O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 08, 2018 11:22 am

NO LIMIAR DO ABISMO 17
Despedi-me de Isménio, acertando com ele uma nova consulta para a próxima semana, já que, na companhia de Odilon Fernandes e Paulino Garcia, efectuaria uma excursão nas regiões subcrostais - mais uma das periódicas excursões que realizávamos a título de aprendizado e, sempre que possível, procurando socorrer quantos se mostravam aptos a receber auxílio, ansiando por uma vida melhor.
Os nossos irmãos encarnados, habituados ao serviço de assistência, sabem que muitos que vivem em estado de carência material e, principalmente, moral, não raro se acomodam à situação de penúria em que expiam faltas do pretérito, recusando oportunidades de mudança, posto que, para tanto, teriam que começar movimentando a própria vontade que os mantém apáticos.
Convencia-me, assim, de que o Tempo era o grande aliado de Deus no aperfeiçoamento de sua Obra e de que não nos adiantava apressar o germinar da semente que, à época propícia, inevitavelmente floresceria; cabia-nos, única e tão-somente, concorrer, de um modo ou de outro, para que as condições favoráveis se efectivassem – não passávamos, como não passamos, de meros agentes da Natureza, ou seja, da Sábia Vontade do Criador, que a tudo provê.
Quando o paciente se retirou do consultório, encaminhado por Manoel Roberto, Odilon e Paulino vieram ter comigo e, enquanto aguardávamos o instante de partir, entramos em animada conversação.
- Como é, Paulino? Como vão indo as suas actividades literárias?
Escrevendo muito? – perguntei ao simpático amigo, a quem aprendera respeitar pelo seu incansável esforço na difusão de nossos princípios.
- Não tanto quanto o senhor, Doutor – respondeu-me com gentileza.
- Estou procurando tirar o atraso, meu filho; deixei escapar oportunidades valiosas, quando, através da mediunidade de Modesta, entretinha longas conversações com os nossos Instrutores, que, nas reuniões do Sanatório, em Uberaba, se comunicavam por intermédio dela.
À época, não me ocorreu valer-me de um aparelho de gravação, ou, então, anotar de maneira minuciosa as orientações que nos transmitiam.
Estou convicto de que, hoje, elas haveriam de servir como material de reflexão aos mais estudiosos.
Você sabe, meu filho:
o Mundo Espiritual é um universo à parte de que cada espírito que o povoa tem diferente visão, interpretando-o segundo sua óptica e vivência particular.
- Só a orientação do Dr. Odilon, tenho feito o possível para divulgar o maior número de informações aos nossos irmãos que mourejam na carne, consciente, porém, do quanto eu mesmo ainda me sinto limitado em semelhante mister.
- Você colocou bem a questão: temos feito o possível, porque, de facto, cada vez mais me convenço de que poucos são os que se encontram preparados para maiores revelações concernentes às verdades de além-túmulo.
Para muitos de nossos companheiros de Ideal, as nossas obras (refiro-me mais especificamente às de minha lavra) não passam de ficção, quando não as rotulam de mistificação ou fruto da mente delirante do médium.
Neste trecho do diálogo, interveio o Mentor, ponderando:
- Inácio, você e o Paulino não devem se preocupar excessivamente com as críticas que, directa ou indirectamente, lhes são endereçadas neste aspecto; as críticas, quase sempre, são opiniões isoladas que, necessariamente, não reflectem o ponto de vista da maioria.
Infelizmente, repito, são inúmeros os interesses em jogo...
O Movimento Espírita segmentou-se de tal modo, que os grupos que o constituem podem ser caracterizados pelas intenções de seus componentes; é lógico que não podemos generalizar, mas raros são os que, na actualidade, agem impulsionados por verdadeiro amor à Causa...
- Com uma ou outra excepção – observei – eu não sei quem estaria disposto, por exemplo, a morrer pela Doutrina, como os antigos cristãos não hesitavam em fazê-lo.
Se alguém nos bater o pé, já está um punhado no mato...
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 08, 2018 11:22 am

Os pretensos defensores da chamada pureza doutrinária erguem a voz e manejam a pena, com eloquência e brilhantismo, em prol de seus interesses, que, infelizmente, no fundo, no fundo, envolvem até questões pecuniárias.
- Com as excepções referidas pelo senhor – aparteou Paulino -, aliás, nobilíssimas, os periódicos espíritas e mesmo alguns órgãos unificadores servem a política de grupos e de médiuns que pretendem polarizar.
Eu não sou ninguém, Doutor, para confortá-lo, mas não se aborreça com a crítica ao seu trabalho literário, pois, no que diz respeito a mim, não ignoro, por exemplo, que a crítica tem carácter pessoal:
muitos dos que me conheceram ainda jovem, em São José do Rio Preto, alegam não entender como posso ter me transformado tanto, já que, segundo dizem, eu não passava de um arruaceiro, que vivia de boate em boate, curtindo a vida nos prazeres da noite...
- O problema, Paulino – comentou Odilon -, é que o pessoal lá embaixo se supervaloriza: não é tanto menosprezo a nós outros, que temos nos esforçado para entrar em contacto com certa regularidade, falando das experiências de espíritos comuns que ainda somos.
- Sejamos mais claros, para que eles entendam – aparteei -:
o pessoal lá embaixo gostará de se relacionar, mediunicamente, com o pessoal lá em cima, ou seja, com espíritos de maior renome, envergadura, condição moral e intelectual superiores, sem, todavia, se indagarem se possuem mérito para tanto...
Ora, os homens têm os espíritos e os médiuns que merecem!
Se querem que o Inácio Ferreira saia de cena, cedendo lugar a um Sócrates ou a um Francisco de Assis, façam por onde; é simples: é uma questão de merecimento...
- Pelo menos, Doutor, com as nossas limitações e imperfeições, estamos sendo transparentes; graças a Deus, não temos interesse algum em nos omitir e nos camuflar.
- Não, o meu compromisso é com a Doutrina e com as minhas convicções; não estou a serviço de nenhum grupo e, neste sentido, não devo obediência a ninguém...
E digo-lhes mais: por maior a minha amizade e simpatia pelo médium de que nos utilizamos, se amanhã, ou depois, ele viesse a se comprometer com interesses outros, eu colocaria a “viola no saco” e... tchau!
Enquanto ele se sentir independente para trabalhar e produzir, estaremos juntos:
você concorda, Odilon?
- Concordo, Inácio – respondeu o Mentor, esclarecendo.
Esta questão levantada por você é delicada: raros são os médiuns que, pelo menos na esfera do pensamento, trabalham com real isenção: muitos se deixam influenciar pelos espíritos... encarnados.
- São mais influenciados pela política dos encarnados do que pela ideia dos desencarnados.
Por exemplo – espero que não me levem a mal; sei que é esperar em vão, mas esperarei -:
existem certas obras psicografadas por notável medianeira, já desencarnada, e atribuídas a um grande autor, que, por terem sido editadas e divulgadas por respeitável órgão do nosso Movimento, que defende a tese do corpo fluídico do Cristo, como é público e notório, se lhes submeteram à orientação neste sentido – os romances psicografados pela referida médium são de inegável estilo, mas a “pressão” sofrida fez com que ela e não o espírito encampasse a teoria roustainguista.
- Sejamos justos, Inácio:
quase todos os livros de autores encarnados e desencarnados tinham que se submeter ao referido “selo”; caso contrário, não seriam publicados e não contariam com as benesses de considerável segmento espírita.
Neste sentido, até a Chico Xavier procuraram envolver, no rumoroso caso de uma das obras de Humberto de Campos.
- Eu cheguei, Odilon, a escrever um trabalho e enviar à revista oficial do mencionado órgão que, à época, tinha a sua sede no Rio de Janeiro; pedia a publicação do mesmo, em carta anexa, com direito de resposta a uma artigo de Bernardo Sayão, ardoroso seguidor de Roustaing.
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 08, 2018 11:23 am

- Foi acolhido?
- Sim..., pela lata de lixo! Sequer se dignaram de devolvê-lo a mim, o remetente.
- Felizmente – disse Paulino -, ao que sei, as coisas parecem que estão mudando agora...
- É para você ver, meu filho, como são os homens, e não nós, os espíritos, responsáveis pelo que nos atribuem.
Victor Hugo, Guerra Junqueiro, Humberto de Campos e tantos outros jamais foram adeptos da tese do corpo fluídico, que emergiu nos primeiros séculos do Cristianismo, cultuado pelos antigos docetas, influenciou o Catolicismo que passou a defender a natureza divina do corpo de Jesus e, mal a Terceira Revelação se apresentava ao mundo, com Allan Kardec, as trevas inspiravam a Roustaing a “Revelação da Revelação”...
Efectuando uma pausa em meus próprios raciocínios, perguntei:
- Odilon, você acredita que o nosso Dr. Bezerra de Menezes, quando encarnado, era mesmo roustainguista?
Ele, Bittencourt Sampaio e outros?...
- Igualmente eles, Inácio, não se furtaram à influência do meio e, neste sentido, preferiram contemporizar, a fim de que o Movimento, em fase de implantação no Brasil, não se fragilizasse por uma questão que consideravam de somenos em face da elevada missão do Cristianismo Redivivo na evangelização das criaturas.
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 08, 2018 11:23 am

NO LIMIAR DO ABISMO 18
- E quanto a Roustaing, qual a sua opinião? – questionei o companheiro.
- O autor de “Os Quatro Evangelhos” era um profundo admirador de Allan Kardec e, diga-se, bem intencionado em seus propósitos – o seu desejo era, de fato, participar do Movimento que intuía como sendo de grande relevância para a Humanidade.
Infelizmente, faltou-lhe o necessário bom senso no sentido de efectuar uma melhor triagem nos comunicados obtidos através da Sra. Collignon, médium exclusiva em seus contactos com o Invisível; ambos, a nosso ver, foram vítima de fascinação da parte dos espíritos pertencentes à mesma falange, adeptos do chamado Docetismo que, desde os tempos do Cristianismo nascente, se empenham em impor às criaturas os seus equivocados preceitos, concernentes à natureza do corpo de Jesus.
Interessante ressaltar que tanto Jean-Baptiste Roustaing, advogado de Bordéus, quanto a Sra. Émilie Collignon, quando se lançaram à elaboração da obra “Revelação da Revelação”, estavam se recuperando de graves enfermidades, o que facilitou o assédio das entidades pseudo-sábias que tramavam contra a Doutrina, a qual, até hoje, não logrou se livrar completamente da influência que nos tem servido de pretexto à desunião, ao longo de quase 150 anos.
- Desculpe-me, Odilon, se insisto, mas é tanta gente de valor abraçada à tese roustainguista!...
- Inácio, não agem assim por má-fé; ao contrário, agem por extremado amor ao Cristo, que não conseguem conceber nascendo entre os homens como qualquer um de nós outros, reles mortais...
Sou, todavia, de parecer, que não devemos perder excessivo tempo com uma discussão que, a rigor, nada acrescenta à real grandeza do Senhor, consubstanciada em suas lições de Vida Eterna.
O que as trevas pretendem é que nos fragilizemos, colocando de lado o que nos deve concentrar os melhores esforços, na difusão dos princípios libertadores que adoptamos por norma de conduta na presente encarnação; o essencial é que cuidemos de nossa própria renovação, adiando para o futuro o mais amplo conhecimento da Verdade a cujo acesso aspiramos.
Por este motivo, sob a inspiração dos Espíritos Superiores, Allan Kardec deliberou, nas páginas que constituem “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, dar prioridade ao aspecto moral dos ensinos de Jesus, relegando questões controvertidas e polémicas ao esquecimento.
- Você mencionou a influência das trevas...
- Sim, todos a elas estamos sujeitos, quer estejamos encarnados ou não.
Os espíritos que se opõem à Verdade tramam a todo instante e se dão por satisfeitos quando conseguem arruinar, ainda que de modo parcial, iniciativas nobres voltadas à emancipação íntima das criaturas.
- Arruinar parcialmente?...
- Lançar o joio no meio do trigo e deixar que a semente germine e se alastre, confundindo-se com ele.
Por exemplo:
na obra de Roustaing, que estamos comentando, existem trechos interessantes, em que as entidades que a ditaram comentam determinadas passagens evangélicas com propriedade...
- Mas a obra como um todo...
- Jaz comprometida, já que são poucos os que seriam capazes de lê-la com indispensável discernimento.
E, como nos advertiu o sábio espírito de Erasto...
- ... melhor rejeitar dez verdades a aceitar uma única mentira, uma única falsa teoria!
- Exato – confirmou o Mentor.
É uma pena, pois, volto a repetir, Roustaing não teve a intenção de se sobrepor a Kardec e, em outras circunstâncias, teria sido de extrema valia ao Espiritismo.
À época, especialmente na França, o intercâmbio com o Além estava bastante generalizado; por assim dizer, o país se via acometido por uma verdadeira “epidemia” de sensitivos e era moda se ocupar com o “Spiritualisme”...
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 08, 2018 11:23 am

Diversos livros foram publicados encenando as experiências com o Invisível, todavia somente o Prof. Rivail agiu com a necessária prudência, na compilação da obra que deu início ao Pentateuco; a primeira edição de “O Livro dos Espíritos” foi feita às suas próprias expensas e, praticamente, distribuída de forma gratuita entre os simpatizantes.
- As trevas tentaram intrometer-se no trabalho de Kardec?
- É evidente, mas os Espíritos que o assessoravam estavam atentos e zelavam, em especial, para que o Professor não se acometesse de nenhuma crise de personalismo, o que, caso acontecesse, invalidaria o esforço do Mundo Espiritual.
Kardec simplesmente efectuava anotações, imaginando que haveriam de ser úteis à sua própria instrução e à dos amigos; apenas alguns meses antes, quando o esboço do trabalho estava praticamente pronto, é que os Espíritos o aconselharam a publicar o resultado de seus estudos e pesquisas.
Mas, ainda aí, ele não sabia do alcance e da repercussão da tarefa que lhe havia sido destinada.
Com a edição de “O Livro dos Espíritos”, que, a princípio, era para se intitular “Religião dos Espíritos”...
- “Religião dos Espíritos” é um dos títulos da lavra mediúnica de Chico Xavier – aparteei.
- ... as lutas recrudesceram e, de abril de 1857 a março de 1869, o professor não conheceu trégua, chegando, inclusive, a comprometer a saúde.
- Os ataques zurziam de todos os lados...
- Sim, porém, o que mais o desgastava e entristecia era o sistemático conflito que se estabelecera entre os próprios companheiros de Ideal, que, a seu lado, se faziam instrumentos das sombras, com o propósito de escandalizar.
Em nota datada de primeiro de janeiro de 1867, quase dez anos após a publicação de “O Livro dos Espíritos”, escreveu:
“Fui alvo do ódio de inimigos intransigentes, da calúnia, da inveja e do ciúme; infames libelos foram publicados contra mim; as minhas melhores instruções foram adulteradas; fui traído por aqueles em quem mais confiava e pago com a ingratidão por aqueles a quem servi.
A Sociedade de Paris foi um foco constante de intrigas urdidas por aqueles próprios que se diziam estar a meu favor e que, abraçando-me pela frente, me apunhalavam pelas costas.
Disseram que os meus sectários eram pagos com o dinheiro que eu arranjava com o Espiritismo.
Não tive mais repouso e muitas vezes verguei ao peso do trabalho; comprometi a saúde e arrisquei a vida”.
- Fico pensando, Odilon, no que o nosso Chico Xavier não teria passado, em silêncio...
- Inácio, não constitui segredo para ninguém que, antes de completar os 5 anos de idade, ele, praticamente, já se viu sem pai e sem mãe...
- E foi morar com uma senhora perturbada.
- Médium dos espíritos que, naquela criança indefesa, adivinhavam ou intuíam um mensageiro de Jesus corporificado...
- Ela o deixava passar fome, enfiava-lhe garfos no ventre, obrigava-o a lamber feridas purulentas, espancava-o constantemente e, ao que sei, preferencialmente na cabeça...
- Artimanha das trevas para induzi-lo à morte precoce ou, então, prejudicar-lhe o funcionamento cerebral!
- Que coisa terrível!
- Inácio, vejamos o episódio das crianças que foram mortas por ordem de Herodes, com o intuito de eliminar do mundo a presença de Jesus, ainda no berço...
- Herodes, sem dúvida, era um agente das trevas; no entanto, o que mais me causa espécie é o facto da traição, segundo a narrativa de Mateus, de tanto ler e reler, acabei memorizando:
“E enquanto comiam, declarou Jesus:
Em verdade vos digo que um dentre vós me trairá.
“E eles, muitíssimo contristados, começaram um por um a perguntar-lhe:
Porventura sou eu, Senhor?
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 08, 2018 11:23 am

“E ele respondeu:
O que mete comigo a mão no prato, esse me trairá”.
- Judas, um dos doze...
- Comendo com ele no mesmo prato!...
- Geralmente é assim: exceptuando nós mesmos, os nossos maiores adversários ou os instrumentos de que o mal se utiliza para nos atingir são os que têm livre trânsito connosco...
- Eu não queria acreditar, Odilon, que, na Terra, a sombra sempre está no encalço da luz; preferiria que isso fosse um excesso de fanatismo do que realidade, contudo as evidências...
- ... mostram o contrário:
há, sim, uma organização das trevas agindo com o propósito de entravar o progresso espiritual da Humanidade!...
- Incentivando tudo o que pode estabelecer o caos...
- ... e obstruindo o que concorre para a espiritualização das criaturas.
- Inspirando a inteligências da ciência bélica, na esperança de que, um dia, uma mente ensandecida possa fazer explodir o planeta!...
- Fomentando a ambição que, gradativamente, tem induzido o homem a destruir a Natureza...
- Conspirando contra a fé, apoiando movimentos religiosos centrados na prosperidade material...
- E, neste sentido, Inácio, chega até a promover curas reais em seus templos, para impressionar; exorciza entidades que se lhe submetem, quando não são encenações, onde alguns de seus membros assumem, sem o menor escrúpulo, a identidade de Satã...
- Curas reais, Odilon? – inquiri.
- Sim, com base na fé das pessoas que, motivadas psicologicamente, obtêm o que buscam com sinceridade, ignorando que estão sendo utilizadas como peças de um jogo que lhes transcende a compreensão.
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 08, 2018 11:23 am

NO LIMIAR DO ABISMO 19
Paulino que, até então, conservara-se atento, efectuando uma ou outra anotação que, certamente, aproveitaria em seus trabalhos doutrinários, exclamou:
- Dr. Odilon, trata-se de uma verdadeira “indústria do mal”!
- Concordo com a colocação do amigo – acentuei -; de facto, sem desejar ser pessimista, a impressão que se tem é que há uma “indústria do mal” funcionando a pleno vapor na Terra e em suas adjacências.
- Não nos esqueçamos, no entanto, de que o Bem não permanece inactivo – comentou o Mentor -; embora se tenha a impressão de não ser assim, forças fiéis ao Evangelho prosseguem operando de maneira constante e a verdade é que, em tempo algum, a solidariedade esteve tão presente entre os homens.
Organizações mundiais, religiosas ou não, governamentais ou pertencentes à iniciativa de grupos apolíticos, trabalham em benefício da paz da colectividade...
- Em que tese, Odilon, a serem, por vezes, desrespeitadas e até humilhadas por decisões arbitrárias de países que decidem agir conflituando com os interesses colectivos – considerei, algo indignado -; estou me referindo, especificamente, à desmoralização que os Estados Unidos da América do Norte e seus aliados impuseram à ONU – Organização das Nações Unidas -, recentemente, quando deliberaram invadir o Iraque...
- Inácio, como disse você, não podemos conceder, em nós mesmos, espaço para o desânimo, mas, infelizmente, a questão da corrupção está em toda a parte:
quase todos os homens que ocupam o poder têm seu preço e, por mais que resistam, acabam por se render nos princípios morais que os norteiam.
- Até mesmo os bons? – perguntou Paulino.
- Os realmente bons, não, todavia, dentro da actual conjuntura evolutiva da Humanidade, na maioria das vezes, terminam isolados, comprometidos perante a opinião pública; o homem idealista, em todos os segmentos em que seja chamado a actuar, à semelhança do Cristo, ainda há de sofrer muito – as forças que concorrem para que ele chegue ao poder são as mesmas que, depois, se encarregam de controlá-lo, o que ousa enfrentar o sistema, se ganha a simpatia do povo, cai na alça de mira dos que, na primeira oportunidade, não hesitarão em eliminá-lo:
foi o que, por exemplo, aconteceu com Lincoln, com Kennedy, com Luther King, com Gandhi...
- E os que não são assassinados – observei – são postos à margem, como aconteceu ao grande líder soviético da “Perestroika”, Mikail Gorbatchew, que foi, em seu próprio país, que ele tentou modernizar, relegado a incompreensível ostracismo político.
- O mesmo deve acontecer na Igreja, não é? – inquiriu-me Paulino.
- O Papa não é mais que o representante da vontade do chamado Colégio Cardinalício:
é um chefe que não delibera...
De modo geral, os que mandam não expõem a sua face: agem sorrateiramente, usufruindo das benesses do poder...
A história dos papas está repleta de casos em que muitos deles não tiveram morte natural:
foram mortos – a maioria por envenenamento – por auxiliares directos que viram os interesses da Igreja ameaçados.
- A pressão exercida sobre a Terra pelo Mundo Espiritual inferior é inegável – disse Paulino.
- O que você rotulou de “indústria do mal” possui ramificações que estamos longe de avaliar – considerei.
- Terá chegado ao Espiritismo?
- Na minha opinião, sim; vejamos que os espíritas já estão tomando gosto pelo poder...
- Mas será que não tem consciência disto?
- Tem, mas nunca acreditam que possa ser com eles; as vítimas da obsessão, Paulino, para nós, os que se consideram indenes a qualquer influência de carácter negativo, são sempre os outros...
- Nós somos os que estão com a Verdade...
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 08, 2018 11:24 am

- É mais ou menos assim:
somos os missionários, os idealistas, os que contam com o respaldo da Espiritualidade Superior, os predestinados a salvar o Movimento...
Hoje em dia, a simples disputa pela direcção de uma casa espírita é motivo de guerra nos bastidores e divisão entre os companheiros, que, caso verdadeiramente desejassem servir, fariam opção pelo encargo e não pelo cargo.
Há pouco tempo, presenciamos, em determinada cidade, acirrada luta envolvendo dois grupos de confrades, pleiteando a direcção de seu órgão unificador:
xingatórios, palavrões, ofensas morais crítica descaridosas...
A meu ver, ao invés de terem se reunido no recinto de um templo espírita para tanto, deveriam escolhido um ringue, onde poderiam exercitar o pugilismo à vontade, você não acha, Odilon?
- Os nossos irmãos andam perdendo a memória do essencial – respondeu o Mentor, com a sua costumeira prudência.
- Dr. Odilon – interveio Paulino -, se o senhor pudesse falar mais alguma coisa sobre as curas...
- ... que têm ocorrido fora do ambiente espírita, com visível interferência espiritual.
Não é, Paulino, o que você deseja saber? – aduzi, igualmente curioso.
- Existem falanges de espíritos que operam curas nos templos evangélicos?
- Os espíritos atuam em todos os lugares e o fazem dentro da compreensão que os caracteriza – elucidou o Instrutor em proveitoso diálogo, nas questões que se alternavam.
- Qual é a sua verdadeira intenção?
- A de alguns é a de realmente beneficiar os necessitados, entre os quais podem estar familiares e amigos queridos – é, digamos, a de aliviar a dor e de lhes fortalecer a fé em Deus, sem qualquer ideia de proselitismo.
- Sim, mas há os que “curam” com outro propósito...
- Sem dúvida; os mentores intelectuais que pretendem estabelecer o fanatismo e fazer adeptos...
- Teriam eles o poder de curar?
- Por que não, quando a cura, por exemplo, consiste em se ordenar a um espírito obsessor que pare de molestar a sua vítima?
Esses referidos mentores e seus asseclas não hesitam, inclusive, em agir com truculência...
- Chegariam a facilitar a vida económica das pessoas?
- Chegariam e, efectivamente, chegam; para ganhar a alma de alguém, há quem faça de tudo e... um pouco mais.
- Odilon, é um absurdo! – Exclamei.
De que forma agem neste sentido, ou seja, para deixar as pessoas bem de vida?
- Atuam sobre outras, mais bem aquinhoadas:
dinheiro faz dinheiro... É um investimento.
- Maquiavélico! E, assim, a igreja vai crescendo...
- Colocando e tirando dinheiro do bolso dos fiéis...
- Mais tirando que colocando – observou Paulino.
- E a indústria da fé, da qual, em verdade, alguns poucos realmente se beneficiam.
- Os pastores e os líderes, cujo poder de persuasão sobre as pessoas, através do magnetismo das palavras, é quase hipnótico.
- Teríamos, então, nesses cultos uma fascinação colectiva...
- Quase – redarguiu o Mentor -, exceptuando-se aqueles que ali comparecem, imbuídos de fé autêntica e sincera, e que, mentalmente, se colocam inacessíveis às influências ambientais.
- A obsessão, por vezes, adquire o carácter de uma epidemia – aduzi – e... contagiosa nos que se mostram receptivos.
- Contagiosa, Dr. Inácio? – arguiu-me Paulino.
- Quando Hitler falava, os espíritos das trevas, prevalecendo-se do estranho magnetismo de seu verbo, falando igualmente por seu intermédio, que se lhes apassivara por completo, promoviam um fenómeno de obsessão colectiva; induzidos pelo misterioso poder das palavras, os jovens soldados, ao ouvi-lo, se deixaram arrebatar...
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 08, 2018 11:24 am

Imensas falanges espirituais lhes pressionavam o psiquismo, impedindo, em seu cérebro, a infiltração da menor réstia de luz, por entre as espessas nuvens que pairavam sobre as suas cabeças.
- O mesmo aconteceu quando Jesus foi levado à presença de Pilatos – considerou Odilon, lendo no Evangelho em mãos -; a multidão, subjugada, solicitou, em uníssono, a libertação de Barrabás:
“Estando, pois, o povo reunido, perguntou-lhes Pilatos:
A quem quereis que eu vos solte, a Barrabás ou a Jesus, chamado Cristo?
Porque sabia que por inveja o tinham entregado.
E, estando ele no tribunal, sua mulher mandou dizer-lhe:
Não te envolvas com esse justo; porque hoje, em sonho, muito sofri por seu respeito.
Mas os principais sacerdotes e os anciãos persuadiram o povo a que pedisse a Barrabás e fizesse morrer Jesus.
De novo perguntou-lhes o Governador:
Qual dos dois quereis que eu vos solte? Responderam eles: Barrabás.
Replicou-lhes Pilatos:
que farei então de Jesus, chamado Cristo?
Seja crucificado! Responderam todos”.
(Mateus, cap. 27- vv. 17 a 22).
- Responderam todos! – repetiu Paulino.
- E dizem que a voz do povo é a Voz de Deus – ironizei, lamentoso, sem passar pelo meu pensamento a ideia de que, quem sabe?, poderia ter sido eu um dos integrantes da multidão em desvario, a exigir de Pilatos a crucificação de Jesus.
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 08, 2018 11:25 am

NO LIMIAR DO ABISMO 20
E acentuei:
- Ao que me parece, Pilatos e Cláudia, sua esposa, eram os únicos a se mostrarem mais lúcidos no julgamento que culminou com a sumária condenação do Senhor; por três vezes consecutivas, o Governador submeteu Jesus ao juízo do povo, no claro intuito de livrá-lo daquela situação.
- “Vendo Pilatos - prosseguiu Odilon com a narrativa de Mateus – que nada conseguia, antes, pelo contrário, aumentava o tumulto, mandando vir água, lavou as mãos perante o povo, dizendo:
Estou inocente do sangue deste [justo]; fique o caso convosco!
E o povo todo respondeu:
Caia sobre nós o seu sangue, e sobre nossos filhos!”
(capítulo 27 – vv. 24 e 25)
- Um exemplo clássico de obsessão colectiva, a que os próprios Apóstolos não escaparam – enfatizei -:
Judas, o traiu; Simão Pedro, o negou por três vezes; dos demais, não se tem notícia, a não ser que debandaram...
Sempre me impressionaram as anotações que Lucas, o Evangelista, efectuou a respeito:
“Então, dirigindo-se a Jesus, aos principais sacerdotes, capitães do tempo e anciãos que vieram prendê-lo, disse:
Saístes com espadas e cacetes como para deter um salteador?
Diariamente, estando eu convosco no templo, não pusestes as mãos sobre mim.
Esta, porém, é a vossa hora e o poder das Trevas”.
- O que, Dr. Odilon – perguntou Paulino -, devemos entender com a afirmativa:
“Esta, porém, é a vossa hora e o poder das trevas”?
- Desde o início de sua divina trajectória entre nós – explicou o Mentor -, Jesus foi perseguido pelas trevas, que lhe identificaram a presença no mundo antes que os próprios homens pudessem fazê-lo:
mesmo os Apóstolos duvidaram de que Ele fosse o Messias, anunciado pelas Escrituras.
Durante praticamente três anos, o Mestre pregou a Boa Nova, acossado por dificuldades constantes; como costumava dizer Chico Xavier, Jesus pregou o Evangelho em fuga...
Inúmeras vezes, Ele escapara de ser preso e morto; por este motivo, advertia aos que eram beneficiados por sua intercessão que não o expusessem à publicidade, conforme se pode constatar em Mateus, capítulo 12, vv. 13 a 16:
“Então disse ao homem:
Estende a tua mão. Estendeu-a, e ela ficou sã como a outra.
Retirando-se, porém, os fariseus conspiravam contra ele, como lhe tirariam a vida.
Mas Jesus, sabendo disto, afastou-se dali.
Muitos o seguiram, e a todos ele curou, advertindo-lhes, porém, que não o expusessem à publicidade...”
E prosseguia Odilon, citando, com extrema facilidade, diversos trechos do Novo Testamento, alusivos às perseguições de que o Mestre se fizera alvo da parte dos doutores da lei, que não cessavam de planear a sua morte:
“E foram para Jerusalém.
Entrando ele no templo, passou a expulsar os que ali vendiam e compravam; derrubou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que vendiam pombas.
Não permitia que alguém conduzisse qualquer utensílio pelo tempo;
Também os ensinava e dizia:
Não está escrito:
A minha casa será chamada casa de oração, para todas as nações?
Vós, porém, a tendes transformado em covil de salteadores.
E os principais sacerdotes e escribas ouviam estas cousas e procuravam um modo de lhe tirar a vida...”
(Marcos, cap. 11 – vv. 15 a 18)
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 09, 2018 10:53 am

- Para não nos excedermos em citações – ponderou o Benfeitor -, permitam-me apenas menção relacionada ao Evangelho de Lucas, logo após Jesus ter pregado, num sábado, na sinagoga, em Nazaré:
“Todos na sinagoga, ouvindo estas cousas se encheram de ira.
E levantando-se, expulsaram-no da cidade e o levaram até o cume do monte sobre o qual estava edificada, para de lá o precipitarem abaixo.
Jesus, porém, passando por entre eles, retirou-se”.
- Voltemos, Paulino -, convidou o Mentor – a reflectir sobre a pergunta que nos foi proposta por você.
Deduzimos que, embora as trevas o perseguissem durante todo o tempo, enquanto não considerou cumprida a sua tarefa entre os homens, o Mestre, do ponto de vista estritamente material, não se deixou subjugar pela sanha dos que a representavam no mundo, que, afinal de contas, era, desde milénios sem data, seu domínio:
“A Luz resplandeceu nas trevas, e as trevas não prevaleceram contra ela”
(João, cap. 1, v. 5).
- Prevaleceram – comentei – quando Ele assim o consentiu, não é?
- E, mesmo assim, Inácio, transitoriamente, porque, a partir da crucificação, é que a vitória do Evangelho começou a se consolidar.
- O Senhor dissera que, quando fosse erguido na cruz, atrairia todos a Si; textualmente, segundo João, cap. 12 – v. 32:
“E eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim mesmo”.
- É o que vem acontecendo ao longo dos séculos!...
Milhares começaram a se converter...
Em “Atos dos Apóstolos”, encontramos a afirmativa de que, só no dia de Pentecostes, quando os Apóstolos ficaram “cheios” do Espírito Santo e passaram a falar em idiomas diferentes...
- O que denominamos xenoglossia, ou mediunidade poliglota – o dom de ser intérprete dos espíritos em outras línguas...
- ... após o discurso proferido por Simão Pedro, quase três mil pessoas aceitaram Jesus, na condição de Caminho, Verdade e Vida!
- O triunfo das trevas – observou Paulino – fora aparente...
- Aliás, somente o Bem triunfa em definitivo:
o mal é um estado de transição.
Homens e espíritos, ainda vivemos numa dimensão em que as sombras teimam em se opor à luz: efectivamente, não triunfarão do místico e milenar embate...
- Mas – lamentei – venderão caro a própria derrota.
- Durante trezentos anos, os cristãos foram martirizados e mortos, no entanto, ao invés de diminuírem, multiplicavam-se; a coragem indómita com que faceavam o martírio nos circos emocionava os que ali se reuniam para os inesquecíveis espectáculos sanguinolentos...
- Se a obsessão é “contagiosa”...
- ... a virtude igualmente o é!
Assim, não demorou para que o Cristianismo fizesse adeptos entre os patrícios romanos, cansados da devassidão de um Império nos estertores:
homens e mulheres de Roma, tocados em suas fibras mais íntimas pelos exemplos dos primitivos cristãos, convertiam-se à nova Fé e, gradativamente, os templos consagrados aos deuses pagãos se esvaziaram.
- O declínio do Império Romano!
- O princípio de uma nova era para a Humanidade, que se alicerçou, politicamente, com a ascensão de Constantino ao poder.
- O Imperador cristão!
- Que, aliás, Inácio – acrescentou Odilon -, hesitou em ser baptizado até quase o fim de sua vida.
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 09, 2018 10:53 am

- Por que motivo? – indaguei.
- Constantino era um homem do mundo e, em que pese à tarefa que desempenhou, tinha muitos dramas de consciência – dramas que o impediam de aderir ao Cristianismo de corpo e alma, o que, para fazer, o constrangeria a uma mudança mais radical, no que tange aos seus costumes e vícios.
- Quer dizer – inquiriu Paulino – que ele nunca se converteu formalmente?
- Sim; como acontece à maioria dos homens, quando o Imperador percebeu que se encaminhava para as sombras do túmulo – a inevitável jornada que ninguém se eximirá de empreender -, cedeu aos insistentes apelos de sua mãe, que a cristandade reverencia na condição de Santa Helena, e aceitou o baptismo.
- O Cristianismo passou, com o nome de Catolicismo, a ser a religião oficial do Estado, por força de um decreto! – exclamei.
- No entanto, Inácio, como você sabe, as Trevas tão-somente mudaram de táctica...
-Infelizmente!
- Durante quase todo o primeiro milénio da Era Cristã, o Evangelho floresceu admiravelmente...
- Em que pese às concessões políticas de Constantino feitas ao Paganismo – ressaltei.
- Claro, mas... isto é outra história.
- História, Odilon, repleta de factos e acontecimentos que fermentaram por quase mil anos e, em nova investida das Trevas, culminaram na Idade Média – com certeza o período mais escuro para a Humanidade:
a época das Cruzadas, da Inquisição, das guerras religiosas, do fanatismo e da intolerância, da cisão definitiva entre a Fé e a Razão, do comprometimento moral da igreja como instituição guardiã dos princípios evangélicos.
- Impressionante! – manifestou-se Paulino.
A perseguição ao Cristo continuou...
- E continua até hoje, meu filho – observou Odilon.
Por esse motivo, as Forças leais a Jesus Cristo reuniram-se nas Altas Esferas sob o seu Comando e, na França, no chamado “Século das Luzes”, deram início ao Movimento de Restauração do Evangelho, em sua pureza original, já que, infelizmente, a Igreja optou por permanecer retrógrada e comprometida com o Poder Temporal, de que se tornou aliada.
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 09, 2018 10:53 am

NO LIMIAR DO ABISMO 21
O diálogo prosseguia extremamente proveitoso, mas naquele momento, Manoel Roberto, sempre prestimoso, fazendo-se acompanhar de nossa Maria Modesto Cravo, anunciou a presença de dois amigos que aguardávamos.
- Doutor – disse-me, solicitando desculpas pela interrupção -, estão aí os nossos Dr. Ricardo e o irmão A. R.
Posso fazê-los entrar?
- Perfeitamente – respondi.
Ainda bem que chegaram, antes que Odilon, Paulino e eu empreendêssemos a programada excursão às regiões subcrostrais.
Temia que se atrasassem.
- Embora assoberbado por muitas tarefas – explicou Modesta -, o Dr. Ricardo fez questão de vir pessoalmente, amparando o médium em convalescença, que passará connosco alguns dias...
- Talvez semanas, ou meses, Modesta – considerei, ciente do quadro pertinente ao companheiro, que desencarnara de maneira trágica no interior de Goiás, vítima de terrível trama das Trevas.
Enquanto Manoel providenciara para que o médico ilustre e o seu enfermo pupilo se acomodassem, tomei a iniciativa de quebrar o natural constrangimento.
- Como é A.?
Você tem passado melhor?
Visivelmente abatido, ainda exibindo hematomas por todo o corpo, o médium respondeu, ofegante:
- Mais ou menos, Doutor; o meu problema maior é mesmo na cabeça:
daí o Dr. Ricardo ter me aconselhado alguns dias de tratamento aqui...
Sinto-me debilitado, com as crises que se fazem frequentes.
- O A. – tomou a palavra o médico que se responsabilizara pela coordenação da equipe espiritual que, não obstante as dificuldades de toda a ordem, beneficiara a tantos sofredores desencarnados pela medicina convencional -, infelizmente, não consegue se livrar da lembrança do episódio que culminou com o seu desenlace...
- Fui muito invigilante, Doutor – falou sem rodeios, como quem experimenta necessidade de desabafar -; apesar das advertências que o Mundo Espiritual me efectuava, fui muito negligente...
Esnobei a capacidade das Trevas de desmantelarem com qualquer actividade promissora, desde, é claro, que não nos submetamos à indispensável disciplina, que o exercício da mediunidade exige.
- Mormente em se tratando de mediunidade de cura, como era o seu caso – acentuei.
- O próprio Chico Xavier, com quem tive oportunidade de estar duas ou três vezes, procurou me alertar, no entanto eu estava por demais fascinado e, sem prévio conhecimento doutrinário...
O Dr. Ricardo não se cansava de me recomendar o estudo de obras que me auxiliassem o discernimento, mas, em minha ingenuidade, eu praticamente cresci no meio do mato -, imaginei que somente a mediunidade me bastasse.
Foi um desastre!...
Eu nunca soube de uma acção tão fulminante, que me parece ter sido programada com detalhes pelos agentes do Mal.
O senhor pensa: uma simples pescaria colocar tudo a perder de um instante para outro...
Neste instante, como se estivesse caído em transe, A. R. começou a gritar, debatendo-se na poltrona e correndo ambas as mãos por toda a extensão do corpo:
- Socorro! Socorro!...
Por favor, é uma nuvem de gafanhotos!
Estou sendo atacado por uma nuvem de gafanhotos...
De onde foi que surgiram?
Tire-nos daqui!... Socorro!
Estão me devorando...
- Não eram gafanhotos, Doutor – comentou o Dr. Ricardo em voz baixa -; eram abelhas africanas – milhares delas que, numa espécie de acção coordenada, o atacaram...
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 09, 2018 10:53 am

- Eu sei – redargui, atento ao médium, que prosseguia descrevendo a cena:
- Querem me carregar da canoa...
Socorro! Socorro!
Estão me devorando vivo...
Eu vou pular, mas não sei nadar.
Alguém me auxilie, pelo amor de Deus!
Dr. Ricardo! Dr. Ricardo!...
- Nada pudemos fazer – esclareceu, pesaroso, o companheiro, que, com uma toalha, enxugava a fronte empastada de suor de A.-; fizemos de tudo para que ele não fosse àquela malfadada pescaria e... para que não bebesse.
- Não! Não!... – continuava gritando o infortunado companheiro, que, apesar dos pesares, vinha prestando relevantes serviços à difusão da crença na imortalidade da alma, entre as centenas e centenas de pessoas que o procuravam na cidadezinha em que se estabelecera, inclusive provindas do Exterior.
Eu não quero morrer...
Não me levem!
Prometo rever tudo...
Deixem-me ficar.
Que carantonha é essa, meu Deus! – disse, ameaçando erguer-se da poltrona, no que foi prontamente contido pelo Dr. Ricardo.
- Ele está se referindo a um dos “gafanhotos” de sua visão...
- Que carantonha, meu Deus! – repetia.
Está escancarando a boca para me devorar...
Que nuvem escura!
Milhares e milhares de insectos sobre mim, picando o meu corpo todo...
E sorria, acometido por um acesso de loucura, balançando o corpo de um lado para outro, como quem estivesse alcoolizado:
- Eu só bebi uma garrafa de whisky, mais nada...
Por que, sendo médium, estou impedido de beber?
Eu sou médium, mas não sou espírita...
Pescar é o meu lazer predilecto, depois, é lógico, de facturar um pouco; afinal, quem é que vive sem dinheiro?...
Eu não sou santo; todo mundo que me procura sabe que eu não sou santo; inclusive as entidades que trabalham comigo, o Dr. Ricardo...
Eu sou um homem comum e não tenho culpa de ter nascido com esse dom.
Quem pode pagar que pague; os pobres atendo de graça...
Dos olhos claros do Dr. Ricardo rolaram silenciosas lágrimas.
Compadecido de sua situação, Odilon pousou-lhe a destra no ombro e percebi que tentava transmitir-lhe forças, enquanto nos mantínhamos em atitude de solidária expectativa.
- Perdoe-me, Dr. Ricardo, perdoe-me!
Eu coloquei tudo a perder:
a minha ambição, a minha vaidade...
Quando, agora, poderemos recomeçar?
Peçamos ao Senhor uma nova oportunidade...
Não é possível!
Como as Trevas puderam triunfar assim!...
Eu preciso voltar:
o povo continua à minha espera, a fila dos consulentes está imensa, os hotéis estão abarrotados...
Queiram ou não, eu sou maior médium que Arigó!
Arigó operava com um canivete, mas não se atrevia, como eu, a abrir o peito de alguém com uma serra...
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 09, 2018 10:54 am

Eu gosto de operar assim:
com muito sangue jorrando!
É para impressionar...
Chamem os jornais e a televisão – eu não me importo...
Em seu ato de delirar, A. R. ia alternando sentimentos de remorso e surtos psicóticos de grandeza.
Prorrompendo em soluços quase incontidos que Manoel Roberto e Modesta procuravam controlar, aplicando-lhe passes na região da cabeça e do tórax; enquanto o médium prosseguia tomado pelas próprias reminiscências, o Dr. Ricardo, que o assistia, considerou:
- Os “gafanhotos”, Doutor, a que o nosso irmão se refere, trata-se de espíritos inimigos da Doutrina, que, a pouco e pouco, foram-se agrupando nos arredores da cidade, permanecendo à espreita; a grande movimentação os atraiu e, após terem avaliado as possibilidades, organizaram-se e... desferiram o ataque fatal.
A., infelizmente, não estava em condições de lhes oferecer a menor resistência.
Não há, evidentemente, necessidade de que entremos em pormenores dos desregramentos cometidos por ele, não é?
- Não – respondi -; quase todos os médiuns que caem fracassando no cumprimento do dever, o fazem de maneira idêntica, com algumas pequenas variações, consoante os pontos vulneráveis, ou mais vulneráveis de cada um.
- Nada pudemos fazer... Tentamos o inimaginável; inclusive aventando a possibilidade de fazer com que ele transferisse residência – tudo no intuito de desarticular o que se preparava para golpeá-lo e, indirectamente, a equipe espiritual que, por seu intermédio, mais que curar corpos, objectivava colaborar com a propaganda da fé, sob os auspícios do Espiritismo.
Durante algum tempo, A. mostrou-se receptivo aos nossos ideais, no entanto, aos poucos, não mais nos atendia os alvitres.
De que maneira agir?
Abandoná-lo significaria abandonar a multidão dos aflitos e sofredores que concentravam em nós, os mortos, as suas derradeiras esperanças.
Optamos por dar sequência ao trabalho, na expectativa de que, quem sabe?, algo pudesse mudar.
Infelizmente, verdade seja dita, estabeleceu-se também contra ele, na cidade, partindo de alguns adeptos da Doutrina, uma corrente de crítica sistemática, fruto da inveja e do ciúme.
- Ao invés de orações para preservá-lo – atalhei -, pedras atiradas com endereço certo...
- Vocês nos desculpem – falou o Dr. Ricardo com humildade -, se não pudermos nos antecipar aos propósitos urdidos pelos ferrenhos adversários de nossa Causa; eles eram tão numerosos, que, mesmo se nos dispuséssemos a enfrentá-los fisicamente, não teríamos logrado vencê-los; o assalto aconteceu de inesperado, muito embora pressentíssemos que algo de sério estivesse para acontecer...
Aquelas abelhas africanas, que obrigaram A. a pular nas águas do rio, não moravam nas imediações da mata; com as investigações que efectuamos, chegamos à conclusão que elas foram como que “conduzidas” pelos espíritos obsessores, que as constrangeram ao ataque desfechado contra o médium, que terminou por se afogar, sem que, igualmente, os seus amigos encarnados, que pescavam um pouco mais abaixo, nada pudessem fazer para salvá-lo.
Confesso-lhes que também fomos pegos de surpresa...
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 09, 2018 10:54 am

NO LIMIAR DO ABISMO 22
- Como – indagou Paulino, respeitoso -, pegos de surpresa?
Quando na carne, sempre imaginamos que os espíritos consigam frustrar as investidas do Mal, impedindo-lhe a acção junto àqueles que se devotam à prática do bem...
- Compreendo, meu irmão – respondeu o Dr. Ricardo -, o seu questionamento e, de início, devo esclarecer que nós, os que trabalhávamos mais directamente com o médium, assessorando-o em suas actividades, não éramos e não somos espíritos dotados do dom da presciência – não passamos de criaturas fora do corpo físico, ainda em luta com limitações, não obstante a nossa extrema vontade de colaborar com a Causa a que aderimos após a desencarnação...
Tornamo-nos adeptos do Espiritismo ainda há pouco e, evidentemente, não deixamos de ser espíritos comuns que sempre fomos.
As actividades envolvendo o medianeiro cresceram mais do que poderíamos prever, e não estávamos estruturados, nem nós nem ele, para arcar com tamanha responsabilidade; de um instante para outro, a pequenina cidade se viu invadida por milhares de romaneiros, que aumentavam consideravelmente a sua população invisível, espíritos procedentes das mais diversificadas regiões do Plano Espiritual, atraídos, não raro, por mera curiosidade...
- A gente não analisa o problema por este ângulo de visão – observei, vislumbrando a extensão das dificuldades que a equipe espiritual do Dr. Ricardo enfrentava, na tentativa de manter a situação sob controle.
- Sinceramente – repetiu -, não esperávamos que o labor que nos propúnhamos, em local de difícil acesso, numa comunidade rural, fosse despertar a atenção de tantas pessoas, em maioria, doentes, é verdade, mas que, na ânsia de algo obter dos espíritos, não se constrangiam em corromper os encarnados.
A. era uma fonte cristalina, jorrando abundantemente, que os próprios homens, após saciarem a sede, pisotearam e conspurcaram, sem a menor preocupação em preservá-la para os demais sedentos.
Efectuando pequena pausa, o Dr. Ricardo continuou:
- Não tivemos tempo para nos organizarmos e, sobretudo, para convencer o médium a ser mais vigilante, não concedendo tantas brechas no seu psiquismo à nociva influência das Trevas...
Ele começou por receber singelos presentes, com o intuito de beneficiar os familiares em situação de penúria material e, assim, gradativamente, foi sendo corrompido, ao ponto de fraterna voz de advertência aos seus ouvidos soar como um eco distante, que ele confundia com tantas outras vozes que, com subtileza, lhe tramavam a queda.
Alguém poderá perguntar:
“Por que não o abandonaram de vez?”
A resposta é complexa e tentarei resumir.
Como abandonar um amigo à própria sorte, sabendo que ele se abeira do precipício?
Há sempre a esperança de que algo possa ser feito, com o objectivo de lhe alterar o curso dos passos...
A responsabilidade era igualmente nossa; o médium, quando se equivoca, expõe, de certa forma, a fragilidade dos que lhe ofereciam retaguarda...
Falhamos todos: o médium, a equipe espiritual e, talvez, mais ainda o grupo dos encarnados, que, com raras excepções, se haviam igualmente habituado a tirar proveito da situação, estabelecendo intenso comércio em função das actividades mediúnicas do nosso pobre companheiro.
E, depois, se tivéssemos simplesmente nos retirado, outras entidades estavam prontas para ocupar o espaço e, então, o desastre teria sido maior para todos.
A mediunidade de A. R., digam o que quiserem dizer, era autêntica!
Centenas e centenas de pessoas foram atendidas com êxito, causando espanto a quantos tiveram a oportunidade de vê-lo em acção – um homem simples, sem cultura alguma, atendendo os doentes numa sala, com as suas vestes inteiramente respingadas de sangue...
Nenhum incidente, nenhuma infecção.
Algumas fotos e algumas fitas de vídeo foram gravadas, testemunhando a veracidade das informações que transmitimos.
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 09, 2018 10:54 am

No Brasil, depois do fenómeno Arigó, A. R foi, sem dúvida, o maior sucesso da Espiritualidade no campo da cirurgia mediúnica; se ele tivesse sobrevivido, a ciência teria se espantado e, de maneira indirecta, haveria de ter sido imenso o ganho da Fé, neste embate sem quartel contra o Materialismo; vocês sabem que, infelizmente, o homem assimila com maior facilidade o que lhe entra pelos olhos do que pela razão...
Um livro, por exemplo, da lavra mediúnica de Chico Xavier ilumina o interior:
fala ao espírito em profundidade, predispondo-o à necessária e verdadeira mudança, mas de modo geral, as pessoas estão interessadas na bênção imediata, ou seja, no alívio de suas dores de natureza física, como se jamais fossem adoecer novamente, ou enfrentar, mais cedo ou mais tarde, a desencarnação.
A., que agora se mostrava calmo, dava-me a impressão de estar alheio à maior parte da conversa, que prosseguia interessante.
- Conforme ia dizendo – prosseguiu o Dr. Ricardo -, o nosso irmão médium, que ninguém tem o direito de condenar, ofereceu brechas em seu psiquismo e, nos últimos tempos, tínhamos que disputar, com outras entidades, o momento do transe...
- Disputar o momento do transe?! – questionou Paulino, admirado.
- Entre o médium e os espíritos que com ele criam um vínculo de trabalho, existe uma espécie de “senha”, através da qual eles podem se identificar, facilitando a sintonia:
é como alguém que, possuindo as chaves de uma casa, não necessita de lhe arrombar as portas para entrar...
Todavia, quando o médium se torna invigilante, escancara portas e janelas ao invasor, que não medirá consequências para adentrar e se estabelecer em sua cidadela psíquica, reclamando-lhe a posse.
- Chega a ser inacreditável! – exclamou o jovem pupilo de Odilon.
- Isto acontece, Paulino – comentou o Mentor -, e com muito mais frequência que supomos.
Mediunidade é uma questão de empatia.
Quando o médium, que, digamos, é o factor causal, muda de faixa vibratória, o seu pensamento passa a ser receptivo a espíritos da mesma faixa em que se encontra e, mesmo nos posicionando fisicamente próximos a ele, é como se estivéssemos a alguns quilómetros, completamente ignorados.
No chamado transe mediúnico, nem sempre o espírito que mediuniza o médium necessita estar presente, como, quando encarnados, concebemos a presença de alguém ao nosso lado.
- É – esclareceu o Dr. Ricardo -, os espíritos obsessores, muitas vezes, não conseguiam varar o bloqueio e vencer as barreiras defensivas, em forma de cercas magnéticas, que havíamos erguido ao redor do centro em que A. atendia, mas ele os “carregava” em seu psiquismo...
Podíamos ouvir as entidades que o convenciam a beber, antes da sessão:
- “Beba; você não é médium coisa nenhuma...
Se tivesse estudado Medicina, você seria um hábil cirurgião.
Não seja tolo!
A vida na carne não vale nada: dentro de poucos minutos, você lidará com tumores cancerígenos, com doenças infecto-contagiosas, com feridas cheias de pus...
Beba, porque, se você não se atordoar, não terá coragem de cortar, de fazer sangrar, de olhar de frente tantos corpos apodrecendo em vida...
Beba e, como sempre, tudo dará certo; o povo é tão necessitado e místico, que identificará em você o cheiro de éter espargido pelos espíritos...
Beba, A. porque, senão, você, ao ver tanta miséria, sairá correndo como um louco...
Tudo é mentira: a vida termina com a morte e os homens estão condenados à extinção.
Não existe espírito coisa nenhuma, e as suas visões não passam de crises de alucinação.
Os médiuns vêem e ouvem o que têm vontade de ouvir e ver...
O Espiritismo, sem dúvida, seria a doutrina ideal para a Humanidade; acontece, porém, que o Espiritismo é uma mentira.
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 09, 2018 10:54 am

Beba, A., afogue suas mágoas, aproveite o que possa e não tenha escrúpulos:
afinal, todo trabalho deve ser remunerado e esse pessoal que o procura joga dinheiro fora...”
- Vocês tentavam contra-argumentar? – inquiriu Paulino.
- É óbvio, mas o nosso companheiro, à medida que o tempo ia passando, foi-se-nos tornando indiferente; debaixo de terrível sugestão, agia inconsciente e inconsequente, sem suspeitar do que estava prestes a ocorrer, até que, naquele fatídico dia...
Conforme já mencionei, vimos uma nuvem escura que se movimentava sobre a cidade, como se um temporal estivesse prestes a desabar.
Aquela nuvem, estranhamente, esticava-se de um lado para outro e rodopiava, como se fosse um tornado ou um monstro mitológico preparando o ataque...
Pressentindo a gravidade da situação, juntamo-nos e começamos a orar, suplicando a intercessão do Alto, com receio de que a cidade fosse ser vítima de uma hecatombe espiritual sem precedentes.
- Que, de facto, aconteceu – emendei.
- Quando, particularmente, pensei em A., corri para a beirada do rio; o centro estava lotado de enfermos que o aguardavam e ele estava...
pescando – o atendimento ao público começaria dentro de duas ou três horas.
O resto eu já lhes contei e seria desagradável repetir.
Aquela estranha nuvem se precipitou, fulminante, e, em fracção de minuto, todo um trabalho, meticulosamente programado – sim, porque estamos tentando com o A. há tempos -, foi dizimado...
- Isto – aparteou Odilon – demonstra quanto nós, os desencarnados, necessitamos de que os médiuns nos auxiliem, a fim de que encontremos recursos no sentido de auxiliá-los.
- Infelizmente – observei -, deixamos tudo por conta de Deus, não é?
De preferência, gostaríamos que a terra produzisse sem necessidade de derramarmos sobre ela uma única gota de suor...
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 09, 2018 10:54 am

NO LIMIAR DO ABISMO 23
Dando sequência ao diálogo esclarecedor, Paulino Garcai indagou:
- Vocês estão tentando com o médium há tempos?...
- Sim – respondeu o Dr. Ricardo, desdobrando-se em explicações.
Assumimos, juntos o compromisso de trabalho que procuramos levar a efeito, e não foi fácil colocarmos A. em condições de nos atender; sempre que lhe propúnhamos a tarefa da mediunidade, ele recuava e não conseguíamos convencê-lo.
Esquecido do que havíamos combinado, antes de sua última romagem no corpo, A. chegava mesmo a nos evitar e nada queria com assuntos pertinentes à vida do Além-túmulo.
Em existência pregressa, ambos éramos médicos que não soubemos cumprir com os nossos deveres à altura – obtivemos o diploma da Europa e fomos para a África, interessados em enriquecer; à época, falava-se muito em minas de ouro e diamantes e o nosso sonho era fazer fortuna...
Em lá chegando, porém, nos deparamos com tanta miséria e necessidade do povo, que, inclusive, passava fome e morria, à míngua, nas ruas, que deliberamos nos isolar, ou seja, construímos um pequeno hospital, ao qual tinham acesso apenas os que podiam pagar...
Evitávamos qualquer tipo de contacto com os indigentes e os mantínhamos a distância, contratando os serviços de vários seguranças, que se encarregavam de afastá-los, Á. era hábil cirurgião e eu ambicioso clínico, que fazia, para ele, a triagem dos casos, não de acordo com a natureza dos diagnósticos que efectuava, mas, sim, segundo o quilate da pedra de diamante ou o tamanho da pepita de ouro que traziam nas mãos em forma de pagamento; operávamos quem realmente precisava ser operado e, muito mais, quem não necessitava de submeter a qualquer cirurgia...
- Ainda há muita gente assim! – exclamei, não deixando passar a oportunidade de, uma vez mais, manifestar-me contrário aos médicos mercenários, que, infelizmente, se submetem a toda espécie de falcatruas, não dando a mínima para o paciente.
- Quando saíamos de carro do hospital, isolado por uma cerca de arame farpado, os tísicos e portadores de elefantíase, tumores à mostra e faces edemaciadas nos estendiam as mãos vazias, e outros, com insignificantes pedras semipreciosas, nos tentavam parar, implorando por seus filhos e progenitores que agonizavam em humildes choças...
De consciência entorpecida, seguíamos adiante, com a nossa indumentária quase alva contrastando com a cor escurecida da pele daquela gente sofrida, dominada pelos ingleses.
Um dia, quando A. e eu nos dirigíamos a uma casa de prostituição de moças de menor idade, que faziam comércio com o corpo em troca do pão quotidiano, fomos abordados por uma senhora numa pequena ponte de madeira; o automóvel apagara e ela, arrastando uma perna, aproximou-se o suficiente para nos dizer:
- “Piedade! Piedade!
Socorram a minha netinha, que está morrendo; eu não tenho dinheiro, mas o Senhor há de recompensá-los...
Por caridade, venham à minha choça!
A menina é órfã de pai e mãe e está ardendo em febre; penso que ela deve ter sido picada por alguns mosquitos...
Piedade, senhores! Piedade!
Eu lhes serei eternamente devedora, nesta e na outra vida...
Não deixem a minha neta morrer – ela é tudo o que me resta!”
Extremamente irritado com a inesperada abordagem, A. gritou com o motorista para que ele descesse e empurrasse o veículo, enquanto se encarregava de manobrá-lo.
Silenciando por instantes, o Dr. Ricardo, com lágrimas nos olhos, continuou:
- A pobre senhora, hemiplégica, ao ver que o carro arrancava, olhou-nos de uma maneira que eu jamais pude esquecer – um punhal que me tivesse atravessado o peito não teria me lacerado tanto as fibras da alma!
Insisti com A. para que voltássemos, mas ele, completamente transtornado, gritou comigo e, pela primeira vez, discutimos.
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 09, 2018 10:55 am

Porém, enquanto o veículo se distanciava a custo, a anciã, em estado de desespero e revolta, blasfemou de punho cerrado aos céus, arremessando-nos pesadas vibrações:
“Vocês hão de pagar caro...
A minha netinha morrerá ainda esta noite, mas vocês também não escaparão:
clamo aos nossos ancestrais por vingança – por vingança, que quero e espero!
Vocês serão picados, vocês serão picados!...”
“Velha asquerosa – disse A., enfurecido -:
você é que há de morrer esquelética!
Não nos venha rogar praga...
Povo imundo! Negros!”
Neste ínterim, o motor do carro voltou a funcionar e deixamos a pobre senhora mergulhada numa nuvem de poeira...
Coisa estranha! – exclamou o médico de semblante entristecido.
Daquele dia em diante, tudo começou a se complicar para nós:
uma febre inexplicável nos acometeu e os nossos corpos se cobriram de furúnculos...
Nenhum remédio adiantava.
A. ficava tão desequilibrado, que se cortava todo, para drenar o pus...
Ficamos isolados no próprio hospital e os que trabalhavam connosco, temendo se contagiar, fugiram e nos roubaram quase tudo.
Com diferença de uma semana um do outro, morremos, ou seja, deixamos o corpo e não houve sequer quem se encorajasse a nos providenciar sepultamento.
- Como podem perceber – falou o Dr. Ricardo num profundo suspiro -, nem A. e muito eu fomos ou somos espíritos missionários.
Arrependemo-nos amargamente do descaso que fizemos do ser humano, e depois de longo tempo vagueando nas trevas, alguém se compadeceu de nossos equívocos e o resto vocês já sabem:
A. reencarnou e eu me comprometi a auxiliá-lo...
DA áfrica, viemos para o Brasil e nos oferecemos na condição de humildes serviçais na seara espírita, embora nada conhecêssemos de Espiritismo.
Valendo-se do meu entrosamento com A., amigos de condição espiritual muito mais elevada entreviram a possibilidade de desenvolvermos uma tarefa-resgate; alertaram-nos quanto aos perigos e tal iniciativa, mas o remorso, que é a mais escura e terrível de todas as noites da alma, fez-nos aceitar a chance...
Só não contávamos com que a “maldição” da velha senhora pudesse nos acompanhar de uma existência a outra.
Sinceramente, eu não tenho outra explicação para o caso, que não sei definir.
Eu e A. mudamos muito, mas, talvez, não tenhamos mudado o suficiente.
De certa forma, começamos a repetir os mesmos deslizes de outrora:
embora contrariando a minha opinião, A. já havia dado início à construção de um grande hospital...
Perdoem-me, se não estou conseguindo coordenar bem as ideias, no entanto faço questão de que a comunidade espírita saiba:
não somos espíritos missionários; eu e A. simplesmente fomos admitidos na condição de servidores do sector da Mediunidade pela caridade de nossos Maiores, para que aprendêssemos a dar de graça o que de graça recebemos; pouco ou quase nada ainda sabemos do Evangelho!...
O povo é que cometia o erro de nos endeusar e, especialmente a mim, conceber as luzes que o meu espírito está longe de possuir.
E, voltando-se em minha direcção, o Dr. Ricardo, concluiu:
- É por este motivo, Dr. Inácio, que estamos aqui, eu e A., encaminhados pelo Dr. Bezerra de Menezes; precisamos nos tratar e, quem sabe, nos colocarmos em melhores condições para o futuro...
Agora, que conhecemos a filosofia espírita, não queremos deixá-la e tencionamos continuar a serviço da Causa, que, reconhecemos, transcende a nossa limitada compreensão.
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 10, 2018 10:15 am

Queremos nos habilitar, para, futuramente, trocarmos de posição: pretendo reencarnar e ser médium...
Vejamos, porém, o que a Misericórdia Divina nos reservará.
Se não cumprimos com a suposta missão que os nossos irmãos nos atribuíam, pelo menos aprendemos e continuamos sob intenso aprendizado.
É impressionante, Doutor, como o espírito tende , nas experiências do presente, repisar o passado:
A. sentiu-se inicialmente atraído para a cidade do interior do Estado de Goiás, pelas notícias que corriam em relação a garimpo promissor de ouro e diamante...
Não sabíamos, eu e ele, que estávamos indo ao encontro do destino.
A gente não sabe nada da gente...
- E quer saber dos outros – do carma dos outros, do destino dos outros, da vida dos outros...
Eu fico verdadeiramente pasmo, diante de tanta gente metida a besta – gente espírita e- , que se mete a interpretar a tarefa dos outros e a dizer o que foram ou deixaram de ser, em pregressas existências.
- De minha parte, Doutor, agradeço, sensibilizado, aos amigos que me representaram a figura com uma luz resplandecente no peito, mas, todas as vezes em que me ocorre tal imagem distorcida de mim, eu me envergonho e me lembro de que, há quase cem anos, eu e A. nos encontramos rastejando e não sabemos quando haveremos de nos colocarmos de pé.
- Rastejando, meu filho, todos, quase sem excepção, nesta sala , nos encontramos:
você e A. não estão sozinhos, não!...
E há muita gente boa no mundo iludida quanto à sua verdadeira situação espiritual.
O pessoal espírita (um ou outro fica fora da lista) é de uma ingenuidade sem par:
qualquer médium ou orador que apareça logo é rotulado de missionário, e o pior é que o infeliz acredita – acredita e fica na expectativa de mais.
Ora, mais provador do que médium, só outro médium...
O Dr. Ricardo sorriu, descontraiu-se um pouco e acrescentou:
- Não tínhamos mesmo como escapar daquela situação, não é, Doutor?
Espíritos comuns, o que poderíamos fazer?...
Em sã consciência, eu não posso consentir que A. assuma toda a culpa sozinho.
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 10, 2018 10:15 am

NO LIMIAR DO ABISMO 24
Enquanto A. R. e o Dr. Ricardo eram encaminhados por Manoel Roberto e Modesta aos aposentos a ambos destinados, Odilon, Paulino e eu tratamos de ultimar preparativos para a excursão que planeávamos às regiões abaixo da Crosta. Evidentemente, não era a primeira vez que tomávamos a iniciativa de visitá-las, todavia nos convém esclarecer que as regiões mencionadas são de grande extensão, constituindo mesmo um “universo” a parte, dada a diversidade da vida com que nelas nos deparamos.
Em rápidas palavras, jamais lograríamos descrevê-las com exactidão, já que se constituem, internamente, numa espécie de “anel”, a circundar todo o orbe; milhares e milhares de espíritos, humanos e sub-humanos as povoam, bem como seres que eu não saberia classificar – seres em estado de transição, no que se refere à forma e à capacidade intelectiva, e outros de existência fugaz, ou seja, “seres” que são exteriorizações mentais, os já denominados por André Luiz, em suas obras, de “formas-pensamentos”.
Interessantes as “formas-pensamentos”...
A ideia tem o poder de plasmar o que concebe.
Imaginemos se tudo o que os homens pensam no mundo se exteriorizasse:
teríamos, sem exagero, um gigantesco espectáculo teratológico, só concebido pela ficção.
Essas “formas-pensamentos”, que poderíamos rotular de irreais, existiriam, não obstante, por determinado tempo, de maneira concreta...
Ainda bem que o pensamento do homem jaz encarnado na caixa craniana e o cérebro, que ele não sabe utilizar em todo o seu potencial, impõe limites à sua imaginação doentia; caso contrário, assistiríamos a verdadeiro duelo de titãs, em que as criações mentais de ordem inferior haveriam de se digladiar.
O que é a vibração negativa?
Nada mais que uma onda viva que se estende e que, não raro, ganhando forma, se arremessa contra o alvo que se quer atingir; a vibração pode, em determinadas circunstância, tomar a forma de um punhal, de uma serpente, de uma nuvem escura, de um projéctil certeiro, de um soco que se desfecha, enfim, de répteis, os mais variados, e de animais peçonhentos desferindo ataques contra a presa...
DA mesma maneira que o pensamento é capaz de plasmar criações de ordem superior, com maior facilidade, em nossa actual conjuntura evolutiva, plasma as de ordem inferior, que o pensamento modela e sustenta por um tempo mais ou menos indefinido.
Os que lidam com a chamada “magia negra” sabem lidar com as forças referidas.
Há coisas estranhas no Universo e ainda completamente desconhecidas dos homens.
Por exemplo, determinadas “formas-pensamento” que se plasmam a partir da mente humana concentrada no ódio, no desejo de vingança ou na simples vontade de fazer o mal, são como que “dominadas” ou “alimentadas” pelos espíritos obsessores que a elas se enlaçam e as “cavalgam”, como alguém que “pilotasse” um torpedo ou, mais modernamente, um “carro-bomba”, direccionando-o...
Essas “criaturas” fictícias vampirizam as suas vítimas e, em quase todo o processo obsessivo, se fazem presentes, e apenas e tão-somente à força da oração e seu poder é que se “desintegram”.
Recordo-me de nossas experiências mediúnicas no Sanatório, em Uberaba, quando Modesta, através de sua faculdade clarividente, as descrevia e chegava a confundi-las, junto àqueles que prejudicavam, com a presença real dos obsessores. Neste sentido é que entendemos a chamada “auto-obsessão”:
pensamentos escapando ao controle do cérebro e tomando formas dantescas, sugando a energia vital ou mental de seus criadores.
A ideia fixa é uma “forma-pensamento”.
Quem pensa,
sistematicamente, em determinada doença, acaba por atraí-la; fragiliza as defesas do organismo e se predispõe a receber o microorganismo patogénico que se desenvolverá no meio de “cultura” que lhe está sendo oferecido.
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 10, 2018 10:15 am

O Universo é uma Criação do Pensamento Divino, que o concebeu e o sustenta se Deus parasse de pensar uma única fracção de segundo, o Universo se esboroaria...
Vejamos bem:
tudo o que o homem materializa com as mãos é uma criação de seu próprio pensamento. O que é a matéria?
A matéria é energia condensada, com as partículas atómicas que a estruturam se movimentando em baixa velocidade...
homem pensa, toma dos inesgotáveis recursos da Natureza determinada porção de matéria (energia) e dá-lhe a forma que concebe; age, em tudo o que cria exteriormente, como o escultor que trabalha a estátua numa pedra bruta: se o homem fosse capaz de lhe soprar nas narinas o “princípio da Vida”, a estátua de mármore bem que se movimentaria...
Mas, voltemos às nossas experimentações mediúnicas no Sanatório.
Em nossas sessões, com o auxílio dos Guias, Modesta sempre descrevia as “formas-pensamentos” que observava ao lado de alguns internos de maior gravidade.
Lembro-me de que, certa vez, em estreita simbiose mental com uma senhora vampirizada, ela viu diversos “pulgões” em sua vasta cabeleira, que penteava noite e dia...
– “Vejo – disse-nos – dezenas de pequeninos passeando em sua cabeça e outros grudados em seu couro cabeludo; alguns deles se me assemelham a filhotes de serpentes, que se lhe enroscam nos fios de cabelo, como se a nossa infeliz irmã fosse o retrato da Medusa...
Convém, Inácio, para aliviá-la, que providenciemos que os seus cabelos sejam raspados e as suas unhas bem aparadas.
Valendo-me da oportunidade, estabelecemos o diálogo que, em síntese, reproduzo.
- Você percebe – perguntei – algum espírito obsessor nas proximidades de nossa irmã?
- Não; todavia, à medida que ela esmaga os “pulgões” com as mãos ou os retira com o pente, tenho a impressão de que outros vão chegando, como se surgissem do nada...
Coitada! Como deve sofrer!...
- É uma obsessão a distância?
- Poderíamos dizer que sim.
O que não terá feito essa pobre, em vidas que já se foram?!
- Segundo o marido, que a trouxe e providenciou a sua internação, o problema começou a se manifestar na adolescência; melhorou quando começaram a namorar, mas se agravou a partir de sua primeira gravidez...
Ela é mãe de três filhos, que moram com o pai em um sítio próximo à cidade.
- Vejamos, Inácio, se consigo penetrar em seu psiquismo.
Por favor, oremos neste sentido e peçamos aos nossos Benfeitores que nos auxiliem.
Depois de quase dez minutos de silêncio, Modesta voltou a falar:
- Estou vendo...
Não sei precisar a época, mas estou vendo a nossa irmã na condição de rica fazendeira...
Extensos cafezais, muitos escravos trabalhando.
Vejo a senzala...
Meu Deus! Quanta miséria!
Que horror! O mau cheiro é insuportável.
Carne, humana apodrecendo em vida...
diversos escravos feridos estão com bicheiras; ela não os trata, sequer com creolina...
Estão amarrados num canto escuro da senzala...
O ódio por ela é uma espécie de vibração que vai tomando forma, ganhando vida, respirando pouco a pouco...
Os escravos têm bicheiras nas pernas, na cabeça, na boca, nos órgãos genitais.
Meu Deus, quanta maldade!
Melhor seria se ela mandasse eliminá-los.
Vejo-a entrar com um lenço tapando as narinas...
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 10, 2018 10:16 am

– “Sinhá – clama pobre escravo que está sendo devorado vivo -, mata os bichos!
Sinhá, mata...
Mata os bichos do preto-velho, mata!”
Ela os olha com desprezo e tenho a impressão de que, aos poucos, enlouquece...
A sua revolta é oriunda de três abortos consecutivos, que sofreu, e inveja os negros que procriam com facilidade.
Após breve intervalo, Modesta continuou:
- Estou ouvindo, Inácio, ouvindo o que ela ouve sem parar:
- “Sinhá, mata os bichos!
Sinhá, mata...
Mata os bichos do preto-velho , mata!”
No caso dela, a obsessão é a voz do tempo...
Como, meu Deus, ela está coberta de varejeiras!
O seu corpo espiritual é um ninho de vespas...
Inácio, eu nunca vi coisa igual!
Meu Deus, que horror!...
- Quer dizer que não há obsessor por perto? – indaguei.
Obsessor que possamos atrair para atentar a doutrinação?...
- Não, Inácio, não!
A obsessão, em muitos casos, é uma semente plantada que se desenvolve sozinha...
É o remorso, é o arrependimento, é a loucura, é, enfim, o ódio que ela suscitou contra a própria maldade.
- Casos assim são mais difíceis de serem tratados – ponderei.
Sem dúvida, Inácio, sem dúvida – redarguiu a médium em transe.
Os nossos Benfeitores estão me dizendo que, infelizmente, é provável que ela termine assim a presente existência.
- Não há nada que possamos fazer?
- Zelar por ela, para que, pelo menos, não lhe faltem as necessárias condições de higiene e o pão de cada dia.
O resto é um acerto de contas dela consigo mesma.
A referida irmã, praticamente abandonada pelos seus familiares, veio a desencarnar quase dez anos depois.
Pouco falava, mas, quando abria a boca para dizer alguma coisa, repetia:
- “Mata os bichos, mata...
Mata os bichos do corpo da sinhá, mata!...”
Não houve explicação para o seu desenlace; o coração simplesmente parou de bater, naquele organismo descorado da pobre senhora, que se recusava, inclusive, a tomar banho de sol; vivia encolhida em um canto da cela e, quase sempre, em completa nudez, que tentávamos cobrir, envolvendo-a com um cobertor, já que transformava em trapos todas as suas vestes!
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 10, 2018 10:16 am

NO LIMIAR DO ABISMO 25
Deixando o hospital, Odilon, Paulino e eu nos pusemos rumo à Crosta, utilizando-nos para tanto, de uma nave semelhante a um helicóptero sem hélices, movida a uma espécie de energia, derivada do átomo, que os homens ainda conseguirão desenvolver – por aqui, nós a denominamos de “energia silenciosa”, já que não provoca nenhum ruído e qualquer espécie de combustão; é uma energia condensada em pequenas placas, que simplesmente se gastam e são substituída por outras.
Nem sempre, em nossas excursões às vizinhanças do orbe, utilizamos a faculdade de volitar, por contarmos com inúmeros veículos em nosso Plano que nos ensejam fazê-lo, sem maior dispêndio de força de nossa parte.
Reservamos a volitação para quando não podemos lançar mão de outro meio de transporte. Eu não sei se os nossos irmãos encarnados entenderão, mas, sinceramente, não estou muito preocupado com isto...
Existem coisas que, por mais nos esmeremos, não conseguiremos explicar com a clareza necessária.
Se temos, por aqui, veículos e estradas, por que haveríamos, em qualquer viagem que façamos à Terra, exercer a volitação, que, é bom que se diga, não é, para todos os desencarnados, o recurso mais seguro e mesmo o mais rápido de locomoção.
Ainda, em maioria, não controlamos os impulsos da mente.
Enquanto a nave, conduzida por um piloto automático, se punha em movimento, observei que Odilon se entregava a proveitosa reflexão, da qual, não resistindo em participar, quis igualmente tirar proveito incomodando-o com as minhas perguntas.
- Meu caro amigo – disse-lhe, com uma piscadela para o Paulino -, poderíamos saber em que você está pensando?
- Em nada de mais, Inácio – em nada que você ou o Paulino já não saibam...
- Mas, com certeza, não ainda o bastante – redargui - concorda, Paulino?
- É claro. Eu não tenho o pudor de confessar minha a mais completa ignorância; sei mais da Terra que do Mundo espiritual...
E eu melhor conhecia a velha carcaça que deixei, do que o corpo de que agora me sirvo; todas as minhas noções de Anatomia se ultrapassaram...
Quer dizer, então, dos meus parcos conhecimentos psiquiátricos!
Se a Terra é uma dádiva de Deus aos homens, eu nem sei o que dizer das dimensões espirituais...
- Não é de admirar – prosseguiu Paulinho - que a maioria se sinta, deste Outro Lado, como quem vive num “mundo de superfície espelhada”...
- O Mundo Espiritual é fantástico! – exclamei.
Quem o terá construído, ou melhor, desbravado?
Cogita-se, no Planeta, que seres extraterrestres o tenham habitado outrora...
Penso que as dimensões espirituais mais próximas dele foram colonizadas por eles, os extra-terrestres, que, em última análise, são seres oriundos de dimensões superiores.
Os homens desencarnados não poderiam ter feito isto aqui, com tanta perfeição e beleza.
- Pois era justamente sobre o que eu estava meditando, Inácio:
comparada à Região em que nos encontramos domiciliados, a Terra é um mundo primitivo e, comparando-se ela às zonas subcrostais, que visitaremos, a Terra é um orbe superior...
Todos vivemos, em qualquer parte, de acordo com a relatividade das coisas – com a relatividade de que as coisas se compõem.
- De acordo com a menor ou a maior velocidade das partículas, não é?
- A Vida e a morte são, basicamente, uma questão de Física e de Espiritualidade.
- De Espaço e de Tempo – falei, sem saber expressar o que estava sentindo.
- De espaço, de Tempo e de Luz – completou Odilon.
Essa questão de encarnado e desencarnado, ou seja, de estar encarnado ou desencarnado...
- É uma simples questão de palavras.
- Sim, Inácio, a rigor, é isto.
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