O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 05, 2018 10:31 am

Não olvidemos que o Cristianismo se propagou, sem dúvida, pela excelência da Mensagem que veicula – da Mensagem que foi capaz de, ao longo dos séculos, formar santos e heróis, mártires e apóstolos que, em seu espírito e em seu corpo, a testemunharam às gerações porvindouras.
Mais do que medianeiros da palavra, voltamos a enfatizar, escrita ou verbalizada, o Espiritismo está a necessitar de médiuns que, através de suas atitudes rectas, arrebatem corações para a Verdade; de médiuns inspiradores de vidas, que despertem, com os seus exemplos, consciências adormecidas; de médiuns que se transformem em parâmetros comportamentais, pregando pela sua capacidade de amar e de servir desinteressadamente; de médiuns da boa vontade e da renúncia, da benevolência e do perdão; de médiuns que nos possibilitem enxergar, na transparência de suas acções, o espírito do Espiritismo!...
Entreguemo-nos, portanto, a tais reflexões, para que os nossos templos espíritas sejam a continuação da Casa do Caminho, que os Apóstolos ergueram em Jerusalém e sobreviveu à pompa dos templos pagãos que, a pouco e pouco, se transformaram em um monte de escombros, que a poeira dos séculos terminou por sepultar.
Que os nossos núcleos de trabalho espírita sejam oficinas do Bem, sempre de portas abertas aos necessitados de todas as procedências!
Para tanto, façamos, de uma vez por todas, que se calem as nossas discórdias e nos unamos, pura e simplesmente, no cumprimento das humílimas tarefas que nos foram confiadas – tarefas quase insignificantes, mas que nos transcendem e nos honram sobremodo!...
Perdoem-me, queridos irmãos, esta digressão tão longa e, com certeza, desnecessária, para aqueles que, em pleno anonimato, oferecem à Causa o melhor do melhor que possuem.
Assim, permitam-me retomar, nas páginas subsequentes, o diálogo que, na companhia do diligente amigo Odilon Fernandes, entabulávamos com aquele jovem de nome Osório, que nos procurara em busca de uma orientação que, como tantos outros, não se mostravam muito disposto a acatar.
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Ave sem Ninho

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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 05, 2018 10:31 am

NO LIMIAR DO ABISMO 9
- Inácio - chamou-me Odilon, como se me despertasse de um longo devaneio -, onde é que você estava?
- Vagueando por aí... – respondi, fitando o rapaz à minha frente.
- O que o senhor estava pensando? – perguntou-me Osório, interessado em alguma revelação de natureza espiritual.
- Não se preocupe, filho; eu estava efectuando conjecturas sobre o Movimento Espírita; pelos prodígios da imaginação, conversava com os companheiros bem intencionados...
Entrementes, diante de nós, Osório deu início a estranho processo de transfiguração.
Recomendando-me calma, Odilon permaneceu em expectativa, como se já soubesse o que estava para acontecer.
O jovem médium, inclusive do ponto de vista físico, se transformara quase por completo:
parecera ganhar maior altura e perder peso, como se uma outra pessoa se lhe sobrepusesse à imagem; os seus olhos se mostraram mais penetrantes e a própria cor da pele se alterara...
Com voz um tanto soturna, a entidade que se lhe assenhoreara das faculdades indagou-nos enigmática:
- O que vocês querem de mim?
Por que me evocaram a presença?
- Quem é você, meu irmão? – tomou Odilon a iniciativa do diálogo, enquanto eu procurava emocionalmente me recompor.
- Lêmur. O meu nome é Lêmur – respondeu com certa altivez.
- Em que lugar você vive actualmente?
- Numa dimensão desconhecida por vocês...
- Por que não podemos vê-lo?
- Vocês continuam a enxergar a Vida com os sentidos que o homem a enxerga, supondo abarcá-la no Universo...
Poucos de vocês poderiam nos ver e nem todos, onde estamos, poderiam vê-los; aquilo que não nos interessa não nos fere a percepção.
- Que dimensão é essa à qual se refere?
Onde se situa?
- Acima e abaixo, ao lado e, por assim dizer, no centro da dimensão em que vocês habitam...
Vocês não sabem que existem dimensões que se interpenetram?
É uma espécie de universo paralelo...
- Vocês são muitos?
- Não, não somos; este espaço foi criado pelo poder de nossa mente...
- Como assim?
- Ora, não me teste! – redarguiu impaciente.
Você sabe muito bem...
Recriamos aqui a região da Lemúria.
- Recriaram?
- Sim, qual é o problema?
É um direito que nos assiste, não?
Somos imortais e optamos por viver como melhor nos convém...
- No entanto, meu amigo, o tempo avança; tudo tende à Perfeição...
- É uma questão de interpretação.
Estamos bem assim, como estamos; apraz-nos viver como vivemos...
Você chama de Perfeição o que os homens estão fazendo com o mundo que habitamos, um dia?
- E Jesus, o que significa para vocês?
- Um espírito elevado, sem dúvida, mas um sonhador; sucumbiu à tentação de se confundir com o Criador...
- Mas você não foi um monge beneditino?
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 05, 2018 10:31 am

- Não me fale disto...
Aquilo foi “um acidente de percurso”; não sei como pude perder o controle...
Quando dei por mim, já estava na carne.
- Então, você admite que existem Leis que nos governam e que, periodicamente, independente de nossa vontade, nos submetem?
- Repito: foi um acidente; não acontecerá de novo...
Foi falta de prontidão mental de minha parte; a reencarnação é para os espíritos que se fragilizam...
- Todas as coisas evoluem...
- Até o ponto em que desejam; estou muito bem assim e não pretendo mais... Para quê?
- Qual, então, o motivo de você ter se ligado a este rapaz?
Por que motivo você o incomoda?
- Eu, incomodá-lo?!
Ora, não invente as coisas!
O pensamento dele é que veio de encontro ao meu...
Compadeci-me de suas aflições e resolvi atendê-lo...
Afinal, o que me custa inspirá-lo a escrever, se o desejo dele é publicar um livro?
Vocês não vivem pregando a caridade?
E, depois, fomos irmãos...
- Irmãos consanguíneos?
- Sim, ambos vivemos no Egipto; éramos sacerdotes...
- Então, você já reencarnou diversas vezes?
- No Egipto, foi um outro vacilo de minha parte; a Atlântida havia submergido e...
- E antes que fosse um atlante?...
- Não me recordo de nada.
- Não se recorda ou não quer se recordar?...
O seu princípio espiritual cumpriu uma longa trajectória:
você foi um mineral, vegetal, animal, homem e, um dia, será anjo...
- Homem eu não fui, e anjo não pretendo ser...
Dá-me asco pensar que eu possa ter sido humano!
- Foi também um ser elemental...
- Não me provoque, peço-lhe; eu não fui, não sou e não serei nada do que você está me dizendo...
O que importa é o agora.
- E o livro que você ditou ao rapaz?
- “A Rebelião dos Capelinos”?
Ora, trata-se de uma ficção...
- Será mesmo?
Ou, nele, você é o personagem principal?...
- Não houve exílio algum; um grande asteróide chocou-se com o orbe em que vivíamos e... morremos.
O Universo não é perfeito...
De um instante para outro, a Humanidade pode desaparecer e, como os espíritos não morrem, procurarão outros mundos.
- Quer dizer que você não estava entre os rebelados?
A história que sabemos é outra...
O espírito gargalhou e respondeu:
- O que vocês podem saber de nós, vocês que nada sabem de si?
Meu amigo, não me faça rir!
- O que tem a dizer sobre Mediunidade?
- É um facto natural, cujo conhecimento não é propriedade de vocês...
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 05, 2018 10:31 am

Todos os seres e todas as coisas se inter-relacionam.
A Vida não é constituída de fragmentos.
- Então, Lêmur, você crê na Comunicabilidade dos Seres, na Reencarnação...
- Na Atlântida, na Índia e no Egipto já se cogitava do que um francês reinventou com o nome de Espiritismo.
- Você sabe o que é Espiritismo?
- Mas é claro!
Não se esqueça de que fui um monge beneditino...
- Foi ou continua sendo?
Esta pergunta de Odilon fizera o espírito estremecer, de cima abaixo.
- O que lhe importa saber?
- É que, desde o começo, acho que você está faltando com a verdade...
- Como ousa me chamar de mentiroso?
- Eu não pronunciei esta palavra...
- O que você quer de mim?
Vamos, responda-me! – alteara o espírito o tom da voz, sentindo que a máscara começava a lhe cair do rosto.
- Você é mesmo quem diz ser?
- É óbvio que sou, o u melhor, que fui um beneditino.
- Foi ou continua sendo, meu irmão:?
- Como se atreve?...
- Eu não estou me atrevendo coisa alguma – ponderou Odilon -; você é que está se mostrando...
Naquele instante, o médium à nossa frente começou a passar por outra transfiguração:
aquela figura alta e esguia deu lugar a alguém de baixa estatura e obeso...
Os olhos se encovaram, um aspecto sombrio se lhe estampou no semblante e quase lhe pude ver, sobre os ombros, a conhecida capa escura da Ordem de São Bento.
- Pronto!... – exclamou, desafiador.
Você não queria me ver como sou?
Eis-me aqui...
O que pretende de mim?
- Pessoalmente, nada – responde o Mentor com impressionante serenidade.
Por que está perturbando este pobre rapaz e o vem enganando há tanto tempo?
- Alto lá!
Eu não o enganei:
eu disse a ele que era um monge...
- Que havia sido e que não continuava sendo...
- Ora, é uma simples questão de palavras.
- O que você pretende contra o Espiritismo? – formulou Odilon a pergunta crucial.
- Tudo! – respondeu sem mais sofisma.
Se você quer mesmo saber, eu e os meus colegas pretendemos tudo contra...
Queremos arrasar com essa seita demoníaca e não hesitaremos; nosso propósito é o de estabelecer a confusão, enlouquecê-los...
Como vocês são tolos! – e gargalhava estentoricamente.
Acreditam em tudo, na mais absurda das histórias...
- É engano seu, Lêmur.
- Lêmur!... Que Lêmur o quê?!...
O meu nome é Celestino.
- Osório...
- Este rapaz é um tolo, um inocente útil...
É fácil, extremamente fácil manipular a vaidade de vocês.
Como vocês, os espíritas, são vaidosos e idiotas!...
Eu estava para interferir, quando Odilon, contendo-me em meus ímpetos, respondeu:
- No entanto, meu irmão, foram os “pobres de espírito” e os “puros de coração” que o Senhor bem-aventurou...
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 05, 2018 10:32 am

NO LIMIAR DO ABISMO 10
- Você quer que eu lhe diga uma verdade? – prosseguiu Celestino.
Fui, sim, monge e chamavam-me irmão Celestino.
Quanto a Jesus Cristo...
E sorriu com ironia, emendando:
- Eu nunca o vi!...
Tudo é um jogo de interesses banais; a Igreja organizou-se para dar guarida a um monte de homens e mulheres que necessitavam sobreviver...
Estudamos a fundo os Evangelhos, as suas origens e concluímos que não passam de um texto bem articulado – um é cópia do outro, principalmente os que são atribuídos a Mateus, Marcos e Lucas; para começar, dizem, foram escritos em data bem posterior à suposta existência do Cristo...
- Você está se contradizendo – argumentou Odilon.
Primeiro, admite a existência histórica de Jesus Cristo, depois a nega...
- Deve, sim, ter vivido há muito tempo atrás alguém com este nome, mas, certamente, não foi quem a Humanidade reverencia; deve ter sido uma pessoa comum, sentenciada à morte como tantas àquela época...
Foi Paulo de Tarso, expulso do Judaísmo, quem organizou o Cristianismo; ele era inteligente o suficiente para tanto, mas não os chamados de Apóstolos, que eram criaturas incultas...
- Durante quanto tempo – permita-me indagar – você foi monge, meu irmão?
- Mais de trinta anos...
- Enganou-se por mais de três décadas?...
- Não, eu não me enganei; conforme lhe disse, precisava sobreviver num mundo repleto de hostilidades: as muralhas do mosteiro me protegiam...
- E as preces que, cotidianamente, formulava? Os monges se impunham austeras disciplinas espirituais...
- Nem tanto, nem tanto; comíamos bem e bebíamos vinho em quantidade suficiente para nos entorpecer...
Quanto às orações – ora, a gente acaba se acostumando com tudo, não é?
Constituíamos uma sociedade semelhante a dezenas de outras, como, por exemplo, as que se dedicam ao Ocultismo:
os Templários, os Teosofistas...
A respiração de Osório havia se tornado ofegante, dando mostras de desgaste e cansaço.
Desejando poupá-lo, Odilon procurou sintetizar:
- Afinal, meu amigo, o que você pretende?
- Simplesmente, publicar um livro – nada mais, nada menos.
- E por que não tomou a iniciativa de fazê-lo directamente?
- Eu?! Você está achando que sou tolo?...
Se encontrei quem faça isso por mim, por que haveria de me expor?
Quanto maior a nossa proximidade com a carne, maiores as chances de sermos apanhados...
- Apanhados?...
- Sim, renascermos ou, como vocês, espíritas, preferem, reencarnarmos...
Centenas e centenas de nós estão voltando ao corpo, sem se darem conta do facto!
- Se você foi ou continua sendo monge por conveniência; se nunca teve e continua não tendo convicção alguma, por que ataca o Espiritismo?
- É uma doutrina pretensiosa demais:
vocês querem construir um Mundo Novo, uma nova Humanidade, uma Nova Era...
Ora, convenhamos, sejam mais realistas.
Quem são vocês?!
Deixem as coisas como estão...
O Universo é regido por Leis?!...
Óptimo! Por que interferir?...
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 06, 2018 11:54 am

Essa história de Cristianismo Redivivo...
Isso tudo é balela!
Vivam e deixam viver.
Não se baseiem em falsas premissas...
- Falsas premissas?...
- Jesus Cristo e Allan Kardec!...
Vocês sabem quem conhece o tal de Kardec na Europa?
Ninguém. Ele foi um professor medíocre, que acabou morrendo na miséria por acreditar nessas baboseiras.
Só mesmo vocês, no Brasil, um país subdesenvolvido, sem cultura própria, para aceitar tudo o que vem de fora...
- Se o Espiritismo é, como diz, uma baboseira, por que se preocupa tanto?
Celestino, silenciando por alguns instantes, agitou-se no corpo do médium e respondeu:
- Como você é ingénuo!...
Estamos conversando há quase uma hora e não está adiantando nada; estou perdendo o meu tempo...
O meu intuito é o de provar como vocês, os espíritas, que dizem ter discernimento, engolem tudo.
Se eu publicar o meu livro – “A Rebelião dos Capelinos”, ele haverá de ser um sucesso de venda.
Vejam o Conde de Rochester...
- O que tem Rochester?
- Não importa o teor da obra e nem a credibilidade do médium que a receba – tendo o nome dele na capa, é o suficiente para que se facture alto.
Imaginem: “A Rebelião dos Capelinos”, por Lêmur, psicografado por Osório...
Não, Osório não soa bem literalmente; eu já disse isto a ele...
- Mas não significa – aparteei – que todo livro mediúnico seja necessariamente espírita...
- Ora, ora, o nosso doutor resolveu falar – observou com ironia -; as suas obras de morto estão causando polémica...
- Você disse bem – retruquei:
- as minhas obras de morto, porque as que escrevi enquanto encarnado...
- Viraram comida de traça!
O senhor é um dos que deveriam me dar razão:
o povo não quer nada com coisa séria e, sendo de origem mediúnica, qualquer livro é espírita...
- Não generalize; no Espiritismo, há muita gente que sabe separar o joio do trigo e, apesar das dificuldades de uma doutrina nascente, que ainda não completou 150 anos, nos centros espíritas estuda-se cada vez mais.
E, após breve pausa, concluí:
- Quanto aos meus trabalhos doutrinários, que, segundo a sua palavra, “viraram comida de traça”, cumpriram com a sua finalidade à época em que foram publicados.
Somente Jesus pronunciou palavras de vida eterna...
- O senhor está procurando se consolar – observou com argúcia própria dos espíritos mistificadores – e sabe que não é assim.
Que é, por exemplo, da maioria dos títulos de Francisco Cândido Xavier, que pode ser considerado um autor de hoje e não de ontem?
Mais de quatrocentos livros publicados!
Cerca de 2/3 talvez já não sejam mais editados e, dentro de mais cinco anos...
- Os seus títulos essenciais, respondi – ficarão para sempre, como ficaram os de Allan Kardec.
Para quem se diz monge, você me parece espírita...
- O senhor justifica a fama que tem...
- Que fama, meu filho? De verme?!...
- A fama de envolvente, mas comigo não; comigo não funciona...
- Você está se sentindo envolvido?
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 06, 2018 11:54 am

- Pare de me atormentar!
Feche essa matraca...
- Está perdendo a linha...
- Eu já lhes dei trela demais...
- Trela? Este termo não me é habitual.
O que significa?
- Chega! Vou-me embora...
- Para onde e fazer o quê?
- Não me perturbe, não me perturbe...
Eu não queria que este idiota viesse procurá-lo.
Vocês armaram para mim...
Dois contra um é covardia.
- Não estamos contra ninguém; ao contrário, estamos a favor...
- Cale-se! – gritou, a se estorcegar.
Fazendo-me discreto sinal, Odilon retomou a palavra:
- Meu irmão, o nosso intuito é o de sempre cooperar com os que nos procuram; jamais seria nossa intenção ofendê-lo...
Portanto, não nos interprete mal.
O Espiritismo é uma doutrina cristã, que está no mundo com o objectivo de concorrer para que o homem se faça mais fraterno.
Não podemos aceitar o império do caos.
A morte não existe e, se somos imortais, estamos fadados a algo que, por agora, talvez nos escape à compreensão.
Deus é Amor e, em vão, pelejaremos contra os seus Desígnios.
- Eu preciso ir...
A minha obra será publicada.
Este tolo estragou os meus planos: é o que eu temia...
Mas isto não ficará assim.
Procurarei outro médium – eles existem em maior número aqui, deste Outro Lado, do que na Terra...
Vocês não nos impedirão.
Somos muitos – uma legião – e temos centenas de livros prontos, um verdadeiro arsenal literário para lhes comprometer a ideia:
padres e freiras que, com subtileza e perspicácia, haverão de confundi-los...
- Não obstante – ponderou Odilon -, a Obra Kardequiana será sempre o ponto aferidor para todas elas...
- Kardec, Kardec!...
É só o que vocês sabem dizer, mas, a pretexto de actualizá-lo, o Espiritismo de vocês está sendo adaptado e não adaptando...
E gargalhava, enigmático, acrescentando:
- Tentamos com a Parapsicologia: não deu certo...
Quem sabe, a Psicologia, não é?
Ou a Física Quântica, que está na moda...
O nosso propósito é o de enfatizar a Ciência e afastar, de vez, a nociva influência da Religião.
Não tínhamos condições de continuar sustentando a conversa com a entidade, que se retirara, deixando o médium em estado de grande prostração.
Amparado por mim e Manoel Roberto, o rapaz foi acomodado no alvo leito de um quarto contíguo ao meu gabinete.
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 06, 2018 11:54 am

NO LIMIAR DO ABISMO 11
Enquanto Manoel Roberto proferia sentida oração, Odilon, que me solicitara auxílio, transmitiu passe no rapaz semi-desfalecido, impondo-lhe, demoradamente, as mãos nos plexos solar e coronariano, nas regiões do tórax e do cérebro.
Como se lhe constituíssem prolongamento das mãos espalmadas, filamentos luminosos eram naturalmente despendidos pelo Instrutor, sendo aquelas emanações absorvidas por Osório, como se o seu corpo espiritual houvesse se transformado numa espécie de esponja.
Aos poucos, o viço foi-se-lhe estampando novamente no rosto, a respiração se normalizou e a excessiva sudorese se interrompeu, com o médium, agora, mergulhando em necessário sono de refazimento.
- Manoel – solicitei ao abnegado companheiro -, providencie alguém para permanecer no quarto, fazendo-lhe companhia; é possível que ele duram durante várias horas, mas gostaria de estar por perto quando acordasse.
Por favor, assim que ele começar a despertar, chamem-me, e faça-me o obséquio de guardar este volume na gaveta de minha mesa.
- “A Rebelião dos Capelinos” – leu Manoel em voz audível, folheando o calhamaço que eu lhe confiara e saindo, para tomar as providências recomendadas.
Entrementes, valendo-me da presença de Odilon, sempre tão assoberbado pelas obrigações que o requisitavam, deste Outro Lado da Vida (as suas visitas a mim, ultimamente, se faziam cada vez mais raras), aproveitei os minutos que nos restavam naquela noite para ouvi-lo em maiores esclarecimentos.
- O rapaz me parece um médium promissor, você não acha? – interroguei.
- Sem dúvida – respondeu o Mentor, no diálogo que se desdobrou entre nós com o mínimo de palavras.
- É uma pena que esteja debaixo de tão estranha influência...
- Todos, Inácio, estamos debaixo de influências nocivas e salutares, que assimilamos de acordo com o nosso estado mental.
Mediunidade e obsessão, no que tange à sintonia, são processos análogos.
- Em geral, o médium oscila muito, não é?
- Oscila, como oscilamos também, por exemplo no humor com que nos relacionamos com as pessoas no cotidiano:
ora estamos de semblante alegre, ora taciturno...
Todos somos susceptíveis de alterações emocionais e psicológicas, de um minuto para outro.
- Você rotularia isto de desequilíbrio?
- Invigilância, seria o termo mais apropriado, ou, ainda, imaturidade.
Não somos senhores de nós e não sabemos lidar com as nossas forças mentais.
- Sequer conseguimos controlar a palavra...
Há tanta gente que fala e, em seguida, se arrepende do que falou.
- E a palavra, Inácio, leva um certo tempo para se articular, podendo ser submetida ao crivo da razão.
- Ao contrário do pensamento...
- Do pensamento, que é nossa própria identidade, fluindo de nós com incrível espontaneidade.
- Como, afinal, poderíamos exercer um maior controle sobre o pensamento que tende a se transformar em acção?
- Educando-nos em profundidade.
- Mas, se somos o que pensamos, como podemos ser diferentes?...
- O Evangelho, que é o Verbo Divino, é o Pensamento de Jesus que veio nos plasmar o pensamento...
- Então, Jesus veio nos “fazer a cabeça”?
- O Cristo superou o “ego”, que, em nós, se encontra em confronto com o “eu”...
- Por este motivo, brigamos o tempo todo connosco?
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 06, 2018 11:54 am

- Sim; em síntese, a trajectória evolutiva que cumprimos é uma luta milenar do humano com o divino, ou seja: do “ego” contra o “eu”.
- Eu nunca entendi muito essa história de “ego” e “eu”...
Em mim, coexistem dois Inácios?
Se um só já é demais...
- O “eu”, Inácio, é a nossa consciência:
é o ouro que se destaca da ganga, a pérola que se liberta da concha, o lírio que desabrocha no pântano; o “eu” é tudo o que restará de nós...
- É o “eu” que argumenta com o “ego”?
O que seria o “ego”?...
- O “ego” é a imperfeição...
O “eu” contraria o “ego”, e o “ego” contraria o “eu”...
- Não dá para os dois entrarem num acordo?...
- Os interesses são diferentes.
- Meu Deus, quanta complicação!...
Como saber quando estou agindo através do “eu” ou através do “ego”?
- O “eu” é amor, o “ego” é paixão; o “eu” é altruísmo, o “ego” é egoísmo; o “eu” é renúncia, o “ego” é desejo...
- Alguns chamam o “eu” de “superego”...
- É uma questão de palavras.
- Somos seres cindidos?...
- Inácio, sem o “eu”, o “ego” jamais se redimiria; atentemos e, sem dificuldade, constataremos a distinção: através do “eu”, o Pensamento de Deus dialoga connosco, ou seja, com o nosso “ego”...
- Tentando convertê-lo...
- Sim, para que, conforme nos disse Jesus:
“Sede vós logo perfeitos, como também vosso Pai celestial é perfeito”.
- Perfeitos como Deus?...
- Como Ele é perfeito, e não igual; a criatura nunca se nivelará ao Criador...
- Então, o “ego” nunca será o “eu”...
- O “ego” será como o “eu”, mas não igual ao “eu”; o “Eu” é único em todos os “egos”...
- E onde é que entra a obsessão nessa trama toda?
- A obsessão é um “ego” reforçando o outro...
- Ou subjugando...
- Você está começando a entender, Inácio – caçoou Odilon, com o propósito de descontrair.
- E na mediunidade?... Na mediunidade, temos a participação do “ego” e
a participação do “eu”; quanto mais “ego” na mediunidade, mais
intercâmbio na horizontal; quanto mais “eu”, mais sintonia na vertical...
- Por favor, Odilon, que o seu “eu” faça um pouco mais de luz em meu “ego”...
- Em termos de mediunidade, apenas em condições excepcionais o “ego”
deixa de interferir.
- Falemos numa terminologia espírita.
- Jesus era Médium de Deus e, entre ambos, havia plena identificação...
- “Eu e o Pai somos um”!
- Criatura e Criador se identificando no mais alto nível!...
- E o homem comum? – perguntei.
- É médium do homem comum.
- No corpo e fora do corpo...
- Perfeitamente.
O intercâmbio mediúnico não se restringe a contactos entre dimensões de natureza física que sejam distintas; em última análise, mediunidade é o intercâmbio entre dimensões mentais diferentes...
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 06, 2018 11:54 am

- E a questão do animismo?
- Animismo é mediunidade.
- E a mistificação?
- É mediunidade também.
- Tudo, então, é mediunidade?
- É mediunidade onde prevalece o “ego” ou o “eu”, um se sobrepondo ao outro.
- Na obsessão...
- Temos a tirania do “ego”.
Vejamos o que Kardec nos fala: “obsessão (...), o império que alguns espíritos sabem exercer sobre certas pessoas.
Ela não acontece senão pelos espíritos inferiores que procuram dominar”.
- Como interpretarmos o caso de Osório?
- Osório é médium sob uma influência obsessiva.
- Passível de ser tratada com êxito?
- É evidente, desde que ele se disponha a cooperar.
- E se Celestino, o espírito obsessor, não permitir?
- Tanto a obsessão quanto o transe mediúnico são fenómenos consentidos; o obsessor não constrange a vítima, se a vítima não lhe concede permissão, consciente ou inconscientemente.
- Inconscientemente?...
- Sim, pelo remorso de uma falta cometida, pelo sentimento de culpa exacerbado ou... pela afinidade de intenções, as mais veladas.
- Mesmo nos casos de possessão, Odilon?
- Mesmo nos casos das mais terríveis subjugações; por este motivo,
tratar a obsessão significa, primeiro, tratar o obsediado.
- Mas se Celestino não quiser largar Osório?
- Se Osório quiser largá-lo, Celestino continuará obsidiando um fantasma...
- Não há constrangimento de natureza física da parte do algoz desencarnado...
- Tal constrangimento somente seria possível através de um consentimento mental...
- Consentimento mental apenas?
- O consentimental moral está implícito: é decorrente, e vice-versa.
- E o carma entre os dois?
- Se o carma fosse impedimento absoluto à redenção do espírito, todos os esforços da evolução seriam baldados.
O mal não carece de ser reparado pelo mal.
“O amor cobre multidão de pecados”...
Se eu o ofendo e, reconhecendo o meu erro, lhe peço perdão e você não me perdoa, o problema passa a ser mais seu do que meu. Concorda?
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 06, 2018 11:55 am

NO LIMIAR DO ABISMO 12
Odilon deveria se ausentar, já que as tarefas da instituição que dirigia reclamavam sua presença.
O diálogo que mantivéramos, como sempre, fora muito proveitoso para mim; conversáramos sobre diversos assuntos pertinentes à Doutrina e à Vida, e aquele meu estado de espírito apático cedera lugar a um novo entusiasmo.
Odilon, dentre as suas inúmeras qualidades, é portador do dom do encorajamento:
a sua simples presença se traduz por paz e alegria.
- Inácio – explicou-se -, necessito verificar como estão indo as coisas no Liceu; tudo estando em ordem como deve estar, amanhã o estarei de volta, para que, juntos, se você me permitir, acompanhemos o desdobrar do caso de Osório.
- Estarei esperando-o – respondi, correspondendo ao seu afectuoso abraço.
Quando Odilon saiu, sentindo-me completamente sem sono (deste Outro Lado, temos ainda certa carência de repouso), comecei a folhear o exemplar de uma revista que estava sobre a minha mesa de trabalho; trata-se de uma publicação que, em algumas de suas páginas, estampa reportagens pertinentes ao Movimento Espírita na Terra.
Chamou-me a atenção a notícia de que o pesquisador indiano, Dr. Banerjee, encontrara-se com Chico Xavier, na cidade de São Paulo, e, com auxílio de um tradutor, mantiveram interessante diálogo alusivo à Reencarnação.
À época do referido encontro, eu ainda estava encarnado, vários periódicos espíritas o haviam noticiado, mas, confesso-lhes não ter ligado ao facto maior importância.
Com o intuito de me tranquilizar em relação aos últimos acontecimentos, desligando a mente do caso Osório – Celestino, comecei a ler a curiosa reportagem.
O Dr. Banerjee, hoje desencarnado, falava ao Chico Xavier sobre o andamento das pesquisas em torno da Reencarnação, esperançoso, inclusive, de que a Ciência oficial, em breve, viesse a admiti-la.
Em determinado trecho, o médium perguntou ao cientista se ele vinculava aos seus estudos alusivos às vidas sucessivas o aspecto moral ou se se preocupava apenas com a sua constatação.
A meu ver, a indagação formulada era extremamente importante, porque, ao que sabemos, a Índia, por exemplo, pode ser considerada um país reencarnacionista, no entanto a crença generalizada na pluralidade das existências pouco ou nada alterou a vida do povo indiano, que continua a se ver às voltas com arraigados preconceitos.
O Dr. Barnejee esclareceu que, em suas pesquisas, não dava ênfase ao aspecto moral ligado à Reencarnação, não a estudando, em outras palavras, à luz da Lei de Acção e Reacção.
– “Então – observou Chico Xavier com a devida cautela, para que o ilustre visitante não se sentisse magoado -, pouco vai adiantar...”
E completou:
- “Se o homem não se sentir responsável pelo seu destino, simplesmente crer na Reencarnação não fará com que ele mude de comportamento...
De que nos vale admitir que somos imortais e que vivenciamos um sem- número de existências no corpo perecível, se não damos ao conhecimento que possuímos neste sentido um significado mais transcendente?”.
A inteligente observação do notável medianeiro me induzia a profundas reflexões:
- Meu Deus, o Chico tem razão; eu ainda não havia pensado nisto...
Temos, dos Dois Lados da Vida, envidado os maiores esforços para que a Ciência comprove a Reencarnação, mas este será apenas o primeiro passo; a constatação de semelhante realidade, predispondo-nos à indispensável renovação íntima sob a égide do Cristo, deve acontecer ligando o facto à trajectória evolutiva que o homem cumpre, à custa de si mesmo, desde as mais remotas eras.
Eu estava tendo a oportunidade de observar in loco, ou seja, na Vida de Além-Túmulo, que a constatação da própria sobrevivência, pouco ou quase nenhuma repercussão de carácter moral tinha sobre determinados espíritos, que continuavam a viver despreocupadamente – continuavam a viver como se a Imortalidade lhes fosse um dom outorgado pelo Criador e... ponto final.
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 06, 2018 11:55 am

Aliás, momentos atrás, na comunicação de Celestino tivéramos um exemplo do que Chico Xavier dissera:
o ex-monge beneditino se reconhecia vivo depois da morte, admitia ter tido várias existências no corpo, em épocas diferentes, mas prossegui o mesmo, sem qualquer motivação para empreender em si a menor mudança.
Quantos séculos – dava sequências às minhas reflexões – a Ciência gastara o ainda gastaria para proclamar a verdade reencarnacionista, a que as religiões dominantes, por interesses escusos, vêm se opondo terminantemente?
De mais quantos séculos necessitaremos, para que, então, a própria Ciência, com base na Reencarnação, modifique as suas concepções no campo da Psicanálise, da Psiquiatria e mesmo da Genética?
Este segundo passo, sinceramente, me parecia, como me parece, mais difícil que o primeiro.
Novamente, o meu pensamento se fixou na Índia, onde quase a totalidade da população, excepção feita dos muçulmanos, é reencarnacionista; tenho a impressão, no entanto, de que, de maneira geral, os indianos acreditam na Reencarnação – os hindus, os budistas, os jaimistas, etc. -, como os católicos crêem na existência do Céu, do Inferno e do Purgatório:
raros são os que vivem com a intenção de ir para o Céu; a maioria se contenta com o Purgatório, não despendendo o menor esforço na aquisição das virtudes que os elevariam...
Lembro-me de um amigo católico que me dizia:
-“ O nosso Purgatório é melhor do que o Umbral de vocês, os espíritas: do Purgatório passamos ao Céu; do Umbral vocês voltam para a Terra, que é o Inferno...”
Por este motivo, pensando nas culturas reencarnacionistas existentes no mundo, ultimamente eu exaltava o valor do Espiritismo, que, sem dúvida, não se trata de mais uma delas, como muitos de seus opositores insinuam; vivenciando o Evangelho do Cristo, o Espiritismo prega a Reencarnação como factor de progresso moral, de ascensão individual do espírito, com base no “amai-vos uns aos outros”:
ele é uma doutrina de profunda integração com a Vida!...
Por isto, certamente, conta com tantos adversários, na Terra e em suas adjacências, entre os homens e os espíritos.
Os espíritas efectivamente, não somos melhores do que ninguém; muitos de nós chegam a ser piores que os mais empedernidos adeptos da filosofia de Epicuro, que exalta o prazer como a única finalidade da existência humana; todavia, nós, os seguidores do Espiritismo, estamos no terceiro passo, ou seja:
aceitamos a Reencarnação, relacionamo-la com a ética – o homem é o artífice do próprio destino! -, mas, em maioria, não nos sentimos capazes de viver de modo consentâneo com os postulados a que aderimos:
estamos tentando contemporizar...
Habituados a ganhar o Céu, que a igreja sempre nos prometeu, desde que, à última hora, nos arrependêssemos de todos os pecados, adiamos, sine die, agora na condição de espíritas, o início de nosso processo de renovação, que se alicerça no esforço intransferível.
Eu não sei, mas tenho comigo a desconfiança de que o preconceito dos homens contra Jesus Cristo é maior que o preconceito contra a ideia da Reencarnação:
os homens aceitarão a Pluralidade das Existências, a Mediunidade, a Vida em outras Dimensões, a Obsessão, a Cura, pelo simples toque das mãos, mas Jesus há de ficar por derradeiro!...
Se assim fosse, tão-somente a crença na Imortalidade, apregoada por todas as religiões, seria suficiente para modificar o comportamento da criatura – o que, infelizmente, não acontece. Dentro do Espiritismo, o Cristo vem contando com opositores...
Pousei, lentamente, a reportagem sobre a minha mesa de trabalho e fiquei olhando a foto daqueles dois grandes expoentes do Espiritualismo
– Chico Xavier e o Dr. Banerjee -, e, sem perceber, cerrei os olhos, cochilando como nos velhos tempos.
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 06, 2018 11:55 am

Naquela noite, eu não consegui ir para a cama: dormi ali mesmo, como estava, até que os primeiros raios do alvorecer me despertassem ao canto de lindos pássaros, que sempre vinham se alimentar à minha janela.
Retirando do armário uma sacola com minúsculas sementes quase idênticas ao painço, abri a janela e lhes ofereci o desjejum em minha mão espalmada...
O dia estava esplendoroso!
O Sol ameno, os pássaros que voejavam felizes, e o perfume das flores que balsamizavam o ar davam-me a impressão de que eu estivesse noutro lugar – no Plano Espiritual, sim, mas não naquele em que o meu espírito ainda se encontrava.
Não demorou muito para que eu tornasse à realidade.
Com discretas pancadas à porta, Manoel Roberto adentrou o recinto e, passando em meio a suas pernas, um lindo angorá que, rápido como uma flecha, saltou sobre o encosto de uma poltrona e assustou os passarinhos que voaram para longe...
Sim, por aqui, onde o homem ainda caça o homem, os gatos também se constituem em ameaça para as aves indefesas e ingénuas.
- Dr. Inácio, o senhor me pediu que o avisasse quando Osório começasse a acordar.
- Ora, Manoel – respondi-lhe -, você precisa aprender a ter um pouco mais de poesia...
- Mas eu não sou poeta, Doutor!
- Esqueça, Manoel, esqueça.
- O que o senhor quis dizer com isto?
- É que eu estava me sentindo tão embevecido, tão leve, nesta manhã tão linda!
- É, Doutor – retrucou o companheiro, reticente -, mas o Osório está acordando...
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 06, 2018 11:55 am

NO LIMIAR DO ABISMO 13
Osório, aos poucos, retomava o estado de vigília e, semelhante a alguém que fugia a um pesadelo, se debatia na cama, onde um enfermeiro – auxiliar procurava contê-lo.
- Acalme-se, meu filho, acalme-se – disse-lhe, pousando a destra sobre a fronte pálida.
- Onde estou?
Onde estou?... – perguntou com voz trémula.
- Você está em nossa companhia...
Não se preocupe, abra os olhos e conserve-se tranquilo.
- Dr. Inácio!... É o senhor?
- Sou eu mesmo, meu filho.
- O que foi que houve?
Perdi a consciência...
- Está tudo bem agora.
- Não quero ficar internado...
Eu não estou louco.
- Não, não está; você sentiu-se mal durante o transe...
- Lêmur?...
- Conversamos longamente com ele, por seu intermédio.
- Onde está o meu livro?
Por favor, o meu livro...
- Está guardado; assim que você se sentir melhor, nós o devolveremos.
- O que os senhores acharam?
Lêmur conseguiu convencê-los de nossa intenção?
Antes que eu tomasse a iniciativa da resposta, a porta do quarto delicadamente se abriu:
era, para minha alegria, Odilon de volta, que, como sempre, se esforçava ao máximo para ser discreto.
- Trataremos disto mais tarde – redarguiu -; o importante agora é que você recupere.
- Mas, eu estou bem – falou, tentando inutilmente se levantar.
Ai!, o meu corpo pesa como chumbo e as minhas pernas não me obedecem...
Eu nunca me senti tão mal!
- Você precisa descansar um pouco mais...
- Eu não quero ficar aqui...
Trata-se de um hospital para médiuns doentes; vocês não podem me reter contra a minha vontade...
-Assim que você conseguir se levantar e caminhar, poderá ir embora.
- Eu tenho família, pessoas que se interessam por mim...
- Nós também nos interessamos por você e fazemos parte de sua família.
Não é, Odilon?- evoquei a presença do companheiro que se mantivera à distância.
- É claro, Osório; você pode contar connosco.
- Dr. Odilon, explique-me o que houve...
- Você caiu em transe profundo e Lêmur manifestou-se por seu intermédio.
- O que foi que ele disse? – indagou o rapaz, sendo auxiliado por Manoel Roberto a ajeitar-se melhor nos travesseiros.
- Está tudo bem; ficamos de dar sequência à conversa noutra oportunidade...
Atenda ao que o nosso amigo Dr. Inácio está lhe dizendo:
refaça-se primeiro e, depois, falaremos de você e de sua obra.
- Posso confiar em vocês?
- Filho, a nossa intenção é a de colaborar.
- Eu não estou obsidiado, estou?
- Todos estamos – aparteei, antecipando-me a Odilon -:
eu estou, o Manoel Roberto está, o Odilon, eu não sei...
O rapaz ensaiou esboçar um sorriso, mal conseguindo manter as pálpebras abertas.
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 06, 2018 11:55 am

- Que sono estranho!... – disse, com os olhos já completamente fechados.
- Durma, meu filho, durma um pouco mais... Tranquilize-se.
Solicitando a Manoel Roberto que diminuísse a claridade existente no quarto, saímos, procurando não fazer o mais leve ruído.
- Agora é que, de facto – comentei – ele dormirá um sono reparador.
Quando acordar pela segunda vez, estará com a fome de um leão.
- Quem sabe, Inácio, consigamos encaminhá-lo ao Liceu.
- Odilon, você já comeu alguma coisa? – pergunte, sentindo a necessidade de, pelo menos, um copo de suco (os nossos irmãos encarnados, me permitirão – a mim que, graças a Deus, à minha porta jamais neguei sequer um copo d’água a alguém, ou algo para comer – o direito de, na condição de desencarnado, pacificar o estômago com um inocente suco de frutas:
eu ainda não aprendi a me alimentar única e exclusivamente através dos princípios vitais atmosféricos!...)
- Obrigado, Inácio – esclareceu o amigo, escolhendo palavras para não me ofender -; fiz uma rápida refeição pelo caminho...
- Sorvendo, como as abelhas, o néctar das flores, não é? – brinquei, não conseguindo arrancar de Odilon o menor comentário.
Eu sabia que, desde muito, o devotado seareiro libertara-se, quase por completo, do hábito de oferecer alguma coisa ao estômago.
Aproveitando o ensejo, digo-lhes, por mais que isto lhes cause estranheza:
quem ainda tem estômago funcionando por aqui, também tem intestino...
Estamos conversados ou preciso detalhar?
É verdade que, nesta dimensão, não estamos como vocês, mergulhados num mar de coliformes fecais; é coliforme fecal até nos ambientes que consideram mais higienizados:
coliforme fecal nas verduras e legumes, na carne que utilizam para consumo, na água mineral, nos quitutes das lanchonetes, nos alimentos enlatados, no sorvete e no picolé...
E eu, por vezes, fico pensando:
- Meu Deus, como é tolo e vão o orgulho do homem sobre a face da Terra – do homem que, praticamente, respira coliforme fecal!...
Essas madames e esses ricaços, esses preconceituosos, racistas e fanáticos, europeus e norte-americanos, todos cobertos por uma espessa nuvem de coliformes fecais, tanto quanto os pobres que abominam, os párias da sociedade, que vivem numa condição quase sub-humana...
O mundo da carne perecível é o império dos vírus e das bactérias, dos microorganismos patogénicos mutantes, que sempre haverão d desafiar as modernas conquistas da Medicina, reduzindo a prepotência dos homens ao monte de... coliformes fecais!
Bem, enquanto eu deglutia o suco de frutas, que me substituíra o hábito do café, com pão e manteiga ou mortadela, pela manhã, questionei, intrigado:
- Odilon, o espírito do monge beneditino que se comunicou por Osório referiu-se a uma “central do livro”...
- Sim – explicou -, ele não estava blefando...
- Uma “central do livro”...
- Uma produção em massa de livros de origem mediúnica, com o propósito de combater o avanço da Doutrina.
- De origem mediúnica?...
- De origem mediúnica.
- Dirigida por quem?
- Por monges beneditinos desencarnados; muitos deles foram os mesmos que atearam fogo à famosa biblioteca de Alexandria.
- Então, são especialistas em combater a ideia espírita do livro...
- ...através do próprio livro supostamente espírita.
- Como é que funciona?
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 07, 2018 10:26 am

- Eles redigem as obras com subtileza, em todos os géneros literários, discutem os temas entre si, chegam a um consenso, elegem as “melhores” e...
- ... procuram médiuns para transmiti-las?...
- Exato.
- Nos últimos tempos, a produção mediúnica tem sido intensa.
- Todavia, não se concentram com exclusividade no campo da literatura propriamente espírita, os nossos irmãos de Ideal vêm desenvolvido apurado bom senso neste sentido e, de modo geral, sabem separar o joio do trigo.
- De facto, vem surgindo uma literatura mediúnica espiritualista – uma literatura descomprometida com a Causa... Quem diria!
- No Brasil e, principalmente, no Exterior; obras que têm sido traduzidas para o português, o espanhol, em sucessivas edições.
Que coisa terrível! Difícil acreditar numa coisa dessas...
- Inácio, não demorará muito e teremos uma bibliografia mediúnica...
católica!
- Com os espíritos contradizendo...
- Contradizendo informações doutrinárias, ou seja, revelando um Mundo Espiritual vasto e independente, alheio e contraditório.
- Concorrência desleal!
- Nos Estados Unidos da América do Norte, as obras espiritualistas descompromissadas com a Verdade, inclusive com o Evangelho de Jesus, já figuram entre as mais vendidas...
- Poderíamos, Odilon – solicitei -, conhecer mais de perto uma dessas “centrais” existentes no Brasil, voltadas para o combate do livro genuinamente espírita?
- Sem abrir mão da indispensável cautela, a título de estudo e de alerta aos nossos confrades nas lides do corpo, poderíamos.
- Qual é a sua localização?
- Teremos que descer ...
- Descer?...
- Às regiões subcrostais, onde, de preferência, são localizadas muitas das actividades clandestinas que certas entidades desenvolvem, com o intuito de atravancar o progresso da Humanidade.
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 07, 2018 10:26 am

NO LIMIAR DO ABISMO 14
Enquanto nos preparávamos para a expedição, que ficara marcada para dali a dois dias (esperaríamos que o amigo Paulino Garcia viesse se juntar a nós), entramos a conversar sobre diversos outros assuntos, de interesse para o trabalho que temos procurado desenvolver na Doutrina.
- Inácio – perguntou-me Odilon, com delicadeza -, diga-me:
como é que vem se desenvolvendo a sua tarefa literária, junto ao companheiro que, presentemente, nos serve de instrumento às manifestações?
- Com as dificuldades que você tão bem conhece; sinceramente, eu não fazia ideia que o entrosamento mediúnico estivesse sujeito a tantos obstáculos...
Quando Allan Kardec escreveu, em “o Livro dos Médiuns”, que a mediunidade “é devida a uma disposição orgânica”, eu imaginava que fosse apenas uma questão ligada à chamada glândula pineal.
- Na questão de número 1 do item 226, capítulo XX – “Influência Moral do Médium”.
- Sim, é nela que o Codificador pergunta?
“O desenvolvimento da mediunidade está em relação com o desenvolvimento moral do médium?”
Os Espíritos Superiores responderam:
“Não; a faculdade propriamente dita prende-se ao organismo; ela é independente do moral; o mesmo não acontece com o uso que pode ser mais ou menos bom, segundo as qualidades do médium”.
- A mediunidade é uma faculdade neutra, como, por exemplo, a faculdade de ver, de ouvir, de falar...
- Eu não supunha, Odilon, que o organismo influenciasse tanto no seu exercício, mais até que a própria moral – e não estou me referindo, especificamente, à pineal, considerada a glândula da mediunidade.
- Que, por assim dizer, é o órgão físico de natureza mais espiritual que o homem possui, posto que a referida glândula subsiste em seu corpo espiritual.
- Se fosse única e tão-somente colocar a pineal em funcionamento, mormente, é claro, nas condições ditas inteligentes, tudo seria fácil...
- Seria como se ligasse um computador e programá-lo, não é?
- Todavia, a questão física é muito mais complexa do que aparenta.
Quantas vezes não nos deparamos com o médium completamente indisposto organicamente e, mesmo assim, necessitamos operá-lo?
Não estou me referindo a uma doença de natureza grave, mas às diminutas indisposições, por exemplo, estomacais e outras.
Uma crise de sinusite, por exemplo ainda, desencadeada por um estado gripal...
- Impede que o médium respire normalmente e interfere no fenómeno da oxigenação cerebral...
- Passando a receber reduzida cota de oxigénio, devido à obstrução nasal, o cérebro do médium se obnubila, ou seja, não responde com prontidão e lucidez desejadas, dificultando o transe.
- E nesses casos, Inácio, que, agora, conhecemos bem dos Dois Lados da Vida, não há condição moral que resolva...
- É evidente que o espírito elevado é menos susceptível às imperfeições da matéria, ele não adoece com tanta frequência...
- O espírito elevado não precisa de ser médium – observei -, pelo menos não dentro dos padrões normais. Chico Xavier, na minha concepção...
- Na nossa, Inácio...
- ... era um espírito acima da média e, no entanto, vivia doente, como eu...
- Ora, meu amigo, não graceje com coisa tão séria!
A sua bronquite crónica que, depois, se transformou num enfisema, era resultado dos cigarros que fumava...
- Quase duas carteiras, por dia...
Eu respirava por um verdadeiro milagre da Natureza!
Constantemente, tinha que me submeter a inalações.
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 07, 2018 10:26 am

Enquanto eu era jovem, ou mais jovem, o corpo aguentou bravamente.
- Eu sei ao que você se refere, porque, em tempos que já se foram, eu também fumava, o que, conforme sabe, valeu-me um câncer pulmonar!
E olhe que eu me libertara do vício havia décadas!
- Quantas vezes, Odilon, eu tinha que escrever um artigo para “A Flama Espírita”, a ideia estava na cabeça, mas o pensamento não fluía; quando, fisicamente, mais bem disposto, era uma beleza:
tinha a impressão de que estava psicografando, tal a celeridade com que o fenómeno da escrita se processava...
- De facto, Inácio, o médium tem que se cuidar.
- Não adiantam a pineal luzindo, a sua boa vontade e a sua rectidão de carácter, se ele se apresenta para o serviço de intercâmbio de estômago empanturrado; há médium que dorme na reunião mediúnica, não porque esteja a se desdobrar ou doando fluídos em favor dos espíritos doentes:
é problema digestório, mesmo!
Comeu em excesso durante o dia, quando não bebeu...
- O álcool, então, mesmo em doses diárias insignificantes, é algo que não combina com mediunidade.
Repito: não se trata apenas de uma questão moral ligada a vampirismo e congéneres – o cérebro entorpece...
- Altera-se o quimismo cerebral e, consequentemente, há distúrbios hormonais.
Após ligeira pausa, continuamos:
- Veja bem, Odilon:
sou o aluno querendo ensinar ao professor...
- Ao professor?!...
Onde está, que não o vejo?...
- Além desses impedimentos orgânicos aos quais estamos fazendo referência, extremamente difíceis de serem arredados, existem outros factores ainda mais determinantes .
- Sem dúvida, Inácio , sem dúvida.
A questão orgânica costuma ser transitória, mas o estado íntimo do medianeiro...
- Não é raro que os médiuns se nos mostrem apáticos...
Não estou me reportando a influências espirituais nocivas, que rotulamos de obsessão.
- Eu sei...
- Desejo colocar em destaque a questão psicológica, emocional do medianeiro.
- É bom, Inácio, que façamos semelhante comentário, porque os nossos irmãos encarnados...
- Não sabem – e realmente não sabem – as condições em que trabalhamos.
- As condições insalubres da mediunidade!.
- O médium, sob o aspecto emocional, é susceptível das mais diferentes variações...
- É justamente – observou o Mentor – onde ele se revela mais vulnerável e frágil.
- A lista é extensa...
Os nossos irmãos encarnados nos cumulam de tantas exigências, que chegam a ser injustos connosco.
- Isto tudo, sem fazermos a menor alusão à nossa parte, não é?
- Que parte, Odilon? – indaguei com ingenuidade proposital.
- Ao nosso estado de espírito...
- E também às condições de nossa pineal, não é?
Afinal de contas, não somos criaturas mutiladas...
- E, se não enfrentamos, por aqui, questões alimentares de relevância, as quais nos referimos anteriormente, os problemas de ordem psicológica persistem connosco.
- Como persistem!
Às vezes, o médium está preparado para a gente, mas é a gente que não está preparado para ele.
Estou falando assim, Odilon, com referência à minha pessoa e aos Espíritos de Benfeitores.
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 07, 2018 10:27 am

- Os Espíritos realmente Benfeitores (é interessante que os nossos irmãos na carne o saibam) não vivem com essa disponibilidade toda...
- O espírita, equivocadamente, acredita que vai chegar iluminado às regiões do Além, guindado à condição de Espírito Superior.
Se a desencarnação nos santificasse, óptimo; o grande problema da morte continua sendo a vida!...
Eu, Inácio Ferreira, não consigo deixar de ser o Inácio Ferreira que sempre fui.
O que me conforta é que com todo o mundo é assim...
Avisando-me de que um paciente permanecia à minha espera, para uma consulta que agendaríamos previamente, Manoel Roberto, com a discrição que eu sempre lhe admirei, interrompeu a conversa que, com Odilon, sobre qualquer assunto, era sempre elucidativa.
- Doutor – comunicou-me, desculpando-se -, o Isménio está aguardando.
- Irei em seguida – respondi.
Então, meu caro amigo – concluí, voltando-me para Odilon -, a respeito de sua pergunta inicial, digo-lhe:
estamos indo – eu e o médium que tem se disposto a colaborar connosco, a trancos e barrancos, estamos indo:
devagar e sempre...
- Apesar dos pesares!
- Apesar dos espíritas, ou seja: de nós mesmos.
Se eu fosse falar a respeito, entraria num universo que não nos convém...
Agora, que me dá uma vontade de falar – de falar às claras sobre os interesses que, na actualidade, imperam no Movimento Espírita, inclusive dando “nome aos bois” -, isto me dá!
- É melhor não, Inácio.
- Eu sei, mas que a minha língua coça, coça; e não sei mesmo - digamos – se, mais tarde, não venha a ser este o meu “canto do cisne”...
A gente fica, vai ficando cansado de tanta hipocrisia; aquilo que na Terra eu tinha – desactivado, depois dos 80, mas tinha - e continuo a ter por aqui, já estourou...
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 07, 2018 10:27 am

NO LIMIAR DO ABISMO 15
Solicitando a Odilon que me desculpasse, deixei-o na companhia de Manoel Roberto e fui atender o paciente, que, espontaneamente, me procurara no hospital para uma terapia.
- Como vai? – cumprimentei-o.
Isménio, que aparentava um pouco mais de 40, respondeu-me:
- Caminhando, Doutor...
- Então, você está como todos estamos.
O paciente sorriu, sentindo-se mais à vontade, e explicou:
- Estou aqui por indicação de amigos; sei que o senhor é espírita, mas não venho procurá-lo por isto...
- Nem sempre o que dizem a nosso respeito, seja bem ou mal, é verdade.
- Justamente por isto, Doutor, é que me encorajei a marcar uma consulta com o senhor:
pela sua sinceridade...
Estou cansado de rodeios em minha vida.
- Você quer dizer que está cansado de fugir de si mesmo, não é?
- De ser enganado pelos outros; perdi a conta do número de profissionais que já procurei: na Terra e aqui...
- De início, deixemos algo bem claro:
não sou adivinho; não sei, como afirmava Clarice Lispector, ler o que há por detrás do pensamento; não consigo interpretar sonhos como Freud...
Só posso trabalhar com o material que me oferecer; se você me enganar, mesmo que não queira, eu o enganarei.
- Doutor, quando a gente se dispõe a consultar um analista...
- A gente quer que ele diga aos ouvidos da gente aquilo que a gente já sabe, mas não quer saber...
- Se eu já sei, eu não precisaria de um analista...
- A rigor, não, desde que você fosse suficientemente honesto consigo mesmo.
- Por que, então, a gente procura um analista?
- Conforto, compreensão, tolerância...
Queremos nos certificar de que, sendo diferentes ou nos sentindo diferentes, somos aceitos; queremos que alguém nos diga, em alto e bom tom, que os outros são iguais a nós
e não que somos iguais a eles.
- Tenho me sentido muito deprimido...
- A depressão é um sintoma, não é causa.
- Não vejo nenhum objectivo na vida, mesmo me reconhecendo imortal...
- Viver, segundo Teilhard de Chardin, é uma descoberta.
Você deveria dizer que não vê um objectivo na sua vida, na sua própria existência, porque a vida não pertence a você; e os outros, com os quais a compartilha, têm o direito de ter outra opinião, você não acha?
- Eu me expressei mal...
- Não, expressou-se segundo pensa, em nível inconsciente.
As palavras igualmente nos revelam...
- O senhor está querendo dizer...
- Querendo, não; estou dizendo que você não tem dado um sentido à própria vida – um sentido que o satisfaça...
- A minha insatisfação pessoal...
- É fruto do seu egoísmo...
- O meu problema, Doutor – desculpe-me não concordar...
- Excelente! Eu não quero que você concorde com tudo; discuta comigo, exponha-se em suas razões, mostre-se...
- O meu problema não é egoísmo!
Eu não tenho raízes, eu não me sinto amado...
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 07, 2018 10:27 am

- Você já viu uma semente com raízes?
Raízes, a gente cria...
Você tem amor por alguém ou por alguma coisa?
- Amor?...
- Amor! Você sente que ama?...
- Hum..., não!
Para dizer a verdade, não!
Eu quero receber afecto...
- Afecto ou prazer?
- Doutor, o senhor aperta a gente demais!...
- Quer desistir?
Saia por aquela porta...
- Não!
- Por quanto tempo mais pretende se iludir?
Você acredita na Reencarnação, Isménio?
- Lógico, Doutor!
Também não sou um espírito tão alienado assim; estou consciente...
- Então, por consequência, admite as leis da Evolução?...
- Uma coisa não teria sentido sem outra.
- Você faz ideia de por quantas existências vem fugindo ao confronto consigo mesmo?
- Muitas, com certeza...
- Quantas vezes, Isménio, você agendou e, depois, desmarcou consulta comigo?
- Cinco!... Confesso que tenho medo...
- De mim ou de você?
- Bem....
- Não seja evasivo: responda!...
- Creio que de mim, não é?
- Não sei; você é quem deve saber...
- Pronto; o senhor tem razão:
eu não quero me encarar...
- É simples: continue se escondendo...
Minta para você mesmo; destrambelhe-se emocionalmente...
Interne-se; temos muitas vagas aqui...
Vá ao fundo do poço e acomode-se.
Não é o que realmente deseja?
- Não, Doutor; se era, não é mais...
- Gostei da resposta; você está crescendo, mas ainda é um anão...
- Doutor – desculpe-me -, o senhor se analisa assim?...
- Hoje, quem está no divã é você: não queira trocar de posição comigo...
Sigamos adiante. Responda-me: afecto ou prazer?
O que é que você deseja?...
- Qual a diferença entre os dois?
- Enquanto a gente não sabe, é subtil...
Afecto é ternura; prazer é paixão.
Afecto é sentimento; prazer é instinto...
- Afecto é amor?
- Com A maiúsculo...
- Receber Amor...
- Em síntese, é amar.
- Ao invés de sermos amados...
- Devemos amar!
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 07, 2018 10:27 am

- Incondicionalmente?
- E sempre!...
O Amor é algo que se basta a si mesmo...
Quem ama não sente necessidade de ser amado.
- Por quê?
- Porque não ama com sentimento de posse, não ama com exclusividade:
ama a Vida, ama a Natureza, ama o Criador e... as criaturas.
- Sejam elas quais forem?
- É evidente. Você, Isménio, não quer amar: quer ser amado...
Isto não é Amor.
Você quer sentir prazer...
O prazer é uma taça que, embora sempre esteja a transbordar, nunca está cheia.
- Por isto, sou egoísta?
- Você quer é sexo, apenas e tão-somente sexo...
Estou mentindo?
Se estiver, não se acanhe; eu não sou dono da verdade...
Quem sabe, você seja feito de um material diferente do que todos os homens são feitos...
- Creio que não, Doutor.
- Crê ou tem certeza?
- Tenho certeza: o senhor não está mentindo.
- Óptimo! Avancemos um pouco mais...
Você está disposto?
- Um tanto atordoado...
- Respire fundo e relaxe.
Isménio – perguntei – você ama alguém?
Já amou, um dia?...
- Sinceramente, não tenho lembrança...
- Com que direito, então, se sente lesado?
Já agiu, do ponto de vista afectivo...
- Eu nunca dei afecto a uma flor.
- Teve ou tem filhos na Terra?
- Tive e devo tê-los, Doutor...
- Porventura, sabe onde, pelo menos, um deles se encontra?
- Não, não sei.
- Você apenas os fez, não é?
- Jamais quis criar vínculos; quem cria vínculos sofre muito...
- Quem não os cria sofre mais.
Veja o seu caso...
Isménio começara a chorar.
- Chore, mas não espere a minha compaixão...
- A sua compreensão, Doutor...
- A minha compreensão, sim, mas não a minha compaixão:
não me chantageie, emocionalmente...
Você não é um coitadinho!
- É melhor que a gente viva alienado...
- Até aqui, no ano de 2004, é o que você tem feito, desde séculos séculos.
- O que há de ser de mim?
- A decisão é sua.
- Deus...
- Você tem se importado com Ele, Isménio?
- Não, não tenho.
- Por que, então, espera que Ele se importe consigo?
- Deus é Pai!...
- Você também o é e sequer sabe do paradeiro de um só de seus filhos.
- Chega, Doutor!
- Quer que eu me limite a lhe dar uma receita e passar a mão na sua cabeça?
Foi isto, Isménio, que você veio buscar aqui?...
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 07, 2018 10:27 am

NO LIMIAR DO ABISMO 16
- Perdoe-me, Doutor!
- Eu, perdoar-lhe? Você nada fez a mim...
- Perdoe-me, então, a Vida...
- A vida sempre está a nos perdoar, estendendo-nos a chance do recomeço.
- O senhor já errou, Doutor?
- Incontável número de vezes.
- Errou, como eu tenho errado?
- Quem sabe, mais ainda...
- Verdade?
Sentindo que o momento era o de trabalhar a auto-estima de nosso irmão, imprimi ao diálogo um novo rumo.
- Você não quer que eu jure, quer?
- Não; desculpe-me...
- Comece a se interessar por alguma coisa, meu filho; fuja de viver à órbita de si mesmo...
- Eu estou doente, Doutor?
- Está.
- É grave?
- Sim, mas você não vai morrer...
Pela primeira vez, o paciente esboçou um sorriso.
- O senhor é engraçado...
- Dizem que eu teria feito mais sucesso como palhaço do que como médico.
- Não foi o que eu quis dizer...
- Foi sim; você insinuou...
- Não, Doutor...
- Não, como, se eu tenho testemunha?
- Testemunha?
A consulta não é sigilosa?!
- Mais ou menos – disse, abaixando-me e tomando no colo o angorá que tinha o hábito de se aninhar aos meus pés.
- Um gato!...
- Lindo, não?...
Tenho certeza de que, não faz muito tempo, eu já fui um...
- Um gato, Doutor?
- Ou, quem sabe, uma gata, não é?
Isménio, agora, sorrira de orelha a orelha.
- O senhor é um homem bom: justifica a fama que tem...
- Fama é uma palavra que rima com lama...
- Eu deveria ter vindo procurá-lo há mais tempo... Posso voltar?
- Não sei se você poderá pagar...
- É, os analistas cobram caro...
- São uns exploradores! (Acalmem-se: existem excepções.)
- Eu tenho algumas economias... O senhor parcela?
- Parcelo, é claro. Afinal, esse é o meu pão, ou melhor, o meu caviar de cada dia.
- Como posso pagar-lhe?
- Vejamos: quanto é que você tem no bolso?...
- Aqui, comigo, não é muito...
- Talão de cheques, cartão de crédito...
Isménio estava apavorado, e eu fazendo uma força danada para não cair na gargalhada.
- É tão caro assim, Doutor?
- Esse relógio – esse relógio no seu braço me interessa...
É de ouro?
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 07, 2018 10:28 am

- Folheado...
- Meu Deus!, eu não sabia que a muamba lá do nosso país vizinho já conseguiu também atravessar a fronteira da morte...
- Que muamba, Doutor?
- Diga-me, Isménio:
você tem relacionamento com algum contrabandista?
- Deus me livre, Doutor!...
- Bem, então, vamos às contas: deixe-me pegar a calculadora...
- Calculadora?!...
- 70 minutos de sessão, multiplicados por 5, com um pequeno abatimento...
- 5 reais?...
- Dólares...
- Você me deve a bagatela de 350...
Confesso-lhes que estava me sentindo extremamente confortável; eu nunca usurpara tanto em minha vida e... estava feliz.
- ... a bagatela de 350 minutos....
- 350 minutos, Doutor?
- É o meu último preço, Isménio: 350 minutos... de trabalho voluntário
em uma instituição assistencial, à sua escolha.
- 350 minutos de trabalho voluntário?...
- 5 horas e 50 minutos!
E não adianta pechinchar...
- Doutor Inácio!
- Este preço é por sessão.
Lágrimas que eu não soube definir deslizaram, serenas, sobre a face do paciente.
- A princípio, necessitaremos de, pelo menos, uma sessão por semana; se o tempo não andasse tão escasso, marcaríamos duas, no entanto...
- Eu não sei como agradecer – manifestou-se Isménio, emocionado.
- Não agradeça: pague!
- Oriente-me, Doutor: eu o farei de bom grado...
- Aqui estamos precisando de gente que sabe manejar uma vassoura...
Eu sou adepto da “terapia da piaçaba”.
- Varrer o chão?...
- Nada melhor para quem está precisando efectuar uma introspecção.
- Eu nunca fiz isto em toda a minha...
- ... inútil existência – emendei, incisivo.
- Doutor, que constatação! Realmente, eu não tenho lembrança alguma de, um dia, ter empunhado uma vassoura...
- É possível que nem uma enxada, nem uma pá...
Sempre foi um bom vivant, não é?
- O senhor acha que a vassoura irá resolver?
- Depois de varrer muito, é provável.
- Quantas vezes, Doutor?
- Umas duas ou três...
- Sessões?
- Não, meu filho, encarnações...
- Duas ou três encarnações?!...
- Estou falando sério – prossegui, alisando o pêlo macio do angorá, que, sobre a minha mesa, brincava com uma bolota de papel.
- É de desanimar...
- De desanimar é o seu estado, você não acha?
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 07, 2018 10:28 am

- Concordo; eu já não estou mais me aguentando...
- Você, Isménio, como a maioria das pessoas, está precisando de descobrir a alegria da doação.
- Ouço dizer que existem muitas pessoas caridosas.
- Doam uns trastes velhos, para desentulhar a casa:
uma peça de roupa rasgada e suja, uma cama quebrada, um pedaço de pão amanhecido...
E acham que estão cumprindo com o dever cristão.
Ora, caridade não é uma virtude assim tão vulgar!
- O que é caridade, Doutor?
- “Benevolência para com todos, Indulgências para com as imperfeições alheias, perdão das ofensas”.
- É doar do que temos?...
- Principalmente, do que somos.
É dar ao outro do nosso tempo, da nossa atenção, do nosso afecto...
- Ao outro, quem?
- A qualquer um.
- Mesmo aos malfeitores?
- “Os sãos não necessitam de médico”...
Estas palavras nos foram ditas por Jesus, há quase dois mil anos.
- Quando posso começar?
- Agora! – respondi, fazendo soar uma campainha que, na verdade, poucas vezes utilizava.
- Pois, não, Doutor – atendeu Manoel Roberto ao meu chamado.
- Vá ao nosso estoque de vassouras, escolha uma para o nosso amigo aqui e, depois, conduza-o ao pátio: ele me deve 5 horas e 50 minutos de trabalho, com mais 25 minutos vezes 5...
- Mais 25 minutos vezes 5?... – questionou Isménio.
- A nossa conversa se prolongou; portanto, você me deve mais 125 minutos, ou seja: 2 horas e 5 minutos, totalizando 7 horas e 55 minutos...
- Dr. Inácio – arguiu-me o paciente, conformado -, eu me interesso muito por mediunidade...
O senhor acha que eu poderia integrar o grupo mediúnico da casa?
- É claro, meu filho: mediunidade não é privilégio de ninguém.
O Espiritismo, graças a Deus não conta com uma casta de iniciados – pelo menos, temos lutado para que isto não aconteça...
- Como começar, neste sentido, o meu processo de desenvolvimento?
- Pela vassoura!...
- O que tem mediunidade a ver com vassoura?
- Bem, a resposta irá lhe custar mais 15 minutos de trabalho...
Para servir com os Bons Espíritos, primeiro, o médium deve aprender a servir de boa vontade os seus semelhantes.
E, no caso, a vassoura é o símbolo do suor que todo candidato ao serviço mediúnico necessita verter na prática do bem.
Em essência, prática mediúnica é exercício de desapego.
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