O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 22, 2018 8:49 pm

O que ouvia a chocava, e o comportamento de sua senhora a escandalizara.
Instantes depois a observava deliciar-se na água morna da piscina do quarto de banho, onde se ensaboava olhando apreciativamente as manchas arroxeadas que iam desaparecendo de sua pele e as marcas de algumas cicatrizes.
– E Zahara, como passou o dia? – indagou Layla.
– O médico do Califa ficou ao lado dela todo dia.
Estava febril, mas não teve outras crises.
– E Jamal? Nenhuma notícia?
– Não, senhora.
– Muito bem. Traga minhas roupas.
Envie uma mensagem à minha cunhada, informando que irei visitá-la antes do jantar.
– Irá ver a princesa Amirah?!
– Irei. É tempo de nos conhecermos.
Salma correu a cumprir as ordens de Layla.
A cada dia, a cada hora, entendia menos a jovem senhora, mas estava plenamente convencida de que apenas seu rosto e seu corpo eram jovens.
Amirah sorriu ao receber o comunicado de sua nova cunhada.
– Ela virá sozinha – comentou com Ximena que lhe escovava os cabelos.
Não fará como as outras que aguardaram a companhia e permissão de meu irmão.
– Já sabíamos que a senhora Layla é diferente – retrucou Ximena com fingida indiferença.
– Estou curiosa por ver essa mulher, você não está, Ximena?
– Quem sou eu?! Conheço meu lugar.
Não abuso da confiança do Califa, muito menos da sua.
– Deixe disso – ralhou Amirah, com os olhos brilhantes de expectativa.
Não é nenhum abuso confessar que tem curiosidade sobre a nova esposa do Califa.
Toda Córdoba está repleta desse interesse.
Por que somente você seria imune?
Eu confesso: estou morta de curiosidade.
Foi óptimo que ela tenha tomado essa decisão.
Jamal levaria um mês para trazê-la.
Acha que devo mudar minhas roupas?
– Para quê? Está tão bem.
Há pouco as trocou, após o banho.
– Ora, Ximena.
Você está muito sem graça. O que há?
Está incomodada de repente.
É a visita de minha nova cunhada que a afligiu?
– Claro que não.
Já disse que sei meu lugar.
Mas… apenas não vejo razão para mudar suas roupas, mas… se é o que deseja… é só dizer qual devo trazer.
Um amplo sorriso iluminou o delicado semblante de Amirah, levando um brilho de vida e infantil travessura a seus olhos.
Ximena observou a agitação dela com uma ruga de preocupação na testa morena e um olhar que não escondia a zanga íntima.
– Pois eu quero.
Traga-me a túnica de seda azul, aquela com os bordados prateados.
Ah! Não esqueça de trazer minhas jóias favoritas.
– Trarei. Fique tranquila e não se excite demais.
Hum! Até parece que vai dar uma festa.
Vai se arrumar para receber outra mulher, perdoe-me, mas não entendo.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 22, 2018 8:49 pm

– É simples, Ximena.
Ponha-se no meu lugar.
Eu conheço poucas pessoas, são raras as que desejam me visitar espontaneamente.
Mulheres, ainda menos; minhas cunhadas nunca me deram atenção, facto que agradeço; são insípidas demais.
Já tomo chás com mel em excesso, realmente não preciso delas.
Entretanto, Layla é diferente.
Ela vem sozinha.
Já falaram tanto dela que parece que a conheço e, principalmente, Ximena, ela viveu e vive de uma forma tão livre, tão ousada.
Acredite, amiga, eu amo você, meu irmão, Ibn e todos os que cuidam de mim, mas eu daria, de bom grado, tudo o que tenho, até meu futuro, em troca de viver alguns dias como ela.
Livre, rebelde, linda e muito amada pelos que a conhecem.
Ximena sentou-se mesquinha ao compreender as razões da ama.
Acostumara-se tanto à rotina de cuidá-la, que raras vezes pensava em como ela devia se sentir.
Sua situação era diferente; não sendo necessários seus serviços, podia transitar livre, quer pelo palácio, quer pela cidade.
– Eu a vi sair galopando hoje cedo – continuou Amirah com olhos brilhantes, sorridente.
Ela nem deu importância que o véu caiu, deixando seus cabelos descobertos.
Era fácil imaginar que tinha os olhos fixos na linha do horizonte e cavalgava rumo ao desconhecido.
Como era veloz!
Movia-se com perfeita harmonia com o cavalo.
Um alazão negro, lindo!
Ela o controlava, acredita?
Ximena limitou-se a balançar a cabeça.
Sem nada a dizer, foi em busca das roupas e jóias.
Entendeu que Amirah não desejava a piedade de uma mulher que, sem conhecer, admirava.
Afinal, também ela, se pudesse, trocaria as roupas de criada, arranjaria o cabelo e ostentaria as melhores jóias que tivesse; mas não tinha nenhuma para apresentar-se diante de Layla, embora por outras razões, muito diferentes.
Na hora aprazada, a irmã do Califa aguardava sua visitante na sala principal de sua residência.
Insistira em sair do quarto, contra todas as rogativas de Ximena e alegações de que o clima não era favorável.
Vestida e penteada com esmero, Amirah era a personificação da alegria e da excitação, para desgosto e preocupação de sua criada pessoal.
“Loucura! Meu Deus, tanta agitação não vai fazer bem a Amirah.
Mas o que posso fazer?
Nem o Califa está na cidade.
Quando ele voltar, relatarei essa insensatez.
Risco desnecessário.
Ah! Por que ele tinha que se casar mais uma vez?
E ainda por cima com… com uma mulher assim.
Por que não outra, do mesmo tipo que Aidah, Kamilah e Zahara?
Seria tão mais fácil de aceitar.
Nada mudaria.
Agora, não sei. ”
Ximena ruminava esses pensamentos, sentada à pequena distância de Amirah.
Tinha o olhar em sua senhora, mas prestava a mínima atenção.
Somente quando as portas duplas se abriram e o criado anunciou a visitante, foi que ela saiu do estado de concentração íntima, para discretamente, olhar e avaliar a nova esposa de Jamal.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 22, 2018 8:50 pm

Ferroadas de inquietação, sentimentos de insegurança e inadequação a assaltaram.
Reconhecia a beleza de Layla e, conforme o encontro seguia as cordialidades costumeiras, admitiu que ela irradiava muita força, liberdade, simplicidade.
– Você soube que Zahara está doente? – indagou Layla, encarando a cunhada.
– Sim, eu soube.
Lamentei o ocorrido.
Ibn Rusch, além de ser o médico de confiança de meu irmão, é também meu amigo; veio visitar-me e contou.
Elogiou muito sua firmeza de decisão.
Layla baixou o rosto, seu dedo brincava com o bordado da túnica.
A lembrança daquela madrugada a incomodava, o que não passou despercebido à sensibilidade da anfitriã.
– Você fez o que devia ser feito.
Fique tranquila, tenho certeza de que Jamal não teria agido de forma diferente.
Os dois médicos que a examinaram são da inteira confiança dele – comentou Amirah – Ibn disse que não tinham ainda como avaliar se ela ficará com alguma sequela, mas que é uma possibilidade.
Como está Zahara?
Tem informações recentes?
– Na mesma.
Benjamim e Ibn lutam com uma febre que surgiu nas primeiras horas da manhã.
Seu estado é uma incógnita, segundo entendi.
Você não imagina como desejei que seu irmão estivesse aqui naquela hora.
Como você mesma disse, eu fiz o que precisava ser feito.
Acredito que era o necessário, mas ainda assim acabei decidindo a vida de uma pessoa com a qual não tenho nenhuma intimidade.
É uma decisão muito difícil.
– Compreendo. Mas, se nada tivesse sido feito…
– Ela, provavelmente, morreria junto com o filho. Jamal é o marido e era o pai da criança.
– Não estava – falou categórica Amirah.
Não fique enchendo sua mente de suposições, hipóteses, os factos se dão e precisam ser decididos em um nível de vida concreto, onde todos os dados estão postos num determinado momento.
E é de acordo com eles e no contexto da situação que se pode e deve decidir.
Creio que você fez o melhor, eu teria feito o mesmo.
E gostaria muito de ter sua coragem.
Admiro-a, Layla, desde que seu irmão e seu primo falaram de você e eu não sabia como era seu rosto.
– Então conheceu Zafir? – indagou Layla, voltando a fitar a cunhada.
Em seus olhos brilhava a ternura que sentia pelo primo e lia-se que sua ausência doía.
– Tive a honra e o prazer de conhecê-lo.
Um homem notável, diria até que com uma mentalidade muito à frente de nossa época, no tocante à condição da mulher em nossa sociedade.
Admirei o gesto dele de tornar público o amor que sentia por você, mesmo nas circunstâncias que conhecemos.
Layla respirou fundo, dirigiu o olhar para uma porta que estava aberta e dava para um jardim com gramado e árvores, sem nenhuma flor.
Chamou-lhe a atenção e questionou se seria recomendação médica o gosto pessoal.
Talvez nunca viesse a saber a resposta.
“Como será viver assim?
Tudo é supervisionado.
O que comer, beber, vestir, lençóis, óleos para apele, quem entra e quem sai de sua casa, onde tudo é tão limpo que chega a causar desconforto, pois nos sentimos sujos.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 22, 2018 8:50 pm

Onde talvez nem flores possam ser plantadas ou colocadas em vasos, onde nenhum animal entra.
Pobre criatura!
Que tipo de vida é essa?
Amirah é bonita, parece saudável, mas não é.
Gostei dela, lamento essas limitações”, pensou Layla, fugindo às lembranças que o nome de Zafir evocara.
Estava muito frágil para remexer nesse baú de lembranças, por isso despistou a conversa.
Recordando a advertência de que visitas a Amirah não deviam ser demoradas para cansá-la, instantes depois se despediu com sincero carinho.
– Fico feliz que tenha vindo, Layla.
Volte sempre que desejar, será muito bem-vinda à minha casa.
Sempre o foi, mesmo naquela situação absurda provocada por meu falecido marido.
– Obrigada, Amirah.
Mas, apesar de tudo, acho que prefiro do jeito que está.
Perdoa o que vou dizer, mas eu jamais aceitaria me tornar mulher de Munir Al Jerrari, não suportaria sequer sentir…
Desculpe, estou sendo desagradável.
Nossa conversa foi óptima em tenha certeza, eu voltarei.
Gostei de você. Cuide-se.
– É só o que faço e o que fazem comigo – brincou Amirah, tentando esconder uma nota de tristeza na voz.
– Se exageram, eu os entendo, é por amarem você.
– Eu sei, mas isso não me impede de pensar que tudo na vida precisa de uma dose certa para ser saudável. Concorda?
Layla balançou a cabeça concordando.
Tomou as mãos de Amirah, apertou-as, sorriu, depois as largou e saiu da sala a passos rápidos e com a cabeça erguida.
Amirah voltou-se para Ximena e comentou:
– Meu irmão, enfim, tem uma esposa.
Encontrou uma mulher.
Espero que seja feliz ao lado dela. Ele merece.
Ximena ficou calada.
A observação de Amirah causava-lhe certo pesar, um desgosto.
Ao longo da visita que testemunhara em silêncio, ficara procurando defeitos na nova esposa do Califa, mas, ao final, sentira-se estranhamente ligada a ela.
Não sabia explicar a si mesma se era pela não realização de um amor.
Ficara evidente aos olhos da criada o momento de fragilidade emocional que Layla escondia e que era um ponto de afinidade.
Podia entender a dor vislumbrada na outra.
***
Kamilah torcia as mãos, nervosa; não tinha sossego; dava voltas pela ampla sala que fazia parte de suas dependências no palácio do Califado de Córdoba.
A mente, em brasa, ruminava ideias, palavras, acusações.
– Inveja! Só pode ser inveja que a levou a agir daquela forma.
Não consegue admitir a escassez de nobreza de seu nascimento em comparação com as demais esposas de Jamal.
Sim, só um sentimento mesquinho explica o que ela permitiu que fizessem.
Ah! Que arrependimento, meu Deus!
Por que não posso ver sangue?
Fico em pânico, perco a razão.
Ah! Se, ao menos, tivesse conseguido me controlar, quem sabe não poderia ter impedido essa desgraça.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 22, 2018 8:50 pm

Pobre Zahara!
Tão jovem e condenada a um duro destino.
Roubada de tudo, ou quase, por essa estranha que anda com ares de rainha.
Quem ela pensa que é?
Vai aprender, ah, se vai! – murmurava ela entre dentes para si.
Kamilah soubera pelos criados que não presenciaram a fatídica madrugada de luta entre a vida e a morte.
Horrorizaram-se ao ver os restos do bebé esquartejado, que foi sumariamente sepultado.
Daí à criação de mil e uma histórias foi questão de segundos.
A fertilidade da imaginação humana é uma bênção ou uma maldição, tudo depende de como é usada.
Pode produzir maravilhas a serviço da inteligência equilibrada, mas pode, também, produzir da loucura às mais sórdidas intrigas.
E uma das mais tristes peças que ela prega em seu desavisado possuidor é a crença naquilo que imaginou.
Para ele o fruto de sua imaginação é realidade, transferida com grande facilidade para o domínio das suas certezas.
Triste domínio que fecha as portas do crescimento, da discussão, do questionamento, do intercâmbio e mesmo da necessária divergência.
Quando o sujeito se acha imbuído de certezas, sua visão mental é limitada, seu aprendizado é quase nulo.
Por isso, é fundamental que saibamos conhecer e dominar a acção de nossa mente, reconhecendo o poder da imaginação em tornar real ao seu detentor o que é uma miragem.
Essa distorção da visão dos acontecimentos, dos factos, e até dos conhecimentos que a imaginação opera, é a maior razão para que se busque conhecer esse poder da imaginação de que somos dotados, fazendo todos os esforços no sentido de dominá-lo e dar-lhe boa direcção, para que não venhamos a crer em nossas próprias miragens e mentiras.
Como todas as nossas forças e energias, a imaginação pode ser objectos de intercâmbio entre as pessoas – pode ser transmitida e aumentada conforme a mente e as disposições intelectuais e emocionais de quem a transmite e de quem a recebe.
Embora não aparentasse, Kamilah estava ressentida com a chegada de outra esposa, jovem, bonita e em plena capacidade reprodutiva.
Sentia-se agredida, envelhecida, relegada e, acima de tudo, incapaz de dar ao Califa outros filhos. Precocemente, seus ciclos se encerraram, não engravidaria.
Isso a empurrava ao encontro das mulheres mais idosas e de um modo de viver que ela não desejava aceitar, por isso mentia e proclamava os períodos em que estava “impura”, como antes não fazia.
Era a necessidade de que sua juventude e feminilidade fossem conhecidas.
Chegava ao extremo de ferir-se para produzir marcas de sangue em si.
Layla exalava saúde, beleza, feminilidade.
Não a feminilidade fraca e passiva que a marcava, mas, sim, exuberante e activa, dominante.
E isso atingia Kamilah como um punham bem afiado, embora a outra não tivesse a menor noção do efeito que sua presença produzia na primeira esposa do Califa, que tudo escondia sob o manto da passividade, da submissão.
Garras eram afiadas numa imaginação doentia.
O som da porta abrindo a fez voltar-se e encarar ansiosa o marido que tinha o semblante assustado.
– O que aconteceu, Kamilah?
Por que mandou me chamar com urgência?
Há no rosto de todos uma expressão de espanto, um olhar assustado.
O que se passa?
– Uma catástrofe.
Uma desgraça terrível.
Jamal sentou-se num divã, apoiou os braços nos joelhos e escondeu o rosto entre as mãos.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 22, 2018 8:50 pm

O cansaço era visível em cada linha do seu rosto.
Sob a pele bronzeada se notava a palidez e as olheiras.
– Kamilah, sem dramas e longas histórias.
Por misericórdia, ao menos uma vez na vida, seja clara e objectiva e fale, sem rodeios, o que é preciso – implorou Jamal, falando pausadamente, deixando claro que a paciência tornara-se artigo de luxo em seu ser naquele momento.
A atitude do marido a desconcertou.
Feriu-a ainda mais.
Interpretou como sendo um motivo pessoal, como se ele não tolerasse mais sua presença, como se fosse um tormento ouvi-la.
Explodiu numa crise de choro; soluços pungentes sacudiam-lhe o corpo.
Jamal suspirou, irritado.
Choro, lágrimas, crises emocionais era tudo o que ele não queria, muito menos precisava, depois da exaustiva viagem de negócios que fora obrigado a interromper quando chegara a mensagem enviada por Kamilah, pedindo seu retorno com urgência ao palácio.
Viajara, dia e noite, sem descanso.
Estava há, aproximadas, cinquenta horas sem dormir, apenas breves cochilos sobre o cavalo.
– Acalme-se, Kamilah – ordenou Jamal, frio e com a voz elevada.
Fale logo o que houve aqui em minha ausência.
– Ela é uma bruxa, Jamal. Horrível, sanguinária.
Matou um bebé indefeso.
Precisa se ver livre dela, repudiá-la, ela não merece viver entre nós.
Ela não o merece como marido – acusou Kamilah aos prantos, dando um exagero dramático a cada palavra.
– A quem você está se referindo? – perguntou Jamal furioso.
Não toleraria uma crise de ciúme, uma disputa entre mulheres.
– Você sabe.
Estou falando daquela… daquela mulher com quem se casou.
Não posso nem dizer o nome de mulher tão vil, uma assassina.
– Layla – confirmou Jamal, sentindo um frio de apreensão gelar-lhe o estômago ao ouvir a acusação de assassinato.
Sabia que ela era capaz de matar, mas confiara que o tivesse feito apenas por causas justificáveis, nunca por simples prazer.
“Não, ela não tem um carácter violento, pelo menos, não gratuitamente.
Aqui não haveria razões para que ela assassinasse alguém, não fazia sentido.
Foi então que compreendeu tudo.
Não me enganei, ela está grávida e abortou.
Meu Deus!”
– Como está Layla?
Por favor, não me diga que ela morreu nessa aventura louca de abortar a criança que estava esperando.
A notícia caiu sobre Kamilah com o impacto de uma rocha sobre sua cabeça, e a reacção de Jamal a encheu de desespero.
A preocupação genuína nos olhos dele pela saúde da nova esposa, seu desespero com a ideia de que ela houvesse abortado a aborreceu.
A mente de Kamilah fervia de acusações infundadas.
– Não houve nada com ela – esclareceu Kamilah.
Quem não está bem é Zahara.
– Alá seja louvado! – suspirou Jamal aliviado.
Não suportaria que ela tivesse cometido um ato assim ou que estivesse doente.
Alá é misericordioso!
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 22, 2018 8:51 pm

– Ela o enfeitiçou.
Você nem ao menos ouviu o que eu disse.
Zahara não está bem.
Foi o bebé que ela esperava que foi morto por aquela assassina e de uma forma tão bizarra, tão bárbara… – e deu vazão à história perturbada que sua imaginação criara, distorcendo os fatos ocorridos com Zahara.
Jamal ouviu, apenas, até entender o que se passara em sua ausência.
Depois, levantou-se e saiu, batendo a porta com estrondo atrás de si, sem dar a menor importância à crise emocional em que deixava sua primeira esposa.
Iria conhecer e julgar os factos por si mesmo; conhecia Kamilah bem o suficiente para identificar as distorções e os exageros.
Ela havia mencionado a presença de Ibn Rusch e Benjamim; seriam ele que iriam lhe explicar o que acontecera.
***
Layla servia uma xícara de chá de hortelã a Benjamim.
Entretidos numa agradável conversa, não ouviram os passos pesados que se aproximavam com intimidade de dono dos aposentos da jovem e surpreenderam-se quando Jamal irrompeu na sala.
– Enfim o encontro – disse ele, encarando o médico e rabino judeu.
Precisamos conversar.
– Boa tarde, Califa – cumprimentou Benjamim tranquilo, erguendo-se e saudando Jamal como determinava a cortesia e a boa educação.
Depois sorriu, descontraído, e contemplou a fisionomia do recém-chegado.
– Vejo que você não tem tido dias de descanso. Em que posso auxiliá-lo?
Layla permaneceu onde estava bebericando seu chá e fitando o marido.
Quando ele a olhou, sorriu, com cortesia, desarmando-o com sua calma, seu olhar firme, sereno, profundo.
– Desculpem minha chegada tocada pelos demónios.
Fui indelicado sem razão – e, voltando-se para Benjamim que o aguardava de pé, fez um gesto com a mão indicando que tomasse assento.
Será, minha esposa, que posso tomar chá com vocês?
Layla limitou-se a tocar um pequeno sino chamando Salma; pediu-lhe que trouxesse mais uma xícara.
Jamal recostou-se em algumas almofadas, suspirando; fechou os olhos; deixou que o silêncio e o aroma refrescante da hortelã o acalmassem.
Benjamim e Layla trocaram um olhar e sorriram apiedados do cansaço que tomava o Califa.
– Não durma – alertou Layla após alguns instantes.
A posição é incómoda e quando acordar estará pior.
– Eu sei – concordou Jamal, sentando-se erecto e sorrindo para a jovem que lhe estendia a xícara com o aromático chá.
Meus dias e noites têm sido muito difíceis.
Voltei às pressas, depois de ter recebido um chamado urgente de Kamilah.
– Da senhora Kamilah? – estranhou Benjamim.
Houve algum imprevisto?
– Com ela, não.
Mandou chamar-me e somente há pouco soube que o motivo era Zahara.
Não pretendia envolver Layla no assunto, mas já que está aqui…
Gostaria que me dissesse, Benjamim, o que ocorreu há dois dias com minha terceira esposa?
Layla fez menção de abrir a boca, mas, com apenas um olhar, Benjamim a fez calar-se e deixar que ele respondesse a interpelação que lhe fora feita.
– A senhora Zahara teve o que chamamos de eclampsia, o que significa que teve crises convulsivas.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 22, 2018 8:51 pm

A senhora Kamilah e a outra sua esposa, cujo nome não me lembro no momento, equivocaram-se ao não reconhecerem que as dores e mal-estares que ela alegou, segundo foi relatado a mim e a Ibn, eram doentios e não faziam parte do trabalho de parto.
Deixaram-na padecer essas queixas por aproximadas, trinta e seis horas, então o estado se agravou e pediram e presença de Layla para zelar por Zahara, pois estavam cansadas.
Sua jovem esposa, assim que colocou os olhos em Zahara, percebeu que o quadro era anormal e mandou chamar Ibn, seu médico de confiança.
Ele diagnosticou a eclampsia, mas, ciente do que precisaria ser feito e da gravidade.
Mandou que me chamassem; queria ouvir outra opinião.
Infelizmente, não havia margem para dúvida.
Foi uma situação delicadíssima, era preciso sacrificar a criança – que não tínhamos certeza se ainda vivia – para tentar salvar a vida da mãe.
Uma escolha cruel, mas manda a razão que se dê preferência ao ser que já tem vida e história; assim fizemos.
Layla não só autorizou a realização do que se fazia necessário, como, corajosamente, nos deu toda assistência precisa zelando por Zahara.
Fui eu quem retirou a criança.
Lamento dar-lhe essas notícias, mas não havia tempo para esperar que retornasse à cidade.
As chances eram poucas, e o tempo estava contra nós.
Jamal ouviu a explicação em silêncio, fitando Benjamim.
Conhecia e admirava sua inteligência e competência havia alguns anos, desde que chegara a Córdoba vindo do Marrocos.
– Meu Deus! Que noite horrível devem ter vivido.
Layla limitou-se a balançar a cabeça concordando.
Preferia não comentar o episódio, para não se lembrar das cenas.
– Seria melhor dizer que vivemos dias difíceis também por aqui.
A saúde de Zahara é preocupante – comentou Benjamim, com a calma que o caracterizava.
O que se passou com ela é muito grave, Califa.
Poderá haver sequelas sérias.
– O que quer dizer?
– Não sabemos o que as convulsões afectaram.
Em quadros semelhantes pode ocorrer desde a perda completa de movimentos, ou perda parcial, ou cegueira, mudez, surdez, enfim, a vida dela ainda está em perigo, eis a razão de me encontrar no palácio.
Estamos pedindo ao Senhor Misericordioso que nada disso ocorra, mas são possibilidades que devem ser encaradas.
– O que pode ser feito?
– Aguardar. Se danos houver, já aconteceram.
Não podemos impedir, se dão na própria crise.
– Se nada houvesse sido feito?
– Já estaria morta e sepultada, junto com a criança.
Essa é uma das maiores causas de morte de mulheres grávidas.
– Entendo – e, voltando-se para Layla, tomou-lhe a mão que descansava sobre uma almofada e beijou-a delicadamente.
– Mais uma vez tenho com você uma dívida de gratidão.
Obrigado.
Layla baixou os olhos e respondeu:
– Como disse Benjamim, fizemos o que era necessário.
Fico feliz que tenha entendido minha decisão.
– É a de qualquer pessoa sensata.
Eu teria feito o mesmo.
Benjamim terminou seu chá e levantou-se, anunciando que iria ver a paciente.
Despediu-se do casal e andou a passos rápidos em direcção à ala ocupada pela terceira esposa.
Não se enganara com as perguntas de Jamal, alguém antes distorcera os factos, fazendo com que, mesmo exausto, ele o procurasse para esclarecer o ocorrido.
“Sórdidos sentimentos humanos”, resmungou Benjamim, caminhando apressado.
“Tão humanos que desconhecem barreiras culturais, religiosas, raciais, sexuais.
Basta ser humano para ser capaz de senti-los e dar-lhes vida exterior, geralmente sob a forma de calúnias e injustificadas perseguições.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 22, 2018 8:51 pm

UMA NOVA VIDA
– Temi que você houvesse cometido um ato impensado – declarou Jamal com o olhar fixo em Layla.
Em outras palavras, teve medo que eu houvesse feito uma bobagem – retrucou Layla, serena.
Fique tranquilo, é provável que eu já tenha cometido todas as bobagens possíveis a uma mulher nesta vida.
Jamal sorriu do comentário, apesar do evidente tom de amargura na voz da jovem.
– Eu não tenho tanta certeza.
A vida é uma incógnita que se revela e desvenda a cada dia.
Nenhum de nós imaginou estar casado com o outro, mas estamos; você não planeou tornar-se uma, no entanto, é uma soberana.
Os factos sucedem-se, minha querida, e vão formando o traçado das nossas vidas.
Há dias em que fico a observar o emaranhado de relações, actos, circunstâncias que vão se desenhando e nisso vejo a mão de Alá.
São raros os factos que permanecem isolados e que morrem em si mesmos.
Em geral, são como pedras que rolam, vão abrindo caminhos, agregando outros elementos e, no final, reúnem-se em um único monte.
– Hum… ideia interessante!
De pária à soberana no espaço de alguns dias, como da honra ao descrédito.
Quando penso nisso, não posso deixar de ver o ridículo de certas convenções sociais e leis.
Desonrada ou soberana, eu sou a mesma pessoa.
– Querida, a diferença quem faz sou eu, não você.
Sozinha, após o rapto e a sua fuga, você estava fora dos padrões de nossa sociedade; casada comigo, você é uma das soberanas de Al-Andaluz.
É simples.
– Entendo o que diz, mas, insisto, intimamente esse facto nada modifica.
Aliás, por que se casou comigo?
– Já estava pensando que você não desejasse saber minhas razões, o que é comum nas mulheres.
Layla não respondeu.
Em silêncio, encarou-o, esperando uma resposta. Jamal suspirou e voltou a fitá-la.
– Gostei de você.
É uma mulher muito bonita, mas foi sua ousadia que me atraiu.
Confesso que não tinha intenção de tomá-la como esposa, mesmo porque havia Zafir.
Depois, sobreveio a batalha contra os africanos e sua postura me fascinou.
Acho que decidi casar-me com você quando a vi dançar para Kaleb e perdi todas as dúvidas, que pudesse ter, quando a reconheci ao lado de Kiéram Simsons trajada como homem pronta para a luta.
Naquele dia pensei que a vida a seu lado nunca seria entediante, que quando eu desejasse conversar com uma mulher eu poderia procurá-la e não seria como ouvir o eco de minhas palavras, entende?
Layla sorriu; uma luz de entendimento clareava o costumeiro abismo de seu olhar.
– Obrigada pela honestidade.
Fico feliz em saber como se sente a meu respeito e que aprecia meu jeito de ser.
– Não pretendo cortar suas asas, Layla.
E você aceitou esse casamento por que razão?
Teve medo de enfrentar a vida como pária?
– Seria uma mentirosa se negasse o óbvio.
Senti medo, sim.
A situação de alguém sem destino é cruelmente dúbia; experimentando-a, fui capaz de sentir a mais plena liberdade a que uma mulher pode aspirar.
Fui tratada como igual; minhas ideias foram ouvidas e aceitas; eu as executei.
E, sejamos sinceros, todos sabíamos que eu não tinha nada a perder, inclusive acreditávamos que todos os meus familiares e amigos estivessem mortos.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 22, 2018 8:51 pm

Se eu morresse, nenhum dano teria acontecido; se eu vivesse, somente eu não teria um destino após o fim da luta…
– Foi esta a razão: falta de alternativa?
– Não colocaria com essas palavras.
Afinal alternativa havia, era o destino incerto e…
Layla fez uma pausa, recordando seu último encontro com Kiéram; depois as memórias foram retrocedendo à convivência com os invasores africanos.
Seus olhos reflectiram nesse silencioso retrospecto, as dores que tinha vivido, e Jamal, pela primeira vez, compreendeu na íntegra o tamanho do sacrifício dela.
Imaginou as humilhações, abusos e agressões físicas e morais por que ela tinha passado, nos quais incluía o ato insano do falecido cunhado.
– E ele poderia ser muito pior do que tudo que havia experimentado, e…
Layla fazia pausas, como se escolhesse as palavras para compor uma frase difícil de ser expressa.
– E? – incentivou Jamal.
– Bem. Eu não poderia garantir que seria a única pessoa a tornar-me pária.
Ninguém pensou nessa possibilidade, mas no alto das muralhas de Cádiz, quando eles partiam, eu pensei no que seria meu futuro, pois até eles tinham um destino.
Eu tinha o mundo e a miséria como escolha.
Aquele caminho tem traçado conhecido:
prostituição, miséria, doença e, ao fim de alguns meses ou anos, seria assassinada.
Pois bem, naquele instante me ocorreu que, além de mulher só, eu também poderia estar grávida.
Eis a razão.
– Agora sou eu quem agradece sua honestidade – declarou Jamal, aproximando-se e tomando-lhe ambas as mãos, beijando-as reverentemente.
Eu sei que você está grávida.
Lembre-se, tenho várias mulheres e já as vi grávidas.
Conheço as transformações da natureza feminina.
Diga-me, com sinceridade, existe alguma possibilidade desse filho ser meu?
– Eu não sei – murmurou Layla.
Isso me aterroriza.
Cheguei a pensar em abortar, mas antes que eu decidisse presenciei o trabalho de Benjamim e Ibn; é violento; é cruel. Eu não teria coragem.
– Por quê? Eu sei que você é fria e corajosa, que já enfrentou a morte.
– Eu já matei, Jamal, reconheço.
Mas nunca suportei a crueldade gratuita, e meus actos, ao menos diante da minha consciência, eram necessários, justificavam-se.
Existia uma história, uma relação entre nós.
Agora é diferente.
Eu não tenho uma história com essa criança que é gerada em meu ventre.
Ela nunca me causou mal, não tenho motivos para matá-la.
Espero que não me peça isso, pois, se o fizer, não obedecerei.
– Mesma sabendo que o pai pode ser Kaleb?
Que foi gerado em meio a um plano de vingança?
– Kaleb está morto.
A maior parte das pessoas quando pratica sexo não pensa em ter filhos, então não vejo a diferença.
Uma coisa é a relação sexual, outra coisa é a gestação, embora seja consequência natural.
Não sei se é difícil, mas consigo ver as duas realidades distintas.
– É difícil seu modo de ver, embora louvável e racional.
E a paternidade da criança não a incomoda?
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 23, 2018 8:50 pm

– Eu fui honesta, não sei quem é o pai.
Meus ciclos de sangramento nunca foram regulares, nem ao menos posso afirmar de quantos meses.
Os outros sintomas é que confirmam.
Respondendo à sua pergunta:
eu não sei quem é o pai, mas não tenho dúvidas de que essa criança tem uma mãe e que sou eu, é o bastante.
Jamal beijou novamente as mãos de Layla, enterrando o rosto em seu colo.
Depois abraçou-a e disse baixinho:
– Essa criança tem um pai, sou eu. Nunca mais repita o contrário.
Não importa quando ela tenha sido concebida.
Obrigado por sua honestidade comigo.
O casal ficou um longo tempo abraçado afectuosamente, como amigos e companheiros de vida, numa relação que se estabelecia sobre bases sólidas, conquanto distante do amor romântico, apaixonado ou mesmo sensual.
***
A atitude de Kamilah reproduziu-se em inúmeras ocasiões.
Não desprezou uma viva alma como sementeira de seu despeito.
Do Califa ao menos valorizado servo de Córdoba, fosse cidadão de primeira ou segunda classe, homem ou mulher, sem distinção de nenhum tipo racial, – e quando alguém deseja realizar uma campanha difamatória,
estranhamente um vício supera outro, e os preconceitos são por instantes esquecidos para aquele fim específico –, bastava ter a forma humana e a capacidade de ouvir para que ela desse livre curso à sua campanha difamatória, a vingança dos medíocres e covardes.
Usam as palavras como pedra em uma parede de lapidação, mas só as arremessam às costas de sua vítima e onde ela não possa rebatê-las.
Algumas são verdadeiras pedras de alicerce, brutas; outras são pequenos grãos de areia colocados no sapato de outrem para causar desconforto; são insinuações, suspeitas veladas, imperceptíveis manipulações emocionais que lançam o
veneno da discórdia nas relações da vítima com os demais membros da comunidade em que se movimenta.
Fingem concordar com aqueles que apreciam sua vítima, para, sutilmente, em meio a um comentário qualquer, salientar o que julgam incorrecto no proceder dela e lançar nos olhos de seu ouvinte as cores com que vê a criatura alvo da difamação.
São mil, ou mais, os subterfúgios de que usa o ser humano dominado pelo mesquinho sentimento da inveja.
A inventividade nas formas de destruir causa espanto quando se valoriza a construção, e todo invejoso é um destruidor.
Seu anseio maior é exterminar o alvo de sua inveja e, quando não o consegue, a calúnia e a difamação são caminhos muito usados.
Falamos, em páginas anteriores, da distorção da percepção da realidade afectada pela imaginação e que ela pode conduzir à loucura.
Na paixão do sentimento de inveja acaba o próprio algoz encarcerado em um mundo muito pequeno a se consumir, totalmente alheio à percepção adequada dos factos e, na maioria das vezes, esquecido de si e de seus interessantes.
Pode-se dizer que perde o eixo da própria existência, desgoverna-se.
O invejoso lança-se à destruição de alguém exterior, fora de si, desconhecendo que o que vê na outra criatura é apenas a projecção daquilo que lhe falta.
A verdadeira causa de incómodo não é o outro, mas, sim, ele mesmo.
A covardia não está apenas no ataque traiçoeiro à vítima, está, principalmente, na fuga de olhar a si próprio, reconhecer, aceitar e transformar as limitações que perturbam.
Todos somos seres circunscritos, temos limites, mas tu não barreiras rígidas e intransponíveis, ao contrário, são maleáveis e extensíveis.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 23, 2018 8:50 pm

São nossas forças morais, e em cada segundo de nossas vidas estamos exercitando a capacidade de ampliá-las.
A exigência é de esforço, nada mais.
A coragem está em tentar, em lutar, não necessariamente em vencer, afinal, existem derrotas que são vitórias.
Entretanto, Kamilah estava presa em seu limitado e pequeno mundo repleto de inveja.
Quanto menor o espaço, maior se torna quem, ou o que, o domina.
Layla, aos olhos da primeira esposa do Califa, era o centro de tudo e de todos; reinava, mandava e comandava, e, tendo tal percepção, mais ela se exasperava e recrudesciam seus ataques à jovem.
Nem mesmo o grave estado de saúde de Zahara serviu-lhe como freio.
***
Benjamim e Ibn observavam atentos os primeiros sinais de que sua paciente recobrava a consciência.
O grande momento chegava.
Ela movimentava a cabeça de um lado para outro;; os olhos fechados davam sinais de movimentação das órbitas.
– Parece que ela está despertando – comentou Benjamim.
Ibn balançou a cabeça, concordando e, andou até o lado do leito; sentou-se em uma cadeira deixada pela criada que velava a enferma.
Tocou delicadamente a testa de Zahara, chamando seu nome com suavidade.
Como nenhuma mudança fosse notada, insistiu:
– Zahara, acorde – e repetiu por mais três vezes o chamado em vão.
– Creio que seu estado de inconsciência ainda é profundo – comentou Ibn erguendo as pálpebras dela, constatando que não reagiam à luz ou ao movimento.
– Já se passaram cinco dias, Ibn.
A febre cedeu, a hemorragia também, mas, sejamos francos, esse estado de inconsciência torna-se preocupante.
Ela está sem alimento, pouco hidratada…
– Sei onde quer chegar – declarou Ibn.
Talvez devamos falar com Jamal.
– Concordo. É melhor que ele esteja ciente do que possa ocorrer de maior gravidade, e a natureza orgânica de Zahara nos surpreender, do que ficarmos sem uma definição nos negando a admitir a pior das possibilidades.
Ibn deu continuidade ao exame da enferma.
Com olhar preocupado e expressão concentrada, fria, voltou-se para Benjamim, dizendo:
– Vamos agora.
Jamal é, acima de tudo, um bom amigo, nos receberá mesmo sem aviso anterior.
Benjamim aquiesceu, encaminhando-se para a porta, seguido de perto por Ibn.
Em silêncio, dirigiram-se ao centro administrativo do palácio.
Jamal interrompeu seus afazeres; dispensou o secretário e alguns conselheiros, para atender os médicos tão logo informado da presença deles.
Observando as expressões sérias, as palavras contidas, os modos calmos, Jamal deduziu que a conversa lhe traria notícias desagradáveis, por isso, encarando-os, falou directa e secamente:
– Vejo que a visita é séria e presumo que o assunto seja a saúde de Zahara.
Peço que não façam rodeios.
Ibn olhou para Benjamim e em seu olhar estava claro que outorgava ao amigo o direito de dar os esclarecimentos devidos sobre a paciente de ambos.
Ele não se fez de rogado, não era de seu feitio.
– Temos indícios suficientes para dizer que, provavelmente, o estado actual da senhora Zahara seja permanente.
A hemorragia e a infecção estão controladas, mas ela não recobra a consciência. Logo…
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 23, 2018 8:51 pm

– Por Alá!
O que me dizem é horrível – interrompeu Jamal, lançando as mãos à cabeça.
Como pode acontecer isso com uma mulher jovem, saudável?
– São os riscos da vida – disse Benjamim.
A ciência ainda tem muito a avançar; é repleta de perguntas, Califa.
E a mulher gestante é um estado especialíssimo da natureza.
Desde que os seres humanos habitam o mundo, as mulheres dão à luz.
Com a grande maioria delas a natureza é amorosa, e corre tudo como o esperado, entretanto há uma minoria que enfrenta sérias complicações e, não raro, a própria morte.
Em nosso trabalho somos chamados a viver lado a lado, instante a instante, com a vida e a morte.
Creia, elas podem chegar juntas em um mesmo momento.
Ou…, então, a morte, sorrateira, leva-nos aos poucos, com intervalos de severo sofrimento.
Para algumas mulheres a experiência física da maternidade é fascinante; para outras, é porta aberta às perturbações mentais, à loucura, às doenças e, como já disse, até mesmo à morte.
A sabedoria de Deus é infinita, e o conhecimento humano é pequeno e falho; não conseguimos compreendê-la em plenitude.
Nossos julgamentos são imediatistas, erramos com mais frequência do que seria desejado ao atribuir valores e formar conceitos das coisas de Deus.
Tenho aprendido a aceitá-los e aceitar que todas as situações têm como limite aquilo que chamamos de possível.
Por ora, todo o possível está sendo realizado, é o que nos cabe.
Continuamos buscando respostas, mas cientes de que elas estão reservadas ao futuro.
– Jamal, veja bem, não estamos dizendo que ela nunca mais volte, que vá morrer nesse estado.
Mas é provável.
Não seria o primeiro caso – reforçou Ibn, olhando preocupado a reacção do Califa.
– Quantos casos conhecem em que as pessoas retornaram desse estado? – indagou Jamal após alguns instantes de reflexão.
– Ibn e Benjamim se entreolharam; a respostas a essa questão era tão vaga quanto as anteriores.
– Tudo é incerto, quando pisamos nesse terreno – respondeu Ibn.
Não há números, nem sequer aproximados, que possamos lhe oferecer como base.
– Um ou nenhum? – insistiu o Califa.
– Sou muito realista, há mesmo quem diga que sou muito duro para alguém tão vinculado à religião, mas, sendo sincero, minha experiência é de nenhum caso – declarou Benjamim, enfrentando o olhar de Jamal.
Já vi sequelas graves, como paralisia dos membros, perda da fala ou da visão – essas são as mais comuns quando a eclampsia é grave e acarreta danos; outras mulheres se recuperam da doença sem lesões.
No entanto, quando ficam no estado da senhora Zahara, a morte é questão de tempo.
– Quanto tempo? – questionou Jamal.
– O necessário para que a natureza extinga suas forças vitais.
Não temos como alimentá-la ou hidratá-la.
– Que horror!
Você está me dizendo que ela morrerá de fome e sede dentro deste palácio onde nada falta?
– Entendeu-me muito bem.
É isso mesmo.
Estamos no limiar da porta em que falecem todos os recursos humanos e a vontade soberana das leis de Deus se faz cumprir.
Diante do poder supremo, tudo é nada.
Não importa que este seja o palácio do Califado de Córdoba, onde a abundância é a regra.
– Respeito sua crença, Benjamim, sei que é um homem culto e religioso, mas, de facto, é muito duro ouvir isso – comentou o Califa, atordoado.
Nunca pensei em desgraça ao ver uma mulher grávida.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 23, 2018 8:51 pm

Nunca pensei que a morte lhe espreitasse os passos.
– Nem deve pensar.
Particularmente, considero linda toda mulher gestante, lembra-me a primavera.
É uma visão de alegria e exuberância.
Porém, a vida e a morte são um dos muitos pares inseparáveis da existência.
Temos de aceitá-los.
É como jogar uma moeda:
pode dar cara ou coroa.
Riscos, experiências, aprendizados, a isso se resume o ato de viver.
Aceite a situação como o Senhor a apresenta, e tudo ficará mais fácil.
Jamal balançou a cabeça em muda aquiescência às palavras de conforto que Benjamim lhe endereçava.
Pensou alguns minutos em suas anteriores experiências com a gravidez de suas esposas. Intimamente agradeceu a Deus pela saúde, bem-estar e alegria que havia vivido sem se dar conta de que era um imenso presente e que nem todos o recebiam.
Antes os julgara um facto corriqueiro; somente em meio ao caos da grave enfermidade, praticamente irreversível, de Zahara, ele valorizava devidamente os momentos vividos até então.
Do passado ao futuro a mente humana não leva mais de um segundo.
Nesse salto ele recordou o rosto de Layla, a confissão honesta que lhe fizera, a decisão de dar à luz e assumir a maternidade de um filho gerado em tão singular situação.
Os fortes sentimentos de amizade e admiração que sentira naquele instante voltaram intensos e eivados de aflição.
Voltou o olhar a seus visitantes, sem esconder o que lhe ia na alma.
– Abençoadas palavras, Benjamim.
Se você não fosse um conceituado rabino e estudioso respeitado da Torá em toda Al-Andaluz, eu diria que você é o mais convicto muçulmano que conheço.
Obrigado por sua honestidade.
E, Ibn, obrigado também.
Jamal fez uma pausa, deixando que um silêncio pesado se abatesse sobre eles, depois retomou a palavra.
– Em meio a essa triste situação, recebi uma notícia que muito me alegrou e agora me aflige.
Minha esposa Layla está grávida.
Confesso a vocês, sem vergonha nenhuma, que não suportaria que o mesmo acontecesse com ela.
Sei que não é usual acompanharem a gestação de uma mulher.
Como disseram, a natureza faz seu trabalho.
Mas eu ordeno, eu peço, eu imploro, se for preciso, que assistam Layla.
Quero que a examinem todos os dias.
Só assim terei a paz necessária para administrar o Califado.
Os médicos surpreenderam-se com a declaração de Jamal.
Sabiam que ele era um homem sensível e humilde, mas, ao assumir suas fragilidades, ele os surpreendeu.
Benjamim foi o primeiro a se recuperar.
– Considero uma honra atender a seu pedido e servir à senhora Layla.
Permita-me dizer que sua esposa é uma jóia rara.
– Creia-me, eu sei o quanto ela vale.
Cuide dela e será regiamente recompensado.
– Virei vê-la todos os dias.
– Quanto a Zahara… rezaremos por ela.
Falam o que puderem para que seu sofrimento seja o menor possível – ordenou Jamal, desgastado pelas emoções produzidas no encontro.
– Treinamos duas criadas que estão aptas a atendê-la.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 23, 2018 8:51 pm

Assim a visitaremos uma vez ao dia, e havendo alguma mudança, viremos extraordinariamente – propôs Ibn, observando a exaustão de Jamal com piedade.
“Pobre homem, tem tudo que o poder humano pode alcançar, mesmo assim sofre, pois há muito mais na vida que aquilo que é comum à maioria de nós ambicionar.
E, para esses bens dados por uma natureza saudável, nem mesmo o mais poderoso homem de Córdoba pode dar ordens.
Já não bastava a irmã, agora também uma de suas esposas.
Não é sem razão que ele teme por Layla.”
***
Pairando pouco acima de seu corpo, a alma de Zahara observava e sentia o que se passava a seu redor.
Guardava uma sensação de despertar, de tonteira, semiconsciência.
Após a mais severa convulsão, minutos depois da chegada de Layla, sofrera uma parada cardíaca momentânea, porém longa o bastante para deixar-lhe as sequelas que vivia.
Seu sistema neurológico for afectado, e seu corpo mantinha uma vida vegetativa.
Transformara-se em uma âncora para sua alma, que permanecia paralisada, presa a um corpo inerte, que não lhe ofertava nenhuma condição de expressão.
A ideia da própria situação era que vivia uma noite muito longa e cheia de pesadelos.
Apesar da sensação de embotamento e semiconsciência, vira com horror o procedimento dos médicos.
A bacia cheia de pedaços do bebé a perturbava.
Tinha ânsia de gritar, mas a voz não saía; queria mexer-se, fugir, correr para longe, mas seu corpo estava enrijecido, pesado; nenhum músculo obedecia à sua vontade.
Depois, num efeito reflexo das drogas que Benjamim conseguira fazer passar por sua garganta, o torpor se aprofundara e, por horas, mergulhara na inconsciência.
Depois, vieram a febre e a infecção do organismo, e sentira-se queimar.
A boca, seca, a mente tumultuada, tristeza e desespero, brigavam, mano a mano, pelos pequenos espaços de consciências espiritual que o estado lhe permitia.
Chamava por Ibn, por Jamal, mas eles não lhe respondiam. Em alguns momentos, podia escutá-los, entendia o que conversavam.
Alguém estava muito mal, à beira da morte, num estado de agonia, mas não atinava de quem falavam.
Quando via Kamilah, o mal-estar se aprofundava.
A visita dela lhe era penosa.
Os sentimentos que a primeira esposa de Jamal abrigava naqueles dias e o falatório que promovia envolvendo a enferma repercutiam mal na alma de Zahara, presa ao corpo inerte em estado de perturbação.
Diferentemente, quando Layla vinha vê-la, em geral por breves instantes, apenas o suficiente para verificar se ela estava sendo bem assistida pelas criadas e para fazer uma prece a seu lado, ela sentia como que um sopro suave, refrescante, um bálsamo.
Acalmava-se; parecia divisar bonitas luzes no ambiente; percebia o pensamento de sua visitante como se lhe ouvisse as palavras.
Não sabia explicar aquele misterioso estado.
Não tinha nenhuma vontade de falar com Layla, tampouco nutria maus sentimentos; ao contrário, apreciava sua chegada, quando a percebia, pois era sinónimo de paz, suavidade, calma.
Sentia-se adormecer tranquila, num sono sem pesadelos, sem lembranças, sem agonia.
Apenas dormia profundamente.
Talvez gratidão fosse o sentimento que despontava em sua alma.
A visita de Jamal nos primeiros dias a atormentava, angustiava.
No entanto, com o passar do tempo ele já não a visitava com tanta frequência, o que contribuiu para que as lembranças fossem se distanciando e, cada vez mais, ele mergulhava num estado de inconsciência.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 23, 2018 8:51 pm

Os intervalos em que percebia alguma coisa à sua volta foram se tornando mais espaçados, conforme seu corpo perdia gradualmente as forças vitais.
Uma violenta discussão entre Jamal e Kamilah, em razão da boataria descabida e das acusações sem propósito feitas a Layla, repercutiu de maneira positiva sobre o estado da enferma, na medida em que impôs silêncio, fazendo com que todos evitassem até mesmo pensar no ocorrido com Zahara.
Por determinação do marido, Kamilah, foi afastada não apenas dos aposentos da enferma e do palácio do Califado.
Enviou-a para um mosteiro muçulmano, de orientação sufi, que aceitava mulheres para guarda do túmulo de santos e meditação, no Marrocos.
Ela partira tomada de fúria, mergulhada no mais verde ciúme e baixa estima, ruminando pensamentos vingativos.
Layla continuava ocupando todo o pequeno mundo íntimo em que se encarcerara.
A esperança de Jamal era de que, passando anos recolhida em meditação, e em um meio religioso, ela pudesse crescer, amadurecer, libertar-se.
Não a queria mais como esposa, mas era a mãe de dois de seus filhos.
Tinha obrigações com ela e pretendia visitá-la e dar-lhe no mosteiro as melhores condições de vida.
Da janela de seu quarto, Amirah viu a partida da cunhada, tendo a seu lado Ximena.
– Será que meu irmão está certo em agir assim, Ximena?
– Não sei.
– Tenho orado tanto por ele…
– Eu também.
O Califa está mudado.
– Você acha?
Por que? Eu o noto mais agitado, mas…
tudo que aconteceu… depois a situação familiar…
– Não é só isso.
Quer dizer – apressou-se em corrigir Ximena –, é lógico que foram factos sérios, relevantes.
O que quero dizer é que o Califa parece ter mudado por dentro.
Mas não sei explicar.
Amirah voltou o olhar especulativo para o rosto da criada e amiga.
Ximena tinha o rosto sério; fitava o horizonte distante, não via a saída de Kamilah; seus olhos castanhos mal escondiam um ar de solidão, de tristeza.
– Sempre mudamos ao convivermos com outras pessoas.
É provável que seja a companhia de Layla a causa da transformação.
– Córdoba e Al-Andaluz passaram a ser dirigidas da ala residencial de sua nova cunhada.
Jamal está sempre lá – comentou Ximena tão envolvida em seus pensamentos que não percebeu, ao expressá-los em voz alta, um tom que demonstrava a dor provocada pela admissão do facto.
Com o propósito de não constrangê-la, Amirah calou-se.
Ficou reflectindo sobre os sentimentos humanos; na ilusão que via nos homens de seu povo de que leis humanas ou religiosas regulariam sentimentos.
Admitia que elas forçavam atitudes de aparência, nada mais.
As mulheres viviam encobertas por véus, num recado nítido de que deviam tornar-se invisíveis.
Como nem sempre isso era possível, elas, ao menos, não deveriam ser identificadas.
A submissão juntamente com a virgindade eram os maiores dotes de uma jovem, pré-requisitos para que se tornasse esposa e mãe, destino de sua existência.
Ela, por questões de saúde – ou deveria dizer de doença –, tinha um destino um pouco diverso, mas ainda mais invisível e confinado que as demais.
Entretanto, justo esse facto a fizera exercer maior influência sobre o irmão. Tornara-se culta, inteligente, perspicaz.
Sabia da paixão latente entre Jamal e Ximena.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 23, 2018 8:51 pm

Sabia, também, que era um sentimento insatisfeito.
Milhares de vezes perguntara-se por que a jovem não aceitava ser concubina do irmão e concluíra que as mulheres cristãs não sabiam explorar a feminilidade e o poder que elas carregam consigo.
Layla dava mostras de saber usar e manusear muito bem o poder feminino.
Acomodava-se à situação que vivia e, com paciência, a transformava.
Cativava Jamal, como nenhuma de suas esposas havia conseguido, e apagava a chama da paixão que ele nutrira por Ximena, fazendo de seu casamento não um contrato entre famílias, mas uma união entre pessoas livres, sem cobranças ou expectativas, recheada de afecto, verdade e confiança.
Extinguia, dia após dia, a solidão interior do homem mais poderosa daquela época.
Colocava-se lado a lado com ele, não um passo atrás.
E o véu, nela, encobria apenas os cabelos, nada mais.
Em poucos meses de casamento, todos sabiam quem era a esposa do Califa e que mulher vivia no belo palácio.
Os sentimentos são contagiosos ou transferíveis entre as pessoas; os de Jamal por sua nova esposa logo se transferiram a todos que o serviam e aos nobres e intelectuais que primavam da intimidade do casal, bem como ao povo nas ruas.
Em sua nova vida, a filha de Nasser Al Gassim era tudo, menos envolta pelo manto da invisibilidade que cobria as mulheres de seu povo.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 23, 2018 8:52 pm

VIDA E MORTE
Kiéram não suportara presenciar a vida de Layla como soberana de Al-Andaluz.
Logo após o enlace, partiu para a Itália, servindo a um nobre muçulmano que lutava para manter o domínio da Sicília.
Saíra de Córdoba durante as horas mortas da madrugada, cheias de silêncio e solidão.
No alto do céu brilhava a lua no quadrante do quarto crescente.
– Lembrança de querer o impossível – murmurou ele, fitando alua, esplendorosa, dominadora, no alto do firmamento.
– Espero que ela seja feliz no caminho que escolheu.
Vou esquecê-la.
Poucas pessoas souberam de sua mudança.
A mãe e a irmã o acompanharam.
Confiou suas propriedades à administração e responsabilidade de um amigo.
O necessário foi rapidamente arrumado.
Sem questionamentos ele deixou a cidade, seguido por seu exército.
Layla empregava a si mesma, a feroz disciplina dos arqueiros – sangue-frio, concentração absoluta nos objectivos, ignorar o ambiente à sua volta que deve resumir-se a si e suas metas imediatas.
E seu objectivo era sobreviver um dia após o outro, sem mágoas ou rancores a lhe atormentarem o íntimo.
Esquecer as experiências doridas, o significado das cicatrizes em sua pele.
Em um daqueles dias, Adara comentara que, enfim, as manchas roxas e multicolores dos hematomas sumiam, e ela voltava a ostentar a cútis morena e rosada.
Ao ouvi-la, havia observado a pele de seus braços.
Erguendo a manga da túnica de seda branca que vestia, de facto, não viu as manchas, porém as finas linhas esbranquiçadas das cicatrizes estavam lá.
Correu o dedo indicador da mão direita sobre um braço; sua expressão tornou-se sombria.
– Layla, quem não tem cicatrizes não viveu – confortou-a Adara.
Cada uma das marcas que trazemos no corpo conta partes da nossa história, dão testemunho das lutas e dificuldades que vencemos.
Se não as tivéssemos para exibir, significaria que estaríamos mortos, derrotas.
Dizem os sábios que nossas partes físicas mais fortes são as cicatrizes; eu penso que de nossas almas também.
– Deve ser – concordou Layla.
Mas não concordo com essa relação de morte e derrota que você fez.
– Eu quis dizer que as cicatrizes provam que enfrentamos desafios, e o fato de exibi-las significa que não morremos, que a vida continua.
Somos vencedores.
– Entendi sua ideia, mas continuo não aceitando essa ligação morte e derrota.
Penso que a morte é um fenómeno natural, uma lei.
Igual ao nascer e o pôr do sol, são faces de um mesmo dias.
A vida e a morte são partes da natureza, de um movimento ou uma dança da existência.
Não há vitória ou derrota nesse facto; há um ciclo.
Morrem vencedores e vencidos.
É preciso aceitar.
Aliás, tenho aprendido a fazer o exercício da aceitação.
A natureza, o destino ou Deus – como quiser chamar – a cada dia nos oferece um facto novo, uma experiência nova para nos exercitar na arte de receber, de bem aceitar aquilo que nos é ofertado.
Eu lembro que quando criança tinha grande dificuldade em receber um presente do qual eu não gostasse.
Meu Deus, perdi a conta das malcriações que fiz por não querer algo que me haviam dado.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 23, 2018 8:52 pm

Hoje, eu vejo, nos factos cotidiano, a oferta do presente – a experiência da hora que vivemos – e a oportunidade de exercitar a aceitação, de bem receber esse “presente” que pode não ser do meu agrado.
Creio até que, em última instância, isso signifique submissão a Deus, a essência da fé que professamos.
Adara sorriu, lembrando a infância e a adolescência da rebelde menina criada em Cádiz.
Seu pensamento voou no tempo, e a boas lembranças fizeram brilhar seus olhos para depois marejá-los de salgadas lágrimas.
Apressada, passou a mão no rosto.
Secando o pranto, respirou fundo e voltou a sorrir.
– A vida opera milagres, verdadeiras transformações.
É como a flor que vira fruto, amadurece, alimenta, depois deita ao solo as sementes da árvore que produziu.
Um milagre da inteligência divina.
Quem diria que eu ouviria a rebelde Layla falar de aceitação e submissão?
Devia haver quem pensasse que isso era impossível.
– Não vejo motivo. Sempre pensei em mim como uma muçulmana consciente de sua fé.
Sou submissa à vontade de Deus, e somente a Ele.
Não mudei. O que nunca tolerei foi subserviência, foi rebaixar-se à condição de uma besta sem vontade, sempre pronta a atender seu amo, e não mudei.
Aceitação é algo bem diferente, mais profundo.
Você falou em árvore, pois bem, eu compararia a aceitação com as raízes.
É o que nos dá sustentação, equilíbrio.
Aceitar não é o mesmo que concordar com tudo, obedecer a qualquer um, acomodação ou inércia.
Entendo que aceitação é a recepção íntima, a acolhida interna que dou ao presente, sem me revoltar, sem ignorar, sem ser omissa.
É em tudo sorrir para Deus pensando que há o propósito de fazer-me melhor e caminhar, agir, trabalhar para mudar o que não gosto ou não me faz feliz.
Assim tenho pensado, Adara.
Eu me sinto profundamente submissa à vontade Deus, por isso aceito tudo que a vida oferta a todos nós, de modo geral – como o nascer e o morrer na vida corpórea –, e aquilo que ela me oferece em particular.
Esse presente eu acolho, analiso e, conforme minha decisão, modifico-o ou não.
Algumas atitudes, talvez, pareçam de revolta, mas não são.
Já senti o poder do ódio, o quanto a vingança cega, e sei a quem ela faz sofrer de verdade.
– Hum, também já aprendi.
A dor maior é abrigar esses sentimentos.
Queimam como um fogo que não se extingue, incansável.
Esgotam, fazem-nos adoecer.
Layla sorriu interessada, e fitou Adara, notando que ela parecia enxergar o passado como uma pintura à sua frente.
– É, exactamente, desse modo.
Desde que compreendi isso, fiz um propósito pessoal de em nenhum dia mais da minha vida, não importa a circunstância, deixar-me levar por esses sentimentos.
– Parabéns! Você cresceu muitos anos em poucos dias.
Como ensinava o profeta Yeshua, não devemos nos maravilhar pela maneira como foram condenados os condenados, mas antes como foram salvos os salvos!
Não sei o que você viveu, minha filha e, conhecendo-a, sei que nunca saberei, mas fico maravilhada com a mulher que tenho a meu lado.
Já lhe disse isso antes, mas não custa repetir o que é bom, afinal as más palavras enchem tanto as bocas e os ouvidos.
Por falar em más palavras, não sabe de Kamilah?
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 23, 2018 8:52 pm

Pobre mulher, ignorava que sempre temos opções e com elas construímos nossos caminhos.
Como se diz, ela perdeu o rumo.
– Ela não soube aceitar o presente da hora: eu – comentou Layla, rindo.
É uma infeliz lidando a braços com a revolta e a pior rebeldia, aquela nascida do ódio, da raiva.
Eu admito, sou rebelde, mas sei que em mim esse comportamento tem nascente na indignação, uma prima-irmã melhorzinha da raiva.
Não me rebelo contra uma pessoa ou situação particular, e, sim, com leis e imposições que percebo são mais humanas, excessivamente humanas, para seres atribuídas a Deus. Não
consigo imaginar o Misericordioso como uma criança a brincar com marionetes, preocupando-se em resguardar interesses pessoais e fazendo distinção tamanha entre os seres de sua criação.
Onde a mão do homem não escreve leis, as coisas não se passam como em nosso meio.
´E visível o equilíbrio, a igualdade, a liberdade.
Machos e fêmeas têm destinações diferentes no mundo animal, mas nem por isso elas são invisíveis, segregadas, menos importantes.
Elas são autónomas, livres, lutas nas mesmas condições pela subsistência, pelo abrigo, por seu espaço.
– No mosteiro sufi, espero que ela tenha bastante tempo para instruir-se.
Quem sabe não venha a entender uma outra lição de Yeshua, aquela que fala dos três dias, lembra?
– “A vida terrestre consiste em três dias:
um ontem sobre o qual não tendes controle, um amanhã que não sabeis se atingireis e um hoje a que deveis dar bom uso” – recitou Layla, fitando o céu azul pelas paredes vazadas da sala onde estavam.
– É meu objectivo, meu exercício.
Se Kamilah o entender, talvez volte para cá, não sei.
Jamal irritou-se muito com as atitudes dela.
Foram tão impróprias, mas tão humanas, cheias de medo em todos os matizes:
ciúme, insegurança, inveja.
Humanos, muito humanos.
Mas é preciso compreender para mudar.
O facto de serem humanos não significa que sejam bons ou saudáveis.
Nossa ignorância também dá frutos de intolerância.
É preciso ser paciente para viver por aqui, não acha?
Adara concordou.
“Precisamos de paciência não só para viver no Califado de Córdoba, mas na Terra”, pensou ela.
A luta para vencer a ignorância a respeito das reacções elementares dos sentimentos, tais como o medo e a raiva, exige que exercitemos a paciência.
A marcha é lenta e crescente.
O desconhecimento e a consequente falta de domínio sobre as forças emocionais básicas conduzem a comportamentos intolerantes ou doentios.
É tão humano ser medroso ou raivoso, como o é ser corajoso e desapegado; a diferença é a escala de crescimento percorrida.
Em qualquer dos extremos estamos falando de experiências no desenvolvimento do ser, que, por certo, precisam ser vividas desde sua fase mais grosseira até a mais subtil, conforme a invariável lei de evolução.
Fundamental é conhecer ou, ao menos, ter uma rápida ideia de como atuam essas forças na economia de nossos seres.
Diria que são tão vitais noções a respeito de sentimentos e sua intricada acção, como o é saber o mínimo da anatomia de nossos corpos.
Desvendar nossa dinâmica emocional está para o autoconhecimento como o conhecimento do próprio corpo está para a formação da auto-imagem e do saudável desenvolvimento psicológico.
É, simplesmente, fundamental.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 23, 2018 8:52 pm

É um caminho, o mais comum, acessível a qualquer pessoa, para desvendar a realidade de que é um espírito imortal e que as forças que estuda não são geradas pela química do corpo, são anteriores.
As reacções químicas, fisiológicas do organismo material são consequência do sentir, são reflexos dessas forças que brotam dos recônditos da alma de cada um, e são tão únicos quanto a impressão digital, embora tenham traçados, contornos, mais ou menos, semelhantes.
***
Em Cádiz, as coisas estavam bastante diferentes.
A cidade era um corpo ferido, dilacerado, cheio de cicatrizes, a lembrar, a todo instante, aos seus moradores os horrores que sobre ela haviam se abatido.
Karim trabalhava incansavelmente.
Era o último a deitar e o primeiro a estar de pé, dia após dia, na tarefa da reconstrução.
O jovem calmo, até tímido, desabrochava como líder nato.
As dores vividas e admitidas integralmente em suas lições boas e ruins a seu próprio respeito o amadureceram.
Deram-lhe entendimento.
Enxergava com clareza cristalina as pessoas, sem máscaras, ilusões ou fantasias.
Admitia-se como um ser falho, dorido; entendera que a culpa nada resolvia, o melhor era agir como Nasrudim e adaptar-se à realidade, extraindo ensinamentos, aproveitando as oportunidades.
Entendeu que ninguém é somente falho ou portador de problemas; é também capaz, inteligente, amoroso, gentil, mas que precisa acreditar no que tem de bom em si para fazer esse aspecto florescer, vir à luz e brilhar.
Passara, de início, vários dias valorizando as dificuldades, as ausências, carências, o que não tinha, o que não compreendia.
Certo dia deu-se conta de que, agindo assim, afundava-se numa tristeza enorme, não tinha disposição, vontade, nem mesmo apetite.
Foi então que, pela primeira vez, viu, com nitidez, e acordado, a dona da voz suave que lhe falava à consciência.
Pensara que era um anjo, mas ela não possuía asas; era uma jovem e bonita mulher, de uma natureza subtil.
Viu-a com perfeição, em detalhes, mas era como se fosse feita da matéria das nuvens.
Safia o fitava ternamente, mas havia um quê de severidade em seu olhar, e o pensamento de emanação calma também não escondia a firmeza, ao lhe dizer:
– Karim, abra os olhos e veja. Olhe à sua volta. Pense.
Nada resolve ficar remoendo o que passou.
Tire lições.
Olhe e veja o presente e o futuro que se descortina à sua frente.
Não tenha dúvidas, eles são maiores do que o que você já viveu, e sempre serão.
Assim é a vida e a sabedoria do Misericordioso.
Você teima em deter seu pensamento nas faltas e perdas, quando deveria contabilizar o que tem e planejar o que fazer para crescer.
Acredite, é sempre possível.
Precisamos olhar as sombras, as perdas, admitir as derrotas, mas precisamos igualmente, e com mais confiança, contemplar a luz que há em nós, as imensas potencialidades que carregamos e a renovadas oportunidades que a vida nos dá.
Tudo e todos são passíveis de transformação.
Somente aqueles que ficam olhando para trás, contemplando o passado, endurecem, tornando-se amargos.
Estátuas de sal.
Yeshua, o sábio profeta, nos ensinou:
“Brilhe a vossa luz”.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 23, 2018 8:52 pm

Há luz em todos nós, mas, como o mesmo sábio dizia, precisamos ter olhos de ver e ouvidos de ouvir, ou seja, ser aquele que medita as lições e extrai delas a compreensão.
Não me escute, pois isso seria falar apenas ao seu intelecto, ouça-me, pense, sinta minhas palavras e as compreenda.
Quando meu pensamento calar, deixe que minhas ideias lancem sementes em você, pense.
Olhos de ver é também a capacidade de abrir-se ao mundo, Karim.
O sentido de ver não pertence aos olhos, creia-me.
Ver além de si mesmo; você há dias está enxergando para dentro e para o lado escuro.
Basta, se persistir, não verá mais nada, está treinando mal sua percepção.
Não a confunda com o sentido físico. Os olhos se movem em todas as direcções, menos para trás, meu querido.
Significa dizer que você pode olhar para dentro, para fora, para os lados, vendo, a si, aos outros e a todas as coisas que o Altíssimo colocou ao alcance de suas criaturas, com excepção do que já se foi.
Você se tornará um cego do mundo e da vida se fechar-se nessa visão.
Insisto, abra os olhos e veja; ouça com ouvidos de ouvir e entenderá que a luz que carrega somente você poderá colocar em lugar útil para iluminar sua jornada e a daqueles que dela possam se servir.
Trabalhe, não tema, confie em Deus e avance.
Um dia depois do outro, no ritmo cadenciado da roda do progresso que faz girar nossas existências, aprenderá que temos muito mais a agradecer do que a pedir ao Senhor da Vida e, principalmente, temos mais presenças do que ausências, ganhos do que perdas, fartura e abundância do que misérias; muito mais amor a descobrir do que ódios a remoer.
Dependo do modo como vemos e ouvimos a vida e a Deus.
Pense, depois vá e trabalhe.
A insegurança e o medo são transitórios; a coragem e o valor moral são permanentes.
As faculdades sensitivas, antes se manifestando como intuição, caminhavam em sua escalada ascensional.
Os rudimentos das faculdades anímicas surgem como vagas sensações, percepções, intuições que evoluem, bastando que seu portador seja atento a elas para verificar seu desenvolvimento.
O fenómeno não nasce pronto; ele segue as leis naturais e, como tudo, tem infinitas gradações, mas nasce sempre rudimentar para ampliar-se até se mostrar pleno.
Para tanto se faz necessário também o desenvolvimento físico, intelectual, cultural e emocional do médium; desenvolve-se a faculdade de acordo com o progresso do ser humano.
Era o que dava com Karim.
O somatório das experiências apresentava um saldo positivo em seu crescimento e reflectia-se, natural e obviamente, em sua percepção da realidade extrafísica.
Era agora alguém amadurecido, tornado mais sensível.
No momento em que a visão de Safia se deu, ele não teve medo. Agir com naturalidade, ouvia-a calado, atento.
Contemplou-a encantado, envolto nas boas vibrações dela que o acalmavam e o enchiam de confiança.
Foi quando, num piscar de olhos, ela desapareceu que ele se deu conta de que a porta estava fechada, que eram altas horas da noite e que nunca vira aquela mulher antes, embora ela lhe falasse com intimidade e soubesse seu nome.
Porém, sentia-se tocado, sem saber explicar como ou por quê.
Não se importava.
“Ela o advertira com uma ousadia singular nas mulheres”, pensou ele, para logo se lembrar que ela era um anjo, segundo suas crenças.
Portanto, um ser fora das condições da humanidade comum.
Karim reflectiu durante aquela madrugada; adormeceu exausto e acordou renovado.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 23, 2018 8:53 pm

Fizera – sob o amparo de Safia que não mais registrara – um inventário de suas perdas e ganhos em todos os aspectos de sua vida.
Durante o sono físico
o contacto se estendera de forma mais consciente, embora, ao acordar, ele não registrasse nenhuma lembrança.
Facto é que, após aquela noite, o novo emir de Cádiz assumira seus deveres e despertara para os compromissos assumidos antes de reencarnar-se como Karim, filho de Nasser Al Gassim.
Meses de intenso trabalho sucederam ao evento.
Neles, com frequência, diante de inúmeras situações, tinha a sensação nítida de tê-las vivido antes.
Em várias delas antecipou ocorrências e, em outras, conseguia com um simples golpe de vista perceber o que se passava, decidindo com segurança e autonomia.
Desenvolvia o que se chama de golpe de vista moral – a capacidade de compreensão rápida e boa avaliação dos factos, possibilitando visualizar as realizações presentes, passadas e futuras.
Desenvolveu confiança.
Os medos transformavam-se em prudência comedida, numa saudável mudança com crescimento.
O medo se traveste em conservadorismo, apego ao conhecido em busca de segurança que esconde o pavor do “novo”, do desafio, sendo também uma manifestação do medo patológico.
Conduz a comportamentos rígidos ao estilo dos xenofóbicos, homofóbicos, e outros que não toleram a compreensão do diferente que denominam, inapropriadamente, de “novo”, agarrando-se a comportamentos e conceitos ultrapassados, mas que eles dominam.
Passados cinco meses, Cádiz e seu povo, sob o comando do jovem emir, davam sinais de restabelecimento próximo.
Foi, então, que a lembrança de Amirah começou a insinuar-se devagar em sua mente, reivindicando espaço em seus sonhos, surgindo quando as ocupações do trabalho davam trégua e até se imiscuindo nelas, exigindo esforço de concentração.
Fizera da reflexão, proposta pelo “anjo mulher”, uma prática diária.
Olhou para dentro de si e entendeu o recado que vinha de partes profundas do eu – o afecto e a atracção que sentira pela irmã do cunhado não se apagaram; queria-a junto de si.
O período de luto por Munir ainda não se escoara; a viúva não podia ser pretendida por outro homem.
Mas ele vivera, à excepção dos últimos meses, toda sua vida ao lado de Layla.
Desse passado extraíra a lição de que as leis precisam ser desafiadas em nome do progresso.
A perpetuação de usos e costumes é estagnante.
Sentia saudade da irmã, não podia haver melhor desculpa para visitar Córdoba.
Alheia ao que ocorria em Cádiz, de onde lhe chegavam poucas notícias, Amirah prosseguia, resignada sua existência de reclusão.
Layla tornara-se uma visita frequente; apreciavam-se com sinceridade.
Juntas as horas transcorriam serenas, em alegres e proveitosas conversas acerca de interesses comuns.
Ensinara a cunhada a observar a vida atrás da cortina.
A princípio divertida, Layla ria das análises da cunha, no entanto, conforme percebeu a veracidade das afirmações e comentários, tornou-se circunspecta.
– É como a vida mulheres – murmurou Layla em dado instante, muito séria.
– O que é como a vida das mulheres? – inquiriu Amirah, curiosa com a comparação.
– A sua vida.
– É lógico, eu nasci mulher.
– Não. Não é lógico.
Ninguém nasce homem ou mulher; nós nos tornamos um ou outro.
Ser mulher é mais do que nascer do sexo feminino, isso é apenas uma parte, entende? – sentenciou Layla, concentrada.
Você tem a vida das mulheres.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 23, 2018 8:53 pm

Pense comigo. Sabem que você existe, mas não a vêem.
Você sente, pensa, aprende observa, entende, fala, mas sua voz não é ouvida; é como se não tivesse som ou fosse muito baixinha, sem amplitude.
Você se movimenta, mas seu espaço
é limitado, tudo à sua volta é cheio de limites.
Você é invisível, vê a vida por detrás da cortina.
As mulheres muçulmanas, judias ou cristãs vivem sob um manto de invisibilidade.
O véu que usam é um símbolo.
Nas diversas crenças, mulheres são obrigadas a esconder a cabeça, a zona do pensamento, das ideias, da razão é que querem ver encoberta nas mulheres; negar-nos a capacidade de influir no meio social, de ampliar nossa inteligência e demonstrar todas as capacidades que também possuímos, que não somos seres incompletos ou homem defeituosos.
Essas leis são bizarras!
– Layla! Cuidado, você está se referindo ao Alcorão, à Torá e à Bíblia.
Estarão todas erradas?
Não há exagero em sua forma de ver?
Através da cortina, Layla contemplou a movimentação da rua.
Homens passavam apressados; os muçulmanos com seus turbantes; os judeus com os chapéus ou o solidéu; e os sacerdotes cristãos igualmente com o solidéu; todos com as cabeças erguidas e falando alto.
As poucas mulheres que circulavam tinham as cabeças cobertas por véus ou lenços; andavam silenciosas ou cabisbaixas.
Profundo pesar estampou-se em seus olhos negros.
– Que bom seria se eu fosse exagerada, Amirah!
Bom seria! Mas não sou.
É olhar e ver, só não enxerga quem não quer.
E esse, em meu modo de entender, é o caso.
Muita gente não quer ver, inclusive uma boa fracção das mulheres.
Temos muitas virtudes, reconheço. Mas carregamos pesados defeitos.
Todos com a mesma característica paralisante. Por isso, tal situação é secular, milenar, sei lá, se perde no tempo, feito poeira.
– Como assim? Não estou acompanhando seu raciocínio.
Ximena, que ouvia a conversa, entendera o pensamento de Layla.
Apesar do ciúme que roía suas entranhas, aprendera a admirar a inteligência e a coragem da esposa do Califa.
Ainda não conseguia bendizê-la por tornar feliz o homem que amava, mas começava a apreciar seus pontos de vista.
Layla falava do medo; compreendeu de imediato que, várias vezes, notara que o medo era muito valorizado pelas mulheres, chegando mesmo a condenarem atitudes corajosas em outra mulher, acusando-a de não ter conduta feminina.
Diziam: “Essa é macho”.
Aborrecia-se com esses comentários.
Outro defeito a ser corrigido era a preguiça que levava ao comodismo.
Reunidas, as mulheres enchiam horas e dias queixando-se de seus maridos, filhos, da monotonia da rotina, mas nada faziam para mudar isso, nem ao menos falar a quem de direito merecia ouvir as reclamações.
Diante destes, calavam-se, acomodavam-se, acovardavam-se e repetiam os ciclos.
Algumas estavam tão insatisfeitas que teciam comentários pouco elogiosos ao próprio corpo feminino, ressaltando nele apenas as dores, escondendo e negando os prazeres que a mesma natureza oferece.
Em si mesma, nos diversos momentos já vividos, Ximena surpreendera esses comportamentos.
Não foi surpresa ouvir Layla explicar-se.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 23, 2018 8:53 pm

– Infelizmente, Amirah, não vejo exagero no que digo.
Lamento que as interpretações dos textos livros sagrados das religiões, inclusiva da muçulmana, incentivem esse aspecto da alma feminina, seu lado menos nobre.
Bem, mas dito assim, tenho de acrescentar que elas enfatizam todos os aspectos sombrios do feminino.
É inegável que têm dele uma visão distorcida, que acarreta muito sofrimento e atraso para a sociedade.
Tudo poderia ser bem melhor se ampliassem a compreensão sobre a natureza feminina.
Além do mais, nosso pensamento tem de investigar além dos livros escritos por mãos humanas, ainda que ditados por seres invisíveis superiores, pelo próprio Deus, se assim quiser.
Considere que é, no mínimo, um trabalho em dupla, com parceria, nada nem ninguém consegue se anular completamente, portanto exerce influência.
Somente naquilo que a mão humana não toca a vontade de Deus é pura e cristalina.
Layla fez uma pausa, respirou lançou um breve olhar às ruas e voltou a encarara a cunhada, ao dizer:
– A preguiça e o medo fazem a pessoa ficar parada, sem sair do lugar, da situação; elas paralisam.
Naturalmente, qualquer um dos dois ou ambos geram o conformismo.
Aquele modo de pensar que se repete mil e uma vezes, para fazer doer os meus ouvidos:
o famoso “deixar as coisas como estão, porque as mudanças são desconhecidas e podem ser piores”.
Um horror!
Suportam as barbáries, absurdos, leis cruéis, falta de direitos, afronta à dignidade, todo tipo de violência que se imagina e outras ainda por criar. Dizem que são tolerantes.
Não creio.
São medrosas, isso sim.
Se fossem tolerantes, não veriam a raiva agindo em seus organismos, brilhando, surda e muda, em seus olhos.
Não ouviríamos palavras rancorosas e lamúrias de eternas vítimas.
Tolerância não é isso, não pode ser.
A preguiça e o medo, com seus derivados, as acabrunham levando a esquecer a capacidade de mudança que todo ser humano tem, traz consigo, acredito eu, desde o berço ou até de antes, é da alma.
Mas são educadas desde o berço para pensar e agir dessa maneira, por isso sofrem tanto.
Ensinam as meninas a sempre olharem e valorizarem o que gerará sofrimento; o medo, a preguiça, o conformismo, a vaidade, o apego ao corpo e seu uso como instrumento de poder.
É, no mínimo, falta de inteligência; o corpo decai, é inevitável.
Apoiar esse pensamento é condenar ao sofrimento da busca do impossível.
Uma tortura.
O espanto tomou conta da expressão do delicado rosto de Amirah.
Estava assombrada.
Convivia com poucas mulheres, um mundo reduzido a Ximena, algumas criadas, as mulheres que passavam na rua, todas eram de posição social inferior, não falavam abertamente de seus problemas familiares.
Em raras ocasiões tratara das intimidades de seus auxiliares.
Sob o impacto da declaração da cunhada, rememorou esses breves encontros.
O espanto aprofundou-se ao constatar que, nessas poucas ocasiões, o tema fora exactamente esse.
Variavam as circunstâncias e sintomas, mas, analisando, friamente, com objectividade e razão, detectava a presença do medo e da preguiça, pai e mãe do comodismo e do conformismo.
– Por Alá! Você tem razão – declarou Amirah.
É trágico.
– A tragédia é parte da existência e, como qualquer outra situação, precisa ser vivida, aceita e enfrentada, não lamentada.
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