interesses.
Lembre-se de que ele veio aqui a negócios, comércio.
Mas, veja, pondere, uma aliança com a família de Al Jerrari seria excelente.
Ele é jovem, atraente, gostou de você; livremente a escolheu.
São factores importantes para uma mulher ponderar num contrato de casamento, ainda que a maioria não seja consultada.
Quando seu pai me escolheu, eu considerei estes factores, em especial o facto de que ele não estava sendo obrigado a tomar-me como esposa.
Ele queria. Vê as vantagens, Layla?
É como na história de Hadassa.
Ignorando o comentário de Adara, a jovem filha de Nasser Al Gassim ordenou amavelmente à criada:
– Trance meus cabelos e use o colar de ouro com pingente de diamante para enfeitá-los.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 04, 2018 8:28 pm

DIAS DECISIVOS
Ao meio-dia, Layla adentrou na sala para participar com os demais familiares e visitantes, do momento de oração.
Munir, desde que a avistou, não conseguia desviar a atenção da jovem.
Ela o fascinava sem qualquer esforço.
Atraía-o como o ímã atrai o metal.
Quanto mais a olhava, maior era o desejo de tê-la para si.
O jovem Al Jerrari era vítima de fascínio, não cogitava em momento algum como Layla pensava, do que gostava, quais eram seus interesses.
Ele era tão cego pelo modo de vida que levava, pela cultura na qual havia nascido que sequer imaginava a personalidade da mulher que tão ardorosamente desejava.
Tudo o que enxergava era a beleza, a pele morena saudável, os cabelos negros brilhantes, os olhos também negros com longas e volumosas pestanas, a testa alta em que, naquele momento, brilhava uma pedra preciosa em forma de lua crescente presa a um cordão de ouro entrelaçado nas tranças que devam forma à cabeleira, encoberta pelo véu; o corpo esbelto e curvilíneo que adivinhava sob a túnica de seda amarela.
Gastava preciosos momentos imaginando-a, mas não prestava atenção na profundidade da expressão do olhar de Layla, em sua postura altiva e independente, na maneira como andava com a cabeça erguida, na forma como dirigia o olhar directamente a quem falava ou a algo que a interessava.
Houvesse prestado atenção a essa conduta, teria sabido que a mulher que tanto o fascinava era uma guerreira, senhora de si, cujo pensamento estava muito distante da concepção dominante no meio quanto à feminilidade.
– Venha, minha filha – convidou Farah, alguns passos atrás do marido e em lado oposto.
Fique ao meu lado.
Obediente, ela aproximou-se da mãe e todos se prostraram ao chão, voltando-se em direcção de Meca, para as orações.
No ambiente, o odor era de limpeza.
O banho antes da oração era um ritual de purificação.
Não podendo ser completo em uma casa de banhos, era obrigatória a limpeza das mãos e do rosto com água.
Em caso de falta ou impossibilidade de cumprir o ritual de higiene e purificação com água, substituíam-na por areia.
Recendia o aroma das fragrâncias orientais apreciadas pelos árabes: mirra, jasmim, amadeirados.
Layla sentia sobre si a atenção do visitante, e fazia o possível para ignorá-lo.
Porém, em matéria de fé, ela era conscienciosa.
Ao sentir os joelhos tocaram os tapetes que cobriam o piso do salão e, logo depois, a testa alcançar o solo, esqueceu-se do visitante e de tudo que a incomodava para entregar-se à prece.
Abandonava-se na experiência religiosa, tomada de profundo sentimento de entrega ao poder misericordioso de Deus.
Toda vez que seus joelhos dobravam-se no ritual de prosternação, vinha-lhe à mente uma lembrança da infância.
Recordava-se de quando ela e Karim, ainda crianças, perguntavam a Zafir por que tinham de se prostrar por terra.
Parecia-lhe renovar-se, todos os dias, a resposta meiga do primo:
– Prestem atenção, quando nos prostramos por terra para orar, encostando nossas testas no solo, não é por simples hábito.
E, sim, porque, dessa forma, demonstramos a Alá, o Misericordioso, que reconhecemos os limites de nossa humanidade e Ele como a fonte regeneradora, o poder único, absoluto, completo, inteligente, a verdade pura.
Assim, perante tamanha perfeição e beleza, nós nos submetemos.
Nunca se esqueçam da razão por que se prostram para orar.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 04, 2018 8:29 pm

É uma manifestação de reconhecimento À perfeição do Deus único.
A lição fora amadurecida e reflectida, chegando ao entendimento de que a experiência proposta era a de entregar-se ao poder de Deus no ato da oração – um contacto directo, uma experiência espiritual profunda e individual.
Agradava-lhe a liberdade pessoal no contacto com o Criador – fundamento da religião islâmica –, ao qual se entregava com convicção e consciência.
Uma proposta de liberdade exige consciência e profundo nível de reflexão no compromisso pessoal que representa.
O islã propõe liberdade individual; não há um corpo sacerdotal encarregado de preservar a crença.
Cada fiel, livremente, adere a seus preceitos e desenvolve sua relação com Deus sem intermediários, somente pelo estudo e reflexão do Alcorão e do Hadith.
No entanto, o meio social exerce forte pressão, e, a fim de ser aceito pelo grupo, o fiel se torna zeloso de desenvolver uma identidade religiosa cuja visibilidade está na prática exterior dos actos de devoção.
Eis a pedra de tropeço.
Em todas as crenças há aqueles que são praticantes por amor; outros que são pertencentes por necessidade de identificação social e, ainda, os não praticantes, que apenas se dizem fiéis, desenvolvendo, em geral, ideias próprias e superficiais no que diz respeito a um conceito sobre Deus, e cujo relacionamento com Ele é distante e incerto.
Munir se enquadrava na segundo hipótese e desde que encontrara a filha de seu anfitrião seu nível de atenção e envolvimento nas práticas devocionais beirava à nulidade.
Com grande dificuldade mantinha a postura de prostração que lhe impedia de contemplar Layla.
E a pressa com que se pôs de pé chama]ou a atenção de Karim que, intrigado, perguntou:
– Sente-se bem hoje, Al Jerrarî?
– Muito. Tive uma noite excelente. Por quê?
– Pareceu-me inquieto, agitado, febril, como se sua mente não lhe desse um segundo de trégua.
Imaginei que talvez pudesse ser em razão de alguma dor.
Munir arregalou os olhos surpreso com a exacta descrição de como se sentia.
Revisou suas atitudes assegurando-se de que cumprira o ritual, não denunciando que seu pensamento estava divorciado do que executava seu corpo.
Como tantas outras coisas na família e nos domínios de Al Gassim, ele ignorava a sensibilidade de Karim para captar os estados físicos e espirituais das pessoas.
Abriu a boca para perguntar como ele sabia de seu estado, porém a tempo percebeu que não seria prudente e fechou-a.
Piscando, comentou:
– Você é muito perspicaz.
Sinto um ligeiro incómodo nas pernas.
Creio que deva ser da viagem.
Nada preocupante, apenas tive certa dificuldade de manter-me ajoelhado.
Com licença, preciso encontrar o chefe da minha escolta.
– Entendo. Desejo melhoras – respondeu Karim, observando descrente o visitante.
“Não me inspira confiança.
Sinto algo estranho próximo dele, parece que a pele se arrepia como se eu fosse um gato assustado com os pelos ouriçados.
Devemos tomar cuidado, pensou Karim, analisando o visitante que se afastava apressado.
– Um homem estranho – comentou Zafir, juntando-se ao primo na observação de Munir.
– É mentiroso. Não confio nele.
A boca fala o que o coração não sente – disse Karim com ar preocupado.
Está aflito, agitado, não conseguiu calma nem na oração.
Senti-me mal na presença dele.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 04, 2018 8:30 pm

Zafir confiava nas percepções de Karim; sabia que ele raramente se enganava quanto ao carácter de alguém, e não fora poucas vezes que seus sonhos haviam sido valiosos avisos ao clã Al Gassim.
– Vou ficar atento.
Seu pai está preocupado com a atenção que ele tem demonstrado por Layla.
Você não estava no banquete de ontem, mas chegou às raias da inconveniência e sua irmã nem ao menos simpatizou com ele.
Um pequeno sorriso debochado desenhou-se nos lábios de Karim; um brilho travesso de admiração iluminou seus olhos castanhos esverdeados.
Ao trocar um olhar de entendimento com o primo, comentou:
– Ele não sabe “por que” anseia.
– É certo que não.
Em toda Al-Andaluz não há mulher igual a Layla – concordou Zafir e, participando do espírito de troça, completou:
– Mas somente nós sabemos das diferenças.
Karim concordou com um meneio de cabeça e, voltando o olhar na direcção da irmã, que do outro lado da sala lhe acenava alegre, declarou:
– Eu a amo muito por ser tão diferente.
É bom tomarmos cuidado, Layla é a jóia dessa casa, é a alma da família.
***
Descontente e contrariado, Kiéram enviara um mensageiro ao Califa de Córdoba.
Incomodava-o a atitude destemperada de Munir.
Debruçado sobre a mureta que separava os jardins do pátio de treinamento dos alojamentos, ele encarava o alvo marcado pelas flechas da atiradora.
Recordava a inusitada cena, a voz determinada e a forma fria e segura com que atirara para adverti-lo.
Sem perceber, levou a mão ao pescoço para certificar-se de que não havia sido machucado.
– É uma arqueira invejável – murmurou pensativo.
Ignorava a identidade da atiradora, mas percebera que ela tinha uma alma rebelde.
Estranha combinação numa mulher muçulmana.
Sorriu ao olhar os canteiros de flores.
Vira o véu branco jogado, desprezado sobre as flores, indício que, somado à habilidade com o manejo do arco, o levava a pensar que ela devia ter um temperamento indomável.
O sorriso ampliou-se ao lembrar que ela não titubeara em atirar nele, deixando claro que poderia matá-lo se quisesse.
– Fria, consciente do que faz, tem capacidade de concentração e controle pleno dos sentimentos – avaliou Kiéram, e a lembrança do brilho raivoso do olhar que vislumbrou o fez completar:
– É furiosa, corajosa, segura.
Será uma das esposas de Nasser?
É uma mulher instigante; se for sua esposa, ele deve ser um homem que não pode reclamar de tédio.
A surpresa, a curiosidade e a admiração faziam com que a lembrança da noite anterior ocupasse seu pensamento quando se desviava, momentaneamente, dos objectivos que o tinham levado aos domínios de Al Gassim.
Envolto na análise da personalidade da mulher desconhecida, estava absorto e viu a aproximação de Munir com indiferença.
A irritação da manhã jazia no fundo de seu ser, retirando o prazer e o bem-estar que costumava sentir na companhia do outro.
- Entregue à filosofia sob o sol do meio-dia? – brincou Munir, apoiando as costas na mureta a ficar de ficar face a face com Kiéram.
Já lhe disse para ter cuidado, certas coisas fazem mal à cabeça.
Kiéram lançou-lhe um olhar frio, que não escondia seu real estado de espírito.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 04, 2018 8:30 pm

– Vejo que está incomodado porque não atendi ao seu conselho.
– Já que tocou no assunto… continuo pensando que você está cometendo um ato por demais precipitado.
Não consigo entender o motivo de uma decisão tão importante tomada dessa forma passional.
– Eu lhe disse: o coração decide rápido e sem margem para dúvidas.
Eu quero Layla.
Não tive escolha, senti isso assim que coloquei meus olhos nela no primeiro instante.
Bastou apenas um minuto para eu raciocinar e saber o que queria.
– Sei do que você fala, mas julguei que fosse um homem mais experiente e conhecesse melhor sentimento desse tipo ou, ao menos, o suficiente para saber que não valem a confusão que você instalara em sua própria vida e, por consequência, na das pessoas que residem sob seu tecto.
Sem falar em seu relacionamento com seu primo.
– Casar-me com as mulheres que tenho a condição de sustentar é um direito meu.
O que nosso Califa poderá ver de errado? – argumentou Munir, fazendo-se de inocente, com uma expressão irónica e debochada no rosto.
– Essa rixa entre vocês não nos é benéfica, Munir.
Ele tem o poder político, religioso e financeiro.
Aceite o facto.
Defina-se:
ou alie-se a ele ou afaste-se.
O caminho ambíguo que você traça em torno do Califa é perigoso.
Esposou a irmã dele, e, embora ela tenha consciência de que você poderá vir a ter outras esposas, com certeza não espera que faça isso na primeira viagem após o casamento.
Ninguém espera, ainda mais com uma jovem desconhecida.
Amirah vai ficar arrasada, e o irmão não o perdoará por essa mágoa que inflige a ela.
Somente irá tumultuar a situação.
Admita que essa ideia não passa de um capricho.
– Capricho ou não, a decisão já foi tomada.
Acredite quando lhe digo que me apaixonei pela filha de Al Gassim, mas, lógico, sei das implicações.
Elas são temperos extras, um prazer antecipado, eu diria, que se soma à paixão.
Kiéram o encarou.
Em seu olhar e semblante estampava-se toda sua incredulidade à alegada paixão de Munir pela jovem.
“Não existe amor tão rápido, quase instantâneo.
Parece-me que o velho despeito que Munir nutre pelo primo é a causa real dessa loucura”, pensava ele, incomodado com a irresponsabilidade e o egoísmo do companheiro a quem importavam apenas os próprios e mesquinhos interesses.
– Infantilidade não seria um nome mais adequado?
Sinceramente, não crio nesse amor à primeira vista, mas como argumento vou admiti-lo e isso me leva a pensar: se você ama, de verdade, essa jovem, por certo quer que ela o aceite e seja feliz a seu lado.
Esse casamento, se vier a acontecer, não tem outro motivo além da sua vontade, pois não interferem interesses económicos, políticos, nada; apenas o seu desejo.
Muito bem, como você espera conquistar idêntico afecto levando-a a morar na mesma casa com Amirah, que ficará cheio de fel e despeito?
A filha de Al Gassim começará um casamento em péssimas condições.
Outra pergunta:
Essa moça demonstrou apreço pelo modo como foi assediada?
Munir considerou, brevemente, as perguntas de Kiéram e respondeu:
– Ela terá a vantagem de passar a pertencer a uma família muito influente.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 04, 2018 8:30 pm

Irá morar em Córdoba.
Minha casa é muitas vezes mais aprazível que este lugar.
Ganhará jóias, roupas, criadas e logo estará às voltas com os filhos.
Do que mais uma mulher pode precisar?
– Apesar da forma como são tratadas, tanto em seu meio como no meu, mulheres são seres humanos, têm vontades, sentimentos, pensam – replicou Kiéram indignado.
Revolta-me a maneira como muitos homens tratam as mulheres.
Entendo que elas precisam ser protegidas, que são mais frágeis fisicamente, mas, por Deus, isso não justifica abuso.
Você não teve mãe ou irmãs?
– Tive mãe, que Alá a guarde em paz!
Minhas irmãs são casadas.
São mulheres muçulmanas, aprendem desde cedo sua condição e função na sociedade.
Creia-me, são felizes e amadas em suas famílias.
Não há razão para tamanha indignação, Kiéram.
Se não soubesse que não conhece minha pretendida, poderia pensar que está com ciúme.
– Eu nunca vi essa moça, mas me compadeço dela.
Cairá num ninho de cobras, sem desconfiar.
Preocupa-me a reacção do Califa.
Não queira me enganar, Munir, é a ele que você pretende atingir magoando e desprezando Amirah e o casamento arranjado.
Ser o cunhado do Califa é muito diferente de ser o próprio, não é mesmo?
Munir riu debochado e admitiu:
– Claro que sim. Mulheres não são prémios de consolação.
Kiéram suspirou; depois voltou a adverti-lo:
– Inveja e despeito são péssimos conselheiros.
Em geral conduzem à destruição e a sofrimentos desnecessários.
Desista, Munir.
Tenha piedade ao menos dessa jovem que ignora o ambiente de Córdoba.
Façamos as negociações que viemos fazer e retornemos o quanto antes, deixando os Al Gassim em paz.
É tempo de você aceitar a situação, além do mais não foi obrigado ao casamento com Amirah, faça-a feliz e seja feliz também, é simples.
– Kiéram, não fosse o dever de gratidão que tenho com você, por ter salvado minha vida em batalhas, eu o mandaria calar a boca e guardar suas opiniões, e o dispensaria sem cerimónia.
Mas o dever e a amizade me impedem de tal acto, porém vou pedir que fique longe desse assunto e se abstenha de me dar sua opinião.
Eu já a conheço – revidou Munir, seco e irritado com a insistência do amigo.
Dando-lhe as costas, dirigiu-se aos jardins para uma caminhada solitária sob o olhar preocupado de Kiéram.
“Quanta teimosia!
Que ideia insana se infiltrou na mente de Munir!
A moça, pobre infeliz, com toda beleza e fascínio que possua, enfrentará dias tempestuosos.
Não sabe que sua decantada graça a jogará na jaula de feras.
O Califa é correto, amado pelo povo, é um homem bom e justo, mas é afeiçoado à irmã mais nova; se ela sofrer, ele poderá se tornar um inimigo cruel.
Munir não vê o perigo, só está pensando no prazer de mostrar ao Califa que tem vontade própria e não se submete ao seu poder.
A aceitação da união foi mera aparência”, reflectia ele a respeito da situação vivida em Córdoba.
Zafir deixara o salão minutos após a saída do visitante e, discretamente, o seguira testemunhando incógnito o diálogo.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 04, 2018 8:31 pm

“Realmente não nos enganamos.
Há intenção do emir de desposar nossa Layla, mas meu tio precisa saber que tais intenções não são puras.
´Há fatos que desconhecemos motivando esse comportamento.
Por que ainda somos assim…
tão cheios de mesquinhez e segundas intenções?
Que seria de nós sem a clemência de Alá! ”, meditava Zafir, observando o afastamento de Munir.
Uma brisa trouxe a suas narinas o aroma das flores do jardim e ele sorriu:
“Não existe apenas podridão no mundo, há também perfumes e beleza que se doam gratuitamente, sem nenhum outro interesse além de cumprir com a finalidade para a qual foram criados.
Olhos de ver.
Que bom que Alá colocou flores em nossos caminhos!
Lembrando-nos de cultivar o olhar no prazer de apreciar a beleza e não deixá-lo fixo no que é desagradável.
Para essas situações é preciso cultivar a misericórdia e construir lentamente o perdão.
Bem disse o moço cristão, também não creio em amor ao primeiro olhar.
É preciso tempo para tudo, inclusive para germinar, crescer e florescer sentimento.
Imediato só a semente da simpatia ou aversão”.
No recesso do salão iniciavam-se os preparativos para servir a refeição.
Layla, fugindo à agitação, postava-se em frente de uma das amplas janelas, delicadamente apoiada ao parapeito.
Seu olhar passeava pelo céu azul, marcado de nuvens brancas, procurando alguma de suas águias que estivesse com o treinador.
Não percebeu a chegada de Munir.
– Posso saber o que a encanta tanto no céu? – indagou ele, despreocupado.
– A liberdade – respondeu ela sem desviar a atenção.
Munir riu da resposta, julgando que ela brincava; por isso provocou:
– Há uma história de um jovem grego que tinha também anseio de voar livre e construiu asas com penas e cera de abelha.
Conseguiu voar, porém o calor do sol derreteu a cera e desfez as asas falsas.
Pobre jovem, despencou das alturas de seu sonho.
– Ícaro queria voar, ter asas como os pássaros.
Eu não preciso de asas, muito menos considero ser livre tirando meus pés do chão.
Não concordo com o senhor.
Voas não é sinónimo de liberdade.
O jovem grego era dependente das frágeis asas que havia construído.
Eis a razão de haver despencado:
Ícaro não conhecia suas fragilidades e dependências.
Acreditou, cegamente, em um sonho exterior, sem olhar para suas condições.
A liberdade tem parcerias obrigatórias e não ilusórias.
Surpreso com a resposta, Munir observou o perfil calmo e frio de Layla; seus olhos negros amendoados a passear nas alturas.
Nada na conduta da jovem indicava que ela houvesse elaborado aquele pensamento no exacto instante em que conversavam, mas, sim, era dada à reflexão e confiava em suas próprias ideias.
Ele não percebeu.
– Uma filósofa! – saudou Munir, lisonjeiro.
Você disse belas palavras.
– Se é assim que o senhor pensa… – retrucou Layla, indiferente.
Eu acho horrível não separar a ilusão da fantasia, o possível realizável daquilo que é um grande devaneio irrealizável.
São óptimos caminhos para perder-se tempo na vida e colher sofrimento.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 04, 2018 8:31 pm

– Uma mulher tão bela e tão jovem não deve sequer pronunciar a palavra sofrimento, quanto mais preocupar-se com caminhos de dor – aconselhou Munir, sempre recorrendo à lisonja e aos galanteios típicos de um conquistador.
– Com devido respeito que devo à sua condição de hóspede na casa de meu pai, penso que aqueles que ignoram a existência da dor e do sofrimento são seres humanos inqualificáveis, tamanha a bestialidade que carregam na alma.
Basta olhar a natureza, meu caro senhor, para encontrarmos as pegadas da dor e ela não escolhe a quem atacar.
Portanto, mulheres jovens e belas não estão imunes ao sofrimento.
Aprendi, desde muito cedo, a pensar e analisar os caminhos que escolho, pois, se neles eu vislumbrar sofrimento, é questão de lógica que, ao percorrê-los, irei sofrer.
Percebendo que Layla não estava brincando nem fazendo género, mas, ao contrário, era sincera e autêntica nas palavras que expressavam seu modo de pensar.
Munir mudou a conduta.
Uma sensação vaga de desconforto denunciava-lhe a insegurança diante da jovem, mas, conscientemente, ele não a reconhecia.
– Uma ideia interessante esta a respeito de escolher caminhos que contenham dor.
Falamos no nosso direito de escolher e da liberdade, mas não dos conteúdos desses caminhos e da fatalidade envolvida neles.
– A liberdade convive com a fatalidade, não são opostas, nem incompatíveis.
A meu ver é uma de suas parceiras obrigatórias – respondeu Layla, registrando que, ainda que seu interlocutor tenha formulado um pensamento honesto, não conseguira abandonar o mau hábito da lisonja sem propósito.
– E quais seriam as outras? – questionou Munir, encantado com o perfil de Layla e o olhar que lhe parecia misterioso, profundo e sugestivo.
– A fatalidade, a responsabilidade, o compromisso com a verdade e a realidade, por exemplo.
Voltando rapidamente o olhar ao rosto de seu interlocutor, a moça percebeu a sombra de um sorriso divertido e condescendente pairando sobre suas feições que a irritou, levando-a a explicar pendentemente:
– Vê aquela colina lá adiante?
Digamos que o senhor resolva descê-la correndo, nada o impede.
Ao descer correndo, há o risco de rolar pelo chão e se machucar gravemente nas pedras da encosta e do vale.
Se isso acontecer, o senhor não terá a quem culpar, nem do que se queixar, senão da sua escolha imprudente que não considerou as possibilidades de sofrimento no que desejou fazer.
Elas estavam lá, aliás, as fatalidades nunca são momentâneas ou incertas.
Elas estão, desde sempre, de maneira muito clara, sinalizadas e apontadas nos caminhos.
Logo, é companhia obrigatória da liberdade.
Podemos escolher caminhos, mas feito isso é fatal que se percorra a estrada; a menos, é claro, que nos arrependamos e voltemos atrás, o que implica uma nova escolha, cuja fatalidade será um sentimento de fracasso que precisaremos transformar em lição aprendida.
A responsabilidade é outra decorrência directa.
Se eu escolhi, não cabe culpar ou glorificar qualquer coisa ou pessoa, sou o responsável.
Ignorando a expressão vazia no rosto de seu interlocutor, numa clara demonstração da dificuldade que expressava em concentrar-se no diálogo inesperado, e que não conseguia acompanhar, Layla sorriu e, com um olhar fingidamente doce, continuou, em tom de falsa preocupação em ser simpática com Munir.
– Não estou… tomando seu tempo?
Não tenho a intenção de entediá-lo com minhas ideias.
Mas, se o interessam realmente, promete ser breve.
– Por favor, continue.
Estou apreciando muito ouvi-la – respondeu Munir cortês, porém intimamente insatisfeito.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 05, 2018 8:43 pm

Conversas filosóficas não eram suas preferidas.
– Então lhe explicarei primeiro porque usei a expressão “compromisso com”.
Creio que verdade e realidade são conceitos muito subjectivos e extremamente relativos.
Não é possível ao comum dos homens atrever-se a dizer o que é a realidade e o que é a verdade.
É preciso não pensar nas próprias imperfeições para afirmar um conceito a respeito destes temas, pois, se conhecer suas virtudes, saberá as características essenciais de ambos os assuntos como, por exemplo:
de que elas existem sob milhares de formas e dependem da capacidade de entendimento de cada criatura.
O que quero dizer é o seguinte:
o que é realidade agora, no passado não era; o que é verdade hoje, ontem podia ser uma grande dúvida e… até uma mentira, um sonho, um desejo, algo que não se queria, que se detestava.
Depende do tempo, do lugar, das pessoas e da forma como vivem e crêem no Misericordioso.
Esses conceitos são de essência alterável e progressiva.
Motivos que autorizam a aceitar-se que, na melhor das hipóteses, cada um pode apregoar um compromisso com a verdade e a realidade.
Além do mais, o que é realidade para mim não o é para o senhor.
Já observou como isto é interessante?
Estamos aqui compartilhando este momento, porém o que o senhor vê como realidade pode não ser o mesmo que eu percebo, e da mesma forma com a verdade.
– Vendo que ele ouvira com atenção apenas uma parte do discurso filosófico e, propositadamente, maçante, numa voz despida de entusiasmo, rematou:
– A realidade opõe-se à ilusão, tal qual a verdade à mentira.
É preciso ter os pés no chão para evitar que a mente divague.
Voltando ao jovem Ícaro, para arrematar o assunto…
prometo não o entediar mais.
Layla sorria calma, regozijando-se por perceber a luta insana que o visitante galanteador fazia para não dar as costas, deselegantemente, e fugir do local.
– A história desse jovem sonhador que não via a realidade, nem media possibilidades, ou sequer considerava os avisos da fatalidade escritos no caminho escolhido, é muito sugestiva.
Ele e o pai foram aprisionados no labirinto mandado construir pelo rei Minos, de Creta, depois que Teseu matou o monstro metade humano, metade touro.
Observe que ironia:
Dédalo foi o arquitecto que projectou o labirinto onde vivia o monstro; foi ele que ensinou à princesa Ariadne o segredo do fio condutor.
Como castigo, foi enclausurado junto com o filho adoptivo em um labirinto.
Foi Dédalo quem projectou e construiu as asas postiças com penas de pássaros e cera de abelha para que pudessem fugir da prisão.
Ele alertou ao filho quanto à altura, direcção e tempo que elas suportariam, ou seja, apenas o suficiente para fugirem do labirinto em direcção a uma colina de onde prosseguiriam sua busca pela liberdade com os pés no chão.
Entretanto, o desmedido jovem deslumbrou-se com a façanha de voar e acreditou-se capaz de coisas maiores, irrealizáveis, e partiu rumo ao sol.
Quebrou as barreiras da sua possibilidade e, como sabemos, suas asas derreteram e ele caiu no mar, onde morreu.
Dédalo conhecia as fatalidades implícitas em sua livre escolha; assumiu todas as companheiras inseparáveis da liberdade de escolha, enquanto Ícaro ignorou todos os avisos e pereceu tragicamente.
Aproveitando que Layla encerrava a narrativa, apressado Munir tomou-lhe uma das mãos acariciando-a, respeitoso, num gesto de despedida.
– Preciso falar com seu primo Zafir – desculpou-se.
um homem que admiro muitíssimo e ainda não tive a oportunidade de saudá-lo.
Com sua permissão.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 05, 2018 8:43 pm

– Claro! Vá e que a paz do Clemente o acompanhe.
Num gesto característico de despedida, Munir saudou a filha de Nasser e afastou-se.
“Linda, mas é preciso mantê-la de boca fechada.
Ainda bem que não precisamos conviver com elas obrigatoriamente, somente quando desejamos.
Nossa responsabilidade é sustentá-las e a delas servir ao nosso prazer”, pensava ele, dirigindo-se ao encontro de Zafir.
Layla, contemplando a vista do vale, respirava a longos haustos, satisfeita com o tédio que impusera ao visitante.
Esperava com tal atitude:
primeiro arrefecer a paixão que vira no olhar dele, impondo-lhe outra imagem de si; e, segundo, alertá-lo de que tinha ideias próprias e coragem de sustentá-las diante de qualquer homem, pois não os temia.
Aquela manhã foi uma mostra do que se tornou a semana de permanência de Munir Al Jerrari em Cádiz.
Nervosismo, enfado, temor, ira recalcada eram os sentimentos de ambos os lados.
Kiéram não retomou o assunto de sua desavença com Munir.
Também não voltou a encontrar a estranha mulher sem véu que o fascinara.
Duas vezes, durante a semana, nos horários propícios à caça, percorreu em vão o vale em busca do caçador e amestrador de águias.
Indagou aos homens que trabalhavam na propriedade dos Al Gassim e a alguns campónios a respeito do caçador, entretanto todas as pistas que recebeu redundaram em falsas esperanças.
Nenhum dos caçadores que localizou correspondia à silhueta que vislumbrara no vale.
Eram altos e possantes, grandes demais para a imagem que recordava e nenhum caçava com as águias.
– É uma ave muito cara, meu senhor, sou pobre.
Esses animais pertencem a famílias nobres ou ricas.
Quem sabe não seja um servidor do emir Al Gassim que o senhor viu?
Entre os muros da propriedade, as perguntas sobre o jovem amestrador eram respondidas com um estranho silêncio, como se houvesse um pacto de proteger-lhe a identidade.
***
Amanhecia a quinta-feira daquela fatídica semana.
Layla, despida do véu, contemplou do balcão da sacada da janela de seus aposentos o raiar do dia.
Com respeito prostrou-se ao chão voltada na direcção de Meca.
“Abençoada Inteligência Infinita que nos legou a beleza do amanhecer, que nos traz a certeza de que a vida se renova após cumprir um ciclo ao qual submeteu todos os seres criados.
Não importam quais as dores ou prazeres encobertos pela noite; o sol majestoso ilumina e aquece a terra.
Eu também me submeto a ti, Misericordioso.
Ajuda-me a identificar tua santa vontade.
Sinto fechar-se um ciclo de minha vida.
Mudanças batem à minha porta, eu sei.
Mas por que não as vejo com clareza?
Auxilia-me, Misericordioso, que eu não erre por insubordinação.
Sei o quanto sou rebelde com meus irmãos de humanidade, porém a Ti sempre busco obedecer.
Quando sinto Tuas mãos movendo-se invisíveis em torno de mim, eu procuro seguir-lhe e facilitar-lhes a acção.
Mas agora… agora, apenas sinto ou pressinto alterações; diferente de outras ocasiões quando sempre vislumbrei as realizações novas de forma concreta.
Ó Clemente, até hoje, tudo que eu desejei ou me predispus a conquistar, com Tua sábia ajuda e concordância, eu conquistei.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 05, 2018 8:43 pm

Agora sinto essa vaga energia a meu redor e não consigo decifrá-la.
Imploro Tua ajuda.”
Após dar livre expressão a seus pensamentos e sentimentos em profunda comunhão com Deus, começou a recitar mentalmente:
“Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.
Louvado seja Deus, o Senhor dos Mundos, o Clemente, o Misericordioso, o soberano do Dia do julgamento.
A Ti somente adoramos.
Somente a Ti imploramos socorro.
Guia-nos na senda da rectidão.
A senda dos que favoreceste, contra os quais não Te iraste nem andam desencaminhados”{2}.
Entregando-se ao bem-estar proporcionado pelo acto de devoção, deixou-se ficar prostrada ainda alguns segundos.
Depois se ergueu, sorrindo para a natureza que seus olhos contemplavam.
– Que manhã linda para cavalgar! – murmurou, dando voz ao desejo de liberdade que brotava em seu íntimo e a levava a querer sento]ir o vento no rosto e o galope de seu cavalo fazer ondular seu corpo no ritmo da velocidade.
Que prazer seria…
Entretanto, logo se lembrou de que nenhum de seus desejos poderia ser realizado, pois ainda tinham visitantes e mandava a lei que devesse se comportar como as demais mulheres, não podendo se expor ao olhar dos estranhos.
– Haverão de ir embora.
Amanhã é sexta-feira, dia sagrado, por certo não irão partir.
Mas, no sábado, não há impedimento.
Preciso suportar mais dois dias… – murmurou resignada.
Uma hora depois se ouviam os ruídos anunciando que a propriedade despertava.
Pelos corredores da residência os passos dos criados ecoavam, e o aroma da primeira refeição invadia o ar.
O leve toque na porta avisou Layla que Leah estava pronta para auxiliá-la a arrumar os cabelos e, como de costume, escolher as vestes do dia.
Estava distante da porta de acesso; sabia que a criada não a ouviria, por isso atravessou o aposento e destrancou a abertura.
Recepcionou Leah com um sorriso alegre e carinhoso.
– Bom dia!
– Bom dia – respondeu a criada.
Não entendo por que deixa a porta trancada.
Pode ser perigoso.
Se você adoecer durante a noite, quem poderá socorrê-la?
Teremos que galgar as paredes e entrar por uma das janelas.
– Não gosto de portas abertas.
Não se preocupe, Leah.
Tenho excelente saúde, não vou adoecer no meio da noite.
– Pode haver um mal-estar, nunca se sabe.
– Prestando atenção ao organismo, cuidando do corpo, é difícil sermos surpreendidos por um mal súbito, dormindo.
Eu sei que os médicos muçulmanos são óptimos e estudam muito.
Portanto, o que lhe ensinaram deve ter valor e ser verdadeiro.
Mas mesmo assim… fico inconformada com este hábito.
– Lamento.
Leah conhecia de sobra a personalidade da menina que viera ao mundo por suas mãos.
Cada vez que constatava a determinação de suas opiniões, a firmeza de seu agir, lembrava a noite em que ela nascera aos gritos.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 05, 2018 8:43 pm

Força e fé desejara-lhe na ocasião de sua chegada.
Dezassete anos depois, se via à frente de uma jovem decidida, em quem não falta força de carácter nem fé.
Sorriu da lembrança e, mudando o assunto, indagou:
– Já decidiu a cor de hoje?
Layla lançou um olhar à janela, ansiava pela liberdade do vale e este desejo determinou sua escolha.
– Verde.
Leah afastou-se em direcção ao quarto onde ficavam os baús repletos de roupas da moça e retirou de um deles uma túnica longa na cor escolhida.
Uma longa trança deu forma à cabeleira.
Enfeitava-lhe a testa um pingente de diamante em forma de gota que pendia de uma corrente de prata entrelaçada em seus cabelos, iluminando-os, e um anel de prata cravejado de diamantes no dedo mínimo do pé direito completava o traje.
Anéis nos dedos dos pés eram seus mimos, estilo preferido de jóias, que a identificavam; a grande maioria julgava-os exóticos.
Layla dispensava adornos tradicionais, ainda que somente os pudesse exibir no recesso íntimo do lar, na presença exclusiva de familiares.
As poucas jóias não incorriam nas severas proibições da lei islâmica.
***
Nos aposentos de Nasser, um emissário de Munir Al Jerrari pedia para ser atendido.
Não se poderia dizer que o anfitrião fora surpreendido com o teor da mensagem.
Em poucas e educadas linhas o visitante solicitava uma reunião formal para tratar de assunto relevante do interesse de ambos.
Suspirar, erguer o olhar fitando o tecto trabalhado, expressão facial tomada de preocupação foram as reacções de Nasser observadas por Farah que o acompanhava na refeição matinal quando recebeu o pedido.
Preocupada, ela questionou:
– Do que se trata?
Nasser voltou o olhar sério para sua esposa e mãe de seus filhos.
Não conseguia sorrir, como fazia ao dirigir-se a suas esposas.
Diante de Farah, não tentou disfarçar a aflição que o acometia durante aquela semana e da qual ainda não lhe falara.
– Um pedido para uma entrevista particular.
Algo que eu temia…
– Aconteceu algo que desconheço nos negócios que trouxeram nossos visitantes?
– Não, nossas relações comerciais foram excelentes.
Politicamente foi uma deferência do Califa enviar um familiar até nós, o que acena com estreitamento de relações.
Tudo correu muito bem.
A localização de Cádiz é estratégica, é lógico que ele quer se assegurar da minha fidelidade, por isso mandou um familiar.
– Excepto… – instigou Farah, notando que o marido vacilava em retomar o assunto, escondendo as reais aflições.
– Excepto pelo factor humano, sempre tão instável, minha bela Farah.
Não sei como lhe dizer… Deveria ter seguido o conselho de Zafir e tratado abertamente de meus temores com você e Layla.
Mas, observando os acontecimentos da semana,
cheguei a considerar que nossa filha houvesse conseguido sozinha resolver o problema e da melhor forma possível.
Porém esta mensagem me faz pensar que me equivoquei.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 05, 2018 8:44 pm

– Layla? É ela o motivo da entrevista?
Munir Al Jerrari foi muito explícito em demonstrar seu interesse por nossa filha.
Eu vi, assim como Adara, inclusive conversamos a respeito.
Tal qual você, acompanhei o comportamento deles e também pensei que ela houvesse conseguido fazer arrefecer a paixão súbita do nosso visitante.
Bem conhecemos o carácter de Layla, ela tanto encanta quanto atemoriza; é doce e ácida; suave e dura, agradável e insuportável ao convívio.
Notei que ela se empenhou em se mostrar educadamente insuportável ao convívio com o emir.
Recusou-se até mesmo a acompanhar as danças – comentou Farah, abandonando completamente o figo envolto em mel com que se deliciava antes da chegada da mensagem.
A atitude dela foi tão clara quanto a dele.
Rechaçou-o, não apreciou nem um pouco as atenções de que foi alvo.
Entretanto, um contrato de casamento é decisão sua.
O que pensa fazer?
– A verdade é que não sei – resmungou Nasser incomodado.
Nossa filha é tão especial, temo por seu futuro longe daqui.
Será que todos os pais se sentem da mesma forma ante um pedido de casamento?
Farah acercou-se do marido, acariciando-lhe os ombros e encostando a face em suas omoplatas.
– Acredito que não.
É costume de nosso povo o pai contratar o casamento das filhas.
É um negócio, há interesses em jogo. Tem sido assim há séculos.
– Jamais pensei que me sentiria desta forma, tão desconfortável.
Minha filha não é uma mercadoria, não a comprei, não posso vendê-la.
– Mas, meu marido, não se trata de uma venda e, sim, de um contrato de casamento.
Foi assim comigo, é assim com todas as mulheres muçulmanas.
Não me senti vendida por meu pai – objectou Farah, buscando aliviar os sentimentos do marido.
– Você acha que devo concordar com o pedido?
– Será uma ofensa a Al Jerrari recusar sem razão o pedido.
Layla não está prometida a ninguém; até hoje, não tem noivo.
Você não quis. Por outro lado, as reacções dela são imprevisíveis; poderão ser piores que uma recusa educada ou até que uma mentira salvadora.
– Está sugerindo que eu minta…
– Pense que é apenas uma antecipação da verdade.
Algum dia Layla será prometida de alguém.
Veja, podemos dizer que se trata de um compromisso de muitos anos com um familiar e que somente irá se formalizar no próximo ano.
Porém, sua palavra está empenhada.
É um compromisso que deve ser respeitado.
– Farah! Sabe aonde essa ideia conduz? – questionou Nasser sério.
Ele logicamente pensará que Layla está prometida ao nosso sobrinho.
– Uma ideia que, particularmente, me agrada.
Zafir é o marido ideal para nossa filha.
Nasser considerou a sugestão, avaliou caminhos.
Meditou sobre ela e perguntou à esposa:
– Por que não me falou no assunto antes?
– Não era tempo.
Admirando a inteligência da atitude de Farah em silenciar e aguardar, mantendo-se alerta para descobrir o momento exacto em que ele acataria seus planos quanto ao futuro de Layla, sorriu e voltou-se.
Tomando-a nos braços, murmurou, em seu ouvido, na linguagem de intimidade daqueles que compartilham a vida que diz mais do óbvio, expressando um entendimento amplo da atitude outro:
– É por isso que você é minha preferida.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 05, 2018 8:44 pm

Farah riu baixinho deixando-se acarinhar, dócil, pelo marido.
– Então, concorda com minha ideia?
– Plenamente.
Acha que devo falar com nossa filha e Zafir?
– Apenas com Zafir.
Diga-lhe que é com o intuito de proteger Layla de um compromisso que visivelmente ela não deseja.
Ele a adora, vai concordar.
Mas tratar do assunto casamento entre eles como facto sério e provável ainda não é a hora.
Eu conversarei com Layla, fique tranquilo, tudo dará certo.
Contornaremos essa dificuldade com habilidade.
– Ainda que mentindo.
– Não, prefiro dizer, antecipando uma verdade futura.
***
Enquanto Nasser atendia o pedido de Munir, sua esposa Farah mandava chamar a filha em sua presença.
Layla tinha o andar suave, ligeiro, seu corpo era dotado de uma estranha leveza, que fazia parecer que ela deslizava.
Vê-la andar já encantava; havia uma graça natural em todos os seus movimentos aliada à extrema precisão e firmeza.
A mãe não percebeu sua entrada na antessala dos aposentos.
Mergulhada em reflexão, buscando decidir qual a melhor abordagem a usar no diálogo com a filha, Farah surpreendeu-se ao sentir a mão da jovem pousar sobre seu ombro e o roçar dos lábios em seus cabelos num beijo delicado.
Em resposta acariciou a mão da filha fazendo-a andar até colocar-se à sua frente onde jazia uma grande almofada de cetim sobre o tapete.
– Sente-se, Layla.
Observando a filha acomodar-se, sorriu, ao ver o brilho do anel no dedo do pé, e balançou a cabeça.
– Por que ri, mamãe? – indagou a moça e, acompanhando o olhar materno, tocou na jóia que lhe enfeitava o dedo mínimo.
Adoro meus anéis, são lindos.
Nosso ourives é um verdadeiro artista, não acha?
– Sim, é, basta ver que consegue criar as jóias que você deseja em sua imaginação.
Sinceramente, não entendo a razão de querer usar um anel no dedo mínimo do pé direito.
– Ora, mamãe, a senhora é uma mulher inteligente.
A razão é muito simples:
é a mesma pela qual se usa em qualquer dos outros dedos ou nas mãos.
Eu gosto, acho bonito.
Este é novo, não ficou lindo?
– Singelo. Um aro largo de prato cravejado de brilhantes.
Produz um efeito bonito.
– Obrigada. Mas não me chamou para conversarmos sobre jóias.
– Não, filha, o assunto é outro e muito sério.
Pensava a melhor forma de expô-lo a você.
Layla permaneceu em silêncio.
Pressentia o tema da conversa, e sua atitude deixava claro que ela não estava disposta a colaborar ou a facilitar nenhum tipo de entendimento em relação à ideia de casamento, ainda mais indesejado.
Farah percebeu que a filha viera intimamente armada para o encontro e suspirou:
“Bem, acabo de descobrir como começar:
desarmando-a”, pensou Farah ao encarar Layla e sorrir, paciente.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 05, 2018 8:44 pm

– O emir Munir pediu uma entrevista com seu pai esta manhã.
Supomos que o assunto seja o interesse dele em propor um contrato de casamento.
Você é muito sagaz, Layla, tenho plena convicção de que não digo novidades.
Eu e seu pai conversamos muito, ambos notamos suas manobras para esfriar o interesse de Al Jerrari e congratulo-a por sua atitude.
Foi muito diplomática, tanto que alimentamos a esperança de que seria bem-sucedida poupando a todos nós deste… embaraço.
Antecipo-lhe que, diante do que observamos, a decisão de seu pai e minha é de não forçarmos você a aceitar o pedido.
Um fundo suspiro de alívio escapou do peito de Layla, denunciando a tensão que carregava no íntimo e muito bem disfarçada aos olhos alheios.
– Alá seja louvado! Obrigada, minha mãe – disse Layla, debruçando-se sobre as mãos da mãe e beijando-as com carinhosa gratidão.
Sei o quanto isto poderá ser constrangedor e até prejudicial aos interesses de nosso povo, mas desposar Munir Al Jerrari está além muito além das minhas forças.
Eu o acho repugnante.
Farah riu, acariciando os cabelos da filha.
Ambas estavam agora relaxadas e confortáveis, abertas ao diálogo, abrindo campo para o entendimento necessário.
– É um homem jovem, bonito…
– Repugnante – atalhou Layla.
É bajulador, não confio nele, é mesquinho.
Intelectualmente, muito pobre, o que me leva a pensar que moralmente também o seja.
– Filha, nem todas as pessoas com menor inteligência ou conhecimento são imorais – retrucou Farah, meiga.
Há também aqueles que são muito inteligentes e cultos e que, entretanto, são infiéis, imorais…
– Concordo com a senhora, mas penso que isso se dá em extremos e nos extremos ficam poucas pessoas.
A grande maioria caminha no largo espaço entre eles e, nestes, o comum é quanto menor o desenvolvimento intelectual menor é a compreensão moral.
O que não significa que sejam pessoas más, apenas de compreensão limitada.
Creio que seja natural que o desenvolvimento da razão acarrete o desenvolvimento da moral.
Talvez não necessariamente no mesmo instante…
Mas voltemos ao assunto do pedido de Al Jerrari.
Qual será a solução?
Farah felicitou-se pela inteligência e maturidade da filha, e esse sentimento mostrou-se no brilho cálido de seu olhar e na doçura da voz com que, por fim, expôs a ideia para contornar a embaraçosa negativa.
– Jamais pensei em casar-me com Zafir – comentou Layla, surpreendida pela solução proposta.
Aliás, não penso em casar-me, é uma ideia que simplesmente não visualizo em minha vida.
– Precisa mudar essa forma de pensar, filha.
Desta vez concordamos em rechaçar o pedido, mas faz parte do destino de todas nós casarmos e termos filhos, é a nossa função na sociedade e na natureza – objectou Farah preocupada.
Zafir é um homem excelente, ainda é jovem, belo, inteligente, tenho certeza que a agrada.
Vocês têm tanto em comum que não me surpreenderia se a mentira de hoje se tornasse uma feliz verdade amanhã;
Layla encarou a mãe, pensativa, compreendendo os caminhos do pensamento de Farah.
– Filha, em nosso meio a mulher tem muitas armas com que lutar, não só o arco, a flecha e as armas empunhadas pelos homens que você maneja muito bem.
É preciso calma para pensar, conhecer, analisar.
Por detrás do véu, filha, nós traçamos os caminhos, basta usarmos a inteligência, sermos previdente e colocarmos nosso verdadeiro arsenal em uso sob o comando da razão.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 05, 2018 8:44 pm

É preciso ter claro os objectivos que pretendemos alcançar.
– Eu entendo, mamãe.
Prometo-lhe pensar no assunto e voltar a lhe falar.
A conversa das duas mulheres prosseguiu ignorando o que se passava no andar térreo entre o anfitrião e um dos emires de Córdoba.
Munir ouvia, contrariado e insatisfeito, a pronta e justificada negativa à proposta de união que formalizara.
Educado e preparado, Nasser envolvera a negativa em lindas sedas como se faziam com as facas de prata, o que, entretanto, não as tornava menos perigosas e cortantes.
***
Numa das salas da mesquita, Karim conversava com Zafir.
Ele lhe relatava o estranho encontro que testemunhara entre Munir e Kiéram e as razões escusas que levavam o visitante a desejar o consórcio com Layla, a qualquer preço, apesar dos esforços infatigáveis dela em dissuadi-lo desta intenção.
– Layla é uma mulher muito especial, e qualquer homem seria feliz em tomá-la como esposa, desde que ela concordasse, pois, do contrário, o pobre infeliz seria digno de todas as preces que se poderiam fazer – comentou Zafir bem-humorado.
– Posso deduzir que ideia de tê-la como esposa não lhe é desagradável – insistiu o jovem sem disfarçar o contentamento, pois o futuro da irmã o afligia; não desejava vê-la longe de Cádiz.
A sugestão de Farah parecia-lhe perfeita.
-Absolutamente, não é desagradável, apenas nunca havia sido cogitada – respondeu Zafir honesto, propondo-se a questionar os sentimentos que tinha pela prima.
Adorava-a, mas não sabia se era como uma familiar querida ou como uma mulher.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 05, 2018 8:44 pm

AMEAÇAS
Kiéram sobressaltou-se ao ouvir a estrondosa batida da pesada porta de entrada dos aposentos de Munir.
Chamaram-lhe a atenção os passos pesados e o facto de que jogava o turbante, depois o cinto e a adaga que carregava na cintura ao chão sem o menor cuidado.
– Mil demónios o perseguem ou serão mais? – questionou Kiéram, debochando do comportamento furioso do recém-chegado.
– Dois mil ou mais – respondeu exasperado o emir de Córdoba.
Odeio pessoas petulantes que se julgam muito espertas, ainda mais quando não passam de criaturas que habitam longe da civilização.
Só aparência de moral, mentem e enganam com a mesma cara com que sorriem e adulam.
– Obrigando aqueles a quem dirigem tal comportamento a agir da mesma forma, não é mesmo, meu caro? – provocou Kiéram dando a entender que compreendia a ira, atribuindo-a à grande semelhança entre o comportamento de Al Gassim e familiares com o do próprio Munir, sendo esse reconhecimento a prova da semelhança e motivo maior da fúria.
– É, sem dúvida, um verdadeiro suplício.
Engenhosa tortura, pois a vontade que eu tinha era de esganar Al Gassim e não de como um tolo dizer que compreendia e aceitava suas razões de recusa a meu pedido.
Um brilho de satisfação iluminou o olhar de Kiéram, que nada fez para escondê-lo, mas foi contido em manifestar verbalmente o que sentia.
– A vida tem também suas próprias deliberações, Munir.
Com o tempo verá que foi melhor assim. Amirah é uma boa mulher; não merecia a mágoa que iria lhe causar…
– Amirah é minha esposa; terá que aceitar o que eu desejar – retrucou Munir, escancarando o pouco apreço pela consorte.
Kiéram, optando por tentar acalmar o ânimo de Al Jerrari, resolveu incentivar o amigo a expressar sua revolta.
“Melhor ouvir asneiras do que deixar que ele, por capricho, cometa uma grande besteira que só trará infelicidade”, pensou Kiéram fracções de segundos antes de indagar solícito:
– Afinal, qual a desculpe de Al Gassim?
– Um arranjo entre parentes ainda não oficializado, mas cuja palavra foi empenhada.
Segundo ele, a filha é prometida ao primo.
Uma boa maneira de manter tudo em família… – e daí seguiu despejando sua revolta em palavras nada corteses contra a família Al Gassim.
“Se não for verdadeiro o compromisso, ao menos foi uma manobra muito inteligente, que salvou o orgulho de todos os envolvidos.
Mas, ainda assim, esses próximos dois dias serão longos”, concluiu Kiéram, enquanto ouvia Munir repetindo o assunto.
Andando, de um lado a outro, no amplo aposento, Munir assemelhava-se a uma fera enjaulada, na expressão, nos gestos, no andar, tudo nele dava sinais inequívocos de descontrole emocional.
Em meio a essa insana actividade, insinuava-se uma perigosa ideia em seu íntimo sobre a qual nenhuma palavra escapou-lhe dos lábios.
Repentinamente, tornou-se silencioso; o andar mais manso denunciava a atitude mental reflexiva.
Kiéram, observando as mudanças, respirou aliviado.
Julgou, de forma equivocada, que o amigo esgotara a raiva.
Conhecia-o bem o bastante para saber da impossibilidade de dialogar quando ele se enfurecia.
De índole pacata, somente nos últimos meses – após a ascensão do primo como Califa – ele vinha mostrando destemperança acentuada.
Ignorava o moço cristão o efeito cumulativo desse sentimento e, mais ainda que ele agisse mascarado, na sombra, roendo por dentro aqueles que não o dominam; levando seu hospedeiro a ferver rapidamente às vezes por banalidades. As causas da fúria acompanhavam Munir havia meses.
Originaram-se no fato de que ele se sentira ameaçado e prejudicado numa disputa de poder e território político.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 05, 2018 8:45 pm

A paixão por Layla e a desagradável rejeição somente faziam vibrar notas do diapasão, nada tinham de novas, tampouco eram causas, não passavam de acréscimos.
***
Karim exercitava-se no pátio de treinamentos; concentrado, mirava o alvo antes de desferir a flecha.
Estava sozinho.
Preferia assim quando desejava buscar a solução de algo que intimamente o incomodava.
Fixava o olhar no e alvo e toda atenção no manuseio do arco e da flecha; passava horas repetindo os movimentos.
O exercício tinha para ele o mesmo efeito do canto sufi; de tanto repeti-lo, atingia um estado interior de vazio, de afastamento do problema; impunha paz e liberdade ao pensamento, quebrando o ciclo fechado de retroalimentação da preocupação e da ansiedade.
Era sua forma de meditar.
Ao cabo de algum tempo, o cansaço do corpo obrigou-o a parar e descansar à sombra de uma velha e frondosa árvore.
Recostado no tronco, sentindo a aspereza da casca através do tecido de suas vestes, as ideias ou os sentimentos, enfim, haviam retornado à harmonia que o caracterizava.
Naquele dia acordara sentindo-se inquieto.
Uma sensação indefinida o afligia.
Buscou na memória e não recordou nenhum facto que justificasse aquela sensação; vasculhou as lembranças da situação que o afligia em relação ao futuro da irmã e as relações com os emires de Córdoba.
Nada. A solução apresentada pelo pai lhe parecia perfeita.
Quanto mais se falava dela, mais real parecia.
Todos comentavam que a união de Layla e Zafir era ideal, maravilhosa, só poderia fazer a ambos muito felizes.
Extra-oficialmente, o noivado passara de “pretexto” a “possível” num passe de mágica.
A mentira tornara-se verdade de geral aceitação.
Respirando lentamente, mergulhado na sensação de paz que o estranho exercício de meditação propiciara, emergiu de seu íntimo a consciência do que o incomodava.
– Perigo – murmurou ao recordar as cenas confusas de um sonho em que via a irmã lutando desesperada, tentando gritar, mas calada por uma mordaça, contida em seus movimentos por fortes amarras.
– Medo. É isso.
O sonho com Layla me fez sentir ameaçado e com medo.
Era o que estava me incomodando; deve ser fruto da preocupação destes dias – falou baixinho, um hábito desenvolvido desde a infância.
Pacificado pelo entendimento do que se passava consigo, Karim relaxou ainda mais de encontro ao robusto tronco, refrescando-se com a brisa suave que fazia balançar as folhas e encher o ar com a sonoridade calmante do barulho emanado por elas. m meio à música da brisa e das folhas, se imiscuiu uma doce voz feminina a falar-lhe ao pensamento.
Não perdeu tempo abrindo os olhos para contemplar sua interlocutora; já a sabia incorpórea; acostumara-se ao tom caricioso e às advertências fraternas; sentia-se bem e não lhe questionava a origem.
Como tantas outras circunstâncias e factos de sua, aceitava-a, pura e simplesmente.
“– Karim, meu querido, lembre-se:
há caminhos traçados na vida.
As trilhas e estradas foram abertas, inicialmente, pelas ovelhas.
Depois veio o homem e, sem pensar, seguiu esses caminhos alargando-os, ampliando-os, construindo sobre esse traçado suas estradas.
Muitas vezes, eles passam ao lado de grandes precipícios quando poderiam percorrer local mais seguro.
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