Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

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Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 27, 2018 9:50 am

Por amor ao ideal
Carlos A. Baccelli

Inácio Ferreira.

Verso
Reminiscências das lutas do abnegado médico espírita Dr. Inácio Ferreira, estas páginas de leitura envolvente, através da psicografia do médium Carlos A. Baccelli, relatam os desafios e incompreensões naturais que padecem aqueles que não se esmorecem e se decidem a servir em nome do Bem, no cumprimento do dever que abraçaram exclusivamente “Por amor ao Ideal”.
Exemplos frisantes, além do presente valioso repositório de vivência e actividade caridosas no Plano Espiritual, intitulado “Na Próxima Dimensão", assistido pelo experiente e consagrado confrade e amigo Dr. Odilon Fernandes, bem como pelos acima citados companheiros.
Este livro foi ditado ao psicógrafo uberabense Carlos António Baccelli, também logo psicófano de "Sob as Cinzas do Tempo" e “Do Outro Lado do Espelho”, ambos da lavra do mesmo escritor.
Outrossim, a seu crédito inalienável, importa mencionar a criação pelo Dr. Inácio
Ferreira do “Lar Espírita", inaugurado em 1°. de maio de 1949 - instituição fraterna de amparo e educação para meninas desvalidas, com a participação dos integrantes; da tínião da Mocidade Espírita de Uberaba, da qual é benemérito Departamento.

Fausto De Vito
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 27, 2018 9:50 am

INÁCIO FERREIRA
O Dr. Inácio Ferreira de Oliveira nasceu em Uberaba (MG), em 15 de abril de 1904, filho do Sr. Jacinto Ferreira de Oliveira e de D. Maria Lucas de Oliveira e casado com D. Aparecida Valicenti Ferreira, vindo a e ele a desencarnar em 27 de setembro de 1988, na própria cidade natal, aos 84 anos de profícua existência.
Médico formado pela Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro, clinicando em Uberaba, tornou-se espírita após observar, com sincera intenção de pesquisa e zelo profissional, os diferentes fatos neuro psíquicos relacionados com os enfermos internados no Sanatório Espírita de Uberaba, de que passaria a Director-Clínico por mais de 50 anos, e verificou a eficácia da Terapia Espírita para a cura de distúrbios mentais e/ou obsessivos.
Por amor ao ideal
Capítulo singelo das reminiscências de nossas lutas em prol do ideal espírita, quando ainda mourejávamos no corpo de carne, este livro nada além pretende senão encorajar os companheiros que permanecem à frente do combate, que ainda se trava na Terra, pela definitiva vitória do Bem contra o Mal.
Embora presentemente fora do corpo, de quando em quando nos colocámos a reflectir nas proveitosas experiências que o Espiritismo nos possibilitou vivenciar na condição de seus adeptos, nas abençoadas lides do Sanatório Espírita de Uberaba, que, por assim dizer, durante décadas, polarizou as atenções de encarnados e desencarnados, qual acontecia com inúmeras outras instituições espalhadas pelo Brasil, pioneiras no serviço da causa do Evangelho Redivivo entre os homens.
Esclarecemos que, escrita por nós em volumes anteriores que já vieram a lume, esta obra não sofre qualquer retoque, com o propósito de actualização ou mesmo com a preocupação de sequenciá-la às demais, e outras que, com o tempo, possivelmente haverão de ser publicadas todas transmitidas via mediúnica pelo amigo que se dedica a nos ceder um pouco de seu tempo e boa vontade, na consecução do projecto que nos é comum.
É evidente que todo escritor, esteja ele encarnado ou não, lança mão de certos recursos literários, a fim de que a inspiração e os fatos se enriqueçam, tornando-se mais agradáveis à leitura e, em consequência, à própria assimilação. Todavia a verdade aqui comparece como ela sempre foi e continuará sendo, sem que nos afastemos um só milímetro do nosso compromisso com ela, o que, por certo, se acontecesse, invalidaria todo o nosso trabalho.
Agradecendo a Jesus e aos Bons Espíritos que nos tutelaram, em mais esta empreitada entre os Dois Mundos, continuamos a rogar que os obstáculos e, por vezes, as incompreensões não nos esmoreçam, no cumprimento do dever que abraçamos exclusivamente por amor ao Ideal!

Inácio Ferreira
Uberaba (MG), 31 de janeiro de 2005.
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 27, 2018 9:50 am

1º Capítulo - O paciente
Lembro-me de que a campainha tocou e fui atender à porta.
Um lindo gato siamês saltou de cima da mesa e acompanhou-me ronronando.
Era uma quarta-feira, dia de sessão mediúnica no Sanatório, dia em que, mais que nos outros, os espíritos costumavam ficar agitados...
— Pois não disse, estendendo a mão ao desconhecido, um vistoso senhor de pouco mais de quarenta anos de idade.
— Dr. Inácio Ferreira?..,
Sim, sou eu mesmo respondi.
— Vamos entrar. Não repare na desordem...
Alguns dos meus livros estavam esparramados e vários recortes antigos de jornais haviam sido lançados ao chão pelo vento; é que eu procurava encontrar um escrito de Ernesto Bozzano, transcrito de uma revista italiana artigo que versava sobre a influência subtil dos desencarnados sobre os homens.
— Doutor, vim para uma consulta.
Sei que, além de médico, o senhor é espírita...
Estou cansado desta vida!...
— Eu também respondi, emendando a queixa do meu anónimo paciente daquela tarde.
Olhando-me, curioso, ele continuou:
—A minha existência é medíocre...
Não sirvo para nada.
Viver para mim tem se resumido em amargura.
Não me falta dinheiro.
O problema é o vazio que sinto...
Não tenho alegria.
Fui casado, mas a minha esposa não me suportou.
Tive ímpetos de desarmá-lo com uma ou outra observação hilária, como, aliás, era do meu feitio, no entanto o seu estado de espírito não me deixou à vontade; de facto, grande mágoa transparecia de suas palavras...
Cessei de tentar colocar os papéis sobre a mesa em ordem e, reclinando na cadeira, pus-me a ouvir com maior atenção.
— Não sei se o meu caso é de remédio ou de internação.
Já fui a outros especialistas, colegas do senhor.
Desculpe-me, mas não me convenceram; ficaram com o meu dinheiro, e nada!
Achei-os mais medíocres do que eu.
O senhor está me parecendo um homem mais despojado: ainda nem mencionou o preço da consulta...
— Continue, meu caro, sem dispersar - observei.
Falaremos depois quanto ao preço da consulta.
— Tenho pensado seriamente em colocar um fim na minha vida; vivo sem qualquer objectivo...
A rotina cotidiana me cansa sobremodo.
Trabalhar para quê?
Se a morte, mais cedo ou mais tarde, me espera, melhor que eu não a deixe esperando tanto...
Se Deus existe, não sei para que nos criou para a dor e para o desencanto?
Aspiro ao descanso eterno...
Tomar consciência das coisas significa sofrer.
Tudo que percebo à minha volta me desagrada.
Já me falaram em depressão...
Seria depressão constatar a realidade?
Para tudo e todos, nós, os homens, criamos rótulos:
“Este é louco, aquele é esquizofrénico, outro é dominado por ideias compulsivas”...
Quem dirige o mundo?
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 27, 2018 9:50 am

Quem brinca connosco de maneira tão cruel?
Aquele meu inesperado paciente não era igual aos demais:
argumentava bem, e, de início, tive a impressão de que uma mente invisível e poderosa o inspirava...
Outrora, eu também já reflectia de maneira semelhante, antes que o conhecimento espírita me iluminasse o escuro da alma.
Coisa curiosa: eu me sentia, diante daquele senhor, como se estivesse me defrontando comigo mesmo, com um pedaço esquecido de mim...
Inútil que tentemos fugir de nós, pois, quando o fazemos, a vida nos manda alguém com a nossa própria face interior.
Saindo daqueles rápidos devaneios, cedi de novo os meus ouvidos aos lamentos do paciente, que não parou de falar:
— Estou me sentindo totalmente sem ânimo...
Dizem que a vida continua, porém onde estão as provas?
Afirmam que Jesus ressuscitou, mas eu não estava lá para conferir...
Acreditar em mentiras e basear-me nelas para viver?
As evidências são as de que a morte do corpo é o termo da caminhada; nada antes ou depois do túmulo...
É o mínimo de coerência que posso ter.
De mim, nunca saiu nada de bom; nada descobri, nada inventei...
Sou mais um na multidão dos inúteis.
Para dizer a verdade ao senhor, Doutor, nem sexo me dá prazer; o orgasmo é um instante só acabou, acabou...
O homem é insaciável...
Todo dia, a gente faz a mesma coisa e... envelhecendo.
De repente, um câncer e mais sofrimento; quem tem sorte morre logo, quem não tem, padece nas mãos dos outros...
Tomando fôlego, concluiu, atormentado, com lágrimas que sequer ousavam lhe saltar para fora das órbitas:
— Vim até aqui para que o senhor me ajude a viver ou a morrer, não importa.
— Você está colocando, meu caro, uma grande responsabilidade nos meus ombros comecei, sem saber por onde dar sequência ao diálogo.
Sou médico, mas não tenho todas as respostas...
As suas incertezas, segundo creio, não deixam de ser as incertezas da Humanidade; você está simplesmente dizendo o que os outros silenciam...
— Inclusive o senhor.
— Sim, em parte sim: inclusive eu.
O que é que nós sabemos da Verdade Absoluta?
Questionado a respeito dela, o Cristo não se manifestou.
Você está pensando apenas em sobrevivência física, não levando em conta a sobrevivência moral.
Os alicerces da civilização repousam sobre poucos ombros...
Sob os rastros dos criminosos, dos violentos e dos cépticos, existe apenas destruição.
Uma força espiritual que emana dos mártires e dos heróis é que sustenta a Humanidade e continua inspirando o homem ao Bem.
Paira no ar algo além da matéria...
Você fala em comprovação científica da sobrevivência, todavia a Ciência apenas engatinha.
Quase nada se sabe do corpo, como se saber mais a respeito do espírito?
Se você não tem consigo a chave que lhe descerre as portas do autoconhecimento, eu é que não as possuo no meu chaveiro...
Eu não sou Deus, para dizer quem você é.
Os meus cabelos brancos e as minhas rugas falam da minha incessante busca.
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 27, 2018 9:50 am

Eu sei que está lá, não exactamente onde, mas eu sei que está aí, à minha frente, não à minha retaguarda...
Devo, portanto, caminhar, avançando, nem que seja um insignificante centímetro.
— Agradeço a sua sinceridade observou o aflito senhor.
Ao tomar a iniciativa de procurá-lo, eu não esperava outra coisa, pois, com excepção dos padres e dos católicos mais fanatizados, a cidade inteira fala bem do senhor...
Estive me confessando por várias vezes, mas, infelizmente, nenhum sacerdote teve paciência de escutar as minhas queixas:
interrompiam-me no meio da confissão e ameaçavam-me com o Inferno...
Quanta tolice! Como são vazios e frios!
Mais frios e vazios que as estátuas dos santos nos altares...
— Neste ponto, estamos de acordo atalhei, recordando as inúmeras perseguições que, por parte da Igreja, em Uberaba, eu sofrera ao longo do tempo.
— Sou de família tradicionalmente católica...
— Eu também.
— Como o senhor foi se tornar espírita? - questionou-me o paciente, um tanto mais descontraído.
— Fazendo-me as indagações que o senhor se tem feito respondi sem evasivas.
— E obteve no Espiritismo o que desejava?
— Tudo, para ser sincero, ainda não; estou efectuando descobertas gradativas...
O homem primitivo não poderia saber o que sabemos hoje para o homem do futuro, seremos criaturas das cavernas...
Daqui, por exemplo, a cem anos, tudo estará mudado, concorda?
— Concordo, desde que não seja necessariamente para melhor.
Vejo que os progressos da Ciência não têm espiritualizado o homem...
— Mas o têm obrigado a pensar, aumentando em sua cabeça os pontos de interrogação, e isto lhe é altamente benéfico.
— Benéfico?! O abismo?!...
— Toda distância, por mais incomensurável, é obstáculo a ser transposto.
Quanto menor a criatura se sentir, maior será a sua concepção do Criador.
—O problema, então, é de orgulho?...
— Basicamente.
— O senhor está me chamando de orgulhoso?
— Estou p respondi, olhando-o firmemente nos olhos.
— Não estou entendendo...
— É... O orgulhoso quase nada entende além de se sentir como se fosse o centro do Sistema Solar.
— O senhor não está me consolando...
— Você não me procurou para isto.
Às vezes, a verdade dita a nosso respeito pode nos ajudar mais do que o carinho daqueles que contemporizam com os nossos erros.
— Isto é uma técnica, não é? - conjecturou, evidenciando consigo estranha patologia obsessiva.
O senhor está querendo me ganhar, não é?
Por ser psiquiatra, acha que é mais inteligente do que eu.
Para mim, o quadro clínico do indeciso senhor começava a tomar um diferente contorno, mais complexo do que me pareceu à primeira vista.
— Não argumentei não se trata, meu filho, de nenhuma técnica...
— Eu não sou seu filho redarguiu.
—Aliás, eu não sou filho de ninguém; não sei quem foi meu pai e Deus certamente não é...
Estou vivendo como o senhor:
inteiramente à mercê dos acontecimentos.
A vida é frágil e nada se explica.
Crianças morrem todos os dias e velhos inúteis estão mofando em seus quartos lúgubres...
O paciente revelava impressionantes estados de personalidade alterada.
Sinceramente, eu não sabia com quantos estava dialogando; ele, inclusive, chegava a se transfigurar...
Percebi que tanto eu quanto ele, em determinados lances da consulta, nos contínhamos para que não nos agredíssemos.
Havia uma ironia de parte a parte...
Mais de uma hora se escoara.
O torturado homem enfiou a mão no bolso, depositou algumas notas sobre a mesa e saiu, induzindo-me apensar que não voltaria.
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 27, 2018 9:50 am

2º Capitulo - Perseguição Espiritual
Cheguei ao Sanatório Espírita de Uberaba e, logo à entrada, me encontrei com nossa irmã D. Maria Modesto Cravo, companheira de ideal a quem, de fato, tanto fiquei devendo, em minha última romagem no corpo.
— Olá! saudei-a como de costume, estendendo a mão em cumprimento, percebendo, no entanto, que a médium de excelentes recursos não estava em um de seus melhores dias.
A senhora me parece preocupada - ajuntei.
—Alguma coisa de grave?...
— Não, Inácio — respondeu-me —, está tudo bem.
Não se preocupe.
Médium é assim mesmo; às vezes, captamos uma influência espiritual que nem nós sabemos definir...
Estou um pouco deprimida, mais sinto que a depressão não é minha.
Angústia, vontade de chorar e, ao mesmo tempo desculpe-me a expressão mandar tudo às favas.
— Dia de reunião mediúnica é assim comentei, procurando deixá-la mais à vontade -, os desencarnados ficam alvoroçados.
Por isso eu vivo comentando com os outros integrantes do nosso grupo acerca da necessidade de maior vigilância, principalmente na quarta-feira.
Tudo conspira contra...
— É, sei como é prosseguiu D. Modesta no diálogo que se desenrolou.
Em dia de reunião de desobsessão, eu já me ergo diferente da cama:
desde cedo, os espíritos parecem desejar sintonia connosco, os médiuns...
Um mundo de sensações estranhas e ideias diferentes na cabeça.
De um lado, os Protectores pretendendo nos auxiliar e, de outro, os que buscam nos entravar.
Ainda há pouco, antes de sair de casa, o ferro de passar roupas deu um estouro e tivemos um princípio de incêndio; como se não bastasse, quando eu estava no portão, um casal de amigos apareceu gente de fora querendo conversar comigo.
Infelizmente, estando em cima da hora, não pude dar-lhes a atenção devida.
Expliquei o motivo da minha pressa, mas não sei se compreenderam.
— Eu deixo tudo, Modesta, deixo até a casa aberta...
Veja você: temos a semana inteira para
— A semana inteira e todos os dias inteiros da semana...
— Compromisso é compromisso.
Por tal motivo é que somos rotulados de fanáticos.
É verdade que não vamos deixar filhos pequenos sozinhos (graças a Deus, creio que este é um dos motivos porque não os tenho) ou familiares que, doentes, estejam sob a nossa responsabilidade, mas também não vamos nos permitir embaraçar por causa de uma dor de cabeça.
— Confesso a você, Inácio, que existem dias em que começo a cumprir com as minhas tarefas domésticas com lentidão de propósito, como se algo estivesse me impedindo de vir.
Observo os ponteiros do relógio com frequência, procurando uma justificativa razoável para não comparecer à reunião...
— Uma espécie de ludíbrio da consciência, não é?
— Isto! Não quero faltar, mas quero, entendeu?...
— Comigo também às vezes ocorre assim; se eu não tivesse a responsabilidade de dirigir a reunião...
— Sem falar das dúvidas que nos assaltam.
Por exemplo explicou D. Modesta -, durante o trajecto até o Sanatório, os pensamentos que hoje me ocuparam a cabeça foram os seguintes:
— “O que é que você está indo fazer?
Tudo é criação de sua mente; não engane a si mesma por mais tempo...
Ninguém possui evidências de que a vida prossegue além da morte.
Uma mulher inteligente como você, dando espectáculo para uma plateia de loucos...
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 27, 2018 9:51 am

Recue enquanto é tempo.
O Espiritismo para a maioria é um meio de vida.
Allan Kardec foi um espertalhão:
arruinado financeiramente, imaginou uma fonte de lucros”...
— Que coisa pavorosa! - exclamei.
E eu, que pensava que você estivesse imune...
— Imune, Inácio? Eu?!...
O próprio Cristo não padeceu tentações no deserto?
Não creio que o tão controvertido episódio narrado pelos evangelistas Mateus e Marcos seja mera figura de retórica.
Tenho comigo que os espíritos das trevas tentaram mesmo fazê-lo desistir...
Não existem nuvens escuras que ousam obscurecer a face do Sol?
— Se o médium não tiver firmeza...
— É Firmeza e discernimento.
— E retaguarda espiritual...
— Conseguida com base na lei do mérito.
0 médium que não se dedica à caridade, que fica tão-somente à espera da teoria, imaginando que o contacto espiritual com os considerados mortos lhe é suficiente, não se segura de pé...
— Roda e roda bonito! acrescentei em voz alta, para que o pequeno grupo que agora se formara à nossa volta pudesse ouvir.
— Ser médium não é tudo e nem mesmo o suficiente continuou D. Modesta de maneira brilhante.
Quando os nossos Benfeitores se afastam, ao retornarmos do transe, nos observamos a sós, entregues à nossa própria realidade existencial.
A luta íntima é intransferível.
Os nossos Maiores não nos observam de braços cruzados, mas não nos podem substituir na experiência que nos compete adquirir.
Verifiquei o relógio e lamentei que o tempo escasso não nos permitisse prosseguir com o interessante diálogo.
— Vamos? - convidei. — Está na hora.
Nem que estejamos aos pedaços, o dever nos espera.
Demos início à sessão mediúnica com sentida prece sendo proferida por Manoel Roberto, o devotado companheiro de tantas lides no Sanatório e na Doutrina.
Naquela noite, no entanto, nenhum espírito logrou conversar connosco, não havendo, por assim dizer, nenhuma comunicação mais proveitosa.
Apenas D. Modesta, oferecendo passividade, permitiu que, por seu intermédio, uma entidade gargalhasse com sarcasmo praticamente o tempo todo.
Por mais que eu instasse com ela, não se dignou de dizer uma palavra; gargalhava e olhava para mim, como se estivesse a me desafiar...
Quando a reunião terminou, indo à cozinha para um café, Manoel Roberto falou comigo:
— Tive a impressão, Doutor, de que aquele espírito que ria o tempo todo estava provocando o senhor.
A meu ver, não se trata propriamente de uma entidade em estado de demência...
— Senti o mesmo, Manoel - comentei.
Não são apenas os inimigos encarnados do Espiritismo que nos ridicularizam; estou habituado a isto...
Por onde caminho pelas ruas de Uberaba, sinto que está alguém rindo às minhas costas.
D. Modesta se aproximou e, observando que o assunto girava em torno da única manifestação que obtivéramos na noite, esclareceu:
— Vocês sabem:
sempre fica com o médium mais daquilo que o espírito pôde ou não quis transmitir...
Se ele nada disse entre nós, pude escutar o que pensava, e a coisa é realmente com você, Inácio.
Trata-se de um homem inteligente, de um cérebro maquiavélico, por assim dizer...
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 27, 2018 9:51 am

É um destruidor de crenças.
Quando a nossa irmã assim se referiu à anónima entidade, de imediato o meu pensamento se ligou à figura daquele aflito senhor que estivera consultando comigo naquela tarde e, só então, me dei conta que, pela vez primeira, consultara um paciente sem lhe perguntar o nome.
Um esquecimento deveras imperdoável que, repito, jamais ocorrera comigo.
Contei rapidamente a D. Modesta e a Manoel Roberto o diálogo que mantivera com o
estranho paciente em minha casa, inclusive o facto de lhe desconhecer a identidade.
— Tome cuidado, Inácio! - advertiu-me nossa irmã, sempre zelosa e atenta.
As trevas possuem instrumentos para toda espécie de serviço.
— Mas será que já não chega a luta que temos travado contra os padres?...
— Os que lutam connosco, por fora não são nada; poucos são os que vêm lutar connosco por dentro de nós...
— É, Doutor disse Manoel Roberto, preocupado estamos atravessando dias difíceis; eu também venho experimentando um grande desalento...
Talvez estejamos sendo alvos de espíritos que queiram nos fazer perder a fé.
Ultimamente confesso -, mal tenho conseguido cumprir com os meus deveres espirituais; ando me irritando com facilidade e sem paciência com os internos...
Aquele estado d’alma do companheiro era preocupante.
Manoel Roberto, sem dúvida, em matéria de tolerância, estava muito acima de mim e da própria D. Modesta.
Não raro, era ele que me tranquilizava o ânimo quando sentia ímpetos de despedir um funcionário ou explodir com a família de um paciente.
Se já atravessáramos várias crises no Sanatório, aquela estava sendo mais uma pensei.
A noite avançava.
Entrei no carro e tomei o rumo de casa, procurando não dar importância àquilo tudo.
Ao chegar, após guardar o veículo na garagem, fui à cozinha e abri duas latas de sardinha para meu gato siamês e a namorada que ele arranjara nas vizinhanças.
Ainda em teimosa fidelidade à tabacaria, acendi um cigarro, descalcei os sapatos e pus chinelos nos pés.
Revirando os papéis sobre a mesa, deparei-me, então, com o recorte de jornal que, à tarde, estivera procurando, sem encontrar, um artigo de Ernesto Bozzano sobre agéneres, que eu estava com ideia de mencionar em uma de minhas palavras e transcrever parcialmente em “A Flama Espírita”.
Kardec se referira aos agéneres na Codificação, mas, com certeza, não tivera tempo para um estudo mais detalhado.
Segundo inúmeros pesquisadores, os agéneres existiam, ou seja, espíritos que, em determinadas circunstâncias, conseguem se tangibilizar por um tempo mais longo, chegando a ser confundidos com seres encarnados; seria, digamos, uma materialização objectiva, sustentada sem a presença de um médium específico...
Li, reli o artigo do célebre metapsiquista italiano e, vencido pelo cansaço, subi as escadas e fui para o quarto.
O sono, sem dúvida, é uma bênção; se não desligássemos a tomada de quando em quando, os nossos neurónios entrariam em curto...
Fechei os olhos e desejei que, naquela noite, eu não me afastasse do corpo em desdobramento.
De corpo e alma, eu queria simplesmente dormir.
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 27, 2018 9:51 am

3º Capítulo - Inspiração
Como de hábito, levantei-me antes que os pardais começassem a chilrear, provocando a sanha dos gatos que saíam para a caça.
Sentindo me um tanto mais disposto, organizei, mentalmente, a agenda do dia, tomei um rápido café que minha mãe me servira e fui para o escritório tentar esboçar um artigo para “A Flama Espírita”.
Sentando-me à escrivaninha, acendi um cigarro e pus-me a pensar no tema a ser desenvolvido, sem, todavia, que inspiração alguma me acudisse ao cérebro.
Àquela altura de minha vida, eu já não estava mais para polémica; os padres haviam se calado de lá e eu estava silenciando de cá...
Sempre funcionei muito bem diante de qualquer provocação.
Confesso-lhes que isto me fazia falta à criatividade...
Durante mais de meia hora, esperei, em vão, que um tema se destacasse entre os demais, merecendo uma abordagem literária.
Que nada! A minha cabeça, naquela
manhã, se mostrava completamente vazia e fora de qualquer sintonia.
Num átimo, comecei a imaginar a dificuldade dos médiuns, mormente os de psicografia, para estabelecer contacto com o mundo subjectivo.
Com todo o meu acervo de conhecimentos, eu não estava conseguindo sequer grafar uma linha...
Acendi outro enganoso cigarro e, observando a fumaça que voluteava no ar, por instantes tive a impressão de que uma face se desenhara nela.
Sem explicar o mecanismo do fenómeno e mesmo, naquela hora, sem dar a ele o devido valor, lembrei-me das gargalhadas sarcásticas do espírito que, por intermédio de D. Modesta, se apresentara na reunião de desobsessão do Sanatório.
O telefone tocou.
Era Manoel Roberto, perguntando:
— Doutor, o senhor virá um pouco mais tarde hoje?
— Por que você quer saber? - brinquei, com a intenção de deixá-lo confuso.
Você agora é meu chefe?
Sem levar em conta a provocação, o devotado enfermeiro-chefe explicou-se:
— Eu apenas queria conversar um pouco com o senhor.
Não estou me sentindo bem...
Saí da cama num estado de angústia que não me é comum.
Parece que me secaram por dentro...
—A qualquer coisa, eu interno você... - insisti na caçoada.
Tranco você, a Modesta e... me tranco também!
— Trancados nós já estamos, Doutor - respondeu Manoel.
Os nossos enfermos ainda recebem alta; quanto a nós...
— Estou esperando o banco abrir, e subo em seguida; tenho alguns trocados para guardar...
— Está bem, Doutor.
Conversaremos depois.
O paciente que chegou anteontem pulou o muro, e preciso ir atrás...
— O que você está fazendo, que ainda não foi? - indaguei, não escondendo a indignação que, por vezes, me induzia a certos impulsos dos quais eu sempre me arrependia.
— Não, ele já foi localizado - explicou-se o companheiro, que era de minha total confiança.
Preciso ir apenas para tentar convencê-lo a voltar...
Despedimo-nos e, antes que eu me visse tentado a acender outro cigarro, o telefone tilintou outra vez.
Era D. Modesta:
— Inácio, bom-dia! Como passou a noite?
— Dormi tanto, que estou com a cabeça oca; não consigo escrever sequer uma linha para o artigo destinado a “A Flama”...
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 27, 2018 9:51 am

— O mesmo está me acontecendo - disse-me, preocupada.
Ando para um lado e outro da casa, e o serviço não rende!
Creio que estamos debaixo de uma influência de obsessores...
Precisamos ter cautela.
Ouvi, de manhãzinha, a voz do Dr. Bezerra de Menezes me recomendando maior vigilância.
— A gente não acredita que também possa estar à mercê dos espíritos das trevas, não é?
— De quando em quando, eles se lembram de que existimos...
Não fosse pelo amparo que recebemos dos nossos Benfeitores Espirituais, largaríamos tudo.
— Eu hoje estou num dia assim - comentei.
A vontade que eu tenho é a de não ir ao Sanatório...
O Manoel Roberto acabou de me telefonar, com queixas semelhantes.
— Vamos ficar firmes, Inácio, que isto vai passar; já passou de outras vezes, não é?
Não desanime.
À noite, você escreve o seu artigo.
Fede sobre o problema da tentação.
Os nossos estados d’alma são idênticos aos da maioria; as nossas carências são uma espécie de espelho em que as carências alheias se reflectem...
Abandone um pouco o seu estilo combativo e escreva consolando os que sofrem.
— Você está me dando uma excelente ideia, Modesta, - respondi, verificando que os canais da inspiração vislumbravam diminuta luz.
— Preciso desligar, Inácio, pois a senhora que me ajuda em casa acaba de cair na cozinha!
Estou escutando os gritos dela...
Consultei o relógio: passava das nove.
Abri a gaveta da mesa e contei o dinheiro.
Não pensem que era muito; graças a Deus, o meu testamento decepcionou os que julgavam que eu enriquecera às custas do Sanatório.
Pelas minhas contas, estavam faltando algumas cédulas, justamente aquelas que correspondiam à consulta do enigmático paciente do dia anterior...
Procurei-as entre os diversos papeis que guardava, no meio das páginas de alguns livros sobre a mesa e... nada!
O dinheiro simplesmente sumira!
Não entrara ladrão em casa e, à época, eu não era casado para que a patroa mo surripiasse, como acontece a quase toda mulher que se casa com um sovina.
Conformado com o inexplicável prejuízo, estava de saída, quando ouvi o ruído do portão que se abria.
Sem esperar que accionassem a campainha, atendi à porta.
Era um velho amigo, dirigente de uma das casas espíritas mais tradicionais de Uberaba.
— Doutor, o senhor tem um minuto?
— Eu estava de saída, mas tudo bem - respondi, tentando conter a contrariedade nas palavras.
Vamos entrar.
A que devo a honra de tão ilustre visita?
— Sei que o seu tempo é precioso e serei breve.
Não consigo definir o que está acontecendo.
Por duas semanas seguidas, o nosso trabalho mediúnico não rende.
Os médiuns caem em transe, mas os espíritos não dizem nada...
— O Mundo Espiritual está fazendo greve de silêncio observei, enquanto enrolava um cigarro de palha, numa inútil tentativa de ganhar tempo para fumar menos.
— Como?!...
— Parece que os mortos não estão querendo mais nada connosco; cansaram-se de nos ouvir ou de nos dirigir apelos que não atendemos...
— Não é bem o que está acontecendo, Doutor falou o confrade, franzindo o cenho.
Eles, de facto, não dizem nada, mas ficam rindo da gente o tempo todo...
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 28, 2018 10:03 am

— Como?! - foi a minha vez de revelar espanto.
— Sim, os desencarnados estão presentes, mas não falam; quando os médiuns retomam a consciência, confessam-se angustiados, descrentes...
— Terrível! exclamei.
— Estamos até pensando em suspender a reunião...
— Não façam isto!
É o que eles pretendem...
— Eles, quem?
— Os integrantes dessa falange...
Estamos passando pelo mesmo problema no Sanatório.
— Incrível, Doutor!
Fica um ambiente ruim na casa, uma espécie de pressão psíquica...
— Estamos ponderei sendo visitados, em Uberaba, por uma legião de espíritos que pretendem interferir no avanço da Doutrina.
- Foi o que me disse o Dr. Odilon Fernandes.
Dias atrás, estive com ele na “Casa do Cinza” e ele me explicou que os médiuns por lá andam sofrendo muito.
— O assédio está sendo grande em toda parte, mas não podemos nos entregar.
— Quer dizer que o senhor não nos recomenda uma pausa?
— Por causa dos espíritos, não.
A menos que esteja ocorrendo algum tipo de indisciplina na reunião, o que não me parece ser o caso.
— Graças a Deus, não.
Somos um grupo pequeno, mas unido.
— Então, perseverem.
Redobrem as orações e aumentem a sua cota de trabalho na casa.
Quando sopra o tornado, árvore que tem raiz não cai.
O irmão Moysés Sallum do Centro “Bezerra de Menezes”, se despediu e, finalmente, eu fui para a agência bancária, que não distava muitos metros de casa.
Cheguei ao Sanatório além das 10 da manhã, e Manoel Roberto já conseguira convencer o paciente que saltara o muro a retornar.
Como de praxe, havia sido comunicado à família, e os pais do rapaz com psicose maníaco-depressiva, salvo melhor diagnóstico, estavam me aguardando.
— Dr. Inácio, isso não pode voltar a acontecer disseram-me, assim que me viram.
— Bom-dia! - cumprimentei-os, fazendo questão de ensinar-lhes boas maneiras.
0 que é que não pode voltar a acontecer? - perguntei em seguida.
- O nosso filho fugir...
Confiamos no hospital do senhor e...
Em primeiro lugar, o hospital não é meu - retruquei, sem deixá-los concluir.
O filho é de vocês.
Se quiserem levá-lo...
— Não, não se trata disto apressaram-se em falar.
Por vezes, em casa, ele fica extremamente agressivo; da última vez, não deixou ficar um móvel inteiro...
Depois, é aquele estado de apatia, seguido de muitas convulsões.
Como iríamos contê-lo?
O senhor sabe que dinheiro não é problema...
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 28, 2018 10:03 am

4º Capítulo - Ouvidos de Deus
— Se dinheiro não é problema para vocês, que devem ter muito, não o é muito menos para nós, que não temos nada retruquei, agastado.
— Não quisemos ofendê-lo, Doutor disseram quase em uníssono.
— Não quiseram, mas o fizeram - interrompi, não consentindo que se explicassem.
Tudo que possam ter e mais alguma coisa é insuficiente para devolver a saúde ao filho de vocês; às vezes, internamos os parentes, isolando-os de nossa convivência, mas os verdadeiros enfermos somos nós...
Percebendo que haviam silenciado, procurei abrandar o ímpeto:
— Está certo, os serviçais invigilantes serão punidos pelo Sanatório.
Não se concebe permitir a fuga de um paciente; houve, sim, falta de responsabilidade nossa, mas vocês carecem convir que isto aqui não é uma prisão.
Pode até sofrer de injustificável fama, mas não é.
Vocês querem levar o moço? - indaguei, pronto para mandar buscá-lo no pavilhão.
— Não, Doutor - redarguiram, cabisbaixos.
Não teríamos a quem recorrer.
Já o levamos aos melhores especialistas em São Paulo e no Rio de Janeiro.
— Então, procurem colaborar...
O menino está aqui há quase dois meses e vocês ainda não vieram visitá-lo uma única vez!
É comum que os familiares esqueçam os seus enfermos aqui.
Pais esquecem filhos e filhos esquecem pais.
Temos quase uma dezena morando em definitivo connosco; não podemos colocá-los na rua ou pedir às autoridades que tomem providências...
A polícia, todos os dias, deixa indigentes à nossa porta.
A sociedade nos critica (Uberaba é uma cidade tradicionalmente católica), mas, quando não tem recursos, o hospital de loucos dos espíritas ou dos espíritas loucos serve...
É uma hipocrisia sem tamanho!
— O senhor tem razão responderam com timidez.
— Não, não tenho.
O Espiritismo me ensina a aguentar calado todo e qualquer tipo de provocação.
Só que, infelizmente, não é do meu feitio suportar humilhações.
Ainda estou mais para Moisés que para Jesus Cristo.
O que é uma pena, para mim...
Sei que mais cedo ou mais tarde terei que me abrandar.
Mas não tenho pressa de Céu...
O casal se despediu e, mal havia entrado no carro estacionado lá fora, terminei de entrar no hospital aos berros, assustando os próprios gatos que me esperavam para o almoço:
— Quem é o infeliz escalado para o turno da noite e que deve ter dormido?...
Conhecendo-me a têmpera, Manoel Roberto me seguia, alguns passos atrás, na expectativa de que aquela crise uma das muitas que me acometiam semanalmente passasse.
— Vamos, quem é o macho que vai se denunciar?...
Quero esfolá-lo vivo!
Aqui ninguém é pago para cochilar no serviço.
Se não aparecer o culpado, vou escolher qualquer um e demiti-lo.
Depois de uns quinze minutos, quando a fervura íntima começava a se acalmar, caminhou na minha direcção um pobre coitado que eu empregara para tirá-lo do alcoolismo.
— Foi você, não foi? - gritei com o dedo em riste, entre uma e outra baforada de cigarro.
Você é um ingrato!
Deve estar querendo voltar para a sarjeta...
Você sabe que a minha cabeça vive a prémio na cidade; se alguma coisa de pior tivesse acontecido ao rapaz, eu estaria perdido...
Não passam de um bando de incompetentes.
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 28, 2018 10:03 am

Vocês deveriam estar tomando conta de um bordel, não de um hospital.
A qualquer hora, tranco vocês e solto os loucos! Garanto que eles serão mais responsáveis...
— Doutor... tentou argumentar o serviçal, que, a rigor, sequer sabia assinar o nome.
— Você está despedido!
Passe no escritório para acertar as contas...
E vou avisando disse, olhando para Manoel Roberto que, desta vez, não volto atrás; se alguém interceder por você, o mando embora também!...
O Sanatório precisa de gente mais bem preparada; vocês não servem para varredores de rua.
Onde é que estou com a cabeça, que dou emprego a vocês?!...
Após ter vomitado impropérios à vontade, dirigi-me à cozinha, pois, afinal, os meus gatos estavam com fome e não tinham culpa.
Enquanto abria algumas latas de sardinhas baratas e misturava com o que havia sobrado do jantar da fatídica noite da fuga empreendida pelo rapaz, Manoel Roberto me rodeava, sem ousar me dirigir a palavra.
A verdade é que, em contacto com os meus bichanos, eu sempre me acalmava.
Quando notou que o momento era propício, o Enfermeiro-Chefe ponderou:
— Doutor, o Silva é pai de família...
— Eu sei - respondi, sem tirar os olhos dos três novos filhotes de uma gata angorá linda.
A única coisa que ele sabe fazer com perfeição são filhos...
— São os gatinhos dele, Doutor!...
Fuzilei Manoel Roberto com um olhar enviesado, sabendo perfeitamente aonde é que ele queria chegar.
— Afinal, quem manda nesta espelunca?...
— O senhor, Doutor...
— Quem é que dita as normas aqui? - questionei, aproveitando para um recado indirecto às cozinheiras, que viviam, nos bastidores, reclamando da minha criação de gatos.
— O senhor, Doutor...
— Se acontecer alguma coisa de grave aqui, quem é que vai para a cadeia?
— O senhor, Doutor!...
Não aguentei.
A espontaneidade das respostas do devotado companheiro me fizeram cair na risada.
Vocês não prestam!
Vocês conspiram contra mim o dia inteiro...
— Reconsidere, Doutor, a demissão do Silva!
Ele é muito prestativo, tem carinho com os doentes...
A mulher está esperando o quinto filho e o menorzinho teve paralisia infantil.
— Então, pelo menos uma suspensão:
uma semana de gancho sem remuneração e, se reincidir, rua amenizei, perdendo o primeiro round.
— Não dá, Doutor - defendeu o meu “advogado do diabo”.
O substituto do Silva está em férias e não temos ninguém para a noite; ele cochilou porque está cobrindo férias há quinze dias.
Além do mais, tenho receio...
— Receio de quê?
— De que ele volte a beber...
Eu estava prestes a perder o segundo e definitivo round da luta que eu sempre soube que perderia.
— Então, você vai assumir a responsabilidade...
—Assumo, Doutor - respondeu Manoel, dando-me o golpe de misericórdia.
Com o senhor e pelo senhor, assumo qualquer coisa.
— Mas, você avise o safado do Silva para ele deixar de incomodar a pobre da mulher durante o dia e dormir.
Seis anos de casados, cinco filhos!
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 28, 2018 10:03 am

Uma explosão demográfica sem precedentes e tudo para o Sanatório custear, não é?
O episódio estava mais ou menos encerrado, quando uma funcionária do escritório veio me avisar:
— Uma moça está chamando o senhor para uma consulta particular.
— Particular, só na minha casa.
Eu já me cansei de explicar a vocês.
— Ela insistiu, está chorando...
— E isto aqui é o “muro das lamentações” um chora daqui, outro chora de lá...
Eu é que sou obrigado a viver com os olhos secos, consolando todo o mundo.
— Vai-se ver, Doutor, que na outra encarnação... - intrometeu-se uma morena redonda, das melhores cozinheiras que já passaram pelo Sanatório.
— Cuide de suas panelas...
Como é que pode ir adiante um hospital de loucos em que até a cozinheira dá palpites?
Que outra encarnação, que nada!...
É a primeira vez que estou vivendo no meio desta corja primeira e última, se Deus quiser.
A morena sorriu e caminhou requebrando com a sua pesada traseira, não dando a mínima para o que eu havia falado.
Terminei de alimentar os gatos e fui ver a moça.
— Doutor, o senhor me desculpe - dirigiu-se a mim com grande aflição.
A funcionária me explicou que o senhor só atende particular no seu consultório da Avenida Fidélis Reis, mas não estou suportando...
— O que está havendo? - perguntei, convidando-a para uma saleta reservada onde pudéssemos conversar.
— Eu não estou conseguindo dormir direito; toda a noite, Doutor, o mesmo pesadelo me assalta...
Acordo assustada, repetidas vezes.
— Há quanto tempo o caso vem acontecendo?
— Vários meses, mas, nas últimas semanas, tem se agravado...
Vejo uma sombra que se apossa de mim; tenho a impressão de se tratar de um homem...
— Você é solteira ou casada?
— Solteira, Doutor.
Pui noiva por quase três anos, mas, infelizmente, o meu noivo morreu num acidente.
Estávamos de casamento marcado.
Não consigo mais me interessar por ninguém.
— Qual é a sua ocupação profissional?
-Sou bancária. A minha família mora perto de Belo Horizonte.
A minha avó paterna era espírita, mas a minha mãe me criou na Igreja...
Não entendo nada de Espiritismo.
— Além da sombra que se aproxima, o que mais acontece?
— É Tenho vergonha de dizer, Doutor.
Não se acanhe; você tem idade para ser minha filha...
Eu não sou Deus, mas aqui os meus ouvidos são como se fossem os ouvidos Dele.
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 28, 2018 10:03 am

5º - Capítulo - Pesadelo e Obsessão
— O meu noivo mantém relações sexuais comigo durante o sono, Doutor! disse a jovem lacrimejando.
— Isto é possível e não tem nada de tão absurdo assim expliquei, tentando tranquilizá-la.
— Como?! O senhor acha normal manter contacto sexual com um morto quase todas as noites? - questionou, indignada, no diálogo que prosseguiu.
— Não quis dizer isto, filha; não ponha palavras na minha boca...
Você não está fazendo nada de ilícito.
O fenómeno que acontece com você acontece com muita gente.
Eu mesmo já tive vários sonhos eróticos...
— O senhor?!...
— Qual é o problema? Não somos seres assexuados.
Freud dizia que toda ventura ou desventura estava relacionada com o desejo: quando o consumamos, somos felizes, quando não nos frustramos...
— Mas é algo que me perturba, me deixa extenuada!
— Concordo; o espírito de seu ex-noivo ainda permanece dependente de você...
É uma patologia obsessiva, um processo de vampirização psíquica.
Você experimenta alguma sensação de prazer? - perguntei com a discrição possível.
— Sinto; é como se acontecesse entre nós uma conjunção carnal...
Fico com isso na cabeça o dia inteiro e é como se ele exigisse que eu me guardasse só para ele.
Se olho para um outro homem, é como se eu o estivesse traindo...
— Nos conventos e seminários, os religiosos de vida celibatária, muitos deles sofrem o assédio de entidades que chegam a levá-los ao orgasmo; são os chamados espíritos íncubos e súcubos, ou seja, entidades que, no ato sexual, agem de forma activa ou passiva...
Os religiosos aos quais me refiro se aplicam cilícios e se submetem a rudes disciplinas físicas com o propósito de fugir à tentação...
— É verdade, Doutor?
— Não sou eu que estou dizendo:
a literatura médica se repleta de citações neste sentido...
0 sexo não está no corpo, está na alma o corpo não passa de mero instrumento.
Se todo o excesso traz consequências, a carência afectiva desencadeia problemas na área.
— Existe remédio para isto?
Como é que eu poderia lidar com a situação?
- Qualquer medicamento actuaria apenas em nível de reminiscência.
Você poderia não mais se lembrar, mas continuaria a contactar sexualmente com o seu ex-noivo.
Precisamos encontrar um outro caminho.
— Tenho ido à missa com frequência; rezo todas as noites...
— Você reza, mas não ora...
— Qual a diferença?
— Rezar é como se fosse soletrar uma cartilha, ao passo que orar é revestir a prece de sentimento; quem reza repete de memória, quem ora conversa espontaneamente com Deus...
A reza é uma fórmula exterior; a oração é uma introspecção.
— Orar será suficiente?
Será o começo de uma mudança mental; a tomada de consciência do problema existente é o início de sua solução...
Você precisa renovar os pensamentos; caso contrário, a situação tende a se agravar.
A obsessão pode levar à subjugação completa, ocasionando danos ao cérebro.
— O senhor me assusta!...
— É meu dever alertá-la, porquanto, não raro, muitos de nós nos comprazemos sob o jugo das entidades que nos vampirizam...
— Não é o meu caso, Doutor.
— Talvez sim, talvez não.
Ainda não temos domínio sobre o inconsciente; somos dominados por ele...
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 28, 2018 10:04 am

As nossas experiências pregressas incidem sobre o presente; agimos comandados por nós mesmos...
Os espíritos obsessores se prevalecem de nossa vontade.
A rigor, não existe processo obsessivo não consentido.
A nossa invigilância nos escancara portas e janelas na alma.
A obsessão é um convite formulado e aceito...
— O senhor está querendo dizer que eu sou culpada?
— Não totalmente, mas, se você não oferecer sintonia...
Noto que a sombra que se aproxima de mim, durante a noite, como que me constrange...
— Tomaremos providências neste sentido.
Quem sabe, poderemos conversar com ele...
Aliás, creio que o espírito de seu ex-noivo esteja aqui nos ouvindo; posso senti-lo presente...
— O senhor também é médium?
— Não, na acepção da palavra; eu tenho o couro meio grosso para essas coisas; no entanto, posso dizer que o seu ex-noivo, neste momento, está registrando toda a nossa conversa e, certamente, contrariado...
— Por quê?
— Porque o espírito pouco esclarecido se acomoda dentro de certas situações; morrer não é tão simples quanto se imagina; deixar o corpo não é nada difícil é deixar o que nos prende à Terra...
Quem não se prepara para a Outra Vida não encontra o caminho com facilidade; é como alguém que, de repente, se visse no meio do deserto sem saber onde é que fica o oásis.
— O senhor fala com uma convicção
— Falo com a lógica, minha filha.
A Vida depois da morte há de ser assim, ou então, confesso, eu não entenderia Deus.
“ — Fui habituada à ideia de Céu e Inferno...
— Desculpe-me, ideias arcaicas que a Igreja tem sustentado em vão; o avanço da Ciência não mais nos permite crer no que não seja fruto do nosso próprio esforço.
Deus não está sentado num trono, condenando de maneira irrevogável parte de sua própria Criação...
Sendo Omnisciente, atributo sem o qual não seria Todo-Poderoso, por que Ele haveria de criar seres destinados ao fracasso evolutivo e, o que é pior, conhecendo-lhes de antemão o destino?
— Sinto que ainda não estou preparada para conceber a Vida além da morte de maneira diversa daquela em que fui educada; estudei em colégio católico...
—Você deve procurar ler e reflectir por si mesma.
Somos espíritos parados no tempo.
A cabeça do homem está cada vez mais repleta de indagações sem respostas.
A fé cega não se sustentará.
No Espiritismo, temos uma doutrina de tríplice aspecto:
científico, filosófico e religioso...
— Admiro a caridade praticada pelos espíritas...
— A verdade que não nos melhorasse, além de nos esclarecer, ficaria a dever a si mesma, você não acha?
Ante o silêncio reticencioso da moça, levantei-me, fui a uma estante próxima e retirei de lá um exemplar de “O Livro dos Espíritos”, presenteando-a.
— Desculpe-me não autografá-lo para você expliquei; o meu autógrafo no livro poderia comprometê-la...
Assim, você poderá dizer que o encontrou esquecido em algum lugar.
O preconceito religioso é sintoma de uma sociedade primitivista.
— Quer dizer, Doutor, que eu vou melhorar? - voltou a insistir a paciente no assunto que a fizera me procurar.
— Não se preocupe - respondi.
Falaremos depois.
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 28, 2018 10:04 am

O essencial é que você, por si mesma, comece a lidar com o problema, sem permitir que ele a angustie tanto.
— O meu ex-noivo é um espírito obsessor?
— Todos o somos.
Os nossos pensamentos se projectam na direcção dos outros, ininterruptamente.
Vivemos, por assim dizer, interagindo tanto do ponto de vista intelectual quanto psicológico.
Influenciamos e somos influenciados.
A questão é aprender a separar o joio do trigo...
Giramos na órbita dos nossos anseios e aspirações.
Ninguém nada faz sem alguma intenção.
— Posso telefonar para o senhor?
— Perfeitamente.
— Não quero que aqui me vejam entrando e saindo com tanta frequência; se me questionarem a respeito, direi que vim saber notícias de um parente internado...
— Nicodemos fez o mesmo... brinquei.
— Quem?...
— Nicodemos, o doutor da lei, que procurou Jesus às escondidas, oculto pela escuridão da noite, para interrogá-lo a respeito da Reencarnação...
A jovem corou e me estendeu a mão em despedida.
— Foi bom conversar com o senhor - falou, abrindo a bolsa e tirando uns óculos escuros com que cobriu parcialmente o rosto.
Estou me sentindo mais calma.
Deixei-a caminhar sozinha até o hall de entrada e acenei, discretamente, enquanto ela descia a escadaria, ganhando a rua.
— Onde é que está o dinheiro da consulta? - perguntei à atendente, adivinhando-lhe a resposta:
— Ela não acertou com o senhor?
— Claro que não.
— Eu pensei...
— Não pensou nada!
Vocês aqui não pensam nada...
— Mas o senhor não liga...
— Não ligo, no entanto vocês querem receber no final do mês...
Certamente, o dinheiro vai cair do Céu; é dinheiro que some lá em casa e dinheiro que aqui nem chega a aparecer.
Isto aqui está igual à casa da Mãe Joana...
— Quem é Mãe Joana? indagou, ingénua, a funcionária.
— Sou eu respondi, enquanto, ao invés de acender um cigarro, cheirava um rapé que me fazia espirrar até a alma.
— A Mãe Joana sou eu; noutra encarnação, eu botei uma filharada no mundo e agora tenho que aguentar vocês nas minhas tetas...
Salvo pelo rapé que o avô de um paciente me trouxera de Goiás, comecei a espirrar e não pude dizer mais nenhum impropério.
E, com aquela sessão de espirros que me fez molhar um lenço, terminei o meu expediente daquela manhã no Sanatório.
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 28, 2018 10:04 am

6º Capítulo - Visita a um amigo
Após o almoço, assim que cheguei ao Sanatório, recebi o recado:
— Dr. Inácio, a família do Sinfrónio telefonou.
Ele está nas últimas e pediu que o senhor fosse vê-lo...
Está internado no Hospital S. J. e os médicos já disseram que não há nada mais para ser feito; o tumor apresenta metástases no fígado e nos pulmões.
Sinfrónio era um velho conhecido com quem, de quando em quando, costumava conversar, sem nunca ter conseguido convencê-lo do Espiritismo.
— Morreu, acabou, Doutor costumava dizer-me em nossos encontros quase mensais no Mercado Municipal.
Sou católico, respeito os espíritas, mas não acredito na Outra Vida...
— Que incoerência, Sinfrónio! - eu respondia.
A Igreja tem os seus erros, mas, pelo
menos, prega a imortalidade...
— Tudo interesse, Doutor!
É a indústria da fé...
No fundo, os padres e os médiuns agem movidos por interesses que se identificam.
Nunca ninguém voltou da morte para mostrar o seu rosto...
Eu não creio nas aparições são mentes em estado de sobreexcitação.
— Não é bem assim tentava argumentar; você não pode duvidar de todo o mundo.
De facto, os charlatões existem, mas as pessoas confiáveis não são escassas quanto você imagina...
0 Cristo ressuscitou!...
— Nós não estávamos lá para saber, Doutor.
Os Evangelhos foram escritos por homens sábios...
Ao que estou informado, nem a história dos judeus comprova a existência do Cristo; as controvérsias são muitas...
Se Ele fez tudo que dizem ter feito, como é que poderia passar ignorado pelos historiadores de seu povo?
— As profecias falaram a respeito da vinda de um Messias...
— ...que até hoje estão esperando!
E juntava:
— A religião católica foi uma invenção do Ocidente e o Espiritismo é uma reedição das filosofias orientais.
Allan Kardec era muito inteligente.
Professor malsucedido na França, concebeu uma doutrina que, economicamente, lhe garantisse uma velhice mais tranquila...
— Kardec morreu pobre, Sinfrónio.
Não teve tempo de colher o que plantou; outros estão colhendo por ele agora...
Os nossos diálogos eram sempre assim.
Para todo argumento meu, Sinfrónio tinha uma resposta na ponta da língua.
Apesar dos pesares, éramos amigos e nunca chegávamos a discussões mais acaloradas, principalmente pelo que ele me dizia:
— O Espiritismo, se fosse verdade, seria a religião ideal para a Humanidade.
Só não deixo de ser católico e passo a ser espírita, porque seria trocar nada por coisa alguma...
Você é ateu, Sinfrónio...
— Não completamente, Doutor.
Acredito no Criador...
As coisas que vemos não podem ser obra do acaso.
Eu não creio é no Deus das religiões.
Para mim, Deus é o Universo, com o conjunto das Leis que o regem.
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 28, 2018 10:04 am

O que morre se transforma noutro ser vivente.
É assim que aceito a imortalidade...
Agora, no entanto, o amigo estava prestes ao confronto inevitável; finalmente, as suas dúvidas haveriam de ser sanadas...
Com quase 70 de idade, o câncer o inclinava para o túmulo - a grande incógnita de sua vida.
Eu não poderia deixar de atendê-lo.
Tomei algumas providências no Sanatório, entrei no meu Simca Chambord e rumei para o hospital localizado próximo à Catedral Metropolitana.
Estacionei o carro e comecei a subir a escadaria, ante os olhares curiosos de outros colegas médicos que sempre me viam com reservas.
Até, na indumentária eu contrastava com eles: enquanto se trajavam impecavelmente de branco, eu me vestia com um surrado jaleco branco e uma calça de qualquer outra tonalidade...
Como o referido nosocómio era de orientação religiosa católica, a minha presença naquela tarde, deve ter causado um verdadeiro rebuliço.
No entanto, em alguns olhares que cruzaram com os meus, no corredor, pude descobrir certos traços de admiração e respeito, não evidentemente pela minha pessoa, mas pelo que eu representava.
Antes que adentrasse o quarto em que Sinfrónio agonizava, uma enfermeira, gentilmente, me abordou:
— Doutor, a direcção da Casa...
— Já sei - interrompi, tentando evitar-lhe maiores constrangimentos.
Diga-lhes que estou aqui apenas com o propósito de visitar um amigo.
E, desabusado, acrescentei, ironicamente:
— Por enquanto, não é minha intenção fazer nenhum despacho...
Um tanto sem jeito, a enfermeira se retirou e, após leve batida na porta, girei a maçaneta e me deparei com Sinfrónio, desfigurado, respirando com grande dificuldade.
Um sobrinho que lhe fazia companhia no quarto se retirou e eu me sentei numa cadeira próxima ao leito do amigo dispneico.
Ao me ver à cabeceira da cama, o doente me estendeu a destra, que segurei e voltei a segurar, durante o tempo todo em que permaneci ao seu lado.
— Não fale.
Poupe as energias ponderei.
Esforçando-se para concentrar as suas derradeiras reservas de força na palavra, o amigo balbuciou:
— Obrigado por ter vindo.
Sei que eu talvez não passe desta noite...
Respirar está cada vez mais difícil para mim...
Antes de você chegar, eu estava no balão de oxigénio...
Queria vê-lo...
Tenho algo importante para lhe dizer...
— Acalme-se - repliquei, ajeitando algumas almofadas que lhe escoravam o corpo debilitado e enxugando-lhe, com uma toalha, o suor gélido da fronte.
— Estou calmo...
Não tenho medo da morte.
O problema é que eu acho que você estava com a razão:
eu vou viver, ou melhor, eu vou continuar vivendo...
— Se não é fruto da minha imaginação, creio que vi o espírito de minha mãe ao meu lado...
Eu estava algo sonolento nesta manhã e percebi o vulto luminoso dela...
Não pode ser delírio, pois eu a vi muito mais jovem...
Se for verdade, meu amigo, perdi um tempo precioso na existência...
Arrependo-me agora de minha auto-suficiência...
— A condição humana, Sinfrónio - disse, procurando aliviar-lhe a consciência -, nos impõe muitas limitações.
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 28, 2018 10:04 am

O essencial não é a fé, mas as obras da fé; você é um homem bom...
— Não, você se engana...
Apenas não fiz o mal; a minha descrença não me motivava à prática da caridade...
E insistiu:
- Como vocês, os espíritas, dizem, perdi a encarnação...
— Temos a eternidade à nossa disposição...
— Mas de que me valeram os meus 69 de idade, Doutor?
Sinto que, em termos de espiritualidade, não avancei um passo sequer...
Notando que o seu ritmo cardíaco se acentuava, chamei o sobrinho, que se postara do lado de fora do quarto, e verifiquei que a minha presença por mais tempo não seria benéfica para Sinfrónio.
— Não, não se vá ainda - pediu-me ele.
Antes que você se retirasse, gostaria de fazer um pedido, tendo o meu sobrinho por testemunha.
— Pode falar, amigo.
— Eu não gostaria de receber a extrema-unção...
Seria hipocrisia minha.
Há mais de 30 anos que eu não ponho os pés numa igreja...
Não estou, à última hora, me convertendo ao Espiritismo, mas...
— Eles dirão que isto é artimanha minha, Sinfrónio - aleguei.
Não há nada de mal em se tomar uma hóstia...
— A questão não é a hóstia em si...
Não estou em condições de desrespeitar ninguém.
O problema é que não quero morrer com mais um drama na consciência.
Pelo menos na hora da minha morte, eu quero ser coerente.
Por favor, digam que eu sou espírita...
Olhei para o sobrinho do amigo moribundo, que, infelizmente, me pareceu alheio àquilo tudo, sem dar a devida importância ao facto; tive a impressão de que apenas lhe interessaria a pequena herança do tio, que não possuía herdeiros directos.
— Tranquilize-se, Sinfrónio.
Verei o que pode ser feito.
Ele cerrou os olhos e, esboçando tímido sorriso, entrou definitivamente em coma.
Embora não tão habituado à oração, mentalmente roguei a intercessão dos nossos Maiores em favor do seu espírito, prestes a desapegar-se do envoltório físico.
Quando estava de saída, porém, tive a grata surpresa de me encontrar com o Padre Sebastião Bernardes Carmelita, o único dos padres que tinha liberdade para frequentar a minha casa quando bem quisesse.
— Padre Sebastião!... exclamei, aliviado, ao vê-lo.
— Dr. Inácio!... respondeu-me.
Eu bem que estava estranhando este silêncio diferente hoje...
— Estou visitando um amigo, o Sinfrónio.
— Conheço-o também de longa data.
— Ele me fez um último pedido, Padre...
— Não precisa dizer; eu sei...
Cuidarei de tudo.
O referido sacerdote era um dos médiuns mais seguros que eu conhecia; além da faculdade de cura (vivia visitando os doentes nos hospitais), possuía a clarividência e a clariaudiência...
Portanto poupei-me de perguntar a ele como é que poderia estar a par do assunto, sem que sequer eu abrisse a boca para mencioná-lo.
— Não tenho o hábito de carregar hóstias comigo, Doutor... - falou, enquanto caminhava pelo corredor.
Sinfrónio, de facto, desencarnara de madrugada.
Infelizmente, premido por muitos afazeres, não pude comparecer ao seu sepultamento.
Sentiria falta de suas contestações, que me obrigavam a verdadeiros malabarismos intelectuais para não permitir que as suas cépticas argumentações me dobrassem ou sequer me influenciassem.
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 29, 2018 10:44 am

7º Capítulo - Dois Senhores
No outro dia, chegando ao Sanatório, me deparei com uma colecção de notas a serem pagas; estavam todas sobre a minha mesa, e aquele mês havia sido especialmente dispendioso: conta do armazém, conta da farmácia, conta do açougue...
De um lado, o prontuário dos pacientes me esperando e, de outro, as notas a serem quitadas.
Olhei para um exemplar de “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, que sempre deixava a um canto da mesa, e conclui que, de facto, Jesus tinha razão:
era extremamente difícil servir a dois senhores, a Deus e a Mamon.
E, depois, além das despesas próprias, o Sanatório arcava com parte da manutenção do Lar Espírita e do Centro Espírita Uberabense.
As doações escasseavam, os internos gratuitos eram muitos e a arrecadação havia caído.
Como sempre, eu teria que me virar, lançando mão de um fundo de reserva pessoal, para que não ficássemos na insolvência.
Repleto de projectos doutrinários na cabeça, sentia-me constrangido a pegar na caneta para tentar colocar em dia a contabilidade.
Decididamente, não era fácil conciliar as coisas.
Ainda bem pensava -que, na acepção da palavra, eu não era médium e, de certa forma, me considerava desobrigado de uma sintonia contínua com o Além.
Com o pensamento nos números, comecei a percorrer os pavilhões, mais pelo hábito de percorrê-los do que propriamente em condições de atender algum paciente.
— Dr. Inácio chamou-me uma senhora que estava connosco havia mais de seis meses -, eu não sei se vou ficar boa; tudo para mim é muito triste...
Sou de família rica e não tenho nada, porque não tenho saúde.
Conviver com esta gente aqui...
Não se trata de orgulho, mas eu não sou louca como a maioria; apenas não sei a origem da estranha inclinação que me leva a tentar o suicídio...
Já cortei os pulsos por diversas vezes, joguei-me nas águas traiçoeiras de um rio.
Não quero a vida, e a morte não me quer.
Que triste sina a minha! Eu daria tudo para ter pelo menos uma noite de paz.
Quando melhorarei, Doutor?
Será que existe solução para o meu caso?
Andei um pouco mais e uma jovem de formosos traços veio ao meu encontro, catatónica:
— Doutor, Doutor disse-me, caminhando sob o efeito de pesados medicamentos —, a minha família virá me buscar hoje?
Quero ver o meu filho...
Dizem que eu o abortei, mas não é verdade.
É mentira! Tenho inimigos aqui dentro que tramam contra mim.
Eu quero o meu homem: não sou lésbica; por favor, troque-me de quarto, que não aguento mais dormir ao lado daquela mulher fedida...
O senhor precisa saber o que acontece aqui durante a noite:
homens nus invadem o meu quarto e fazem sexo comigo...
Eu não consigo reagir; eles me hipnotizam...
Um deles vem de batina e tudo para mim, trata-se de um sacerdote por quem me apaixonei na adolescência; ele apareceu morto...
É tudo mentira; tomaram-no de mim...
Adiante, abrindo caminho entre as internas que me interceptavam, cheguei à presença de uma mulher que, outrora, vivera, em Uberaba, na zona do meretrício.
Vítima do mal de Parkinson, falou-me com extrema dificuldade:
— Doutor, eu queria agradecer.
Perto do Inferno em que estive durante muitos anos, isto aqui é o Céu...
Rejeitada pela família, Teresa não tinha para onde ir.
A rigor, não se tratava de uma paciente psiquiátrica, mas... o que fazer?
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 29, 2018 10:44 am

O Sanatório era também um albergue das almas que haviam desiludido a si mesmas.
De certa maneira, Teresa era o meu refrigério; quando a cabeça fervia, eu puxava uma cadeira e me deixava ficar ao seu lado, exercitando-me, por longos minutos, em escutar a voz do silêncio.
O mundo lá fora o mundo das contas a serem pagas era completamente outro.
Impressionante a riqueza espiritual dos meus pacientes terras inóspitas a serem colonizadas por Jesus Cristo!
O mundo inteiro, com todo o seu ouro, não valia um só daqueles internos misérrimos, de razão eclipsada.
Infelizmente, a Medicina, no campo da Psiquiatria, estava tomando um rumo equivocado mais remédios e menos observação; os especialistas se insensibilizavam, perdendo a prodigiosa oportunidade de se encontrarem com Deus, auscultando a loucura dos homens...
Da ala feminina, passei ao pavilhão masculino.
— Doutor abordou-me um homem contando mais de quarenta de idade -, eu já matei três...
Estou ouvindo dizer que o espírito sobrevive à morte do corpo e, se assim é, não concluí ainda a minha vingança.
Aqueles três safados me lesaram; o ódio me enlouquece...
Não me roubaram apenas a fazenda:
inocularam veneno na minha alma...
Quero também morrer para reencontrá-los; esganarei um a um com as próprias mãos...
Desenterrei os seus ossos e os mastigava!
Por este motivo, Doutor, me trouxeram para cá...
Dei emprego àqueles três e eles me tomaram tudo.
Envenenei-os, esfaqueei-os!...
De facto, aquele senhor, transferido pela influência de um político, seu amigo, de uma penitenciária para o Sanatório, segundo diziam, havia matado três pessoas em sua cidade.
Tendo sido preso, quando escapou, depois de alguns meses de reclusão, foi para o cemitério e os desenterrou, passando a morder os ossos de seus cadáveres!...
Estava completamente alucinado.
— Doutor prosseguia -, eu os matei e quero matá-los de novo.
Eles estão com a minha alma, Doutor!...
Sou propriedade deles...
Embebedaram-me certa noite e me fizeram assinar um documento, como se eu lhes tivesse vendido as terras que me tocaram por herança de meu pai.
Deixe-me sair daqui!...
Perseguirei as sombras deles até os confins do Universo!
— Perdoemos, amigo murmurei, antevendo o drama que, com certeza, se arrastaria por séculos.
— Gosto do senhor, mas não me fale em perdão!
Depois de me roubarem e de me terem transformado num criminoso, eu é que ainda tenho de perdoar-lhes?!
Quem é que deve a quem?
Um rapaz que passava o dia e a noite delirando aproximou-se de mim, com timidez de mim que nunca soube o que em mim os atraía de maneira tão obsessiva.
— Quero cigarro, Doutor!
Cigarro de maconha...
Se não fumar maconha, eu enlouqueço.
Eu tenho um pé de maconha plantado no quintal da casa da minha avó.
Entre os seus dedos amarelados de tanto fumar mais amarelados do que os meus -, dois cigarros estavam acesos e, ao mesmo tempo, ele os levava à boca.
— Cigarro de nicotina não presta!
Eu quero é fumar maconha pedia compulsivamente.
— Tenha paciência - eu dizia.
Mandei plantar um pé de maconha aqui, mas ainda não cresceu; dentro de alguns dias, nós dois vamos ter maconha à vontade...
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 29, 2018 10:44 am

O rapaz sorria e se acalmava por instantes, imaginando ter encontrado em mim um parceiro ilustre para o vício.
Mas, como todos os meus pacientes, ele tinha a sua história triste.
A irmã mais velha, que o tomara sob a sua responsabilidade, explicou-me que, quando criança, ele e a mãe apanhavam juntos do pai, um homem violento, que, de tanto espancar a esposa na cabeça, lhe provocou a ruptura de um aneurisma seguido de óbito.
Aquele era o meu mundo o mundo das mentes enfermas no corpo e fora dele.
Vez por outra, eu me punha a imaginar como haveria de ser o cenário espiritual por detrás de todos aqueles dramas.
Sem a Reencarnação repito não dava para entender Deus.
Aquelas almas mutiladas me induziam a constantes reflexões e, longe de me induzirem à descrença, me fortaleciam a convicção na Justiça Divina.
Tudo se encadeava com uma lógica impressionante.
Ante a matéria descartável, o espírito não interrompia a sua jornada ascensional.
Por que, numa ninhada de gatos, alguns nasciam sadios e outros não?
Por que, das flores do jardim, algumas se abriam lindas ao Sol e outras despencavam em botão?
Por que crianças lindas morriam em tenra idade e vidas aparentemente inúteis se prolongavam indefinidamente?
A Reencarnação é a mais sábia e a mais justa das Leis!
Sem a tese das vidas sucessivas, a existência de um insecto careceria de significado.
Depois de ter feito a minha ronda médica, da qual lhes forneci simplesmente um resumo, voltei para o meu gabinete, que eu nunca soube definir se era um consultório ou um escritório.
Chamei o auxiliar e ordenei:
— Pague ao açougue e ao armazém e peça para a farmácia esperar; não adianta remédio com barriga vazia...
— Doutor, mas já é o segundo mês com a farmácia e precisamos fazer um novo pedido argumentou o funcionário encarregado das compras.
— Se os doentes morrerem de fome, eles não terão mais para quem vender remédio.
Isto aqui é uma mina para os farmacêuticos respondi, grosseiro, como só eu conseguia ser quando me fartava.
Vamos dar mais água fluidificada para os doentes e menos medicamentos.
Afinal, isto aqui é um hospital espírita ou é o quê?
Temos feito a nossa parte blasfemei, espiando para ver se D. Modesta não estava por perto.
Os espíritos terão que fazer a deles...
Quarta-feira havia chegado e, à noite, teríamos a nossa sessão mediúnica.
De quando em quando, o Dr. Bezerra de Menezes, com o intuito de amenizar as nossas lutas, concedia-nos a alegria de sua presença espiritual através da psicofonia de D. Modesta.
Bons e inesquecíveis momentos de intercâmbio com a Espiritualidade!
Confesso-lhes que é uma das poucas coisas das quais eu verdadeiramente sinto saudades na vida que deixei.
Naquela noite, em particular, o Dr. Bezerra, após preciosa alocução doutrinária,
dirigindo-se a mim, deu-me discreto puxão de orelhas que ninguém mais entendeu:
— Inácio, estamos aqui, fazendo a nossa parte.
Não estamos omissos quanto aos nossos deveres junto aos irmãos de ideal.
Apenas, em desencarnando, perdemos completamente a noção do valor do dinheiro...
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 29, 2018 10:44 am

8º Capítulo - O Noivo Desencarnado
Na mesma sessão mediúnica a que me referi, anteriormente, manifestou-se o espírito do noivo da jovem bancária que me procurara.
Eu havia comentado o caso com D. Modesta, mas não entrara em maiores detalhes.
Não sei como, aos poucos, tem se desprezado, nos nosocómios de orientação espírita, a desobsessão no tratamento de seus pacientes.
Digo-lhes que os meus melhores êxitos no campo da Psiquiatria foram alcançados graças à Mediunidade.
O tratamento unilateral dos enfermos da mente, ou seja, somente o convencional prescrito pela ciência médica, não surte o efeito desejado, porquanto, na base de todo desequilíbrio de ordem psíquica está a influência do passado.
No Sanatório, com o seguro concurso de D. Modesta, eu quase nada fazia, em relação aos internos mais graves, sem auscultar o Mundo Espiritual.
Se, como médico, eu encontrava na médium o respaldo de que necessitava, devo esclarecer que, por outro lado, a mediunidade da dedicada obreira sempre contou com o meu apoio.
Infelizmente hoje, a descrença parece ter se generalizado, e médicos e médiuns espíritas se rivalizam...
O problema central de semelhante desavença é o dinheiro.
À nossa época, minha e de D. Modesta, lutávamos pela sobrevivência, ou seja, para termos o pão de cada dia. Onde entra o excesso, a ambição se instala e logo se esquecem, com facilidade, os compromissos espirituais.
0 maior erro do homem, sem dúvida, é o de encher-se de razão, quando, não raro, ele não possui nenhuma.
Toda e qualquer reivindicação profissional, por mais justa, não deve estar acima do idealismo.
O Irmão José, venerável Benfeitor que habitualmente dialogava connosco em nossas sessões, costumava nos dizer:
“Tudo pelo Cristo e tudo pela Obra!”
Quando a colaboradora caiu em transe psicofónico, permaneci atento, rogando aos nossos Instrutores que não me faltassem com a inspiração da palavra e com o sentimento de amor de que o verbo carece se revestir, especialmente no trato com os desencarnados.
D. Modesta, lentamente, se transfigurava.
Respiração ofegante, mostrava-se num quadro de contida agitação, revelando o controle que o seu psiquismo exercia sobre o espírito comunicante; sim, porquanto o bom médium é o primeiro doutrinador da entidade que se manifesta por intermédio de suas faculdades...
— Onde é que estou?
Onde foi que me trouxeram?
Desde que ela veio, eu não mais pude ir...
Quem me prende nesta casa estranha?
Eu não sou louco! - falou o espírito do noivo desencarnado, no diálogo que se continuou:
Meu irmão, você está entre amigos - esclareci.
Não se preocupe.
Vamos conversar com calma.
— Com calma?...
De que maneira ter calma, se ela parece estar me traindo com outro?!
Não liga mais para mim, não me procura...
Sou eu que, ultimamente, vivo insistindo em nossa relação.
Percebo que ela me evita...
Por que não me fala às claras?
— Estamos aqui para intermediar um entendimento entre vocês...
— Nunca precisamos de intermediários...
Ela está jogando comigo. Quem é você?
Eu não o conheço, não fomos apresentados...
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 29, 2018 10:44 am

Como é que se atreve a abordar assim a vida particular das pessoas?
— Eu sou médico e a sua noiva me procurou...
— Médico?! Quem é que está doente?
Eu é que não sou...
Sofri um acidente besta, mas, graças a Deus, consegui sair ileso; aliás, tudo piorou entre nós dois a partir daquele acidente...
Ela ficou mais traumatizada do que eu e mudou completamente o seu comportamento.
Mas ela é minha e não abro mão; estávamos para nos casar e... convivíamos com certa intimidade.
Sinto falta dela, do calor dela, do cheiro do corpo dela.
Ninguém brinca assim com os sentimentos alheios!
Aqui, faço um parêntese na súmula do diálogo que estabeleci com o espírito do rapaz, para ressaltar as dificuldades que o espírito enfrenta no Mais Além, quando, evidentemente, deixa o corpo, sem noção da realidade.
A maioria perde a noção de espaço e de tempo situação dramática que pode se arrastar por longos meses ou vários anos, até que o espírito se dê conta do que lhe sucedeu.
A conscientização da Vida Espiritual é um dos grandes benefícios que o Espiritismo vem prestar à Humanidade.
Sem noção do que o aguarda depois da morte, o homem demanda as dimensões da Vida Mais Alta à semelhança de alguém que empreendesse viagem sem um roteiro de orientação.
Graças aos esclarecimentos da Doutrina Espírita, já são muitos os que aportam Deste Outro Lado com os olhos semi-descerrados para a Verdade.
— Você, meu irmão argumentei, retomando a conversa que entabulava com o jovem desencarnado -, talvez ainda não tenha avaliado melhor a sua real situação...
O acidente ao qual se refere pode ter lhe afectado o raciocínio.
Uma forte pancada na cabeça...
— Sim, recebi uma forte pancada na cabeça; o carro que eu dirigia bateu contra um poste...
Creio que tive um rápido cochilo ao volante, pois dirigi quase a noite inteira.
Devo ter sofrido um desmaio, mas recobrei logo os sentidos...
— E quando você despertou?
— Eu não estava mais lá; alguém deve ter me socorrido e, depois, vendo que nada de mais sério havia acontecido comigo, me largou...
Não sei o que houve com o carro.
— Quantos dias faz hoje do acidente?
— Pelos meus cálculos, uns três meses...
— Em que ano e mês estamos? -arrisquei perguntar.
—Creio que em 1958, agosto de 1958...
Qual o motivo da indagação?
Está querendo testar a minha memória?...
— Não, é que você está cometendo um equívoco.
De facto, a pancada que você recebeu na cabeça teve consequências mais sérias.
Eu sou médico e posso lhe afirmar isto.
— Equívoco?
— Sim, nós estamos no ano de 1961, outubro de 1961.
Você poderá consultar um calendário...
— Impossível, tenho no pulso um relógio que marca dia, mês e ano...
Você está tentando me ludibriar.
— Não, não estou.
E os ponteiros do seu relógio também se movimentam? - questionei, intuitivamente.
Quantas horas são?
— Os ponteiros devem ter se danificado.
Estão sempre marcando o mesmo horário: 22h 30...
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