Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 29, 2018 10:45 am

— No meu relógio de bolso são 21h 03...
— Aonde é que você está querendo me levar?
Daqui a pouco, virá com a conversa de que eu morri naquele acidente...
— Se tivesse morrido, você não estaria aqui conversando comigo.
— E não estaria mesmo, porque a morte é o nada...
— E se não for? insisti.
— Como?...
— Se a morte, para o espírito, for a verdadeira forma de existir?
Já se atreveu a pensar nisto?
— Confesso que este é um pensamento que me tem visitado com insistência...
No entanto eu o evito.
A troco de que, mesmo sobrevivendo, eu morreria?
Jovem, o futuro a realizar, a carreira, a família...
O que, então, eu teria ido fazer na Terra? Um cochilo ao volante de um carro poderia mais que as Leis de Deus?
O tempo avançava na doutrinação e não convinha que eu me alongasse.
O doutrinador não deve pretender que o espírito a quem esclarece se modifique ao encanto de suas palavras, quando ele mesmo requisita tempo mais dilatado para a sua mais plena vivência do Evangelho.
— São perguntas, meu irmão, cujas respostas você deverá encontrar por si mesmo.
Apenas lhe digo o seguinte: reavalie a sua situação...
A vida do homem não se restringe aos estreitos limites da condição material.
Não estávamos no mundo, antes de vivermos sobre ele.
Tudo tende a um regresso às suas origens.
A árvore morre aos poucos, rente às suas próprias raízes, para, depois, ressurgir de si mesma...
A fonte corre na direcção do mar, que, ao evaporar-se, se precipita das alturas, realimentando a fonte...
— Se tudo que você está me dizendo for verdade...
— Tudo o quê?
— Que eu, estando vivo, estou... morto.
— Não, é o contrário:
que você, estando supostamente morto, está vivo...
O que é que tem?
Falta-lhe algum pedaço?
Algo do que você sempre foi, em seu íntimo, lhe foi tirado?
— O que me espera?
Eu não sei viver outra vida diferente daquela...
Eu me habituei a me olhar no espelho.
Não tenho nenhum ponto de referência, a não ser ela a noiva, aquela com quem eu ia me casar.
— Meu irmão, inconscientemente, você começa a saber...
Expressou-se bem quando disse:
“a noiva, aquela com quem eu ia me casar”...
O rapaz silenciou e lágrimas rolaram pelas faces de D. Modesta.
— Vá com calma - recomendei.
Somos filhos de Deus e, seja onde for que estivermos, não estaremos fora dos Planos dele.
Coloque em ordem os seus pensamentos e tente olhar à sua volta...
— Até agora, eu não consegui enxergar ninguém...
— É porque você ainda não olhou além de si mesmo!
Quem deseja enxergar o firmamento estrelado não deve procurar semelhante visão sobre a Terra.
Torna-se-lhe imprescindível levantar a fronte!
— Estou me sentindo sonolento, Doutor; cansado, extremamente cansado...
— Adormeça sem receio.
Amigos nossos cuidarão de você de maneira conveniente.
— Quem é o vulto luminoso que vejo, caminhando na minha direcção?
Estou de olhos fechados, no entanto eu o enxergo como se estivesse vindo ao meu encontro, emergindo das nuvens obscuras do meu pensamento...
Com voz que, gradativamente, foi humedecendo na garganta da médium, o espírito murmurou:
— Não, não é possível!...
É a minha mãe, minha mãe!...
— Que Deus o abençoe, meu filho, em seus novos caminhos, doravante! - consegui dizer, tendo a voz embargada, enquanto retirava do bolso do jaleco um lenço que ofereci a D. Modesta, para que igualmente enxugasse as lágrimas.
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Ave sem Ninho

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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 29, 2018 10:45 am

9º Capítulo - Domingo de Chuva
Domingo de chuva torrencial sobre Uberaba.
Impossibilitado de sair de casa, controlava as coisas no Sanatório por telefone e aproveitava para colocar a papelada em ordem coisa que, infelizmente, nunca consegui.
Passara o dia vasculhando gavetas e trabalhando na elaboração de um extenso poema “Onde Mora o Esquecimento?” que somente anos mais tarde eu publicaria em álbum ilustrado.
Uma de minhas maiores frustrações confesso era a de não ter nascido poeta; pela Poesia, eu teria, inclusive, deixado a Medicina...
Creio que justamente por este motivo escolhi como especialidade a Psiquiatria, um ramo da Medicina tão abstracto quanto o da inspiração poética.
A chuva, que não cessava de cair, fizera a noite chegar mais cedo e a minha solidão se evidenciar com mais nítidos contornos.
Éramos somente eu, meus livros e meus gatos...
Ao contrário do que se dizia a meu respeito, eu não gostava de ser sozinho; a minha vida, até então celibatária, não havia sido uma opção.
O problema é que eu nunca encontrei a alma afim da minha vida, a parte que me completasse, principalmente na área do pensamento e na esfera do ideal.
O sexo me era, sim, prazeroso, mas cansativo e sem objectivo.
A polémica intelectual sempre me foi muito mais excitante.
De insinuações, as mais diversas, a meu respeito, eu andava transbordando...
A realidade dos meus pacientes, no Sanatório, não me permitia conceder à chamada maledicência mais que alguns poucos minutos; absorvido o golpe que, com frequência, me era desferido por ela, eu me refazia e prosseguia no cumprimento do dever.
Se, conforme diz o ditado, a voz do povo é a voz de Deus, pelo menos a língua do povo pertence ao mítico Diabo...
Estava quase já me recolhendo, disposto a me levantar bem cedo no outro dia, quando escutei o portão ranger, entre o ribombar dos trovões e os coriscos que riscavam o céu a fogo.
— Quem será pensei debaixo desta chuvarada?,..
A campainha soou e, descalço, em trajes que me deixavam à vontade dentro de casa, fui até à copa para espiar por entre as grades da janela, pois não fazia muito que haviam jogado um bilhete no meu jardim, ameaçando-me de morte. Artimanha, segundo deduzi, da turma comandada pelo Xandico para me aterrorizar em minhas polémicas com a Igreja.
Aquilo ainda mais me influenciava e a inspiração, à semelhança das lavas de um vulcão, era impulsionada em jorros comburentes.
Um homem que me custou reconhecer debaixo da capa molhada olhou-me de modo tão sinistro quanto o temporal que inundava o centro da cidade, e disse-me:
— Doutor, sou eu...
Desculpe-me a hora inoportuna.
— Ah, é você! exclamei, reconhecendo nele o paciente cujo nome sequer eu havia perguntado quando estivera comigo, semanas atrás.
— Hoje é que pude vir e estou necessitado de falar com o senhor...
Voltando à biblioteca que utilizava à guisa de consultório, girei a chave na porta e, convidando-o a entrar, pedi a ele que não se importasse com a informalidade dos meus trajes.
Sem sequer se despir da capa-de-chuva e, ao menos, tirar o chapéu que lhe ensombrava parte do rosto, o estranho paciente entrou, deixando várias e diminutas poças d’água sobre os seus rastos, fazendo-me de imediato pensar que, à sua saída, eu ainda teria o trabalho de enxugá-las.
— Estou muito angustiado - disse-me, dando início àquela que era a nossa segunda entrevista.
Creio que o meu estado de espírito agravado é devido à chuva, que, sempre que cai, me deprime.
Gosto da noite, mas não gosto da noite com chuva...
Conversar com o senhor me faz bem; fico atento ao que não me diz...
-— As palavras não expressam tudo que desejamos redargui e, mesmo quando se aproximam disso, a distância entre o que dizemos e o que sentimos é incomensurável...
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 29, 2018 10:45 am

O espírito não está preso somente pelos laços que o unem ao corpo: os nossos cinco sentidos é que não nos atendem bem; são cinco acanhadas janelas que nos estreitam o horizonte...
— O senhor estima filosofar, não é?
— Não, não estou filosofando.
Antes de você chegar, eu estava tentando desenvolver um longo poema...
— Quem não sofre não consegue ser poeta, Doutor.
— Você é poeta? questionei, tentando inverter os papéis, ou seja, sair do divã em que ele me colocava e ser o analista.
— Já fiz os meus versos...
— E qual o motivo de não mais fazê-los...
— Falta de inspiração, ou melhor, descrença...
— Muitos dos melhores poetas do nosso idioma eram cépticos.
Antero de Quental, por exemplo...
Raimundo Correia, Augusto dos Anjos...
— Augusto dos Anjos era médico, não?...
— Sim, embora, ao que me consta, nunca tenha exercido a profissão.
Desencarnou moço ainda...
— O senhor quer dizer morreu...
— A morte é uma utopia respondi.
— A morte do corpo sim, concordo, mas a do espírito não é uma utopia...
— Não estou entendendo...
O espírito não morre.
— Não desaparece o senhor quer dizer.
Muitos estão sentenciados à eterna apatia...
Começava a entender agora que o rapaz, não ousando falar directamente de si mesmo, se exprimia através de evasivas.
— Os elementos que constituem o corpo, evidentemente, não se desintegram; neste sentido, ninguém mata a Vida, a Eterna Maldição do Criador - prosseguiu.
O que morre verdadeiramente é o espírito...
— Como assim?... indaguei.
Você considera a Vida uma Eterna Maldição?
— Viver é sofrer.
O homem vive na expectativa da dor...
— Tudo depende do seu ângulo visual...
A chuva que desaba lá fora não traz somente destruição:
enche os rios, fecunda os campos, saneia a atmosfera...
— Para quê? Qual o objectivo da vida humana?
Ascender espiritualmente, procurando
uma definitiva integração com Deus...
— De onde, dizem, saímos...
— Sim e para onde, dizem, vamos voltar...
— Sair e voltar para o mesmo lugar de que se saiu?...
Qual o tempo para isto?
— Milhares de anos retruquei, sentindo-me intelectualmente pressionado.
— Não parece ao senhor um contra-senso?
Gastar milhares de anos a fim de voltar para onde se estava?...
— Você está raciocinando como quem já possui acesso a toda a Verdade...
— Raciocino com a verdade disponível...
— A verdade actualmente disponível é uma caricaturai rebati, na esperança de que argumentos não me faltassem.
Então, percebendo que o rapaz se colocara momentaneamente na defensiva, continuei:
— Existir sem consciência de que se existe seria o mesmo que não existir.
Em nossa odisseia evolutiva, estamos adquirindo lucidez...
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 29, 2018 10:45 am

— E o que virá depois?
— Não sei. Você sabe?
— Imagino...
— Imaginar não é raciocinar com a Verdade...
— O senhor é ardiloso... acusou-me com enfado.
— Nem tanto.
Sou apenas, digamos, um defensor da fé.
— O mundo sem fé seria o mundo real...
— Engano seu.
O mundo sem fé não seria o caos?...
O que, por exemplo, você faria se visse alguém, nesta noite, ser arrastado pela enxurrada, prestes a afogar-se?
— Não, não pense para responder... — insisti, antes que o meu paciente tivesse tempo para um novo sofisma.
Quero a sua primeira resposta.
O que você faria modifiquei um pouco a pergunta, apelando para o emocional se um filho seu estivesse sendo levado, nesta noite, pela fúria das águas?
— O meu impulso seria o de salvá-lo, mas...
— Desconsidere o mas.
Isto é Amor, e ninguém explica o Amor.
Existe dentro de nós algo que transcende algo, com certeza, maior que o próprio Universo!
Esse algo, por si só, justifica a Vida.
O Amor compensa todo e qualquer sacrifício.
Pergunte isto a um coração de mãe.
— Eu não conheço o sentimento ao qual o senhor está se referindo...
— Não conhecemos tantas pessoas que existem no mundo que, no entanto, apesar do nosso desconhecimento sobre elas, continuam existindo.
O homem levantou-se da poltrona e, desta vez, sem sequer o dinheiro da consulta nem que fosse para desaparecer -, caminhou na direcção da porta de saída.
— O senhor deve se sentir um deus, não é? — questionou com ironia, já tendo a porta entreaberta.
— Por quê? devolvi a ele o ponto de interrogação.
— As pessoas estão sempre vindo ao senhor...
— Aprendo mais com elas do que elas comigo.
A nossa conversa, nesta noite de chuva, me ilustrou muito.
Você me trouxe notícias de um mundo diferente...
Talvez Deus tenha nos criado, meu filho, para enxergar o mundo com os nossos olhos.
— Então, Deus é cego?...
— Digamos apenas que Ele não tivesse espelho para se olhar...
— Eu não gosto de espelhos... - disse, ganhando o alpendre e preparando-se para enfrentar o aguaceiro.
—A propósito, qual é o seu nome? indaguei, curioso.
— O meu nome não importa muito.
— Sei que nomes não passam de rótulos, mas tudo neste mundo tem um sinal de identificação...
O meu é Inácio, e eu gostaria de saber o seu.
Olhando-me, significativamente, com os seus olhos encovados e sombrios, declinou:
— Legião. O meu nome também é Legião!...
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 29, 2018 10:45 am

10º Capítulo - No velório
A resposta do paciente que saíra de minha casa sob o medonho temporal que desabava, me provocara, confesso, um frio na espinha.
— “Legião. O meu nome também é Legião” dissera-me ele, sem sequer me dar tempo para qualquer alusão ao nome com que se identificara.
Recordei-me, de imediato, do encontro de Jesus com o possesso de Gadara, o homem vampirizado por muitos espíritos que moravam num cemitério...
Assim se lê nos evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas.
— Como existe gente louca neste mundo! pensei, em voz alta, querendo afastar da cabeça certa intuição que me ocorria a propósito daquele estranho visitante.
Recolhi-me sem maiores problemas, mas na segunda-feira, logo pela manhã, o
telefone tocou avisando que um dos mais antigos obreiros da Loja Maçónica a que eu me ligava havia desencarnado naquela noite, vítima de colapso fulminante.
Entrei em contacto com o Sanatório e avisei que chegaria um pouco mais tarde.
O velório estava sendo realizado no prédio do templo que ele auxiliara a fundar, o primeiro que a Maçonaria construíra em Uberaba, ante os olhares nada amistosos da Igreja.
Após cumprimentar os familiares do amigo desencarnado, sentei-me ao lado de um colega de profissão que, à época, era um dos directores da Faculdade de Medicina da cidade.
Após termos permutado fraternas impressões sobre o companheiro que partira, exaltando-lhe, com justiça, as muitas virtudes, o médico, em tom discreto, puxou assunto:
— Dr. Inácio, há muito esperava uma oportunidade de lhe falar.
Talvez o momento não seja oportuno, mas, como ambos temos o tempo quase todo tomado, você me desculpe a informalidade.
— Pode dizer, esteja à vontade redargui, praticamente adivinhando o teor da conversa que se desenrolaria.
— Tenho acompanhado a sua polémica religiosa pelos jornais e creio que isto o tem prejudicado, inclusive profissionalmente.
Você é um homem culto, formado no Rio de Janeiro; não deveria estar se expondo tanto assim por causa do Espiritismo, uma seita de tantos adeptos insanos...
— O Espiritismo não é uma seita, Doutor, e a insanidade, como você sabe, independe de cor, raça, sexo...
— E possível que eu tenha me expressado mal.
Veja, não é meu propósito ofendê-lo.
Sou católico, mas também não sou extremista.
O problema é que a sua postura tem suscitado rancores...
A minha esposa me fornece notícias do que se diz de você nos bastidores:
a Igreja o considera como o seu principal adversário em Uberaba.
Não fica bem. Você poderia ter o seu consultório mais bem frequentado; a rigor, não temos um psiquiatra do seu gabarito...
— Estou habituado ao que dizem de mim; por vezes, nem os próprios irmãos de ideal me compreendem...
Eu tenho o hábito de falar às claras, não às escondidas.
Infelizmente, não sei contemporizar.
O Espiritismo não ataca:
o Espiritismo se defende...
Não mandamos ninguém para a fogueira, não perseguimos e não pregamos contra religião alguma.
— Não vale a pena, Inácio...
— Concordo, não vale.
Todos os nossos interesses mesquinhos vão parar num caixão emendei, apontando para o defunto à nossa frente.
Não posso viver em desacordo com a minha consciência.
Os espíritas têm lutado muito no campo da caridade...
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 30, 2018 12:14 pm

— Esta, a meu ver, é a única parte boa que conheço...
É inegável a obra assistencial de vocês.
— Então, não fazemos parte de uma doutrina constituída apenas de insanos.
Penso que Jesus, há quase dois mil anos, trajando uma túnica rota, rústicas sandálias e cabelos revoltos ao vento, acompanhado por um séquito de doentes e mendigos, seria a imagem clássica de um agitador do povo e de um louco, descrito em nossos compêndios, não é?
— Mas você poderia, pelo menos, não ser tão contundente em seus escritos.
Não é razoável para a nossa classe.
A Igreja tem nos pressionado para uma tomada de posição...
Tomem-na sem o menor constrangimento respondi, procurando me conter.
— Você se esquece de que os nossos antepassados, os precursores da ciência médica contemporânea, foram condenados nos tribunais da Inquisição?
Hoje, o interesse da Igreja pelos médicos é pura conveniência; aliás, você me perdoe, é conveniente para ambos os lados...
— A Igreja, em determinado período de sua história, se equivocou disse ele, como desculpa.
— E continua equivocada.
Não podemos cercear a liberdade de pensar o direito mais sagrado do homem! de quem quer que seja.
— Você, que conhece o Evangelho, Inácio, sabe que Cristo nos recomendou que deixássemos os mortos enterrar os seus mortos...
A mediunidade não seria uma profanação do Mundo Espiritual? - insistiu ainda.
— O sentido das palavras do Cristo não é este e, depois, não somos nós, os supostamente vivos, que chamamos os considerados mortos para que entrem em contacto connosco; somente com a existência de médiuns não teríamos mediunidade...
Os espíritos é que têm insistido connosco no intercâmbio entre as duas diferentes dimensões da Vida; eles, os espíritos, é que são responsáveis por existirem médiuns...
A Igreja está alicerçada nos fenómenos mediúnicos que ela teima em abominar.
— Seja como for, o conflito religioso apenas concorre para a fragilidade da fé...
— A que fé, meu amigo, você se refere?
Não confundamos crença com fanatismo.
Jesus afirmou que não vinha trazer a paz, mas a divisão...
A Verdade, que se opõe às ambições, não pode, de certa forma, deixar de ser agressiva por aqueles que se sentem combatidos por ela.
— Façamos, no entanto, esforço para uma trégua...
Estamos dispostos a intermediar.
Tenho falado com colegas nossos e, digo-lhe, apesar do respeito que se tributa aos seus dotes intelectuais e morais, a maioria o critica...
— A maioria aplaudiu a absolvição de Barrabás...
Em breve, Doutor, estaremos todos como o nosso irmão que velamos nesta manhã.
Até quando continuaremos mentindo para nós mesmos?
— Para mim, não existe vida depois da morte...
— Como?! indaguei, aguçando os ouvidos.
— Ora, Inácio, nós já dissecamos muitos cadáveres...
— Mas você não me disse que é católico?
Seja como for, a Igreja tem na imortalidade um de seus dogmas.
Eu não posso entender o que você está defendendo...
— Todos carecemos de uma roda social...
— Religião, no entanto, não pode ser negócio.
— O homem não vive sem ilusões.
Seria bom se fosse diferente, mas não é agora, se fez mundano.
Como eu silenciara por alguns instantes, erguendo-me da cadeira, para abraçar a viúva do companheiro maçon que partira nas primeiras horas daquele dia, quando voltei a me acomodar ao seu lado, o colega mudou o discurso.
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 30, 2018 12:14 pm

— Inácio, estou conversando com você em torno de tão desagradável assunto, porque, em verdade, eu tenho um convite a lhe ser feito.
— Pois não, sou todo ouvidos respondi, sem excesso de palavras.
— Como você sabe, sou um dos directores da Faculdade e precisamos preencher uma vaga em nossos quadros.
Gostaríamos que viesse trabalhar connosco.
O salário é compensador, fora o status de leccionar para futuros médicos...
Fazendo uma pausa estratégica para me observar a reacção, prosseguiu:
— Por este motivo você me desculpe toquei com você nessa história de Espiritismo...
— Eu agradeço muito...
— Quer dizer que você aceita? - questionou-me, ensaiando um sorriso que tratei logo de desmanchar.
— Não, a tal preço.
Por dinheiro nenhum e por posição alguma eu renunciaria às minhas convicções.
— Você não teria que renunciar a elas; apenas, de início, ser mais maleável.
Só não daria para conciliar...
— O quê?...
— A posição que actualmente ocupa no Sanatório Espírita.
Você é o Director-Clínico, não é?
— Director e fundador...
— Teria que abdicar do cargo ou, quem sabe, concordar que a Faculdade de Medicina o encampe; o Sanatório passaria a ser um departamento chefiado por você...
Olhei para o meu colega de profissão e, sinceramente, em respeito ao defunto, não tive coragem de lhe dizer, em altos brados, tudo que me veio à cabeça e à boca naquele instante.
— Seria, Inácio, uma questão de ajuste estatutário; temos pessoas influentes e deputados que cuidariam da parte legal...
Papelada é burocracia.
Porém, profanando o ambiente, eu não resisti.
Antes de me levantar e ir embora, aproximei os lábios de seu estúpido conduto auditivo e sussurrei-lhe, pausadamente, certos termos chulos que quase todo menino da rua sabe dizer!
0 homem arregalou os olhos, as suas faces ficaram congestas e eu pensei que, ao invés de um, teríamos dois cadáveres expostos no salão...
Aquela não fora a primeira tentativa das trevas contra mim, para que eu desistisse do ideal que, ainda moço, abraçara com todo o vigor do meu espírito.
Chegando ao Sanatório, peguei um exemplar do “Novo Testamento” e, em silêncio, fiz questão de ler por alguns minutos as anotações do evangelista Mateus:
“Levou-o ainda o diabo a um monte muito alto, mostrou-lhe todos os reinos do mundo e a glória deles, e lhe disse:
Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares.
Então Jesus lhe ordenou:
Retira-te, Satanás, porque está escrito:
Ao Senhor teu Deus adorarás, e só a ele darás culto.
Com isto o deixou o diabo, e eis que vieram anjos, e o serviam”.
No meu caso, não haviam sido exactamente estas as palavras do meu vocabulário e nem posso dizer que os anjos tenham vindo a mim, mas o certo foi que o tal diabo me deixara...
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 30, 2018 12:15 pm

11º Capítulo - Obsessão em Família
O diálogo que eu mantivera com aquele colega de profissão, que, em outras palavras, tentara me corromper, me aborreceu profundamente.
Considerara os termos de sua proposta uma ofensa e creio mesmo que ele estivesse a serviço da Igreja.
Não era do meu feitio uma reacção, digamos, tão extemporânea quanto aquela, mas, entre ter um colapso e ter dito o que lhe dissera aos ouvidos, é óbvio que fiquei com a segunda opção.
Não comentei o episódio com ninguém apenas com D. Modesta, que, para mim, era como se fosse uma mentora espiritual sempre a postos.
— Você agiu bem, Inácio - disse, aliviando-me a consciência.
Foi a maneira mais prática de encerrar o assunto.
Essa gente é interessante: cobram-nos, na condição de espíritas que somos, uma conduta moral irrepreensível, no entanto, por outro lado, vivem achincalhando a Doutrina...
Ora, se consideram o Espiritismo capaz de promover connosco a reforma íntima, por que não o abraçam na excelência de seus postulados?
— Mas eu xinguei o homem, Modesta...
— Ele pensou que você fosse um Judas...
Não é só com reza, Inácio, que a gente exorciza um tentador dito Demónio; às vezes, precisamos mostrar a ele que não estamos assim tão à mercê de suas artimanhas...
— Seria melhor, no entanto, se eu tivesse ficado calado e me entregasse à oração...
— Se você fosse santo, sim...
Sorri e, de espírito mais aliviado, retomei as actividades do dia.
Logo, um dos nossos funcionários veio me avisar que alguém me chamava com insistência ao telefone.
— Sou eu, Doutor, a bancária que esteve com o senhor numa consulta esclareceu.
Fiquei de telefonar, lembra-se?
Estou me sentindo mais tranquila; não sei o que vocês fizeram, mas tenho conseguido dormir...
Aqueles pesadelos não se repetiram.
— Está tudo certo, filha - respondi.
Não se preocupe.
O espírito de seu ex-noivo não voltará a importuná-la; tivemos oportunidade de conversar com ele...
Você já começou a ler o livro que eu lhe dei?
—Ainda não tive tempo, Doutor desculpou-se.
Estamos em balanço e tenho trabalhado até mais tarde.
Estou telefonando só para agradecer.
Mas, interessante, eu agora estou sentindo falta dele...
O senhor não há de ver?
—Falta de quem? perguntei, basbaque.
— Do meu noivo...
Definitivamente, eu jamais lograria entender a alma humana.
Se continuasse tentando, ficaria louco. De fato, a obsessão não era um problema unilateral.
Aquela jovem compreenda quem puder não queria e, ao mesmo tempo, queria a presença do noivo desencarnado com o qual, inclusive, chegara a manter intimidades sexuais durante o sono.
Então, fiquei na expectativa de que, agora, ela me pedisse que providenciasse a volta do parceiro de seus sonhos eróticos, quando, para meu alívio, me disse:
— Há uma semana atrás, conheci um viúvo, cliente da nossa casa bancária; no próximo sábado, iremos jantar juntos.
Estou esperançosa, sabe? Ele não tem a aparência física do Ricardo, mas...
Querendo encurtar o assunto e cuidar dos pacientes à minha espera, recomendei:
— Não deixe de, pelo menos, correr os olhos pelo livro que eu lhe dei...
“O Livro dos Espíritos” é uma obra formidável.
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 30, 2018 12:15 pm

— Lerei, Doutor.
Assim que me sobrar um tempinho, eu o lerei prometeu.
Despedimo-nos e fiquei com a nítida impressão de que a anónima paciente, se aquele seu novo namoro em perspectiva fosse adiante, sequer teria a curiosidade de folhear a obra com que eu a presenteara.
Era sempre assim e não mudaria tão cedo:
as pessoas, de modo geral, estavam apenas interessadas em resolver os seus problemas imediatos; a cogitação mais séria, em torno dos enigmas da existência, era apanágio de pequena minoria...
De facto, a dor não poderia ausentar-se dos caminhos humanos, pois somente o sofrimento o látego invisível de Deus nos compelia a avançar além dos próprios interesses.
Não fosse o receio da morte, o homem haveria de viver de maneira mais irresponsável e leviana.
Sem dúvida, a Humanidade ainda não estaria preparada para que a sua dúvida, concernente à imortalidade, se transformasse em certeza, pois, caso plenamente convicto de sua sobrevivência ao decesso físico, o homem viveria como se fosse um eterno adolescente.
Tomei algumas fichas dos internos e mal começava a ordená-las, antes da minha incursão médica aos pavilhões, quando um companheiro de ideal chegou, esbaforido:
— Dr. Inácio, viemos pedir socorro...
— O que foi que houve?
Alguém se acidentou?
— Não! É mais grave - explicou.
A família do Sebastião...
— O que tem?
— Está toda obsidiada pai, mãe e filho...
— Não é possível! exclamei. — O Sebastião e a esposa são espíritas...
— Estão todos incorporados lá... contou o confrade. —Vamos precisar
interná-los; tentamos doutrinar as entidades e nada!...
— Como foi isso acontecer?
— Eles estavam fazendo sessão mediúnica em casa e o menino exercitava psicografia...
A esposa está tomada por um espírito que não cede e revela-se agressiva.
Já oramos, já transmitimos passes...
O senhor precisa vir connosco.
Não podemos deixá-los assim...
Logo o Sebastião, um homem tão bom e caridoso!
— A caridade não vigia sozinha observei.
Deixando as fichas dos pacientes sobre a mesa, entramos no carro e partimos.
Chegando à referida residência, a situação, de facto, era estarrecedora:
o pobre do Sebastião deitado, sendo pasmem! - submetido a uma cirurgia no perispírito; a esposa, totalmente fora de controle, dominada por um espírito pseudo-sábio, e o rapaz recebendo mensagens atribuídas ao Dr. Fritz, enchendo laudas e laudas de papel com garatujas ilegíveis...
Assim que me viu adentrando a sala, a esposa em transe, conduzida pela entidade correu na minha direcção:
— Dr. Inácio!
O senhor chegou na hora - falou, procurando me envolver.
Estamos intervindo, cirurgicamente, no corpo espiritual do Sebastião.
Ele está com uma espécie de hemorragia de princípio vital...
Se não lograrmos êxito, ele desencarnará.
O senhor, com os seus conhecimentos e a sua mediunidade de efeitos físicos, poderá nos auxiliar...
— Então, o Sebastião vai desencarnar - respondi com firmeza, mas ironizando a entidade.
Eu não sou médium de efeito nenhum...
Isto é obsessão, e de obsessão eu entendo.
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 30, 2018 12:15 pm

O espírito, através da médium em desequilíbrio, me fulminou com o olhar e vociferou:
Ninguém sai daqui...
Todos eles são nossos.
Como ousam invadir um terreno que não lhes pertence?
Esta casa não é de vocês!...
Pálido, estirado no leito sob sugestão hipnótica, o Sebastião não movimentava um dedo.
O menino que, à essa altura, parara com a “psicografia”, foi conduzido à cozinha por amigos para tomar um copo d’água e sair daquela corrente vibratória negativa.
Manoel Roberto, que seguira comigo, à minha determinação, preparou o estojo e, com dificuldade, aplicamos uma intramuscular em D. Alice, por cujos lábios o espírito continuava a me dizer impropérios:
— É assim que vocês agem?!,..
Onde é que está a força moral de vocês?!
— Está na injecção - repliquei, notando que a médium começava a se acalmar, não mais oferecendo sintonia ao obsessor, o qual relutava em partir.
— Vocês me pagam!...
Bloquearam o cérebro dela, mas eu voltarei!
Ela não ficará dopada o tempo todo...
— Não, meu irmão - acrescentei.
Você também seguirá connosco para o Sanatório...
— Mas eu não quero ir...
Soltem-me! Deixem-me!...
Que fios são esses que me prendem?...
0 que vocês estão fazendo comigo?
A minha cabeça está rodopiando...
Os efeitos do medicamento, dado o processo de simbiose mental e de vampirismo que se havia estabelecido entre a mente do obsessor e a da médium, se faziam igualmente sentir sobre a entidade.
Em nível de perispírito, obsessor e obsediado compartilham determinados fenómenos pertinentes ao quimismo cerebral.
Enquanto Manoel Roberto providenciava a internação de Alice, demorei-me conversando com Sebastião.
— Doutor perguntou-me ele com voz sumida o que foi que aconteceu connosco?
Nada fizemos de errado...
— Invigilância, meu amigo, invigilância! - retruquei, enquanto o auxiliava a sair da cama para um banho esperto.
— Mas praticamos a caridade, frequentamos o centro espírita...
Qual o mal em querermos ser médiuns?
Onde a protecção que os nossos Benfeitores nos dispensam?
— Aqui, materializada dentro da casa de vocês...
— Como?!...
A Alice, depois de ficar alguns dias connosco, receberá alta; você poderá retomar o trabalho amanhã mesmo e o seu menino irá para a escola...
Um problema obsessivo solucionado rapidamente.
É o mérito da caridade.
Não fosse por isso, iriam vocês três para o Sanatório e só Deus para avaliar as sequelas psicológicas com que haveriam de permanecer.
O meu filho viveu com o Dr. Fritz noutra existência...
Balela, Sebastião! - retruquei, incisivo.
Esqueça isso.
Que essas sementes de treva não prosperem na sua cabeça.
O verdadeiro Dr. Fritz está longe dessa confusão.
Não faça mais reunião mediúnica em casa.
Poderia ter acontecido alguma coisa pior.
Mediunidade sem vínculo com o centro espírita expõe o médium a mais fácil acção dos obsessores.
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 30, 2018 12:15 pm

12º Capítulo - O grão de Mostarda
Alice permaneceu connosco, internada, por mais de um mês.
Aos poucos, fomos suprimindo os medicamentos e tentando conversar com ela.
Dava para notar-se claramente, no entanto, que o seu vínculo psíquico com as entidades que a perturbavam não se desfizeram de todo.
Algo havia se modificado no brilho dos seus olhos...
Aquele processo de vampirismo, segundo deduzi, não se iniciara na presente existência.
Por vezes, quando reencarnamos, conseguimos nos ocultar dos espíritos que nos perseguem por um bom período de tempo, todavia, quando nos descobrem no corpo, eles passam a nos assediar.
Por este motivo, as obsessões aparentemente incompreensíveis que nos surpreendem, ensejando o súbito aparecimento, ou melhor, reaparecimento de mazelas morais que não supúnhamos possuir.
Famílias bem estruturadas e companheiros de conduta ilibada mudam de comportamento, causando estranheza nos que se habituaram a vê-los como ponto de referência espiritual.
Alice recebeu alta, mas receei que ela nunca mais pudesse ser a mesma.
Falando pouco e sequer ousando me fitar directamente, despediu-se de mim com discreto aperto de mão.
Sebastião e o garoto haviam se refeito quase inteiramente, todavia a nossa desventurada irmã não se libertara a contento da influência do obsessor.
Trocando impressões com D. Modesta acerca do problema, ela comentou:
— Inácio, em alguns casos entre obsediado e obsessor existe uma ligação afectiva que, de imediato, não podemos compreender.
Não vejamos somente ódio ou desejo de vingança nos quadros obsessivos que se instalam.
Muitas paixões exacerbadas do pretérito, quando nos identificam no corpo, imantam-se em nosso psiquismo numa espécie de enxertia espiritual.
Não raro, quando tal acontece, passamos a depender da presença dos parceiros das experiências que vivenciamos em comum.
— Mas como ficam os novos compromissos afectivos assumidos?
Alice é esposa e mãe...
— Sebastião e o filho, com certeza, fazem parte de suas dificuldades cármicas, sem significar que principalmente o esposo seja o espírito eleito por ela para os seus sonhos de ventura.
Nas vidas que já se foram existem relacionamentos tais, que nos custam esquecer...
— O esposo dela, no entanto, me parece um bom homem, submisso aos seus caprichos de mulher...
— Ele talvez simbolize tudo a que uma mulher aspira em termos de esposo: carinhoso, pai dedicado, trabalhador, mas, contraditoriamente, ele representa tudo que ela não quer...
Durma-se com um barulho desse... - gracejei, meneando a cabeça.
— Você sabe o que estou dizendo, Inácio.
Não queremos a felicidade que temos; somos tão personalistas, que a felicidade dos outros é a que queremos para nós, nem que tal felicidade nos seja menos felicidade que a felicidade que possuímos.
— É complicado...
— Extremamente complicado.
— Somos, de fato, mentes ensandecidas sentenciei.
— Todavia Deus é sábio.
Se fôssemos indiferentes, não nos comprometeríamos e, se não nos comprometêssemos, nos privaríamos da lição.
— “É necessário que venha o escândalo”...
— Exactamente.
Alternando posições na vida física e revezando-nos com os companheiros que ora estagiam no corpo, ora fora dele, vamos aprendendo uns com os outros o que nos compete saber.
Um só espírito problemático que, por exemplo, reencarna em determinado grupo familiar, mobiliza a família inteira.
Por este motivo, enquanto não nos tornarmos inacessíveis, não viveremos sem problemas e desafios.
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 30, 2018 12:15 pm

— Quer dizer, então, que a loucura é um mal necessário? - aventei, incentivando-a.
— A loucura e todo o seu séquito de desajustes.
Quantos pacientes nossos no Sanatório provêm de famílias bem postas na sociedade!...
Têm dinheiro e regalias, mas desconhecem o que seja alegria.
Um filho ou uma filha psicopata, um neto ou uma neta esquizofrénica e um pai ou uma mãe paranóica são instrumentos de reflexão para todo o clã.
— Muitos parecem esquecê-los aqui comentei.
— Não importa; estarão acumulando mais brasas sobre a própria cabeça...
O remorso é um vulcão que, antes de entrar em erupção, muitas vezes se prepara demoradamente.
Ninguém logra isolar-se completamente dos problemas que o cercam.
Mais dia, menos dia, todos seremos chamados a reparar os erros cometidos.
— E esta angústia que sinto, esta sensação de fracasso diante da cura impossível de determinados pacientes...
— Ora, Inácio, não queiramos fazer a obra de Deus!
Não estamos operando a cura de ninguém, a não ser a nossa.
O fracasso que sentimos em relação aos outros é o fracasso que sentimos em relação a nós.
A questão básica é que não conseguimos nos doar mais do que já nos doamos; sabemos disto e ficamos tristes...
Na verdade, as lágrimas que choramos pelos nossos semelhantes são as lágrimas que vertemos por nós, ao verificarmos a extrema indigência que ainda nos cerceia os passos nas aspirações de ordem superior.
A satisfação gera o comodismo.
O homem inquieto não cessa de procurar.
Disse-nos Jesus:
“Bem-aventurados os aflitos, porque serão consolados”...
Consolados por quem?
Por si mesmos, quando lhes cessarem as aflições, ou seja, quando alcançarem o objectivo pelo qual estão se afligindo.
— Estamos indo longe com nossa conversa...
— Não tão longe quanto deveríamos ir em nossas atitudes.
Está vendo, Inácio?
Você accionou um mecanismo de defesa mental...
Quanto mais sabemos, mais exigimos de nós.
Por este motivo, não nos convém saber muito ou, por outra, não queremos saber muito.
Não estamos dispostos a ceder quanto a consciência nos solicita.
Admiramos Francisco de Assis, desejamos ser como ele, mas, de preferência, sem termos necessidade de fazer o que ele fez.
Em outras palavras, o nosso propósito é de que o Céu se acomode à Terra e não que a Terra se conforme ao Céu.
O Paraíso nos interessa, desde que não tenhamos de abdicar da nossa condição humana.
Positivamente, D. Modesta, em que pese os seus elevados dotes de inteligência, não estava se expressando sozinha...
Curioso, insinuei:
— Você está inspirada hoje!...
Confirmando as minhas suspeitas, ela respondeu:
™ — O nosso Eurípedes Barsanulfo está aqui connosco, Inácio, desde o início.
As lágrimas me afloraram instantaneamente aos olhos.
A luta, apesar de árdua, tinha as suas compensações.
Quando, não raro, de espírito quebrantado pelos reveses do caminho, o Mundo Espiritual se fazia presente e, então, eu me sentia à feição de uma flor ressequida no deserto, visitada pelo orvalho da noite...
A revelação, porém, tirara a minha espontaneidade no diálogo.
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 30, 2018 12:16 pm

Sem mais ousar olhar directamente para a médium, em transe natural, escutei as derradeiras palavras do inolvidável Benfeitor:
— Inácio, meu filho, não nos deixemos desalentar.
O caminho é deveras longo, mas o Senhor nos precede.
Evitemos os equívocos de outrora e não mais posterguemos a tarefa da própria ascensão.
O nosso esforço no Bem pode nos parecer diminuto, mas não nos esqueçamos de que o Senhor comparou o Reino de Deus a um grão de mostarda:
“E dizia: A que é semelhante o Reino de Deus e a que o compararei?
É semelhante a um grão de mostarda que um homem plantou na sua horta; e cresceu e fez-se árvore; e as aves do céu aninharam-se nos seus ramos”...
O questionamento excessivo em torno da Verdade não nos permite colocar em prática aquilo que já sabemos do Amor.
Todos somos filhos de Deus e, a rigor, todos nos sentimos irresistivelmente atraídos pela sua Luz; na ânsia de alcançá-la, muitas vezes mergulhamos mais profundamente nas trevas de nós mesmos...
O mal é um estágio transitório.
Tudo o que não se identifica com a Divina Essência possui existência fugaz.
Portanto não nos amarguemos desnecessariamente.
O homem ainda não passa de uma criança, imaginando que o mundo seja o seu parque-de-diversões particular; engendra guerras de extermínio, a violência em nome da fé, a discriminação racial...
Não obstante, a Lei do Carma tudo reverterá no momento justo.
Quanto mais Mal, mais Bem e, quanto mais Bem, mais Deus!
Não depreenda destas nossas palavras que sejamos pela fatalidade do Mal, no entanto a experiência mostra que a criança chora porque tem fome e não tem fome porque chora...
Com o lenço, todo amarrotado, que sempre trazia à minha disposição no bolso do jaleco, eu tentava enxugar as lágrimas que me desanuviavam o espírito.
Pousando a destra em meu ombro, à altura do coração, o venerável Mentor disse, em despedida:
— Filho, asserene-se.
Não nos percamos daqueles que já se identificam com o Senhor e conhecem o caminho que estamos começando a trilhar agora.
Ainda que, em torno, tudo nos seja convite ao cepticismo e à desilusão, perseveremos.
O verdadeiro idealismo continua sendo opção de poucos e, no instante do testemunho, o discípulo se verá sempre a sós com as aquisições que tenha efectuado em seu mundo íntimo.
A Ciência capitulará repetidas vezes, a Filosofia reconsiderará conceitos e a Religião se libertará dos dogmas que a escravizam.
Nada deterá a marcha da evolução.
Das ruínas de prédios antigos é que se levantam as modernas construções.
As civilizações se sucedem, mas o espírito é o mesmo em sua trajectória bendita.
Que o Bem nos sintetize as aspirações, e teremos certeza de que não estamos consumindo o tempo em vão, adiantando-nos na senda que, graças ao conhecimento espírita, lobrigamos na actualidade.
Quem retrocede candidata-se a difícil recomeço.
Não olhemos para o Alto à procura de Deus, quando o trazemos connosco no coração.
A edificação do Reino Celeste é de ordem íntima.
Não virá com aparências exteriores...
O Universo, que se expande por fora, não é mais que o universo do espírito, que abarca toda a Criação Divina.
Possuímos asas e não sabemos!...
Nenhuma distância se nos faz incomensurável e não existe lugar em que não possamos estar.
Que o Senhor seja louvado!...
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 30, 2018 12:16 pm

13º Capítulo - Mãe
A comunicação espontânea do Apóstolo de Sacramento muito me edificara, pois eu sempre nutrira pelo espírito de Eurípedes Barsanulfo a maior admiração e respeito, chegando mesmo, quando encarnado, a colectar alguns subsídios e reuni-los em singelo volume para a sua futura biografia.
De facto, o Mundo Espiritual nunca nos faltava com a sua presença consoladora diante das lutas.
Conforme já havia narrado, Alice, a esposa de Sebastião, recebeu alta e, desde então, pude notá-la diferente comigo e com os amigos que os socorreram naquela crise obsessiva.
Quando, porventura, tínhamos oportunidade de nos encontrar, discretamente ela procurava me evitar, apenas se dignando de me cumprimentar em situações inevitáveis.
Nunca pude compreender, repito, inteiramente, o consórcio psíquico existente entre os médiuns e as entidades que, com maior frequência, se expressam por seu intermédio.
A rigor, eu não saberia dizer até onde era Alice que me evitava, com ressentimento que mal conseguia disfarçar, ou era o espírito obsessor que fora desmascarado por mim.
O certo é que o nosso relacionamento amistoso perdera toda a espontaneidade; inclusive Sebastião, sempre submisso à mulher, mudara o seu jeito comigo.
Ao que pude saber, o facto na residência do casal nunca mais se repetira, ou seja, aquele desequilíbrio mediúnico generalizado envolvendo pai, mãe e filho cessara por completo.
Se deles não se afastaram por completo, as entidades que os molestavam se sentiram impedidas de maior aproximação.
Em que pese o seu excessivo misticismo e pequeno conhecimento da Doutrina, Sebastião e Alice viviam na periferia, amparando os mais necessitados, visitavam os doentes nos hospitais e eram entusiastas do ideal espírita.
Com certeza, o quadro obsessivo não fora equacionado por mera intervenção nossa.
Assim, um simples injectável e uma breve internação hospitalar tivessem o poder de solucionar questões cármicas que há séculos se arrastam!
Junto às providências que tomamos, os Amigos Espirituais se mobilizaram nos bastidores, conseguindo uma trégua para o casal, que ~ disto não tenho a menor dúvida -, se não possuísse extensa folha de serviços a seu favor, teria a sua situação complicada.
Ainda debaixo daquelas reflexões que, entre um vicioso e implacável cigarro e outro, e mais outro, eu efectuava, observando as espirais de fumaça no meu consultório, recebo o recado que uma mãe em extremo desespero chamava por mim à porta do Sanatório.
Imaginando, como sempre, tratar-se de mais uma pedinte das muitas “freguesas” que procuravam por mim durante o dia, remexi nos bolsos e separei algumas cédulas de menor valor.
Quando saí para efectuar a doação, deparei-me, no entanto, com uma senhora que chorava muito e que eu nunca vira antes.
Com os cabelos desgrenhados, aquela mãe estampava no rosto o retrato da aflição.
— Dr. Inácio, por caridade!
O senhor precisa me valer...
Tenha piedade de mim!
Estou sofrendo... - disse-me entre soluços.
— Acalme-se, minha irmã - respondi, ainda não fazendo ideia do tamanho da tragédia que ela estava vivenciando.
O que foi que houve?
— O meu filho, Doutor...
O meu filho morreu ontem, à noite, e eu preciso fazer o enterro dele!
Imaginando que a questão ainda fosse dinheiro, perguntei:
A senhora já providenciou a funerária?
— Está tudo arranjado, Doutor.
O problema não é este...
Somos pobres, mas eu venderia tudo que tivesse em casa, para dar ao meu filho um enterro condigno...
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 30, 2018 12:16 pm

Pedindo a um funcionário que providenciasse um copo d’água para a pobre mulher, indaguei:
— O que houve com o seu menino, minha filha?
— O André, Doutor, o André se enforcou!...
Um rapaz forte, inteligente, de 17 anos de idade...
O senhor não avalia quanto estou sofrendo!
O meu coração está prestes a explodir...
— Mas... por que, meu Deus, ele teria feito isso?
— Por causa de namorada, Doutor.
Eles brigaram, e a moça não quis reatar o namoro...
Eu não entendo.
O meu filho estava no 2.° colegial.
Subiu numa cadeira e, com um pedaço de corda do pai, que é carroceiro, enforcou-se numa viga de madeira.
Ai, meu Deus! O meu marido está enlouquecido!...
Diante de determinadas situações de sofrimento, momentos existem nos quais nos sentimos completamente sem repertório e sem acção.
Eu não sabia o que dizer e o que fazer para consolar aquela senhora, que tinha deixado em casa o corpo inerte do filho, a fim de me procurar.
— Vocês são espíritas? questionei.
— Não, Doutor; somos católicos.
Eu frequento a igreja, vou à missa todos os domingos, o meu filho fez a primeira comunhão...
— No que, então, minha irmã, eu poderia lhe ser útil?
— Uma prece, Doutor respondeu-me com a voz entrecortada -, uma prece pelo meu filho.
Eu não quero que o André seja sepultado assim...
Venho pedir que o senhor vá à minha casa e ore pelo meu filho!
— Mas vocês são católicos!... argumentei, receando ampliar a minha área de conflito com a Igreja.
— De hoje em diante não sou mais; onde o corpo do meu filho não pode entrar, a minha alma não entra...
O padre da paróquia que frequentamos não quer orar por ele; disse-me que o suicídio é contra a Lei de Deus e que todos os que o praticam vão para o Inferno...
É verdade, Doutor?
O meu amor de mãe seria maior que o Amor de Deus?...
Avaliando a extensão do drama que eu tinha à minha frente, esclareci:
— Não, minha irmã, não é verdade.
O Inferno não existe e Deus é Pai de Infinita Misericórdia.
Quem comete o suicídio está fora de si.
O que um menino como o seu André poderia saber do que estava fazendo?
— Fale, Doutor, fale mais - pediu-me.
Quer dizer, então, que no Espiritismo existe esperança para os suicidas?
— Deus não nos criou para consentir que nos arrasássemos a nós mesmos.
É evidente que todos arcamos com as consequências das atitudes que ferem a nós e aos outros, mas ninguém está irremediavelmente condenado ao sofrimento.
— O senhor irá à minha casa, Doutor?
— Irei agora com a senhora respondi, enquanto voltava para dentro do Sanatório, com o propósito de pegar sobre a minha mesa um exemplar de “O Evangelho Segundo o Espiritismo”.
Em chegando à casa humilde, situada no mesmo bairro, observei a simplicidade com que vivia aquela família e, infelizmente, não pude evitar o pensamento:
“Se este casal fosse gente abastada, que pudesse ofertar à Igreja altas somas em doação, os padres haveriam de arranjar um sofisma qualquer, descaracterizar o suicídio do menino e abrir as suas portas para encomendar-lhe a alma...
Alguns escassos familiares e amigos, presentes no recinto, olharam-me com certa estranheza quando cheguei.
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 01, 2018 10:00 am

O pai do rapaz, que ganhava a vida em cima de uma carroça, estava debruçado sobre o corpo do filho exposto na sala de acanhadas dimensões.
Aproximei-me respeitosamente e, confesso-lhes, sentindo-me indigno de ali estar para
o que eu fora fazer, atendendo a solicitação de uma mãe em desespero, abri as páginas de “O Evangelho” e li, em voz alta, um trecho do capítulo V “Bem-aventurados os aflitos”.
Quando, em seguida, concluí a oração, notei que vários fizeram, às pressas, o sinal-da-cruz, algo confusos quanto à situação que era vivenciada por aquela família católica.
— Deus lhe pague, Doutor, Deus lhe pague! - exclamou a senhora, ante o olhar complacente do esposo, que não se erguera hora alguma de cima do corpo do filho prestes a ser sepultado.
Antes de me retirar, como de praxe em Uberaba, assinei o culto de saudade e, em nome do Sanatório, deixei pequena colaboração financeira que, na maioria das vezes, a funerária encaminhava para as obras assistenciais da Igreja.
E, sem conseguir me livrar da minha velha tendência à ironia, raciocinei:
— Dinheiro espírita para o bolso dos padres...
E rematei:
— Que eles, aliás, aceitarão de muito bom grado!...
No dia em que seria celebrada a chamada “missa de sétimo dia” de seu filho, D. Efigénia me procurou e, um tanto mais confortada, me disse:
— Doutor, eu e o meu marido, definitivamente, não iremos mais à igreja...
Depois do enterro do André, o padre esteve lá em casa, à noite.
Abrandou as suas palavras e nos falou que, talvez, houvesse esperança de que o nosso filho esteja no Purgatório...
No entanto, o que ele nos disse não nos convenceu.
Uma vez mais, venho agradecer e pedir que o senhor continue orando por nós.
— Temos orado, minha irmã redargui, admirando a fibra espiritual daquela mulher, que auxiliava o marido nas despesas de casa trabalhando como lavadeira.
— O espírito do meu filho estará bem, não é?
— Sem dúvida!
? - Eu ouvi dizer que ele poderá estar vagando no “vale dos suicidas”...
Onde ele estiver, ele jamais estará fora do Amor de Deus.
Se nós, sendo imperfeitos como somos, estendemos as mãos àqueles que caem, não podemos acreditar que as Leis Divinas assistam, com indiferença, os nossos padecimentos.
— O meu marido está querendo mudar para a roça, Doutor.
Temos o convite de um fazendeiro para trabalhar como caseiros.
Talvez nós não nos vejamos mais tão cedo...
Eu não o esquecerei.
Gostaria, no entanto, de lhe pedir uma coisa.
— Pois não, se estiver ao meu alcance respondi.
— Eu queria ganhar aquele livro que o senhor leu em nossa casa, quando fez a prece antes do enterro do meu filho!...
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 01, 2018 10:00 am

14º Capítulo - Falanges do Mal
Não podemos atribuir às trevas a autoria da nossa invigilância, isentando-nos de culpa naquilo que nos acontece de desagradável.
Sabemos que os espíritos infelizes permanecem sempre à espreita de nossas fragilidades, mas semente alguma germina em terreno que não seja propício.
Conforme dissemos noutro trecho, no Sanatório, periodicamente, sentíamos mais directamente a acção das falanges do Mal.
Entidades espirituais que, parecendo se organizar, nos assediavam, intentando comprometer o trabalho da Doutrina.
Atravessávamos, neste sentido, fases difíceis, que exigiam de nós outros maior recolhimento na oração e, sobretudo, perseverança no cumprimento do dever.
Quando, imaginando que tudo estivesse bem, descuidávamos da vigilância, os problemas
explodiam: desavenças entre os funcionários, atritos com familiares dos pacientes, inquietação dos internos...
Não poucas vezes, evitamos que um ou outro dos nossos pacientes cometesse o suicídio.
Não sabemos como possuíam lucidez, por exemplo, para planearem e colocarem em execução os planos de auto-extermínio que, mercê da Misericórdia Divina, sempre se frustravam.
A Igreja e, de resto, a sociedade de maneira geral, viviam na expectativa de que um escândalo acontecesse no Sanatório ou nos centros espíritas de Uberaba, para que ganhássemos as páginas policiais.
Certa vez, uma de nossas pacientes, parcialmente sedada, sem que ninguém percebesse, valendo-se de diminutas tiras de lençóis, cobertores e toalhas e até mesmo de barbantes, a que tivera acesso, tentou enforcar-se, dependurando-se no chuveiro...
Ainda bem que, em qualquer instituição espírita que se preze, o material de construção é todo de segunda linha, quando não de terceira.
O reboco da parede cedeu, o cano do chuveiro entortou-se e ela, nua, caiu sentada em pranto convulsivo...
Curioso que, nos dias anteriores, eu estava me indispondo com o pessoal da lavandaria, chamando-os de relapsos, devido justamente ao número de peças de cama e banho que estavam aparecendo rasgadas.
Se, nos pavilhões, um doente agredisse outro e nele provocasse qualquer hematoma, os familiares dos envolvidos em semelhante querela que quase nunca iam vê-los “coincidentemente” surgiam e nos submetiam a interrogatório nazista, chegando, veladamente, a nos ameaçar com denúncias.
De temperamento algo explosivo tanto quanto possível, eu delegava qualquer explicação ao nosso preclaro Manoel Roberto, que, além de competente Enfermeiro-Chefe, sempre se mostrava zeloso dos assuntos pertinentes à Doutrina.
De quando em quando, bilhetes anónimos nos eram endereçados com teor que aqui não nos cabe reproduzir; os mais amenos nos acusavam de promover orgias e bacanais com os internos, como se o hospital que dirigíamos fosse o mais reles prostíbulo.
Sem dúvida, as trevas não nos concediam tréguas, no entanto os seus representantes encarnados revelavam-se extremamente competentes e oportunistas.
Em nossas sessões de desobsessão, que classifico, sem nenhuma modéstia, de memoráveis, os espíritos que se opunham deliberadamente aos nossos propósitos, por vezes, induziam D. Modesta ao transe e entabulavam connosco longas conversações. Certa noite, um deles, que não se identificou, falou por quase vinte minutos, sem nos permitir o menor aparte.
— Vocês estão enganados disse-nos, com altivez.
Palavras não nos convencem...
Podemos enxergá-los em suas intenções mais ocultas.
Em nada vocês se diferenciam de nós; aliás, são até mais hipócritas lobos em pele de cordeiro...
Nós acreditamos no que fazemos e, para tanto, não temos que recorrer à fé:
o nosso próprio ideal nos basta...
Com vocês é diferente, pois que vivem evocando a intercessão de espíritos supostamente redimidos...
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 01, 2018 10:00 am

Tudo é uma deslavada mentira. Os interesses que os movem são semelhantes aos nossos.
Juntem-se a nós e desistam da santidade.
Essa Doutrina que professam é perfeita demais para vocês...
Falam em perdão, mas quem é que verdadeiramente perdoa?
Pregam o desprendimento, porém quem é que vive com desapego?
Ensinam a solidariedade; muitos, no entanto, aqui dentro mesmo, desconhecem o nome da maioria dos que se recolhem a esta casa...
O que lhes interessa é o maior número que lhes ensejará maior ganho financeiro.
Por que os pacientes que pagam são tratados com deferência, ao passo que os gratuitos são sempre os últimos os últimos na hora do banho, os últimos a serem servidos no almoço e no jantar, os últimos a serem examinados?
Não queiram ser o que vocês, positivamente, não são.
A Terra gira, isolada, no espaço...
Deus não é senão o conjunto das Leis insensíveis que sustentam a Vida.
Nada está programado: nós é que nos programamos...
Não existe saída.
Vejam o que os homens fizeram com o Evangelho:
inúmeras seitas cristãs disputando entre si a primazia da Verdade...
Para que mais engodo?
Sejamos honestos.
Vocês falarão a todos que a morte não existe, que a Reencarnação é um facto insofismável...
Neste sentido, não iremos contestá-los.
Sim, a morte não existe; e daí?...
Não encontramos Deus e nada sabemos do paradeiro de Jesus Cristo se é que, realmente, a sua figura não passa de um mito engendrado pela Religião.
Digo-lhes que quem morre não sai da Terra o nosso único habitat no Universo.
Precisamos disputar o mundo com os homens...
Nós, os que vocês chamam desencarnados, não passamos de aves que, transitoriamente, foram lançadas para fora do ninho e o nosso espaço é o espaço que vocês estão ocupando agora.
Viveríamos melhor se fôssemos mais realistas.
É a brandura que conturba e fragiliza os espíritos...
O discurso da entidade era envolvente.
Escutando-a em prece, para não consentir que o veneno do desalento se me inoculasse na alma, permiti que continuasse por mais alguns minutos, antes de intervir.
— Estamos em toda parte e não cederemos.
Formamos, onde estamos, extensas comunidades e temos procurado nos organizar, para que vocês não nos submetam.
Nós nos infiltramos com facilidade no meio de vocês e somos nós que, sob disfarce, damos presença em muitos dos templos denominados espíritas e os seus médiuns nos servem com docilidade, ao ponto de, com a maioria, fazermos o que queremos fazer.
Vejam a rivalidade e a desunião existente!...
O Cristianismo, há quase dois mil anos, fez mais e melhor no seu primeiro século do que o Espiritismo está fazendo; os cristãos primitivos eram mais sinceros que os espíritas modernos...
A vaidade e o personalismo os consomem.
A rigor, não temos tido muito trabalho.
Se interesses materiais não existissem por detrás das religiões, de há muito os homens teriam abandonado o Evangelho...
Interrompendo a fala inflamada do comunicante, um dos vários que, de tempos em tempos, nos visitava como que para nos testar a fé, argumentei:
— Meu irmão, você tem razão em boa parte da sua palavra e até precisamos agradecer o seu alerta.
Compreendemos que você não nos odeia.
As suas colocações são de cunho filosófico e, apenas neste sentido, nos cabe contestá-las e nos cabe contestá-las, pelo simples facto de que pensamos diferente.
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 01, 2018 10:00 am

Onde estão as provas de que o que você nos diz é a expressão da verdade?
Se não estamos à altura de responder a todos os seus questionamentos, reparamos que as suas dúvidas concernentes à existência não são menos numerosas e complexas.
Ousaríamos dizer, no entanto, que contamos com a lógica e com o bom senso a nosso favor.
Algo, dentro de mim e de você, nos diz que o Bem é a Lei Natural da Vida...
A sensação de paz que experimentamos quando agimos positivamente contrasta com a aflição que nos domina quando agimos contrariando os alvitres da consciência.
Instintivamente, procuramos a luz...
Não há quem se compraza no bem. Por mais egocêntricos sejamos, há sempre alguém por quem seríamos capazes de renunciar à própria felicidade.
Ninguém vive sozinho e ninguém se basta inteiramente.
Você nos cobra, e com razão, maior coerência entre o que cremos e o que fazemos...
Consideremos, no entanto, que a Doutrina Espírita é muita luz de uma vez só para os nossos olhos habituados à escuridão.
Somos ainda excessivamente frágeis para o modelo de vida a que o Senhor nos exorta.
Não estamos, porém, paralisados.
A cada dia, nos tem sido dado avançar um pouco mais e tomar consciência da distância que nos separa do ponto que nos compete alcançar.
Todo trabalho íntimo é moroso.
A própria Criação Divina não é uma obra acabada!
Una-se a nós.
Outrora, pensávamos como vocês; compreendemos, porém, que é inútil nos opormos ao curso natural das coisas...
— Você é um bom jogador - interrompeu a entidade, sem ânimo para contestar-me.
Você blefa, sabe?
Venho lhe falar de um assunto concreto e você teoriza.
— Todos somos livres, não é? - retruquei, sem o propósito de provocar.
Você nos falou o que quis, comportou-se com moderação...
Estamos, meu irmão, esgrimindo no mundo das ideias.
Você aventa a hipótese do Cristo não ter existido...
Vestígios de sua presença física na Terra nos dariam uma maior convicção a respeito de sua passagem entre nós do que o seu Pensamento Vivo, exarado nas páginas do “Novo Testamento”?
Qualquer cadáver de homem que tenha vivido há muitos séculos poderia ser ou não ser o dele, concorda?
Agora, a quem atribuir a autoria dos ensinamentos que dividiram a História e construíram, no Oriente e no Ocidente, o que de melhor possuímos na civilização?
O Cristo é grande demais para que possamos personificá-lo...
A existência dele entre nós transcende a nossa compreensão.
O comunicante não quis mais ouvir.
Com um “até breve”, deixou o recinto da nossa reunião mediúnica mergulhado em profundo silêncio.
Sinceramente, eu não saberia dizer de onde me provinha a argumentação para o diálogo com as diversas entidades que, praticamente a minha existência inteira, tentavam me baquear a fé.
O certo é que, se buscavam me desanimar, de cada embate daquele eu me retirava espiritualmente mais fortalecido e disposto a continuar.
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 01, 2018 10:01 am

15º Capítulo - A Presença do Irmão José
Para a nossa alegria, novamente a presença do Irmão José se fez, ao término da nossa reunião.
O venerável Benfeitor, controlando as faculdades mediúnicas de D. Modesta, discorreu, como de hábito, destacando a excelência dos ensinamentos de Jesus, detendo-se no enfoque do capítulo VI, versículo 43, das anotações de Lucas:
“A árvore que produz maus frutos não é boa e a árvore que produz bons frutos não é má...”
A abordagem viera a propósito da comunicação da entidade com a qual mantivéramos, anteriormente, longo diálogo, em nossa costumeira sessão mediúnica de toda quarta-feira.
“Meus irmãos disse-nos -, atentemos para a lúcida palavra do Senhor, que, como ninguém, nos conhece em nossas mais íntimas intenções.
“A árvore que produz maus frutos não é boa, mas também não é inteiramente má, ou seja, o homem não estará irremediavelmente condenado pelas acções infelizes que pratique...
A redenção espiritual é apanágio de todos.
Não há quem se coloque fora do Plano Divino de aperfeiçoamento para todos os seres.
Na sequência, o Mestre nos ensina que “a árvore que produz bons frutos não é má”...
Evidentemente que não.
Todavia, porque igualmente não a considera completamente boa, já que se revela capaz de produzir bons frutos?
O problema é que, se a bondade é um estado natural nas criaturas, ainda não o é de forma definitiva.
Assim como o homem transitoriamente bom é capaz de atitudes insensatas, o homem temporariamente mau é capaz de gestos de elevação e nobreza.
Entre quedas e ascensões no mundo de nós mesmos é que, aos poucos, nos levantamos para Deus.
A rigor, no actual estágio evolutivo em que nos encontramos a linha divisória que separa o homem delinquente do virtuoso, é ténue e frágil.
Muitos de nós, infelizmente, transitamos de uma condição para outra com extrema facilidade.
Num átimo, Paulo de Tarso saiu da posição de algoz para a de mártir do Cristianismo; Judas Iscariotes empreendeu movimento contrário: de apóstolo do Senhor, passou à História na condição do invigilante companheiro que o traiu...
Evitemos, portanto, efectuar qualquer julgamento sobre a conduta alheia. Nem sempre a árvore frutífera consegue reprisar no pomar a mesma produção de frutos nem na quantidade nem na qualidade...
Até que o Bem seja em nós um estado de espírito invariável, com certeza, experimentaremos várias recaídas no Mal.
O fortalecimento da vontade é gradativo.
A repetição da experiência positiva é que a estratificará em nossos espíritos.
Neste sentido, embora tenhamos o dever de fugir à queda, consideremos que, sem os reveses do cotidiano, através das vidas sucessivas, não adquiriremos justa noção de equilíbrio.
O equívoco deliberado gera o remorso, e o remorso cria em nós mecanismos de defesa contra o erro.
Somente com o sábio concurso do tempo é que nos convenceremos da excelência da virtude, opondo-nos, decididamente, à influência dos vícios.
Se raros já se encontram domiciliados nas regiões da luz e muitos estagiam nos campos da sombra, a esmagadora maioria, indecisa, simbolicamente estagia nas dimensões da penumbra...
Dentro de nós mesmos, ora emerge o santo, ora desponta o pecador.
Infelizmente, as circunstâncias externas é que nos fazem ser o que, intrinsecamente; não somos...
Efectuando ligeira pausa para que absorvêssemos aquele caudal de precioso esclarecimento, o qual eu me esforçava, ao máximo, para fixar na memória, o Irmão José prosseguiu:
— O interesse se conflitua com o desinteresse; o desejo se contrapõe à renúncia...
Ter é a melhor forma de não possuir.
Quanto mais se entrega, mais o homem se pertence...
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 01, 2018 10:01 am

Tudo quanto carecemos de reivindicar não é nosso.
Quem reclama excessivamente não atende com generosidade.
O egoísmo é a negação de Deus.
A Criação Divina é um acto de Suprema Solidariedade.
Quem não estende a mão não encontra distâncias, porquanto não logra sair da órbita de si mesmo.
O que aparenta não é.
A essência das coisas somente pode ser alcançada por aqueles que se preocupam com o essencial.
Enquanto o homem não se despojar, ele não se sentirá pleno.
Reflictamos novamente:
“A árvore que produz maus frutos não é boa e a árvore que produz bons frutos não é má...”
Não reparamos nas palavras de Jesus qualquer espécie de reprimenda à árvore que produz maus frutos e nem de louvor à que produz bons frutos...
Cada uma delas se revela no estágio que lhe diz respeito uma não é boa ainda e outra não é má de todo, mas ambas estão fadadas ao Supremo Bem, de onde, originariamente, procedem.
O espírito só se purificará completamente quando mergulhar no Oceano Divino...
A fonte nasce cristalina, polui-se em seu percurso, todavia, quando, após longo trajecto, se precipita no mar, retorna à sua primitiva pureza.
A água salgada como que se decanta de todas as impurezas remanescentes...
Estamos em Deus, mas ainda não somos com Deus.
Falta-nos conscientização permanente, estabilidade emocional e directriz psicológica.
O espírito, em certas incursões no corpo físico, avança significativamente; em outras, porém, permanece estacionado, sem maior aproveitamento da ensancha reencarnatória.
Nem o cérebro humano se encontra presentemente apto para que o espírito logre maior êxito em suas experiências na carne espírito e matéria travam milenar combate entre si; a matéria reclama o espírito e este, por sua vez, se debate em seus tentáculos, ansiando por libertação...
Não somos, evidentemente, apologistas da Teoria dos Anjos Decaídos, porquanto não há quem verdadeiramente se precipite das cumeadas da Evolução.
Quem cai simplesmente se expõe em sua oculta fragilidade.
Cremos não ser, de nossa parte, afirmação temerária dizer que o defensor da vida humana numa existência, noutra, se se descuidar de seu ideal, poderá se transfigurar no agente de sua destruição.
Uma multidão, anónima e desconhecida, vive de nós...
Devido ao adiantado da hora, o Instrutor, que sempre se dignava nos visitar, sintetizou:
— Irmãos, silenciemos diante das fraquezas alheias e permaneçamos sempre na expectativa do melhor.
Assim como brilha o ouro no cascalho e a semente floresce no monturo, a criatura humana haverá de ressurgir de si mesma.
Um dia, perguntaram a um escultor que, incansável, trabalhava sobre um bloco de mármore:
— “Qual o motivo do seu martelar sobre esse bloco de pedra disforme?
O artista, sem desviar a atenção dos golpes do cinzel com que talhava a rocha, respondeu:
— Necessito libertar o anjo que está preso dentro dela...”
Nas mãos do Artífice Divino, o Tempo é o martelo e a Dor é a precisão do golpe com que Ele nos embeleza a forma.
Que o Senhor nos abençoe e proteja, agora e sempre!...
A voz do Benfeitor silenciara no salão e tive a nítida impressão de que, então, a penumbra no ambiente se fizera mais densa; foi como se uma luz gradativamente acesa de súbito se apagasse...
Uma enorme e indefinível sensação de vazio se me apossou da alma.
Eu vararia a noite escutando o Irmão José, no entanto a realidade era outra.
Estrelas luziam no firmamento, mas a noite, de fato, era o império das trevas...
O máximo que poderíamos fazer era não deixar de olhar para cima!...
Lentamente, D. Modesta se refez e, por alguns minutos, não houve no recinto quem ousasse romper o silêncio.
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 01, 2018 10:01 am

Verificando, todavia, que ninguém se manifestava, convidei:
— Vamos tomar um café quente...
Enquanto, pois, D. Modesta e Manoel Roberto providenciavam xícaras e canecas, remexi as sobras do jantar, preparando a refeição nocturna para os meus gatos, que, miando à minha volta, me traziam de volta ao mundo com as suas aflições e os seus ais.
Chegando a casa, com receio de perder a substância das palavras do Irmão José naquela noite inesquecível, rascunhei um resumo do teor de sua prelecção, lamentando a ausência das comodidades tecnológicas que hoje facilitam a vida humana na Terra.
No outro dia, entretanto, no anseio de maior fidelidade possível à comunicação que nos fora transmitida na véspera, entrei em contacto com a médium para que ela me auxiliasse a lembrar o que permanecera nos arquivos da mente.
— Inácio disse-me ela não me recordo, com riqueza de detalhes, da alocução proferida pelo nosso Benfeitor, mas algo ficou, sim, retido em minha memória mediúnica...
O médium também escuta e, de certa forma, também grava o que o espírito comunicante está dizendo pela sua boca.
D. Modesta, ao contrário de muitos medianeiros que eu conhecia, não tinha receio algum de ser transparente.
Os diálogos que eu mantinha com ela em torno da mediunidade eram sempre proveitosos.
Entre nós existia mútua confiança; ela sabia do meu amor à Doutrina e eu conhecia o seu idealismo à Causa que nos era comum.
As outras pendências, tão próprias de tantos espíritas da actualidade, permaneciam de lado. Onde existe sinceridade de propósitos, os motivos não são questionados.
Na realidade, a dúvida quanto à autenticidade da fenomenologia mediúnica é mais concernente à incerteza que as pessoas têm a respeito de suas intenções do que propriamente à existência do Mundo Espiritual e à possibilidade do intercâmbio entre os vivos e os mortos.
Com a prática, fui aprendendo -, creiam, até hoje não passo, a semelhante respeito, de mero aprendiz que os desencarnados se prevalecem dos medianeiros como instrumentos, independente de suas convicções pessoais, ou seja, por diversos médiuns que vacilavam e vacilam quanto à sua condição mediúnica, a Espiritualidade se faz presente, e eu, que de idiota sempre só tive a cara, aguçava os ouvidos e percepções outras, para não deixar escapar nada do que, por vezes, fortuitamente, me chegava do Além.
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 01, 2018 10:01 am

16º Capítulo - Provação e Descrença
Aquela senhora, aflita, viera me procurar por recomendação de um amigo que lera os meus livros.
Era de Feira de Santana, Estado da Bahia.
Acompanhada do esposo, rico fazendeiro da região, fora até à minha casa. para uma consulta.
Convém esclarecer que, ao longo de minha vida de médico, tratei dos mais diversos e estranhos pacientes portadores de enfermidades psicológicas e espirituais.
De modo que digo-lhes com sinceridade nada mais me causava estranheza.
Já tive oportunidade de dizer, alhures, que o meu consultório mais se assemelhava a um confessionário do que propriamente a um posto médico.
Não é sem razão que, no passado, os sacerdotes eram médicos, e vice-versa.
A arte de curar não se distanciou da arte de crer!
Sem fé, nem o médico, nem o paciente logram o êxito necessário.
Encurtando divagações, descrevo-lhes, socorrendo-me da memória que, em mim, nunca foi muito lá essas coisas, principalmente para nomes e datas, o diálogo que mantivemos.
Espírito prático, eu me habituara a reter apenas o indispensável, anotando em pequenos pedaços de papel o que não me convinha esquecer.
— Doutor disse-me ela -, sou espírita há mais de trinta anos; antes de mim, a minha avó era adepta da Doutrina...
Não frequento centro espírita algum com regularidade, mas sou médium.
Realizo todas as semanas o Culto do Evangelho em minha casa.
Estou aqui, Doutor, porque estou descrente...
O meu filho foi assassinado há quase um ano um rapaz bom, honesto e trabalhador.
Numa discussão com o seu sócio, levou um tiro no coração...
Estou desesperada.
Onde os Espíritos Amigos, que não me valeram?
Eu vivia orando por ele...
— Neste mundo, minha irmã argumentei, comovido com o drama daquela mãe todos estamos sujeitos à força do carma; sendo espírita, a senhora não ignora isto...
Não somos diferentes de ninguém.
Não estamos no Espiritismo por mérito, mas por necessidade...
Para nós, conhecer a Doutrina significa, não raro, receber o remédio antes da dor...
— Doutor, isto tudo eu sei...
Tenho, no meu Estado, conversado com muitos companheiros de ideal.
É fácil dizer que foi o carma que se cumpriu; é como costumamos dar o assunto por encerrado, não é?
Mas e as minhas orações de mãe, não foram ouvidas?
— Nenhuma prece de mãe pelo filho é ignorada pelas Leis que nos presidem o destino.
É natural a sua amargura, mas não a sua revolta.
Cada espírito renasce com a sua trajectória terrestre mais ou menos definida...
— Mas o Espiritismo nos ensina que podemos mudá-la...
— Nós podemos, minha irmã, não os outros.
— O meu filho era bom...
— Nem Jesus Cristo aceitou ser chamado de bom...
Acredito nas virtudes dele, mesmo porque um jovem não teria muito tempo para complicar-se na existência.
Quanto mais se vive, por vezes, mais se erra...
A conversa prosseguia em tom ameno, embora, interrogando-me daquela maneira, eu me sentisse a própria Doutrina sentada no banco dos réus...
A sofredora mãe me inquiria como se estivesse inquirindo a Deus, sem desconfiar que, em minha condição humana, eu, em incontáveis ocasiões, igualmente vacilava.
Coisa curiosa! Quando me encontrava mais debilitado espiritualmente é que me apareciam aqueles desafios, que me obrigavam a encontrar forças dentro de mim para superá-los.
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 01, 2018 10:01 am

— Doutor continuava a paciente devolva-me a fé...
Eu já não acredito em mais nada.
Estou começando a desconfiar que nem médium eu nunca fui; que tudo é invenção da minha mente...
Sei que o meu menino tinha temperamento explosivo. Nisto, ele puxou a mim, mas era incapaz de fazer mal a quem quer que fosse...
Devolva-me a fé, Doutor!...
— Se eu tivesse esse dom, minha irmã respondi -, haveria de sair pelo mundo...
O nosso problema é que nos consideramos em situação de privilégio, e as nossas reacções, quando sofremos, desmentem o que falamos quando tudo está bem connosco.
Não somos diferentes de ninguém.
Estamos transitoriamente bons, mas ainda não somos definitivamente bons...
O passado não fica esquecido; quando surge a oportunidade, ele nos chama a inevitável ajuste de contas...
— Ele era tão jovem; ia completar trinta anos no próximo mês...
Deixou a esposa, viúva, com dois filhos pequenos...
— O que vale um corpo perecível, diante da Eternidade? - indaguei, observando que, naquele instante, eu nada mais possuía além de palavras para oferecer a ela e, mais que ao coração, eu precisava lhe falar à razão.
No curto lapso de uma existência física, um simples acidente de percurso é capaz de mudar o rumo de uma vida.
Às vezes, perder o corpo em circunstâncias trágicas pode modificar a trajectória que o espírito vem cumprindo há séculos...
É provável, minha irmã acrescentei que, no Mundo Espiritual, aquele que foi seu filho na Terra esteja se submetendo agora a novas reflexões...
Nada acontece por acaso.
— Não existe, Doutor, um remédio que eu possa tomar, um remédio que me arranque esta angústia do peito?
Eu estou brigada com Deus; não sinto mais o menor ânimo para orar...
A morte do meu filho está me acabando.
— A senhora, desculpe-me, o está sobrecarregando...
— Como assim?!
— Responsabilizando-o pela sua apatia.
Imagine como, no Além, ele deverá estar se sentindo, ao percebê-la tão descrente assim...
Quando responsabilizamos os vivos pelos limites que não ousamos transpor, responsabilizamos os mortos.
Verificando o efeito que, aos poucos, os meus argumentos iam tendo sobre ela, continuei:
— Se a senhora começar a se igualar a qualquer mãe de qualquer filho e admitir, mas admitir com sinceridade, que o seu menino, antes de ser seu, é património de Deus, a senhora não verá nada de injusto ou de antinatural no que lhe aconteceu. O seu filho foi assassinado?
Melhor do que se tivesse sido ele o assassino...
Ele partiu tão jovem e tão amado?
Melhor do que se tivesse partido mais tarde, deixando sentimentos de indiferença na retaguarda...
Quando sofremos sem revolta, minha irmã, o próprio sofrimento parece compadecer-se de nós e nos reabilita, ou seja, na resignação que a dor nos provoca, encontramos meios de anulá-la.
— A Verdade esclarece, mas não consola... sentenciou, cabisbaixa.
— O consolo vem da fé - redargui.
A fonte nos desliza rente aos pés, mas, para saciarmos a sede, carecemos de nos abaixar.
Deus nos solicita o menor esforço; no entanto, queremos que Ele tudo faça sozinho.
Existe um provérbio, não sei de quem a autoria, que diz mais ou menos assim:
“Que a brisa sempre esteja às suas costas e que o Sol lhe resplandeça no rosto”.
Para que o Sol nos brilhe nas faces, carecemos de caminhar na direcção da luz, impulsionados pelo vento das circunstâncias.
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 01, 2018 10:02 am

Lágrimas deslizaram, silenciosas, dos olhos daquela senhora que viera de tão longe.
Antecipando-me ao seu gesto de procurar um lenço na bolsa, ofereci a ela alguns lenços de papel que eu sempre mantinha a postos para aquelas ocasiões constrangedoras.
— Perdoe-me, Doutor disse, tentando se conter.
É a primeira vez que choro em muitos meses; eu sequer quis que Deus tivesse as minhas lágrimas!...
Feriu-me com indiferença; procurei reagir à altura.
O senhor é pai, Doutor? - questionou-me.
— Não, minha irmã, não tive este mérito.
Gostaria de tê-lo sido...
— Nem que fosse para passar pelo que eu estou passando?...
— Se essa fosse a Vontade de Deus respondi, tentando avaliar a extensão da dor tangibilizada à minha frente.
Veja a senhora prossegui sou médico, lido com muitos pacientes, cada qual, do ponto de vista psicológico, um universo diferente, e, como pode observar por esta biblioteca que nos rodeia, leio ou tenho procurado ler muito, tendo acesso a outras formas de pensar, todavia a experiência que a senhora está vivenciando na condição de mãe é única...
Nesta existência, eu nunca poderei conhecer a alegria de ter sido pai ou a tristeza de ter perdido um filho ambas, acredito, experiências sumamente enriquecedoras.
Eu sou estéril, senhora emendei, sem pejo.
A Vida me negou o que concede até aos meus gatos...
— O senhor me desculpe a indiscrição...
— Tenho revelações de que, no pretérito, vivi de maneira devassa; devo ter deixado muito filho no mundo sem pai e abusei do sentimento alheio...
Não sei quando recuperarei o privilégio de ter um descendente meu, alguém a quem o meu corpo possa ter dado corpo.
— As suas palavras me auxiliaram; estou me sentindo um tanto mais aliviada...
— De fato, minha irmã, a Verdade não consola, mas nos ajuda a pensar...
A questão é que todos somos péssimos em efectuar cálculos; sabemos somar as desventuras, mas não as bênçãos.
Um simples acontecimento funesto é o bastante para zerar as infinitas alegrias com que temos sido aquinhoados pela Bondade Divina.
Chamando o esposo que ela própria pedira que a aguardasse no hall de entrada de minha residência, pediu à ele que preenchesse um cheque com o valor da consulta.
— Não, não é necessário - reagi.
Isto não foi propriamente uma consulta.
— Mas tomei tempo do senhor...
— Não. A senhora cooperou comigo.
— De que maneira?!...
Respondendo com uma evasiva, desconversei e, à saída, ainda ofereci ao casal um exemplar do meu livro “Tem Razão?”
— Deus lhe recompense, Doutor.
A minha viagem não foi em vão. Jamais esquecerei o que o senhor me disse.
Quando ambos se retiraram, recostei-me na poltrona giratória e acendi um enganoso cigarro, procurando descansar o pensamento.
Eu tentara dar àquela mãe sofredora o que, multas vezes, não possuía nem para o meu próprio consumo, ou seja fé!
Naquela entrevista com o sofrimento alheio, eu fora obrigado a me superar.
Sim, o maior beneficiado havia sido eu mesmo.
Os meus argumentos no diálogo, que nem sei onde fora buscá-los, prosseguiam me ressoando na alma e me fazendo enorme bem.
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