Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 07, 2018 10:24 am

32º Capítulo - Incógnita
0 meu misterioso paciente estava de volta...
Chegou à minha casa num sábado à tarde, num desses sábados sem luminosidade, com excesso de nuvens escuras no firmamento.
Havia vários meses que eu não o via.
Da última vez em que conversamos, ao sair, ele me disse que o tratasse pela alcunha de “Legião”...
—Vamos entrar cumprimentei, sem receio.
Apesar de sua estranheza, “Legião” me parecia inofensivo; era apenas alguém querendo um ombro para desabafar...
Ora, eu escutava gente o dia inteiro:
os problemas da alma são muito mais diversificados que os problemas do corpo humano; a alma é um continente inexplorado, um universo muito maior que o próprio Universo...
— O senhor me desculpe pela demora involuntária explicou-se; tive alguns embaraços...
— Também, com tanta gente dentro de você... - brinquei.
— Como assim?
— Você não diz se chamar “Legião”?...
— E sou mesmo, Doutor - falou, acomodando-se na cadeira.
Cada dia eu me sinto diferente...
Não sei como pode ser isto.
— Estamos debaixo de várias influências retruquei, tentando aprofundar-me no diálogo que se estabeleceu.
Reagimos diversamente a cada uma delas...
Alguém afirmou que não existe ser mais singular e plural que o homem; aliás, é herança divina, pois Deus é Único, no entanto as suas faces são múltiplas...
— Às vezes, eu me elevo e... quase tomo um rumo na vida, porém, na maioria das vezes...
Vivem, Doutor, muitas pessoas comigo; não me sinto hora alguma eu mesmo...
— Você já ouviu falar em obsessão? - questionei.
— É claro que sim; não sou um completo ignorante das coisas espirituais...
Acredito perfeitamente na interferência negativa a que vivemos expostos.
— Interferência negativa e positiva - consertei.
A escolha é nossa...
O homem vive pela sua mente; é o pensamento que nos direcciona.
— Eu não creio que, comigo, o problema seja obsessão, pois não sinto qualquer influência perniciosa ao meu lado...
— 0 pensamento desconhece fronteiras; os que nos querem prejudicar podem fazê-lo a longa distância...
A prece é o pensamento benéfico que se projecta no espaço; para o que pensamos e sentimos, não existem dimensões e barreiras...
— Mesmo assim, Doutor, a dificuldade é comigo mesmo; sinto que é assim...
Nenhum obsessor precisaria perder tempo comigo.
Eu me transfiguro instantaneamente e não me controlo.
Como deve ter reparado, não sou agressivo e não me incomodo com os outros; vivo trancado em meu próprio mundo...
— Talvez o seu problema argumentei seja falta de objectivo na vida, falta de ideal...
— Não tenho ânimo algum; sou a apatia personificada...
— Depressão...
— Não creio; depressão, para o meu caso, é um termo muito vago...
— Traumas de vidas passadas; o espírito conserva reminiscências...
— Não sei...
Não sou daqueles que valorizam a Reencarnação.
Muitas vidas? É possível, mas o espírito é sempre o mesmo...
Eu quero ficar parado; detesto o chamado esforço de ascensão...
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 07, 2018 10:24 am

Subir para quê? Qual o objectivo de avançar?
— O Universo nos desafia; nada do que conhecemos permanece estagnado...
Tudo é movido por um anseio de expansão.
É lei natural da Vida...
— Morrer, renascer, morrer de novo e tornar a viver...
A Vida é somente dor; tudo me desagrada...
Nada vem de graça para ninguém.
A tristeza marca mais que a alegria.
Estamos condenados...
Melhor que não tivéssemos sido criados.
— Não fale assim.
Você está pensando, e pensar é uma faculdade extraordinária!
Sem saber, você está se buscando a cada momento...
Por que me procura?
— Para tentar entender ou...
— Ou?...
— ...desistir de vez, isolar-me em algum canto escuro e... dormir.
Ainda, Doutor, não desisti de morrer...
— Você pensa em suicídio?
— Não, não penso; sei que o suicídio não resolveria o meu problema, que não está no corpo, mas em minha própria essência...
Doutor, será que Deus é doente?
Deus sofreria de alguma patologia em seu Cérebro Divino?
— A sua pergunta vem a que propósito...
— De tudo; tenho a impressão de que Deus é um Ser insano que se diverte connosco...
Criou-nos e deixou-nos entregues...
Ora, viver não me interessa; a aspiração à completa inconsciência é que, para mim, seria verdadeiramente a felicidade...
Eu não durmo, não descanso não faço nada, mas não descanso...
O meu cérebro não me concede trégua.
Perambulo pelas ruas, conversando com os vivos e com os mortos...
— Com os mortos também? indaguei.
Você é médium?
— Não, não quis dizer isso; quis dizer que falo com todos e ninguém me responde...
Não há quem se interesse pelas minhas aflições.
Vocês, os espiritualistas, afirmam que a morte não existe...
Quem lhes disse?
Eu sou um moribundo, um moribundo...
— Você necessita de fé...
— Fé?! Os homens mentem...
Já frequentei quase todos os templos religiosos; não sou um completo ignorante, Doutor...
Apesar de minha aparência, eu sou velho...
— Quantos anos você tem? - perguntei, na esperança de amenizar o diálogo.
— Milhares!... - respondeu sem qualquer evasiva; cada eu dentro de mim é uma individualidade secular e somando-se uns aos outros...
Milhares, Doutor!
Eu tenho milhares de anos, no entanto o tempo não passa...
Sinto-me exausto.
— A vida depois da morte...
— ...é igual, sempre igual; a vida é sempre a mesma em toda parte...
— Quem lhe dá essa certeza?
Você já morreu alguma vez?
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 07, 2018 10:24 am

— Morro e revivo todos os dias...
— Por que não aquieta o pensamento?
Procure se ocupar das coisas simples...
Esqueça o Sol, pense no grão de areia.
Deixe de tantas cogitações...
— Não depende de mim; sou governado por eles não sei se eu sou eles ou se eles é que me constituem...
Sou homem, sou mulher; sou adulto, sou criança; sou treva, sou luz...
— Todos somos assim... retruquei.
Neste ponto, você não é diferente de ninguém; não temos ainda exacta consciência do que somos, ou seja, ainda não nos definimos...
— O senhor também se sente assim?
— É lógico. A insatisfação, quando não se transforma em mórbida condição, é um estado natural da criatura.
Jesus não veio trazer a paz, mas a espada...
— O que quer dizer?
— O Evangelho é o maior desafio que já foi lançado ao homem.
É a meta que devemos alcançar, permanente convite de auto-superação...
— Auto-superação de novo?
Eu não quero...
— Não quer, mas está se sentindo impelido para isto...
— Eu não queria voltar aqui...
— Não queria, mas veio...
— Os meus papos me trouxeram ou, por outra, alguém de mim me trouxe e me abandonou aqui...
— Com qual de vocês estou conversando agora? - interroguei, curioso.
Qual a sua tonalidade?...
— Nem eu sei...
Todos eles falam por mim e, por este motivo, não tenho nome, não tenho sexo, não tenho cor...
— O que você deseja de mim?
O seu caso é muito complicado...
— O senhor também vai desistir de mim?
- Meu filho, o único que lidou com sucesso
com uma legião foi Jesus Cristo!
Eu não tenho esse poder...
Sou apenas um médico.
— O senhor é mais que um médico...
— Certamente, sou espírita! - respondi.
— Mas eu não o procuro por ser médico ou por ser espírita...
— Por que, então? - indaguei, curioso.
— Pela sua sinceridade; o senhor não esconde os seus limites...
— E adiantaria? Sou o que sou...
— Está aí o que eu preciso aprender...
Quem sabe possa me ensinar?
Como o senhor faz para ser simplesmente o que é?
— Nunca pensei nisso...
— A resposta me serve...
Mais uma vez, o meu estranho paciente, me colocando no divã, trocava de posição comigo.
— O senhor me disse que tem defeitos...
—Muitos.
— Como lida com eles?
— Não lido...
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 07, 2018 10:24 am

Eu não estou preocupado com o Céu; não me preocupa ser anjo:
o meu objectivo na vida é resumido.
— Qual?
— Se eu conseguir não prejudicar o próximo e fazer pelos meus semelhantes o bem que me seja possível...
— Não aspira a ser mais, conforme me disse que precisamos aspirar?
— Certamente, mas não me desespero; quero voar, mas sei que não tenho asas e... pacientemente, espero que elas me cresçam nos ombros.
Não será comodismo, Doutor?
— Digamos que seja consciência de imperfeição...
O Céu está onde sempre esteve e não vai sair do lugar; um dia, eu o alcançarei...
Tenho muito ainda que fazer por aqui...
A Terra, apesar dos pesares, me agrada; adoro a visão das estrelas!...
— O que lhe dá essa serenidade?
— Sereno, eu?
Você não me conhece.
Eu sou um Vesúvio...
— Sim, de quando em quando, entra em erupção, mas não lança lavas...
— Como pode saber de mim, se não sabe de si? - questionei, interessado.
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 07, 2018 10:26 am

33º Capítulo - Legião e Eu
0 diálogo entre nós prosseguia com um mínimo de palavras.
— Eu o observo, Doutor; acompanho as suas publicações...
— Vive me espionando...
— Não é bem isto; todos nos observam e observamos a todos...
— Cercados por uma “nuvem de testemunhas”...
— Sei que o senhor é um homem bom.
— Ora, não me lisonjeie; não passo de um velho teimoso e...
— ...solitário completou.
— Vivo a sós com as minhas reflexões, impotente que me sinto para mudar em torno...
— E mudaria, se pudesse?
— Deus pode e não muda...
Creio que não.
— Deixaria tudo como está?
— As coisas devem seguir o seu curso, você não acha?
— Talvez eu aprenda a achar...
Sabe?, conversar com o senhor me faz bem.
— Meras palavras, meu caro; não podemos passar a Eternidade conversando...
Eu sei, o relógio...
— Daqui a pouco, terei palestra no Centro Espírita Uberabense; falarei para os jovens...
— O que vai abordar?
— Estou pensando nesta nossa conversa; é possível que eu me valha de algumas colocações...
O espírito sem perspectiva se perde no caminho. Falarei para uma plateia de jovens...
— Os jovens não cogitam de Filosofia; querem viver o momento...
—A Eternidade é constituída de momentos...
— O senhor recrimina a juventude?
— Eu não recrimino nada e ninguém; há muito tempo joguei fora ais minhas pedrais...
As minhas janelas são de vidro.
— Mas, e ais drogas, o alcoolismo, o sexo desvairado...
— “Tudo me é lícito, mas nem tudo me convém”; o Sanatório está repleto de casos de alcoolismo...
-E o sexo, Doutor?
— Encaro de um modo diferente; toda e qualquer permissividade é vício, e o vício suga as energias do espírito...
O pecado é aquilo que faz sofrer.
Sem respeito à felicidade alheia, ninguém é feliz.
— Quando o assunto é sexo, todo o mundo vacila...
— Eu não vacilo.
O que você quer saber?
— O senhor concorda que o sexo tenha apenas função reprodutora?
— Eu não concordo e nem discordo; não sou eu quem faz as leis, os usos e costumes...
— Qual a sua opinião pessoal?
— O que não é mal é bem.
O prazer compartilhado não é imoralidade.
O problema não é o sexo em si, mas as lesões que provoca no outro...
— E o marido que trai a esposa, ou vice-versa?
— Deveriam chegar a um consenso, liberando-se um do outro; casamento é compromisso espiritual, mas não escravidão...
— Muitos espíritas não pensam assim...
— O direito de pensar é meu.
O número de pacientes femininas internadas no Sanatório, insatisfeitas com o seu relacionamento conjugal, é grande...
Os homens fazem o que querem, e elas se sentem castradas.
No casamento que não deu certo, a mulher é sempre vítima.
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 07, 2018 10:27 am

Por que não lhe conceder o divórcio?
— O senhor está falando como médico ou como espírita?
Como ser humano; eu não sou fanático...
Sei que alguns companheiros contestam as minhas ideias.
Mas perguntei o que o assunto tem a ver com o seu caso especificamente? Você é um repórter disfarçado de paciente?
— Desculpe-me, Doutor.
Eu estava divagando...
Conversar com o senhor me faz esquecer de mim.
A espontaneidade com que o senhor se refere aos problemas de Vida, o senhor os reduz de tamanho...
— Para que dramatizar?
As coisas são simples.
Quem cai, deve se levantar e... pronto.
Não existe segredo. O jarro quebrou?
Tratemos de colar as suas partes...
Não é possível reconstituí-lo? Paciência.
— E o criminoso?
— É um irmão equivocado; é filho de Deus e, um dia, vai ser santo...
— A pena de morte?
— Inútil; o espírito sai do corpo e volta à Terra nas mesmas condições...
Se a morte não existe, a pena também não; se ninguém morre, ninguém mata...
O problema é de educação.
— E o governo?
— Um bando de safados...
(O que eu disse, à época, foi antes da ditadura militar que, por 21 anos, imperou no Brasil e, agora, o repito em pleno regime democrático; não quero complicações para os médiuns...)
— Como assim?...
— Os políticos deveriam ter mais preocupações sociais; a Igreja não se importa...
Padres e políticos sempre se entenderam; espíritos iguais no poder temporal e espiritual...
Responderão.
— De que forma?
— Reencarnarão e sofrerão na pele, literalmente; estão semeando para colher...
A Lei Divina é perfeita. A Reencarnação é que me faz acreditar em Deus repeti.
— Doutor, eu preciso ir anunciou o meu paciente, algo modificado.
— Agora que o assunto estava mais me agradando...
Pela primeira vez, Legião esboçou um sorriso.
— É uma pena disse-me.
— O quê?
— Talvez eu não volte mais...
Parte daquela minha amargura está indo embora; preciso tocar a vida...
— O que você faz? Nunca me disse nada a respeito...
— Até agora nada, mas farei doravante...
— Tem alguma profissão?
— Tive...
— Qual?
Eu escrevia.
— Tem obras publicadas?
— Alguns ensaios apenas; nada que tenha repercutido...
— E o seu sotaque?
— Eu já preciso ir, Doutor levantou-se, sem me responder.
— Mandarei, depois, o dinheiro da consulta...
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 07, 2018 10:27 am

— Ora, não se preocupe; hoje é sábado e eu, quando se trata de trabalhar no sábado, sou judeu...
O cliente de quem eu nunca consegui receber uma consulta, riu de novo.
— O senhor é um espírito notável; se eu o tivesse encontrado antes...
— ...teria me achado mais louco ainda respondi, interessado em vê-lo sorrir.
— Não, eu não creio...
— Quem me indicou a você?
Algum paciente que se tratou comigo?
— Alguém cujo nome não pude guardar...
Eu estava viajando e me expus para ele; o certo é que eu deveria ter vindo mais cedo...
— Você veio na hora certa; tudo que se antecipa aborta...
Estará melhor, não é? - perguntei, acompanhando-o até a porta.
— Estarei, Doutor redarguiu, reafirmando -; com certeza estarei.
Eu não sei dizer o que o senhor fez comigo...
— Nada...
— Talvez esse nada tenha sido tudo...
O senhor não me fez diagnóstico algum, não me rotulou, não me prescreveu um medicamento sequer, não me internou...
— Bem que pensei em interná-lo, mas você aparece e desaparece misteriosamente.
Legião sorriu e me estendeu a mão, sem mais aquela aparência tétrica de um morto fora do túmulo.
— Você não voltará mais mesmo?
Vou sentir falta de conversar com você...
— Quem sabe, um dia, eu torne a passar por aqui...
— Pretende viajar?
— Sim, viajar e pensar.
— E os “muitos” que convivem com você?
— Estou me sentindo vazio...
O senhor os exorcizou.
— Ora, exorcismo é coisa de padre; não me compare a menos...
— Adeus!...
— Até breve! respondi.
Estando na cidade, apareça para um café.
— Eu não tomo café há muitos anos...
— Por quê?
Ele pensou e respondeu, fechando o portão com suavidade.
— Gastrite, Doutor, gastrite!...
Fui até a cozinha e, como ainda me restavam alguns minutos, preparei um lanche para mim e... para os meus gatos, que hora alguma podiam me ver na cozinha.
Depois, voltando à minha mesa de trabalho, tentei colocar em ordem algumas anotações que fizera para a palestra daquele sábado.
Legião tomara preciosa parte do meu tempo e eu, que nunca fui muito de preparar palestra, estava um tanto perdido; o diálogo que mantivéramos não me saía da cabeça...
Então, olhando para as prateleiras da minha biblioteca que, aos poucos, o cupim ia destruindo, levantei-me para pegar um volume de uma colecção que eu mandara encadernar.
Quem sabe imaginei eu encontre aqui uma frase ou uma boa historieta com que ilustrar a conferência...
No entanto, quando abri o livreto, quase caí de costas:
um retrato a bico-de-pena, feito com tinta nanquim, era a reprodução exacta do rosto do meu paciente!...
“E. A. Poe” dizia o pequeno texto -, “morto em 1918, vitimado por alcoolismo.
Contista e poeta norte-americano que, infelizmente, nos deixou tão cedo aos 39 de idade;”
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 07, 2018 10:27 am

34º Capítulo - Edgar Alan Poe
Aproximadamente, quatro meses se passaram.
Apesar da semelhança entre o paciente que me visitara algumas vezes e o famoso escritor, eu não tinha certeza de que os dois fossem o mesmo e, por este motivo, nada comentei com ninguém, nem com D. Modesta.
Não queria que pensassem que eu estivesse alucinado e, depois, se, de facto, ele fosse o grande literato, aquele homem disfarçara bem, jamais fornecendo indícios que pudessem identificá-lo...
Uma vez ou outra, alguns questionamentos me acudiam ao cérebro:
Por que motivo eu fora escolhido?
Como ele viera de tão longe?
Expressava-se em português?
Há tanto tempo desencarnado, ainda não se encontra na vida de Além-Túmulo?
Seria possível o que acontecera, um agénere me consultar com certa frequência, tocar a campainha, entrar no meu gabinete e sentar-se comigo por longos minutos?...
Certa noite de quarta-feira, quando eu quase já havia esquecido o episódio, a médium amiga caiu em transe e, após prolongado silêncio, a entidade começou a falar:
— Alguém aqui me conhece; estive com ele recentemente e estou voltando para agradecer...
Os meus pêlos se eriçaram e, de imediato, me veio a lembrança daquele homem que, desde o nosso primeiro diálogo, eu achara enigmático.
— Sou eu mesmo - prosseguiu.
Sou, Doutor, quem o senhor está imaginando.
Eu sou o homem do almanaque, naquele retrato talhado a bico-de-pena...
Não se assuste.
Perambulei, sem rumo, por várias décadas.
Fui criado sem pai e sem mãe.
Não sei dizer como em mim se manifestou o pendor literário...
A inspiração cresceu ao lado dos reveses que enfrentei na vida, mas, na maioria das vezes, eu escrevia sob os efeitos do álcool; não pude me controlar e, desencantado, deixei o mundo...
Os críticos reverenciavam os meus escritos, no entanto nunca fui feliz; reconheço que, apesar do valor literário das minhas páginas, escrevi inutilidades contos e poemas que apenas repercutiram à sua época e nada que edificasse o espírito...
O que fui não corresponde à fama que desfruto.
Quis esquecer e fugir do cenário de tantas desilusões...
Fora do corpo, a revolta se me acrescentou e sequer pude me aproximar de alguém para, de maneira indirecta, continuar escrevendo...
Ninguém me hospedava o pensamento.
Estive na França, na Espanha, em Portugal.
Queria libertar-me!
A existência finda no corpo transitório me marcara profundamente.
De que me valiam a Literatura e o reconhecimento dos críticos, se eu desconhecia paz?
Os ouropéis do mundo nada valem deste Outro Lado da Vida!...
Com a voz embargada e expressando-se com naturalidade, Poe sintetizava o seu drama:
— Encontrei amigos e conhecidos nos novos e diferentes caminhos que fora chamado a percorrer.
Quase todos, porém, estavam na minha mesma condição; poucos os que haviam se cultivado para os frutos sazonados do porvir...
A Religião é uma farsa. Desculpem-me a sinceridade.
O ritual sufoca o espírito; o excesso de formalidade compromete a Mensagem...
Os homens transformaram os interesses de Deus em transacções do Diabo.
Descri de tudo; nem a morte e a constatação de que a vida não cessa no túmulo foram suficientes para arrancar-me àquela cruel depressão...
Ouvi falar do senhor, um médico que, no Brasil, dirigia um hospital de dementes.
Fui a Espanha...
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 07, 2018 10:27 am

Um dos livros que o senhor escreveu chegou por lá; não sei como, mas escapou de ser incinerado nas fogueiras da intolerância religiosa creio que por trazer o selo de obra científica.
Um dia, aproximei-me de dois senhores que conversavam à porta de uma casa.
— “A Psiquiatria se ilumina com a tese da Reencarnação” comentava o primeiro.
— “Fale mais baixo pedia o segundo se algum membro do Clero nos escutar...”
— “Você tem razão, mas a obra do Dr. Inácio Ferreira tem carácter científico; ele dirige um hospital psiquiátrico no Brasil e tem tratado com êxito muitos pacientes...”
— “Ah, se pudéssemos conhecê-lo...
Tenho uma prima que, para mim, vive possuída.
Os meus tios sofrem muito com ela, no entanto estamos desprovidos de recursos financeiros.
A viagem teria que ser feita de navio e, depois, o Brasil é qual um continente...
Ao que estou informado, o Dr. Inácio mora no interior de um Estado que não possui porto marítimo.
— “Escrevamos para ele; quem sabe através de carta possa nos orientar...
Os métodos dele são interessantes.”
— “Não podemos confiar; o regime político em que estamos vivendo é ditatorial quase todas as cartas para o Exterior são violadas...
O Clero controla tudo.
As obras de seu mestre, um francês que adoptou o pseudónimo de Allan Kardec, foram queimadas em Barcelona...”
— “É uma pena! - lamentou um dos interlocutores.
Como você conseguiu o exemplar do livro que tem nas mãos?”
— “Um amigo de Portugal que nos veio visitar me presenteou.
Ele sabe do meu interesse pelas coisas concernentes à vida além da morte e que sou um coleccionador de obras raras de cunho espiritualista...
Arriscou-se; se fosse pego, teria que se explicar...”
— “No Brasil impera a liberdade de crença?”
— “A Igreja exerce pressão, mas... Um país cujo território é quase do tamanho dos Estados Unidos é difícil de ser controlado.”
Após rápido intervalo, o poeta norte-americano desencarnado, continuou:
— Ouvindo, atento, o que ambos diziam, manifestou-se em mim a vontade de viajar e respirar outros ares.
Como, todavia, fazê-lo? O meu corpo espiritual, pesado, ainda me mantinha de pés presos ao solo...
Eu desconhecia, como ainda em parte desconheço, a chamada faculdade de volitação.
Não tenho a mente ágil para vencer a força gravitacional.
Digo ao senhor que viajei para o Brasil, como se de corpo físico eu ainda fosse provido...
Fui para o porto e procurei descobrir qual o navio para a América do Sul.
Cheguei ao Rio de Janeiro e... não me sentia bem.
Caminhei pelas ruas feito um mendigo e dormia ao relento; de quando em quando, com fome e com sede, eu me aproximava de alguém...
Aquilo tudo para mim era um pesadelo imaginação sobreexcitada de um escritor que ganhara notoriedade, mas morrera pobre...
Depois de quase um mês assim, ouvi falar de “Federação Espírita Brasileira” e anotei o endereço.
A narrativa, interessante, não me permitia intervir na condição de doutrinador.
O espírito falava calmo e não havia necessidade de que eu o interrompesse, pois, além do mais, já havíamos conversado antes o suficiente.
— Da “Federação” não me foi difícil chegar até aqui; o senhor é bastante conhecido por lá, e um dos espíritos que transitavam lá dentro me orientou ofereceu-me auxílio, mas eu não quis; todo escritor é mais ou menos determinado...
Eu queria conhecê-lo e, se possível, dialogar.
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 07, 2018 10:28 am

Fui para a rodoviária e pude ler, em um dos ônibus, o nome da cidade em que o senhor reside: “Uberaba”.
Acomodei-me ao lado de um passageiro que fumava um cachimbo e o resto foi fácil.
Fui de hospital em hospital até encontrar o Sanatório que dirige; no entanto, não me deixaram entrar de imediato; eu não contava com a segurança, mas esperei-o lá fora e, quando o senhor tomou o carro, aboletei-me na cabine e desci nas imediações de sua residência naquela avenida por onde passa um córrego.
Como fazer, porém?
No trajecto, eu falava com o senhor, mas as minhas palavras soavam sem eco...
Toquei-o, no entanto não era percebido...
Durante vários dias, fiquei estudando um processo.
Até que, certa vez...
0 que vou lhes dizer em seguida caros leitores -, ficará a critério de vocês aceitarem ou não.
Devo ser fiel à verdade dos fatos.
Prosseguindo pela voz da médium, o célebre criador do romance policial contou:
— Observando-me as tentativas frustradas de contactá-lo, um desconhecido me orientou:
— “Por que você não se materializa?
Não é tão difícil assim...
É só conseguir ectoplasma...”
— Ora explicou a entidade -, eu jamais havia ouvido falar de ectoplasma...
“Que substância é esta?” perguntei, sem me dar conta, como das vezes anteriores, do idioma em que eu estava me expressando: eu pensava em inglês e ele entendia em português, exactamente, Doutor, como está acontecendo agora.
— “Ectoplasma respondeu-me é fluido animal; se você conseguir quantidade suficiente para se revestir, poderá se tornar visível..
— De que maneira obtê-lo? - quis saber, curioso.
— ‘Através de um doador vivo ou... morto.”
— Morto?—questionei, duvidando que aquela história toda fosse verdade.
— “Sim, no cemitério...”
— Poderei encontrar tal substância materializante no cemitério?
— “Não nos corpos em adiantado estado de decomposição, mas nos que morreram recentes...”
— E o que devo fazer?
— “Mentalize, plasme-se...” falou o espírito, que se retirou.
— Quase a desanimar (Poe deu sequência à inusitada narrativa), localizei o cemitério e me pus a esperar um enterro.
Foi difícil, pois não me consentiam me aproximar de certos cadáveres...
Algumas entidades que não falavam comigo dispersavam uma matéria brilhante na atmosfera e os cadáveres ficavam vazios.
“Aquilo é ectoplasma” pensei. Depois disso, um enterro com quase nenhum acompanhamento chegou ao cemitério...
O corpo inanimado era o de um homem que, bêbado, havia caído de um andaime; espessa substância leitosa ainda lhe escapava abundante, dos orifícios e, inclusive, dos poros, a praticamente envolver-lhe toda a forma física...
Dele, curiosamente, eu pude me aproximar sem qualquer embaraço e, após o seu corpo ter descido à cova rasa, postei-me ao seu lado e, com as mãos, comecei a me cobrir com aquele tecido gaseificado...
O meu desespero era tamanho, Doutor, que eu o introduzia na boca, eu o inalava através das narinas, como se eu fosse um paciente hospitalizado recebendo uma transfusão de sangue...
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Ave sem Ninho

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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 08, 2018 11:07 am

35º Capítulo - Materialismo
— Aos poucos, sem que eu pudesse explicar o fenómeno prosseguiu dizendo fui tomando forma humana, ou melhor, retomando-a...
Era interessante observar.
Felizmente, não havia ninguém por perto...
A imagem que eu conservava de mim era tão forte em minha mente, que, devagar, fui reconstituindo, com a força do pensamento, detalhe a detalhe, inclusive apropria indumentária aquela que, de hábito, eu envergava em meus derradeiros dias no corpo quando, infelizmente, tombei vítima do alcoolismo.
Quando a metamorfose se completou, a minha primeira iniciativa foi a de procurar um espelho eu queria me ver...
Saí do túmulo no qual praticamente me encontrava mergulhado e, percebendo um carro estacionado à porta do campo santo, me fitei no seu retrovisor externo era eu, sem tirar nem pôr!
De imediato, acudiu-me uma ideia à cabeça:
— “Que bom seria, se eu pudesse, sempre, me conservar assim; este corpo certamente não adoece e... não morre, não estando sujeito às vicissitudes do corpo feito de carne...
Talvez seja este o estado de perfeita imortalidade a que todos os homens aspiram”...
De certa maneira, inclusive, eu me remoçara e aquelas indisposições orgânicas haviam desaparecido.
Mas infelizmente, notei, doutor, que se eu me demorasse exposto ao Sol, os seus raios como que, lentamente, desintegravam a substância ectoplásmica que me revestia, devolvendo os seus elementos ao laboratório da Natureza; se tal não ocorresse, aquele estado, digamos, intermediário entre a vida e a morte do corpo, seria o ideal...
A narrativa de Poe me surpreendia; eu nunca havia lido nada parecido a respeito na extensa bibliografia espírita especializada.
Com voz pausada e firme, o poeta desencarnado continuou o interessante depoimento.
— Por este motivo, doutor, eu o procurava sempre nos dias de chuva ou nas tardes sem Sol, quase escurecendo, e não podia prolongar as consultas excessivamente...
Se, por vezes, demorava a aparecer para um novo diálogo, é que o ectoplasma não é tão fácil de obter assim; de facto, todas as criaturas encarnadas o possuem em estado natural, mas apenas o liberam em condições especiais e, mesmo assim, nem sempre na quantidade suficiente para sustentar uma materialização completa e de longo curso.
Tentei manipulá-lo junto a algumas pessoas, todavia, não fui bem sucedido; o máximo que consegui foi uma materialização parcial da minha face ou de um dos meus membros uma materialização fugaz, impossível de ser sustentada pelo tempo que me era indispensável ao que eu me propunha fazer.
A comunicação da entidade já se estendia por quase uma hora e comecei a perceber que D. Modesta se desgastava; não era prudente que avançássemos...
Valendo-me de uma pausa que se fez espontânea, observei:
— Meu amigo, o nosso tempo está se esgotando...
— Sei disto, Doutor redarguiu -, e, por este motivo, tentei sintetizar...
— Sintetizando, você nos ofereceu muito material para reflexão; é quase inacreditável...
Mas é real. E não pensem que seja somente eu a “explorar” os cadáveres em busca da substância que nos vitaliza; muitos a desejam apenas em quantidade suficiente para que possam desfrutar dos prazeres que a matéria proporciona dos prazeres que a morte nos subtraiu...
— Não existem prazeres desse Outro Lado? questionei.
— Não é a mesma coisa, Doutor; quanto mais material, mais o prazer é prazer...
— Não deveria ser o contrário?
— Para os que se angelizaram, sim; para nós outros, não...
Ainda não aprendemos a perceber sem os sentidos físicos.
Por exemplo, em matéria de sexo, o que nos interessa é o orgasmo, seguido da ejaculação...
— Como?! - exclamei, duvidando.
— Materializados, podemos, sim, ejacular, Doutor...
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 08, 2018 11:07 am

Infelizmente, não me é permitido descrever-lhes uma experiência que tive aqui mesmo, na zona do meretrício.
— Você se relacionou sexualmente?...
— Não inteiramente corporificado; tangibilizei-me o suficiente para deitar ao lado de uma mulher e fazê-la sentir o que sente quando em contacto com a pele de um homem ambos atingimos o orgasmo e, depois de muito tempo, me senti ejaculando...
— Espírito não tem esperma; espírito não reproduz...
É um assunto que transcende o meu e o seu entendimento... Deus é espírito e, no entanto...
— No entanto, o quê?... retruquei, não conseguindo conter a curiosidade.
— Criou tudo o que existe, não é?
Eu nada sei, Doutor, mas lhe faço uma indagação:
Como é que de Deus, que todas as filosofias religiosas proclamam ser a Quintessência do Universo, o Etéreo Criador, o que é material poderia ter se originado?
— Não sei responder...
—Acredito que ninguém saiba.
Ora, se assim é, não descreia da capacidade reprodutora dos mortos...
A gestação humana pode não existir por aqui, mas o sexo existe.
— Você convidei poderia voltar para darmos sequência ao assunto...
Você não é um espírito comum; apesar dos pesares, a sua bagagem intelectual é considerável...
—Vivi muito, Doutor, e aproveitei pouco.
Sinto que algo me atrai para a minha terra, embora, se pudesse escolher, gostaria de reencarnar no Brasil...
— Não seria difícil conseguir pai e mãe por aqui... - aleguei.
Sua capacidade e seu talento nos interessariam; o nosso país está precisando de apurar a genética, favorecendo o renascimento de entidades que nos impulsionem o progresso...
O grande E. A. Poe seria bem-vindo!
— Vocês talvez estejam necessitando de intelectualidade, mas nós, por lá, estamos carecendo de espiritualidade; quem sabe, em reencarnando daqui a algum tempo, eu consiga me ocupar da Literatura com maior proveito e favorecer aquela comunidade de espíritos...
— Está aprendendo depressa...
— Eu os ouço há muito e, agora, escutarei os Instrutores que, deste Outro Lado, ensinam apenas aqueles que desejam aprender...
Em nosso país, Doutor, a colonização espiritual é diferente; as dimensões imediatas à morte do corpo são ainda controladas por interesses imediatistas; a nossa formação religiosa predominante nos impede de raciocinar em termos de fé...
— “A letra mata, o espírito vivifica” B repeti.
— Agradeço a sua atenção - disse ao se despedir.
Quem sabe, eu organize grupo e venhamos visitá-los...
— Desde que um bando de agéneres não me procure... brinquei.
— Não, aquela experiência ficou para trás; cemitério não me atrai mais e muito menos cadáveres...
— Que Deus o abençoe em seus propósitos, meu irmão.
— Até qualquer tempo, em qualquer parte, Doutor.
Antes, porém, de sair, gostaria de lhe fazer um último pedido...
— Se eu puder atendê-lo...
— Eu queria dar-lhe um abraço...
A médium, acomodada rente à cadeira que eu ocupava na mesa, se colocou de pé e eu pude, fraternalmente, abraçar E. A. Poe!
— Adeus, Doutor!...
As palavras em resposta morreram na minha garganta.
Esperei quase cinco minutos para me refazer da forte emoção e tomar as providências finais de encerramento da reunião.
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 08, 2018 11:07 am

Aquela fora uma das mais lídimas provas que eu obtinha da imortalidade.
Quando tornou a si, a médium estava extenuada; seu desgaste psíquico fora muito grande naquela noite...
— Um espírito admirável ele, não é, Inácio? - perguntou, procurando devolver a naturalidade ao ambiente de nossa reunião.
— Custa-me crer que tenha se frustrado tanto e realizado aquém de suas possibilidades...
— Certos espíritos disse D. Modesta são capazes, mas, quando reencarnam, o assédio espiritual sobre eles é muito grande; pressentindo-lhes a capacidade de realizar, os obsessores procuram comprometê-los...
Creio ter sido o caso do nosso poeta que se comunicou nesta noite.
Reencarnou atormentado, viveu atormentado, desencarnou atormentado e atormentado estava...
Algumas inteligências, inexplicavelmente, só produzem assim debaixo de provas acerbas.
— Então, se assemelham aos médiuns sentenciei, para descontrair.
— O médium, Inácio, é uma força cega; sem que a lâmina se atrite, ela não corta...
No médium que não sofre na infância, na adolescência ou na Juventude, a mediunidade é artificial.
— Deveríamos, então, Modesta, instituir o Dia Nacional do Sofrimento dos Médiuns...
Eu me candidato a fazê-los sofrer!...
— Você não toma jeito, Inácio!
— Se, para ser médium, tiver que sofrer, eu não quero ser médium...
— Ser médium é inevitável e... sofrer também.
— Então, eu fico com a mediunidade e vocês ficam com o sofrimento...
— Quem colhe a rosa, colhe o espinho encerrou a nobre dama de caridade, já um pouco mais refeita.
— Olhem o chá quente de canela! anunciou uma de nossas irmãs que, providencialmente, tinha ido até à cozinha.
— Eu prefiro café disse.
— O café virá em seguida, Doutor.
— Inácio, você não prefere o café foi a vez de D. Modesta me chatear você prefere o que acompanha o café...
— Como é que você sabe que eu estou louco para acender um pito?
— Não é preciso ser médium para isto...
Eram assim as nossas reuniões mediúnicas no Sanatório: sérias e descontraídas, fraternas e esclarecedoras...
Infelizmente, tempos que já se foram!
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 08, 2018 11:08 am

36º Capítulo - Causas da Aflições
Em minha condição de médico espírita, mais espírita do que médico, sempre procurei enfatizar da tribuna, nos meus escritos ou junto aos meus pacientes, que nem todas as provas e lutas que faceamos têm a sua causa no passado; o carma é atitude de todo dia...
Evidentemente que as nossas imperfeições estão na base das experiências que vivenciamos a Vida não comete injustiça com ninguém; quem sofre é porque necessita aprender; sem o concurso da dor, o homem não avançaria...
No entanto, não podemos fugir à realidade de que, se o ontem se reflecte sobre o hoje, o hoje atenua ou agrava o ontem...
O destino, por assim dizer, não é uma construção definitiva; temos, nas mãos, o projecto do que somos e do que seremos.
As decisões que tomamos no presente, as nossas opções, escolhas e preferências é que dão ensejo a que muitos males se nos compliquem, dando origem a novos e, por vezes, mais graves padecimentos.
Ninguém reencarna para agir compulsivamente; logo, não podemos culpar o passado pela nossa viciação de espírito...
Quando retomamos o corpo, o fazemos ante a justa expectativa das Leis que nos governam de que melhoraremos.
Digo-lhes que, dos meus pacientes no Sanatório, muitos poderiam ter evitado a internação ou a cronificação de suas provas, caso eles mesmos tivessem tomado um outro caminho ou contassem, desde a infância, com o auxílio de quem, por eles, verdadeiramente se interessasse.
A indiferença dos familiares o seu descaso afectivo segundo eu podia constatar, era a causa determinante ou, me expressando melhor, coadjuvante, nos quadros psiquiátricos e espirituais que se complicavam para a maioria dos meus pacientes.
Em alguns familiares, inclusive, que acompanhavam os seus entes queridos nas consultas, eu constatava uma certa aversão psicológica pelo doente, como se ele lhes fosse obstáculo à felicidade e à paz social: os cuidados iniciais, quando existiam, acabavam cedendo lugar ao ressentimento, ao desânimo, à sensação de fracasso...
Então, eu verificava que aquele enfermo como que viera de encomenda para quebrar o orgulho da família; sim, porque, quando tudo está bem connosco, não sabemos quem somos e do que somos capazes.
Certas famílias bem-postas na sociedade, com status, dinheiro e prestígio, tinham vergonha de exibir os seus doentes, as suas “ovelhas negras”...
A Sabedoria Divina se manifesta de todas as formas, com o propósito de nos educar.
De muitos pais e filhos, chegávamos a receber propostas financeiras vultosas para albergarmos no Sanatório, em definitivo, os filhos e os pais problemáticos.
— Isto aqui não é pensão respondia a uns e a outros; os pacientes não nos pertencem.
O carma diz respeito a vocês e não a nós, que temos aqueles que nos são próprios...
Aproveitem a oportunidade para um melhor relacionamento afectivo; não ignorem os que hoje sofrem mais, porque, amanhã, vocês poderão estar em idêntica situação...
Quase sempre, no entanto, a minha voz, pelo menos neste sentido, ecoava como a de João Batista, o Precursor:
clamava no deserto dos corações endurecidos.
Raros aqueles que polemizavam comigo conheciam a minha têmpora -, todavia simplesmente ignoravam as minhas colocações.
Deixavam o doente sob os nossos cuidados e... quase que os esqueciam connosco; às vezes, para dar alta a um paciente, eu precisava recorrer à polícia, com o propósito de obrigar os responsáveis por ele a buscá-lo.
Aos poucos, fui entendendo que, de facto, não existe processo cármico isolado; somos instrumentos de purificação uns para os outros e simplesmente a presença de um desequilibrado mental ou desajustado social na família é factor indispensável ao progresso de todo o grupo.
Muitos cientistas e pesquisadores chegaram a importantes descobertas médicas, incentivados pelas próprias limitações de carácter físico ou daqueles que lhes eram da maior estima.
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 08, 2018 11:08 am

O mundo deve à Dor o mesmo que deve ao Amor.
Creio não ser temerária esta minha afirmação e espero que ninguém a interprete ao modo dos protestantes, ou seja, ao pé da letra.
O Amor nos tutela na caminhada, mas é a Dor que nos leva a avançar.
Doutor, o que faço com o meu filho? - perguntava-me um pai aflito.
Está com 25 de idade e não quer trabalhar; dorme a manhã toda e, à tarde, perambula pela cidade...
À noite, ninguém o aguenta dentro de casa: bate portas e janelas, ouve rádio na maior altura e fala palavrões, fica agressivo...
— Que providências tomarei com a minha mãe, Doutor? - indagava-me uma filha.
Eu me casei, mas o meu esposo não a quer mais na nossa casa; nenhum dos meus irmãos a assume.
A minha mãe é doente há muitos anos...
O meu casamento está ameaçado.
— Doutor dizia-me um neto o meu avô está esclerosado; a minha avó morreu e ele veio morar connosco...
Suja a casa inteira.
Rima sem parar e queima os lençóis da cama; quase que incendiou o quarto!...
Eu tenho que trabalhar e não posso olhá-lo.
A minha mãe, que é viúva, quebrou a perna e se movimenta com dificuldade...
— A minha filha é esquizofrénica, Doutor queixava-me uma senhora.
Somos eu e ela dentro de casa e o meu segundo marido; precisei me casar de novo...
Sinto o interesse do meu esposo por ela; percebo os olhos dele percorrendo o corpo dela...
O que devo fazer?
Internar a menina ou mandar embora o homem que trata de nós?...
Eu não tenho qualquer renda...
— O meu irmão morreu e deixou-me por herança um sobrinho problemático.
Rima maconha, bebe e anda com más companhias explicava-me um tio desanimado.
Quer dinheiro toda semana e vive dizendo que enganei o pai dele, que era meu sócio numa empresa...
Tenho vergonha dos vizinhos; ele não me respeita, mas a consciência não me permite mandá-lo embora...
Vive dando maus exemplos para os meus filhos.
— A minha esposa enlouqueceu; não tive culpa...
Desde que nos casamos, nunca combinamos; ela me evitava na cama e acabei arrumando uma amante...
Contaram para ela que, por duas vezes, tentou se matar.
Toma muitos remédios controlados, mas não adianta.
Eu não deixo faltar nada em casa, mas não tenho paz; queria me separar...
Problemas semelhantes eu enfrentava no meu consultório ou no Sanatório todos os dias todos queriam um remédio, uma solução, mas ninguém ou, para não ser tão extremista, quase ninguém queria ouvir falar de perdão, de renúncia, de paciência...
Preferiam a doença do corpo à da alma, porque a doença do corpo pode ser tratada com base de comprimidos e injecções, mas a da alma exige uma mais efectiva participação do doente no processo de cura. Quando, então, eu aventava a hipótese da obsessão, da interferência maléfica dos desencarnados, na maioria das vezes faziam ouvidos moucos, porque sabiam que o Espiritismo não é uma crença de comodistas; preferiam a prece sem acção, o culto religioso que lhes prometia a graça do Alto, sem que nada tivessem que fazer para merecê-la...
Confesso-lhes que era extremamente difícil lavrar num terreno assim espiritualmente árido; todavia, com o pensamento de que outrora recentemente eu não diferia muito deles os meus pacientes psiquiátricos não consentia que a angústia me dominasse e nem que o desalento me fizesse cruzar os braços.
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 08, 2018 11:09 am

Quando, não raro, um caso ou outro me deprimia, pela minha absoluta incapacidade de solucioná-lo, acendia um cigarro e, vendo-o queimar por entre os meus dedos, dizia para que eu mesmo escutasse:
— Tudo fumaça que passa!...
0 tempo na existência física não é tão longo assim; vale a pena aguentar qualquer prova, sem ceder às artimanhas do Mal...
O desejo é um minuto fugaz; a ambição de se ter, quando se tem, acaba; a tristeza de agora não se eterniza; a dor mais lancinante não doerá para sempre...
Percorrendo os corredores do Sanatório e ouvindo os internos, no que diziam, à minha passagem, eu concluía:
— Tenho aqui dentro uma amostragem do homem no mundo; o homem, em qualquer parte da Terra, é sempre o mesmo...
A cultura e os hábitos podem ser diferentes, mas o anseio não muda cada qual imagina que Deus criou no Universo um palco somente para si próprio e todos não passam de meros figurantes na peça em que ele se sente o actor principal!
Esta também era a minha dificuldade:
anular-me e não pretender que o Sol me elegesse como o centro de sua órbita no Cosmo!
Quanto mais conseguisse me apequenar, mais conseguiria realmente superar-me não ser mais que os outros, mas, sim, mais que eu mesmo.
Todavia, como é difícil viver com sinceridade!
Creio até que ainda não possuímos sanidade mental para sermos inteiramente bons...
O Amor, em quem não está preparado para amar ou ser amado, pode levar à loucura. Espero que eu esteja sendo compreendido.
A renúncia de um Francisco de Assis, por exemplo, induziu à perturbação os que, espiritualmente, não se colocaram à altura de compreendê-la...
Os que querem se fazer santos da noite para o dia ensandecem.
Eu já tratara de pacientes assim; escolhendo o caminho da santidade plena, abdicavam de tudo dinheiro, conforto, vida sexual activa...
Os que não se transfiguraram em intolerantes e intoleráveis moralistas, pregando o advento do Reino de Deus pelas ruas, iam parar no Sanatório em lastimável situação.
Era, pois, melhor não ter pressa pecar sem extremismo e ser virtuoso com moderação; avançar sempre, mas um passo atrás do outro e não pretender tomar o Céu de assalto...
Pelas comunicações mediúnicas através de D. Maria Modesto Cravo e de outros médiuns que serviam no anonimato aos propósitos da Doutrina, eu constatava que a morte, em verdade, não representava solução alguma para o magno problema da Vida, que, indiferente ao decesso físico do homem, prosseguia vertiginosa e sem alteração...
O homem não passava de uma poeira pensante que, por momentos, pousara na Terra, um dos últimos degraus da Escada do Infinito que lhe compete escalar na Imensidão!...
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 08, 2018 11:09 am

37º Capítulo - Conspiração de Fé
Não era comum que Odilon Fernandes me visitasse em minha casa; assoberbado tanto quanto eu pelas actividades profissionais e doutrinárias, apenas de quando em quando o ilustre confrade me concedia a alegria da visita.
Naquela manhã, valendo-se do feriado, Odilon apareceu e pudemos conversar.
Entre o “Sanatório”, que eu dirigia, e a “Casa do Cinza”, templo espírita erguido por ele em memória de seu digno pai, o Sr. Ludovice Fernandes, apelidado Cinza, estabelecia-se uma espécie de ponte espiritual que também se estendia ao Centro Espírita Uberabense, casa máter da Doutrina em Uberaba, fundado pelo saudoso Prof. João Augusto Chaves, um dos homens mais íntegros e operosos que conheci em toda a minha vida; D. Modesta e outros companheiros do Sanatório igualmente frequentavam o Uberabense, do qual nosso hospital é Departamento antigamente, os espíritas eram unidos e não eram dados aos assuntos menos edificantes entre si e que vulgarmente se rotula de fofocas.
Os adversários de nossa fé não nos concediam tréguas e, portanto, não tínhamos tempo para reparar nos erros uns dos outros; carecíamos de ser fortes para enfrentar a oposição que nos espreitava em nossos menores movimentos quase ao contrário de hoje, em que ficamos relegados a nós mesmos para as atitudes de intolerância que cometemos e as arbitrariedades com que vitimamos os irmãos de ideal, a pretexto de servir a Causa que, assim, na verdade, desservimos.
Odilon, que além de espírita era maçon, como eu, saudou-me com o seu costumeiro sorriso e entramos a conversar sobre o tema de sua e minha preferência: mediunidade.
Permutando impressões quanto às actividades mediúnicas do Sanatório e da “Casa do Cinza”, o referido confrade considerou:
— Dr. Inácio, os médiuns necessitariam se compenetrar mais de sua responsabilidade e de sua importância para a Doutrina; ninguém é insubstituível ou imprescindível, mas graças aos medianeiros é que o Mundo Espiritual consegue se fazer presente na Terra...
A mediunidade sem orientação da Doutrina é obsessão. Médiuns existem em toda parte e em todas as religiões, todavia muitos deles estão a serviço dos espíritos que lutam para manter o homem cativo da ignorância -a mediunidade, em muitos segmentos religiosos tem sido instrumento de descrença!
É propósito dos espíritos vinculados ao Mal que a criatura encarnada desacredite de sua própria sobrevivência...
— É uma espécie de conspiração das trevas, não é, Odilon?
O que deveria ser instrumento de fé a mediunidade passa a ser instrumento de descrença...
A mesma táctica tem sido tentada com os médiuns espíritas; procurando expô-los ao ridículo e envolvê-los em escândalos, o que os espíritos obsessores pretendem é impedir o avanço do Espiritismo.
As pessoas, de modo geral, não possuem discernimento e não separam o joio do trigo...
— Fazem, Doutor, questão de não separar...
Kardec nos adverte, em “O Livro dos Espíritos”, que a Doutrina, para se tornar uma crença de carácter geral, ainda terá grandes lutas a sustentar mais contra os interesses do que contra as convicções.
Muitos se decepcionam com o Cristianismo porque se decepcionaram com os cristãos...
— Ao invés de tomarem o Cristo por único parâmetro de suas acções, depositaram injustificadas e excessivas expectativas nos seus seguidores, esquecidos de que todos nós, os adeptos do Evangelho de ontem e de hoje, nos encontramos debaixo de lutas que ainda
não logramos superar e, com certeza, infelizmente, estamos longe de vencer em nossa indispensável renovação...
A Doutrina é inatacável, mas os que engrossamos as suas fileiras somos frágeis...
— Justamente por isto, Odilon, é que os médiuns e dirigentes espíritas são o alvo preferencial das trevas...
Tenho, de minha parte, sentido o assédio na pele; as tramas urdidas pelos espíritos inimigos da Doutrina para me derrubar são impressionantes os seus detalhes são apenas percebidos por mim e, se me dispuser a narrá-los a alguém, dirão que é excesso de imaginação...
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 08, 2018 11:09 am

Observo, diuturnamente, a movimentação das sombras e procuro me conservar vigilante:
sei que não é a mim que elas querem, mas, sim, o que eu possa representar para a Doutrina...
— Comigo, Doutor, não tem sido diferente, e o curioso é que os espíritos que pretendem nos atingir, quando não conseguem fazê-lo directamente, voltam-se contra os que são objectos de nossas mais caras afeições os familiares que nos representam na sociedade em que vivemos...
— Tenho ouvido as queixas de muitos companheiros neste sentido; dentro de casa, no seio da família, não alcançam o êxito espiritual que alcançam junto a estranhos ou aos frequentadores dos centros que, por eles, são preleccionados da tribuna...
Cônjuges que se conflituam em nome da religião, filhos o calcanhar de Aquiles dos pais que crescem e se desgarram da orientação moral recebida, preconceitos que se exacerbam criando um clima de intolerância...
— Os médiuns ainda não se conscientizaram: a maioria quer exercer a mediunidade para si mesmos e não para o ideal que abraçaram...
Querem se relacionar com a Espiritualidade para atender aos seus interesses, esquecidos de que são chamados a um compromisso maior.
Sem o trabalho consciente e responsável dos medianeiros, os Espíritos Superiores se vêem impedidos de cooperar connosco...
Os obsidiados são médiuns em tempo integral dos espíritos obsessores, mas os que poderiam ser intérpretes da luz do Mais Além para os homens na Terra não se dispõem a tanto alegam falta de tempo, compromissos profissionais, insegurança no trato com a mediunidade, não cultivam a disciplina e, sobretudo, com excessiva crítica a si mesmos, acabam se anulando...
—Você tocou num ponto importante, Odilon.
De facto, tenho visto médiuns portadores de excelentes faculdades que recuam não querem se expor; dizem que não são missionários e que não se encontram à altura...
Ora, à altura ninguém efectivamente está.
Os médiuns são seres humanos e não anjos...
— É vaidade sob disfarce, Doutor; no fundo, os médiuns estimariam ser ovacionados e guindados aos mais altos postos de liderança da Doutrina...
Como temem não ser reconhecidos ou equiparados aos medianeiros que se celebrizaram na tarefa, encostam a humilde enxada do serviço num canto e a deixam enferrujar...
— Concordo. Em muitos companheiros nossos, a simplicidade é aparente e a modéstia uma desculpa para que continuem de braços cruzados; como possuem fé para o gesto, não se preocupam com a multidão dos descrentes, daqueles que todos os dias batem às nossas portas, ansiando pela paz.
Estão sonegando a luz e não sabem...
— Por este motivo falou Odilon com precisão -, os Espíritos Amigos, não raro, preferem contar com companheiros não tão bem aparelhados mediunicamente...
Quem não tem cachorro caça com gato, não é, Doutor?
— É o que tenho feito por aqui, Odilon respondi à fraterna provocação do amigo:
há muito tempo que eu venho caçando só com os meus bichanos...
Retomando a seriedade do assunto, o confrade prosseguiu:
— O esforço da Espiritualidade é comovente...
Os Espíritos Superiores se sujeitam à limitação dos médiuns à sua disposição, os treinam pacientemente e, não raro,
preparam por longo tempo a gleba que custará a produzir...
— E, muitas vezes acentuei quando estão prestes a colher, os médiuns lhes frustram todas as expectativas desistem na véspera ou quando já haviam cumprido a maior parte do trajecto empreendido...
De repente, por um melindre qualquer ou ideia obsessiva que as trevas lhe inoculam na cabeça, o médium se afasta do grupo e não mais se vincula a qualquer outro; sem mais nem menos, decide paralisar as suas actividades mediúnicas isola-se em sua casa e, entre uma promessa e outra de voltar, nunca mais retoma as actividades...
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 08, 2018 11:09 am

—A chamada solução de continuidade, sem dúvida, é um dos grandes entraves no intercâmbio que o Mundo Espiritual se desdobra para manter com os homens...
Muito dificilmente, espírito e médium conseguem trabalhar a sintonia; sim, Doutor, porquanto a sintonia mediúnica há de ser trabalhada afinidade psíquica é algo que não se improvisa...
O espírito, para confiar no sensitivo, carece de tempo, e vice-versa.
— E essa confiança mútua nem sempre é coisa do passado, não é, Odilon?
— Não; o compromisso do médium com o Mundo Espiritual pode estar começando agora...
Aliás, doutor, vários medianeiros que renasceram com a tarefa da mediunidade estão em debandada; quando é assim, aos Espíritos Mentores não resta alternativa senão tentar substituí-los...
O que os nossos irmãos médiuns necessitavam saber é que eles são os agentes de uma conspiração de fé entre os Dois Planos da Vida...
— Interessante a comparação - emendei.
De facto, em nossas sessões mediúnicas é o que fazemos:
conspirar nos bastidores da existência humana...
— Conspirar, Doutor, em prol da ideia da imortalidade...
Precisamos trazer o Mundo Espiritual para a Terra!
À maneira dos que saltavam os muros das fortalezas inexpugnáveis para descerrar as suas portas à invasão do exército adversário, carecemos, através da mediunidade exercida legitimamente, abrir os portões que o materialismo ergueu na batalha que trava contra a fé, para que as hostes de luz do Invisível triunfem e desfraldem sobre o campo inimigo as suas bandeiras...
— O triunfo que ainda nos parece tão distante...
— Mas a cada dia mais próximo, doutor; sabemos que a vitória definitiva dos nossos ideais de crença é simplesmente uma questão de tempo...
— Sem dúvida, a Espiritualidade Superior já conseguiu fincar as suas balizas em pontos estratégicos...
— Embora entrincheirados, necessitamos de continuar oferecendo retaguarda ao avanço das Legiões do Bem; por este motivo, não devemos desanimar.
Por mais insignificante a tarefa espiritual sob a nossa responsabilidade na casa espírita, torna-se-nos indispensável sustentá-la...
Naquela manhã agradável, eu e Odilon já havíamos conspirado o suficiente...
A visita inesperada do valoroso amigo me animara e o nosso diálogo a respeito do assunto ventilado haveria de se desdobrar em outras oportunidades.
Com o mesmo sorriso da chegada, Odilon se despediu de mim com a amabilidade que caracteriza os espíritos nobres.
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Ave sem Ninho

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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 09, 2018 10:53 am

38º Capítulo - Vida Além da Morte
— Como é que nós, Modesta, fazemos uma ideia errónea da vida além da morte!... disse à companheira, cuja experiência no trato com os desencarnados às vezes excedia o que me era possível observar nos livros que tratavam do assunto.
— De facto, Inácio respondeu-me, no diálogo que prosseguiu -, mesmo nós, os espíritas, haveremos de nos surpreender; por mais bem informados que estejamos, depois da vida física, aportaremos num país de cultura e de valores com os quais não estamos habituados...
Sobre a Terra, as construções são mais ou menos permanentes, a matéria também obedece à rígida disciplina, mas no Além...
— Muitos concebem a espiritualidade como sendo uma região homogénea, espaço etéreo povoado de seres alados, luzes e músicas de harpa...
— As regiões espirituais são tão vastas e díspares, que não nos é possível concebê-las todas; os próprios espíritos, em contacto connosco, têm certa dificuldade em descrevê-las naturalmente, nós, os médiuns, lhes opomos resistência...
— As dimensões próximas à Crosta são semelhantes ao nosso espaço geográfico no mundo, não é? - indaguei, interessado em maiores e mais detalhadas informações.
— Sim, para os espíritos que ainda conservam os hábitos humanos, a vida continua literalmente, todavia regiões existem na vida de Além-túmulo em que a condição existencial poderia ser classificada de sub-humana, tal é o primitivismo do estado e a promiscuidade em que vivem os desencarnados excessivamente apegados às sensações da matéria...
— Muitos vivem vagando por aí...
— Milhares, Inácio, milhares...
Figuremos uma casa de marimbondos...
Os espíritos que deixam o corpo pelas circunstâncias da morte, em maioria, vivem presos à psicosfera do Planeta, como marimbondos no exterior da casa, a voejar em torno dela mesma quando tenha sido semidestruída.
De modo geral, os desencarnados não têm outro ponto de referência que não seja o mundo físico e os afectos, ou desafectos, que deixaram na retaguarda...
— Desafectos também?
— Principalmente desafectos, porquanto, se o amor liberta, o ódio escraviza.
Durante a existência física, vivemos a nos sugestionar com a repetição de atitudes e a fixação dos pensamentos que acalentamos...
Morrer, Inácio, é tão-somente sair do corpo.
Seria óptimo se a morte igualmente significasse o decesso das ilusões e dos equívocos que nos nortearam os passos na trajectória empreendida do berço ao túmulo!
Infelizmente, não é assim; a morte não nos despoja de nós mesmos e nos coloca em confronto com uma realidade que não queremos aceitar, porquanto, para aceitá-la, teríamos que conjugar um verbo extremamente difícil o verbo renunciar, em cuja conjugação não conseguimos ultrapassar a primeira pessoa do indicativo presente:
Eu renuncio...
— Os espíritas pensamos que seremos admitidos nas colónias espirituais que existem ao derredor da Terra...
“Nosso Lar”, por exemplo, situado sobre a cidade do Rio de Janeiro, deve estar com uma superpopulação, visto que concentra as preferências dos companheiros de ideal para quando se transferirem desta para melhor...
—.. .ou para pior enfatizou D. Modesta, sem qualquer intenção de ironizar.
O corpo físico funciona para nós outros como uma espécie de esconderijo; ele não nos permite mostrar como realmente somos, pelo menos aos olhos alheios...
À consciência não há quem possa ludibriar.
A forma física que ocupamos transitoriamente nos esconde as mazelas morais.
Após o desenlace, cada qual prosseguirá vivendo na órbita dos seus interesses; nenhuma porta se nos abrirá sem a chave do mérito...
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 09, 2018 10:54 am

Esqueçamos o chão revestido de pétalas de rosas nos conduzindo à entrada de resplandecente castelo.
— O que os espíritos nos dizem nas reuniões de desobsessão, os seus depoimentos...
— ...são a realidade pura; mesmo os fanfarrões desencarnados não passam de mendigos, tentando ocultar os próprios andrajos...
Os que não lutaram para acender, pelo menos, diminuta réstia de luz no âmago de si mesmos vivem se arrastando na escuridão; os “mortos”, em sua imensa maioria, continuam, psicologicamente, dependentes dos “vivos”...
Daí os processos de vampirismo, em que os encarnados, de maneira inconsciente, servem de repasto para os desencarnados.
Os supostos “mortos”,
Inácio, frequentam a nossa mesa, participam das nossas refeições, bebem connosco no mesmo copo, esfregam-se a nós, carentes das emanações de calor e de sensualidade do corpo...
— Vejamos, Modesta, a importância de modificarmos o pensamento, não é?
— Sem dúvida; tudo funciona com base na sintonia mental...
Através do que pensamos, manifestamos o que preferimos e atraímos os que cultivam as mesmas preferências.
Existem entidades que, inclusive, chegam a participar das situações de relacionamento sexual, não nos respeitando sequer o tálamo conjugal.
Agora, como o homem pode pensar melhor, se tem abolido até mesmo a prece do seu cotidiano?
Raros são aqueles que oram e muitos dos que oram o fazem por mera formalidade, não colocando sentimento algum nas palavras que pronunciam...
— Acham que a prece é constituída de um mágico poder...
— A prece possui base científica, Inácio, e você sabe disto melhor do que eu.
A prece emite ondas mentais luminescentes; seria como, dentro do escuro labirinto do cérebro, de repente se acendesse um clarão...
Quem ora entra em contacto directo, sem necessidade de intermediação, com as Fontes da Vida.
Está sendo provado cientificamente que a prece atua na intimidade celular, alterando-lhe a constituição e funcionamento.
As curas podem ser explicadas; a fé é um poder espiritual sem precedentes...
— O Cristo ensinou que a fé remove montanhas...
— No entanto, Modesta, você tem razão; infelizmente, para a maioria dos crentes, a prece não passa de enfadonha ladainha; ninguém pensa que, orando, lhe será possível mobilizar as energias subtis do espírito...
Todo o Universo é sensível, ou melhor, ultra-sensível ao poder da mente.
Jesus não conseguiu curar aqueles que se revelavam psicologicamente desmotivados...
Toda semente, para florescer, necessita de terreno fértil.
— Retomando o tema inicial da nossa conversa, Inácio, aliás muito interessante, os espíritos, quando se reconhecem sem rumo na Vida Maior, têm receio do que lhes possa acontecer...
Existem maltas de desencarnados malfeitores que percorrem as regiões de Além-Túmulo aliciando os incautos; submetem-nos aos seus caprichos e 1 os escravizam, para deles se servirem segundo as próprias conveniências...
— Espírito obsidiando espírito...
— Exactamente.
A situação não muda...
Não temos no mundo pessoas que se tornam dependentes de outras e as que vivem, durante longo tempo, em regime de escravização moral no seio da própria família?
Querem crescer e são impedidas; aspiram a trilhar novos caminhos e têm os seus passos cerceados...
— Conheço muita gente assim gente que, para ter um serviçal dentro de casa, não pensa no prejuízo moral que está ocasionando àquela pessoa...
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 09, 2018 10:54 am

— Prejuízo de uma existência inteira...
Quantos são os que vivem, abnegadamente, servindo a determinado grupo familiar, movimentando-se no pequeno mundo de uma casa, sem quase sequer saírem à rua para ver as outras pessoas?...
— Tremenda dívida que se contrai, não é?
Em vidas futuras, os papeis se inverterão...
— Sem dúvida, os serviçais serão senhores e os senhores, serviçais...
Apenas o amor, em forma de indulgência, pode entrar no meio desse carma que, caso contrário, se arrastará indefinidamente...
— O perdão pode interromper o carma...
— Dizendo melhor, Inácio, modificar o carma, amenizá-lo, torná-lo possível de ser cumprido e impedir que a roda do destino se transforme num círculo vicioso...
— A escravidão dos espíritos é um mal sem precedentes - emendei, pensativo.
Às vezes, não atinamos para isto; temos trabalhando connosco pessoas pelas quais absolutamente não nos interessamos...
Quando lhes retribuímos o esforço, o fazemos com as migalhas que nos caem da mesa e...
— ...nos acreditamos excessivamente generosos! - complementou D. Modesta com acerto.
Recebemos mais do que damos e achamos o contrário.
Espiritualmente, as criaturas que nos servem, quando não descambam para a revolta, lucram bem mais do que nós; estão se exercitando no desapego, na renúncia, na humildade...
Quanto a nós...
— Estamos nos viciando em ser servidos e queremos tudo na mão, a tempo e a hora; não raro, somos incapazes de nos levantar de uma cadeira para apanhar determinado objecto que se encontra a poucos metros de nós...
— Quando desencarnamos...
— ...não temos nada e ninguém para nos atender; sem corpo, sem dinheiro, sem poder e sem mentiras que nos sustentem, não queremos aceitar a Verdade...
— Porém a Verdade não contemporiza e não tem outro compromisso que não seja consigo mesma - afirmou a devotada companheira.
O mundo físico é o palco das aparências...
— Por este motivo, a Verdade passa por aqui quase completamente ignorada por nós, não é?
Fixamos a atenção naquilo que nos interessa de imediato e nos atenda depressa, marginalizando os valores que contam para a Vida Eterna e que, não raro, requisitam o concurso do tempo para se imporem.
— Você tocou num ponto que carece de ser enfatizado, Inácio necessitamos de abordá-lo com maior frequência em nossas palestras e diálogos com os confrades.
De facto, a Verdade não prevalece com violência se não transige, igualmente não se impõe à custa de opressão...
O Bem reocupa os espaços que lhe foram tomados pelo Mal, sem necessidade de recorrer aos mesmos expedientes do Mal para se propagar...
— Mas deveríamos nos apressar no tempo...
— Sem dúvida comentou a abnegada obreira, encerrando mais aquele capítulo de nossos inesquecíveis entendimentos à luz do Espiritismo -, o tempo não passa lento e nem depressa.
O seu ritmo é sempre o mesmo.
Nós é que devemos nos conscientizar de que necessitamos administrá-lo com maior proveito, economizando lágrimas...
Infelizmente, quase todas as comunicações obtidas através da mediunidade de D. Modesta se perderam; à época, não dispúnhamos das facilidades tecnológicas de hoje, e páginas psicofónicas de inegável valor doutrinário ficaram restritas ao grupo.
Algumas das citadas mensagens foram divulgadas em “A Flama Espírita”, mas tão-somente aquelas que nos chegaram psicografadas ou que, eventualmente, conseguíamos reconstituir, com o concurso da médium, em seus trechos mais importantes.
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 09, 2018 10:54 am

Um dos comunicados que, sem dúvida, mais nos impressionaram foi o de Cairbar Schutel, apóstolo do Espiritismo em Matão, Estado de São Paulo.
Visitando-nos pela primeira vez, incorporou-se na médium e falou-nos com simplicidade:
— Meus irmãos, que a paz do Senhor seja connosco.
Nas actividades doutrinárias que, agora, desenvolvemos no Mais Além, não poderíamos deixar de estar com os companheiros de ideal que se vinculam a esta casa.
Necessitamos, embora os embaraços do caminho, perseverar no cumprimento do dever que abraçamos no Espiritismo, como sendo, em séculos, a nossa melhor oportunidade de redenção...
Sigamos conscientes da responsabilidade e não consintamos que os nossos antigos erros novamente nos comprometam, na empreitada a que nos lançamos sob a égide do Cristo.
A aplicação da Doutrina em nossas vidas significa não descurarmos das nossas menores obrigações no cotidiano; a finalidade da semente é produzir não sejamos apenas promessa, mas, sim, realização.
Os Espíritos Superiores, que colaboram com o Senhor na obra de evangelização da Humanidade, contam com o nosso diminuto esforço.
Não desfrutemos sem saber retribuir...
Saibamos corresponder.
Quantos se consagram ao intercâmbio com os desencarnados apenas por mera curiosidade ou por simples deleite, sem atinarem para a seriedade do assunto que transcende os interesses de ordem material e extrapola os propósitos de carácter subalterno do homem que vive esquecido de sua própria essência?
Quantos incrementam no Espiritismo, mormente no campo da prática mediúnica, comportamentos estranhos e pessoais, como se a Verdade pudesse se adequar ou se submeter aos seus caprichos mesquinhos?
Quantos se dizem espíritas, tudo querendo com o corpo filosófico da Doutrina, mas nada querendo com o espírito do Evangelho, que nos conclama a mais do que simplesmente conhecer?
A teoria sem acção que a justifique inexiste!
O Espiritismo em nós deve ser o Cristo oficiando no santuário da alma.
O conhecimento que não liberta é dogma escravizante.
A Terceira Revelação necessita muito mais se difundir pelos nossos exemplos do que pela palavra brilhante na tribuna.
A palavra, sem o aval do exemplo, sempre haverá de soar sem eco aos ouvidos de quem no-la ouça, desconfiado.
Seriedade no Espiritismo, acima de tudo, é compromisso com a consciência e não com aqueles para cujos olhos atuamos no cotidiano:
não devemos nos preocupar em fazer para que sejamos vistos, mas para que, com o sábio concurso do tempo, nos vejamos melhor...
Muitos fazem pelo aplauso; raros os que fazem por convicção.
Não distorçamos a aplicação da Doutrina, quando ela é transparente em seus fundamentos:
a renovação alheia não nos deve dizer respeito mais do que à nossa própria renovação.
Não nos transformemos em vigilantes da conduta dos outros, adoptando uma postura de extrema vigilância para connosco.
A rigor, ninguém personifica em si o Espiritismo e, em hipótese alguma, deve se considerar parâmetro para os demais confrades.
Não nos iludamos a tanto... Listemo-nos entre aqueles cujas imperfeições são evidentes.
Quanto mais criticamos os semelhantes, mais as nossas próprias mazelas se revelam em seus nítidos contornos; a intenção de quem critica descaridosamente é a de se esconder por detrás do equívoco que aponta...
Os bons jamais recriminam.
Infelizmente, muitas casas espíritas estão destituídas do espírito do Evangelho sólidas construções de alvenaria, mas vazias de espiritualidade!
Ou nos irmanamos ou estaremos, o tempo todo, ludibriando a nós mesmos.
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 09, 2018 10:54 am

Pujamos a tudo quanto se oponha à simplicidade...
O Cristianismo, em sua revivescência, não carece de se modernizar.
Para acompanhar o progresso do conhecimento humano, o espírita não necessita tergiversar com Kardec, clamando pela actualização dos seus postulados:
objectivando o fortalecimento da árvore e a sua melhor produção, ninguém lhe poda as raízes...
As bases doutrinárias são inamovíveis no edifício da Codificação!
Sem que os nossos sentimentos sejam puros, não nos relacionaremos sem obscuros interesses com os nossos irmãos de ideal; este conceito também se estende ao nosso relacionamento com o Espiritismo.
Sem que estejamos imbuídos de propósitos superiores, não nos afinizaremos espiritualmente com a Causa, que desserviremos.
A mediunidade não confere sabedoria ao medianeiro.
A luz do discernimento há de se produzir na usina da experiência exaurida no suor do trabalho digno.
Efectuando breve pausa, Cairbar Schutel continuou:
— Nas regiões do Mais Além, já são inúmeros os espíritos atormentados pelo remorso; excessivamente preocupados com os outros, olvidaram a si mesmos na necessidade de se renovarem foram médiuns e dirigentes sob austera disciplina na fé, mas que, contraditoriamente, não levaram o Espiritismo a sério; não admitiram se descontrair na rigidez comportamental que preconizavam, mas não souberam sorrir nas boas obras.
Repartiram o pão, contudo dele não se alimentaram...
Narra-nos o Novo Testamento que, no episódio da multiplicação, doze cestos sobraram cheios de pães um para cada apóstolo, qual se o Cristo quisesse dizer aos amigos que eles também tinham fome e que, inclusive, a sua era ainda maior que a fome da multidão que se aglomerava...
A intolerância em matéria de crença religiosa é violência do espírito, tão perniciosa e comprometedora quanto a excessiva flexibilidade moral da criatura consigo mesma.
No Movimento Espírita que se esboça e se fortalece, tenhamos cautela para que não nos afastemos de nossas origens e não percamos a espontaneidade.
Excesso de directrizes formaliza e descaracteriza a fé.
Eis, sem dúvida, o maior desafio para os que, presentemente, se encontram engajados nas tarefas unificacionistas promover a união sem pretender uniformizar, porquanto, de certa maneira, a sua diversidade é que mantém o Movimento Espírita livre e possibilita a natural expansão da Doutrina, sem que tenha que prestar obediência a órgãos centralizadores.
O centro espírita é a célula mais importante do nosso movimento doutrinário e deve ser o desdobramento do próprio lar dos companheiros de ideal que mourejam no corpo físico.
As igrejas nascentes do Cristianismo se alicerçaram na intimidade doméstica dos seus primeiros seguidores; quando o centro espírita perde a sua característica de lar, a instituição, embora nobre, se distancia do espírito cristão e não devemos ter receio algum de sustentar a tese de que o espírita de hoje é chamado à responsabilidade de que se encontrava investido o cristão de outrora, porquanto a finalidade precípua do Espiritismo é a de reviver o Cristianismo, retomando-o no exacto ponto histórico do qual, infelizmente, após três séculos de luta para se impor ao paganismo, ele se afastou.
Não repitamos semelhantes equívocos e não contemporizemos com a intelectualidade do Movimento, companheiros evidentemente de grande cultura e notável capacidade académica, mas faltos de senso espiritual que os levam, inadvertidamente, a propor perigosas inovações doutrinárias.
— Meus irmãos rematou Cairbar -, nada pior para impedir o avanço de uma ideia do que submetê-la a conceitos dogmáticos, que a impeçam de ser assimilada com facilidade pelo povo a que pretende alcançar.
Mantenhamos a simplicidade da Doutrina e que a fraternidade nos inspire.
Numa casa espírita, o que foge à aplicação do Evangelho é prática que deve ser abolida ou, no mínimo, revista. O que tem sustentado a propagação do Espiritismo, afora a excelência de seus postulados, são as actividades aparentemente insignificantes o passe, a água magnetizada, a prece, o prato de sopa, a visita ao doente...
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 09, 2018 10:54 am

A própria mediunidade, quando não exercida com discernimento, traz mais prejuízos do que lucros para a nossa Causa; na ânsia de obter comunicados com pretensos Espíritos Benfeitores, os médiuns têm extrapolado e criado inúmeros problemas...
Quem não se considere apto para o contacto com os desencarnados já detentores de alguma luz não se acanhe de ser útil àqueles de mediana evolução, servindo-lhes de intérpretes nas ditas reuniões de desobsessão; na maioria das vezes, é através do falso comunicado de um espírito que se imagina protector do médium ou do grupo que o melindre e a desavença se estabelecem...
Os grupos mediúnicos que se especializam na lida com os enfermos do Mundo Espiritual dificilmente se comprometem.
Por incrível que pareça, o perigo maior relacionado com a obsessão não está no intercâmbio com os que, reconhecidamente, são espíritos sofredores; o perigo justamente está no contacto com aquelas entidades às quais se atribui algum esclarecimento...
Deixo-lhes o meu fraternal abraço, rogando ao Senhor que continue a fortalecê-los em seus melhores propósitos em nossa Doutrina de Amor e Luz!...
Quando Cairbar Schutel se retirou, percebemos que a palavra dele deixara o ambiente imerso em profunda paz.
A sua advertência nos calara fundo.
De facto, carecíamos de maior vigilância e, de quando em quando, precisávamos nos indagar até onde, com a nossa actuação, estávamos sendo úteis à Causa que pretendíamos servir.
Após as luzes se acenderem, D. Modesta comentou:
— Pois é, Inácio, devemos ter cuidado para, tendo já saciado a sede, não conspurcarmos a fonte que nos dessedenta...
— Mesmo porque voltaremos a sentir necessidade de sorver-lhe a linfa cristalina... comentei.
— Sem dúvida.
Os que, no passado, desvirtuaram o Cristianismo, eclipsando-lhe a luz da Verdade, reencarnaram, dentro dele, tacteando nas trevas...
— Ansiavam pela chama que eles próprios apagaram...
— Fomos nós, Inácio, os que, agora, intentamos reacendê-la...
— Você tem razão, Modesta...
Há quantos séculos estamos lutando, não?
— Criando condições propícias para o surgimento do Espiritismo...
— O sublime advento do Consolador!...
— No entanto, a Doutrina ainda é uma planta frágil que, timidamente, desponta...
— Crescendo em terreno hostil...
No solo em que nasceu, na França, praticamente inexistem vestígios dela...
— Aclimou-se no Brasil, chamado a ser o coração do mundo e a pátria do Evangelho...
— Chamado, mas será escolhido?... perguntei, reticencioso.
— A resposta, Inácio disse-me a companheira caberá a cada um de nós!...
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