O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 13, 2018 9:40 am

Como negar a criatura a excelência da Criação Divina?
Toda revolta é inútil.
O tempo, que tudo transforma sem violência, aos poucos altera as estruturas mais íntimas das coisas e dos seres.
Ninguém logra burlar as Leis Soberanas que regem os princípios da Vida!
Se a algo estamos fadados, é à Perfeição.
Há quantos séculos você intenta se opor aos apelos da razão?
Terá, porventura, conseguido fazer com que silenciasse em você, por completo, a voz da consciência?...
- Não, não – redarguiu o monge, apertando a fronte com ambas as mãos -; isto é uma perturbação...
Somos doentes; não nego que somos doentes...
Escuto, sim, de longe em longe, o eco de uma voz que não se cala.
A Natureza é imperfeita.
Dizem vocês que somos perfectíveis...
Como?! A Perfeição não pode ter por berço a imperfeição.
De um ovo de serpente não nasce um pássaro...
Deixe-me! Retire-se de minha casa!
Não acrescente peso sobre o meu espírito....
As suas palavras...
Você é um poderoso demónio.
Vê aquele altar vazio? – perguntou, apontando para o nicho na pedra, diante do qual, momentos antes, se prostrara.
Pois bem... Eu o ofereço a você.
Ocupe-o! Estou cansado.
Quem sabe a sua é a face que eu tanto espero ver...
Muitos, milhares e milhares, virão até aqui para adorá-lo...
Prometo servi-lo com fidelidade e concorrer para que lhe obedeçam.
Você é o mais indicado para ocupar um de nossos tronos de comando....
Tome-o! eu o ofereço a você, graciosamente.
Una-se a nós e não mais terá que pensar em virtude alguma e nem se submeter às misérias de um corpo perecível.
Você será sobre-humano e, viverá, para sempre, fora das contingências impostas por tempo e espaço!.
- Irmão Celestino – falou Odilon, com indefinível inflexão de ternura -, como você pode se esquecer assim:
“Não terás deuses estrangeiros diante de mim.
Não farás para ti imagens de escultura, Nem figura alguma de tudo o que há em cima no céu, e do que há embaixo na terra, nem de coisa que haja nas águas de baixo da terra.
Não as adorarás, nem lhes prestarás culto”...
- Recusa a oferta com que o honro?...
É mais ambicioso ainda, não é?
Humilha-me a tal ponto?...
Ah, que ninguém esteja a nos ouvir neste meu instante de fraqueza!
Por instantes, imaginei que você não se furtaria, mas, com certeza, sonha mais alto do que eu próprio poderia supor...
Se renega o posto de Satã, é porque almeja o lugar de Deus!
Agora, finalmente, você se mostra...
Nós, os que estamos nas trevas, não servimos, não é mesmo?
Preconceituoso!...
- Engana-se, meu irmão.
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Ave sem Ninho

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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 13, 2018 9:40 am

Quem sou, que sequer me sinto em condições de ocupar o insignificante espaço que a Misericórdia Divina me concedeu no contexto da Criação?
Engana-se.... Dentro de minha absoluta falta de lucidez, a única consciência que guardo é a do nada que sou!
Talvez, por este motivo, a tendência que revelo , com outros amigos meus, de descer sempre, procurando o lugar que me compete...
Há mais distância entre o meu pobre espírito e Deus do que entre o grão de areia e o Sol!
Lamento se, por instantes, o inspirei a se equivocar no juízo formulado a meu respeito e peço-lhe que me perdoe.
Com certeza, muito ainda devo e preciso melhorar, de modo a não suscitar, em ninguém, com a minha presença, ideias e emoções que os induzam ao erro.
- Você é terrível! – vociferou o monge, abrindo os gigantescos braços sob a capa escura, qual se transformasse num enorme morcego esvoaçante.
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 13, 2018 9:40 am

NO LIMIAR DO ABISMO 34
- Eu sei bem qual é o seu plano – prosseguiu Celestino, impedido de se aproximar de Odilon pelas emanações luminescentes de sua aura.
Você pretende me convencer a reencarnar, não é?
Nunca! Esquecer o que fui e o que sou, submisso às misérias da carne putrescível...
- Irmão Celestino – aparteou o Benfeitor -, o corpo que ocupamos agora, deste Outro Lado da Vida, não será igualmente constituído de matéria – da matéria que se desgasta e envelhece?
Quem lhe disse que a nossa organização perispiritual difere muito do organismo dos que mourejam no corpo físico, exposto aos fenómenos da morte?
Estamos ainda muito distantes da condição dos seres angelizados, que já se libertaram da transitoriedade da forma.
O corpo espiritual de que hora nos revestimos e, através do qual, nos expressamos, é formado de células análogas àquelas que nos estruturavam o arcabouço biológico que, tantas vezes, ocupamos no mundo...
Não nos iludamos.
Todos haveremos, sim, de padecer uma segunda morte, uma terceira e, assim, sucessivamente, até que, um dia, alcancemos a condição, de Espíritos Puros.
Morreremos muitas vezes, na Terra e no Além, deixando para trás o cadáver de nossas ilusões e o esqueleto de nossos pesadelos.
A mente, celestino, a nossa mente, tem o poder de nos ludibriar, pela acção de mecanismos ligados ao próprio inconsciente.
- O que estaria Odilon preparando? – inquiri, em silêncio, acompanhando a sua argumentação, reparando que o monge, em algum ponto do inusitado diálogo que travavam, se lhe fixara mais detidamente a atenção nas palavras.
Foi o seu erro, ou melhor, a sua bênção!
- Para muitos de nós, séculos se desenrolam como se não fossem mais do que alguns dias, e vice-versa, ou seja:
dias transcorrem qual se fossem séculos, e nos sentimos desnorteados, no tempo e no espaço, embora tudo nos pareça cronológica e geograficamente correto.
Quando perdemos o equilíbrio e nos falta o indispensável bom senso, escravizados à órbita dos interesses mesquinhos, que se perpetuam indefinidamente connosco, não nos damos conta do que se passa fora e dentro de nós....
No entanto, as Leis que regem os princípios da Evolução continuam a actuar sobre as coisas, indiferentes à nossa rebeldia ou aparente inanição.
- Aonde é que você pretende chegar? – gritou Celestino, que, pela primeira vez, me pareceu fragilizado.
Não me canse os raciocínios:
seja mais discreto!...
O que você está fazendo comigo?
Pare, pare de falar...
As suas palavras soam-me terrivelmente aos ouvidos.
Fale de uma vez ou cale-se!...
- Pois bem, meu irmão: olhe para si mesmo...
Há quanto tempo não repara em seu próprio corpo?
Eterno, Celestino, Eterno e Imutável só Deus o é!
Tudo o que não se identifica com a Divina Vontade se deteriora...
Porventura, você julga ser o que sempre foi?
Não o creia.
Não raro, os que habitam uma casa são os últimos a admitir que ela esteja prestes a desmoronar...
Já que você, meu irmão, me pediu para ser mais directo, olhe, atentamente, para o corpo que considera vigoroso:
olhe para as suas mãos, para as suas pernas, para o seu tórax, para a sua face...
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 13, 2018 9:40 am

Olhe, Celestino, olhe e não mais evite a própria realidade!
- Por acaso, está tentando me sugestionar?...
Quem é você, demónio?
Pare, pare de falar...
Não me olhe assim!...
Eu estou bem, sempre estive bem.
Conheço a fonte da eterna juventude!... – replicou, procurando esboçar um sorriso de ironia, que, desta vez, mal ecoou até onde eu e Paulino nos encontrávamos.
À medida que falava, a aura de Odilon aumentava em luminosidade e extensão, fazendo com que o monge, instintivamente, recuasse.
- Não, não tento sugestioná-lo.
Quem sou eu, para tanto!...
Aqui estou em nome do Senhor e não poderia deixar de ser sincero.
- Preciso me retirar, depressa, de sua presença...
Eu não sei o que está se passando comigo.
Que estranha indisposição se apodera de mim!
Teria eu contrariado o Príncipe das Trevas?!
Mas, como, se sempre lhe rendi tributo?!...
O meu corpo, as minhas mãos, as minhas pernas...
O que você fez comigo?
Maldita hora em que conversamos pela primeira vez....
Aos nossos olhos, meus e os de Paulino, a figura gigantesca de Celestino começava a se recurvar e perder agilidade.
- Você envelheceu sem saber – ponderava o Mentor -, avançando, passo a passo, na direcção da infeliz entidade, que, a movimentos lentos, prosseguia recuando, de encontro à parede da caverna.
Observe o seu corpo alquebrado e senil, que se mantinha aparentemente jovem pela força de seus pensamentos...
Deixe que o seu passado, de uma vez por todas, se desfaça em pó!
Esqueça o Lêmur e o monge beneditino que viviam em você; esqueça a Atlântida, submersa nas águas do mar, e a sua trajectória infeliz por todos esses séculos.
Inútil lutar contra os Desígnios de Deus!
Os tecidos e os órgãos que lhe constituem o corpo espiritual estão completamente desvitalizados...
- Você insinua que estou morto? – perguntou Celestino, com dificuldade.
- Ninguém morre ou desaparece:
somos todos imortais!...
A verdade, porém, é que é chegado para você o instante de esquecer, para mudar.
Não resista, meu irmão, em seu desfavor!
O livre-arbítrio humano não é absoluto.
- Um espelho, um espelho!... – clamava, agora quase a se arrastar na direcção de uma pedra, sobre a qual se encontrava um objecto de face polida e côncava.
Fitando-se no que me pareceu ser uma redoma de vidro, o monge, ao se contemplar de face toda enrugada, como se, de facto, somasse no corpo muitos séculos de idade, reuniu as forças remanescentes e bradou:
- Não, Não, maldito!...
Este não sou eu.
É um sortilégio!
Onde está o meu rosto? O que você fez?...
Devolva a minha face...
Guardas, guardas! – gritava, exaurido e atormentado, sem que ninguém aparecesse.
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 13, 2018 9:40 am

Desabando pesadamente, no solo, Celestino, postando-se de joelhos, começou a chorar examinando as mãos encarquilhadas.
Eu já havia, no Mundo Espiritual, observado muitos processos de rejuvenescimento, ou de ressurreição da forma, no entanto, pela primeira vez, testemunhava um fenómeno inverso, ou seja:
de degradação física instantânea.
Frade, de facto, estava morrendo aos nossos olhos; o seu corpo gigantesco como que se miniaturizava, assumindo proporções menores que o de Odilon ou do que o meu.
Era como se, de repente, um prédio de muitos andares se reduzisse a um monte de escombros, rente ao chão.
- Estou morrendo! – exclamou.
Socorro, falta-me o ar nos pulmões nos pulmões!...
Subtraíram-me todas as forças!
Socorro!... O meu coração...
Que dor terrível no peito!
Quero ar!...
Odilon aproximou-se e, coroado de luz, acomodou a cabeça de Celestino no colo e começou a orar:
- Senhor, que a Tua misericórdia se compadeça de nós e, em especial, deste companheiro que há muito vive voluntariamente apartado do Teu amor.
Sabemos que jamais nos esqueces e que, pacientemente, nos esperas ao longo de milénios sem data.
Por mais que de Ti nos distanciemos, mais de nós Te aproximas, na expectativa de que, um dia, de Ti descerremos o coração.
Abençoa-nos, Mestre, e releva-nos as faltas, originárias do profundo abismo da ignorância em que vagueamos no escuro, na errónea suposição de que possamos prescindir da Tua luz...
Nada somos sem Ti!
Perdoa-nos, pois, a rebeldia, com que, tantas vezes, nos insurgimos contra as Tuas lições, que nos exortam à renovação íntima.
Não consintas que permaneçamos, durante mais tempo, pugnando contra os Sábios Desígnios do Criador, à feição de criaturas completamente insanas, sem atinar com a transcendência da Vida.
Toca-nos o espírito e desperta-nos a consciência adormecida...
Faz-nos ver, sem os atavios das concepções equivocadas e distorcidas, a Verdade que liberta.
Eis aqui, Senhor, nosso irmão Celestino de retorno aos caminhos que são Teus...
Sem a Tua coragem e o Teu arrimo, por incentivo e escora, não sairemos do lugar, nem tampouco conseguiremos nos levantar das sucessivas quedas a que nos arrojamos, por invigilância e insensatez.
A figura do Instrutor, em atitude de oração, desaparecera em meio à intensa claridade de que todo o seu corpo se nimbara, contrastando com a imagem apagada de Celestino que agonizava em seus braços.
Oh, maravilha, que por muito me esforce não conseguirei descrever!
Aos poucos, vi, ou melhor, eu e Paulino vimos e testemunhamos perante os Céus, que daquele corpo espiritual em colapso – velho, disforme e que se degradara diante dos nossos olhos -, um outro corpo espiritual emergia, quase em tudo semelhante ao primeiro.
- Que coisa impressionante! – comentei com Paulino, admirado e surpreso tanto quanto eu.
- Celestino está morto! – exclamou o jovem pupilo de Odilon, com acerto.
O ex-monge beneditino deixara a antiga carcaça, parara de respirar e, efectivamente, estava morto!
Com extrema habilidade, que eu não pude acompanhar, o Mentor desfez alguns laços de tom acinzentado que ainda o prendiam ao corpo inerte, que, imperfeitamente, compararia a um casulo abandonado ou ao esqueleto de uma cigarra cadaverizada agarrado ao tronco de uma árvore...
Não obstante, o novo Celestino, que dormia um sono agitado nos braços de Odilon, era um ponto obscuro; humano, sim, um tanto mais leve, mas ainda pesado o bastante para que o Benfeitor o transportasse sozinho.
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 13, 2018 9:40 am

NO LIMIAR DO ABISMO 35
Paulino e eu nos apressamos em descer, no intuito de auxiliar Odilon a tomar as providências cabíveis.
Estávamos estupefactos e, sinceramente, eu não conseguiria, com melhores palavras descrever o que presenciamos.
O que me empenho em narrar aos companheiros encarnados, com certeza, apenas conseguirá lhes transmitir uma pálida ideia do que se passou naquela caverna...
O deformado corpo espiritual de Celestino jazia estirado no chão, em acelerado processo de decomposição.
A impressão que eu tinha – e os amigos haverão de me perdoar se estiver equivocado – é a de que a força de seu pensamento, havia séculos, o sustentada naquela condição evolutiva estacionária.
O diálogo com o Mentor o fragilizara, promovendo brechas em sua mente, e, digamos, o seu “sistema imunológico!
Entrara em falência.
O próprio Odilon me parecia um tanto surpreso com os acontecimentos que haviam se precipitado daquela maneira, tomando rumo imprevisível.
Sem saber o que falar, comentei:
- Ele orava ao Príncipe das Trevas...
- E Deus lhe escutou as súplicas, Inácio – respondeu o venerando amigo.
- Celestino morreu? – perguntei, ainda sem acreditar no fenómeno que se processara diante de meus olhos.
- A morte, conforme sabemos, é simples transição da forma...
Celestino vive e viverá para sempre.
A sua mente, cristalizada em determinados vértices de força, plasmara-lhe um corpo fictício, que se lhe sobrepunha à própria essência.
Consideremos que o nosso infeliz irmão tenha apenas e tão somente desfalecido, perdendo o controle sobre si; o corpo que ele deixou era uma criação mental sua, projecção periférica de sua personalidade.
- Parece-me uma casca! – exclamei, examinando de perto aquele estranho organismo de que o monge se revestia.
- Uma armadura medieval vazia! – pinou Paulino, que, igualmente, se aproximara.
- Um cadáver humano mumificado... – redargui, à procura de uma imagem que melhor figurasse a realidade.
- É assim que se morre por aqui? – perguntou o valoroso e inteligente rapaz.
- Em qualquer parte do Universo, onde ainda estejamos sujeitos aos primários princípios da Evolução, cada qual morre segundo vive – respondeu Odilon, que prosseguiu:
Enquanto não alcançarmos a Perfeição, trajando o que Jesus chamou de “túnica nupcial”, iremos nos despindo, gradativamente, das vestes rotas de nossas ilusões; o aperfeiçoamento espiritual é o aperfeiçoamento da forma, em nosso veículo de manifestação, que, de experiência em experiência, se subtiliza.
- Então, nós... – observei, reticente.
- Morreremos, Inácio, ilimitado número de vezes, para baixo e para cima; o contacto com a matéria é o cadinho em que o espírito se depura e se liberta da canga de suas imperfeições.
Morrer, na verdade, é um processo de filtragem espiritual: de cada morte, o espírito se retira mais vivo, ou seja, mais ele mesmo!
O diamante necessita ser lapidado, o mármore sofre a acção do cinzel e do martelo, o barro é submetido à fornalha, a semente germina na cova em que fenece...
- Qual é a nossa vida média nos Planos espirituais?
- Depende da condição evolutiva de cada espírito...
A morte, nos planos espirituais inferiores, por vezes ainda é um processo doloroso – tão doloroso quanto o é na terra, para aqueles que se prendem às sensações fugazes.
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 13, 2018 9:41 am

Há espíritos que, em determinadas dimensões, vivem menos que os homens conseguem viver no corpo material:
permanecem pouco tempo por aqui, para renascerem, quase de imediato, nos domínios da matéria grosseira...
Outros, como é o caso de Celestino, buscam fugir às Leis da evolução e estacionam, por tempo indeterminado,, até que a bênção da misericórdia Divina os alcance e os constranja à indispensável mudança.
Esses são os que morrem para baixo, a fim de que aprendam a viver para cima...
- E os que morrem para cima? – inquiri.
- São os que fazem jus às Dimensões Superiores, cuja concepção de Vida nos escapa no actual estágio em que nos encontramos.
De quando em quando, Inácio, somos convidados a participar da cerimónia da morte dos que se elevam de Plano Existencial – é, se assim posso me exprimir, o espectáculo da ressurreição, que nos faz recordar o episódio em que Maria de Magdala se deparou com a figura do Cristo
Ressurecto, ao pé do túmulo vazio.
Que coisa, Odilon! Cerimónia da morte...
- Que, ao contrário do que sucede nas regiões inferiores é motivo de alegria e não de luto e pesar para o morto e seus amigos, que se rejubilam pela promoção que o espírito obteve a Esferas mais altas.
- Celestino teria morrido para cima? – indagou Paulino.
- Aparentemente, sim...
Há os que morrem para cima transitoriamente, com o intuito de adequarem o corpo espiritual ao corpo de carne no qual mergulharão; nas condições em que se encontrava e, de certo modo, ainda se encontra, Celestino não conseguiria reencarnar com êxito, porque haveria de ser naturalmente rejeitado pelo novo organismo em formação...
Os mecanismos de rejeição biológica estão afectos à condição do espírito reencarnante.
- Ele seria abortado? – atalhei, interessado.
- Sim e, provavelmente, nos primeiros dias de gestação; o seu psiquismo pesaria, em excesso, sobre o psiquismo de sua futura progenitora, que, inclusive, correria risco de vida.
- Chega a tal ponto?...
- Desde, é claro, que conte o aval da Lei do Carma.
O abortamento, quase sempre, é uma prova para o grupo familiar, mas, sem dúvida, atinge mais directamente os pais e o espírito que vê frustrada a sua tentativa de renascer.
- Pode ser mais prova para o espírito, do que para os pais?
- Sim, e vice-versa.
- O que, agora, acontecerá a Celestino?
- Agora – disse Odilon -, você e Paulino me auxiliem a carregá-lo...
Precisamos sair, antes que alguém apareça.
- Como ainda pesa! – reclamei, há muito, desde quando encarnado, desabituado de qualquer esforço de natureza física.
- Deixe-o comigo, Doutor – solicitou o robusto Paulino, colocando-o sobre o ombro esquerdo com relativa facilidade.
Pelo menos nisto, creio que posso mais que os senhores dois...
- Saíamos pelos fundos da caverna: por aquele corredor que me parece mais amplo – orientou o Mentor, seguindo à frente.
De facto, aquele era o melhor caminho, no entanto, se continuávamos a descer, como haveríamos de alcançar a superfície da Crosta, onde estacionáramos o veículo que nos conduzira?
Captando-me o pensamento, Odilon explicou:
- Não se preocupem!
Chegaremos à ampla área descoberta e, enquanto Paulino nos aguardar com Celestino, em lugar seguro, eu e você, Inácio, percorreremos as encostas da montanha subterrânea e traremos a nave.
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 13, 2018 9:41 am

Foi o que fizemos.
Deixando o companheiro tomando conta do ex-monge, que, de quando em quando, gemia e estertorava, num sono
certamente repleto de pesadelos, eu e o Instrutor começamos a subir, como se contornássemos a caverna por fora.
Se não fosse tétrica, a visão daquele desfiladeiro que se estendia na região das trevas seria digna do bico de pena de um artista como Gustavo Doré, que ilustrara as páginas de “A Divina Comédia”, de Dante Alighieri, o célebre poeta Florentino.
A paisagem, que melhor divisávamos à medida que subíamos, tinha, sim, uma certa beleza contraditória, em seus aspectos lúgubres e sombrios.
- Cuidado, Inácio, para não escorregar:
estas pedras estão cobertas de limo e excessivamente húmidas; muito de raro em raro, os raios do Sol conseguem incidir por aqui, onde a noite parece ser eterna...
- Por que não exercermos a volitação?
- Além de que não lograríamos volitar com facilidade, devido à densidade atmosférica, chamaríamos a atenção de entidades que se agrupam nas imediações, expondo Paulino ao perigo.
Quando estávamos quase vencendo as escarpas, eis que nos deparamos com enorme serpente enrodilhada justamente onde deveríamos atravessar!
- É uma simples cobra... Não poderá nos fazer nenhum mal.
- Não, Inácio, não se trata de uma simples cobra; repare bem...
A píton, que deveria ter de oito a dez metros de comprimento, levantou a enorme cabeça e, sibilante, nos olhou como a víbora do mato espreita a sua presa.
- Como passaremos? – perguntei, constatando que se tratava de uma entidade espiritual na degradação de seu aspecto.
- Deixe-me conversar...
Aquela cobra que, sem dúvida, seria capaz de nos devorar em um só bote, estrangulando-nos, primeiro, entre as suas imensas mandíbulas, ergueu mais a cabeça, enquanto Odilon, que a olhava fixamente nos olhos, se aproximava, cauteloso.
O meu instinto de defesa, confesso, fez com que eu vasculhasse o terreno a ver se encontrava uma pedra ou um porrete qualquer, caso houvesse necessidade de lutar pela sobrevivência...
Eu não estava disposto a morrer daquele jeito, nem que fosse para morrer para cima, quanto mais para baixo, que, com certeza, era o que me aconteceria em tais circunstâncias.
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 13, 2018 9:41 am

NO LIMIAR DO ABISMO 36
- Irmão cobra – começou Odilon a dialogar -, em nome de Jesus Cristo, deixe-nos passar...
Perdoe-nos, se a estamos importunando em seu habitat, mas estamos em missão socorrista e necessitamos de providenciar amparo a um irmão em grande sofrimento.
Colabore connosco , que, igualmente, ainda rastejamos no chão de nossas dificuldades e imperfeições.
Não dispensamos o concurso de quem quer que seja...
A imensa serpente ergueu ainda mais a cabeça e enrodilhando-se, como estivesse se preparando para dar o bote; para mim, repito, tratava-se de uma cobra comum, como as demais que deveriam existir por ali, mas, agora, que eu reparava em seus olhos, que se movimentavam com vivacidade, verificava que Odilon estava com a razão:
tudo naquela gigantesca serpente que seria capaz de engolir-nos inteiros, era, em verdade, semelhante a uma cobra, menos o olhar...
- Permita-nos passar pelo seu território – prosseguia o Mentor, com humildade – e, um dia, a Misericórdia Divina, que de ninguém se esquece, também a alcançará...
Todos vivemos à mercê das Leis que nos regem, que se são de Justiça, são também de Amor!
Não nos acredite em situação de qualquer privilégio...
Se aqui estamos, é porque os nossos compromissos ainda nos prendem ao obscuro passado dos erros, que estamos procurando reparar.
Irmã cobra – continuava a dizer, prostrando-se, agora, de joelhos -, deixa-nos passar e o seu gesto de solidariedade será levado em conta pelo Senhor da Vida, que a abençoará, a você e àqueles que são amados pelo seu coração, porque não há ser algum, em qualquer parte do Universo, destituído da faculdade de amar.
Estranho, muito estranho...
Quando Odilon assim se pronunciou, eu tive a impressão discretas lágrimas rolaram daquelas pupilas negras e que a musculatura de seu corpo começara a se flexibilizar.
- Conceda-nos passagem, em nome de Jesus Cristo!
Somos dois de seus irmãos em Humanidade...
Não nos julgue pela forma exterior, que no fundo, não difere muito daquela em que você se apresenta:
somos, todos, filhos do mesmo Pai e, portanto, feitos da mesma essência...
O Senhor da Vida a abençoará e, doravante, minha irmã, você haverá de estar sempre em nossas preces.
Conceda-nos passagem!...
Lentamente, a píton se desenrolou e deslizou na direcção de Odilon, que se conservava imóvel, sem, todavia, desviar de seus movimentos ou olhar.
A menos de um metro dele, que prosseguia de joelhos, a cobra levantou a cabeça à altura da sua, fixou-o nos olhos, colocou a língua bifurcada para fora e, depois, serpenteou por entre as rochas escuras e escorregadias da montanha.
- Que Deus a abençoe, minha irmã – falou o Benfeitor, erguendo a destra em sua direcção, enquanto a serpente nos deixava o caminho desimpedido.
- Odilon, você se arrisca muito...
- Não quanto o Cristo continua a se arriscar por nós.
- E se ela resolve atacá-lo?...
- Se sabemos que a morte não existe, qual a razão do temor?
- Ela...
- ... foi mais condescendente connosco, do que, há quase dois mil anos, o fomos com Jesus!
- Em alguns trechos evangélicos, Ele chegou a se referir a nós, os homens, como “raça de víboras”...
Sem efectuar maiores comentários, o companheiro alertou-me:
- Não temos tempo a perder; Paulino está à nossa espera e a região em que nos encontramos é repleta de perigos... Sigamos!
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 13, 2018 9:41 am

Mais alguns metros e alcançamos o topo do monte, pondo-nos a percorrer acidentado terreno, com emanações sulfurosas, como se estivéssemos na boca de um vulcão semi-extinto.
Deixáramos a nave do outro lado e, ainda, precisávamos vencer considerável trecho.
Estávamos com a roupa coberta por um pó avermelhado, que respirávamos, misturado a uma chuva de cinzas, que, caía, incessante, sobre a região.
- Falta muito, Odilon? – perguntei, algo extenuado.
- Uns quatro ou cinco quilómetros, Inácio.
Você está se sentindo bem?
- Apenas um pouco cansado...
- É consequência do pedaço de carne que você comeu...
- Por favor, nem me lembre disto! – solicitei.
Estou com uma terrível enxaqueca, desde então, e o estômago, volta e meia, ainda embrulha...
Não avançáramos mais que cinquenta passos e fomos interceptados pelo espírito de uma mulher que, para mim, emergira do interior da terra.
- Uma esmola, pelo amor de Deus! – disse-nos , caminhando na nossa direcção, cambaleante e desfigurada.
Uma esmola, por piedade!
Há dias que nada como; estou com fome...
Tudo por um pedaço de pão!...
Ai, meu Deus!, que inferno é este?
Será que estou viva ou morta?
Será pesadelo ou realidade?
Respondam-me, por favor...
Quem são vocês?
Seres humanos ou demónios?
Ai, meu Deus!... Socorro!
Querem me pegar... Socorro!...
- Acalme-se, minha irmã, acalme-se! – Disse-lhe Odilon.
- Minha irmã! – exclamou a senhora, que exibia úlceras hematomas da cabeça aos pés.
Quem são vocês, que me tratam assim?
Acaso, são anjos peregrinando no Inferno?...
Por favor, tirem-me daqui...
Vejam o meu estado.
Eles querem me pegar...
Estou louca e não sei como conseguir escapar.
Perdi completamente a noção do tempo...
Que pesadelo terrível, meu Deus!
Por que fui tão má assim?...
- Irmã, estamos com pressa – falei, aflito, pensando em Paulino na retaguarda.
Com leve aceno de mão, o Mentor recomendou-me calma.
- Não, não...
Levem-me com vocês, por caridade.
Eu não vou mentir mais: sou criminosa, sim...
Matei os dois – dei veneno a eles; eram ciumentos demais e queriam controlar a minha vida...
Eu lhes queria, mas não os amava e ambos eram apaixonados por mim.
Socorro, socorro!
Vejam o que eles me fizeram, à alma e ao corpo...
Não os deixem me prender de novo, não os deixem – gritava, agarrando-se aos pés de Odilon.
Impaciente, disse ao amigo que se comovia com extrema facilidade ante a dor dos semelhantes:
- Não podemos nos deter...
- Inácio, e se esta irmã fosse qualquer um de nós?
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 14, 2018 7:55 am

A pergunta deixou-me sem resposta e permaneci na expectativa.
Entrementes, saindo do mesmo buraco de onde emergira a infeliz mulher, dois espíritos de aspecto horripilante se postaram diante de nós, reclamando-a:
- Ela nos pertence!... Deixem-na!
Quem são vocês dois, que nunca vimos antes?
Não se atrevam a nos enfrentar...
Temos contas a ajustar.
Nós somos as vítimas...
Ela é má, profundamente má; ainda não pagou a metade da metade que nos deve...
Venha cá, sua cadela!
Você não vale nada!...
- Meus irmãos – redarguiu Odilon, colocando-se entre a mulher, que se encolhera às suas costas buscando protecção, e os dois homens de robusta compleição -, já não terão vocês sofrido o suficiente?
Por quanto tempo pretendem sustentar o ódio que lhes é recíproco?
Esperam, porventura, atravessar a eternidade nessa situação?
Esqueçam o passado...
Vejam a condição em que ela se encontra e não sejam, assim, tão implacáveis!
- Implacáveis?!
Você está nos acusando?
Não se esqueça de que as vítimas somos nós...
Ela nos enganava o tempo todo.
Ela é a criminosa!
Se ninguém a faz pagar, tomamos a justiça em nossas mãos...
Não defendam essa vadia.
Entreguem-na ou não respondemos por nossos actos.
Não queremos complicação com estranhos, mas, se for necessário – falou em tom ameaçador.
- Há quanto tempo, meus irmãos...
- Sei lá – atalhou o que tomava a iniciativa de conversar -:
30, 40, 50 anos...
Nós a estávamos esperando, desde muito; ela nos envenenou e nós lhe provocamos o câncer...
Ela morreu caquéctica, pele e ossos em cima de uma cama!
De nada lhe valeu receber a extrema-unção e o arrependimento dos pecados, que ela nunca confessou.
Infeliz! Estamos transbordando de ódio, ódio!...
- Mas o ódio, meus irmãos, é uma doença...
Vocês dois estão doentes e não percebem.
O desejo de vingança induz o espírito à perturbação.
Esqueçam e... perdoem.
- Perdoar?! – vociferaram, quase ao mesmo tempo, abaixando-se para apanhar pedras no chão.
Nunca!... Como fazer o que não conseguimos?
Por que Deus não perdoa a ela?
Se Deus lhe tivesse perdoado, ela não estaria aqui...
Estamos lhe dando um último aviso:
entreguem-na ou os agrediremos.
Temos amigos nas redondezas e vocês não escaparão...
- Vocês estão extrapolando, meus irmãos...
- Extrapolando?...
- Sim. Vocês não a induziram à morte pelo câncer?...
- Induzimos; envenenamos-lhe as células:
ela teve um tumor uterino que a fazia esvair-se em sangue...
Mas foi pouco!
- O ódio de vocês está superando a invigilância dela; quando, por vezes, excedemos em nossa justa indignação, de vítimas passamos a verdugos...
- O quê?!... Ainda por cima nos acusa?
Quem é você? Advogado do diabo?...
- Apenas um irmão de vocês, que, em nome de Jesus Cristo, deseja auxiliá-los.
- Não, não é possível...
Vocês vieram nos atrapalhar.
Entreguem-nos essa cadela! – gritou o mais exaltado, pronto para arremessar contra Odilon pesado bloco de pedra.
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 14, 2018 7:55 am

NO LIMIAR DO ABISMO 37
- Não, não deixem que eles me levem, por piedade!
Jonas e Guilherme, perdoem-me, perdoem-me!
Eu estava louca, louca...
Vocês sabem quanto sofri.
Fui criada sem mãe e o meu próprio pai me estuprou...
Desde criança ele me obrigava a me prostituir e me espancava.
O meu ódio contra os homens foi crescendo, mas, infelizmente, dele eu não pude me vingar – é tudo o que lamento.
Assassinaram-no num bar, tirando-me o privilégio de matá-lo eu mesma...
Perdoem-me, eu estou doente.
Vejam o meu corpo coberto de úlceras, o meu rosto desfigurado, os meus dentes quebrados...
Estou horrível!
Eu me reduzi ao monstro que sou...
Estou cansada...
Jonas e Guilherme, perdoem-me, perdoem-me!
Deixem-me ir...
Eu tinha sete anos de idade, quando fui violentada pela primeira vez!...
Pesadíssimo silêncio caiu sobre aquela estranha paisagem.
Devagar, o espírito que identifiquei como sendo Jonas foi baixando a mão e deixou cair a enorme pedra que segurava com ambas as mãos.
Súbito, um grito lancinante, indefinível para a palavra humana quebrou o silêncio que se fizera.
- Quem me chamou?
Quem me chamou?... – perguntou uma voz, saindo da escuridão.
Todos, instintivamente, nos voltamos para o lado de cima da planície em depressão, avistando, aos poucos, a figura de um ente – metade homem, metade lagarto – que se arrastava com dificuldade.
- Quem me chamou? – voltou a perguntar, se aproximando.
Eu nunca havia visto um espírito em tal estado de sofrimento:
até a altura do tronco, era efectivamente humana, mas, da cintura para baixo...
Os órgãos genitais à amostra, completamente deformados, arrastavam-se no solo, deixando um rastro de sangue.
- Quem me chamou? – insistia.
Ouvi meu nome, meu nome...
Eu me chamo Alencar.
Onde está minha filha, minha pequena Taís?...
Socorro, meu Deus, socorro!
O que fui fazer?
Ah! Com certeza, demónios tomaram conta de mim...
Taís, minha filha, onde você estiver, me perdoe, me perdoe!...
O espírito, que estava cego, perdeu o equilíbrio e rolou pela ribanceira, estacando junto a nós, de ventre para cima.
Jonas e Guilherme, de tão horrorizados, afastaram-se em desabalada carreira, tomando rumo ignorado.
Odilon, sempre pronto a socorrer os desvalidos, aproximou-se sem que o horrendo quadro lhe causasse qualquer repugnância, e auxiliou Alencar ou o que havia sobrado dele, a se desvirar.
- Ai, ai, como me dói!...
Sinto vermes a me corroerem.
Que sina, meu Deus, que maldição! Que loucura!
Eu não consigo alívio e não posso dormir, pois, se pego no sono, monstros mais terríveis do que eu me atacam o tempo todo...
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 14, 2018 7:55 am

Ah, Taís, que fui fazer a nós dois, em minha insanidade!
Perdoe-me, minha filha, perdoe-me!
O seu pai só tinha sexo na cabeça...
Eu nunca lhe disse nada, mas a minha mãe era uma prostituta: eu era pequeno e a via receber homens em nossa casa...
Foi assim que cresci, entre a revolta e a humilhação.
- Acalme-se, meu irmão, acalme-se – dialogou o Instrutor, colocando a destra sobre a cabeça do espírito em situação lastimável.
Providenciaremos para que você seja removido...
Jesus Cristo não nos desampara.
- Não, deixem-no ficar – gritou a mulher, identificando o antigo verdugo!
Ele está tendo o que merece...
Deve pagar pelo que me fez, a mim e a outras crianças: ele era um tarado, um pedófilo...
Ameaçava-nos, e tínhamos medo de denunciá-lo à polícia.
Deixem-no ficar!...
- Minha filha – disse-lhe eu, enquanto, telepaticamente, Odilon procurava entrar em contacto com algum grupo socorrista que estivesse nas proximidades -, “os sãos não necessitam de médico”...
Comecemos a empreender a nossa recuperação, alijando o espírito todo sentimento de ódio.
Quem não terá errado alguma vez?
E quem somos para julgar a atitude de nossos semelhantes?
Tanto você quanto ele carecem de tratamento.
Conhecendo a extensão de nossas faltas em relação aos outros, como poderíamos atirar a primeira pedra?
Há quanto tempo vocês se encontram neste sofrimento?
O Deus que nos estende protecção é o mesmo que não se nega a socorrer os nossos inimigos ou aqueles que assim consideramos.
Você não se penaliza diante da dor do companheiro que, cego e deformado, terá, certamente, expiado dolorosamente os seus equívocos?
- Mas... Ele foi o culpado de tudo!
Eu era simplesmente uma criança...
- Não o era, minha filha, quando envenenou Jonas e Guilherme...
Não nos esqueçamos assim tão facilmente dos desatinos que cometemos.
Somente o perdão liberta o espírito.
Ao longo de nossas experiências , da jornada evolutiva que cumprimos no corpo de carne ou fora dele, todos temos sido vítimas e algozes uns dos outros.
A mulher silenciara e grossas lágrimas lhe escorriam dos olhos, pelo rosto transtornado.
Imóvel sobre a poeira, Alencar implorava, quase a desfalecer:
- Tenha dó de mim, Taís!...
Não posso vê-la, mas ouço-lhe a voz.
Meu Deus, será algum demónio que me atormenta os ouvidos...
Eu quero esquecer, esquecer.
Por favor, afastem a imagem dessas crianças seminuas...
Quando deixei o corpo, comecei a rastejar:
Eu era um lagarto, um monstro – o monstro que sempre fui!
Vocês não sabem o que tenho sofrido...
Tenho fome, sede...
Ah, meu Deus, o que será de mim?!
O que fui fazer da minha vida?
E agora, o que me espera?
Vejam como estou...
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 14, 2018 7:56 am

Por favor, decepem os meus órgãos genitais; eu não aguento mais esfolá-los nas pedras...
Cortem-nos! Aliviem-me! Por caridade...
Passaram-se vários minutos e uma patrulha espiritual, contactada por Odilon, apareceu, tendo à frente um simpático senhor de nome Sinésio.
- Pronto! – disse-nos ladeado por mais três companheiros, dois homens e uma jovem chamada Mary.
– Aqui estamos.
Podem deixar, que nos encarregamos; este é o nosso trabalho – graças a Deus, este é o nosso trabalho!
- A sua fisionomia não me é estranha – disse-lhe.
- Eu sei quem é o senhor – respondeu-me:
- o Dr. Inácio Ferreira, do Sanatório Espírita de Uberaba.
Estive lá, em visita, algumas vezes...
Eu fui espírita, Doutor, dirigente de reunião mediúnica.
Ao Dr. Odilon Fernandes eu não conhecia pessoalmente, apenas de nome.
Muito prazer – falou, estendendo-lhe a mão em cumprimento.
Esta aqui é a Mary, nossa irmã, e os outros dois Ódon e Leocádio.
- Ódon?... – perguntei, tentando puxar pela memória.
- Dr. Ódon Tormin!
- O nome me era familiar – retruquei, abraçando o companheiro com o qual, pessoalmente, estivera poucas vezes, em uma ou outra daquelas cansativas solenidades, às quais sempre fui avesso.
- Deixaremos Taís e Alencar aos cuidados de vocês; temos um amigo nos esperando e precisamos voltar – explicou Odilon.
- Estamos sabendo...
Trata-se de Celestino, que morreu, não é?
As notícias correm depressa também por aqui...
Convém, realmente, que ajam com presteza.
Vimos muitos monges em levante, se encaminhando para cá. Tomem cuidado!
Enquanto Dr. Ódon e Leocádio se ocupavam de Alencar, e Mary de Taís, preparando-lhes a remoção, o irmão Sinésio brincou comigo, em tom respeitoso:
- O senhor pretende, Doutor, contar aos nossos companheiros encarnados a morte de Celestino?...
- Pretendo, por quê?
- Porque eu sou um assíduo leitor de suas obras...
- “ Novos Rumos à Medicina”, “A Psiquiatria em Face da Reencarnação”...
- Das mais recentes:
“Sob as Cinzas do Tempo”, “Do Outro Lado do Espelho”, “Na Próxima Dimensão”, “Infinitas Moradas”...
- Como?! – indaguei, surpreso.
Você as lê?...
- E igualmente as de irmão José, do Dr. Odilon Fernandes, do Paulino Garcia...
- De que forma?
- O médium começou comigo, Doutor; éramos companheiros – o fomos por quase vinte anos consecutivos – na Casa Espírita “Bittencourt Sampaio”...
Eu o tenho à conta de um irmão muito querido.
É certo que o pessoal não lhe tem poupado críticas e aborrecimentos.
- Ora, os espíritas!...
Os que mais criticam são os que menos trabalham.
- O episódio da morte de Celestino...
- Suscitará novas polémicas.
- Creio que sim; talvez fosse conveniente omitir, o senhor não acha?
- Com todo o respeito, não – não acho, não.
Celestino morreu ou não morreu? – questionei.
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 14, 2018 7:56 am

- Morreu!
- Então, qual é o problema?
O pessoal espírita precisa se libertar dos remanescentes místicos da Igreja...
- O senhor tem razão, mas...
- Irmão Silésio, deixe o povo chiar à vontade...
Enquanto o médium aguentar, eu aguento.
Acusações desta ou daquela natureza não irão nos intimidar.
- A trama contra ele é terrível; sei disto, porque o conheci criança e lhe quero muito bem...
- Não se preocupe.
Ambos – eu e ele- somos teimosos.
As acusações que pesam contra ele pesavam sobre mim também.
Porque me casei idoso, chegavam até a duvidar da minha masculinidade...
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 14, 2018 7:56 am

NO LIMIAR DO ABISMO 38
Não havia mais tempo para a amistosa conversa com Sinésio.
Paulino deveria estar aflito e precisávamos alcançar a nave, antes que os frades, informados da morte de Celestino, nos interceptassem.
Despedindo-nos dos amigos que integravam o grupo socorrista, convidei:
- Irmão Sinésio, estimaria continuar com você o diálogo, que, infelizmente, necessitamos interromper.
Faço-lhe um convite:
seria uma alegria recebê-lo no hospital, para darmos sequência ao assunto.
Se puder, na semana que vem, estarei com o tempo um pouco mais livre.
- Agradeço, Doutor, e farei o possível.
A minha vida tem sido percorrer esses vales onde o sofrimento campeia.
Durante muitos anos, tive a felicidade de dirigir um grupo mediúnico de desobsessão e me sinto de espírito ligado aos irmãos mais sofredores do Mundo Espiritual.
Antes de conhecer a Doutrina, igualmente cometi muitos erros; durante anos e anos, fui alcoólatra e lutei contra inclinações de ordem inferior, só não me precipitando de vez no escuro do abismo por intercessão da Divina Misericórdia.
Devo o que sou ao Espiritismo e preciso trabalhar nessas regiões, de vez que, sinceramente, não me sinto à altura de abraçar outras tarefas.
- Então – disse, apertando-lhe a mão -, até a próxima semana.
Deixando Taís e Alencar sob a tutela dos amigos que, prontamente, haviam atendido à solicitação telepática de Odilon, não tivemos maiores embaraços para alcançar o veículo que deixáramos em lugar estratégico.
Enquanto planávamos, com os motores praticamente desligados, com o propósito de apanhar Paulino e Celestino, não pude deixar de questionar o Mentor sobre algo que me preocupava.
- Odilon – perguntei-lhe -, o que terá provocado a desencarnação de Celestino?
Ele me parecia um espírito num corpo saudável...
Adivinhando-me os pensamentos, o Instrutor respondeu, indo ao âmago da questão:
- Eu sei com o que você se preocupa, Inácio.
Não, não fui o responsável pela sua morte.
Não tenha, pois, receio de descrever o episódio aos nossos irmãos encarnados, temendo equivocada interpretação dos factos.
Celestino, embora a aparência robusta, tinha o coração fragilizado; o que o mantinha, digamos, encarnado, era a sua determinação mental...
Quando dialogamos, as forças que o sustentavam entraram em instantâneo colapso e o processo se desencadeou.
- Então, em outras palavras, ele enfartou?
- Sim; não nos esqueçamos de que, há séculos, Celestino vinha resistindo à necessidade de se renovar...
O corpo espiritual, Inácio, tanto quanto o corpo físico, também está sujeito a inevitável desgaste.
- Se fosse eu a conversar com ele, naquela oportunidade...
- Teria sucedido o mesmo, desde, é claro, que as palavras que lhe fossem ditas, ao invés de ainda mais irá-lo, lhe tocassem as fibras mais íntimas.
O nosso irmão se nutria de ódio e revolta.
Não pôde resistir às emoções diferentes que experimentou naquele momento...
- Ele desabou como um prédio em implosão...
- Ninguém consegue se opor, eternamente, ao determinismo da Lei; sem violência, o tempo tudo modifica, no campo exterior das coisas e em sua essência...
Se não fosse assim, a tendência é que a ordem que impera no Universo se transforme em caos.
Espíritos há que, por séculos e séculos, resistem à necessidade de se renovarem, mas, para eles, sempre chegará o dia em que se submeterão aos imperativos da evolução.
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 14, 2018 7:56 am

Efectuando ligeira pausa, Odilon concluiu:
- Não se preocupe, Inácio eu não matei Celestino.
Apenas a título de maior esclarecimento e para tranquilizá-lo, permita-me recordar o episódio narrado por Lucas, em Actos dos Apóstolos, no capítulo 5, versículos 1 a 12:
“Entretanto, certo homem, chamado Ananias, com sua mulher Safira, vendeu uma propriedade, mas, de acordo com sua mulher, reteve parte do preço e, levando o restante, depositou-o aos pés dos apóstolos.
Então disse Pedro:
Ananias, por que encheu Satanás teu coração, para que mentisses ao Espírito Santo, reservando parte do valor do campo?
Conservando-o, porventura, não seria teu?
E, vendido, não estaria em teu poder?
Como, pois, assentaste no coração este desígnio?
Não mentiste aos homens mas a Deus.
Ouvindo estas palavras, Ananias caiu e expirou (o destaque é meu), sobrevindo grande temor a todos os ouvintes.
Levantando-se os moços, cobriram-lhe o corpo e, levando-o, o sepultaram.
Quase três horas depois, entrou a mulher de Ananias, não sabendo o que ocorrera.
Então Pedro, dirigindo-se a ela, perguntou-lhe:
Diz-me, vendeste por quanto aquela terra?
Ela respondeu: Sim, por tanto.
Tornou-lhe Pedro: Por que entraste em acordo para tentar o Espírito do Senhor?
Eis aí à porta os pés dos que sepultaram o teu marido, e eles também te levarão.
No mesmo instante, caiu ela aos pés de Pedro e expirou (o destaque é meu).
Entrando os jovens, acharam-na porta e, levando-a, sepultaram-na junto do marido.
E sobreveio grande temor a toda a igreja e a todos quantos ouviram a notícia destes acontecimentos”.
- Sinceramente – comentei, impressionado -, eu não me lembrava deste episódio...
- Há palavras, Inácio, que suscitam a vida e outras que suscitam a morte...
Não nos esqueçamos de que o verbo cria.
Está escrito em Génesis, logo no primeiro capítulo, que Deus criou tudo o que existe pela propriedade plasmadora da Palavra:
“Disse Deus: Haja luz; e houve luz; E disse Deus:
Haja firmamento no meio das águas, e separação entre águas e águas; E disse: Produza a terra relva, ervas que dêem semente, e árvores frutíferas que dêem fruto segundo a sua espécie...;
Disse Também Deus:
Haja luzeiros no firmamento dos céus para fazerem separação entre o dia e a noite...”
Enfim, nos alongaríamos excessivamente com citações que poderão ser, pelos interessados, conferidas directamente.
- Estou me recordando da ressurreição de Lázaro...
- Da ressurreição de Lázaro e de tantos outros feitos do Senhor, utilizando a Palavra como instrumento de acção.
E, revelando memória prodigiosa, o Mentor repetiu, como se tivesse diante de seus olhos as páginas de “O Novo Testamento”:
“E eis que um leproso, tendo-se aproximado, adorou-o, dizendo:
Senhor, se quiseres, podes purificar-me.
E Jesus, estendendo a mão, tocou-lhe dizendo:
Quero, fica limpo! E imediatamente ele ficou limpo da sua lepra”
(Mateus, cap. 8, vv. 2 e 3);
“Chegada a tarde, trouxeram-lhe muitos endemoninhados; e ele meramente com a palavra expeliu os espíritos, e curou todos os que estavam doentes.”
(Mateus, cap. 8, v. 16);
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 14, 2018 7:57 am

“Mas os discípulos vieram acordá-lo, clamando:
Senhor, salva-nos! Perecemos!
Acudiu-lhe, então, Jesus:
Por que sois tímidos, homens de pequena fé?
E, levantando-se, repreendeu os ventos e o mar; e fez-se grande bonança.
E maravilharam-se os homens, dizendo: quem é este que até os ventos e o mar lhe obedecem?”
(Mateus, cap. 8, vv. 25 a 27).
Infelizmente, não tínhamos mais tempo.
Localizando Paulino e Celestino, fizemos a nave pousar silenciosamente e o embarcamos.
- Vocês demoraram – observou o jovem pupilo de Odilon -; temi que algo lhes tivesse acontecido...
- E você não se enganou, Paulino:
na companhia de Odilon, sempre nos acontece muita coisa – retruquei, provocativo.
- E Celestino, como vai passando? – perguntou o Benfeitor.
- Um tanto agitado; tive que contê-lo diversas vezes, a fim de que não se levantasse e saísse caminhando.
Dezenas de monges em patrulha passaram rente a nós, chamando por ele...
- Mas, se ele está morto, como poderiam reavê-lo?
- Não duvide, Inácio, não duvide.
Sobrevoando a inóspita região na intimidade da Crosta, o piloto automático mapeou a saída sem dificuldade e, em breve, estávamos no pátio do hospital, onde Manoel Roberto e outros dois companheiros nos aguardavam.
Em uma maca, Celestino foi conduzido para um quarto de atendimento de emergência e começou a ser hidratado – sim, não se espantem, hidratado, afinal, não se esqueçam, ele havia acabado de nascer e o seu novo corpo requisitava cuidados especiais.
Enquanto outros médicos lhe prestavam assistência, perguntei a Odilon:
- O que há de ser, doravante?
- Assim que ele conseguir adormecer mais profundamente, o removeremos para um hospital especializado e, então, o seu regresso ao corpo físico será providenciado.
- Reencarnará em condições normais?
- Dificilmente; é possível que, instintivamente, ele venha a rejeitar o novo corpo em formação, provocando o próprio abortamento, mas...
- Mas?...
- ... tentaremos quantas vezes se fizerem necessárias.
- Será ele uma criança sem problemas neurológicos ou psicológicos?
- Inácio, não há necessidade que eu lhe responda esta pergunta:
o corpo físico, embora não possamos descartar o peso da hereditariedade, em que, do ponto de vista biológico, ele próprio se estrutura, em última análise é o reflexo do espírito:
tudo dependerá da maneira como Celestino reagir e se submeter às consequências do que traçou para si mesmo.
Oremos para que nosso irmão consiga, no corpo e na alma, sepultar o passado, pois isto é algo que ninguém pode fazer por ele.
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 14, 2018 7:57 am

NO LIMIAR DO ABISMO 39
Odilon e Paulino necessitavam se ausentar.
Os afazeres no “Liceu” reclamavam a presença dos companheiros os quais, sempre que apareciam, me proporcionavam momentos agradáveis e de aprendizado, em sua companhia.
-Inácio – disse-me o Instrutor -, manteremos contacto.
- Você não se livrará de mim tão facilmente – brinquei -, e nem você, Paulino.
- O senhor é que não se verá livre de mim – redarguiu o jovem amigo, fazendo-me um afago no ombro.
O pupilo de Odilon era cativante.
Extremamente educado, parecia-me um lord inglês, sem, no entanto, perder a espontaneidade no trato com as pessoas.
Inteligente e bom, Paulino era o rapaz que todo pai e toda mãe gostariam de ter por filho.
Nunca escutara de seus lábios uma palavra sequer dita de forma mais exaltada ou ouvira uma referência menos elegante a quem quer que fosse.
Sem dúvida, deveria ser ele um espírito de muitas aquisições que, naturalmente, transpareciam de suas atitudes.
Quando ele se afastou, deixando-me a sós com Odilon, comentei:
- Extraordinário rapaz!...
- Estivemos, Inácio, ligados em existência pretérita, quando vivemos em Roma, à época do Cristo: éramos irmãos por parte de pai...
- Ele sabe disto? – perguntei.
- Aguardo o melhor momento de lhe revelar parte de nossa história e, de nosso drama.
O nosso pai era judeu e as nossas mães escravas em sua casa; assim que nascemos, ele se desfez de nós e fomos criados um separado do outro.
O destino, no entanto, se encarregou de promover o nosso reencontro.
Ambos fomos treinados para ser gladiadores e era como ganhávamos a vida – na arena.
A princípio, como registra a história, participávamos de luta de exibição, à mão livre; apenas os condenados à morte lutavam com armas pela sua liberdade, enfrentando-se uns aos outros ou enfrentando a ferocidade dos tigres e leões que, na maioria das vezes, os estraçalhavam em suas mandíbulas.
Certa vez, os gladiadores promoveram um levante, que os legionários logo controlaram e, então, por ordem do Imperador, todos fomos obrigados a lutar pela própria sobrevivência.
Com voz pausada e, como era de seu feitio, procurando sintetizar, Odilon continuou:
- Na noite que antecedeu o fatídico dia, ninguém conseguiu dormir.
Éramos um grupo de vinte e oito e lutaríamos dois a dois, sendo que o vencedor obteria o perdão.
Conversando com Paulino, que se assentara ao meu lado – eu tinha seis anos a mais do que ele -, descobrimos que éramos filhos do mesmo pai, que nos vendera a um mercador de escravos.
Ele se chamava Davi, e eu, a Aarão.
Veja, Inácio, como são os Desígnios de Deus:
de manhã, quando as duplas foram escolhidas por sorteio, eu deveria lutar contra o meu próprio irmão, até à morte...
Caso recusássemos, seríamos sumariamente eliminados pelos arqueiros, dispostos nas arquibancadas do circo.
Deram-nos um pequeno escudo e um gládio, que mal sabíamos segurar, pois, na verdade, não passávamos de amadores e quase malabaristas.
Mais alto e mais forte do que eu, Davi me venceria com facilidade, porém, quando adentrávamos a arena, ele me disse que não levantaria o gládio contra mim...
Os seus olhos brilhavam e o coração, batia-lhe, acelerado, no peito.
Eu também não lutarei – respondi, sabendo o que nos esperava.
Quando chegamos no centro da arena e nos colocamos diante do outro, desfizemo-nos das armas, ante os gritos do povo:
- Lutem, lutem, covardes!...
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Ave sem Ninho

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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 14, 2018 7:57 am

Os soldados ainda insistiram para que déssemos espectáculo, chicoteando-nos e mostrando-nos os arqueiros em posição de atirar.
Davi estava com vinte e um e eu com vinte e sete de idade.
Quando o comandante ordenou aos arqueiros que se preparassem, abraçamo-nos e fomos crivados por várias setas; Davi, atingido mortalmente nas costas, pereceu em meus braços, soltando golfadas de sangue pela boca...
Quanto a mim, supondo-me igualmente morto, fui carregado para a sala dos cadáveres, que ficava no subsolo, onde diversos coveiros permaneciam a postos.
Três flechas me alvejaram: uma na coxa, outra à altura dos rins e a última cravou-se-me um pouco abaixo do pescoço, detendo-se na omoplata...
Com cuidado, observando se Paulino não retornava na companhia de Manoel Roberto, o Mentor concluiu:
- Jogaram o meu corpo e o de Davi num carrinho de mão e nos transportavam para uma vala comum, quando, recobrando os sentidos, consegui gemer.
O coveiro, que era auxiliado por seu filho, percebendo que eu estava vivo, providenciou a minha remoção; ele também era judeu e detestava os romanos...
Fiquei devendo-lhes a vida, a ele e à sua esposa os quais, às escondidas, trataram de mim por mais de dois meses; a ferida na coxa infeccionou-se e estive, várias vezes, entre a vida e a morte.
Esta, Inácio, foi uma das experiências que eu e Paulino tivemos oportunidade de vivenciar juntos.
- E o que você fez depois? – perguntei, interessado.
- Fui embora para a Ilha de Chipre, onde comecei a escutar a falar de Jesus, comparecendo às pregações de um ancião de nome José, que todos tratavam de Barnabé, companheiro de Paulo de Tarso em suas andanças.
Converti-me ao Cristianismo, casei-me, fixei residência por lá, mas não pude me esquecer de Davi – eu tive a impressão de que ele me abraçara para me proteger, recebendo as flechadas mais certeiras...
- Dr. Odilon – chamou Paulino, que regressara sorridente -, quando o senhor quiser partir, estarei pronto.
- Vamos, meu filho – respondeu o Instrutor, passando-lhe o braço direito sobre o ombro e, com a mão, desalinhando os seus cabelos encaracolados -; temos muito que fazer.
O Inácio, quando pega a gente de prosa...
- Eu?! – exclamei.
- Você mesmo, com as suas histórias que não acabam mais – desconversou, com discreta piscadela.
- Quando estarão de volta? – questionei, sentindo-lhes a falta por antecipação.
- Quando você nos preparar um banquete com um porco espinho – troçou comigo.
- Arre, Odilon!...
Por favor, nem me lembre, que o meu estômago já embrulha...
Carne, nunca mais!
- Pelo menos, até a próxima encarnação, não e, Inácio?
- Renascerei vegetariano.
- Vegetariano, mas não vegetal...
- Mas tenho esperança de que, com a evolução, a carne deixará de ser carne...
- Quem diria! – falou, apertando-me a mão.
Quem sempre apreciou um churrasco como você!...
- Definitivamente, deixei de ser carnívoro.
E pensar – meu Deus! – que já fui antropófago...
- Em várias existências, Inácio, em várias existências, não tão antigas quanto você supõe – falou, preparando-se para volitar.
- Manoel Roberto, por favor – solicitei de brincadeira -, um sal de frutas urgente, um bicarbonato, qualquer coisa!
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 15, 2018 9:55 am

Acenamo-nos e Odilon e Paulino partiram.
- Vamos à luta, Manoel – convidei o amigo para entrar, sabendo que a minha mesa estava repleta de papéis e muitos pacientes esperavam por mim.
- Doutor, o senhor vai levar mais de um mês para colocar o serviço em dia.
- Que papelada é esta? – perguntei, apontando, surpreso, para o calhamaço.
A burocracia da Terra já chegou por aqui?
Eu não sou empresário e nem executivo – eu sou médico!
Imaginei que, depois da morte, estaria livre de tudo isso.
Auxilia-me, Manoel, a promover uma triagem: metade para a lata de lixo e a outra metade...
- Doutor, existem documentos importantes...
- Não são mais importantes que os meus doentes.
Arranje alguém para cuidar disto e só me mostre o estritamente necessário. Deus me livre!
Se, com todo o respeito, o INSS chegar por aqui, eu renuncio...
- E se aparecer algum fiscal procurando pelo senhor?
- Atenda-o e se ele insistir, diga que reencarnei...
Eu vou ver os meus doentes.
Estou com saudade deles!
E deixando Manoel envolvido com aquela papelada, passei a mão no estetoscópio, coloquei-o em volta do pescoço e fui para a minha melhor terapia:
cuidar dos internos do hospital, conversar com eles e ouvi-los, sem nenhuma pressa.
- Dr. Inácio – indagou-me o primeiro, dos que já estavam connosco de alguns meses -, quando receberei alta?
- Quando você parar de perguntar a respeito – respondi, acomodando-me numa cadeira próxima -; de todos vocês, eu serei o último a receber alta e não estou reclamando...
- Mas o senhor é médico e não paciente, como nós.
- Quem é que lhe disse isto?
Eu também me considero um espírito enfermo...
Aliás, em nossa actual condição, enfermidade espiritual é uma questão de gradação.
Poucas são as mentes absolutamente sãs.
O pior desequilíbrio é o imperceptível, que, infelizmente, acomete a milhares e milhares de pessoas no mundo todo...
- O senhor vai me curar?
- Jesus Cristo nos curará, meu filho; tenhamos paciência e não desanimemos de nós...
- Muita gente diz que eu estou louco!
- São mais loucos ainda...
- Conversar com o senhor é um remédio para mim; há médico que passa por aqui e nem ligo para a gente.
- Infelizmente, a preguiça e a indiferença também sobrevivem à morte...
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 15, 2018 9:55 am

NO LIMIAR DO ABISMO 40
- Dr. Inácio – veio-me chamar Manoel Roberto -, visita para o senhor.
- De quem se trata? – perguntei, terminando de abotoar a blusa do pijama de uma senhora, que, com as mãos trémulas, não estava conseguindo fazê-lo.
- Alguém de nome Sinésio.
Ele informou aos nossos vigilantes que foi convidado pelo senhor.
Posso fazê-lo entrar?
- Perfeitamente. Conduza-o ao meu gabinete e faça companhia a ele.
Irei em seguida.
- Olá, meu amigo! – Saudei-o, procurando deixá-lo à vontade.
Como vai passando?
- Tudo bem, Doutor – respondeu com timidez, segurando um boné que incorporara à sua indumentária.
- Eu o estava esperando.
E Alencar e Taís? – indaguei, interessado nos dois infelizes irmãos que deixáramos aos cuidados de seu grupo socorrista.
- Foram encaminhados por nós a um outro núcleo hospitalar; graças a Deus e ao auxílio de vocês, conseguimos subtraí-los ao estado de penúria em que se encontravam.
- Você estava muito preocupado com o nosso companheiro médium, não é?
- Não é para menos, Doutor; conforme lhe disse, eu o acompanho desde jovem e sei de seu idealismo e boa vontade.
Sinto-me impotente para ajudá-lo...
Eu não nasci em Uberaba, mas conheço bem os bastidores do Movimento Espírita na cidade.
Como em todos os lugares, há muita gente boa, no entanto...
- Ora, Sinésio, não se aflija.
- O pessoal, Doutor, não sabe de toda a verdade, das tramas foram urdidas contra ele – campanhas difamatórias inescrupulosas, com intuito de destruí-lo, comprometendo-o moralmente.
- É melhor que não saiba...
E, depois, o nosso amigo tem perseverado, não é?
Nada fez com que, por um instante sequer, ele pensasse em parar.
- Quanto a isto, estou tranquilo.
Divulga-se, porém, que ele foi afastado pelo nosso Chico...
Sim, com o intuito de protegê-lo e de dar a ele maior liberdade de acção.
O nosso Chico Xavier não o queria refém da mesma situação...
- Quem sou eu para dizer isto?!
Mas coitado do Chico!
Ele não merecia o que passou – é de estarrecer!
- Coitados de nós, Sinésio, que, por muito menos, teríamos partido para a ignorância; se fosse comigo, eu teria resolvido no tapa...
Mandaria aquele pessoal todo, que o explorava e chantageava, se catar.
- Sabemos que o caso era de polícia...
- Ele, porém, fez uma opção e, como sempre, a opção correta: aguentou tudo calado e, se carma havia, do carma ele se libertou; saiu do corpo, livre como um pássaro...
- O pessoal, a distância...
- O pessoal a distância não sabe de nada e, se soubesse, se desnortearia – tremeria nas bases.
As trevas urdiram com tal subtileza, que chega a ser inacreditável.
Todos os amigos mais próximos de Chico Xavier foram constrangidos a se afastar...
Até os seus familiares consanguíneos sofreram agressões e ameaças.
- Eles que o digam...
- Só não dirão se não quiserem, pois que alguns de seus irmãos e muitos de seus sobrinhos ainda se encontram no corpo.
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 15, 2018 9:56 am

- O nosso amigo comum, Dr. Inácio, correspondia-se com o Chico semanalmente e...
- Eu sei, Sinésio, eu sei:
as cartas dele nas quais aborda assuntos pertinentes à mediunidade, à recepção de livros com temas delicados, etc. foram parar em mãos indevidas, não é?
- Muitas delas, inclusive, foram adulteradas em seu conteúdo e, hoje, tem sido utilizadas para intimidá-lo.
- Necessitarão mais do que isto para fazê-lo.
Graças a Deus, o nosso companheiro não tem compromisso com ninguém e não teme ser execrado.
O seu compromisso é com a Doutrina.
Confiemos em que ele conseguirá seguir adiante.
- O senhor sabe que, às vezes, chego a temer que ele venha a sofrer um atentado...
- Um atentado físico iria bem, Sinésio.
- Como?!...
- Os responsáveis seriam presos e se desmascarariam de vez...
- Mas e se ele fosse morto?
- Simplesmente, viria ter connosco...
- Fico pensando no que o Chico sofreu...
- Não pense.
- Olhe, Doutor, eu sou cearense, a minha família tem parentesco com Lampião, mas sinceramente...
- Então, Sinésio, você conhece a poesia de Catulo...
- Conheço.
- Você se lembra daquele poema “O Azulão e os Tico-ticos”?
- Como não?
É um dos meus preferidos.

E com voz cadenciada, recitou com triste entonação:
“Do começo ao fim do dia,
Um belo azulão cantava,
E o pomar que atento ouvia
Os seus trilos de harmonia
Cada vez mais se enflorava.

Se um tico-tico e outros bobos
Vaiavam sua canção,
Mais doce ainda se ouvia
A flauta desse azulão.

Um papagaio, surpreso
De ver o grande desprezo
Do azulão, que os desprezava,
Um dia em que ele cantava
E um bando de tico-ticos
Numa algazarra o vaiava,

Lhe perguntou: “Azulão,
Olha, diz-me a razão
Por que, quando estás cantando
E recebes uma vaia
Desses garotos joviais,
Tu continuas gorjeando,
E cada vez cantas mais?!”
Numas volatas sonoras,
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 15, 2018 9:56 am

O azulão lhe respondeu:
“Meu amigo, eu prezo muito
esta garganta sublime,
Este dom que Deus me deu!
Quando há pouco, eu descantava,

Pensando não ser ouvido
Nestes matos, por ninguém,
Um sabiá que me escutava,
Num capoeirão, escondido,
Gritou de lá: “Meu colega, Bravo!... Bravo!... Muito bem!”

Queira agora me dizer:
Quem foi um dia aplaudido
Por um dos mestres do canto,
Um dos cantores mais ricos,
Que caso pode fazer
Das vaias dos tico-ticos?!”

- Lindo! – Exclamei.
Que belo e significativo poema!
Aplica-se bem ao assunto de que estamos tratando, não?
- É verdade, Doutor – concordou Sinésio, um pouco mais animado.
- deixemos, então, de lado esse bando de “tico-ticos”...
- Esses “pardais”...
- Essas aves agourentas...
- De rapina...
- Óptimo! – começamos ambos a sorrir.
- O senhor é um homem extraordinário, Doutor!
- Não sou nenhum “azulão”, mas contento-me em ser...
- Um coleiro-do-brejo!
- Um tico-tico é que não...
Temos que dar força ao nosso companheiro, a fim de que ele continue.
O Espiritismo não tem dono!
- Essa gente, Doutor, quer nos colocar uma mordaça...
- Eu vou continuar falando e escrevendo o que penso e eles vão ter que me aguentar!
- No entanto, é o médium que tem sido injuriado...
- Quanto mais injuriado, mais inspirado.
Eles não sabem quanto é teimoso, persistente...
- Desde jovenzinho, Doutor, desde jovenzinho.
- Podem escarnecê-lo, desmoralizá-lo, inventar coisas, fraudar cartas e documentos, acusá-lo do que quiserem: ele não vai parar!
- Enquanto tiver saúde, não.
- Ora, eu enfrentei aquela “padralhada” de Uberaba praticamente sozinho, numa época em que os espíritas da cidade poderiam se contar nos dedos; eles, agora, é que me fariam recuar?
De modo geral, os companheiros de Doutrina são excelentes...
- Os mais simples e apagados; os que se preocupam em praticar a caridade, visitar os pobres, distribuir sopa...
- - ... mas – rematei, com convicção - existe muito lobo disfarçado de cordeiro, gente que afivela uma máscara de humilde na face...
Eu os conheço bem. A mim não enganam.
- Nem tampouco a mim, Doutor, que, como o senhor, convivi com eles uma boa temporada.
- Sinésio – convidei, venha conhecer o hospital.
Vamos dar uma volta para espairecer.
Deixemos os espíritas brigar em paz...
Por mais que saibam, eles não sabem o que os espera além da morte.

§.§.§- Ave sem Ninho
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