O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em 10/6/2018, 14:16

Para os homens na Terra, revestidos de matéria grosseira ou de um cujo arranjo molecular se dá, digamos, em menor movimentação ou celeridade, estamos de facto, desencarnados, Embora o corpo espiritual que ocupamos ainda se constitua de matéria; no entanto, para os espíritos acima de nós, habitantes de dimensões de eterizadas, nós, os desencarnados, não passamos de seres encarnados, ocupando um corpo sujeito a muitas vicissitudes...
- Inclusive enfermidades e... morte.
- É claro. O perispírito ainda é carne e, como tal, passível de adoecer e se desgastar.
Penso que, no futuro, os homens necessitarão rever os conceitos de encarnado e desencarnado e mesmo mudar a terminologia com que se referem ao corpo – ao corpo que, em verdade, para o espírito, apenas sofre mutações, de acordo com a disposição das partículas enérgicas que o constituem.
- Seria, então, Odilon – indaguei -, lícito imaginar que, para seres mais primitivos na escala evolutiva, os homens estejam desencarnados?
- Perfeitamente.
Existem mundos físicos e dimensões outras onde a Vida se manifesta de forma mais animalizada; vejamos que, até uma simples conversa como a nossa, temos dificuldades com a palavra; porque o nosso vocabulário ainda é muito pobre:
novos termos surgirão e serão cunhados, para que as ideias se definam com maior precisão, expressando a realidade.
O que é o corpo de carne? Energia.
O que é o perispírito? Energia.
A argila, o granito e o aço têm o mesmo princípio:
o que distingue esses elementos, quanto à flexibilidade e propriedade outras é a combinação entre as moléculas que os estruturam.
O hidrogénio e o oxigénio, isoladamente, são gases, todavia, se se juntarem em determinada proporção, duas moléculas de hidrogénio para uma de oxigénio -, teremos a água, que é matéria liquefeita.
- Sem Dúvida, Dr. Odilon - aparteou Paulino, que, embora desencarnado, eu me sinta encarnado, inclusive com quase todas as necessidades fisiológicas do homem comum...
Por exemplo:
sinto fome e sede, tenho pêlos no corpo, a minha barba cresce, de quando em quando – não com a frequência que eu fazia na Terra -, preciso ir ao sanitário, ao chuveiro...
Tomar banho. Paulino – disse, não contendo o riso -, prepare-se...
Você está pronunciando Heresias, uma atrás da outra; prepare-se para apanhar...
Dos espíritas, que adoram bater na gente, os desencarnados.
- Como vocês sabem – prosseguiu todo o mentor. -, não temos mais determinados órgãos, que, aliás, já se encontram em extinção no corpo humano:
a vesícula, o apêndice, o trato intestinal apresenta-se-nos resumido, a dentição...
- A dentição! – exclamei.
Quando tinha dentes no mundo, eu podia contar 32 elementos, incluindo os cisos, ou terceiros molares, superiores e inferiores.
Usei chapa durante muito tempo... - prótese total removível, Inácio.
- Dentadura! Agora, que outra vez me nasceram dentes, tenho uma dentição de 20 elementos:
me desapareceram, em definitivo, os 4 cisos, os 4 segundos pré-molares e os 4 caninos...
- O que você iria fazer com os caninos por aqui? – perguntou o Odilon, passando a mão sobre a minha cabeça e desarrumando os meus cabelos.
- Dilacerar um apetitoso pedaço de carne – respondi, devolvendo a brincadeira.
- Os nossos sentidos e implementos físicos, Inácio, à medida que subirmos, serão suprimidos pela evolução, por absoluta falta de uso.
No caso específico dos dentes a dentição infantil é formada por 16 elementos:
2 incisivos centrais, 2 laterais, 2 caninos e 4 molares, na maxilar e na mandíbula.
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em 10/6/2018, 14:16

- É, os dentistas terão mesmo que procurar outra profissão deste Outro Lado...
- Por este motivo, Inácio, é que eu estou entrando na sua área:
vocês, os médicos, que nos marginalizavam profissionalmente, vão ter que nos aguentar como concorrentes:
nós, os dentistas, depois da morte, haveremos todos psiquiatras – comentou Odilon, arrancando risos de Paulino.
O veículo que nos transportava diminuiu a velocidade e percebemos que estávamos atravessando uma área de turbulência.
- Estamos chegando! – exclamei.
- Pousaremos dentro de instantes – observou o Instrutor, correndo os olhos sobre os painéis da nave.
- Então, Odilon – quis voltar ao assunto que me chamara a atenção -, você acredita que os conceitos de estar ou não estar encarnado ou desencarnado necessitarão ser revistos?
- A palavra limita o pensamento e estreita a imaginação.
Inácio, a palavra carne, diante das descobertas da Física, está ultrapassada e expressando uma ideia equivocada, alimentando no cérebro humano uma ilusão, da qual o homem precisa se libertar.
O espírito é um ser energético por natureza e o seu corpo nada mais é que a sua própria exteriorização.
Morrer é um fenómeno transfiguratório – nada mais do que isto; a morte é uma dissociação de partículas que, uma vez separadas, provocam uma espécie de desintegração energética.
A cobra troca de pele, o pássaro muda de plumagem, a lagarta se transforma em borboleta, as árvores se livram das antigas folhas...
Por que somente o homem estaria impedido de se metamorfosear, “despindo-se” dos elementos gastos da parte mais externa do seu organismo?
Não havia mais tempo para alongarmos considerações.
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em 10/6/2018, 14:17

NO LIMIAR DO ABISMO 26
A cápsula pousou em lugar seguro e, assim que deixamos o seu interior, constatamos, de imediato, a diferença – a enorme diferença atmosférica e climática da região, contrastando com o ar puro e a temperatura ambiente que se mantinham inalteráveis dentro da nave.
Fenómeno interessante, que, sinceramente, eu não saberia explicar:
logo que a respiração se tornou mais difícil, os nossos corpos espirituais se adensaram e passamos a nos sentir mais pesados que o habitual.
Examinando o terreno, verificamos que a região, do ponto de vista topográfico, era do tipo vulcânica, coberta por extensa camada de poeira vermelho-acinzentada, que impedia a passagem dos raios do sol.
- Estamos – esclareceu Odilon – em pleno Umbral, o chamado Umbral Grosso, nas vizinhanças da Crosta e que a interpenetra em toda a sua extensão.
- Umbral Grosso? – perguntou Paulino, que transpirava abundantemente.
- Sim; o Umbral, em muitos pontos, se confunde com a Crosta:
daí dizermos que é sobre a superfície da Terra que ele começa...
- Quer dizer que os encarnados...
- De certa forma, vivem no Umbral, que não é, conforme se pensa, uma região alhures.
- Interpenetra o orbe?
- Em toda a sua extensão, em profundidade razoável, variando de acordo com a menor ou maior concentração de entidades que nele vivem.
- E abaixo, o que existe?
- Trevas mais densas e o que, genericamente, chamamos Abismo.
- São regiões habitadas?
- Como não? – respondeu o Mentor, sem ampliar considerações.
- Para onde nos dirigimos? – foi a minha vez de indagar, pois me sentia incomodado por aquele ar asfixiante.
Os meus pés parecem de chumbo; tenho a impressão de que bracejamos num mar feito de lama...
Que dificuldade!
- Tenha calma, Inácio!
Procure se movimentar sem aflição; logo, você se acostumará...
Sobretudo, não se deixe impressionar pela paisagem; conserve a mente liberta de influências de carácter negativo.
Embora estivéssemos percorrendo uma superfície mais ou menos plana, a sensação era a de que estávamos subindo um morro...
- Não há perigo de que sejamos identificados? – questionou Paulino.
- Não, pela maioria; os nossos corpos espirituais se adensaram e o ambiente escuro nos é favorável; não obstante, convém que nos mantenhamos cautelosos:
muitas entidades argutas dominam por aqui vastos territórios – territórios que disputam, entre si, com extrema violência...
- Entidades argutas e delinquentes, não é? – observei.
- Espíritos, Inácio, nossos irmãos, que vivem à margem da Lei, por ainda não terem despertado para a Verdade...
- Habituaram-se a viver aqui?
- Sim, e se movimentam com a maior facilidade; misturam-se aos encarnados e aos desencarnados e não querem se desalojar...
Aprenderam a viver por aqui e se consideram...
- Donos do pedaço! – exclamei.
- Tem de tudo o que necessitam? – perguntou Paulino, atendendo o Instrutor que nos solicitara diminuir o tom de voz.
- Menos, é claro, o essencial: a luz, a paz, o amor...
- Mas vivem alegres e felizes?
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em 10/6/2018, 14:17

- Felicidade é algo que desconhecem; quanto à alegria, é oriunda da insanidade...
Mal Odilon terminara de responder, avistamos um grupo de seis entidades ao redor de uma fogueira.
- Ajam com naturalidade – solicitou-nos -; eles já nos viram...
Continuemos a caminhar e, se formos interpelados, deixem que eu fale por nós...
Inácio, finja-se de mudo...
- Vai ser difícil – retruquei.
- ... e você, Paulino, faça-se de desentendido.
- O que vocês querem? – perguntou o líder, que me pareceu ter mais de dois metros de altura.
Estão perdidos?
Este território tem dono...
- Sim, estamos perdidos – respondeu Odilon -; estamos à procura de uma passagem que nos leve ao interior...
- Aqui já é interior...
Mais ainda? – ironizou o quase gigante, provocando gargalhadas nos companheiros.
E esses dois bobos, não dizem nada?...
- Não fale assim, Rubião – interveio uma mulher com o corpo quase à mostra -; o rapaz é interessante...
Está à venda? – perguntou, olhando sedutoramente para o Paulino.
Antes que a situação se complicasse, Odilon desconversou:
- Ambos já foram adquiridos:
são mercadorias que estou entregando...
- Quem são os felizardos? – tornou a feliz irmã.
- Os monges beneditinos.
Bastou que ouvisse referência aos monges beneditinos para que a mulher se contivesse e Rubião, cuspindo na fogueira, se acomodasse numa pedra.
- Eles irão trabalhar com livros: são hábeis com a escrita... Estamos procuramos o caminho para uma central do livro apócrifo, que existe nas imediações.
- Eu já ouvi falar – respondeu Rubião, blasfemando em seguida:
- Os monges! São terríveis e implacáveis...
Tomaram-nos o Lúcio, vocês se lembram? – disse, virando-se para os demais integrantes do grupo.
Aqueles pederastas!...
Andam com um crucifixo dependurado no peito e o Demónio nas costas...
Isto aqui seria bem melhor sem eles!
- Sigam adiante – falou um terceiro, que exibia uma enorme cicatriz de um lado ao outro da face -; a uns três quilómetros daqui, existe uma garganta para o interior da Terra...
- Vocês querem um pedaço de carne? – questionou Rubião, estendendo-nos uma fatia do animal que assavam na fogueira.
- Comam! É porco-espinho...
Desta vez tivemos sorte, porque quase sempre temos que nos contentar com ratos e lagartos...
Comam! Este aqui é bem grande...
- Não, não estamos com fome.
- Como ousam recusar um pedaço de carne das mãos de Rubião?
Vamos, provem...
Por acaso, são vegetarianos? – e gargalhava com o espeto na mão.
Este velhinho aí parece estar com vontade...
Erguendo-se dentre os outros, que permaneciam acocorados, a entidade caminhou na minha direcção e encostou em minhas narinas aquele naco de churrasco de porco-espinho.
Confesso-lhes que me senti de estômago dividido...
Há quanto tempo, meu Deus, eu não era tentado daquele jeito!
- Vamos, uma mordida só – insistia Rubião -; depois, vocês poderão passar...
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em 10/6/2018, 14:17

Antes que Odilon tomasse uma de suas inesperadas e sábias providências, confesso-lhes, meus amigos, que, mesmo depois de morto, a carne é fraca...
Pressionado pela entidade, fui para o sacrifício, com o intuito de poupar os dois amigos, que não acreditaram no que viram, quando abri a boca e... devorei um naco de carne assada na brasa!
- Agora – gritou o líder -, sumam daqui...
Não nos comprometam; não queremos nada com aquela corja de religiosos...
Mentirosos! Eles comem carne, e da melhor, e tomam vinho todos os dias. Sumam daqui!...
Eu não sei dizer-lhes o que, então, se passou:
assim que nos distanciamos uns trinta metros daquele grupo de nómades do Umbral, o meu estômago (Ah, o meu estômago!) e a minha cabeça e o meu intestino e não sei mais o que em mim – tudo, enfim, começou a rodar; um mal-estar indizível, que eu só me lembro de ter sentido igual no dia em que fizemos um churrasco no Sanatório e, sozinho, comi quase um cupim inteiro, assadinho com pimenta...
A impressão que tinha era que eu iria desencarnar de novo.
E comecei a vomitar, vomitar, vomitar...
Devo ter vomitado a alma, ou o espírito, sei lá!, inteiro.
Uma substância escura, feito borra de café, como se eu estivesse tendo uma hemorragia interna, era expelida aos golfões...
- Depressa, Paulino!
Precisamos de um pouco d’água – pediu Odilon -, tão pura quanto possível...
- Água, Dr. Odilon?
Onde consegui-la?...
Eu estava quase desfalecido, mas ouvi quando o Mentor disse:
- Aquela pedra redonda, meu filho; traga-a...
Deixando-me aos cuidados do Paulino, que me apoiava a cabeça, Odilon partiu a pedra que era oca por dentro e represava em seu interior pequena quantidade de linfa cristalina, que ele tratou rapidamente de magnetizar e servir-me aos goles.
- Beba, Inácio! Beba e respire devagar...
Depois, com a ponta dos dedos, à semelhança de conta-gotas, ele me fez escorrer três gotas d’água em cada narina e assim, aos poucos, fui-me recuperando: a cabeça parou de rodar, os vómitos cessaram a pulsação cardíaca se normalizou...
- Preciso ir ao sanitário – disse-lhes, tentando me colocar de pé.
- Sanitário, aqui?!... – reagiu, Paulino, tão surpreso quanto eu.
- Por favor – solicitei, afrouxando a calça -, afastem-se...
E, ali mesmo, sem qualquer escrúpulo, improvisei uma latrina.
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em 11/6/2018, 14:21

NO LIMIAR DO ABISMO 27
É possível que os nossos irmãos encarnados estejam, neste instante, questionando a veracidade das informações que lhes transmito ou, no mínimo, as estranhando, e, neste sentido, peço-lhes desculpas, se não tenho uma forma mais elegante e discreta de me referir ao episódio, que ainda hoje, quando dele me recordo, me provoca náuseas.
O meu intuito, evidentemente, não é o de escandalizar, mas, sim, o de mostrar quanto ainda prosseguimos humanos além da morte.
Demorei um tempo considerável para me recuperar, com Odilon e Paulino se desdobrando nos cuidados que passei a requisitar.
- Um simples e ingénuo pedaço de carne! – lamentei. – Será que estava contaminado por alguma bactéria??
- É possível, Inácio, - respondeu o Mentor -, e, depois, aquela fumaça que a impregnava!...
A fogueira em que o porco-espinho estava sendo assado foi acesa com detritos poluentes, isto tudo, é claro, sem levar em consideração a causa determinante.
- Qual?
- A natural rejeição do seu organismo espiritual, não mais afeito a alimentos dessa natureza.
- É, de facto – concordei -, de há muito a minha dieta se reduziu a água, sucos e caldos leves; por este motivo, não resisti à tentação... É uma pena!
- O que é uma pena, Doutor? – questionou Paulino.
- Que eu não possa mais sequer ingerir um pedaço de carne...
Morri em definitivo e preciso me conformar com a ideia.
Não tenho mais estômago para certos prazeres do mundo; agora, só na próxima encarnação...
- E, mesmo assim, se o senhor não renascer filho de pais vegetarianos....
- O que não será difícil – observei -, já que os adeptos de uma alimentação totalmente isenta de proteína animal estão aumentando dia-a-dia.
Eu não sei o que há de ser dos criadores de animais para o abate.
Esta, com certeza, não é uma boa notícia para os invernistas de Uberaba, que terão que mudar de ramo e transformar os seus latifúndios em pequenos sítios e chácaras, com árvores frutíferas, hortaliças...
- O comércio mundial de carne...
- Vai demorar um pouco, Paulino, mas irá quebrar, literalmente; como, por exemplo, o comércio de tabaco...
Quando o pessoal se conscientizar de que fumar provoca câncer, entre outras inúmeras patologias graves, os lobistas do cigarro, que ganham cifras inimagináveis, ficarão desempregados.
Respirando um pouco mais aliviado e quase pronto para reencetar a caminhada, aduzi:
- Não fossem as autoridades que se corrompem, nos quatro cantos do Planeta, diversos lobbies não teriam a força que têm.
Um exemplo?
O lobbie da indústria farmacêutica: qualquer medicamento está “pela hora da morte”, no duplo sentido, porque, infelizmente, muitos medicamentos são completamente inócuos, quando não se responsabilizam por um sem-número de reacções adversas...
Não estranhe o que eu vou lhe dizer:
com as excepções de praxe, os donos das indústrias farmacêuticas, cujos nomes permanecem no anonimato, chegam a se regozijar com as doenças que se cronificam.
- Como assim?
-Você já pensou em quanto rende um diabético, que a vida inteira é obrigado a tomar remédios – um hipertenso, um aidético, o portador de uma simples gastrite, um epiléptico?...
- Inácio – advertiu-me Odilon -, precisamos seguir.
- A cura definitiva de certas enfermidades interessa apenas aos que delas sofrem.
Este é o nosso mundo, Paulino, o mundo para o qual, sem dúvida, haveremos de voltar, não sei quando.
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em 11/6/2018, 14:21

- Inácio! – tornou a me chamar o Instrutor, em tom de repreensão.
- Não, Odilon, eu não estou falando demais, estou?
- Falando demais você não está, porém...
- Deixe-me, então, terminar o que comecei:
eu não consigo ficar com nada atravessado na garganta...
Eu assumo a responsabilidade.
O pessoal lá embaixo, Paulino – continuei -, o pessoal da indústria bélica, que envolve bilhões de dólares, fomenta a guerra em diversos países – eles precisam explodir as ogivas nucleares, utilizar os artefactos de destruição em massa, os mísseis, que também têm prazo de validade; os fabricantes de armas pesadas pressionam os governos em favor da guerra; ninguém fabrica bombas para simples armazenagem ou helicópteros, bombardeiros, tanques, submarinos atómicos, por puro diletantismo...
Há um serviço de espionagem na Terra, altamente remunerado, com o propósito de lançar um país contra outro; terroristas que são treinados...
- Como o caso daquele que destruiu, em Manhattan, as “torres gémeas”, o World Trade Center?
- Sim; ele foi treinado pelos norte-americanos....
- Que, agora, ofereceram uma recompensa por ele, vivo ou morto.
- E o lobbie das religiões? – acrescentei, esforçando-me para me colocar de pé, numa tentativa de que Odilon não me chamasse a atenção novamente.
O que, confesso, de nada adiantou.
- Inácio, carecemos de nos manter vigilantes...
- Eu sei, eu sei, mas ainda me encontro sob o efeito da carne que me intoxicou...
Não se preocupe; vou concluir.
Você acha, Paulino, que a Igreja, sendo uma instituição milenar, se interessa pela Verdade, que a constrangeria a mudanças radicais?
- Para ser sincero, não!
- Bastaria que ela admitisse a Reencarnação, para questionar os principais dogmas sobre os quais se fundamenta.
O que os Padres e os Bispos, os Cardeais e o Papa haveriam de fazer, e os leigos, que ganham dinheiro às custas de uma literatura religiosa, e os que vivem do comércio das artes sacras, se o Vaticano se visse obrigado a capitular, de um instante para outro, em suas velhas concepções?
Quanto dinheiro a Igreja de Roma movimenta no mundo todo!
É uma luta de interesses...
- Ao que estou sabendo – disse-me Paulino -, há um filme sobre A Vida do Cristo sendo exibido na Terra...
- Eu sei; está sendo acusado de anti-semítico, não é?
- Sim.
- Mas – permita-me dizê-lo -, segundo informações que possuo, o filme “A Paixão de Cristo” retracta a realidade:
foram mesmo os judeus que crucificaram Jesus!
Por que não assumir a culpa?
Fomos nós, foram, sim, eles, enfim, a Humanidade que O condenou à morte ignominiosa...
O Cristo ainda é o grande rejeitado pelos homens!
Enquanto, colectivamente, não nos penitenciarmos de nossos erros, não nos redimiremos.
Carecemos de ser honestos e reparar o histórico equívoco – o maior que cometemos desde a criação do mundo – de termos mandado o Filho de Deus para a cruz!
O problema é que não estamos querendo ver na tela cinematográfica, diante de nossos olhos, o que nos incomoda a consciência.
Jesus apanhou tanto e sofreu tantas torturas, que foi levado semimorto ao Calvário; todas as humilhações, possíveis e inimagináveis, lhe foram infligidas...
Pôncio Pilatos era, sim, um fraco, porque, na condição de Governador da Judeia, tinha amplos poderes para libertar o Mestre, mas, apesar de ter tentado por três vezes consecutivas influenciar a decisão dos judeus, preferiu lavar as mãos e se omitir.
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em 11/6/2018, 14:21

- Inácio, silêncio! – solicitou Odilon, preocupado com o vozerio que ecoava nas imediações.
Escondendo-nos detrás de grande rocha, vimos quatro monges que se aproximavam, conversando:
- Precisamos estender a nossa influência – falava um deles com os demais -; a Vida é uma constante luta pelo poder...
Não existe Céu, não existe Inferno; os nossos teólogos estavam enganados, mas numa coisa estavam com a razão: em qualquer parte do Universo, o forte subjuga o fraco...
Não podemos ceder em nossas concepções ou seremos escravizados.
Deus é a vontade da maioria que prevalece; somos as Leis da Natureza, que, por nós, se manifestam...
Depois da morte, não existe o mundo que pregávamos, mas... podemos criá-lo!
Vocês estão de acordo?
Tudo é uma questão de obediência àqueles que nos dirigem; não podemos nos desunir, sob pena de nos fragilizarmos, e dois mil anos estarão praticamente perdidos...
Somos imortais, viveremos para sempre; no entanto, procuremos viver como nos agrada e convém; quem não está do nosso lado é nosso adversário, quer nos submeter...
É simples: alguns mandam, outros obedecem; as coisas sempre foram assim e não vão mudar nunca...
Pertencemos a uma organização religiosa que tanto nós quanto aqueles que nos antecederam lutamos e ainda lutaremos para manter, ao longo dos séculos; não podemos permitir que quem chegou agora nos tome o lugar...
E é o que os nossos opositores pretendem, os que se intitulam evangélicos, espíritas...
Deus somos nós!
Onde é que está Jesus Cristo, que nunca vimos?
É uma ficção? Não importa.
Seja na Terra ou aqui, tudo é uma coisa só.
Precisamos valorizar o princípio da obediência:
os mais inteligentes e os mais fortes devem comandar...
Os nossos inimigos são os outros!
Que isto fique bem claro.
A Igreja de Roma não pode ruir; caso contrário, perderemos os nossos privilégios e nos transformaremos em serviçais.
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em 11/6/2018, 14:21

NO LIMIAR DO ABISMO 28
Atento ao diálogo que os monges tratavam entre si, olvidei completamente os sintomas remanescentes do súbito distúrbio que um naco de carne me causara.
Eu estava impressionado...
Os quatro beneditinos, detendo-se na marcha empreendida, prosseguia conversando rente à enorme pedra que nos escondia:
- Apoiado, apoiado! – redarguiu um deles. – Não podemos, de facto, ceder.
A troco de que, recuaríamos?
Acho, no entanto, extremamente difícil nos unirmos; infelizmente, estamos divididos...
Diversas ordens religiosas querem o poder com exclusividade.
Careceríamos de realizar um grande concílio...
- Segundo estou informado – retomou a palavra o primeiro -, está sendo feito um esforço muito grande neste sentido; os nossos superiores têm promovido sucessivos encontros e cogita-se da eleição de um líder...
- De um Papa?...
- Por que não?
Precisamos voltar a ser fortes, pois a nossa falta de unidade é que vem favorecendo o avanço de nossos adversários.
Seja como for, o Papa sempre foi um ponto de referência e, se a Igreja é uma instituição entre os Dois Planos da Vida, está passando da hora de melhor nos organizarmos.
- Alguém está sendo cogitado para tanto?
Algum que já tenha ocupado a dita cadeira de São Pedro?...
- Os pretendentes são inúmeros, mas a tendência é que seja eleito o Cardeal L.
- L.?!... questionou, espantado um terceiro.
Então, ele já se encontra nós?
- Sim; a sua política de dissidência ainda vem repercutindo...
Precisamos de um líder assim, que não se submeta a pressões e faça o que deve ser feito.
Os modernos teólogos têm se aproximado, perigosamente, de ideias que nos fragilizam e descaracterizam.
L. é ultraconservador e, com o seu carisma, poderá fazer com que voltemos a ser fortes e respeitados.
Nada de contemporizar...
Se necessário, reeditaremos a Idade Média.
Conforme sabemos, repito, não nos deparamos, deste Outro Lado, com a existência do Céu e do Inferno...
- Nem tampouco do Purgatório ou do Limbo – argumentou o menos experiente deles.
- Por conta disto, temos perdido muitos fiéis: milhares têm abandonado as nossas fileiras, aderindo a seitas ou a escolas filosóficas que se multiplicam, não por interesse à Verdade, mas à supremacia de suas ideias.
O que é a Verdade? Ninguém sabe.
Tenho para comigo que a Verdade é uma concepção dos mais inteligentes.
Como ia dizendo, o Céu e o Inferno, tanto quanto o Purgatório ou o Limbo podem vir a ser criados.
Os espíritas, por exemplo, talvez nossos mais ardilosos adversários, vêm criando um Mundo Espiritual à moda deles – tudo a partir da literatura e dos adeptos dessa heresia chamada Espiritismo, que é preciso ser combatida com maior veemência.
- A nossa literatura restringe-se à Terra – observou um dos quatro.
- Pois então!
E os espíritas, pelo menos no Brasil, vão colonizando o Espaço:
constroem cidades, fundam núcleos de trabalho, instituições próximas à Crosta...
- Influenciando o pensamento dos homens...
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em 11/6/2018, 14:21

- O pensamento-criador!
- Não podemos decepcionar os nossos seguidores.
- Este é o ponto central...
A Igreja cresceu e achou que podia parar.
Foi o nosso grande erro! Mas ainda há tempo de recuperar o terreno perdido:
os espíritas e os evangélicos são minoria...
Temos gente de sobra para enviar a eles, com o intuito de perturbá-los; aliás, a sua liderança encarnada já se encontra desnorteada...
- Desde que o “chefe” deles deixou o corpo...
- Chico Xavier!
- Eu não sei como o deixaram crescer tanto! – comentou um dos quatro.
- Foi um grande descuido...
- Para mim – observou o mais prolixo -, a culpa foi daquele Monsenhor...
- Scarzelli!
- Que ninguém sabe por onde anda, para submetê-lo à merecida e justa punição.
Ele não tomou qualquer providência...
O tal de Chico Xavier era um dos nossos!
- Muitos dos católicos passaram a ler livros espíritas e, em consequência, a mudar o pensamento a respeito da vida além da morte.
- E nós sofremos o reflexo...
- Sem dúvida, sem dúvida.
- Eu não sei se não estamos acordando tarde demais...
Os governos não se submetem mais ao Vaticano; a palavra do Papa não tem ecoado como outrora...
São ainda os nossos milhares de adeptos que representam milhares de votos, que impedem que a Igreja de Roma se desautorize em definitivo.
- O pessoal está imaginando que, do Lado de Cá, não temos força alguma e nada, absolutamente nada, representamos.
Os espíritas, por assim dizer, estão tomando de assalto o nosso Céu – apropriando-se do que é nosso!
Isto é um absurdo!
Por este motivo, temos grande confiança no Cardeal L. e seus assessores.
Precisamos enviar os nossos representantes ao Grande Conclave!
- Quando se dará o evento? – perguntou um dos beneditinos, alisando o cavanhaque.
- Antes de 2010, com certeza!
E esperamos que as decisões tomadas se reflictam sobre as decisões do novo Sumo Pontífice.
- O sucessor de João Paulo II?
- Ele mesmo, que, somente aqui entre nós, já deveria ter renunciado ou...
Do ponto de vista do conservadorismo e da ortodoxia, o seu pontificado – o mais longo da História – não foi de todo mau, mas foi o período de tempo durante o qual a Igreja, no que se refere ao número de seguidores, mais perdeu.
A nossa força, a bem da verdade, nunca esteve tanto em nossa doutrina...
As considerações daqueles quatro monges me deixaram boquiaberto.
Sinceramente, eu não sabia o que pensar.
Quando, lentamente, recomeçaram a seguir, ainda pude ouvi-los em seus sombrios argumentos:
- A vida é resultado do pensamento:
o que pensarmos se fará...
Os espíritas têm mobilizado grande força mental e, assim, vêm dando nome às nossas coisas...
- E fazendo “aparecer” coisas deste Lado...
- Não temos problemas dessa natureza na Europa, na América do Norte, na Ásia e em outras partes do mundo, mas no Brasil...
- Precisamos cuidar, precisamos cuidar – falou um dos quatro, gesticulando com violência.
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em 11/6/2018, 14:22

Se a guerra acontecer...
- Sim, é possível que o Papa venha a parar no Brasil, que ainda é uma das nações onde o Catolicismo predomina; como há de ser se, em seu provável futuro exílio, o Santo Padre encontre um povo dominado pela superstição?
Providências urgentes necessitam ser tomadas, pois, em meio a esse misticismo religioso do brasileiro – como se já não bastasse! -, alastra-se a erva daninha do Novo Pentecostalismo.
- Que, diga-se de passagem, está intentando seguir os passos na Igreja e...
Nos humilhando. Na actualidade, controla um partido político de projecção nacional, diversas emissoras de rádio e televisão, templos imensos e sumptuosíssimos, construídos ao lado de nossas capelas quase em ruínas...
- De um lado, os espíritas nos acossam com as suas concepções, oriundas de uma Doutrina pretensiosa, que se propõe unir Ciência, Filosofia e Religião; de outro, os evangélicos com o seu discurso de prosperidade e suas sessões públicas de exorcismo; enquanto temos um comparecimento de 100, 200 fiéis em nossos ofícios religiosos domingueiros, os evangélicos realizam dois, três ou mais cultos por dia, nos quais chegam a reunir milhares de pessoas.
- L. precisa começar a agir com mão-de-ferro e logo!
Então, o mais jovem dos monges beneditinos resolveu indagar:
- O senhor afirmou – disse, dirigindo-se ao mais falante – que Deus somos nós...
Tudo bem. Mas quem tomará conta do Inferno?
- Ora, irmão – respondeu com ironia -, se todo o problema da Igreja se resumisse em nomear alguém para exercer as funções de Satanás!
Acredite: haverá candidatos a granel, mais até se abríssemos vagas para que alguém fizesse, junto aos mortos e aos vivos, as vezes de Deus!...
Quanto a isto, não se preocupe.
Enquanto só quatro desapareciam numa curva da lúgubre estrada, olhei significativamente para Odilon e perguntei:
- Estarei sonhando?...
Paulino estava lívido e, meneando a cabeça, só conseguia murmurar:
- Não é possível!
Eu não creio no que acabei de ouvir...
Isto não existe.
- Imagine, meu filho, como os nossos irmãos encarnados receberiam tal informação! – pronunciou-se Odilon, com a serenidade de sempre.
- Receberiam, não, Odilon – aparteei -: se depender de mim, eles irão receber, e terão que digeri-la como eu, que tive que engolir um pedaço de porco-espinho assado...
Que asco, meu Deus!
Não posso nem me lembrar, que me dá vómito....
Eu nunca pensei que espírito pudesse ter enxaqueca!
- E dor de cabeça, Inácio, e dor de cabeça – redarguiu o Mentor, dando duplo significado às suas palavras.
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em 11/6/2018, 14:22

NO LIMIAR DO ABISMO 29
Esperamos um tempo e seguimos adiante, tomando como referência o rumo para onde aqueles quatro frades haviam se dirigido, certamente buscando uma das entradas para o interior da Terra.
Não tivemos que caminhar muito, pois, numa grande depressão do solo, deparamos com uma fenda da qual emanava mais forte calor e um mau cheiro quase insuportável.
- Você está bem, Inácio? – perguntou-me Odilon.
- Óptimo – respondi -; pronto para outra...
- Nem pensar – redarguiu o companheiro, franzindo o cenho.
Tenhamos a máxima cautela e, doravante, nos limitemos a conversar tão-somente o necessário.
- Trata-se de uma caverna, semelhante às que já conhecemos? – inquiriu Paulino.
- Fisicamente, sim, mas você constatará que cada passagem que nos conduz ao interior do orbe é ocupada por entidades de natureza diferente; é como se os iguais, ou semelhantes, naturalmente se reunissem e formassem uma comunidade.
Esta é a “caverna dos monges beneditinos”.
Firmemos o pensamento e procuremos estar vigilantes o tempo todo.
Assim que entramos, nos esgueirando, inicialmente, por estreitos e lúgubres corredores, tivemos a nítida impressão de que recuara no tempo: cruzes e tochas embebidas em resina, que penumbravam o ambiente, psiquicamente me retinham à época da chamada Idade das Trevas, quando o próprio sol parecia brilhar de modo mortiço no firmamento.
Diversas imagens de santos, a maioria danificadas, e quadros estranhos com figuras exóticas se abrigavam em nichos nas paredes, recobertar por velas derretidas.
Evitando provocar o menor ruído, começamos a escutar um rumor de vozes que aumentava, à medida que avançávamos.
- Do que se trata? – indaguei, baixinho, a Odilon.
- São monges recitando mantras.
- Mantras?
- Mantras das Trevas – redarguiu o companheiro, sem maiores explicações.
Descíamos sempre, o ar ia se tornando praticamente irrespirável e, a mim e ao Paulino, o calor fazia transpirar como em sauna.
Fiz questão de reparar que o Instrutor se mantinha impecável, sem o menor sinal exterior d estar sofrendo com a situação que tanto nos incomodava.
- Maior silêncio e vigilância agora – solicitou-nos.
O corredor, que se subdividia numa encruzilhada em diversos outros adiante, dava para um salão de dimensões razoáveis, onde (tive o capricho de contá-los) dezasseis monges encapuzados, em posição de lótus e com as mãos postas, coladas à altura do peito, murmuravam, de forma cadenciada e rítmica, palavras desconhecidas.
Todos estavam voltados para a mesma direcção, de costas para nós, com os olhos fixos numa saliência natural da rocha, concentrados em meia dúzia de fotos que se enfileiravam, uma ao lado da outra.
Reconhecendo praticamente todos os personagens ali representados, que fui, com crescente espanto, identificando um a um, em sua condição de médiuns a serviços da Causa Espírita – dentre eles, apenas Chico Xavier havia desencarnado -, não pude evitar a pergunta:
- O que estão fazendo?
- Orando... – respondeu Odilon, reticencioso.
- Orando?...
- Sim, inspirados nos propósitos inferiores que os arruínam...
Estão, Inácio, emitindo vibrações negativas, através da força mental em conjunto.
Como existem os que se reúnem para o bem, há os que se congregam para o mal.
Observemos – convidou o companheiro.
Em intervalos de, aproximadamente, quinze em quinze minutos, um dos monges interrompia a recitação dos mantras e, pronunciando o nome de um outro médium, cuja fotografia era a seguinte na ordem em que se encontravam expostas, exortava:
- Agora, pensemos em fulano de tal...
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em 11/6/2018, 14:22

Fixemos-lhe a imagem e dardejemos contra ele; trata-se de ferrenho adversário de nossas aspirações...
Nódulos de forças mentais, nódulos de forças mentais! – concitava-os.
Mentalizemos cada um dos órgãos de seu corpo, da cabeça aos pés, precisamos adoecê-lo...
Oremos, meus irmãos, com mais fé em nossa capacidade de influenciar.
Fulano de tal – repitam comigo – concitava-os.
E, após repetir o referido nome, em uníssono, por três vezes, os monges como que caíam em transe e, pondo-se a balançar para a frente, murmuravam:
- Huum... Huum... Huum... Huum... Huum....
Sem dificuldade, notei que, dos olhos, da boca e, principalmente, da fronte de cada um dos sinistros integrantes do grupo, partiam escuras emanações, à semelhança de raios que atingiam o “alvo” de maneira ininterrupta.
- Estão orando o “Terço das Trevas”! – balbuciei, horrorizado.
Por quanto tempo conseguem ficar assim?
- Por horas seguidas – esclareceu Odilon – e, quando se esgotam, são substituídos por outros.
O “bombardeio” não se interrompe...
- Meu Deus, a que nossos irmãos se expõem! Se eles soubessem...
- Haveriam, Inácio, de orar com maior frequência e não ofereciam tantas brechas aos adversários; criariam uma “couraça” protectora que, com certeza, os eximiria de muitos problemas espirituais e físicos, interferindo na sintonia com aqueles que desejam estabelecer, com os companheiros encarnados, um contacto mediúnico saudável e produtivo.
- Não poderíamos – questionei -, no sentido de socorrer os nossos cooperadores sob a mira das Trevas, organizar um movimento inverso, contrabalançando-lhes a acção?
- A nossa técnica, conforme você sabe, é diferente, os nossos irmãos não se encontram sem cobertura do nosso Plano, completamente à mercê das forças mentais negativas que se organizam com o intuito de prejudicá-los.
Ainda aqui, precisamos levar em conta a questão da sintonia, que, no fundo, não deixa de ser uma questão de preferência; até mesmo assimilando o que positivo ou negativo para si, os nossos irmãos estão no pleno exercício de suas faculdades...
O médium, primeiro, médium para si mesmo!
- Os companheiros das fotos são sempre os mesmos?- perguntou Paulino.
- É evidente que não; periodicamente, elas são substituídas por outras, de acordo, com o interesse momentâneo dos monges.
Estou impressionado....
E logram o seu intento:? – tornou o jovem amigo.
- Ainda que não completamente, muitas vezes sim.
Infelizmente, são muitos os que, por invigilância prolongada, consentem que esses “nódulos” de forças mentais se lhes instalem no corpo espiritual, passando a vampirizá-los.
Diversas patologias de origem psicossomática, difíceis de serem erradicadas, podem, então, se instalar.
Efectuando pequeno intervalo, Odilon continuou:
- O único que sempre está na “lista negra” dos monges é Chico Xavier; o seu nome nunca sai do foco das vibrações negativas dos adversários de nossa Causa.
- Embora já desencarnado?... – insistiu Paulino.
- Não importa; de uma maneira ou de outra, eles não perdem a esperança de atingi-lo – se jamais lograram lhe alcançar o espírito nobre, que não se lhes mostrou vulnerável aos propósitos inferiores, em nenhum lance de sua abençoada trajectória no mundo, não desistem de pelejar para que a sua obra mediúnica caia no esquecimento ou de suscitar escândalos que lhe envolvam a personalidade.
- Estes nossos irmãos – perguntei – praticam o que poderíamos chamar de obsessão a distância?
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em 11/6/2018, 14:22

- São especialistas na área – elucidou o Mentor -; é promovida uma triagem entre os de maior capacidade de mentalização e, evidentemente, entre os que se mostram mais arraigados ao sentimento de ódio, inimigos incondicionais da Doutrina.
Ao fundo, a litania dos monges prosseguia, nos incomodando os ouvidos:
- Huum... Huum... Huum... Huum... Huum...
Nova pausa.
- Vibremos, agora, contra sicrano – ordenava a entidade de olhos mais penetrantes e encovados -; ele nos tem sido grande estorvo...
Tornemo-lo hipocondríaco; mentalizemos várias doenças para ele: câncer, AIDS, neuroses, estados depressivos...
Não nos esqueçamos de que o medo é uma grande alma contra ele.
Vibremos para que nódulos de forças mentais se lhe instalem na mente e nas regiões dos chacras, principalmente do coronário, do frontal e do gástrico...
Vibremos com toda a nossa capacidade contra o sicrano, que está prestes a sucumbir.
Vibremos!
O estranho ritual era, sem exagero, de causar pavor; eu jamais soubera de uma coisa daquelas e, só de imaginar que, um dia, o meu retrato, quando encarnado, pudesse, talvez, ter estado ali naquele altar ou em outro semelhante, senti um frio me percorrer a espinha. Se, por exemplo, uma única vibração negativa de alguém que connosco não simpatiza pode, não raro, ter uma influência nefasta sobre nós, escancarando caminhos de consequências espirituais imprevisíveis, expondo-nos, quando no corpo, a tantas dificuldades, então, que poder não se concentraria numa colecção de pensamentos infelizes a dardejar de maneira ininterrupta, nos elegendo por vítimas?...
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em 11/6/2018, 14:22

NO LIMIAR DO ABISMO 30
Afastamo-nos dali, continuando a percorrer os corredores daquela tétrica caverna que albergava tantas actividades espirituais clandestinas.
Sinceramente, repito, eu estava pasmo.
- Não se impressione tanto, Inácio – comentou Odilon -; você sabe que essas coisas existem até mesmo na Terra, nos rituais da chamada magia negra...
- Eu sei, Odilon, eu sei – respondi -, mas eu nunca havia presenciado algo semelhante; de vez em vez, nos surpreendíamos, à porta do Sanatório, que dá para uma encruzilhada, com despachos e fetiches que, com certeza, eram endereçados a algum interno, funcionário ou mesmo a mim; no entanto, comparados ao que vi, era coisa de amador...
Eu estava pensando, Dr. Odilon - interveio Paulino com propriedade -, no facto de os nossos irmãos médiuns muito raramente se preocuparem em orar uns pelos outros; geralmente...
- Geralmente, meu filho – emendei -, quando não assumem uma postura de completa indiferença em relação aos companheiros, vibram negativamente...
- Inácio, não generalizemos – ponderou o Mentor.
- Não o estou fazendo, Odilon, mas é a pura verdade; a gente tem a impressão, vendo o que acabamos de ver, de que os maus ou os ignorantes agem com mais convicção do que os bons ou que o supõem ser.
Faço, inclusive, uma autocrítica, porque, em nossas sessões mediúnicas, raramente nos lembrávamos de orar por um companheiro em dificuldade:
no máximo, pronunciávamos o seu nome, que deixávamos escrito numa tira de papel sobre a mesa, entregando o caso à vontade dos Benfeitores...
- A observação de Paulino merece, de nossa parte, maiores considerações.
Em verdade, os nossos irmãos encarnados, a serviço da Causa que nos é comum, deveriam cultivar o hábito sistemático da prece, permutando vibrações de paz, encorajamento, saúde, alegria...
Não há médium que consiga seguir adiante no cumprimento do dever, se ele não cultivar o hábito da oração quotidiana e não contar com o apoio das preces daqueles nos quais consiga despertar alguma simpatia.
Referimo-nos aos médiuns, mas, por extensão, a todo tarefeiro espírita bem intencionado, que encontra inúmeros obstáculos no que se propõe realizar.
O Evangelho ainda conta muitos inimigos na Terra e, sem desejar fazer alarme, a pressão psíquica que as entidades infelizes exercem sobre os nossos confrades dedicados à difusão das ideias espíritas entre os homens é muito grande.
Seria, pois, de relevante importância que os nossos companheiros, combatendo em si inclinações negativas, como, por exemplo, o ciúme, a inveja e o personalismo exacerbado, adquirissem o costume de vibrar positivamente uns pelos outros, torcendo pelo seu bom desempenho nas actividades doutrinárias que abraçaram.
- Todavia, Odilon, sejamos francos, é raro que nos deparemos com um espírita tendo semelhante grandeza de alma...
Na actualidade (reafirmo o que digo nas páginas que tenho tido oportunidade de escrever, transformando-as em livros), é o império da desunião, da disputa velada, dos conflitos de opinião, de escusos interesses em jogo...
Muita gente interpreta que eu esteja a criticar o Movimento, com o intuito de demoli-lo, ou a censurar os confrades, com o intuito de desestimulá-los; a intenção que me move é completamente diferente, e lamento os que me julgam interpretando as minhas palavras e colocações de maneira literal...
O que pretendo é despertar ou, para empregar um termo mais actual, provocar, a fim de que os nossos irmãos se libertem do jugo opressor da mesmice, do marasmo imperceptível a que se rendem, individualizando-se em excesso, sem se integrarem no todo de que fazem parte.
- Dr. Inácio – confortou-me Paulino -, eu não sou ninguém para dizer isto ao senhor, mas noto que muitos espíritas, quando se dispõem a interpretar o que lhes escrevemos, se apegam à letra da informação muito mais que os nossos irmãos protestantes se apegam à letra das Sagradas Escrituras:
revelam-se incapazes de nos destacar a intenção construtiva ou, no caso específico do senhor, a forma descontraída e alegre...
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em 12/6/2018, 13:35

- São ortodoxos demais, meu filho.
O Espiritismo, sem dúvida, é uma doutrina séria, mas não podemos ser excessivamente formais em nossa lida com a Verdade, mesmo porque, embora mortos, não deixamos de ser humanos.
Em meu primeiro livro escrito depois de morto, “Sob as Cinzas do Tempo”, eu me refiro diversas vezes ao meu antigo hábito de fumar; pois bem:
segundo soube, houve alguém que teve o capricho e a paciência de contar o número de vezes em que eu fiz menção ao tabaco, para chegar à conclusão de que não sou um Espírito Superior...
Ora, para tanto, ele não precisaria ter se dado a tão estafante trabalho; eu, Inácio Ferreira, não passo de espírito comum e não sei até quando terei que repetir isto...
Agora, uma coisa faço questão de deixar claro:
muitos espíritas, ao deixarem a velha carcaça, se surpreenderão – não com o Mundo Espiritual ou com o que possam facear além da morte, mas, sim, consigo próprios, que, de um instante para o outro, se sentirão constrangidos a reformular ultrapassados conceitos.
E não estou rogando praga em ninguém...
Paulino e Odilon sorriram, e prossegui:
- Faço votos para todos cheguem por aqui em melhores condições do que eu e, quem sabe, sob os seus ombros recurvados alguém esteja a esconder asas de anjo, não é? Tudo é possível.
Mas, para ser sincero para comigo mesmo, vou lhes dizer: eu quero distância de espírita moralista – quanto mais longe melhor; a conviver com eles, eu escolho o Umbral...
Esse pessoal enquadrado, ou quadrado, não sei, ao chegar deste Outro Lado...
- Inácio – advertiu-me o Mentor -, cuidado com o que você vai dizer...
- Não, Odilon, eu não vou dizer nada demais...
Chega desse Outro Lado – prossegui – e... “solta a franga”.
- Inácio!...
- É um dito popular; não estou cometendo nenhum despautério.
Esses padres de antigamente e esses que se impõem uma disciplina militar, parecendo viver de continência, quando fogem do raio de observação do povo, pelo qual se sentem policiados, mostram-se como são.
Esses homens excessivamente machistas, quase todos – deixemos aqui uma válvula de escape para um ou outro – reencarnarão mulheres e...
Mulheres parideiras, rodeadas de filhos catarrentos, a limpar as narinas nos vestidos rodados delas.
O espírita, via de regra, imagina que os seus privilégios começarão assim que botar a ponta do nariz ou do queixo para fora do túmulo.
Esqueçam. E um conselho eu lhes dou:
se os espíritas puderem se reconhecer vivos depois da morte, olhem em torno de si e agarrem, com ambas as mãos, a primeira chance de trabalho que tiverem, nem que seja a de arrancar mato...
Nada de esperar serem conduzidos pelo Dr. Bezerra de Menezes nos braços ou por Eurípedes Barsanulfo a guiá-los entre as sombras do caminho.
Estou errado, Odilon?
Ante o silêncio do amigo, continuei:
- Essa história de ter sido médium 40, 50 anos, de ter feito inúmeras palestras, de ter escrito dezenas de livros ou artigos em jornais e revistas, de nunca ter perdido a pose...
Isto, sem verdadeira bondade no coração, pouco significa. O Mundo Espiritual está repleto de espírita engomadinho, com “o Livro dos Espíritos” debaixo do braço e mais nada.
– “Eu defendo Kardec!... – bradam.
Defendi a pureza doutrinária!...
Combati com veemência os opositores da Fé Raciocinada; Desmistifiquei médiuns e evangelizei espíritos obsessores...
Fui um fiel guardião de nossos princípios!...”
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em 12/6/2018, 13:36

Coitados! Se não amaram o bastante, se não praticaram a caridade, se não limparam feridas, se não vigiaram o verbo leviano, se jamais empunharam uma vassoura, se não lavaram latrinas, se não limparam vómito, irão, com toda a sua empáfia, para o beleléu!...
Ah!, Eu já ia me esquecendo de colocar na lista: se nunca se dignaram de pegar uma pequena pá para catar as fezes de um gato ou de um cão, promovendo a higiene do local profanado...
Permutando tais impressões, não vimos quando, enveredando por um corredor, em que morcegos tiravam rasantes sobre as nossas cabeças, chegamos a uma espécie de abertura maior com cinco ou seis mesas repletas de papéis.
- É aqui, Inácio – disse-me Odilon -, que funciona um dos departamentos da central do livro apócrifo.
- Eu fazia ideia de algo mais complexo – comentei.
- Para se fazer o bem ou o mal, não há necessidade de muito, mesmo porque o pouco, quando se refere ao bem ou ao mal, tem a propriedade de se multiplicar. Permaneçamos atentos e observemos.
Em cada mesa, de 3 a 4 entidades trabalhavam, compenetradas, escrevendo com penas de ganso, à luz de velas que ardiam sobre candeeiros.
Dois espíritos circulavam, em silêncio, inspeccionando o serviço e fazendo sugestões aos monges escreventes.
De quando em quando, um dos instrutores estacava e fazia um lembrete em voz alta:
- Sejam subtis...
Os espíritas tudo analisam sobre o prisma da Razão; procurem escrever para as massas...
Nada de livros excessivamente técnicos, que quase ninguém lê.
As duas melhores obras serão escolhidas e... premiadas.
- Escolhidas! – exclamei.
Escolhidas para quê?
- Para serem transmitidas, sob a chancela da mediunidade, aos nossos irmãos encarnados, semeando-se à feição de joio em meio ao trigo...
- Abordem assuntos polémicos com discrição – lembrava o outro instrutor que, à minha análise, pelo seu jeito vacilante de caminhar entre as mesas, dispostas em semicírculo, era cego.
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em 12/6/2018, 13:36

NO LIMIAR DO ABISMO 31
Durante, aproximadamente, quarenta minutos, observamos, sem maiores comentários, o que se passava na denominada central do livro apócrifo, naquele departamento da Vida Espiritual, situado numa das regiões subcrostais que concentrava múltiplas actividades contra a Doutrina, a cargo de uma facção dos monges beneditinos.
Eu já me sentia algo impaciente, de permanecer ali, imóvel, naquela atmosfera sufocante e lúgubre, quando um dos instrutores anunciou:
- Faremos, agora, a costumeira pausa para a refeição.
Deixem tudo como está. Retornaremos dentro uma hora e meia...
Procurem não se atrasar, porquanto os nossos superiores têm pressa de analisar a produção literária obtida; o momento é propício à disseminação de obras que, confundindo o pensamento da maioria, sejam favoráveis às ideias que defendemos.
Uma hora e meia!
Não se atrasem ou serão eliminados.
As entidades, revelando visível desgaste intelectual, pelo esforço empreendido, retiraram-se do ensombreado recinto em que escreviam, inclusive os dois instrutores que lhes inspeccionavam o trabalho e, assim, com a devida cautela, pudemos nos aproximar, examinando os manuscritos.
- Procuremos não tocar em nada – advertiu-nos Odilon Por sobre uma das mesas onde me chamara a atenção a celeridade com que redigia um dos religiosos, pude ler, de maneira sucinta, as seguintes anotações de um capítulo:
-“O Espiritismo, infelizmente, é uma doutrina que, tendo surgido promissora com Allan Kardec, o Codificador, jaz ultrapassada em muitos de seus fundamentos; vários conceitos necessitam ser revistos com urgência, em face do vertiginoso progresso científico de nossos dias...
“O Livro dos Médiuns” é uma das obras do chamado Pentateuco, que carece de ser refundida, e (A génese”, que nos parece uma colcha de retalhos de assuntos sem unidade, deveria ser toda reescrita.
“O Evangelho Segundo o Espiritismo” é, por sua vez, uma obra arcaica, de conteúdo extremamente singelo, que se transformou numa cartilha de orações para as almas simplórias que a manuseiam; em suas páginas, com o devido respeito que nos merece, o seu autor deixa evidente o propósito de sobrepor o Espiritismo, no que tange à interpretação dos textos evangélicos às demais crenças cristãs.”
O que eu estava lendo era um comentário à margem de um romance cujo tema central era a Reencarnação; na urdidura da trama, aparentemente ingénua, capaz de levar às lágrimas os que acompanhassem aquela história comovente, críticas veladas ao tríplice aspecto da Doutrina despontavam nos lábios de um ou outro personagem.
- “Como é cruel a tese da Reencarnação, Júlia, defendida pelos espíritas! – dizia Ariel à sua amada.
Você já imaginou por quanto tempo haveremos de permanecer separados?!
Um século, dois?!...
Quando destino decidirá promover o nosso reencontro?
Ah! Minha querida, prefiro acreditar que, depois desta vida de amarguras, nos uniremos para sempre.
O nosso amor pode mais – repetia o jovem com dificuldade, agonizando no leito, vítima de tuberculose.
– Não – prosseguia com a voz trémula e entrecortada -, não chore; não acredite no que os seus pais lhe disseram, com o intuito de confortá-la...
A gente só vive uma vez e é para sempre!
Como poderíamos nos perder um do outro?
O que fizemos para merecer semelhante desdita?
A Reencarnação contradiz a si mesma.
Eu já ouvi muitos espíritas falarem na existência de almas gémeas, no que chamam de Teoria das Metades Eternas...
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em 12/6/2018, 13:36

Não chore mais, minha querida:
breve nos reencontraremos – eu a amo, você me ama e... é somente o que importa.
Não se deixe influenciar por ideias que nos retiram do coração toda a esperança...”
Eu me sentia tentado a continuar lendo aquelas páginas, no entanto Odilon havia nos recomendado a não tirar coisa alguma do lugar, de modo a não suscitarmos qualquer suspeita com relação à nossa presença.
Com discreto aceno de mão, o Mentor solicitou que Paulino e eu nos aproximássemos de outra mesa.
- Vejam.
- Livros de Chico Xavier! – Exclamei, basbaque.
-Este aqui – disse referindo-se ao monge que se ausentara para o almoço – me parece especialista em plagiar; comparem os textos...
- Incrível! A ideia é a mesma, o assunto é o mesmo...
- Apenas a abordagem é diferente – completou Paulino, constatando a cópia -:
a abordagem e o vocabulário...
- Mas – perguntei -, qual a intenção?
O conteúdo pouco diverge...
- Espalhar a dúvida e a descrença – respondeu Odilon -; colocar em xeque a autenticidade mediúnica e levantar suspeitas...
- Será possível que algum médium se disponha a tanto? – questionou Paulino, obtendo o silêncio do Instrutor como resposta.
Passando a uma terceira mesa, nos deparamos com literatura de natureza infantil.
- Não é possível!
Até as crianças!...
O monge, exímio desenhista, criava uma história em quadrinhos, em que os protagonistas principais, uma mosca e uma abelha, dialogavam entre si:
- “Não me condene – dizia a mosca, lacrimosa -, por eu ter nascido assim...
Que culpa posso ter?
Eu não pude escolher...
Fui criada como sou.
Deus não é justo!”
- Atentem para a subtileza da argumentação – recomendou o companheiro.
- “Os homens me perseguem e querem me ver extinta...
Quanto a você, Abelha, que é associada à beleza das flores, é tida por muito útil.
Eu contamino; você nutre...
Eu habito detritos; você, a colmeia...
Onde está a justiça de Deus? Por que somos assim tão diferentes?
Não, eu tenho mil razões para não acreditar em nada!...”
Os argumentos com que a abelha procurava contestar a mosca eram, propositadamente, extremamente frágeis e ingénuos:
- “Pois é, D. Mosca - falava com displicência -, cada um tem uma sorte...
Quem sabe, um dia, a senhora será uma Abelha, uma Abelha-Rainha como eu ou, pelo menos, uma eficiente operária.
A reencarnação está aí, não é?, para os homens e para nós.”
- “Eu não sei, eu não sei – redarguia a Mosca, desolada.
Eu só queria saber o que me fez diferente de você, no princípio – eis a questão que me martiriza.
Tudo, segundo creio, é um simples arranjo genético e... pronto.
A vida é isto!...”
- meu Deus! – Exclamei, tomado de espanto.
Não podemos permitir que este livro seja publicado; a mente que o está concebendo é diabólica!...
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Ave sem Ninho

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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em 12/6/2018, 13:36

Vamos rasgá-lo...
- Acalme-se, Inácio – reagiu o Mentor -, de nada nos adiantará simplesmente destruí-los...
Os nossos médiuns e editores é que necessitam estar vigilantes.
- E os pais também! – concluí.
- Sem dúvida.
Escolher um livro é como se escolher um alimento!
Quase uma hora havia se passado e nos restavam poucos minutos.
- Vejamos o material que contém mais uma das mesas – chamou-nos o companheiro para a que ficava em um dos extremos do semicírculo.
Após rápida análise, observei:
- Material de auto-ajuda, superficial e, o que é pior, sem compromisso com o Evangelho.
Frases esparsas de efeito imediato, dirigidas ao inconsciente.
- Quase tudo aqui, Inácio – retrucou Odilon – é dirigido ao inconsciente, apelos indirectos ao materialismo.
Em tom discreto, comecei a ler para Paulino, sem me descuidar de qualquer ruído nos corredores.
- “Faça o bem, mas faça-o, primeiro, a si; depois aos outros.
Se você ainda não é um anjo, não se repreenda por suas atitudes humanas.
Vá devagar – a evolução acontecerá naturalmente...
Disse-nos o Senhor que é impossível edificar sobre a areia.
Desfrute do que a Vida lhe oferece e aprenda com a experiência.
Ninguém é virtuoso por imposição.
O espírita é um espírito a caminho...
Não pretenda ser o que você ainda não é e, portanto, não tem a obrigação de ser.
Não crie traumas insuperáveis nem confunda prazer com alegria.
Todos, na Terra, têm direito à felicidade.
O imoral está em sua cabeça e não naquilo que delibere fazer.”
- Cada frase é de dúbia interpretação – sussurrou-me Paulino.
- Isto, meu filho, é veneno puro, psicologia altamente nociva às mentes incautas...
- Inácio, Paulino, precisamos nos afastar – advertiu-nos Odilon, percebendo movimentação em um dos túneis que conduzia à ampla câmara em que nos encontrávamos.
Depressa, saiamos pelo corredor mais escuro; antes de nos retirarmos, ainda quero que vocês observem algo...
Os nossos irmãos espíritas encarnados, efectivamente, não sabem com o que se encontram lidando.
Da entrada do túnel, espiei para trás e vi os frades retomando os seus lugares, escutando a recomendação dos instrutores:
- Precisamos terminar logo.
Os nossos superiores têm pressa...
Há muitas mentes receptivas no mundo, à nossa disposição.
A mediunidade está proliferando e fugindo ao controle; médiuns têm se rebelado contra a orientação da Doutrina que professam...
No momento, tudo parece nos favorecer.
Ambição, personalismo, notoriedade, dinheiro...
O “daí da graça” ficou esquecido.
Trabalhem com afinco e serão regiamente recompensados, trabalhem!
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em 12/6/2018, 13:36

NO LIMIAR DO ABISMO 32
Enveredando por um dos muitos túneis que ligavam inúmeras câmaras entre si, como se aquela imensa caverna fosse uma pirâmide soterrada, caminhamos longo trecho praticamente às escuras.
Após atravessarmos câmaras de dimensões menores, que estavam vazias, percorremos um túnel mais estreito, que nos obrigava a inclinar a cabeça para baixo, com o intuito de não encostá-la no tecto – a impressão que eu tinha era a de que o corredor, naturalmente esculpido na rocha, se afunilava, à medida em que descíamos em fila indiana, Odilon à frente e Paulino entre nós dois.
- Estamos descendo mais? – perguntei.
- Sim – respondeu o Mentor, esclarecendo -; mas não se preocupem, logo chegaremos a uma ampla abertura, onde, periodicamente, os monges costumam se reunir com os seus líderes.
- Os monges que trabalham nesta oficina do Mal?- inquiri, quase sem respiração, extremamente incomodado pela atmosfera sufocante.
- Os nossos irmãos, Inácio, temporariamente distanciados do Bem – corrigiu-me Odilon, com a delicadeza de sempre.
- Não teriam um local mais apropriado para tanto? – continuei, em tom de resmungo.
Por que tem que se esconder tanto assim?...
- Onde é que costumamos nos ocultar de nós mesmos, Inácio? - perguntou-me o companheiro.
- Nas profundezas da alma!...
É lá ou é aqui, não sei – disse, batendo com a destra sobre o peito -, que nos escondemos à voz da consciência – pelo menos, tentamos, não é?, nos escaninhos do ser...
- Quem teme a claridade se refugia na escuridão: quanto mais pode, mais se aparta da luz...
Só não teme se expor quem vive de consciência tranquila.
- Mas poderiam, pelo menos – argumentei com um muxoxo -, construir um mosteiro mais acessível.
O ambiente aqui é simplesmente irrespirável, e o mau cheiro então...
Eu não sei como é que você está conseguindo enxergar!
- Estamos perto, Inácio; tenha um pouco mais de paciência...
- Você é mesmo engraçado, meu amigo – comentei, provocando discreto sorriso em Paulino, que nada dizia.
Eu estou quase rastejando como um lagarto e você me pede paciência...
E como faremos para voltar?
Se descer está sendo tão penoso...
- Para voltar, encontraremos outra passagem; a questão é que, para descermos, por aqui é mais seguro.
Estes túneis estão repletos de monges...
- E se nos descobrirem?
- Vamos esperar que tal não aconteça, pois...
- Pois?...
- ... se, porventura, acontecer, estaremos em maus lençóis! – gracejou o companheiro que, para mim, tinha perdido a capacidade de se irritar diante de qualquer situação, por pior que fosse.
Mas tranquilize-se; tudo terminará sem maiores problemas...
Eu não saberia calcular quantos metros ou quilómetros nos havíamos aprofundado abaixo da superfície do solo, naquela região de sombras espessas, na intimidade do orbe.
- Façamos silêncio – pediu-nos Odilon; estamos chegando...
Depois da próxima curva, teremos claridade artificial.
- Artificial?... – indaguei, baixinho, sem obter resposta.
De facto, logo em seguida à acentuada curva em caracol, que quase me deixou zonzo, avistamos alguns reflexos em tom avermelhado.
- Algumas tochas são mantidas acesas, explicou o Benfeitor.
Movimentem-se com cautela; adiante existe enorme precipício...
Fiquei, literalmente, abismado, com o espectáculo que se desdobrou aos meus olhos, apreciando aquela tétrica beleza.
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Ave sem Ninho

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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em 12/6/2018, 13:37

- Aqui é o reduto do líder desta comunidade.
- Quem é ele? – perguntou Paulino, antecipando-me.
- Lêmur! – respondeu Odilon.
- Lêmur?!... – estranhou o jovem amigo.
- Celestino!...
Então, é ele? – indaguei, admirando a sumptuosidade daquela câmara, cujas paredes de pedra me pareciam recobertas por um musgo vermelho-aveludado, como se o recinto tivesse sido caprichosamente decorado com motivos demoníacos.
- Vejam-no, naquela elevação do piso – apontou o Mentor, com a devida discrição -, de joelhos diante daquele nicho, em atitude de oração...
Atentemos para as suas palavras que ecoam.
- Eu não consigo entender – reclamei.
- Ele está se pronunciando em latim, Inácio...
Procure escutar, mas não com os ouvidos:
escute-o com o seu espírito!
Aquele fenómeno, desde que desencarnara, ainda não havia ocorrido comigo.
Obedecendo à orientação de Odilon, cerrei os olhos e me coloquei em mais profunda sintonia:
eu continuava escutando em Latim, mas os “meus olhos liam” em Português, as palavras ditas por ele começavam a formar frases inteligentes em meu cérebro...
- “Príncipe das Trevas – dizia, em exortação insana -, inspirai-nos...
Mostrai-me a vossa face, para que eu melhor vos sirva!
Creio na vossa existência, pois que, em vós, tudo se consome...
A Criação nada mais é que um imenso sorvedouro!
A dor é a vossa acção sobre todas as criaturas...
Poupai-nos, no entanto, de sofrer – a nós, que vos juramos servir com lealdade.
A cada dia, o vosso império se estende por todo o Universo e a vossa vontade sempre prevalece.
Inútil o esforço de quantos ousam se vos impor, em nome de um carpinteiro que fizestes morrer na cruz!
Desde então, reinais soberano na Terra e humilhais, sucessivamente, os que vos desafiam o poder...
Mostrai-me a vossa face, para que eu melhor vos sirva!... “
E se inclinava, repetidamente, como se estivesse ocultando os pés de uma entidade imaginária...
Bem, não tão imaginária assim, pois que do estranho e vazio altar incrustado na rocha, relâmpagos avermelhados explodiam e quase tomavam forma, como se a indefinida face do Mal intentasse se materializar.
De súbito, em ímpetos de cólera, Celestino se ergueu, frustrado, e começou a gritar como se fosse uma fera:
- Mostrai-me a vossa face, para que eu melhor vos sirva!...
Por que, por que não vos dignais de me mostrar o rosto?!...
Por quê, porquê?!...
Desferindo golpes no ar, blasfemava em altos brados, pronunciando termos chulos que não me é lícito reproduzir.
Seria uma crise de demência, na loucura que se lhe cronificara no espírito?
Lêmur, ou Celestino, adquiria, então, proporções gigantescas:
os seus membros, braços e pernas, distendiam-se assustadoramente, o seu tórax se alargava, orelhas afiladas e olhos injectados de sangue, ele era, sob aquela capa negra, a figura ou o personagem que evocava em sua prece macabra.
Ele, aos poucos, se transfigurava na Entidade que existência fictícia projectava como sendo real, fora de si!...
- O Mal é sempre uma exteriorização de nós mesmos – lamentou Odilon -, consequência de nossas mazelas, de nossa rebeldia e da nossa falta de iniciativa em promover, no íntimo, as mudanças necessárias.
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em 12/6/2018, 13:37

O espírito, quanto mais avança em intelectualidade e menos progride moralmente, mais dificuldade encontra para amar; tornando-se extremamente difícil admitir os próprios erros e predispor-se à indispensável renovação.
Em casos assim, sem a misericordiosa intervenção da Lei Divina, a ignorância se perpetuaria no espírito e, de facto, acabaria originando entidades demoníacas que se cresceriam em poder e domínio...
- Em poder e domínio! – exclamei. – Como assim?...
- Os espíritos altamente intelectualizados são detentores de certos conhecimentos das Leis que regem os princípios da Vida – não sabem e nunca saberão tudo, porque o conhecimento do Amor é o natural complemento da Sabedoria.
Incapazes de amar, sempre se reconhecerão limitados, todavia apenas os que já lograram desenvolver o sentimento conseguirão se lhes sobrepor no domínio das forças da Natureza.
Caminhando de um lado para outro, Celestino agora gritava, repetidas vezes, esmurrando as paredes da grande caverna que elegera por palácio:
- Osório! Osório!...
Até você, Osório, me abandonou?!...
Quem o terá sequestrado de mim?
Onde está, que não mais me atende ao chamado?
Quem terá isolado a sua mente da minha?!...
- Permaneçam aqui – ordenou-nos Odilon.
- Não se arrisque - atrevi-me a aconselhar o amigo, adivinhando-lhe o intento.
- Conservem-se de pensamento vigilante:
tentarei dialogar com o nosso irmão...
Quem sabe, é a oportunidade de lançarmos novas sementes no terreno árido de seu espírito.
Nada é por acaso.
Não viríamos aqui por mera curiosidade, numa excursão aventureira.
Algo de útil estamos sendo chamados a fazer, em nome do Senhor.
Eu vou descer...
Sem que eu soubesse como, o Mentor em rápido movimento, venceu a considerável altura entre a abóboda e o piso da caverna e, assim que tocou suavemente o solo, chamou o tresloucado monge pelo nome:
- Irmão Celestino!...
- Você?! – redarguiu, contendo-se a custo em sua ira, ao identificá-lo.
Como se atreve a invadir a minha privacidade?!...
Responda-me, cão insolente!...
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em 12/6/2018, 13:37

NO LIMIAR DO ABISMO 33
Observei que, se pudesse, Celestino teria avançado contra Odilon e o agredido, todavia, rodeado por branda aura de luz dourada, que criava em torno de si uma espécie de campo magnético, o Instrutor o constrangia a manter-se a relativa distância.
- Não se contentou em interferir em meus planos – você com tais amigos seus?...
Veio desafiar-me em meu próprio reduto?
Pretende, acaso, a minha desmoralização?
Apague essa luz que o protege e você verá do que sou capaz.
Covarde! Não fique assim, me olhando desse jeito.
Venha para as vias de facto...
Boçal! Tolo! Pretensioso!...
Impassível, diante do monge que se transfigurara de forma descomunal, Odilon, em sua estatura menor, dava-me a impressão de que era Davi emergindo das páginas bíblicas, enfrentando de novo Golias, o gigante filisteu.
Em atitude íntima de prece, permanecia calado, sem sair do lugar, recebendo as agressões verbais que lhe eram feitas.
- Vamos, reaja – prosseguia Celestino, desafiador -: você não é homem?...
Creio que não, não é?
Certamente, não lhe corre uma gota de sangue nas veias...
Você é um frouxo. Saia daqui!
Afaste-se de minha casa!
Não me perturbe com a sua presença...
Eu o esganarei com uma só de minhas mãos!
Venha, venha para a penumbra!...
- Irmão Celestino – tentava argumentar Odilon -, aqui estou em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo....
- Que Jesus Cristo coisa alguma!...
De há muito, deixei de crer nessa mentira.
E não me chame “irmão”, pois não o sou!
Tudo não passa de uma armação pela conquista do poder; a Vida é uma luta, em que os mais fortes subjugam os fracos, nada mais do que isto.
Não pretenda me convencer do contrário!
Vocês optam pela luz, nós optamos pelas trevas; vocês pelo que chamam de Bem, e nós pelo que rotulam de Mal...
Puro convencionalismo!
Nós simplesmente nos defendemos da ambição de vocês, adeptos de um louco que morreu como merecia morrer – na cruz, sem que o Deus que ele pregava à multidão viesse socorrê-lo!
Ora, que Pai é esse que abandona o Filho às mãos de seus adversários?!...
Estamos no Universo, sem saber o porquê!
Não há voz que responda a uma única de nossas perquirições!...
Você não possui argumentos para demover-me das ideias que me inspiram as atitudes...
Erguendo as mãos na direcção de Odilon, o monge o esconjurava e, de seus olhos, partiam chispas que, ao alcançarem o escudo protector de seu campo magnético, se transformavam em cinzas.
Celestino, ou Lêmur, extremamente enfurecido, andava em círculos, à semelhança de um predador à espreita de um ponto vulnerável para desferir em sua vítima o ataque fatal.
- Deixa-me agarrá-lo e, então, veremos se esse seu Jesus aparece para salvá-lo...
Eu o manterei aqui, em minha companhia, cativo para todo o sempre – e gargalhava totalmente ensandecido.
Você e eu não passamos de dois vermes iguais:
a diferença é que um prefere rastejar à noite, e outro à luz do dia!...
Nascemos do mesmo parto que nos infelicita para a Eternidade; fomos gerados pelo mesmo ventre que nos expeliu para o sofrimento...
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Re: O LIMIAR DO ABISMO - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em 12/6/2018, 13:37

Que lhe importa, pois, a minha dor ou que me importa a sua?
Onde está Osório?...
Vocês o tiraram de mim...
Há semanas, rastreio, em vão, o seu pensamento.
Temos planos juntos...
Não se intrometa, canalha!
Bandido! Apague essa luz e tenha coragem de me deixar aproximar...
- A claridade que você enxerga em mim, Celestino, é reflexo da oração:
ela não me pertence!
Quem sou eu, senão um obscuro servo do Senhor, a Luz do Mundo?!
Concordo: eu e você somos, sim, iguais, filhos do mesmo Pai que nos criou para a felicidade eterna; portanto, somos irmãos!...
Tivemos o mesmo princípio e caminhamos para a mesma destinação.
A estrada é repleta de atalhos perigosos, nos quais, tantas vezes nos equivocamos...
- E, responda-me, quem os terá criado – os perigosos atalhos aos quais você se refere?
Eu?... Você?...
Ora, não faça cena de humildade...
Poupe-me. Não menospreze a minha sagacidade, nem faça pouco da minha inteligência.
Vocês têm neurose de Deus!
Será que não percebem a coragem do caos por Lei acima das demais?
Tudo tende à destruição, à morte, ao nada...
Desde que surge no berço, o homem está fadado a gemer e a chorar!
Qual é a duração da alegria?
O prazer, que vocês tanto condenam, pelo menos é uma sensação renovável.
Melhor assim...
O que antecede o prazer é prazer também e, depois, a expectativa de mais prazer é gozo infindo.
- Só o verdadeiro Amor nos proporciona inalterável sensação de plenitude!
- Eu sabia: você tem um sofisma para contestar tudo...
Palavras, palavras, palavras!...
Elas não prevalecem contra a realidade.
Temos a lógica a nosso favor.
Façam uma enquete...
Fui religioso durante séculos e nunca presenciei um milagre sequer, nunca experimentei um estado de arrebatamento espiritual, nunca convivi com um santo; é a Igreja que os cria, os teólogos...
A Religião se baseia numa grande mentira!
Que seja, então, como querem.
Não há quem viva sem algo que o motive à ambição.
- Celestino, não analise as coisas apenas pelo seu ângulo de visão...
Não distorça a Verdade, em benefício próprio.
Você sabe, meu irmão, que não é assim.
“No princípio, criou Deus os céus e a Terra.
A Terra, porém, era sem forma e vazia; havia trevas sobre a face do abismo, e o Espírito de Deus pairava sobre as águas.
Disse Deus: Haja luz; e houve luz”!
É inegável a marcha do progresso e o aperfeiçoamento da Humanidade....
Quase dois mil anos se passaram, desde que o Mestre nos legou inesquecíveis lições!
Não somos nós que os oprimimos ou lhes retiramos espaço:
é a força mesma das coisas!...
Assim como o verme, que rasteja no subsolo, desconhece os propósitos do Sol, no firmamento, quem somos para questionar os Desígnios do Criador?
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