O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 26, 2018 8:43 pm

Também a pessoa sentada nas dunas percebeu sua presença, pois correu para perto das crianças, chamando-as pelos nomes:
Guadalupe, Hálim e Zafir.
Recolheu-as, apressada.
Kiéram distinguiu tratar-se de um vulto feminino.
Mas logo ela colocava os filhos sobre o animal e partia em galope acelerado.
Com certeza, temera sua presença.
A praia estava deserta e, naqueles dias, a violência em Al-Andaluz era grande.
Ninguém sabia mais quem eram os inimigos.
– Pobre mulher! Assustou-se.
Mal sabe que estava encantado com seus filhos – murmurou Kiéram, grato porque a visão das crianças afastara de sua mente as recordações do passado.
***
No pátio da propriedade da família, Amirah recebia a cunhada e os sobrinhos, sorridente.
– Layla, eles estão lindos assim tão sujos!
Onde estavam?
Parece que rolaram…
– Na praia – respondeu Layla, entregando o bebé para Amirah, depois auxiliando os outros a descerem.
– Hálim está imundo – comentou Amirah, observando com ternura o sobrinho menor.
Se seu pai o vir nesse estado ficará chocado.
– Tia, é tão brincar no mar.
Não diga nada pro papai.
Ele não pode saber que a mamãe nos leva lá – implorou Zafir, com seus grandes olhos escuros tão parecidos com os da mãe.
– Ela não vai dizer nada – ralhou Guadalupe.
Não precisa ficar choramingando.
É só pedir e o papai nos leva.
Mamãe, amanhã nós vamos à praia de novo?
– Não sei, Guadalupe.
Seu pai deve chegar hoje à noite ou amanhã.
Talvez ele queira retornar a Córdoba logo e tenhamos que nos preparar para a viagem.
Já aproveitaram o verão.
Se o pai de vocês quiser partir amanhã, não quero ouvir choro, certo?
– Se você pedir, o papai deixa – disse Zafir para a irmã.
Pra você ele não vai dizer que não.
Salma, parada sob o batente da porta, olhava consternada a sujeira das crianças, mas admirava a forma como sua senhora os educava.
Diferente de muitas mulheres, ela tinha os filhos próximos a si.
Era ela quem os ensinava e não fazia distinção na educação de Guadalupe e Zafir.
Hálim era ainda muito pequeno, mas participava de todas as actividades possíveis à sua pouca idade.
Naquele verão, ninguém reconheceria sob as vestes simples, cercada de crianças sujas, a esposa do Califa, a soberana de Al-Andaluz.
– Venham, crianças – chamou a serva. – Hora do banho.
Depois iremos acompanhar as orações. Vamos.
– Eu cuido de Hálim.
Pode levar os outros – disse Amirah, dirigindo-se à criada.
Salma sorriu, baixando a cabeça.
O afecto da esposa do emir pelo sobrinho menor saltava aos olhos.
Durante as semanas que passara com a cunhada e o irmão, Layla percebera o desejo da cunhada de ter filhos, mas sabia que os riscos desaconselhavam.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 26, 2018 8:43 pm

Deixara-a realizar-se cuidando de Hálim.
Esperava que o irmão percebesse a generosidade da mulher com quem se casara e acolhesse seu pedido de que tomasse outra mulher por esposa ou concubina para lhe dar filhos.
Não era só herdeiros que Amirah desejava para o marido, queria crianças correndo pela propriedade, que ela amaria como se fossem nascidas de seu corpo.
Adara enxergava essa realidade e a conhecia por experiência própria.
Filhos legítimos ou adoptados não fazia diferença quando havia amor a ser dado.
Mas Karim relutava.
Estava feliz com seu casamento, mesmo podendo, não queria outras mulheres.
***
Um véu de seda branca com bonitos bordados, largado sobre a mureta do pátio, esvoaçava com a brisa da noite.
Uma pequena pedra o impedia de voar. Kiéram sorriu.
Parecia que sempre haveria em Cádiz uma mulher rebelde, abandonando seus véus.
Ao final da tarde procurara Karim e acabara aceitando a hospedagem oferecida por ele.
Era melhor que a hospedaria.
O encontro fora amigável, mas lhe parecera que ele escondia alguma informação; havia um temor, uma contrariedade latente no comportamento de seu anfitrião.
Apesar de amistosa e leve, sentira a conversa permeada por uma tensão, por palavras não dita de parte a parte.
Um fantasma pairara sobre o encontro, lançando uma sombra fria, cinzenta.
“Eu não fiz as perguntas que desejava.
Não indaguei sobre Layla.
Que era, de facto, o que eu gostaria de saber.
Como ela estará? Será que é feliz?
Que aconteceu a sua vida nesses sete anos?
E Karim? Bem, Karim, também não me disse o que desejava.
Aliás, nunca falamos sobre minha relação com ela.
Como sufoca ter que aceitar esse silêncio imposto!
Como tortura tantas perguntas e nenhuma resposta”, pensava Kiéram, caminhando ao lado da mureta do pátio, sem perceber que havia alguém no lado mais escuro, rente a parede.
– Quem está aí? – ouviu a pergunta.
E sentiu seu coração disparar – reconheceria a voz firme e decidida de Layla em qualquer lugar.
– Layla?! – respondeu alegre.
É você? Onde está? Não a vejo!
– Kiéram? Kiéram Simsons?
– Sim, sou eu – disse ele, encaminhando-se para o centro do pátio.
Layla escondera-se atrás do grosso tronco da árvore centenária.
Largou suas armas no chão e, sorrindo, caminhou ao encontro dele.
Olharam-se avaliando o que aquele tempo fizera a cada um.
– Você continua a mulher mais fascinante que conheço – murmurou Kiéram.
Seu marido é um homem abençoado por Alá, com certeza.
Ela riu, lembrando-se das várias discussões que tinha com Jamal e retrucou:
– Não tenho essa certeza; talvez eu seja uma maldição.
Mas o que tem feito? Venha, vamos nos sentar ali, no banco.
Que tal a vida na Sicília? Era o que desejava?
Só fiquei sabendo de sua partida algum tempo depois.
– Não devo reclamar da vida, apesar de ela não ser como eu queria.
Estou bem. E você?
– Com uma vida bem mais pacata do que tive quando o conheci.
Mas estou bem. Não me arrependo das escolhas que fiz.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 26, 2018 8:43 pm

– É bom poder dizer isso.
O arrependimento é muito triste, cruel.
É a ruína do ser humano.
– Por Deus, que dramático!
Você se arrepende de alguma coisa?
Deve haver uma razão para um pensamento tão… tão pesado, se é que pensamentos têm peso – brincou Layla.
– Você é feliz, Layla? – insistiu ele, ignorando a pergunta.
Tinha o olhar fico no rosto dela e notou que ela emudecera, constatando todo anseio que carregava em sua alma.
– Por favor responda - pediu ele.
Honestamente. Eu preciso saber.
Não vim a Cádiz pensando em encontrá-la, nem poderia.
Imaginei que Jamal a trancafiasse em Córdoba.
Mas, já que a vida fez esse reencontro, diga-me: você é feliz?
Nunca aquela conversa inacabada sobre as muralhas desta cidade lhe perturbou a consciência?
Porque a mim ela tortura.
Tomada de surpresa com a confissão.
Layla não encontrava palavras.
Não sabia mesmo o que dizer. Estava confusa.
Um longo silêncio imperou entre eles.
Kiéram viu a confusão na íris negra e calou-se; não tinha a intenção de ser mensageiro de agonia.
Por fim, disse:
– Esqueça. Não tenho o direito de lhe pedir explicações sobre sua vida. Perdoe-me.
E fez menção de se levantar, sendo detido pela mão de Layla que o reteve.
– Espere – pediu ela.
Você tem razão de me pedir explicações.
Eu lhe devo isso, afinal tenho consciência de que a tornei parte de meus planos.
Reconheço que o usei.
Não pretendia ferir seus sentimentos, nem ao menos imaginei que eles pudessem ter essa força.
Sou eu quem lhe pede perdão.
Perdoe-me, Kiéram, pelo que fiz, pelas acções e decisões que tomei; não pretendia magoá-lo.
Fiz o que julguei ser o melhor.
Eu não costumo olhar para trás, você conviveu muito pouco comigo, apesar da intensidade daqueles dias.
Eu não sou nada romântica.
Uma mulher do meu povo e da minha religião não pode ser dominada por paixões desse tipo.
Ela não sobreviveria aos costumes que acabam, de alguma maneira, sendo impostos.
Acredite-me. Aprendi, com minhas mães, essa lição.
– É uma visão muito dura, cruel – rebateu Kiéram.
– A vida sob o véu é dura, é cruel, exige muito das nossas emoções, de nossa razão, para que tenhamos a força de sobreviver, não enlouquecer e, com o que a vida nos oferece e nos é permitido, encontrar a felicidade.
– É possível ser feliz sem amar, Layla?
Sem estar com quem se deseja? Se você conseguiu, me ensine.
– Eu não sei muitas coisas.
Acho que nenhum de nós ainda a aprendeu a amar.
Já ouvi muitos conceitos, mas todos me parecem incompletos, idealizados demais.
Quem lhe garante que, vivendo com quem você deseja, seria feliz?
Crê que essa pessoa nunca o magoaria, não o decepcionaria, não o faria sentir raiva?
Ou que você não a faria sentir tudo isso.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 26, 2018 8:44 pm

Se você pensa em mim para esse lugar, creia, haveria dias em que você quereria o demónio a seu lado e não a mim.
– É possível, mas… a frustração talvez seja pior.
– Seja racional, Kiéram.
Qual seria seu futuro a meu lado?
Sua carreira estaria destruída.
Sua família não me aceitaria, ou, se aceitasse, com as dificuldades de frequentes fugas, para fugir da lei muçulmana acabaria por me odiar e me culpar pelas complicações.
No que teria razão.
Nosso destino juntos, Kiéram, seria alguns anos de paixão e muitas brigas, raivas, rancores e, por fim, ambos ardendo vivos numa fogueira.
Que como sabe é a pena para os casais que ousam descumprir a lei.
E, se não fossem os muçulmanos a nos queimar, seriam os cristãos.
A intolerância é, de parte a parte, a mesma.
– Foi disso que desejou fugir?
Esse foi seu medo?
– Essas eram minhas escolhas.
Não se esqueça de que já naquela época eu era uma pária.
Pelas leis do meu povo, minha própria família, minha mãe e meu irmão, deveria ter pedido minha morte.
Eu, aos olhos da sociedade, os desonrei.
Não lhe parece que eles foram corajosos demais em afrontar os costumes para me defender?
– Nada disso se tornou conhecido.
– Mas se tornaria se eu houvesse partido com você.
E, ainda que eles não tivessem feito nada, outros fariam.
Meu pai morreu; Zafir foi assassinado.
Eu matei, para me defender e para fazer o que acredito precisava ser feito, mas, ainda assim, matei.
Sofri todo tipo de violência que você possa imaginar que uma mulher suporta.
Aquele caminho eu não queria mais.
Bastou. Não era preciso que os outros soubessem, eu sabia, eu tinha vivido.
Não era necessário mais do que isso para saber o que eu desejava.
Não sou ingénua, Kiéram, sei o limite das minhas forças e aprendi que é preciso conhecer o inimigo.
Nada poderíamos sozinhos, contra toda uma sociedade.
Eu não quis morrer numa fogueira. E não quero.
Sei que não poderei matar todos os homens que fazem as leis e oprimem as pessoas, são muitos.
Eles proliferam; a probabilidade era que eu acabasse morta.
Layla fez uma pausa, lançou um olhar na direcção das muralhas, onde havia vivido, no passado, aquele momento que debatiam.
– Eu não sabia que Jamal desejava tomar-me por esposa.
Não premeditei esse casamento.
Não fiz uma escolha entre ele e você.
Entre o fácil e o difícil.
Não vejo a vida por esse ângulo.
Aceitei o possível e, creia, poderia ter sido muito mais difícil.
Mas a felicidade ou infelicidade são, pensou eu, a forma como vemos nossas próprias atitudes, como aceitamos ou não a vida.
O Criador nos dá o presente – o tempo e a oportunidade de viver; como, de que forma, com que pensamentos e sentimentos, isso corre por nossa conta.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 26, 2018 8:44 pm

Poderia ter feito de minha vida uma tortura, poderia deitar-me num quarto escuro e chorar sobre minhas feridas, poderia reclamar a todo instante do meu casamento, poderia deixar minha mente criar tantas ilusões quantas comportasse e me aprisionar a elas, não enxergando, sequer, a ponta do meu próprio nariz, em termos de realidade dos factos.
Isso seria horrível.
Mas a vida me permite fazer a ver as coisas de outra maneira.
E eu decidi ser amiga de meu marido, aceitar o que não posso mudar, deixar minhas feridas no passado, não olhar para trás, viver da melhor forma com o que eu tinha em mãos, atendo-me sempre ao presente, ao que estava em meu poder fazer, ao que era necessário e possível.
Um dia depois do outro, Kiéram, a vida e as pessoas me compensaram por eu viver assim.
Não tenho dúvidas de que Jamal aprecia a vida a meu lado.
Somos felizes.
Tenho três filhos lindos, saudáveis, que eu adoro e me enchem de afecto.
Muitas coisas ainda me incomodam e incomodarão até o fim dos meus dias, com certeza, mas descobri que cada mulher – que vive sob o véu – precisa destapar a própria cabeça.
Se eu arrancasse esse maldito véu delas, muitas correriam envergonhadas a se esconder, com medo de que seus cabelos fossem vistos.
Essas grandes mudanças que eu desejo só posso realizar na minha vida, na vida das minhas filhas, pela forma como as educo.
Na vida dos outros, sou tão só elemento para que pensem, que reflictam.
Para uns sou escandalosa; para outros, ousada; para outros, objecto de desejo, de inveja, de admiração, não sei, cada um sabe de si, e eu não me importo nem um pouco com o que dizem as línguas a meu respeito.
Enfim, Kiéram, não me arrependo de nenhum dos meus actos; assumo total responsabilidade sobre eles; também não guardo mágoa, nem rancor, pelo que fizeram comigo.
Há muito tempo entendi que não posso exigir dos outros que sejam ou pensem da forma ideal ou como eu gostaria.
Cada um é o que é, o que pode ser nesse momento e acredita estar fazendo o melhor e o mais correto.
Viver é aprender, acredito nisso.
Portanto, não existe o certo e o errado, existe aquilo que nos foi possível aprender e aquilo que ainda não entendemos, só isso.
Seria muita falta de inteligência da minha parte remoer mágoas e sofrer porque alguém ainda não aprendeu uma forma melhor de se conduzir e enxergar a vida.
Acho que isso é problema dele; enquanto não aprender, irá sofrer; por minha vez, se consigo entender esse facto, não há razão para sofrimento; o problema não é meu, não é comigo.
– Devo entender que você quer dizer que é feliz e não mudaria suas escolhas, se tivesse a mesma chance outra vez?
– É, eu não mudaria – respondeu Layla com segurança.
Kiéram soltou a mão.
Ela não tentou impedi-lo.
Quando saía pelo portão, apanhou o véu, enrolou-o, escondendo-o preso ao cinto.
Sentindo-se aliviado, sem entender a razão, lançou um olhar à mulher sentada nas sobras da noite e disse:
– Boa noite, Layla.
Seja feliz!
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 26, 2018 8:44 pm

LILITH, A FACE OCULTA DA LUA
Na noite escura de Córdoba, as estrelas brilhavam como diamantes.
O crepitar das fogueiras e o som das flautas e tambores anunciavam que as actividades políticas do dia encontravam distracção e descanso após o pôr do sol, em alegres festejos.
A situação política continuava delicada, e reunir as principais famílias dos reinos taifas do território de Al-Andaluz era sempre medida prudente que garantia certa unidade ao atacado império muçulmano, tanto pelas divisões internas quanto pelo anseio de reconquista dos reis cristãos.
A jornada fora exaustiva, e a festa era, por isso, muito bem-vinda.
Benjamim e Ibn Rusch sentavam-se a alguns metros de Jamal, mas próximos o bastante para serem considerados convidados de honra em sua corte.
Tinham perfeita visão de seu anfitrião, embora não pudessem ouvi-lo ou ser por ele ouvidos, salvo no breve discurso inicial de boas-vindas e no anúncio das danças que se iniciariam para deleite dos convidados.
Sucediam-se as demonstrações do amplo leque de danças árabes, e os convidados animados acompanhavam batendo palmas ao ritmo das músicas.
De repente, para surpresa de todos, o ritmo mudou:
as flautas se tornaram dolentes, os dançarinos que se apresentavam dividiram-se em duas fileiras, e uma dançarina, envolta em véus multicoloridos e exibindo facas nas mãos, adentrou o centro do pátio, rodopiando por entre as fogueiras.
Via-se, da mulher somente os olhos negros, indevassáveis e brilhantes.
Jamal, tomado de surpresa, esqueceu-se da festa e dos propósitos políticos.
Reconheceria os olhos de Layla em qualquer lugar.
A sinuosidade e sensualidade explícita de seus movimentos não deixavam dúvidas.
Era a primeira vez, ao longo de todos aqueles anos, que ela dançava em público e, pela forma como o olhava, estava claro para todos que dançava para ele.
Era sua forma de hipotecar solidariedade à sua busca por unificar e fortalecer o povo andaluz.
Seu gesto dizia aos presentes que aquele homem merecia ser seguido.
Ela pretendia seduzir os expectadores e entregá-los aos pés do marido.
Assim como fizera ao longo do dia, acompanhando-o em todas as assembleias, ouvindo e sugerindo ideias, com um véu diáfano e mal preso a cobrir-lhe os cabelos, que leves movimentos da cabeça faziam deslizar.
“Como não amar essa mulher?”, perguntava-se Jamal, encantando com a atitude ousada da esposa.
Em meio aos movimentos do ventre e dos braços, que lembravam uma serpente, ela brincava com as facas num jogo mortal, não fosse sua extrema habilidade, arrancando suspiros de uma plateia enlevada.
Benjamim a observava, também preso à magia da dançarina.
Sentindo dificuldade de prestar atenção aos comentários que seu acompanhante fazia, registrou somente o final:
– Deve ser por isso que se associam as ideias de sensualidade e serpente.
– O quê?
– Eu disse que deve ser por essa facilidade de movimentos que se associam as ideias de serpentes, répteis, e a sensualidade das mulheres.
São, afinal de contas, o símbolo da perdição.
Jamal, ao menos, parece feliz com sua filha de Eva – comentou Ibn Rusch.
– Layla não pode jamais ser chamada de filha de Eva, meu caro – retrucou Benjamim.
– Como não?
Ela é digna representante da casta das mulheres tentadoras.
Que não me ouça o nosso Califa.
– Ah, você tem muito a aprender, Ibn.
Sobre coisas antigas, eu quero dizer.
Sei que o Alcorão adopta muitos ensinamentos da minha crença e que mescla ensinamentos cristãos.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 26, 2018 8:44 pm

Mas aprenda comigo:
Eva não foi a primeira mulher criada.
Ela é a segunda esposa de Adão.
Ante o olhar surpreso de Ibn, Benjamim fez um discreto sinal, apontando a dançarina, e declarou:
– Diga antes que ela é filha de Lilith.
– Não conheço.
De onde tirou essa ideia?
– Livros antigos são sempre reescritos.
Já lhe disse que é preciso desvendar as metáforas, e não dar interpretação literal a todos os textos sagrados, especialmente os do judaísmo.
É um equívoco que muitos cometem.
Daí, não encontrando lógica ou significação, acusam-nos de muitas inverdades.
– Mas quem é Lilith?
– A primeira esposa de Adão.
A primeira mulher a ser banida dos textos religiosos e ter sua memória enxovalhada, condenada ao esquecimento, a ser quase invisível.
Esqueceram-se de apagar algumas referências a ela feitas pelo profeta Isaías.
Notando que o assunto acabara atraindo a atenção de Ibn, voltou-se para ele e relatou:
– No Génesis consta que o Senhor criou em sete dias tudo o que conhecemos.
Observe que, na narração da obra, do quinto dia diz-se que Ele criou o homem à sua imagem e semelhança e que os criou homem e mulher{20} aparentemente da mesma forma, com os mesmos direitos e deveres, sem distinção no trato das coisas da criação.
Abençoou-os e lhes disse que fossem fecundos, se multiplicassem, enchendo e sujeitando a Terra, dominando todas as outras espécies.
Veja, não há referências a Adão, nem a Eva, apenas a homens e mulheres.
Esses nomes vão surgir depois.
Quando sem explicação, o homem alega solidão diante do Criador, é então que surge a figura de Eva, nascida de uma costela de Adão{21}.
Nunca você se perguntou que fim tomou a primeira mulher, ou as outras mulheres criadas.
Elas desapareceram e, de uma hora para outra, o homem se viu só, implorando a Deus uma companheira.
E, quando se fala dessa nova mulher para Adão, refere-se a ela como sendo idónea e auxiliadora para ele.
Eva não é natural; ela é derivada do homem.
Há mesmo filósofos cristãos que defendem que as mulheres, por essa origem, não podem ser consideradas semelhantes ao Criador e, sim, semelhantes e dependentes do homem{22}, matéria da qual se originam.
– Confesso que nunca tinha prestado atenção a esses detalhes.
Deduzo que a mulher desaparecida seja Lilith.
Quem era ela?
– Ibn, não se esqueça, eu não defendo a literalidade dos textos bíblicos.
Eles precisam ser interpretados e representados no simbolismo que encerram.
Lilith é a mulher natural, é o ser feminino revoltado com a subjugação do homem, com o domínio que sobre ela o homem desejou obter.
Lilith abandonou Adão.
E a associação da sensualidade e liberdade da mulher com as serpentes vem dela.
Lilith transformou-se na serpente unida a Samuel que tentou Eva, instigando-a a provar da árvore do conhecimento.
– Fascinante.
E como você interpreta essa história: lenda, mito, metáfora?
Qual o sentido?
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 26, 2018 8:44 pm

– Um pouco de tudo – retrucou Benjamim, lançando um olhar a Layla que, ajoelhada ao solo, dobrava-se até encostar com as costas nos pés.
Os cabelos escaparam do último véu que lhe envolvia a cabeça e o corpo, revelando os trajes primorosos e sensuais das odaliscas dos reis árabes.
No ventre exposto, cintilava no umbigo uma jóia antiga, um rubi flamejante, que reflectia as luzes das tochas, igual às jóias que lhe enfeitavam os braços, o colo e a testa.
Realmente ele lembrava uma cobra, deslizando rápida e sinuosa pelo solo.
– Lilith é a rebeldia do feminino, da mulher, a dominação que sobre ela se faz.
Eva é a mulher subjugada, submissa, mas, mesmo nessa, em algum lugar de seu íntimo, há uma voz rebelde, chamando-a a libertar-se.
Isso é a minha interpretação, olhando-se a questão da mulher.
Acredito que a história esteja aí escrita em metáforas.
Sabemos que, na antiguidade distante e nos cultos das religiões pagãs, a condição das mulheres era muito diferente.
Elas tinham o poder.4 Lilith é também a representação desse passado revoltado, e Eva o presente papel da mulher nas religiões patriarcais.
Por outro lado, também poder ser visto como a luta interna de todo ser humano e um convite a uma visão mais ampla da nossa história, enquanto humanidade.
Nesse caso, Adão e Eva, a serpente e Samuel, podem ser entendidos como o intelecto e o corpo, a imaginação e o desejo.
Ou o corpo e as forças da alma em sua luta milenar na busca do equilíbrio.
Veja, se atribuímos maior atenção à imaginação e ao desejo, o intelecto se degrada e, com ele, o corpo.
Se a imaginação controla a razão, em vez de ser guiado, fica sujeita ao desejo que enfraquece e degrada o corpo.
Em ambos haverá morte.
Civilizações e espécies se sucedendo para um dia abrigar uma forma humana equilibrada, ou a caminho do equilíbrio, nas forças que a presidem.
Afinal, masculino e feminino existem em tudo, em toda e qualquer forma viva.
– Já ensinavam os gregos com suas histórias sobre as metades eternas, divididas pela ira divina e condenadas a se buscarem por toda a eternidade.
Como nossa história é cercada de lendas!
Por que tantos ensinamentos embalados em lendas e mitos?
– O Senhor deve ter suas razões para permitir esse ensinamento.
Eu só posso pensar que é como alimentarmos bebés; conforme eles crescem, muda-se a qualidade do alimento.
Com nossa compreensão deve se passar o mesmo.
Quando ela se amplia, entendemos e mastigamos ideias mais amplas.
Voltando ao Génesis, vemos o que antes não víamos.
A vergonha atribuída a Adão e Eva, por se enxergarem nus, é apenas outra metáfora para dizer que atingiram um nível de consciência maior que lhes permitiu enxergar o que antes não viam, mas que, nem por isso, deixava de existir ou estar lá.
A cegueira era condição deles, a coisa vista não sofreu modificação. Eles é que mudaram.
– E o que me diz de Caim e Abel?
O que são?
– Os filhos de Adão e Eva, mas você esqueceu-se de Set. São três.
Simbolizam as sucessivas civilizações sobre a Terra e o aprimoramento que cada uma sofreu e que cada ser humano carrega consigo, como progresso da espécie.
Abel é o tipo vegetativo; apenas força vital, sobrevivência.
Caim é o surgimento do instinto, do aspecto animal, da capacidade de destruir, do anseio de conservar, de dominar.
Ele elimina Abel que é mais frágil, sucedendo-o.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 26, 2018 8:45 pm

Por último, surge Set que supera Caim.
Set representa o domínio da razão; é o ser intelectual, racional, consciente.
A descendência de Set forma a humanidade nascida de Adão e Eva.
É a história de toda humanidade, da vida humana na Terra e, ao mesmo tempo, das lutas que cada alma reproduz em seu crescimento como criatura humana.
Ibn com a mente tomada e em actividade com as ideias lançadas por Benjamim, voltou sua atenção à apresentação de Layla.
Naquele instante Jamal erguia-se e estendia a mão à esposa, que encerrara a dança enroscada e caída ao solo.
Graciosamente ela se ergueu, sorrindo para o marido e agradecendo os aplausos dos convidados.
Com um pequeno gesto, sinalizou aos músicos que iniciaram uma música suave.
Por detrás das mesmas fogueiras, Guadalupe participava da festa, estreando como dançarina e aprendiz da mãe.
– Lilith e Eva, duas faces da história da mulher – murmurou Ibn.
Olhando-as com novo entendimento, ainda mais liberal e livre de culpas e pecados que as religiões insistem em lançar sobre a natureza feminina, sorriu para Benjamim e disse:
– Até o nome de Layla lembra Lilith.
Benjamim aquiesceu, silencioso.
Desde que a conhecera relacionara seu nome à palavra hebraica lail, que significa noite.
E a noite esconde mistérios, oculta forças.

Fevereiro de 2007.
José António


{1} O islão não possui sacerdócio organizado e qualquer homem adulto pode ser imã, designação dada ao dirigente das preces e dos sermões na mesquita, porém usualmente é um funcionário da mesquita com boa educação teológica.
{2} Sura de abertura do Alcorão que se transformou em oração, sendo uma das mais conhecidas e recitadas entre os muçulmanos que a decoram ao estudá-lo.
{3} Ministros
{4} Expressão árabe que significa Filosofia.
{5} Antigo ditado árabe.
{6} Antigo ditado árabe.
{7} Judeus e cristãos.
{8} O comentário é em razão do significado do nome. Amirah significa princesa.
{9} Lei muçulmana.
{10} Pedra sagrada dos muçulmanos localizada em Meca, na direcção da qual eles se prostram em oração.
{11} Alcorão. Al-Hadid, 57:1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 20.
{12} Alcorão. Al-Hadid, 57:29.
{13} Citação da sabedoria popular árabe.
{14} Chovia fortemente, e o homem mais santo da aldeia corria em busca de abrigo.
Nasrudim, ao vê-lo, vociferou:
“Como ousa fugir da graça de Deus, do líquido do céu?
Como devoto, você deveria saber que a chuva é uma bênção para toda a criação”.
O homem santo, ansioso em preservar a reputação, murmurou:
“Não havia pensado dessa forma”
E passou a andar lentamente.
Chegou a seu destino encharcado e apanhou um resfriado.
Dias depois, a situação inverteu-se.
O homem santo, sentado no beiral da janela, bem agasalhado, viu Nasrudim correr sob a chuva e indagou-lhe:
Por que estás correndo das bênçãos divinas?
Como ousas rejeitar a bênção que a chuva contém?
” Sem dar-se por achado, Nasrudim, de pronto, retrucou:
“Ah! É você que não vê que estou tentando não pisar nas gotas sagradas”.
{15} João 20,17.
{16} Sura 257 do Alcorão.
{17} Referência ao romance Escravo da Ilusão, de nossa autoria.
{18} Kardec, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap.VII, item 7.
{19} Friedrich Nietzche, in Humano, demasiadamente humano. Um livro para espíritos livres. Origem da Justiça. Ed. Companhia de Bolso.
{20} Génesis 1,23-28.
{21} Génesis 2, 18-22.
{22} Referência ao pensamento de Santo Agostinho.

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Ave sem Ninho

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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

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