O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 24, 2018 8:32 pm

Lamentos são murmúrios da tristeza.
Ainda não vi a tristeza operar nenhuma grande transformação.
É, apenas, um sentimento adaptativo.
Nas horas de dor e dificuldade ela surge, nos torna pacatos, reflexivos e temos que ficar alertas para que não se torne doentia.
Vi muitos animais morrerem de tristeza, definham, arrastam-se; pode acontecer connosco.
Vou observar, mas talvez a tristeza ataque mais mulheres do que os homens.
– Pela característica de fazer parar?
Acha que também ela conduz ao conformismo.
– Foi uma ideia que me ocorreu agora.
Vamos pensar, observar juntas, está bem?
Layla ergueu as mãos, correndo os dedos por entre os fios de cabelo; enrolou-os, fazendo um nó frouxo à altura da nuca, com as mechas.
– Esse assunto parece infinito.
Já lhe ocorreu que nós, mulheres, somos educadas desde cedo para sermos boas esposas e boas mães?
Pergunto: por que não educamos os meninos para serem bons maridos e pais?
Salvo questões sexuais, será que os homens se preocupam em saber o que fazer, como agir, para fazer feliz sua companheira?
Desculpe, me corrijo, nem nestas; a preocupação é com a própria satisfação.
Amirah riu. Gargalhou como se a cunhada estivesse contando uma história hilária.
Em meio ao riso, disse:
– Você tem cada ideia.
Por que faríamos isso?
Nome lembro de ouvir falar que Jamal ouvisse sermões de como tratar uma mulher.
Você lembra se seu irmão tinha tal ensinamento?
– Não. Mas por compromisso, ora.
Não é razão bastante?
Quando nos prometem em casamento, há também um homem envolvido.
Acho justo que eles sejam educados para pensar em fazer feliz suas companheiras.
Já vi o quão desgastante se torna uma relação baseada no empenho da mulher.
O preço é alto. Alto demais.
– Não é preço de todas as uniões?
Eu acho que sim, ao menos da que vi e vejo.
Talvez agora, meu irmão, esteja agindo um pouco diferente com você.
– Eu ajo de forma diferente com ele – corrigiu Layla.
Ele me disse que as demais mulheres da vida dele eram como eco ou sombra, jamais discordavam de sua vontade, nunca exigiam nada, sempre se diziam satisfeitas com tudo, e isso o fazia sentir uma solidão enorme, imensa como o oceano.
Jamal sabe que não é meu dono e nunca será.
Não sou um tapete, um lençol, um bibelô qualquer, sou um ser humano.
Não admito que firam nem meus sentimentos nem meu corpo.
Eu apenas escondo os cabelos sob o véu, nunca minha capacidade de pensar e ser alguém.
– Quer dizer, quando você não o coloca de forma que o vento o leve – ralhou Amirah, ironizando as constantes perdas do véu da cunhada, que nunca se apercebia.
– É – concordou Layla.
Mas seu irmão não se importa.
Até hoje, não me disse uma única palavra sobre minhas dificuldades com o véu.
– Nem dirá. Ele gosta muito de você, admira-a.
Seus olhos brilham quando fala a seu respeito.
Fico muito feliz que estejam se dando bem.
A solidão que você fala eu enxergava na vida de Jamal e afligia-me.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 24, 2018 8:32 pm

Agora estou em paz.
Suas esposas eram mulheres convenientes.
Os casamentos necessários ao bem das questões políticas, e tudo feito para que se enquadrassem às situações dentro do esperado, daquilo que se devia fazer.
Questiono onde Alá guarda a felicidade; não descobri o lugar, mas já descobri onde ela não está.
– Sei. Também nunca a encontrei nas coisas convenientes, elas são mornas, insossas, enfadonhas.
Servem para que ninguém nos diga nada e para que não sejamos percebidos.
– Pois é. Kamilah foi conveniente.
Aidah também, aliás, essa é a personificação da conveniência, quase completamente imperceptível; sobre ela o véu da invisibilidade é mais espesso – comentou Amirah – Zahara também o foi, pobre mulher.
Que fim triste!
Já se passaram quase três meses que ela morreu.
Não pensava que um ser humano sobrevivesse tanto tempo naquela condição, apenas com gotas de líquidos.
– Benjamim explicou-me que poderia ter demorado ainda mais.
Foi a debilidade provocada pela infecção e a hemorragia que fizeram com que o corpo dela enfraquecesse mais rápido e morresse.
Foi melhor, se fosse comigo teria preferido dessa forma.
Faz cinco meses que estou morando em Córdoba.
Não posso reclamar que a vida aqui seja pacata – declarou Layla, séria, ao lembrar a tragédia que se abatera sobre a terceira esposa do Califa.
– Benjamim a examina todos os dias? – indagou Amirah, lançando um olhar ao ventre da cunhada.
Os quadris arredondados e uma suave protuberância da barriga denunciavam a gravidez.
Você parece feliz em mostrar os sinais da gestação.
Não a vejo com as túnicas mais amplas que as mulheres usam quando estão grávidas.
– É verdade, estou gostando de ver meu corpo transformar-se para dar espaço a outro ser.
Somos dois em um mesmo corpo.
É fascinante!
Sabia que ela – ou ele – já se mexe, e de forma livre?
É uma vontade autónoma da minha.
Ainda não se vê seu corpo, mas ela ou ele ocupa espaço em mim e eu sei que é alguém diferente, com vontade própria – esclareceu Layla sorrindo e acariciando o ventre.
Se pudesse, ficaria nua todo tempo só para ver a barriga crescer.
Adara me disse que, quando estiver maior, se poderá sentir algumas partes do corpinho do bebé.
Mal posso esperar.
Ximena sentiu o estômago revirar, a inveja da alegria de Layla ao gerar um filho de Jamal a incomodava e fazia voltar à irritação, que somente aumentou ao ter mais uma vez confirmada a certeza dos muitos cuidados com que Jamal cercava a nova esposa.
Ela era especial na vida do Califa – essa constatação a incomodava muito.
– Quanto às consultas… – tornou a falar Layla, respondendo a Amirah.
São exigências de seu irmão.
Ficou com receio, é natural.
Mas não me importo.
Benjamim tornou-se um bom amigo.
É um homem culto e muito inteligente; aprecio sua conversa.
Na verdade, as consultas são longos diálogos.
Ele confia na sabedoria divina que dotou o corpo feminino de todo necessário à cooperação na tarefa de criação de novos seres; e eu também.
Portanto, tudo vai bem.
Deus não afastou seu olhar de nós.
Eu e meu filho ou filha, não sei, estamos bem.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 24, 2018 8:32 pm

– Depois do que aconteceu com Zahara, é mesmo normal que ele tenha medo.
Ibn contou-me que foi obrigado a dar uma verdadeira aula sobre o que sabia a respeito da doença.
Tem mais um lado positivo, além de você estar cercada de cuidado, eu estou mais livre.
Não imagina como tem sido bom.
– Jamal não a está vigiando mais?
Não posso crer.
– Ele se interessa por meu bem-estar, mas não é como fazia antes. Era demais.
– Não sei como aguenta.
Lembre-se de que, quando eu der à luz, ele não terá mais que se ocupar da minha saúde e voltará a vigilância sobre você.
– Os últimos meses têm me ensinado a esperar, Layla, sem precipitar a ocorrência dos factos.
Aprendi que as coisas mudam de um instante para outro, podendo ser de forma drástica.
Layla ouviu o comentário e baixou a cabeça; não havia como não concordar com Amirah.
Ela aprendera a ler uma das leis da vida.
***
Do outro lado do estreito de Gibraltar, o xeque Omar dirigia as tribos rebeldes através do deserto.
O fracasso da missão militar transmudara em sucesso político.
Em meio à longa jornada, ecoavam seus discursos inflamados contra os infiéis que dilapidavam o eterno património da revelação do profeta Muhammad.
Escarnecia dos muçulmanos de origem sunita, especialmente do Califado de Córdoba e dos emires dos reinos a ele aliados.
Lembrava a causa maior da derrota, atribuindo toda culpa à mulher lançada como isca sobre o falecido sultão, que lhe causara não só a morte física, mas a derrocada moral.
Com esses discursos, insuflava o fanatismo naqueles que o seguiam, cujo número crescia a olhos vistos.
Aliás, encontrar um bode expiatório para nosso sentimento de culpa é uma prática milenar, ainda na actualidade do século XXI, muito procurada.
É sempre mais fácil atribuir a outrem ou a uma causa externa as razões que nos levaram a cometer um erro.
É o orgulho que, regra geral, caminha de mãos dadas com a irresponsabilidade, mostrando algumas de suas garras.
Admitir a humana capacidade de errar exige maturidade, libertação de conceitos ilusórios, das manias de perfeição, das tolas vaidades de crer-se superior ou infalível.
Sim, admitir-se plenamente humano é admitir-se capaz de errar; admitir-se responsável por suas acções é demonstração de humildade; aprender com seus erros é caminhar com segurança nas sendas da evolução.
Negar o erro ou, ao menos, a capacidade de errar é demonstração de carácter orgulhoso e irresponsável, já o dissemos.
O orgulho cega, impede a tomada de consciência de íntimas realidades e condições.
É uma catarata da consciência.
Uma vez negada a capacidade, não vê os próprios actos como equivocados, falhos, passíveis de melhora.
Ante a falência e o sentimento de derrota que a catarata da consciência não impede, ressuscita-se a prática do bode expiatório.
Sacrifica-se não mais um animal no altar das sinagogas para aplacar a ira divina que recairia sobre o culpado, mas qualquer criatura ou ideia que se possa sacrificar no altar da opinião pública, fazendo com que sobre ela recaia o preço e colocando-se na cómoda posição de vítima, pela qual foge à responsabilidade das próprias atitudes.
Omar tornou-se mestre em tal arte.
Tinha um mórbido prazer em espezinhar as mulheres, escondendo em seu íntimo a revolta pelo que sentiu ao não ver realizados, como queria, suas pretensões amorosas, experimentando-as como uma rejeição a si.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 24, 2018 8:32 pm

Antes do encontro com Layla, apaixonara-se perdidamente por uma jovem de nome Sharik, filha de um comerciante de uma tribo que vivia sob sua protecção.
Não entendeu que a jovem tinha todo direito de ter outros interesses, que ela não nascera no minuto em que seu olhar a avistou; havia uma história anterior.
A pequena Sharik era prometida desde a infância – como de hábito em muitas tribos árabes – a um primo em segundo grau.
Independentemente do arranjo matrimonial, os jovens se amavam.
Ele não soube aceitar a honesta resposta da família e da própria moça, que não era uma rejeição, era simplesmente um educado esclarecimento sobre sua vida e sentimentos.
Mas ele, orgulhoso, sentiu-se ferido, rejeitado, espezinhado.
Por ela, fez uma guerra.
Disseminou intrigas, causou mortes, sempre usando as velhas armas do fanatismo, da raiva e do rancor.
Separou e dividiu.
Depois, a violência foi o fruto natural das paixões destrutivas cujo fogo atiçara.
Tomou a jovem pela força, raptando-a.
Violentou-a e fez dela sua escrava.
Não contava com a ousadia de seu prometido em ir buscar a noiva desonrada, afrontando-o.
Recebeu de retorno toda violência que lançara e, ao ver que os jovens apaixonas fugirem em meio à batalha, não hesitou em perpassá-los com suas flechas; matou-os, sem piedade.
O crime dos jovens foi afrontar o orgulho do xeque.
Desde esse episódio, tinha ojeriza às mulheres.
Sempre que possível, unia as ideias a respeito do universo feminino ao demónio, à perdição dos homens de bem e às agruras do inferno.
Reencontramos esse personagem em outra existência terrena, séculos depois, sob a pele de um negro de Angola, escravizado e baptizado em terras brasileiras como João de Deus, que doma sua natureza orgulhosa, irada e violenta nos duros trabalhos das charqueadas do sul do Brasil, na época do Império.
Existência na qual aprendeu também a ter consciência de Deus, a importância da fé, a exercer uma liderança libertadora, a ser solidário e honrar o afecto feminino, reajustando antigas relações com o casal enamorado{17}, mostrando-nos que as cicatrizes da alma atravessam as barreiras do tempo, manifestando-se até que consigamos aprender as lições necessárias para não repetirmos o mesmo erro.
Resumindo, manifestam-se até que admitamos nossa plena condição humana e com ela assumamos as responsabilidades que a vida oferece ao nos dar liberdade de acção e escolha.
Porém, ainda como o xeque Omar, viveria dias de orgulho e poder, reinando elevando guerra e destruição a muitas pessoas que tinham o grave “defeito” de pensar de maneira diversas em matéria de religião – um óptimo pretexto para saquear suas vítimas e descarregar sobre elas as labaredas de revolta que carregava no íntimo.
Ele não retornou mais a Al-Andaluz.
Ninguém ficou sabendo que fora ele a lançar a faca certeira que cortou a vida do sultão Kaleb, quando o encontrou nocauteado pela escrava, porém vivo e acordado, tendo ainda nos olhos a expressão de espanto pelo golpe recebido seguido da veloz fuga da moça por sobre os corpos caídos dos seguranças.
Sef, o médico, tentara promover maiores investigações vencendo o próprio medo, mas fora silenciado por faca semelhante e a discussão encerrada.
Bode expiatório e queima de arquivos são práticas muito velhas, usadas em demasia.
É hora de extinguirem-se.
É agora a oportunidade de apaziguarmos nossos sentimentos, abrirmos nossa razão para a discussão de nossos comportamentos, ampliarmos nossa consciência sobre nossa condição humana e deixar que floresça a pacificação interior, brotada da compreensão e aceitação da capacidade de errar, primeira filha da humildade em nossos seres.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 24, 2018 8:32 pm

Ideias pertencem ao reino do espírito imortal, não morrem, apenas se transforma, devendo evoluir.
Assim, as pregações das ideias fanáticas, retrógradas, ultraconservadoras permaneceram entre as tribos africanas xiitas.
Não seguiram o xeque Omar à sepultura, já idoso, muitos anos depois do que estamos narrando, sem que houvesse prestado conta alguma à justiça humana pelos crimes cometidos.
Porém, ante a justiça divina nada é esquecido.
Mais do que factos materiais, o que interessa às leis divinas são as intenções, os sentimentos com que praticamos cada ato de nossas vidas, sejam eles actos materiais ou praticados apenas por força de nosso pensamento.
Se fosse diferente, não haveria razão para que os espíritos superiores nos alertassem, em O Evangelho Segundo o Espiritismo, para a responsabilidade sobre nossos pensamentos e para o facto de que adulteramos com eles e podemos ser responsabilizados por isso.
Entendo tal lição sob o prisma da evolução do ser espiritual, portanto não são os actos, necessariamente falhos, que realizamos os motivos reais para o arrependimento, mas, sim, os sentimentos, os pensamentos, os conceitos que nos orientam o viver.
Esses precisam e sofrerão transformações, caso contrário, os actos e comportamentos estão condenados a se repetirem, são mera consequência.
A mudança das atitudes somente será efectiva quando reflectir a transformação interior, passando pela gama de conceitos, sentimentos, capacidade intelectual, grau de consciência, com que cada um de nós se orienta na vida tanto material quanto espiritual.
Isso se chama mudança do estado de consciência e, com ela, se modifica cultura, leis, sociedades, religiões, políticas, economias, tudo.
A aparente conduta tida pelo meio social como correta pode não receber a mesma qualificação sob as vistas da eternidade, é o que alertava o mestre de Lion ao ensinar:
“Aquela, ao contrário, que não tomou boas resoluções procura a ocasião para o ato mau, e, se não o realiza, não é por efeito da sua vontade, mas porque lhe falta oportunidade; ela é, pois, tão culpada como se o cometesse”.
“Em resumo, na pessoa que não concebe mesmo o pensamento do mal, o progresso está realizado; naquele a quem vem esse pensamento, mas o repele, o progresso está em vias de se cumprir; naquela, enfim, que tem esse pensamento e nele se compraz, o mal está ainda com toda a sua força; numa, o trabalho está feito, na outra está por fazer.
Deus, que é justo, considera todas essas diferenças na responsabilidade dos actos e dos pensamentos dos homens. ”{18}
Amigo leitor, preste atenção na associação das ideias de culpa, depois substituídas por responsabilidade pelos próprios actos.
A justiça superior não é feita para punir ou culpar, mas, tão somente, para educar e desenvolver o ser espiritual.
O Pai, ao nos outorgar a liberdade de agir, outorga-nos também a responsabilidade pelo uso que dela fazemos.
Escolhemos, livremente, actos e pensamentos, e responsabilizamo-nos por ambos.
Vale ressaltar que, em todas as esferas ou níveis em que podemos pensar nossa liberdade de acção, encontraremos limites, à excepção do pensamento.
***
Passaram-se quarenta dias sem que nada de novo alterasse a rotina da vida em Córdoba.
Benjamim estudava a Torá, solitário.
Lia sobre a metáfora dos anjos.
Quanto mais reflectia sobre os ensinamentos dela, mais lamentava a pouca cultura dos seguidores das religiões que do judaísmo nasceram.
Por sua mente passavam rapidamente as muitas imagens de anjos com grandes asas brancas que vira pintadas ou esculpidas em muitas igrejas cristãs.
Sua fé compartilhava a crença na existência dos anjos, mas não os concebia sob aquela forma.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 24, 2018 8:33 pm

Imagem, absolutamente antinatural, levando a mente de seus seguidores a enveredarem pelos caminhos tortuosos do fantástico, do sobrenatural, a vagarem sem rumo em meio a fantasias.
– É preciso conhecer o simbolismo dos ensinamentos da antiguidade, para que possamos compreendê-los – murmurou Benjamim, num hábito muito seu de falar sozinho.
É a falta desse entendimento que leva muitas pessoas a adorarem imagens e ídolos.
O que é perigoso, pois prende ao material, não liberta a alma das cadeias do mundo físico e, ainda, projecta-lhe no íntimo um medo terrível do futuro, da vida após a morte, pois apresenta o futuro repleto de seres míticos, com os quais ela nunca conviveu; nem conviverá; eles não existem dessa maneira.
Pobre ser que cultua um anjo, esperando sentir que ele bata as asas sobre si, que o envolva em suas brancas asas e o proteja do mal!
Ilusão nascida da ignorância.
Fantasia que afasta do entendimento e da compreensão.
Benjamim continuou a ler e a murmurar suas reflexões.
Sua mente estava repleta de pensamentos que visavam a libertar o homem das cadeias da incompreensão que o culto às imagens “sagradas” esconde.
Bendizia os ensinamentos de sua fé que proscreviam toda forma de representação do Criador e do mundo além da matéria, incentivando a desvendar o universo físico ciente de que nele encontrariam boas ideias, caminhos seguros para reflectirem sobre o imaterial, sobre o Ser Supremo e as Causas Primárias.
Por isso, estudiosos da Torá, como Benjamim, entendiam perfeitamente o ensino alegórico e poético expresso na imagem que os profetas descreviam dos anjos como seres humanos alados.
Nenhum homem possui asas, mas eles reconheciam que no homem material residia uma inteligência que era sua própria essência imaterial ou espiritual.
Reconheciam que havia o que chamavam de inteligência separadas da matéria – que entendemos como seres espirituais – cuja forma era humana.
Com o fim de diferenciá-las e sinalizarem à mente uma condição diversa do Todo-Poderoso – Inteligência Suprema, incorpórea, única, causa primária de todas as coisas – e de categoria inferior, foram mescladas às suas formas algo da forma dos animais irracionais, para que se compreenda que o Criador é mais perfeito do que eles, assim como o ser humano é mais perfeito que o animal irracional.
Isso é diferente do que atribuir a esses seres a forma animal; atribuem-lhe apenas as asas, pois não se concebe o voo sem asas, como não se imagina a possibilidade de caminhar sem os pés, Além do que, o movimento do voo representa que eles possuem vida, pois esse é o mais perfeito entre os movimentos espaciais dos animais irracionais e o mais glorioso; aquele que o homem encarnado considera o mais perfeito, a ponto de desejar, desde a mais remota antiguidade, voar para que lhe fosse mais fácil escapar de perigos e retornar velozmente aos lugares onde encontra prazer.
Por esses factores, Benjamim entendia que se havia relacionado aos anjos – inteligências incorpóreas – o simbolismo das asas e a capacidade de voar, pois por ele as aves se aproximam e se afastam, e, assim, se tornam visíveis e invisíveis, num breve período de tempo.
Essas concepções, as usamos no dia a dia, até hoje, sem que tomemos consciência do que fazemos.
É comum se dizer:
“queria voar daqui, desaparecer”, para algo ruim, que nos desagrada; dizemos “ vou voando” quando o convite é prazeroso.
Da mesma maneira o movimento do voo é usado para indicar aproximação ou distanciamento.
Ver as aves pairando nas alturas, nos fascina.
É uma das imagens representativas da liberdade, a capacidade de voar, e repetimos que desejamos ser livre como os pássaros no céu.
Mas, obviamente, seres espirituais com a forma humana e alados são inexistentes.
Concentrado em suas reflexões, Benjamim sobressaltou-se ao ouvir batidas repetidas na porta de sua residência e uma voz aflita chamando seu nome.
Indo até a janela, descobriu um emissário do Califa.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 24, 2018 8:33 pm

– Por favor, senhor Benjamim, meu amo pede sua presença com urgência.
Venha comigo agora.
– Mas o que houve?
– A esposa de meu amo tem dores.
– A senhora Layla está em trabalho de parto. É isso?
– Sim, senhor.
Por favor, não me pergunte, não sei muita coisa.
Só o que lhe disse. Venha comigo.
– Já estou indo, só um instante para pegar minhas coisas.
Minutos depois, Benjamim chegava ao palácio, mas seu trabalho foi desnecessário.
Estava a poucos passos da porta de acesso aos aposentos onde Layla se encontrava quando ouviu os vagidos fortes de um recém-nascido e sorriu contente, dizendo ao Califa:
– Meus cumprimentos e votos de saúde.
O senhor é pai.
O bebé acaba de nascer.
Não há dúvida, e berra com bons pulmões.
– Alá, o eterno misericordioso, seja louvado!
Agradeceu Jamal, unindo as mãos e lançando os olhos ao alto, murmurando uma prece de gratidão pela nova vida que chegava a suas mãos.
Deram mais um passo e ouviram o riso alegre e contagiante de Layla e as vozes felizes e alteradas das mulheres que a acompanhavam.
– Creio que não sou necessário.
Sua esposa está bem.
Deixe que as mulheres cuidem dela.
Acredite, elas sabem o que fazer.
Voltarei mais tarde…
– Não, peço que fique – pediu Jamal.
Layla tornou-se uma pessoa muito importante em minha vida.
Insisto que a veja.
Aguardaremos o trabalho das mulheres; sei que ela gostará de ser atendida por Adara e Salma.
– Jamal – chamou Amirah que vinha apressada, com o rosto afogueado e olhos brilhantes, mas assustou-se ao ver Benjamim e moderou a voz ao dizer:
– Layla mandou me avisar que chegava a hora.
Como ela está?
– Rindo, e o meu filho já chorou – disse Jamal sorridente.
Esquecido das doenças da irmã, incentivou-a:
– Entre. Se Layla a chamou, irá apreciar sua visita.
Amirah, com um largo sorriso, correu até os aposentos da cunha e entrou.
Layla acalentava uma criança nua e suja sobre o peito e falava a seu ouvido, com voz terna e baixinho:
– Guadalupe, só Alá é Deus e Muhammad seu profeta.
Bem-vinda ao mundo, minha filha.
Eu amei ter você dentro de mim e amarei tê-la ao meu lado.
Adara ria, contente, abraçada a Salma.
As duas haviam feito o parto.
Rapidíssimo, quase indolor.
Guadalupe viera ao mundo em meio à alegria e à segurança.
Era uma bela menina, perfeita, que já estava tranquila, descansando sobre os fartos seios da mãe.
Amirah sentiu lágrimas queimarem-lhe os olhos ao ver a expressão de contentamento da cunhada.
Era uma cena comovente, encantadora.
A menina ainda suja, mas serena, no colo materno.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 24, 2018 8:33 pm

– É uma menina! – informou Adara, estendendo as mãos também suja para a irmã do Califa, que a tocou quase com reverência.
“O sangue da vida.
A essência daqueles que vivem”, pensou Amirah, louvando a Deus em pensamento.
– É saudável, perfeita.
Linda, linda! – continuou Adara tomada de euforia.
Vá vê-la. Quer me ajudar a banhá-la?
Amirah sorriu grata; nunca tocara num recém-nascido.
Aquela era a experiência mais forte que vivia em anos, afora as lutas pela própria vida durante as crises.
– Venha conhecer Guadalupe – convidou Layla, sorrindo para a cunhada.
– É linda! – exclamou Amirah, encantada com a sobrinha.
– Você está bem?
Assustei-me ao ver Jamal e Benjamim na outra sala.
– Estou muito bem.
Foi tudo tão rápido!
Seu irmão está preocupado?
– Eu diria que sim.
Ele nem tentou impedir minha entrada.
Acho que esqueceu as proibições que me faz.
Pobre Jamal, estava pálido e suando.
Layla comoveu-se ao receber a informação.
Estava sendo egoísta, usufruindo o prazer de ter a filha nos braços.
Sabia que ela não era filha biológica do marido, mas predispunha-se a ensiná-la a amar e respeitar Jamal como seu verdadeiro pai.
– Peça-lhe que entre.
Quero que veja nossa filha – ordenou Layla, dirigindo um olhar a Salma, que não escondeu o espanto, pois convidar o marido a ingressar nos aposentos naquele momento e naquele estado não era apropriado.
– Faça – insistiu Layla.
Não há nada mais belo ou glorioso do que a força da vida.
O milagroso trabalho da natureza.
É isso que meu marido irá ver.
Adara nem a menos se afligiu em argumentar sobre os costumes.
Julgava que Layla estava certa, ela teria feito o mesmo.
Nem ao menos se abalou, permaneceu fascinada olhando a pequena.
Jamal surpreendeu-se ao ver a porta se abrir e ouvir o recado da serviçal.
Mas também nele a voz do humano falou mais alto do que a dos preceitos sociais.
Não era o Califa, não era muçulmano, era apenas um homem preocupado com a saúde e o bem-estar de uma mulher que aprendia a amar e que vivia um momento que ele temia por diversas razões, inclusive por não imaginar como ela reagiria ao ver a criança cuja verdadeira paternidade era desconhecida.
No entanto, ao vê-la sorrindo, rosto iluminado, cercada pelas mulheres e tendo sobre os seios o bebé que ela aquecia com o corpo, visivelmente apaixonada pela menina, respirou aliviado.
Tudo estava bem, como ele não acreditara fosse possível durante a gestação.
Layla, de facto, não se importava com a origem da criança.
– É uma menina – declarou ela ao vê-lo se abaixar para beijar-lhe a fronte.
– Uma felicidade, considerando-se a mãe que irá educá-la – disse Jamal, sentando-se no leito, no lugar antes ocupado por Amirah que se afastara com Adara.
– Chamei-a Guadalupe.
– Rio de Lobos, um nome antigo, mas muito bonito.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 24, 2018 8:33 pm

Aprovo. Posso dar-lhe um segundo nome?
O pedido surpreendeu Layla, que apenas balançou a cabeça concordando.
Jamal, cuidadosamente, tomou a pequena Guadalupe nas mãos.
Examinou-a e sorriu ao vê-la gritar, reclamando do afastamento do colo quente e macio.
Murmurou, nos ouvidos do bebé:
– Widad, só Alá é Deus e Muhammad seu profeta.
Que Alá a abençoe, minha filha.
O sorriso de Layla ampliou-se.
Jamal chamava sua filha – cuja origem ele conhecia – como amor e amizade.
– Guadalupe Widad – chamou Layla, recebendo a criança de volta, acariciando-lhe as costas para acalmá-la outra vez.
Você recebeu um lindo nome de seu pai, descanse.
– Você não está cansada?
Sente-se bem? Benjamim está aguardando…
– Estou óptima, fique tranquilo.
Eu receberei Benjamim para que você tenha certeza de que estamos bem.
Apenas deixe que Adara, Salma e Amirah me auxiliem no que ainda precisamos fazer.
Depois, chamarei benjamim.
Jamal balançou a cabeça concordando.
Olhava a criança, sob o mesmo encantamento que se abatera sobre as mulheres.
Guadalupe Widad tinha uma luz o]própria.
Desconheceu a si mesmo, por não sentir nenhuma vontade de vasculhar as feições da menina em busca de semelhança consigo.
Acostumara-se a pensar na criança havia meses como seu filho.
Ver a menina, tocá-la, tão novinha, como não tocara nenhum de seus outros filhos homens, o fascinara.
Não escolhera nomes, nem premeditara nada; aliás, não esperava ser admitido naquele recesso feminino, quase sagrado, que era a hora do parto.
Nenhuma de suas mulheres permitira tamanha proximidade de si ou de seus filhos recém-nascidos.
Layla o chamara; dera-lhe a menina; não recusara seu pedido, feito em total impulso, de dar-lhe um segundo nome.
E o único que podia imaginar para aquela menina era Widad que, em sua língua, significa amor e amizade.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 24, 2018 8:33 pm

SER LIVRE PARA CRESCER
Jamal caminhava nervosamente por sua sala de trabalho.
Karim, impassível, com os braços cruzados em frente ao peito o olhava, estranhado a atitude do cunhado.
– Não sei como lhe dizer – declarou Jamal, fitando Karim.
– Não sabe como dizer-me o quê?
Sua resposta é simples, diga: sim ou não.
– Não, não é assim.
Há factos, circunstâncias que você ignora.
Acredite-me, são muito importantes, são delicadas.
Amirah não é uma mulher qualquer…
– Aprendi com Layla que nenhuma mulher é uma mulher qualquer.
São todas especiais.
Para mim Amirah é a mais especial, é a que desejo por esposa.
Adianto-lhe que, apesar de nossa cultura, não pretendo ter outra esposa além dela.
– Você não sabe o que diz.
– Pois então me esclareça.
– Minha irmã é doente, muito doente.
Sofre de um mal incurável dos pulmões.
Tem asma, Crises lamentáveis, em que tememos muito por sua vida.
Ibn Rusch, meu amigo e médico que a assiste, nunca fez segredo de que em uma dessas crises ela pode morrer.
Entenda, ela tem a vida contada, não serve para sua esposa…
– O que significa ter a vida contada? – indagou Karim, interrompendo as alegações do cunhado.
– Não se faça de bobo, nem de ignorante.
Compreendeu o que eu quis dizer – retrucou Jamal, irritado.
– Não, não entendi.
A meu ver todos temos a vida contada; nenhum de nós sabe o dia e a hora em que morrerá.
O facto de Amirah ser portadora dessa doença – confesso que eu já desconfiava de algo assim, embora não soubesse qual era o mal – não muda nada.
Eu, você, Layla e até a pequena Guadalupe podemos morrer muito antes dela…
– Não diga algo assim.
Não suportaria perder minha filha.
– Porque ama a menina.
Pois bem, eu também amo sua irmã.
Lembra-se do desespero com que chegamos a Córdoba quando Layla havia sido raptada?
– É claro
– Agora, meu cunhado, você pode avaliar melhor os sentimentos que nos moviam naquela época.
– E o que tem o passado a ver com sua pretensão de casar-se com Amirah?
– Simples. É a luta pela felicidade, ontem e hoje; pelas pessoas que amamos e queremos do nosso lado.
– São situações muito diferentes, Karim.
Layla é uma mulher saudável, linda, maravilhosa.
– Furiosa, rebelde, independente, com opiniões próprias, muitas vezes choca as pessoas e nos desafia.
O casamento de vocês foi algo repentino, você desejou protegê-la, talvez recompensá-la.
– É verdade, mas isso não altera o facto de que ela é minha esposa.
Al-Andaluz inteira a reconhece e honra como a esposa de seu Califa, sua soberana.
Karim sorriu.
Sabia que Layla era vista como a única esposa do Califa, a preferida.
Tornara-se uma lenda de amor a união dos dois, cujos reais motivos o povo desconhecia.
– Quero dizer, Jamal, que ter Layla como esposa pode ser tão difícil quanto ter sua irmã.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 25, 2018 8:55 pm

O facto de que ela tem crises, que é doente, não pode impedi-la de viver.
É até absurdo que eu esteja aqui tentando convencê-lo a conceder meu pedido.
– Ela não poderá ter filhos.
Tem que viver em ambientes muito cuidados; não pode ter contacto com muitas pessoas; tem restrições a actividades físicas; o clima é um inimigo.
O vento pode fazê-la passar mal. Pense, Karim.
– Pense você, Jamal.
Eu já tomei minha decisão.
Tenho certeza de que Amirah não recusará o pedido, nem será forçada a aceitar o casamento.
Aliás, não o compreendo, sua irmã é viúva.
Você já a casou um dia.
Diga-se, com um crápula da pior qualidade.
– Ele sabia e aceitou as limitações dela.
Ela ficou em Córdoba; foi uma tentativa de fazê-la mais feliz.
– Bem, eu também.
E não tenho nenhum interesse político.
Você já é meu cunhado, essa união não irá alterar nada.
Desejo apenas ser feliz ao lado dela; aprecio muitíssimo sua irmã.
Acredite-me, cuidarei dela.
– Ela pode morrer a qualquer hora, Karim. Entenda.
– Já lhe disse, Jamal, qualquer um de nós pode morrer a qualquer hora.
É lei da vida, você não sabe?
Só porque um médico disse isso sobre sua irmã é razão para que a enclausuremos, a escondamos da morte? Não é possível.
Nem mesmo Sísifo, o astuto rei de Corinto, herói mitológico, conseguiu tal proeza.
Acredite, você também não conseguirá.
– Eu a protejo, eu a preservo.
Aqui ela tem tudo o que precisa.
– Menos o direito de viver – retrucou Karim.
Será que você não enxerga que a esconde da morte e da vida ao mesmo tempo? Não é justo.
Algum dia lembrou-se de perguntar a Amirah se ela é feliz vivendo como você quer?
“Não nega ser irmão de Layla.
São gémeos em tudo”, pensou Jamal, incomodado com a pergunta e com as confrontações do cunhado.
Sempre pensara estar fazendo o melhor, estar sendo bom, e Karim, de repente, o questionava insinuando que extrapolava e fazia sua irmã infeliz.
– Eu não tenho culpa da doença de Amirah – declarou Jamal, em alto e bom som, muito irritado.
– Não penso que existam culpado para doenças como a que aflige Amirah.
É uma condição, uma circunstância da vida.
Somente Alá poderá explicar por que deu a ela esse fardo.
O certo é que ela precisa viver com essa realidade, não morrer em vida, não viver sepultada, e nós precisamos conviver com a realidade da doença.
Aceitar e agradecer o dia que podemos passar juntos, vivendo o presente de Alá.
Mais uma vez pareceu a Jamal ouvir a esposa, ou um eco de seus pensamentos.
Em meio à irritação, essa lembrança o fez sorrir e experimentar um pouco de calma.
Por fim, capitulou e encerrou a discussão prometendo pensar com muito cuidado na conversa e dar uma resposta em breve.
O diálogo com Karim tivera o poder de tirar a capacidade de concentração de Jamal.
De nada adiantaria insistir em resolver as questões da cidade naquele momento.
Por felicidade era um tempo de relativa calma nas tempestuosas relações político-militares de Córdoba com alguns reinos taifas e com a reino cristão de Castela e Aragão.
Agindo por impulso, saiu da sala.
Caminhando, em silêncio e só, pelos corredores do palácio.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 25, 2018 8:55 pm

Quando deu por si, estava adentrando a ala da residência de Layla.
Obedecera aos comandos do inconsciente; nos últimos meses ela era ser porto de chegada e saída.
Tornara-se uma espécie de local de peregrinação.
Sempre que algum assunto o afligia, fosse uma decisão de estado, familiar ou uma questão pessoal, sentia necessidade de conversar com a esposa, às vezes para falar, outras para ouvir as interpretações dela acerca dos factos que lhe narrava.
Layla tinha a filha nos braços e amamentava, recostada entre almofadas, enquanto conversava com Adara e Farah.
Salma, com olhar atento, observava o serviço de outros criados que àquela hora faziam a limpeza e arrumação das salas.
Ao ver o Califa, sorriu; já não se surpreendia mais com a presença dele, acostumara-se.
– Minha ama alimenta a pequena Guadalupe, senhor.
– Diga-lhe que preciso vê-la, é urgente – ordenou Jamal, acomodando-se numa confortável cadeira forrada de almofadas de seda.
Dispense os criados; estão muito barulhentos; quero sossego.
Salma, de imediato, sinalizou aos serviçais que se afastassem, abandonando o trabalho, e apressou-se em ir ao encontro de Layla.
– Senhora – chamou ela, ingressando nos aposentos.
O Califa tem urgência em vê-la.
Está aguardando na sala e parece nervoso.
Layla lançou um olhar à bebé que sugava seu seio com apetite.
Não negaria o alimento à menina.
– Mamãe, Adara, por favor, deixem-me a sós com Jamal.
Farah ergueu-se, estendendo os braços para receber a neta, num gesto claro que desejava levá-la, que não imaginava a filha recebendo o marido dando de mamar.
Layla sorriu, sua mãe era apegada demais às convenções e aos padrões de comportamento.
– Lupe ficará comigo, mamãe. Ela tem fome.
Se levá-la, irá chorar sem necessidade.
– Mas, minha filha, isso não é adequado.
Seu marido não deve vê-la…
– Deixe, Farah – interveio Adara, tomando-lhe o braço.
Layla já fez isso antes; creia-me, não é a primeira vez.
Aliás, já fez pior do que isso.
Jamal parece não se importar; fique tranquila, acho até que ele gosta. Vamos.
Farah saiu protestando contra as liberalidades da filha, dizendo que um homem não deveria ver uma cena como aquela, que era algo só de mulheres.
Adara sufocava o riso, lembrando-se de que por muito pouco Jamal não assistira ao nascimento da pequena.
E, ao cruzarem com ele no corredor, Farah pôde ver a naturalidade com que o genro se dirigia aos aposentos da esposa, mesmo sabendo que ela cuidava do bebé.
– Como está Guadalupe, hoje? – indagou Jamal enternecido com a cena da menina agarrada ao seio moreno da mãe.
Faminta, pelo que vejo.
– Ela está crescendo, é natural – comentou Layla, acariciando a cabecinha da menina onde nasciam finos e sedosos fios de cabelo, quase uma penugem negra.
Depois, encarou o marido, endereçou-lhe um sorriso e, com a mão livre, bateu no assento a seu lado e convidou.
– Sente-se aqui.
Diga-me, o que aconteceu?
Obediente como um menino, Jamal sentou-se ao lado da esposa.
Suspirou, fechou os olhos, não sabia o que dizer, não pensara em ir até lá, simplesmente havia ido.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 25, 2018 8:55 pm

Naquele momento descobriu a razão.
Enigmaticamente, apesar do temperamento forte e do comportamento pouco afeito às convenções sociais e culturais, a presença de Layla lhe dava paz.
Ela não cobrava, não exigia, não pressionava, mas também não admitia tal tipo de interferência em sua vida.
E ele gostava dessa relação.
– Seu irmão pediu Amirah em casamento – informou ele de supetão.
– Hum… já esperava por isso.
Você não, pelo que vejo.
– Amirah é doente, sua vida é…
– Lamentável – cortou Layla serenamente.
Absolutamente lamentável.
Ela é invisível e inaudível.
– Que posso fazer? É a doença.
Não sabe como sofro, como lamento, para usar o que disse sobre a vida que ela leva, mas não posso fazer nada.
Se não for assim, ela morrerá.
Não posso permitir.
Layla afastou os olhos da filha, fixando-o no homem a seu lado.
Sem alterar a voz, falando com firmeza, disse:
– Jamal, não está em seu poder impedir a morte de ninguém.
Liberte-se dessa ideia e desse medo ou ele o fará doente.
É impossível.
Você é um homem, por natureza, muito protector, mas preste atenção nos limites entre protecção e controle.
O que você está fazendo com sua irmã, e sempre fez, é controlar-lhe a vida por medo de que ela morra.
Enxergue isso, admita.
Não é bom para ela nem para você.
Os dois estão sofrendo.
– É a doença, Layla.
Você já viu Amirah em crise. Foi leve.
Eu sei que ela já teve outras piores, não imagina como temi por sua vida, como lutamos por ela.
– Não preciso imaginar anda, Jamal.
Eu vejo, estou vendo você agora, vi o mês passado quando Amirah passou mal.
Você se desestrutura. Sabe por quê?
Porque deseja impedir o funcionamento da vida.
Entenda, é impossível.
Precisamos aceitar que acima da nossa vontade regem os desígnios do Misericordioso, e Ele fez a vida assim, lado a lado com a morte.
A cada passo ela nos espreita, sem distinção de idade, de raça, de religião, de sexo, de cor.
Nada, absolutamente nada, nos diferencia diante dessa lei natural que nascemos e morremos.
Diante dela, Jamal, só temos duas coisas a fazer:
aceitar, é a primeira; questionar, é a segunda.
Você sabe que eu amo a natureza, a vida animal, que amo todas as experiências que meu corpo me proporciona e que, desde menina, eu estou em contacto com a face bela e a face dolorosa da natureza física.
Aprendi a aceitar e a permitir-me questionar qual o sentido disso tudo, o que ela revela.
Concluí que o Misericordioso deseja nos ensina que a vida é um processo de aprendizagem e que é preciso experimentar, é preciso ousar, é preciso desafiar.
Mas é também necessário reconhecer os limites, as possibilidades, respeitar os outros, sua existência e vontade e, acima de tudo, respeitar e submeter-se ao Altíssimo.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 25, 2018 8:56 pm

Ele dispõe dos mecanismos da vida e da morte.
Muitas vezes somo orgulhosos o bastante para pensarmos em nos igualar a Ele nessa matéria.
Matamos e geramos corpos, apenas isso.
A vida não nos pertence, foi-nos dada; ela é criação divina.
Não ouse ter a pretensão e controlá-la; ela fugirá por entre seus dedos, como a areia da praia, Jamal.
É como querer segurar o vento com as mãos.
Notando que ele prestava atenção a suas palavras, Layla prosseguiu:
– Quando alguém que amamos morre, dói muito.
Especialmente se isso acontecer de forma inesperada, como o que aconteceu com Zafir, meu pai, Leah.
Mas o que fazer?
Contra quem rebelar-se?
u também morrerei, não sei o dia ou a hora, nem mesmo como.
Você também. Lupe tem apenas dois meses, mas nem por isso está isenta de morrer.
Gerou-se dentro de mim, alimenta-se do meu corpo, eu a amo muito, mas sei que nada posso contra a morte se ela vier buscá-la.
Lutarei, é claro, mas sabendo dos limites do possível.
Cuido, protejo, zelo, mas não tenho o controle, ninguém tem.
É preciso reconhecer, aceitar.
Mas veja bem, Deus é tão bondoso que nos deixa algo imortal – a lembrança das horas boas, dos momentos felizes, dos sentimentos alegres.
É para isso que vivemos, pois deles não nos arrependeremos nunca.
Precisamos admitir que eles nos são entregues como capacidades, como potencialidades, que nós temos que concretizar, não como algo pronto, acabado.
Sabe por quê?
Para que não venhamos a sofrer necessidades.
Não há razão para você apegar-se a nada nem a ninguém se aprender a amar.
Todos temos essa capacidade, Alá nos deu, porém depende de nós concretizá-la.
Uma vez aprendido a viver com amor, alegria, podemos repetir essa vivência com tantas pessoas quantas desejarmos.
Você não tem capacidade de amar apenas sua irmã, não precisa temer “perder” o amor ou a “morte” dele; mas você tem medo, e isso me faz pensar que talvez exista muito apego em seu afecto por Amirah.
E o apego pode ser ruim, porque ele tem dificuldade em dar liberdade, em emancipar; é um sentimento exigente, controlador e inseguro, por isso origina relacionamentos ciumentos, sufocantes opressivos.
– Você está sendo dura! – reclamou Jamal.
Eu só quero o bem de Amirah.
– E o seu. Aliás, primeiro o seu, depois o dela, se estiver de acordo com seu bem, ou o que você considera ser o bem.
– Você me faz parecer um monstro, um egoísta, insensível.
É assim que me vê?
Pensei que nosso casamento a fizesse feliz, que apreciasse minha companhia…
– Não mude de assunto, Jamal.
Não estamos discutindo nosso casamento.
E, respondendo a sua pergunta, não, fique tranquilo, eu não o vejo como um monstro, egoísta e insensível.
Eu o vejo apenas como um homem, um ser humano, nada mais.
Tudo o que disse não foi para agredi-lo, não tenho essa intenção.
Falei sobre a natureza humana.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 25, 2018 8:56 pm

Natureza dos meus sentimentos, dos seus, de Amirah, de qualquer um; da forma como nos relacionamos com esse universo emocional que somos e que guia nossas acções, na maioria das vezes, sem que se pare para conhecê-lo, pensar sobre ele, saber como funciona.
Acredito que seríamos mais felizes, menos problemáticos e doentes, se fizéssemos esse exercício.
Será muito bom se um dia alguém se debruçar sobre essa natureza humana invisível e estudá-la, desvendá-la, traçar seus contornos gerais, mostrar as afecções que podem ocorrer, quais são órgãos básicos – penso que temos, sim, sentimentos básicos, tipo de matrizes.
Assim como nosso corpo físico é semelhante, sem discriminação de raça ou sexo, acredito que tenhamos também uma base de sentimentos e capacidades intelectuais semelhantes, embora, como nossos corpos não são iguais, também essa natureza invisível não o seja.
A vida na Terra haverá de ser bem melhor.
Talvez venham a existir até criaturas especializadas em tratar esse ser invisível e tão forte que faz parte da nossa natureza, em cuidar do medo, do desespero, em guiar nesse labirinto, em tornar visível o invisível.
Por favor, não confunda minhas ideias sobre o ser humano e o conceito que eu tenho a seu respeito.
Eu o admiro muito, sabe disso.
Sou sincera em dizer que gosto de você e que essa sua natureza protectora me beneficia; eu reconheço que sou sua protegida na sociedade em que vivemos. Mas,
Jamal, o facto de gostarmos um do outro não nos isenta de nos machucarmos, de causarmos mágoas um ao outro, de não nos entendermos e concordarmos em tudo.
Isso também é da natureza humana, que fez a cada um de nós criaturas únicas em sua forma de ser, pensar, agir e sentir.
Jamal balançou a cabeça, concordando com as palavras de Layla, tomado de emoção por ser a primeira vez que ela falava dos sentimentos que nutria por ele – uma necessidade que ele descobrira possuir naquele momento, na hora de sua revolta ao pensar que ela fizesse má opinião de sua pessoa.
A confissão afectiva da esposa o acalmara como todo seu discurso anterior não havia conseguido.
Dera-lhe paz, apoio.
Suprira o que de fato é necessidade – perdoem a repetição – humana de confirmação de aceitação afectiva por parte de outro.
Precisamos amar, mas igualmente precisamos ser amados e saber o que somos, ouvir, ver e sentir.
Precisamos conjugar todos os nossos sentidos físicos nessa percepção de confirmação de nossa aceitação afectiva por parte do outro; temos necessidade de ouvir palavras de afecto, de sentir carícias e carinhos, de ver olhares amorosos, amistosos, afectivos.
A falta, a ausência, dessa relação gerará a carência, a solidão; exacerbará os medos, trará a insegurança, a possessividade e a difícil socialização.
– Perdoe-me. Eu tenho aprendido a gostar muito de você.
De repente, ao ouvir o que dizia, não suportei pensar que me visse como alguém tão mau.
Layla riu, trocando Guadalupe para o braço esquerdo e oferecendo-lhe o outro seio, murmurou algumas palavras para consolar a menina que resmungou ao ser afastada do leite.
– Está perdoado.
Aos meus olhos, você é apenas um homem, Jamal.
Nada mais. E sei que todos temos coisas boas e coisas ruins.
Deixe Amirah decidir como quer viver.
A doença é dela, a vida é dela, o pedido de casamento é para ela.
Dê-lhe a liberdade e a responsabilidade por sua decisão.
A vida é dela, vamos respeitar seu direito de decidir e escolher.
– Eu sou seu irmão, sou responsável por ela.
Tenho que decidir – insistiu Jamal.
– Quem lhe disse isso?
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 25, 2018 8:56 pm

– É a lei, são os costumes.
– Bem, se essas leis e esses costumes lhe fazem feliz… siga-os.
Mas, se eles o afligem, se o fazem sofrer, se exigem de você o que não tem como dar, abandone-os.
– Não é tão simples…
O que dirão os conselheiros, o povo…?
– A dificuldade é interior, Jamal.
Você decide se outros precisam saber ou não.
Você decide quanto dará de poder aos outros em sua vida e se esse poder será de censura ou não sobre seus actos.
Ser feliz é uma decisão pessoal, meu caro, diante dos outros, dos factos e de você mesmo, pela forma como encara as lições da vida, especialmente as do presente.
Creia-me, você decide, sempre por você mesmo.
Quando decidir por outro, estará impondo.
Quando casam uma mulher ou a impedem de casar, nunca há uma decisão, há uma imposição.
Podem ocorrer casos de convergência entre o querer e o imposto, mas pode não haver e, nesse caso, é triste.
As palavras de Layla calavam fundo no pensamento de Jamal.
Ele a admirava, aprendia a amar a mulher decidida e temperamental que tomara por esposa.
Mas, em que pese todo pode da palavra, há que se dizer que ele não é imediato.
As palavras precisam de tempo para germinar, alterar antigos conceitos ou germinar em terra nova antes infestada de preconceitos, à semelhança do solo recoberto por erva daninha no qual primeiro se faz a limpeza, depois o plantio.
Ele ainda estava confuso.
Layla entendeu que o restante era tarefa pessoal e para isso era preciso dar tempo.
Desconversou, então, chamando a atenção para a filha que cândida adormecera, satisfeita e rosada, em seu peito.
Jamal amava a menina, não havia dúvidas.
Encantava-se em compartilhar o desenvolvimento e as experiências da bebé com Layla; vivências de intimidade e familiaridade que os filhos de Kamilah e Aidah não lhe tinham propiciado.
Era próximo de Guadalupe Widad desde seus primeiros minutos sobre a Terra, e a atitude de Layla fora fundamental nesse vínculo paternal.
Por essa afectividade sentia-se muito mais pai da menina do que de seus outros filhos, cuja educação desde cedo fora formal, rigidamente dentro dos padrões e convenções sociais, pouco humanizados.
A estratégia coroou-se de êxito; a vida nova em plena exuberância de seu desabrochar fascinava e fazia esquecer, por algum tempo, os conflitos.
Período necessário à acomodação íntima das ideias semeadas, como o do descanso da massa de pão fermentado, para depois ser alimento nutritivo.
***
Os dias se arrastavam para Karim, aguardando a decisão de Jamal.
Aconselhado por Layla, não fazia pressão para obter a tão esperada resposta, porém somente ele sabia quanto custava domar a ansiedade.
A mente criava mil e um pensamentos para futuros acontecimentos.
Os “ses” proliferavam com espantosa rapidez.
Imaginava fugas, perseguições, crises da doença de Amirah.
Não percebia que retirava os pés do chão, dando asas à imaginação, afastando-se das circunscrições de tempo e espaço necessários ao nosso equilíbrio interior.
Movia-se no terreno pantanoso do destino incerto.
O homem insiste em não observar a natureza, em não ler na obra divina a verdade de que a tendência de todas as coisas é ao bem, ao equilíbrio, à saúde, com isso, deixando-se dominar pelo medo, cria a tendência contrária, por falta de reflexão e observação, de que tudo no futuro é desgraça, devastação, aniquilamento.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 25, 2018 8:56 pm

O futuro é apenas a linha de continuidade do hoje, do agora, do presente.
Nada mais. Aquele que deseja saber o futuro, concentre-se no que faz neste minuto e saberá o que será de si.
Aliás, pensar nessa linha do tempo é um exercício filosófico dos mais interessantes.
A demarcação é meramente material.
Mas, como em muitas outras circunstâncias, temos nele a ilusão da perenidade.
Para a mente e para o espírito não existem noções de tempo. Há a sequência inexorável da vida e as trajectórias que realizamos.
As marcas que carregamos são aquelas tingidas com as cores da significação.
O que não teve importância não se importa, ou seja, não se traz de fora para dentro. Fica fora.
Esquecido. Relegado.
As memórias significativas tanto podem vir de nosso passado para o presente, como ir do presente para o futuro.
Nessa estrada o presente é uma ponte entre o eu de ontem e o eu de amanhã.
Pelas vivências atuais podemos alterar experiências significativas do passado que nos trazem sofrimento, anulando-se pela ampliação de nossa compreensão.
É o que chamamos de superação de traumas do passado recente ou remoto.
Mais uma vez, chamo a atenção para a leitura da lei de equilíbrio e harmonia, que se expressa em nossas vivências.
Ninguém precisa alterara significados construtivos que espontaneamente se alinham com a lei de equilíbrio da natureza interior e exterior.
Os significados destrutivos é que necessitam transformação, só estes, note.
Mudar, renovar o presente é diferente de revolucionar tudo; é preciso conhecer o que está bem e o que precisa melhorar, ser transformado, auxiliando o equilíbrio natural.
E agradecer a bênção do esquecimento, ciente da verdade do pensamento expresso por Nietzche ao afirmar que:
“Um poeta poderia dizer que Deus instalou o esquecimento como guardião na soleira do templo da dignidade humana”{19}.
O presente é a digna ponte para o futuro, na medida em que transformamos marcas, redimensionamos significados, mudamos rotas e caminhos.
Somente a insistência no conservadorismo, na inconsciência de si e da vida gera a repetição de experiências.
Portanto, estar centrado no presente, no aqui-e-agora, local e espaço, é a melhor forma de conhecer o futuro, de caminhar com equilíbrio emocional sem ser vítima de si mesmo, em torturantes momentos de ansiedade e medo.
Afastada da circunscrição espaço-temporal, a mente cria a ansiedade e com ela vem à insegurança.
Somente somos pessoas seguras quando temos perfeita consciência de que segurança e autoconfiança é algo que depende apenas de nós.
Aqueles que buscam segurança em vícios ou na companhia de outras pessoas desenvolvem manias e doenças, pois nunca encontrarão o objecto de sua busca.
Estão procurando fora o que está dentro de si.
É preciso descobrir-se, tornar-se consciente.
A fé tem sido muito confundida, ao longo das eras, com a crença.
É preciso despertar.
Fé é confiança. Crença é adopção de opiniões com certa convicção.
Aquilo que, comumente, denominamos fé religiosa é crença; não confiança.
Inúmeras pessoas se julgam sem fé porque não conseguem adoptar opiniões e comportamentos oriundos de confissões religiosas, com frequências eivados de superstições, levando a condutas absurdas que afrontam a racionalidade, beirando ao absurdo ou ultrapassando-o.
Estes crêem e depois descrêem.
Desiludem-se ao descobrir que o impossível não acontece; que, ainda que relativas, as leis da natureza obedecem a comandos que não se alteram.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 25, 2018 8:56 pm

A isso nos referimos como crendices, superstições.
Fé é sinónimo de confiança, de segurança quanto à probidade de algo ou alguém; é uma relação que se estabelece com conhecimento; é firme e madura; pensada, sentida e racionalizada.
Quem tem confiança sabe onde caminha.
É como caminharmos em nossas casas no escuro; sabemos onde está cada móvel se encontra, mesmo não o enxergando, e a razão nos diz que eles não sairão do lugar sozinhos.
Não tememos, confiamos; logo, estamos seguros.
Assim, nossa relação com Deus e com nós mesmos ganha novos contornos a partir do auto-conhecimento, da reflexão, da busca de desvendar aquilo que nos seja possível sobre o Criador, estudando a natureza e nossa consciência.
Ciente dos limites traçados pelas leis naturais e pela razão, ganhamos segurança.
Deixamos de crer em ameaças vãs de seres temerários, como demónios, assim como deixamos de nos ver como marionetes nas mãos das forças espirituais, ou como brinquedos de um Deus irado e vingativo, que cria, dá vida e amor para depois espezinhar e destruir, fazendo sofrer porque erramos.
Compreendemos que Deus é perfeito, não perfeccionista, uma mania muito humana que se lança indevidamente à Suprema Inteligência.
Nesse ínterim de nossa história peço-lhe permissão para mais uma digressão.
Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, há um texto memorável, por diversas razões, no qual encontramos ideias com um forte poder curador para as tão frequentes inseguranças, ansiedades e medos que assolam as almas, num autoflagelo de causar piedade a quem vê.
Falo – e recomendo que estude – da comunicação intitulada “A fé divina e a fé humana”, no capítulo XIX.
Faça-o, substituindo a palavra fé pela expressão confiança e pense em si, aceite o convite e o esclarecimento daquele humilde benfeitor que nos legou tão sábias palavras e não desejou ser conhecido nem mesmo por um pseudónimo, deixando, nesse ato, a clara lição de que mais vale o ensino do que aquele que ensina.
Esse amoroso e experiente ser falou de autoconfiança, segurança interior.
Desmistificou a fé, desvendando-lhe a importância psicológica e redimensionando a relação da criatura com o Criador.
Ele nos esclarece que a confiança é um dos muitos talentos inatos, das muitas capacidades que jazem em nós envolta em sombra.
Na sombra de nosso ser não há somente maldade.
Lá está tudo aquilo que não é explorado, que não é trazido à luz, que não queremos ver.
Assim sendo, não tema olhar para si mesmo; existe um universo lindo e inexplorado dentro de cada ser humano.
Diz mais, diz que ela, a confiança, surge, se mostra quando adquirimos consciência do todo o potencial que temos, das “faculdades imensas” que estão latentes e que dependem exclusivamente de nós, da nossa vontade activa, para “eclodir e crescer”.
Insisto no convite para que reflicta a lição da auto-confiança.
Ela nos mostra que segurança/confiança nasce dentro de nós, não é matéria nem de importação, nem de exportação, tão só de uso pessoal, intransferível.
Voltemos a Karim e à sua espera.
Sentindo-se preso por fios invisíveis, sufocado por mãos também invisíveis, decidiu dar um longo passeio pelas ruas de Córdoba.
Caminhar acalma, gera sensação de bem-estar.
Relaxa as tensões.
Devagarzinho, conforme as ruas iam sendo vencidas e as distâncias aumentavam, enfim Karim conseguia desenvencilhar-se das incómodas sensações orgânicas impostas pela ansiedade mental.
Em melhores condições, viu um veículo parar a seu lado e, na janelinha, o rosto sorridente de Ibn Rusch saudá-lo alegremente.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 25, 2018 8:56 pm

– Venha, eu o levo aonde quiser – convidou o médico.
– Agradeço, mas não vou a lugar nenhum.
Estou apenas caminhando sem destino.
– Melhor ainda. Para quem não sabe aonde ir, qualquer lugar serve, não é mesmo?
Venha comigo, vou para casa, lá poderemos fazer uma refeição e conversar.
A ideia agradou a Karim; era melhor do que retornar ao palácio do Califa e prosseguir sua nervosa e ansiosa espera.
Ao menos aproveitaria algumas horas da agradável convivência com Ibn.
Decidido, embarcou no veículo.
A conversa fluía sempre fácil com o amigo de Jamal.
Falavam de trivialidades, de política, de economia, de campanhas militares – este era um assunto não do maior agrado do anfitrião, um pacifista, mas sobre o qual todos acabavam informados.
A violência acaba comentada, de boca em boca, independentemente de ser por asco ou por prazer.
Como todo ato nascido de sentimentos avassaladores, as repercussões a respeito recebem a contaminação da paixão, tocam os diapasões fazendo ecoar a ressonância da emoção original.
Ninguém fica imune, alheio, indiferente à violência, à guerra, ou à crueldade.
Contra ou a favor, a paixão contamina.
Entretinham-se na conversação quando um criado veio informar a chegada inesperada de um visitante.
– Quem é? Trata-se de alguém doente? – perguntou Ibn ao servidor.
– Não senhor.
É o rabino Benjamim ben Baruch.
– Ora, Benjamim é meu amigo, espero que não o tenham deixado esperando na soleira da porta – advertiu-lhe Ibn.
– É judeu, senhor. – defendeu-se o criado que batera a porta na cara do rabino, deixando-o na rua.
Era um cidadão de segunda classe.
– É meu amigo.
Faça-o entrar imediatamente e peça-lhe desculpas pela descortesia.
Contrariado, o criado obedeceu.
Karim observava a cena interessado.
– Como é triste essa divisão racial – comentou ele.
Não sei se estou errado, mas penso que, quanto menor o nível de formação intelectual, mais isso pesa.
– Não sei. Talvez, seja.
Mas existem pessoas pouco habituadas a questionar com qualquer nível de formação intelectual.
– É verdade, porém as exigências da formação intelectual levam o indivíduo a questionar, obrigam a um esforço do intelecto.
– Isso é óbvio, no entanto creio que por si só não liberta de todo e qualquer preconceito.
Ainda existem as leis humanas e elas são impositivas e, frequentemente, absurdas – rebateu Ibn, servindo chá ao amigo.
Benjamim, para surpresa dos dois, chegou sorrindo na sala; parecia divertido com o episódio de discriminação.
– Perdoe-me, Benjamim.
É um servidor novato – desculpou-se Ibn após a troca de cumprimentos.
– Estou acostumado.
Nasci judeu e já vivi em vários lugares.
O problema do preconceito não é meu, é dele.
Não há do que se desculpar; o ato também não foi seu.
Esqueçamos o assunto.
Aliviado pela reacção de Benjamim, o anfitrião o apresentou a Karim.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 25, 2018 8:57 pm

– Em minhas visitas ao palácio do Califa não tive o prazer de encontrá-lo – comentou Benjamim.
Está em Córdoba há muitos dias?
– Alguns. Diria que o suficiente para ouvir e bastante falar de sua pessoa.
Minha irmã o aprecia muito, isso é uma considerável referência. Espero que sejamos amigos.
– A esposa do Califa, a senhora Layla.
Uma grande e sábia mulher.
Perdoem-me a comparação, mas ela é a Esther de Córdoba.
Karim riu da comparação.
Lembrou-se da serva judia que acompanhara a infância e juventude de Layla.
Por causa dela não havia nenhum dos familiares de Nasser Al Gassim que desconhecesse a trajectória da profetisa judia, a desconhecida jovem hebreia que se tornara, por sua beleza e sabedoria, rainha da Pérsia, no passado distante.
Uma lenda no universo feminino, sem dúvida.
– Jamal estava desonrado por uma de suas mulheres?
Eu não sabia.
Que fique entre nós, mas, se alguma lhe desobedece, não tenho dúvidas de que é minha irmã.
– Não falei nesse sentido – comentou Benjamim, descontraído e simpatizando com a espontaneidade de Karim.
Mas referi-me ao fato de que ela soube se tornar uma rainha entre nós, povo de Córdoba.
– Ela é excepcional, sempre foi, desde menina.
– O que o traz à minha casa, Benjamim?
Espero que nenhum caso grave.
– Simples visita, acredita? – declarou Benjamim, tomando assento numa poltrona e recebendo grato a xícara de chá ofertada por Ibn.
Achei que era absurdo só nos encontrarmos em situações dramáticas e tomei a iniciativa de promover um encontro menos… como direi… desgastante, mais ameno e agradável.
– Saúdo sua decisão.
Precisamos, de facto, nos dar momentos de convívio com quem temos afinidades.
Às vezes, as actividades cotidianas nos ocupam tanto que deixamos esse aspecto de lado. Que bom que você veio!
A conversa prosseguiu animada, variando os temas, com os três integrados e harmónicos.
As horas voavam, velozes.
Quando o criado, discretamente, se aproximou de Ibn, solicitando instruções sobre o jantar, as estrelas já enfeitavam o firmamento e nenhum deles havia percebido.
Tomadas as providências, enviando-se um emissário para avisar Layla de onde se encontrava o irmão, os assuntos se sucederam.
A noite é acolhedora.
Sob seu manto escuro, os seres humanos sentem-se incentivados à troca de confissões, talvez por ela ter algo de acolhedor, de suave, de ocultar as formas, de restringir a capacidade de visão, fazendo-nos mais atentos ao que está próximo, recordando o significado das coisas simples.
Com Karim se passou esse facto.
A cálida noite de Córdoba, com seu odor de flores que só desabrocham sob a luz da lua, somada à necessidade de esvaziar suas angústias emocionais, dois atentos ouvintes, foi tudo que precisou para narrar seus medos e anseios desde que retornara a Cádiz.
Não havia percebido antes o quanto precisava falar, falar, desesperadamente, das experiências que tinha vivido, embora houvesse partes da história omitidas.
Contou tudo o que lhe dizia respeito, inclusive a visão da “mulher anjo” e do bem que lhe fizera aquele facto.
– Nesse momento ei preciso tanto de alguém com a mesma sabedoria daquela visão!
Ah, como eu gostaria de ouvi-la de novo!
Mas… nunca mais.
Não sei por que, não entendo.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 26, 2018 8:42 pm

Já ouvir falar de pessoas que têm visões, que vêem familiares mortos, até que nem conheceram, mas, no fundo, isso é tão pouco – concluiu Karim, apanhando um doce feito de sêmola, nozes e mel da bandeja que repousava sobre uma mesa de centro baixa, em torno da qual estavam acomodados sobre confortáveis tapetes.
Ibn encarou o amigo, pensativo.
– Quem nunca ouviu falar dessas visões?
Acredito que existam em todas as raças, independente de crença.
Confesso que esse aspecto da religiosidade ou das experiências humanas não é o que me interessa mais.
Preocupo-me em tentar fazer as pessoas compreenderem que razão e religião podem e devem ser temas compatíveis.
A religião sem a razão, sem a filosofia tende ao fanatismo.
Uma pessoa fanatizada está a um passo da loucura, a meu ver.
O que acha Benjamim?
– Do quê? Do fanatismo ou das visões?
– Das visões – respondeu Karim.
– São fatos – sentenciou ele seco e directo.
Sua religião fala deles.
O profeta Muhammad teve visões, não teve?
Não foi assim que compôs os versos do Alcorão?
Minha religião fala deles, desde tempos muito antigos.
A crer-me na mítica cena do Génesis, Eva foi a primeira a ter visões, afinal, a tentação da serpente é usada como metáfora para a manifestação de um anjo decaído; serpentes não falam, não é mesmo?
O judaísmo é cheio de grandes profetas, e todos eles relataram suas visões, seu aprendizado com seres espirituais, inteligências separadas da matéria.
Não temos aqui nenhum cristão, mas, pelo que sei, também o cristianismo possui relatos de visões, a começar por Jesus que, inclusive, foi visto após a morte por uma seguidora e, depois, continuou se apresentando a seus discípulos.
E contam eles que um dos principais apóstolos – que foi um membro do Sinédrio, portanto conhecedor da Torá, do Talmude e das leis judaicas – , Saulo de Tarso, que se tornou conhecido após a conversão à seita cristã primitiva como Paulo de Tarso, narra em seus escritos visões e experiências além da matéria, fala mesmo de ter alcançado o sétimo céu.
Acredito que elas são possíveis, aliás, minha religião assim ensina.
Karim ou ouviu atento; as breves palavras de Benjamim tiveram o condão de fazê-lo esquecer-se de suas confissões – em parte porque tivesse esvaziado as pressões interiores, os focos mais dolorosos daquelas emoções; ou porque, em seus anseios, também entrasse uma busca por respostas e compreensão do que se passava consigo.
– Diga-me o que ensina sua religião sobre o assunto.
– Meu caro, nem tudo pode ser ensinado ao que não pertencem à nossa religião – desconversou Benjamim.
Deve saber que em todas as crenças existem duas formas de ensinamento: uma profunda e outra mais mítica, mais cheia de histórias, alegorias e parábolas com que se ensina o povo.
Minha religião, por ser a mais antiga, é a mais cheia desses mistérios, a mais cercada de alegorias, por isso sobrevive há tantos milénios.
– Sobrevive, mas definha – rebateu Karim, aludindo à fantástica expansão do islamismo que, na época dos factos narrados neste romance, era o maior império sobre a Terra e conseguira a rápida e inédita façanha de unir tribos árabes em uma única crença, ainda que dividida, desde a morte do profeta Muhammad em duas facções – sunitas e xiitas.
– Sobrevive – insistiu Benjamim.
E sobrevive a tantas lutas, perseguições quantas fazem parte da história da humanidade, desde a antiguidade.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 26, 2018 8:42 pm

– Que seja! Não quero discutir suas concepções religiosas.
Fui educado para respeitar todas elas e não impor minha convicção a ninguém.
Mas lhe peço, então, que diga o que julga possa ser ensinado a um não judeu sobre as visões de que lhe falei.
Benjamim respirou fundo; lançou um olhar ao anfitrião, que, em resposta, apenas ergueu uma sobrancelha.
Sentindo-se um pouco desconfortável, mas notando que a pergunta era séria, bem-intencionada e nascida de uma busca real, capitulou e passou a explicar:
– Bem, a primeira coisa a ressaltar é que o fundamental, para nós, é a crença em Deus.
Por isso, vou me ater ao pensamento daqueles que compartilham essa ideia.
Desde os chamados pagãos, se conhece o dom ou a capacidade humana de profetizar.
Diziam eles que Deus elegia entre seus membros aqueles que o agradassem e fazia deles seus profetas, conferindo-lhes essa missão. Não havia qualquer exigência quanto à condição deles, podiam ser sábios ou ignorantes, velhos ou jovens, era indiferente.
Mas era importante que fossem homens de bem, de bons costumes, pois até hoje ninguém afirmou que Deus desse tal dom a alguém perverso, salvo que fosse com o propósito de transformá-lo em um homem bom.
Já os filósofos aristotélicos, em especial os árabes, consideram a profecia como o mais alto grau do desenvolvimento das faculdades morais e racionais da alma, e o homem pode alcançá-la tanto pelo estudo quanto pela pacificação e purificação da própria alma, abandonando as coisas da vida material para, desde agora, unir-se ao Intelecto Supremo, pois tal conduta faz com que o homem passa para o nível das atitudes, as faculdades que a alma possui em potência.
Como vê, segundo eles, um ignorante nunca será profeta; assim como, diferente da anterior, ninguém dorme sem ser profeta e acorda profetizando. Em comum, ambas exigem que seja um homem íntegro.
Portanto, se esse homem íntegro, saudável em sua razão, possuidor dessa qualidade natural de profetizar, se preparar, necessariamente chegará à condição de profeta.
Minha religião tem idêntica opinião à dos filósofos, à excepção do facto de que entendemos que, ainda que alguém seja possuidor do dom natural e tenha se preparado, só chegará à condição de profeta se assim o quiser a Vontade Divina.
O princípio fundamental, no entanto, é que é necessário se aperfeiçoar nas qualidades morais e racionais.
– Entendi que todos os profetas tinham visões, comunicavam-se com seres espirituais de diversas formas.
Mas o que você entende por ser um profeta?
– Você pode deduzir que o profeta é um ser humano que tem por missão instruir os outros, revelar-lhes as coisas ocultas e os mistérios da vida espiritual.
Por isso, exigimos ele conhecimento.
Não é possível dar o que não se possui,
concorda? A maioria deles, no entanto, tem visões, presciência do futuro, transmitem advertências e ensinamentos aos homens.
Veja a Tábua dos Dez Mandamentos do profeta Moisés e o Alcorão, livro da sua religião.
São ensinamentos, não são?
Ambos fruto de visões espirituais.
Instruir, esse é o maior propósito do dom da profecia.
As visões e outros fatos servem apenas de veículo para esse fim máximo que é ensinar um caminho melhor para a realização do ser humano.
– Então, eu não possuo o dom da profecia – concluiu Karim.
Todas as visões que tive sempre disseram respeito apenas a mim mesmo.
– Ah, meu caro, não seja apressado, nem creia tudo aprender nessa conversa.
O tema é muito amplo, é preciso estudar essas faculdades humanas com vagar; não se adquire esse conhecimento em segundos.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 26, 2018 8:42 pm

Elas são delicadas, muitas circunstâncias especiais influenciam, como as próprias condições de seu portador, por exemplo.
Além do mais, nada é absolutamente igual e padronizado na natureza.
Essas faculdades também não; sofrem muitas variações.
– Como assim? – indagou Karim interessado.
Está dizendo que existem em graus diversos.
– Exactamente – concordou Benjamim, observando o fascínio com que seus interlocutores o ouviam.
Estava habituado àquela reacção, via-a no semblante de seus aprendizes, quando lhes falava sobre as faculdades humanas de intercâmbio com o mundo extrafísico.
A maioria tinha a mente cheia de ilusões e, ao se deparar com a racionalidade das explicações, encantava-se, perdendo os medos supersticiosos e aprendendo a respeitas as manifestações da vida.
– Essa influência, digamos assim – prosseguiu Benjamim – , pode atingir uma pessoa numa pequena medida, na exacta proporção de sua condição intelectual.
Pode-se dizer que servirá para guiá-la em sua jornada pessoal, talvez seja seu caso; não sei, conheço pouco de sua experiência para afirmar.
Enquanto em outra ganha uma tal medida que, além de aperfeiçoá-la, pode também significar o aperfeiçoamento para outros.
Entenda, essa faculdade não é igual em todos, nem tem as mesmas proporções, do mesmo modo que a capacidade ou os graus, como queiram, são variáveis entre seus portadores.
Veja, há aqueles que a possuem na condição de inspiração, não vêem nem ouvem nada, mas é como se a faculdade se derramasse apenas sobre sua capacidade racional, e isso faz deles sábios, filósofos, grandes escritores; todos se declaram dominados pelas ideias que se derramam sobre sua mente, sem controle ou premeditação.
Sócrates dizia captar suas ideias de um daimon, um espírito protector.
Quando essa capacidade se derrama sobre o intelecto e a redunda em visões e outros fenómenos, é a que origina os profetas.
A verdade dos factos, ao analisarem-se essas faculdades humanas, é que eles também ocorrem naqueles que não têm nenhum preparo.
Nestes a razão fica completamente alheia; nem eles sabem o que estão fazendo, embora tenha consciência dos fenómenos.
A maioria das vezes isso ocorre por falta de estudo por parte deles; são o que o comum das pessoas chama de adivinhos, agoureiros e donos de sonhos verdadeiros, que se realizam.
Estes últimos, por falta de preparo, introduzem grandes confusões, embaralham, de forma surpreendente, o real com o ilusório.
Não raro acabam doentes, confusos, com pensamentos desconexos.
Mas, voltando ao seu caso, talvez seja, como pode ver, eu creio, que o que se dá com você esteja nas condições daquele sobre quem essa faculdade se derrama para fazer dele um homem estudioso, dotado de critério e conhecimento, para uso em sua vida, mas sem propensão para ensinar os indivíduos, nem compor obras.
Já com outros se dá o contrário, como os profetas, que recebem a instrução para seu aperfeiçoamento e que vêem nela também algo que os leva, me entenda, a se interessarem pelas pessoas e instruí-las, compartilhando seu próprio aprendizado.
A natureza desse dom de profecia os obriga a comunicá-la aos homens, aceitem estes ou não, inclusive arriscando-se a serem feridos por essa incompreensão e intolerância alheia.
Na vida dos grandes profetas vê-se que eles ensinaram aos homens até morrer, movidos por essa inspiração ou necessidade, sem descanso nem repouso, passando por grandes dificuldades e, não raro, assinando sua obra com o próprio sangue, morrendo nas mãos daqueles que não os compreenderam, como coroamento dessa missão.
– Conheço pouco da sua religião – confessou Karim.
Apenas algumas histórias que nos contava uma servidora.
Porém, lembro que eram cheias de lutas, de sofrimento, de violência.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 26, 2018 8:43 pm

Ela falava muito de José, que previa o futuro em sonhos, e de seu pai.
Ele teve uma vida fantástica; foi de escravo, vendido pelos irmãos, a um vizir do Egipto, não é mesmo?
Benjamim apenas balançou a cabeça concordando.
Não queria entrar no terreno dos sonhos, era amplo demais para ser explorado numa conversa informal.
Conhecimento requer tempo, dedicação, empenho, paciência, perseverança, não chega do nada de uma hora para outra, tampouco se pode ter a pretensão de tudo aprender ou ensinar em alguns minutos.
– Eles são corajosos – insistiu Karim. – Leah, nossa criada, já falecida, também falava de Esther.
Aliás, Você falou dela ainda há pouco.
Ela também profetizava?
– A vida de Hadassa, como a conhecemos, antes de tornar-se Esther, a rainha da Pérsia, é um exemplo por sua dedicação, por sua coragem em afrontar usos, costumes e leis, na defesa de nosso povo e pela sua fidelidade e fé em Deus.
Por isso é considerada uma profetisa.
Sua vida é uma lição.
Entretanto, pouco sabemos a seu respeito.
Sua vida e seus feitos são contados por homens.
Infelizmente, eu lamento isso, a história não tem o toque e visão femininos.
São os homens que a contam e nela omitem a presença e a participação das mulheres, como se elas não existissem.
Isso acontece na minha religião, na sua e também entre os cristãos, embora o Mestre deles tenha sido o mais liberal no tocante a receber como discípulas e instruir mulheres, dando-lhe mesmo o direito de ensinar.
Sempre considerei esse facto interessante e relevante entre os seguidores de Jesus Cristo, apesar de ver que eles – seus seguidores – não lhes imitaram o gesto; deram continuidade à história de invisibilidade e exclusão das mulheres no seio das religiões.
Mas aí está a vida da mulher chamada estrela para nos lembrar de que elas existem, são importantes e que lhes devemos muito.
– Meu amigo, que não nos ouçam os líderes mais exaltados e conservadores – falou Ibn.
Ou perderemos completamente qualquer relevância social que temos, tanto entre seu povo como entre o meu e até entre os cristãos.
Benjamim e Karim sorriram da expressão de fingida preocupação com que o anfitrião fizera tal declaração, mas todos eles sabiam que nenhum exporia à luz do sol e, em público, as ideias que estavam defendendo e discutindo relativas à condição feminina nas três religiões.
***
Enquanto Karim aliviava suas tensões na conversa com os amigos, Amirah recebia a visita do irmão para um entendimento directo a respeito de uma situação que os anos haviam consolidado como uma teia emocional de super-protecção e dependência, feita de fios de aço, entre eles e que precisava ser desfeita, libertando-os.
Num longo e sincero diálogo, conscientizaram-se das razões que os levaram a compor aquela teia aprisionante.
Nesse mútuo reconhecimento, identificaram as necessidades de mudança no comportamento de cada um.
Afinal, a situação se consolidara com a participação dos dois, por isso era necessário que também eles a desconstruíssem, ficando libertos para refazerem as bases do relacionamento amistoso e afectivo que tinham como irmãos.
Para surpresa de Karim, ao regressar tarde da noite, Jamal o esperava e, sem delongas, comunicou-lhe sua permissão ao casamento e à mudança da irmã para Cádiz, acompanhada de Ximena.
Deliberaram que a criada partiria no dia seguinte para a cidade de destino a fim de adaptar a residência dos Al Gassim às necessidades e limitações impostas pela asma à vida de Amirah.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 26, 2018 8:43 pm

SETE ANOS DEPOIS…
Riso e gritos infantis misturados ao som das ondas que quebravam na praia e ao gorjeio dos pássaros marinhos chamaram a atenção de Kiéram.
Após anos de exílio voluntário retornava às paragens de Cádiz, acompanhando uma remessa de mercadoria a ser embarcada para o Marrocos via porto da cidade de Al Gassim.
A viagem era tranquila.
Tomada de uma nostalgia que nunca o abandonara por completo, afastara-se da estrada, deixando que seus homens conduzissem a carga.
Enveredara pelas margens do oceano, passando pelas praias onde estivera o acampamento da luta contra os africanos no episódio da invasão da cidade.
Os lugares eram os mesmos. Ele mudara.
Constatava a realidade dessa mudança, recordando como era sete anos antes.
Retornava a Cádiz com o reconhecimento dos árabes muçulmanos que dominavam a Sicília.
Conquistara lá maior apreço do que gozava em Córdoba à época do emir Munir Al Jerrari e suas confusões.
Seu exército mercenário crescera.
As lutas no Oriente, nas Cruzadas, o atraíam.
Por lá existiam muitas riquezas e batalhas.
A necessidade faz o preço, diz a milenar lei de mercado; em sua actividade não era diferente.
Tinha mulher, em breve teria filhos, mas as lembranças de uma jovem e exuberante muçulmana o atormentavam.
A bebida tornara-se uma companheira de certa regularidade, que lhe anestesiava a dor e a mágoa.
Nunca se libertara do passado e torturava-se pensando no que poderia ter sido sua vida, e ela sempre lhe parecia melhor do que a que tinha.
Fantasiava, recusando-se a deixar que o esquecimento trabalhasse a paixão que um dia sentira por Layla.
Era bom marido; continuava zeloso com a mãe; a irmã casara-se.
Enfim, a família estava estabelecida nas terras distantes.
E ele, aparentemente, também, mas só aparentemente, no íntimo movimentavam-se as fantasias que o prendiam a Al-Andaluz.
Olhando ao longe, reconheceu os telhados e as paredes brancas das construções da cidade.
Cádiz estava próxima.
Prestando atenção aos sons, vislumbrou crianças pequenas correndo na praia.
“Talvez tenha construído uma casa nas proximidades!”, pensou ele.
À certa distância, para não assustá-las, desceu e ficou observando-as, encantado com a cena ingénua.
Os três pequenos totalmente molhados brincavam com as ondas e os pássaros, rolando na areia, levados pela força do mar.
O sol forte da tarde prateava as águas verde–azuladas, e as crianças morenas o encantavam cada vez mais.
Era fácil notar que aa menina era a mais velha e comandava os irmãos.
Um dos meninos era ainda um bebé, talvez tivesse dois anos, e ela cuidava dele como se fosse seu brinquedo favorito.
O outro deveria ter uns cinco anos, não mais.
Era altivo, independente, mas também era zeloso com o menos e obediente às ideias da menina.
– Será que estão sozinhos? – murmurou Kiéram para si.
Devem ser filhos de pescadores, estão familiarizados com o mar.
Improvisando uma sombra com a mão em concha sobre os olhos, protegendo a visão da claridade do sol, vasculhou as proximidades.
Sentada sobre uma duna, perto das crianças havia uma pessoa e, mais adiante, um cavalo.
Demorou a vê-la, pois as cores de sua roupa, muito clara, se misturavam com a areia.
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