O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 05, 2018 8:45 pm

Assim também fazemos com nossas vidas.
As escolhas, as decisões que muitos tomam seguem o princípio das ovelhas abrindo caminhos:
não são pensadas, nem reflectidas, são dirigidas unicamente por instinto ou desgoverno de si, agindo ao sabor de emoções fortes que arrastam.
Entretanto, abrem caminhos e, mais tarde, usando a razão, terão de transformá-las em estradas, ampliá-los, dar-lhes frequentemente correta direcção, enfim, retomar e aperfeiçoar um trabalho em curso.
Entenda e aceite que Deus pode usar “ovelhas” para conduzir os homens ao recto caminho.
Por isso, renda-se à vontade do Clemente e acate sempre suas sábias decisões.
– Posso saber a razão dessa recomendação? – questionou Karim, repetindo baixinho o que lhe ia no pensamento.
Se alguém o visse, poderia deduzir que falava dormindo.
“ – O futuro.
O facto de que é sempre sábio distinguir homens de ovelhas; ainda que se escondam sob a pele humana, pois a forma pela qual decidem, guiados exclusivamente por instintos e grosseiros sentimentos, deixa a nu sua real condição” – respondeu a voz, afastando-se do pensamento de Karim tal qual se aproximara.
O moço apreciava as ideias que lhe chegavam por essa via.
Embora ela não fosse frequente, poder-se-ia considerar como constante em sua vida.
Em geral, quando vivenciava uma situação difícil, na qual não conseguia se desembaraçar do mal-estar interior, da incerteza, “a voz” o socorria e suas ideias contribuíam para que ele tivesse um comportamento equilibrado e sereno.
A ideia sugerindo pensar em ovelhas e a forma de se construir caminhos o fez pensar.
Recostado na árvore, olhos fechados, não percebeu que lentamente o sol se punha.
Foi o chamado do minarete da mesquita para as orações do final da tarde que o fez erguer-se, abandonando o agradável local de reflexão e indolência.
Da sacada de seus aposentos, Layla observava o caminhar calmo do irmão.
Também ela fora desperta de suas meditações pelo chamado da mesquita.
O sinal sempre lhe trazia à memória o semblante de Zafir, seu olhar alegre e inteligente.
– Meu noivo?! – murmurou ela com um pequeno sorriso desenhando-se em seus lábios e um estranho brilho iluminando o olhar profundo.
– Que estranho!
Eu casada… e com Zafir!
Penso e penso sobre isso; a ideia é inteligente, resolveu uma situação delicada, mas… mesmo sabendo que toda mulher deve se casar e dar filhos, ter um marido, um lar, aceitar outras esposas, eu, simplesmente, não consigo enxergar esse futuro.
O que há que me encobre essa visão?
Até hoje, sempre consegui ver com clareza a realização dos meus projectos, enxergá-los concretizados em minha mente e agir para vê-los deixar o mundo das ideias e sonhos para ingressarem no plano das realidades.
E justo esse… por mais que me esforce, nem ao menos uma simples imagem se forma em meu pensamento.
Não me vejo sendo preparada para um casamento.
Não vejo Zafir compartilhando a existência comigo como meu marido.
Parece haver um vazio em meu futuro; de repente, não mais que isso, tudo e todos parecem sumir da minha vida.
Será essa sensação um efeito do choque de ter que encarar uma ideia pouco simpática como a de casar-me?
Karim desaparecia na entrada da residência, e o olhar de Layla fugia para vislumbrar a abóbada da mesquita.
Seu monólogo prosseguia:
– Zafir, meu querido Zafir…
Ah! É tão estranho e ao mesmo tempo tão natural que seja ele o meu prometido.
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Ave sem Ninho

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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 05, 2018 8:45 pm

Somos tão semelhantes em tantas coisas, mas tão diferente no modo de sentir e agir.
Compartilhamos o amor ao conhecimento, à filosofia, à religião, ao pensar, à formação de livre opinião.
Sei que são poucos os grupos muçulmanos que admitem tal liberdade e sei que são pontos de contacto muito importantes.
Adoramo-nos desde muito cedo.
Entretanto, sei quem sou e sei quem é Zafir.
Ele é doce, meigo, vive para avida do intelecto.
Eu compartilho disso, mas sinto ânsia de voar como Dédalo, de fugir doa labirintos que os homens construíram e onde prenderam as mulheres.
Eu preciso sentir o vento no rosto desmanchando e soltando meus cabelos, arrancando o maldito véu.
Eu amo comandar as águias e sei que sou capaz de matar friamente se algo desperta minha ira, de premeditar cada gesto.
Nunca senti a força do ódio, mas sinto que sou capaz de vivê-lo e tenho medo do que posso ser capaz de fazer.
Sei que sou como as fases da lua e posso estar tanto em plena luz, como deixar que as trevas envolvam-me ocultando sobre seu manto acções terríveis.
Será que meu querido Zafir merece ter uma esposa assim?
Ele é tão pacífico, tão comedido e constante.
Em mim, só a exuberância é constante.
Ouviu os ruídos dos homens deixando o palácio em direcção à mesquita, limpos, purificados para serem dignos de penetrar no local de oração e fé.
Vendo-os caminhar ordeiramente numa procissão de turbantes brancos e túnicas, a jovem sorriu; apreciava as demonstrações de fé e submissão da comunidade.
Entendia que esses pilares eram solidamente construídos no íntimo de cada um e garantiam sua unidade e força.
Eram também a razão de em tão curto espaço de tempo – historicamente falando – a nova religião haver se expandido tanto, suplantando o politeísmo dominante na cultura árabe pré-islâmica.
Com cuidado, afastou-se da sacada.
A consciência lhe impunha o dever de reunir-se às esposas de seu pai para juntas se purificarem e, no recesso doméstico, fazer as orações, cantos e danças.
Evitou pensar por que os homens iam à mesquita e as mulheres viviam sua religiosidade dentro das casas, cantando, dançando, orando e preparando comidas e bebidas típicas das datas especiais do calendário do islã.
– Há momentos em que é preciso calar o pensamento e a consciência – disse para si mesma durante a luta interior para não abrir uma discussão interna.
Hoje é um deles.
Basta os tumultos do dia, não preciso acrescentar-lhes o peso das tradições seculares.
Minutos depois de deixar seus aposentos ingressava na casa de banhos das mulheres da família Al Gassim.
Ao se aproximar, ouviu o alarido das vozes conhecidas e foi envolvida pelo aroma dos óleos e essências.
Aspirou-os contente.
Adorava perfumes; tinham um poder relaxante e a carícia da água em sua pele seria benéfica.
Farah encontrava-se recostada na lateral da ampla piscina conversando baixinho com Adara; não era preciso muita perspicácia para descobrir o assunto.
Ao ver a chegada da filha que despia o manto, antes de descer os degraus, mergulhando deliciada na água, sorriu e estendeu-lhe os braços, chamando-a para juntar-se a elas.
– Adivinhe sobre o que conversávamos? – propôs Farah.
Fingindo grande concentração na análise das expressões delas, arriscou:
– No meu brilhante compromisso com o primo Zafir.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 05, 2018 8:45 pm

– Maravilhoso plano, Farah – elogiou Adara.
É perfeito.
Concretizando-se essa união, garantimos um futuro feliz para nossa menina e a mantemos próxima e livre como sempre foi.
Não consigo imaginá-la vivendo longe destas terras e do nosso povo.
Farah, orgulhosa de seu feito, aceitou o elogia de Adara; sabia que era sincero.
Se não aprovasse a ideia, seria ela a primeira e se pôr aos berros em protesto externando sua opinião entre as quatro paredes do lar.
Prosseguiram trocando ideias e relato sobre como tudo transcorrera, repassando informações recebidas de Nasser sobre a malfadada entrevista com o emir visitante.
Algumas risadas divertidas incomodaram Layla que se mantinha ausente do diálogo, desinteressada no assunto.
– Layla, não vai dizer nada…
Nenhum comentário?
Não está feliz, minha filha?
Será que preferia o enlace com Munir?
– Não – apressou-se a filha de Nasser em responder.
Na verdade, eu queria muito esquecer esse assunto.
– E a possibilidade de unir-se a Zafir? – interrogou Adara.
– Também não a agrada? Pense, menina.
– Eu adoro Zafir.
Ele é um homem encantador. Que mulher não gostaria de ser sua esposa?
É lógico que sei de todas as vantagens, mas o facto é que não penso em me casa…
– Basta, Layla – ralhou Farah irritada com a colocação.
Não me diga que pretende se juntar àquelas mulheres místicas que vivem nas montanhas rezando e cantando.
Por favor, aquilo não é vida!
– Não se trata disso, mamãe – retrucou Layla sem se afectar com a alteração materna.
Eu não consigo me ver casada.
É só. Vocês me perguntaram o que eu pensava e respondi.
Não vou mudar de ideia por que a senhora crê que não exista outra vida para uma mulher além do casamento.
E não, não tenho nenhuma inclinação para me tornar uma mística e viver em torno da sepultura de algum santo no Oriente…
– Não há muitas opções, Layla – apartou Adara, alinhando-se ao lado de Farah na discussão.
É preciso ver a realidade e fazer as melhores escolhas.
Aliás, como mulher é preciso premeditá-las, induzir a que surjam no horizonte e nos sejam propostas e, depois, fazer de conta que foram decisões masculinas.
– Cansa-me este jogo – declarou Layla aborrecida.
Não podemos mudar o assunto?
Tinha ideia de deliciar-me com o banho, mas com tal conversa irrito-me.
Uma troca de olhares entre Farah e Adara foi suficiente para que concordassem em adiar o entendimento sobre o tema casamento e compromissos femininos com Layla.
***
Na mesquita, Zafir conduzia, como de costume, as orações e o discurso.
Dissertava sobre o valor da submissão; empregava conhecimentos do cotidiano da assembleia.
Não era um dia em que se sentisse, especialmente, inspirado.
Amante do conhecimento, tinha preparo suficiente para orientar e encantar seus ouvintes, que não suspeitavam de seu estado interior dividido naquele momento.
Parte dele não esquecia a ideia de união com a prima e forçava-o a uma revisão de sua conduta e sentimentos na última década.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 05, 2018 8:45 pm

A imagem de Layla como sua noiva e esposa o seduzia, levando-o a questionar quais haviam sido, na verdade, seus sentimentos.
Horrorizava-o a ideia de que se apaixonara por uma linda menina que vira sem véu.
Causava-lhe profundo desconforto crer que uma criança houvesse lhe inspirando paixão.
Mas, se negasse a verdade do interesse, afora reconhecido conscientemente, via-se forçado a sustentar que a atracção nascera da ideia de casamento.
Entretanto, esse pensamento lembrava uma cobra enrodilhada perseguindo o próprio rabo, pois bem sabia que aceitava tão candidamente a sugestão, unicamente por quem era a prometida.
Não levava a parte alguma, andava em círculo, devolvia-o, sim, ao mesmo lugar, à mesma conclusão.
Era um homem capaz de apaixonar-se por uma criança, e a existência desse sentimento era o que o impedira de tomar outra mulher por esposa.
Layla o fascinava; admitia que a prima o dominasse com o brilho do olhar como uma serpente enfeitiça a hipnotiza sua vítima, atraindo-a para a fatalidade.
Isso o chocava e o fazia feliz ao mesmo tempo.
Lutando por concentrar o pensamento na actividade religiosa e não pronunciar orações e gestos rituais mecanicamente, espantou para longe os pensamentos envolvendo a prima.
Foi vitorioso até o instante em que identificou a fisionomia de Munir Al Jerrari em meio aos assistentes.
Um emaranhado de sentimentos, a seu ver, “inadequados” – como se tais existissem e se pudéssemos escolher o que sentir, como deliberamos sobre nossas vestes – para o ambiente e o momento saltou, ou melhor, assaltou seu peito.
Ciúme foi o primeiro; subjacente a ele a insegurança dos próprios sentimentos quanto à prima, ao longo relacionamento que tinham e, finalmente, à sua auto-imagem, agora crivada de profundos questionamentos.
Nesse redemoinho emocional figurava o medo.
O visitante passara a ser sentido como uma ameaça de perda iminente.
Tivesse sido aceito o pedido, “perderiam” Layla; recusado, sem justificativa, era motivo de represálias políticas, comerciais e quiçá militares.
Zafir era de índole pacífica, o que difere de ser covarde, pacato ou indiferente.
Portanto, suas energias em vista da ameaça mobilizavam-se para defender seus direitos e princípios.
O medo caminhava com a raiva; sua fonte de determinação e da força que ele demonstrava aos outros...
Havia, ainda, um sentimento de desprezo, de repugnância ao visitante quando se lembrava da conversa que ser querer testemunhara.
Estava consciente de que Al Jerrari pretendia usar a prima num jogo ignorado que ele travava em Córdoba contra o cunhado.
De pé, em meio à assistência, Munir aparentava interesse a concentração na actividade do culto, porém era apenas uma ténue camada do que chamamos “verniz social”.
Também ele, no íntimo, roía-se de ódio contra o imã daquele ato.
“Hipócrita!” gritava a consciência de Al Jerrari em resposta aos pensamentos que emitia contra Zafir.
“Noiva?! Pois sim!
Se ela é noiva deste homem sem sangue nas veias, eu sou um peixe caminhando sobre a grama.”
A cerimónia chegou ao final, e Zafir abandonou a posição destacada, misturando-se aos presentes na saída do templo.
Cumprimentavam-se, alegremente, sob as arcadas abobadadas, decoradas com belos e coloridos azulejos, quando um arrepio de frio correu pela espinha de Zafir, arrepiando-lhe os pelos do corpo assim que sentiu a mão de Munir pousada em seu ombro direito.
– Belo discurso – elogiou o visitante.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 05, 2018 8:46 pm

Quando for a Córdoba, não esqueça de nos visitar, terei prazer em apresentá-lo na mesquita, indicando-o como imã.
Tenho certeza de que nossa comunidade apreciará muitíssimo suas ideias.
– Será um prazer, embora improvável.
Não gosto de me afastar de Cádiz.
O mar azul turquesa é irresistível.
Amo demais esta terra; caminhar pela praia, contemplar os cumes brancos das construções contra o azul do mar e do céu, eis minha fonte de inspiração.
– Com mulheres tão lindas como as que conheci, tenho absoluta certeza de que existem outras razões – disse jocosamente Munir. - embora digam que são extremamente temperamentais.
É mesmo verdade?
– Não sei do que fala, meu caro emir.
A meus olhos, nossas mulheres são jóias de inestimável valor.
São a beleza e o encanto, a sabedoria e a objectividade, o prazer e a alegria…
– A irritação e o ciúme, não? – atalhou Munir.
– Irritação? Quem não se irrita? Acaso será você um exemplar humano imune a esse sentimento?
Todos se irritam.
Se as mulheres irritam-se com mais facilidade, devemos procurar as causas desse sentimento.
Acredito seja muito provável que a fonte se encontre na intolerância e impertinência dos homens.
Não concorda comigo que a condição feminina é muito exigida em nossa cultura?
Munir riu com gosto da colocação feita por Zafir, cuja única reacção foi um brilho metálico, duro, no olhar, que se fossem lâminas teriam trespassado seu interlocutor.
– Não, Zafir, definitivamente não consigo enxergar onde há exigências demasiadas às mulheres.
Elas têm tudo.
São protegidas, precisam preocupar-se com tão pouco…
– Não entendo protecção como tutela; a meu ver, as mulheres são tuteladas e tolhidas.
Deve ser como viver com os braços enfaixados de tal modo que se possa realizar apenas alguns movimentos, mas sem liberdade de acção.
E quanto à manifestação de vontade?
Diga-me se não é tolher a acção do semelhante quando decidimos por ele.
E, quanto a ter tudo, pergunto: tudo o quê?
Daquilo que lhes damos e nos dá prazer ou o que elas desejariam?
Será mesmo que as mulheres são como as vemos?
Criaturas interessadas em jóias, roupas, perfumes, danças e escravas para nosso deleite?
Eu, sinceramente, penso que elas são muito exigidas.
Imagine-se sendo mulher e vivendo nesta condição. Como se sentiria?
A risada de Munir ecoou na mesquita vazia; os frequentadores dispersaram-se pelo pátio da frente.
– Você tem muito senso de humor.
Jamais me ocorreu tal disparate.
Colocar-me na condição de mulher para quê?
É muito engraçado!
– Pois faça esse exercício.
Imagine nossa sociedade ao contrário.
As mulheres tendo sobre os homens os direitos que hoje temos sobre elas.
Imagine-se como um dos quatro maridos; imagine-se com direito de herança reduzido, havendo privilégio para suas irmãs.
Imagine-se não podendo mostrar, destapar a cabeça; podendo ser surrado por sua esposa a seu bel-prazer, usado e dispensado conforme as conveniências dela, para satisfazer seus mais mesquinhos e repugnantes interesses, quem sabe até num jogo medíocre de poder com outra mulher mais influente.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 06, 2018 8:28 pm

Ah! Se nada disso o irritar e se você não desenvolver uma série de sentimentos derivados e uma forma peculiar de burlar essa imposição social e viver,
talvez se erga em sua memória um túmulo que será guardado como o de um santo.
Conforme Zafir fazia as colocações, pausada e friamente, encarando-o, Munir foi calando o riso e fechando o semblante.
Entendia o recado; estava desmascarado diante do imã que julgara sem sangue nas veias.
– Uma esposa assim merecerá ser chamada de verme e não de mulher.
Concorda? – provocou Zafir.
Pois há maridos, pais e irmãos desse tipo em nosso meio.
Mulheres são criações de Alá, merecem amor e respeito.
Têm sentimentos e pensam, têm vontades insuspeitas para aqueles que julgam que elas se satisfazem com adereços.
Na verdade, eu lamento os homens que buscam conquistar uma mulher acenando-lhe com o poder económico; é mesquinhez demais.
São estúpidos escravos delas julgando-se senhores.
Incapazes de conquistar-lhes o amor em liberdade, eles as enchem de privações para depois apresentarem-se como heróis, crendo que elas não percebem.
É triste essa conduta masculina. Lamentável!
– Suas ideias são liberais demais – retrucou Munir, irado e forçosamente contido pela atitude fria de Zafir.
Pensando melhor, talvez não seja mesmo uma boa ideia você deixar esta terra, suas palavras são perigosas.
– É mesmo?
Vejo que então começamos a nos entender.
E, caro emir, minhas ideias não são mais perigosas que as atitudes irreflectidas de muitos homens.
Mas, olhe, a comunidade nos abandona; apressemo-nos, ou não provaremos boa parte das iguarias.
***
Amanhecia o sábado quando Kiéram observou aproximar-se do alojamento um mensageiro vindo da residência de Al Gassim.
– Senhor Kiéram – chamou o jovem parado à soleira da porta.
– Entre – concedei Kiéram sem se mover do banco onde estava acomodado ao lado de uma janela.
Venha cá.
– Sim, senhor – atendeu respeitosamente o moço.
As façanhas do mercenário haviam corrido de boca em boca, espalhadas pelos homens que o admiravam pela valentia e habilidade com as armas.
– Trago uma correspondência do emir Munir Al Jerrari.
Ao pronunciar as palavras, estendeu para Kiéram um rolo, tipo pergaminho, amarrado por uma fita.
– Que estranho!
Não é do feitio de Munir mandar ordens escritas…
0 murmurou o cristão cujo semblante, ao ler as breves palavras do texto, transformou-se, primeiro marcado pelo espanto que lhe causava o teor, depois pela preocupação.
– Munir partindo praticamente sozinho?
Sem guarda para sua segurança é facto muito estranho – murmurou Kiéram.
Deixar-me responsável pela conclusão dos negócios pendentes é ainda mais surpreendente.
Nunca participei dessas negociações…
Nem sei se posso.
Há alguma coisa errada, mas o quê?
O mensageiro ergueu uma sobrancelha e apurou os ouvidos para registrar, em primeira mão, o que logo se tornaria o mais novo e interessante assunto entre a criadagem.
– Algo errado, senhor? – indagou aflito.
Posso ajudá-lo?
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 06, 2018 8:28 pm

Percebendo que o rapaz aguardava por uma atitude sua, Kiéram decidiu dispensá-lo, sem maiores explicações.
E ficou observando o manto celeste ser iluminado, afastando as trevas da noite, inundando a natureza suave e gradativamente com a luz e o calor.
O amanhecer infundia-lhe serenidade, calma.
A imagem da esperança lhe despertava reflexões, mas naquela manhã conseguiu apenas um estado superficial, aparente, de tranquilidade; algo dentro de si permanecia inquieto.
As perguntas quanto à atitude de Munir morriam no silêncio, sem resposta.
Notando a movimentação habitual na residência do anfitrião, dirigiu-se à presença de Al Gassim.
Anunciado, foi, de pronto, recebido.
– Prezado emir, trago a incumbência de comunicar-lhe a partida de Munir Al Jerrari.
Partiu, inesperadamente, durante a madrugada.
Questões importantes em Córdoba exigiram sua presença.
Pede que aceite suas desculpas e, ao mesmo tempo, receba seus agradecimentos pela hospitalidade.
Al Gassim encarou Kiéram surpreso.
Estranhara a ausência do hóspede na refeição matinal, mas não imaginara que houvesse deixado Cádiz.
– Considere ambos aceitos.
E quanto aos negócios que discutíamos?
Kiéram apresentou a carta e disse:
– Estou autorizado, com plenos poderes, a prosseguir e concluir tudo o que estiver pendente.
– Você goza de irrestrita confiança do seu emir e, posso crer, também do Califa de Córdoba.
É inusitado.
– Por que não sou árabe?
Nem muçulmano?
– Sim. São muito poucos os altos servidores do Califa em sua condição, não é mesmo?
– Apenas eu, emir Al Gassim.
Nosso trabalho e nossa amizade sobrepõem-se a questões raciais e religiosas.
Entendemo-nos numa esfera de humanidade – esclareceu Kiéram.
– Suas façanhas militares são comentadas em toda Al-Andaluz.
Respeito a coragem e a competência em um homem, senhor Kiéram, independentemente de suas crenças. Tenho absoluta certeza de que nossas negociações serão produtivas.
– Obrigado, emir.
Se não for inconveniente, gostaria de poder resolver todas as pendências hoje e partir amanhã ao raiar do dia. Será possível?
– Comecemos imediatamente – concordou Al Gassim, sentando-se e convidando, com um gesto, Kiéram a fazer o mesmo, enquanto dava ordens para que trouxessem café.
A reunião ocupou a manhã e foi exitosa.
Ao inteirar-se das pendências e da facilidade em resolvê-las, Kiéram encheu-se de mais dúvidas a respeito das motivações da partida de Munir.
Conhecia-lhe, de sobra, o carácter volúvel, voluntarioso, e temia uma atitude infeliz, desnecessária.
Remoendo suas aflições, não encontrava respostas.
Os instintos lhe advertiam para seguir o mais rápido possível ao encontro de Munir e vigiar seus actos.
A consciência lhe pedia para alertar a família Al Gassim a fim de proteger a jovem que despertara insanos desejos em seu superior.
Mas como? Tivera maior contacto com o emir, porém não podia, simplesmente, surgir à sua frente levantando suspeitas e suposições.
Era inteligente o bastante para saber que sua palavra não mereceria crédito contra a honra de outro muçulmano.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 06, 2018 8:28 pm

As castas eram unidas.
A solução surgiu ao fim da tarde, quando seus homens já haviam preparado a partida e descansavam.
Andava à sombra das árvores que rodeavam o pátio de treinamento.
Encostou-se à mureta de pedra, respirando o ar fresco e perfumado pelas flores.
Chamou-lhe a atenção uma mulher judia que vasculhava os arbustos floridos.
– Procura algo? – perguntou Kiéram aproximando-se da mulher.
Recebeu em resposta um rápido olhar debochado.
A procura tinhas urgência e a indagação era um despropósito; era óbvio que ela estava buscando alguma coisa.
– Diga-me o que procura e poderei auxiliar – insistiu.
– Não perca seu tempo, senhor.
É minha obrigação.
– Trabalha para o emir?
– Como todos nesta propriedade.
– Trabalha na residência dele?
Em contacto com a família?
– Aonde quer chegar com estas perguntas, senhor?
– Preciso saber, pois gostaria de enviar um aviso à filha do emir.
Se a conhecer e tiver meios de falar com ela, por favor, diga-me.
– Sou Leah, criada da filha do emir.
O senhor é o chefe da guarda do emir Al Jerrari, eu sei.
Pode dar-me o aviso.
Kiéram sorriu aliviado.
Não fora apresentado à filha de Al Gassim, mas a seu ver era uma jovem inocente, ignorante das complicadas relações dos poderosos de Córdoba; não merecia ter como destino servir a uma infantil vingança pessoal entre primos.
– Diga-lhe que tome cuidado.
Sei que o pedido de casamento do emir Munir foi recusado.
Creia-me, conheço-o o bastante para saber que ficou ofendido, apesar de não possuir razões para tal.
Diga-lhe, também, que Munir é um homem vingativo e com sérias dificuldades de relacionamento com o Califa de Córdoba.
Relações familiares tumultuadas o cercam e tê-la como esposa serviria para atingir e ferir outras pessoas.
Insisto, diga-lhe que tome cuidado.
Leah baixou a cabeça, murmurou uma breve resposta e partiu.
Quando chegava próximo a outra mureta que separava o pátio dos jardins da residência, Kiéram a viu se abaixar e recolher um pedaço de tecido branco entre os arbustos.
– Um véu?! Jamais imaginei ver um véu jogado entre flores de um canteiro.
Será que voou de um dos varais?
Em resposta às próprias perguntas, concluiu:
– Não é possível, ficam do outro lado.
Leah sabia o que estava procurando e sabia onde encontrar.
Quem será a dona do véu?
Como o perdeu?
Foi preciso andar essa distância entre Córdoba e Cádiz para ver uma muçulmana perder o véu.
Meu Deus, isto é tão desonroso quanto um soldado perder o escudo na batalha.
Não foi sem motivo que a judia recusou minha ajuda.
Desconhecendo a estado de ânimo em que lançara Leah, o cristão, com a consciência tranquila, retornou para junto dos soldados disposto a descansar, ultimando os preparativos para a partida sob as primeiras luzes do dia.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 06, 2018 8:28 pm

***
O pequeno grupo comandado por Kiéram movia-se pelo vale.
O céu tingia-se de um tom alaranjado que, pouco a pouco, revelava o azul celeste apagando as últimas estrelas da madrugada.
O líder cavalgava a passo lento; seu olhar percorria o vale coberto de verde quando o som das águias chamou-lhe a atenção.
– Lindo animais! – reconheceu observando-lhes o voo.
Não há nada mais atento que o olhar de uma águia.
É penetrante, calmo, profundo, cristalino, certeiro.
É uma ave de rara inteligência e sensibilidade.
Ainda conseguirei um bom adestrador…
Não é a qualquer homem que elas obedecem, reconhecem superioridade e são fiéis àqueles que as cativam.
Observando o voo das duas águias que planavam sobre o vale, moveu o cavalo em direcção à entrada do vale.
“Se as águias estão aqui, o caçador não pode estar longe”, pensou Kiéram, intimamente acalentando a esperança de desvendar a identidade do habilidoso adestrador que vira na chegada à propriedade de Al Gassim e, talvez, convencê-lo a trabalhar em Córdoba.
Sua intuição estava certa.
Bem à frente divisou a figura esguia, trajada de negro, montada num belo cavalo.
Parecia um jovem franzino.
Não pôde deixar de sorrir, pois a cena protagonizada pelo jovem caçador falava de alguém que amava a liberdade, galopava magistralmente, carregando o arco e a flecha de forma segura e elegante.
Parecia um cavaleiro acostumado a competições.
Os gestos e assobios com que se comunicava com as aves denotavam inteligência e capacidade de comando.
Os pássaros lhe obedeciam sem hesitar; encantou-se ao vê-lo erguer o braço direito e uma águia pousar; parecia que aproximava a ave do rosto e lhe falava, para depois erguer o braço determinando a partida.
– Parece que não está caçando.
Há muitos animais no vale, por que não atira? – falava Kiéram consigo mesmo, alheio à parada do grupo que aguardava suas ordens e perdia-se também na contemplação do caçador.
Desperto do fascínio provocado pelas águias e o adestrador, que tinha certeza ser o mesmo do dia da chegada, Kiéram deu ordens ao grupo que o aguardasse, pois iria ao vale falar com o caçador.
Num galope rápido aproximou-se do caçador, cujo desagrado foi evidente e tudo fez para afastar-se, sem conseguir.
O turbante encobria a cabeça; a túnica ampla sobre a calça de montaria disfarçava sutilmente as linhas femininas do corpo de Layla, mas a beleza morena e altiva de seu rosto não deixava dúvida de que se tratava de uma mulher.
Kiéram a perseguia encostando seu cavalo, lado a lado, ao dela.
– Por favor, pare!
Não desejo lhe fazer mal.
Quero apenas conversar.
Sou admirador do seu talento com as águias – pediu ele falando alto e rápido.
Layla segurou as rédeas freando a montaria e encarou o intruso.
Reconheceu-o de imediato.
– Lamento sua sorte, senhor.
Não desejo conversar.
Vim ao vale cavalgar e exercitar meus pássaros – respondeu ela com voz fria.
– Se seu tempo é tão escasso… – disse ele sorrindo dos modos arredios e escondendo a surpresa por ver que era uma moça, cujos traços revelavam a origem árabe -, receba os cumprimentos de um sincero admirador.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 06, 2018 8:29 pm

Eu a vi em minha chegada e agora quando estou partindo, procurei-a incansavelmente.
Aliás, para dizer a verdade, procurei um adestrador de águias, não uma adestradora, por isso minha busca foi improdutiva.
Observei-a nas duas oportunidades e a senhorita é exímia.
– Obrigada – agradeceu Layla com a expressão fechada.
Desejo-lhe uma boa viagem.
– Meu nome é Kiéram Simsons, sou do Califado de Córdoba, acompanhei o emir Munir Al Jerrari a Cádiz – apresentou-se Kiéram, ignorando a dispensa educada da jovem.
Posso saber seu nome?
– Não. Como lhe disse:
não vim conversar.
Faça boa viagem, senhor Simsons.
Antes que ele pudesse reagir, Layla esporeou a montaria que partiu num galope desenfreado, embrenhando-se num bosque próximo.
Somente restou a Kiéram a visão das aves
voando em círculos ao redor de sua dona.
– Será a filha de uma das esposas de Al Gassim? – questionou-se Kiéram ao retornar para o grupo.
Linda! Que personalidade!
É a mulher que ameaçou me matar com uma flechada no pátio.
Durante a manhã sua mente dividia-se em recordar a jovem, seu olhar que comparava ao das águias, pensando em quanto eram semelhantes, e em alcançar Munir, que imaginava estivesse acampado no caminho.
Não acreditara em uma única palavra da mensagem recebida, à excepção das ordens para que concluísse a missão comercial que os levara à propriedade de Al Gassim.
A intuição, fiel companheira do guerreiro cristão, falhou.
Viajaram, sem descanso, pelos caminhos que ligavam Cádiz a Córdoba e nem sequer a poeira ou os rastros de Munir Al Jerrari foram vistos.
Kiéram atravessava os portais da cidadela envolto em preocupação.
Alheio à aparência suja e cansada, rumou ao encontro do Califa.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 06, 2018 8:29 pm

A TOCAIA
Munir tomara rumo contrário à Córdoba, seguira por um caminho pouco usado que levava a um vilarejo de pescadores à beira-mar, distante não mais de duas horas da propriedade de Al Gassim,
Acampara com seus homens em um local abandonado que servira, conforme seu aspecto indicava, à construção de embarcações e estava desactivado havia muito anos.
Um aldeão o informou sobre o abrigo.
Ao encontrá-lo, ele sorriu satisfeito; o local prestava-se a seus objectivos, e a permanência, ele assim o esperava, seria rápida.
Em torno de uma fogueira, comendo com os três homens que o acompanhavam, ele expressou suas ordens:
– Amanhã, antes de clarear o dia, vocês – e apontou dois de seus acompanhantes – retornarão à propriedade de Al Gassim disfarçados de camponeses.
Quero que observem e indaguem, cautelosamente, sobre os movimentos da filha do emir.
Um voltará aqui tão logo tenham as informações necessárias.
Os indicados trocaram olhares e, encarando o emir, baixaram a cabeça acatando a determinação.
Munir alcançou-lhes uma trouxa com as roupas e, na manhã seguinte, escondendo adagas na cintura, sob grossas faixas e largas camisas de tecido rústico, eles partiram.
Numa pacífica comunidade rural infiltrar-se entre os camponeses era fácil; antes do meio-dia estavam entrosados com os moradores mais próximos da residência do emir.
Daí a descobrir que a filha do emir era muito popular, tanto por seus hábitos incomuns como por sua conhecida simpatia e bondade, fora ainda mais rápido e fácil.
Nas primeiras horas da noite um informante retornava ao acampamento de Al Jerrari relatando as descobertas.
– Excelente! – exultou Munir com um brilho ardente nos olhos, surpreendendo-se com algumas declarações de seu enviado.
Uma mulher incomum!
É ainda melhor do que esperava.
Como o subordinado aguardasse nova orientação, disfarçou o prazer que os próprios pensamentos, alimentados pelas informações recebidas, lhe davam e falou o mais natural que pôde:
– Descanse e retorne amanhã.
Antes de sua partida darei instruções.
***
O movimento nas ruelas de Córdoba era intenso.
O mercado fervilhava, o som das vozes e da música preenchia o espaço dando alegria à cidade.
Kiéram cavalgava, seguido de perto por seus homens.
Logo à frente do palácio do Califa se erguia majestoso.
Ao seu comando as portas se abriram dando passagem à comitiva, e o cavaleiro cristão ordenou ao guarda:
– Mande informar ao Califa que preciso vê-lo.
Aguardarei no local de costume.
– Sim, senhor Kiéram. Considere feito.
Apressado, seguiu em direcção aos alojamentos militares, onde fez ligeira higiene e, com os cabelos húmidos e roupas limpas, compareceu à presença do Califa.
Jamal Al Hussain era um homem jovem para ocupar o importante cargo naquele período tumultuado do império islâmico.
As sucessivas guerras com os cristãos do norte, as ameaças internas dos Califas africanos exigiam diplomacia daquele que comandava uma das maiores cidades do império e, sem dúvida, das mais eminentes.
Córdoba era cultura, ciência, filosofia, economia, medicina, artes e arquitectura, enquanto o resto da Europa medieval era dominado pelas trevas da ignorância.
O Califa conduzia seu reino com bom senso.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 06, 2018 8:29 pm

Sua orientação sunita lhe dava moderação nos assuntos religiosos e o fazia amante da filosofia e dos sábios que viam perfeita comunhão entre os sagrados ensinos do Alcorão e o uso da razão, do livre discernimento, dos conhecimentos que fazem o ser humano aprimorar a mais divina de todas as qualidades – a racionalidade.
Seu tipo físico, suas vestimentas, seu comportamento em público e na privacidade do palácio eram sempre compatíveis com o que se esperava do detentor de tão alto cargo.
Recebera a missão de comandar havia poucos anos.
Fora uma ascensão natural e meritória.
Resumindo, poderia descrever o carácter e o comportamento do Califa de Córdoba como honrado, consciencioso, alguém que primava por não ferir ou violentar nada nem ninguém do seu povo.
Tomava as noções de igualdade preconizadas pelo islã, em seu mais amplo entendimento, como norma de conduta.
Tinha três esposas – casamentos decorrentes de alianças políticas com emires de outras cidades de Al-Andaluz – e filhos.
Estava feliz, e entre as pessoas que mais amava contava-se sua irmã, delicada e frágil mulher, recentemente casada com o primo Munir.
O mercenário cristão o encontrou cercado de alguns funcionários burocráticos, trabalhando na análise de documentos, que se amontoavam sobre uma mesa, encadernados em grossos volumes.
– Kiéram Simsons, por que retorna sozinho de Cádiz? – perguntou-lhe o Califa.
Onde ficou meu primo?
– Alteza, gostaria muito de poder responder à sua última pergunta de outra forma, mas preciso dizer a verdade:
desconheço onde se encontra o emir Al Jerrari.
Ele partiu de Cádiz com alguns de nossos homens; deixou-me ordens de concluir a missão comercial para a qual fôramos enviados.
Aliás, aqui estão os documentos que dão contas da incumbência concluída com sucesso – e repassou ao Califa os documentos dos negócios realizados com Al Gassim.
O Califa o encarou sério, a atitude do primo o desagradava, mas não poderia expressar esse sentimento.
Considerava Kiéram um homem inteligente, corajoso e honrado, confiava nele acima de quaisquer barreiras sociais; mas, ainda assim, continha-se.
– Parti tão logo concluídas as negociações – completou Kiéram.
Esperava alcançar o emir na estrada, mas não o encontrei.
– Alguma ideia do que possa ter acontecido?
– Alteza, tenho uma forte intuição do que possa ter acontecido – respondeu o cristão e, enfrentando o olhar de Jamal, prosseguiu:
– Solicito uma audiência particular, alteza.
A preocupação brilhou mais intensa no olhar do Califa.
Contemplou o cristão, notando que também ele continha-se, e sua expressão era carregada.
Com um gesto dispensou os funcionários que se postavam ao redor da mesa.
Ouvindo o bater suave da porta, fixou o olhar em Kiéram numa ordem muda para que se explicasse.
Ele, então, relatou os factos que presenciara na propriedade de Nasser Al Gassim, concluindo com o inusitado pedido de casamento e a recusa do emir de Cádiz.
Enquanto ouvia, Jamal sentiu-se abater; profunda decepção invadia-lhe o íntimo.
O carácter volúvel do primo incomodava, não era difícil deduzir qual era a intuição do servidor à sua frente, e as razões da solicitação de privacidade eram justificadas.
Notando que o cavaleiro silenciara.
Jamal o instigou:
– Fale Simsons.
Conclua seu pensamento.
– O emir não recebeu muito bem os motivos de Al Gassim para negar-lhe a filha.
Temo que ele use meios impróprios para satisfazer seus desejos.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 06, 2018 8:29 pm

– Problemas! Problemas!
Munir é insensato – desabafou Jamal.
Agradeço sua fidelidade.
Entendendo que a entrevista estava encerrada, Kiéram retirou-se.
Esperava que, após haver informado o Califa, recobrasse sua peculiar calma; porém, enganou-se.
A contragosto tomava consciência de que seu pensamento voltava-se para a impertinente e bela filha do emir Nasser Al Gassim.
As grossas paredes isolavam o barulho da rua; a batida da porta no batente fora o último som que Jamal registrou com a saída do cristão.
O olhar bagava pelo recinto, sem que não lhe chamasse a atenção; aliás, ele não via.
Sua mente fora tomada pelas informações sobre o comportamento do primo.
Identificou a vingança como motivo das acções.
Munir desejava o poder, não o trabalho, ou a responsabilidade, menos ainda a abdicação de seus interesses pessoais, para assumir e responder aos anseios e necessidades do povo.
Ele calara-se ante a escolha de Jamal.
Fingira acatamento, aceitação da vontade da comunidade.
Mas, dia a dia, suas atitudes foram revelando o que, com o silêncio, julgava encobrir.
Ler pensamento é um “dom sobrenatural” que alguns temem e outros fingem possuir; a ambos e a uma multidão de indecisos fascina.
Ignoram que é possível e natural ler comportamentos e que eles dizem não só o que a boca cala, mas também revelam as coisas que respiram no inconsciente do ser humano.
Munir revelara-se ao olhar atento do Califa.
Vingança, traição, afastamento eram esperados por Jamal, porém covardia não.
Usar a fragilidade de Amirah para feri-lo era uma atitude baixa, indigna, como tudo o que é feito “às escondidas” pelos covardes.
– Esperava uma acção no campo político, talvez até militar, mas nunca na arena familiar e afectiva – murmurou Jamal, passando a mão na nuca.
Ele é esperto, embora um rematado covarde.
Quebre os pés de qualquer ser e o terá caído, prostrado, imóvel; eles são nossas frágeis fortalezas.
Munir sabe que minha família são Amirah e meus filhos; são os pés da minha força.
Ele não ousaria atacar os meninos; É… a ideia foi inteligente.
Transtornar minha irmã; impor-lhe uma mágoa contínua, reiterada, e mais uma causa de rebaixamento, seria uma forma de tortura lenta, insuportável para ela e, por consequência, acabaria por me afectar.
Preciso pensar.
Alá me iluminará, eu confio em sua misericórdia.
Depois de dar muitas voltas ao redor da sala, aproximou-se de uma janela que dava para o pátio da ala de suas esposas.
Lá embaixo, Zahara, sua terceira e mais recente esposa, passeava serenamente, ostentando o ventre protuberante.
A visão trouxe-lhe ao pensamento as ligações que o levaram àquela união e, em meio a elas, suas ideias ganharam outro rumo.
– É preciso esperar.
O Misericordioso nos dá mostra em sua obra de que não tem pressa; todas as coisas caminham lenta, pausadamente, nas trilhas que Ele traçou.
Suas decisões, muito sábias e importantes que as minhas, não são tomadas ao atropelo.
Ninguém sairá de Córdoba em busca de Munir.
Quem parte deve regressar; e quem fica espera.
***
– Preste atenção.
Lá vem ela – sussurrou um dos homens de Munir, disfarçado de camponês, ao seu companheiro.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 06, 2018 8:30 pm

O outro voltou a cabeça na direcção dos portões da propriedade de Al Gassim que se abria para o vale.
A distância identificou um vulto negro cavalgando elegante e armado.
– Você tem certeza?
Não me parece uma mulher.
Uma expressão desgostosa cobriu a face do homem que vigiava Layla.
Era visível a reprovação a tudo que descobrira a respeito da filha do emir de Cádiz.
– Tenho. É a filha de Al Gassim.
Os rumores que ouvimos são verdadeiros.
Elas são infiéis, ímpias.
Não fosse assim, eu não teria obedecido às ordens do nosso emir.
Não é lícito tomar uma mulher a não ser que ela seja sua esposa, eu bem sei o que diz a lei, Alá seja louvado.
Mas, depois que observei por dois dias essa mulher, não tenho dúvidas: é uma infiel.
Se Munir a deseja, que a tome.
Ela não pertence ao Altíssimo.
– Eu velo armas e águias.
Isso é tão estranho!
– Muito. Nesses dias eu vi sair cedo, armada e com as aves.
Cavalga livre, sem ninguém para acompanhá-la, porém não sei para quê.
Não a vi atirar uma única flecha, nem sei se sabe usar o que carrega.
As aves ela conduz muito bem, devo reconhecer, mas as armas… ela ter confundido com as jóias e enfeites.
– O que, por Alá, Al Jerrari quer com uma infiel?
Não tem mulheres suficientes em Córdoba para tomar por esposa?
– Também não entendo.
Acredito que ele vai arrumar confusão.
O outro concordou e passaram a rememorar o plano que os levara até aquelas paragens ao amanhecer.
Acertados, partiram lentamente pata não chamar a atenção dos animais à volta e, assim, atrair a atenção das águias denunciando a presença deles no vale.
Cavalgaram pelo lado oposto do bosque e nele se embrenharam.
Depois o atravessaram para espreitarem a jovem, sempre às escondidas.
Postando-se entre os primeiros arbustos, observaram desgostosos o prazer e a habilidade da mulher em adestrar aves de caça.
– Agora – determinou baixinho o que liderava a acção ao notar que a caçadora passaria a trote lento bem à sua frente.
Inopinadamente, lançaram-se à frente do cavalo de Layla, espantando-o e fazendo-o empinar as patas dianteiras.
Atacada de surpresa, Layla não logrou dominar o animal que a jogou ao chão.
O líder amarrou-a, com dificuldade, por ela se debatia e lançava imprecações violentas a seu raptor que retrucava repetindo a mesma expressão, irritando-a ainda mais ao acusá-la de infiel.
O outro raptor cravava a espada no cavalo caído, sangrando-o até a morte.
Acostumado aos combates, o homem percebeu que ela lutava por desembaraçar-se e que seus gritos acabariam despertando atenção indesejada.
Concluiu que não haveria com transportá-la até o esconderijo do emir Al Jerrari consciente.
Decidido, desferiu-lhe um golpe na cabeça, fazendo-a desfalecer.
– Controle-se, não a matei – disse o líder vendo o susto do parceiro.
Não sofrerei nenhuma condenação.
Ela é feroz.
Você não viu como ela tentou lutar comigo?
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 06, 2018 8:30 pm

– Pelo que você relatou dos modos dela, eu não esperava que ela fosse dócil.
Mas pode tê-la machucado muito.
É melhor corrermos e entregarmos essa “encomenda” viva ao emir.
Preocupado, o líder tocou com o indicador no pescoço de Layla, apertando suavemente o dedo até sentir a pulsação sanguínea.
– Está viva. Vamos logo. Enrole esta mulher-fera nas mantas.
Desacordada e amarrada, Layla foi transportada como um fardo inerte.
Horas depois, foi depositada e desenrolada aos pés de Munir Al Jerrari, onde despertou com a mente confusa, uma latejante dor de cabeça e todo corpo dolorido.
Munir sorriu satisfeito ao vê-la piscar os longos cílios negros.
Encantava-se com suas feições despidas do véu.
Era perfeita para o seu plano.
Desconhecia-lhe o carácter.
De forma estúpida, típica de uma criatura egoísta, indagou interessado:
– Você está bem?
“Ele não merece resposta”, pensou Layla, fitando-o incrédula e furiosa.
– Diga-me, o que deseja? – insistiu ele.
– Matá-lo lentamente – grunhiu ela entre dentes.
O brilho frio e assassino de seus olhos petrificou o emir que não reconhecia a filha de seu anfitrião.
– E aviso-o de que o farei, não se atreva a encostar um dedo em mim.
Quem você pensa que é?
Imbecil, arrogante…
A dor a impedia de prosseguir, embora a ira derramasse uma dose de energia extraem seu corpo.
As cordas, firmemente amarradas em seus membros, a imobilizavam, fazendo-a se debater inutilmente.
Recuperado do espanto, Munir sorriu e retrucou:
– Pensou que desprezaria com tanta facilidade meu interesse?
Pois saiba e entenda bem, eu tenho tudo que quero.
Nunca aceito um não como resposta.
Você será minha, como desejei.
– Nunca! Você é desprezível.
Vil, um verme infame!
Layla espumava nos cantos da boca e seu olhar era frio como o metal das adagas que os soldados carregavam presos à cintura.
– Covarde! Incapaz de conquistar as coisas que deseja.
Você cobiça o que homens mais inteligentes e capazes conquistam por mérito.
Sabe muito bem que sou prometida a meu primo Zafir, que eu o amo e admiro, mais que a mim mesma…
– Mentiras inventadas – atalhou Munir.
E cale-se, pois, agora sua posição é outra.
Sou eu quem decidirá seu futuro.
Pensei em torná-la minha esposa, como ofereci a seu pai, mas posso mudar de ideia e jogá-la no harém em Córdoba.
Devolvê-la ou abandoná-la desonrada é a sua morte.
Tem consciência disso, espero.
– Iluda-se com seu poder, homem covarde.
Onde quer que eu vá, meu destino sou eu que faço.
A declaração firme fez Munir rir; a ideia de uma mulher dirigindo seu próprio destino lhe parecia disparatada.
– Ria – provocou Layla.
Ria e aproveite, porque vou matá-lo.
É bom que se lembre.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 07, 2018 8:16 pm

– Cale-se, mulher.
Amanhã você estará no harém em Córdoba, os eunucos e alguns dias de isolamento aplacarão sua fúria.
Voltando-se para o homem que a depusera a seus pés e que a sequestrara, determinou:
– Farid, amordace a moça.
Não quero ouvir mais nada até chegarmos a Córdoba.
Partiremos imediatamente.
Coloque-a na sela e a vigie de perto.
***
Na propriedade de Al Gassim as águias pousaram sozinhas chamando a atenção do tratador.
Intrigado, afastou-se das gaiolas que revisava e abriu a janela para as duas águias preferidas de Layla.
– Onde está a senhora? – perguntou o servidor aos animais, como se elas pudessem responder.
Recebeu apenas um caminhar nervoso e bater de asas como resposta.
Lançou um olhar ao vale, que, do alto da torre, se descortinava à sua vista.
Lá embaixo, a distância vislumbrou um corpo caído próximo do bosque.
– Aconteceu alguma coisa.
É melhor avisar o emir – decidiu o tratador, engaiolando as agitadas aves e descendo apressado a escadaria até o pátio interno encontrou Leah.
– Onde está dona Layla? – indagou ele, ofegante.
– Saiu logo cedo. Por quê?
– Eu sei que ela saiu cedo.
Entreguei as aves a ela.
Quero saber onde está agora.
– Ainda não voltou – esclareceu Leah, preocupando-se com a expressão que via no rosto do tratador.
Aconteceu alguma coisa?
– As águias voltaram sozinhas do vale.
E posso estar enganado, mas há algo ou alguém caído próximo ao bosque.
É longe, mas, como estou acostumado a olhar toda hora, já conheço a paisagem e consegui ver…
– Venha – disse Leah, puxando-o pelo braço na direcção do interior da construção, enquanto o enchia de perguntas e começava a concordar com ele quanto a ter acontecido algo estranho com sua ama.
O alerta do guerreiro cristão ecoava na mente da criada.
E ela pensava:
“ Não há de se permitir tamanha brutalidade.
A menina é excêntrica, rebelde, mas tem um coração de ouro, como diz o povo.
Para ela não há criaturas diferentes, não sei de onde tira ideias tão estranhas.
Porém, sempre disse que crê que os homens façam culturas diferentes, escrevam histórias diferentes, mas que no fundo são todos semelhantes, feitos pelo mesmo Criador.
Alá, que ela tanto ama, há-de protegê-la, assim como nosso Deus protegeu a rainha Esther”.
A lembrança da história e dos muitos momentos em que a contara para Layla a acalmou.
Talvez também o Deus do povo de Israel pudesse proteger sua jovem ama e ter planos para ela.
Embora eles não pertencessem ao povo escolhido, acreditavam em um Ser soberano, em um deus único.
Por certo, esse Ser maior a protegeria e, em seus desígnios, tudo sempre caminhava para o melhor e para a justiça.
Anunciou sua presença na sala onde a família Al Gassim fazia a refeição matinal, comentando o atraso de Layla e rindo da ânsia que ela deveria estar sentindo por seus passeios, proibidos durante a visita do emir Al Jerrari.
Farah foi a primeira a perceber a criada notando as feições tomadas pelo medo. Leah tinha tez pálida e viam-se gotículas de suor em sua testa; a boca estava trémula.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 07, 2018 8:16 pm

Chamou-a e Leah acercou-se da quarta esposa de Nasser segredando-lhe ao ouvido primeiro o relato do tratador de aves.
Depois, o estranho aviso do guerreiro cristão.
As reacções se repetiram em Farah que empalideceu, chamando a atenção do marido que lhe tomou a mão constatando que estava fria, com as palmas molhadas.
– Que se passa, Farah?
Fale, por Alá, o Misericordioso, senão enlouqueço.
O que está acontecendo?
– Le… Leah… diga – ordenou Farah gaguejando, tão amedrontada que a voz ficara presa em sua garganta.
– O que está acontecendo? – indagou Nasser erguendo-se da cadeira e encarando a criada.
– A menina, Alteza – principiou Leah.
Dona Layla saiu para cavalgar com as águias muito cedo e ainda não voltou.
Estranhei o facto, pois ela sempre retorna para a primeira oração e refeição.
Armando, o tratador de aves, veio avisar que as águias de dona Layla chegaram sozinhas e que do alto da torre se vê um corpo caído próximo ao bosque.
– Fa… le o pior – pediu Farah, recuperando-se do impacto da emoção.
– Pior? O que pode ser piro que um acidente com nossa menina? – indagou Nasser.
Vou ao vale.
Mande arrear meu cavalo.
Chame o médico, ela deve estar machucada. Alá a proteja.
– Sente-se, Nasser – pediu Farah, assustada, mas recuperada do choque.
– Há mais a saber.
Não seria um acidente a deixar-me sem fala.
Leah recebeu um aviso do senhor Kiéram, minutos antes de ele partir, pedindo que zelasse pela segurança de nossa filha, pois o emir Munir era vingativo.
Pode ter sido uma emboscada… – e, ao expressar seu pensamento, caiu em copioso pranto.
Imagens da filha morta, torturada e maltratada povoavam-lhe a mente e começou a falar de seus temores.
As mulheres da família a cercaram tentando, em vão,
consolá-la, pois no fundo sentiam o mesmo medo.
Somente Adara permaneceu em seu lugar, silenciosa.
Ouvira cada palavra, rememorou os olhares interessados do emir, meditou sobre sua partida imediata após a recusa delicada do pedido.
“Ele não mataria Layla.
Não parece ser um homem violento.
Parecia, sim, ter outros interesses no pedido de casamento além da paixão.
Não se vingaria matando a menina, mas, sim, impondo sua vontade.
Um rapto obrigaria ao casamento, Alá a proteja, que triste sina.”
E assim, pensando, naturalmente, colocou-se em prece pedindo pela filha do coração.
Zafir foi chamado, e nenhum dos presentes guardou qualquer dúvida de que o imã preferido da comunidade amava a prima que ajudara a educar e a reconhecia publicamente como sua noiva, não mais de mentira, mas como facto consumado.
Foi ele o único a notar a introspecção de Adara.
– Não posso consolar Farah – respondera ela ao olhar indagador do sobrinho.
Temo coisa ainda pior que uma emboscada.
– Como? – retrucara surpreso.
O que pode ser pior?
– Um rapto. Perderíamos Layla para sempre, e aquele verme em forma de gente teria uma vingança digna de alguém imprestável.
As explicações de Adara caíram como chumbo derretido sobre Zafir; queimaram, paralisaram, foram até as entranhas de seu ser.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 07, 2018 8:16 pm

Impondo-se um comportamento racional, sentou-se ao lado da tia. Colocando a cabeça entre as mãos, respirou fundo para controlar a náusea que o acometera.
– Tem razão, tia – e ergueu a cabeça à procura de Nasser que, nervoso, despejava ordens aos criados organizando a busca pelo vale.
É preciso mais.
Se ela não estiver no bosque, teremos de sair no encalço de Al Jerrari.
– Isso mesmo. Ajude seu tio, Zafir.
Ele está descontrolado, todos sabemos o quanto ama Layla.
– Todos a amamos, tia Adara.
Ela é a alma deste lugar.
Adara respondeu com um sorriso triste, apertando a mão do sobrinho de encontro ao rosto bonito.
– Vá, Zafir, traga nossa menina de volta.
Você não se importará com esse rapto, não é mesmo?
Vai aceitá-la como esposa, nos livrará do peso da lei e dos costumes de nosso povo.
– É claro, tia.
Layla é muito mais importante para mim do que eu imaginava.
Não posso imaginar nossa família pedindo a sua morte ou saber que ela está sob o poder de um homem que ela não quer.
– Que bom ouvir estas palavras, querido.
Alá os protegerá.
Eu ficarei em prece por vocês e por Layla.
Zafir agradeceu e, aproximando-se do tio, acompanhado de Karim, ambos atónitos, percebeu que o comando da busca lhe caberia.
Apesar do profundo abalo emocional, do verdadeiro buraco que sentia no peito, era o mais racional e equilibrado naquele momento.
“Não há como ser mais ferido do que fui. Uma ferida na carne somente poderá mostrar a marca que tenho na alma”, pensava ele, no pátio montando seu alazão e assumindo o comando do grupo.
Karim o acompanhava cavalgando a seu lado. Intuitivamente, sabia que a busca era infrutífera; pressentia a irmã distante, mas não ferida.
– Estamos perdendo tempo. Layla não está no bosque.
Acredite em mim, Zafir.
Minha irmã não está ferida gravemente.
Está em perigo e distante daqui eu sinto – resmungou Karim, irritado com a busca.
– Entendo seu receio – respondeu Zafir.
Pensa o mesmo que tia Adara.
Eu concordo, também sinto que o perigo é maior, mas precisamos verificar o bosque.
Talvez encontremos algumas pistas e, quem sabe, tomara que sejam infundados nossos receios e tenha havido apenas um acidente.
Karim balançou a cabeça em negativa e acelerou o trotar do cavalo para acompanhar o galope apressado do primo.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 07, 2018 8:17 pm

ALTERANDO DO DESTINO
– Eu não sento de lado na sela – declarou Layla ao contemplar as montarias prontas para partirem.
Desamarrem minhas pernas.
Eu não ficarei sentada sobre este cavalo nessa posição ridícula e, ainda por cima, amarrada.
Vendo que Munir sorria desdenhoso de suas queixas, encarou-o, fulminando-o com o olhar, e ameaçou:
– Ouse me lançar sobre este animal!
– Suas bravatas me encantam, querida – ironizou o emir.
– Diga-me o que fará se eu colocá-la sobre o cavalo?
– Tente e descobrirá, ”querido” – retrucou ela, debochada e fria.
– Ouviram a moça – disse Munir aos seus homens.
Coloquem-na sobre o cavalo.
Layla sorriu para o primeiro que se apresentou como voluntário.
Deixou-se levantar do solo, passivamente; ouviu a risada de escárnio do emir.
Ao sentir o assento da sela, reuniu toda sua força nas pernas amarradas juntas e acertou, com os joelhos, primeiro o queixo do homem e depois, com os pés, empurrou-lhe o peito, derrubando-o ao chão.
Caído, o homem se enfureceu, mas estava tonto, sentia os dentes frouxos e o gosto salgado de sangue na boca.
– Maldita! – resmungou ele.
Amaldiçoada infiel.
Munir calou-se, assustado. Layla sorria, furiosa e dona de si; escorregara ao chão, parando de pé ao lado do assustado cavalo.
– Mande desamarrar minhas pernas – ordenou ela encarando o emir.
Eu não irei a lugar nenhum sentada dessa forma.
– A vida a seu lado não será tediosa – retrucou o emir observando o guerreiro levantar-se e andar cambaleante, até apoiar-se no tronco de uma árvore próxima.
Está certo, lhe concederei a vitória desta vez.
Voltando-se para o outro soldado, determinou que desamarrasse as pernas da jovem e retirasse a sela feminina.
– Tomei esse cuidado pensando em seu conforto, mas, se prefere ir montada no animal em pelo – declarou Munir dando de ombros –, a escolha é sua.
– Vitórias não se concedem; são conquistadas pelo vencedor.
Nunca lhe ensinaram isso?
É, sim, prefiro o pelo do cavalo ao aperto desconfortável desta sela.
É por ser horrível que as mulheres detestam cavalgar.
– Julguei que fosse o contrário.
Que houvessem sido concebidas para o bem-estar – ralhou Munir, observando temeroso o soldado desatar os pés de Layla.
Não sabia do que ela seria capaz e começava a temer aquela mulher estranha de olhar selvagem.
Não lembrava em nada a moça bem-educada, polida que o entediara ao extremo com sua conversa sobre cultura grega clássica e que filosofava sobre comportamento humano.
– O senhor se engana sobre muitas coisas, emir Al Jerrari, essa é somente mais uma – retrucou Layla movendo os pés e, surpreendendo o guerreiro que a olhava como se visse uma feiticeira, disse:
– Muito obrigada, entendo que vocês apenas obedecem a ordens de um covarde.
Retire a sela e pode me colocar sobre o cavalo.
Mustafá olhou incrédulo e desconfiado para Al Jerrari, solicitando permissão para obedecer à ordem da moça, ao que Munir respondeu com um aceno afirmativo.
Apoiado à árvore, o guerreiro, que conservava o disfarce de camponês, acompanhava a cena tomado de revolta.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 07, 2018 8:17 pm

Sentia-se humilhado por haver sido derrubado e ferido por uma mulher.
“Se ela cair do cavalo e quebrar o belo pescocinho, será bem merecido”, pensava ele.
Apalpando os dentes moles, enfureceu-se mais.
“Maldita! Já eram poucos os que tinha, agora provavelmente ficarei com menos.
Estarei desdentado logo. ”
Alheio ao que se passava com o guerreiro machucado, Munir montou seu alazão e ordenou a Mustafá que cavalgasse ao lado de Layla, vigiando-a.
Layla baixou os cílios, velando os olhos semicerrados, escondendo a expressão astuta e determinada que brilhava em sua íris.
Mustafá aqueceu.
Lançou um olhar ao companheiro ferido, compreendeu a humilhação que o outro sentia e não indagou como ele estava.
Era visível que não ocorrera nada de grave, apesar da dor que os ferimentos deviam ter produzido.
Calou a própria revolta com a “bruxa infiel” que o emir pretendia levar a Córdoba e convidou o amigo a montar e partir.
Munir seguiria para Córdoba pelo caminho mais distante, seguindo a rota oposta à que percorrera na ida a Cádiz.
Traçaria um círculo, por assim dizer.
Esse percurso cruzava algumas aldeias pequenas.
Layla cavalgava em absoluto silêncio.
Não murmurava sequer um ai.
Seu olhar perdia-se no horizonte à frente.
Seu rosto era uma máscara fria, escondendo seu pensamento como um espelho opaco.
As divisar ao longe as torres de uma igreja cristão, de aspecto pobre, pressionou os joelhos no cavalo fazendo-o disparar em correria, arrancando as rédeas das mãos de Mustafá, que se desequilibrou.
Lutando para não cair e ser arrastado, parou o cavalo.
Ao sentir que o animal lhe obedecia, olhando rapidamente para trás constatou que os homens se atrasariam para sair em sua perseguição.
Layla abaixou-se para dar maior equilíbrio ao corpo e falou junto à orelha do animal incitando-o ao galope:
– Muito bom! Vamos corra.
Ganhe deles.
Com as mãos amarradas, agarrou primeiro uma rédea e depois a outra.
Segurando-as bem próximo do pescoço da montaria, começou a dirigi-la rumo à torre da igreja que avistava no horizonte.
Pegos de surpresa, Munir e seus homens custaram a entender o que ela havia feito.
Parados a olhavam galopando.
– Ela não conseguirá ir longe – bradou Al Jerrari indignado.
Cairá logo, lançada do cavalo.
É preciso ser muito bom no domínio de um animal para seguir numa corrida louca como ela faz.
Recolhê-la do chão será óptimo.
Mustafá olhava estupefacto e encantado com as manobras da moça.
Sentia raiva dela, mas não conseguia negar a admiração que sentia por sua corajosa luta.
Vendo-a distanciar-se e manter o controle do cavalo, atreveu-se a discordar do emir.
– Ela ganha distância e tem domínio.
A moça sabe cavalgar e muito bem. Acho…
– Cale a boca e vá atrás dela!
Era sua obrigação vigiá-la.
Que belos guerreiros são vocês; vencidos por uma mulher!
Um grande rebanho pastava calmamente e, ao vê-lo, Layla sorriu sentindo a vitória próxima.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 07, 2018 8:17 pm

Apertou ainda mais os flancos do cavalo e lançou-se em meio ao gado, gritando, assustando os animais e causando alvoroço, o que dificultaria a perseguição de Mustafá, fazendo-o perder velocidade e não conseguir vê-la ou encontrar seu rastro.
Não demorou muito e a pequena igreja, com um cemitério à direita e uma singela construção residencial nos fundos, surgia à sua frente.
Lutando para fazer o cavalo parar junto à porta da residência, gritou esbaforida pedindo ajuda.
Rangeram as dobradiças da porta e sob o batente a encarou um religioso, baixo e gordo, com uma tonsura no alto da cabeça que, aliada à cor e pobreza da surrada batina que envergava, denunciava-o como membro da ordem franciscana, nova entre os cristãos.
– Por amor, padre, me ajude – pediu Layla com sincera humildade e, mostrando-lhe as mãos amarradas, explicou:
– Fui raptada e tento fugir para retornar ao meu lar.
Sou de Cádiz. Ajude-me, por misericórdia.
O religioso aproximou-se, em silêncio, e estendeu-lhe os braços para ajudá-la a descer do cavalo.
Depois a fez entrar na casa e fechou a porta.
Tomou as rédeas com chicote e açoitou o animal.
Vendo-o disparar, correr solto, sem destino, riu.
Olhando as marcas das patas no pátio de terra, pôs-se a varrer, apressadamente, com uma vassoura rústica, feita de galho, apagando os rastros.
Ouviu, à certa distância, o barulho do rebanho inquieto.
Deduziu que os perseguidores da moça se aproximavam.
Regressou ao interior da casa, apanhou um facão que repousava sobre a mesa da cozinha e, apontando o fundo da sala contígua, dividida por um arco na parede, orientou sua inusitada hóspede:
– Siga-me – e a conduziu até um porão cujo acesso ficava escondido atrás do oratório, encostado à parede.
Lá, tacteando na semi-escuridão, cortou as cordas que lhe amarravam as mãos e ordenou:
– Fique quieta.
Depois que eles passarem eu voltarei – e se foi deixando-a parada em meio à escuridão e umidade.
Agradecendo a Alá em pensamento, Layla sentou-se no último degrau da escada e aguardou a volta de seu benfeitor.
Não havia nem luz nem sons vindos de fora, apenas o ruído de algumas ratazanas chegava a seus ouvidos.
– Animais são sempre confiáveis – murmurou para si mesma, sem se abalar ao pressentir-lhes a proximidade.
Varrendo o amplo pátio que cercava as construções onde residia, irmão Leon – assim se chamava o religioso franciscano – sorriu bondosamente ao ser interpelado por Mustafá, afoito.
– Uma jovem? Montada como um homem?
Galopando em velocidade? – repetia ele as indagações do árabe e, fingindo-se pensativo, coçou a cabeça na altura da tonsura e responde:
– Não, tenho certeza de não ter visto nada parecido.
O senhor tem certeza de que ela veio nesta direcção?
– Sim. Ela escapou da minha vigilância.
– A tal mulher cometeu algum crime? – indagou irmão Leon.
– É uma infiel.
– Mas é criminosa?
Matou, roubou, é adúltera? Uma bruxa?
– Não, por Deus.
Que eu saiba é até bem-nascida, muçulmana, e era noiva.
– E por que a perseguia, meu bom senhor?
Deus a todos perdoa, mesmo os infiéis.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 07, 2018 8:17 pm

Não é necessário que façamos justiça porque algumas pessoas não O amam.
Deixe-a seguir seu rumo, se ela nada deve à justiça de seu rei – aconselhou irmão Leon.
Vejo que seu cavalo está cansado a essa hora do dia.
Não quer descansar e tomar água?
Mustafá ficou desorientado com o rumo do assunto.
Em sua mente formou-se a imagem de uma caneca grande de água fresca e sombra.
Não mais raciocinou; os desejos e necessidades da matéria impuseram a satisfação do apetite despertado.
Lançou um olhar para trás.
O emir e seu acompanhante estavam distante, teria tempo.
– Aceito sua hospitalidade, padre.
– Irmão Leon – corrigiu o religioso, gentilmente, ao se apresentar.
– Irmão. Perdão, eu não entendo sua religião.
Nunca sei reconhecer ou diferenciar os religiosos cristãos.
– Não se importe com isso, é secundário mesmo – afirmou irmão Leon e depois esclareceu:
Tem importância apenas para nós que vivemos essa crença.
O padre tem uma autoridade de pai, coloca-se na posição de um pai diante dos fiéis da igreja; já nós, na nossa ordem, nos entendemos como irmãos de tudo e de todos, filhos que somos de um único Deus.
Ele, sim, nosso Pai, por isso, nos intitulamos irmãos.
Venha, vamos saciar a sede e descansar o corpo.
Questão de retórica; na prática não há muita diferença.
Captando a confiança de Mustafá, ouviu dele um breve relato sobre a perseguição que empreendiam e as razões de tal atitude.
– É uma pena!
Não quero julgar seu povo, tampouco suas crenças.
Mas é uma pena tudo isso que me conta – lamentou o irmão Leon ao final das informações.
Mas tenho fé que um dia os seres humanos serão mais compreensivos e respeitosos uns com os outros.
– Meu senhor sentiu-se ofendido.
Raptar a moça é uma forma de tê-la como esposa – defendeu Mustafá.
– E será bom desposar uma mulher infeliz?
Eu tenho minhas dúvidas.
– A crença do senhor o impede de se casar, não é mesmo?
Algo estranho.
Para nós, Alá faz a mulher para o prazer e a felicidade do homem.
Não sendo o senhor casado, como pode indagar se é bom ou não desposar uma mulher infeliz?
A condição da mulher pouco importa.
Irmão Leon sorriu, benevolente, e argumentou:
– Como religioso é verdade que não me casarei.
Voluntariamente, abri mão das bênçãos de um lar, de uma esposa e filhos.
Mas isso não me impede de pensar, de observar, de ver e ouvir o que se passa à minha volta e, principalmente, de pensar sobre as coisas.
Aqui, eu convivo com dois amigos, portanto, somos três, se um deles está mal-humorado, zangado, ou triste, os demais também são afectados e, nestes dias, é preciso vigiar para que uma altercação de palavras ocorra.
Um desses amigos chegou aqui vagando, era um trapo humano, talvez estivesse com a bile negra.
Foi muito difícil acolhê-lo; houve dias em que ele irritava as galinhas, é… creia, é verdade.
Então fico pensando, imaginando, o que é ter que viver e conviver, intimamente, com uma mulher infeliz.
Nossas irmãs são lindas, não é verdade?
Mustafá sorriu jocoso, maliciando em pensamento o comportamento do religioso católico.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 07, 2018 8:17 pm

– Mas são megeras horrorosas quando infelizes.
Não vi, ainda, nada mais feio que uma mulher infeliz.
É, quase, como se fosse antinatural.
Assim, como recolhem a vida e enchem de alegria e afecto quando felizes; se forem infelizes – e pôs as mãos na cabeça girando-a fortemente para os lados para enfatizar o desespero que a ideia lhe causava –, Deus me livre da sua presença.
Como um rastro de pólvora, como um vinho azedo destroem e dão desprazer e infelicidade a quem com elas convive.
Perdão, meu irmão, mas seu senhor não deve ter pensado bem quando decidiu raptar a tal moça.
Está condenando a si mesmo.
Por certo que ele deve ser um homem inteligente, faça-o pensar no que conversamos.
Ouvindo os argumentos, paciente e racionais, do irmão Leon, a dúvida insinuou-se em Mustafá.
“É, o homem pode não ser casado, mas entende bastante do comportamento das mulheres.
Ele tem razão, não é bom viver com alguém infeliz, azedo. ”
– Veja aqueles cavaleiros no alto da colina.
Lá, ao longe – apontou irmão Leon mostrando através da janela.
Não é o seu senhor?
Mustafá apressou-se e o ato de erguer-se e sair pela porta em direcção ao cavalo preso à sombra, numa árvore, foi a resposta que irmão Leon obteve.
Este não o seguiu, limitando-se a observá-lo sob o umbral da porta.
– Deus o acompanhe, vá em paz – respondeu irmão Leon ao receber os agradecimentos apressados do perseguidor de Layla, que agora seguiria viagem atrás do rastro de um cavalo guiado pelos instintos, se é que os encontraria.
Calmo, o franciscano decidiu sentar-se à sombra da velha árvore.
Como não gostasse de horas vazias, apanhou uma pedra de amolar e o facão, com o qual libertara Layla, e cuidou de afiar a lâmina usada no serviço com o rebanho.
Assim o encontrou o emir Munir e seu acompanhante ferido.
Ofereceu-lhes água, convidou-os a descansar, pediu permissão para tratas dos ferimentos do guerreiro e tudo fez, com diligência, sem pressa, cativando-os, para depois deixá-los partir dizendo o rumo seguido por Mustafá.
Era o tempo necessário para que a confusão se estabelecesse, em definitivo, entre os perseguidores.
Munir não identificaria o rastro deixado por Mustafá.
O vento encobriria as pegadas.
E o manto da noite logo viria aumentar ainda mais as dificuldades.
– Deus os acompanhe, vão em paz – despediu-se o religioso ao receber o agradecimento dos visitantes pela cordial hospitalidade.
“Homens, meus irmãos”
Quando nos entenderemos?
Será que enxergar o outro como alguém igual, como um ser humano, é assim tão difícil?
Meu Deus, tudo que vive merece respeito.
O que eu dou ao mundo, ele me devolve.
Onde estará a cabeça desse atrapalhado emir?
Parece um cego do pior tipo:
sofrendo a cegueira de si.
Ao querer o que lhe dá satisfação, não percebe o que está dando ao mundo: violência, desrespeito, mesquinharia.
Semeia tudo isso na horta da casa e, depois, alguém reclamará do que encontra crescido.
Insanos!”, pensava irmão Leon, vendo-os galopar envoltos em uma nuvem de poeira.
“A moça disse a verdade.
Pobre Criatura!
Vou soltá-la, o porão é sujo e cheio de ratos.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 07, 2018 8:18 pm

Deve estar assustada.”
Layla, porém, o aguardava calma.
Como ele a orientara, permanecera sentada no degrau.
A escuridão impedia seus movimentos.
Ao ouvir o ranger da porta com a luz a jorrar pelo vão, iluminando a escada, ergueu-se; antecipando-se ao pedido do religioso, que olhava do alto, subiu ao seu encontro.
– A senhorita está bem? – indagou o religioso e, bem-humorado, esclareceu o motivo de sua preocupação.
As ratazanas não são educadas, recebem muito poucas visitas.
A filha de Al Gassim não conteve o riso.
Mesmo em meio ao mais atroz desespero ou à maior dor, o homem com mente saudável é capaz de rir, de ter humor.
Um sinal da bondade de Deus que a tudo oferece tréguas.
Simpatizara com o irmão Leon quase que instantaneamente.
– Eu aprecio os animais, irmão, de qualquer espécie.
Não me diga que a criação de ratazanas de seu porão é um capricho pessoal.
Algo como animais de estimação domésticos.
– Ah! Vejo que temos coisas em comum – declarou irmão Leon, sorridente e alegre.
Considero-me irmão de tudo o que vive.
E não estou fazendo graça:
as ratazanas são membros da minha família.
Fico feliz que elas não a tenham perturbado, pois estava preocupado; elas são irracionais e não aprendem a receber visita.
E fico, ainda mais feliz de constatar que foi uma aflição vã.
– Para qualquer um que viva minha experiência algumas dezenas de ratazanas significam, apenas, uns animaizinhos pequenos, ruidosos e roedores – retrucou Layla cansada.
A jovem abeirou-se da janela.
Contemplando a linha do horizonte, buscou localizar sinais de seus perseguidores.
Nada notou. Pareciam haver sido tragados por uma força misteriosa.
Desaparecido. Voltou a cabeça na direcção de onde viera e seu olhar perdeu-se na planície verde marcada pelas alongadas sombras do entardecer.
– Não conseguirá avistá-los – alertou o atento religioso.
Seguiram rumos distintos.
O primeiro segue um cavalo sem condutor.
O outro perdeu-se em meio a rastros confusos; sumiu numa nuvem de pó.
Bom. Mas tentava ver se enxergava… – uma emoção repentina a fez emudecer e seus olhos brilhantes através de um ténue véu de lágrimas.
– Sua casa? – sugeriu irmão Leon, aproximando-se.
– Sim – sussurrou a moça deixando correr, grossas e silenciosas, lágrimas reveladoras da sua tristeza, do alívio por haver escapado dos raptores e, enfim, do medo que calcara no íntimo em face da violência.
Respirando fundo para controlar as emoções, prosseguiu:
– Na companhia de suas “familiares”, pensei bastante sobre como os meus estarão encarando esses factos.
– Entendo – e no intuito de a consolar, acariciou-lhe gentilmente as costas, como o faria a uma criança assustada, recomendando:
– Mas não se gaste à toa.
Imaginar tormentos e suplícios nos faz sofrer.
Vejo isso todo ano, na época da Páscoa.
Seus familiares hão-de estar bem.
Deus, nosso pai, cuida de todas as criaturas deste imenso mundo; estará velando sobre sua família.
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Re: O QUARTO CRESCENTE - José António/Ana Cristina Vargas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 07, 2018 8:20 pm

Confie. Todas as coisas caminham para a harmonia e o equilíbrio, mesmo quando parecem estranhas e insólitas como quando nos deparamos com um cachorro pastando.
Mesmo chorando, Layla não pôde deixar de sorrir da imagem sugerida pelo religioso.
Era de facto insólita, porém verídica; muitas vezes vira cachorros pastando e sabia que o faziam quando tinham algum mal-estar orgânico.
Era a forma de a natureza oferecer-lhes o retorno do equilíbrio e à saúde.
Irmão Leon tinha razão.
A vida, por ser manifestação directa de Deus, tende sempre à harmonia, à beleza, À saúde, ao equilíbrio e ao crescimento.
– O senhor está certo.
Obrigada por me lembrar disso.
Nós, muçulmanos, também cremos que Deus é abundância e misericórdia.
Eu vacilei; julgava ter uma fé mais robusta, agora vejo que devo me esforçar mais.
– Minha linda criança, não diga isso.
Quem enfrentando o que você passou não teria um momento de… “fraqueza”?
É humano!
Não podemos fugir, querida, da condição que o Pai nos outorgou.
Não somos heróis, somos – graças a Deus! – apenas criaturas de carne, osso e espírito, caminhando sobre a Terra, tentando aprender a viver e usufruir esse presente divino. Nada mais.
Layla, mais calma, secou o rosto com a manga da túnica que vestia.
Ao contacto do tecido sentiu as partículas de poeira arranhar sua pele.
– Suas palavras me acalmam.
O senhor crê que eles não voltarão?
– Os raptores?
Não. Ficaram aqui tempo suficiente para se convencerem de que você não estava comigo.
Julgarão que é perda de tempo retornar.
Acredito que irão vagar por alguns dias, numa perseguição inútil e depois desistirão; talvez pensam que animais a tenham atacado e matado. Desistirão, é questão de lógica.
– Paixões não são sempre questão de lógica – discordou Layla, pensativa.
– É verdade. Mas foi por paixão que a raptaram?
Pelo que entendi a senhorita é prometida a outro homem e o emir, mesmo sabendo do fato, a raptou.
Não sei por que razão, mas pensei que houvesse interesse político por trás do gesto.
Não paixão.
– Interesses políticos também podem ser paixões, não acha? – questionou a jovem com o olhar distante, vagando pelo horizonte.
A pergunta levou o religioso a rever uma série de acontecimentos que envolviam sua vida e o facto de encontrar-se ali, numa igreja pequena, cercado de rebanhos, natureza, numa planície batida pelo sol e pelo vento, cuidando de um rebanho de almas que muito pouco o compreendia.
A moça árabe tinha razão.
Fora o hábito de aliar a palavra “paixão” a relacionamentos afectivos entre pessoas que o impedira de enxergar a extensão desse sentimento.
– A paixão é linda, mas pode ser e é trágica e triste.
Nós, humanos, nos apaixonamos por muitas coisas.
Meu primo Zafir, o melhor imã de nossa comunidade, sempre ensina que precisamos pensar sobre nossos sentimentos para bem governá-los.
Que a paixão é um dos mais fortes, porque pode se aliar a qualquer outro e intensificá-lo ao máximo.
Aliás, sempre diz que paixão é somente a intensidade da manifestação de um sentimento, de um querer.
– Sábio o seu primo.
Não havia pensado, confesso, na essência da paixão.
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