Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 09, 2018 10:55 am

40º Capítulo - Perdão Todo Dia
Em minha lida no Sanatório, verificava que o problema básico da Humanidade, sem dúvida, era concernente à aplicação do perdão. Todos os meus pacientes, não importando qual fosse o diagnóstico, eram almas afligidas pela necessidade de perdoar ou de serem perdoadas.
A Medicina Psiquiátrica, em suas mais variadas especialidades, não passava, como não passa, de mero paliativo para as dores do remorso que o homem acumula na consciência; enquanto a criatura encarnada não se resolver com o seu semelhante, ela desconhecerá a paz e, consequentemente, a vida feliz.
Por este motivo, creio, o perdão foi a derradeira lição que Jesus nos deixou...
Quem não aprende a perdoar, vive sob constantes abalos emocionais, estabelecendo natural sintonia com as entidades que não acreditam na força do Amor.
A indulgência agora liberta-nos de muitos carmas para o futuro, evitando complicações reencarnatórias que poderão nos induzir a perder valioso tempo na jornada de ascensão...
Às vezes, pelo que nos revelam os nossos Benfeitores, o espírito permanece séculos na tentativa de obter o perdão daqueles que prejudicou, sentindo-se impedido de avançar.
Quantos pais, quantos filhos, enfim quantos familiares e amigos presos ao passado porque não souberam compreender e perdoar!
Na faina a que me entregava cotidianamente, quando das visitas esporádicas dos familiares aos enfermos internados, eu podia observar certo distanciamento entre eles; na maioria das vezes, em silêncio, os pacientes eram recriminados pelos seus entes queridos, como se apenas a eles coubesse a culpa da situação a que foram reduzidos...
Os desequilibrados eram como que uma constante vergonha familiar, algo que os impedia de serem completamente abertos na sociedade uma mácula social que, de todas as maneiras, procuravam esconder.
Raras vezes digo-lhes pude testemunhar autênticas manifestações de carinho e solidariedade da parentela consanguínea em visita aos meus pacientes...
Muitos, repito, se sentiam até aliviados por terem conseguido, digamos, isolar aquele quisto moral, distanciando-o do convívio doméstico.
É lamentável, mas é verdade.
Outros, salvo melhor juízo de minha parte, chegavam a receber com certo alívio a notícia do óbito de um ou de outro, quando, porventura, a desencarnação ocorria nas dependências do hospital; com o intuito de se justificarem na própria indiferença, exclamavam:
— “Foi a Vontade de Deus; antes assim...
Rilano era um provador; sofreu
muito... Desde criança, arrastava essa cruz...
Agora, descansará em paz!...”
A minha luta sempre foi muito maior com os seus familiares do que propriamente com os enfermos que eram conduzidos aos meus préstimos; afirmo, inclusive, que era maior até do que a peleja travada com os ditos espíritos obsessores...
Quando, em nossos diálogos mediúnicos, tentávamos sensibilizá-los, diziam-nos:
— “São enjeitados da própria família...
Por que haveríamos de amá-los, quando sequer são amados dos seus?
Ninguém os quer...
Fizeram tanto mal em vidas pretéritas, que enlouqueceram a si mesmos...
Não nos culpem pelo que não fizemos; apenas nos prevalecemos da situação, pois temos necessidade deles...”
Não era fácil lidar com semelhante situação, e um verdadeiro desafio envolvia a família do paciente no seu processo de recuperação; os avanços que lográvamos no tratamento, enquanto o paciente se demorava connosco por dias ou meses mais ou menos longos, eram praticamente anulados em casa quando esse mesmo paciente recebia alta incontáveis vezes, os parentes voltavam com ele no dia seguinte e, então, a vontade que eu sentia era a de trancar os loucos sociáveis que o reconduziam ao Sanatório, pretextando recaída...
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Ave sem Ninho

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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 09, 2018 10:55 am

Alguns chegavam a enervar o paciente de propósito; faziam de tudo para não tê-lo em casa...
Como lograr qualquer êxito médico ou espiritual laborando em campo completamente hostil?
Digo-lhes que, com raras excepções, os que tinham afecto no seio da família não eram internados quando o perdão era posto em prática, perdão recíproco, visto que semelhante virtude é a única dentre as demais virtudes que não se exerce unilateralmente, a situação se amenizava e a prova se atenuava...
Obter o perdão alheio sempre me pareceu mais difícil que perdoar, porquanto, para sermos perdoados, carecemos de mobilizar a vontade daquele que ofendemos.
Este preâmbulo que já se alonga em demasia, tem o propósito de explicar que, em uma de nossas inesquecíveis sessões mediúnicas no Sanatório, recebemos a visita do venerando Irmão José, que, através da psicofonia de D. Modesta, teceu judiciosos apontamentos em torno do perdão.
Aberto a esmo, no início da reunião, “O Evangelho Segundo o Espiritismo” ofertara-nos à leitura um trecho do item “Reconciliar-se com os adversários”, no capítulo “Bem-aventurados os que são misericordiosos”, de acordo com as palavras de Jesus, anotadas por Mateus:
“Concerta-te sem demora com o teu adversário, enquanto estás a caminho com ele, para que não suceda que ele te entregue ao juiz, e que o juiz te entregue ao seu ministro, e sejas mandado para a cadeia.
Em verdade te digo que não sairás de lá, enquanto não pagares o último ceitil.
— “Meus irmãos principiou o Benfeitor -, da lição que o Senhor nos envia nesta noite, em torno da nossa premente necessidade de indulgência, dentre outros, destacaríamos dois pontos de fundamental importância.
O primeiro é o que se refere à sentença:
“Concerta-te sem demora com o teu adversário”...
Reparemos que o Senhor não nos recomenda esperar pela melhor hora que poderá não chegar para o exercício do perdão.
O perdão não é para amanhã nem para depois; o perdão é para hoje...
Notemos, ainda, que o Mestre preceitua que a iniciativa do perdão parta de nós e não daqueles que agredimos ou tenham nos agredido.
O segundo ponto que estimaríamos destacar é que Jesus não se dirige especialmente a nenhum dos envolvidos na questão nem à pretensa vítima nem ao suposto algoz, na trama infeliz que entre ambos se estabeleceu.
Ele se refere ao adversário, deixando-nos subentender que seremos mais culpados pela falta de indulgência do que propriamente pela ofensa em si...
Avançando um pouco mais na interpretação do texto sob a nossa análise, vejamos que o Senhor, na recomendação que nos direcciona, nos responsabiliza directamente.
Sejamos mais claros:
Ele nos fala como se culpados fôssemos, culpados por não perdoar ou culpados por não pedir perdão; sim, porquanto, se quem não perdoa tem culpa, quem não toma a iniciativa de pedir perdão
também a tem...
Jamais estaremos, com relação à indulgência, em uma situação de neutralidade: sempre estaremos provocando ou sendo provocados ou, ainda, provocando e sendo provocados; às vezes, basta a nossa presença para que alguém se sinta agredido.
O que não se dirá quando falamos ou agimos?
“Concerta-te sem demora com o teu adversário” pelo que nos é possível depreender da divina advertência, o adversário, pela óptica do Evangelho, sempre tem razão, seja ele ou não o autor do desentendimento.
Quantos ficamos na expectativa do perdão alheio, e vice-versa?
A expectativa de ambas as partes inviabiliza a indulgência, pois quem se sente acobertado pela razão julga-se no direito de esperar que a iniciativa parta do outro.
Quem é que nos confere razão em qualquer conflito, senão o próprio juízo que formamos?
Raramente, admitimos que erramos e, mesmo assim, mais raramente ainda fazemos a confissão pública dos nossos equívocos...
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Ave sem Ninho

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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 09, 2018 10:55 am

A confissão à qual nos referimos não é da simples proclamação verbal dos enganos que cometemos, mas a da atitude que nos possibilite reparar o mal que, inadvertidamente, engendramos.
Existe mais grandeza em se pedir perdão do que em se perdoar; quem perdoa pode fazê-lo de cima para baixo, mas quem roga perdão o faz de baixo para cima...
Por este motivo, todos deveríamos facilitar o perdão que os outros anseiam de nós; o ofendido deveria ir até o ofensor, ensejando a ele a oportunidade de concertar-se consigo mesmo...
No fundo, quem erra sabe que errou e, na maioria das vezes, sente-se envergonhado de tomar a iniciativa da reaproximação.
Por outro lado, naquele que se sente a vítima, o amor próprio está presente; se não estivesse, não se colocaria na condição de vítima.
Rematando a preciosa asserção, o lúcido Irmão José considerou:
- Jesus Cristo não nos perdoou; Ele pediu a Deus que nos perdoasse, como se pretendesse nos dizer que somente ao Criador cabe perdoar as criaturas...
Quem não se considera atingido pela ofensa não tem necessidade de perdoar; o perdão é para quem se magoa...
O Senhor entendeu a nossa inconsciência: quem fere está fora de si e quem não é indulgente dentro de si não está, porque, caso estivesse, consideraria que, em circunstâncias diversas, seria capaz de fazer o mesmo...
Notemos a máxima, que novamente chamamos à reflexão:
“Concerta-te sem demora com o teu adversário, enquanto estás a caminho com ele, para que não suceda que ele te entregue ao juiz...”
“Enquanto estás a caminho” significa enquanto nos é possível equacionar a pendência por nós mesmos, sem a interferência do juiz e do ministro, que aqui simbolizam a acção da Lei do Carma, perante a qual não nos será possível qualquer defesa.
Diante do juiz se comparece para ouvir a sentença, depois de concluído o processo...
Isto quer dizer que a Lei do Carma, ou de Acção e Reacção, não contabiliza de imediato os deslizes que cometemos:
a nossa ficha permanece em aberto, na expectativa de que saldemos o débito de iniciativa própria, sem necessidade de que os cobradores nos batam à porta com a promissória nas mãos e nos indaguem:
“Pagamento à vista ou parcelado?”
Despedindo-se de nós, o querido Benfeitor, ao qual todos devíamos tantas gentilezas, conclamou:
— Meus irmãos, façamos tudo para que os sentimentos menos nobres não nos ditem as atitudes de cada dia.
Estejamos sempre dispostos a compreender.
Ninguém comete o mal em estado de perfeita sanidade; toda e qualquer conduta agressiva, nossa ou dos outros, evidencia o desequilíbrio de que, infelizmente, ainda somos portadores.
Por este motivo, a Lei não condena: a Lei simplesmente educa.
Amemos em nossos semelhantes a parte daquilo que igualmente somos...
Para nós, espíritos frágeis nas sendas da evolução, tanto o Mal quanto o Bem são uma questão de oportunidade.
Estejamos atentos.
A terra produz de acordo com a própria fertilidade e não apenas com a qualidade da semente.
Que o Senhor nos fortaleça em nossos ideais e que nos guie, hoje e sempre, nos caminhos da Luz!...

§.§.§- Ave sem Ninho
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